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LISBOA, C; EBERT, G.

Violência na Escola: reflexão sobre as causas e propostas de


ações preventivas focais. In: HABIGZANG, L F ; KOLLER, S H (ORG.) Violência contra
crianças e adolescentes – teoria, pesquisa e prática. Porto Alegre. ARTMED. 2012. 190-203.

No Brasil as reclamações frente às instituições de ensino se tornaram cada vez


mais frequentes. Em escolas publicas a baixa qualidade de ensino e a insatisfação dos
professores são os pontos autos, nas particulares o oferecimento do processo ensino-
aprendizado como um produto passível de compra e reclamação se confunde com a lógica
capitalista. Mas a crescente violência das escolas é algo em comum em escolas publicas e
privadas. O processo de educação é fundamental na manutenção de grupos humanos,
passando aos jovens regras e normas da sociedade, e por isso a interação entre alunos e
professores, e o movimento dinâmico de aprender, educar e socializar é fundamental
nesse período.

A escola é uma ponte de entrada da família para a sociedade, mas alguns fatores de
risco podem dificultar esse desenvolvimento e interações interpessoais como é o caso da
violência escolar. A característica central para se definir um ato violento é a intenção de
machucar e/ou ofender o outro de forma voluntária e intencional. Estimulações aversivas
e atitudes antissociais em adultos podem estimular crianças e jovens a ter um aumento da
agressividade. As repressões inadequadas dos professores frente aos alunos podem causar
maior agressão gerando um ciclo vicioso de agressão entre aluno e professor. Apesar dos
casos de violência em escola privada serem abafados, 92% dos professores nestas
instituições sofreram ou presenciaram violência nesse ambiente.

Estudos realizados com professores de escolas públicas apontam que as situações


mais frequentes são as depredações, furtos ou roubos que atingem o patrimônio,
agressões físicas entre alunos e agressões dos alunos contra os professores e medidas
punitivas não mudaram o cenário. Relaciona-se indiretamente esse cenário ao uso de
drogas, desestabilização familiar, desemprego, individualismo exacerbado e uma
constante falta de solidariedade ou senso de coletivismo.

Falta capacitação aos professores e orientação para administrar problemas de


ordem socioemocional dos alunos, uma melhoria desse quadro só seria possível a partir de
modelos saudáveis que influenciem comportamentos e cognições de alunos e professores.
A violência escolar pode estar imbricada no macrossistema que se manifestam na
sociedade, como trânsito, assaltos, trabalho infantil, entre outros, que podem impactar
direta e indiretamente no microssistema escolar.

A violência física é a que chama mais atenção por ter consequências imediatas.
Crianças agredidas se não estimuladas em outros contextos de interação podem vir a
apresentar agressões. Já a violência psicológica está presente em diversos contextos e
viola os direitos humanos negando os valores como vida, liberdade e segurança. Esse tipo
de violência se mostra comumente na violência sexual e doméstica.

Os professores são violentados, mesmo que de forma não intencional, o que


atrapalha a condução das atividades, e junto a isso existe a desvalorização deste papel
frente à sociedade provocando uma vulnerabilidade emocional. Existem também os
professores violentos que agridem seus alunos verbalmente, ou assumindo práticas
coercitivas. Todas as formas de violência geram consequências biopsicossociais para
alunos, professores e sociedade em geral. É necessários estudos para se compreender as
diferentes manifestações de violência na escola para e elaboração de programas
preventivos.

O bullying é um dos primeiros tópicos que surge quando o assunto é violência


escolar. Ele é caracterizado por sua forma repetitiva e sistemática e a sua intencionalidade
de prejudicar alguém que parece ser mais vulnerável e não consegue se defender. A
violência escolar em nosso país pode ser entendida tanto como decorrente de situações de
violência social como por resultado de ações agressivas individuais, decorrentes, por
exemplo, da adaptação de jovens que passam por transições ecológicas (processo gradual
e multilinear de mudança, que ocorre através do tempo).

A soma dos aspectos do trabalho dos professores podem representar riscos e ser
um indicativo de percepção de clima escolar negativo e vulnerável. Os professores hoje
recebem um excesso de funções e demandas que primeiramente não estão preparados
para recebê-las e estão sendo cobrados para resolver esse problemas da escola, entre eles
a violência. Ao ignorar aspectos dos alunos eles participam involuntariamente na violência
escolar, pois a dinâmica relacional entre professor e aluno é a grande responsável pelo
processo de educação saudável e positivo. Uma escola que tem o clima positivo fomenta o
processo de resiliência e cumpre sua função protetiva.

A comunicação aberta entre alunos e professores proporciona afetos positivos


gerando maior engajamento e produtividade. Interações que não privilegiem as
competências e reconheça as potencialidades, não promova autonomia e o senso de
pertencimento, geram um ambiente ansioso e agressivo. Fatores de proteção de um clima
escolar são: ambiente físico apropriado, comunicação respeitosa, atividades variadas,
entretenimento, comunicação adequada e valorização mútua.

As intervenções podem ser no ambiente e individualmente. As do ambiente é


tornam o ambiente mais seguro e deixar claras as regras quanto a não violência, amas é
preciso focar em aspectos individuais melhorando seus aspectos de sociabilidade.
Poderiam existir programas curriculares para tratar sobre a violência, com técnicas de
aprimoramento do comportamento social e estratégias saudáveis de enfretamento de
problemas sociais. É importante não banalizar esses comportamentos agressivos pois isso
pode reforçar esses comportamentos.

Um modelo que poderia ser seguido para prevenção é o modelo de saúde pública
que define o problema, identifica os fatores de risco e proteção, desenvolver estratégias
focais e selecionar intervenções efetivas. No Rio Grande do Sul foram aprovados
recentemente projetos para combater o bullying tendo projetos pedagógicos nas escolas e
que as ocorrências sejam documentadas. Em suma é preciso fazer um conjunto de ações
para se ter resultados efetivos e não focalizar em resultados rápidos, pois percebeu-se que
não surtem efeitos a longo prazo. É necessário mudar a cultura escolar de violência pouco
a pouco e preparar os educadores para tais mudanças e para lidar com essa demanda.