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NEOLIBERALISMO E DIREITOS HUMANOS*

Antônio José Avelãs Nunes


Professor Catedrático da Faculdade de Direito de
Coimbra, Portugal

Resumo:
O trabalho tem como escopo a análise das relações entre neoliberalismo e Direitos
Humanos, leitura da política neoliberal e compatibilidade com o processo
democrático.

Abstract:
This work has the aim to analyse the relationship between Neoliberalism and the
Human Rights, a reading of the liberal politic and the compatibility with the
democratic process.

Unitermos: Neoliberalismo; Direitos Humanos; Democracia; crítica keynesiano.

1. Vem sendo cada vez mais freqüente, nos vários domínios das ciências
sociais, a análise das relações entre neoliberalismo e direitos humanos. Trata-se, ao
fim e ao cabo, de tentar compreender e m que medida são compatíveis, à luz do nosso
tempo, as políticas neoliberais e a democracia. Questão central, se tivermos presente
que o neoliberalismo é o núcleo da matriz ideológica da política de globalização que
v e m marcando a actual fase do capitalismo à escala mundial.
Procurarei esclarecer o contexto do debate entre monetaristas e (neo)-
keynesianos ae tão relevante nas últimas décadas se e, neste âmbito, analisar as posições
dos neoliberais de vários matizes relativamente ao problema d o emprego e do
desemprego, para realçar c o m o delas decorrem posições que p õ e m e m causa direitos
fundamentais tão importantes c o m o os relacionados c o m a liberdade sindical e os
abrangidos na estrutura do Estado-providência e que trazem no seu bojo propostas
tendencialmente totalitárias.

(*) O autor é professor catedrático em Coimbra, Portugal, e é convidado


especial, neste fascículo, pelo eminente professor doutor Fábio Konder Comparato,
Titular de Filosofia e Teoria Geral do Direito da Faculdade de Direito da Universidade
de São Paulo.
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2. A Grande Depressão veio deitar por terra os mitos liberais e pôr às


claras as limitações da política monetária. O s mais optimistas passaram a defender que
a política monetária poderia talvez suster a inflação, mas não poderia parar a depressão.
É o que se costuma exprimir através do aforismo "you can lead a horse to water but
you can not make it to drink"
Keynes mostrou que a Grande Depressão não poderia explicar-se e m
termos monetários, defendendo que são as forças reais da economia (os planos do
governo, dos empresários e dos consumidores), e não a oferta de moeda, os factores
determinantes do comportamento do nível dos preços. A crise só podia entender-se
c o m o o reflexo de u m colapso no investimento privado e/ou de u m a situação de escassez
de oportunidades de investimento e/ou de u m excessivo espírito de economia por parte
do público, o que legitimava a sua conclusão de que a política monetária era inadequada
para contrariar a depressão.
A rejeição da lei de Say e do mito do pleno emprego constituem pontos
fulcrais da obra de Keynes e encerram o núcleo central da crítica keynesiana dos
economistas "clássicos" Defendendo que nas economias capitalistas a circulação se
faz segundo o modelo marxista D - M - D ' , Keynes sustenta que as situações de equilíbrio
c o m desemprego involuntário são situações inerentes às economias que funcionam
segundo a lógica do lucro e não segundo a lógica da satisfação das necessidades.
Para explicar as situações de desemprego involuntário — que considera
o problema mais grave das economias capitalistas -— Keynes lança m ã o do conceito
de procura efectivá, o montante das despesas que se espera a comunidade faça x por
ter capacidade para as pagar ae e m consumo e e m investimento novo. Se esta procura
efectivá não for suficiente para absorver, a u m preço compensador, toda a produção,
haverá desemprego de recursos produtivos. Desemprego involuntário, no sentido de
que há pessoas sem emprego desejosas de trabalhar por u m salário real inferior ao
praticado. Isto significa que, ao contrário do que defendiam os "clássicos" o nível de
emprego não depende do jogo da oferta e da procura no mercado de trabalho, antes é
determinado por u m factor exterior ao mercado de trabalho, a procura efectivá. E
significa também que é o volume do emprego que determina, de m o d o exclusivo, o
nível dos salários reais, e não o contrário.

3. A necessidade de ultrapassar as situações de insuficiência da procura


efectivá para combater o desemprego exigia, na óptica de Keynes, u m a intervenção
mais ampla e mais coordenada do Estado. Afiscalpolicy (baseada no controlo das
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receitas e das despesas do Estado) foi considerada c o m o o instrumento fundamental


para estabilizar as flutuações da economia, para promover o crescimento econômico e
para prosseguir os objectivos do pleno emprego, da estabilidade dos preços e do
equilíbrio da balança de pagamentos, a par da redistribuição do rendimento e m benefício
dos mais pobres (i.é, e m sentido favorável à propensão ao consumo, e, portanto, ao
aumento da procura efectivá), objectivos que os governos passaram a assumir na
seqüência da "revolução keynesiana'
Defendendo que a compreensão das economias capitalistas não se confina
ao estudo do 'comportamento racional' de u m imaginário homo oeconomicus, antes
exige a análise das instituições sociais e políticas, enquanto expressão das forças
econômicas e m presença, Keynes sublinhou a importância do Estado e a necessidade
do alargamento das suas funções para salvar da "completa destruição as instituições
econômicas actuais" E como as crises e os seus efeitos perniciosos se fazem sentir a
curto prazo, Keynes veio defender que a política econômica tem que adoptar u m a
perspectiva de curto prazo: "in the long run we are ali dead", c o m o escrevia e m 1923.
Desde a famosa conferência de 1924 sobre The End of Laissez-faire1
que Keynes advogou a necessidade de u m a certa coordenação pelo Estado do aforro e
do investimento de toda a comunidade.
Por duas razões fundamentais: e m primeiro lugar, porque as questões
relacionadas com a distribuição do aforro pelos canais nacionais mais produtivos "não
devem ser deixadas inteiramente à mercê de juízos privados e dos lucros privados";
e m segundo lugar, porque "não se pode sem inconvenientes abandonar à iniciativa
privada o cuidado de regular o fluxo corrente do investimento"
Daí a necessidade de "uma acção inteligentemente coordenada" para
assegurar a utilização mais correcta do aforro nacional, a necessidade de "uma ampla
expansão das funções tradicionais do Estado ", a necessidade da "existência de órgãos
centrais de direcção" e de u m a certa socialização do investimento, nota fundamental
do pensamento keynesiano tal como resulta da General Theory2
C o m base nos ensinamentos de Keynes, a Curva de Phillips funcionou,
atéfinalda década de 1960, c o m o u m " menu for policy choice ": se se queria combater
o desemprego e promover o emprego, bastava aceitar u m pouco mais de inflação; se se
queria travar a inflação, havia que aceitar u m pouco mais de desemprego.

1. Cfr. J. K E Y N E S , [2], 291/292.


2. Cfr. Notas Finais com que encerra a General Theory, em J. K E Y N E S , [3], 379. Cfr. também A. J.
A V E L Ã S N U N E S , [1], 81/82.
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Sobretudo na Europa, esta política assegurou, durante os trinta anos


gloriosos (1945-1975), u m b o m ritmo de crescimento econômico sem oscilações
significativas da actividade econômica, c o m baixas taxas de desemprego e taxas
aceitáveis de inflação. Alguns chegaram m e s m o a falar de "obsolescência dos ciclos
econômicos" (Arthur Okun). 3

4. No início da década de 1970, porém, começaram a verificar-se


situações caracterizadas por u m ritmo acentuado de subida dos preços (inflação
crescente), a par de (e apesar de) u m a taxa de desemprego relativamente elevada e
crescente e de taxas decrescentes (por vezes nulas) de crescimento do P N B . Começava
a era da estagflação.
E m agosto de 1971, os E U A romperam unilateralmente o compromisso
assumido e m Bretton Woods de garantir a conversão do dólar e m ouro à paridade de
35 dólares por onça troy de ouro. Daqui resultou a adopção do sistema de câmbios
flutuantes (uma velha reivindicação dos monetaristas), primeiro entre os E U A e os
seus parceiros comerciais, e logo de imediato aplicado e m todo o mundo. Esta
circunstância marcou u m ponto de viragem a favor das correntes neoliberais. Pode
dizer-se que começa então, na prática, a "ascensão do monetarismo" a "contra-
revolução monetarista "4
O s neoliberais souberam aproveitar o desnorte dos keynesianos,
surpreendidos com o "paradoxo da estagflação" (J. Stein), confusos perante o "dilema
da estagflação" (Samuelson). Hayek veio proclamar que a inflação é o caminho para o
desemprego ("The Path to Unemployment" é o título de u m conhecido artigo de Hayek) 5
e, parafraseando o título de u m célebre opúsculo de Keynes, colocou o keynesianismo
no banco dos réus, sustentando que a inflação e o desemprego são "the economic
consequences of Lord Keynes" 6 O "ideological monetarism" começou a ser
"sistematicamente difundido a partir do outro lado do Atlântico por u m crescente grupo
de entusiastas que combinam o fervor dos primeiros cristãos c o m a delicadeza e a
capacidade de u m executivo de Madison Avenue." (Nicholas Kaldor) 7

3. Apud J. STEIN, 1.
4. Cfr. M . FRIEDMAN, [1] e H. G. JOHNSON, [1] e [2].
5. Cfr. J. HAYEK, [5].
6.VerF. HAYEK, [4].
7. Cfr. N. K A L D O R , 1.
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Abandonado há muito o padrão-ouro sem qualquer hipótese de


recuperação e esgotado o sistema monetário internacional saído dos Acordos de Bretton
W o o d s (1944), a "irmandade dos bancos centrais" (James Tobin)8 colou-se à ortodoxia
monetarista, na esperança de encontrar nas suas receitas instrumentos de defesa perante
as pressões políticas dós governos, o que ajudou ao êxito da "contra-revolução"
A inflação surgiu como o inimigo público número um, inimigo perante o
qual tinha de se reagir como perante o terrorismo: não ceder nem u m milímetro. O
desemprego deixou de constar das preocupações dos responsáveis, até porque, segundo a
nova/velha teoria, as economias se encaminhariam espontaneamente para a situação de
pleno emprego, desde que se deixassem funcionar livremente os mecanismos do mercado.

5. Estava recuperada a velha lei de Say. Estava relançada também a tese


de que o desemprego é sempre desemprego voluntário^: se o mercado de trabalho
funcionar sem entraves, quando a oferta de mão-de-obra for superior à sua procura o
preço da mão-de-obra (salário) baixará até que os empregadores voltem a considerar
rentável contratar mais trabalhadores. A s economias tenderiam para u m a determinada
taxa natural de desemprego, que traduziria o equilíbrio entre a oferta e a procura de
força de trabalho, qualquer que fosse a taxa de inflação.
O s monetaristas sustentam que as variações conjunturais do nível de
desemprego nas actuais economias capitalistas são explicáveis fundamentalmente
através das variações da procura voluntária de emprego (trabalho) e de lazer (não-
trabalho) por parte dos trabalhadores e não através das variações da oferta de postos de
trabalho por parte das empresas.
U m a noção importante a este respeito é a noção de desemprego
temporário ("search unemployment" noção que pretende designar o conjunto de
trabalhadores que deixaram (ou perderam) u m emprego e se encontram à procura de
outro emprego ("searching for a better job").
Parte-se do princípio de que u m trabalhador assalariado pode escolher
livremente entre aceitar u m a redução do seu salário e deixar o seu actual posto de
trabalho. Colocado nesta situação, se ele pensar que a baixa do salário real não é geral
e que ele pode encontrar trabalho e m outras empresas à anterior taxa de salário, escolherá
a segunda alternativa e lança-se n u m a actividade de procura de emprego. Assim sendo,

8. Cfr. J.TOBIN, [3], 30/31.


9. Sobre esta problemática ver, mais desenvolvidamente, A . J. A V E L Ã S N U N E S , [1], 109ss.
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estas situações não representariam verdadeiro desemprego (resultante da deficiente


criação de postos de trabalho por parte da economia), antes reflectiriam u m maior grau
de mobilidade dos trabalhadores.
Nesta óptica, o desemprego é desemprego voluntário m e s m o nos casos
e m que os trabalhadores estão desempregados por razões independentes da sua vontade,
u m a vez que eles podem determinar livremente o tempo de procura de u m novo posto
de trabalho, e que a eles cabe decidir entre procurar e não procurar u m novo posto de
trabalho. Se o não procuram, isso significa, para os monetaristas, que preferem o lazer
ao rendimento real que poderiam receber se trabalhassem.
A s teses monetaristas representam u m regresso às concepções pré-key-
nesianas, que identificavam a parle substancial do desemprego c o m o desemprego
voluntário, no sentido acima referido de que a existência de trabalhadores não
empregados significa que, perante u m a situação de salários reais demasiado elevados,
os trabalhadores não aceitam u m a redução do salário real suficiente para que a sua
remuneração iguale a produtividade marginal do seu trabalho e os empregadores tenham
interesse e m os contratar. Por outras palavras: quem não tiver emprego poderá sempre
encontrar u m posto de trabalho, se aceitar u m salário mais baixo que o corrente. Se o
não aceitar é porque prefere continuar sem emprego, optando por procurar u m novo
posto de trabalho (voluntary searching for a better job).
U m dos teóricos do desemprego voluntário vai m e s m o ao ponto de
afirmar que os despedimentos são u m 'véu' cuja aparência é enganadora: os
trabalhadores que são despedidos perdem o emprego por, implicitamente, rejeitarem a
opção que lhes seria oferecida de continuarem a trabalhar por u m salário mais baixo.
Antecipando a objecção de que estas situações são muito raras na prática, A. L. Alchian
alega que tal acontece porque a experiência ensinou aos empregadores que não teriam
êxito quaisquer propostas e negociações c o m esse objectivo...10
Se fosse caso para fazer ironia, dir-se-ia que Milton Friedman quase sugere
que só estarão empregados os trabalhadores que não se comportarem racionalmente.
N a verdade, ele defende que "muitas pessoas podem ter, estando desempregadas, um
rendimento cm termos reais tão grande como o que poderiam ter estando empregadas "
Sendo assim, se "o desemprego é u m a situação c o m muitos atractivos", c o m o Friedman
declarava e m 1976, compreender-se-á que os trabalhadores optem por estar
desempregados... E compreender-se-á também que o Estado não se preocupe e m remediar
as situações de desemprego (consideradas, nas palavras mordazes de Modigliani, c o m o

10. A. L. Alchian, apud). R. SHACKLETON, 7.


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uma espécie de epidemia de "preguiça contagiosa"), antes devendo deixar correr, para
"respeitar a livre escolha das pessoas" (como insinua o humor azedo de Kolm) de entrar
e m período, mais ou menos longo, de "férias voluntárias" (Robert Solow)."

6. Assim desvalorizado o problema do desemprego, compreende-se que


as políticas de inspiração monetarista concedam prioridade absoluta ao combate à
inflação, secundarizando o objectivo do pleno emprego (ou da redução do desemprego).
Por entenderem que a inflação é sempre c e m qualquer lugar u m fenômeno
exclusivamente monetário (resultante de u m aumento da quantidade de moeda c m
circulação e m maior medida que o aumento da produção), procuram combater a inflação
essencialmente com base na redução do crescimento da oferta de moeda.
Esta política anti-inflacionista opera através da contracção da actividade
econômica e do aumento do desemprego, esperando os seus defensores que daqui
resulte u m a redução dos salários reais capaz de assegurar às empresas u m a taxa de
lucro suficientemente elevada para estimular o aumento dos investimentos privados e
o relançamento posterior da economia, com o conseqüente aumento do volume do
emprego. Essencial é que se entregue a economia ao livre jogo das 'leis do mercado',
se reduza a intervenção do Estado na economia e se anulem os "monopólios sindicais."
E m consonância com o seu conceito de inflação, o monetarismo teórico
não culpa directamente os sindicatos pela inflação.12 M a s considera-os responsáveis
pelo desemprego, dada a resistência que oferecem à baixa dos salários nominais.
A verdade, no entanto, é que os monetaristas entendem que o aumento
da taxa média de desemprego se explica, não c o m o conseqüência de quaisquer
modificações tecnológicas ou estruturais da actividade econômica que se traduzissem
numa insuficiente criação de postos de trabalho, mas, essencialmente, pelo aumento
da taxa natural de desempregou E, ao menos no contexto da economia e da sociedade

11. Cfr. F. MODIGLIANI, 6; R. SOLOW, 7-10 e S. KOLM, 106. À idéia de que, se não optur por não
procurar u m novo emprego (ou por não trabalhar), o trabalhador que perde o seu emprego sempre encontrará
u m posto de trabalho em u m qualquer ponto da economia apetece mesmo reagir deste modo: "Nu óptico
de Lucas, uma pessoa despedida de um emprego pode, presumivelmente, engraxar sapatos numa estação
de caminho de ferro ou vender maçãs numa esquina" (A. BLINDER, 131).
12. Cfr. F. H A Y E K , [3], 281/282.
13. N o plano político, a aceitação deste aumento é muito clara: os conselheiros econômicos de Tru num
consideravam natural (= pleno emprego) uma taxa de desemprego entre 1,5 % e 2,5 %; os de Eisenhower
apontaram como tal uma taxa de 2,5% a 3,5%; os de Nixon referiram uma taxa entre 4,5 % e 5,5 %; e m
1982, a administração Reagan considerou a taxa de 6,5 % como nível de pleno emprego; e m 1986, tendia-se
para aceitar como tal uma taxa à volta dos 7 %. Cfr. S H E R M A N / E V A N S , 245 e A. B L I N D E R , 123.
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americanas, este aumento da taxa natural de desemprego explicar-se-ia e m virtude de


factores inerentes à evolução demográfica e às condições do mercado de trabalho, os
quais teriam sido suficientemente influentes para se sobreporem àacçãode algumas
circunstâncias que podem ter contribuído para a baixa daquela taxa (v. g., a melhoria
da mobilidade dos postos de trabalho, a melhor informação acerca dos empregos
alternativos disponíveis etc.).14
D e entre aqueles factores, os monetaristas destacam, fundamentalmente,
dois.
E m primeiro lugar, a modificação da estrutura da população activa, com
maior peso dos jovens, das mulheres e dos trabalhadores a tempo parcial.
Há, no enfanto, quem invoque os estudos empíricos realizados para
concluir cxactamentc ao invés: as mulheres e os jovens são estratos menos dispostos a
deixar o emprego do que os homens adultos, precisamente porque estão menos seguros
de encontrar outro emprego.15
E m segundo lugar, o fortalecimento do "poder monopolista' dos
sindicatos, a legislação que impõe o salário mínimo, a instituição dos subsídios de
desemprego e outras contribuições da segurança social e m benefício dos desempregados,
e/ou a sua aplicação a categorias mais amplas de trabalhadores, o aumento do seu
montante e da suá duração.
M a s há quem responda, com inteira razão, que a existência de subsídios
de desemprego e outras prestações da segurança social, bem c o m o o salário mínimo
garantido e outros factores do m e s m o tipo, explicam apenas u m a reduzida percentagem
do aumento da taxa natural de desemprego. E há quem lembre o que história ensina:
aquelas medidas constituem, historicamente, u m a resposta ex post ao aumento do
desemprego para níveis econômica, política e socialmente intoleráveis.16
O s neoliberais insistem, porém, nos malefícios resultantes da existência
do sistema público de segurança social.
Invocam, por u m lado, que ele contribuiu para tornar mais atractiva a
entrada no mercado de trabalho, o que terá provocado u m aumento da população
trabalhadora enquanto percentagem da população total, e não será alheio também às
alterações da composição da população activa acima referidas.

14. Cfr. M. FRIEDMAN, [5], 15.


15. Cfr. SHERMAN/EVANS, 244/245.
ló.Cfr.J.TOBIN, [2], 26.
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Sustentam, por outro lado, que da existência desse sistema resulta u m a


diminuição do custo relativo do lazer perante o trabalho, exactamente porque as pessoas
temporariamente sem emprego continuariam a ver satisfeitas ae durante u m período de
tempo mais ou menos longo ae as suas necessidades básicas, o que lhes permitiria
aguardar mais tempo sem procurar novo posto de trabalho e ser mais exigentes na
aceitação de postos de trabalho alternativos.
D e acordo c o m este raciocínio, a maior mobilidade e o grau crescente de
exigência dos que procuram emprego é que seriam responsáveis pelo aumento das
taxas de desemprego. T a m b é m por esta via chegam os monetaristas à conclusão de que
o desemprego seria, pois, substancialmente, desemprego voluntário, sustentando que,
e m mercados de trabalho concorrenciais, o emprego e o desemprego efectivos revelariam
as verdadeiras preferências dos trabalhadores entre trabalhar e dedicar o seu tempo a
usos alternativos.17

7. Uma análise atenta das suas concepções leva-nos à conclusão de que


os neoliberais regressam às teorias pré-keynesianas, defendendo que a diminuição dos
salários reais é a condição indispensável e decisiva para que possa reduzir-se o
desemprego e possa promover-se o (pleno) emprego. Fora desta condição, as políticas
assentes na expansão da procura global apenas gerariam inflação sem criarem postos
de trabalho suplementares. N a síntese de Hayek, "o problema do emprego é u m problema
de salários" pelo que a sua solução exige "o restabelecimento de u m mercado do
trabalho que proporcione salários compatíveis c o m u m a moeda estável" lx
O s monetaristas e os "novos economistas clássicos" vão mais longe, no
seu radicalismo, do que tinham ido os próprios "clássicos", perdendo aqueles o realismo
de que deram provas alguns destes últimos, entre os quais sobressai A. C. Pigou, que
nunca defendeu u m a política de redução dos salários nem sequer a anulação ou a redução
do subsídio de desemprego.
N o entanto, m e s m o durante a Grande Depressão, osfiéismais ortodoxos
dos dogmas liberais e da capacidade de auto-regulação das economias capitalistas
combateram os subsídios de desemprego (existentes na Grã-Bretanha desde 1906),
argumentando que o simples facto da sua existência encorajava a resistência dos

17. Às teses neoliberais pode bem aplicar-se o que Keynes observou acerca da teoria "clássica":
"muitas pessoas tentam solucionar o problema do desemprego com uma teoria baseada no pressuposto
áe que não há desemprego." (cfr. J. K E Y N E S , [1], 350).
18. Cfr. F. H A Y E K , [2], 298.
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sindicatos à baixa dos salários para o nível de equilíbrio. Ora, se as taxas dos salários
pudessem baixar, argumentavam os ortodoxos, o equilíbrio restabelecer-se-ia
automaticamente. E, durante a crise financeira de 1931, o Governador do Banco de
Inglaterra, por instigação dos meios financeiros dos E U A , ameaçou m e s m o o governo
trabalhista de que certos créditos poderiam ser cancelados se o subsídio de desemprego
não fosse abolido.19
A o fim e ao cabo, o que os monetaristas pretendem é que, c o m o nos
primeiros tempos do industrialismo, o reequilíbrio (com o inerente pleno emprego,
acreditam eles) se faça à custa da diminuição dos salários reais.
A verdade, porém, é que o liberalismo econômico funcionou nas
condições históricas dos séculos XVIII e X I X , e m que a tecnologia industrial era
relativamente rudimentar e adaptada a empresas de pequena dimensão; e m que era
inexistente ou pouco relevante a concentração capitalista; e m que os trabalhadores não
estavam organizados (ou dispunham de organizações de classe de existência precária,
débeis e inexperientes) e não gozavam da totalidade dos direitos civis e políticos (o
que lhes dificultava e reduzia o acesso ao aparelho de Estado e ao poder político e,
consequentemente, a obtenção das regalias econômicas e sociais de que hoje desfrutam);
e e m que, por isso m e s m o , os governos x imunes às exigências e aos votos populares
ae podiam ignorar impunemente os sacrifícios (e os sacrificados) das crises cíclicas da
economia capitalista, qualquer que fosse a sua duração e intensidade.
E claro que a 'solução' de impor aos trabalhadores o ônus de 'pagar a
crise' só funcionou porque o capitalismo era então, sem disfarces, " u m sistema e m que
os que não podiam trabalhar também não podiam comer." 2()
Resta saber se esta 'solução' — que, c o m o se vê, apesar de resultar das
'leis sagradas' do mercado, não é 'natural' n e m 'automática' n e m "neutra" — fará
sentido e m economias que usam tecnologias avançadas. Alguém admitirá que u m a
unidade de produção informatizada e utilizando robots e outras técnicas de automação
vai deitar fora os equipamentos (caríssimos) compatíveis c o m estas tecnologias apenas
porque, conjunluralmente, os salários estão baixos? Alguém admitirá que u m empresário
responsável vá lançar u m novo empreendimento c o m tecnologia trabalho-intensiva
ultrapassada, apenas porque, conjunturalmente, os salários estão baixos?
Parece inegável, por outro lado, que, à medida que os trabalhadores foram
conquistando o direito ao sufrágio universal e a generalidade dos direitos civis e políticos

19. Cfr. ROBINSON/EATWELL, 47.


20. Cfr. SAMUELSON/NORDHAUS, 312/313.
Neoliberalismo e Direitos Humanos 433

(liberdade de expressão, direito de associação, liberdade sindical, etc), o laissez-faire


começou a experimentar dificuldades crescentes, que culminaram c o m a Grande
Depressão dos anos 1929-1933 e o risco de u m colapso iminente do próprio
capitalismo.
Resta saber, por isso m e s m o , se aquela 'solução' será compatível c o m a
realidade social e política dos actuais países capitalistas industrializados, e m que os
trabalhadores assalariados ae que por certo não se deixarão facilmente convencer a
votar n u m a política de desemprego e m massa ae constituem a grande maioria da
população e dominam (talvez só numericamente...) os "mercados políticos' Se se
respeitarem as regras democráticas (entre as quais o reconhecimento das liberdades
sindicais), os governos, dependentes do voto popular, não poderão continuar alheios
às vicissitudes do ciclo econômico. N ã o falta quem defenda que u m a das marcas do
gênio de Keynes residiu, precisamente, no reconhecimento da necessidade (e na
tentativa) de conciliar a democracia política com a economia de mercado capitalista
(função do Welfare State)

8. Ignorando as lições da História, os neoliberais vêm sustentando a


necessidade de expurgar o mercado de trabalho das "imperfeições" que lhe foram sendo
introduzidas: o subsídio de desemprego, a garantia do salário mínimo, os direitos
decorrentes da existência de u m sistema público de segurança social.
N a perspectiva dos neoliberais, os sindicatos é que devem assumir toda
a responsabilidade pela criação das condições para o pleno emprego da mão-de-obra.
Quer dizer: enquanto houver trabalhadores desempregados, os sindicatos têm de aceitar
a redução dos salários nominais. Este seria o único meio de forçar a mobilidade da
mão-de-obra entre as indústrias e de elevar as margens de lucro, redistribuindo os
trabalhadores de m o d o que a distribuição da oferta de mão-de-obra acompanhe a
distribuição da respectiva procura, favorecendo assim o aumento desta por parte das
empresas. Friedrich Hayek afirma abertamente: "é necessário que a responsabilidade
de estabelecer um nível de salários compatível com um nível de emprego elevado e
estável seja de novo firmemente colocada onde deve estar: nos sindicatos" 21
Colocada assim a questão, u m pequeno passo basta para concluir pela
necessidade de domesticar (desmantelar) os "agressivos monopólios sindicais", que
Friedman acusa de, ao exigirem salários elevados, contribuírem para restringir o número
de postos de trabalho. Por isso, não hesita e m proclamar que "as vitórias que os
21. Cfr. F. HAYEK, [2], 298.
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sindicatos fortes conseguem para os seus membros são obtidos acima de tudo à custa
dos outros trabalhadores"'22
Outra linha de 'argumentação'põe e m relevo que "os sindicatos começam
a tornar-se incompatíveis com a economia de livre empresa " e que, "se se quer preservar
o sistema de livre empresa, será necessário (...) reduzir o poder monopolístico dos
sindicatos operários"P O fantasma da 'ingovernabilidade' (que sempre acaba apelando
para u m qualquer leviathan) vem sendo agitado contra os sindicatos.
A s idéias de Hayek são elucidativas a este respeito.
Por u m lado, condena a idéia de que é do interesse público que os
sindicatos sejam restringidos o menos possível na prossecução dos seus objectivos,
porque foi e m nome dela que os "monopólios sindicais' acabaram por adquirir "privilégios
únicos, de que não goza qualquer outra associação ou indivíduo", situação que eqüivaleria
a aceitar que, no domínio das relações de trabalho, os fins justificam os meios.
Por outro lado, ele considera "especialmente perigoso" o poder alcançado
pelos sindicatos, poder que, a seu ver, se traduz na "coerção de homens sobre outros
homens" na "coerção de trabalhadores pelos seus companheiros trabalhadores" Só
porque se tem admitido que eles exerçam u m tal poder de coerção "sobre aqueles que
querem trabalhar em condições não aprovadas pelos sindicatos" é que estes se tornaram
capazes de exercer igualmente u m a poderosa coerção sobre os empregadores.
"Pessoalmente ae conclui Hayek ae, estou convencido de que o poder dos monopólios
sindicais é, juntamente com os modernos métodos de tributação, o principal factor de
desencorajamento do investimento privado em equipamento produtivo "
A aceitação da pretensão dos sindicatos de aumentar os salários tendo
e m conta os aumentos da produtividade — hoje geralmente considerada socialmente
justa e economicamente vantajosa—significa, para Hayek, o reconhecimento do direito
de expropriar u m a parte do capital das empresas. VejamoMo nas suas próprias palavras:
"O reconhecimento do direito do trabalhador de uma empresa, enquanto trabalhador,
de participar numa quota dos lucros, independentemente de qualquer contribuição
que ele tenha feito para o seu capital, faz dele proprietário de uma parte da empresa.

22. Cfr. M. e Rose FRIEDMAN, [2], 305-307. Os monetaristas não propõem, porém, a eliminação
dos monopólios econômicos, dos grandes conglomerados transnacionais, que têm reforçado o seu poder
(poder de mercado, poder financeiro, poder político) e que •governam' o capitalismo à escala mundial,
apesar de todas as legislações *anti-monopolistas\ E nenhum deles acreditará que a simples força das
suas idéias faça regressar o mundo ao 'paraíso perdido' do capitalismo de concorrência (cuja existência,
como a de todos os 'paraísos', é pura matéria de fé...).
23 Cfr. G. H A B E R L E R , [I], 90/91 e [2], 165-173.
Neoliberalismo e Direitos Humanos 435

Neste sentido, tal exigência é, sem dúvida, puramente socialista e, o que é mais, não
baseada em qualquer teoria socialista do tipo mais sofisticado e racional, mas no
mais grosseiro tipo de socialismo, vulgarmente conhecido por sindicalismo"
A luz do que fica dito, compreende-se que Hayek pergunte "até onde se
permitirá que os grupos organizados de trabalhadores industriais utilizem o poder coercivo
que adquiriram de forçar no resto do país uma mudança nas instituições fundamentais
em que assenta o nosso sistema econômico e social" E, perante u m a tal subversão das
instituições, compreende-se que responda: "Há um momento em que todos os que desejam
a preservação do sistema de mercado baseado na livre empresa têm que desejar e apoiar
sem ambigüidade uma recusa frontal daquelas exigências [as exigências sindicais], sem
vacilar perante as conseqüências que esta atitude possa ter a curto prazo." u
Igualmente claras são as reflexões de Gottfried Haberler n u m artigo muito
conhecido sobre política de salários, emprego e estabilidade econômica.
Nele pode ler-se que muitas das dificuldades por ele consideradas das
mais relevantes das economias capitalistas actuais ("salários monetários rígidos à
baixa" e "pressão constante à alta das taxas de salário monetário") devem ser
imputadas à "legislação do salário mínimo, aos planos de segurança social, aos subsídios
de desemprego mais liberais". E estas são realidades apontadas c o m o o fruto da acção
do que e m outro artigo o m e s m o autor chama os "opressivos monopólios do trabalho",
u m dos "vícios [sic] dos países mais desenvolvidos" que "muitos países
subdesenvolvidos foram mais rápidos a adoptar",25
Não admira, por isso, que Haberler defenda que "o poder das organizações
operárias cresceu até um ponto em que os sindicatos começam a ser incompatíveis com
a economia de livre empresa" O que justificaria, e m sua opinião ae que abona c o m
posição idêntica de Milton Friedman ae, que, "se se quer preservar o sistema de livre
empresa, e se se quer evitar os controlos drásticos, será necessário mudar as actuais
políticas salariais e reduzir o poder monopolístico dos sindicatos operários" ,26
M e s m o no Reino Unido, país onde o m o v i m e n t o sindical era
tradicionalmente considerado u m a instituição quase tão intocável c o m o a realeza, a
Senhora Thatcher, enquanto primeira-ministra, não hesitou e m acusar os sindicatos de
quererem "destruir o Estado", erigindo-os desse m o d o e m inimigo interno sobre o qual
toda a repressão se pretende legitimada. Tal como nos primórdios da revolução industrial,
24. Cfr. F. H A Y E K , [3], 281ss.
25. Cfr. G. HABERLER, [1], 90/91.
26. Cfr. G. HABERLER, [2], 165-173.
436 Antônio José Avelãs Nunes

quando os novos assalariados industriais eram apontados e tratados c o m o "bárbaros


que ameaçam invadir a cidade"27

9. O capitalismo surgiu como a "civilização das desigualdades" Como


sublinhou A d a m Smith, "sempre que há muita propriedade, há grande desigualdade. Por
cada homem rico haverá, pelo menos, quinhentos homens pobres, e a propriedade de uns
poucos pressupõe a indigência de muitos " ,28 Quer dizer: a desigualdade econômica é u m a
característica inerente às sociedades burguesas, apesar de estas terem vindo proclamar
que todos os homens (mesmo os trabalhadores) são livres e iguais perante a lei.
A economia política, que nasceu c o m o capitalismo c o m o "ciência da
burguesia", dando-se conta de que a miséria crescia a par da riqueza, procurou, desde
o início, 'legitimar' essa desigualdade, apontando-a c o m o dado inelutável, inerente à
"natureza das coisas', resultante das leis naturais que regulam a economia, leis que os
homens não poderiam alterar, por serem leis de validade absoluta e universal, válidas
e m todos os tempos e e m todos os lugares c o m o as leis da física (por isso o capitalismo
é, para os clássicos ingleses, o fim da história...) e perante as quais não teria sentido
falar de justiça e injustiça, porque o que é natural é justo.
A o explicar a acumulação primitiva do capital ae que, n u m dos seus
aspectos essenciais, se traduziu na enorme concentração de capital nas mãos de u m a
nova classe social (a burguesia) ae, A d a m Smith recorreu a u m a teoria que, c o m o
observou Marx, desempenha aqui papel idêntico ao da teoria do pecado original na
teologia: sendo todos os homens iguais, acumulam e enriquecem os que são
trabalhadores (industriosos), poupados (parcimoniosos) e inteligentes; estão condenados
a ser pobres os que são preguiçosos, perdulários e incapazes (pouco inteligentes).
E esta teoria smithiana da "previous accumulation" (inspirada na teologia
protestante, "essencialmente u m a religião burguesa" recorda Marx) serviria depois
para 'explicar' e 'justificar' as desigualdades que o capitalismo industrial acentuou,
glorificando os vencedores e degradando os perdedores e os pobres. Se a riqueza era
entendida c o m o u m a Graça de Deus, a pobreza só poderia entender-se c o m o a denegação
da Graça divina.29 A mendicidade foi m e s m o considerada u m delito punido pelo Estado

27. Ver M. DESAI, 224.


28. Cfr. A. SMITH, II, 316.
29. "Por isso se percebe - como salienta Rogério Soares, 60 - que no sistema das 'Manufucturas',
onde se impunha a uscese do trabalho aos criminosos e vugubundos, também os pobres fossem tratados
du mesma áesapieáuáa maneira''
Neoliberalismo e Direitos Humanos 437

e muitos milhares de 'mendigos' e 'vagabundos' foram executados por cometerem o


"crime' de serem pobres, e, por isso, socialmente perigosos.
A desigualdade gritante entre as "duas nações" que constituíam as
sociedades saídas da revolução industrial foi também 'explicada' com base na idéia da
preguiça natural das classes trabalhadoras, idéia que floresceu, como verdade primária,
ao longo do séc. XVIII: os trabalhadores eram pobres, desde logo e sobretudo, porque
eram preguiçosos e também porque não eram poupados nem inteligentes.
Esta tese teve outra 'leitura' igualmente condizente c o m os interesses da
nova burguesia dominante: é preciso que os trabalhadores se mantenham pobres, porque
este é o único meio de os tornar industriosos (para usar a expressão inglesa do tempo).

10. Perante o descalabro da Grande Depressão e a conseqüente miséria


de milhões de pessoas e m todo o mundo, Keynes veio defender que as situações de
desequilíbrio e de crise são inerentes às economias capitalistas, nas quais as situações
de pleno emprego são "raras e efêmeras"30 Por isso estas economias precisam de ser
equilibradas e podem ser equilibradas, o que implica que o Estado assuma funções
complexas no domínio da promoção do desenvolvimento econômico, do combate ao
desemprego e da promoção do pleno emprego, da redistribuição do rendimento e da
segurança social.
N o seu tempo, u m a das medidas propostas por Malthus para combater
as situações de depressão e de desemprego foi o aumento da procura efectivá, c o m
base no estímulo ao consumo dos ricos. Se o luxo dos ricos faz a felicidade dos pobres
(idéia largamente aceite nos séculos XVIII e XIX), deixem-se os ricos consumir sem
limitações (por exemplo, reduzindo os impostos sobre os rendimentos dos proprietários
rurais e revogando as leis sumptuárias).
N a era da "sociedade de consumo' perante u m a produção em massa, o
consumo dos ricos (mesmo que esbanjador) não consegue assegurar o escoamento de
toda a produção. O aumento do consumo dos pobres (entre eles os trabalhadores), o
consumo de massas é u m a necessidade, resultante do próprio desenvolvimento
tecnológico proporcionado pela "civilização burguesa'
Parece que Henry Ford se terá apercebido disto m e s m o ao afirmar que
precisava de que os seus operários pudessem comprar os automóveis saídos das linhas
de produção em série das suas fábricas. U m dos méritos de Keynes foi ter compreendido
e enquadrado teoricamente esta problemática. Para assegurar mais estabilidade às
30. Cfr. J. K E Y N E S , [3], 249/250
438 Antônio José Avelãs Nunes

economias capitalistas, de m o d o a evitar sobressaltos c o m o o da grande depressão^ é


necessário que os desempregados não percam todo o seu poder de compra (daí o subsídio
de desemprego), que os doentes e inválidos recebam algum dinheiro para gastar (subsídios
de doença e de invalidez), que os velhos não percam o seu rendimento quando deixam
de trabalhar (daí o regime de aposentação, c o m a correspondente pensão de reforma).

11. Na General Theory Keynes identifica os dois "vícios" que considera


mais marcantes das economias capitalistas: a possibilidade da existência de desemprego
involuntário, e o facto de que a "repartição da riqueza e do rendimento é arbitrária e
carece de equidade." E defende que a correcção destes 'vícios' constitui a principal
responsabilidade do Estado.
Keynes reconhece que a propriedade privada e o aguilhão do lucro possam
ser factores estimulantes do progresso econômico.
M a s entende, por u m lado, que "a sabedoria e a prudência exigirão sem
dúvida aos homens de Estado autorizar a prática do jogo sob certas regras e dentro de
certos limites"
E defende, por outro lado, que a acentuada desigualdade de rendimentos
contraria mais do que favorece o desenvolvimento da riqueza, negando assim u m a das
principais justificações sociais da grande desigualdade de riqueza e de rendimento:
"Podem justifiçar-se, por razões sociais e psicológicas, desigualdades significativas
de riqueza, mas não — sublinha o professor de Cambridge — desigualdades tão
marcadas como as que actualmente se verificam.""
Ficava assim legitimada a intervenção do Estado na busca de maior justiça
social, de maior igualdade entre as pessoas, os grupos e as classes sociais. A "equação
keynesiana" foi u m a tentativa de conciliar o progresso social e a eficácia econômica. E
o discurso keynesiano tornou claro que a conciliação destes dois objectivos (em vez da
proclamação da sua natureza conllituantc) é u m a necessidade decorrente das estruturas
econômicas e sociais do capitalismo contemporâneo.
A esta necessidade respondeu, a partir dos anos trinta, e, mais
accntuadamentc, a partir da Segunda Guerra Mundial, a criação do Estado-providência,
assente na intervenção econômica, na redistribuição da riqueza e do rendimento, na
regulamentação das relações sociais, no reconhecimento de direitos econômicos e sociais
aos trabalhadores, na implantação de sistemas públicos de segurança social.
A s bases (keynesianas) do Welfare State são, pois, essencialmente, de
31. Cfr. J. K E Y N E S , [3], 372-374.
Neoliberalismo e Direitos Humanos 439

natureza econômica, ligadas à necessidade de reduzir a intensidade e a duração das crises


cíclicas próprias do capitalismo, e motivadas pelo objectivo de salvar o próprio capitalismo.
N a verdade, estes novos agenda do Estado não pretendiam subverter
(nem subverteram) o sistema, nem visavam promover (nem promoveram) nenhuma
revolução social (apesar de se falar de "revolução keynesiana"), antes se enquadram
na lógica do capitalismo e da sua racionalidade intrínseca.
Daí que eles não tenham resolvido o problema do 'subdesenvolvimento';
não tenham impedido o alargamento do fosso entre "países desenvolvidos' e "países
subdesenvolvidos'; não tenham acabado com as crises cíclicas do capitalismo; não
tenham posto cobro à desigualdade na distribuição do rendimento, cujo agravamento
leva a que se fale já da necessidade de incluir no elenco dos direitos fundamentais o
direito a uma igualdade razoável; não acabaram, evidentemente, c o m o regime do
salariato e c o m a relação de exploração que lhe é inerente.

Os neo-keynesianos, embora não escondendo alguma frustração acerca


dos resultados das políticas de redistribuição do rendimento e m e s m o algumas críticas
ao d e s e m p e n h o do Estado-providência, mantêm-se fiéís ao princípio da
responsabilidade social colectiva, que inspira o Estado de bem-estar, sobretudo na
Europa. Trinta e cinco anos depois de Keynes, James Tobin sustentava que "a welfare-
economics continua a ser um tema relevante e estimulante. Atrevo-me a acreditar —
acrescenta Tobin i2 — que ela tem um brilhante futuro" Paul Samuelson e William
Nordhaus, embora reconhecendo que "o humanitarismo tem os seus custos", defendem
que o Estado de bem-estar não permitirá que os trabalhadores regressem ao século
XIX: "são poucos aqueles que propõem que o relógio da história volte para trás, de
regresso ao regime sem compaixão do capitalismo puro." "

12. Diferentes são as concepções dos monetaristas e dos neoliberais em


geral acerca da economia e da sociedade e, de m o d o particular, acerca do papel do
Estado perante a economia e perante a sociedade. Fiéis ao ideário liberal do laisser-
faire, da mão invisível e da lei de Say, defendem que as economias capitalistas tendem
espontaneamente para o equilíbrio de pleno emprego e m todos os mercados, pelo que
não precisam de ser equilibradas, sendo desnecessárias as políticas anti-cíclicas e sendo
desnecessárias e inconseqüentes as políticas de combate ao desemprego, que não
conseguem eliminá-lo e geram inflação.
32. Cfr. J. TOBIN, [1], 18.
33. Cfr. SAMUELSON/NORDHAUS, 313.
440 Antônio José Avelãs Nunes

Mais longe ainda vão os monetaristas da segunda geração ("monetarists


mark II", como lhes chama James Tobin), defensores da chamada teoria das expectativas
racionais. Segundo eles, os agentes econômicos privados dispõem da m e s m a informação
que está ao alcance dos poderes públicos, e, comportando-se c o m o agentes econômicos
racionais, antecipam plena e correctamente quaisquer políticas públicas. A s políticas
econômicas sistemáticas deixariam, pois, de ter qualquer efeito sobre a economia,
restando aos governos 'enganar' os agentes econômicos através de medidas de surpresa,
incompatíveis com o cientismo e a programação de que se reclama a política econômica.34
Desta neutralidade da política econômica passa-se, quase sem solução
de continuidade, à defesa da morte da política econômica, porque esta seria desnecessária,
perniciosa e sem sentido. Assim estamos de regresso ao velho mito liberal da separação
Estado/economia e Estado/sociedade: a economia seria coisa exclusiva dos privados
(da sociedade civil, da sociedade econômica), cabendo ao Estado tão somente garantir
a liberdade individual (a liberdade econômica, a liberdade de adquirir e de possuir sem
entraves), que proporcionaria igualdade de oportunidades para todos.

13. O ideário liberal rejeita o objectivo de redução das desigualdades,


e m n o m e de u m qualquer ideal de equidade e de Justiça: as políticas que buscam
realizar a Justiça social distributiva são sempre encaradas c o m o u m atentado contra a
liberdade individual.
Milton Friedman é muito claro: "a este nível, a igualdade entra vivamente
em conflito com a liberdade". E ele escolhe a liberdade, confiando e m que esta assegure
o maior grau de igualdade possível. Por u m lado, porque "uma sociedade que põe a
igualdade — no sentido de igualdade de resultados — à frente da liberdade acabará
por não ter nem igualdade nem liberdade " Por outro lado, porque "uma sociedade
que põe a liberdade em primeiro lugar acabará por ter, como feliz subproduto, mais
liberdade e mais igualdade. "35
É o regresso à tese smithiana de que o mecanismo do mercado realiza
"a concordância admirável do interesse e da Justiça", tornando indissociáveis a
liberdade (econômica), a eficiência econômica e a equidade social.
Neste domínio da filosofia social, o neoliberalismo exclui da esfera da
responsabilidade do Estado as questões atinentes à justiça social, negando, por isso,
toda a legitimidade das políticas de redistribuição do rendimento, orientadas para o
34. Para maiores desenvolvimentos, cfr. A. J. A V E L Ã S N U N E S , [1], I25ss.
35 Cfr. M . e Rose F R I E D M A N [2], 202.
. Neoliberalismo e Direitos Humanos 441

objectivo de reduzir as desigualdades de riqueza e de rendimento, na busca de mais


equidade, de mais Justiça social, de mais igualdade efectivá entre as pessoas.
N o que toca à obrigatoriedade dos descontos para a segurança social, os
neoliberais consideram-na, c o m o se diz acima, u m atentado contra a liberdade
individual, cometido e m n o m e do objectivo de garantir as pessoas contra determinadas
situações (desemprego, doença, invalidez, velhice). E sustentam que esse atentado é
tanto mais grave e intolerável quanto é certo que, na sua perspectiva, este objectivo
ficará melhor acautelado (com menores custosfinanceirose menores custos sociais)
se cada pessoa (ou cada família) o assumir, como responsabilidade própria, tomando,
e m conformidade, as medidas adequadas.
Milton Friedman não hesita e m classificar o princípio da
responsabilidade social colectiva como "uma doutrina essencialmente subversiva." A
seu ver, o deprimente esbanjamento de recursos financeiros é ainda o menor de todos
os males resultantes dos programas paternalistas de segurança social. "O maior de
todos os seus males é o efeito maligno que exercem sobre a estrutura da nossa sociedade.
Eles enfraquecem os alicerces da família; reduzem o incentivo para o trabalho, a
poupança e a inovação; diminuem a acumulação do capital; e limitam a nossa
liberdade. Estes são os principais factores que devem ser julgados. "3A
Entre "os custos maiores da extensão das governmental welfare
activities", Friedman destaca ainda "o correspondente declínio das actividades privadas
de caridade" que proliferaram no Reino Unido e nos E U A no período áureo do
laissez-faire, na segunda metade do século XIX. Esta é u m a opinião só compreensível
à luz do entendimento segundo o qual "a caridade privada dirigida para ajudar os
menos afortunados" é "o mais desejável" de todos os meios para aliviar a pobreza e é
"um exemplo do uso correcto da liberdade"
O ilustre laureado com o Prêmio Nobel da Economia está a pensar,
evidentemente, na liberdade daqueles que 'fazem' a caridade. E a liberdade dos que se
vêem na necessidade de 'estender a m ã o à caridade'? Não serão estes, precisamente,
aqueles que mais se vêem privados da sua dignidade e da sua liberdade como pessoas,
o mais elevado dos valores a proteger, segundo o ideário liberal? A o proclamar que a
única igualdade a que os homens têm direito é "o seu igual direito à liberdade", garantirá

36. Cfr. M. e Rose FRIEDMAN, [2], 172-178. Os monetaristas sustentam que as transferências
súciais, reduzindo o custo do ócio (do não-trabalho), são u m a autêntica subvenção ü preguiça. Utilizando
o comentário de Galbraith perante as opções da Administração Reagan neste domínio, poderemos sintetizar
deste m o d o a 'filosofia' dos neoliberais: "os ricos não trabalham o suficiente porque não ganham o
suficiente; os pobres trabalham pouco porque ganham demasiado".
442 Antônio José Avelãs Nunes

o liberalismo a liberdade e a dignidade de cada u m dos homens? A proposta friedmaniana


de regresso ao passado não contém a promessa de nenhum "paraíso' mas contém a
ameaça de nos fazer regressar ao 'inferno perdido' do apogeu do laissez-faire.
Fiel à sua matriz ideológica, Friedman defende, com toda a clareza, a
necessidade de "derrubar definitivamente este Estado-providência ao serviço dos ricos
e das classes médias" advogando a idéia de que, e m vez dele, "é altura de as
democracias ocidentais retomarem os incentivos para produzir, empreender, investir. "37
A s vantagens da sua proposta seriam as vantagens do 'Estado liberal': "A extinção do
actual sistema de Segurança Social eliminaria os efeitos que presentemente se fazem
sentir relativamente à falta de incentivo para a procura de trabalho, o que representaria,
igualmente, um maior rendimento nacional corrente. Conduziria à poupança individual
e, portanto, à formação de taxas de capital mais elevadas e de uma taxa de crescimento
do rendimento mais acelerada. Estimularia o desenvolvimento e a expansão de planos
de pensão privados, aumentando deste modo a segurança de muitos trabalhadores."31t
O s neoliberais voltam, assim, as costas à cultura democrática e igualitária
da época contemporânea, caracterizada não só pela afirmação da igualdade civil e
política para todos, mas também pela busca da redução das desigualdades entre os
indivíduos no plano econômico e social, no âmbito de u m objectivo mais amplo de
libertar a sociedade e os seus membros da necessidade e do risco, objectivo que está na
base dos sistemas públicos de segurança social.

14. No plano da economia, o liberalismo de Friedman assenta na


confiança absoluta no mercado livre e no mecanismo dos preços, justificando, também
neste aspecto, o retrato que dele fez Galbraith: "é u m economista do século XVIII"
Pois este "economista do século XVIII" defende o seguinte: "O sistema
de preços permite que as pessoas cooperem pacificamente numa fase da sua vida
enquanto cada uma trata daquilo que lhe interessa. A idéia luminosa de Adam Smith
foi reconhecer que os preços que emergiam de transacções voluntárias entre
compradores e vendedores — em resumo, um mercado livre — podiam coordenar a
actividade de milhões de pessoas, cada uma à procura dos seus próprios interesses. "y}
E m coerência c o m o seu projecto de sociedade, Milton Friedman
considera que se deve impedir que o Estado controle, sob qualquer forma, a actividade
37. Entrevista ao Nouvel Observuteur de Abril de 1981.
38. Cfr. M . e Rose F R I E D M A N , [2], 172-174.
39. Cfr. M . e Rose F R I E D M A N , [2], 42.
Neoliberalismo e Direitos Humanos 443

econômica, pois tal não é mais do que u m a forma de impedir a concentração de mais
poder nas mãos do Estado. A o invés, deve assegurar-se a sua disseminação por grande
número de pessoas, que assim ficarão mais livres, compensando de algum m o d o o
poder político do Estado.
O radicalismo de Milton Friedman vai ao ponto de considerar demasiado
permissivo o critério de A d a m Smith para delimitar a esfera de acção do Estado: "Quase
não há nenhuma actividade — escreveu M. Friedman em 1976 — que não se tenha
considerado adequada à intervenção do Estado de acordo com os argumentos de Smith.
Efácil afirmar, como o faz Smith mais de uma vez, que há 'efeitos externos 'que colocam
uma actividade ou outra na esfera do 'interesse público' e não na esfera do 'interesse
de algum indivíduo ou algum número pequeno de indivíduos' Não há critérios
objectivos amplamente aceites para avaliar tais asserções, para medir a grandeza dos
efeitos externos, para identificar os efeitos externos das acções governamentais e
compará-los com os efeitos externos que se produziriam se se deixassem as coisas em
mãos privadas. A análise superficialmente científica de custo-benefício erigida com
base em Smith transformou-se numa formidável Caixa de Pandora. "40
Estamos longe da visão de Keynes, que, e m "The End of Laissez-Faire"
doze anos antes da publicação da General Theory, escreveu este 'discurso' contra os
princípios "metafísicos" e m que se fundamenta o laissez-faire: "Não é verdade que os
indivíduos disponham de uma inquestionável 'liberdade natural'nas suas actividades
econômicas. Não existe nenhum 'contrato'que confira direitos perpétuos aos que têm
ou aos que adquirem. O mundo não é governado a partir de cima de modo que os
interesses privados e os interesses sociais sempre coincidam. E não é gerido a partir
de baixo de modo que, na prática, eles coincidam. Não é uma dedução correcta dos
princípios da economia que o interesse próprio esclarecidamente entendido opere
sempre no interesse público. Nem é verdade que o interesse próprio seja em regra
esclarecidamente entendido; a maior parte das vezes os indivíduos que actuam
isoladamente para prosseguir os seus próprios objectivos são demasiado ignorantes
ou demasiado fracos, mesmo para atingir estes objectivos. A experiência não mostra
que, quando os indivíduos formam uma unidade social, sejam sempre menos
esclarecidos do que quando actuam separadamente." 4I

15. Segundo o modelo liberal, o capitalismo é uma economia de mercado


livre, na qual a soberania do consumidor (a liberdade para escolher de que fala Milton
40. Apud G. FEIWEL, 146.
41. Cfr. J. KEYNES, [2] , 287/288
444 Antônio José Avelãs Nunes

Friedman) determina todas as escolhas — feitas livremente no mercado por cada um


dos indivíduos que nele actuam —, decidindo, e m último termo, à escala da economia
c o m o u m todo, o quê, como e para quem se vai produzir.
N o fundo, o mito da soberania do consumidor é u m reflexo do mito
liberal do contratualismo, que reduz toda a vida e m sociedade — nomeadamente a
vida econômica — a relações contratuais livremente assumidas por indivíduos livres,
independentes e iguais e m direitos, cada u m dos quais dispõe de informação completa
sobre todas as alternativas possíveis e sabe perfeitamente o que quer.
Para os defensores desta concepção, "a economia de livre empresa é a
outra face da democracia". C o m o escreveu u m autor (Enoch Powel), "nesta grande e
contínua eleição geral da economia livre, ninguém, nem mesmo o mais pobre, é privado
do seu direito de voto: estamos todos a votar a todo o momento."
Esta 'leitura' da realidade, segundo a qual a "votação' efectuada no
mercado, dá a todos iguais possibilidades de participar na orientação da vida econômica,
pretende significar a existência de u m autêntico governo democrático da economia.
Contra ela parece decisivo o argumento (de Mark Blaug) de que ela
'esquece' o facto essencial de que no mercado se efectua "uma eleição e m que alguns
eleitores podem votar mais do que u m a vez", porque, no mercado livre, o peso (a
influência) do voto de cada consumidor depende do que cada u m gasta no mercado, o
que, por sua vez, depende da riqueza e do rendimento de cada um. 42
O s marginalistas dirão que os rendimentos de cada pessoa correspondem
à "contribuição' de cada u m a para o rendimento da comunidade. O s críticos da teoria da
produtividade marginal negam que assim seja. E se não houver u m a 'justificação moral'
para as diferenças de rendimento e para a diferença de natureza do rendimento do trabalho
e do rendimento do capital, é inevitável a conclusão de que a 'votação' do mercado está
viciada à partida e conduz a resultados injustos, que reflectcm c ajudam a perpetuar as
estruturas (de poder) que geram e mantêm as diferenças de rendimentos. Esta conclusão
será ainda mais evidente quando se toma e m consideração a riqueza herdada por alguns
e o rendimento que dela resulta para os seus titulares pelo simples facto de o serem.

16. A soberania do consumidor é invocada também para 'legitimar' os


resultados do funcionamento das economias de mercado livre no que toca à distribuição
da riqueza e do rendimento. A sua 'legitimação' deriva da idéia de que eles são livremente
queridos e assumidos por todos e por cada um, através da livre escolha individual. Von
42. Ver, mais desenvolvidamente, A. J. A V E L Ã S N U N E S , [2].
Neoliberalismo e Direitos Humanos 445

Mises defende expressamente que, "numa sociedade capitalista, a riqueza só pode


adquirir-se e conservar-se mediante uma atitude que corresponda às exigências dos
consumidores. Assim, a riqueza de prósperos comerciantes é sempre o resultado de um
plebiscito dos consumidores e, uma vez adquirida, a riqueza só pode conservar-se se for
utilizada da forma que os consumidores considerem mais benéfica para eles."
E m sentido contrário, abona toda a lógica da sociedade de consumo, e m
que as necessidades são u m mero pretexto para vender aquilo que se produz: se não há
necessidades, inventam-sc, c os desejos produzem-sc' ao m e s m o tempo que os bens.
O peso crescente da 'moda' e da publicidade na determinação do comportamento dos
consumidores dá razão aos que defendem que os desejos dos consumidores deixaram
de ser u m a questão de escolha individual, tendo-se tornado u m a produção de massa. A
realidade quotidiana mostra que, para além de u m certo grau de inter-actividade, as
grandes empresas criam necessidades e desejos, fabricam as modas, modificam os
hábitos de consumo, praticamente à escala do planeta.

17. Mesmo na óptica dos produtores, poderá dizer-se, com boas razões,
que, afinal, este rational choosing agent inventado pelo marginalismo é, nas condições
do mercado livre, "um h o m e m sem escolhas" Se quer evitar a morte (falência), ele tem
que produzir ao custo mais baixo a que os outros produzem e tem que vender ao preço
(dado) do mercado e não pode permitir-se quaisquer motivações (oufins)não-económicos
(a amizade, a compaixão, a responsabilidade social). A sua 'conduta racional' não passa
de u m a conduta de adaptação às condições dadas pelo mercado, com vista aofimúnico
da maximização do ganho (a utilidade ou o lucro). É u m homem unidimensional, que
mais parece u m robot do que u m homem livre, capaz de assumir escolhas morais,
N a perspectiva dos consumidores, Joan Robinson põe o dedo na ferida
quando escreve que a mainstream economies, "ao aclamar a 'soberania do
consumidor', acaba por perder de vista o problema da distribuição do poder de compra
entre a população. "43 É, mais u m a vez, a fuga à realidade social e aos seus problemas,
também neste aspecto ao arrepio da atitude dos economistas que integram a linhagem
Fisiocratas-Smith-Ricardo-Marx, todos empenhados, a seu modo, e m compreender a
sociedade e m que viveram.
J. K. Galbraith 44 é u m dos autores que, desde a década de 1950, mais
lucidamente tem contribuído para a crítica desta "economies as a system of belief",

43. Ver J. ROBINSON, [1] e [2].


44. Cfr. J. GALBRAITH, [2].
446 Antônio José Avelãs Nunes

desta "sedative economies" que persiste na defesa do d o g m a da "soberania do


consumidor" 'soberania' que, segundo ele, só existe no "mundo dos livros de texto"
da mainstream economies. O consumidor não é hoje 'soberano' e m qualquer sentido
útil.
A s sociedades que assentam no "sistema industrial"45 são economias
planificadas, dominadas pela soberania do produtor (i. é, a capacidade das grandes
organizações empresariais para 'planificar' a economia). A mão invisível do mercado
foi substituído pela mão (muito) visível das grandes empresas 'monopolistas', dos cartéis
internacionais, dos poderosos conglomerados transnacionais, das grandes empresas
públicas, do Estado e suas agências.
Por isso Galbraith propõe que a ciência econômica abandone a óptica da
soberania do consumidor e adopte a óptica da soberania do produtor.
Por isso, contra a lógica perversa da sociedade de consumo (em que as
necessidades das pessoas e o consumo destinado a satisfazê-las são mero pretexto para
proporcionar abundantes lucros aos grupos monopolistas market makers), muitos autores
sustentam hoje que os direitos dos consumidores devem ser direitos constitucionalmente
protegidos (o que já se verifica, aliás, e m várias constituições), porque por aqui passa
a liberdade e o bem-estar das pessoas e a própria vida democrática.
N u m dos seus ensaios, Ralf Dahrendorf fala da necessidade de
"transferência de alguns ganhos de produtividade para tempo, em vez de dinheiro,
para tempo livre, em vez de mais rendimento."4ft Esta é, sem dúvida, u m a das questões
centrais e m aberto neste tempo de contradições: o desenvolvimento da produtividade
resultante do progresso científico e tecnológico permite que se disponha de mais tempo
para as actividades libertadoras do h o m e m , e m vez de o afectar a produzir cada vez
mais bens para ganhar cada vez mais dinheiro para comprar cada vez mais bens. U m
dia virá e m que o luxo — que se espera possa ser acessível a todos — há-de consistir
e m ter tempo. A ciência econômica não pode continuar a adiar a busca de u m outro
padrão de racionalidade. A ciência econômica tem de assumir-se de novo c o m o
economia política, c o m o u m ramo dafilosofiasocial.

18. O que está em causa, em última instância, é um dos pontos


fundamentais do neoliberalismo reinante: a idéia de que o mercado é o único mecanismo
racional de afectação de recursos escassos a usos alternativos, nele se realizando o

45. Cfr. J. GALBRAITH, [1].


46. Cfr. R. DAHRENDORF.
Neoliberalismo e Direitos Humanos 447

princípio universal de racionalidade inerente à natureza humana, que o marginalismo


imprimiu no código genético do homo oeconomicus (um agente racional maximizador).
O s monetaristas vão mais longe e sustentam que o mecanismo dos preços
é o único instrumento com base no qual se podem analisar e explicar todos os fenômenos
sociais, reduzindo toda a vida humana a u m problema de preços que o mercado resolve
espontânea e naturalmente, da única forma racional (e justa). Karl Brunner afirma-o de
forma impressiva47: "o princípio básico do monetarismo é a reafirmação da relevância
da teoria dos preços para compreender o que acontece na aggregate economies. O
nosso ponto fundamental reside em que a teoria dos preços é o paradigma crucial —
na realidade o único paradigma — que os economistas têm. Podemos utilizar este
paradigma para explicar toda a ganm de fenômenos sociais. Não acredito numa espécie
de 'shoe box approach' segundo a qual os problemas se distribuem por diferentes
disciplinas, como a ciência política, a economia, a sociologia. Isto não faz muito sentido.
A classificação não se refere a disciplinas alternativas. Pode ser entendida utilmente
como referindo-se a diferentes espécies de problemas — diferentes assuntos —
susceptíveis de ser abordados com a mesma análise social básica desenvolvida no
domínio da ciência econômica."
M a s a verdade é que a adopção deste critério implica que se afastem da
análise todas as motivações que não possam ser avaliadas através do padrão de medida
da moeda. Acresce que, como observa Mark Blaug, "a afectação eficiente de recursos
escassos entre fins alternativos não pode ser efectuada sem um padrão de avaliação"
Ora o mecanismo dos preços de mercado é apenas u m padrão de avaliação particular,
que avalia cada euro ou cada dólar do m e s m o modo, independentemente da forma que
ele assume. M a s esta circunstância — insiste M . Blaug — "não nos deveria cegar quanto
ao facto de a aceitação dos resultados do sistema de preços concorrenciais ser um juízo
de valor" porque "o sistema de preços é uma eleição em que alguns eleitores podem
votar mais do que uma vez, e em que a única forma de votar é gastando dinheiro. "4X
A história das sociedades humanas mostra que o mercado não é u m puro
mecanismo natural de afectação eficiente e neutra de recursos escassos e de regulação
automática da economia. O mercado deve antes considerar-se, c o m o o Estado, u m a
instituição social, u m produto da história, u m a criação histórica da humanidade
(correspondente a determinadas circunstâncias econômicas, sociais, políticas e
ideológicas), que veio servir (e serve) os interesses de uns (mas não os interesses de

47. Depoimento em A. KLAMER, 183/184.


48. Ver A. J. AVELÃS NUNES, [2].
448 Antônio José Avelãs Nunes

todos), u m a instituição política destinada a regular e a manter determinadas estruturas


de poder que asseguram a prevalência dos interesses de certos grupos sociais sobre os
interesses de outros grupos sociais. "Longe de serem 'naturais', os mercados são
políticos" sustenta David Miliband.49 Quer dizer: o mercado e o Estado são ambos
instituições sociais, que não só coexistem como são interdependentes, construindo-se
e reformando-se u m ao outro no processo da sua interacção.
Nesta óptica, a questão fundamental não é a de saber se deve escolher-se
o mercado ou o Estado, ou m e s m o a de saber qual o peso do mercado e qual o peso do
Estado (sendo certo que bom Estado significa algo mais do que menos Estado). A
questão fundamental é a de saber que tipo de mercados pretendemos criar e que tipo de
Estado pretendemos desenvolver.
À luz do que fica dito, resulta que a defesa do mercado c o m o mecanismo
de regulação automática da economia, por oposição à intervenção do Estado neste
domínio e c o m este objectivo, não representa apenas u m ponto de vista técnico sobre
u m problema técnico. E m boa verdade, a defesa do mercado é a defesa do modelo (da
concepção filosófica) liberal, que vê no mercado u m a instituição natural, autônoma,
soberana, capaz de u m a arbitragem neulral dos conflitos de interesses, u m a instituição
que "não pode ser justa nem injusta, porque os resultados não são planeados nem
previstos e dependem de uma multidão de circunstâncias que não são conhecidas, na
sua totalidade, por quem quer que seja." (Hayek) 50 E é também a defesa da concepção
liberal do Estado, entendendo este como instância separada da economia e da sociedade
civil e considerando a não-intervenção do Estado na economia c o m o u m corolário da
natureza do Estado enquanto pura instância política.
Ora esta é u m a concepção que — deixando agora de lado o entendimento
dosfisiocratas,de Locke e de A d a m Smith — deliberadamente ignora a 'compreensão'
da natureza de classe do Estado (para o dizermos e m linguagem marxista), revelando-
se incapaz de compreender que a não-intervenção do Estado na economia é apenas —

49. Cfr. D. MILIBAND.


50. Hayek entende que só faria sentido falar de justiça ou injustiça acerca da distribuição dos benefícios
e dos ônus operada pelos mecanismos do mercado se essa distribuição fosse o resultado da acção deliberada
de alguma pessoa ou grupo de pessoas, o que não é o caso. Por isso ele defende que a ex pressão justiça
social deveria ser abolida da nossa linguagem. "A expressão 'justiça social'não é, como a maioria das
pessoas provavelmente sente — escreve ele — uniu expressão inocente de boa vontade para com os
menos afortunados, (...) tendo-se transformado numa insinuação desonesta de que se deve concordar
com as exigências de alguns interesses específicos que não oferecem paru tanto qualquer razão autêntica "
(apud D. G R E E N , 127). N o limite, a confiança nas virtudes do mercado e úafree socicty poderá levar
mesmo à conclusão de que "a pobreza é o fruto áa preguiça" (William Simon, citado por P.
R O S A N V A L L O N , 89).
Neoliberalismo e Direitos Humanos 449

c o m o os diversos tipos de intervenção — u m a das formas de o Estado capitalista


cumprir a sua missão essencial de garantir as condições gerais indispensáveis ao
funcionamento do m o d o de produção capitalista e à manutenção das estruturas sociais
que o viabilizam.
Vistas assim as coisas, a defesa do mercado veicula u m a concepção acerca
da ordem social que se considera desejável e consagra u m a atitude de defesa da ordem
social que tem no mercado u m dos seus pilares. Tal c o m o a crítica do mercado e do
seu pretenso caracter natural (por parte de marxistas, keynesianos, radicais ou
ecologistas) veicula u m propósito de introduzir mudanças na ordem social estabelecida
ou de a substituir por outra ordem social.

19. Importa salientar, por outro lado, que as concepções individualistas


e 'laisser-fairistas' que informam os vários monetarismos não podem desligar-se de
certas correntes dafilosofiapolítica que acusam o "excesso de carga do governo" de
ter conduzido à "ingovernabilidade das democracias" e o "excesso de democracia" de
ter provocado a "crise da democracia"
Para os que assim pensam, o inflacionamento das responsabilidades
atribuídas ao Estado (i.é, dos objectivos atribuídos à política econômica e social)
terá gerado u m a escalada nas expectativas das pessoas relativamente aos resultados
que esperam da acção dos governos. E estes têm visto acrescidas as suas tarefas e
alargada a esfera da actividade política; e têm visto aumentar as reivindicações e
alastrar a politização de problemas vários; e têm sofrido a generalização dos conflitos
sociais, emergentes até da dificuldade e m cumprir as promessas eleitorais e e m
satisfazer as aspirações crescentes das comunidades. Daí resultaria a frustração de
camadas sociais cada vez mais amplas, o afundamento dos governos e a crise da
democracia.
Para fugir ao dilema anarquia/Leviathan, a solução estaria no
revigoramento de u m a organização política assente no contrato, nos direitos individuais
e na propriedade privada, cabendo ao Estado apenas a função de proteger a ordem
social assim fundada e orientada de acordo com o princípio egoísta de maximização de
interesses individuais que a mão invisível conciliaria.
O s neoliberais dos nossos dias colocam a liberdade individual (a liberdade
para escolher de que fala Milton Friedman) acima de quaisquer outros valores. E
defendem que a liberdade econômica é condição sine qua non da liberdade política. A
economia de mercado livre impõe-se, nesta óptica, não apenas pela superior eficiência
450 Antônio José Avelãs Nunes

econômica que lhe é atribuída, mas também por razões de ordem política: c o m o se diz
na proclamação da Société du Mont Pélérin (1947), que Friedman subscreveu e e m
cujos trabalhos participou, "sem o poder difuso e a iniciativa associada a estas
instituições [a propriedade privada e o mercado de concorrência], é difícil imaginar
51
uma sociedade em que a liberdade possa ser efectivamente salvaguardada"
N a esteira de Hayek, rejeita-se, como inimiga da liberdade,
"a ilusão do homem à semelhança de Prometeu, alimentada por umafilosofiasocial
de tipo construtivista" c proclama-sc que "a civilização é o resultado de um cresci-
mento espontâneo e não de uma vontade". Só a "ordem espontânea" consubstanciada
no mercado asseguraria afree society. Qualquer propósito de intervenção do Estado,
m e s m o que apenas para corrigir injustiças, é identificado c o m o o caminho da servidão
(título do livro famoso de Hayek, publicado e m Chicago e m 1944).
52
A este respeito, o Friedman de Capitalism and Freedom não hesita
e m colocar no m e s m o plano os dois elementos que, a seu ver, ameaçam a preservação
e a expansão da liberdade.
Por u m lado, o que podemos chamar o inimigo externo (então, "a ameaça
externa vinda do h o m e m m a u do Kremlin, que promete enterrar-nos"; agora, Bin Laden,
o Iraque e todos aqueles que tenham a desventura de c o m o tal ser 'eleitos' pela
Administração de serviço e m Washington).
Por outro lado, o inimigo interno ("a ameaça interna, bastante mais subtil,
vinda dos homens de boas intenções e de boa vontade que desejam reformar a sociedade
(...) e obter grandes transformações sociais" c o m base na ampliação da esfera de
responsabilidade do Estado e no alargamento do seu campo de intervenção).53
A história mostra que a necessidade de dar combate ao inimigo interno
foi sempre a mola impulsionadora e a razão 'legitimadora' de todos os totalitarismos.
M a s os neoliberais não querem saber da história e não vacilam perante as conseqüências
prováveis da aplicação rigorosa dos seus dogmas. E insistem na defesa da solução que
passaria pela privatização do sector empresarial do Estado e dos serviços públicos,
pela separação da esfera política (que competiria ao Estado) da esfera econômica (do
foro exclusivo dos particulares), pela 'libertação da sociedade civil' E passaria,
também, por u m controlo social através de u m a nova pedagogia de 'disciplina' dos
professores e de reforço do papel dos pais nas escolas, pelo controlo das fontes de

51. Ver M. Rojas MIX.


52. Cfr. M. e Rose FRIEDMAN, [1].
53. Ver H. LEPAGE, [I], 329-365 e D. GREEN, 109-150.
Neoliberalismo e Direitos Humanos 451

informação, pela marginalização dos intelectuais nocivos e dos grupos que lhes estão
próximos.54
É notório que esta lógica transporta no seu seio u m a crítica à filosofia
informadora e à prática concretizadora da democracia econômica e social que ganhou
foros de constitucionalidade e m b o m número de países, sobretudo após a Segunda
Guerra Mundial. E é notório também que ela arrasta consigo projectos de orientação
totalitária, considerados c o m o que o fruto necessário do excesso de carga do governo
e da ingovernabilidade das democracias, do excesso da democracia e da crise da
democracia, mas considerados também x e talvez primordialmente ae c o m o a solução
desejada para acabar com o "escândalo' dos opressivos monopólios do trabalho por
parte de quantos proclamam que "os sindicatos começam a ser incompatíveis c o m a
economia de livre mercado", e para abater os inimigos internos, i.é, todos aqueles que,
embora cheios de boas intenções, cometem o "crime' de querer reformar a sociedade,
de pretender que o Estado seja agente de transformações sociais no sentido de u m a
sociedade mais justa e mais igualitária.
Salve-se, pois, o mercado, fonte pura e única da liberdade econômica e
da liberdade política.
E acabe-se c o m os sindicatos, c o m a contratação colectiva, c o m as
políticas de redistribuição do rendimento e com as políticas de pleno emprego, c o m a
legislação do salário mínimo, com os subsídios de desemprego, c o m as garantias da
segurança social, com a legislação reguladora dos despedimentos e c o m todas as
'imperfeições' e 'impurezas' que perturbam o b o m funcionamento de u m a sociedade
que se ficciona ser composta por homens livres e iguais.
E acabe-se também, é claro com tudo o que esteja ao serviço destas
conquistas históricas das sociedades humanas.
E dómestiquem-se os professores. E controlem-se as fontes de
informação. E marginalizem-se os intelectuais nocivos... e promovam-se os intelectuais
bem comportados.

20. Esta é uma lógica particularmente preocupante, tanto mais que ela
se desenvolve e m sociedades nas quais se vão cristalizando, a todos os níveis das

54. Estas outras propostas constam de u m relatório apresentado por M . Crozier, S. P. Huntington e J.
Wanatuki à Comissão Trilateral ("The Crisis of Deinocracy: Report on the Governability of Democracies
lo lhe Trilateral Comission", N. York, 1975), referido por J. C A N O T I L H O , 338/339. Diz-se que, perante
a calamidade dos fogos florestais nos E U A , o Presidente Georges W . Bush terá sugerido u m a 'solução
final': arrancar as árvores todas! C o m o se vê, o ilustre Presidente não inventou nada: perante a "crise da
democracia', os ilustres 'sábios' acima citados sugeriam u m a "soluçãofinal':acabar com a democracia!
452 Antônio José Avelãs Nunes

estruturas econômicas, sociais, políticas e culturais, formas insidiosas que redundam


naquilo que Bertram Gross designa por "fascismo amigável", resultado da "consolidação
dos interesses do Big Government e do Big Business", com "a sua fachada cosmética,
a sua subtil manipulação, as suas luvas de veludo (...), o seu subtle appeal."5S
O friendly fascism é apontado c o m o a face política de u m capitalismo
governado e m última instância pela oligarquia do grande capital, que tanto faz negócio
com o Welfare como c o m o Warfare, dando sentido à designação de Warfare-Welfare
State (James 0'Connor), e que carece da presença activa do Estado, quer no plano
interno quer no plano externo.
Por mais que proclamem o contrário os saudosistas dos tempos heróicos
do capitalismo, ninguém acreditará que a força das suas idéias permita o regresso ao
'paraíso perdido' do capitalismo de concorrência. M e s m o os que crêem que é a força
das idéias que governa o mundo não deixarão por certo de considerar impossível que
os grandes monopólios dos nossos dias possam vir a tornar-se escravos de qualquer
economista morto... ou vivo, parafraseando a célebre sentença de Lord Keynes.
O liberalismo não matará os "monopólios' que têm ampliado e
aprofundado o seu poder, apesar de todas as legislações anti-monopolistas. E as
exigências decorrentes da evolução tecnológica e da concentração econômica que
caracterizam o capitalismo actual não permitem que os grandes conglomerados que
lideram o capitalismo à escala mundial possam dispensar o sistema de incentivos e de
segurança (econômica, política e até militar) que representa para eles a acção do Estado
capitalista, quer nos países dominantes quer nos países dominados. C o m razão Galbrailh
lembrou que o governo Reagan foi u m dos mais intervencionistas que os E U A já
conheceram, apesar da apregoada cruzada contra o Estado intervencionista e contra a
regulação da economia pelo Estado.
A ideologia da Nova Direita (que às vezes gosta de se chamar direita
liberal), que aponta c o m o u m a necessidade a redução do Estado ao Estado mínimo, a
privatização de todos os serviços públicos, a desregulaçâo das relações laborais, a
limitação (eliminação) do poder dos sindicatos, a destruição do Estado-providência,
não passa de mera cobertura da necessidade de realçar u m novo estilo de actividade do
Big Government, por certo contra os "opressivos monopólios do trabalho", mas não
contra o Big Business, os grandes monopólios empresariais, os poderosos
conglomerados multinacionais.
É esta a lógica da política de globalização neoliberal comandada pelo

55. Cfr. B. GROSS.


Neoliberalismo e Direitos Humanos 453

capitalfinanceironeste nosso mundo unipolar. Só que esta lógica, que aponta para a
aniquilação do Estado-nação, a paralisia da política, a morte da política econômica
constitui u m perigo para a democracia. Sem entidades nacionais responsáveis, a quem
podem pedir contas os cidadãos eleitores? A prestação de contas — que é a pedra de
toque da democracia—só é exigível a quem tem meios para governar responsavelmente.

21. Neste tempo de angústias e de esperanças, todos temos a consciência


de que o trabalho dos homens, após o advento do capitalismo, provocou u m enorme
desenvolvimento das forças produtivas, e, acima de tudo, u m extraordinário
desenvolvimento do próprio h o m e m , enquanto produtor e titular de ciência, de
tecnologia, de informação. Este desenvolvimento das capacidades produtivas tem
libertado o h o m e m trabalhador do seu fardo milenar de ser besta de carga; tem
proporcionado ao h o m e m trabalhador condições de trabalho mais dignas; tem
aumentado a produtividade do trabalho para níveis até há pouco insuspeitos; tem
permitido a redução significativa da jornada de trabalho; tem oferecido melhores
condições de vida a u m a parte da humanidade.
Hoje sabemos que o conhecido aumento do número de famintos não
apaga a certeza que temos de que a nossa capacidade de produzir alimentos — e m e s m o
a produção efectivá de alimentos — é superior às necessidades da humanidade. Se a
fome existe (e até vai aumentando), não é porque os meios naturais, humanos e técnicos
disponíveis não permitam a produção de alimentos suficientes para dar de comer a
todos os habitantes do nosso planeta. O problema é outro. E Amartya Sen identifica-o
com rigor: o facto de haver pessoas que passam fome — e que morrem de fome —,
apesar da abundância de bens (ou pelo menos da existência de bens e m quantidade
suficiente), só pode explicar-se pela falta de direitos e não pela escassez de bens. O
problema fundamental é o da organização da sociedade.
Comentando este ponto de vista de Sen, pergunta Dahrendorf: "porque é
que os homens, quando está e m jogo a sua sobrevivência, não tomam simplesmente para
si aquilo e m que supostamente não devem tocar mas que está ao seu alcance? C o m o é que
o direito e a ordem podem ser mais fortes do que o ser ou não serV [o itálico é meu. A N ]
Para os que reduzem os homens ao fantasma do homo oeconomicus
enquanto ser capaz de escolhas racionais, dir-se-ia que os homens, m e s m o quando está
e m causa a sua sobrevivência, quando está e m causa ser ou não ser, escolhem,
racionalmente, não fazer nada, i. é, escolhem não tomar para si aquilo de que carecem
e m absoluto e que está ao seu alcance.
454 Antônio José Avelãs Nunes

M a s é claro que o absurdo desta resposta deixa antever que a questão é


outra. Esse comportamento cxplica-sc pela falta de direitos (ou falta de poder). A
organização econômica das sociedades capitalistas representa u m a determinada
estrutura de poder, assente na propriedade burguesa. E esta é u m a propriedade perfeita,
absoluta e excluente, consagrada pelo direito e garantida pela força coerciva do Estado,
que exclui os não proprietários do acesso ao que, embora ao seu alcance, eles não têm
o direito (o poder) de tocar.
Porque o Estado — c o m o já os fisiocratas puseram e m destaque —
existe para "punir, pelo magistério dos magistrados, o pequeno número de pessoas
que atentam contra a propriedade de outrem" (Dupont de Nemours), para garantir a
propriedade "pela Justiça distributiva e poder político ou militar" (Nicolas Baudeau).
Porque o Estado, sublinha John Locke "não tem qualquer outro objectivo
que não seja a preservação da propriedade "
Porque o Estado é instituído "com vista à defesa dos ricos em prejuízo
dos pobres, ou daqueles que possuem alguma coisa em detrimento daqueles que nada
possuem " cabendo-lhe a missão fundamental de "manutenção e consolidação dessa
autoridade e subordinação" que surgiu nas sociedades humanas c o m o aparecimento
da propriedade privada (de "propriedades vastas e valiosas") e da "desigualdade de
fortuna", [introduzi o itálico. A N ]
Nestas palavras de A d a m Smith, u m dos pais fundadores do liberalismo,
está a resposta ao liberal Dahrendorf: a fome não resulta da escassez de bens, mas de
u m a organização sócio-económica garantida pelo poder político e militar de u m Estado
que existe para "defesa dos ricos e m prejuízo dos pobres"
A questão fundamental é, afinal, a questão do poder. M a s esta é u m a
questão que os liberais afastam na sua análise do mercado, ao pressuporem u m mercado
concorrencial, constituído por u m número muito elevado de vendedores e de
compradores, cada u m deles suficientemente pequeno para não poder exercer qualquer
influência sobre a oferta ou a procura do mercado. E afastam também na sua análise da
sociedade, ao conceberem-na c o m o u m conjunto de indivíduos isolados,
atomisticamente considerados, livres e iguais e m direitos.

22. Mas Dahrendorf faz ainda outra pergunta: "o que seria preciso para
modificar as estruturas de direitos, de modo a que mais ninguém tivesse fome?" A
própria pergunta parece encerrar a resposta: é preciso modificar as estruturas de direitos,
i. é, as estruturas do poder econômico e do poder político, modificar a racionalidade
Neoliberalismo e Direitos Humanos 455

que preside às economias e às sociedades capitalistas. É preciso rejeitar a lógica


neoliberal, que deixa de fora da análise econômica e social da realidade o poder, as
relações de poder e as estruturas do poder, e sustenta que tudo aquilo de que a
humanidade precisa é u m mercado livre, que o resto vem por si. A o contrário: o mercado
(c as suas pretensas leis 'naturais' aprioristicamente capazes de resolver todos os
problemas da humanidade) é precisamente u m dos mecanismos fundamentais da
estrutura de direitos e poderes que se admite ser necessário modificar.
Sobretudo n u m tempo e m que, com a emergência dos problemas do
ambiente, a 'filosofia' neoliberal e o império do mercado vêm transformando a própria
vida e m objecto de negócio, pondo e m causa o próprio direito à vida.
Muitos anunciam que o negócio da água será o grande negócio do século
XXI. Se todos sabemos que a água é absolutamente essencial à vida, como pode admitir-
se que ela seja objecto de chorudos negócios?
O s grandes senhores do mundo estão a organizar u m mercado e m que
se compram e vendem direitos de poluirl Ora os bens postos e m causa pela poluição
implicam a própria sobrevivência da humanidade. M a s então o seu destino não pode
ficar entregue à lógica do mercado. A vida não é u m a 'mercadoria' cuja sorte possa
confiar-se às leis 'cegas' do mercado.
A preservação da vida humana exige cada vez mais u m a sociedade
diferente da que hoje conhecemos, u m tipo de desenvolvimento radicalmente diferente
deste "senseless cancerous growth" (W. Weisskopf), u m sistema econômico que rejeite
e m absoluto a "mercantilização da vida" (R. Heilbroner), e que assuma c o m o meta u m
paradigma de desenvolvimento que não identifique o mais com o melhor.56

23. A destruição do Estado-nação e, nomeadamente, a liquidação do


Estado-providência para que aponta o projecto neoliberal de sociedade não pode ser o
caminho por onde passará a história futura do capitalismo. Já o velho Lacordaire alertava
para o facto de "entre lefort et lefaible, entre le riche et le pauvre, entre le maitre et le
serviteur, c'est Ia liberte qui opprime et Ia loi qui affranchit." E m 1980, e m comunicação
apresentada ao Congresso Mundial de Economistas, no México, Paul Samuelson
chamava a atenção para o caracter liberticida do mercado, lembrando os perigos do
"fascismo de mercado".57
C o m Samuelson e Nordhaus, acredito que "são poucos aqueles que
56. Cfr. W. WEISSKOPF e R. HEILBRONER,[l],
57. Ver R. GREEN e R. VILLAREAL.
456 Antônio José Avelãs Nunes

propõem que o relógio da história volte para trás". Basta pensar no Estado-providência
de inspiração keynesiana. Defendê-lo não significa defender a destruição, a subversão
do capitalismo, a sua substituição por u m outro sistema.
Embora conscientes disto m e s m o (o Estado-providência não é o caminho
para a revolução socialista!), uns defendem-no porque entendem que ele é u m factor
de 'humanização' do capitalismo e de melhoria das condições de vida e de trabalho da
grande massa dos trabalhadores.
Outros defendem-no porque compreendem que ele é u m elemento de
regulação estrutural do capitalismo contemporâneo, permitindo que o Estado capitalista
assegure, nas condições actuais, a conciliação das duas condições essenciais à sua
sobrevivência e à sobrevivência do próprio sistema: garantir a acumulação do capital e
salvaguardar a sua legitimação social.
N o que m e diz respeito, creio que o capitalismo, na sua fase actual, se se
quiserem respeitar as regras do 'jogo democrático' não pode dispensar u m a estrutura
c o m o esta, ainda que carecida de algumas adaptações. T a m b é m nesta óptica o
capitalismo não pode admitir a "morte de Keynes" (título de u m ensaio de Robcrt
Lucas): a "revolução keynesiana" tem de ser assumida, no quadro do capitalismo,
como uma "revoluçãopermanente"

24. A vida mostra que o homem não deixou de ser o lobo do homem.
Neste m u n d o antropofágico, morrem por ano, de fome ou de doenças derivadas da
fome, quase tantas pessoas como as que morreram durante a Segunda Guerra Mundial,
o que eqüivale a u m a violentíssima 'guerra civil' no seio da nossa 'aldeia global'. N o
conjunto dos países da O C D E , cerca de cem milhões de pessoas vivem abaixo do
limiar da pobreza. Cerca de trezentos milhões de crianças sofrem diariamente a mais
brutal violência física e moral.
A s desigualdades entre ricos e pobres à escala mundial têm vindo a
agravar-se acentuadamente, aumentando sem cessar o número de excluídos. E a verdade
é que a exclusão social como que significa a eliminação dos excluídos. Os explorados,
apesar de o serem, estão dentro do "sistema', porque, por definição, sem explorados não
podem viver os exploradores. Por isso mesmo, e m alguma medida, estes não podem
ignorar e m absoluto a necessidade de sobrevivência daqueles. A o invés, os excluídos
não contam para o "sistema' D e facto, é como se não existissem.
A globalização neoliberal tem vindo a acentuar a natureza do capitalismo
c o m o "civilização das desigualdades" ao m e s m o tempo que os centros de produção
Neoliberalismo e Direitos Humanos 457

ideológica ao serviço dos interesses dominantes e do 'império' totalitário v ê m


propagando a idéia de que a globalização e a concorrência de todos contra todos, c o m o
resultado dos desenvolvimentos tecnológicos no domínio das comunicações, da
informática e dos transportes, torna inevitável, m e s m o nos países desenvolvidos, o
nivelamento por baixo dos salários e dos direitos históricos dos trabalhadores, o aumento
das desigualdades sociais e o abandono do Estado-providência.
A o m e s m o tempo, quando nos falam na 'mão invisível' do mercado c o m o
fonte inspiradora de todas as soluções para todos os problemas, sabemos que estão a
esconder-nos a mão visível, omnipresente e omnipotente dos grandes conglomerados
internacionais que governam o mundo e decidem da paz e da guerra (isto é, decidem
sobre a vida de milhões de pessoas) pela acção dos seus "capatazes'

Tudo isto é verdade. Mas creio que, apesar das profundas contradições
deste nosso tempo (tempo de grande esperança e de grande desespero), temos razões
para acreditar que podemos viver n u m mundo de cooperação e de solidariedade, n u m
m u n d o capaz de responder satisfatoriamente às necessidades fundamentais de todos
os habitantes do planeta.
O desenvolvimento científico e tecnológico conseguido pela civilização
burguesa proporcionou u m aumento meteórico da produtividade do trabalho humano,
criando condições novas no que toca à capacidade de produção. Este desenvolvimento
das forças produtivas (entre as quais avulta o homem e o seu conhecimento, o seu
saber c a informação acumulada ao longo de gerações) parece confirmar a utopia
marxista da passagem do reino da necessidade para o reino da liberdade, carecendo
apenas de novas relações sociais de produção, de u m novo m o d o de organizar a nossa
vida colectiva. U m dia destes — que não será amanhã, porque o ritmo da história não
pode medir-se pelo ritmo da nossa própria vida — talvez saibamos construir u m a
alternativa ao caos suicidário a que nos querem condenar. Ponto é que levemos a sério
o aviso de Christian Stoffaês: "a economia contemporânea precisa mais de filósofos
do que de econometristas"

25. E os filósofos ensinam-nos que a crítica da globalização não pode


confundir-se com a defesa do regresso a u m qualquer 'paraíso perdido', negador da
ciência e do progresso. A saída desta caminhada vertiginosa para o abismo tem de
assentar na confiança no h o m e m e nas suas capacidades. T e m de partir da rejeição da
lógica de u m a qualquer inevitabilidade tecnológica, que nos imporia, sem alternativa
458 Antônio José Avelãs Nunes

possível, a actual globalização neoliberal, u m a das marcas incontornáveis desta


civilização-llm-da-história.
Esta 'globalização' não é u m "produto técnico' deterministicamentc
resultante da evolução tecnológica, c antes u m projecto político levado a cabo de forma
consciente e sistemática pelos poderes dominantes, enquadrado e dominado pela
ideologia dominante. Correspondentemente, a luta por u m a sociedade alternativa
pressupõe u m espírito de resistência e u m projecto político inspirado e m valores e
empenhado e m objectivos que o "mercado' não reconhece nem é capaz de prosseguir.
Só assim, fazendo prevalecer a política sobre as pretensas 'leis naturais' do mercado, é
possível impedir que a globalização neoliberal, de u m a armadilha para a democracia
(H.-P. Martin e H. Schuman) que já é, se transforme e m instrumento de morte da
democracia.
Todos sabemos, porém, que as mudanças necessárias não acontecem só
porque nós acreditamos que é possível u m mundo melhor. Estas mudanças hão-de
verificar-se como resultado das leis de movimento das sociedades humanas. Todos
sabemos também que o voluntarismo e as boas intenções nunca foram o motor da
história. M a s a consciência disto m e s m o não pode anular a nossa confiança na acção
colcctiva das forças empenhadas e m transformar o mundo, nem tem de matar o nosso
direito à utopia e o nosso direito ao sonho. Porque a utopia ajuda afazer o caminho e
porque o sonho comanda a vida.

Fornotelheiro, Quinta dos Casões, Portugal


São Paulo, fevereiro de 2003.
Neoliberalismo e Direitos Humanos 459

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