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HONNETH, A.

Condições intersubjetivas da integridade pessoal: uma concepção formal


de eticidade. In: ______. Luta por reconhecimento: a gramática moral dos conflitos
sociais. São Paulo: Editora 34, 2003, pp. 269-280.

Em sua conclusão, Honneth (2003, p. 269) define a luta por reconhecimento como
“quadro interpretativo crítico de processos de evolução social” que necessita de uma
justificativa teórico-normativo. Como estado último das lutas sociais, o reconhecimento
necessita de uma historiografia popular de qualidade que compreenda as motivações de
tal evolução. Como o posicionamento sobre moral kantiano apresenta-se como estreito,
Honneth encontra em Hegel e Mead a perspectiva de um reconhecimento pós-tradicional,
pós-metafísico e democrático, no qual sujeitos se encontram na sociedade como
autônomos e individualizados. Esta posição situa a concepção moral de Honneth entre
uma atitude universalista pertinente à tradição kantiana e um ethos de um mundo da vida
particular. A este posicionamento, que não é propriamente kantiano nem comunitarista,
Gregor Sauerwald (2008) deu o título de “universalismo contextualista”, destacando a sua
relação tanto com normas universais quanto com a necessária orientação para a
autorrealização.

Ao se situar na tradição filosófica da moral, Honneth (2003, p. 270) nos conduz a


um conceito preliminar de eticidade: “ethos de um mundo da vida particular que se tornou
hábito, do qual só se podem fazer juízos normativos na medida em que ele é capaz de se
aproximar das exigências daqueles princípios morais universais”. Nesta concepção, fica
clara a dependência de concepções históricas e cambiáveis de vida boa, representando
uma inversão na relação entre a moralidade e a eticidade. Concentrando-se mais
diretamente nos propósitos de autorrealização, a eticidade também surge como “todo das
condições intersubjetivas das quais se pode demonstrar que servem à autorrealização
individual na qualidade de pressupostos normativos” (Honneth, 2003, p. 271). Para
contemplar teoricamente a complexidade deste conceito, é necessário destacar as
determinações formais e abstratas que o possibilitam. Para tanto, surgem as categorias de
reconhecimento:

as formas de reconhecimento do amor, do direito e da solidariedade formam


dispositivos de proteção intersubjetivos que asseguram as condições da
liberdade externa e interna, das quais depende o processo de uma articulação e
de uma realização espontânea de metas individuais de vida; além disso, visto
que não representam absolutamente determinados conjuntos institucionais,
mas somente padrões comportamentais universais, elas se distinguem da
totalidade concreta de todas as formas particulares de vida na qualidade de
elementos estruturais (Honneth, 2003p. 274).

As condições intersubjetivas que possibilitam uma autorrelação prática do sujeito são


encontradas no trabalho empírico de Mead, que destaca o nexo entre a experiência de
reconhecimento e a relação do sujeito consigo: “os indivíduos se constituem como
pessoas unicamente porque, da perspectiva dos outros que assentem ou encorajam,
aprendem a se referir a si mesmos como seres a que cabem determinadas propriedades e
capacidades” (Honneth, 2003, p. 272). Para efetivação desta autorrelação, autoconfiança,
autonomia jurídica e segurança de suas capacidades são imprescindíveis e se constituem
na relação com parceiros de interação. As condições históricas, bem como o potencial das
esferas jurídica e comunitária, também inferem na possibilidade de autorrealização dos
sujeitos. Por isso, é necessário indicar os valores materiais necessários à eticidade.