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UM

CHAMADO À CONVERSÃO
Richard Baxter
Direitos Autorais da Tradução © 2015 Tiago Cunha


Tradução e Revisão
Tiago Cunha

Capa
Dorisvan Cunha
Dedico esta tradução a meus pais, Dorino e Ercília, com amor.
Índice
PREFÁCIO
DISCURSO 1
DOUTRINA 1
DISCURSO 2
Doutrina 2
Doutrina 3
Doutrina 4
Doutrina 5
DISCURSO 3
Doutrina 6
DISCURSO 4
Doutrina 7
ORIENTAÇÃO 1
ORIENTAÇÃO 2
ORIENTAÇÃO 3
ORIENTAÇÃO 4
ORIENTAÇÃO 5
ORIENTAÇÃO 6
ORIENTAÇÃO 7
ORIENTAÇÃO 8
ORIENTAÇÃO 9
ORIENTAÇÃO 10
UM BREVE RELATO DO AUTOR E DO GRANDE SUCESSO QUE ACOMPANHOU O
CHAMADO QUANDO DE SUA PRIMEIRA PUBLICAÇÃO

PREFÁCIO

A todas as pessoas não santificadas que lerão este livro, especialmente aos meus ouvintes na vila e
paróquia de Kidderminster.

Homens e irmãos,
O Deus eterno, que os criou para a vida eterna, e os redimiu por seu único Filho, quando vocês a
haviam perdido e a si mesmos, sendo-lhes atencioso nos seus pecados e miséria, compôs o evangelho,
selou-o pelo seu Espírito e ordenou a seus ministros que o pregassem ao mundo, para que, sendo-lhes
ofertado livremente o perdão, e os céus abertos diante de vocês, pudesse chamá-los de seus prazeres
carnais e de seguirem no encalço deste mundo enganoso, e os familiarizasse com a vida para a qual foram
criados e redimidos, antes que estivessem mortos e sem remédio.
Ele não lhes envia profetas ou apóstolos, que recebem suas mensagens por revelação imediata, mas os
chama por meio de seus simples ministros, que são comissionados por ele a pregar-lhes o mesmo
evangelho primeiramente entregue por Cristo e seus apóstolos. O Senhor vê como vocês esqueceram-se
dele e de seu fim principal, e como menosprezam as coisas eternas, à semelhança de homens que não
entendem o que devem fazer ou sofrer. Ele vê como são ousados no pecado, e destemidos, mesmo com as
ameaças, e como são descuidados de suas almas, e como a obra dos infiéis se acha nas suas vidas, ao
mesmo tempo em que a fé cristã está nas suas bocas.
Ele vê o terrível dia se aproximando, quando suas dores começarão, e deverão lamentar isso tudo com
clamores inúteis, em tormento e desespero. E, então, a lembrança de suas tolices rasgará seus corações,
se a verdadeira conversão disso não os livrar agora.
Compadecido de suas almas pecaminosas e miseráveis, o Senhor, que conhece sua situação melhor do
que vocês mesmos, nos comissionou a falar-lhes em Seu nome (2 Coríntios 5:19) e a lhes dizer
abertamente sobre seus pecados e miséria, e sobre qual será seu fim e como verão brevemente uma triste
mudança, se persistirem nisso por mais um pouco.
Havendo-os comprado por tão caro preço como é o sangue de seu Filho Jesus Cristo, e lhes feito
promessas de perdão tão livres e abrangentes, e de graça e glória eternas, Ele nos ordenou que lhes
oferecêssemos isso tudo como dádiva de Deus, e que lhes suplicássemos a considerarem a necessidade e
dignidade daquilo que oferecia. Ele os vê e lhes é compassivo, enquanto estão submersos nos cuidados e
prazeres mundanos, avidamente seguindo após brinquedos infantis, gastando o tempo curto e precioso por
coisas sem valor, tempo esse em que deveriam se preparar para uma vida eterna. Portanto, solenemente
nos ordenou que os chamássemos e lhes disséssemos sobre como desperdiçam seus esforços e estão
prestes a perder suas almas, e a lhes falar sobre coisas melhores e superiores que poderiam certamente
obter, se ouvissem o seu chamado (Isaías 55:1-3).
Cremos e obedecemos à voz de Deus. E viemos até vocês com a mensagem que nos incumbiu de
pregar, dizendo que instássemos, em tempo e fora de tempo, e que levantássemos nossas vozes como uma
trombeta e mostrássemos seus pecados e transgressões (Isaías 58.1-2; 1 Timóteo 4.1-2)
Mas, infelizmente, para o luto de nossas almas e a ruína das suas, vocês fecham os ouvidos, enrijecem
os pescoços, endurecem os corações, e nos enviam de volta a Deus com gemidos, para lhe dizer que
cumprimos seu chamado, mas que não pudemos lhes fazer bem, nem ao menos obter uma única audiência
sóbria.
Tomara nossos olhos fossem uma fonte de lágrimas, para que pudéssemos lamentar nosso povo
ignorante e descuidado, que tem Cristo diante de si, e o perdão, a vida e os céus, mas não tem corações
para conhecê-los e estimá-los! Que poderiam ter Cristo, a graça e a glória, bem como as demais coisas,
não fora sua voluntária negligência e desprezo! Tomara Deus enchesse nossos corações com mais
compaixão por essas almas miseráveis, para que pudéssemos nos atirar a seus pés, segui-las até as suas
casas e lhes falar com amargas lágrimas, pois, por muito tempo, temos lhes pregado em vão.
Estudamos a clareza para fazê-los entender; examinamos as palavras sérias e penetrantes, para fazê-
los sentir. Tudo em vão. Se os maiores assuntos funcionassem com eles, nós os despertaríamos. Se as
mais doces coisas funcionassem, nós os provocaríamos e ganharíamos seus corações. Se as coisas mais
terríveis funcionassem, ao menos os faríamos temer a impiedade. Se a verdade e a certeza os vencessem,
cedo os convenceríamos. Se o Deus que os criou e o Cristo que os comprou pudessem ser ouvidos, a
situação deles logo seria alterada. Se a Escritura pudesse ser ouvida, cedo prevaleceríamos. Se a razão
ou os melhores e mais convincentes motivos pudessem ser ouvidos, não duvidamos de que rápido os
convenceríamos. Se a experiência pudesse ser ouvida, mesmo a sua própria e a do mundo todo, a
situação estaria resolvida. Sim, se a consciência interior pudesse ser ouvida, a situação deles estaria
melhor do que a atual. Mas se nada puder ser ouvido, o que faremos por eles? Se o temível Deus do céu
for desprezado, com quem se preocuparão? Se o amor e o sangue inestimável do Redentor forem
menosprezados, o que será valorizado? Se os céus não lhes têm uma glória desejável, e as alegrias
eternas não tiverem valor; se podem zombar no inferno, e dançar sobre o abismo sem fundo e gracejar
com o fogo consumidor, e isso quando Deus e homem os alertam do perigo, o que faremos por almas
semelhantes a essas?
Uma vez mais, em nome do Deus dos céus, lhes trarei a mensagem que ele nos ordenou, e a deixarei
nestas linhas suspensas para convertê-los ou condená-los; para mudá-los ou suscitar contra vocês
julgamento, e para ser um testemunho às suas faces de que uma vez ouviram um sério chamado para que
se arrependessem.
Ouçam, vocês que são escravos do mundo e servos da carne e de Satanás! Que gastam seus dias
buscando a prosperidade na terra, e afogam suas consciências na bebida, na glutonaria, no ócio e nos
divertimentos tolos; que conhecem seus pecados e, ainda assim, pecam, como se desafiassem a Deus e o
suplicassem a lhes fazer o mal e a não os poupar! Ouçam, todos os que não se importam com Deus, nem
têm coração para as coisas santas, nem sentem prazer na Palavra ou no culto do Senhor, nem nos
pensamentos e menções da vida eterna! Vocês que são relaxados com suas almas imortais e nunca
separam uma única hora para investigar sobre a situação em que se encontram, se são santificados ou
profanos, e se estão prontos para comparecer perante o Senhor! Ouçam, todos vocês que, por pecar na
luz, se atordoaram na infidelidade, e não creem na palavra de Deus! Aquele que tem ouvidos para ouvir,
que ouça o chamado gracioso, mas terrível, de Deus! Seus olhos estão a todo tempo sobre vocês. Seus
pecados estão registrados e certamente terão notícias deles ainda. Deus possui o livro agora, e o
escreverá por inteiro nas suas consciências, com seus terrores, e desse modo vocês também o possuirão.
Ó pecadores, tomara soubessem ao menos o que estão fazendo! E que soubessem a quem estão
ofendendo! O sol é escuridão diante da Sua Majestade, esta mesma que vocês diariamente abusam e
provocam insensivelmente. Os anjos que pecaram não puderam permanecer diante dele, mas foram
lançados para baixo, para serem atormentados com os demônios. E ousam semelhantes vermes tolos
como vocês ofendê-lo tão insensivelmente, e se colocarem contra o seu Criador? Tomara vocês
soubessem ao menos um pouco da situação da alma miserável que chama o Deus vivo contra si! As
palavras de sua boca, que lhe fizeram, podem desfazê-lo; a fúria de seu rosto o cortará e lançará fora na
completa escuridão. Quão ansiosos estão os demônios que lhe tentaram a cair sobre você, e nada
esperam senão a palavra vinda de Deus para tomá-lo e usá-lo como sua propriedade! E assim, em um
momento, você estará no inferno. Se Deus for contra você, todas as coisas também o são. Este mundo é
tão somente a sua prisão, pois tudo o que tanto ama está nele. Você está apenas reservado nele para o dia
da ira (Jó 21:30).
O Juiz está vindo e a sua alma está, ao mesmo tempo, partindo. Ainda um pouco, e seu amigo dirá a
seu respeito: “Está morto”; e você verá as coisas que agora despreza, e sentirá aquilo em que agora não
acredita. A morte lhe trará um argumento ao qual não poderá responder, um argumento que efetivamente
refutará seus sofismas contrários à Palavra e aos caminhos do Senhor, e todas as suas imbecilidades
presunçosas. E, então, como será rápida a sua mudança de mente! Seja então um descrente, se puder.
Sustente então suas antigas palavras, que costumava proferir contra a vida santa e celestial! Defenda
então aquela causa, diante do Senhor, que costumava advogar contra seus mestres, e contra o povo
temente a Deus. Apegue-se então às suas antigas opiniões e pensamentos desdenhosos acerca da
diligência dos santos. Apronte agora as suas mais fortes razões, e fique de pé diante do Juiz, e defenda
como um homem a sua vida carnal, mundana e ímpia. Mas agora que tem Alguém com quem disputar, a
esse não irá subjugar, nem o desnudará tão facilmente como faz conosco, criaturas como você.
Ó pobre alma! Não há nada senão um fino véu de carne entre você e esta vista maravilhosa, que em
breve o silenciará, e mudará sua voz, e o fará mudar de opinião! Tão logo a morte levantar essa cortina,
você verá primeiro aquilo que rapidamente o deixará mudo. Como se apressa esse dia e hora em chegar!
Quando você não tiver senão mais algumas poucas horas alegres, alguns poucos tragos e bocados, e um
pouco mais das honras e riquezas do mundo, sua porção será gasta, e seus prazeres findarão, e tudo em
que você colocou o coração terá passado. De tudo aquilo pelo que você vende o Salvador e a salvação,
nada ficou senão o oneroso ajuste de contas. Como um ladrão que se assenta na taberna alegremente para
gastar o dinheiro roubado, enquanto os homens cavalgam a toda pressa para prendê-lo, assim ocorre com
você. Enquanto se encontra afogado em cuidados e prazeres carnais, e festejando com sua infâmia, a
morte vem a toda pressa para capturá-lo, e levar sua alma para um lugar e estado de que agora você
pouco conhece ou se importa.
Suponham que, enquanto estivessem ousados e ocupados no pecado, estivesse vindo um mensageiro
enviado de Londres para agarrá-los e matá-los. Ainda que não o vissem, se, contudo, soubessem que
estava vindo, isso acabaria com a sua festa, e ficariam a pensar sobre a velocidade desse mensageiro, e
ficariam a ouvir quando batesse as suas portas. Oh! Tomara pudessem ver com que pressa vem a morte,
mesmo que ela ainda não os tenha vencido! Nenhum mensageiro é tão veloz! Nenhum é mais certo! Tão
certo como o sol estará com vocês pela manhã, ainda que tenha muitas milhares e centenas de milhas para
percorrer à noite, também a morte rapidamente estará com vocês. E, então, o que será de suas diversões e
prazeres? Vocês farão gracejos e esbravejarão? Nesse dia, se rirão dos que lhe alertarem? Nessa hora,
será melhor ser um crente santificado ou um mundano sensual? “E aquilo que ajuntaram, para quem será”
(Lucas 12:19-21). Vocês não observam que os dias e semanas rapidamente passam, e as noites e manhãs
estão aceleradas, e rapidamente sucedem umas às outras? Vocês dormem “mas não a sua condenação”;
vocês tardam, mas “o juízo lavrado há longo tempo não tarda” (2 Pedro 2:3), para o qual estão
“reservados” (2 Pedro 2:9 ). “Tomara fossem eles sábios! Então, entenderiam isto e atentariam para o
seu fim”. “Aquele que tem ouvidos para ouvir, que ouça o chamado de Deus neste dia de salvação”
(Deuteronômio 32:29).
Ó pecadores descuidados! Tomara nada conhecessem senão o amor ao qual tão ingratamente
negligenciam, e a preciosidade do sangue de Cristo ao qual desprezam! Oh! Que nada conhecessem senão
as riquezas do evangelho! Oh! Que nada conhecessem, senão um pouco da certeza, da glória e da bem-
aventurança dessa vida eterna, sobre a qual agora ainda não têm os corações firmados, nem estão
persuadidos a primeira e diligentemente buscar (Hebreus 11:6; 12:28 e Mateus 6:12). Se nada soubessem
senão a vida infindável com Deus que negligenciam, como seria rápida a sua fuga do pecado! Como seria
rápida sua mudança de mente e de vida, de curso e companhia; e como mudariam o fluxo de suas
afeições, e colocariam seus cuidados em outras coisas! Como resolutamente desprezariam a concessão a
estas mesmas tentações que agora os enganam e os arrebatam! Como zelosamente se moveriam após esta
vida bem-aventurada! Como estariam prontamente com Deus em oração! Como seriam diligentes em
ouvir, aprender e investigar! Como seriam sérios em meditar nas leis de Deus! (Salmo 1:1-2) Como
temeriam pecar em pensamento, palavra ou ação; e como seriam cuidadosos em agradar a Deus e crescer
em santidade! Oh! Como seriam pessoas transformadas! E por que não deveriam crer na palavra certa de
Deus, prevalecendo ela sobre vocês, esta mesma que lhes abre essas coisas gloriosas e eternas?
Mas, permita-me lhes dizer que, mesmo aqui, na terra, vocês pouco sabem a diferença entre a vida que
recusam e aquela que escolheram. Os santos são íntimos de Deus, ao passo que vocês raramente ousam
pensar nEle, e são íntimos apenas da terra e da carne. Eles conversam sobre o céu, enquanto vocês são
totalmente estranhos a este, e o Deus a quem servem é o ventre, e a sua preocupação é apenas com as
coisas terrenas (Filipenses 3:18-20). Eles buscam a face de Deus, enquanto vocês não buscam nada
superior a este mundo. Eles estão ocupados dispondo para a vida infinita, onde serão semelhantes aos
anjos (Lucas 20:36); enquanto vocês estão arrebatados com as sombras e coisas transitórias que nada
valem. Como são arriscadas e degradantes suas vidas terrenas, carnais e pecaminosas em comparação à
vida nobre e espiritual dos verdadeiros crentes!
Muitas vezes olhei para esses homens com dor e pena, vendo-os andar com dificuldade no mundo, e
gastar suas vidas, cuidados e trabalhos por nada mais do que um pouco de comida e vestuário, ou um
pouco de pálidos ganhos, ou de prazeres carnais, ou honras vazias, como se não tivessem nada mais alto
em mente. Que diferença há entre as vidas desses homens e das feras que perecem; homens que gastam
seu tempo no trabalho, na comida e na bebida, enquanto vivem? Não provam dos prazeres celestiais
interiores que os santos provam e nos quais vivem. Prefiro ter um pouco do conforto dos santos, que os
mencionados pensamentos acerca de sua herança celestial os concede - ainda que venha acompanhado de
todo o desprezo e sofrimentos - a ter todos os prazeres e prosperidades traiçoeiras que vocês têm. Não
queria ter nenhuma de suas opressões secretas e crises de consciência, nem os pensamentos negros e
terríveis sobre a morte e a vida porvir, em troca de tudo o que mundo lhes dá, ou que possam
razoavelmente esperar que ele o faça.
Se estivesse no seu estado carnal de não convertidos, e soubesse o que agora sei, e acreditasse no que
agora acredito, penso que minha vida teria um gosto antecipado do inferno. Como seriam frequentes os
meus pensamentos sobre os terrores do Senhor no dia lúgubre que se aproxima! A morte certa e o inferno
ainda estariam diante de mim. Pensaria neles de dia, e sonharia com eles à noite. Eu me deitaria com
medo, e com medo me levantaria, e viveria no temor de que a morte me alcançasse antes da conversão.
Teria pouquíssima felicidade nas coisas que possuísse, e pouco prazer em qualquer companhia, e pouca
alegria nas coisas do mundo, enquanto soubesse estar sob a maldição e ira de Deus. Estaria ainda no
temor de ouvir esta voz: “Louco, esta noite te pedirão a tua alma” (Lucas 12:20). E esta temível sentença
estaria escrita na minha consciência: “Para os perversos, todavia, não há paz, diz o SENHOR” (Isaías
48:22).
Ó pobres pecadores! É uma vida cheia de alegria que vocês poderiam desfrutar, se estivessem
verdadeiramente dispostos a ouvir a Cristo e vir a Deus. Poderiam, então, se aproximar de Deus com
ousadia, e chamá-lo de Pai, e confortavelmente confiar a Ele suas almas e corpos. Se olhassem para as
promessas, diriam: são para mim! Se para a maldição, poderiam dizer: disto fui liberto! Quando lessem a
lei, poderiam ver aquilo de que foram salvos! Quando lessem o evangelho, poderiam ver aquele que os
redimiu, o curso do seu amor, sua vida santa, seus sofrimentos, e segui-lo nas suas tentações, lágrimas e
sangue, na obra da salvação. Poderiam ver a morte conquistada, os céus abertos, e suas ressurreições e
glorificações fornecidas na ressurreição e glorificação do seu Senhor. Se olhassem para os santos,
poderiam dizer: “são meus irmãos e companheiros”. Se olhassem para os profanos, poderiam se
regozijar por se acharem salvos desse estado. Se olhassem para o céu, o sol, a lua e as inumeráveis
estrelas, poderiam pensar e dizer: “A face de meu Pai é infinitamente mais gloriosa; as coisas que ele
preparou para os seus santos são superiores; o que está ali não é senão o palácio exterior dos céus; a
bem-aventurança que nos prometeu vai muito além e é tão elevada que nem carne nem sangue podem
contemplar”. Se pensassem sobre o túmulo, poderiam lembrar-se que o Espírito glorificado, a Cabeça
viva, e o Pai amoroso, todos se encontram em relação tão próxima ao seu corpo de pó, que ele não pode
ser esquecido nem negligenciado; mas é mais certo que ele volte à vida do que as plantas e flores
renasçam na primavera; pois a alma, que é a raiz do corpo, ainda estará viva; e Cristo está vivo, que é a
raiz de ambos. Até mesmo a morte, que é a rainha dos terrores, poderia ser lembrada e desfrutada com
alegria, como sendo o dia da sua libertação do pecado residual e da dor, e o dia no qual creram,
esperaram e aguardaram, dia em que veriam as coisas benditas de que ouviram, e descobririam, pela
feliz experiência presente, como foi bom escolher a melhor parte, e ser um santo e sincero crente.
O que me diz, ó homem? Não é esta uma vida mais deleitosa? Estar seguro da salvação e pronto a
morrer não é melhor do que viver como os ímpios, que têm os corações sobrecarregados com os
excessos, bebidas e cuidados desta vida, vindo sobre eles inesperadamente o dia? (Lucas 21:34-36) Não
poderiam vocês viver uma vida confortável, se de uma vez fossem feitos herdeiros dos céus, e
assegurados de que seriam salvos ao deixarem o mundo? Oh! Olhem a sua volta, então, e pensem no que
estão fazendo, e não lancem fora semelhantes esperanças a troco de nada. A carne e o mundo não podem
lhes dar essas esperanças ou confortos.
E, além de toda a miséria que trazem sobre si mesmos, vocês são os perturbadores dos outros,
enquanto permanecem não convertidos. Vocês dão problemas aos magistrados para que lhes governem
com as leis; perturbam os ministros, ao resistirem à luz e aos conselhos que lhes oferecem. Seus pecados
e miséria são a causa das maiores aflições e problemas para eles no mundo. Vocês perturbam a
comunidade, e atraem os julgamentos de Deus sobre si. São vocês os que mais perturbam a paz santa e a
ordem das igrejas e impedem nossa união e reforma, e são a vergonha e o problema das igrejas onde se
intrometem, e nos lugares onde frequentam.
Ah! Senhor, como é pesada e triste esta situação, até mesmo na Inglaterra, onde abunda o evangelho
mais do que em qualquer nação do mundo, onde o ensino é tão claro e comum, e todos os auxílios que
desejamos estão próximos. Quando a espada nos retalhava, e o julgamento corria como fogo na nação, a
libertação nos aliviou, e tantas misericórdias admiráveis nos atraíram a Deus, e ao evangelho, e à vida
santa. Porém, como é triste que, após isso tudo, nossas cidades, vilas e campos abundem com multidões
de profanos, e enxameiem de tanta sensualidade, em toda parte, para nossa dor, como hoje vemos!
Alguém poderia pensar que, após toda essa luz, e toda essa experiência, e todos esses julgamentos e
misericórdias de Deus, o povo desta nação se reuniria, como um só homem, e se voltaria para o Senhor, e
viria aos seus mestres piedosos, lamentando todos os pecados de outrora, e desejando se juntar uns aos
outros em humilhação pública, para confessá-los abertamente, rogando ao Senhor perdão para eles, e
anelariam suas instruções, e estariam, a partir daí, felizes em ser governados pelo Espírito no seu
interior, e pelos ministros de Cristo no exterior, de acordo com a palavra de Deus. Alguém poderia
pensar que, após ouvirem esse arrazoado, com evidências da Escritura, como ouviram, e após todos
esses males e misericórdias, não haveria um ímpio entre nós, nem um mundano, nem um bêbado, ou
alguém que odiasse a reforma, nem um inimigo da santidade que fosse encontrado em todas as nossas
cidades ou campos. Se nem todos concordássemos acerca de certas cerimônias ou formas de governo,
alguém poderia pensar que, antes disso, todos deveríamos ter concordado em viver uma vida santa e
celestial, em obediência a Deus, à sua palavra e aos ministros, e em amor e paz uns com os outros.
Porém, infelizmente, como está longe o nosso povo dessa conduta! A maior parte deles, em muitos
lugares, põem, na verdade, seus corações em coisas terrenas e buscam “não em primeiro lugar o reino de
Deus e sua justiça”; mas contemplam a santidade como algo inútil. Suas famílias não oram, e até mesmo
algumas palavras sem coração e sem vida devem servir ao invés de orações ferventes, sinceras e diárias
[ou, talvez, apenas no dia do Senhor, à noite]. A seus filhos não se ensina o conhecimento de Cristo, do
pacto da graça, nem são criados no alimento do Senhor, ainda que tenham prometido firmemente isso tudo
por ocasião do batismo deles.
Não instruem seus servos nos assuntos da salvação, mas desde que façam seu trabalho, não se
importam. Há mais palavras de insulto em suas casas do que palavras graciosas, que tendem à
edificação. Como são poucas as famílias que temem ao Senhor, e buscam na sua Palavra e junto a seus
ministros sobre como devem viver, e o que devem fazer, e que estão dispostas a ser ensinadas e
governadas, e buscam de coração a vida eterna! E esses poucos a quem o Senhor fez tão felizes são
comumente motivo de chacota para os seus vizinhos. Quando vemos alguns vivendo na bebedeira, e
outros na soberba e mundanismo, e a maior parte deles com pouca consideração pela salvação, ainda que
sua situação seja, sem dúvida alguma, repulsiva, contudo, dificilmente serão convencidos de sua miséria,
e muito arduamente recuperados e reformados. Mas quando fizemos tudo o que está ao nosso alcance
para livrá-los de seus pecados, ainda deixamos a maior parte deles do modo pelo qual os encontramos. E
se, de acordo com a lei de Deus, os excomungamos da igreja, quando tiverem obstinadamente rejeitado
todas as nossas admoestações, rugem contra nós como se fôssemos seus inimigos, e seus corações se
enchem de malícia contra nós, e logo se colocarão contra o Senhor e suas leis, contra a igreja e os
ministros, ao invés de irem contra seus pecados mortais.
Esta é a dolorosa situação da Inglaterra. Temos magistrados que aprovam os caminhos da piedade, e
uma feliz oportunidade para a unidade e reforma diante de nós, e ministros fiéis anseiam por ver a justa
ordenação da igreja e das ordenanças de Deus; mas o poder do pecado em nosso povo frustra a quase
todos. Em quase nenhum lugar pode o fiel ministro aplicar a inquestionável disciplina de Cristo, ou
impedir o mais escandaloso dos pecadores impenitentes da comunhão da igreja e da participação nos
sacramentos, sem que a maior parte do povo não se lhe oponha e o difame. Como se essas almas
descuidadas e ignorantes fossem mais sábias que seus mestres, ou do que o próprio Deus! E assim, no dia
da nossa visitação, quando Deus nos chama a reformar sua igreja, não obstante o poder civil pareça
disposto, e ministros fiéis também, contudo, aí está a multidão de pessoas ainda indispostas, e se cegaram
de tal modo, endurecendo seus corações que, até mesmo nestes dias de luz e graça, são obstinadas
inimigas da luz e da graça, e não serão atraídas pelos chamados de Deus para que vejam suas tolices, e
saibam o que é bom para elas. Tomara o povo da Inglaterra “conhecesse por si mesmo, ainda hoje, o que
é devido à paz! Mas isso está agora oculto aos seus olhos” (Lucas 19:42).
Ó almas tolas e miseráveis! (Gálatas 3:1) Quem enfeitiçou suas mentes com essa loucura, e seus
corações com semelhante apatia, para que fossem inimigas mortais de si mesmas? E para que insistissem
tão obstinadamente no caminho da condenação, que nem a palavra de Deus, nem a persuasão dos homens,
pudessem mudar suas mentes, ou segurar suas mãos, ou detê-los, até que as esperanças se fossem!
Bem, pecadores, esta vida não durará para sempre! Esta paciência não esperará enquanto vocês se
demoram. Não pensem que abusarão do seu Criador e Redentor, e servirão a seus inimigos, e degradarão
suas almas, e perturbarão o mundo, e ultrajarão a igreja, e reprovarão os piedosos, e entristecerão seus
mestres, e impedirão a reforma, isso tudo sem um preço! Vocês ainda não sabem qual será esse preço,
mas brevemente saberão, quando o justo Deus os tomar pelas mãos, e os tratar de outro modo que nem os
mais incisivos dos magistrados ou os mais leais dos pastores fizeram; a menos que impeçam os tormentos
eternos por uma conversão verdadeira, e uma célere obediência ao chamado de Deus. “Aquele que tem
ouvidos para ouvir, ouça”, enquanto a misericórdia tem uma voz para clamar.
Uma objeção muito comum na boca dos ímpios, especialmente nos últimos anos é: “Não podemos
fazer nada sem Deus, não podemos ter a graça se Deus não a conceder a nós. E, se Ele o fizer,
rapidamente nos arrependeremos. Se não nos predestinou, e não nos conceder arrependimento, como
podemos nos arrepender ou ser salvos? Não depende de quem quer ou de quem corre”. Com isso, pensam
que estão desculpados.
Já respondi a isso anteriormente, e neste livro. Mas, me permitam dizer o seguinte:
1. Ainda que não possam se curar, podem se ferir e envenenar a si mesmos. É Deus quem deve
santificar seus corações, mas quem os corrompeu? Vocês tomarão voluntariamente veneno, porque não
podem se curar? Penso que deviam abster-se ainda mais do pecado. Deviam ter ainda mais cautela dele,
se não podem consertar o que o pecado estragou.
2. Ainda que não possam ser convertidos, sem a graça especial de Deus, contudo, devem saber que
Deus dá a sua graça no uso dos santos meios que apontou para esse fim. E a graça comum pode lhes
capacitar a resistir a seus pecados escandalosos (quanto ao aspecto exterior) e a usar esses meios. Vocês
podem verdadeiramente dizer que fazem tanto quanto poderiam fazer? Não são capazes de passar pelas
portas da taverna, ou resistir às companhias que lhes endurecem no pecado? Não são capazes de ouvir a
Palavra, e pensar sobre o que ouviram quando chegarem em casa, e considerarem consigo mesmos sobre
suas próprias condições e sobre as coisas eternas? Não são capazes de ler bons livros diariamente, ou ao
menos no dia do Senhor, e de conversarem com os que são tementes a Deus? Vocês não podem dizer que
já fizeram tudo de que são capazes.
3. Portanto, devem saber que podem a graça e o auxílio de Deus pela sua pecaminosidade ou
negligência voluntária, ainda que não possam, sem a graça, voltar-se para Deus. Se não farão o que
podem fazer, é justo que Deus lhes negue aquela graça pela qual poderiam fazer mais.
4. E, quanto aos decretos de Deus, vocês devem saber que eles não separam o fim dos meios, mais os
unem em harmonia. Deus jamais decretou salvar alguém, senão os santificados, nem condenar ninguém a
não ser os não santificados. Deus, em verdade, decretou também se as suas terras, neste ano, seriam
estéreis ou frutíferas, e quanto tempo vocês devem viver neste mundo, do mesmo modo como decretou se
deveriam ser salvos ou não. Contudo, vocês reputariam como tolo o homem que se recusasse a arar e
semear, dizendo: “Se Deus decretou que meu solo produzirá cereal, ele o produzirá, quer eu o lavre e
semeie ou não. Se Deus decretou que devo viver, viverei, coma eu ou não. Mas se não decretou, não é a
comida que me manterá vivo”. Vocês sabem como responder a esse homem, não sabem? Se sabem, então
sabem como responder a si mesmos, pois a situação é a mesma: o decreto de Deus é tão categórico em
relação aos seus corpos quanto às suas almas. Se não fazem isso, então experimentem primeiro, cheguem
às conclusões nos seus corpos antes de se aventurarem a testar suas almas. Vejam primeiro se Deus
manterá seus corpos vivos sem comida ou vestimentas, e se lhes dará cereal sem cultivo e trabalho, ou se
lhes trará ao final da viagem sem esforço ou transporte; e, se se saírem bem nisso, então testem se ele os
trará aos céus sem que usem diligentemente os meios e, depois, sentem-se e digam: “Não podemos
santificar a nós mesmos”.
Bem, senhores, não tenho senão três pedidos a lhes fazer, e terei concluído.
Primeiro, que leiam seriamente este pequeno tratado – se em suas famílias houver alguém necessitado
dele, que leia para ele repetidas vezes – e se os que temem a Deus forem eventualmente aos seus vizinhos
ignorantes, e lerem este ou algum outro livro neste assunto para eles, podem ser meios para ganhar almas.
Se não pudermos implorar que os homens façam trabalho tão pequeno, para sua própria salvação, quanto
lerem instruções tão curtas como estas, então eles farão pouco caso por si mesmos, e muito justamente
perecerão.
Segundo, quando houverem lido por completo este livro, eu lhes imploro a ficarem a sós e
ponderarem um pouco sobre o que leram, e pensem, estando na presença de Deus, se isto não é verdade,
e se quase não toca suas almas, e se não é tempo de se moverem. Também lhes imploro que se coloquem
de joelhos e roguem ao Senhor que abra os seus olhos para entenderem a verdade, e converta seus
corações para o amor de Deus, e roguem dele todas as graças salvíficas que por tanto tempo
negligenciaram, e sigam-na dia após dia, até que seus corações sejam transformados. E, ao mesmo tempo,
vão aos seus pastores (que estão estabelecidos sobre vocês, para que tenham cuidado da saúde e
segurança de suas almas, assim como os médicos cuidam da saúde dos seus corpos), e peçam-lhes que os
orientem sobre a direção que devem tomar, e que lhes familiarizem com seus estados espirituais, para
que possam desfrutar do benefício de seus conselhos e auxílios ministeriais.
Ou, se não tiverem um pastor fiel próximo, façam uso de algum outro para suprir tão grande
necessidade.
Terceiro, quando pela leitura, reflexão, oração e conselho ministerial, estiverem uma vez
familiarizados com seu pecado e miséria, com seu dever e cura, não adiem, mas logo esqueçam suas
companhias e condutas pecaminosas, e convertam-se a Deus, e obedeçam ao seu chamado. Por amor às
suas almas, cuidem de não ir contra chamado tão sonoro de Deus, e não sejam contrários ao
conhecimento e às suas consciências, para que no dia do julgamento não ocorra com vocês pior do que a
Sodoma e Gomorra. Investiguem sobre Deus, como um homem disposto a conhecer a verdade, e não ser
um traidor voluntário de sua alma. Examinem as Escrituras diariamente, e vejam se as coisas são desse
modo ou não. Testem imparcialmente se é mais seguro confiar nos céus ou na terra, e se é melhor seguir a
Deus ou ao homem, ao Espírito ou à carne, e se é melhor viver na santidade ou no pecado; ou se lhes é
seguro viver um dia a mais em um estado profano. E, quando descobrirem o que é melhor, ajam de
acordo, e façam sua escolha sem mais delongas.
E se forem verdadeiros com suas almas, e não amarem os sofrimentos eternos, rogo-lhes, como da
parte do Senhor, que nada façam senão acatar este conselho razoável. Oh! Que cidades e campos felizes,
e que feliz nação teríamos, se pudéssemos persuadir as pessoas a acatarem esta atitude tão necessária!
Como seriam alegres os ministros fiéis se pudessem apenas ver o seu povo verdadeiramente como
pessoas celestiais e santas! Isso seria a unidade, a paz, a segurança, a glória de nossas igrejas; a
felicidade de nosso próximo e o conforto de nossas almas. Então, como pregaríamos confortavelmente
para vocês o perdão e a paz, e entregaríamos os sacramentos, que são os selos dessa mesma paz! E com
que amor e alegria viveríamos em meio a vocês! Nos seus leitos de morte, como ousadamente
poderíamos confortar e encorajar suas almas moribundas! E nos seus funerais, como seria confortável
deixá-los no túmulo, na expectativa de encontrá-los nos céus, e ver seus corpos ressurretos para a glória!
Mas, se ainda a maior parte de vocês continua numa vida descuidada, ignorante, carnal, mundana e
profana, e todos os nossos desejos e labores não puderam até aqui prevalecer a fim de evitar que
voluntariamente condenassem a si mesmos, devemos imitar nosso Senhor, que se deleitava naqueles que
são as pérolas e no pequeno rebanho que receberá o reino, quando a maior parte colherá a miséria que
plantaram. Na natureza, são poucas as coisas excelentes. O mundo não tem muitos sóis ou luas. Não é
senão um pouco da terra que é ouro ou prata. Príncipes e nobres são uma pequena parte dos filhos dos
homens. E não é grande o número dos letrados, judiciosos e sábios neste mundo. Portanto, se estreita é a
porta e muito apertada, não serão senão poucos que acharão a salvação. Mas, nestes poucos, Deus terá
sua glória e prazer. E quando Cristo vier com seus anjos poderosos, em fogo chamejante, tomando
vingança sobre os que não conhecem a Deus, e não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo,
sua vinda será glorificada nos santos, e admirada em todos os crentes verdadeiros (2 Tessalonicenses
1:7-10).
E para os demais, como Deus Pai condescendeu em criá-los, e Deus Filho não desprezou carregar a
penalidade de seus pecados na cruz, e não reputou tais sofrimentos como vãos, ainda que soubesse que,
ao recusar a santificação do Espírito Santo eles finalmente destruiriam a si mesmos, também nós, que
somos seus ministros, ainda que estes não sejam reunidos, não reputaremos nosso labor como
inteiramente perdido. (Isaías 49:5)
Leitor, terminei com você (quando tiver lido todo este livro), mas o pecado ainda terminou (mesmo
aqueles que você pensa ter esquecido há muito tempo), e Satanás não terminou com você (mesmo que
esteja fora de vista) e Deus ainda não terminou com você, porque você não será persuadido a terminar
com o poder reinante e mortal do pecado. Escrevi-lhe estes argumentos como alguém que está indo ao
outro mundo, onde se podem ver as coisas que aqui são faladas, e como alguém que sabe que brevemente
você estará lá. Se alguma vez, você me encontrar com conforto diante do Senhor que nos criou; se alguma
vez escapar das pragas eternas preparadas para os desprezadores finais da salvação, e para todos os que
não são santificados pelo Espírito Santo, e não amam a comunhão dos santos, como membros da santa
igreja universal; se alguma vez você espera ver a face de Cristo, o juiz, e a majestade do Pai, com paz e
conforto, e ser recebido em glória quando partir nu deste mundo; eu lhe imploro, eu lhe responsabilizo,
ouça e obedeça ao Chamado de Deus, e resolutamente se arrependa para que possa viver.
Mas, se não o fizer, mesmo que não tenha razão verdadeira para isso, senão a falta de vontade, eu o
invoco a responder diante do Senhor, e lhe peço que, lá, preste testemunho sobre mim, que lhe avisei, e
que você não foi condenado por falta de um chamado para se converter e viver, mas porque não creu e
obedeceu a esse chamado. Isso também deverá ser o testemunho de
Seu sério Admoestador
RICHARD BAXTER













UM CHAMADO AOS NÃO CONVERTIDOS
DISCURSO 1
“Dize-lhes: Tão certo como eu vivo, diz o SENHOR Deus, não tenho prazer na morte do ímpio, mas
sim em que o ímpio se converta do seu caminho e viva. Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus
caminhos; por que morreríeis, ó casa de Israel?” (Ezequiel 33.11)

Tem sido a surpresa atônita de muitos, bem como a minha, ler na santa Escritura sobre o pequeno
número dos que serão salvos; e que a maior parte, mesmo daqueles que são chamados, serão eternamente
impedidos de entrar no Reino dos Céus, e serão atormentados com os demônios no fogo eterno. Os infiéis
não acreditam quando leem sobre isso, portanto, devem senti-lo. Aqueles que de fato creem são forçados
a clamar com Paulo: “Ó profundidade da riqueza, da sabedoria e do conhecimento de Deus! Quão
insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos!” (Romanos 11.33)
Mas a própria natureza nos ensina a colocar toda a culpa pelas más obras sobre os que as praticam.
Portanto, quando vemos algo muito cruel sendo feito, um princípio de justiça nos provoca a investigar
pelo seu autor, para que o malfeito possa trazer o mal da vergonha sobre o autor. Se víssemos um homem
morto e cortado em pedaços, imediatamente perguntaríamos: “Quem fez esta crueldade?” Se a cidade
fosse deliberadamente queimada, perguntaríamos: “Quem foi o miserável que fez isso?” Assim, quando
lemos que a maior parte dos homens serão queimados no inferno para sempre, temos a necessidade de
perguntar a nós mesmos: “Como isso veio a acontecer? E de quem é a culpa? Quem é tão cruel a ponto de
ser a causa de coisa como essa?”
Podemos encontrar poucos que admitirão a própria culpa. De fato, todos confessam que Satanás é a
causa, mas isso não resolve a dúvida, uma vez que ele não é a causa primária. Ele não força os homens
ao pecado, mas os tenta a ele; e deixa aos seus próprios arbítrios quanto a se irão cometê-lo ou não. Ele
não os carrega à taberna nem os força a abrirem suas bocas e derramarem nela a bebida; nem os detém
para que não possam ir ao culto de Deus; nem força seus corações, impedindo-os de ter pensamentos
santos. Portanto, o caso está entre o próprio Deus e o pecador; um deles deve ser a causa principal dessa
miséria, seja ela qual for. Pois não há mais ninguém a quem atribui-la; e Deus não se responsabiliza por
ela. Ele não a tomará sobre si; e, em geral, os ímpios a negam, e também não a tomarão sobre si. E essa é
a controvérsia que é abordada no meu texto.
O Senhor se queixa do povo; e o povo pensa que a culpa é de Deus. A mesma controvérsia é tratada
no capítulo 18, v. 25, de Ezequiel, onde dizem claramente que “o caminho do Senhor não é justo”; e Deus
diz: “Não são os vossos caminhos que são injustos?” Portanto, dizem aqui, no v. 10: “Visto que as nossas
transgressões e os nossos pecados estão sobre nós, e definhamos neles, como viveremos?” É como se
dissessem: “Se devemos morrer e ser miseráveis, como podemos evitar isso?” Como se não fosse sua
culpa, mas de Deus. Mas Deus, em meu texto, exime-se disso, e diz-lhes como podem evitar a
condenação, se quiserem, e persuade-os a fazer uso dos meios; e, se não forem persuadidos, deixa-os
saber que a culpa é de si mesmos. E se isso não os satisfaz, não é por isso que deixará de puni-los. É ele
que será seu juiz, e os julgará de acordo com seus caminhos. Eles não são juízes de Deus ou de si
mesmos, uma vez que lhes falta autoridade, sabedoria e imparcialidade. Nem é a argumentação falaciosa
com Deus que servirá à causa deles, ou os salvará da execução da justiça, contra a qual murmuram.
As palavras deste versículo contêm:
1. Deus eximindo-se da culpa pela destruição deles. Isso ele o faz não ao repudiar seus julgamentos e
execução de acordo com aquela lei, ou lhes dando qualquer esperança de que a lei não será executada;
mas professando que não se agrada com suas mortes, mas que se arrependam, para que possam viver. E
isso lhes é confirmado pelo seu juramento.
2. Uma exortação expressa aos ímpios para que se convertam, em que Deus não apenas ordena, mas
persuade e também condescende em argumentar sobre a situação com eles, quanto à razão pela qual
haveriam de morrer. O propósito direto de sua exortação é que eles se convertam e vivam. Os propósitos
secundários ou reservados, na suposição de que o primeiro não seja alcançado, são dois: Primeiro,
convencê-los pelos meios costumeiros, que não é por causa de Deus que são miseráveis. Segundo,
convencê-los de sua voluntariedade evidente em rejeitar todos os seus mandamentos e persuasões, e que
é por culpa de si mesmos; e que morrem, porque querem morrer.
A substância do texto repousa nas seguintes observações.
Doutrina 1. É a imutável lei de Deus que os ímpios devem ou se converter ou morrer.
Doutrina 2. É a promessa de Deus que os ímpios viverão, se apenas se converterem.
Doutrina 3. Deus tem prazer na conversão e salvação dos homens, mas não em sua morte ou
condenação. Ele antes prefere que se convertam e vivam, a que persistam e morram.
Doutrina 4. Esta é uma verdade das mais certas, a qual, uma vez que Deus não quer que os homens a
questionem, confirmou-a solenemente pelo seu juramento.
Doutrina 5. O Senhor redobra suas ordens e persuasões aos ímpios para que se convertam.
Doutrina 6. O Senhor condescende em argumentar o caso com eles, e pergunta aos ímpios por que
morrerão.
Doutrina 7. Se, após isso tudo, os ímpios não se converterem, não é culpa de Deus que eles pereçam,
mas de si mesmos; sua própria vontade é a causa de sua condenação; portanto, eles morrem porque
querem morrer.
Tendo colocado o texto aberto diante de seus olhos nessas proposições claras, devo agora falar um
pouco sobre cada uma delas, em ordem, ainda que de maneira sucinta.
DOUTRINA 1
É a imutável lei de Deus que os ímpios devem ou se converter ou morrer.

Se você crê em Deus, creia nisto: existe apenas um de dois caminhos para todo ímpio: ou a conversão
ou a condenação. Sei que dificilmente os ímpios serão persuadidos seja da veracidade seja da
honestidade dessa afirmação. E daí se o culpado contende com a lei? Poucos são capazes de crer naquilo
que não querem que seja verdadeiro, e pouquíssimos querem que seja verdadeiro aquilo que pressentem
que lhes será contrário.
Mas não é a disputa com a lei ou com o juiz que salvará o malfeitor. Crer e levar em conta a lei
poderia prevenir sua morte. Porém, negá-la e acusá-la somente a apressará. Se não fosse assim, centenas
trariam seus argumentos contrários à lei, para um que trouxesse argumentos a favor dela. E os homens
iriam preferir dar as razões de por que não deveriam ser punidos, a ouvir as ordens e razões de seus
governantes, que exigem que eles a obedeçam. A lei não foi feita para que vocês a julgassem, mas para
que pudessem ser regidos e julgados por ela.
Mas, se houver alguém tão cego a ponto de se aventurar a questionar a verdade ou a justiça desta lei
de Deus, lhes darei brevemente evidência de ambas, que, penso, satisfará um homem racional.
Primeiro, se duvidam que essa seja a palavra de Deus ou não, além de centenas de outros textos,
podem se satisfazer com estes poucos: Mateus 18:3: “Em verdade vos digo que, se não vos converterdes
e não vos tornardes como crianças, nunca entrareis no reino do céu.” João 3:3: “Em verdade, em verdade
te digo que ninguém pode ver o reino de Deus se não nascer de novo.” 2 Coríntios 5:17: “Portanto, se
alguém está em Cristo, é nova criação; as coisas velhas já passaram, e surgiram coisas novas.”
Colossenses 3:9-10: “Pois já vos despistes do velho homem com suas ações, e vos revestistes do novo
homem, que se renova para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou.” Hebreus
12:14: “Procurai viver em paz com todos e em santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor.”
Romanos 8:8-9: “Os que vivem na carne não podem agradar a Deus. Vós, porém, não estais sob o
domínio da carne, mas do Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. (Mas, se alguém não tem o
Espírito de Cristo, não pertence a Cristo.)” Gálatas 6:15. “Pois nem a circuncisão nem a incircuncisão
são coisa alguma, mas, sim, o ser nova criação.” 1 Pedro 1:3. “Bendito seja o Deus e Pai de nosso
Senhor Jesus Cristo, que nos regenerou para uma viva esperança, segundo a sua grande misericórdia” 1
Pedro 1:23. “Fostes regenerados não de semente perecível, mas imperecível, pela palavra de Deus, que
vive e permanece.” 1 Pedro 2:1-2. “Portanto, deixando toda maldade, todo engano, fingimento, inveja e
toda difamação, desejai o puro leite espiritual, como bebês recém-nascidos, a fim de crescerdes por
meio dele para a salvação,” Salmos 9:17: “Os perversos serão lançados no inferno, e todas as nações
que se esquecem de Deus.” [ARA] Salmos 11:5. “ O SENHOR prova o justo e o ímpio e odeia o que ama
a violência.”
Como não preciso me demorar para abrir esses textos, que são tão claros, também penso que não
preciso acrescentar mais dos inúmeros que falam como eles. Se você é alguém que que crê na Palavra de
Deus, aqui já há o suficiente para satisfazê-lo de que os ímpios devem ou se converter ou ser
condenados.[1] Vocês já têm o suficiente para que possam ou confessar que isso é verdadeiro, ou dizer
claramente que não crerão na Palavra de Deus; e, se vierem a essa condição, há pouca esperança para
vocês. Olhem para si mesmos com toda a benevolência que puderem, pois é provável que não estejam
por muito tempo fora do inferno.
Vocês estariam prontos a voar na face daquele que lhes contasse uma mentira; contudo, se atrevem a
mentir para Deus? Mas se disserem claramente a Deus que não crerão nele, não o culpem se não mais os
alertar, ou se os esquecer e considerá-los sem remédio. Pois um anjo nada pode falar senão a palavra de
Deus; e se lhes trouxer outro evangelho, não devem recebê-lo, mas considerá-lo como amaldiçoado
(Gálatas 1:8). E, certamente, anjo algum deve ser crido antes do Filho de Deus, que veio do Pai para nos
trazer esta doutrina. Se não se deve crer nele, então não se deve crer em nenhum anjo do céu. E se
permanecerem nesses termos com Deus, devo deixá-los até que ele trate com vocês de uma maneira mais
convincente. Deus tem uma voz que os fará ouvi-lo. Ainda que lhes suplique que ouçam a voz do seu
evangelho, ele os fará ouvir a voz de sua sentença condenatória, sem que haja súplica. Não podemos
fazê-los crer contra as suas vontades; mas Deus os fará sentir contra ela.
Mas, ouçamos que razões vocês têm, por que não crerão na palavra de Deus, a qual nos diz que o
ímpio deve ou se converter ou ser condenado. Conheço suas razões; é porque vocês julgam improvável
que Deus seja tão cruel. Acham que é maldade condenar os homens eternamente por uma coisa tão
insignificante quanto uma vida pecaminosa. E isso nos leva à segunda coisa, que é justificar a retidão de
Deus nas suas leis e julgamentos.
1. Penso que não negarão que é muito adequado a uma alma imortal ser regida por leis que prometem
uma recompensa eterna e ameaçam com castigo infinito. De outro modo, a lei não seria ajustada à
natureza do súdito, que não será plenamente regido por quaisquer motivos inferiores às esperanças ou
temores de coisas eternas. Assim também ocorre com as punições temporais. Se fosse promulgada agora
uma lei de que os crimes mais hediondos seriam punidos com cem anos de prisão, isso seria de alguma
eficácia, pois se ajusta às nossas vidas. Mas se não houvesse penas diferentes antes do dilúvio, quando
os homens viviam oitocentos ou novecentos anos, essa teria sido insuficiente, pois os homens saberiam
que poderiam ter muitas centenas de anos de impunidade posteriormente. Assim ocorre com o presente
caso.
2. Suponho que confessarão que a promessa de uma glória infindável e inconcebível não é tão
inadequada à sabedoria de Deus, ou à situação do homem. E por que, então, não devem pensar que isso
também ocorra com a ameaça de uma miséria infindável e indizível?
3. Quando descobrem na Palavra de Deus que esse é o caso, e que assim será, acham-se capazes de
contradizer essa Palavra? Chamarão o seu Criador ao tribunal, e examinarão a sua Palavra com acusação
de falsidade? Vocês se levantarão contra ele, e o julgarão com as leis de suas opiniões? Acaso são mais
sábios, melhores e mais justos do que ele? Deve o Deus do céu vir a vocês para aprender a sabedoria?
Deve a sabedoria infinita aprender com a tolice? E a Santidade infinita ser corrigida por um pecador
egoísta, que não consegue manter-se puro por uma hora? Deve o Todo-Poderoso permanecer no tribunal
de um verme? Que horrenda arrogância do pó insensível! Deverá toda toupeira, ou torrão, ou monturo
acusar o sol de escuridão, e tentar iluminar o mundo? Onde estavam vocês quando o Todo-Poderoso fez
essas leis, que não lhes tenha chamado ao seu conselho? Certamente, ele as fez antes que nascessem, sem
desejar o seu conselho! E vocês vieram ao mundo tarde demais para revertê-las. Se pudessem ter feito
tão grande obra, teriam saído de sua insignificância, e teriam contradito a Cristo quando esteve na terra,
ou Moisés antes dele, ou teriam salvado Adão e sua descendência pecaminosa da morte ameaçada, para
que, desse modo, não houvesse necessidade de Cristo! E se Deus recolher sua paciência e sustentação, e
deixá-los cair no inferno enquanto estão a contender com a sua Palavra? Vocês, então, crerão que há um
inferno?
4. Se o pecado é um mal tão grande que requer a morte de Cristo para que seja expiado, não é de se
surpreender que ele mereça nossa miséria eterna.
5. E se o pecado dos demônios mereceu um tormento infindável, por que também não o pecado do
homem?
6. E penso que devem perceber que não é possível para os melhores dos homens, muito menos para os
ímpios, ser juízes competentes sobre o merecimento do pecado. Ai de mim! Somos tanto cegos quanto
parciais. Vocês não podem conhecer plenamente o merecimento do pecado até que conheçam plenamente
a sua malignidade. E nunca poderão conhecer a malignidade do pecado até que saibam plenamente: i) a
excelência da alma que ele deforma; ii) a excelência da santidade que apaga; iii) a razão e a excelência
da glória que viola; iv) a excelência da glória que despreza; v) a excelência e serviço da razão que ele
pisa com os pés; vi) não, não até que conheçam a excelência, onipotência e santidade infinitas desse Deus
contra quem é cometido. Quando conhecerem plenamente todas essas coisas, saberão plenamente o
merecimento do pecado.
Ademais, sabem que o ofensor é parcial demais para julgar a lei ou os procedimentos do juiz.
Julgamos pelo sentimento, que cega nossa razão. Vemos nas coisas comuns do mundo que a maioria dos
homens tem por justa a sua própria causa; e que todas as que lhes são contrárias são erradas. Ainda que
os mais justos e imparciais amigos tentem persuadi-los do contrário, tudo é vão. São poucas as crianças
que não acham que os pais sejam cruéis, ou que as tratem com muita dureza, se eles as surram. São raros
os mais vis miseráveis que não achem que a igreja os trata de modo errado, se ela os disciplina. E raro é
o ladrão ou homicida a ser enforcado que, se isto servir à sua causa, não acusará a lei ou o juiz de
crueldade.
7. Vocês podem pensar que uma alma impura está apta para o céu? Ora! Elas não podem amar a Deus
lá, nem lhe prestar qualquer serviço aceitável. São contrárias a Deus; detestam aquilo que ele mais ama e
amam aquilo que ele aborrece. São incapazes dessa comunhão imperfeita com ele, da qual participam
seus santos aqui. Como, então, podem viver naquele seu amor perfeito e naquela plena delícia e
comunhão com ele, que é a bem-aventurança do céu? Vocês não se acusam de crueldade se não fizerem de
seus inimigos seus conselheiros íntimos; contudo, culparão o Senhor absoluto, o mais sábio e gracioso
Soberano do mundo, se ele condenar os não convertidos a uma miséria perpétua.
APLICAÇÃO

Rogo-lhes agora, todos vocês que amam suas almas, que, ao invés de contender com Deus e com sua
palavra, humilhem-se e usem-na para o bem. Todos vocês que não são convertidos nesta congregação,
tomem isto como a verdade indubitável de Deus: vocês devem, dentro em breve, ou se converter ou ser
condenados. Não há outro caminho senão converter-se ou morrer. Quando o Deus que não pode mentir
lhes diz isso; quando o ouvem do Criador e Juiz do mundo, é tempo de aquele que tem ouvidos para ouvir
ouça.
Por esse tempo, já viram aquilo em que devem confiar. Vocês são apenas pessoas mortas e
condenadas, a menos que se convertam. Se lhes dissesse diferente, os enganaria com uma mentira. Se lhes
ocultasse isso, os arruinaria, e seria culpado do seu sangue, como asseguram os versos antes do meu
texto: “Se eu disser ao ímpio: Ó ímpio, certamente morrerás; e tu não falares para dissuadir o ímpio do
seu caminho, esse ímpio morrerá na sua maldade, mas eu te considerarei culpado pela morte dele.”
(Ezequiel 33.8) Vocês veem então que, ainda que esta seja uma doutrina áspera e indesejada, é assim que
devemos pregar, e vocês devem ouvir. É mais fácil ouvir sobre o inferno do que senti-lo. Se suas
necessidades não exigissem, não irritaríamos seus ouvidos delicados com verdades que parecem tão
ásperas e dolorosas.
O inferno não estaria tão cheio, se as pessoas estivessem apenas dispostas a conhecer sua situação, e a
ouvir e pensar sobre ela. O motivo pelo qual tão poucos escapam dele é porque não se esforçam por
entrar pela porta estreita da conversão, e em andar no caminho apertado da santidade, enquanto têm
tempo; e não se esforçam porque não estão despertas para um vívido sentimento do perigo em que se
encontram; e não estão despertas porque são relutantes em ouvir e pensar sobre ele. E isso se deve, em
parte, à delicadeza tola e ao amor-próprio carnal, e em parte porque não creem muito na palavra que os
ameaça.
Se vocês não crerem totalmente nesta verdade, penso que o seu peso os forçará a lembrar-se dela; e
ela os seguirá, e não lhes dará descanso, até que sejam convertidos. Se tivessem ouvido apenas uma vez
esta palavra, pela voz de um anjo: “Você deve se converter, ou ser condenado; converta-se ou morra,”
isso não se fixaria em suas mentes, e não os assombraria noite e dia, de modo que, ao pecar, disso se
lembrariam, como se a voz ainda estivesse nos seus ouvidos: “Convertam-se ou morram?” Como seriam
felizes suas almas se isso funcionasse com vocês, e se nunca fosse esquecido, nem lhes abandonasse até
que houvesse conduzido os seus corações para casa, para Deus. Mas se vocês o expulsarem pelo
esquecimento ou pela incredulidade, como poderá trabalhar para a sua conversão e salvação? Mas,
levem isto com vocês para o seu lamento: ainda que possam tirar das suas mentes, não podem tirar da
Bíblia; mas lá permanecerá como uma verdade estabelecida, a qual conhecerão experimentalmente, para
todo o sempre, de que não há outro caminho senão converter-se ou morrer.
Oh, por que, então, os corações dos pecadores não são aguilhoados com tão esmagadora verdade!
Alguém poderia pensar agora que toda alma não convertida que ouvisse essas palavras seria aguilhoada
no coração, e pensaria consigo: “Esta é minha própria situação”, e que nunca sossegaria até que
encontrasse a si mesma convertida. Acreditem em mim, senhores, este temperamento sonolento e
descuidado não durará muito tempo. Tanto a conversão quanto a condenação são coisas despertadoras.
Posso prevê-lo tão verdadeiramente quanto se o visse com meus olhos que, ou a graça ou o inferno
brevemente trarão estas coisas aos vivos, e farão vocês dizerem: “O que fiz? Que caminho tolo e ímpio
tomei?” O estado desdenhoso e estúpido dos pecadores não durará senão um pouco. Tão logo se
arrependam ou morram, o sonho presunçoso chegará ao fim, e então suas inteligências e sentimentos
retornarão.
Mas, prevejo que há duas coisas que são prováveis em endurecer os não convertidos, e fazer-me
perder todo meu esforço, exceto se puderem ser retiradas do caminho. E elas são o mal-entendido quanto
a estas palavras: os ímpios e conversão. Alguns dirão para si mesmos: “É verdade, os ímpios devem ou
se converter ou morrer; mas, o que tenho eu com isso? Não sou ímpio, ainda que seja um pecador, como
são todos os homens.”. Outros pensarão: “É verdade que devemos nos converter de nossos maus
caminhos; mas eu já o fiz há muito tempo. Espero que este não seja o caso agora.” E assim, enquanto os
ímpios acham que não são ímpios, mas já convertidos, perdemos todo nosso trabalho em persuadi-los a
se converterem. Devo, portanto, antes de fazer qualquer progresso, lhes dizer aqui quem se tem em vista
com o termo ímpios, e quem são os que devem se converter ou morrer; e também o que se quer dizer por
converter-se, e quem são os que são verdadeiramente convertidos. E reservei isso de propósito para este
lugar, preferindo o método que se ajusta a meu intento.
E aqui vocês podem observar que, no sentido do texto, um ímpio e um convertido são opostos.
Nenhum ímpio é um convertido, e nenhum convertido é um ímpio; de modo que ser um ímpio e um não
convertido é a mesma coisa. Portanto, ao expormos um, estaremos expondo ambos.
Antes de lhes dizer o que é a impiedade ou a conversão, devo ir ao fundo e apresentar o assunto desde
o início.
Agradou ao grande Criador do mundo fazer três tipos de criaturas vivas. Os anjos ele os fez espíritos
puros, sem carne; portanto, os fez apenas para o céu, e não para habitar na terra. Os animais foram feitos
de carne, sem almas imortais; portanto, foram feitos apenas para a terra e não para o céu. O homem é de
natureza intermediária entre os dois primeiros, como participante tanto da carne quanto do espírito.
Desse modo, é feito para a terra, mas tendo esta como sua passagem ou caminho para o céu, e não que
deva ser a sua casa ou felicidade. O estado bem-aventurado para o qual o homem foi feito era contemplar
a gloriosa majestade do Senhor, e louvá-lo entre os seus santos anjos; e amá-lo, e ser preenchido com seu
amor para sempre. E, uma vez que este foi o fim para o qual o homem foi feito, também Deus lhe deu os
meios que eram apropriados para que alcançasse esse fim. Esses meios eram especialmente dois:
primeiro, uma reta disposição de mente; segundo, um reto ordenamento de sua vida.
Quanto ao primeiro, Deus adequou a disposição do homem para o fim[2], dando-lhe tal conhecimento
de Deus quanto era necessário para seu estado presente, e um coração inclinado a Deus em santo amor.
Porém, nem o fixou nem o confirmou nessa condição; mas, tendo criado o homem como um agente livre,
deixou-o nas mãos de seu próprio livre-arbítrio.
Quanto ao segundo, Deus fez o que lhe cabia, isto é, deu ao homem uma lei perfeita, exigindo dele que
persistisse no amor a Deus, e que lhe obedecesse perfeitamente. Pela quebra voluntária desta lei, o
homem não apenas perdeu o direito às suas esperanças de vida eterna, mas também desviou seu coração
de Deus, e o fixou nas mais baixas coisas carnais, e assim realmente apagou da alma nossa imagem
espiritual de Deus. De modo que o homem, de fato, tanto carece da glória de Deus, que era seu fim,
quanto se colocou fora do caminho pela qual a teria alcançado. E isso tanto na estrutura do seu coração
quanto na sua vida. Perdeu a santa inclinação e amor de sua alma por Deus, e no lugar dela, contraiu uma
inclinação e amor pela satisfação de sua carne, ou do eu carnal, e pelas coisas terrenas; crescendo alheio
a Deus, e íntimo da criatura. E o rumo desta vida era ajustado à inclinação do seu coração; ele vivia para
seu eu carnal e não para Deus; buscava a criatura, para agradar a sua carne, ao invés de buscar agradar
ao Senhor.
Com essa natureza, ou inclinação corrupta, todos nós agora nascemos no mundo, pois: “Quem tirará
pureza do que é impuro? Ninguém.” (Jó 14.4). Assim como um leão tem uma natureza feroz e cruel antes
que de fato devore; e uma serpente tem uma natureza venenosa antes que pique, também, na infância,
temos essa natureza pecaminosa, ou inclinação, antes que pensemos, falemos ou erremos. E daí brota
todo o pecado de nossas vidas. E não apenas isso, mas quando Deus, de sua misericórdia, nos forneceu
um remédio, ou seja, o Senhor Jesus Cristo para ser o Salvador de nossas almas, e nos trazer de volta a
Deus, amamos por natureza nosso estado presente, e somos relutantes em abandoná-lo. Portanto, nos
colocamos contra os meios de nossa recuperação. E ainda que o costume tenha nos ensinado a agradecer
a Cristo por sua boa vontade, contudo, o eu carnal nos persuade a recusar seu remédio, e a desejar nos
desculpar quando somos ordenados a tomar os medicamentos que ele oferece, e quando somos chamados
a esquecer tudo e segui-lo até Deus e a glória.
Rogo-lhes que leiam esta folha novamente e a marquem, pois nestas poucas palavras têm uma
verdadeira descrição de nosso estado natural, e, por conseguinte, do ímpio. Pois todo homem que está
nesse estado de natureza corrupta é um ímpio, e está em um estado de morte.
Por meio dessa descrição, vocês estão preparados para entender o que é ser um convertido; com o
propósito de que depois saibam que a misericórdia de Deus, não desejando que o homem perecesse em
seu pecado, forneceu um remédio, fazendo com que seu Filho tomasse nossa natureza, sendo em uma
pessoa Deus e homem, para se tornar um mediador entre Deus e o homem; e, morrendo por nossos
pecados na cruz, nos resgatou da maldição de Deus e do poder do diabo. E, tendo assim nos redimido, o
Pai nos entregou em suas mãos como sua propriedade. Por conseguinte, o Pai e o Mediador realmente
fazem uma nova lei e aliança para o homem, não como a primeira, que não dava vida a ninguém senão ao
perfeitamente obediente, e condenava o homem por qualquer pecado. Mas Cristo fez uma lei da graça, ou
uma promessa de perdão e vida eterna a todos que, pelo verdadeiro arrependimento e pela fé em Cristo,
são convertidos a Deus. É como um ato de anistia, ordenado por um príncipe para um grupo de rebeldes,
na condição de que deponham as armas e venham a ser súditos leais dali por diante.
Mas, por que o Senhor sabe que o coração do homem tornou-se tão ímpio, e que por isso tudo os
homens não aceitarão o remédio, se deixados a si mesmos, por esse motivo, o Santo Espírito tomou como
seu ofício inspirar os apóstolos, e selar as Escrituras com milagres e maravilhas, e iluminar e converter
as almas dos eleitos.
De modo que, por isso tudo, vocês podem ver que o Pai, o Filho e o Espírito Santo têm cada um suas
diversas obras, que são eminentemente atribuídas a eles.
As obras do Pai foram nos criar, nos reger como suas criaturas racionais, pela lei da natureza, e nos
julgar por ela, e, em misericórdia, nos fornecer o Redentor quando estávamos perdidos, e enviar seu
Filho e aceitar seu resgate.
As obras do Filho por nós foras estas: resgatar-nos e nos redimir pelos seus sofrimentos e justiça;
conceder-nos a promessa ou lei da graça; reger e julgar o mundo como seu Redentor, nos termos da
graça; fazer intercessão por nós para que o benefício de sua morte pudesse ser comunicado; e enviar o
Espírito Santo, o que também faz o Pai pelo Filho.
As obras do Espírito Santo por nós são estas: compor as Sagradas Escrituras, inspirando e guiando os
profetas e apóstolos, e selando a palavra por seus dons e obras miraculosos; e iluminando e estimulando
os ministros ordinários do evangelho, e assim capacitando-os e auxiliando-os a publicar essa palavra; e,
pela mesma palavra, iluminando e convertendo as almas dos homens.
Desse modo, assim como vocês não poderiam ser criaturas racionais se o Pai não os tivesse criado;
nem teriam tido qualquer acesso a Deus se o Filho não os redimisse; também se conclui que não podem
ter parte em Cristo, ou ser salvos, a menos que o Espírito Santo os santifique.
Dessa maneira, agora, já podem ver as diversas causas desta obra: o Pai envia o Filho; o Filho nos
redime, e faz a promessa da graça; o Espírito Santo compõe e sela este evangelho; os apóstolos são os
secretários do Espírito ao escrevê-lo; os pregadores do evangelho a proclamam, e persuadem os homens
a obedecer-lhe; e o Espírito Santo torna sua pregação eficaz, ao abrir o coração dos homens para
apreciá-la. E isso tudo é para reparar a imagem de Deus sobre a alma, e firmar o coração novamente em
Deus, e desnudar a criatura e o eu carnal para a qual se revoltou, e assim virar o curso da vida, que antes
era terreno, para um rumo celestial, e isso tudo pelo acolhimento de Cristo pela fé nele, que é o médico
da alma.
Por tudo o que disse, vocês podem ver o que é ser um ímpio, e o que é ser um convertido. Mas penso
que lhes será ainda mais claro se descrevê-los como consistindo de diversas partes. Primeiramente, um
ímpio pode ser reconhecido por três coisas:
Primeiro, ele é alguém que coloca sua principal porção na terra, e ama a criatura mais do que a Deus,
e sua prosperidade carnal acima da felicidade celestial. Ele favorece as coisas da carne, mas nem
discerne nem aprecia as coisas do espírito. Ainda que diga que o céu é melhor do que a terra, contudo, na
realidade, não o estima tanto assim. Se pudesse se assegurar da terra, abriria mão do céu, e preferiria
antes permanecer aqui a ser removido para lá. Uma vida de perfeita santidade, às vistas de Deus, e em
seu amor e louvor para sempre no céu não acha tanto gosto em seu coração como uma vida de saúde,
riquezas e honras aqui na terra. E ainda que falsamente professe que ama a Deus acima de tudo, contudo,
na realidade, jamais sentiu o poder do amor divino dentro de si, mas sua mente está mais firmada no
mundo e nos prazeres carnais do que em Deus. Em uma palavra, qualquer um que ame a terra acima do
céu, e a prosperidade terrena mais do que a Deus, é um ímpio não convertido.
Por outro lado, um homem convertido é iluminado para discernir a beleza de Deus; e acredita tanto na
glória que deverá ter com Deus, que seu coração é arrebatado por ela, e firmado mais nela do que em
qualquer coisa do mundo. Ele preferiria ver a face de Deus, e viver em seu amor e louvor eternos a ter
todas as riquezas ou prazeres do mundo. Ele vê que todas as demais coisas são vaidade, e nada senão
Deus pode preencher a alma. Portanto, que vá o mundo aonde quiser; ele deposita seus tesouros e
esperanças no céu, e por ele resolve deixar tudo. Assim como o fogo queima para cima, e a agulha que é
tocada com o ímã aponta para o norte, também a alma convertida é inclinada para Deus. Nada mais pode
satisfazê-la, nem pode ela achar contentamento e descanso senão no seu amor. Em uma palavra, todos os
que são convertidos estimam e amam a Deus mais do que ao mundo; e a felicidade celestial lhes é mais
cara do que a prosperidade carnal. A prova do que disse pode ser encontrada nestas partes da Escritura:
Filipenses 3.18,21; Mateus 6.12-21; Colossenses 3.1,2,4,5; Romanos 8.5,6,7,8,18,23; Salmos 73.36.
Segundo, um ímpio é alguém que faz da prosperidade no mundo e da busca pelos seus objetivos
carnais os assuntos principais de sua vida. E ainda que possa ler e ouvir, e faça muito dos deveres
externos da religião, e abstenha-se de pecados infames, contudo, isso tudo é passageiro, e ele nunca faz
do agradar a Deus e alcançar a glória eterna os assuntos principais de sua vida. Afasta-se de Deus pelos
refugos do mundo, e não lhe oferece mais serviço do que a carne possa poupar, pois não abandonará tudo
pelo céu.
Ao contrário, um homem convertido é alguém que faz do agradar a Deus e ser salvo os principais
assuntos de sua vida, e toma todas as bênçãos desta vida somente como acomodações em sua jornada
rumo à outra vida, e usa a criatura em subordinação a Deus. Ele ama a vida santa e deseja ser mais santo.
Não tem pecado algum em si que não odeie, desejando, orando e lutando para se ver livre dele. O
impulso e inclinação de sua vida é para Deus; e, se pecar, isso é contrário à própria inclinação de seu
coração e vida. Portanto, ele se insurge contra o pecado e o lamenta, e não ousa viver voluntariamente em
qualquer pecado conhecido. Não há nada neste mundo tão querido a ele que não possa entregar a Deus, e
por Ele e pelas esperanças da glória esquecê-lo. Tudo isso, vocês podem ver em Colossenses 3.1-5;
Mateus 6.20,33; Lucas 18.22,23,29; Lucas 14.18,24,26,27; Romanos 8.13; Gálatas 5.24; Lucas 12.21; etc.
Terceiro, a alma de um ímpio jamais discerniu verdadeiramente e agradou-se do mistério da redenção,
nem abrigou com gratidão a oferta de um Salvador. Ele não é arrebatado com o amor do Redentor, nem
deseja ser governado por ele como o médico de sua alma, para que possa ser salvo da culpa e poder de
seus pecados, e recuperado para Deus. Mas seu coração é insensível deste benefício indizível, e é muito
contrário aos meios curativos pelos quais poderia ser recuperado. Embora possa estar disposto a ser
carnalmente religioso, contudo, jamais entrega sua alma a Cristo, e ao movimento e condução de sua
Palavra e Espírito.
Ao contrário, tendo a alma convertida se sentido arruinada pelo pecado, e percebendo que perdeu sua
paz com Deus, e as esperanças do céu, e está em perigo da miséria eterna, com gratidão abriga as
notícias da redenção, e, crendo no Senhor Jesus como seu único Salvador, entrega-se a ele para a
sabedoria, justiça, santificação e redenção. Ele toma Cristo como a vida de sua alma e vive por ele, e o
usa como um unguento para toda ferida, admirando a sabedoria e amor de Deus nesta maravilhosa obra
da redenção do homem. Em uma palavra, Cristo mora mesmo em seu coração pela fé, e a vida que agora
vive é pela fé no Filho de Deus, que o amou, e se entregou por ele. Sim, não é nem tanto ele que vive,
mas Cristo nele. Para isso, veja Jó 1.11,12; 3.20; João 15.2-4; 1 Coríntios 1.20; 2.2.
Vocês agora veem, em termos claros, a partir da Palavra de Deus, quem são os ímpios e quem são os
convertidos. As pessoas ignorantes acham que se um homem não for um blasfemador, nem um
praguejador, injuriador, bêbado, fornicador, extorquista, ou se não fraudar ninguém nos seus negócios; e
se vierem à igreja, e fizerem suas orações, receberem o sacramento, e, às vezes, estenderem suas mãos
para o alívio dos pobres, estas não podem ser pessoas não convertidas. Ou se um homem que tenha sido
culpado de bebedice, blasfêmia, jogos, ou vícios semelhantes, tão somente abster-se disso dali por
diante, acham que esta é uma pessoa convertida. Outros acham que se alguém que tem sido um inimigo e
escarnecedor da piedade nada fizer senão aprová-la, e ajuntar-se com aqueles que são piedosos, e, por
esse motivo, for odiado pelos ímpios, como são os piedosos, então esse homem deve necessariamente ser
um convertido. E alguns são tão tolos a ponto de pensarem que são convertidos por sustentarem alguma
nova opinião. Alguns acham que se estiverem aterrorizados pelos temores do inferno, e tiverem
convicção e torturas de consciência, e nisso se propuserem e prometerem corrigir-se, e levarem uma vida
de comportamento cortês e religiosidade externa, que isso deve necessariamente ser a verdadeira
conversão.
Essas são as pobres almas iludidas que estão sujeitas a perder o benefício de toda a nossa exortação.
E, quando ouvem que os ímpios devem se converter ou morrer, acham que isso não lhes diz respeito, pois
não são ímpias, mas já se arrependeram. E foi por isso que Cristo falou a alguns dos principais dos
judeus, que eram mais graves e civilizados que o povo comum, que “publicanos e as prostitutas estavam
entrando antes deles no reino de Deus” (Mateus 21.31). Não que uma meretriz ou um pecador grosseiro
possam ser salvos sem a conversão, mas porque era mais fácil fazer esses pecadores grosseiros
perceberem seu pecado e miséria e a necessidade de uma mudança do que os tipos civilizados, que
enganam a si mesmos achando que já são convertidos, quando não o são.
Ó senhores, a conversão é um tipo de obra diferente do que muitos pensam. Não é uma coisa fácil
trazer uma mente terrena ao céu, e mostrar ao homem as amáveis excelências de Deus, até que seja tão
arrebatado em amor tal por ele, que nunca possa ser apagado; quebrantar o coração com o pecado, e
fazê-lo voar para o refúgio, a Cristo, e agradecidamente abraçá-lo como a vida de sua alma; ter o próprio
impulso e inclinação do coração e da vida mudados. De modo que um homem renuncia àquilo que tomava
por felicidade, e põe sua felicidade onde nunca colocou antes, e não vive mais para o mesmo propósito, e
não se conduz no mesmo desígnio no mundo, como antes vivia: em uma palavra, aquele que está em
Cristo é nova criatura: “As coisas antigas já passaram, eis que tudo se fez novo”. Ele tem um novo
entendimento, uma nova vontade e resolução, novos lamentos e desejos, novo amor e deleite, novos
pensamentos, discursos, companhias (se possível) e novas conversas.
O pecado, que antes lhe era matéria de gracejo, agora lhe é tão odioso e terrível que foge dele como
da morte. O mundo, que era tão amável a seus olhos, agora nada parece senão vaidade e tormento. Deus,
que antes era negligenciado, é agora a única felicidade de sua alma. Antes, era esquecido, e toda luxúria
era preferida a ele. Mas agora é firmado próximo ao coração, e todas as coisas devem lhe dar lugar, e o
coração é arrebatado na atenção e contemplação dele, e é miserável quando Ele esconde sua face, e
nunca acha que está bem sem Ele. O próprio Cristo, de quem costumava ter pensamentos depreciativos,
agora é sua única esperança e refúgio, e vive nele como seu pão diário. Sem ele, não consegue orar, nem
se regozijar, pensar, falar ou viver. O próprio céu (que antes não era senão como uma reserva tolerável a
qual esperava servir para si melhor do que o inferno, quando não pudesse mais permanecer no mundo)
agora é visto como sua casa, o lugar de sua única esperança e repouso, onde deverá ver, amar e louvar
esse Deus que já é dono de seu coração. O inferno, que antes parecia apenas como um bicho-papão para
assustar os homens do pecado, agora parece ser uma miséria real, que não deve ser aventurada, nem
ridicularizada. As obras da santidade, que antes lhe eram enfado, e pareciam ser mais trabalho do que
necessidade, são agora tanto sua recreação e negócio quanto o comércio do qual vive. A Bíblia, que antes
lhe era como um livro comum, é agora a lei de Deus, como uma carta escrita para si do céu, e assinada
com o nome da Majestade eterna. É a regra de seus pensamentos, palavras e obras; os mandamentos são
obrigatórios; as ameaças, terríveis, e as suas promessas falam da vida à sua alma. Os piedosos, que lhe
pareciam como os outros homens, são agora os mais excelentes e felizes sobre a terra. E os ímpios, que
eram seus companheiros de diversões, agora são seu tormento; e ele, que conseguia rir com seus pecados,
está mais pronto agora a chorar por seus pecados e miséria. Resumindo, ele tem agora um novo objetivo
em seus pensamentos, e um novo caminho em seus esforços; porquanto, seu coração e vida são novos.
Anteriormente, seu eu carnal era seu objetivo; seu prazer e ganhos e créditos mundanos foram seu
caminho. Mas agora Deus e a glória eterna são seus objetivos, bem como Cristo e o Espírito, a Palavra e
as ordenanças, a santidade para Deus, a justiça e a misericórdia para os homens. Esses são seus
caminhos. Antes, o eu era o principal governante, a quem os assuntos de Deus e da consciência deviam
submeter-se e dar lugar. Mas agora Deus, em Cristo, pelo Espírito, Palavra e ministério, é aquele
governante principal, a quem tanto o eu quanto todas as matérias do eu devem dar lugar. De modo que
esta não é uma mudança em um, dois, ou vinte pontos, mas em toda a alma, e no próprio fim e inclinação
das conversações. Um homem pode pular de caminho em caminho, e, ainda assim, ter o rosto virado para
a mesma direção, e ainda persistir em ir para o mesmo lugar. Mas é outra situação virar totalmente o
rosto e fazer do caminho oposto sua jornada para um lugar diferente. Essa é situação aqui: um homem
pode abandonar a bebedeira pela parcimônia, esquecer suas boas amizades, e outros pecados grosseiros
e escandalosos, e estabelecer-se em alguns deveres da religião, e, ainda assim, continuar indo para o
mesmo destino de antes, projetando seu eu carnal acima de tudo, e dando-lhe ainda o governo de sua
alma. Mas, quando é convertido, esse eu é negado e subvertido, Deus é estabelecido, e sua face é virada
para o caminho contrário. E ele que outrora era viciado em si mesmo, vivendo para si apenas, agora é,
pela santificação, devotado a Deus, e vive para ele. Antes, perguntava a si mesmo sobre o que faria com
seu tempo, sua herança, suas propriedades, e os usava para si mesmo; mas agora, pergunta a Deus o que
fará com eles, e os usa para Ele. Antes, ele agradaria a Deus até onde pudesse permanecer com o prazer
da carne e do eu carnal, mas não se houvesse o mínimo desprazer neles. Mas agora agradará a Deus,
mesmo que a carne e o eu sofram o maior dos desprezos. Essa é a maior mudança que Deus fará com
todos que serão salvos.
Vocês podem dizer que o Espírito Santo é nosso santificador, mas sabem o que é a santificação? Pois
foi isso o que lhes revelei agora, e todo homem e mulher no mundo devem tê-la ou ser condenados para a
miséria eterna. Devem ou se converter ou morrer.
Vocês creem nisso ou não? Certamente não ousam dizer que não, pois já se passou a dúvida e a
negativa. Essas não são controvérsias, onde um homem piedoso e erudito tem uma opinião e outro tem
outra; onde um partido diz isso, e outro diz aquilo. Toda denominação entre nós que merece ser chamada
cristã concorda quanto ao que lhes falei; e, se não crerem no Deus da verdade, e isso em uma situação
onde todo partido crê nele, vocês são totalmente indesculpáveis.
Mas, se verdadeiramente creem nisso, como vem a ser que consigam viver tão confortavelmente em
um estado não convertido? Vocês sabem se são convertidos? Podem encontrar essa mudança maravilhosa
em suas almas? Nasceram de novo dessa maneira, e foram renovados? Não são esses assuntos estranhos
para muitos de vocês? Não são coisas que jamais sentiram em si? Se não podem dizer o dia ou semana de
sua mudança, ou o próprio sermão que os converteu, como podem achar que a obra está feita; que essa
mudança de fato existe, e que têm corações tais como foram descritos? Que tristeza! A maioria segue os
assuntos mundanos, e perturba pouco suas mentes com esses pensamentos; e se puderem apenas evitar
pecados escandalosos e dizer: “Não sou um devasso, nem ladrão, praguejador, blasfemador, beberrão ou
fraudador; vou à igreja, e faço minhas orações”, eles pensam que isso é a verdadeira conversão, e que
deverão ser salvos tanto quanto os outros. Ora! Isso é uma traição tola a vocês mesmos; é muito desprezo
de uma glória infindável, e negligência muito grosseira de suas almas imortais. Podem vocês desprezar
tanto o céu e o inferno? Seus cadáveres brevemente repousarão no pó, e então ou anjos ou demônios se
apoderarão de suas almas, e cada homem e mulher entre vocês em breve estará em outra companhia, e em
situação diferente da que se encontra; habitarão nessas casas apenas por mais um pouco, trabalharão nas
suas lojas por pouco tempo; sentarão nesses bancos e habitarão nessa terra por mais um pouco. Vocês
verão com esses olhos, e ouvirão com esses ouvidos, e falarão com essas línguas, apenas por mais um
pouco, até ao dia da ressurreição. E podem usar de astúcia para esquecer-se disso? Em que lugar de
alegria ou tormento em breve estarão! Que vista em breve verão no céu ou no inferno! Oh, que
pensamentos em breve encherão seus corações com um deleite ou horror indizíveis! Em que obra estarão
alistados, no louvor de Deus com os santos e anjos, ou no clamor do fogo inextinguível com os
demônios? E isso tudo deveria ser esquecido? Isso tudo será infindável, e selado por um decreto
imutável. A eternidade, a eternidade será a medida de suas alegrias ou dores. E isso pode ser
esquecido? Isso tudo é verdadeiro, é certamente muito verdadeiro. Quando tiverem ido para cima e para
baixo mais um pouco, e dormido e acordado mais algumas vezes, estarão mortos e esquecidos, e
descobrirão toda a verdade de que agora lhes falo. E ainda assim podem esquecê-la tanto agora? Então,
lembrarão de que ouviram esse sermão e que, neste dia, neste lugar, foram lembrados dessas coisas;
perceberão que elas importam mil vezes mais do que vocês ou eu podemos conceber. E, ainda assim,
devem elas ser tão esquecidas agora?
Amados amigos, se o Senhor não houvesse despertado a mim mesmo para crer e colocar no coração
estas verdades, eu teria permanecido num estado de trevas e de egoísmo, e teria perecido para sempre.
Mas se ele verdadeiramente me sensibilizou para elas, isso me constrangerá a me compadecer de vocês
tanto quanto de mim. Se seus olhos fossem agora abertos, a ponto de verem o inferno, e se vissem seus
vizinhos que não eram convertidos arrastados para lá com gritos horríveis, ainda que fossem às suas
vistas pessoas honestas na terra, e eles próprios não temessem esses assuntos, essa visão os faria ir para
casa e pensar sobre ela; e pensariam novamente, e os faria alertar todos a sua volta, como aquele
mundano condenado em Lucas 16.28 queria avisar seus irmãos para que não viessem àquele lugar de
tormento. Ora! A fé é um tipo de visão; é o olho da alma, a evidência de coisas que não se veem. Se creio
em Deus, é quase como ver. Rogo-lhes que me desculpem se tiver sido quase tão urgente com vocês
sobre esses assuntos como se os tivesse visto. Se tivesse que morrer amanhã, e estivesse em meu poder
vir do outro mundo novamente, e lhes dizer o que tinha visto, não estariam dispostos a me ouvir? E não
creriam e atentariam para o que lhes dissesse? Se pudesse lhes pregar um sermão depois de morto, e de
ter visto o que acontece no mundo do porvir, vocês não gostariam que lhes falasse claramente a verdade e
não se amontoariam para me ouvir? E não a firmariam no coração? Mas isso não deve acontecer. Deus
apontou o seu método de ensino pela Escritura e pelos ministros, e não irá satisfazer incrédulos a ponto
de mandar homens que já morreram até eles, e alterar seu modo estabelecido. Se alguém contende com o
sol, Deus não lhe satisfará a ponto de arrumar uma luz mais clara.
Amigos, rogo-lhes, atentem para mim agora como fariam se tivesse vindo dos mortos a vocês; pois
posso lhes dar segurança tão plena da verdade do que digo como se estivesse estado lá e visto com os
próprios olhos. Pois é possível que alguém dos mortos lhes engane; mas Jesus Cristo não pode jamais
enganá-los. A Palavra de Deus, entregue nas Escrituras, e selada pelos milagres e santas obras do
Espírito, nunca pode enganá-los. Creiam nisso ou não creiam em nada. Creiam e obedeçam, ou estarão
arruinados.
Agora, se alguma vez creram na palavra de Deus, e se alguma vez se importaram com a salvação de
suas almas, permita-lhes rogar-lhes este pedido razoável. Rogo-lhes que não me neguem: que irão, sem
mais delongas, quando estiverem longe daqui, lembrar-se do que ouviram, e procederão a uma urgente
busca em seus corações e dirão a si mesmos: “É isso mesmo? Devo converter-me ou morrer? Devo
converter-me ou ser condenado? É tempo, então, de olhar à minha volta, antes que seja tarde demais. Ah!
Por que não procurei essas coisas senão agora? Por que atrevidamente adiei tão grande assunto? Estava
desperto ou estava consciente? Ó Deus bendito, que misericórdia é essa que tu não tiraste minha vida em
todo esse tempo, antes que tivesse qualquer esperança certa da vida eterna! Bem, Deus me livre de
negligenciar essa obra ainda mais. Em que estado se encontra minha alma? Sou convertido ou não? Já
houve alguma vez uma mudança ou obra sobre minha alma? Fui iluminado pela Palavra e Espírito do
Senhor para ver a odiosidade do pecado, a necessidade de um Salvador, o amor de Cristo, e as
excelências de Deus e da glória? Meu coração foi quebrantado ou humilhado dentro de mim pela minha
vida pregressa? Apreciei agradecidamente meu Salvador e Senhor, que ofereceu a si mesmo como
perdão e vida para a minha alma? Odeio minha vida pecaminosa de outrora, e o remanescente de cada
pecado que está em mim? Fujo deles como meus inimigos mortais? Entrego-me a mim mesmo para uma
vida de santidade e obediência a Deus? Amo e me deleito nela? Posso verdadeiramente dizer que estou
morto para o mundo e para o eu carnal, e que vivo para Deus, e para a glória que ele prometeu? O céu
tem mais da minha estima e resolução do que a terra? E é Deus o mais querido e exaltado em minha
alma? Uma vez que, estou certo, vivi principalmente para o mundo e para a carne, e Deus não teve nada
senão alguns serviços insinceros que o mundo podia poupar e que eram os refugos da carne, tenho agora
um novo desígnio, e um novo propósito, e um novo fluxo de santas afeições? Coloquei minha esperanças
e coração no céu? E é o escopo, desígnio e inclinação de meu coração e vida chegar bem ao céu, e ver a
gloriosa face de Deus, e viver em seu amor e louvor eternos? E, quando peco, é contra a inclinação e
desígnio habitual de meu coração? E venço eu todos os meus pecados vergonhosos, e estou farto e
disposto a me livrar de minhas enfermidades? Esse é o estado de uma alma convertida, e assim deve
ocorrer comigo, ou devo perecer. Acontece isso comigo de fato, ou não? É tempo de resolver essa
dúvida, antes que o terrível Juiz a resolva. Não sou tão estranho a meu próprio coração e vida, mas devo
de algum modo perceber se sou convertido desse modo ou não. Se não for, não fará bem algum lisonjear
minha alma com falsas concepções e esperanças. Estou resolvido a não mais me enganar, mas me
esforçar para conhecer verdadeiramente, de tempos em tempos, se sou convertido, de fato, ou não; para
que, se for, possa nisso me regozijar, e glorificar meu gracioso Senhor, e confortavelmente prosseguir até
que alcance a coroa. E, se não for, possa me pôr a implorar e buscar a graça para que seja convertido, e
possa converter-me sem mais delongas. Pois, se descobrir a tempo que estou fora do caminho, pelo
auxílio de Cristo, posso ser convertido e recuperado; mas, se permanecer até que meu coração esteja
esquecido de Deus, na cegueira ou endurecimento, ou até que seja levado pela morte, seria, então, tarde
demais. Não haverá, então, lugar para o arrependimento e a conversão: sei que deve ser agora ou nunca.”
Senhores, este é meu pedido a vocês, que tão somente apliquem seus corações à tarefa, e assim os
examinem, até que vejam se é o caso de que são convertidos ou não; e, se não puderem descobrir por si
mesmos, vão aos seus pastores, se forem homens fieis e experimentados, e solicitem suas assistências. A
matéria é grande, não deixem que a timidez nem o descuido lhes atrapalhem. Eles estão postos sobre
vocês para aconselhá-los, para a salvação de suas almas, como um médico os aconselha quanto à cura
dos corpos. Arruína muitos milhares o fato de pensarem que já estão no caminho da salvação quando não
estão; e pensarem que são convertidos quando não existe tal coisa. E então, quando os chamamos à
conversão, vão-se como vieram, e pensam que isso não lhes diz respeito, pois já estariam convertidos, e
esperam que irão bem o suficiente no caminho em que se encontram, ao menos se tão somente tomarem o
caminho melhor e evitarem alguns dos passos mais repugnantes. Contudo, infelizmente, durante todo esse
tempo vivem apenas para o mundo e para a carne, e são estranhos a Deus e à vida eterna, e estão muito
fora do caminho do céu. E isso tudo ocorre principalmente porque não podemos persuadi-los a alguns
sérios pensamentos sobre sua condição, e a gastarem algumas poucas horas no exame de sua situação.
Não há muitos miseráveis autoiludidos que me ouvem hoje que nunca gastaram uma hora de suas vidas no
exame de suas almas, testando se são verdadeiramente convertidos ou não? Ó Deus misericordioso, quem
se importará com esses miseráveis que não mais se importam consigo mesmos, e quem se esforçará para
salvá-los do inferno, e ajudá-los para o céu, esses que farão tão pouco por si mesmos! Se todos os que
estão no caminho do inferno nada soubessem senão isso, não ousariam prosseguir. A maior esperança que
o diabo tem em trazê-los à condenação sem que haja resgate é mantê-los de olhos vendados e ignorantes
de seu estado, fazendo-os acreditar que poderão se sair muito bem no caminho em que se encontram. Se
soubessem que estão fora do caminho do céu e estarão perdidos para sempre se morrerem como estão,
ousariam dormir mais uma noite no estado em que se encontram? Ousariam viver mais um dia nele?
Poderiam sinceramente sorrir ou se alegrar nesse estado? Ora! E não sabem que podem ser precipitados
no inferno dentro de uma hora? Certamente isso os constrangeria a abandonar suas antigas companhias e
procedimentos e a recorrer aos caminhos da santidade e da comunhão dos santos. Certamente os levaria a
clamar a Deus por um novo coração, e a buscar a ajuda daqueles que estão aptos a lhes aconselhar. Não
há nenhum de vocês que não se importa de verdade em não ser condenado.
Bem, rogo-lhes, então, que agora façam uma investigação nos seus corações, e não lhes deem
descanso até que descubram sua condição. Se ela for boa, regozijem-se nela, e prossigam; se for ruim,
podem agora olhar em volta em busca de recuperação, como homens que creem que devem se converter
ou morrer. O que dizem, senhores? Irão se resolver e prometer a despender, desse modo, muito trabalho
em favor de suas próprias almas? Vocês irão se entregar a esse exame quando chegarem em casa? Meu
pedido não é razoável? Suas consciências sabem que é. Resolvam-se nisso, então, antes que se animem,
sabendo o quanto isso importa às suas almas. Rogo-lhes, pelo amor do Deus que lhes ordena, em cujo
tribunal brevemente estarão, que não me neguem este pedido razoável: pelo amor das almas que devem
se converter ou morrer, rogo-lhes que não me neguem isso, ou seja, que tornarão a sua ocupação o
entender suas próprias condições, e assentá-las em bases seguras, e conhecerão, de tempos em tempos, se
são convertidos ou não, e não aventurarão suas almas na segurança negligente.
DISCURSO 2

“Dize-lhes: Tão certo como eu vivo, diz o SENHOR Deus, não tenho prazer na morte do perverso,
mas em que o perverso se converta do seu caminho e viva. Convertei-vos, convertei-vos dos vossos
maus caminhos; pois por que haveis de morrer, ó casa de Israel?”
Ezequiel 33:11

Uma descrição verdadeira daqueles que já são convertidos lhes foi dada; a mudança que a conversão
faz na alma também foi descrita; e o apelo é muito urgentemente repetido a vocês que, imparcial e
completamente, considerem suas condições. Não descansem satisfeitos, até que saibam se são
verdadeiramente convertidos.
Mas talvez dirão: “E se descobrirmos que ainda não somos convertidos, o que faremos, então?” Essa
pergunta me leva à segunda doutrina, que muito fará para respondê-la. Por isso, agora prossigo.

Doutrina 2

É a promessa de Deus que o ímpio viverá, se tão somente se converter; se sincera e inteiramente se
converter.
O Senhor aqui professa que se agrada que os ímpios se convertam e vivam. O céu é tão assegurado
aos convertidos quanto o inferno aos não convertidos. Converter-se e viver é uma verdade tão certa
quanto não se converter e morrer. Deus não estava obrigado a nos fornecer um Salvador, nem nos abrir
uma porta de esperança, nem nos chamar ao arrependimento e conversão quando tínhamos nos lançado
fora pelo pecado; mas o fez livremente, para magnificar sua misericórdia.
Ó pecadores, nenhum de vocês tem motivos para ir para casa e dizer que lhes preguei o desespero.
Costumamos lhes fechar a porta da misericórdia? Que vocês, porém, não as fechem contra si mesmos!
Costumamos lhes dizer que Deus não terá compaixão de vocês, ainda que se convertam e sejam
santificados? Quando jamais ouviram um pregador dizer tal coisa? Vocês que ladram contra os
pregadores do evangelho, por desejarem mantê-los fora do inferno, e dizem que lhes pregam o desespero,
digam-me, se puderem, se alguma vez ouviram um homem sóbrio dizer que não há esperança para vocês,
mesmo que se arrependam e sejam convertidos?
Não; é o contrário que proclamamos da parte do Senhor; e, qualquer que nascer de novo e, pela fé e
arrependimento, tornar-se uma nova criatura, certamente será salvo. E estamos tão longes de persuadi-los
a perderem as esperanças que os persuadimos a não duvidarem nem um pouco disso. É a vida, não a
morte, que é a primeira parte de nossa mensagem a vocês; nossa comissão é lhes oferecer a salvação, a
salvação certa, rápida, gloriosa e eterna, a todos vocês. Ao mais pobre mendigo tanto quanto ao maior
dos nobres; aos piores, até mesmo aos beberrões, blasfemadores, mundanos, ladrões, sim, até mesmo aos
desprezadores do santo caminho da salvação. Somos ordenados pelo nosso Mestre, o Senhor, a lhes
oferecer perdão por tudo o que é passado, se tão somente, por fim, se converterem e viverem. Somos
ordenados a rogar-lhes e implorar-lhes que aceitem a oferta e voltem-se; a lhes contar sobre os
preparativos feitos por Cristo, a misericórdia que permanece para vocês, a paciência que lhes aguarda,
os pensamentos de bondade que Deus tem por vocês, e como serão felizes, como podem ser certa e
indizivelmente felizes, se desejarem.
Na realidade, também temos uma mensagem de ira e de morte, sim, uma dupla ira e morte; mas
nenhuma das duas é nossa principal mensagem. Devemos lhes falar sobre a ira sob a qual já se
encontram, e da morte em que nasceram devido às quebras da lei das obras; mas isso é apenas para lhes
mostrar a necessidade da misericórdia, e para provocá-los a estimar a graça do Redentor. E nada lhes
dizemos senão a verdade, a qual devem conhecer, pois quem buscará o médico se não souber que está
doente? O fato de falarmos de suas misérias não é o que os torna miseráveis, mas é o que os conduz na
busca pela misericórdia. Foram vocês que trouxeram essa morte sobre si mesmos.
Também lhes falamos sobre outra morte; até mesmo um tormento maior e irremediável que cairá sobre
os não convertidos. Contudo, assim como isso é verdadeiro, e precisa ser-lhes dito, também é tão
somente a última e mais triste parte de nossa mensagem. Devemos primeiramente ofertar-lhes a
misericórdia, se se converterem; e é apenas àqueles que não se converterão, nem ouvirão a voz da
misericórdia, que devemos predizer a condenação. Se apenas abandonarem suas transgressões, não mais
adiarem, mas abandonarem tudo pelo chamado de Cristo, e forem convertidos, e tornarem-se novas
criaturas, não teremos uma palavra de ira condenatória ou de morte a proferir contra vocês.
Eu, aqui, em nome do Senhor da vida, proclamo a vocês, a todos os que me ouvem hoje, ao maior, ao
mais velho dos pecadores, que vocês podem obter a misericórdia e a salvação, se tão somente se
converterem. Há misericórdia em Deus; há suficiência na satisfação de Cristo; a promessa é livre, plena
e universal. Vocês podem tê-la somente, se tão somente se converterem. Mas então, assim como amam
suas almas, lembrem-se o que é a conversão de que fala a Escritura. Não é consertar a velha casa, mas
derrubar tudo e construir uma nova em Cristo, a rocha e firme fundamento. Não é corrigir algo em um
curso carnal de vida, mas é mortificar a carne, e viver pelo Espírito. Não é servir a carne e o mundo, de
um modo mais reformado, sem quaisquer pecados escandalosos e vergonhosos, e com certo tipo de
religiosidade; mas é mudar seu mestre, suas obras e seu propósito, e virar o rosto para o caminho oposto,
e fazer tudo pela vida que nunca viram, e dedicar a si mesmos e tudo o que têm a Deus. Se forem viver,
essa é a mudança que deve ser feita.
Vocês são testemunhas agora de que é a salvação e não a condenação que é a grande doutrina que lhes
prego, e que é a primeira parte de minha mensagem a vocês. Aceitem-na, e não mais iremos adiante; pois
não iríamos aterrorizá-los ou perturbá-los tanto com o nome da condenação sem que houvesse
necessidade.
Mas, se não forem salvos, não há remédio senão trazer à luz a condenação; pois não há meio termo
entre as duas: vocês devem ou ter a vida ou a morte.
E não devemos apenas lhes ofertar a vida, mas lhes mostrar a base em que nos apoiamos; e chamar-
lhes a crer que Deus de fato a tem em vista enquanto fala: que a promessa é verdadeira, e se estende
condicionalmente a vocês, tanto quanto aos outros, e que o céu não é fantasia, mas verdadeira felicidade.
Se perguntarem, “Onde está a sua comissão para essa oferta?” Entre outras centenas de textos da
Escritura, lhes mostrarei estes poucos:
Primeiro, vocês veem aqui, no meu texto, e nos versículos seguintes, bem como no cap. 18 de
Ezequiel, tão claramente quanto possa ser dito. Em 2 Coríntios 5.17-21, vocês têm o exato resumo de
nossa comissão: “E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis
que se fizeram novas. Ora, tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo
e nos deu o ministério da reconciliação, a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o
mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação. De
sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em
nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus. Aquele que não conheceu pecado, ele o
fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus.”
Também Marcos 16.15,16: “E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura.
Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado.” E em Lucas 24.46,47: “E
lhes disse: Assim está escrito que o Cristo havia de padecer e ressuscitar dentre os mortos no terceiro
dia e que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a todas as nações,
começando de Jerusalém.” Também em Atos 5.30,31: “O Deus de nossos pais ressuscitou a Jesus, a
quem vós matastes, pendurando-o num madeiro. Deus, porém, com a sua destra, o exaltou a Príncipe e
Salvador, a fim de conceder a Israel o arrependimento e a remissão de pecados.” E Atos 13.38,39:
“Tomai, pois, irmãos, conhecimento de que se vos anuncia remissão de pecados por intermédio deste; e,
por meio dele, todo o que crê é justificado de todas as coisas das quais vós não pudestes ser justificados
pela lei de Moisés.” E, para que não pensem que isso se restringe aos judeus, vejam Gálatas 6.15: “Pois
nem a circuncisão é coisa alguma, nem a incircuncisão, mas o ser nova criatura.” E Lucas 14.17: “Vinde,
porque tudo já está preparado.” Vejam ainda os versículos 23 e 24.
Veem agora que somos ordenados a oferecer a todos vocês a vida, e lhes dizer, da parte de Deus, que,
se se converterem, poderão viver.
Aqui vocês podem seguramente confiar suas almas; pois o amor de Deus é a fonte desta oferta (João
3.16), e o sangue do Filho de Deus a adquiriu. A fidelidade e verdade de Deus estão ocupadas em tornar
boa a promessa; os milagres selaram a sua veracidade; os pregadores são enviados pelo mundo para
proclamá-la; os sacramentos são instituídos e usados para a entrega solene da misericórdia ofertada
àqueles que a aceitarão; e o Espírito abre o coração para apreciá-la, e é ele mesmo a garantia da plena
posse. Por conseguinte, a verdade desta promessa está além de controvérsia, isto é, de que os piores
entre vocês, e cada um de vocês, se apenas se converterem, podem ser salvos.
De fato, se vocês têm a necessidade de crer que serão salvos sem a conversão, então creem numa
falsidade; e, se lhes pregasse isso, pregaria uma mentira. Isso não seria crer em Deus, mas no diabo e em
seus próprios corações enganosos. Deus tem sua promessa de vida, e o diabo tem a sua. A promessa de
Deus é: “Convertam-se e vivam.” A do diabo é: “Vocês viverão, quer se convertam quer não.” A palavra
de Deus é, como lhes mostrei: “Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes
como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus.” (Mateus 18.3) “Se alguém não nascer de
novo, não pode ver o reino de Deus.” Hebreus 12.14: “Sem santidade ninguém verá o Senhor”.
A palavra do diabo é: “Vocês podem ser salvos sem nascer de novo e se converter. Vocês podem ir
bem o suficiente sem ser santos. Deus só os amedronta; ele é mais misericordioso do que diz. Ele lhes
será mais bondoso do que diz sua Palavra”. E, infelizmente, a grande parte do mundo crê nessa palavra
do diabo ao invés de crer na Palavra de Deus: foi assim que entrou o pecado e a miséria no mundo. Deus
disse aos nossos primeiros pais: “Se comerem, morrerão”, e o diabo o contradisse, dizendo: “Vocês não
morrerão, pois, se clamarem, Deus terá misericórdia, no fim, e desprezará os atos de pecado quando
vocês não mais puderem praticá-los”. Essa é a palavra em que o mundo acredita. Oh! Que hedionda
impiedade é crer no diabo e não em Deus!
Contudo, isso não é o pior, mas, com blasfêmia, chamam isso de crer e confiar em Deus, quando O
amoldam a Satanás, que foi um mentiroso desde o princípio. Quando creem que a palavra de Deus é
mentira chamam a isso de crer em Deus e dizem que nele creem e confiam para a salvação. Onde Deus
alguma vez disse que os não regenerados, os não convertidos ou os não santificados seriam salvos? Eu os
desafio: mostrem-me essa passagem na Escritura, se puderem. Pois essa é a palavra do diabo, e crer nela
é crer nele. Esse é o pecado comumente chamado de presunção. E vocês chamam a isso de crer e confiar
em Deus? Há tudo na palavra de Deus para confortar e fortalecer os corações dos santificados, mas nem
uma palavra para fortalecer as mãos da impiedade, nem para dar aos homens a mínima esperança de
serem salvos, sem que sejam santificados.
Mas, se se converterem e vierem para o caminho da misericórdia, a misericórdia do Senhor está
pronta para abrigá-los. Confiem, então, ousadamente em Deus para a salvação, pois ele está
comprometido por sua Palavra a salvá-los. Ele não será Pai a ninguém senão a seus filhos, e a ninguém
salvará senão os que esquecem o mundo, o diabo e a carne e vêm à sua família para se tornarem membros
de seu Filho e terem comunhão com seus santos. Mas, se não vierem, a culpa é deles. Suas portas estão
abertas; a ninguém ele recusa. Jamais disse a quaisquer de vocês algo semelhante a isto: “Agora é tarde
demais; não o receberei mesmo que tenha se convertido”. Ele poderia ter feito isso, e não teria sido
injusto com vocês. Mas não o fez. Não o fez até hoje. Ele ainda está pronto a lhes receber, se tão somente
estiverem prontos a sinceramente e de todo coração se converterem. E a plenitude dessa verdade irá
transparecer ainda mais nas duas doutrinas seguintes, as quais devo, pois, proceder antes que faça
qualquer aplicação do assunto.

Doutrina 3

Deus tem prazer na conversão e na salvação dos homens, mas não na sua morte ou condenação. Ele
preferiria que eles se convertessem e vivessem, a que persistissem e morressem.
Vou primeiro ensiná-los como devem entender isso, e, em seguida, clarear-lhes a verdade.
Primeiramente, vocês devem observar as seguintes coisas.
1. A disposição simples, ou complacência, é o primeiro ato da vontade, seguindo a simples
compreensão da tarefa, antes que se proceda para comparar os objetos de escolha. Mas o ato de escolha
da vontade é um ato subsequente e pressupõe o ato prático comparativo do entendimento. E esses dois
atos podem frequentemente ser conduzidos para objetos contrários, sem qualquer falta em absoluto na
pessoa.
2. Uma disposição sincera pode ter diversos graus. Com relação a algumas coisas estou até aqui tão
inclinado a elas que farei tudo que estiver ao meu alcance para realizá-las. Com relação a outras coisas,
estou verdadeiramente disposto que outro deva realizá-las, quando, na realidade, não farei tudo de que
sou capaz para obtê-las, tendo muitas razões para dissuadir-me disso, embora faça tudo o que me
incumbe fazer.
3. A vontade de um governante, na condição de governante, manifesta-se na criação e execução das
leis. Mas a vontade de um homem, em sua capacidade natural simples, ou como Senhor absoluto de si
mesmo, manifesta-se em desejar ou determinar os eventos.
4. A vontade de um governante, na condição de legislador, é primária e principalmente que suas leis
sejam obedecidas, e não que a penalidade seja executada sobre alguém, a não ser na suposição de que
não obedeçam às suas leis. Mas a vontade de um governante, na condição de juiz, supõe a lei como já
guardada ou quebrada. Portanto, ele resolve recompensar ou punir de acordo com a respectiva condição.
Tendo feito essas necessárias distinções, devo agora aplicá-las ao caso em discussão nas seguintes
proposições.
a) É pelo espelho da Palavra e das criaturas que, nesta vida, devemos conhecer a Deus. Logo, de
acordo com a natureza do homem, atribuímos-lhe entendimento e vontade, removendo todas as
imperfeições que pudermos, porque não somos capazes de concepções positivas mais elevadas a respeito
dele.
b) Por motivos semelhantes, nós (com a Escritura) distinguimos entre os atos da vontade de Deus
como diversos dos seus alvos ou objetos, ainda que, quanto à essência de Deus, eles sejam um.
c) Por esse motivo, quando falamos de Cristo, somos mais ousados, pois temos ainda maior base para
isso devido à sua natureza humana.
d) Assim dizemos que a simples complacência, vontade ou amor de Deus é direcionado para tudo o
que seja natural ou moralmente bom, de acordo com a natureza e grau de sua bondade. Portanto, ele tem
prazer na conversão e salvação de todos, algo que, contudo, jamais virá a acontecer.
e) E Deus, um governante e legislador do mundo, tem de tal modo uma vontade prática pela salvação
dos homens a ponto de lhes fazer uma livre oferta do dom de Cristo e da vida, bem como de um ato de
esquecimento de todos os seus pecados, na condição de que não o rejeitem ingratamente. E ordena que
seus mensageiros ofereçam esse dom a todo o mundo, e os persuadam a aceitá-lo. Assim ele faz tudo o
que, na condição de legislador ou promitente[3], lhe incumbe fazer pela salvação deles.
f) Mas Ele ainda decide, na condição de legislador, que aqueles que não se converterem devem
morrer. E, na condição de juiz, que quando o dia de graça deles tiver passado, executará esse decreto.
g) De modo que Ele, de fato, deseja sinceramente a conversão daqueles que jamais serão convertidos,
mas não na condição do Senhor absoluto, com a mais plena resolução eficaz, nem como algo que tenha
decidido que inequivocamente irá acontecer ou a que irá aplicar todo o seu poder para realizar. Está no
poder de um príncipe pôr um assassino sob vigilância, para evitar que venha a matar e ser enforcado.
Mas se, por bons motivos, ele abstiver-se disso, e apenas notificar seus súditos, e avisá-los, e instar para
que não sejam assassinos, penso que ele pode muito bem dizer que não quer que eles matem e sejam
enforcados. Ele não se agrada disso, mas, ao contrário, que evitem o homicídio e vivam. E, se fizer mais
por alguns, por alguma razão especial, não é obrigado a fazer por todos. O rei pode bem dizer para todos
os assassinos e criminosos da terra: “Não tenho prazer na sua morte, mas, ao contrário, que obedeçam às
minhas leis e vivam. Mas, se não o fizerem, estou resolvido que, por tudo o que fizeram, vocês devem
morrer”. O juiz pode verdadeiramente dizer ao ladrão e ao assassino: “Ó homem, não tenho prazer na sua
morte! Preferiria, antes, que você tivesse guardado a lei e salvado sua vida. Mas, visto que você não fez
isso, devo condená-lo, pois, de outra forma, seria injusto”. Por conseguinte, embora Deus não tenha
prazer na sua condenação, e, portanto, lhes chame a converter-se e viver, contudo, ele tem prazer na
demonstração de sua própria justiça e na execução de suas leis. Logo, por isso tudo, ele resolveu
plenamente que, se vocês não se converterem, serão condenados. Se Deus fosse de tal modo contrário à
morte dos ímpios a ponto de estar resolvido a fazer tudo o que pudesse para impedi-la, então homem
algum seria condenado. Porém Cristo nos diz que poucos serão salvos. Mas, até agora, Deus é contrário à
condenação de vocês, visto que lhes ensinará e alertará, e colocará diante de vocês a vida e a morte, e
lhes oferecerá uma escolha. Ele ordena a seus ministros que instem para que vocês não condenem a si
mesmos, mas aceitem sua misericórdia. Isso tudo os deixa sem desculpa. Mas, se isso de nada adiantar, e
se ainda permanecerem não convertidos, ele lhes professa que está resolvido a condená-los, e nos
ordenou que lhes disséssemos em seu nome: “Ó ímpio, tu certamente morrerás!” (v. 18). E Cristo não fez
menos do que jurar várias vezes, dizendo: “Em verdade, em verdade vos digo que, a não ser que se
convertam, e nasçam de novo, não podem entrar no reino do céu.” (Mateus 18.3; João 3.3). Observem
que ele disse: “Não podeis”. É vão esperar por isso, e é vão sonhar que Deus está disposto a isso, pois é
algo que jamais ocorrerá.
Em uma palavra, vocês veem o significado do texto, que Deus, o grande legislador do mundo, não tem
prazer na morte do ímpio, mas, ao contrário, que se se converta e viva, muito embora esteja resolvido
que ninguém viverá senão os que se converterem, e, como um juiz, até mesmo se deleite na justiça e em
manifestar seu ódio ao pecado, embora não na miséria que trouxeram sobre si mesmos, em si mesma
considerada.
E, quanto às provas do argumento, serei bem breve, porque suponho que facilmente vocês já creem
nele.
1. A própria natureza graciosa de Deus, proclamada em Êxodo 34.6 e 20.6 e, com frequência, em
outros lugares, pode assegurar-lhes de que ele não tem prazer em sua morte.
2. Se Deus tivesse mais prazer na sua morte do que na sua conversão e vida, não teria com frequência,
ordenado a você, em sua Palavra, que se arrependesse. Não lhe teria feito essas promessas de vida, se
você apenas se arrependesse. Não o teria persuadido a isso com tantas razões. O conteúdo de seu
evangelho prova esse ponto.
3. A comissão que deu aos ministros do evangelho prova plenamente isso. Se Deus tivesse mais prazer
na sua condenação do que na sua conversão e salvação, jamais teria nos encarregado de lhes oferecer
misericórdia e de ensiná-los o caminho da vida, tanto pública quanto privadamente. E nem que lhes
rogássemos e suplicássemos a arrependerem-se e viverem; e que conhecessem seus pecados, e predizer-
lhes o perigo que correm, e a fazer tudo ao nosso alcance pela sua conversão, e a nisso persistir
pacientemente, ainda que vocês nos odiassem ou nos abusassem por nossos labores. Teria Deus feito
assim, apontado suas ordenanças para o bem de vocês, se tivesse prazer na sua morte?
4. Também está comprovado pela sua providência. Se Deus preferisse que vocês fossem condenados a
que se convertessem e fossem salvos, não apoiaria sua Palavra com suas obras, e não os atrairia, por sua
bondade diária, para si mesmo, e não lhes daria todas as misericórdias desta vida, que são os seus meios
de conduzi-los ao arrependimento (Romanos 2:4). Ele não os traria com tanta frequência para baixo de
seu bordão para forçá-los a recuperar a sobriedade. Não apresentaria tantos exemplos diante de seus
olhos; nem jamais os esperaria com tanta paciência como faz, dia após dia, ano após ano. Esses não
sinais de alguém que tem prazer na sua morte. Se esse tivesse sido seu deleite, quão facilmente poderia
ele lançar-lhe há muito tempo no inferno? Com que frequência, antes disso, poderia arrebatá-lo em meios
aos seus pecados, com uma maldição, juramento ou mentira na sua boca, em sua ignorância, orgulho e
sensualidade? Quando você se manteve na bebedeira ou persistiu zombando dos caminhos do Senhor,
quão facilmente ele poderia ter cortado sua respiração, e o subjugado com suas pragas, e o levado à
sobriedade em outro mundo?
Por acaso não é uma ninharia para o Todo-Poderoso reger a língua do mais profano insultador, atar as
mãos do mais malicioso perseguidor, ou acalmar a fúria do mais amargo dos seus inimigos, e fazê-los
saber que não passam de vermes? Se ele lhe rejeitar, você cairá no sepulcro. Se ele desse ordem a um de
seus anjos para ir e destruir dez mil pecadores, isso seria feito rapidamente. Quão facilmente pode lhe
colocar na cama da fraqueza, e lhe fazer ficar prostrado lá, rugindo de dor, e fazê-lo engolir as palavras
de reprovação que você falou contra seus servos, sua Palavra, seu culto e seus santos caminhos, e fazê-lo
ir implorar por aquelas orações que você desprezou na sua presunção! Quão facilmente pode pôr sua
carne sob apertos e gemidos, e torná-la fraca para sustentar sua alma, e fazê-la mais repugnante do que o
esterco da terra! Quão facilmente a reprovação de Deus consumirá essa carne que agora deve ter aquilo
que ama, e não deve ser desagradada ainda que Deus o seja, e deve ser satisfeita com comida, bebidas e
roupas, seja lá o que Deus diga em contrário? Quando você estava apaixonadamente defendendo seu
pecado, e brigando com aqueles que queriam afastá-lo dele, e mostrando seu ressentimento contra os que
lhe reprovavam, e defendendo as obras das trevas, quão facilmente Deus poderia lhe arrebatar em um
instante, e colocá-lo diante de sua terrível Majestade, onde você veria dez mil vezes dez mil anjos
gloriosos esperando em seu trono? E lhe chamaria lá para defender sua causa e perguntar-lhe: “O que
você tem agora aa dizer contra seu Criador, sua verdade, seus servos ou seus santos caminhos? Defenda,
agora, sua causa e faça o melhor que puder. O que pode dizer como desculpa pelos seus pecados? Dê
agora um relato de sua vida mundana e carnal, de seu tempo e de todas as misericórdias que teve!”
Como este coração teimoso teria derretido, e seus olhares orgulhosos derrubados, e seu semblante se
tornaria pálido, e suas palavras audazes se transformariam em um silêncio mudo, ou em gritos terríveis,
se Deus lhe tivesse apenas colocado em seu tribunal e pleiteado Sua causa com você, causa essa contra a
qual você tem tão maliciosamente se levantado! Quão facilmente ele pode, a qualquer tempo, dizer à sua
alma culpada: “Venha, e não viva mais na carne até à ressurreição”, e ela não poderia resistir! Uma
palavra de sua boca tiraria o equilíbrio de sua presente vida, e então todas as suas partes e poderes
ficariam suspensos. E se lhe dissesse: “Não viva mais, ou viva no inferno”, você não poderia
desobedecer-lhe.
Mas Deus ainda não fez isso, mas pacientemente lhe suportou, e misericordiosamente o sustentou, e
lhe deu a respiração, essa mesma que você usa contra ele; e lhe deu aquelas misericórdias que você
sacrificou para a sua carne, e forneceu aquela provisão que você gastou para satisfazer sua garganta
gulosa. Ele lhe deu cada minuto desse tempo que você gastou no ócio, ou na bebedeira e mundanismo. E
toda essa sua paciência e misericórdia não mostram que ele não desejava a sua condenação? Pode a
lamparina queimar sem o óleo? Podem suas casas ficar de pé sem a terra para sustentá-las?
Semelhantemente vocês não podem viver uma hora sem a sustentação de Deus. E por que sustentou por
tanto tempo sua vida, senão para ver quando você reconheceria a tolice de seus caminhos, e voltaria, e
viveria.
Irá alguém colocar de propósito armas nas mãos de seu inimigo para lhe resistir; ou segurará uma vela
para um assassino que está matando seus filhos, ou para um servo preguiçoso que brinca ou dorme em
serviço? Certamente é para ver se, por fim, vocês retornarão e viverão que Deus por tanto tempo lhes
esperou.
5. Prova-se adicionalmente pelo sofrimento de seu Filho que Deus não se agrada na morte dos ímpios.
Ele os teria resgatado da morte a um preço tão caro? Teria deixado atônitos anjos e homens com sua
condescendência? Teria Deus se manifestado na carne, e teria vindo na forma de um servo, e assumido a
humanidade em uma pessoa da Divindade? Teria Cristo vivido uma vida de sofrimento e morrido uma
morte maldita pelos pecadores se tivesse, pelo contrário, prazer na morte deles? Suponham que o tenham
visto tão ocupado na pregação e na cura deles, como o encontram em Marcos 3.21; ou tão demorado no
jejum, como em Mateus 4; ou toda a noite em oração, como em Lucas 6.12; ou orando com gotas de
sangue pingando dele em lugar do suor, como em Lucas 22.44; ou sofrendo uma morte maldita na cruz, e
derramando sua alma como um sacrifício por nossos pecados: vocês pensariam que esses são sinais de
alguém que tem prazer na morte dos ímpios?
E não pense que é um atenuante dizer que foi apenas pelos seus eleitos, pois era o seu pecado e o
pecado do mundo todo que estava sobre nosso Redentor. Seu sacrifício e satisfação é suficiente para
todos, e seus frutos são ofertados a um tanto quanto a outro. Mas é verdade que nunca foi a intenção de
sua mente perdoar e salvar qualquer um que não fosse convertido pela fé e arrependimento. Se vocês o
viram e ouviram chorando e lamentando o estado do povo desobediente e impenitente (Lucas 14.41,42)
ou lamentando sua teimosia, como em Mateus 23.37: “Jerusalém, Jerusalém, quantas vezes eu quis ajuntar
teus filhos, como a galinha ajunta seus filhotes debaixo das asas, e não quisestes!”; ou, se o tivessem
visto e ouvido na cruz orando por seus perseguidores: “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem”,
vocês suspeitariam que ele tem prazer na morte dos ímpios, mesmo daqueles que perecem por sua
descrença voluntária? Quando Deus amou de tal maneira (não apenas amou, mas amou de tal maneira) o
mundo, a ponto de dar Seu Filho unigênito, para que todo o que nele crer, por uma fé eficaz, não pereça
mas tenha a vida eterna, penso que nisso ele provou, contra a malícia dos homens e demônios, que não
tem prazer na morte dos ímpios, mas, ao contrário, que se convertam e vivam.
6. Por fim, se isso tudo não lhes satisfizer, apeguem-se à Sua própria Palavra, que desvenda melhor
sua própria mente, ou ao menos creiam neste juramento[4]. Mas isso me leva à quarta doutrina.

Doutrina 4

O Senhor nos confirmou, por juramento, que não tem prazer algum na morte do ímpio; antes
prefere que ele se converta e viva, para que por esse modo torne o homem indesculpável quanto a essa
verdade.

Se vocês ousam questionar sua Palavra, espero que não ousem questionar seu juramento. Assim como
Cristo solenemente afirmou que os não regenerados e não convertidos não podem entrar no reino dos
céus [Mateus 18.3, João 3.3], também Deus jurou que seu prazer não está na morte deles, mas em sua
conversão e vida. Como diz o apóstolo: “Quando Deus fez a promessa a Abraão, jurou por si mesmo,
visto não ter outro maior por quem jurar, e disse: Por certo te abençoarei e te multiplicarei grandemente.
Assim, Abraão, tendo esperado com paciência, alcançou a promessa. Pois os homens juram por quem é
maior que eles, e para eles o juramento para confirmação é o fim de toda disputa. Assim, Deus, querendo
mostrar mais claramente aos herdeiros da promessa a imutabilidade de seu propósito, interveio com
juramento, para que nós, que nos refugiamos no acesso à esperança proposta, tenhamos grande ânimo por
meio de duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta. Essa esperança é para nós âncora
da alma, segura e firme.” [Hebreus 6:13,16,17,18]. Se houver um homem qualquer que não possa
reconciliar esta verdade com a doutrina da predestinação ou com a condenação real dos ímpios isso se
deve à sua própria ignorância. Pois não lhe resta pretexto algum para negar ou questionar a verdade do
ponto em questão, porque este é confirmado pelo juramento de Deus, portanto, não deve ser distorcido
para reduzi-lo a outros pontos. Mas os pontos duvidosos devem ser reduzidos a ele, e certas verdades
devem ser cridas para harmonizar-se com ele, embora nossas mentes superficiais dificilmente apreendam
a harmonia.
APLICAÇÃO

Agora, rogo-lhe, se você for um pecador não convertido, que ouça essas palavras; que pondere um
pouco nas doutrinas já mencionadas, e considere consigo um pouco sobre quem é que tem prazer no seu
pecado e condenação! Certamente não é Deus. Ele jurou, por sua parte, que não tem prazer nisso. E sei
que você não tem a intenção de agradá-lo nisso. Não ouse dizer que você bebe, pragueja, negligencia os
deveres santos, apaga os movimentos do Espírito, isso tudo para agradar a Deus. Isso seria como se
pudesse repreender o príncipe, e quebrar suas leis, e buscar sua morte, e dizer que fez isso tudo para
agradá-lo.
Quem é então que se agrada com seu pecado e morte? Certamente não é ninguém que carregue a
imagem de Deus, pois esses devem ter mentes semelhantes à dele. Deus sabe que pouco satisfaz a seus
mestres fiéis vê-los servir a seus inimigos mortais, e loucamente aventurar sua condição eterna, e
voluntariamente correr rumo às chamas do inferno. Pouco lhes satisfaz ver sobre suas almas (nos seus
tristes efeitos) essa cegueira, dureza de coração, insensibilidade e presunção; essa obstinação no mal, e
essa incorrigibilidade e resistência aos caminhos da vida e da paz. Eles sabem que essas são as marcas
da morte e da ira de Deus; e sabem, pela Palavra de Deus, qual é o provável fim delas. Portanto, elas
agradam-lhes tanto quanto a um médico amoroso agrada ver as marcas da pestilência irromperem sobre
seu paciente!
Que miséria é prever seus tormentos eternos e não saber como preveni-los! Ver como estão pertos do
inferno e não poder fazê-los acreditar e considerar isso! Ver quão fácil e certamente poderiam escapar, se
tão somente soubéssemos como dispô-los! Como vocês estariam próximos da salvação eterna, se apenas
se convertessem e fizessem seu melhor, e disso fizessem o negócio de suas vidas! Mas não o farão. Se
nossas vidas fossem gastas nisso, não poderíamos persuadi-los à conversão. Estudamos noite e dia o que
lhes dizer para convencê-los e persuadi-los e ainda assim é em vão. Colocamos diante de vocês a
Palavra de Deus, e lhes mostramos os exatos capítulos e versículos onde está escrito que não podem ser
salvos a menos que sejam convertidos, e, não obstante isso, deixamos a maior parte de vocês da maneira
como os encontramos. Esperamos que crerão na palavra de Deus, mesmo que não creiam em nós, e que a
considerarão quando lhes mostrarmos a clareza da Escritura nesse assunto. Mas esperamos em vão, e
trabalhamos em vão quanto a qualquer mudança salvadora em seus corações.
Vocês pensam que isso nos agrada? Muitas vezes na oração secreta nos resignamos a contender com
Deus, com corações entristecidos: “Ah! Senhor, falamos-lhes em teu nome, mas fizeram pouco caso de
nós. Falamos-lhes aquilo que nos ordenaste dizer-lhes quanto ao perigo de um estado não convertido,
mas eles não creem em nós. Falamos-lhes que tu disseste que ‘para os ímpios não haverá paz’ [Isaías
48:22 e 57:21], mas mesmo os piores dentre eles dificilmente acreditam que são ímpios. Mostramos-lhes
tua Palavra, onde disseste que ‘se viverdes segundo a carne, caminhais para a morte’ [Romanos 8:13],
mas dizem que ‘crerão em ti, quando não crerem em ti; que confiarão em ti, quando não derem crédito à
tua Palavra; e quando tiverem esperança que as ameaças da tua Palavra sejam falsas, chamarão isso de
esperança em Deus; e embora lhes mostremos onde disseste que quando um ímpio morre perecem todas
as suas esperanças, contudo, não podemos convencê-los de suas esperanças enganosas.” [Provérbios
11:7]. Falamos-lhes como o pecado é vil e inútil, mas eles o amam, e, portanto, não o abandonarão.
Falamos-lhes quão caro é o preço para a compra deste prazer, e que devem pagar por ele no tormento
eterno, mas eles se bendizem, e não crerão, mas farão como faz a maioria. E porque Deus é
misericordioso, não crerão nele, mas aventurarão suas almas, haja o que houver. Falamos-lhes de como o
Senhor está pronto a recebê-los, e isso apenas os faz adiar o arrependimento e ser mais ousados no
pecado.
Alguns deles dizem que pretendem se arrepender, mas ainda são os mesmos, e alguns dizem que já se
arrependeram, quando, porém, não se converteram de seus pecados. Exortamo-los, imploramos-lhes,
oferecemos-lhes nosso auxílio, mas não pudemos prevalecer contra eles, pois os que eram bêbados,
bêbados continuam; e os que eram miseráveis e amantes voluptuosos da carne ainda o são; e os que eram
mundanos ainda o são; e os que eram ignorantes, orgulhosos e soberbos ainda o são.
Poucos dentre eles verão e confessarão seu pecado, e um número menor ainda o esquecerão, mas
ficam confortados em saber que todos os homens são pecadores, como se não houvesse diferença alguma
entre um pecador convertido e um não convertido. Alguns deles não se aproximarão de nós quando
estivermos dispostos a instrui-los, mas pensam que já têm o suficiente, e não precisam de nossa
instrução; e alguns deles nos darão audiência, mas farão o que lhes agrada. A maior parte deles são como
mortos que não podem sentir, de modo que, quando lhes falamos de matérias de consequências eternas,
não conseguimos comunicar uma única palavra aos seus corações. Se não lhes obedecemos, e fazemos
suas vontades em batizar os filhos dos mais obstinadamente ímpios, e se não lhes damos a Ceia do
Senhor, e se não fazemos tudo o que desejam, mesmo que contra a Palavra de Deus, nos odiarão e nos
encherão de críticas. Mas se lhes suplicamos que tão somente confessem e abandonem seus pecados e
salvem suas almas, não farão isso.
Falamos-lhes que se apenas se converterem não lhes negaremos as ordenanças de Deus, nem o
batismo aos seus filhos, nem a Ceia do Senhor para eles mesmos, mas não nos ouvirão. Eles preferem
que desobedeçamos a Deus e condenemos nossas almas para agradá-los, e ainda assim não se
converterão e salvarão suas próprias almas para agradar a Deus. São mais sábios aos seus próprios
olhos do que todos os seus mestres; enfurecem-se e estão confiantes em seus próprios caminhos, e,
mesmo que nunca estejamos tão dispostos, não podemos mudá-los.
Senhor, esta é a situação de nossos conhecidos infelizes e não podemos ajudá-los. Vemo-nos prontos a
cair no inferno e não podemos ajudá-los. Sabemos que se eles verdadeiramente se arrependessem
poderiam ser salvos, mas não podemos persuadi-los. Se lhes suplicarmos de joelhos, não poderemos
persuadi-los a isso; se lhes suplicarmos com lágrimas, não poderemos persuadi-los. O que mais podemos
fazer?
Essas são as queixas e lamúrias secretas que muitos pobres pastores estão dispostos a fazer. E vocês
pensam que eles tenham algum prazer nisso? É-lhes um prazer vê-los persistindo no pecado e não poder
detê-los? Vê-los tão miseráveis e não poder sensibilizá-los disso? Vê-los felizes quando não estão certos
que estejam uma hora fora do inferno? Pensar no que vocês podem sofrer para sempre porque não se
converterão? Que coisa mais triste poderão trazer aos seus corações? E como podem imaginar afligi-los
ainda mais?
A quem é então que vocês agradam com seu pecado e morte? Não é a nenhum de seus amigos
compreensivos e piedosos. Infelizmente, é o luto de suas almas ver sua miséria e eles lhes lamentam
muitas vezes quando vocês pouco lhes agradecem e quando não têm corações para lamentar por si
mesmos.
Quem é então que tem prazer com o seu pecado? Não é ninguém senão os três grandes inimigos de
Deus, a quem vocês renunciaram no seu batismo e agora se voltam perfidamente para servir.
1. O diabo de fato se agrada de seu pecado e morte, pois esse é o exato objetivo de todas as suas
tentações. Para isso, ele vigia dia e noite. Vocês não podem imaginar maneira melhor de agradá-lo do que
ao persistir no pecado. Como ele se alegra ao vê-los irem ao bar, ou a outro pecado, e quando os ouve
praguejando, amaldiçoando ou murmurando! Como se alegra ao vê-los insultando o pastor que, se
pudesse, lhes retiraria do seu pecado e ajudaria a salvá-los! Esses são os seus deleites.
2. Os ímpios também se deleitam nisso, pois é de acordo com a natureza deles.
3. Mas sei, por isso tudo, que não é agradar ao diabo que vocês pretendem, mesmo quando lhe
agradam. Mas é à sua própria carne, o maior e mais perigoso inimigo, que pretendem agradar. É a carne
que quer ser mimada, que quer se agradada com comida, e bebida, e roupa; que quer ser agradada na sua
companhia, e agradada nos aplausos e créditos do mundo, e agradada nas diversões, luxúrias e
ociosidade. Esta é a goela que a tudo devora. Este é verdadeiro deus a quem servem, pois a Escritura diz
dos tais “que o deus deles é o ventre.” [Filipenses 3.18].
Mas eu lhes imploro que parem um pouco e considerem o assunto.
1ª Questão. Deveria sua carne ser satisfeita antes do seu Criador? Vocês desagradarão ao Senhor, aos
seus mestres, aos seus amigos piedosos, e tudo para satisfazer seus apetites brutos ou desejos sensuais?
Deus não é digno de ser o regente de sua carne? Se ele não a reger, não a salvará. Vocês não podem ter
razão em esperar que ele o faça.
2ª Questão. Sua carne se satisfaz com seu pecado, mas a sua consciência se satisfaz? Ela não murmura
no seu interior e lhes diz, às vezes, que nada vai bem, e que sua situação não é tão segura quanto vocês
pensam? E não deveriam sua alma e consciência ser satisfeitas antes de sua carne corruptível?
3ª Questão. Mas a sua carne também não está se preparando para seu próprio desprazer? Ela ama a
isca, mas ama também o anzol? Ama a bebida forte e os bocados doces; ama o sossego, diversão e
folguedo; ama ser rica, bem falada pelos homens e ser alguém no mundo. Mas ela ama a maldição de
Deus? Ama ficar de pé, trêmula, diante de seu tribunal e ser condenada ao fogo inextinguível? Ama ser
atormentada com os demônios para sempre? Tome todas as coisas juntas, pois não há como separar o
pecado e o inferno senão pela fé e verdadeira conversão: se vocês tiverem um, terão o outro. Se a morte
e o inferno lhes forem agradáveis, não é de admirar, então, que vocês persistam no pecado. Mas se não
lhes são (como estou certo que não são), então, ainda que o pecado seja extremamente agradável, ele vale
a perda da vida eterna? Um pouco de bebida, ou comida, ou tranquilidade; a boa palavra dos pecadores;
as riquezas deste mundo, essas coisas todas devem ser mais valorizadas do que as alegrias do céu? Ou
são elas dignas dos sofrimentos do fogo eterno?
Essas questões devem ser consideradas, antes que prossigam um pouco mais, por todo homem que tem
juízo para considerá-las e que crê que tenha uma alma para salvar ou perder.
Bem, aqui o Senhor jura que não tem prazer na sua morte, mas, ao invés disso, que se arrependam e
vivam. Se, contudo, vocês persistirem e morrerem, ao invés de se arrependerem, lembrem-se que não foi
para agradar a Deus que fizeram isso. Foi para agradar ao mundo e a si mesmos. E, se com o fim de
agradarem a si mesmos, os homens se condenarem e, por causa dos prazeres, correrem para os
infindáveis tormentos, e não tiverem a inteligência, o coração e a graça para ouvirem a Deus e ao homem
que reclamam com eles, que remédio há? Devem obter o que procuraram e se arrependerão de outro
modo, quando for tarde demais!
Antes que prossiga mais um pouco para a aplicação, devo ir à próxima doutrina, que me dá um
fundamento mais pleno para a aplicação.

Doutrina 5

Deus é tão diligente pela conversão dos pecadores que duplica seus mandamentos e exortações com
veemência: “Convertei-vos, convertei-vos, por que haveis de morrer?

Essa doutrina é a aplicação da anterior, como por um uso de exortação, e desse modo devo manejá-la.
Há um pecador não convertido que ouça estas veementes palavras de Deus? Há, porventura, um
homem ou mulher nesta assembleia que ainda é estranho à obra renovadora e santificadora do Espírito
Santo? É uma feliz assembleia se isso não ocorrer com a maioria. Ouçam então a voz do seu Criador e
convertam-se a ele, por meio de Cristo, sem mais delongas. Vocês gostariam de conhecer a vontade de
Deus? Pois esta é a sua vontade, que vocês logo se convertam. Mandará o Deus vivo uma mensagem tão
veemente às suas criaturas e elas não lhe obedecerão?
Ouçam, então, todos vocês que vivem para a carne: o Senhor, que lhes deu sua respiração e ser, lhes
enviou uma mensagem do céu, e esta é a sua mensagem: “Convertam-se, convertam-se, por que haverão
de morrer?” Aquele que tem ouvidos para ouvir, que a ouça. A voz da eterna Majestade será
negligenciada? Se Ele apenas trovejar terrivelmente você fica com medo. Oh! Mas essa palavra diz
respeito à sua vida ou morte eterna. É tanto um mandado como uma exortação. É como se lhe tivesse dito:
“Encarrego-o, sob a submissão que você me deve como seu Criador e Redentor, que renuncie à carne, ao
mundo e ao diabo e converta-se a mim para que possa viver. Condescendo em suplicar-lhe, como alguém
que ama ou teme aquele que o criou; como alguém que ama sua própria vida ou a própria vida eterna:
converta-se e viva. Se alguma vez quiser escapar da miséria eterna ‘converta-se, converta-se, por que
você há de morrer?’” E haverá um coração no homem, numa criatura racional, que possa alguma vez
recusar essa mensagem, esse mandado, uma exortação como essa? Oh! Que coisa então é o coração
humano!
Ouçam, então, todos os que amam a si mesmos e os que se preocupam com a própria salvação. Eis a
mais alegre mensagem que jamais foi enviada aos ouvidos humanos: “Convertei-vos, convertei-vos, por
que haveis de morrer?” Vocês ainda não estão encarcerados pelo desespero. Aqui, lhes é oferecida a
misericórdia; convertam-se e a terão. Como deveriam estar felizes seus corações em receber essas
notícias! Sei que não é a primeira vez que a ouviram, mas como a encararam e como a encaram agora?
Ouçam, todos vocês, pecadores ignorantes e descuidados, a palavra do Senhor! Ouçam, todos vocês,
mundanos, carnais sensuais; vocês, glutões e bêbados, devassos e blasfemos; vocês, insultadores e
caluniadores, detratores e mentirosos: “Convertei-vos, convertei-vos, por que haveis de morrer?”
Ouçam, todos vocês que estão vazios do amor de Deus, cujos corações não se inclinam para ele, nem
mantêm relações com as esperanças da glória, mas importam-se mais com sua prosperidade e prazeres
terrenos do que com as alegrias do céu; todos vocês que são religiosos, mas um pouco de passagem, e
não dão a Deus nada mais do que sua carne pode poupar; que não negaram seus eus carnais, nem
esqueceram tudo o que têm por Cristo, na estima e resolução firmada de suas almas, mas têm alguma
outra coisa no mundo tão querida a vocês que não conseguem dispensá-la por Cristo, se ele o requeresse,
mas, antes, se aventurarão a desagradá-lo do que a esquecê-la: “Convertei-vos, convertei-vos, por que
haveis de morrer?”
Se nunca antes ouviram ou observaram isso, lembrem-se de que quem lhe falou isso hoje foi a palavra
de Deus, isto é, que, se vocês tão somente se converterem, poderão viver, e se não se converterem,
certamente morrerão.
O que farão agora, então, senhores? Qual é a sua resolução? Irão se converter ou não? Não hesitem
mais entre duas opiniões: Se o Senhor é Deus, segui-o; se a sua carne for Deus, então continuem a segui-
la. Se o céu for melhor do que a terra e os prazeres carnais, venham, então, e busquem um país melhor, e
“ajuntai para vós outros tesouros onde traça nem ferrugem corrói e onde ladrões não escavam, nem
roubam e despertai-vos, por fim, com toda a sua força para buscar o reino que não pode ser movido.”
(Hebreus 12.28) Empreguem suas vidas em um projeto mais elevado e convertam o fluxo de seus
cuidados e labores de modo diferente do que fizeram anteriormente.
Mas se a terra for melhor do que o céu, ou fizer mais por vocês, ou ficar mais tempo com vocês, então
guardem-na, e aproveitem-na ao máximo, e continuem a segui-la.
Já resolveram o que hão de fazer? Se ainda não, lhes apresentarei algumas considerações
comovedoras adicionais, para ver se a razão faz com que se resolvam.
1. Considerem, primeiro, “que preparações a misericórdia fez por sua salvação”, e que pena é que,
após isso tudo, alguém ainda seja condenado. Houve um tempo em que a espada flamejante se encontrava
no caminho[5], e a maldição da lei de Deus o teria mantido afastado se porventura você estivesse
disposto a se converter a Deus. Houve um tempo em que você mesmo e todos os seus amigos no mundo
jamais poderiam ter adquirido para si o perdão por seus pecados passados, mesmo que nunca tivessem se
lamentado e reformado tanto. Mas Cristo removeu esse impedimento pelo resgate de seu sangue. Houve
um tempo em que Deus estava totalmente irreconciliável, por estar insatisfeito com a violação de sua lei.
Mas, agora, está de tal maneira satisfeito e reconciliado, a ponto de oferecer-lhe um livre ato de
esquecimento[6] e uma livre obra de oferecimento de Cristo e de vida, oferecendo-lhe, e rogando-lhe que
a aceite, podendo ser sua, se você a quiser. “Pois Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo,
não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação.” (2 Coríntios
5.19).
Ó pecadores, também somos ordenados a entregar esta mensagem a todos vocês, como do Senhor:
“Vinde, porque tudo já está preparado” (Lucas 14.17). Todas as coisas estão prontas e vocês não estão?
Deus está pronto para acolhê-los e perdoar tudo o que fizeram contra ele, se apenas vierem. Não obstante
o tempo em que pecaram e a voluntariedade de seus pecados, ele está pronto para lançar tudo para trás,
se vocês apenas vierem. Embora tenham sido pródigos, tenham fugido de Deus, e se mantido assim por
tanto tempo, ele está pronto até mesmo para encontrá-los, e embalá-los em seus braços, e regozijar-se em
sua conversão, se tão somente se converterem. Até mesmo o bêbado mundano, terreno e imundo
encontrará Deus pronto para oferecer-lhe as boas vindas, se apenas vier. Isso não converte o coração
dentro de você?
Ó pecador, se você tivesse um coração de carne e não de pedra dentro de si penso que isso o
derreteria. Deveria a Majestade Celestial infinita até mesmo esperar por sua conversão e estar pronta
para recebê-lo, você que dele abusou e o esqueceu por tanto tempo? Deveria regozijar-se em sua
conversão aquele que poderá a qualquer tempo glorificar sua justiça com a sua condenação, e, não
obstante, isso não derrete seu coração e você ainda assim não se prontifica a vir? Você não tem tanta
razão para estar pronto a vir quanto Deus tem para convidá-lo e oferecer-lhe boas-vindas?
Mas isso não é tudo. Cristo fez a sua parte na cruz, e preparou-lhe um caminho para o Pai, para que,
por causa dele, você pudesse ser bem recebido se viesse. E ainda assim você não está pronto?
O perdão já está expressamente garantido e ofertado a você no evangelho. E ainda assim você não está
pronto?
Os ministros do evangelho estão prontos para ajudá-lo e instrui-lo; estão prontos para orar por você e
selar seu perdão pela administração do santo sacramento. E ainda assim você não está pronto?
Todos os que temem a Deus por você estão prontos a regozijar-se na sua conversão, e a recebê-lo na
comunhão dos santos, e a dar-lhe a mão direita de comunhão, sim, embora você tenha sido um dos que
foram banidos de sua sociedade. Eles não ousam fazer outra coisa senão perdoar a quem Deus perdoa,
quando isso lhes é manifesto por sua confissão e emenda; eles não ousam nada semelhante a atirar na sua
cara seus pecados anteriores, pois sabem que Deus não irá ultrajá-lo com eles. Se você foi o mais
escandaloso [dos pecadores], se tão somente se converter de coração e vir, não o recusarão, diga o que
disser o mundo a esse respeito. E estando todos esses prontos a recebê-lo, ainda assim você não está
pronto para vir?
O céu está pronto; o Senhor o receberá na glória dos seus santos, um bruto vil como você tem sido. Se
você apenas tiver sido limpo, pode ter um lugar diante do seu trono; seus anjos estarão prontos para
guardar sua alma para o lugar de alegria, se você sinceramente vier. Deus está pronto, o sacrifício de
Cristo está pronto, a promessa pronta e o perdão pronto. Estão os ministros prontos, e o povo de Deus
pronto, e o próprio céu pronto, os anjos prontos, e todas esses apenas esperando a sua conversão, e ainda
assim você não está pronto? O quê?! Não está disposto a viver, quando esteve por tanto tempo morto?
Não está pronto para vir ao entendimento correto, como se diz que o filho pródigo veio a cair em si
mesmo (Lucas 15.17), quando esteve fora de si por tanto tempo? Não está pronto para ser salvo, quando
já esteve até mesmo para ser condenado? E você não está pronto para se apegar a Cristo, que poderá
libertá-lo, quando já esteve para afogar-se e afundar na condenação? Não está pronto para ser salvo do
inferno, quando já esteve até mesmo para ser lançado irremediavelmente nele? Ora, homem! Você
realmente sabe o que sabe? Se morrer não convertido não há dúvida acerca da sua condenação e você
não está certo se viverá ainda sequer por uma hora. E ainda assim não está pronto para converter-se e
vir?
Ó infeliz miserável! Você já não serviu o suficiente ao diabo e à carne? Ainda não tem o suficiente de
pecado? Este lhe é tão bom ou tão útil? Você já sabe o que ele é para que queira ainda mais dele? Você já
teve muitos convites, muitas misericórdias, muitas desgraças e muitos exemplos? Você já viu muitos
caírem no túmulo e ainda assim não está pronto para abandonar seus pecados e vir a Cristo? O quê? Após
tantas convicções, e apertos de consciência, após tantos propósitos e promessas, ainda não está pronto
para se converter e viver? Oh! Que seus olhos e seu coração fossem abertos, para saberem como é boa a
oferta que agora lhe é feita! E que alegre mensagem é essa que trazemos, convidando-os a virem, pois
todas as coisas estão prontas.
2. Considere também que chamados você teve para se converter e viver. Quantos, quão altos, quão
urgentes, quão terríveis, embora encorajadores e alegres chamados.
Pois o principal convidador é o próprio Deus. Ele, que deu mandamentos ao céu e à terra, ordena a
você que se converta, e agora mesmo, sem delongas, converta-se. Ele dá ordem ao sol que se levante
sobre você toda manhã, e, ainda que seja criatura tão gloriosa, muito maior que toda a terra, ele, contudo,
lhe obedece e não falha sequer um minuto em seu tempo apontado. Ele dá ordem a todos os planetas e
esferas do céu e eles lhe obedecem. Ele dá ordem ao mar que flua e reflua, e a toda a criação que
mantenha seu curso, e todos lhe obedecem. Os anjos do céu lhe obedecem a vontade, quando os envia a
ministrar a vermes tolos como nós na terra (Hebreus 1.14). Contudo, se ele ordena a um pecador que se
arrependa, não lhe obedecerá; inculca-se como mais sábio do que Deus e usa de sofismas, defendendo a
causa do pecado, e não obedecerá. Se o Senhor Todo-Poderoso diz uma palavra, os céus e todos lá lhe
obedecem; mas se chama um simples bêbado para fora da taberna, não lhe obedecerá; ou se chama um
pecador carnal e mundano para negar a si mesmo, e mortificar a carne, e pôr seu coração em uma herança
melhor, ele não lhe obedecerá.
Se houvesse em você algum amor, reconheceria a voz e diria: “Oh! Este é o chamado de meu pai!
Como posso encontrar em meu coração a desobediência? Pois as ovelhas de Cristo realmente conhecem
e ouvem sua voz, e elas o seguem, e ele lhes dá a vida eterna.” (João 10.4).
Se você tivesse ao menos alguma vida espiritual e senso em si, no mínimo diria: “Este chamado é a
voz terrível de Deus, e quem ousa desobedecer-lhe?” Pois diz o profeta: “Rugiu o leão, quem não
temerá?” (Amós 3.8). Deus não é um homem, para que você brinque e se divirta com ele. Lembre-se do
que disse a Paulo na sua conversão: “Dura coisa é recalcitrares contra os aguilhões.” (Atos 9.5[7]). Você
ainda continuará a desprezar sua Palavra, resistir a seu Espírito e fechar os ouvidos aos seus chamados?
Quem será mais prejudicado com isso? Você sabe a quem desobedece, e com quem contende, e o que está
fazendo? Seria muito mais sábio e fácil da sua parte contender com os espinheiros, chutá-los com seus
pés descalços e esmurrá-los com suas mãos nuas, ou colocar sua cabeça no fogo ardente. “Não vos
enganeis, de Deus não se zomba.” (Gálatas 6.7). Zombe de quem quiser, Deus não será zombado. É
melhor você brincar com o fogo no seu cabelo do que com o fogo de sua ira ardente. “Pois o nosso Deus
é fogo consumidor.” (Hebreus 12.29). Oh! Como você é um adversário inadequado para Deus! “Terrível
coisa é cair nas suas mãos.” (Hebreus 10.31). Portanto, terrível coisa é contender com ele ou resistir a
ele. Assim como amam suas almas, olhem para o que estão fazendo. O que dirão se Ele começar, em ira,
a pleitear com vocês? O que farão se lhes tomar uma vez na mão? Não lutarão contra seu julgamento,
como fazem agora com a sua graça? Diz o Senhor: “Não há indignação em mim” (Isaías 27.4,6), isto é,
não me deleito em destruí-los: simplesmente o faço, por assim dizer, involuntariamente. Mas, ainda
assim: “Quem me dera espinheiros e abrolhos diante de mim! Em guerra, eu iria contra eles e juntamente
os queimaria. Ou que os homens se apoderem da minha força e façam paz comigo; sim, que façam paz
comigo.” É um combate desigual para espinheiros e abrolhos fazer guerra contra o fogo.
Assim vocês veem quem é que lhes chama, e isso deveria movê-los a ouvir seu chamado e se
converter. Portanto, considerem também por quais instrumentos, e com que frequência, e qual a urgência
com que faz isso.
1. Cada folha do bendito livro de Deus tem, por assim dizer, uma voz que lhe chama: “Converta-se e
viva; converta-se ou morrerá!” Como você pode abri-lo, e ler uma página ou ouvir um capítulo e não
perceber que Deus lhe convida a se converter?
2. É a voz de cada sermão que você ouve. Pois o que mais é o escopo e alvo de todos eles senão
chamar e persuadir e rogar-lhe que se converta?
3. É a voz de muitos dos movimentos do Espírito que secretamente também fala sobre essas palavras e
urge-lhe que se arrependa.
4. É provável que, às vezes, seja a voz da sua própria consciência. Você não está convencido, às
vezes, de que nem tudo vai bem consigo? A sua consciência não lhe diz que você deve ser um novo
homem e tomar uma nova direção, e com frequência não lhe chama a uma mudança?
5. É a voz dos exemplos graciosos dos piedosos. Quando você vê que vivem uma vida celestial,
fugindo do mesmo pecado que é o seu deleite, isso realmente lhe chama a se converter.
6. É a voz de todas as obras de Deus. Pois elas também são o livro de Deus, que lhe ensinam esta
lição, mostrando-lhe Sua grandeza, sabedoria e bondade; e chamando-o a observá-las e admirar o
Criador, pois: “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras de sua mão; um dia
discursa a outro dia e uma noite revela conhecimento a outra noite.” (Salmo 19.1,2). Toda vez que o sol
se levanta sobre você, realmente lhe chama a se converter, como se dissesse: “Para que viajo e circundo
o mundo, senão para declarar aos homens a glória do seu Criador e para iluminá-los para que façam sua
obra? E ainda o encontro fazendo a obra do pecado, e dormitando na sua vida de negligência? ‘Desperta,
ó tu que dormes, levanta-te de entre os mortos, e Cristo te iluminará!’” (Efésios 5.14). “Vai alta a noite e
vem chegando o dia. Deixemos, pois, as obras das trevas e revistamo-nos das armas da luz. Andemos
dignamente, como em pleno dia, não em orgias e bebedices, não em impudicícias e dissoluções, não em
contendas e ciúmes; mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e nada disponhais para a carne no tocante às
suas concupiscências.” (Romanos 13.12-14). Esse texto foi o meio usado na conversão de Agostinho[8].
7. É a voz de toda misericórdia que você possui. Se você tão somente as pudesse ouvir e entendê-las,
elas todas clamam a você: converta-se. Por que a terra lhe suportaria senão para que buscasse e servisse
ao Senhor? Por que lhe fornece seus frutos, senão para servi-Lo? Por que o ar permite que você o
respire, senão para que O sirva? Por que todas as criaturas lhe servem com seus trabalhos e suas vidas,
senão para que você possa servir o Senhor delas e seu? Por que Ele lhe dá tempo, saúde e força, senão
para servi-Lo? Por que você tem comida, bebida e vestimentas, se não for para seu serviço? Você tem
alguma coisa que não tenha recebido? E, se você as recebeu, é motivo para que possa reconsiderar de
quem, e para que fim e propósito as recebeu. Você nunca clama a Ele por auxílio na sua angústia? E você
entende que era sua parte se converter e servi-lo se Ele lhe libertasse? Ele fez sua parte, e lhe poupou por
tanto tempo, e lhe provou ano após ano; e, ainda assim, você não se converte? Você conhece a parábola
da figueira estéril (Lucas 13.6-9)? Quando o Senhor disse: “Podes cortá-la; para que está ela ainda
ocupando inutilmente a terra?”, suplicaram-lhe que a testasse ainda por um ano, e, se se provasse
infrutífera, que a cortasse. O próprio Cristo faz lá uma dupla aplicação: “Se, porém, não vos
arrependerdes, todos igualmente perecereis.” (vv. 3 e 5). Por quantos anos Deus procurou pelos frutos do
amor e da santidade em você e não achou nenhum, e ainda assim lhe poupou. Quantas vezes, pela sua
ignorância voluntária, descuido e desobediência você provocou a justiça a dizer: “Corta-o, por que
ocupa inutilmente o solo?” Contudo, a misericórdia tem prevalecido, e a paciência conteve o golpe fatal
até o dia de hoje. Se você tivesse dentro de si o entendimento de um homem, saberia que tudo isso lhe
chama à conversão: “Pensas que te livrarás do juízo de Deus? Ou desprezas a riqueza da sua bondade, e
tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento? Mas,
segundo a tua dureza e coração impenitente, acumulas contra ti mesmo ira para o dia da ira e da
revelação do justo juízo de Deus, que retribuirá a cada um segundo o seu procedimento.” (Romanos 2:3-
6).
8. Além do mais, é a voz de toda aflição que lhe chama a apressar-se e se converter. A doença e a dor
gritam: converta-se. A pobreza, a perda de amigos, e cada galho da vara de castigo grita: converta-se. E,
ainda assim, você não ouvirá o chamado? Essas coisas se aproximaram de você, fizeram-no senti-las,
fizeram-no gemer, e não podem elas fazê-lo se converter?
9. A própria constituição da sua natureza e ser sugerem a sua conversão. Por que você tem uma razão,
senão para governar sua carne e servir ao Senhor? Por que tem uma alma que entende, senão para
aprender e conhecer sua vontade e praticá-la? Por que tem um coração dentro de si, que pode amar, temer
e desejar, senão para que possa temê-lo, amá-lo e desejá-lo?
10. Sim, seus próprios compromissos, pelas promessas feitas ao Senhor, também lhe chamam a se
converter e servi-lo. Você se ligou a ele por meio de sua aliança batismal, e renunciou ao mundo, à carne
e ao diabo. Confirmou isso pela profissão do cristianismo e o renovou nos sacramentos e em tempos de
aflição. E você prometerá e fará votos e nunca os cumprirá, convertendo-se a Deus?
Agora, reúna isso tudo e veja qual deve ser a conclusão. A Santa Escritura o chama a se converter; os
ministros de Cristo o chamam a se converter; o Espírito clama: “Converta-se”; a sua consciência clama:
“Converta-se”; os piedosos, pelas exortações e exemplo, clamam: “Converta-se”; o mundo inteiro, e
todas as criaturas nele, que são apresentados à sua consideração, clamam: “Converta-se”; a presente
paciência de Deus clama: “Converta-se”; todas as misericórdias que você recebeu clamam: “Converta-
se”; a vara do castigo de Deus clama: “Converta-se”; a sua razão e a estrutura da sua natureza sugerem a
sua conversão, e assim também todas as suas promessas a Deus; e, ainda assim, você ainda não se
resolveu a se converter?
11. Ademais, pobre pecador, enquanto isso, você já considerou em que termos se encontra com
Aquele que lhe chama à conversão? Você é dele, e ele lhe possui e tudo o que você tem, e não pode ele
dá ordens ao que é seu? Você é seu servo absoluto e não deve servir a outro senhor. Você está de pé pela
sua misericórdia e sua vida está nas Suas mãos. E ele resolveu salvá-lo com base em nenhum outro
termo. Você tem muitos inimigos espirituais maliciosos que ficariam felizes se Deus lhe esquecesse e o
deixasse a sós com eles, e lhe entregasse à vontade deles. Como seria rápida a mudança de modos com
que lidariam com você! E você não pode se livrar deles senão convertendo-se a Deus. Você já está
debaixo de Sua ira, pelos seus pecados e não sabe até quando sua paciência durará. Talvez este seja o
último ano; talvez, o último dia! Sua espada está no seu próprio coração, enquanto a Palavra está nos seus
ouvidos. E, se você não se converter, é um homem morto e arruinado. Seus olhos foram abertos para ver
onde você está, à beira do inferno, e para ver quantos milhares lá estão que não se converteram; você
deveria ver que é tempo de olhar para si mesmo.
Bem, senhores, olhem para dentro de si, agora, e digam-me como seus corações são afetados com
estas ofertas do Senhor. Vocês ouviram qual é a sua intenção; ele não sente prazer com suas mortes. Ele
lhes chama: convertam-se, convertam-se. É um temível sinal se isso tudo não o mover, ou se tão somente
lhe mover pela metade; e ainda muito mais se o tornar mais descuidado na sua miséria, porque ouviu
acerca da misericórdia de Deus. A eficácia do remédio nos dirá parcialmente se há alguma esperança de
cura. Oh! Que belas notícias seriam para aqueles que agora estão no inferno, se tivessem essa mensagem
da parte de Deus! Que palavra alegre seria ouvir isto: “Convertam-se e vivam”. Sim, que palavra bem-
vinda seria a você mesmo, quando tivesse sentido essa ira de Deus por apenas uma hora! Ou, se após mil
ou dez mil anos de tormento você pudesse apenas ouvir esta palavra de Deus: “Convertam-se e vivam”.
Contudo, você a negligenciará e nos permitirá retornar sem nossa comissão?
Vejam, pecadores, que somos enviados aqui como mensageiros do Senhor, para colocar diante de
vocês a vida e a morte. O que vocês dizem? Qual delas escolherão? Cristo está, por assim dizer, ao seu
lado, com o céu em uma mão e o inferno na outra, e permite que você escolha. Qual você escolherá? “A
voz do Senhor faz as rochas tremerem”, e é insignificante ouvi-lo ameaçar, se você não se arrepender?
Você não entende e sente esta voz: “Convertam-se, convertam-se, por que haverão de morrer?” Ora, é a
voz do amor, do amor infinito, de seu melhor e mais bondoso amigo, como você pode facilmente
perceber pela comoção; e ainda assim você a negligenciará? É a voz da misericórdia e da compaixão. O
Senhor vê para onde você vai melhor do que você mesmo vê, o que o faz clamar-lhe: “Converta-se,
converta-se.” Ele sabe o que lhe sucederá se não se converter. Ele pensa consigo mesmo: “Ah! Este
pobre pecador se lançará em tormentos infindáveis se não se converter; devo lidar em justiça com ele de
acordo com minha justa lei”. Portanto, lhe chama: “Converta-se, converta-se, ó pecador!” Se você
soubesse apenas a milésima parte tão bem quanto Deus sabe, o perigo que lhe está próximo e a miséria
para a qual você corre, não teríamos mais necessidade alguma de lhe chamar à conversão.
Ademais, essa voz que lhe chama é a mesma que já prevaleceu sobre milhares, e chamou para o céu
todos os que lá hoje se encontram; e, agora, eles não iriam, nem por mil mundos, a quem desprezaram,
deixar de se converter a Deus. Agora, qual é a possessão dos que atenderam ao chamado de Deus? Eles
percebem que, de fato, foi a voz do amor, que não lhes queria mal algum, mas apenas a salvação. E se
você obedecer ao mesmo chamado, certamente virá a ter a mesma felicidade. Há milhões que devem
lamentar para sempre que não tenham se convertido, mas jamais haverá uma alma no céu que esteja
arrependida de estar convertida.
Bem, senhores, já estão resolvidos ou não? Preciso dizer-lhes mais alguma coisa? O que farão? Vocês
se converterão ou não? Homem, fale a Deus em seu coração, embora não fale audivelmente a mim. Fale,
para que não tome seu silêncio como uma negativa. Fale rapidamente, para evitar que essa oferta jamais
lhe seja oferecida novamente. Fale resolutamente, sem hesitação, pois Ele não permitirá que nenhuma
pessoa indiferente seja sua seguidora. Diga agora em seu coração, sem mais delongas, mesmo antes de
você sair deste lugar: “Pela graça de Deus, estou resolvido a logo me converter. E porque conheço minha
própria insuficiência, estou resolvido a esperar em Deus pela sua graça, e a segui-lo em seus caminhos, e
a esquecer-me de minha antiga conduta e companhias e a me render à direção do Senhor.”.
Você não está preso nas trevas do paganismo nem no desespero dos condenados. A vida está em sua
presença, e você pode possui-la em termos razoáveis, se quiser. Sim, sem nenhum custo, se aceitá-la. O
caminho do Senhor permanece claro diante de você; a igreja lhe está aberta; você pode ter Cristo, o
perdão e a santidade, se os quiser. O que dirá? Você os quer ou não? Se disser não, ou se nada disser, e
continuar nos seus caminhos, Deus é testemunha, e esta congregação é testemunha, e sua própria
consciência é testemunha da bela oferta que lhe foi feita hoje. Lembre-se, você poderia ter Cristo, mas
não o quis. Lembre-se quando estiver perdido que poderia ter tido a vida eterna tanto quanto os outros,
mas não a quis. E tudo por que não quis se converter.
DISCURSO 3
Dize-lhes: Tão certo como eu vivo, diz o Senhor Deus, não tenho prazer na morte do perverso, mas
em que o perverso se converta do seu caminho e viva. Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus
caminhos; pois por que haveis de morrer, ó casa de Israel? (Ezequiel 33.11)

Foi explicado e provado que Deus se agrada da conversão e salvação dos homens, mas não da sua
morte ou condenação. Prefere, antes, que se convertam e vivam a que persistam e morram. Para que não
deixasse ao homem algum motivo para duvidar acerca disso, o Senhor o confirmou por seu juramento. Na
realidade, além disso, Deus é tão diligente pela conversão dos pecadores que duplica seus mandamentos
e exortações com veemência: “Convertam-se, convertam-se”.
Já havendo ilustrado e aplicado cada um desses pontos, vamos à próxima doutrina, e ouçamos suas
razões.

Doutrina 6

O Senhor condescende em argumentar sobre a situação com pecadores não convertidos, e a
perguntar-lhes por que morrerão.
Estranha disputa é essa, tanto em relação à controvérsia quanto aos disputantes.
1. A controvérsia ou questão proposta para a disputa é: “Por que os ímpios condenarão a si mesmos?”
Ou, “Por que morrerão ao invés de se converterem?” Será que têm alguma razão suficiente para agirem
assim?
2. Os disputantes são Deus e o homem; o muito santo Deus e pecadores ímpios não convertidos.
Não é uma coisa estranha, o que Deus parece aqui pressupor, que alguém esteja disposto a morrer e
ser condenado? Sim, é estranho que essa seja a situação dos ímpios, isto é, da maior parte do mundo.
Mas, dirão, não pode ser, pois a natureza deseja a sua preservação e felicidade, e os ímpios são mais
egoístas que os outros e não menos. Como pode, portanto, algum homem estar disposto a ser condenado?
A isto respondo:
1. É uma verdade certa que nenhum homem quer o mal como mal, mas apenas enquanto tiver alguma
aparência de bem; muito menos pode alguém estar disposto a ser eternamente atormentado. A miséria, em
si, não é desejada por ninguém.
2. Mas, ainda assim, é muito verdadeiro que Deus aqui nos ensina que a causa pela qual os ímpios
morrem e são condenados é porque querem morrer e ser condenados. E isso é verdadeiro em diversos
aspectos.
a) Porque percorrerão o caminho que conduz ao inferno, embora sejam alertados por Deus e por
homens qual é seu destino e onde terminarão; embora Deus tenha com tanta frequência professado em sua
Palavra que, se persistirem nesse caminho, serão condenados, e não serão salvos a menos que se
convertam (Isaías 57.21): “Para os perversos, todavia, não há paz, diz o SENHOR.” (Isaías 48.22)
“Desconhecem o caminho da paz, nem há justiça nos seus passos; fizeram para si veredas tortuosas; quem
anda por elas não conhece a paz.” (Isaías 59.8). Eles têm a palavra e o juramento da parte do Deus vivo
de que, se não se converterem, não entrarão no seu descanso. Ainda assim, ímpios são, e ímpios
continuarão a ser, digam Deus e homens o que disserem. Carnais são e carnais continuarão a ser;
mundanos são, e mundanos continuarão a ser; ainda que Deus lhes tenha dito que “a amizade do mundo é
inimiga de Deus”; e que “se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele.” [Tiago 4.4 e 1 João
2.15]. De modo que, por conseguinte, esses homens estão dispostos a ser condenados, embora não
diretamente; estão dispostos a andar no caminho para o inferno, e a amar a causa certa de seu tormento;
embora não estejam dispostos ao inferno em si, e não amem a dor que devem suportar.
Não é essa a verdade sobre sua condição, ó pecadores? Vocês não gostariam de queimar no inferno,
mas inflamarão as chamas pelos seus pecados e mergulharão nelas. Vocês não gostariam de ser
atormentados com os demônios para sempre, mas farão aquilo que certamente redundará nisso, não
obstante tudo o que possa ser dito em contrário. É como se dissessem: “Beberei este veneno, mas não
morrerei. Eu me jogarei de cabeça do topo de uma torre, mas não me matarei. Enfiarei esta faca em meu
coração, mas não tirarei minha vida. Porei fogo no sapé de minha casa, mas não morrerei queimado”. É
exatamente assim com os ímpios: querem ser ímpios, e viver para a carne e para o mundo, contudo, não
desejam ser condenados. Mas vocês não sabem que os meios levam ao fim? E que Deus, pela sua lei
justa, sentenciou que devem ou se arrepender ou perecer? Aquele que beber o veneno pode também dizer
claramente: “Matarei a mim mesmo”, pois isso será evidente mais tarde. Embora, talvez, ele amasse o
veneno pela doçura do açúcar misturado a ele, e não estivesse convencido que aquilo era veneno, mas
que deveria tomá-lo, pois lhe faria bem, não são, contudo, suas ideias e confiança que salvarão sua vida.
De modo semelhante, se vocês são bêbados, fornicadores ou mundanos, ou se vivem pela carne, podem
também dizer claramente: “Seremos condenados”, pois assim será a menos que se convertam. Vocês não
rebateriam a tolice de um ladrão ou assassino que dissesse: “Roubarei e matarei, mas não serei
enforcado”, quando ele sabe que, se tirar a vida de alguém, o juiz, no julgamento, assegurará que a sua
seja tirada? Se disser: “Roubarei e matarei”, pode também dizer claramente: “Serei enforcado”.
Portanto, se vocês persistirem em uma vida carnal, podem, por seu turno, dizer claramente: “Iremos para
o inferno”.
b) Além do mais, os ímpios não usarão aqueles meios, sem os quais não há esperança de salvação.
Aquele que não quer comer, pode também claramente dizer que não viverá, a menos que possa dizer
como viver sem o alimento; aquele que não for em sua jornada, pode também claramente dizer que não
chegará ao final. Aquele que cair na água e não emergir, nem permitir que outro lhe ajude, pode também
dizer claramente que se afogará. Portanto, se forem carnais e ímpios e se não se converterem nem usarem
os meios pelos quais deveriam ser convertidos, mas pensarem que isso é mais trabalhoso que necessário,
podem dizer também claramente que serão condenados. Pois se tivessem achado um modo de ser salvos
sem a conversão, teriam feito algo que jamais foi feito.
c) Sim, isso não é tudo; mas os ímpios estão indispostos até mesmo a participar da própria salvação.
Embora possam desejar algo que chamam pelo nome de céu, o próprio céu, considerado na verdadeira
natureza de sua felicidade, eles não desejam. Na verdade, seus corações lhe são bastante contrários. O
céu é um estado de perfeita santidade e de amor e louvor contínuos a Deus, e os ímpios não têm corações
para isso. Se não têm interesse pelo amor, louvor e santidade imperfeitos que são alcançados aqui, menos
ainda terão pelo que é muito maior. As alegrias do céu são de natureza tão pura e espiritual que o coração
dos ímpios não pode desejá-las.
De modo que agora podem ver em que base Deus supõe que os ímpios estão dispostos a se destruir;
preferirão se aventurar na miséria certa do que ser convertidos. E então, para aquietarem-se em seus
pecados, fazem-se acreditar que, ao final, escaparão.
3. E, assim como essa controvérsia é matéria de espanto (isto é, que os homens sejam tais inimigos de
si mesmos, a ponto de voluntariamente arruinar suas almas), também o são os disputantes. [É espantoso]
que Deus deva rebaixar-se desse modo para discutir a situação com o homem; e que os homens sejam tão
estranhamente cegos e obstinados a ponto de precisarem disso tudo em matéria tão clara como essa; na
verdade, resistirem a tudo, quando sua própria salvação está em jogo!
Não é de se espantar que não ouvirão a nós, homens, quando não ouvem ao próprio Senhor! Como
Deus diz, quando enviou o profeta aos israelitas: “Mas a casa de Israel não te dará ouvidos, porque não
me quer dar ouvidos a mim; pois toda a casa de Israel é de fronte obstinada e dura de coração.”
(Ezequiel 3.7). Não é de se espantar se puderem disputar contra um pastor ou um vizinho piedoso,
quando disputam contra o próprio Senhor, até mesmo contra as passagens mais claras de sua Palavra, e
pensando que têm a razão ao seu lado. Quando enfadam Deus com suas palavras, dizem: “Em que o
enfadamos?” (Malaquias 2.17) Os sacerdotes que desprezavam o seu nome ousavam dizer: “Em que
desprezamos nós o teu nome?” (Malaquias 1.6). E, quando profanavam seu altar e tornavam desprezível
o templo do Senhor, ousavam dizer: “Em que te havemos profanado?” (Malaquias 1.7). Mas “Ai daquele
que contende com o seu Criador! E não passa de um caco de barro entre outros cacos. Acaso, dirá o
barro ao que lhe dá forma: Que fazes? Ou: A tua obra não tem alça.” (Isaías 45.9).
Pergunta. Mas por qual motivo Deus argumentará com o homem?
Resposta. 1. Porque o homem, sendo uma criatura racional, deve conformemente ser tratado, e, pela
razão, ser persuadido e vencido. Deus, portanto, os dotou de razão, para que pudessem usá-la para Ele.
Pode-se pensar que uma criatura racional não irá contra a maior e mais clara razão no mundo, quando for
apresentada diante dela.
Resposta 2. Ao menos os homens verão que Deus nada requer deles que não seja razoável, mas seja lá
o que lhes proíba, Ele tem todo a reta razão no mundo ao seu lado. E eles têm boa razão em obedecer-lhe,
mas nenhuma para desobedecer-lhe. E assim, até mesmo os condenados serão forçados a justificar Deus
e confessar que era razoável que tivessem se convertido a ele; e serão forçados a condenar a si mesmos e
confessar que tiveram pouca razão para arruinarem-se pela negligência de Sua graça no dia de sua
visitação.
APLICAÇÃO

Procurem suas melhores e mais fortes razões, ó pecadores, se quiserem melhorar seus caminhos.
Vocês veem agora com quem devem lidar. O que diz agora, ó pecador sensual[9] não convertido? Você
ousa aventurar-se numa disputa com Deus? É capaz de refutá-lo? É capaz de tomar parte em uma
contenda contra ele? Deus lhe pergunta: “Por que você morrerá?” Você tem uma resposta suficiente?
Tentará provar que Deus está enganado e que você está certo? Oh! Que grande tarefa é essa! Pois ou ele
ou vocês estão enganados, quando Ele é pela sua conversão e vocês são contra ela. Ele lhes chama a se
converterem, e vocês não o fazem. Ele lhes chama a fazê-lo agora, até mesmo hoje, enquanto o dia é hoje,
e vocês procrastinam, e pensam que haverá ainda bastante tempo depois. Ele diz que deve ser uma
mudança total, e vocês devem ser santos e novas criaturas, e nascidos de novo; e vocês pensam que
menos pode servir no presente caso, e que é o suficiente remendar o velho homem, sem tornar-se um
novo. Quem está no direito agora? Deus lhes chama a se converterem e a viverem uma vida santa, e
vocês não o farão; pelas suas vidas desobedientes, parecem que não o farão. Se irão, por que não o
fazem? Por que já não o fizeram nesse meio-termo? E por que não se entregam a isso agora? Suas
vontades detêm o comando sobre suas vidas. Podemos certamente concluir que estão indispostos a se
converterem, quando não se convertem. E por que não o farão? Podem dar uma razão para isso que seja
digna de se chamar de razão?
Eu, que sou apenas um verme, criatura como vocês, de uma rasa capacidade, ouso desafiar os mais
sábios dentre vocês a raciocinar sobre a situação comigo, enquanto pleiteio pela causa do meu Criador; e
não preciso ser desencorajado, quando sei que pleiteio apenas a causa que Deus pleiteia, e contendo por
aquele que terá o melhor no final. Tivesse eu apenas estas duas bases gerais contra vocês, estou certo de
que não teriam nenhuma boa razão ao seu lado.
1. Estou certo de que uma razão que seja contrária ao Deus da verdade e da razão não pode ser uma
boa razão. Não pode ser luz aquilo que se opõe ao sol. Não há conhecimento algum em qualquer criatura,
exceto o que procede de Deus; portanto, ninguém pode ser mais sábio que Deus. Seria presunção fatal
para qualquer anjo comparar-se ao seu Criador. O que seria, então, para um torrão de sujeira, um
beberrão ignorante, que não se conhece, nem a sua própria alma, que conhece apenas um pouquinho das
coisas que vê, contudo é mais ignorante que muitos de seus conhecidos, colocar-se contra a sabedoria do
Senhor? É uma das descobertas mais plenas da horrível impiedade de homens carnais e da resoluta
loucura dos tais que assim pecam que essas toupeiras tão tolas ousem contradizer seu Criador, e colocar
em xeque a Palavra de Deus. Sim, que aquelas pessoas em nossa paróquia que são tão ignorantes que são
incapazes de nos dar uma resposta coerente sobre os próprios princípios da religião sejam ao mesmo
tempo tão sábias aos seus próprios olhos que ousam questionar as mais claras verdades de Deus; que as
contradigam e cavilem contra elas, quando mal conseguem falar coisa com coisa; e não crerão em
nenhuma porção dela a não ser no que esteja de acordo com sua tola sabedoria.
2. E como sei que é necessário que Deus esteja com a razão, também sei que a situação contra a qual
ele disputa é tal palpável e grosseira que homem algum pode ter a razão do seu lado. É possível que
alguém tenha qualquer razão para quebrar a lei de seu mestre? E razão para desonrar o Senhor da glória?
E razão para abusar do Senhor que o comprou? É possível que um homem tenha qualquer boa razão para
condenar sua alma imortal? Marquem a pergunta do Senhor: “Convertei-vos, convertei-vos, por que
haveríeis de morrer?” A morte eterna é algo desejável? Vocês amam o inferno? Que razão têm para
voluntariamente perecer? Se pensam que têm razão para pecar, não deveriam se lembrar que “o salário
do pecado é a morte” (Romanos 6.23), e pensar se têm alguma razão para arruinarem-se para sempre,
corpo e alma? Não deveriam apenas se perguntar se amam a serpente, mas se amam também a picada?
Lançar fora sua felicidade eterna e pecar contra Deus é coisa tal para alguém que nenhuma razão lhe
pode ser dada. Mas quanto mais alguém luta por isso, mais louco mostra ser. Se tivessem um senhorio ou
um reinado oferecido a vocês por cada pecado cometido, não seria racional, mas loucura, aceitá-lo.
Pudessem vocês por cada pecado obter uma coisa valiosa na terra, que a carne deseja, nenhum valor
seria considerável para servir de argumento a que vocês o cometessem. Se fosse para agradar seus
maiores ou mais caros amigos, ou obedecer ao maior príncipe na terra, ou salvar suas vidas, ou escapar
da maior miséria terrena: tudo isso seria de nenhum valor para arrastar a razão de alguém para a prática
de um pecado. Se fosse uma mão direita ou um olho direito que lhes dificultasse a salvação, seria mais
uma atitude mais vantajosa livrar-se deles, ao invés de ir para o inferno poupando-os, pois não há como
salvar uma parte quando o todo se perde.
Tão enormemente grandes são as matérias da eternidade que nada neste mundo merece ser nomeado
em comparação a elas; nem pode qualquer coisa terrena, quer seja a vida, ou coroas, ou reinos, ser uma
desculpa razoável para negligenciar matérias de tão alta e eterna consequência. Não se deve ter razões
para atrapalhar o fim último. O céu é uma coisa que, se você perder, nada pode substituir sua falta ou
valer pela perda. E o inferno é uma coisa que, se você sofrer, nada pode remover sua miséria ou lhe dar
tranquilidade e conforto. Portanto, nada pode ser de consideração valorosa para desculpá-los pela
negligência de sua própria salvação, visto que diz nosso Salvador: “Pois que adianta ao homem ganhar o
mundo inteiro e perder a sua alma?” (Mc 8.36).
Ó senhores, tomara vocês soubessem ao menos que assuntos são esses de que estamos agora a falar!
Os santos no céu têm outros tipos de pensamentos acerca dessas coisas. Se o diabo pudesse vir aos que
vivem na vista e amor de Deus, e lhes oferecesse um copo de bebida, ou uma prostituta, ou uma
companhia festiva, ou uma diversão para seduzi-los para longe de Deus e sua glória, rogo-lhes que me
digam: como vocês acham que eles acolheriam esse gesto? Ou melhor, se lhes oferecesse reinados na
terra, vocês acham que isso os seduziria a descer do céu? Oh! Com que ódio e santo desprezo
desdenhariam e rejeitariam a oferta! E por que vocês não deveriam fazer o mesmo, vocês que têm o céu
aberto à sua fé, se apenas tiverem fé para vê-lo? Não há uma única alma no inferno que agora não saiba
que foi loucura trocar o céu pelos prazeres terrenos, e que não é uma pequena alegria, ou prazer, ou
riquezas mundanas, ou honra, ou a boa vontade ou palavra de homens que irão apagar o fogo ou preparar
um libertador para aquele que perde sua alma. Oh! Se tivessem ouvido o que creio, se tivessem visto o
que acredito, e isso dando crédito à palavra de Deus, diriam que não há razão para justificar que um
homem condene sua alma. Não ousem dormir sossegadamente mais uma noite, sem que antes se resolvam
a converter-se e viver.
Se vissem um homem colocar sua mão no fogo até queimá-la, ficariam pasmos; mas isso é algo que um
homem pode ter razões para fazer, como teve o Bispo Cranmer[10] quando queimou sua mão por ter
subscrito ao papado. Se virem um homem cortar sua perna ou braço, é uma visão triste; mas isso é algo
que alguém pode ter boas razões para fazer, como fazem muitos para salvar suas vidas. Se virem um
homem dar seu corpo para ser queimado até as cinzas, e ser atormentado com suplícios, e recusar-se o
alívio quando lhe for ofertado, isso é uma difícil circunstância para carne e sangue. Mas esse homem
pode ter boa razão para isso, como podem ver em Hebreus 11.33-36 que muitas centenas de mártires
fizeram. Mas para um homem esquecer o Senhor que o fez e correr para o fogo do inferno quando lhe é
dito e suplicado que se converta para que seja salvo, isso é algo que razão alguma no mundo, que seja
razão de fato, pode justificar ou desculpar. Pois o céu pagará pela perda de qualquer coisa que
perdermos para ganhá-lo; mas nada pode pagar pela perda do céu.
Rogo-lhes agora que deixem que essa palavra se aproxime de seus corações. Assim como estão
convencidos que não têm razão para destruir a si mesmos, digam que razão têm para recusar-se a
converter-se e viver para Deus? Que razão tem o maior mundano, ou bêbado, ou pecador descuidado e
ignorante entre vocês de por que não deveria ser tão santo quanto qualquer um que conheça, e ser tão
cuidadoso pela sua alma quanto qualquer outro? Não será o inferno tão quente para vocês como para os
outros? Não deveriam suas almas lhes ser tão preciosas quanto as dos outros são para eles? Deus não tem
tanta autoridade sobre vocês? Por que, então, não se tornarão um povo santificado como os outros farão?
Ó senhores, quando Deus traz a matéria para os próprios princípios da natureza, ele mostra que vocês
têm tanta razão para serem ímpios quanto têm para condenar suas próprias almas! Se, ainda assim, não
entenderem e se converterem, parece ser uma situação desesperadora a que vocês se encontram. E agora,
ou vocês têm razão para fazer o que fazem ou não. Se não, irão contra a própria razão? Irão fazer o que
não têm razão alguma para fazê-lo? Mas se pensam que têm, produzam-nas, façam o melhor que estiver
ao seu alcance. Debatam comigo um pouco sobre a situação, vocês que são meus semelhantes, o que é
muito mais fácil do que debater com Deus. Diga-me, homem, aqui, diante do Senhor, como se esta fosse a
hora da sua morte, por que você não se resolve a se converter hoje, antes que seja movido do lugar em
que está? Que razão tem para negar-se ou adiar? Você tem alguma razão que satisfaça sua própria
consciência nisso? Ou alguma que você ouse sustentar e defender no tribunal de Deus? Se tem, ouçamo-
las, apresente-as, e faça o melhor que puder. Mas, vejam só! Que coisa pobre, que disparates ao invés de
razões diariamente ouvimos dos ímpios! Mas, pela necessidade deles, sofrerei o vexame de enumerá-las.
1. Um diz: “Se ninguém será salvo senão os convertidos e santificados, como você falou, então os
céus estariam vazios. Logo, conclui-se que Deus ajuda a muitos!
Res. O quê!? Vocês parecem pensar que Deus não tem conhecimento, ou, ainda, que não deve ser
crido! Não meçam tudo por vocês mesmos; Deus tem milhares e milhões de seus santificados, mas, ainda
assim, são poucos em comparação com o mundo, como o próprio Cristo nos falou (Mateus 7.13,14; Lucas
12.32) Melhor lhes convêm que façam uso desta verdade que Cristo lhes ensina: “Esforçai-vos por entrar
pela porta estreita; porque eu vos digo que muitos tentarão entrar e não conseguirão. Larga é a porta, e
espaçoso, o caminho que conduz para a perdição, e são muitos os que entram por ela), porque estreita é a
porta, e apertado, o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que acertam com ela.” (Lucas
13.22-24; Mateus 7.13,14). “Não temas, ó pequeno rebanho, (diz Cristo ao seus santos) porque é do
agrado do vosso Pai dar-vos o reino.” (Lc 12.32).
Objeção 2. Estou certo que, se pessoas como eu forem para o inferno, teremos fartura de companhia.
Res. E isso lhes será de algum sossego ou conforto? Ou pensam que não terão companhia o suficiente
no céu? Vocês se arruinarão pela companhia? Ou não acreditam que Deus executará suas ameaças porque
há tantos que são culpados? Todos esses são enganos bobos e insensatos.
Objeção 3. Mas todos os homens não são pecadores, até mesmo os melhores dentre todos vocês?
Res. Mas nem todos são pecadores não convertidos. Os piedosos não vivem em pecados grosseiros, e
suas próprias enfermidades são o seu luto e fardo, ao qual diariamente esperam, oram e lutam para que se
vejam livres deles. O pecado não tem domínio sobre eles.
Objeção 4. Não vejo que os crentes professos sejam melhores que os outros homens; eles enganam,
oprimem e cobiçam tanto quanto os outros.
Res. Sejam quem forem os hipócritas, isso não ocorre com os que são santificados. Deus tem milhares
de milhares que não são assim, embora o mundo malicioso os acuse de coisas que nunca podem provar e
daquilo que nunca entrou em seus corações. E comumente acusam-nos de pecados do coração, que
ninguém, senão Deus, pode ver; pois não podem acusá-los com nenhuma impiedade semelhante em suas
vidas das quais os próprios acusadores são culpados.
Objeção 5. Mas não sou devasso, nem bêbado, nem opressor, portanto, por que você deveria chamar-
me à conversão?
Resp. Como se você não tivesse nascido da carne, e não tivesse vivido pela carne tanto quanto os
outros! Não é um grande pecado tanto quanto quaisquer desses ter uma mente terrena, amar o mundo
acima de Deus e ter um coração descrente e orgulhoso? Ou melhor, deixe-me dizer mais. Muitas pessoas
que evitam pecados odiosos são tão rápidas em se ligar ao mundo, e são tão escravas da carne e tão
estranhas a Deus e avessas ao céu nos seus discursos mais civilizados quanto os outros são em seus mais
vergonhosos e notórios pecados.
Objeção 6. Mas não desejo o mal para ninguém, nem faço mal algum; por que, então, Deus me
condenaria?
Resp. É inofensivo negligenciar o Senhor que o fez, e a obra pela qual você veio ao mundo, e preferir
a criatura antes do Criador, e negligenciar a graça que lhe é diariamente oferecida? É a profundeza da sua
pecaminosidade que é insensível a isso; os mortos não sentem que estão mortos. Se alguma vez você
fosse vivificado, veria mais defeitos em si mesmo e se espantaria consigo por fazer tão pouco caso deles.
Objeção 7. Acho que vocês pretendem deixar os homens insanos com a pretensão de convertê-los; é o
suficiente atormentar as mentes dos pecadores para que meditem em matérias elevadas demais para eles.
Resp. 1. Você pode ser mais insano do que já é? Ou ao menos pode haver uma insanidade mais
perigosa do que negligenciar seu bem-estar eterno e voluntariamente arruinar a si mesmo?
Resp. 2. Um homem nunca está bem em seu espírito até que esteja convertido; ele nunca conhece a
Deus, nem o pecado, nem conhece Cristo, nem conhece o mundo, nem a si mesmo, nem qual é o seu
propósito na terra, para que se prepare para ele, até que seja convertido. A Escritura diz que “os ímpios
são perversos e maus” (2 Tessalonicenses 3.2), e que “a sabedoria do mundo é loucura diante de Deus”
(1 Coríntios 1.20 e Lucas 15.17). Diz-se do pródigo que “quando caiu em si”, resolveu retornar. Que
mundo sábio é esse em que os homens desobedecerão a Deus e correrão para o inferno por medo de
perderem a sanidade?
Resp. 3. O que há na obra para a qual Cristo lhe chama que retire a inteligência dos homens? Acaso é
o amor de Deus e a invocação a ele, o conforto em pensar na glória porvir, o esquecimento de nossos
pecados, o amar uns aos outros e se deleitar no serviço de Deus? São essas coisas que deixariam os
homens loucos?
Resp. 4. E, ao passo que dizem que essas questões são muito elevadas, acusam o próprio Deus de nos
incumbir delas, e de nos dar sua Palavra, e ordenar a todos os que serão benditos que meditem nela dia e
noite. As matérias das quais somos feitos e pelas quais vivemos são altas demais para serem abordadas?
Isso claramente é para nos deprimir e nos tornar brutos, como se fôssemos semelhantes aos que jamais se
intrometem com questões mais elevadas do que as que pertencem à carne e à terra. Se os céus forem tão
elevados para que pensem e se preparem para ele, será elevado demais para que o possuam.
Resp. 5. Se Deus algumas vezes permite que algumas pessoas de mente fraca fiquem distraídas
pensando nas coisas eternas, isso ocorre porque elas as compreendem mal e correm sem um guia; e, dos
dois, preferiria antes estar na última situação do que na do mundo não convertido, que toma sua distração
como se fosse sua sabedoria.
Objeção 8. Não penso que Deus se importe tanto com o que os homens pensam, falam ou fazem, a
ponto de fazer grande caso disso.
Resp. Parece, então, que vocês consideram a Palavra de Deus como falsa; mas, em que acreditarão?
Porém, sua própria razão pode lhes ensinar melhor, se vocês não crerem nas Escrituras: pois vocês veem
que Deus não faz tão pouco caso de nós, mas condescendeu em nos criar, e ainda nos preserva, e
diariamente nos sustenta e provê para nós; e irá algum sábio encarar um quadro surpreendente como se
fosse nada? Vocês irão comprar um relógio e olhar diariamente para ele, e não se importarão se estiver
certo ou errado? Certamente, se não creem em um olho particular da Providência observando seus
corações e vidas, não podem esperar ou crer em nenhuma Providência particular para observar suas
faltas e aflições e aliviá-los. Se Deus tivesse se importado tão pouco por vocês, como pensam, é certo
que não teriam vivido até agora; centenas de doenças teriam se empenhado e logo os destruiriam; sim, os
demônios os teriam assombrado e os alcançados vivos, como os peixes maiores engolem os menores, e
como aves de rapina e as feras devoram as outras. Vocês não podem pensar que Deus fez o homem sem
nenhum propósito ou utilidade; e, se o fez para algum propósito, certamente o foi para si mesmo. Podem
vocês pensar que Ele não se importa que seus fins sejam realizados, e se fazemos as obras para as quais
fomos feitos?
Mas, por essa objeção ateística, vocês fazem com que Deus tenha feito e sustentado todo o mundo em
vão, pois para que são todas as outras criaturas inferiores senão para o homem? O que faz a terra, senão
nos sustentar e nutrir? Os próprios animais selvagens realmente nos servem com seus trabalhos e suas
vidas, bem como todo o resto. E fez Deus uma habitação tão gloriosa, e pôs o homem para nela habitar, e
fez de todos seus servos, e agora não espera por nada das suas mãos, nem se importa com o que pensa,
fala ou como vive? Isso é muito irracional.
Objeção 9. O mundo era melhor quando os homens não faziam tanto barulho por causa da religião.
Resp. 1. Sempre foi o costume celebrar os tempos passados. Esse mundo, de que vocês falam,
costumava dizer que o mundo de seus pais era um mundo melhor, e assim falavam seus pais do deles.
Este é apenas um antigo costume, porque todos sentimos o mal de nossos próprios tempos, mas não
vemos o que havia antes de nós.
Resp. 2. Talvez vocês falem enquanto pensam: os mundanos pensam que o mundo é o melhor que há,
quando é aprazível às suas mentes e quando têm muita diversões e prazeres mundanos. E não duvido que
o próprio diabo, tanto quanto vocês, diria que era um mundo melhor, então, quando tinha mais serviço e
menos perturbação. Mas o mundo está no seu melhor quando Deus é mais amado, considerado e
obedecido. E de que outro modo saberiam quando o mundo é bom ou mal, a não ser assim?
Objeção 10. Há tantos caminhos e religiões que não sabemos a qual deles pertencer, portanto,
continuaremos a estar do que jeito que estamos.
Resp. Porque há muitos, vocês pertencerão ao caminho que estão certos ser o errado? Ninguém está
mais distante do caminho do que os pecadores mundanos, carnais e não convertidos, pois não apenas
erram nessa e naquela opinião, mas no próprio escopo e curso de suas vidas. Se estivessem em uma
jornada da qual dependem suas vidas, vocês parariam ou voltariam porque se encontraram com alguma
encruzilhada, ou porque viram alguns viajantes seguindo o caminho dos animais, e alguns a trilha dos
pedestres, e alguns que talvez passem pela cerca, e até mesmos alguns que se perderam no caminho? Ou
não seriam, por acaso, ainda mais cuidadosos em investigar o caminho? Se tiverem alguns servos que não
saibam fazer seu trabalho direito e alguns que são infiéis, vocês aceitariam de bom grado que os demais
fossem ociosos e não fizessem o serviço porque veem seus companheiros agirem tão mal?
Objeção 11. Não vejo que os piedosos se deem muito melhor que os outros homens; eles são tão
pobres quanto estes, e têm muito mais problemas que os outros.
Resp. E talvez tenham muito mais, quando Deus achar necessário. Eles não tomam a prosperidade
mundana como seu salário; entesouraram seu tesouro e esperança em outro mundo, de outro modo não
seriam cristãos de fato. Quanto menos têm, mais deixam para trás, e contentam-se em esperar até depois.
Objeção 12. Quando você tiver dito tudo o que puder, estarei resolvido a esperar e a confiar em Deus,
e a fazer o melhor que puder, e a não fazer tanta objeção.
Resp. 1. Será que é fazer o melhor ao seu alcance, quando não se converterão a Deus, mas seus
corações são contrários a seu santo e diligente serviço? É tanto quanto farão, de fato, mas isso é a sua
miséria.
Resp. 2. Meu desejo é que vocês esperassem e confiassem em Deus. Ademais, pelo que é que
esperariam? É serem salvos, se se converterem e forem santificados? Para isso têm a promessa de Deus,
portanto, esperem por isso e não se poupem. Mas se esperam ser salvos sem conversão ou uma vida
santa, não esperem isso em Deus, mas em Satanás, ou em vocês mesmos, pois Deus não lhes deu essa
promessa, mas lhes disse o contrário. É Satanás e o amor-próprio que lhes fazem essas promessas, e lhes
animam com essas esperanças.
Bem, se isso e coisas semelhantes forem tudo o que têm a dizer contra a conversão e uma vida santa, o
seu tudo é nada e pior do que nada. E se isso, e coisas semelhantes, parece razão suficiente para
persuadi-los a esquecer-se de Deus, e lançarem-se no inferno, que o Senhor os liberte desses raciocínios,
desses entendimentos cegos e desses corações endurecidos e insensíveis! Ousam ficar de pé e proferir
uma dessas razões no tribunal de Deus? Pensam que lhes servirá dizer: “Senhor, não me converti, pois
tinha muita coisa a fazer no mundo, ou porque não gostava da vida de alguns crentes professos, ou porque
via homens de pensamento tão diferentes?” Oh! Quão facilmente a luz daquele dia envergonhará
argumentos como esses! Vocês tinham o mundo para se preocuparem? Que o mundo a quem servem agora
lhes dê a sua paga, e salve-nos, se puder. Não tinham um mundo melhor para buscar primeiro? E não
foram ordenados a “buscar primeiro o reino de Deus e sua justiça”, tendo a promessa de que as outras
coisas lhes seriam acrescentadas? (Mateus 6.33) E não lhes foi dito que “a piedade para tudo é
proveitosa, tendo a promessa da vida que agora é e da que há de ser”? (1 Timóteo 4.8). Os pecados dos
crentes professos os embaraçam? Vocês deveriam ter sido prudentes, e ter aprendido pelas suas faltas a
ser cautelosos e ter sido mais cuidadosos, e não mais incautos. Era a Escritura, e não as vidas deles, que
eram sua regra. As muitas opiniões deste mundo lhes impedem? Pois a Escritura, que foi a sua regra, lhes
ensinou apenas um caminho, e este era o caminho correto. Se o tivessem seguido, mesmo naquilo que era
tanto claro como fácil, jamais teriam se extraviado. Respostas como essas não os silenciariam? Se não,
Deus tem as que irão calá-los, quando pergunta ao homem: “Amigo, como entraste aqui sem a veste
cerimonial”? (Mateus 22.12), isto é, o que você faz em minha igreja, entre os cristãos professos, sem um
coração e vida santa? Que resposta ele deu? O texto diz que ficou mudo; nada tinha a dizer. A clareza da
situação, a Majestade de Deus, então, calará facilmente a boca dos mais confiantes entre vocês, embora
não sejam vencidos por nada que lhes dissermos agora. Irão, ao contrário, ter por justa a sua causa,
mesmo que seja a pior de todas. Já sei que jamais alguma razão que agora possam me dar lhes será de
alguma valia no fim, quando sua situação for aberta diante do Senhor e do mundo. Ou melhor,
dificilmente penso que suas próprias consciências estejam bem satisfeitas com suas razões. Pois, se
estiverem, parece que vocês não têm tanto propósito de se arrependerem. Mas, se se propõem a se
arrepender, parece que não põem tanta confiança nas suas razões que trazem contra o arrependimento.
O que dizem, pecadores não convertidos? Têm alguma boa razão para dar de por que não irão se
converter, e realmente se converter de todo coração? Ou irão para o inferno apesar da própria razão?
Reflitam sobre o que fazem, enquanto é tempo, pois logo será tarde demais para refletirem. Podem achar
qualquer falta em Deus, ou em sua obra, ou em sua recompensa? Ele é um senhor mau? O diabo, a quem
servem, é melhor? Ou a carne é melhor? Há algum prejuízo em uma vida santa? Uma vida de mundanismo
e impiedade é melhor? Vocês pensam consigo mesmos que lhes traria algum prejuízo se converterem e
viverem uma vida santa? Que prejuízo lhes traria? É prejuízo a vocês ter dentro de si o Espírito de
Cristo? E ter um coração limpo e purificado? Se é ruim ser santo, por que Deus diz: “Sede santos, porque
eu sou santo”? (1 Pedro 1.15; Levítico 20.7) É ruim ser semelhante a Deus? Não é dito “que Deus fez o
homem à sua imagem”? Pois essa santidade é a sua imagem. Adão a perdeu, mas Cristo, por sua Palavra
e Espírito, a restauraria a vocês, como faz com todos a quem salva. Por que foram batizados no Espírito
Santo? E por que batizam seus filhos no Espírito Santo, como o seu santificador, se não serão
santificados por ele, mas pensam ser-lhes difícil ser santificado? Digam verdadeiramente, como se diante
do Senhor: embora sejam relutantes em viver uma vida santa, não prefeririam morrer na condição dos
que assim vivem do que na dos outros? Se fossem morrer hoje, não prefeririam morrer na condição de um
convertido do que na de um não convertido? Na de um homem santo e celestial do que na de um carnal e
terreno? E não diriam como Balaão: “Que eu morra a morte dos justos, e o meu fim seja como o deles”?
(Números 23.10) E por que não teriam agora a opinião que terão, então? Cedo ou tarde chegarão aí, ou
ser convertidos, ou desejar que tivessem sido, quando for tarde demais. Mas o que temem perder se se
converterem? São seus amigos? Vocês apenas os trocarão; Deus será seu amigo, e Cristo, e o Espírito
serão seus amigos, e todo cristão será seu amigo. Vocês obterão um amigo que lhes guardará numa
constância maior do que todos os amigos que poderiam ter tido no mundo. Os amigos que vocês perdem
apenas os teriam incitado ao inferno, mas não os poderiam libertar. Mas o amigo que terão os livrará do
inferno, e os trará para Seu próprio descanso eterno.
São seus prazeres que vocês têm medo de perder? Pensam que nunca mais terão um dia feliz
novamente, se uma vez se converterem. Ora! Como vocês podem achar que é um prazer maior viver nas
brincadeiras e diversões tolas, e agradarem sua carne, a viver nos pensamentos religiosos da glória e do
amor de Deus, e da justiça, paz e alegria no Espírito Santo, em que consiste o estado de graça! (Romanos
14.17). Se lhes fosse maior prazer pensar em suas terras e heranças (se fossem senhores de todo o país)
do que é para uma criança se divertir com seus brinquedos, por que não lhes seria maior alegria pensar
no reino do céu como sendo seu do que em todas as riquezas ou prazeres do mundo? Assim como é a
criancice tola que faz as crianças deleitarem-se tanto em brinquedos, os quais não trocariam por todas as
terras de vocês, também é apenas o mundanismo tolo, a carnalidade e impiedade que os fazem deleitar-se
tanto em suas casas, terras, refeições e bebidas, tranquilidade e honra, uma vez que não as abandonarão
pelas delícias celestiais. Mas o que farão para ter prazer quando eles tiverem desaparecido? Vocês não
pensam nisso? Quando seus prazeres terminarem em horror, e sumirem como um rapé fedorento, os
prazeres dos santos estarão, então, no seu ápice. Eu mesmo não tive senão um pequeno gosto dos prazeres
celestiais nos pensamentos antecipados do bendito dia que se aproxima, e nos presentes convencimentos
do amor de Deus em Cristo; mas tomei um trago por demais profundo dos prazeres terrenos, de modo que
podem ver que, se eu for parcial, inclino-me para o lado de vocês. Não obstante, devo professar que,
dessa pequena experiência [das coisas celestiais], não há nada comparável. Há mais alegria a ser
desfrutada em um dia (se o sol da vida brilhar com vigor sobre nós) no estado de santidade do que em
uma vida inteira de prazeres pecaminosos. Preferiria antes “estar à porta da casa do meu Deus a habitar
nas tendas da perversidade” (Salmo 84.10). “Um dia nos teus átrios é melhor do que mil em outro lugar”
(Salmo 84.13). O júbilo do ímpio é como a risada de um doido, que não conhece sua própria miséria;
portanto, Salomão fala acerca dessa risada que “o riso é loucura e que a alegria de nada vale.”
(Eclesiastes 2.2; 7.2-5). “Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete; pois a morte
é o fim de todos os homens; que os vivos reflitam nisso em seu coração. Melhor é a tristeza do que o riso,
porque o rosto triste torna melhor o coração. O coração dos sábios está na casa onde há luto, mas o
coração dos tolos, na casa da alegria. Melhor é ouvir a repreensão do sábio do que a canção dos tolos”.
Todo o prazer das coisas carnais é apenas coceira de um homem que tem um comichão; é sua doença
que o faz desejá-lo, e um sábio prefere antes estar sem seu prazer a ser atormentado com seu comichão.
Suas mais altas gargalhadas são apenas como a de um homem que tem cócegas; ele ri quando não há
motivo de alegria. Julguem, como homens, se esta é a porção de um homem sábio. É apenas a natureza
carnal não santificada de vocês que faz uma vida santa lhes parecer dolorosa, e uma vida de sensualidade
parecer mais deleitosa. Se apenas se converterem, o Espírito Santo lhes dará uma nova natureza e
inclinação, e, então, lhes será mais agradável livrar-se de seus pecados do que agora é mantê-los. Então,
dirão que não sabiam o que era uma vida confortável até agora, e que nada lhes ia bem até que Deus e a
santidade fossem seu deleite.
Pergunta: Mas como pode ser que os homens sejam tão insensatos nas questões da salvação? Eles têm
sagacidade o suficiente em outras matérias. O que os faz tão relutantes em se converter, que haja
necessidade de tantas palavras em uma situação tão clara, e elas todas não sejam suficientes, mas a maior
parte viverá e morrerá não convertida?
Resposta. Para nomeá-las apenas em algumas palavras, as causas são estas:
1. Os homens são amantes por natureza da terra e da carne, e sua natureza tem uma inimizade contra
Deus e a piedade, como a natureza da serpente tem contra o homem. E quando tudo o que pudermos dizer
for contrário a uma inclinação natural de suas naturezas, não é de admirar se prevalecer tão pouco.
2. Eles estão na escuridão e não conhecem as próprias coisas que ouvem. São como um homem que
nasceu cego e ouve um belo elogio da luz. Mas o que o mero ouvir fará a menos que possa vê-la? Não
conhecem a Deus, nem o que é o poder da cruz de Cristo, nem o que é o Espírito de santidade, nem o que
é viver no amor pela fé; não conhecem a certeza, a adequação e a excelência da herança celestial. Não
sabem o que é a conversão e nem o que são uma mente e conduta santas, mesmo quando ouvem falar
delas. Estão em meio à ignorância. Estão perdidos e aturdidos no pecado, como um homem que se perdeu
na noite e não sabe onde está, nem como voltar a si novamente até que a luz do dia o recupere.
3. Estão deliberadamente confiantes que não precisam de conversão alguma, mas apenas de alguma
emenda parcial; e que já estão no caminho do céu e já são convertidos, quando não o são. E se vocês
descobrirem alguém que está bastante fora de seu caminho, pode demorar muito para chamá-lo para que
volte, se ele não acreditar que está fora do seu caminho.
4. Tornaram-se escravos de sua carne, e afogaram-se no mundo para fazer provisão por ele. Suas
luxúrias, paixões e apetites os distraíram, e têm tal domínio sobre eles que não sabem como negá-las,
nem como se importar com outras coisas. De modo que o bêbado diz: “Amo um copo de boa bebida, e
não consigo evitá-la”. O glutão diz: “Amo uma boa iguaria, e não consigo evitá-la”. O fornicador diz:
“Amo ter minha luxúria satisfeita, e não consigo abster-me”. O jogador ama ter seus jogos, e não
consegue deixá-los. De modo que se tornaram até mesmo escravos cativos de sua carne, e sua própria
vontade se tornou impotente; e o que não desejam fazer, dizem que não podem fazê-lo. O mundo está tão
absorto com as coisas terrenas que não tem nem coração, nem mente, nem tempo para as coisas celestiais.
Mas, como no sonho de Faraó: “As vacas feias e magras devoraram as bonitas e gordas”. (Gênesis 41.4)
De modo semelhante, esta terra magra e estéril devora todos os pensamentos a respeito do céu.
5. Alguns são tão carregados pela corrente das más companhias que são possuídos com ásperos
pensamentos a respeito da vida piedosa, ouvindo seus amigos falarem contra ela; ou, ao menos, pensam
que podem se aventurar a fazer como veem muitos fazerem, e assim apegam-se aos seus caminhos
pecaminosos. E, quando um deles é cortado e lançado no inferno, e outro arrebatado de entre eles para a
mesma condenação, isso não os assusta muito, pois não veem para onde foram. Pobres miseráveis,
apegam-se à sua impiedade por isso tudo, pois pouco sabem que suas companhias agora estão
lamentando-se em seus tormentos. Em Lucas 16, o homem rico, no inferno, se agradaria se tivesse alguém
que alertasse seus cinco irmãos, para que não viessem ao mesmo lugar de tormento. É como se
conhecesse suas mentes e vidas e soubesse que estavam se apressando para lá, e nem sonhavam que ele
lá estivesse, e pouco creriam se alguém lhes dissesse isso.
Lembro-me de uma ocorrência que um cavalheiro, ainda vivo, contou-me que viu sobre uma ponte no
Severn[11]. Um homem estava conduzindo um rebanho de cordeiros gordos, e algo os encontrou,
impedindo sua passagem. Um dos cordeiros pulou por sobre a murada da ponte e, suas patas
escorregando debaixo dele, acabou caindo no riacho. O resto, vendo-o, um após o outro pulou pela ponte
e todos, ou quase todos, se afogaram. Aqueles que estavam atrás não tinham ideia do que havia
acontecido com os que tinham ido antes, mas acharam que poderiam se aventurar em seguir suas
companhias. Mas, tão logo tinham passado pelo murada e estavam caindo de cabeça, a situação tinha se
alterado. O mesmo ocorre com os não convertidos carnais. Um morre perto deles e cai no inferno, e outro
segue o mesmo caminho; e, ainda assim, irão ao encalço deles, pois não pensam para onde terão ido. Oh!
Mas tão logo a morte lhes abre os olhos, e veem o que está do outro lado do muro, isto é, do outro
mundo, então, o que não dariam para não estar onde estão!
6. Ademais, eles têm um inimigo astuto e malicioso, que lhes é invisível, e joga seu jogo no escuro.
Seu assunto principal é impedir-lhes a conversão, isto é, mantê-los onde estão, persuadindo-os a não
acreditarem nas Escrituras ou não perturbarem suas mentes com essas coisas; ou persuadindo-os a
pensarem mal de uma vida piedosa, ou a acharem que ela traz mais confusão do que precisam, e que
podem ser salvos sem conversão e sem toda essa agitação; e que Deus é tão misericordioso que não
condenará ninguém como eles, ou, ao menos, que podem permanecer mais um pouquinho, e aproveitarem
os prazeres, e seguirem o mundo um pouquinho mais, e depois abandoná-lo e se arrependerem para
sempre. Com trapaças ilusórias como essas, o diabo mantém a maioria em seu cativeiro, e os conduz à
sua miséria. Esses e semelhantes impedimentos verdadeiramente mantêm milhares de não convertidos,
quando Deus fez tanto, e Cristo sofreu tanto, e ministros disseram tanto em favor de sua conversão.
Quando seus argumentos silenciam e não mais são capazes de responder ao Senhor que lhes chama:
“Convertei-vos, convertei-vos, por que haveis de morrer?”, contudo, tudo dá em nada com a maior parte
deles. E não nos deixam nada mais para fazer, no fim das contas, senão sentar-nos e lamentar sua miséria
voluntária.
DISCURSO 4
“Dize-lhes: Tão certo como eu vivo, diz o SENHOR Deus, não tenho prazer na morte do ímpio, mas
sim em que o ímpio se converta do seu caminho e viva. Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus
caminhos; por que morreríeis, ó casa de Israel?”
Ezequiel 33.11

Mostrei-lhes agora a razoabilidade dos mandamentos de Deus e a insensatez da desobediência dos
ímpios. Se nada servir a esse propósito, mas os homens se recusarem a se converter, devemos considerar
agora de quem é a culpa se forem condenados. E isso me traz à minha última doutrina, a qual é:

Doutrina 7

Que se, apesar de tudo, estas pessoas não se converterem, não é culpa de Deus que sejam
condenadas, mas de si mesmas, e de sua própria obstinação. Elas morrem porque querem morrer, isto
é, porque não querem se converter.
Se vocês querem ir para o inferno, que remédio há? Deus aqui se absolve do sangue de vocês: não
caiará sobre ele se forem condenados. Um ministro negligente pode lançá-lo sobre ele, e aqueles que lhes
encorajam, ou não os impedem de pecar, podem lançá-lo sobre ele. Mas, estejam certos, o sangue de
vocês não repousará sobre Deus. Disse o Senhor, a respeito de sua vinha inútil: “Peço-vos que julgueis
entre mim e a minha vinha. Que mais poderia se fazer à minha vinha, que eu não tenha feito? Por que veio
a produzir uvas bravas, quando eu esperava que desse uvas boas?” (Isaías 5.2-4). O que mais lhes
poderia ter feito? Ele os fez homens e os agraciou com a razão; ele os equipou com todo o indispensável
externamente, deu-lhes uma lei perfeita e justa. Quando a tinham quebrado e se arruinado, teve
compaixão de vocês e enviou seu Filho, por um milagre de misericórdia condescendente, para morrer por
vocês, e lhes ser um sacrifício pelos seus pecados; e estava “em Cristo reconciliando o mundo consigo
mesmo”. O Senhor Jesus fez de si mesmo a vocês uma oferta de dádiva e de vida eterna com ele, na
condição de que a aceitem e voltem.
Ele, nessa condição razoável, lhes ofereceu o livre perdão de todos os seus pecados; escreveu isso na
sua Palavra, e a selou pelo seu Espírito, e a enviou pelos seus ministros. Eles lhes fizeram a oferta
(muitas vezes), e os chamaram a aceitá-la e a se converterem a Deus. Em Seu nome os admoestaram,
argumentaram sobre a situação com vocês e responderam a todas as suas objeções frívolas. Ele lhes
esperou por muito tempo, e esperou que descansassem, e permitiu que abusassem dele em sua face.
Misericordiosamente os sustentou em meio aos seus pecados; cercou-os com todas as sortes de
misericórdias e também misturou com elas as aflições, para conscientizá-los de sua tolice, e chamá-los a
ser inteligentes. Seu Espirito esteve sempre lutando com seus corações, e dizendo lá: “Converta-se,
pecador, converta-se àquele que o chama. Aonde você está indo? O que está fazendo? Não sabe qual será
seu fim? Por quanto tempo odiará seus amigos e amará seus inimigos? Quando deixará tudo, e se
converterá, e se entregará totalmente a Deus, e dará ao seu Redentor a posse de sua alma? Quando isso
acontecerá?” Estas alegações foram usadas com você: “Hoje, enquanto se chama hoje, não endureçam
seus corações. Por que não agora, sem mais adiamentos?”
A vida foi colocada diante de vocês, as alegrias do céu lhes foram abertas no evangelho; a certeza
delas lhes foram manifestas; a certeza dos tormentos eternos dos condenados lhes foram declaradas. A
menos que tivessem uma vista do céu e do inferno, o que mais poderiam desejar? Cristo foi, por assim
dizer, apresentado como crucificado diante de seus olhos (Gálatas 3.1). Foi-lhes dito centenas de vezes
que são apenas homens perdidos até que venham a ele. Assim como, com frequência, foi-lhes falado a
respeito da malignidade do pecado, da vaidade do mundo e de todos os prazeres e riquezas que pode
oferecer, ou da brevidade e incerteza de suas vidas, e da duração infinita da alegria ou tormento da vida
porvir. Isso tudo, e mais do que isso, já lhes foi dito, repetidas vezes, até quando já estavam cansados de
ouvi-lo, e até que pudessem fazer pouco caso disso, porque já o tinham ouvido tantas vezes, como o cão
do ferreiro, que pelo costume é levado a dormir debaixo do barulho das ferramentas, e quando as faíscas
voam acima de seus ouvidos. Embora isso tudo não os tenha convertido, não obstante, ainda estão vivos,
e poderiam ter a misericórdia até mesmo hoje, se apenas tivessem ouvidos para acalentá-la.
E agora, deixem que a própria razão seja a juíza, se é a culpa de Deus ou de vocês se após isso não
serão convertidos e serão condenados. Se morrerem agora, será porque querem morrer. O que mais lhes
pode ser dito? Ou que rumo deve ser tomado que seja mais provável de prevalecer? São capazes de
dizer, e ter alguma razão, que: “Teríamos com prazer nos convertido e nos tornado novas criaturas, mas
não podíamos; teríamos com prazer abandonado nossos pecados, mas não podíamos; teríamos mudado
nossa companhia, nossos pensamentos e nosso discurso, mas não podíamos”. Por que não podiam, se o
desejavam? O que lhes impediu, a não ser a impiedade de seus corações? Quem os forçou ao pecado? Ou
quem os impediu do dever? Não tiveram o mesmo ensino, tempo e liberdade para serem piedosos que
seus conhecidos piedosos tiveram? Por que, então, não puderam ser piedosos tanto quanto eles? As
portas da igreja lhes foram fechadas? Ou foram vocês que se mantiveram distantes? Ou vierem, sentaram
e dormiram, ouvindo como se não tivessem ouvido? Deus colocou alguma exceção contra vocês em sua
Palavra, quando convidou pecadores ao arrependimento e quando prometeu misericórdia àqueles que se
arrependessem? Ele disse: “Perdoarei a todos que se arrependerem, exceto você?” Ele os impediu de
participarem da liberdade de seu santo culto? Proibiu-os de orar a ele mais do que os outros? Vocês
sabem que não! Deus não os afastou de si, mas vocês o abandonaram e fugiram. E quando os chamou, não
quiseram vir. Se Deus lhes houvesse excluído da promessa geral e da oferta de misericórdia ou lhes
tivesse dito: “Afastem-se; não terei nada que ver com pessoas como vocês. Não orem a mim, pois não os
ouvirei. Ainda que se arrependam e clamem por misericórdia, não me importarei com vocês”; se Deus
nada tivesse lhes deixado em que confiar, mas tão somente o desespero, então teriam uma desculpa justa.
Poderiam ter dito: “Com que propósito me arrependo e converto, quando isso não me trará nenhum
benefício?” Mas esse não é o seu caso.
Vocês poderiam ter tido Cristo como Senhor e Salvador, tanto quanto os outros, mas não quiseram,
porque não se sentiram doentes o suficiente para que precisassem de um médico, e porque não podiam
abandonar sua doença. Em seus corações disseram, como aqueles rebeldes: “Não queremos que este
homem reine sobre nós” (Lucas 19.14). Cristo “quis ajuntar-lhes como a galinha ajunta seus filhotes
debaixo das asas, mas vocês não quiseram” (Mateus 23.37). Quanto desejo pelo seu bem-estar o Senhor
expressa em sua santa Palavra! Com que compaixão lhes espera, dizendo: “Ah, se o meu povo me
escutasse! Ah, se andasse nos meus caminhos!” (Salmo 81.13) “Quem dera o coração deles fosse tal que
me temessem e guardassem todos os meus mandamentos em todo o tempo, para que eles e seus filhos
vivessem bem para sempre!” (Deuteronômio 5.29) “Se fossem sábios, entenderiam isso e saberiam seu
destino.” (Deuteronômio 32.29). Ele teria sido o seu Deus, e lhes teria feito tudo o que suas almas bem
pudessem desejar. Mas vocês amaram o mundo e sua carne antes dele, portanto, não o quiseram ouvir,
embora o saudassem e lhe dessem altos títulos. Contudo, quando chegou o fim, “não quiseram saber dele”
(Salmo 81.11,12); “Por isso, eu os entreguei à teimosia de coração, para que andassem segundo seus
próprios conselhos.”
Ele condescende em argumentar e discutir a questão com vocês, e lhes pergunta: “O que há comigo ou
com meu serviço para que me sejam tão opostos? Que mal lhe fiz, pecador? Mereço este tratamento
desleal de sua parte? Muitas misericórdias lhe mostrei; por qual delas me despreza? Sou eu ou é Satanás
o seu inimigo? Sou eu ou é seu eu carnal que quer arruiná-lo? É de uma vida santa ou de uma vida de
pecado que você tem motivos para fugir? Se você se arruinar, foi o que procurou para si mesmo ao me
abandonar, a mim, o Senhor, que lhe teria salvado” (Jeremias 2.7). “O teu delito te castigará, e a tua
rebelião te repreenderá. Sabe e vê, que má e amarga coisa é teres abandonado o Senhor, teu Deus, e não
teres temor de mim, diz o Senhor, o SENHOR dos Exércitos” (Jeremias 2.19). “Que delito vossos pais
acharam em mim, para que me deixassem? Eles foram atrás de coisas inúteis e tornaram-se inúteis”
(Jeremias 2.5). Ele clamou, por assim dizer, aos irracionais, para ouvirem a controvérsia que tinha contra
vocês: “ Ó montes, e vós, fundamentos perpétuos da terra, ouvi a acusação do SENHOR; porque o
SENHOR tem uma acusação contra o seu povo e entrará em juízo contra Israel. Ó povo meu, que é que te
fiz? Em que te ofendi? Responde-me. Eu te tirei da terra do Egito e te resgatei da casa da escravidão; e
enviei Moisés, Arão e Miriã adiante de ti.” (Miquéias 6.3-5) “Ouvi, ó céus, e dá ouvidos, ó terra, porque
o SENHOR disse: Criei filhos e os fiz crescer, mas eles se rebelaram contra mim. O boi conhece o seu
proprietário, e o jumento, o cocho posto pelo dono; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não
entende. Ah, nação pecadora, povo carregado de maldade, descendência de malfeitores, filhos que
praticam a corrupção! Deixaram o SENHOR, desprezaram o Santo de Israel, afastaram-se dele” (Isaías
1.2-4). “Povo louco e insensato, é assim que recompensas o SENHOR? Ele não é teu pai, que te adquiriu,
te fez e te estabeleceu?” (Deuteronômio 32.6).
Quando Ele viu que vocês o abandonaram a troco de nada, e viraram as costas ao Senhor e à vida para
perseguir a palha e as plumas do mundo, falou-lhes de sua tolice e lhes chamou a uma ocupação mais
proveitosa: “Ó vós, todos os que tendes sede, vinde às águas, e vós que não tendes dinheiro, vinde,
comprai e comei; vinde e comprai vinho e leite, sem dinheiro e sem custo. Por que gastais o dinheiro
naquilo que não é pão? E o produto do vosso trabalho naquilo que não pode satisfazer? Ouvi-me
atentamente, comei o que é bom e deliciai-vos com finas refeições. Inclinai os ouvidos e vinde a mim;
ouvi, e a vossa alma viverá; farei convosco uma aliança eterna, dando-vos as fiéis misericórdias
prometidas a Davi” (Isaías 55.1-3). “ Buscai o SENHOR enquanto se pode achar, invocai-o enquanto
está perto. O ímpio deve deixar o seu caminho, e o homem mau, os seus pensamentos; volte-se para o
SENHOR, que se compadecerá dele; volte-se para o nosso Deus, porque é rico em perdoar” (vv. 6-7); do
mesmo modo em Isaías 1.16-18. Quando não quiseram ouvir, quantas queixas não lhe causaram,
acusando-os de voluntariedade e teimosia: “Espantai-vos disso, ó céus, e horrorizai-vos! Ficai
verdadeiramente desolados, diz o SENHOR. Porque o meu povo cometeu dois delitos: eles me
abandonaram, a fonte de águas vivas, e cavaram para si cisternas, cisternas furadas, que não retêm água”
(Jeremias 2.13). Muitas vezes, Cristo lhes proclamou aquele livre convite: “Vem! Quem tem sede, venha;
e quem quiser, receba de graça a água da vida” (Apocalipse 22.17). Mas vocês o forçam a reclamar após
todas as suas ofertas: “Mas não quereis vir a mim para terdes vida!” (João 5.40) Ele os convidou a virem
festejar consigo no reino de sua graça, e vocês tinham desculpas devido a seus terrenos, gado e negócios
mundanos; e quando não queriam vir, disseram que não podiam, e o provocaram a resolver-se de que
jamais provariam de seu banquete (Lucas 14.15,24). E quem é apegado ao agora senão vocês mesmos? E
a que podemos atribuir a causa principal de sua condenação, a não a ser seus próprios arbítrios? Vocês
serão condenados. Toda a situação foi revelada pelo próprio Cristo: “A sabedoria grita nas ruas e
levanta sua voz nas praças. Clama do alto dos muros e profere suas palavras à entrada das portas e na
cidade: Ó insensatos, até quando amareis a insensatez? Até quando os que zombam se alegrarão na
zombaria? Até quando os tolos odiarão o conhecimento? Se vos converterdes pela minha repreensão,
derramarei sobre vós o meu espírito e vos revelarei as minhas palavras. Mas, porque clamei, e
recusastes, porque estendi a mão, e ninguém deu atenção; mas, pelo contrário, desprezastes todo o meu
conselho e fizestes pouco caso da minha repreensão; eu também rirei no dia da vossa calamidade e
zombarei, quando o terror vos sobrevier como tempestade, e a vossa calamidade passar como
redemoinho, quando a aflição e a angústia chegarem. Então clamarão a mim, mas eu não responderei;
ansiosamente me buscarão, mas não me encontrarão. Porque menosprezaram o conhecimento e rejeitaram
o temor do SENHOR, não aceitaram o meu conselho e desprezaram toda a minha repreensão. Portanto,
comerão do fruto do seu caminho e se fartarão dos seus próprios conselhos. Porque o desvio dos tolos os
matará, e a prosperidade dos loucos os destruirá. Mas quem me der ouvidos viverá seguro e estará
tranquilo, sem medo do mal.” Preferi recitar o texto inteiro em geral a vocês, pois ele mostra plenamente
a causa da destruição dos ímpios. Não é por que Deus não os quer ensiná-los, mas porque não querem
aprender. Não é por que Deus não quer chamá-los, mas porque não querem se converter com sua
reprovação. Sua obstinação é a sua ruína.
APLICAÇÃO

Do que foi dito, vocês podem aprender adicionalmente as seguintes coisas:


1. Daí podem ver não apenas quão blasfemo e ímpio é pôr a culpa da destruição do homem em Deus,
mas também quão inaptos são esses ímpios miseráveis em trazer essa acusação contra o Criador. Eles
clamam a Deus, e dizem que não lhes dá a graça, e que suas ameaças são severas, e para que Deus
impeça que todos os não convertidos e santificados sejam condenados. Pensam que é uma medida muito
dura que um mísero pecado traga um sofrimento infindável; e, se forem condenados, dizem que não
podem fazer nada, quando, no meio tempo, ocupam-se quanto à própria destruição, até mesmo cortando a
garganta de suas almas, e não serão persuadidos a reter suas mãos. Pensam que Deus seria cruel se os
condenasse, e são, contudo, tão cruéis para si mesmos que correrão para o fogo do inferno quando Deus
os alertou que este está logo adiante deles; e nem súplicas, nem ameaças, nem coisa alguma que possa ser
dita os impedirá. Vemo-nos quase arruinados; suas vidas descuidadas, mundanas e carnais nos dizem que
estão no poder do diabo; sabemos que, se morrerem antes da conversão, nem o mundo inteiro pode salvá-
los; e sabendo da incerteza de suas vidas, tememos diariamente que caiam no fogo.
Portanto, rogamos-lhes que tenham piedade das próprias almas, e que não se arruínem quando a
misericórdia está tão próxima, mas não nos ouvem. Rogamos-lhes que lancem fora o pecado e venham a
Cristo sem demora, e que tenham alguma misericórdia sobre si, mas não querem ter nenhuma. Mas,
mesmo assim, acham que Deus deve ser cruel se os condenar.
Ó pecadores miseráveis e obstinados! Não é Deus que lhes é cruel. São vocês que são cruéis para si
mesmos. É-lhes dito que devem converter-se ou arder [no inferno], e ainda assim não se convertem. É-
lhes dito que se precisarem manter seus pecados, deverão manter a maldição de Deus com eles, e ainda
assim vocês os mantêm. É-lhes dito que não há caminho para a felicidade senão pela santidade; e, ainda
assim, não desejam ser santos. O que querem que Deus lhes diga mais? O que querem que faça com sua
misericórdia? Ele lhes ofertou, mas vocês não a querem ter. Vocês estão na vala do pecado e da miséria,
e Ele lhes daria sua mão para ajudá-los a sair, mas vocês rejeitam seu auxílio; Ele os limparia de seus
pecados, mas vocês preferem mantê-los. Amam sua luxúria e amam sua glutonaria, diversões e bebedice,
e não os abandonarão. Querem que lhes traga ao céu queiram vocês ou não? Ou querem que traga vocês e
seus pecados juntos para o céu? Isso é impossível. Poderiam, da mesma maneira, esperar que ele
tornasse o sol em escuridão. O quê! Um coração não santificado e carnal estar no céu! Não pode ser. “Lá
não entra nada impuro” (Apocalipse 21.17). “Pois que comunhão há entre a luz e as trevas, entre Cristo e
Belial?” (2 Coríntios 6.14,15) “Todo o dia estendi as minhas mãos a um povo desobediente e rebelde”
(Romanos 10.21).
O que farão agora? Clamarão a Deus por misericórdia? Pois Deus já lhes chamou para terem
misericórdia de vocês mesmos, mas não quiseram. Os pastores veem o copo de veneno nas mãos do
bêbado e lhe dizem que há veneno nele, e desejam que tenha misericórdia de sua alma e o abandone; mas
não nos ouvirá: ele deve e quer bebê-lo. Ama-o, portanto, ainda que venha em seguida o inferno, diz que
não pode evitá-lo. O que alguém poderia falar a homens semelhantes a esses? Dizemos aos mundanos
ímpios e descuidados que não é essa vida que servirá ao seu proveito, ou mesmo lhes trará ao céu. Se um
urso estivesse em suas costas, corrigiriam seus passos, mas quando a maldição de Deus está às suas
costas, e Satanás e o inferno estão às suas costas, não se agitarão, mas perguntarão: “Que necessidade há
de todo esse tumulto?” Uma alma imortal não é de mais valia? Oh! Compadeçam-se de si mesmos!
Mas não terão misericórdia de si, nem jamais nos considerarão. Dizemos-lhes que o fim será amargo.
Quem pode lidar com o fogo eterno? Mas, ainda assim, não terão misericórdia de si mesmos. Não
obstante, esses pobres miseráveis dizem que Deus é misericordioso demais para condená-los, quando
são eles próprios que cruel e implacavelmente correm atrás da condenação. Se fôssemos até eles e lhes
suplicássemos, não poderíamos detê-los. Se ficássemos de joelhos diante deles, não os deteríamos; mas
ao inferno iriam, mesmo não acreditando que estão indo para lá. Se lhes suplicássemos pelo amor do
Deus que os fez e os preserva; pelo amor do Cristo, que por eles morreu; pelo amor de suas pobres
almas, que se apiedassem de si mesmos, e não prosseguissem mais no caminho do inferno, mas que
viessem para Cristo, enquanto seus braços estão abertos; e entrassem no estado de vida, enquanto a porta
permanece aberta, e agarrassem a misericórdia, enquanto está disponível; não seriam persuadidos. Se
morrêssemos por isso, não conseguiríamos mais sucesso do que temos conseguido em fazê-los considerar
o assunto. Contudo, são capazes de dizer: “Tenho esperança de que Deus será misericordioso”. Nunca
consideram o que ele diz: “Este povo não tem entendimento. Portanto, aquele que o fez não se
compadecerá dele, e aquele que o formou não o perdoará” (Isaías 27.11).
Se outro homem não os vestir, quando estiverem nus, e alimentá-los, quando estiverem com fome,
dirão que é cruel. Se lhes atirasse à prisão ou lhes batesse e atormentasse, diriam que é cruel. Contudo,
farão mil vez mais contra si mesmos, até mesmo desperdiçarão sua alma e corpo, para sempre, e nunca
reclamam de sua própria crueldade! Sim, e Deus, que lhes espera em todo esse tempo com sua
misericórdia, deve ser reputado como cruel se os punir depois disso tudo. A menos que o Santo Deus do
céu dê a estes miseráveis licença para pisar no sangue de seu Filho e, como os judeus, por assim dizer,
cuspir novamente no seu rosto, e fazê-lo às custas do Espírito da graça, e zombar do pecado, e gracejar
da santidade, e ter mais desprezo pela graça misericordiosa do que pela imundície de seus prazeres
carnais; e a menos que, após isso tudo, Ele lhes salve pela misericórdia que descartam, e da qual nada
querem, Deus mesmo será por eles chamado de cruel. Mas ele será justificado quando julgar e não cairá
ou ficará de pé no tribunal de um verme pecaminoso.
Sei que há muitas sutilezas que trazem contra o Senhor, mas aqui não me demorarei para respondê-las
particularmente, já tendo feito isso no meu Tratado sobre o Julgamento, ao qual os remeto. Se a parte
disputadora do mundo tivesse sido tão cuidadosa em evitar o pecado e a destruição quanto tem sido
ocupada em perscrutar pelas suas justificativas, e avançada em diretamente imputá-los a Deus, teriam
exercitado seus gênios mais lucrativamente, e teriam ofendido menos a Deus e favorecido mais a si
mesmos. Quando um monstro tão feio quanto o pecado está dentro de nós, e coisa tão pesada quanto o
castigo está sobre nós, e coisa tão terrível quanto o inferno está diante de nós, alguém poderia pensar que
seria uma questão fácil saber quem tem a culpa; se Deus ou o homem é a causa principal ou culpável.
Alguns homens são juízes tão favoráveis a si mesmos que estão mais inclinados a acusar a própria
perfeição e bondade do que a seus próprios corações, imitando seus pais que diziam: “A serpente me
tentou, e a mulher que tu me deste deu-me, e eu comi”. Secretamente, dão a entender que Deus era o
culpado. Assim dizem: “O entendimento que tu me deste era incapaz de discernir; a vontade que me deste
era incapaz de fazer uma escolha melhor; os objetos que colocaste diante de mim me tentaram; a tentação
que permitiste que me assaltasse, prevaleceu contra mim”. E a alguns repugna de tal modo pensar que
Deus possa fazer uma criatura autodeterminada que não ousam negar-lhe aquilo que tomam como sua
prerrogativa em ser o determinador da vontade em cada pecado, como a primeira causa eficiente,
imediata e física. Muitos ficariam contentes em absolver Deus de ser a causa principal do mal, se tão
somente pudessem reconciliá-lo com o fato de ele ser a causa principal do bem: como se as verdades não
pudessem ser mais verdades se fôssemos incapazes de vê-las em sua perfeita ordem e coerência. Porque
nossas imaginações confusas não podem vê-las corretamente unidas, nem designar a cada verdade o seu
devido lugar, presumimos concluir que algumas devem ser lançadas fora. Este é o fruto do autoengano
soberbo, quando os homens não recebem a verdade de Deus como as crianças as suas lições, em uma
santa submissão à onisciência de nosso mestre, mas como censuradores que são sábios demais para
aprenderem.
Objeção. Mas não podemos converter a nós mesmos até que Deus nos converta. Não podemos fazer
nada sem sua graça. Não depende de quem quer, ou de quem corre, mas de Deus mostrar sua misericórdia
[Romanos 9.16].
Resposta. Deus tem dois graus de misericórdia a mostrar. A misericórdia da conversão, primeiro, e,
por fim, a misericórdia da salvação. A última, Ele não dará senão aos que querem e correm, e a prometeu
a esses apenas. A primeira é para tornar dispostos os indispostos, e, embora suas próprias disposições e
esforços não mereçam sua graça, contudo, sua voluntária recusa merece que ela lhes seja negada. Sua
incapacidade é sua própria indisposição, que não é desculpa para seu pecado, mas o torna ainda maior.
Vocês poderiam se converter se estivessem apenas verdadeiramente dispostos; e, se suas próprias
vontades são tão corrompidas que nada a não ser a graça eficaz as moverá, têm ainda mais motivo para
buscar essa graça, e ceder a ela, e fazer o que puderem no uso dos meios e a não a negligenciar ou se
colocar contra ela. Façam o que são capazes primeiro e depois queixem-se de Deus por negar sua graça,
se tiverem motivo.
Objeção. Mas você parece insinuar com isso tudo que o homem tem livre arbítrio.
A disputa sobre o livre arbítrio vai além de suas capacidades; portanto, não devo perturbá-los sobre
essa questão, a não ser com o seguinte: sua vontade é naturalmente uma faculdade livre, isto é,
autodeterminante, mas está viciosamente inclinada e avessa a fazer o bem. Portanto, vemos, por triste
experiência, que vocês não têm uma liberdade moral virtuosa, mas é a impiedade dela que merece a
punição. E peço-lhes que não sejamos considerados como tolos com opiniões. Deixem que o caso seja de
vocês. Se tivessem um inimigo tão malicioso que caísse sobre vocês e os batesse toda vez que os
encontrasse, e tirasse as vidas de seus filhos, vocês os desculpariam porque diz: “Não tenho livre
arbítrio, esta é a minha natureza. Não tenho escolha, a menos que Deus me dê a graça”? Se tivessem um
servo que lhes roubasse, aceitariam esta resposta dele: “Não tenho livre arbítrio; não posso mudar meu
coração! O que posso fazer sem a graça de Deus”? Devem eles ser absolvidos? Se não, por que então
vocês devem pensar que serão absolvidos por uma vida de pecados contra o Senhor?
2. Daí vocês também podem observar estas três coisas juntas. 1. Como Satanás é um tentador sutil. 2.
Que coisa enganosa é o pecado. 3. Que criatura corrompida é o homem. É um tentador sutil, de fato,
aquele que pode persuadir a maior parte do mundo a ir voluntariamente ao fogo eterno, quando as
pessoas têm tantos avisos e dissuasões como têm. Uma coisa enganosa, de fato, é o pecado, que pode
enfeitiçar tantos milhares a rejeitar a vida eterna por algo tão vil e totalmente indigno! Uma criatura tola,
de fato, é o homem, que será traído em sua salvação a troco de nada, sim, por um absoluto nada; e isso
por um inimigo, um conhecido inimigo. Vocês pensariam que é impossível que qualquer pessoa em seu
juízo fosse persuadida, por uma ninharia, a lançar-se no fogo, ou na água, ou em uma mina de carvão,
para a destruição de sua vida? Contudo, os homens serão seduzidos a se lançarem no inferno. Se suas
vidas naturais estivessem em suas mãos de tal modo que não morreriam até que tirassem suas próprias
vidas, quanto tempo a maior parte de vocês viveria? Não obstante, quando sua vida eterna está até aqui
em suas mãos, debaixo de Deus, que não podem ser arruinados a menos que arruínem-se a si mesmos,
quão poucos de vocês evitará a própria ruína? Ah! Que coisa tola é o homem! E que coisa sedutora e
estupidificante é o pecado!
3. Com isso também podem aprender que não é grande maravilha se os ímpios forem empecilhos para
os outros no caminho do céu, e desejem tantos não convertidos quanto puderem, e os arrastem ao pecado
e os mantenham nele! Podem esperar que tenham misericórdia dos outros, esses mesmos que não têm de
si? E que se importem com a destruição de outros, se não se importam em destruir a si mesmos? Eles não
fazem nenhum mal aos outros que não façam a si mesmos.
4. Por fim, podem também aprender que o maior inimigo do homem é ele próprio; que o maior
julgamento nesta vida que pode lhe suceder é ser entregue a si mesmo; que a maior obra que a graça tem a
fazer é nos salvar de nós mesmos; que as maiores acusações e queixas dos homens devem ser contra si
mesmos; que a maior obra que temos a fazer em nosso favor é resistir a nós mesmos; que o maior inimigo
com relação a quem devemos orar diariamente, vigiar e lutar é nosso próprio coração e vontade carnais;
e a maior parte de nossa obra, se desejam fazer o bem aos outros e ajudá-los para o céu, é salva-los de si
mesmos, ou seja, de seus entendimentos cegos e de suas vontades corruptas, afeições perversas, paixões
violentas e sentidos desgovernados. Apenas nomeio essas coisas por questão de brevidade e os deixo
para sua posterior consideração.
Pois bem, senhores, agora encontraram o grande delinquente e assassino das almas (ou seja, os
próprios homens, suas próprias vontades); o que permanece é que julguem de acordo com a evidência e
confessem esta grande iniquidade diante do Senhor, e sejam humilhados por ela e não a cometam mais.
Para estes três propósitos distintos, devo acrescentar mais algumas palavras: 1. para convencê-los ainda
mais; 2. para humilhá-los; e 3. para transformá-los, se ainda houver alguma esperança.
1. Conhecemos bastante da surpreendente natureza graciosa de Deus, que está tão disposto a fazer o
bem e satisfeito em mostrar misericórdia, que não temos razão alguma para suspeitar que seja o culpado
de nossa morte ou de chamá-lo cruel. Ele faz todo o bem e preserva e mantém tudo; os olhos de todas as
coisas esperam nele, e ele lhes dá provisão a seu tempo; abre a mão e satisfaz o desejo de todos os
viventes (Salmo 145.15,16). Ele é não apenas justo em todos os seus caminhos (e, portanto, tratará com
justiça), e santo em todas as suas obras (e, portanto, não é o autor do pecado) mas é bom para todos, e
suas ternas misericórdias estão sobre todas as suas obras. (Salmo 145.17,19). Mas, quanto ao homem,
sabemos que sua mente é tenebrosa, sua vontade, perversa, suas afeições o carregam tão impetuosamente
que é capaz, por sua tolice e corrupção, até mesmo de destruir a si mesmo. Se vissem um cordeiro morto
no caminho, suspeitariam primeiro que foi a ovelha ou o lobo que o matou, se ambos estivessem ao seu
lado? Ou se vissem uma casa invadida e os moradores mortos, suspeitariam primeiro do príncipe ou juiz
que é sábio e justo, e não tinha necessidade, ou de um ladrão ou assassino conhecido? Digo, portanto,
como Tiago 1.13-15: “Quando tentado, ninguém deve dizer: Sou tentado por Deus, pois Deus não pode
ser tentado pelo mal e a ninguém tenta. Mas cada um é tentado quando atraído e seduzido por seu próprio
desejo. Então o desejo, tendo concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, após se consumar, gera a morte.”
Vocês veem aqui que o pecado é o filho de seus próprios desejos, e não deve ser atribuído a Deus; e que
a morte é a filha de seus próprios pecados e o fruto que lhes darão tão logo fiquem maduros. Vocês têm
um tesouro de maldade em si mesmos, como uma aranha tem um veneno, de onde estão trazendo males
para si mesmos e tecendo teias tais que emaranham suas próprias almas. Sua natureza mostra que vocês
são a causa desse mal.
2. É evidente que vocês são seus próprios destruidores, visto que que estão tão prontos a entreter
quase toda tentação que lhes é oferecida. Dificilmente Satanás está mais disposto a movê-los a qualquer
mal do que vocês estão prontos a ouvir e fazer como ele quer que façam. Se ele tentar seus entendimentos
ao erro e aos maus julgamentos, vocês cedem. Se quiser atrapalhá-los nas boas resoluções, logo tem
sucesso. Se quiser esfriar quaisquer bons desejos ou afeições, logo isso ocorre. Se quiser acender
alguma luxúria, ou afeições e desejos vis em vocês, logo isso ocorre. Se quiser incitá-los aos maus
pensamentos ou obras, vocês estão tão disponíveis que não precisam de uma vara ou estímulo. Se quiser
refreá-los de ter pensamentos, palavras e caminhos santos, basta só um pouco; vocês não precisam de
freios. Vocês não examinam suas sugestões, nem resistem a elas com qualquer resolução, nem as lançam
fora quando ele as lança para dentro, nem apagam as faíscas que ele se esforça para inflamar, mas
começam com ele, encontram-no no meio do caminho, e abraçam seus conceitos, e tentam-no para que ele
os tente. E lhe é fácil capturar tais peixes vorazes, que estão ansiando por uma isca e querem pegar o
anzol nu.
3. É evidente que sua destruição é culpa de vocês mesmos, uma vez que resistem a tudo que poderia
ajudá-los a se salvar, e que lhes quer o bem, ou impedi-los de arruinarem-se a si mesmos. Deus os
ajudaria e salvaria pela sua Palavra, mas vocês a resistem; ela lhes é severa demais. Ele os santificaria
pelo seu Espírito, mas vocês lhe resistem e apagam. Se qualquer pessoa os reprova por seus pecados,
vocês voam na sua face com palavras malignas; e se quiser conduzi-los a uma vida santa, e lhes falar
sobre sua presente miséria, não lhe fazem muitos agradecimentos, mas ou a convidam a cuidar de si
mesma, pois não responderá por vocês, ou, no máximo, a despacham com corações ingratos, e não se
converterão quando são confrontados. Se os pastores privadamente quisessem instrui-los e ajudá-los, não
viriam a eles; pois suas almas soberbas sentem pouca necessidade da ajuda deles. Se quisessem
catequizá-los, seriam velhos demais para ser catequizados, embora nunca sejam velhos demais para
serem ignorantes e profanos. O que quer que possam dizer-lhes para o seu bem, vocês são tão bem-
conceituados e sábios aos próprios olhos, (mesmo nas profundezas da ignorância) que não considerarão
nada que não se harmonize com seus presentes conceitos, mas contraditarão seus mestres, como se
fossem mais sábios que eles; resistem a tudo que lhes possam dizer, pela sua ignorância, falta de vontade,
sofismas tolos, evasivas astutas e rejeições ingratas. De modo que nenhum bem que for ofertado poderá
achar qualquer guarita e acolhida aceitável dentro de vocês.
4. Além do mais, é evidente que são autodestruidores, visto que fazem com que até mesmo o bendito
Deus seja a causa do problema de seu pecado e destruição. Vocês não gostam do plano da sua sabedoria;
não gostam de sua justiça, mas a tomam como crueldade; não gostam de sua santidade, mas estão prontos
a pensar que Ele é um de vocês, alguém que faz pouco caso do pecado; não gostam de sua verdade, mas
gostariam que suas ameaças, mesmo as categóricas, se provassem falsas. E à sua bondade, a qual
parecem tão altamente aprovar, em parte vocês resistem, uma vez que ela os levaria ao arrependimento, e
em parte abusam, servindo ao fortalecimento de seu pecado, como se pudessem livremente pecar porque
Deus é misericordioso e porque sua graça é tão abundante.
5. Sim, vocês buscam que o bendito Redentor os destrua e que o próprio Senhor da vida os extermine!
E nada os torna mais ousados no pecado do que o fato de que Cristo morreu por vocês; como se agora o
perigo da morte houvesse terminado e pudessem ousadamente se aventurar. Como se Cristo houvesse se
tornado um servo de Satanás e de seus pecados e devesse esperar por vocês enquanto abusam dele.
Porque se tornou o médico de suas almas e é capaz de salvar totalmente todos os que vierem a Deus por
meio dele, pensam que ele deve suportar que recusem seu auxílio e que joguem fora seus remédios, e
deve salvá-los quer venham a Deus por ele ou não. De modo que grande parte de seus pecados são
ocasionados pela sua ousada vanglória da morte de Cristo, desconsiderando que ele veio para redimir
seu povo de seus pecados, e santificá-los como um povo peculiar para si mesmo, e para confirmá-los na
santidade à imagem de seu Pai celestial e seu cabeça (Mateus 1.21; Tito 2.12; 1 Pedro 1.15,16;
Colossenses 3.10,12; Filipenses 3.9,10)
6. Vocês também buscam sua própria destruição em todas as providências e obras de Deus. Quando
pensam acerca de sua presciência e decretos, é para endurecê-los em seus pecados ou para possuir suas
mentes com pensamentos disputadores, como se Seus decretos pudessem poupá-los da obra do
arrependimento e de uma vida santa, ou, de outro modo, fossem a causa do pecado e da morte. Se lhes
aflige, vocês se queixam; se lhes dá prosperidade, ainda mais o esquecem, e ficam ainda mais avessos
aos pensamentos da vida eterna. Se os ímpios prosperam, esquecem o fim, que tornará todo ajuste de
contas rigoroso, e estão prontos a pensar que ser ímpio ou piedoso são coisas igualmente boas. Assim,
provocam sua própria morte a partir de todas essas coisas.
7. E coisas semelhantes fazem com relação a todas as criaturas e misericórdia de Deus a vocês. Ele
lhes dá essas coisas como relíquias de seu amor e utensílios para seu serviço, e vocês a tornam contra
ele para agradarem sua carne. Vocês comem e bebem para agradarem seus apetites e não para a glória de
Deus, para capacitá-los a fazer Sua obra. Vocês abusam de suas roupas com a vaidade. Suas riquezas
afastam seus corações do céu (Filipenses 3.18). Suas honras e aplausos os envaidecem. Se tivessem
riquezas e força, isso os tornaria mais seguros e os faria esquecer seu fim último. Sim, vocês abusam das
misericórdias de outros homens, para seu próprio prejuízo. Se veem suas honras e dignidade, são
provocados a invejá-los. Se veem suas riquezas, estão prontos a cobiçá-las. Se contemplam suas belezas,
são incitados à luxúria. E bom será se a própria piedade deles não lhes for uma ferida nos olhos.
8. Vocês convertem em pecado os próprios dons que Deus lhes concedeu e as ordenanças da graça a
qual instituiu para sua igreja. Se têm melhores porções que os outros, ficam orgulhosos e pedantes. Se o
que têm são apenas dons comuns, tomam-nos como graça especial. Vocês consideram o mero ouvir o seu
dever como uma obra tão boa como se os desculpassem por não obedecerem a ele. Suas orações se
tornam pecaminosas, pois têm em vista a iniquidade em seus corações: “Se eu tivesse guardado o pecado
no coração, o Senhor não me teria ouvido” (Salmo 66.18); “Aparte-se da injustiça todo aquele que
profere o nome do Senhor” (2 Timóteo 2.19); “Até a oração de quem se desvia de ouvir a lei é
detestável” (Provérbios 28.9). Vocês estão mais dispostos a oferecer os sacrifícios dos tolos (pensando
que prestam a Deus algum serviço especial) do que ouvir sua palavra e obedecer-lhe (Eclesiastes 5.1).
9. Sim, vocês usam as pessoas com quem convivem e todas as suas ações como ocasião para
promoverem o pecado e a destruição de vocês. Se elas vivem no temor de Deus, vocês as odeiam. Se
vivem na impiedade, as imitam. Se os ímpios são muitos, pensam que podem ainda mais ousadamente
imitá-los. Se os piedosos são poucos, são ainda mais ousados em desprezá-los. Se eles andam
rigorosamente, vocês pensam que são corretos demais. Se um deles cai em uma tentação particular,
tropeçam neles, e viram as costas à santidade, porque aqueles são imperfeitamente santos. É como se
estivessem autorizados a quebrarem seus pescoços porque alguns outros, pela insensatez, torceram um
tendão ou quebraram um osso. Se um hipócrita se exibe, vocês dizem: são todos iguais, e pensam de si
mesmos como pessoas honestas. Dificilmente um cristão professo pode escorregar em alguma falta, mas,
porque ele corta seu dedo, vocês pensam que podem ousadamente cortar as gargantas de vocês. Se os
ministros lidam claramente com vocês, dizem que eles os censuram. Se falam gentilmente ou friamente,
ou vocês dormem ou ficam um pouco mais afetados do que os bancos nos quais estão assentados. Se
quaisquer heresias se arrastam na igreja, alguns vorazmente as acalentam, e outros reprovam a doutrina
cristã por elas, doutrina que, aliás, lhes é muito contrária. E se quisermos afastá-los de qualquer erro
antigo enraizado, o qual pode alegar duas, ou três, ou seis, ou sete centenas de anos de prática, vocês
ficam tão ofendidos com um movimento de reforma como se fossem perder sua vida por isso, e apegam-
se aos velhos erros, enquanto clamam contra os novos. Dificilmente surge alguma divergência entre os
ministros do evangelho que vocês não busquem a própria morte por causa disso. E não ouvirão, ou ao
menos não obedecerão à doutrina inquestionável de qualquer um que não concorde com seus conceitos.
Um não ouvirá um pastor porque este ora a oração do Senhor, outro não irá ouvi-lo porque não faz uso
dela. Um não ouvirá aqueles que são a favor do episcopado; e outro não ouvirá os que são contra. E
assim poderia lhes mostrar em muitos outros casos como vocês levam todos os que se aproximam de
vocês para a destruição. Portanto, está claro que os ímpios são destruidores de si mesmos e que sua
perdição procede deles mesmos.
Penso agora que, considerando o que foi dito e a revisão de seus próprios caminhos, vocês deviam
considerar o que têm feito e se envergonhar e humilhar-se profundamente ao relembrá-lo. Se não o
fizerem, rogo que considerem as seguintes verdades:
1. Serem seus próprios destruidores é pecar contra o mais profundo princípio de suas próprias
naturezas, isto é, contra o princípio da autopreservação. Tudo o que existe naturalmente deseja ou se
inclina para a sua própria felicidade, bem-estar ou perfeição. E vocês se disporão em direção à própria
destruição? Quando são ordenados a amarem seu próximo como a si mesmos, supõe-se que amam
naturalmente a si mesmos. Mas se não amam ao próximo de modo melhor do que a si mesmos, parece que
gostariam que o mundo todo fosse condenado.
2. Com que extremismo vocês contradizem suas próprias intenções! Sei que não pretendem sua
própria condenação, mesmo quando a estão procurando. Pensam que estão apenas fazendo o bem a si
mesmos ao gratificar os desejos da carne. Mas, infelizmente, é tão somente uma gota de água fria em uma
fervura ardente, ou como um arranhão de uma coceira de erisipela, a qual aumenta a doença e a dor. Se,
de fato, gostarem do prazer, ou do ganho, ou honra, busquem-nos onde devem ser achados, e não os
procurem no caminho para o inferno.
3. Que pena é que façam contra si mesmos o que ninguém mais nem na terra nem no inferno pode fazer!
Se todo o mundo estivesse combinado contra vocês, ou todos os demônios no inferno combinados contra
vocês, não poderiam destruí-los sem sua participação, nem criar o pecado sem seu consentimento. E
farão contra si mesmos o que ninguém mais pode fazer? Vocês têm pensamentos odiosos do diabo, porque
é seu inimigo e se esforça pela sua destruição, mas serão piores a si mesmos do que os próprios
demônios? Pois é isso o que ocorre com vocês (se tivessem corações para entender), quando correm para
o pecado, correm da piedade e recusam-se a se converter ao chamado de Deus. Vocês fazem mais contra
suas próprias almas do que os homens ou demônios podem fazer, por seu turno. E se a disposição e
inclinação de suas inteligências é a de lhes causar o maior dos danos, nada mais grave lhes pode ser
feito.
4. Vocês são falsos quanto à confiança que Deus depositou em vocês. Ele muito os confiou com sua
própria salvação, e irão trair sua confiança? Ele lhes designou que, com toda diligência, guardassem seus
corações, e é assim que os guardam? (Provérbios 4.23).
5. Vocês até mesmos impedem todos os outros de se compadecerem de vocês, quando não têm piedade
de si mesmos. Se clamarem a Deus no dia de sua calamidade por misericórdia, misericórdia, o que
podem esperar, senão que os rejeite e diga: “Não, você não deseja misericórdia sobre si mesmo. Quem
trouxe isso sobre si, senão a sua própria vontade?” E se seus irmãos os virem na miséria eterna, como
poderão ter misericórdia, se foram vocês mesmos seus próprios destruidores e não quiseram ser
dissuadidos?
6. O fato de que trouxeram voluntariamente sobre si essa miséria irá tornar os pensamentos a esse
respeito seus próprios atormentadores eternamente no inferno. Que pensamento torturador será pensar
para sempre que isso foi obra sua! Que foram avisados desse dia e avisados de novo, mas isso de nada
adiantou! Que pecaram voluntariamente e voluntariamente se afastaram de Deus! Que tiveram tanto tempo
quanto os outros, mas abusaram dele! Que tiveram mestres tanto quanto os outros, mas recusaram suas
instruções! Tiveram exemplos santos, mas não os imitaram! Foi-lhes ofertado Cristo, a graça e a glória,
tanto quanto aos outros, mas vocês tiveram mais interesse nos seus prazeres carnais. Tiveram um preço
em suas mãos, mas não tiveram corações para comprá-lo (Provérbios 17.16). O que mais isso pode lhes
fazer, senão atormentá-los ao pensar a respeito de sua presente tolice? Tomara seus olhos fossem abertos
para que vissem o que estão fazendo no dano voluntário de suas próprias almas! E que entendessem
melhor as palavras de Deus: “Ouvi a correção e sede sábios. Não a rejeiteis. Feliz é o homem que me dá
ouvidos e que a cada dia fica vigiando diante das minhas entradas, esperando junto ao portal de minha
entrada. Pois aquele que me achar achará a vida e alcançará o favor do Senhor. Mas o que pecar contra
mim fará mal à sua vida; todos os que me odeiam amam a morte.” (Provérbios 8.33-36).
E agora que cheguei à conclusão desta obra meu coração está aflito em pensar sobre como devo
deixá-los, para que não ocorra que, depois disso, a carne ainda os engane, e o mundo e o diabo os
mantenham dormindo, e eu os deixe da maneira que os achei, até que acordem no inferno. Embora tenha
cuidado de suas pobres almas, temo isso, pois conheço a obstinação de seus corações carnais. Contudo,
posso dizer com o profeta Jeremias: “Tampouco desejei o dia da desgraça; o Senhor o sabe” (Jeremias
17.16). Eu também, diferente de Tiago e João, não desejei que “caísse fogo do céu” para consumir os
que rejeitaram Jesus Cristo (Lucas 9.54). Mas o objetivo de todo meu esforço é impedir o fogo eterno! E
como desejaria que essa fosse uma obra desnecessária! Que Deus e a consciência pudessem ser tão
dispostos a me poupar desse labor como alguns de vocês poderiam ter sido!
Caros amigos! Estou tão aborrecido que vocês devam morrer no fogo eterno e ser impedidos de entrar
no céu que, se for possível evitar isso, deveria uma vez mais perguntar-lhes sobre qual é a sua resolução.
Vocês se converterão ou morrerão? Olho-os como um médico olha seu paciente, perigosamente doente, e
lhe diz: “Embora você já esteja em estado avançado, tome apenas este remédio e, se você abandonar
aquelas poucas coisas que lhes são prejudiciais, ouso garantir sua vida; mas se não fizer isso, você é um
homem morto”. O que pensariam desse homem se o médico e todos os seus amigos não puderem
persuadi-lo a tomar um remédio para salvar sua vida ou a esquecer uma ou duas coisas venenosas que o
podem matar? Essa é a sua situação. Seja qual for o seu avanço no pecado, tão somente convertam-se e
venham a Cristo e tomem seus remédios e suas almas viverão. Lancem fora seus pecados pelo
arrependimento e não retornem mais para o vômito venenoso e vocês irão bem.
Contudo, se tivéssemos que lidar com seus corpos, saberíamos parcialmente o que lhes fazer. Embora
não consentissem, ainda assim poderiam ser detidos ou amarrados, enquanto o remédio fosse derramado
pelas suas gargantas e coisas prejudiciais pudessem ser retiradas de vocês. Mas, no que diz respeito às
suas almas, não se pode fazer isso; não podemos convertê-los contra suas vontades. Não há como
carregar malucos acorrentados para o céu; vocês podem ser condenados contra suas vontades, porque
pecaram com suas vontades, mas não podem ser salvos contra suas vontades. A sabedoria de Deus achou
adequado dispor a salvação ou destruição dos homens muito excessivamente sobre a escolha de suas
próprias vontades; de modo que homem algum possa vir ao céu que não escolha o caminho do céu e
ninguém possa vir ao inferno, que não seja forçado a dizer: “Tenho aquilo que escolho, minha própria
vontade foi o que me trouxe para cá”.
Agora, se eu pudesse apenas fazê-los dispor-se; deixá-los total, resoluta e habitualmente dispostos, a
obra estaria feita mais do que pela metade. E, infelizmente, devemos perder nossos amigos, e devem eles
perder seu Deus, sua felicidade, suas almas, por causa disso? Oh! Deus me livre! A mim é estranho que
os mesmos homens que nas coisas menores são bastante civis, corteses e bons vizinhos sejam desumanos
e estúpidos nas questões maiores. Pois deveria saber que tenho o amor de todos ou de quase todos os
meus conhecidos ao ponto de que, se obrigasse a qualquer pessoa na cidade, paróquia ou país, e exigisse
razoável cortesia deles, eles a concederiam a mim; mas quando viesse a requerê-los acerca das maiores
questões no mundo, para eles mesmos e não para mim, não poderia ter nada de muitos deles, além de uma
audição paciente.
Não sei se as pessoas pensam que um homem no púlpito está em seu bom juízo ou não e se pretende
falar o que fala, pois acho que tenho poucos conhecidos, mas, se estivesse sentado familiarmente com
eles, falando-lhes o que vi, ou fiz, ou conheço do mundo, acreditariam em mim e considerariam o que
digo. Mas quando lhes digo, a partir da palavra infalível de Deus, o que eles próprios devem ver e
conhecer no mundo eterno, eles mostram por suas vidas que ou não acreditam nisso ou não se preocupam
muito. Se alguma vez encontrasse um deles no caminho e lhe dissesse que acolá fica uma mina de carvão,
ou que há uma areia movediça, ou que há ladrões espreitando-o pelo caminho, posso persuadi-lo a dar
meia volta. Mas quando lhes falo que Satanás os espreita no caminho, e que o pecado os envenena, e que
o inferno não é um assunto para ser motivo de piadas, continuam como se não me ouvissem.
Verdadeiramente, amigos, tenho tanta preocupação com vocês no púlpito quanto tenho em qualquer
discurso familiar, e se alguma vez se importarem comigo, rogo-lhes que seja aqui[12]. Penso que jamais
houve um homem entre todos vocês que, se minha própria alma estivesse em seu poder, não estaria
disposto a salvá-la, (embora não possa prometer que abandonaria seus pecados por ela). Se eu viesse
com fome ou nu a uma de suas portas, não viriam com mais de um copo de água para aliviar-me? Estou
certo que viriam. Se fosse para salvar minha vida, sei que (alguns de vocês) arriscariam a sua própria.
Contudo, não serão admoestados a abandonar seus prazeres sensuais pela sua própria salvação?
Professo-lhes, senhores, sou como um mendigo caloroso hoje, em favor da salvação de suas próprias
almas, como seria para minha própria provisão, se fosse forçado a vir mendigar em suas portas. E,
portanto, se me ouviriam então, ouçam-me agora; se seriam compassivos, então, admoesto-lhes que sejam
compassivos de si mesmos. Novamente, rogo-lhes, como se estivesse de joelhos, que ouçam seu
Redentor, e convertam-se, para que possam viver.
Todos vocês que têm vivido na ignorância, descuido e presunção até hoje; todos que têm se afogado
nos cuidados do mundo e não se importam com Deus e com a glória eterna; todos vocês que estão
escravizados aos seus desejos carnais de comida e bebida, diversões e luxúrias; e todos vocês que não
conhecem a necessidade da santidade e nunca se familiarizaram com a obra santificadora do Espírito
Santo sobre suas almas; que nunca abraçaram seu bendito Redentor por uma fé vívida, e com apreensões
admiradas e agradecidas de seu amor; e que nunca sentiram uma estima maior de Deus e do céu, e um
coração mais caloroso por eles do que por sua prosperidade carnal e pelas coisas vis: rogo-lhes
sinceramente que, não apenas por minha causa, mas por causa do Senhor e por causa de suas almas que
não continuem sequer por mais um dia em sua antiga condição, mas olhem à sua volta e clamem a Deus
pela graça da conversão para que sejam feitos novas criaturas, e possam escapar das pragas que estão um
pouco adiante de vocês. E se alguma fez fizerem algo por mim, atendam este meu pedido de converterem-
se de seus maus caminhos e viverem. Neguem-me tudo o que alguma vez lhes pedir para mim mesmo, se
tão somente atenderem a esse. E se me negarem isso, não me importo com nada mais que me concedam.
Ao contrário, se alguma vez fizerem algo que for exigido pelo Senhor que os fez e redimiu, não o neguem
isso; pois, se lhe negarem, ele não se importa se o concederem tudo o mais. Se alguma vez quiserem que
ouça suas orações, e atenda às suas petições, e acompanhe-os na hora da morte e no dia do julgamento,
ou em qualquer um de seus apertos, não neguem seu pedido agora, no dia da sua prosperidade. Por favor,
creiam que a morte e o julgamento, o céu e o inferno, são coisas diferentes quando você se aproxima
delas, do que quando parecem distantes aos olhos carnais!
Bem, embora eu não espere tanto de todos, esperarei que alguns de vocês estarão agora se propondo a
se converter e viver, e que estão prontos a dizer: “Deus me livre que escolheremos a destruição ao
recusar a conversão, como até aqui temos feito”.
Se esses forem os pensamentos e propósitos de seus corações, alegremente lhes darei orientações
sobre o que fazer, e isso sucintamente, para que possam lembrar com mais facilidade para sua prática.

ORIENTAÇÃO 1

Se querem ser convertidos e salvos, trabalhem para entender a necessidade e a verdadeira natureza da
conversão; para que, e de que, e a que e por meio de que devem ser convertidos. Considerem em que
condição lamentável estão até a hora de sua conversão, para que possam sentir que não é um estado em
que possam repousar. Vocês estão sob a culpa de todos os pecados que já cometeram e sob a ira de Deus
e a maldição de sua lei; vocês são escravos do diabo e diariamente estão empregados em sua obra contra
o Senhor, contra vocês mesmos e os outros; vocês estão espiritualmente mortos e deformados, vazios da
vida santa, da natureza e da imagem do Senhor. São inaptos para qualquer obra santa e nada fazem que
seja verdadeiramente agradável a Deus. Vocês estão sem nenhuma promessa ou segurança de sua
proteção, e vivem em perigo contínuo de sua justiça, não conhecendo em que hora podem ser arrebatados
para o inferno e muito certamente condenados, se morrerem nessa condição. E nada menos do que a
conversão pode livrá-los disso. Quaisquer civilidades, emendas, virtudes carecem da verdadeira
conversão; essas coisas jamais obterão a salvação de suas almas. Mantenham o verdadeiro senso dessa
miséria natural, bem como da necessidade da conversão em seus corações.
E então devem entender o que é ser convertido: é ter um novo coração ou disposição e uma nova
postura.
Pergunta 1. Para o que devemos nos converter?
Resposta. Para os seguintes fins, os quais podem alcançar:
1. Devem ser imediatamente feitos membros vivos de Cristo; ter um interesse nele; ser renovados à
imagem de Deus; ser adornados com todas as suas graças e vivificados com uma vida nova e celestial;
ser salvos da tirania de Satanás e do domínio do pecado; ser justificados da maldição da lei; ter o perdão
de todos os pecados de suas vidas inteiras; ser aceitos por Deus, feitos seus filhos e ter a liberdade de
chamá-lo de Pai; ir a ele em oração, em todas as suas necessidades, com uma promessa de aceitação;
terão o Espírito Santo para habitar em si, para santificá-los e guiá-los; deverão ter parte na irmandade,
comunhão e orações dos santos; serão aptos para o serviço de Deus; serão libertos do domínio do
pecado; serão úteis e uma benção para o lugar onde vivem, e terão a promessa desta vida e daquela por
vir. Nada lhes faltará do que lhes é verdadeiramente bom e serão habilitados a suportar suas necessárias
aflições; poderão ter algum gosto da comunhão com Deus no Espírito, especialmente em todas as santas
ordenanças, onde Deus prepara uma festa para as suas almas; deverão ser herdeiros do céu enquanto
viverem na terra, e poderão antever, pela fé, a glória eterna, e assim poderão viver e morrer em paz; e
jamais estarão tão aviltados que sua felicidade não seja incomparavelmente maior que sua miséria. Quão
preciosa é cada uma dessas bênçãos, as quais sucintamente referi e que poderão receber nesta vida!
E então,
2. Na morte, suas almas deverão partir para Cristo e no dia do julgamento tanto alma quanto corpo
serão justificados e glorificados e entrarão na alegria do Mestre, onde sua felicidade consistirá nas
seguintes coisas:
a) Deverão ser aperfeiçoados: seus corpos mortais serão feitos imortais, e o corruptível vestirá a
incorruptibilidade. Não mais terão fome, ou sede, ou fraqueza, ou doença; nem precisarão temer a
vergonha, o luto, a morte ou o inferno. Suas almas deverão estar perfeitamente livres do pecado e
perfeitamente aptas para o conhecimento, amor e louvor do Senhor.
b) Suas ocupações serão contemplar seu glorioso Redentor, com todos os seus concidadãos do céu, e
ver a glória do muito bendito Deus, amá-lo perfeitamente, ser amado dele e louvá-lo para todo o sempre.
c) Sua glória será contribuir para a glória da Nova Jerusalém, a cidade do Deus vivo, o que é mais do
que ter uma felicidade privada para si mesmos.
d) Sua glória será contribuir para a glorificação de seu Redentor, que será magnificado e agradado
para sempre em vocês, que são a labuta de sua alma; e isso é mais do que glorificar a si mesmos.
e) E a eterna Majestade, o Deus vivo, será glorificado na glória de vocês; tanto quando for
magnificado pelos seus louvores, quanto enquanto lhes comunica de sua glória e bondade, e enquanto se
agrada de vocês; e na realização de sua obra gloriosa, na glória da Nova Jerusalém, e de seu Filho. Isso
tudo, o mais pobre mendigo entre vocês que for convertido, certa e infinitamente desfrutará.
2. Vocês veem para o que devem se converter. Agora devemos entender de que devem se converter. E
isto é, em uma palavra, a sua carne, a qual é o fim último de todos os não convertidos; da carne que quer
ser agradada antes de Deus e ainda está a seduzi-los; do mundo, que é a isca; e do diabo, que é o
pescador das almas e o enganador. E bem assim de todos os pecados conhecidos e voluntários.
3. A próxima coisa que devem conhecer é qual é o fim para o qual devem se converter, e este é Deus
como o seu fim; devem se converter a Cristo, que é o caminho para o Pai; à santidade, como o caminho
que lhes foi apontado por Cristo; e ao uso de todos os auxílios e meios de graça que lhes foram
concedidos pelo Senhor.
4. Finalmente, devem conhecer pelo que devem se converter. E isto é por Cristo, como o único
Redentor e intercessor; e pelo Espírito Santo, como o santificador; e pela Palavra, como seu instrumento
ou meio; e pela fé e arrependimento, como os meios e deveres a serem realizados de sua parte. Tudo isso
quanto à necessidade.

ORIENTAÇÃO 2

Se desejam ser convertidos e salvos, entreguem-se bastante às sérias considerações em secreto. A
irreflexão arruína o mundo. Recolham-se, com frequência, para o retiro secreto, e lá reflitam acerca do
fim para o qual foram feitos; da vida que têm vivido; do tempo que têm perdido; do pecado que têm
cometido; do amor e sofrimentos e da plenitude de Cristo; do perigo em que se encontram; da
proximidade da morte e do julgamento; da certeza e excelência das alegrias do céu e da certeza e terror
dos tormentos do inferno; da eternidade de ambos e da necessidade da conversão e de uma vida santa.
Encham seus corações de considerações como essas.

ORIENTAÇÃO 3

Se desejam ser convertidos e salvos, atendam à Palavra de Deus, a qual é o meio ordinário. Leiam a
Escritura ou ouçam-na, e outros escritos santos que a aplicam. Atendam com constância à pregação
pública da palavra. Assim como Deus iluminará o mundo pelo sol e não por si mesmo somente, sem
aquele astro, também irá converter e salvar os homens pelos seus ministros, que são os luzeiros do
mundo (Atos 26.17,18; Mateus 5.14) Quando havia miraculosamente humilhado Paulo, enviou-lhe
Ananias (Atos 9.10). E quando enviou um anjo a Cornélio, foi apenas para intimá-lo a chamar Pedro, que
deveria lhe dizer aquilo em que devia acreditar e o que devia fazer.

ORIENTAÇÃO 4

Apliquem-se a Deus em uma vida de fervente e constante oração. Confessem e lamentem suas antigas
vidas e implorem sua graça para iluminá-los e convertê-los. Roguem-lhe que perdoe o que passou, e que
lhes dê seu Espírito, e mude seus corações e vidas, e os conduza em seus caminhos, e os salve das
tentações. Apliquem-se a essa obra diariamente e não se cansem dela.

ORIENTAÇÃO 5

Abandonem imediatamente seus pecados notórios e deliberados. Façam uma pausa e não mais siga
esse caminho. Não sejam mais bêbados, mas evitem o lugar e a ocasião disso. Lancem fora a imoralidade
e os prazeres pecaminosos, detestando-os, e não sejam mais praguejadores. E, se em alguma coisa
tiverem errado, restituam-na, como fez Zaqueu. Se cometerem novamente seus antigos pecados, que
bênçãos podem esperar quanto aos meios para a conversão?

ORIENTAÇÃO 6

Se possível, imediatamente mudem suas companhias, se elas até aqui têm sido más. Não esquecendo
suas relações necessárias, mas seus companheiros pecaminosos desnecessários, juntem-se aos que temem
ao Senhor, e investiguem com eles sobre o caminho para o céu. (Atos 9.19,26; Salmo 15.4)

ORIENTAÇÃO 7

Entreguem-se ao Senhor Jesus como o médico de suas almas, para que possa perdoá-los pelo seu
sangue, e santificá-los pelo seu Espírito, por sua Palavra e ministros, os instrumentos de seu Espírito. Ele
é o caminho, a verdade e a vida, ninguém vem ao Pai a não ser por ele (João 14.6) “E não há salvação
em nenhum outro, pois debaixo do céu não há outro nome entre os homens pelo qual devamos ser salvos.”
(Atos 4.12). Estude, portanto, sua pessoa e natureza e o que fez e sofreu por vocês, e o que é para vocês,
e o que será, e como é apto a satisfazer plenamente todas as suas necessidades.

ORIENTAÇÃO 8

Se pretendem realmente se converter e viver, façam-no rapidamente, sem mais delongas. Se não
estiverem dispostos a se converter hoje, não estão dispostos a fazê-lo de forma alguma. Lembrem-se que
estão todo esse tempo em seu sangue, sob a culpa de muitos milhares de pecados e sob a ira de Deus, e
permanecem às margens do inferno; há apenas um passo entre vocês e a morte. E esta não é uma situação
para alguém que está de bem com seu juízo ficar tranquilo. Ergam-se, portanto, imediatamente, e fujam
por suas vidas, assim como sairiam de sua casa, se estivesse em chamas sobre suas cabeças. Oh! Se
apenas soubessem em que perigo contínuo vivem, e que perda diária e indizível vocês suportam, e que
vida mais segura e doce poderiam viver, não estariam desperdiçando tempo, mas imediatamente se
converteriam. Multidões abortam esse atraso deliberado, quando são convencidas que isso deve ser feito.
Suas vidas são curtas e incertas e em que situação estarão se morrerem antes que possam se converter
inteiramente! Já permaneceram por longo tempo e fugiram de Deus por muito tempo; o pecado fica mais
forte e enraizado enquanto vocês se demoram. Sua conversão se tornará mais difícil e duvidosa. Vocês
têm muito a fazer, portanto não adiem tudo para depois, para que Deus não os esqueça, e desista de
vocês, e então estarão arruinados para sempre.

ORIENTAÇÃO 9

Se vocês desejam se converter e viver, façam-no sem reservas, absoluta e totalmente. Não pensem
em capitular com Cristo e dividir seus corações entre ele e o mundo; abandonar alguns pecados e manter
o resto; e deixar de lado apenas o que a carne pode poupar. Isso é apenas auto ilusão; vocês devem
esquecer de coração e com resolução tudo o que têm, ou de outra forma não podem ser seus discípulos
(Lucas 14.26,33) Se não tomarem Deus e o céu como sua porção, e colocarem tudo o mais sob os pés de
Cristo, mas também quiserem ter boas coisas aqui, ter uma porção terrena, e Deus e a glória não lhes
forem suficientes, é inútil sonhar com a salvação nestes termos, pois ela não ocorrerá. Se você for
extremamente religioso, mas se se tratar apenas de justiça carnal, e a prosperidade, prazer ou segurança
da carne forem excluídas de sua devoção a Deus, este é um caminho tão certo para a morte quanto a
profanidade aberta é, ainda que esta seja mais evidente.

ORIENTAÇÃO 10

Se querem se converter e viver, façam-no resolutamente, e não fiquem parados deliberando como se
fosse uma questão duvidosa. Não fiquem hesitando, como se ainda estivessem incertos se Deus ou a
carne são os melhores mestres; ou se o céu ou o inferno são os melhores destinos; ou se é o pecado ou a
santidade o melhor caminho. Mas acabem com suas antigas luxúrias e imediata, habitual e resolutamente
resolvam-se. Não sejam um dia de uma mente e noutro dia de outra, mas deem um basta com todo o
mundo e resolutamente entreguem-se, e tudo o que têm, a Deus. Agora, enquanto estão lendo ou ouvindo
isso, resolvam-se. Antes que durmam mais uma noite, resolvam-se. Antes que se mexam do lugar,
resolvam-se. Antes que Satanás tenha tempo de lhes influenciar, resolvam. Vocês nunca se converterão de
fato, até que se resolvam, e isso com uma resolução firme e imutável.
É o suficiente quanto às orientações.
E agora que fiz minha parte nessa obra, para que possam se converter ao chamado de Deus e viver, o
que acontecerá, não sei dizer. Lancei a semente à ordem de Deus, mas não está em meu poder dar o
crescimento. Não posso ir adiante com minha mensagem. Não posso trazê-la aos seus corações, nem a
fazer prosperar. Não posso fazer sua parte em entretê-la e considerá-la. Não posso fazer a parte de Deus,
abrindo seu coração para fazê-los entretê-la, nem posso mostrar o céu ou o inferno para a visão de seus
olhos, nem lhes dar corações novos e amáveis. Se soubesse o que mais fazer pela sua conversão,
esperaria que pudesse fazê-lo.
Mas, ó tu, que és o gracioso Pai dos espíritos, juraste que não tens prazer na morte dos ímpios, mas ao
contrário, em que possam se converter e viver; não negues tua benção a essas argumentações e
orientações e não permitas que teus inimigos triunfem à tua vista; e nem que o grande enganador das
almas prevaleça contra teu Filho, teu Espírito e tua Palavra! E quanto aos míseros e pobres pecadores
não convertidos que não têm corações para apiedar-se de si mesmos: ordena ao cego que veja, e ao surdo
que ouça, e ao morto que viva, e não deixe que o pecado e a morte possam ser capazes de resistir-te.
Desperta os seguros, dá resolução aos irresolutos, confirma os vacilantes e traga-os a si mesmos e a teu
Filho, antes que seus pecados tragam-nos à perdição. Se disseres apenas uma palavra, estes pobres
esforços devem prosperar para ganhar muitas almas, para sua alegria eterna e para a glória eterna. Amém.
FIM
UM BREVE RELATO DO AUTOR E DO GRANDE SUCESSO QUE
ACOMPANHOU O CHAMADO QUANDO DE SUA PRIMEIRA
PUBLICAÇÃO

Pode ser apropriado prefixar um relato deste livro dado pelo próprio Sr. Baxter, que foi descoberto no
seu escritório, após sua morte, em suas próprias palavras:
“Publiquei um breve tratado sobre a conversão intitulado Um Chamado aos Não Convertidos. A
ocasião foi a de minha conversa com o bispo Usher, enquanto estava em Londres. Este, que aprovava meu
método e orientações adequadas para a paz de consciência, me importunou a escrever orientações
adequadas aos vários tipos de cristãos, e também contra pecados particulares. Eu reverenciava o homem,
mas desconsiderava essas opiniões, supondo que nada podia fazer que já não tivesse feito. Mas, quando
ele morreu, suas palavras penetraram profundamente em minha mente, e tomei a resolução de obedecer
ao seu conselho. Contudo, no que diz respeito ao primeiro tipo de pessoas (os ímpios), achei que
veementes argumentações fossem mais adequadas do que apenas orientações. Assim, para esses,
publiquei este livrinho, o qual Deus abençoou com inesperado sucesso, mais do que todos os outros que
escrevi, à exceção do Descanso Eterno dos Santos. Em pouco mais de um ano, houve cerca de vinte mil
exemplares impressos com meu consentimento, e cerca de dez mil desde então, além de muitos milhares
que saíram em impressões roubadas, que os pobres roubaram visando ao lucro. Pela misericórdia de
Deus, tenho informações de famílias quase que inteiras convertidas por este livrinho, o qual tanto
desprezei; e, como se isso tudo na Inglaterra, Escócia e Irlanda não fosse misericórdia o suficiente para
mim, Deus (desde que fui silenciado) enviou sua mensagem para muitos além-mar. Pois quando o Sr.
Elliot tinha imprimido toda a Bíblia na língua indígena, o próximo material que traduziu foi este meu
Chamado aos Não Convertidos, como nos escreveu. E, ainda assim, Deus lhe faria uso adicional, pois o
Sr. Stoop, o pastor da Igreja Francesa em Londres, sendo expulso dali pelo desagrado de seus superiores,
agradou-se de traduzi-lo ao francês. Espero que seja útil lá, bem como na Holanda, quando for impresso
em holandês.”
Ademais, pode ser apropriado mencionar o relato do Dr. Bates a respeito do autor, e deste útil tratado.
Em seu sermão no funeral do Sr. Baxter, ele assim o diz: “Seus livros de teologia prática têm sido
eficazes para mais conversões de pecadores a Deus do que quaisquer outros impressos em nosso tempo;
e, enquanto a igreja permanecer na terra, serão de contínua eficácia para recuperar almas perdidas. Há
neles um pulso vigoroso, que mantém o leitor desperto e atento. Seu Chamado aos Não Convertidos, que
livro pequeno, mas quão poderoso em valor! A verdade nele fala com aquela autoridade e eficácia que
faz com que o leitor ponha sua mão sobre o coração, e descubra que tem uma alma e uma consciência,
embora tenha vivido antes como se não as tivesse. Ele disse a alguns amigos que seis irmãos se
converteram ao ler o Chamado, e que toda semana recebia cartas de alguém convertido pelo seu livro.
Falava isto com a mais humilde ação de graças, isto é, que Deus agradara-se de usá-lo como um
instrumento para a salvação de almas.
Autonegação e desprezo pelo mundo eram graças brilhantes nele. Nunca conheci pessoa alguma menos
indulgente consigo, e mais indiferente ao seu interesse temporal.
Sua paciência era verdadeiramente cristã; ele foi tentado por muitas aflições. Somos afeiçoados à
nossa reputação. Seu nome foi obscurecido sob uma nuvem de calúnia; muitos dardos escandalosos foram
atirados nele. Foi acusado por sua Paráfrase sobre o Novo Testamento, e condenado, à revelia, à prisão,
onde permaneceu por alguns anos. Mas esteve tão distante de ser abalado pela perseguição injusta que
alegremente disse a um amigo constante: ‘O que mais poderia desejar de Deus do que, tendo lhe servido
com minhas forças, deva ser chamado a sofrer por ele?
Seu espírito pacífico era o claro caráter de um filho de Deus. É fato conhecido como se esforçou
ardentemente para cimentar as rupturas entre nós. Ele disse a um amigo: ‘Consigo estar tanto disposto a
ser um mártir por amor, quanto por qualquer artigo do credo’. É estranho, até à estupefação, que aqueles
que concordam nos pontos substanciais e grandiosos da religião reformada, e são de sentimentos
diferentes apenas em coisas não tão claras e não tão importantes quanto aquelas em que concordam,
sejam de partidos opostos.
A morte revela os segredos do coração; então, as palavras são faladas com mais sentimento e menos
afetação. Este santo excelente foi o mesmo em sua vida e morte: suas últimas horas foram gastas na
preparação de outros e de si mesmo para comparecerem diante de Deus. Disse aos amigos que o
visitaram: ‘Vocês vêm aqui para aprender a morrer; não sou a única pessoa que deve seguir este caminho.
Posso assegurar-lhes que toda a sua vida, por mais longa que seja, é breve o suficiente para prepará-los
para a morte. Tenham cuidado com este mundo vão e enganador e com os desejos da carne. Certifiquem-
se que escolheram Deus por sua porção, o céu por seu lar, a glória de Deus por seu fim, sua Palavra por
regra, e então não precisam nunca temer, mas se encontrarão com o conforto.’
Nunca um pecador penitente foi mais humilde e aviltado; nunca um crente sincero foi mais calmo e
confortável. Ele se considerava como o mais vil verme do monturo (era a sua expressão usual) que
jamais foi para o céu. Admirava a condescendência divina com o homem, após dizer: ‘Senhor, o que é o
homem? O que sou eu? Um verme vil para o grande Deus!’ Muitas vezes orava: ‘Deus, tem compaixão de
mim, pecador!’ E bendito seja Deus, que deixou isso como registro, no Evangelho, de uma oração eficaz.
Ele disse: ‘Deus pode com justiça me condenar pelo melhor dever que fiz; todas as minhas esperanças
estão na livre misericórdia de Deus, em Cristo’, a quem orava com frequência.
Após um cochilo, ele acordou e disse: ‘Eu descanso de meu labor’. Um ministro então presente disse:
‘E sua obra lhe segue.’ Ao que replicou: ‘Obras nenhuma! Deixarei as obras, se Deus me garantir a
outra’. Quando um amigo o estava confortando com a lembrança do bem que muitos tinham recebido por
sua pregação e escritos, ele disse: ‘Eu era apenas uma pena na mão de Deus, e que louvor é devido a uma
pena?’
Sua submissão resignada à vontade de Deus, em sua aguda doença, foi eminente. Quando dores
extremas o constrangeram a orar fervorosamente a Deus pelo alívio da morte, resistiu a si mesmo: ‘Não
me é lícito prescrever,’ e disse: ‘Quando quiseres, faça o que quiseres.’
Outra vez disse ‘que achara grande conforto e doçura em repetir as palavras da oração do Senhor, e
ficava triste que algumas boas pessoas tivessem preconceitos contra seu uso; pois, contidas nelas, havia
todas as petições necessárias para a alma e o corpo’.
Em outras ocasiões deu excelente conselhos aos jovens pastores que o visitavam, e fervorosamente
orou a Deus para que abençoasse o trabalho deles, e os fizesse bem-sucedidos na conversão de muitas
almas para Cristo; e expressou grande alegria que fossem de espírito moderado e pacífico.
Durante a sua doença, quando lhe perguntaram como estava, sua resposta foi: “Quase bem.” Sua
alegria era mais notável quando, em sua própria apreensão, a morte estava mais próxima; e sua alegria
espiritual estava por fim consumada na alegria eterna.
Assim viveu e morreu esse bendito santo. Eu dei, sem qualquer ficção artificial nas palavras, um
relato breve e sincero a seu respeito. Todas as nossas lágrimas estão aquém da justa dor por tão
irreparável perda. É o conforto de seus amigos que ele desfrute uma bendita recompensa no céu, e tenha
deixado uma preciosa lembrança na terra.
Agora, bendito seja o gracioso Deus, que se agradou de prolongar a vida de seu servo, tão útil e
benéfico para o mundo, até uma idade avançada; e que o tenha trazido lenta e seguramente ao céu.
Devo concluir este relato com meu próprio desejo deliberado: “Que eu possa viver o restante de
minha vida tão inteiramente para a glória de Deus como ele viveu; e quando vier ao fim de minha vida,
que eu morra na mesma bendita paz na qual ele morreu. E que esteja com ele no reino da luz e amor para
sempre.”
Devo também acrescentar o relato do Dr. Calamy acerca desta Tratado. Suas palavras são: “Em 1657,
o Sr. Baxter publicou um Chamado aos Não Convertidos, um livro abençoado por Deus com
maravilhoso sucesso, em resgatar pessoas de suas impiedades. Vinte mil cópias foram impressas e
distribuídas em pouco mais de um ano. Foi traduzido para o francês, holandês e outras línguas europeias;
e o Sr. Elliot a traduziu para a línguas dos índios. O Sr. Cotton Mather, em sua vida, dá um relato de um
príncipe indígena que foi tão bem afetado por esse livro que começou a lê-lo, com lágrimas nos olhos,
até que morreu.”







[1] Baxter alterna livremente entre a 2ª pessoa do singular e do plural, o que se buscou preservar na tradução. (N.T.)
[2] No sentido de finalidade, propósito. (N.T.)
[3] Isto é, aquele que faz promessas. (N.T.)
[4] O autor refere-se às palavras “Tão certo como eu vivo, diz o Senhor”, que são a expressão de um juramento da parte do Senhor.
[5] Gênesis 3.24
[6] Isto é, dos pecados passados. (N.T.)
[7] A citação encontra-se em Atos 26.14.
[8] SANTO AGOSTINHO, Confissões, São Paulo: Martin Claret, 2004. p. 185.
[9] No sentido de alguém que gratifica os sentidos ou que é indulgente aos apetites; carnal. (N.T.)
[10] Arcebispo da Cantuária, foi julgado com a acusação de heresia durante o reinado de Maria Tudor. Durante seu julgamento,
Cranmer se retratou diversas vezes pelos seus escritos favoráveis ao protestantismo, porém, no dia de sua execução, renunciou às suas
retratações, afirmando que suas mãos seriam punidas por tê-las assinado, sendo as primeiras a serem queimadas.
[11] Maior rio da Grã-Bretanha, com 354 km de extensão.
[12] Isto é, na igreja, enquanto Baxter estava no púlpito.