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' Conselho Editorial de Educação:

José Cerchi Fusari Irene Rizzini • Francisco Pilotti (Orgs.)


Marcos Antonio Lorieri
Arno Vogel • Esther Maria de Magalhães Arantes º Eva Faleiros •
Marcos Cezar de Freitas
Marli André
lrma Rizzini • Vicente de Paula Faleiros
Pedro Goergen
Terezinha Azerêdo Rios
Valdemar Sg uissardi
Vitor Henrique Paro

A arte de governar crianças


Ahistória das políticas sociais, da legislação
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro , SP, Brasil) e da assistência à infância no Brasil
A Arte de governar crianças: a história das políticas sociais, da leg isla-
ção e da assistência à infância no Brasil / Irene Rizzini, Francisco
Pilotti ,(orgs.). - 3.ed. - São Paulo : Cortez,2011.

Realização: CIESPI em convênio com a PUC-Rio


Vários autores 3ª edição
Bibliografia
ISBN 978-85-249- 1493-5

l. Assistênc ia a menores - Brasil - História 2 . Crianças - Política


governamenral - Brasil - His tória 3. Crianças pobres - Brasil 4. Menores -
Leis e legislação - Brasil · História I. Rizzini , I rene. IJ . .Pilolli , Francisco.

09-03857 CDD-362.7098 J

Índices para catálogo sistemático:


1. Brasil : lnfância: Políticas sociais, legis lação e assistência :
História : Problemas sociais 362.7098 1

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A ARTE OE GOVERNAR CRIANÇAS


Irene Rizzini e Franc isco Pilolti (Orgs.)

Capa: aerocstúdio sobre imagem do acervo do Projeto Portinari .


Reprodução autorizada por João Candido Portinari.
Preparação d e o riginais: Agnaldo Alves
Revisão: Maria de Lourdes de Almeida Sumário
Composiçc7o: Oany Editora Ltda.
Coorde11açüo edilo rial: Danilo A. Q. Morales

Prefácio à 2ª edição revista


Irene Rizzini.. ___ ___ _ 7

Texto revisto a partir da 2' edição em maio de 2009 . Sobre la s egunda edición d el libra
Francisco Pilotti 11

INTRODUÇÃO • A infância sem dis farces: uma leitura histórica ... -....... 15

PARTE 1
Bases da arte de governar crianças ....... . 31

CAPÍTULO 1 ~ Infância e processo político no Brasil


Vicente de Paula Faleiros ......... ................. . 33
Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou duplicada sem autorização expressa dos organizadores e
do editor. CAPÍTULO li ~ Crianças e menores: do pátrio poder ao pátrio dever.
Um histórico da legislação para a infância no Brasil
© 2009 by Organizadores
Irene Rizzini ........ 97
Direitos para esta edição
CORTEZ EDITORA Realização:
R. Monte Alegre, 1074 - Perdizes PARTE 2
CIESPI, e m convênio com a PUC-Rio
05014-00 1 - São Paulo - SP Pontos de partida para urna história da
Te!. (11 ) 3864 0111 Fax: (11 ) 3864 4290
assistência privada à infância no Brasil 151
email: cortez@cortezed itora .com.br
www.cortei.editora .com .br
CAPÍTULO Ili + Rostos de crianças no Brasil
I rnpresso no Brasil - março de 2011 Esther Maria de Magalhães Arantes ........... .. .. ... .............. 153
6 1ªCDRTEZ
RIZZINI • PILOTTI \15,EDITORA
7

CAPÍTULO IV ~ A criança e o ad olescente. Objetos sem valor n o


Brasil Colônia e n o Império
Eva Teresínha Silveira Faleiros ... 203

PARTE 3 Prefácio à 2ª edicão


O menor filho do estado. Pontos de '
partida para uma história da assist ê ncia
pública à infâ ncia no Brasi l. ..... 223 Irene Rizzini*
CAPÍTULO V ~ M eninos desvalidos e m en ores tran sviad os:
a trajetória d a assis tên cia pública a té a Era Vargas
É com satisfação qu e aceitamos o convite da Cortez Editora para ree-
Irnza Rizzini .......... .. ................... ......... ....... .............................................. . 225
d itar A Arte de Go7:ernar Crianças . O p rojeto do livro nasce de uma proposta
CA PÍTULO VI ~ D o Esta d o ao Estat uto . Prop ostas e v icissitudes latino-american a de promover estudos comparados sobre p olíticas sociais
d a política d e atendimento à iiúân cia e adolescência no Brasil voltad as para a infância com u m enfoque his tórico. Este era o projeto que
contemporâneo n os apresen tava Francisco Pilo tti n os prim eiros anos da década de 1990,
Arno Vogel .. .. ......... . então, Diretor d e P rojetos e Pesquisa d o Instituto Interamerican o del Nino,
287
em Montevidéu , Urugu ai . A p rop osta veio a ampliar e a enriquecer os es-
forços qu e j á empreen d íamos, n a ép oca, dedicados ao estudo d a história
d a criança na história do Brasil. -.
CO NCLUSÃO .<; A arte d e governar cria nças. Lições do p assado,
reflexões para o presente .......... ....... 323 Em A A rte de Governar Crianças m e rgu lhamos em u ma r iqu eza de fon-
tes d ocumentais n a busca de referências à infância e adolescên cia, tendo
Siglas utilizad as corno recorte aqueles/ as que eram a lvos da assistên cia pública e p rivada
331 ---·-
no B~asil. Bu scá vamos com p reender como era m vistas as crianças desde os
Referências de leis (1824-1927) .......... . mais rem o tos tempos - d esd e as crianças indígen as; as que aqui chegaram
···················· 333 de Portugal e de outros países, inclu sive em navios negreiros; as que aqui
Sob re os a utores ........ . n asceram , da con ju gaçã o de etn ias. Queríamos reportar como eram des-
341
critas, qu e preocu pações causavam, qu e problemas e soluções apontavam
os filan trop os e representantes d as mais v ariadas instituições que tinham
s u a d edicação e seu agir d irecion ados para a criança.

• Professora e pesquisadora do Departamento de Serviço Social da PUC-Rio, diretora d o CIESPI


(Centrolntem acion al de Estudos e Pesq uisas sobre a Infância) e Presidentedaredemundial de pesquisa
Child watch Inte rnational.
8 RIZZINI • PI LOTTI 9
A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS

Nossa meta era reconstruir os nexos sobre a infância a partir das infor- gratificante tarefa. Os marcos que analisamos denotam a imensa riqueza
mações que sobreviveram aos tempos. Tentamos também captar os silêncios das informações que, mesmo sofrendo os efeitos da falta de uma política de
e as lacunas. Est_a s lacunas alimentaram perguntas que permaneceram tratamento e preservação, constituem bases concretas de estudo e pontos
na obscuridade ou foram parcialmente respondidas, por exemplo: quem de partida para muitas outras análises. Sentimo-nos recompensados por
eram os familiares e amigos das crianças que se tornavam filhos do Estado? termos realizado a tarefa e pela oportunidade de revisitá-la nesta edição.
Como teriam reagido os pais daqueles/as que desapareceram atrás dos
muros dos internatos de menores ao longo dos séculos? Como viviam? Quem
eram efetivamente as crianças e os adolescentes? Praticamente inexistiam
registros sistemáticos sobre sua origem, sua cor e outros aspectos básicos
de suas vidas.
Mesmo com todas estas perguntas, acumulamos imenso material que
nos serviu de base para construir marcos históricos claros sobre a história
da assistência no Brasil. São marcos que englobam as lógicas dos discursos
e das práticas produzidas por representantes da elite intelectual e política
brasileira - aqueles que deram o tom da arte de governar as crianças ao
longo da história. Estes marcos históricos falam de raízes que fundaram o
Brasil sob o ponto de vista de sua população infantil.
A despeito do foco no passado, as análises desenvolvidas pelos autores
revelam-se atuais. Apesar do tempo transcorrido e das muitas mudanças,
percebem-se no presente, ideias e práticas cuja herança vem de muito lon-
ge. O historiador Fernand Braudel, em uma resenha sobre o famoso livro
de Caio Prado Júnior, Formação do Brasil Contemporâneo: Colônia (1945), nos
remete a este fato, quando afirma: "A matéria viva do Brasil atual é uma
sucessão de transformações. Contudo, aiI1.da não encontrou os marcos nos
quais se amalgamar de forma minimamente durável: sente-se a presença
d e uma realidade já muito antiga que até nos admira de aí achar e que não
é senão aquele passado colonial". 1
Difícil e ousado o des afio de buscar as raízes históricas da assistência
à infância, em um passado, cujos registros se encontram dispersos e por
vezes esquecidos em diversos arquivos. Em muitos sentidos, porém, foi uma

1. "Fernand Braudel resenha Caio Prado Jún ior". Apresentação de Bernardo Ricupero e Paulo
Henrique Martinez ao texto de Braudel intitulado: "No Brasil: dois livros de Caio Prado Júnior". Praga,
EstudosMarxistas,8. São Paulo: Hucitec, 1999, p. 131-137.
~C.ORTEZ
\::,EDITORA 11

Sobre la segunda edición del libro

Francisco Pilotti*

Con gran satisfacción acogemos la decisión de la Cortez Editora de


presentar una nueva ed ición de A Arte de Governar Crianças, originalmente
publicada en 1995. Esta obra fue el p rodu cto de una investigación compa-
rada sobre políticas sociales e infancia en varios países de América La tina,
coordinada por la Organización d e los Estados Americanos y financiada
p or el Ministerio d e Relaciones Exteriores de Holanda. En Brasil, el proyecto
contó conla participación de destacados investigadores bajo el liderazgo de
la Profesora Irene Rizzini, a quienes reiteram os nuestros agradecimientos
y felicitaciones por una labor académica de altísimo nível.
Resulta útil recordar aspectos del momento histórico en el que apareció
la p rim.era edición de esta obra, dado que ello puede facilitar la contextu-
alización del texto. Desde esta p erspectiva, la mención d e algunas de las
características más sobresalientes d e l contexto en el que fueron original-
mente concebidos los contenidos de A Arte de Governar Crianças hace ya más
de una década atrás, puede contribuir a una comprensión m ás profunda
d e los capítulos que conforman este lib ro. Pen samos, además, que un ejer-
cicio de esta n aturaleza estimula una lectura de los contras tes, cambios y
continuidades que enmarcan la consideració11 d e la situación social d e la
infancia a lo largo de la historia.

* Secretario Ejecutivo Adjunto para el Desarrollo Integral- Organización de los Estados Ame-
r icanos.
13
A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS
12 RIZZI NI • PILOTTI

En es te esfuerzo analítico, p ensamos que A Arte de Governar Crianças


Cuando se lanzó a principias de los noventa el proyecto que d io lugar
sigue siendo un referente fundamental para comprender la s ituación
a este libra, la preocupación por los temas de la infancia latinoamericana actual de la infancia bras ilefta, tanto por la riqueza interpretativa d e
y brasil efía se inscribía en ciertos supuestos y algunas constataciones los períodos históricos que preced en al actual, com o por su particular
empíricas, entre las que d est acan l as que se indican a continuación. En enfoque metodológico que combina el análisis histórico con una v isión
primer término, se confiaba que la reforma legis lativa actuaría como un integrada de la interrelación entre el marco jurídico, las políticas sociales,
poderoso agente de cambio social, capaz de transformar a los menores en la respuesta ins titucional desde el Estado, y las acciones emprendidas
ninos ciudadanos, particularmente a partir de la promulgación en Brasil por la sociedad civil.
del Estatuto da Criança e do Adolescente y la posterior aprobación, a nivel
internacional, d e la Con vención sobre los Derechos del Nino. En segundo
lugar~ este nuevo marco jurídico, inspirado cn gran m e dida en la doctrina
de los derechos humanos, brindaba la plataforma para impugnar y exigir
cambias al agotado y d esacreditado aparato estatal yplanteai~simultánea-
men te, nuevos abordajes basados en la activa participación de la sociedad
civil y los gobiernos locales en la protección integral de la infancia.
Casi 18 anos después, la situación de la infancia presenta avances y
retrocesos cuyo resultado n eto no es tan alentador como se preveía en esos
anos, caracterizados por la intensa actividad organizada por diversos y
variados movimientos sociales estimulados por la recuperación de espacios
de participación perdidos durante la oscuridad de los procesos autorita-
rios. Actualmente, y en el marco del fortalecimiento de la democracia en la
mayoría d e las $OCiedades latinoamericanas, se aprecian mu taciones en el
discurso con el que se aborda la problemática de nifios y ninas . Pareciera
que tiende a d esaparecer d el imagina rio colectivo el nino de la callc, icono
d e los movimientos de los anos 90, siendo reemplazado por la imagen ame-
nazante d el joven infractor. En muchos de nuesfros países la pre ocupación
por los dcrechos dei nino parece haberse sustituido por preocupaciones
por el orden público.
Estas y muchos otros cambias en la percepción de Jos problemas in-
fanto-juveniles, así como las políticas sociales formuladas y aplicadas por
losnuevos disefi.os institucionales, tales como losMinisterios d e Desarrollo
Social de redente creación , plantean d esafíos para los marcos conceptuales
que intentan analizar y comprender la cambiante dinámica de la cons-
trucción social d e la infancia en làs s ociedades latinoamericanas.
1ªCORTEZ
\;l:;,EOITORA
15

Introdução

A infância sem disfarces: uma leitura histórica

O desafio contido neste livro, d e buscar uma retrospectiva das várias


formas de a tenção dispensadas à infância no decorrer dos séculos, tem
suas razões d e ser. Há muito tem s ido a infância alvo de interesse social,
acadêmico e técnico; de d iscu ssões abalizadas e leigas, de preocupação
sincera e de jogo das elites; e, certamente alvo de ação, com viés filantrópico
e fundamentação política.
Instituições foram erg uidas para ampará-la; leis foram formuladas
par.a protegê-la; diagnósticos alarmantes demandaram novos m étodos
para a sua educação ou reedu cação; experiências de atendimento foram
implementadas, visando debelar o abandono e a criminalidade. O proble-
ma, no entanto, persiste e hoje atinge milhões de crianças. O desenrolar
dessa história, ainda muito pou co conhecida em n osso país, precisava ser
p esquisado, ordenado, interpretado e escoimado das impressões engano-
sas, que sugerem uma longa caminhada, quando, na verdade, quase não
se saiu do mesm o lugar de origem. No d ecorrer do tempo, a infância foi
tratada de diversas maneiras. As relações sociais com a familia, com a Igreja,
co1n o Estado e com outros estamentos da sociedade perpetuaram valores
morais, religiosos e cu lturais, reprodu zindo dominadores e subjugados
em seus papéis.
O foco p r incipal dessa história é a infância pobre - crianças e ado-
lescentes que permaneceram à margem da sociedade.Aqueles que não se
enquadrara m, fornecendo à sociedade, "homens de bem", afinados com
a ética capitalista do trabalho. Em n ossa h is tória, a eles se reservou a pie-
A ART E DE GOVERNAR CRIANÇAS
17
16 RI ZZINI • PILOTTI

dade e a solidariedade d e uns; a indiferen ça, a hipocrisia ou a crueldade de uma política social efetiva, capaz de proporcionar condições equitativas
de outros . de d esen volv imento para crianças e adolescentes de qualquer natureza.
Vejamos algumas d a s mãos pelas quais e les passaram ao longo dos últimos
Reconhecemos o sincero e valioso e1npenho de personagens- ilus tres
ou :incógnitos - que dedicaram s uas vidas à causa da infância. Contudo, a séculos.
história d as políticas sociais, da legislação e d a assistência (pública e priva-
da), é, em síntese, a história das várias fórmulas empregadas, no sentido de
manter as desigualdades sociais e a segregação d as classes- pobres/ servis Criança: responsabilidade de quem?
e priv ilegiadas/ dirigentes. Instrumentos-chave dessas fórmulas, em que
pesem as (boas) intenções filantrópicas, sempre foram o recolhimento / iso- Em todos os tempos e em qualquer parte do mundo, exis tiram crianças
lamento em ins tituições fechadas, e a educação / reeducação p elo e para o desvalidas - sem valor para e sem proteção d e alguém - órfãs, abandona-
trabalho, com vistas à exploração da m ão-de-obra desqualificada, porém das, negligenciadas, maltratadas e delinquentes. A quem caberia a respon-
gratuita. sabilidade de assisti-las é uma questão que tem acompanhado os séculos,
Assim, o "problema da infância", claramente diagnosticado há pelo compondo uma intrincada rede d e assistência provida por setores públicos
menos 100 anos corno um "problem a gravíssimo", e, inv ariavelm.ente as- e privados da sociedade. No Brasil, a his tória mostra que foram muitas as
sociado à pobreza, 1 em momento a lgum foi enfrentado com uma proposta mãos por que passaram tais crianças.A retrospectiva dessa história contém,
séria e politicamente viável de dis tribuição d e renda, educação e saúde. certamente, valiosos ensinamentos para o presente ...
Dificihnente, no passado ou no presente, a dinâmica d o sistema ca-
pitalis ta ensejaria simultaneidade entre crescimento, repartição da renda
e ju stiça social. O que parece também verdadeiro p ar a o futuro, por mais Nas mãos dos jesuitas: evangelizar
transformadoras que se pretendam as novas relações do mundo atual.
A manutenção das d esigualdades sociais tem um forte êmulo propulsor No p eríodo colonial, a assistência à infância no Bras il seguia detenni-
p a ra o sistema econômico capitalis ta, que, mantido, gera inevitavelmente nações de Portugal, aplicadas por meio da burocracia, dos representantes
uma contraface socialmente injusta. A essência d o problem a está em que, da Corte e da Igreja Ca tólica. Igreja e Estado andavam juntos. O Evangelho,
intrínseco a este mecanismo da economia, n ão estão contidos os valores da a esp a d a e a cultura europeia estavam lado a lado no processo d e coloni-
justiça e da ética, e sim categorias bastante dis tintas, de eficácia, eficiência, zação e catequização implantado no Bras il. Ao cuidar d as crian ças índias,
produtivida de e res ultados. os jesuítas visavam tirá-las do p aganismo e discipliná-las, inculcando-lhes
No que se refere ao caso específico d as políticas dirigidas à infância, normas e costumes cristãos, como o casam ento monogâmico, a confissão
prevaleceu, no Brasil até o presente, a "necessidade" de controle da popula- dos pecados, o medo do inferno.
ção pobre, vista como "perigosa". Manteve-se, pois, o abismo infranqueáv el Com isso o s "soldados de Cris to", como er am tamb ém ch amados os
entre infâncias privilegiadas e m en ores marginalizados . Impuseram-se padres d a Companhia de Jesu s, perseguiam um duplo objetivo esh·a tégico.
reiteradamente propos tas assistenciais, destinadas a compen sar a ausência Con vertiam as crianças am eríndias em futu.r os súditos dóceis do Estado
português e, ah·avés d elas, exerciam influên cia decisiva na conversão d os
1. Este ponto será fundamentado nos capítulos que se seguem. adultos às estruturas sociais e culturais recém importadas.
18
RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 19

Para alcançar essa finalid a de, desen volveu-se, no i nterior das redu- Nas mãos das Câmaras Municipais e da Santa Casa de Misericórdia: as
ções jesuíticas, um complexo e bem estruturado sistema educacional, cuja crianças expostas
m issão era submeter a infân cia amerúi.d ia a uma interven ção, moldando-a
de acordo com os padrões d e seus tu tores.
Desde 1521, por ordem de D. Manuel, coube às Câmaras Municipais
Convém lembrar, a propósito, que a resistência à catequese era ca pitu- cuidar das crianças abandon adas, podendo, para tan to, criar i.J.npostos. Mui-
lada na lei portugu esa como motivo suficiente p ara o u so da força, median te tas vezes, os vereadores, represen tantes das elites, p ertenciam à irmandade
declaração de"guerra justa".
da Misericórdia e n em sempre con seguiam h armonizar a açã.o política da
Câm ara com a da Santa Casa, no tocante às d ecisões q uanto aos custos de
manu tenção d esta forma d e assistência.
Nas mãos dos senhores: as criancas escravas
J
Segundo a moral cristã dominan te, os filhos n ascidos for a do casamen-
to não eram aceitos e, com frequên cia, estavam fadados ao aban dono. A
Por d isputas de poder na Corte de Portugal, os padres p erderam seu
pobreza também levava ao abandono de crianças, que eram deixa das em
poder político e material n as missões indígenas, por iniciativa do Mar-
locais públicos, como nos átrios das igrejas e n as portas das casas. Muitas
qu ês d e Pombal, M inistro do Rei, em 1755. Os jesu ítas foram exp ulsos e a
eram devoradas por animais. Essa s ituação chegou a preocupar as autori-
escravização dos índios proibida. A exploração pelos colon os, no entanto,
dad es e levou o Vice-Rei a p ropor duas medidas n o ano d e 1726: esmolas
continuou. Os colonosimplantaran1 o povoamento, p rincipalmen tena zona
costeira, visan do extrair e exportar riquezas naturais, como madeira, ouro e o recolhimento dos expostos em asilos.
ou cultivar p rodutos de expor tação, como a cana-d e-açúcar e, mais tarde, Foi assim qu e a Santa Casa d e M isericórdia implantou o s is tem a d a
o café. Para este fim, foi abundantemente u tilizada a mão-d e-obra escrava Rod a no Br asil, um cilindro giratório n a parede qu e permitia que a criança
proveniente da África. fosse colocada da rua para dentro d o estab elecimen to, sem que se pudesse
O escravo era elemen to importante para a econ omia da época. Era id entificar qualquer p essoa. O objetivo era escond er a origem da criança e
mais interessante, financeiramen te, para os donos das terras importar u m preservar a honra das famílias. Tais crianças eram denominadas d e enjei-
escravo que criar e manter uma crian ça, pois com u m ano de trabalho, o tadas ou expos tas.
escrav o pagava seu p reço d e compra. As crian ças escravas morriam com A primeira Roda foi criada na Bahia, em 1726, com recursos provenien-
facilidade, devido às condições precárias em qu e v iv iam seus pais e, sobre- tes de doações de alguns n obres, por autorização do Rei e consentimen to
ludo, porque su as mães eram alugadas como amas-de-lei te e amamentavam dos dirigentes da Santa Casa. No an o d e 1738, foi criada a Roda d o Rio de
várias outras crianças. Janeiro e, em seguid a, em diversas ou tras localidades .
M esmo depois da Lei do Ventre Livre, em 1871, a criança escrava conti- As crianças enjeitadas nas Rodas eram alimentadas por amas-de-leite
nuou nas m ãos dos senhores, que tinh am a opção de mantê-la até os 14 anos, a lugadas e também entregu es a famílias, m ediante p equ en as pensões. Em
p odendo,então,ressarcir-sedosseusgastoscom ela,sejamedianteoseu traba- geral, a assis tência prestada p ela Casa dos Expostos p erdur ava em tomo de
lho gratuito até os 21, seja entregando-a ao Estado, m ediante indenização. sete anos. A partir dai, a criança ficava, como qualquer outro órfão, à m ercê
Vale registrar que o abandono de crianças, escravas ou n ão, era uma da d eterminação d o Juiz, que decidia sobre seu destino de acord o com os
prática bastante frequente até meados d o século XIX, mesmo nos países interesses d e quem o quisesse man ter. Era comum que fossem utilizadas
considerados" civilizados". para o trabalho d esd e pequ enas.
20 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 21

Na Casa dos Expostos, a mortalidade era bastante elevada, tendo atingi- Ao longo dos anos, várias vozes se levanta ram contra o regime vigente
do a faixa dos 70% nos anos d e 1852 e 1853 no Rio de Janeiro (Teixeira, 1888), nestas ins tituições, principalm ente nas escolas oficiais. O regime de caserna,
devido à falta de condições adequadas de higien e, alimentação e cuidados com grandes dormitórios coletivos e tratamento imp essoal, contraxiava a
em geral. Consta que a Roda do Rio de Janeiro funcionou a té 1935 e a de São convicção corrente, desde as primeiras d écadas do século XX, das vantagens
Paulo até 1948, apesar de terem sido abolidas formalmente em 1927. do sistema familiar na educação d e crianças. Contudo, somente a par tir dos
anos 80, o sistema d e interna to destinado à infân cia pobre foi efetivamente
ques tionado, por comprometer o desenv olvimento da criança e do adoles-
cente, e por constituir-se enquanto p rática disp endiosa, ineficaz e injusta,
Nas mãos dos asilos
produzindo o chamado "m enor insti tucionalizado" -jovens estigmati-
zados, que apresentam grande d ificuldade de inserção social após anos de
O asilo d e órfãos, abandonados ou desvalidos, isto é, daqueles que
condicionam ento à v ida institu cional. Em contraposição, a internação de
estivessem "soltos", fugindo ao controle das famílias e ameaçando a
crianças ricas em colégios internos era, h á tempos, uma prática rejeitada
"ordem p ública", tornou-se uma prática corrente no século XIX, quando
pela sociedad e, levando à extinção da maioria d essas instituições, muitos
teve impulso a ideia de propiciar educação industrial aos meninos e edu -
antes d e se d efender a m esm a destinação aos internatos dos pobres.
cação doméstica às men inas, preparando-os(as) para ocupar o seu lugar
na sociedade. As ins tituições, em s ua maioria, eram m antidas por ordens
religiosas, auxiliadas por donativos e por vezes, pelos poderes públicos.
Esta tendência manteve-se no século XX, quando foram criadas inúmeras Nas mãos dos higienistas e dos filantropos
instituições do gênero.
A antiga prática de recolher crianças em asilos propiciou a constitui- Os higienistas, em geral médicos, preocupados com a alta mortalidade
ção d e uma cultura institucional proftmdamente enraizad a nas formas de infantil nas cidades brasileiras, tinham como proposta intervir n o m eio am-
"assistência ao menor" propos tas no Brasit perdurando até a atualidade. biente, nas condições higiênicas d as instituições que abrigavam crianças, e
O recolhimen to, ou a in stitucionalização, pressupõe, em primeiro lugar, a nas famílias. Em meados da me tade do século XIX, surgiu a Puericultu ra,
!:,egregação do meio social a que p ertence o "menor"; o confinamento e a esp ecialidade médica destinada a formalizar os cuidados adequ ados à
contenção espacial; o controle do temp o; a submissão à a utoridade - for- infância. Estabeleceu-se, no meio m édico, um debate sob re a melhor forma
mas d e disciplinamento do interno, sob o manto da preven ção de desvios de se cuidar d os expostos, o qu e efetivam ente determinou uma melhoria
ou d a reeducação d os d egen er ados. Na medida em que os m é todos de nas condições de higiene na Casa dos Expostos. A obediência à "lei de
a tendimento foram sendo aperfeiçoados, as instituições ado tavam n ovas higiene" (Autran, 1904, p. 93t ou seja, aos preceitos higiênicos, tornou -se
denominações, abandon ando o tenno asilo, representante de p rá ticas uma necessidade incontestável no século XX, consolidando a importância
antiquadas, e substituindo-o por outros, com o escola d e preser vação, pre- do p apel do médico nas instituições.
m onitória, indu stria l ou de reform a, educan dário, instituto ... Foram várias as iniciativas d os h igienis tas, tais como a criação d os
Sendo a ins tituição voltada p ara a prevenção ou p a ra a regeneração, Institutos de Proteção e Assistência à Infân cia, o primeiro deles fund ado no
a m.eta era a m esma: incutir o "sentimento d e amor ao trabalho" e uma Rio de Janeiropelo Dr. Moncor vo Filho, em 1901; a cria ção de dispensários
"conveniente educação moral", como aparece no regulamento do Abrigo e ambulatórios, com serviços de consulta 1nédica às crianças pobres," gotas
d e Menores, d e 1924. de leite", palestras para as m ã.es, entre o utros.
22 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 23

Os higienistas estavam. identificados com o movimento filantrópico, A proposta de criação de tribunais para menores irradiou-se por todas
que travava um embate co1n os representantes da ação caritativa, n as pri- as partes, ao longo deste século. Se por um lado, os menores foram benefi-
meiras décadas do século. A filantropia distinguia-se da caridade, pelos ciados com a instaur ação de processos afinados a uma legislação especial,
seus métodos, considerados científicos, por esperar resultados concretos por outro, a d elinquência juvenil resistiu como um desafio de difícil solução
e imediatos, como o bom encaminhamento dos d esviantes à vida social, até o presente. A despeito dos avanços obtidos com o Estatuto da Criança
tornando-os cidadãos úteis e independentes da caridade alheia. A noção de
e do Adolescente, no sentido de garantir 1neios de defesa p a ra aqueles que
prevenção do desvio e recuperação dos degenerados entranhou de tal forma
cometessem infrações penais, na prática poucas opções existem e a privação
na assistência, que nas d écadas seguintes, filantropia e caridade tornaram-se
de liberdade persiste como medida amplamente utilizada, apesar de todas
sinônimos. O conflito foi superado por uma acomodação das disparidades,
as recomendações em contrário .
pois ambas tinham o mesmo objetivo: a preservação da ordem social.

Nas mãos dos tribunais: reformatórios e casas de correção Nas mãos da polícia: defesa nacional

A prática do recolhimento de m.enores desenvolveu-se associada à


Na passagem do século XIX para o XX, juristas defendiam em congres-
sos internacionais, a ideia de um "novo direito", com participação ativa polícia, graças ao acordo entre autoridades do Juízo de Menores e esta
da Europa, Estados Unidos e América Latina. Falava-se numa justiça mais · última. Foram criadas, neste sentido, delegacias especiais para abrigar
humana, que relevasse a reeducação, em detrimento da punição. As novas menores que aguardavam encaminhamento ao Juiz. Inúmeras irregula-
ideias foram logo transpostas para o caso dos menores, em parte por que, em ridades foram sistematicamente denunciadas nestes estabelecim.entos,
termos penais, as fases da infância e da juventude chamavam a atenção (o onde predominavam os vícios da corporação policial, sendo os "menores"
aumento da criminalidade entre menores era fato documentado, na época, tratados com violên cia como em qualquer outra delegacia.
em diversos países); e, eni. parte porque, sob o ponto de vista da medicina Esta função policial de "limpeza" das r u as, retirando elementos consi-
e, mais tarde, da psicologia, vislumbravain-se novas possibilidades de derados indesejáveis, persistiu ao longo dos anos e só veio a ser questionada
formação do homem, a partir da criança. Na década de 1920, consolidou-se recentemente, com o a dvento da nova legislação, na década de 1980.
a fórmula Justiça e Assistência para os menores viciosos e delinquentes.
Estes eram obje tos de vigilância por parte do Juízo de Menores e da Polícia,
clas sificados de acordo com sua origem e história familiar e normalmente
encaminhados para as casas de correção ou as colônias correcionais, onde Nas mãos dos patrões: a criança trabalhadora
deveriam permanecer em seção separada dos adultos, resolução nem sem-
pre obedecida. Tal fato causava indignação entre os defensores da reeduca- A partir de meados do século XIX, houve grande demanda de força
ção dos menores, que propunham a criação de instituições especiais para de trabalho nas fábricas, sobretudo as de tecidos. Mulheres e crianças fo-
esta população, v isando reeducá-la através da formação profissional - as ram, então, incorporadas, recebendo salários baixíssimos. Menores eram
chamadas escolas de reforma, que começaram a ser criadas neste período, recrutados em asilos e cumpriam carga horária semelhante a dos adultos.
por determinação do Código de Menores. Outros trabalhavam para complementar a renda familiar..
24 RIZZI NI • PILOTTI
A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 25

Os patrões jus tificavam a exploração do trabalho infantil alegando que O mito criado em torno da família das classes empobrecidas serviu
retiravam os menores da ociosidade e das ruas, dando-lhes uma ocupação de justificativa para a violenta intervenção do Estado neste século. Com
útil. For am, pois, conh·a o Código de Menores de 1927, que não autorizava o consentimento das elites políticas da época, juristas delegaram a si pró-
o trabalho antes dos 12 anos. prios o poder de suspender, retirar e restituir o Pátrio Poder, sempre que
Nos anos 1930, o governo implantou escolas de en sino profissiona- julgassem uma família inadequada para uma criança .
lizante; o sistema nacional de aprendizagem industrial e comercial ficou, A primeira tentativa do governo em regulamentar a "assistência e
contudo, nas mãos dos empresários, a través do SENAI e do SENAC, criados proteção aos menores abandonados e delinquentes", no início da década
no início da década de 1940 . de 1920, legitimou a intervenção do Estado na família, não só através da
A questão do trabalho permaneceu controvertida ao longo do tempo. suspensão do Pátrio Poder, mas também pela apreensão dos menores ditos
Jamais se cumpriu o que era estabelecido por lei. A pesar disso, o tema divide abandonados, mesmo contra a vontade dos pais. Talmedidafoi consequên-
opiniões,na medida em que parte da população infantil não pode deixar de cia da percepção que certos setores da sociedade tinham das famílias pobres.
trabalhar, pois seus ganhos compõem o o r çamento familiar. As estatísticas Por isso, na lei, as situações definidas como de abandono, tais como: não
oficiais indicam que há pelo menos sete milhões de trabalhadores entre 1 Oe ter habitação certa; não contar com m eios de subsistência; estar empregado
17 anos éomo parte da população economicamente ativa (IBGE, 1992). Não em ocupações proibidas ou contrárias à moral e aos bons costumes; vagar
é conhecido o contingente dos que trabalham no chamado setor informal, pelas ruas ou mendigar etc., só se aplicavam aos pobres.
numa média de 8 a 10 horas por dia. Estima-se, porém, que este número seja Na era Vargas, a família e a criança das classes trabalhadoras passaram
bem superior àquele referente aos menores empregados no setor formal. a ser alvo de inúmeras ações do governo, inaugurando uma política de
proteção materno-infantil. Num período em que um contingente significa-
tivo de mulheres começou a se lançar no m ercado de trabalho, provocando
Nas mãos da família ... mudanças na estrutura e dinâmica familiares, Estado e sociedade se uniram
para manter a estabilidade da família e garantir a adequada educação da
criança, de acordo com a concepção de cidadania da época, isto é, a forma-
Na história aqui retratada, a família aparece como aquela que não é
ção do trabalhador como "capital humano" do país, através do preparo
capaz de cuidar de seus filhos. As mães eram normalmente denegridas
profissional e o respeito à hierarquia pela edu cação moral.
como prostitutas e os pais como alcoólatras - ambos viciosos, avessos
ao trab alho, incapazes de exercer boa influência (moral) sobre os filhos e,
portanto, culpados pelos problemas dos filhos (os "menores").
Surpreende o fato de que, salvo raríssimas exceções, não são documen- Nas mãos do Estado: clientelismo
tados os incontáveis casos de famílias que, apesar da imagem (certamente
introjetada por elas, em algum nível) e de todos os demais obstáculos en- Até a criação do Serviço de Assistência a Menores (SAM), em 1941, não
contrados, conseguiram criar seus filhos na pobreza. E, no entanto, sabe-se havia no país um órgão federal responsável pelo controle da assistência,
por observação e pelo senso comum, que a circulação de crianças entre oficial e privada, em escala nacional. O SAM manteve o modelo utilizado,
famílias das classes socialmente menos favorecidas é bastante frequente desde a década de 1920, pelos Juízos de Men ores, atendendo os "menores
- os chamados "filhos de criação". abandonados" e" desvalidos", através do encaminhamento às poucas ins-
26 RIZZINI • PILOTTI 27
A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS

tituições oficiais existentes e às instituições particulares, que estabeleciam transformar-se em presa fácil do comunismo e das drogas, associados no
convênios com o governo. Aos "delinquentes", só restavam as escolas pú- empreendiment o de desmoralização e submissão nacional.
blicas d e reforma, as colônias correcionais e os presídios, já que a iniciativa A política adotada, neste sentido, privilegiou, a exemplo do que acon-
privada não dispunha de alternativas para o seu atendimento. teceu em quase todos os setores, o controle autoritário e centralizado, tanto
A partir das primeiras tentativas do Estado em. organizar a assistência n a formulação, quanto na implementação d a assistência à infân cia, leia-se,
à infância, na década de 1920, houve um estreitamento da relação entre os aos "menores" enquanto problema social.
setores público e privado. O modelo de assistência daí originado persistiu Desse ponto de vista, a "questão do menor" interessava à segurança
ao longo do tempo. Contudo, a trajetória dessa relação é repleta de "estó- nacional, não só pela eventual canalização do potencial do" sentimento de
rias mal contadas" de abusos, corrupção e clientelismo. Recursos foram revolta" dessa juventude "marginalizada" pelos movimentos de contesta-
distribuídos sem fiscalização rigorosa, obedecendo a critérios escusos, ção do regime, mas, também, tendo em vista os efeitos da dilapidação do
determinados por poderes políticos; verbas foram desviadas através de seu potencial produtivo para o processo de desenvolvimento.
obras sociais fantasmas, nunca ch egando a beneficiar as crianças. Interessava, ainda, por causa das famílias marginalizadas e marginali-
Um exemplo dessa relação clientelista foi d ado por um ex-diretor do zantes das quais essas crianças e adolescentes eram o produto socialmente
SAM, Paulo Nogueira Filho, quando denunciou o fato de estabelecimentos mais v isível, mais deletério e mais incômodo, para o modelo de crescimento
II
n ão voltados para a internação de autênticos desvalidos" receberem auxí- adotado pelos governos militares. A infância "material ou rnoralmente
lios do SAM, no ano de 1956-eram mais de 20 seminários e 50 ginásios (p. abandonada" transformou-se, desse modo, em motivo e canal legítimos
251). Além do que, existiam educandários contratados que a tendiam falsosII
de intervenção do Estado no seio e no meio das famílias pobres.
desvalidos", crianças de famílias com recursos, que através do "pistolão" Invocando sempre o primado da prevenção e reintegração social, no
ou de outras formas de corrupção, internavam seus filhos diretamente nos ambiente familiar e/ ou n a comunidade, FONABEM e PNBEM favorece-
melhores educandários. ram, no entan.to, a internação, em larga escala e no país inteiro (através das
FEBENS e de entidades privadas de assistência), desses "irregulares" do
desenvolvimento com segurança n acional.
Nas mãos das Forças Armadas: segurança nacional Juntas, como irmãs siamesas, 1nantiveram e aprimoraram o modelo
carcerário e repressivo, cuja trajetória ascendente, até o inicio da década
De 1964 em diante, a questão da assistência à infância passou, como passada, começava a estagnar logo em seguida, entrando em processo
tantas outras coisas, para a esfera de competência do governo militar. Es te de crise e dissolução, quando os militares cederam lugar aos primeiros
via na questão social e, no seio desta, na questão do menor, um problema governos democráticos.
de segurança nacional, julgando-o, portanto, objeto legítimo de sua inter-
venção e n orm alização.
Com esse objetivo, criou a Fundação Nacional do Bem-Estar do Me- Nas mãos dos Juízes de Menores: o menor em situação irregular
nor (FUNABEM) e a Política Nacional do Bem-Estar do Menor (PNBEM),
às quais coube comandar todas as ações neste terreno. Sua missão era Depois de várias décadas de debate, formulação de dezenas de ante-
velar para que a massa crescente de "menores abandonados 1' não viesse a projetos e movimentação do meio jurídico com o objetivo de fazer aprovar
28 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 29

uma revisão do Código de Menores de 1927, este foi em 1979, finalmente órgãos de governo, desencadeou o processo de reivindicação dos direitos
substituído. O Novo Código de Menores veio a consagrar a noção do" menor de cidadania para crianças e adolescentes.
em situação irregular", a visão do problern.a da criança marginalizada como
Esse movimento conseguiu inscrever sua proposta na Constituição
uma "patologia social". Caberia ao Juiz de Menores intervir na suposta
de 1988, sob a forma do artigo 227, que manda assegurar, com absoluta
irregularidade, que englobava desde a privação de condições essenciais à
prioridade, os direitos de crianças e adolescentes, incumbindo desse dever
subsis tência e omissão dos pais, até a autoria de infração penal.
a família, a sociedade e o Estado, aos quais cabe, igualmente, protegê-las
A concentração de praticamente todo o poder de decisão sobre os contra qualquer forma de abuso.
destinos dos menores (irregulares) nas mãos dos juízes teve vida curta, por
De tudo isso resultou o Estatuto da Criança e do Adolescente e, com
ter se concretizado já no final do governo militar. As formas não garantidas ele, supostamente, um novo paradigma jurídic_o, político e-administrativo,
dos diTeitos (sobretudo de defesa) do indivíduo, consideradas arbitrárias
destinado à resolução da problemática da infância e da juventude no Brasil,
e inaceitáveis fora de um regime ditatorial, não sobreviveram à abertura
nos termos de uma sociedade democrática e participativa.
política dos anos 1980.
O atendimento a crianças e adolescentes é considerado parte integran-
te das políticas sociais. Deve ser proporcionado no seio da comunidade e
em consonância com esta. A formulação de políticas específicas caberá,
Nas mãos da sociedade civil: crianças e adolescentes sujeitos de doravante, aos Conselhos Municipais de Direitos da Criança e do Ado-
direitos lescente, órgãos deliberativos e paritários entre governo e sociedade civil.
A primeira instância do atendimento propriamente dito será constituída
Um novo quadro se esboçou na década de 1980. A noção de irregu- por Conselhos Tutelares, órgãos permanentes, autônomos e não jurisdi-
laridade começou a ser duramente questionada na medida em que as cionais, com membros eleitos por cidadãos no plano local, e encarregados
informações sobre a problemática da infância e da adolescência passaram de fiscalizar e implementar o cumprimento dos direitos das crianças e dos
a se produzir e a circular com maior intensidade. As estatísticas sociais adolescentes.
retratavam uma realidade alarmante. Parcelas expressivas da população Desse modo, a responsabilidade pela questão da infância e adolescên-
infanta-juvenil pertenciam a famílias pobres ou miseráveis. Eram cerca de cia foi descentralizada e transferida para a sociedade civil. Os objetivos dessa
30 milhões de" abandonados" ou "marginalizados",contradizendo a falácia estratégia eram os mais ambiciosos, como ressaltam os tennos "mutação
da proporção minoritária dessa população. Como poderia se encontnu em social", "mutação jurídica", "mutação judicial" e "mutação municipal",
"situação irregular" simplesmente metade da população de O a 17 anos? com que a implementação do estatuto foi saudada por alguns dos seus
Diante desse quadro e graças às possibilidades de organização e par- mais notáveis propugnadores.
ticipação populares na luta pela garantia de direitos, novos atores políticos Como sempre, no entanto, a realidade tem se revelado infinitamente
entraram em cena. Em pouco tempo surgiu um amplo movimento social mais modesta. Os organismos governamentais centralizados de atendi-
em favor das crianças e adolescentes em situação de pobreza e marginali- mento em larga escala, que deveriam ser extintos, continuaram a levar uma
dade social. Essa frente, integrada sobretudo pelas ONGs (organizações existência obscura, mas a inda ativa, dentro do novo contexto.
não-governamentais), acrescida de demais grupos, denominados como Os Conselhos de Direitos, nos seus diversos níveis-nacional, estadual
sociedade civil, com apoio da Igreja e dos quadros progl'essistas dos e municipal - demoraram a ser implementados, e onde foram criados e
~CORTEZ
\,l::,EDITORA 31
30 RIZZINI • PILOTTI

conseguiram con solidar-se, enfrentam inúmeros dilemas e d ificuldades


de funcionam en to, entre os quais, os que r esultam da falta de exp eriên cia,
capaci tação e fundos.
Da mesma forma, os Conselhos Tutelares tiveram de enfrentar múl-
tiplos e consideráveis obstáculos no seu processo de institucionalização,
entre e les, a deficiência de "retaguarda" (ins tituições de a tendimento
direto), a relutância do poder público municipal, b em como dos órgãos de
a tendimento, públicos ou p rivados, emaceitar os n ovos princíp ios, as novas
formas de gestão e, sobretudo, sua fiscalização pelos Con selhos.
PARTE 1
Têm ainda su scitado a oposição dos setores tradicionais da beneficência
os quais rejeita, invocando o discu rso da cidadania, como" assistencialistas".
Adiciona lmente, têm sido d esqualificados conw interlocutores pelo poder
público municipal, o m es1no acontecendo, por p arte da p opulação, entre a
qual o conh.ecimen to e a aceitação do Estatuto d a C rian ça e do Adolescente Bases da arte
. de
está longe de ser uma unanirnidade.
Sua prin cip al v irtude - a de permitir o s urgimento e a resolução de
governar cnanças
conflitos- esbarra na precariedade d e su a infraestrutura, tanto como sua
dificuldade de reconhecer e aceitar difer enças, inerentes a todos os espaços
d emocrá ticos.
Cabe, então, p erg untar em mãos de quem se encontram a criança e o
adolescente, postos aos cuidados da sociedade civil, no momento em que
as mega inicia tivas do Estado se retraíram, minguando visivelmente, sem
que a iniciativa local tenha conseguido p reench er satisfatoriamente o vazio
por elas deixado?
A equipe responsável por este estudo, longe de apresentar mais uma
análise pessim ista d a situação d o país, quer, ao contrário, revelar os disfar-
ces, distorções e mitos, que se criaram em torno da infân cia-problema, con-
tribuindo para que novas propostas e políticas, condizentes com possíveis
e distintas persp ectivas, possam surgir e florescer em nossa sociedade.
~C.ORTEZ
~EDITORA 33

Capitulo 1

Infância e processo político no Brasil

Vicente de Paula Faleiros 1'

Perspectivas de análise

Neste texto vamos privilegiar o ângulo de análise das relações políticas,


colocando a questão da infância e da adolescência dos pobres no bojo da
discu ssão dos agentes formuladores de política, detentores de poder.
Em decorrência da perspectiva adotada, profundamente dinâmica e
relacional, as dimensões particulares para aprofm,darn_ento da questão le -
vam em conta a relação Estado/ sociedade como um processo de articulação
e confronto do econômico e do político, do privado e do público, do poder
clientelista/ autoritário e do movimento pelos direitos de cidadania nas
relações de h egemonia que foram se consh·uindo de acordo com os blocos
no poder. Estas dimen sões perpassam a análise de todas as conjunturas
referidas neste trabalho e são destacadas a partir da proposta de diferentes
atores sociais em diferentes momentos históricos. É na proposição e con-
fronto de propostas desses agentes que em ergem as estratégias de ação,
que se evidenciam as dimensões aqui referidas, colocando o pleito entre
trabalho e educação, público e privado, domínio sobre a criança e direito
da criança.

•-u niversidad e Católica de Brasília (UCB) e Universidade de Brasília (UnB) .


34 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 35

Destacamos três eixos de análise: política d e inserção dos pobres no v isa a garantia d os direitos d a crian ça e adolescente, m as não h egemônica
trabalho precoce e s ubalterno, a relação entre causa pública e coisa privada em todos os setores d o governo. O setor privado busca se aliar a grupos e
e relação entre repressão, filantropia e cidada1úa. setores da área pública p a ra garantir verbas e cargos bem como proteção do
A estratégia d e en caminhamento da crian ça pobre p a ra o trabalho Estado p ara seus ser viços, em troca, muitas vezes, de favores pessoais aos
articula o econômico com o político, referind o-se ao processo d e valori- ocupantes de postos públicos ou de apoio eleitoral/ele itoreiro. A "causa
zação / desvalorização da criança enquanto mão-de-obra, como se a d esi- da infância" foi objeto de d iscurso e de ação d e inúmeros atores públicos
gualdade social fosse natural. Nessa ó tica, aos pobres e dominados caberia que tinham causas privadas e de atores privados que se emp enhavam e se
trab alhar, aos ricos e dominantes caberia dirigir a sociedade. Os discurs os embrenhavam n a esfer a estatal n a defesa de seus interesses privados. Houve
e as prá ticas referentes às políticas para a infância dis tinguem o s desvalidos também os que defenderam o espaço público, o direito da criança.
dos validos tanto econôrnica como sócio-politicam ente. Os primeiros são A relação entre filantropia e cidadania se evidencia também na dinâ-
desvalorizados enquanto força de trabalho cuja sobrevivên cia e preparação mica entre a esfera domés tica e esfera pública. Na primeira predominava
escolar ou profissional d eve esta r ao nível da subsis tência, validando-se, o pá trio pod er, hoje chamado no novo Código Civil d e poder familiar. Esta
contraditoriamente, o projeto de direção d a socied ade, de vida intelectual esfera d e poder tem sofrido interferências do Es ta do para garantir a proteção
que aos segundos caberia. As condições mínimas de tra balh o p ara as da crian ça contra os abusos de seus próprios pais, ao m.esmo tempo em que
crianças e adolescentes pobres parecem m áximas aos olhos dos senhores se busca manter a familia como símbolo e controle da vida social. A inter-
e dos dirigentes d as fábricas. Se, por um lado, fala-se em proteção à crian- ferência do Estado na d esprivatização da esfera dom éstica é um processo
ça, em trabalho perigoso, e promulgam-se certas leis de impedimento de complexo de con s trução de uma infância concebida como independente e
d eterminados trabalhos, p or outro, a prática é de ignorar a lei, de manter e autônoma do poder dos pais. N em sempre a criança foi reconhecida como
encaminh.a r as crianças desvalidas ao trabalho precoce e futuro subalterno, indivíduo independen te da esfera doméstica.
numa clara política d e separação de classes ou d e exclusão de vastos grupos A cidadania da criança e do adolescente foi incorporada na agenda
sociais do exercício da cida dania. dos atores políticos e n os discursos oficiais muito recentem ente, em função
A filantropização d o atendimento à criança eviden cia uma relação da luta dos movimentos s ociais no b ojo da elaboração da Constituição de
s imbiótica público/privado, articulada à questão do patrimonia lismo do 1988. Na cultura e estratégias de poder predominantes, a questão da infância
Esta d o brasileiro (Faoro, 1993, p. 29), s ignifican do a apropriação d e um n ão se tem colocado na perspectiva d e uma sociedade e de um Estado de
b em público de forma privada , colocando-se o setor p úblico a serviço de direitos, mas n a p erspectiva do autoritarismo/ clientelis mo, combinando
interesses priv ados, com o fav orecimento d e verbas, cargos e privilégios benefícios com repressão, con cessões limitadas, pessoais e a rbitrárias, com
em benefício privado . Ao m esmo tempo os a tores ocupantes de postos disciplinamento, manutenção d a ordem, ao sabor das correlações de forças
públicos buscam favores, legitimação e consen so em torno d e seu s nomes sociais ao nível da sociedade do governo. As polêmicas relativas às políticas
junto aos setores priv ados. para a infância d emonstram esse conflito d e v isões e d e estratégias, por
As p olíticas para a infância têm implica do uma interação entre as exemplo, a que se refere à divergência entre os que priv ilegiam a punição
ins tituições, estatais e privadas, públicas ou n ão, com troca de recursos, e os gue privilegiam o diálogo, a negociação, as medidas educativas.
pessoas e serviços d e umas para outras, n e m sempre com transparên cia e A relação enh·e ordem e cidadania se expressa n a articulação d e polí-
r igor, e con stantemente n a ótica do u so da m áquina do Estado para interes- ticas para os perigosos, nas políticas repressivas, seja com ênfase na tutela
ses e patrimônios particulares. A esta con cepção se con trapõe aquela que p essoal d a criança seja com ên fase n a ordem geral a ser preser vada, seja
36 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 37

na consideração da criança como menor ou incapaz, seja na defesa da raça agroexportadora, em mãos do capital estrangeiro. Apesar do predomínio
e da sociedade. A política da menorização também oscila entre o pólo as- da agricultura, a urbanização se acentua. A industrialização se inicia, com
sistencial (abrigos, asilos, albergues) e o polo jurídico (prisões, patronatos, migração para as cidades . Em 1920 havia 1.189.357 pessoas ocupadas na
casas correcionais, centros de internamento) articulada a um processo de indústria de transformação contra 195.599 em 1900 (Baer, 1979, p. 376).
institucionalização como forma de controle social. A burguesia industrial, por sua vez, também se opõe à legislação so-
Uma política voltada para a cidadania implica outra relação com o cial, alegando a liberdade de contrat o e a harmonia social, como manifesta
Estado, baseada no direito e na participação, combina a autonomia da crian- Diogo Pupo Nogueira representante das organizações patronais de São
ça, com a solidarieda de social e o dever do Estado em propiciar e defender Paulo: "as leis sociais têm o car áter d e ousada e inábil enxertia e elas são o
seus direitos como cidadã. verdadeiro nascedouro de lutas de classe que se agravam à proporção que
A periodização do est udo e da pes quisa levará em consideração as as leis se avolumam" (1936, p. 3).
diferentes conjunturas políticas do período republicano de acordo com as Para se analisar as políticas de proteção à in fân cia em. conformidade
mudanças no poder do Estado e com as relações entre as forças que fmjaram com os atores situados no próprio b loco d e poder é n ecessário partir da
as políticas para a infância no Brasil. questão por eles mesmos colocada: esta política, de fato, existiu? Homens
influ entes e ligados ao governo, como Manuel Vitorino (1981, p . 381) afir-
mam em 1902: "não h á uma só lei ou instituição qu e proteja a primeira
infância no Brasil".
As políticas para a infância na República Velha
O mesmo autor considera as Rodas d e Expostos como urna afronta às
leis sociais e humanas e co1no uma forma de "perpetuação de u m matadouro
Nosso pressuposto é de que omissão, repressão e paternalismo são as
de inocentes, sob o pretexto de velar a desonra e amparar a miséria e acrescenta:
dimensões qu e caracterizam a política para a infância pobre n a conjuntura
"é extraordinária e aterradora em geral a mortalidade dos expostos"( ... )
da Proclamação da República, decorrentes n ão só da visão liberal, mas da
"a Roda é frequentemente uma tortura d e conden ados que rompe os laços
correlação de forças com hegemonia do bloco oligárquico/ exportador.
do afeto". Mais adiante, no mesmo artigo de 1902, insiste em combater a
A República representa, ao mesmo tempo, ruptura e continuidade. Roda afirmando: "Se a desonra, a miséria ou a perversidade podem forçar
Ruptura com a forma pessoal de govern ar do Imperador, mas continuida- a essa condenação desgraçada, física, moral e socialmente falando ... é pre-
de das relações clientelistas e coronelistas, que sustentavam o poder, com ciso manter semelhante instituição, não a decorem com o título sagrado
troca de favores, com uma combinação do localismo com o uso da máquina de asilo de caridade" . Ao mesmo tempo e m que condena a Roda d efende
estatal em função dos setores exportadores. O bloco no poder, de caráter a creche "pois a mãe é quem o depõe no bercinho e o vê e agasalha em seu
oligárquico exportador, favorece e subsidia a migração de trabalhadores eu- seio" . "Para a operária h on esta, a creche é mn admirável recurso" e conclui:
ropeus, adota um forte esquema repressivo diante dos movimentos sociais "ensina a creche o não abandonar os filhos, sen ão quando o trabalho reclama
e articula uma relação clientelista com as populações pobres do campo e da por eles novos e maiores sacrifícios", elogiando "o empenho das senhoras
cidade (Faleiros, 1992, p. 52). Na visão libe ral predominante defende-se a flum inenses em edificar a obra santa e moralizadora das creches".
não intervenção do Estado na área socia l, e o bloco dominante, embora não Manuel Vitorino, ex-presiden te da República, em substituição a Pru-
homogêneo, tema h egemonia do setor agroexportador, com grande força do dente de Morais, de quem era Vice, critica, a ausência do Estado, ou a omis-
capitalcafeeiro, e, segundo Perissinoto (1994), com a supremacia da fração são do Estado em relação à legislação para a infância e ao mesmo tempo
38 RIZZINI • PILOTTI 39
A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS

elogia a iniciativa privada nessa área, configurando uma relação ambígua Na ótica de uma política assistencialista, Vaz assinala ainda que "não se
entre público e privado, com o enaltecimento do paternalismo (Barbosa, pode dizer muita coisa daquilo que é tão pouco", quanto ao que hoje (sic!)
1958, p. 47). chamaríamos de sistema de atendimento: Santa Casa, Maternidade, Insti-
Tanto ele quanto Ruy Barbosa d efendem uma reforma cristã da legis- tuto de Proteção e Assistência à Infância, Casa dos Expostos, para atender
lação, conciliatória, inspirada na encíclica RerumNovarum. Barbosa critica a ao abandono material.
corrente positivista, em particular a de Borges de Medeiros, do Rio Grande Na ótica repressiva, Vaz se alarma também(" foi o dobro", diz) com o
do Sul, que não admite a intervenção do Estado nas questões sociais, prin- número de ass assinatos praticados por menores (16 /20 anos) entre 1856-60
cipalmente no que diz respeito às relações capital/ trabalho, defendendo a (20 a ssassinatos) e entre 1890-1894 (39 assassinatos) no Distrito Federal. E
legislação das habitações operárias, o que, na realidade, não sai do papel, jus tifica sua visão repressiva: " a célula é o primeiro remédio eficaz contra o
II
pois até agora o abrigo das classes proletárias é, habitualm.ente, a casa de desregramento infantil, é a medicação de efeitos enérgicos e mais pron-
cômodos, ou a triste arapuca de retalhos de zinco, la tas de querosene e caixas tos capaz de preparar o organismo da criança para receber os seus mais
de sabão" (p. 43) e reproduz uma reportagem de A Noite que denuncia uma poderosos reconstituintes: a escola de refonna e a casa de preservação"
estalagem de 69 cômodos, com 247 pessoas e um só banheiro. (p. 77). Estas duas instituições deveriam completar o sistema, atendendo
Essa ausência do Estado é também salientada tanto por Moncorvo Fi- tanto ao abandono moral como ao abandono material das crianças. Vaz,
lho (1926) que lamenta o "indiferentismo",comopor Lemos Britto(1959, p. como higienista, defende células especiais para os adolescentes, não as
180) que afirma que "não tínhamos o que mostrar", como por Ruy Barbosa infectas da Casa de Detenção, onde encontrou 18 menores.
(1919, p. 47) que diz "nada se construiu. Nada se adiantou, nada se fez". Critica ainda a política educacional, já que constata 19.067 matricula-
Conforme o censo de 1920, a família padrão é composta dos pais e dos para um total de 106.390 crianças, isto no Distrito Federal, ou seja, no
cinco filhos (Araujo, 1993, p. 173). Os problemas de carência social já se Rio de Janeiro . São excluídos da escola os escravos e seus filhos e as escolas
vinculam, na primeira metade do século, à profunda desigualdade social públicas eram insuficientes, "havendo disputa acirrada por vaga na rede
então existente; com consequências graves para as crianças. Araujo as- pública" (Araujo, 1993, p. 180), com demandas de famílias pobres para ob-
sinala que "a criança pobre pede esmola na igreja ou começa a trabalhar ter este acesso m esmo nos internatos. Aliás, o internato privado é também
muito cedo, antes dos 10 anos de idade. Ela vende doces na rua, carrega uma opção para as famílias abastadas. Jurandir Freire Costa nota que, na
embrulhos, entrega encomendas, é ajudante de pedreiro, carpinteiro ou é perspectiva higienista "a imagem da família nefasta aos filhos começou a
operária numa fábrica" (1993, p. 160). A polícia, por sua vez, reprime os difundir-se no século XIX através da higiene" (1983, p. 171). Daí a impor-
11
vagabundos" e os encaminha ao juiz de órfãos. tância dada à educação em colégios.
Em A infância abandonada Franco Vaz (1905) assinala que a questão da A disciplina e a ordem deveriam existir não somente nas famílias
infância abandonada ainda conserva até o presente o seu II estado embrio- e internatos, mas também nas ruas. Franco Vaz nota que a Lei n . 947 de
nário", constatando que na capital"assiste-se com a mais lamentável indife- 29/12/1902 autoriza o governo a reorganizar a polícia, a criar colônias
rença o desfilar cotidiano de uma verdadeira legião de esquifes mortuários correcionais para reabilitação profissional dos "vadios, capoeiras, meninos
encerrando os despojos de pequeninos seres", verificando que de 18.226 viciosos" julgados na capital. O governo, no entanto, reinstalou a Colônia
óbitos, 1.147 eram natimortos e 5.407 eram de crianças até cinco anos, em Dois Rios já extinta e com resultados de extrema promiscuidade.
1895 (1905, p.5). SegundoMoncorvoFilho,em 1899,amortalidadeinfantil As recomendações de Vaz, ao final do texto citado, misluramaspectos
era de 36,4% e a mortinatalidade de 7,7% (1926, p. 136). disciplinares com os higiênicos, propondo: "implantação de maternidades,
40 A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 41
RIZZINI • PILOTTI

regulamentação dos serviços de amas-de-leite, fiscalização e multas por p. 486). Esse mesmo autor revela também. o medo do bloco hegemônico
fornecer tóxicos às crianças, retirada do pátrio poder em caso de desleixo, de uma legislação que traga mais reivindicações, pois mesmo em. relação
difusão de conhecimentos sobre a infância (diante do tratamento impró-
11 a acidentes do trabalho fala que "vamos promover com esta lei tão inútil,
11 11
prio dado pelas mães combate aos monstros da tuberculose, da sífilis e
),
quanto perigosa, lógicas reivindicações econômicas, justos desejos de uma
da varíola", flmdação da Casa de Expostos, asilos públicos e privados para ampla liberdade moral, reclamações enfim de toda a sorte, anárquicas e sem
a infância como bureau ouvert, obrigação do ensino da higiene, criação de direção" (Ibidem, p. 497). Para esta corrente, a solução para os problemas
institutos de proteção e subvenções à Santa Casa. sociais é a caridade, numa clara estratégia clientelista. O que denominamos
de bloco católico propõe uma legislação que possa conciliar patrões e ope-
Vaz se inscreve nas propostas da ideologia higienista de seu tempo,
combinada com paternalismo. Aceita,no entanto, uma intervenção mínima rários; já os de tendência socialista defendem uma ampla intervenção do
do Estado diante do problema da criança desvalida, trazendo certa inflexão Estado a favor do trabalhador, conforme Medeiros de Albuquerqu~ (1960, p.
ao liberalismo reinante. 19). Os mais pragmáticos, como certos representantes da bancada paulista,
avaliam os dados da conjuntura para encaminhar seus projetos.
No que se refere ao encaminhamento para o trabalho predomina o uso
indiscriminado da mão-de-obra infantil, notando-se, a respeito, a omissão Já os empresários, defendendo o trabalho precoce, manifestam-se clara-
e a complacência do Estado. Alei de 1891, gue se referia ao trabalho de me- mente contra a definição da idade mínima de 14 anos para o trabalhador
pois, para Pupo Nogueira, esta proibição "perturba a vida fabril ainda inci-
nores, segundo Barbosa, nem sequer foi regulamentada, apesar de declarar
"impedir que, em prejuízo próprio e da prosperidade futura da pátria sejam piente" (1936, p.106). Nogueira tambémfoicontraaleideférias ("operário
. não precisa de férias", diz) e o limite de oito horas para o trabalho.
sacrificadas milhares de crianças (p. 46). Alei, aliás, não proíbe o trabalho de
menores, mas limita a idade e as horas de trabalho. Ou seja, a estratégia de Nesse contexto político adverso à legislação social durante os primeiros
manutenção das crianças no trabalho é a prática que contraria o discurso da 20 anos da República, alguns projetos de lei para a infância, no entanto, são
proteção. E Barbosa incrimina: "Nada se construiu. Nada se adiantou, nada apresentados (por exemplo, de Lopes Trovão, Alcindo Guanabara e João
se fez. A sorte do operário continua indefesa, desde que alei,no pressuposto Chaves), mas não implementados como uma política geral, existindo, no
de uma igualdade imaginária entre ele e o patrão e de uma liberdade não entanto, iniciativas pontuais para criação de escolas, liceus, subsídios às
menos imaginária (idem) nas relações contratuais, não estabeleceu, para santas casas, asilos, numa artículação entre público e privado, sem enfrentam.ente
este caso de "menoridade social" as providências tutelares, que uma tal dos problemas de mortalidade infantil, do abandono, da péssim.a qualidade
condição exige" (ibidem) . É a expressão da ideologia liberal. dos asilos, da falta de instrumental jurídico para a proteção à infância.
Como mostramos alhures (Faleiros, 1992) o debate parlamentar na Ve- As críticas aos asilos eram feitas de forma contundente enquanto
lha República coloca em confronto, em relação à legislação social, os liberais, "lugar ele enfurnamento" das crianças, sem instrução, sem higiene, sem
o bloco católico, os socialistas e os defensores de uma intervenção gradual luz, pessimamente alimentadas e as ruas eram vistas como "meios peço-
do Estado nas questões sociais, de forma mais pragmática que doutrinária. nhentos" com crianças seminuas, isoladas ou emmaltas, dormindo na rua.
Os liberais, vinculados ao positivismo, defendem a liberdade de contrato, Os desvalidos eram desvalorizados. A formação das meninas, nos asilos,
chegando Pennafiel a defender anão intervenção do Estado na proteção do era voltada para o trabalho doméstico como assinala Irma Rizzini: "estas
trabalho infantil já que "não se pode suprimir a ordem orgânica, a família (as meninas) continuaram a ser enclausuradas em instituições regidas por
na qual estão as crianças que representam a garantia de aposentadoria dos religiosas, onde recebiam educação doméstica com o fim de se tornarem
pais" (Documentos Parlamentares de Legislação Social, 1919/1920, v. 3, boas esposas, domésticas ou até religiosas" (1993, p. 67).
RIZÍINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS
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Foi a partir das iniciativas ou pressões de higienistas, advogados, mo- no Congresso Panamericano del Niíi.o de Buenos Aires em 1916 (Britto,
ralistas e religiosos que alg u mas instituições foram se constituindo desde o 1959). Nesse mesmo Congresso defende-se, também, a irnportância de
Império, numa articulação e aliança entre o público e o privado, como é bem uma criança robusta e for te e o controle do a leitamento materno. Médicos
salientado no livro de Ataulpho de Paiva (Paiva [1903] apud Rizzini, 1993, e advogados são articuladores de instituições e reformas que foram sendo
p. 91). Esta articulação se traduziria, de forma sistemática, através do Ofício implantadas na conjuntura de 1920 a 1926, principalmente no governo
Geral de Assistência, mas só se realiza sob forma clientelista, temporária, de Arthur Bernardes, que foi chamado de Presidente da Criança por Mello
por intermédio do esquema das subven ções que configura a política oficial Mattos. Em 1924,comentando o Código de Men ores, Beatriz Mineiro (1924)
de ajuda ao setor privado. A subvenção é votada ou distribuída anu almente afirma: "O Estado tem o dever da proteção à criança", pois sendo a criança
e pode ser cortada, ampliada, modificada conforme os acordos, interesses "raiz da família", "o futuro (bom ou mau) da sociedade depende tanto da
e negociações de favores em troca de legitimação. saúde e do vigor com que as crianças nascem, como da 1naneira por que
Contabilizando os dados colhidos por Irma Rizzini (1993), observamos são criadas e educadas" (p . 3), e conclui "daí a necessidade do Estado lhes
que a República herda do Império 16 instituições asilares para a infância no prestar a indispen sável assistência" (p. 15). Trata-se de uma v isão de Estado
Rio de Janeiro, e entre 1889 e 1930, são criadas 14instituições de tipo asilos, mais voltada p ara a raça que para a própria criança. Higienistas e juristas
abrigos, orfanatos, escolas para abandonados e seis instituições ligadas à eram também 1noralistas.
saúde da criança (dispensários, policlínicas, instituições de assistência à Ainterven ção do Estado se faz, então, mais manifesta e atuante na ques-
saúde), sendo do Estado o Abrigo de Menores e a Escola 15 d e Novembro tão da infância resultando do enfraquecimento das posições de liberalismo
no Rio de Janeiro, o Ins tituto João Pinheiro, em Minas Gerais, e o Instituto ·extremo.Deve-se destacar, nos primeiros anos da República, a criação, em
Disciplinar, em São Paulo. As demais instituições são mantidas por orga- 1903, da Escola Correcional 15 de Novembro, assinalando, em seu discurso,
n ism os religiosos e contribuições, tanto de particulares, como do Estado. uma postura e ducativa e de encaminhamento e integração da criança no
trabalho, ao fixar o objetivo d e "dar educação física e moral aos menores
abandonados e recolhidos por orde1n das autoridades competentes". Este
Higienistas e juristas: enfraquecimento da visão não intervencionista mesmo encaminhamento é a estratégia dos asilos e orfan atos, dando-se
do Estado ênfase ao trabalho doméstico, nos ofícios menores, conforme as fich as d e
obras sociais levantadas por Rizzini (1993). Os viciosos, vagabundos e ébrios
Dentre os atores ou agentes que articulam as forças em torno das políti- h abituais são tratados conforme a estratégia da repressão e levados, pela
cas para a infância considerada pobre, desvalida, abandonada, pervertida, polícia, como vimos, às prisões comuns. Integrar pelo trabalho ou dominar
perigosa, delinquente destacam-se os higienistas e juristas, encaminhando pela repressão eram as estratégias dominantes.
estratégias de controle da raça e da ordem, combinadas, não raro, com a O Estado combina, na sua intervenção na área da infância, a legitima-
interação do setor estata l e do setor privado. ção das figuras que aparecem como doadores graças à assistência com a
A influência dos higienistas se faz sentir na criação da Seção de Higiene repressão à desordem. A repressão tem o apoio do chefe de polícia do Rio,
Infantil do Departamento Nacional de Saúde Pública e a influência dos que também ajuda a fundar asilos em 1908. O Código Penal, por sua vez,
juristas, na maioria juízes e advogados, na criação do Juizado de Menores. artigo 30, considera inimputáveis os menores até 9 anos, usando o critério
Juris tas, como Lemos Britto defendem arduamente, instituições esp eciais de do discernimento, e os de 9 a 14 para cr imes e não para contravenções,
correção, uma legislação especial e tribunais para menores, o que se reflete segundo Lemos Britto (1959, p. 43). Desde Tobias Barret o (1884) vários
44 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS
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juristas lutavam para eliminar o critério do discernimento na aplicação de aparatomilitar(Pinheiro,apudFausto, 1978, p. 9-37). OTratadode Versailles
penas a menores. põe na agenda do mundo a questão das relações entre capital e trabalho
Articulando o público e o privado, os juristas, advogados e desem- mediante a proposta de legislação trabalhista.
bargadores fundam obras filantrópicas, como o Patronato de Menores que A eleição presidencial de 1919 (com participação de Ruy Barbosa), a
mantém seis estabelecimentos, em cuja diretoria estão três desembargadores Semana de Arte Moderna de 1922 se inscrevem nesse contexto de agitação.
e de cujo conselho fazem parte quatro desembargadores e dois juízes (Sabóia Para fazer face a ele, Arthur Bernardes, governa em estado de sítio. As gre-
Lima, 1943). Fundado em 1908 o Patronato receb e menores em abandono, ves operárias de 1917 em várias regiões do país e as de 1919 em São Paulo
sendo quatro de seus estabelecimentos dirigidos por religiosos. colocam em movimento a insatisfação operária com os salários baixos e as
Os higienis tas propugnam insistentemente pelo controle das doenças péssimas condições de trabalho. A resposta do governo é, de ime diato, o
pois, "o meio reforça as taras hereditárias", salienta Moncorvo Filho (1926, desencadeamento das ações de seu aparelho repressivo. Algumas propostas
p. 191). Lutam para implantar a inspeção das amas-de-leite e a inspeção vão emergir, n esse contexto, introduzindo pequenas reformas na legislação
higiênica nas escolas ("foco d e difusão de moléstias contagiosas"). O social, como virá a ser a Lei de Acidentes do Trabalho de 1919 e os projetos
próprio Moncorvo reconhece que esta inspeção é difícil e irregularmente da Caixa de Previdência Social para os ferroviários (Faleiros, Vicente de
exercida (ibidem, p. 245). A distribuição de leite materno se expande atra- Paula, 1980 e 1992). As reformas resultam dessa correlação de forças na
vés da organização de lactários privados chamados de "Gotas de Leite". conjuntura onde as forças hegemónicas também se desestruturam com
Moncorvo busca também constante legitirn.ação de sua instituição privada as divisões regionais e o desenvolvimento do setor industrial. Os arranjos
junto às autoridades, por meio de visitas de Presidentes, convites, cartas, políticos (política do café com leite) entre Minas Gerais (produtora de leite)
conferências, publicações, visando obter subvenções do governo para suas e São Paulo (produtor de café) se desgastam.
obras de inspeção de amas-de-leite, creche e dispensário. E a estratégia de A mão-d e-obra infantil é u sada d e forma abundante na indústria e o
patrimonialismo, enquanto busca d e subvenções, terrenos, pessoal cedido salário das crianças e adolescentes representa um complemento para os
para uma obra priv ada. baixos rendimentos ~as famílias operárias. Em 1919, segundo os dados
Estes atores e propostas aqui assinalados vão marcar profundamente disponíveis, Esmeralda Moura (1982) chega a calcular em 50% a parti-
toda a articulação da política para a infância e a elaboração d e um Código cipação feminina na indústria têxtil e a do menor e m 35%, no Estado de
de Menores, que se realiza na década de 1920. São Paulo. A autora assinala que "os menores representam mais de 7% no
A conjuntura de guerra (1914/18) e a do pós-guerra favorecem o clima setor secundário" (p. 32). Não havia, em geral, redução da jornada para
de efervescência social já desencadeado pela crise econômica do final dos as crianças e seus salários eram mais baixos que o dos adultos. Moncorvo
anos 12, pelo desgaste político do bloco no poder, acusado de corrupção, Filho traz depoimentos de Clemente Ferreira (p. 191) sobre a tuberculose
pela emergência de contestação por parte de setores das classes médias (" que leva à deterioração física e ao abastardamento da raça") nas fábricas
e pelas novas 1nanifestações culturais e sociais. A classe média, com o e relata a inspeção nas oficinas da Casa da Moeda onde 70% das crianças e
d esenvolvimento do trabalho não manual urbano se expande nas regiões adolescentes haviam contraído a doença (p. 185).
urbanas, o movimento tenentista e clode, a Coluna Prestes avança, surgem Jorge Street, dirigente do Centro Indus trial, reafirmando a estratégia
o Partido Comunista (1922) e o Partido Democrático de São Paulo (1926). de inserção da criança no trabalho precoce, assinala que tem nas fábricas que
Alguns autores, como Paulo Sérgio Pinheiro, assinalam que a presença da dirige cerca de 300 crianças, "todas trabalham 10 horas, como os adultos",
classe média no governo será exercida por meio da burocracia civil e do argumenta que são os pais que aí desejam seus filhos, alegando que lhes dá
A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 47
46 RIZZINI • PILOTTI

salvação desses desamparados, ao mesmo tempo que defesa social". Ao lado


trab alhos leves, considerando justo que se regulamente o trabalho infantil,
d a ideia de proteção da criança está presente a da proteção da sociedade,
m as "as medidas n ão podem ser exagerad as" e nã.o se deve pin tar os in-
"defesa social". Segundo Lemos Britto destacaram-se pela aprovação do
dustriais como carrascos. Diz ainda: "se a futura leireduziro trabalho p ela
Código: A lfredo Pinto, ministro e ex-ch efe depolícia,Aureliano Leal,Fran-
metade também assim reduziremos o salário" e que "a oficin a, com seus
cisco Valladares, Nabuco de A breu, Zeferino d e Faría, Fernandes Figueira,
inconvenientes, é preferível à rua com todos os seu s perigos", propondo
Alcindo Guanabara, Levy Carn eiro, Fr an co Vaz, Mendes d e A lmeida, João
a permissão ao trabalho a partir de 11 (sic!) a n os, considerando "exagero
Ch aves, Mau rício de Lacerda, João Perneta, José Lobo, Geminiano Franca,
pernicioso" a proibição do trabalho até os 14 anos. Critica a lei mw.1icipal
Moncorvo Filho, A taulpho de Paiva, Evaristo de Morais, Carlos Costa, Bal-
que só permite o trabalho a té 18 anos por seis horas, p ois o traba lho das
tazar da Silveira,A lfredo Magalhães, Alfredo Russel, Astolpho de Resende,
fábricas não pode parar e o Centro Industrial agiu juridicamente contra a
Cândido Mota, Azevedo Marques (p . 174).
lei "absurda". (Street, 1980, p . 377-383).
Em 1934, Stree t volta ao tema do traba lho de menores mostrando o Com sua filosofia hig ienista e correcion al disciplinar o Código traz
importantes inovações, e su a leitura é, não raro, feita como fabricação ou
conflito existente n a comissão que exam inou a questão, mantendo-se o
h orário comum de 14 anos, embora ele d efendesse 13 pessoalmente, " para invenção da questão do menor (Botelho, 1993, p. 21). Em primeiro lugar
con ciliar os interesses da raça, das n ecessidades econ ômicas e as conve- e le abole formalmente a roda de expostos mantendo, contudo, o regis tro
niências da indústria" (p. 441). secreto p ara" garantir o incógnito" (a paternidade), estab elece a "proteção
legal" até os 18 anos d e idade, o que significa ao m esmo tempo a inserção
Em 1920 realiza-se o 1° Congresso Brasileiro d e Proteção à Infância
da criança na esfera do direito e na tutela do Estado.
tornando mais sistemática a agenda da proteção social. Em 1921, uma lei
orçamentária federal (Lei n. 4 .242), combin ando as estratégias d e assistên- O Código de 1927 incorpora tanto a v isão higienis ta de proteção do
cia e repressão, autoriza o governo a organizar um serviço de proteção e m eio e do indivíduo, com o a v isão jurídica repressiva e moralista. Prevê
assistência ao m en or ab andonado e delinquente, encarregando-se o pro- a vigilância da saúde da crian ça, dos lactantes, das nutrizes, e estabelece
fessor, ex-deputado e juiz, José Cândido d e A lbuque rque Mello Mattos de a inspeção m édica da higiene. No sentido d e intervir n o abandono físico
"con solidar as leis de assistência e proteção a m enores" . O Código con solida e moral das crianças, o pátrio p oder pode ser su spen so ou perdido por
ta mbém o Decreto n. 16.272 de 20/ 12 /23 que regulamenta a assistência e faltas dos pais. Os aban donados têm a possibilidade (não o direito formal)
proteção aos m en ores e o Decreto Legislativo n . 5.083, de 1926, que auto- d e guarda, de serem entregues sob a forma de "soldada", de vigilância e
riza o governo a decretar o Código de M enores, levando em conta ainda o educação, determinadas por parte das autoridades, que velarão também
Código Civil e o Código Penal. por su a moral. O en caminham ento pode ser feito à família, a instituições
públicas ou particulares que poderão receber a delegação do p~trio poder.
Em 1923 (Decreto n. 16. 272), o Presidente da República aprova o regu-
A família é, a inda que parcialmente, valorizada.
lamento da assistência e pro teção aos menores abandonados e delinquentes,
masoCódigodeMenoressóépromulgadoemformadeDecreto(l7.943-A), O vadio pode ser repreendido ou internado, caso a vadiagem seja
em 12/10/1927, assinado por Washington Luiz depois de tramitar durante h abitual. O autor d e infração t erá prisão especial. O m enor de 14 anos não
os governos d e Epitácio Pessoa e Arthur Bernardes. será submetido a processo pen al de espécie alguma (o que acaba com a
questão do discernimento) e o q u e tiver idad e sup erior a 14 e inferior a 18
Beatriz Mineiro, representante da assistência judiciária no juízo de m e-
anos terá processo especial, instituindo-se também a liberdad e vigiada.
nores d o Distrito Federal (1924), afirma que" a recentíssima lei de assistência
O h·abalho fica proibido aos m enores de 12 anos e aos menores de 14 que
e p roteção a tais menores oferece uma grande b ase para eficaz regímen de
RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 49
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não tenham cumprido instrução primária, tentando-se combinar a inserção Lemos Britto lamenta a inexistência de escolas de reforma para os
no trabalho com educação. O trabalho noturno e aquele considerado perigoso menores, ressaltando, em 1923, "o desmantelo" existente nos Estados em
à vida, à saúde e à moral é vedado aos menores de 18 anos, com multas um.a visita a eles feita. Já em 1926 elogia a criação da Escola de Reforma no
aos infratores e direito à fiscalização . Formaliza-se a criação do Juízo Pri- Rio "para não deixar os menores na prisão de adultos" . Em 1928 a Escola
vativo de Menores e do Conselho de Assistência e Proteção a Menores, abriga 65 menores. Para as meninas infratoras foi criada a Escola Alfredo
presidido pelo Ministro da Justiça . As decisões serão baseadas na índole Pinto, a cargo das Irmãs do Bom Pastor (ibidem, p. 529).
(boa ou má) da criança e do adolescente e ficam a critério do juiz que temo O ensino público, fundamento de um.a efetiva estratégia de cidadania e
poder, juntamente com os diretores das instituições, de definir as trajetórias promessa da República, foi um.fracasso. Em São Paulo, em 1918, enquanto
institucionais de crianças e adolescentes. O olhar do Juiz deve ser de total 232.621 crianças frequentavam a escola, 247.543 em idade escolar não a fre-
vigilância e seu poder é indiscutível. O jurista e o médico representam as quentavam (Carvalho, 1989, p. 39). A intervenção do Estado não se realiza
forças hegemônicas no controle da complexa questão social da infância como uma forma de universalização de direitos, mas de categorização e de
abandonada. exclusão, sem modificar a estratégia de manutenção da criança no trabalho,
Se é bem verdade que, na orientação então prevalecente, a questão sem deixar de lado a articulação com o setor privado e sem se com.bater o
da política-para a criança se coloque com.o problema do menor, com dois clientelismo e o autoritarismo. A esfera diretamente policialesca do Esta-
encaminhamentos, o abrigo e a disciplina, a assistência e a repressão, há do passa a ser assumida/ substituída por instituições médicas e jurídicas,
emergência de novas obrigações do Estado em.cuidar da infância pobre com com novas formas de intervenção que vão superando a detenção em celas
educação, formação profissional, encaminhamento e pessoal competente. comuns, sem, contudo, fugirem do caráter repressivo.
Ao lado das estratégias de encaminhamento para o trabalho, clientelismo,
patrimonialismo, começa a emergir a estratégia dos direitos da criança (no
caso o menor) já que o Estado passa a ter obrigações de proteção.
Os anos 30 - a era Vargas
Os industriais reagem ao Código, principalmente à fiscalização do
trabalho infantil, 't endo Mello Mattos se mostrado claro quanto à duração
Dentre as promessas da Aliança Liberal, instalada no poder com o
do trabalho (seis horas), multando 520 fábricas. Os industriais de tecidos,
gaúcho Getúlio Vargas pela revolução de 30, há a de "instituir o Ministério
em particular, manifestam-se contrários a esta norma que não atendia a seus
do Trabalho para superintender a questão social, o amparo e a defesa do pro-
interesses, como vimos acima, pleiteando a reforma da lei, mas a Corte de
letariado urbano e rural" (Vargas,Anova Política do Brasil, em3 / 11 /1930.
Apelação dá ganho de causa ao juiz (Britto, 1959, p. 330 e ss.).
apud Carone, 1974, p . 16).
Não só os empresários defendem a estratégia de encaminhamento para o
Há também as promessas de reforma eleitoral, moralização da vida
trabalho das crianças pobres. Também o governo cria as Escolas de Apren-
pública, reforma lTibutária, extinção do latifúndio, bandeiras do movimento
dizes e Artífices do Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio, em
1909 justificadas tanto pelo "aumento da população das cidades", como tenentista. Apesar destas proposições de reformas, o movimento tem um
"para habilitar os filhos dos desfavorecidos da fortuna com o indispensá- caráter conservador, representando posições de parte das oligarquias e
vel preparo técnico e profissional" (Schwartzman, 1984, p . 231). Em 1910 divisões regionais (Forjaz, 1978, p. 78). AAliança Liberal aglutina os estados
haviam sido instaladas 19 escolas em todo o país com 1248 alunos, e em do Rio Grande do Sul, Paraíba e Minas Gerais, com forte oposição de São
1923 é criada a Inspetoria do Ensino Profissional Técnico. Paulo, que, inclusive, se rebela em 1932 na revolução constitucionalista.
50 RIZZINI • PILOTTI 51
A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS

O Ministério do Trabalho, im p lantado em 1932, adota uma política 530 são p articulares (Schwartzm an , 1984, p. 190). N a visão conciliatória
corporativ is ta de h a rmonização d as classes sociais, por meio da reg ulação de Vargas, a Igreja não d everia ficar d e fora do projeto nacional. Como a
do Estado tanto pela Jus tiça do Trabalho como p elo s indicalismo tutelado República h av ia separado o Estado da Igreja, a Revol ução de 30 tenta um
(Faleiros, 1980: cap. 6; 1992: cap. 2). Es te d everia ser, na visão oficial, m ais novo pacto com a Igreja com a introdução do en sino religioso facultativo,
um instrumento assistencial que um instrum.ento reivindicativo. articulando assim uma nov a integração enh·e o público, o privado e o reli-
Apesar d e n ão ter havido um p rocesso de transformações profundas, o gioso. Em 1937 foram criados o Código Nacional de Educação e um plano
novo bloco no poder estim.ula uma esh·a tégia d e re alocação das p rioridad es nacional d a educação.
e recursos para favorecer a industrialização, com forte apoio militar. A lém Capanem a chega a e lab orar um estatuto da família (não oficializado)
disso, a articulação do poder passará a levar em conta os trabalhadores u r- no sentido de incentivar o crescim ento da população e fortalecer os valores
banos p ela cooptação e mobilização da juventude. Esta orientação se torna morais. Em 1941 o D ecreto -lei n. 3 .200 estabelece o casam.ento religioso com
mais clara depois do golpe d e Estado de 1937, quan do Getúlio Vargas impõe efeitos civ is, regula o casam ento d e colaterais de terceiro grau, incentiva
(diz-se que foi o utorgada) uma Constituição autoritária ao p aís, emb ora o casamento e a procriação, facilita o reconhecim ento de filhos naturais
exis tissem interesses divergentes entre setores exportadores, industriais e e p riv ilegia a con tra tação, p elo serviço p úblico, de casados com filhos
agrícolas (Faus to, 1981, p. 80). (Schwartzman, 1984, p. 111).
O n ovo governo te m um p roje to centra lizador e intervencionista, Reforçando a estratégia do trabalho precoce d e m en ores, em 1932 os
nomeando, logo no início, interventores federais em todos o s Estados e industriais con segu em qu e se modifiq u e o Código de Menores eliminan-
estes, prefeitos nos municípios, s u sp endendo-se o Poder Legis lativo. Ao do-se a b arreira da proibição p ara se trab alhar antes dos 14 anos para os
mesmo tempo criam-se os conselhos n acionais para implementa r as polí- que estivessem em estabelecimentos onde eram empregadas pessoas de
ticas econômicas, principalmente a p artir d e 1937, quando se consolida o uma só família . O s industriais aceitariam uma redução na idade para 13
poder autoritário d e Vargas. anos, mas a Constituição de 1934 fixara a id ade em 14 anos. Os industriais
expressam qu e o Código d e Menores" aplicad o sem cautela, n a expressão
As questões econômicas e sociais passam a ser questões nacionais numa
d e su a letra, fatalmente lançará ao regaço da sociedade uma nova legião de
visão da intervenção política no âmbito d o Bras il como um todo e com o
candidatos à vagabundagem , ao v ício e ao d elito . O m en or de seus 111.ales
forma d e se desestruturarem os poderes regionais. Quanto à educação, na
será a multiplicação de rufiões e meretrizes" (cf. Livro de Circulares da
perspectiva de defesa da nação, "a constituição da nacionalidade deveria ser
FIESP, 1930). A Lei (Decre to n. 22.042 d e 3/ 11 /1932) passou a permitir o
a culminação d e toda a ação p edagógica", incluindo "homogen eização da
trabalho a partir dos 12 anos. N as usinas, m anufaturas, estaleiros, minas
população" com uma formação b ásica (Sch w artz man, 1984, p. 141).
ou qualquer trabalho subterrâneo, pedreiras, oficinas e suas dependências,
Em 193 1 é criado o Conselho Nacion al d e Edu cação e, em 1932, o mesmo em entida d es de b eneficência era proibido o trabalho aos menores
governo estabelece a inspeçã.o federal n as escolas . Desde os anos 20 havia d e 14 anos, desde que não tivessem certificad o d e estudos primários. Com
um m ovimento de d efesa da escola pública estruturado p elo grupo d eno- este certificado podiam trabalhar a partir dos 12 an os (art. 103).
minado Escola Nova, que veio a p ola rizar com a posição da Igreja Católica,
Obtêm , no entanto, d o governo que se transfira para o decreto regulador
favorável a o ensino religioso na escola pública. d o horário d e trabalho a fixação da duração d o trabalho de menores, que,
A rticulando-se o estatal e o privado, n a p r ática, predomina o ensino assim , fica definido em oito h oras (Gomes, 1979, p. 232-233). Esse horário
particular no nível secundário. Em 1939, no Brasil, de 629 estabelecimentos, tamb ém é regula mentado em 1932, pod endo ser estendido por mais dua s
52 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 53

h oras, desde que com maior remuneração. Estas leis são elaboradas por Assim como em relação ao trabalho e à educação, o Governo Federal
comissões mistas, com a presença direta do empresariado, mas não sem po- estabelece, para os chamados menores, um sistema nacional, com integração
lêmica, como observamos no texto citado de Jorge Street. O ensino indush·ial, do Estado e de instituições privadas. A ação do setor público será condu-
consagrado n a Constituição de 1937, é incluído na Divisão de En sino Ind us- zida pelos seguintes órgãos: Conselho Nacional de Serviço Social (1938),
trial. O artigo 129 reza: "O ensino pré-vocacional e profissional destinado às Departamento Nacional da Criança (1940), Serviço Nacional de Assistência
classes menos favorecidas é, em matéria de educação, o primeiro dever do a Menores (SAM, 1941) e Legião Brasileira de Assistência (LBA, 1942).
Estado. Cumpre-lhe dar execução a este dever, .fundando instihttos de ensino Já em 1933 Getúlio Vargas dirigira um apelo aos governadores para
profissional e subsidiando os de iniciativa dos Estados, dos municípios e a proteção à infância, nos seguintes termos: "nenhuma obra patriótica
dos indivíduos ou associações particulares e profissionais." íntimamente ligada ao aperfeiçoamento da raça e ao progresso do país,
Sch wartzman (1984, p. 232) assinala que no Brasil, em 1939, h avia excede a esta, devendo constituir, por isso, preocupação verdadeiramente
sete mil alunos nos estabelecimentos de ensino profissional e técnico. nacional" (Sabóia Lima, 1943, p. 13). A estratégia do governo é de privilegiar,
A interação, não sem conflitos, entre governo e empresários, principal- ao mesmo tempo a preservação da raça, a manutenção da ordem. e o progresso da
mente quanto ao controle das instituições, para se implementar o en sino nação e do país .
profissional desemboca na criação, em 1942, do SENAf(Serviço Nacional Ao Conselho Nacional de Serviço Social, vinculado ao Ministério da
de Aprendizagem Industrial), que tem seu financiamento recolhido dos Educação e Saúde, cabe decidir sobre as subvenções às entidades privadas.
empresários pelo Estado, e é repassado aos empresários. Estes, mais tarde, Algumas destas, como o Patronato de Menores, inauguram fotos do pre-
deslocam. s ua finalidade do treinamento de menores pobres para atender sidente que, por sua vez, cancela os débitos do mesmo para com a União
a população em geral. Em 1946 funda-se o SENAC (Serviço Nacional de e subvenciona novas edificações. Em 1935, Vargas confia ao Patronato a
Aprendizagem Comercial) nos mesmos moldes do SENAI. divisão feminina do Instituto Sete de Setembro, p elo Decreto n. 498, onde
A Consolidação das Leis do Trabalho de 1943 regulamenta a proteção assinala que as verbas públicas "serão doadas em duas quotas semestrais"
ao trabalho do menor, proibindo-o até 14 anos (exceto nas instituições be- (Sabóia Lima, 1943, p. 151). Em 1937, o Instituto Sete de Setembro, como
neficentes ou de ensino), e restringe-o entre 14 e 18 anos. Marcondes Filho, recolhünento provisório do juizado, atende 300 crianças, e a Escola 15 de
Ministro do Trabalho, cria uma Comissão Revisora do Código de Meno- Novembro atende 450, mas estava completamente desaparelhada" para
res (Britto, 1959, p. 570 e ss.) que o adapta às novas leis e se concretiza no a formação profissional, conforme demonstrado em outro capítulo deste
Decreto-lei n. 6.026 de 24 de novembro de 1943. O juiz poderá autorizar o livro. No Est ado de São Paulo, o Departamento de Assistência Social é
menor a trabalhar por um ano sem carteira de trabalho. O decreto estabelece criado em 1935 e o Serviço Social de Menores é reorganizado em 1938 e os
em 18 anos a idade da imputabilidade de acordo ao Código Penal vigente. cargos de comissários e monitores de educação são privativos de assistentes
Regulamenta-se também o processo de alimentos relativo ao direito das sociais (Iamamotó, Carvalho, 1982, parte II) .
crianças em caso de separação. A Legião Brasileira de Assistência, (LBA), vincula-se ao esforço de guer-
A articulação entre o privado e o estatal se faz não só nas comissões mistas ra "para prover as necessidades das famílias cujos chefes hajam sido mobi-
a que nos referimos, mas está inscrita na própria Constituição de 1937. O lizados", além de executar seu programa pela fórmula da colaboração entre
artigo 129 reza que, se não houver possibilidade de educação por falta de o poder público e a iniciativa privada. Visa também "promover serviços de
recursos em instihlições particulares, cabe ao Estado oferecer a educação assistência social, prestar decidido concurso ao governo e trabalhar em favor
pública. do processo de serviço social no Brasil", conforme o art. 2° de seu estatuto.
54 A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 55
RIZZINI • PILOTTI

ALBA, fundada por particulares e encampada pelo Estado, será financiada No âmbito específico do poder judiciário mantém -se a estratéofa
tJ
de
com desconto em.folha de 1 /2%, recolhidos dos Institutos de Aposentadoria manutenção da ordem e p reservação da raça já que, no julgamento dos
e Pensões (lamamoto, Carvalho, 1982, p . 257). À primeira-dama cabe sua menores de 14 a 18, o juiz conserva seu poder de arbitrar sobre a p erso-
presidência.A entidade amplia seu âmbito de ação a entidades assis ten ciais nalidade do menor através do que veio a ser chamado d e periculosidadc.
de todo o país e dá, juntamente com o DNCr (Departamento Nacional d a Ao juiz cabe estudar e definir a personalidade do menor. Esta questão do
Criança), es túnulo às crech es, além de auxílio a idosos, doentes, grupos de menor perigoso vem, d e certa forma, completar o dispos to no Código, mas
lazer, inserindo-se n a estratégia assistencialista do governo. mostra a preocupação de se reforçar a figura, o papel e o poder do juiz de
menores, cuja autoridade se concentra na aplicação do Código. A questão
O Estado se articula com o setor privado fazendo-o semioficial, dis tribui
higienis ta passa a ser de responsabilidade do Departamento Nacional da
verbas, bu sca legitimação em troca de favores, e, ao mesmo tempo, deixa ao
Criança, como veremos adiante.
descaso as instituições públicas. O per capita para as entidades particulares
(no caso d e 50$ por mês) é implantado sistematicamente. A Igreja se rear- Ainda dentro da estratégia de manutenção da ordem, h á, no p eríodo,
ticula para intervir na questão social através de centros de estudos e ação e uma reorganização do papel das de legacias, que passaram a comporta r
de obras sociais. O CEAS (Centro de Estudos e Ação Social) é fw1dado em uma Delegacia de Menores (Decreto n . 8.462 de 26 / 12/ 45, apud Botelho,
São Paulo em 1932, A Escola do Serviço Social da Pontifícia U niversidade Rosa na U., op. cit., p. 54), cuja função repressiva se articula com o SAM e com
Católica de São Paulo em 1936. Os Círculos Operários são ampliados. Ao o Juizado, no âmbito do Distrito Federal. A d elegacia de São Paulo surgiu
1nesmo tempo as paróquias e associações (por exemplo, de senhoras ca- em 1958. Segundo Botelho, as d elegacias "notabi Iizaram-se p ela repressão
tólicas) vão ampliando s u a ação social no campo assis tencial (Iamamoto, . a crianças e jovens p erambulantes, suspeitos de atos de delinquência". Ch ama
Carvalho, ibidem). atenção a palavra "suspeito", de acordo com o critério da polícia, e sinais
aparentes.
A implantação do SAM tem mais a ver com a questão da ordem s ocial
que da assistência propriamente dita. Esta instituição, que deveria orientar Em 1948 Carvalho Santos, ex-juiz de menores, assinala que a delin-
a poHtica pública para a infância, é redefinida em 1944 (Decreto-lein. 6.865). quência é causada pelo abandono. No período de 1936 a 1939, o referido
Vinculada ao Ministério d a Justiça e aos juizados d e menores, tem como autor calculou em 100 mil" os m enores que no Rio de Jan eiro necessitavam
compe tência orientar e fiscalizar educandários particulares, investigar os de amparo e assistência por parte do Estado". Como o SAM só dispunha
de sete mil vagas, lamenta a" escassez de nosso equipam ento assistencial".
menores para fins d e internação e ajustamento social, proceder ao exame
m édico-ps icopedagógico, abrigar e distribuir os menores p elos estabeleci- Outro juiz calculou em 30 mil o número de desamparados, d e acordo com
o a utor citado (Santos, 1948).
mentos, promover a colocação de menores, incentivar a iniciativa particular
de assistência a menores e es tudar as causas do abandono. O SAM é o novo Na prática, assinala Esolina Pinheiro (1939), são considerados aban-
nome dolns titutoSetedeSetembro (de 1932). focorporaaEscola Quinze de donados 59% dos menores atendidos no Juizado, a partir de uma análise
Novembro, a Escola João Luís Alves, o Patronato AgrícolaArthur Bernardes, d e 20.351 processos de 1924 a 1936. Des tes, 9.175 foram internados. Nos
o P a tronato Agrícola Wenceslau Braz, e também controla e supervisiona as "exam es" das crianças fica paten te sua s ituação de miséria. Em 1.300 casos
instituições particulares que só poderão receber subvençõ es após audiên- reporta.dos: 70,1 % são diagnosticados como an êmicos e 74,4% porta.dores
cia efetuada com o SAM. Ao Juizado de Menores cabe fiscalizar o regime de cárie. Em 645 casos de abrigados p e lo juizado, 73,32% são considerados
disciplinar e edu cativo dos internatos (art. 6°), o que significa uma redução retardados ou oligofrênicos. No p e ríodo, o número de delinquentes foi
do poder dos Juízes com o aumento do poder do SAM. de 3.094, sendo 277 do sexo feminino. Er am enviados ao Laboratório de
56 RIZZINI • PILOTTI
A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 57

Biologia Infantil e internados em estabelecimentos oficiais e semioficiais,


particulares, quatro religiosas, três d e empresa e três da LBA. O governo
segundo Pinl1eiro (1939, p. 119), subsidiados do governo, numa clara ar-
"fornecia uma orientadora, um médico ou um pequeno auxílio" (ibidem,
ticulação entre público e privado.
p. 12). Adicionalmente, o DNCr estimula a avaliação do peso e estatura das
O Departamento Nacional da Criança (DNCr) articula o atendimento crianças tendo em mente uma população sadia .
às crianças combinando serviços médicos com a assistência privada, atra-
No primeiro período do governo Vargas há um incentivo às famílias de
vés do Serviço de Obras Sociais (SOS), fundado em 1934 e constituído por
prole numerosa (o que consta das Constituições de 1934e 1937), traduzido,
"senhoras intrépidas" (DNCr, 1946, p.15) que atendem às necessidades de
em 1941, num decreto que aumenta o imposto de solteiros e viúvos com
remédios, hospitais, asilos, orfanatos, além de ensinar higiene e trabalhos
um adicional de 10% e atribui um abono aos pais de mais de seis filhos. A
domésticos (Departamento Nacional da Criança, 1946, p. 15). No DNCr,
população urbana em 1940 é de 39% no Sudeste e de menos de 30% nas
como bem assinala Lívia Maria Fraga Vieira (1988), predomina a orien-
demais regiões do país, o que fez com que estas medidas n ão chegassem à
tação higienista com campanhas educativas, inquéritos médico-sociais,
maioria da população.
formação de puericultores, orientação sobre funcionamento de creches,
organização do atendimento pré-escolar, incentivando o Clube de Mães. Vargas, em seu governo, combina a rnão de ferro da repressão, através
No pós-guerra organiza concursos de higidez e atua como executor dos da Lei de Segurança Nacional implantada desde 1935 com o fito, manifesto
programas do UNICEF (Fundação das Nações Unidas para a Infância). nos discursos, de manter a ordem, de combater o comunismo e o integra-
Em 1934 (Decreto n . 24.278) a Inspetoria de Higiene Infantil (Lei n. 16.300 lismo, com medidas assistenciais e corporativas como a legislação sindical
de 1923) foi transformada em Diretoria de Proteção à Maternidade e à In- . e a política social que acabamos de analisar.
fância. Em 1937 passa a ser Divisão d e Amparo à Maternidade e à Infância, A política da infância, deno1ninada "política do menor", articulando
vindo a ser Departamento em 1940, numa verdadeira escala de ascen são repressão, assistência e defesa da raça, se torna uma questão nacional, e, nos
de importância burocrática e política (Vieira, Cadernos de Pesquisa, 1988, moldes em que foi estruturada, vai ter uma longa duração e uma profunda
apud Orlandi, 1985, p. 85). influência nas trajetórias das crianças e adolescentes pobres desse país.
A estratégia do DNCr era voltada à preservação da raça.Clóvis Costa, diretor
do DNCr, em 1955, assinala que "os órgãos da reprodução não pertencem
propriamente ao seu portador, pertencem mais à espécie" e interessa mui to A era democrático-populista
mais ainda à coletividade social (... )por isso todos os governos, instituições
científicas, sociedades filantrópicas e estadistas têm a atenção voltada para Depois da queda de Getúlio, decorrente da conjuntura democrática
as questões relativas à maternidade e à infância" (Vieira, 1988). D edica-se internacional do pós-guerra e da crise de seu governo, e realizada por
também o DNCr à luta contra as criadeiras (Vieira, 1988), mulheres que intervenção militar, sucedem-se os governos eleitos de Dutra (1946-1950),
cuidavam de crianças, em geral na vizinhança, consideradas ignorantes, Getúlio (1951-1954, quando se suicidou, sendo iiúciahnente substituído pelo
espertas, incapazes e causadoras de doenças. A vigilância, já constante do seu vice, Café Filho, e depois por um governo de transição), I<ubitschek
Departamento Nacional de Saúde Pública (de 1920), implica n a criação de (1955-1960), Quadros (de janeiro a agosto de 1961, devido à sua renúncia)
laetários. Em 1946 estimula a amamentação materna. Embora propugnasse e Goulart (deposto em 1964 pelos militares).
por creches, em associação com entidades particulares, articulando estatal
O período se caracteriza por um predomínio da democracia (apesar
e privado, constata-se que no período de 1942-46, de 29 creC?h es, 16 eram
d e várias tentativas de intervenção militar) e do crescimento econômico.
A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 59
RIZZINI • PILOTTI
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industriários, transportistas, marítimos, herança da era Vargas (Faleiros,


A herança política de Vargas é a fundação de dois partidos políticos: o PTB 1980, Oliveira, Fleury, 1986) .
(Partido Trabalhista Brasileiro), vinculado aos sindicatos e pelegos (dirigen-
Aoposiçãoa Vargas, consubstanciada na UDN, propunha umarefonna
tes sindicais cooptados) e o PSD (Partido Social Democrata), vinculado aos
da Previdência, mas só às vésperas da eleição de 1960 é que se conseguiu
coronéis do interior. A oposição se aglutina na UDN (União Democrática
um consenso para se votar a Lei Orgânica da Previdência Social (LOPS),
Nacional). por meio da qual se amplia a assistência médica aos trabalhadores, embora
Uma política desenvolvimentista e de massas é a tônica predominante tenha funcionado preca riamente, assün cmno a assistência alimentar afravés
em todo o período, voltando-se n1ais para uma ação de modernização e do SAPS (Serviço de A limentação da Previdência Social). O Ministério da
internacionalização da economia. A estruturação, não raro conflituosa, de Saúde foi desmembrado do Ministério da Educação em 1953, tendo orga-
uma política de sal ário mínimo é o eixo central das relações entre o Estado nizado muitas campanh as preventivas e de combate às endemias (FEE,
e os h·abalhadores. A legislação sindical tuteladora é mantida pela Cons- Fundação de Economia e Estatística, 1983).
tituição de 1946. A assistência à infância, vinculada ao Ministério da Saúde, continua
De 1940 a 1960 os estabelecimentos industriais d e bens de produção nos moldes do Departamento Nacional da C riança, tendo sido ressaltada
aumentam 287,2%, passando a 52.489. Os d e bens de consumo aumentam de novo em 1963, pelo Plano Trienal, elaborado por Celso Furtado.
216, 1% , passando a 57 .850, e o número médio de empregados n a indústria Nesse período democrático inicia-se uma estratégia de preservação da
registra umcrescimentode213,l % chegando,em 1960, a 1.513.713 operários. saúde da criança e de participação da comunidade, e não somente repres-
A população economicamente ativa ocupada na indústria passa de 12,9% a . siva e assis tencialista. Nos anos 60, o DNCr, junto com o UNICEF e FAO
18,6 %; a ocupada em serviços de 19,3 % a 32,2 %; e a ocupada na agricultura (Organização para a Alimentação e a Agricultura) começa a mudar seu
baixa de 67,85 a 49,2%. O programa de metas de Juscelino Kubitschek e a discurso e propõe a criação de Centros de Recreação que deveriam contar
nova política aduaneira estimularan1 a indústria com um programa de in- com a participação da comunidade (Vieira, 1988). Os centros se inscrevem
vestimentos em infraesh·utura, alcançando altos índices de crescimento do num processo político e técnico chamado método de Desenvolvimento
produto real, de 6% no período 1956-1961. (ln: 25 anos de economia brasileira, e Organização de Comunidade, que estimula a criaçã.o de conselhos de
1965, segunda parte). obras sociais, centros sociais rurais, na ótica da descentralização e do
Dentre os direitos dos trabalhadores incluídos na nova Constituição planejamento participativo. Vastos setores da Igreja Católica também se
(art. 157), estão o salário mínimo familiar, (o maior valor real do salário mobilizam para o trabalho comunitário através da ação católica (JAC, JEC,
JIC, JOC, JUC, juventudes agrária, estudantil, independente, operária
na história do país foi de 1952 a 1962), a proibição do trabalho de menores
e universitária católicas), e do MEB (Movimento de Educação de Base)
de 14 anos, a assis tência sanitária e médica ao trabalhador e à gestante, a
(Ammann, 1980).
previdência social. O artigo 164 preceitua que "é obrigatória, em todo ter-
ritório nacional, a assistência à maternidade, à infância e à adolescência. A Há também uma sugestão de plano de assistência ao pré-escolar com
estímulo aos Clubes de Mães, visando-se o desenvolvimento e a partici-
lei instituirá o amparo de famílias de prole numerosa".
pação da comunidade. As creches, apesar das normas de funcionamento
Na Constituição há uma proposta de cidadania industrial ao se tornar
elaboradas pelo governo, são extremamente precárias. Na prática política
o trabalho a conditio juris para se ter acesso aos benefícios sociais, a partir da
combinam-se, assim, critérios higienistas, assistencialistas com outros
contribuição que fazem aos Institutos de Previdência Social que, por sua vez,
voltados para um caráter mais participativo/comunitário/desenvolvi-
são bastante h eterogêneos, com diferenças entre bancários, comerciários,
RIZZINI • PILOTTJ A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 61
60

mentista, expressando a própria divergência e configuração d e forças que A referida Comissão relata que em alg uns casos não há prédios apro-
se formam n o interior do governo. priados, em outros, não há higiene apropriada. Constata, também, em
O crescimento econômico não tern grande impacto nos indicadores várias situações, alimentação inadequada, ensino não convenientemente
sociais. A mortalidade infantil chega à taxa d e 110 por mil. A renda per capita ministrado, utilização de trabalho d e menores no interior da s instituições.
é de300 dólares anuais apesar do alto crescimento do produto interno bruto. Na opinião do relator "a raiz de todos os males está na irregularidade de
Em 1954 a percentagem da população matriculada no ensino primário é de pagamento das mensalidades das crianças intern adas por conta do Estado"
7,9%. No decênio 1950-1960 o incremento da matrícula no curso primário (ibidem, p. 11) incluindo o atraso dos pagamentos, internação de menores
foi de apenas 64%. Em torno de 1950 havia no Brasil um percentual de sem contrato, recomendando-se melhor seleção dos educandários e uma
49,4% de analfabetos entre a população acima de 15 anos. (ln: 25 anos de nova sistemática de contratos, além de pontualidade. Propõe-se a exclusão
economia brasileira) . de nove educandários dos próximos contratos. Setenta e quatro estabeleci-
mentos mantêm alunos por conta do Estado, sendo apenas um que atende
A partir da mobilização dos trabalhadores rurais, o governo Goulart
alunos do SAM. A intermediação de verbas públicas para estabelecimentos
busca formular um. Estatuto do Trabalhador Rural que será aprovado mais
particulares é uma política central de articulação do privado com o público.
tarde, já que o h omem do campo estava excluído dos benefícios sociais dos
trabalhadores urbanos. Também é instituído o salário familia que outorga, por As críticas ao sistema vigente também começam a emergir tanto por
cada filho, um pequeno adicional de salário, através da Previdência Social, parte d e atores governamentais como da sociedade. Alguns juízes passam
cujo projeto foi feito por Franco Montoro em 1963, da Democracia Cristã e a condenar o SAM como fábrica de delinquentes, escolas do crime, lugares
Ministro do Trabalho em 1961 n.o p eríodo parlamentarista. Fica excluído o inadequados. O próprio Supremo Tribunal Federal, assim se pronunciou,
abono para famílias numerosas a quem receber o salário família. (Montoro, na voz do Ministro Ribeiro da Costa: "O Supremo Tribunal Federal, por
1963). Esta política configura uma estratégia de incorporação dos trabalhado- intermédio de seu Presidente, dirigir-se-á em ofício ao Senhor Presidente
res nos benefícios sociais a partir de sua inserção no mercado de trabalho. da República, comunicando-lhe que, nesta data, foi concedido habeas cor-
Para os excluídos da produção e das normas dominantes, considerados pus ao m enor C. M., por ter demonstrado que o SAM não tem condições
suspeitos, perigosos, mantém-se a estratégia de controle da ordem social. Isto n ecessárias para garantir a readaptação dos m enores, m as que, ao contrá-
se manifesta na prática dos juízes de menores que continuam reclamando rio disso, como é notório, e segundo depoimento das autoridades as mais
por recursos, estabelecünentos e vagas, parecendo ver apenas uma solução idôneas, esse estabelecimento tem contribuído para a formação de verda-
paraoproblemadamiséria edainfânciaabandonada:ainternaçãoemins- deiro núcleo de criminosos, motivo por que o Supremo Tribunal Federal
tituições, também fortalecida pelas ações privadas e clientelistas (conforme encarece ao Senhor Presidente da República que determine uma medida
Juiz de fyfenores do DF em 1954, apud Botelho, 1993, p. 60). saneadora conforme Exposição de Motivos do Ministro Milton Campos,
em 20 / 10 / 64, ao anteprojeto de lei que encaminhou ao Congresso N aciona 1
Quanto à relação estatal/privado, as interações entre governo e as ins- _
criando a FUNABEM".
tituições privadas não são d e todo hannoniosas, como revela o Relatório
d a Comissão Especial da Assembleia Legislativa da Guànabara ao visitar As críticas ao SAM advêm também da imprensa e do Parlamento, atra-
estabelecimentos de ensino de internamento de menores. As instituições vés de vários jornalistas e deputados da oposição a Getúlio. Na imprensa
são dentmciadas por desvio de verbas e por receberem per capita em número destaca-se a voz de Odylo Costa, principalmente na revista O Cruzeiro,
superior ao número de crianças que a tendem efetivamente (Assembleia depois que perdera um filho assassinado por um egresso do SAM, com a
Legislativa do Estado da G uanabara, 1962). idade de 15 anos, em 9 de março de 1963, o que causou grande repercussão
62 RIZZINI • PILOTTI
A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS
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nacional.Antes disso, no entanto, pessoas ligadas à Ação SocialArquidicio-


nado p or Raquel de Queiroz, a pedido da ASA, para d ar encaminhamento
cesana (ASA) do Rio de Janeiro e filiadas à UDN se posicionaram contra o ao projeto de extinção do SAM e de criação de um novo órgão. Campos o
SAM com o fito de criticá-lo como s istema desumano, ineficaz e p erverso, envia ao Congresso em 27 de outubro de 1964. O nov o órgão, denominado
b em como com o propósito de fazer oposição a Getúlio Vargas. Maria Celes- Fundação Nacional d o Bem Estar do Menor (FUNABEM), sem subordina-
te Flores da Cunha, presidente do Departamento de Ação Social d a UDN, ção ao Presidente da República e ao M inis tério d a Justiça, é aprovado pelo
em v isita às instituições do SAM, observa superlotação, falta de cuidados, Con gresso em20 de novembro (Lein. 4 .513, de 1/11/1964).
imundície. Em consulta ao Presidente da UDN , este lhe s u gere a elaboração
Segundo Maria Celeste Flores da Cunha, a Lein. 4513 teria sido possível
de uma nova lei para extinguir o SAM (FUNABEM, 1984, p. 11-34).
m esmo " sem a revolução", como foi cham ado o golpe d e 1964 (1984, p. 30).
Por outro lado, o Ministro da Justiça do Governo JK (1956), procura D. Há uma orquestração social, institucional e partidária para se extinguir o
H elder Câmara, d e quem era compadre, p ara encaminhar uma solução para SAM, com focos de resistência no Ministério d a Jus tiça . Os partidos apoiam
o problema do SAM. Em consequência, a ASA, a pedido do bispo, e labora o projeto do governo m ilitai~ mas o momento não er a propício a muitas
um projeto, pronto em 1958, que cria o Conselho Nacional de Menores. Em divergências em virtude da repressão militar. É fundamental notar que a
1960 esse projeto é apresentado n a Câmara dos D eputados por Pedro A leixo mudança de uma estratégia repressiva para uma estratégia integra.tiva e
(UDN). Em m a rço de 1961, Jânio Q u adros orden a que o Mini s tro de Justiça voltada para a família tem um n ovo ordenamento institucional dentro de
no1neie uma comissão para inves tigar o SAM, "cujos resultados formam um governo repressivo que, por sua vez, fará reverter os propósitos edu-
um escândalo n acion al", afirma C unha (p. 18), preconizando a criação de cativos e integrativos do novo órgão.
um novo órgão. O pres idente da Comissão, Paulo Nogueira Filho, tinha A questão edu cacional, em nível m ais geral, foi p olarizada pela dis-
inform ações e contatos com a ASA e a elogia n a exposição do anteprojeto, cussão d a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional com opiniões
assim como Prado K elly (UDN), assessor. Em 1955 Prado Kelly já havia divergentes sobre centralização/ descentralização, m onopólio e liberdade
mandado um projeto ao Con gresso transformando o SAM em Ins tituto d e ensino, obrigatoriedade ou não do ensino. Discutida desde 1948 e com
Nacional de Menores (Projeto n. 561 /55) . vários s ubstitutivos, a lei só é aprovad a em 1960, reconhecendo-se o en-
Em fevereiro d e 1963 João Goula rt cria comissão, presidida pelo sino técnico de grau m é dio. As escolas se estendem às zonas rurais, mas
Diretor do SAM, Samuel Bartlett Jam es, para reformular o ór gão. Bartle~t em 1957 constata-se que cerca de 57,4% d os a lunos rurais permanecem na
procura a ASA, mas a comissão não funciona. Após o assassinato do seu escola menos d e 1,5 anos escolares. Os analfabetos adultos (15 a 69 anos)
filho, Odylo Costa, junto coma ASA, pressionam o Presidente d a República ainda são 50,3% em 1950 e 39,5% em 1960. Os industriais, por sua vez,
para mudança no SAM, de q ue é enca rregado o ministro João Mangabeira. criam o SESJ (Serviço Social d a Indústria) que se destina aos trabalhadores
Este n omeia, em 14 de abril, uma comissão, praticamente indicada pela da indústria, incluindo, dentre suas atividades, a creche e a instrução. Os
ASA, para encaminhar um projeto. No artigo 1° propõe a extinção do SAM empresários d o comércio criam o SESC (Serviço Socia l do Comércio) para
empregados desse setor a partir da Carta da Paz Social, elaborada em maio
e opta-se por uma Fundação para se garantir autonomia ao novo órgão, o
de 1945, em Teresópolis, numa conferência nacional de "representantes das
que não era consenso no Ministério da Justiça, com.o salienta Cunha. Ao m es-
classes produtoras", ou de empresários representantes de suas respectivas
mo tempo, o projeto é encaminhado à Câmara por Eurípedes C ardoso de
associações d.e classe. O Fundo Social, criado p elos em p resários, e p or eles
Menezes (Projeto n . 1.712/64).
administrado, se concretizou através d o SESI e do SESC, sendo de seu
Após o golpe d e 1964, o Ministro da Jus tiça, Milton Campos, é acionado interesse diminuir os conflitos trab alhistas no n ovo contexto político que
p or Prado Kelly e pelo Presiden te Castello Branco que fora, por sua vez, a cio - se iniciaria no pós-guerra.
64 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS
65

O contexto democrático trouxe à tona inúmeros conflitos por salário, Juscelino Kubitschek, dando ênfase à indús tria automobilís tica. O Estado
p or reforma agr ária e p or reforma educacional, entre nacionalistas e de- expande sua atividade n ão só como produtor, mas com o agente canalizador
fensores do capital estrangeiro. Esses conflitos, na visão das elites domi- de recursos financeiros para as empresas. O consumo também se amplia,
n antes, poderiam d esembocar numa p erda de seu poder, do latifúndio, da prov ocando o que foi ch am ad o de "milagre econômico brasileiro" p elo alto
p ossibilidade d e remessa d e lucros para o exterior. As elites e os militares crescimento alcançado d e uma taxa anual de 13,3% en tre 1968 e 1973.
impuseram o regime p arlamentaris ta em. 1961, após a renúncia de Jânio Neste contexto repressivo e d o Regime Militar, a FUNABEM, que se
Q uadros, mas, mediante um plebiscito, João Goulart (vice, que assumira propunha a "assegurar prioridades aos program as que v isem à integra-
a Presidência da República) consegu e a volta do presidencialismo. Em ção do menor na comunidade, através d a assis tência na própria. família
primeiro de abril d e 1964, João Goulart, que apoiava algumas d as temidas e da colocação familiar em lares subs titutos, a apoia r ins tituições que se
reformas, é derrubado por uma junta militar, que assume o poder. aprox imem da v ida fami liar, respeitar o atendimento de cada região",
acaba se moldando à tecnocracia e ao autoritarism o . Em primeiro lugar,
buscan do se config u rar com o um m eio de controle social, cm n ome d a
Autoritarismo e tecnocracia segu ran ça n acional, cuja doutrina implica na " redução ou anulação das
ameaças ou pressões antagônicas d e qualquer origem" (Fragoso, 1975,
D ecorrente do golpe de 1964, o regime militar autoritário e tecnocrá- p. 37-124), e, em segundo lugar, adotando um m odelo tecn ocrático que
tico durou até 1985 com a eleição, embora indire ta, de um presidente civ il, predomina sobre a s inicia tivas que buscavam se a d e quar aos objetivos
mas somente foi sub stituído por nova ordem institucional em 1988, p e la · iniciais . O tecnocratismo tem c01no pressu pos to uma racionalidade ver-
promulgação da Constituição d e 5 de outubro desse mesmo ano. tical, centralizadora, construída com um discurso uniforme em nome da
cientificidade.
A intervenção do Estado se operou d e forma autoritária em todos os
setores da v ida n acion al em base à repressão, à manutenção da ord em , ao A articulação da FUNABEM com as entidades privadas está garantida na
d esmantelamento dos sindicatos e partidos existentes, à prisão dos acusa- própria Lei n . 4513 que assinala, entre suas competências, "p romo ver a
dos de subversão, com consequente tortura e " d esaparecimentos" (assas- articulação entre entidades públicas e privad as", opinar" quanto a sub ven-
sinatos) d e presos políticos. Implanta-se o terror d e Estado, que segun do ções a entidades públkas ou particulares que se dediquem a.o problem a do
Weffort (1984) design a o "desaparecim ento da política pela imposição da m en or", fiscalizar o "cumprimento d e con vênios", "propiciar assistên cia
violência". Sub s titui-se a políticapela r epressão, reina a tecnocracia enquan- técnica a Estad os, Municípios e entidad es públicas ou privadas que aso-
to racionalização e organização da m áquina adminis trativa em função de licitarem" (art. 7º).
objetivos e m e tas fixad os d e cima para b aixo. Os discursos do Presidente da FUNABEM, do médico Mário A lten-
D urante a ditadura cria-se um complexo sócio-industrial (Faleiros, felder, vão se moldando à ideologia da Segurança Nacional (Bazílio, 1985).
1992) que favorece a articulação entre Estado e multinacionais facilitando a No seu discurso de posse, em 18 de maio d e 1965, critica o internam ento,
m edicina de grupo para os operários desses conglomerados em função do "ch am a o reformatório d e deformatório". Salienta, contudo, o prazer, d e
aum.ento da produtividade. O Estado realiza uma intensa relação en.h"e o que su a primeira atuação pública, como Presidente da FUNABEM, tenha
capital multinacional, as empresas estatais e o cap ital privado nacional p ara sido na incorporação de meninos do SAM ao 1º Batalhão de Carros de
ampliar e estimular os investimentos. O capita l multinacional se consolida Comba te, p ois"os oficiais das Forças Arm adas fazem deles h om ens b on s,
n a indústria de transformação para on de já fora atraído d esd e o governo homen s úteis" (FUNABEM, 1984, p. 42).
66 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS
67

Em 1973 o mesm oAltenfelder fala d a política do m en or como "investi- Centros de Recepção e Triagem p ara diagnóstico, dividindo os meninos e
m ento útil, o m ais saudável e promissor" e defende" a interven ção raciona l meninas atendidos em caren ciados, por um lado, e d e condu ta antissocial,
da socie dade em seu próprio processo de d esen volvim ento seja a través d e p or outro. Nas cham adas unidades e d u cacionais comuns são atendidos
planos abrangentes, seja através da organização comunit ária", propondo 2.200 m enores somente no Rio, sendo 2.600 em unidades próprias e 5.300
a preven ção e a ação tecn ocrática contra o processo d e marginalização do se considerada a rede particular (FUNABEM, 1976, p . 39).Jánas unidades
m enor. A marginalização é definida como "afastamento p rogressivo d o d e reeducaçã o, a lgumas implantadas sob a forma d e "unidades lar" para
processo normal d e desenvolvimento" (ln: FUNABEM, Anos 20: 1984). A abrigo de crianças, h á programas de adoção e de colocação familiar.
n ormalidad e se confundiria com a ordem exis tente. A estratégia d.e articulação com entidades p articulares se faz através de
Essa marginalização seria causad a, segundo ele, pela migração, p ela p agamentos d e per capita em convênios com 266 entidades localizadas nos
urbaniz ação e p elo esfacelamento da família e acrescenta que"d entro desse Estados (à exceção d e São P aulo, Rondônia e Amapá) p ara a tcndimento a
sis tema, programas específicos serã o montados para favelas e mocam- 4.530 m enores. Num dos documentos da FUNABEM, elaborado em 1979,
b os, para conjuntos h abitacionais" . Reforça o p oder do Juiz, pois, afirma, a par tir das aná lises d os Estados, afirm a-se qu e "o sistema de con vênios
quando este" der uma sentença de que o menor seja protegido, assistido d e assis tência técnica e financeira é con s iderado o principal instrumento
ou v igiado terá a certeza de uma UN IDADE D O SISTEMA (ênfase do texto d e ação, a través do q u a l a FUNABEM realiza a impla ntação da Política
original) presente no bairro que se encarregará de controlar os elem entos Nacional do Bem-Estar do Menor" (FUNABEM, 1984, p . 281).
de proteção, vigilân cia e educação do jovem em vias de m arginalização e
Deacord ocomrelatórioelaboradopela FUNA BEM(FUNABEM, 1976,
d e assis tir sua família através d e práticas educativas esp eciais" (ibidem,
· p. 111-119) segu em d a dos sobre o atendimento de crian ças e adolescentes,
1976, p. 143).
d esignados então como m enores.
O sísf:ema, como são denominados tanto a política da infância, como
o conjunto d e mecanismos d e repressão, inclusive o esqu ema d e controle 0
M enores atendid os no período de 1966 a 1974
social e político ·(com o terror e a tortura), d everia es tar p resente em to- pela FUNABEM
das as partes, controlando, vigiando, edu cando para que a integração se
processasse d e acordo com o plano racional elaborado p elos tecnocratas. Em convênios de cooperação técnica e financeira: ........... . 46.613
Era preciso, no entanto, contar "com a mobilização de todas as p arcelas No program a nacional de per capita: 46.920
d a sociedade, convergentes para o seu fim " (ibidem, p. 144). Para isto, o No programa d e per capita para egressos do Cen tro
Governo Federal estimula a criação de fundações Estaduais de Bem-Es tar Piloto em SP, MG e RJ ............................................. .. 36.077
do Menor. Em 1973 existem dez fundações estaduais e d u as encontram-se Nos programas preven tivos de m argina lização: .............. 12.962
em organização. D esta forma, vai se d efinindo, de cima p ara baixo, o que
Através de atendimento dire to no centro-piloto
se denomina, então, de " Política Nacional do Bem-Estar do Menor" .
(1965/1973) ............................................................. . 95.086
A prática da FUNABEM, articulando estatal e privado, se concentra n a
Dos qua is foram internad os por determinação judicial: .. 26.736
proposição e assinatura de convênios a partir da r acionalida de impos ta
pelos técnicos, além d e m anter o que foi ch amado d e centro-piloto, ins- E para estudo de caso:.. ......................................................... 4.486
talad o no Rio de Janeiro e que deveria servir de modelo a todo o Brasil 0
Atendimento local das fundações estaduais
(FUNABEM, 1974, 1976). As novas prá ticas implicam na ins talação d e No p eríodo de 1971-1973: ................... .................................. 157.201
68 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 69

Em 1975, a Câmara dos Deputados cria uma CPI cujo título, p arad o- destinados às políticas para a infância estão concen trados no Sudeste (só
xalmente, propõe uma investigação sob re o problema da crian ça e do menor 11,73% dos municípios do Nord este têm verbas específicas para atender
carentes no Brasil, separ an.do os conceitos de crian ça e 1nenor, o que reflete m en ores carenciados ou abandonados) . Mais da metade dos 2.430 órgãos
o precon ceito d a marginalidade (Brasil, Câmara dos Deputados, 1976). Os d e atendimento de m enores está no Sudeste, e o atendimento m édico se
dados da CPI podem ter sido influenciados pelos prefeitos que d esejavam mostra deficiente e conclui que "a ação governamental continuará repre-
obter verbas para seu s municípios. Há necessidade de olhá-los criticamente. sentando uma gota d' água num oceano vasto d e carências se n ão houver
D e acordo com essa CPI, há menores abandonados ou carentes em 87,17% um organismo com a força d e um ministério" (ibidem, p. 49), propondo,
dos municípios, configurando 1.909.570 abandonados e 13.542.508 caren- por último, a atualização do Código de Menores. Em 1968 o Ministro da
tes, sendo a pobreza excessiva a princip al razão alegada p or 90,28% d os Justiça havia solicitado a reformulação do Código ao prof. A lberto Gusmão,
municípios para o abandono. cujo trabalho foi apresentado aos juízes de m enores.
Segundo d ados colhidos entre os prefeitos, em apenas 24,48% d os mu- A preocupação com a "linha preventiva", assinalada nos projetos de
nicípios há verba p ar a o m en or prevista no orçamento e apenas 11,82% dos combate à marginalização também se faz através d e convênios compre-
municípios alegam receber verb as d e órgãos federais ou municipais com feituras, universidades e de m unicípios pólo, em vários Estados. Em 1976
v istas ao m en or. Em 46,87% dos municípios con stata-se a ocorrência d e atos são realizados 60 projetos, além d a manutenção de 12 centros sociais e 11
antissociais praticados ponnenores. Segundo as análises dos question ários projetos do programa estágio .
feitas pela Câmara dos Deputados, em 1974, d en tre as 111.812 ocorrências
As con sh·uções feitas sob orientação da FUNABEM, como a de Brasília,
de "atos antissociais p raticados por menores" n o Brasil levantadas pelos
p ara "reeducação" são verdadeiras p enitenciárias, "com muita ênfase na
m unicípios h ouve: 83% d e furtos; 29,02% d e homicídios ou tentativas de
segurança", como d enuncia o Dr. Promotor e ex-Secretário de Promoção
homicídio; 46,67% de delitos sexuais; e 49,67% de outras ocorrências.
Social de SãoPaulo,João Benedito de Azevedo Marques (1976, p. 24). Mar-
Segundo o censo d e 1970 numa população de 90.139.000 habitantes,
ques enumera que, em 1976, existem em São Paulo, 13 estab elecimentos na
52,9% são m enores de 19 anos. O índice de ocorrências de" atos antissociais
capital e 10 no interior, de administração direta, sendo que d e 1862 a 1934
praticados por menores" por 100.000 h abit antes é d e 120 e por menores d e
quatro prédios foram construídos, d e 1935 a 54 foram conshuídos oi to, entre
19 anos é d e 227, taxa extremamente reduzida.
55 a 65 mais sete e três posteriores a 1975. Sob a gestão do referido Secretário
Apesar da repressão existente, a CPI torna n acion al a questã.o da in- é con struído um núcleo profissionalizante para 900 menores, além de um
fância, tendo um efeito simbólico de denúncia. Divulgado em abril de 1976,
edifício para excepcionais . Estes, em número d e oito mil, representam, na
seu relatório assinala, na introdução, que a CPI d o Menor "está cônscia
época,20% dos m en or es atendidos. Conta com503 con vênios que atendem
das proporções e p ericulosidade d a marginalização", mas n ão pretende
35.269 menores, sendo 12.456 em internatos, 21 .759 em semi-internatos e
ter resolvido esta problemática. E a C PI assinala: "E o mais grave, a taxa d e
1.054 em externatos. Segundo Marques, a atualização dos per capita aumen-
criminalidade vem aumentando nos últimos anos, segundo depoimentos
tou o interesse das obras, promovendo-se maior presen ça d as entidades
prestados por autoridades abalizadas perante esta C PI. A criminalidade
p rivadas no atendimento à criança e ao ad olescente.
provoca a inseguran ça nas grandes cidades brasileiras: assaltos, furtos, se-
questros são crimes mais frequentes, contribuindo inclusive para prejudicar A par d a ação da FUNABEM, articulando o estatal e privado, a estratégia
o desenvolvimento turístico. Se não forem tomadas m edidas preventivas repressiva/assistencialista se manifesta na reformulação d o Código d e 1927.
e d e recuperação dos menores infratores, a vida se tornará insuportável Foi apresentado, em 1974, um proje to de le i do senador Nelson Carneiro
para todos nas grandes cidades b rasileiras". A CPI con stata que os recursos nesse sentido. A Associação Brasileira de Juízes de Menores acompanhou
70 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 71

o projeto, modificou -o, e o 1nesmo foi analisado pelo Executivo no Minis- agravando a situação educacional (26% das crianças de 10 a 14 anos estão
tério da Justiça, "sempre e1n contato com os juízes de menores". O texto fora da escola), e a mortalidade infantil tem um índice de 67,3% em 1974
apresentado "representa o consenso de todas as áreas responsáveis pelo (Centro de Defesa da Q ualidade da Vida, 1979).
atendimento a menores no Brasil", conforme parecer do relator Claudino A situação de m.iséria leva as crianças ao trabalho. No campo, em.
Sales em junho de 1979 (Brasil. Senado Federal, 1984, p . 472) . Segundo o 1976, 1.835.680 dos menores de 14 anos trabalham, enquanto que na zona
relator, a apresentação do texto em 1979 seria uma forma de se comemorar urbana a cifra chega a 697.442, ou seja, 18% das crianças nesta faixa etária.
o ano internacional da criança. Segundo o IBGE, 22,7% da população economicamente ativa em 1976 eram
O novo Código de Menores, promulgado em 10 de outubro de 1979 de p essoas abaixo de 19 anos. Em 1978, de acordo com o PNAD (Pesquisa
(Lei n. 6.697) adota expressamente a doutrina da situação irregular, segun- Nacional por Amostragem de Domicílios), a participação na PEA (Popu-
do a qual "os menores são sujeitos de direito quando se encontrarem em lação Economicamente Ativa) de pessoas de 10 a 17 anos é de 15,6%,sendo
estado de patologia sociat definida legalmente", segundo a expressão do que em 1980, 4,8% de menores entre 10 e 14 anos trabalhavam e 15% entre
juiz Allyrio Cavallieri (1984, p. 85). Nas p alavras do juiz, esta doutrina "é 15 e 19 anos. A renda d esses menores é baixa, como o indica uma pesquisa
consenso da Associação Brasileira de Juízes de Menores, que propôs ao realizada entre 1nenores trabalhadores em 1976, verificando-se que 51,2%
Congresso Nacional o anteprojeto de código" . ganham menos de um salário mínimo (Dal Rosso, Resende, 1986).
O Código de 1979 define como situação irregular: a privação de con- A Constituição de 1967 (art. 158, X) reduz a idade da proibição para o
dições essenciais à subsistência, saúde e instrução, por omissão, ação ou trabafüo até 12 anos, visando a incorporar mais cedo a mão-de-obra ao mer-
irresponsabilidade dos pais ou responsáveis;por ser vítima de maus-tratos; cado de trabalho, reforçando a estratégia de utilização precoce da mão-de-
por perigo morat em razão de exploração ou encontrar-se em atividades -obra infantil. As empresas são obrigadas (Decreto-lei n. 937 de 13 / 10 / 69) a
contrárias aos bons costumes, por privação de representação legat por ministrarem, em cooperação, aprendizagem a seu s trabalhadores menores,
desvio d e conduta ou autoria de infração penal. Assim as condições sociais aos h"abalhadores adultos e seus filhos (art. 170). A Lei n . 6.886, de 1974, define
ficam redu zidas ·à ação dos pais ou do próprio menor, fazendo-se da vítima o aprendiz a partir dos 12 anos de idade. As leis garantem ao aprendiz um
um réu e tornando a questão ainda mais jurídica e assistencial, dando-se ao salário nunca inferior a meio salário mínimo regional na primeira metade da
juiz o poder de decidir sobre o que seja m.elhor para o menor: assistência, jornada e apenas 2/3 de salário múúmo se faz jornada inteira. AFUNABEM
proteção ou vigilância. Na prática, consagra o que vinha fazendo a PUNA- tan.1.bémn.1.antémconvênios com o SENAC eSENAI.A LBA, por sua vez man-
BEM e já assinalado anteriormente. O novo Código, no entanto, facilita a tém convênios para assistência ao pré-escolar a través das chamadas UPPES
a doção, e embora não obrigatório no processo, é previsto o contraditório. ou Unidades de Proteção ao Pré-Escolar, v isando o combate à d esnutrição.
Estas estratégias não alteram, de fato, a situação da criança brasileira. O governo tenta uma reforma educacional (Lei n. 5 .692/71) para
Ao contrário, a s ituação se agrava n o período da ditadura em razão do inh·oduzir o ensino profissional no 2° grau , ficando explícito no Grupo de
arrocho salarial e da concentração brutal de renda. Em 1960 os 20% mais Trabalho de Reforma Un iversitária "que os estudos gerais levam os mais
pobresdetinham3,5%darendae,em1979,2,9%,enquantoqueos20% mais capazes à universidade e os estudos especiais e profissionais predispõem ao
ricos passaram de 54% para 62,8%. Os 10% s ituados n a escala superior de exercício de ocupações úteis, evitando a marginalização dos que encerram a
renda detinham quase a metade da renda em 1979, ou seja, 46 ,8 % (Bonelli, vida escolar ao nível do 2° grau" (Warde, 1977, p. 78). Esta profissionalização
Ramos, 1993). Em 1977, segundo o IBGE, 59% ganhavam até dois salários n ão funcionou na prática, mas mostra uma discriminação em relação aos
mínimos, o que acarreta subalimentação, condições habitacionais precárias, trabalhadores manuais.
72 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 73

Sob a ditadura, a FUNABEM, na avaliação de seus técnicos se torna de um lento e gradual processo de liberalização do controle exercido pelo
uma camisa de força "na conotação da superioridade legal da Instância Estado sobre a sociedade e, principalmente, sobre as massas e organizações
Federal sobre a J.ns tância Estadual", considerando que" o sistema de inter- populares até a reconquista dos direitos de expressão, de greve, de voto, d e
namento do menor e do esquema de segurança montado nas escolas dá a organização. Em 1977 foi possível a oposição lançar, ainda que simbolica-
conotação de instituições fechadas. ln.dica que o Sistema de Atendimento mente, um candidato à eleição indireta à Presidência da República.
privilegia de tal forma as relações menor-Instituição que chega a esquecer A crise econômica significa estagflação, combinação de inflação e
as relações rnenor-sociedade", "havendo um atropelo de competências", recessão. Em 1980 a inflação anual é de 110,2%, em 1985 de 235,1 % e em
que "assume um caráter assistencíalista" e "sem condições de produzir um 1989 de 1.783%. Somente em 1986, com o Plano Cruzado, de mudança da
processo de reeducação", reza um documento da Diretoria de Estudos e moeda e controle de preços e salários, o índice inflacionário cai para 65%,
Normas Técnicas, de 1979 (FUNABEM Anos 20, 1984, p. 264-301). repicando para 415,8% e m 1987. O crescimento do Produto Interno Bruto,
A partir destas considerações e dos dados acima indicados pode-se con- de 9,2% em 1980 cai para - 3,4 % em 1984 com índice zero em 1989. Durante
cluir que a política da ditadura para a infância foi um fracasso. No entanto, esta o Plano Cruzado cresceu 8,3%. A dívida externa bruta passa de 53,8 bilhões
avaliação emergente no momento da chan1ada abertura política se inscreve de dólares em 1980 para 107,5 bilhões de dólares em 1989, provocando
no contexto de urna h·ansição à democracia e de uma passagem do p aradigma verdadeira sangria nas contas nacionais.
corretivo, que predominou nesse e em períodos anteriores, a um paradigma Em abril de 1978 é fechado o Congresso Nacional por 14 dias p ara um
educativo e, mais que isso, de direitos para a criança e o adolescente. pacote de medidas que garantam ao governo uma maioria no Congresso,
A avaliação de fracasso da FUNABEM aparece claramente no Relatório ·coma escolha indireta de senadores (biônicos). Ao mesmo tempo, o pre-
Final d e avaliação daFUNABEM, elaborado pelo Instituto João Pinheiro em sidente Geisel tenta isolar a linha dura das forças armadas. Geisel inicia o
1987, a partir de avaliações estaduais, ao dizer: "A criação da FUNABEM e processo de distensão política.
das Fundações Estaduais de Bem-Estar do Menor influenciou as expectati- O direito de voto para governadores foi reconquistado em 1982 com
vas quanto à emergência de uma política social de bem-estar do menor. Os a reintrodução do multipartidarismo. A cens ura direta a alguns órgãos de
relatórios estaduais nos asseguram quanto ao fracasso dessas expectativas, imprensa cessa em 1978 e uma reforma constitucional assegura que, em
e também a importância de qualificá-lo. Como vimos, o sistema nacional 1979, seriam retirados do presidente os poderes de cassar deputados, sus-
de atendimento ao menor pouco, se tanto, alterou a estrutura de desigual- pender direitos políticos, fechar o Congresso, aposentar funcionários. Na
dade que penaliza a criança e adolescentes de baixa renda, e 1nenos ainda n1es1na em.enda termina-se com a pena de morte, o banilnento e a prisão
elevou os patamares de cidadania desses segmentos. Entretanto, a prática perpétua (na prática o fim do Ato Institucional n. 5, de 1968), mas o chefe
institucional do sistema possibilitou a criação de um corpo técnico crítico ..." de governo ainda seria um militar, o General Figueiredo. A Emenda Cons-
(FUNABEMAnos 20, 1984, p. 43). titucional n. 11 de 13 / 10 /78 que entra em vigor no dia 1ºde janeiro de 1979
cria o estado de emergência "em caso de guerra, hem como para impedir
ou repelir atividades subversivas" (art. 158).
Liberalização e democratização A Igreja Católica apoia as mudanças e a campanha pela anistia mobiliza
a sociedade brasileira possibilitando, em 1979, um perdão aos torturadores
Os anos 80 e iiúcio dos 90 representam uma inflexão política e urna crise e um retorno dos perseguidos políticos à vida pública e a seus postos de tra-
econômica na sociedade brasileira. A inflexão política se produziu através balho. Os trabalhadores de Santo André, São Bernardo e São Caetano (ABC
74 RIZZIN I • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 75

paulista) se mobilizam e fazem greves, a pesar da repressão, começando-se cons tituinte, no entanto, mobiliza tanto os Iobbies de conservadores e de
a gestar um novo partido, o PT, Partido dos Trabalhadores. grandes empres as, como as organizações populares. Os direitos da criança
Em 1984-85, a população e os partidos de oposição saem às ruas para são colocados em evidência por inúmeras organizações, d estacando-se o
impressionantes mobilizações por eleições diretas para presidente da Repú- Movimento Nacional de M eninos e Meninas de Rua (Barbetta, 1993), a
blica que, no entanto, por pressão dos militares, só acontecem em 1989. Em Pastoral do Menor, entidades de direitos humanos, ONGs, que apresentam
1985 há eleição indireta de um presidente civil, pelo Congresso Nacional, emendas para defesa dos direitos d a criança e do adolescente, que refletem
efetuada por meio de articulação de setores oposicionistas com as forças também as dis cussõ es internacionais, consubstanciadas n as Regras de
conservadoras através da Aliança Democrática que reúne o Partido do Beijing (1985), nas Diretrizes de Riad (1988) e na Convenção das Nações
Mov imento Democrático Brasileiro (PMDB) e o Partido da Frente Liberal Unidas sobre os Direitos d a Criança (1989).
(PFL) que indicam os candidatos Tancredo Neves a presidente e José Sarney, Quatro crnendas populares reafirmam o tema dos direi tos da criança e
ex-integrante do partido de sustentação da ditadura, a vice-presidente. Com do adolescente não só no Plenário, mas nas ruas, com a cata de assinaturas
a morte de Tancredo Neves logo após a eleição, assume o governo seu vice, em sua defes a onde se des taca o papel da Igreja Católica, tanto da linha
Sarney, que governou até 1989. Em 1986 implanta o plano econômico do mais tradiciona l como a Mitra do Rio (emenda PE 007) como da CNBB
cruzado que controla a inflação por alguns meses e contribui para eleger (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, emenda PE 0011), mas com
uma grande maioria de governadores do PMDB mas, logo em seguida, a o mesmo conteúdo, com ênfase na "defesa da vida e contra o aborto". A
subida dos preços dispara, provocando grande desgas te no governo. Esse primeira emenda expressa que os "menores (s ic), particularmente os órfãos
período foi denominado por Tancredo Neves de Nova República. · e abandonados, terão direito à proteção especial incluindo também o direito
As eleições de 1989 para presidente da República são vencidas por à educação fundamental e iniciação profissional para auferir os benefícios
Fernando Collor de Mello que se apresenta apoiado por um forte marketing, da atividade econômica fundada no trabalho digno e livre" (Comissão
como caçador de marajás (combate à corrupção e privilégios), vencedor de Sistematização, 1987, p. 10). Em 1987, a CNBB (Conferência Nacional
da inflação e salvador dos descamisados. Lula, do PT, é derrotado, mas dos Bi spos do Brasil) adotou como tema da Campanha da Fraternidade a
obtém 30 milhões de votos. Em 1992 Collor é denunciado por corrupção. questão do menor expressando-a com o documento: "Quem acolhe o me-
Uma grande rn.obilização popular exige sua saída e o Congresso vota o nor a mim acolhe" (Brasília, CNBB, 1987). Há muito já tinha organizado a
impeachment. O vice Itamar Franco assume o governo. Em 1994 elege-se "Pastoral do Menor".
presidente da República Fernando Henrique Cardoso do PSDB (Partido A Comissão Nacional Criança e Constituinte, instituída por Portaria
da Social Democracia Brasileira) em aliança como PFL que indica o Vice I:nterministerial, com vários órgãos do governo e da sociedade, consegue
Marco Maciel e derrota Lula já no primeiro turno. Toma posse em primeiro 1.200.000 assinaturas para sua emenda e, além disso, fez intenso lobby junto
de janeiro de 1995 prometendo, ao mesmo tempo, valorizar a democracia a parlainentares para que se crie a Frente Parlamentar suprapartidária pelos
e os direitos sociais, privatizar as empresas estatais e a previdência social direitos da criança e do adolescente, multiplicando-seno país os fóruns OCA
e reduzir o Estado (Cardoso, 1994). de Defesa da Criança e do Adolescente. 1 Os direitos da criança p erpassam
A partir das lutas e pres sões sociais, e dentro das correlações de for-
ças possíveis, em 1986, o Congresso Nacional funciona também como 1. Teve p ap el imp ortante no suscitamento d o debate sobre defesa desses direito s a iniciativa d a
advogada Lia Junque ira em São Paulo na articulaçã o concreta dessa d efesa através d e um Centro de
Ass embleia Cons tituinte. As forças conservadoras e os militares haviam Defesa do Men or em São Pau lo . Em março d e 1988 difere ntes grupos interessados na d efesa d a criança
vetado a convocação de uma assembleia constituin.te exclusiva. O debate e do a d olescente com o P asto ral do Menor, Movimento N acional de M eninos e M eninas d e Rua, Fren te
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as diferentes áreas, mas ficam bem estabelecidos nos artigos 227,228,229 da número de entidades n ão-governamenta is e com. uma campanha de
Constituição de 1988. Garante-se à criança e ao adolescente, "como dever financiamento estimulada pela Rede Globo de televisão, denominada
do Estado e da sociedade os direitos à vida, à saúde, à educação, ao lazer, à "Criança Esperança".
profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à con- Com a introdução de uma nova contribuição social sobre o fatura-
vivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de mento das empresas, o FINSOCIAL (1982), torna-se possível a ampliação
negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão". A de recursos para o Estado. O governo Sarney com o discurso d e "tudo pelo
inimputabilidade p enalfica d efinida até os 18 anos, e o trabalho proibido até social" cria uma Secretaria de Ação Comw1ilária, vinculada diretamente
a idade de 14 anos, salvo na condição de aprendiz (art. 7°, item XXXIII) . à presidência da República que se volta basicamente para um programa
A crise econômica, n o entanto, agrava a situação da criança. A visibi- de d istribuição de tíquetes de leit e às populações pobres das periferias
lidade da miséria da infância aparece nas ruas destacando-se a figura do das cidades através das próprias associações comunitárias. O programa
Menino e da Menina de Rua, principalmente nas grandes cidades . A urbani- assume um caráter desmobilizador das ações reivindicativas, ao mesmo
zação, aliás, assume uma forma explosiva no país, passando de 31,7 milhões tempo em que relança intervenções populistas, pontuais, clientelistas,
de habitantes urbanos, em 1960, para 80,5 milhões em 1980, ou em temias desvinculadas da cidadania. O antigo programa alimentar veiculado pelo
relativos de 44,7% para 67,6%. As zonas urbanas tiverant um crescimento INAM(InstitutoNacionaldeAssistênciaaMenores),através doPRONAN
anual de 5,2% entre 1960 e 1980 e de 4,4% entre 1970 e 1980, embora o cres- (Program a Nacional de Alimentação e Nutrição), é d esativado (Diniz, 1988).
cimento da população tenha caído de 2,8% entre 1970 /1980 para 1,8% em Implanta-se também um programa de alimentação escolar. A distribuição
1985 / 1990. A migração do campo para a cidade é causada, principalmente, · do leite, acompanhada pelo Projeto Rondon, sofreu várias críticas como
pela expulsão do homem da terra em que trabalha, denominando-se o fenô- exigência de pagamento para inscrição, distribuição de leite aos não neces-
meno, conservadoramente, de"êxodo rural" .Ao 1nesmotempo, aum.enta-se sitados, clientelismo na seleçã.o das famílias, troca dos tíquetes por outros
no campo as relações d e trabalho caracterizadas como "boia fria", volante, alimentos, falta de tíquetes para os cadastrados. As principais críticas ao
diaris ta, intermediadas por terceiros, os chamados" gatos" ou empreiteiros programa de alimentação escolar é a descontinuidade no forn ecimento de
de mão-de-obra diarista para os trabalhos rurais (Martins, 1981). alimentos e a vinculação das compras a grandes empresas. A Lei n . 7.644
O governo d a chamada Nova República (1985 /1989) implanta dife- de 18 de deze mbro de 1987 regulamenta, a atividade de "mãe social"
rentes ações frente à crise, de caráter paliativo e assistencialista, reforçando dentro do sistema de" casas-lares" que abriguem até 10 menores. Segundo
a estratégia de encaminhamento da criança ao trabalho e de clientelismo. a lei a agrupação de "casas-lares" forma uma aldeia assistencial. Este tipo
Ao mesmo tempo observa-se o impulsionamento de projetos alternati- de instituição é implementado pela organização, de base internacional,
vos, principalmente com o apoio do UNICEF, a articulação com grande denominada" Aldeias S.O.S.".
Ao lado desta articulação clientelista, o governo promove um progra-
Nacional de Defesa da Criança, Univers idade Católica de Goiás, Igreja M etodista, Crami, Conússão de ma de encaminhamento de crianças para o trabalho, concedendo isenções aos
Direitos Humanos da Bahia, Centro de Defesa do Menor de Belém, Amapá, Rio de Janeiro, Centro de
empregadores d e suas obrigações para com a Previdência Social, política
Direitos Humanos de Campo Grande, Centro Cu! tural Luís Freire de Pernambuco, Centro de Estudos
daPUC/ SãoPauloeASSEAF,Associaçãode Ex-AlunosdaFUNABEMcriamoFórumDCA(Defesada denominada "Programa Bom Menino" (Lei n. 2.318 de 30/12/86, regu-
Criança e do Adolescente). O encon tro foi estimulado e contou com a participação de Daniel O'Donell lamentada pelo Decreto n. 94.338 de 18/5/87), destinada à "iniciação ao
do Fórum de Defesa da Criança Internacional (DCI), sediado em Genebra. Em 1994 o Fórum é formado
por 46entidades, atuandona ampliação eaplicaçãodos direitos assegurados à criança e ao adolescente.
trabalho do menor assistido com idade de 12 a 18 anos". Para isto cria-se a
Ver rev ista Fór1.1m DCA,n. l , Ilrasília,março de 1993. bolsa de trabalho e obrigação de frequentar escola, devendo as empresas
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com mais de cinco empregados ter 5% de seu pessoal com esta forma de Em 1982 o "sistema recebeu 500 mil menores (termo da época) dos quais
contra to, com jornada máxima de quatro horas e remuneração de meio 6,67% eram infratores, 6% abandonados e 87,3% carentes, mas o orçamento
salário mínimo, sem que gere vínculo empregatício ou encargos previ- da FUNABEM é de apenas 0,002% da arrecadação do tesouro" .
denciários ou do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço) para
as empresas. Justifica-se o programa pela prevenção da criminalidade (" é
melhor trabalhar que estar na criminalidade" passa a ser um slogan repe ti- Os projetos alternativos
do). A operacion alização do programa se faz por comitês municipais que
cadastram empresas e crianças. Em Brasília foram colocados 600 menores No Rio, em 1987, há as experiências de desinternação dos 15 centros do
en.1 37 empresas, inclusive do governo. CRIAM (Cenh·o de Recursos Integrados de Atendimento ao Menor). Em 1985
Através do programa RECRIANÇA, do Ministério da Previdência_ e foram atendidos pela FEEM (Fundação Estadual de Educação do Menor)
Assistência Socia l pretende-se estimular a recreação e a iniciação ao trabalho. 17 mil menores, com 5 .200 internos. As políticas e práticas de internação, na
A seguir mostramos alg umas das estratégias diversificadas implementadas década de 1980, vão sendo confrontadas com políticas e práticas de entendi-
em diferentes regiões, mas de forma a inda ins tável, ao sabor dos apoios e mento direto nas ruas e de redes de trabalho. As mudanças políticas globais
forças políticas, constituindo-se em "programas" d e ação para crianças e e o trabalho de militantes junto aos movimentos sociais vão se re fletindo na
adolescentes, sem garantia de continuidade. ação junto a crianças e adolescentes, então chamada de "projetos alternati-
Em Curitiba, através do PIM (Programa do Irmão Menor) são aten- vos", em confronto com a estratégia de internação e repressão .
didas 4.300 crianças, sendo que os cursos profissionalizantes são voltados A FUNABEM participa do desenvolvimento de projetos alternativos
mais para o artesanato (Zaluar, 1994), com caráter informal. A filosofia do de a tendimento a meninos e1neninas de rua. Esta política é estimulada por
projeto, no entanto, visa oferecer uma perspectiva de iniciação ao trabalho · Marina Bandeira, presidente da FUNABEM, indicada pela Igreja Católica
sem o caráter de obrigação ao trabalho. As crianças buscam o projeto tanto do Rio de Janeiro. Sua proposta reforça a descentralização e a cooperação
por lazer, corno por trabalho (nesse caso, 46%). estado/ sociedade (FUNABEM, 1988), na mesma linha de um documento
Em Goiânia os projetos para m eninos e meninas de rua são integra- anterior elaborado por Terezinha Saraiva. Os projetos são articulados por
dos no "Circuito do Menor de Rua: Centro de Triagem Integrada, Centro um convênio entre o UNICEF, a Secretaria de Assistência Social do Minis-
de Formação de Menores e Centro de Acolhimento Provisório" (Zaluar, tério da Previdência e Assistência Social e a FUNABEM. Desde 1981 estu-
1994). O objetivo é não deixar a criança ao arbítrio da polícia, o que nem dam-se, entre os três órgãos, formas alternativas de a tendimento à criança
sempre acontecia. Ao CETI, 21,7% das crianças foram encaminhadas por na comunidade. Em 1982 são reconhecidas pelo projeto 70 experiências,
"vadiagem"; 14,6% por" suspeita de furto" seguidos de"fuga"; 11,3% como destacando-se, na dinâmica dos projetos, a República do Pequeno Vendedor
"perdidos"; 9 ,8% por "uso de drogas" ;e 8,8% por" furto". O Centro de For- em Belém, Centro Salesiano do Menor em Belo Horizonte, Salão do Encontro
mação tinha o caráter espontâneo e aberto. As escolas profissionalizantes em Betim, Cerâmica Educacional em Ipameri e Centro de Orientação em
são uma propos ta do presidente da FUNABEM, Nelson Aguiar em 1985. São José dos Campos. Em 1990, 230 entidades recebem apoio do UNICEF
Em São Paulo, no governo Montoro, as fugas e as condições da Febem (Faleiros, 1990). Segundo a FUNABEM (1988), em 1988, articulando estatal
são denunciadas (Junqueira, 1986). A Febem tem 10 unidades sendo três e privado, há 3.500 convênios firmados, 1.300 municípios beneficiados, 900
de triagem com 1.300 crianças, sete de permanência com 1.700 crianças e mil menores atendidos, e 19 bilhões de recursos aplicados, atendendo-se
convênios com 107 casas para atendimento de 4.000 crianças (Luppi, 1987). 2.930 crianças e adolescentes em suas unidades próprias.
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Os projetos se desenvolvem. através de organizações não-governamen- para que a lei fosse a provada em tempo recorde, ou seja, menos de dois anos
tais em áreas bastante h eterogêneas como cerâmica, formação profissional, após a promulgação da Constituição em. 5 de outubro de 1988. A direção do
venda de produtos, alfabetização, e ensino religioso, com forte presença CBIA também deu apoio significativo para aprovação da lei.
de atores religiosos. A partir da articulação desses projetos surge o Movi-
mento Nacional de Meninos e Meninas de Rua (MNMIVIR), que realiza
três encontros nacionais (1986, 1989, 1993) em Brasília e que contribuíram OEstatuto da Criança e do Adolescente
significativamente para trazer a questão da política para a infância como
debate nacional (Faleiros et al. 1986, 1992 e 1993). As crianças e adolescentes
O Estatuto da Criança e do Adolescente, de julho de 1990, revoga o
apareceram como sujeitos de direitos, como cidadãos. O movimento, com
Código de Menores de 1979 e a lei de criação da FUNABEM, trazendo
apoio internacional, organiza seu s estatutos, s ua ad:ministração, tendo voz
detalhadamente os direitos da criança e do adolescente já em forma d e
nos fórw1s governamentais e não governamentais sobre a criança. Em 1992,
diretrizes gerais para uma política n essa área. Adota expressamente em
o MNMMR conta com 90 comissões locais estruturadas, 139 núcleos de
seu artigo 1° a Doutrina da Proteção Integral que reconhece a criança e o
base de meninos e de programas, cerca de três mil militantes, e três centros
adolescente como cidadãos; garante a efetivação dos direitos da criança e
de formação para educadores de rua. Há 400 programas de atendimento
do adolescente; estabelece uma articulação do Estado com a sociedade na
ligados ao Movimento (Barbetta, 1993, p. 170).
operacionalização da política para a infância com a criação dos Conselhos
A estratégia de articulação estatal/ privado vem sendo paulatinamente de Direitos, dos Conselhos Tutelares e dos Fundos geridos por esses conse-
complementada por uma ação público/ONGs, onde as organizações não lhos; descentraliza a política através da criação desses conselhos em níveis
governamentais (para alguns, neo-governamentais) vão assumindo um estadual e municipal, estabelecendo que em cada município haverá no
papel público, de terceiro setor, nem estatal, n em privado (Fernandes, mínimo, um conselho tutelar, composto de cinco membros, escolhidos pela
1994), aumentando o espaço público, desde que realmente prestem contas comunidade local, de acordo com a lei municipal; garante à criança a mais
à sociedade, não tenham fins lucrativos e prestem um serviço à população. absoluta prioridade no acesso às políticas sociais; estabelece medidas de
No Brasil, segundo Fernandes (ibidem, p. 70) existiam 1.010 ONGs em prevenção, uma política especial de atendimento, um acesso digno à Justiça
m.eados dos anos 80. Esta estratégia de defesa da cidadania emerge dos com a obrigatoriedade do contraditório. O ECA (Estatuto da Criança e do
movimentos sociais, dos sindicatos e busca consolidar um paradigma de Adolescente) é consoante à Conven ção das Nações Unidas sobre os Direitos
relações entre Estado e sociedade pautado pelo reconhecimento dos direitos da Criança, adotada pela Assembleia Geral da ONU em20/11/1989.
individuais e coletivos, civis, políticos e sociais e garantido pela participação
Logo após tomar posse na Presidência da República, Collor de Mello
da população ou de seus representantes nas decisões sobre o destino geral
encaminha um projeto de reforma administrativa no qual aparece a nova
do povo, assegurando-se a transparência das decisões e o controle socia l
denominação da Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor que passa ter o
da execução das políticas.
nome de CBIA-Fundação Centro Brasileiro para a Infância e Adolescência,
A lém de ter um papel ativo na Constituinte junto com o UNICEF, o
o que é consagrado na Lei n. 8.029 de 12 de abril de 1990 (artigo 13).2
MNMMR contribui para a mobilização da sociedade no sentido de aprovar
e exigir a aplicação do Estatuto da Criança e do Adolescente, juntament e
2. Em carta ao autor Antônio Carlos Gomes da Costa, primeiro presidente do CBIA, assinala que o
com intelectuais, juízes progressistas, promotores, Pastoral do Menor, e sr. John Donohne, do UNICEF, em caráter oficial e os senhores Deodato Rivera (da Frente Nacional de
parlamentares. Vários encontros são realizados, negociações e pressões Defesa dos Direitos da Crian ça), Bruno d a Silveira (Fundação Odebrecht), Dirceu Borges (empresário,
82 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 83

A missão do novo organismo é de coordenar, normatizar e formular de 1992 a ssumindo compromissos n a área da saúd e, da educação e do
políticas já que a execução é feita pelos estados e municípios. Um processo é combate à violência, co1n mna estratégia, ao m enos simbólica, de defesa
desencadeado para a transferência da FUNABEM para estados e municípios da cidadania.
e até junho de 1994 ainda não se h avia completado integralmente. Há re- A Lein. 8.242 que cria o Conselho N aci anal d os Direitos da Criança e do
sistências políticas, problemas corporativos, dificuldades administrativas. Adolescente (CONANDA) é promulga da em 12 de outubro de 1991, m ais
Collor ratifica a convenção da ONU e cria em maio de 1990 um "ministério de um a no após a vigência do ECA, mas a posse dos conselheiros ocorre
da criança", com ministros mirins. No entanto, continua apoiando políticas m ais de mn ano depois da lei, em 16 de d ezembro d e 1992, realizando-se
clientelistas através da LBA, cortando verbas sociais, e adotando a pauta sua primeira reunião de trabalho em 18 de março de 1993 . Em novembro de
d e uma política neoliberal de redução do Estado (Ferre ira, 1993). Em seu 1994 a contece em Brasília a Primeira Conferência Nacional dos Conselheiros
documento oficial o CBIA (1992) se compromete a mudar o conteúdo da de Direitos e Tutelares da Criança e do Adolescente com representantes de
política, os métodos e a gestão para aplicar o Estatuto da Criança e do Ado- todo o país, reforçando-se a estratégia de defesa da cidadania. Os conselheiros
lescente. Apesar do projeto "Minha Gente" da LBA considerar a assistência pugnam por recursos, retaguarda, criação dos fundos junto às prefeituras.
social como direito, na prática favoreceu entidades c01n caráter clientelis ta, Muitos con selhos já realizaram diagnósticos da situação da criança e do
com envolviment o da primeira dama do país em corrupção. Pelo projeto adolescente em seus municípios e começam a cobrar ações específicas para
são enfatizadas as creches, postos de saúde, escolas d e 1ºgrau.O governo implementação do ECA. O controle social dos conselhos sobre as políti-
desenvolve no MEC a construção de grandes conjuntos educacionais de cas municipais pode ser mais ou menos exercido segundo as correlações
1º grau em zonas carentes, denominados CIACs. Estas megaconstruções · de forças dentro dos próprios conselhos. Na sua operacionalização, nos
geraram. grandes polêmicas. Ita1nar Franco manteve o programa com o inúmeros d ebates, nas contribuições teóricas vão se definindo as ftmções
nome de PRONAICA, programa d e atendimento integral à criança. previstas no Estatuto para os conselhos e os fLmdos.
Em outubro de 1991 é lançado um manifesto à nação com 90 assina- A instalação do CONANDArepresenta o coroamento de uma mudança
turas de personalidades de várias entidades governamentais, sindicais, institucional, pois o C onselho vai impulsionar a implantação do ECA, que
patronais, e religiosas, ass umindo responsabilidades pela melhoria do traz uma mudança fundamental nas políticas anteriores relativas à infância.
ensino fundamental e contra a violência contra a criança, constituindo-se A s dificuldades surgem e o clientelismo, a utilização dos conselhos pelos
o "Pacto pela infância ", impulsionado pelo UNICEF, inspirado na Cúpula prefeitos e políticos, o autoritarismo, o uso do público p elo privado não estão
Mundial pela Criança, realizada em Nova York, em setembro de 1990, co1n descartados. Há um forte movimento para se implantar os conselhos d e
a presença do presidente Collor. Em novembro de 1991 inclui-se no referi- direitos e os conselhos tutelares d entro da p erspectiva de municipalização
do pacto o compromisso com a saúde, convidando-se os governadores a e participação do ECA. A té dezembro de 1993, segundo d a dos do CBIA,
participarem do mesmo. O encontro dos governadores se realiz a em maio hav ia em funcionamento 22 Conselhos Estaduais de Direitos da Criança
do Adolescente, 1.808 Conselh os Municipais de Direitos (39,01 % dos mu-
nicípios ) e 806 Conselhos Tutelares (16,74% dos municípios).
dono d a Cheque Cardápio e Editora Columbus), Sebastião Lem e (empresário e líder d a Campanha
Collor em São Paulo) junto com o M.inistro Geraldo Sampaio, de A lagoas, tiveram grande influência Já em 1993, pela Lei 8 .642, de 31 de março, cria-se o Programa Nacional
seja para a consti tuição do CBIA, seja para obter o apoio d o presidente Collor ao ECA. A ntônio Carlos
de A tenção Integral à Crian ça e ao Adolescente (PRONAICA) para integrar
participou d iretamente do convencimento do Ministro Geraldo Sampaio e forneceu a linha d e argu -
mentação e textos levad os ao p residente da República pelo representante do UNICEF e pelo Ministro e articular ações de apoio à criança e ao adolescente, sob a coordenação do
Geraldo Sampaio. Ministério da Educação, buscando um sistema nacional de atenção integral a
84 RIZZIN I • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 85

esta população. Na prática es tá apoiando a construção de Cenh·os de Apoio O mito do trabalho infantil como forma de encaminhamento da criança
Integral à Criança e ao Adolescente (CAICs) em vários municípios a quem na vida ainda se mantém na cultura e nas relações de produção no final
cabe administrar o equipamento fornecido pelo governo federal. de século XX. Há, a partir do ECA, por parte das crianças e adolescentes,
Em janeiro de 1995, o presidente Fernando Henrique Cardoso extingue o direito à profissionalização, à aprendizagem profissional, à proteção ao
o CBIA juntainente com os Ministérios do Bem-Estar Social e da lntegração trabalho com todos os direitos trabalhistas. O Ministério do Trabalho, o
Regional, transferindo para o Ministério da Justiça o acompanhamento da Ministério Público Federal e a Secretaria da Polícia Federal firmaram entre
questão dos direitos da criança e do adolescente. Implanta um Conselho si Termo de Compromisso visai1.do a prevenção, a repressão e a erradicação
da Commüdade Solidária para um programa do mesmo nome que deve de trabalho forçado e trabalho ilegal de crianças e adolescentes.
coordenar as ações no campo social a partir de iniciativas locais e apoio à À violência do trabalho, das condições sociais acrescenta-se a violência
merenda escolar, visando o reforço da política de educação. doméstica e a violência do extermínio (Faleiros, 1993) . Em 1988, segundo
Os equipamentos educacionais e as taxas de escolarização da popula- dados do PNAD, 200 mil crianças e adolescentes declararam-se vítimas de
ção de7 a 14anos aumentam significativamente entre 1960 e 1990, passando violência. Dentre os agressores dos meninos, 55,9% eram agentes conheci-
estas últimas de 36,2% para 86,9%. Ainda assim estão fora da escola 13% dos, assim como 45,1% dos agressores das meninas. Os grupos de extermínio
dos 26.757.300 brasileiros de 7 a 14 anos. No início da década de 90 apenas atuam constantemente. Segundo dados da polícia, citados na CPI do Exter-
5% d as crianças menores de 4 anos têm acesso às creches e apenas 32% das mínio (1992) houve no Brasil 4.611 mortes por extermínio de menores de
de 4 a 6 anos às pré-escolas. A este problema se adicionam os da repetência 17 anos entre 1988 e 1990. A sociedade, o Ministério Público, o Parlamento,
e da evasão escolar. Apenas 20% dos a lunos matriculados na primeira série estão denunciando o fenômeno da violência, buscando :inculpar (ainda que
concluem a 8ª série e somente 45 em mil concluem a 8ª série sem repetência timidamente) os agressores e implanta r un1. sistema d e proteção às vítimas.
(Ministro da Educação, 1994). Muitos entram na escola, mas pouco nela Em novembro de 1993 é elaborada uma proposta de "Programa Nacional
permanecem. As escolas estão com baixa qualidade, os professores mal de Cidadania e de Combate à violência" na II Jornada Contra a Violência
remunerados e a maioria da população sem condições de enviar e manter do Ministério da Justiça com indicação de medidas concretas.
o s filhos na escola. Foram criados a partir de 1995 vários programas muni-
A presença da miséria, da barbárie, do trabalho precoce, da repetência
cipais d e bolsa/ escola (Silva et al., 2004) que desembocaram no programa
convivem na sociedade brasileira com um esforço de parte da sociedade,
Bolsa Família, de 2003.
de parte do Estado para reverter esta situação, configmando-se um país
Os 50% mais pobres detêm apenas 11,2% da renda e se veem, muitas dual onde se conflitam estratégias de clientelismo com as de cidadania, de
vezes,na contingên cia de encaminhar os filhos para o trabalho precoce para
encaminhamento ao trabalho precoce com as de proteção ao h·abalho da
um reforço ou até garantia da renda familiar. Os pequenos trabalhadores,
criança, de violência e de defesa dos direitos.
hoje como no início do século, fazem todo tipo de trabalho, começam cedo,
trabalham duro e ganham pouco. A taxa de atividade das pessoas de 10 a
14 anos é de 12,6% e a de 15 a 17 anos de 46,6%, no Brasil urbano em 1989
(Fausto, Cervini, 1991, p. 230). Em 1990 apenas 32,9% das pessoas ocupa- Os achados da pesquisa
das de 15 a 17 anos possuem carteira assinada. A ocupação de empregada
doméstica ocupa 34,8% das meninas de 10 a 17 anos com um salário médio A história das políticas e da infância, neste trabalho, é vista n a dinâ-
de 0,6 salário mínimo. mica própria das relações entre agentes e forças sociais e políticas que se
86 RIZZINI • PI LOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 87

aglutinaram ou confrontaram em diferentes momentos históricos a partir d) A política de repressão da ditadura militar, apesar dos discursos
da proclamação da Rep-étblica. Trata-se, na realidade, de um processo de integrar a criança na fa1nília, privilegiou a internação e a centralização
contraditório complexo, que não pode ser reduzido a uma linearidade ou tecnocrática, ampliando os convênios como forma de incorporação do
evolução. Des taca-se mais propriamente um embate de questões que vã.o setor privado.
se configurando de acordo ao contexto econômico, às ideias e teorias em e) No processo de transição da ditadura militar à democracia os ques-
movimento, às forças políticas em presença, à forma de Estado em vigor. tionamentos da política para a infância e dopa pel do Esta do e as propostas
Vamos detalhar estas dimensões nos pontos a seguir destacados, esclare- d e movimentos de base expõem claramente o confronto entre uma política
cendo que não podem ser isolados uns dos outros. clientelista estatal / privada e uma política de parceria público /privada em
defesa da cidadania.
f) A Constituição de 1988 define um paradigma dessa relação na p arti-
A relação entre estatal e privado e entre público e privado cipação da população nos Conselhos de Dire itos e Tutelares que vem sendo
implantado de forma diferenciada como um poder de decisão partilhado
entre Estado e sociedade, mas sujeito às correlações de força e à h egemonia
Ao longo do período analisado as relações entre agentes estatais, por-
de grupos ou blocos que defendem uma visão clientelis ta/repressiva ou
tanto com poder legal e capacidade de uso de recursos públicos, estiveram
cidadã/ educativa ao poder local dos prefeitos.
em constante interação com agentes privados, com interesses particulares,
pessoais, religiosos, morais, econômicos, políticos,no processo de definição
Combinação e confrontação de estratégias repressivas, assistencial is tas edefesa
das políticas ou da ausência de políticas para a infância e a adolescência
dos direitos da criança. Os principais são destacados nos pontos seguintes:
pobres. Um modo de relação estatal/privado, próximo do patrimonialis-
mo vem se confrontando com uma relação público/privado/sociedade a) Grupos religiosos, principalmente de congregações, estão presen-
na abertura de espaços públicos para exercício da cidadania. Esta relação tes no controle de asilos, casa de correção, internatos, com. ênfase
para o setor católico. Protestantes, e principalmente espíritas, vêm
pode ser vista de diferentes modos :
ampliando sua atuação.
a) A política asilar e de contenção de ameaças do início da República
b) O movimento higienista, com destaque na Velha República, se
implica cm troca de subvenções estatais a projetos particulares por legiti-
manifesta na defesa da inspeção do corpo e do meio para preservar
mação política e pessoal de figuras do Estado .
a higidez da raça e do indivíduo.
b) A política de controle social dos anos 30 traz em seu bojo maior in-
c) Advogados, juízes, desembargadores, com destaque para a cons-
tervenção do Estado, mas com. a troca da presença de setores privados no
tituição dos tribunais de menores e dos códigos, trazem. propostas
ensino, a introdução do ensino religioso facultativo, as subvenções a obras
e articulam. ações no sentido de controlar as ameaças, a vadiagem,
sociais, e favorecimentos à presença da "benem.erência" privada.
a delinquência de crianças e de intervir no pátrio poder.
c) A política populista no período democrático pulverizou as relações
d) Por meio das Delegacias e órgãos, os agentes policiais se destacam
entre o estatal e o privado em diferentes níveis de governo (federal, estadual,
na repressão à perturbação e à suspeita de perturbação da ordem.
municipal), distribuindo subvenções, elaborando convênios, pagando per
capita com dinheiro público e ao mesmo tempo estimulando, emnívellocal, e) Inúmeros atores sociais, designados como filantropos, se propõem
clubes de mães, creches para integração Estado/ massas. Detectados casos a socorrer o abandono físico e moral, com forte presença de mu-
de corrupção no uso das verbas públicas, e alguns investigados. lheres, primeiras damas e associações filantrópicas.
88 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 89

f) Embora os técnicos institucionais se dividam entre diferentes pers- f) O Estado estimula, em s uas políticas e instituições, o encaminha-
pectivas, boa parte deles se inscrevem nos processos de controle m.ento da criança ao b:abalho subalterno. Exemplos mais flagrantes
burocrático e atuação pedagógica integradora e corretiva. são a baixa de idade para trabalhar na Constituição de 1967 e a
g) O movimento de denúncia, de defesa de direitos, de construção política do "Bom Menino" no governo Sarney.
de alternativas de cidadania, incluindo propostas para a educação g) O Estatuto da Criança e do Adolescente introduz o paradigma de
formal, p ara a edu cação de rua, p ara controle social das políticas, proibição do trabalho infantil, reforça uma política de profissiona-
vão se tornando agentes importantes de pressão para mudança lização e d e proteção ao trabalho juvenil com todos os direitos.
das políticas sociais para a infância. h) Setores do Estado, grupos e movimentos sociais, organismos
h) Os políticos colocam a questão da infância seja no contexto de internacionais como a OIT, se articulam para a erradicação do
interesses mais amplos de d efesa da raça, da nação, da indústria, trabalho infantil.
do liberalismo, seja da política miúda dos interesses particulares
de p equenos grupos e ins tituições . As políticas se estruturam de acordo à correlação de forças e à hegemonia dos
blocos no poder, em cada conjuntura. Sem ser exaustivos, podemos destacar
A questão do trabalho infanta-juvenil sign ifica um processo de verdadeira as conjunturas seguintes:
segregação social com a persistente estratégia, por parte de agentes estatais e pri- a) Na conjuntura de domínio do poder oligárquico/liberal da Ve lha
vados, de encaminhar a criança pobre para o trabalho. República a defesa d a não intervenção do Estado nas ques tões so-
a) As famílias usam o trabalho infantil como estratégia de ampliação ciais implicava num amplo espaço para a ação privada e omissão do
de recursos, divisão do trabalho e até arrimo da casa. Estado. Não deixava, contudo, de intervir na manutenção da ordem
b) A implantação de educação formal para todos foi um fracasso da e na "defesa da moral" mantendo por longo tempo a instituição da
República, pois mesmo ampliando vagas, a partir dos anos 70, a Roda de Expostos para camuflar a ilegitimidade de certos filhos das
evasão e .a repetência fazem do Brasil um dos países com menor elites dominantes. O "in.cógnito" de filiação ainda é mantido pelo
índice d e permanência na escola (4, 5 anos). Código de 1927.
b) Um sistema d e ação estatal vai sendo con struído a partir dos anos
c) O empresariado rural usa com intensidade a mão-de-obra iiúantil
20, do Código de 1927 e se con solida com Vargas, nos anos 30,
e o empresariado industrial defendeu fortemente esse uso nos
compreendendo: um setor assistencial, um setor repressivo /jurídi-
anos 20 e 30, não deixando rnm.ca de fazê-lo.
co/ policial sob a égide do Ministério da Justiça, um setor de saúde,
d) Os asilos e ins tituições reforçaram a formaçã.o de crianças para o um. setor de formação profissional.
trabalho s ubalterno, seja de doméstica para as meninas, seja de
c) No período democrático do pós-guerra o sistema anterior se man-
mão-de-obra semiqualificada para os meninos.
tém articulado a uma relação clientelista e pulverizada Estado/
e) A fiscalização do trabalho infantil é ineficiente, quase inexistente estados/municípios/massas, desenvolvendo-se, ainda que em-
e as burlas à legislação de proteção ao trabalho infanta-juvenil são brionariamente, a participação local na integ ração da população ao
feitas a olhos vistos, constantes e graves, por exemplo, a a usência Estado. As políticas preventivas de doenças infantis se ampliam. A
de carteira de trabalho, pagamento inferior ao salário mínimo e luta p elo ensino público se expressa nos debates pela Lei de Dire-
até trabalho escravo. trizes de Bases d a Educação.
90 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 91

d) Apesar d e a FUNABEM (Fundação Nacional do Bem-Estar do Me- c) A ide ia de integração de marginalizados socia is inspira a atuação
nor) ter nascido d e um movimento de oposição ao sistema repres- técnica em várias instituições estatais e privadas, sendo oficialmente
sivo anterior ela se integra no sistema repressivo e tecnocrático da incorporada pela FUNABEM.
ditadura com um sistem a centralizador que se ramifica nos estados d) A doutrina da situação irregular, considerando as situações de
através das Febems, com a aliança com os Juízes de Menores que abandono e delinquência, isoladas do contexto maior fundamenta
articulam o Código de Menores d e 1979. o código de Menores de 1979.

e) As pressões sociais pela democratização, pela d escentralização e e) A doutrina da proteção integral, da criança corno sujeito de direitos,
pela participação conseguem, n a Constituição d e 1988 e no Estatu- é incorporada pelo Estatuto d e Criança e do Adolescente, signifi-
t o da Criança e do Adolescente de 1990, implantar um s istema de cando a prioridade para a criança e o adolescente e sua visão como
cidadão de todos os direitos e como ser em desenvolvimento.
atendimento e acesso às políticas sociais, de garantias de direitos
e de proteção especial para a criança e o adolescente em níveis fe-
Estas reflexões mostra1n a diversidade de correlações em gue se pode
deral, estadual e municipal. A sociedade se rearticula em relação à
pensar a fonnulação de políticas para a in.fância e a adolescência sem que
questão da infância com organismos de defesa de direitos, projetos se possa reduzi-la a um único fator determinante. Por isso, descartamos
alternativos, movimentos de d enúncia. as perspectivas reducionistas e derivacionistas para considerar o processo
f) O governo federal, em 1995 reduz a atuação da esfera federal em re- mais que o modelo, a história m ais que a estrutura formal, as lutas entre os
lação às políticas para a infância com a extinção do Centro Brasileiro ·agentes e as forças mais que a linearidade ou a sequ ência de projetos. As
da Infância e da Adolescência. O CONANDA continua s ubmetido estratégias que destacamos são questões em conflito.
ao Ministério da Justiça.

É preciso salien ta r, no desenvolvimento da investigação, a influência das Comentário final


ideias, das propostas e debates políticos que envolveram os atores em congressos,
seminários, conferências. Os principais destaques são para os debates e pro- As três dimensões que escolhemos para a análise se fazem presentes
postas que envolveram as questões abaixo enumeradas: ao longo da his tória aqui considerada, ass1.1mindo formas diversas nas
diferentes conjunhiras. A articulação do público com o privado assume as
a) A questão da moral d as famílias e da repressão aos maus costumes,
formas de subvenções, convênios, per capita, descambando, n ão raro para
ao desregramento infantil envolve várias propostas de política na
a corrupção. A política de encaminhamento para o trabalho das crianças
Velha República como as casas de correção, os internamentos, a
e adolescentes pobres é uma constante nos discursos, nas propostas, nas
Roda de Expostos.
práticas,emdiferentesépocas,assumindoasformasdecolônias,patronatos,
b) A questão da periculosidade do caráter e da influência biológica projetos, escolas profissionais, convênios com empresas, no sentido de se
no desenvolvimento infanta-juvenil propicia a discussão, oferta e priorizar mais o trabalho que a escola para as crianças. A combinação d e
implementação de várias propostas de p olíticas de controle social, clientelismo e repressão perpassa não só a relação das instâncias da Fede-
sarútário e repressivo, como vimos as elaboradas por higienistas e ração (União, Estados e Municípios), mas a própria relação do Estado com
a lguns juristas . a sociedade. As crianças pobres são vistas seja corno ameaça, seja corno
92 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 93

"coitadinhos", e passam a ser vistas com o cidadãos apenas com o Estatuto BRlITO, Lemos . Obras completas (assistência a menores - direito penal - ciência
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Um histórico da legislação para a infância no Brasil

Irene Rizzini"

Introdução

"Salvar a criança - eis o lema!"

"Só a criança pode salvar o hom.ern do nosso século"'

Neste texto discutimos a his tória d a legislação referente às crianças e


aos a d olescentes a partir da independ ência do Brasil (1822) até a aprovação

*Titulo inspirado nas palavras deSaul de Gusmão, Juiz de Menores do Distrito Federal, em enh·e-
vista ao jornal A Manhã (27 de out ubro d e 1943). Ao tecer considerações sob re a contribuição do Juízo de
Menores para solucionar o problema da infância d esamparada, afirma g ue uma d as formas assistenciais
é a" socorrista", ou seja"p elo amparo aos que necessitam de internação para seus pupilos por carecerem
de recu rsos econômicos, pela concessão de pensão dealimenloscomo obi-igação irrecorrível dos pais, e
que é mais um passo p ara se transfonnar, definitivamen te, o Pátrio Poder em Pátrio Dever" (Gusmão,
1944, p. 51). Neste texto, a autora optou por man ter a ortografia original dos doc11111entos citados.
** Professora e pesquisadora do Departamento d e Serviço Soei a 1da PU C-Rio, d iretora do CIESPI
(Cent ro Internacional de Estudos e Pesquisas sobre a Infância) e Presidente da rede mundiald e pesquisa
C hildwatch International.
1. Frase atribtúda a Tristão de Ataíde, citada pelo Juiz d e Menores A lberto Mourão Russel. Rela-
tórios. Juízo de Menores do Distrito Federal, 1947 e 1948.
98 RIZZINI • PI LOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 99

d a primeira lei especificamente voltada para os m enores de idade 2 - o Elegemos a história da legis lação e o discurso jurídico com o principais
Código de Menores, d e 1927.3 Este é um período de grandes transforma- ins trumentos d e análise devido à su a relevância para a reflexão que nos
ções políticas, econôrnicas e sociais no país e a criança passa a ter um papel propusem os a realizar. H á cerca d e um século atrás, na passage1n do Impé-
p articularmente importante. É daí que partiremos - d essa" d escoberta" da rio pa ra a República, o s juris tas começavam a sinalizar a n ecessid ade de se
criança, compreendida, ao mesmo tem.po, como problema e solução para o criar u ma legislação esp ecial voltada para os m enores d e idade. Diversos
p aís. Nesta análise, destacaremos as ideias e as práticas lideradas por atores fatores parecem ter contribuído p ara isso: as transformações d a sociedade
d os campos da medicina, da justiça e da assistên cia que funcionaram como d.e então, como a mudança de regime p olítico; a força d o movimento inter-
forças propulsaras para o d esen volv imento desta história . naciona l de reforma do sistema penal, coin cidindo com. a promulgação de
O foco de nossa análise é a crian ça, mas vai m.uito além d ela . Abrange um n ovo Código Penal (1890) e a polê mica revisão constitucional d e 1891,
gerações. Através da criança - d e como a socie d ad e a concebe, a molda e substi t uindo-se as leis produzidas em 1830 e 1824, respectivamente.
regula seu s destin os - apreendem-se certos traços que m arcam a trajetó- A proposta d e se dar um tratamento jurídico diferenciado a crianças e
ria de uma nação. É também uma história d e gerações e d e atribuição de adolescentes aos poucos foi sendo incorporada à legislação, com repercus-
responsabilidades. Q uem deve cuidar da crian ça? Quem detém o poder sões n a esfe ra d.a ação, sendo o Estado chamado a intervir. Por motivos que
sobre a n 1esma? Quem é o responsável, o tutor ou o g uardião? Quais os analis aremos a seguir, a mudança efetiva, na forma d e uma lei específica
papé is da família, da Ig reja e do Estado nes ta história? Tais possibilidades - o Código de Menores - s ó seria concretizada m ais d e duas décadas
d e finem uma certa criança, cuja infância é classificada d e acordo com sua depois, em 1927. Todo este p eríodo, no entanto, é d e grande relevância
origem familiar e sua "herança" social. Assim, os bem nascidos podiam ser para compreendermos a construção social das noções de infância n a época,
crianças e v iver sua infância; os d emais estavam s ujeitos ao aparato jurídi- mas, sobretudo, para as práticas que elas produziram ao longo d e todo o
co-assistencial d estina do a educá-los ou corrigi-los, vistos como "menores século XX.
abandonados ou delinquentes" .
Em se tratando d e le gislação, é a criança-menor que protagoniza esta
histór ia - aquela que necessita de assistência e sobre a qual a sociedade 1. O "recolhimento de creanças orphãs e expostas"4
precisa definir o campo das responsabilidades e das ações - caridade,
A legislação no Brasil Império
filantropia, regulamentação de cunho social ou penal, assistência pública
ou privada. Sobre quem recai a responsabilidade e o que d eve ser feito?
Nos anos que se seguem a o advento d a independência do Brasil, o in-
"Salvar a crian ça é defender a n ação" - foi este o lema que moveu ilustres
teresse jurídico relativo aos menores de idade aparece restrito às discu ssões
brasileiros na passagem do século XIX para o XX, a considerarem a infância
em torno da primeira lei p enal do Império - o Código Criminal de 1830.
como uma "1nagn a causa".

4. A in fância reconhecida como necessitada de a ssis tência era comumentedesignadade "orphã" e


2. Em diferentes períodos históricos, há variações e tárias nas definições de "menm de idade" e
"exposta" . O termo órfão abrangia também criança s que tivessem perdido apenas um d os pais, segundo
de responsabilidade penal. Estas definições serão indicadas quando consideradas pertinentes p ara a
o dicionário de Antonio Maria Cou to, de 1842. Lê-seno Aviso n. 312 de 1859 que" ... a menor, filha d e
com preensão do texto. pai incógnito, e que tem mãi viva , he orphã em face das Leis do Paiz". A criança exposta ou "engeita-
3. Para urna relaçãocornpleta d as leis d esde 1824, acesse no site do CIESPI- Centro Internacional de da" era aquela q ue não a " quizerão receber, e sustentar, ou crim·" (ibid). Mais para o final elo século,
Estudos e Pesquisas sobre a Infância, a BASE LEGIS. Sobre o tema, veja ainda da autora : A criança e a lei no u sa va-se co m freqüência o termo "desvalido", cujo significado seria "aquêlle que não tem valimento
Brasil: revisitando a história (1822-2000) e O século perdido (segunda edição revista, 2008, Cortez Editora). -desgraçado, miserável; e parte de desvaler" (Dicionário de C1111dido de Figueiredo, 1899).
100 íllZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 101

Em termos históricos, esta lei pode ser considerada como um. avanço, pois O Decreto n. 407, de 23 de setembro de 1846. "Dispensando as Leis
até então vigoravam as Ordenações do Reino d e Portugal, cujas medidas de amortisação a favor do Recolhimento de Santa Tl,eresa da Cida-
punitivas foram abolidas por serem consideradas bárbaras. de de São Paulo, e do Convento de Santa Theresa desta Corte."
Apesar da menoridade constituirurn atenuante à pena desde as origens O Decreto n. 994, de 22 de setembro de 1858. "C oncede não só ao
do direito, crianças e jovens eram severamente punidos antes de 1830, sem Hospital de Mis ericórdia da Cidade de São João D 'el Rei quatro
maior discriminação em relação aos delinquentes adultos. 5 Basicamente o loterias para o estabelecimento, e manutenção de hum Recolhi-
que se vai considerar na lei de 1830 é o estabelecimento da responsabilidade m ento de expos tas, mas també m huma loteria á Matriz da Villa de
penal para menores a partir de 14 anos (art. 1O,§ l º), acrescentando que,"se s e Oliveira".
provar que os menores de quatorze annos, que tiverem cornmettido crimes, O Decreto n. 3 .283, de 28 de setembro de 1863, o qual manda" obser-
obraram com discernimento, deverão ser recolhidos as Casas de Correcção, v ar o regulamento que com es te baixa para a admissão de meninas
pelo tempo que ao Juiz parecer, com tanto que o recolhimento não exceda a pobres no C ollegio das Macaubas".
idade de dezas ete annos" (Lei d e 16 de Dezembro de 1830, p. 144).
Considerando-se a época em ques tão, é, de certa 1naneira, surpreen- Aqui p ercebe-se o penetrar da administração das instituições asilares
dente a preocupação com o recolhimento de menores em estabelecimen- religiosas na legislação, através das alianças que se estabeleciam entre a
tos especiais que visassem sua correção, pois não estava ainda em voga a igreja com suas obras de caridade e o governo. A responsabilidade de ze-
discussão sobre a prevalência da educação sobre a punição, o que ocorrerá lar pelos expostos era nitidamente da igreja, que, para tanto, contava com
somente no final do século XIX. subsídios provenientes dos cofres públicos. A legislação reflete, portanto,
Vê-se que a questão penal r eferente aos menores não tinha maior a nítida assoei.ação existente entre as ações do governo e da igreja na esfera
expressão na época. Somente 20 anos mais tarde surgiriam as primeiras política e mes mo no âmbito mais estritamente jurídico. 6
tentativas de se elaborar um regulamento para a "Casa de Correcção". A Outra característica importante da legislação, presente, sobretudo, a
ideia era criar um estabelecimento com previsão de alas s eparadas - uma partir da segunda metade do s éculo XIX, refere-se à preocupação com a
de cunho correciona I para menores delinquentes, mendigos e vadios "con- formação educacional das crianças: leis que tratavam da regulamentação
denm.ados a pris ão com trabalho", e outra para os demais presos destinados do ensino primário e secundário no Mmúcípio da Corte (Decreto n. 630, de
à divisão criminal. 17 de setembro de 1851 e 1.331-A, de 17 de fevereiro de 1854); e um Decreto
que" crea 10 escolas publicas de instrucção primaria, do primeiro grao, no
A tônica da legislação nas primeiras décadas do Brasil Império que
Município da Corte" (5.532, de 24 de janeiro de 1874).
fazem m enção à infância será em torno da preocupação com o II recoThimen-
to de creanças órphãs e expostas" - preocupação fundada na ideologia Tal preocupação já havia sido expressa nos primeiros anos do Império,
cristã de amparar a infância órfã e abandonada. Praticavam-se medidas quando, em 1828, a impren sa retrata agitações nas ruas do Rio de Janeiro
de caráter essencialmente assistencial, lideradas pela iniciativa privada de e surgiam as primeiras medidas de controle da educação. Como resposta,
cunho religioso e caritativo, tais como:
6. C hamou-nos a atenção uma observa ção curiosa d e Aldrovando Fleury Correa , um "Bacharel em
Sciencias Juridica s e Socia is p ela Faculdade de Direito d e São P a ulo", atuante em Piracicaba, inte rior do
5. No direito romano, o "infan s " era equiparado ao louco - o "furiosus" - p ara o s efeitos de estado . Ao tratar d as leis que antecederam o Código de Menores d e 1927, tece o seg uinte comentário
direito (Loureiro, s.d., p. 329-330). As p enas de m orte e de galés foram substituídas pela prisão com em relação à prática jurídica nolmpério : "O menor de dezasete annos es tava sob o arbítrio do julgador,
trabalho (Loureiro, s.d., p . 329-330). segundo o direito comrnumcujas norm as eram dictadas pela Eg reja" (1 928, p. 7).

1
t
102 RIZZIHI • PILOTTI A ARTE OE GOVERHAR CRIAHÇAS 103

a contagem das escolas e professores existentes e o Aviso de 10 de janeiro p róximas décadas, pode-se acompanhar o d elineamento das ideias-base
de 1828, no qual Sua l\1ajestade determinava: "que h aja todo o desvelo na que originarão políticas discriminatórias para as crian ças de acordo com
edu cação religiosa e regularidade de costum.es, como bases principaes da a sua origem social.
boa ordenl da socieda de" (Renault, 1984, p. 132). Dos anos 1850 em diante, começa a tomar corpo na legislação a regula-
O caso das crianças pobres é contemplado nos referidos decretos, como, mentação de m atérias relativas aos escravos e seus filhos. Interessan te que a
p or exemplo, o artigo 57, de 1854: " ... quando em huma parochia, p or sua primeira referência aparece na forma de um Aviso (N.190),em 1852, através
pequena população, falta de recursos, ou qualquer outra circumstância, não do qual o Ministério dos Negócios d a Jus tiça do Rio d e Janeiro declara ao
se reunir numero s uffuciente de alumnos que jus tifique a creação de escola Presidente da Província d e Sã.o Paulo, em resposta à su a solicitação, que as
ou sua continuação, e houver no lugar escola particular b em conceituada, disposições do Código Criminal são " também applicáveis aos escravos meno-
poderá o Inspector Geral, ouvido o Delegado do districto, e com approvação res". Trata-se de uma d eclaração sobre o p ouco ou nenhum. valor do escravo
do Governo, contractar com o professor dessa escola a admissão de alunm.os na sociedade, chegando a s uscitar dúvidas quanto à aplicabilidade da lei.
pobres, mediante hurna gratificação razoa vel". Refere-se, ainda, o decrc to
E porque teria o assunto s ido objeto de um Aviso? Encontramos o
a formas de atender a "menores de 12 annos que vagarem e m qualquer dos
registro de uma passagem curiosa. Ocorreu que a "creoula Ambrosina, de
districtos em tal estado de pobreza ... ", ou a "meninos indigentes". A estes
13 para 14 armos assassinou a mulher do capa taz de seu senhor, Antonio
"se fornecerá ig ualmente vestuario decente e simples, quando seus paes,
tutores, curadores ou pro tectores o não puderem ministrar, justificando Camargo" . Ao que foi respondido que" ... sendo as disposições do art. 10 do
previamente sua indigen cia p erante o Inspect or Geral, por intermedio Codigo C riminal igualmente concebidas em termos geraes, e, além disso,
dos D elegad os dos respectivos dis trictos". Este d ecreto estabeleceu obri- fundadas nos princípios de humanidade, claro estava que erão também
gatoried ade de e nsino para todos os "meninos maiores d e 7 annos sem apllicáveis aos escravos" (p. 187-188).
impedimento physico ou moral", sob pena d e multa (art. 64). No que se refere aos filhos de escravos, a mais importante lei é a de 28
Havia, portanto, incentivo a que se abrissem escolas e pobreza não de setembro de 1871 (Lei n. 2.040), que declarava serem" de condição livre
deveria constituir impedimento a que criança a ela tivesse acesso. C onsta os filhos de mulher escrava qu e nascerem desde a data d est a lei, libertos
no Decreto 630, de 1851, que os requisitos necessários para qualquer pessoa os escravos da Nação e outros, e providencia sobre a criação e tratamento
que se dispusesse a abrir uma escola ou lecion ar eram: " ... requerer licença daquelles filhos menores e sobre a libertação annual de escravos" .
a o Inspector Geral, justificando aptidão, idade maior de v inte e hum annos A lei estipulava obrigações para os senhores dos escravos e para o
e moralidade" (p. 56). governo no tocante à criação dos filhos 1nenores, proibindo que separas-
O peso d eposita do n a quest ão e ducacional nos diversos decre tos pro- sem os filhos menores de 12 anos do pai ou da mãe e prevendo formas de
mulgados em tão curto período é bastante revelador. Se ali estavam sendo recolhiment o para aqueles que fossem abandonados .
fincadas as primeiras 1nedidas para a organização do sistema d e ensino Texto claramente ingênuo da lei, fad ad a ao d esrespeito, um tema que
público, visando o acesso amplo da população,7 tal não ser á a matriz que
seria objeto de inten sa polemica nas décadas seguintes. A lei, conhecida
orientará as políticas sociais que prevalecerão na República. Ao longo das
com o" do ventre livre", estabelecia que a partir de então os filhos de escra-
vos n asceriam libertos(" ingenuos"). No entanto, tal liberdade permanecia
7. Tais escolas não eram destinadas exatamente a todos. O D ecreto n. 1.331-A, de 1854, em seu artigo condicionada à vontade do Senhor, à medida em que este, ao" criá-los" até
69, estabelecia: "Não scraoadmittidos a matricula, nem poderão frequentar as escolas: os meninos que
padecerem moles tias contagiosas; os que n ão tiverem sido vaccinados, e os escravos". os 8 anos de idade, adquiria o direito de u sufruir de seu trabalho até que
104 RIZZINI , PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 105

completassem 21 anos, ou então entregá-los ao Estado, receb endo, neste Dada a importância evidente e imedia ta d a prática médica para avida social
caso, uma indenização. urbana, sua influência foi decisiva . Os conhecimentos médicos referentes
N ão era d e se esp erar, em primeiro lugar, que os legisla dores se posi- ao san eamento e à higien e coletiva eram aplicáveis a todos os segmentos
cion assem contra os Senhores e, muito m en os, que os poderosos d onos de da sociedade, por indivíduos de quais quer classes socia is serem a tingidos
escravos abrisse1n 1n ão de seu s " bens", considerando-se, sobre tudo, que p elas epidemias. Porém, detectadas as principais causas e d ominados
a economia agrícola da época era essencia lmente escravocrata. Manter os os focos das doenças que assolavam a população, não tardaria a emergir
filhos de escravos era certamente um n egócio vantajoso, pois como afirmam n ovas aplicações dos conh ecim entos adquiridos pe1a ch amada m edicina
Lima e Venâncio: "a esmagadora maioria dos proprietários preferiu con - higienista. Este ponto é d e particular interesse para nós sob dois asp ectos:
tinuar a utilizar os ser viços dos filhos d e su as escravas, já que dos 400 mil o primeiro refere-se ao fato de ter sido a família alvo privilegiado d os higie-
ou mais 'ingenuos' registrados até 1885, apenas 118 haviam sido confiados nistas. Era preciso sanear a família para atingir a sociedade como um todo.
ao govern o, o que representa menos de 0,1 %" (1991, p. 66) . E a criança era uma ponte direta de acesso à família. O segundo aspecto diz
Mesmo assim, a n ova dimensão que a lei d e 1871 impôs para a socied ade respeito à correlação de forças que se estabeleceu entre as instâncias médica
brasileira n ão deve ser subestim a d a. No que se refere à mudança d e percep- e jurídica. Voltaremos a este ponto oportw1amente. Por ora vale assinalar
ção d a sociedade em relação à criança, os passos na direção da abolição da que, n ão por a caso, médicos e juris tas debruçaram-se sobre a cria n ça,
escravatura constituíram marco importan.te. Crian.ças, cujos destinos eram produzindo novos saberes que indicavam a consciência da imporância da
traçados n o âmbito restrito das famílias d e seu s donos, tornar-se-iam objeto infância para o ideal de n ação civilizad a almejado p e las elites intelectuais
d e responsabilidade e preocupação por parte do governo. É p ossível que ·qu e dirigiam o país. No que tange a infância, o movimento higienista n ão
esses fatores tenh an.1, inclusive, precipitado a emergên cia de um maior r igor teve expressão significativa no corpo legislativo do período. No entanto,
d a legislação p enal nos anos que se segu iram, pois, a té então, ricos e pobres, e le v iria a contribuir de forma decisiva no sentido d e abrir caminho para
senhores e escravos, ocupavam funções sociais legalm ente delimitadas. que outro movimento - o juríd ico - assumisse papel protagônico jw.to
Para compreender a importante transformação que começava a se d eli- à família, cmno discutiremos adiante.
near neste final de século, é preciso levar em con sideração alguns aspectos d a Os olhares preocupados d os médicos voltaram-se para a criança.
sociedade da época. As rápidas m udanças que se processavam ao longo d a O ra , sabiam eles pela prática e , posteriormente, por estatísticas de âmbito
segunda m e tade do século XIX demandavam d o Estado b rasileiro uma nova internacional, que as mais a ltas taxas de mortalidade ocorriam na infância,
organização das forças p olíticas em ação. Importante lembrar que se tratava sobre tudo no prime iro an o de vida.9
de um país que se urbanizava e caminhava na direçã.o da industrialização,
m as cuja mentalidade era essencia lmente rural-agrária e escravocrata.
por José Murilo de Carvalho em seu livro "Os Bestia lizados" (1987). Há regish"os de crescimento equi-
Nesta conjuntura, marcada p elas transform ações das cidades, onde valente em outras localidades. O Boletim Demográphico do Município da Capita Ide São Pa ulo aponta
se via com temor o crescim.ento e a concentração das populações urbanas, o salto de 26.040 habitantes para 47.697 entre 1.872 e 1886. As causas listadas p a ra explicar o fato são:
"im ig ração, excesso de natalidade sobre a mortalidade e imigrações nacionais" (Bookwalte1~ 1887).
ganhavam particular relevo os conhe cimentos médicos sobre higien e,
9. Dr.José Maria Tei xeira, um dos formandos da Faculdade de Medicina d o Rio de Janeiro cm 1876,
notadamente sobre controle e p revenção de doenças infecto-contagiosas. 8 produ z iu urna tese sobre a m ortalidade infantil nestacapi tal. Em 1888, seu trabalho foi publicado, após
ter sido laureado com um p rêmio pela Academia Brasileira de Medicina. O Dr. Teixeira participou do
Congresso Internacional de H ygiene, em 1878, no qual faz a seguinte citação: "Nas classes abastadas,
8. De acordo com as estatísticas, só no RiodeJaneiro, a população dobrou entre 1872 e 1890, p assando ella (a taxa de mortalidad e ) éde 70 a 80 porl.000 crianças criadas no proprio domicilio, ella, no entanto
de 266 mil habitantes para 522 mil. Os dados são do A nuá rio Estatís tico do Brasil - 1908/1912, citados varia de 240 a 750 e ate 900 por 1.000 crianças assistidas e confiadas a amas mercenárias" (p. 256). Eram
106 RIZZINI • PILOTTI A ARTE OE GOVERNAR CRIANÇAS 107

De urna preocupação claramente geral co1n a infân cia, sob o ponto d e Brasil, as leis refletem a preocupação fundada n a ideologia cristã, no sentido
vista 11.1.é dico, com o objetivo d e se conhecere1n as causas do fenômeno e d e amparar a infân cia desvalida, recolhendo -a em estab elecimentos des-
de evitá-las, surge um interesse p a rticular relativ o às crianças internadas tinados à sua criação. D estacamos que os legisladores se ocuparam com a
em a silos ou "casa dos Expostos" . A1nplamente citada na literatura da regulamentaçã o do en sino, tornando-o obrigatório. Houve in centivo para
época, a prática de expor crian ças através d a "roda" era bas tante conheci- a criação de escolas, buscando-se facilitar o acesso das crianças pobres,
d a . Nestes estabelecunentos, o índice de m ortalidade era extremamente embora a porta de entrada das escolas pennanecess e aberta somente para
elevado, segundo r egistro d e diversas cid a des do país, tendo a ting ido uma parte dela s.
a faixa d e 70% nos anos de 1852 e 1853 n a Casa dos Expostos d o Rio d e Por fim, h á claramente a intenção de se reprimir a delinq uência, as
Janeiro (Te ixeira, 1888). 10 leis penais o atestam . Contudo, parece-nos pelas medid as de então que a
Fundam-se aí as bases da p u ericultura n o Brasil, definida como a d elinquência não ch ega a ser urna ameaça que ultrapassasse o controle das
"ciên cia que trata da higiene fís ica e social da criança " (Gesteira, 1957). autoridades policiais e judiciárias . Como demonstraremos a seguil~ este
Os princípios da puericultura, relacionados à "higien e d a maternidade qua dro sofrera uma mudança s ignificativa na p assagem do séc ulo XIX
e da infância ", têm origem em 111.ovimento nascido na Ingla terra e na p ara o XX e estabelecerá as b ases que definirão o d esenrolar d a traje tória
França no século XVIII sobre " as n oções da conveniente criação humana" jurídico-assistencial que caracterizar á as p róximas décadas.
(Lessa, 1952).
No Brasil, os princípios da "h ygien e infantil" foram amplamente di-
v ulgados por um de seus principais representantes, Dr. Moncorvo Filho, 2. "Creanças abandonadas" e "creanças criminosas"
criador do Instituto d e Proteção e Assistên cia à Infância (1891) e incan sável Passagem para a República
porta-voz d a "causa d a infância", legand o-nos uma obra d e cerca d e 400
publicações en.1. d e fesa da vida e d a saúde. Foi ele um dos m ais contm1.dentes " ... de todos os info rtúnios, o d a infâ ncia ab a ndonada ou cul-
denunciadores do descaso do Bras il em relação ao estado de pobrez a em pada é o mais digno d a nossa solicitud e. Os d oentes, alienados
que v iv ia a população. De forma contundente, ele procurava demons trar e velhos são certamen te carecedores de todo o interesse; m as,
a maior par te desses infelizes é compos ta de miseráveis já
seu s efeitos maléficos sobre a criança, nunca deixando de apontar que, ao
no d eclú1io da vida. O m en or aban donado, ao con trário, vai
afetarem a criança, comprom etia-se o futuro do país. crescer: segundo a educação que receber tornar-se-á um p erigo
Concluindo esta parte da his tória d a legislação para a infância, apon- p ar a os que o cercam, ou um honrado cap az de formar, p or
exemplo, núcleos de homen s de bem" .
t amos que nas primeiras décadas após o advento da indep endência do
Prof. Candido Motta, Deputa do pelo
Estado de São P aulo, 1909.
d ebatidos na época temas relativos ao ti po de cuid ado m ais indicado para as crianças, por e xemplo,
se o leite materno ou ar tificial; se artificial, d e ciue animal e com que tipo de dispositivo (mamadeira
ou diretamente no ub re do animal), bem com o o a tendimento m ais indicado para os expostos, cuja
mortal id ade era elevadíssima - se nos asilos ou por criadei ras externas (Pederneira, 1855; Santos, Os últimos 20 anos do s éculo XIX foram d e inten sa transformação n o
1857; Santos, 1858; Mello, 1859).
cenário político do país, com profundos reflexos na vida social brasileira. As
10. Es tudos r eferentes a o abandono eà assis tência prestad a a crian ças expostas na Europa desde o
período medieval la nçam l uz sobre o terna para o caso d o Brasil. Ver a resp ei to os b elíssimos trabaU10s
n1.udanças ocasionadas pelos esforços no sentido d e erradicar a escravatura
d e Boswel (1988), M olla t (1989) e Kertzer (1993). e, concomitan temente, d e se reestruturar o trabalho livre na sociedade da
108 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 109

época mesclavam-se com o d ebate em torno da mudança de regime político As primeiras duas décadas do século XX constituem o período mais
que estava a caminho e se concretizou em 1889. profícuo da história da legislação brasileira para a infância. É grande o
A profunda dimensãO" de tais fatos emprestou ao país uma agitação número de leis produzidas, na tentativa de regular a situação da infância,
especial. Era uma espécie de renascimento, revestido do sonho de emanci- que passa a ser alvo de inúmeros discursos inflamados nas Assembleias
pação que parecia finalmente concretizar-se. O Brasil firmava-se como uma das Câmaras Estaduais e do Congresso Federal.
nação independente, apesar das fortes amarras à ideologia colonialista tão A afirmação revela que Moraes tinha uma leitura política ainda inco-
entranhada à cultura que se d esenvolvia no país, encabeçada por uma elite mum entre os atores sociais da época e se antecipava ao diagnosticar o já
que se constituía à imagem do colonizador europeu (Sodré, 1984). reconhecido "problema da infância" relacionado ao contexto capitalista.
A legislação da época revela em seu conteúdo a preocupação do país Por outro lado, ela denotava também a procupação dividida por muitos
em torno de um significativo reordenamento político e social. Estávamos com as mudanças de valores morais e seus efeitos sobre a vida familiar e,
às voltas com o florescimento das ideias de identidade nacional, que do- consequentemente, sobre a criança. Veremos que este tipo de preocupação
minariam o país a partir da passagem para o século XX. constituirá uma das tônicas do debate que conduzirá a importantes trans-
formações n o campo da assistência à infância.
É dentro deste contexto que se pode entender o surgimento de uma
A tônica dos discursos é, à primeira vista, de defesa incondicional da
crescenté preocupação coma infância. Contudo, uma preocupação diferente
criança -a" gênese da sociedade", dirá o Senador Lopes Trovão (1902). No
da registrada no Brasil Império. Embora predominasse por algum tempo
entanto, uma leitura atenta revela uma oscilação constante entre a defesa
o enfoque de cwiho religioso e caritativo na ação de assistência à criança, o
da criança e a defesa da sociedade contra essa criança que se torna un1a
Brasil República terá na esfera jurídica o principal catalisador da formulação
am eaça "à ordem pública", como lemos em praticamente todos os decretos
do problema e da busca de soluções para o mesmo.
da época; ou então, como elementos que, entre outros desclassificados da
O final do século XIX marca, a nosso ver, um novo ciclo em relação à sociedade, 'perturbam a ordem, a tranquilidade e a segurança pública"
1

trajetória d a legislação sobre a infância que vimos traçando. Consideran- (Decreto 847, de 11 de outubro de 1890) (Rizzini, 1993). 11
do-se o período anterior, uma outra criança ocupa um lugar de destaque na
"O problema da criança" começa a adquirir uma dimensão política,
história que tem início com o advento da abolição da escravatura, seguido consubstanciada no que muitos denominavam de "ideal republicano" na
da Proclamação da República-uma criança descrita como "um magno época. Não se tratava de ressaltar apenas a importância, mas sim a urgên-
problema". No ano .de 1900, Evaristo de Moraes, juris ta que se destacava cia de se intervir, educando ou corrigindo "os menores' para que estes se 1

n a época por denunciar as péssimas condições em que viviam as crianças h·ansformassem em indivíduos úteis e produtivos para o país, assegurando
recolhidas à Casa de Detenção do Rio de Janeiro, abria seu livro "Creanças a organização moral da sociedade .12
Abandonadas e Creanças C riminosas" com as seguintes palavras:
11.Sobrea ques tão da dualidade na d efesa da criança (percebida como "em perigo") ena defesa da
"Entre os Phenomenos mais apavorantes dos nossos tempos d'agora, deri- sociedade (contra a criança v ista corno "perigosa"), ver: Rizzini, Irene, 1993, 1994. Venho d emonstrando
vando por urna parte da dissolução fanúliar vigente e por outro lado oriundo que a dualidade da criança e da sociedade adquire variadas fei ções em diferentes períodos h istóricos,
da crise econornica que assignala a transformação do regímen capitalistico de acordo com acon tecirnen tos marcantes da vida social e política do país. E que a dualidade permanece
essencialmente a mesma, apesar de profundas mudanças ocorridas no país no presente século, em
- o abandono da infancia apparece a moralistas, a sociologos e a crimi.no-
particular aquelas que se processaram no campo jurídico em relação aos menores de idade.
logos como digi,o de toda a attenção, pelas relações directas que tem com a 12. D e acordo com a terminologia da época,estarei empregando o termo "menor" ,nascido clodis-
criminalidade urbana"(Moraes, 1900, p . 7). curso jurídicoern ascensão eamplamenteutilizado para designarindivíduos quc não tivessematingido
110 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 111

Justiça e assistência: palavras de ordem agitava o meio jurídico era a de uma mudança n a própria conceituação de
'Justiça'. Visava-se uma humanização da Justiça e do sistem.a penitenciário.
Justiça e assistência - uma associação que se firmará nas décadas No rastro deste movimento, foi naturalmente contemplado o caso específico
seguintes, finca suas bases na passagem do século. É impor tante com- da criança. Ganhava força a ideia d e que era necessário "compreender a
preendermos o significado desta associação, cujos reflexos são clara1nente pretensa criminalidade infantil", promovendo o seu afastamento da área
detectáveis no processo que se desenvolveu nas duas primeiras décadas penal. Osman Loureiro refere-se à "radical mudança da opinião pública"
do século XX e que deu origem à criação de uma legislação especial para a da época, num "clima de tolerância", que, "retirando-os (os menores)
infância - o Código de Menores. dos vórtices dos castigos comuns, os levaria para o âmbito de um espírito
Nin g u ém melhor do que o Desembargador Ataulpho de Paiva para tutelar, de proteção e reforma, recuperando-os" (Loureiro, s .d., p. 344). As
nos ajudar a lançar luz sobre o importante 111ovimento internacional que palavras-chave de então eram:profilaxia, educação, recuperação e correção.
revolucionou as concepções vigentes sobre o papel da justiça. Utilizando E a ideia síntese seria: "Salvar o menor: eis o lema que sucedeu a antiga
tern.1.os co1no "o novo Direi.to", "novos horizontes da Justiça" e "o Direito preocupação de castigá-lo" (p. 339).
moderno" em diversos discursos, palestras e artigos que publicou a partir Fervoroso adepto do "Direito moderno", com frequência,Ataulpho de
de 1910, Paiva refere-se às ideias deflagradas em congressos internacionais Paiva lançava mão, em seus discursos e escritos, de exemplos do "mundo
por volta dos anos 1900 e, a partir dai, discute a n ecessidade de reforma da civilizado", como a criação d o primeiro Tribunal para Menores, em Chicago,
justiça para os menores no Brasil. no ano de 1899 e os ousados Conselhos de Proteção à Criança nos países
Paiva defenderá que o aumento da criminalidade infantil era um fato . nórdicos, dos quais participavam pessoas cmnuns de uma determinada
incontestável e que a justiça brasileira precisava de uma reforma. Novos comunidade, já no ano de 1896.
conhecimentos, advindos da sociologia, psicologia, psiquiatria e antropo- Homem público, que ocupou importantes cargos como jurista no
logia criminal deveriam ser incorporados para se levar em conta os vários Rio de Janeiro, Paiva foi um insistente defensor do movimento que visava
fatores que exerciam influência sobre um indivíduo que cometia um crime. organizar a assistência pública e a beneficência privada. O te ma lhe era
Em artigo publicado no Jornal do Commercio, em 1911, intitulado"ANova bem conhecido, tendo sido responsável pela execução do levantamento
Justiça. Os Tribunaes para Menores", Ataulpho de Paiva discorre sobre das estatísticas sobre a assistência pública e privada no Rio de Janeiro, por
as cau sas da delinquência juvenil, ressaltando "a acção nefasta do mau determinação do Prefeito Pereira Passos (Decreto 441, de 26 de junho de
meio social, com as s uas perniciosas suggestoes e a respectiva ausencia de 1903), com o objetivo de organizar as bases do "Officio Central de Assis-
educação .. .". "O antigo Juiz penal", dirá ele, num dos artigos que publica tência no Districto Federal" .13
em 1916, "somente tinha a preoccupação de capitular o delicto e applicara Como homem de sua época, Paiva foi influenciado por ideias positi-
respectiva pena ao caso occorrente. Nada mais improprio nem menos apto vistas incorporadas pela elite intelectual à qual pertencia. Em conferência
para o exercício do moderno papel da Justiça" (Paiva, 1911, p. 70). realizada na Biblioteca Nacional no ano de 1913, defenderá que: "Em nome
Que ideias seriam estas a provocar mudanças tidas como drásticas da doutrina e da experiência contemporaneas reclamava-se para a assistên-
num setor tão conservador quando a justiça penal? A proposta maior que cia publica uma classificação jurídica entre os factores de civilização e de

a maioridade penal e civil, variando de acordo com a legislação v igente. Embora em termos jurídicos 13. A taulpho de Paiva foi presidente da Liga Brasileira Contra a Tuberculose durante cerca de 20
"menor" designe qualquer indivíduo menor de idade, o termo foi sendo associado aos segmentos anos; criou inúmeras insti tuições e campanhas públicas e chegou a ser M embro da Academia Brasileira
empobrecidos e marginalizados da sociedade. Ver a respeito: Rizzini, T.rma (1993). d e Letras.
112 RIZZINI • PILOTTI f'< ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 113

saneamento moral do meio social". Para em. seguida explicar que seria essa justam.ente em momento fértil, dado o contexto político acima assinalado,
uma "transição do regimen de beneficencia espontanea para a philanthro- o tema foi objeto de regulamentações e debates, que se estenderam até a
pia systematizada" (p. 25). "A assistência d outrinaria e educativa tomou con solidação d as leis de assistência e proteção aos menores, no an o de
lugar e posição", dizia ele. " A execução positiva do methodo, d a ordem e 1927 . Embor a o debate u ltrap assasse em muito os limites da Justiça, ao ter
da disciplina passou a ser o grande princípio" (p. 105). abraçado várias outras áreas d o conhecimento, era perceptível a liderança
Ainda na conferência d e 1913, defende a criação imediata dos Tribunais dos juristas. Estes se associaram às forças policiais, aos setores políticos, às
para Menores, fazendo wnapelo público ao Ministro da Justiça, Dr. H ercula- cruzadas médicas e às associações caritativas e filantrópicas . Promoviam
no de Freitas: "Um simples movimento de sua acção, do seu espírito, pode deb a tes, publicavam e estabeleciam alianças em várias arenas: no Congresso
fazer incorporar ao nosso p atrim.onio judicia ria mais um tribm1al que d ará Federal, n as Câmaras dos Deputa dos, nos jornais, n as sedes das "Ligas de
esplen dm~ refulgência e lustre a nossa nacionalidade e a nossa Justiça" (p. 29) . Beneficência Pública" e associações filantrópicas, nas universidades e n os
Relembra o impacto causado, quando, em.1911, afirmou em artigo publicado congressos acadêmicos de âmbito internacion al. 14
p ela impren sa: "No Brasil, d eixae que eu diga com verdadeira lastima, o Con- A infância foi nitidamente "judicializada" n este período. Decorre daí a
gresso Legislativo nao se apercebeu ainda d a importância do assmnpto ...". popularização da categoria jurídica "m en or", comumente empregad a nos
Apelando para a con sciência n acional e até mesmo p ara o p ânico, debates da época . O termo "menor", para designar a criança abandonada,
afirmava:" ... p od e m esmo dizer-se, sem. exaggero, que nunca a sociedade desvalida, delinquente, v iciosa, entre outras, foi naturalmente incorporado
teve d eante de si questão mais seria e mais grave para a s ua segurança e na linguagem, para além do círculo jurídico.
tranquilidad e " (Paiva, 1913, p. 67). Paiva mencionava países que, na época, Não foi um fato passageiro. A ob servação acima sintetiza toda uma
já tratavam de organizar um código especial para crianças. era da história da assistência à infân cia n o Brasil, que perdurara a té fins do
As palavras a qui citadas estavam nas bocas de mui tos e, de fato, iriam século XX. Quais teriam sido alguns dos primeiros sinais d es ta era?
se concretizar ao longo da década de 1920, passado o impacto maior da
Guerra Mundial deflagrada pouco tempo d epois da citada conferência .
Nas câmaras municipais e est aduais, particularmente do Rio de Janeiro e A "repressão da ociosidade"
de São Paulo, corriam projetos e circulavam debates. Oclirna estava criado.
Vejamos o que refletirão as leis propostas n este p eríodo. Estávamos n o ano de 1888; ano em que, a 13 de maio, a princesa regente
assinava a Lei n . 3.353, declarando extinta a escravidão n o Brasil. Anotam-
bém em que o p aís se dividia no inadiável confronto entre m onarquistas e
A lei e o debate: rumo a uma legislação especial para menores republicanos. Neste m esmo ano, a Corn.issã.o de Constituição e Legislação

A história da legislação para a infância toma novos rumos . O país 14. Sobre o rnovimen to ocorrido em pr incípios do século XX, d e questionam ento da caridade (acusa-
acompanhava o d ebate internacional e parecia convencido da necessidade da d e promover a misér ia) e a ascensão d a filan t ropia (assistência científica, visando à reinteg ração
social), v er Rizzini, Irma, 1993, p . 61. Sobre as Ligas, d es tacava m-se n a época: Liga Brasileira contra
de "salvar a criança". Justifica-se, assim a criação d e uma intrinca da rede a Tubercu lose, ftmdada em 1990, h oje Fundação A taulpho d e Paiva e a Liga Brasileira de Hygienc
de medidas jurídico-sociais. Mental, reconhecida de utilidade pública pelo D ecreto n. 4.778, de 27 de dezembro de 1923. A s Ligas
reuniam grande número de personagens importantes, div ididos entre sócios fund adores, honorários e
Tendo como ponto d e partida um vasto campo d e ação que se des- beneméritos e exeréiam a tividades d e p revenção, ação d ireta, planejam ento de prog ram as, divulgação
cortinava para um jurista n a área do direito criminal relativo à infância, (campanhas), estudo e publicação.
114 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 115

do Paço da Cân,ara dos Deputados debruçava-se sobre o Projeto n. 33-A, drásticas p ara impedir o que claramente constituía um incômodo e uma
elaborado pelo então Ministro da Justiça e Negócios Interiores, o Sr. Conse- ameaça. As leis da época fazem m enção à manutenção da ordem pública
II
lheiro Ferreira Vianna, com a missão de preparar um parecer sobre o projeto e procura1n coibir ações que ofendam os bons costumes, a tranquilidade
"Repressão da Ociosidade". Este fantástico documento marca o início d e um p ública e a paz das famílias".
domínio explícito da ação jurídica sobre a infância. Como demonstraremos, Em seu livro "Os Bestializados", José Murilo de Carvalho aponta que
nele se encontram os p rincipais elementos que caracterizarão a traje tória havia no Rio de Janeiro toda uma população que poderia ser comparada
seguida nas décadas seguintes. às chamadas classes perigosas ou potencialmente perigosas:" ... ladrões,
Em suas palavras iniciais, a Comissão esclarece que "o pensam.e nto prostitutas, malandros, desertores do Exército, da Marinha e dos navios
capital do Projeto é a repressão da ociosidade e, parallelamente, a educação estrangeiros, ciganos, ambulantes, trapaceiros, criados, serventes de repar-
da infância culpada e o amparo da velhice invalida e indigente". O proje to tições públicas, ratoeiras, recebedores de bondes, engraxates, carroceiros,
tem como proposta a "instituição dos termos de bem viver, transplantada floristas, bicheiros, jogadores, receptadores, pivetes".16 Acrescenta, ainda,
do direito inglez" . Termos estes impostos por lei, com previsão para as Carvalho que, em observação feita por Evaristo de Moraes em 1892, h avia
formas de "correcção dos infractores". Segundo os membros da referida na capital "gente desocupada em grande quantidade, sendo notável o
Comissão, o projeto não traria inovações radicais; apenas reafirmaria as número de menores abandonados" (1987, p. 18). Em termos de legislação,
disposições já consagradas pela legislação" ... si bem que, até o presente, há inúmeras referências condenando a presença de crianças nas ruas, sen-
quasi infecundas nos seus resultados." do a mais notável delas aquela sobre "como se deve proceder quanto aos
Muitos outros projetos serão debatidos em diferentes comissões com ·menores vagabundos" (Avisos de 1885 e 1892).
a mesma finalidade: revitalizar itens já incluídos na legislação, na tentativa Entende-se a preocupação em reprimir a ociosidade como parte ine-
d e forçar o cumprimento da lei. Corno veremos, alguns destes itens de fato vitável do processo de transformação das relações socioeconômicas neste
serv irão de ins frumento para o estabelecimento de medidas previstas em período de transição para a ordem capitalista. Abolida a escravatura, como
lei, porém não implementadas. Exemplo disso é a criação de "instituições fazer trabalhar voluntariamente o homen, "livre", fosse ele ex-escravo ou
correcionaes", regulamentada pelo Código Criminal de 1830, com o obje- imigrante? No entender d e Sidney Chalhoub (1986), a questão que se colo-
tivo de recolher menores delinquentes, mas que permaneceu no plano da cava era a consfrução de uma nova ideologia d e trabalho, na qual o conceito
acirrada discussão pelo século XX a dentro. d e trabalho" ... se reveste de uma roupagem dignificadora e civilizadora ... ",
Como explicar o empenho pela" repressão da ociosidade"? Depreende- que viria" ... inclusive, despertar o nosso sentimento de 'nacionalidade',
se pela documentação literária, jornalística e jurídica da época, que havia superar a ' preguiça' e a 'rotina' associadas a uma sociedade colonial, e abrir
toda uma população habitualmente vagando pelas vias públicas.15 E que, as portas do país à livre entrada dos costumes civilizados - e do capital
embora proibido por lei, era chegado o momento de irnpor medidas mais - das nações europeias mais avançadas" 17 (p. 29).

15.AfirmaCaioPrado Jr. em seu célebre livroFormaçííodoBrasil Contemporâneo:"O fato é que vai se 16. O termo "pivelte" já era corrente no inicio do século, p elo m enos no vocabulá rio utilizado no
avolumando uma massa de "desenraizados" no país, produto da enorme distância que historicamente Rio de Janeiro, como indica João do Rio, em seu livro" AAlma Encantadora das Ruas". Diz ele:" A hora
sempre separou as classes dominantes das classes p opulares. "Entre estas duas cntego,-ias (senlwres e da n o ite quando cheguei à delegacia, a autoridade ordenava uma caça aos pivettes, pobres garotos
escravos) nitidament e definidas e entrosadas na obra da colonizaçiio, comprime-se o número, q11e rni nv11/tando sem te to ... " (Rio, 1987, p. 119).
com o tempo, dos desclassificndos, dos inúteis e inadaptados; indivíduos de ocupações mais 011 menos incertas e 17. Segundo Chalhoub, "A utilidade do projeto (de Repressão da Ociosidade de 1888) foi votada
alea tórias ou sem ocupaçiio alguma".(] 957, p. 279-280) quase que unanimemente pela Câmara, sendo que muitos de putados o viam como' de salvação pública'
116 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 117

As leis da época invaríavelmente fazíam menção à manutenção da or- No que se refere aos dispositivos relativos à infância, o com.entário
dem pública e procuravam coibir ações que ofendessem"os bons costumes, a proced e. Surpreende o endurecimento da lei em relação ao Código Criminal
tranquilidade pública e a paz das famílias" . O Projeto 33-Afazía exatamente de 1830, ao rebaixar a idade penal de 14 para 9 anos, numa época de franco
a apologia do trabalho como solução para todas as distorções da sociedade, debate sobre a prevalência da educação sobre a punição para a criança. Se-
sobretudo as morais. A defesa é condizente com o momento histórico e vai guem as palavras de Galdino Siqueira, um jurista cujas ideias eram muito
girar em torno do argumento de que a decretação de providências legisla- respeitadas, em seu "Tratado de D ireito Penal Brazileiro": "O Código não
tivas "tendentes à organização do trabalho, pela adopção do princípio da d á solução integral ao problema da criminalidade dos menores, quando,
repressão da ociosidade - constitue desde muito urna aspiração nacional. entretanto, na época de sua promulgação, a sciencia, pelo estudo do homem
Com a transformação, porém, que acaba de iniciar o novo regímen social, essa e do meio social, já tinha trazido contribuições estimáveis, e o exemplo de
necessidade tornou-se palpitante, imprescindível, inadiavel (1888, p. 67). 11
outras nações, actualizando medidas adequ adas, habilitavam o legislador
a estatuir com efficacia e proveito no melindroso e grave assumpto" (ln:
Corrêa, 1928, p. 12).
Organização da Justiça - organização da Assistência
O tema não será objeto de maiores considerações jurídicas até 1893,
Logo nos primeiros meses da República, ainda durante o Governo Pro- quando o Decreto 145 "autorisa o Governo a fundar uma colonia correc-
v isório, foram d ecretadas algumas medidas legislativas voltadas à infância cional n o proprio nacional Fazenda da Boa Vista, existente na Parahyba do
desvalida. Foram elas, a criação do "logar de juiz municipal e de orphaos" Sul, ou onde melhor lhe parecer e dá outras providências". O decreto traz
em divers os estados (Rio de Janeiro, São Paulo,Minas Gerais, Bahia e Piauí) à tona a velha ques tão, já prevista em 1830, de separar jovens delinquentes
e o Decreto 439 (1890) sobre "as bases para a organização da assistência à de adultos nas prisões e, em última instância, toda uma discussão sobre a
infância desvalida", através do qual o governo previa apoio a duas insti- prevenção e a recuperação da criminalidade infantil.
tuições já existentes, até que se criassem outras, destinadas a crianças órfãs, A importância do decreto está no fato de que este abriu caminho para
abandonadas e desvalidas. A legislação indicava a preocupação presente outras determinações, que tardariam ainda alguns anos. Aind a no decor-
com a criança atingida pela pobreza, enfatizando-se as más consequências rer da década de 1890, podia-se ouvir o manifesto de alguns republicanos
no futuro (para ela e para o país)-vadiagem e criminalidade. Observemos idealistas, que não conseguiam mitigar a decepção diante dos prim.eiros
o rumo seguido pela legislação. rumos que a política ia tomando. O Senador Lopes Trovão foi um deles,
O novo Código Penal brasileiro foi promulgado em outubro de 1890 e de particular interesse para nós. Em discurso proferido n o Senado, no dia
veio a constituir o principal marco jurídico dos primeiros tempos da Repú- 11 de setembro de 1896, Lopes Trovão refere-se à criança como a "genese
blica. Uma crítica posteriormente feita ao Código será justamente a pressa da humanidade". Diz ser "urgente tratar do aperfeiçoamento moral... dos
com que foi elaborado, sem que se tivesse a oportunidade d e discutir as futuros defensores da Patria Republicana". Anos depois, em 1902, visivel-
questões relevantes para o país. 18 mente mais impaciente, Trovão reflete sobre o m om ento em que v ivia: " ...
o presente deve ser da reorganização social" 1 pois que seria um "momento
para o Império do Brasil". Para ele, "havia um consenso entre os deputados de que a Abolição trazia
consigo os contornos do fantasma da desordem" (1986, p. 41) . resol ver a golpes de d ecretos velhos problemas, estacando, porém, muitas vezes, diante da magestade
18. Segundo Corl'êa, "Proclamada a república federativa como fórma d e governo, em 1889, em do passado, representada pela sabedoria jurídica das leis, onde brilhava a intellígencia culta e liberal
s ubstituição á monarchia constitucional, os r epublicanos legislaram apressadamente, procurando dos estadistas do Império" (1928, p. 9--10).

~
118 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 119

d e dissolução m oral". Afirnrn ser preciso tratar das questões re lativas aos de modo cabal que em um periodo de treze annos a d elinquência juvenil
11
projetos gue ele v i11ha apresentando: mn sobre alcoolismo, outro sobre
••• tornara-se seis vezes mais intensa que a criminalidade dos adultos. Nos
m e ndigos, outro sobre prostituição, outro sobre menores, e outro sobre co- i: demais paizes civilizados n ão é menos verdadeira e alarmante a impressão
lonias correccionaes, ou de precaução, porque dizem com a moral pública que produz esse torm.entoso movimento, tão cheio de perigos e appreh en-
e com o futuro das crianças ...", cuja situação d escreve, "alludindo ao que t~ sões" (Paiv a, 1916, p . 67).
se passa até em praça pública n a Capital" (1902, p . 564-565). Referindo-se à criminalidade entre os m enores, A taulpho de Paiva
O debate e as le is seguiam paralelamente-voltados, por um la do, à afirmava: "Já no C ongresso P eniten ciario d e Bruxellas, em 1900, o Sr. De
infância d esvalida e, por outro, ao s delinquentes. O D r. Moncorvo Filho, La to m~ seu eminente presidente, d eclarava, com convicção rn.ais profun-
m édico respeitado e com grande influên cia em seu meio, criav a em 1899, o da, que era preciso fazer echoar em todos os cantos d o mundo um grito
Ins tituto de Assistência e Proteção à Infância no Rio de Jan e iro - institui- bem significativo afim d e combater, pela santa confraternidade, p ela d oce
ção gue foi lentam ente sendo reconhecida e p asso u a receb er subsídio do compaixão, a p eior d as miserias human as" (1916, p . 68). No an o de 1907, a
II

governo a partir de 1904 (Decreto n. 1.154). O Instituto em questão d esti- Revista Forense publicava em seu 8º volurne, um artigo intitulado Crimi-
n ava-se a" amparar e proteger a infância n ecessitada" (art. 1º) . Tratava-se nalidade Infantil e A ssistência Penal", no qual se lê logo em s u as primeiras
de mn ptojeto médico, assisten cial e filantrópico, que visava proteger as linhas : "Apavorados com o crescer assustador da crimina lidade infantil,
o s paizes civilisados procuram resguardar-se contra o m al. O carcere, a
crian ças pobres p rodigalizando-lhes todos os recursos modernos da
11
•••

miseria, o morbus, a sociedade, golpham para a sar geta e as p enitenciarias,


therapeutica e da hygiene".
uma verdadeira phalange d e 'candidatos ao crime'" (Lobo, p. 23).
D e tectamos, n esta mesm a época, uma p reocupação crescente com a
A legislação parece refletir este temor, pois se intensificam as tenta-
criminalidade infantil. Ao que parece, a preocup ação era internacional,
tivas de regularizar a situação do recoll,in1ento de crianças n as colônias
sendo obj eto d e considerações especiais nos congressos sobre Direito
correcionais. Exemplo disso é a Lei n. 947, d e 29 d e dezembro de 1902, que
Criminal. 19
" Reform a o Serviço Policial no Dis tricto Federal", em cujo texto lê-se : "Fica
O aumento da criminalidade entre os "menores" era d escrito como um. o Poder Executivo autorizado a crear uma ou 1nais colonias correccionaes
fato consumado. O Jornal do Commercio publicava em 1911: "A eloquência para rehabilitação, pelo trabalho e instrucção, dos mendigos v alidos, va-
brutal das cifras a ttes ta o formidavel augmento da criminalidade entre os gabundos ou vadios, capoeiras e m enores v iciosos que forem en contrados
menores. A França estudou devidamente o assumpto, conseguindo provar e como taes julgados no Districto Federal".
O tema atingiu a opinião pública, em e pisódio amplam ente d ocumen-
19. O Instituto de A ssistência e P rotecção à Infância no Rio de Janeiro tem sua trajetória docum en- tado pela imprensa. Ao que tudo indica, o Dr. Moncorvo Filho foi o prota-
tada por Moncorvo Filho d esde s ua fundação em 1899 até a criação do ' Departamento da C'reança n o
gonista desta história. A seu convite, o jurista Evaristo d e Moraes, figura
Brasil', fundado pelo próprio em março de 1919 e reconhec ido d e Utilidade Pública M unicipal p elo
Decreto 2340, de 18 de novembro de 1920. Uma espécie de filial do Instituto foi criada em Niteró i pelo pública já com certa notoriedade, faz uma visita à Casa de Detenção da
D r. A lm ir Madeira em 1915, com o apoio do Dr. Mon corvo Filho. Almir Madeira, m é dico muito a tivo capital. A v isita ocorre em outubro de 1898.
n os círculos q ue se constituíram em torno da assistência à infância n o início do século, d escreve seu
trabalho no 'Primeiro Con gresso d a C reança', realizado n a Argentina, em 1916. E m seu texto sobre Foi tamanho o impacto sofrido por Evaristo de Moraes, diante das cena s
a proteção à infância em Niterói, relata em e ntrevista concedida ao jornal A Noite, que o "directo r de d e crianças misturadas a criminosos adultos, que este publicou diversos
H ygiene municipal" declarou que "no m es d e abril daqu elle anno (1914) tinham fallecido em N icthe-
roy 100 creancinhas pobres 'por fal ta d e cuidados"'. Segundo M adeira, a p opulação da cidade era d e
artigos, de forma s istemática, entre outubro d e 1898 e maio de 1899, nos
70.000 habitantes . principais jornais da cidade.
120 RI ZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 121

Evaris to de Moraes certamente estremeceu os círculos políticos e a pobre e desassistida ("moralmente abandonad a") e a delinquente. Estava
opinião publica da época com suas palavras explosivas : instalada a dicotomia.
Foi o que aconteceu e m 1906, quando Alcindo G u anabara, jorn alista
"Ora, si é certo que aqu elle estab elecimento nem reune as condições d'uma e deputado, Secretário da Liga Brasileira contra a Tuberculose e grande
b oa prisão para adultos; si é innegav el que o seu regimento interno vai de conhecedor do problema d a infân cia, tendo trabalhado como inspetor de
encontro ás regras mais elementares da 'h ygie ne moral'; si ning u em ignora
uma instituição p ara m enores, apresenta um projeto à Câm ara d os Depu-
a influencia perniciosa d as prisões sobre o caracter dos detentos - como
tados regulamentando "a situação d a infância m oralm.ente a bandonada
q u alificar essa remessa de crianças para a Detenção?" (Gazeta da Tarde", 11
e d elinquente".
de outubro de 1898).

No artigo intitulado "Laboratorio d e Crimes", afirmará:


3. Século XX: Passos decisivos rumo ao Código de Menores
"Posto em liberdade o novo producto daquelle medonho laboratorio, a tirado
na r ua, não tem seu s passos amparados por uma sociedade de patronato, n em Consta que no ano d e 1906, Alcindo Guanabara, em sessão d e 31 de
os consélhos de qualquer alma caridos a que lhe falle n o b e m e na virtude, no
outubro, "vem sujeitará consideração da Camara um projeto de lei regu-
trabalho ena honra. Lá, já tinha feito suas relações, que não mais abandonará:
lando a situação da infância moralmente abandonada e delinquente" . Entre
cá fora, logo as procura, b em cedo as encontra nas l obregas tavolagens e nos
Qs responsáveis pela elaboração do projeto, está o nome de Mello Mattos,
sordidos bordeis . Assim se r eatam. conversas, se completa o ensina1nento, se
n o que parece ser a sua primeira contribuição pública no processo que cul-
organisam os g rupos" ("Tribuna", 19 d e outubro de 1898).
m.inará na aprovação do Código de Menores. Ainfonnação é importante,
E, em 1899, declarará: pois nos interessa s aber o motivo pelo qual esse processo viria a durar
exatam ente 20 anos para chegar ao seu d esfecho. Principalmente p orque,
"Em nenhum p aiz, b en eficamente tonificado pela permanencia das crean- Mello Mattos, um de seus principais atores, já estava, no ano d e 1906, em.
ças christãs, se en contraram os espectaculos, as scenas, as exhibições que plen a ação dentro dos círculos de deba te jurídico e político da época.
ahi nos apresentam to dos os dias, mostrando bem ao vivo nosso desleixo, É n ítido o desenrolar das ideias que vigoraram nos projetos de lei
nosso nenhum cuidado na formação de ger ações futuras e tambem a falta apresentados até 1926 e 1927 -quando o Código de Menores foi instituído
de consciencia de legisladores, juízes, homens da policia, que todos p er- (Decreto n. 5.083) e consolidado (Decreto n . 17.943 A ). Nossa propos ta é
mittem, toleram, consentem que a infancia seja abandonada, maltratada, rastreá-las e analisar as formas pelas quais se desenvolveram.
corrompida, explorada e afinal, entregue ao crime, como o mais forte d os
Em sessão rea lizada a 31 de outubro de 1906, Alcindo G u an ab ara
seus alimentos, como o mais importante dos seu s factores" ("A Imprensa",
7 de abril de 1899). submete à Câmara um projeto de lei regulando a situação da infância mo-
ralmente abandonada e d elinquente. Alguns fragmentos do projeto nos
Já com certo temor no ar, o episódio da C asa de Detenção foi apenas levarão à base da legislação que n ascia, confonne destacamos a seguir:
m a is um dos elementos em jogo. A infância, por vezes retra tada como um "Todo menor, em reconhecida s ituação de abandono moral ou de
"magno-problema", era uma realidade. A partir daí, a ênfase passou a ser máos tratos physicos, fica sob a protecção da autoridade publica"
dada a uma legislação que abarcasse o problema com.o um todo: a infância (art. 1º);

l
122 RIZZINI • PiLOTTI
r A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 123

11
••• recolhidos p or ordem do juiz de orphaos competente" (art. 11); e Belisario 1avora (1910-1912) . É bastante difícil disting uir a origem - se
Dispositivos para su spensão e perda do Pátrio Poder (arts. 2º e 3º); policial, se jur.ídica - dos discursos e leis des te período. A a utoria parecia
Aquele que for responsável pelo menor ("pae, tutor ou p essoa s ob ser conjunta, refletindo-se em decretos e na criação de estabelecimen tos que
cuja guarda viva o menor"), poderá re querê -lo de volta, quando iam. numa mesma direção: recolher menores, d e acordo com uma cuidadosa
apreendido na rua. Ele será encaminhado pelo Curador Geral de classificação, visando à prevenção(" escolas premonitórias ou de prevenção
Orphãos. O responsável só o terá de volta "uma vez provada a sua para os menores 1noralmente abandonados") e à regeneração ("escolas
capacidade legal e moral para te-lo sob s u a g uarda" (art. 8º, § 1°); de reforma e colônias correcionais para os delinquentes", separando-os
de acordo com a idade, sexo e tipo de crime com etido/se absolvidos ou
Idade criminal: de9 (CódigoPenal)para 12an os;entre 12e 17paraos
condenados).
que obrarem sem discernimento; os que a girem com discernimento,
recolhidos "ás escolas de reforma creadas pela presente lei"; Em termos de lei, o destaque será para o Decreto n. 6.994, de 19 de
junho de 1908, intitulado "Dos casos de internação", onde se observa a
É criado, na parte urbana da cidade, um estabelecimento, que terá
preocupação por parte do governo em incentivar a criação d e "colonias
a denominação de "deposito de menores" e será exclu sivamente
correccionaes", através de subsídio por "conta da União, quando nas leis
d ~stinad o ao recolhimento de" menores que cahirem sob a acção da
annuaes se votar a verba especial para ella" (art. 9º). Nesta lei encontramos
autoridade publica até que lhes seja dado o destino lega l" (Titulo
referência quanto à participação das autoridades policiais "na adminis-
II, art. 7°);
tração da colonia, tanto quanto for necessário para a conservação da boa
São criadas "Escolas de Prevenção" para os moralmente abandona- ordem e regularidade do serviço d a colonia" (art. 6°).
dos (uma para meninos e outra para meninas), na z ona suburbana
Tais colônias, é preciso esclarecer, não eram destinadas exclusivamente
do Distrito Federal (art. 10);
a menores. Os m enores eram classificados juntamente com outras categorias
"Verificado que o menor tem pae valido e em condições d e ed ucal-o de d esvalidos da sociedade. Conforme estabelecia o art. 51 do Decreto 6.994,
e que n ão·obstante o deixa em abandono ... multa ou prisão de 1 a de 1908: "A internação na colonia é estabelecida para os vadios, mendigos
5 dias" (art. 25); validos, capoeiras e desordeiros".
"Escola de reforma com duas secções independentes: "uma secção A prática d e classificar indivíduos de acordo com determinadas ca-
industrial para os 1nenores processados absolvidos ... e uma secção tegorias resultou da incorporação de conhecimentos em voga, advindos,
agrícola para os menores delinquentes condenu1.ados " (art. 10). sobretudo, da antropologia criminal e da psiquiatria.No que se refere aos
menores, essa classificação transformou-se em um verdadeiro escrutínio
Seguindo alinha apontada rumo ao Código ou a uma legislação espe- de suas vidas, vasculhando-se aspectos do presente, do passado, de sua
cial para menores, o próximo passo foi um outro projeto de lei apresentado família e d e sua personalidade. Aqui nos interessa explorar porque teriam
por João Chaves, em 1912. E o que se passou nos seis anos que separam sido os menores incluídos nas categorias de vadios e desordeiros, em voga
os dois projetos? Uma discussão inten sa sobre formas d e internação dos na época. A leitura da documentação encontrada sobre este período nos
menores. Parecia não res tar dúvidas sobre o caminho, a questão era como leva a crer que tal fato se deu, à medida que eram identificados pelo m enos
regulamentá-lo. dois importantes aspectos da questão envolvendo rnenores: a) o potencial
Foram chamadas à cena as autoridades policiais. Dois chefes de po- de perigo para o fuh1ro da nação, pois entendia-se que, entregues ao ócio,
lícia exerceram papel importante nes ta época: Alfredo Pinto (1906-1909) certamente en grossariam as fileiras dos vadios, vagabundos e criminosos
RIZ2 1NI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 125
124

que vagavam pelas ruas das cidades; b) a noção de que a infância con stituía ou abandono de seu s filhos), até situações que comprometam a saúde e a
a fase ideal para moldar o indivíduo, e ducando-o ou reabilitando-o.20 moralida d e dos filhos . Observa-se aqui uma entrada mais nítida no âmbi-
to, até então restrito da família, cmno reflete a mudança na term.inologia
Voltando aos passos rumo ao Código, situamo-nos n a sala d e sessões
empregada para d esignar os responsáveis pela criança. De "pai, tutor e
d a Câmara d os Deputados, a 17 de julho d e 1912, onde se discute o Projeto
pessoa que tenha a guarda do m enor" (1906) introdu z-se "pai, m ãe, filhos
n º 94, de João Chaves, que "prov idencia sobre a infância abandon ada e
e relações familiares". O próprio termo "família" aparece pela primeira
criminosa" . Observamos que nes te projeto, vai-se mais longe no exercício
vez na legislação estudada.
d e classificação dos m enore s. Propõe João Chaves que devem recair sob
Após cuidadosa classificação do m enor, este era encaminhado para
tute la da União ou dos Estados, sob d ecisão d o tribunal ou juiz competente,
estabelecimentos, de acordo com "o regime e ducativo" cons iderad o ade-
"para o e ffeito de serem submettidos a conveniente regimemhospitalar ou
quado: "Se o m enor for con siderado normal, será submetido a regime edu -
educativo, os m en ores de um ou outro sexo: a) materialmente abandonados;
cativo de preserv ação ( ... se não for vicioso ou p ervertido) ou de reforma (se
b) moralmente abandonados; c) m endigos e vagabund os; d) que tiverem.
for portador d e costumes imorais e d e más tendên cias)" (art. 13º ).
d elinquido" (art. 1º) .
O projeto segu e citando estab e lecimentos de to da a sorte p a ra ore-
O proje to s ugere um maior afastamento da área penal: "os menores
colhimento de m enores e prevendo "favores" por parte do governo p ara
até a idade de 16 annos accusados de qu alquer infracção - delicto ou con-
quem se dispusesse a criá -los, tais como dispensa de impostos, transporte
travenção - não serão objeto de procedimento penal. Da mesma sorte os
gratuito e subvenção em dinheiro por três anos. Propõe a criação de creches,
mendigos e vagabundos até a edade de 18 annos". Nesse sentido, o proje to
disp en sários, asilos, "est abelecimentos para anormaes" e até colocação
avança n a proposta d e existirem juízes e tribunais especiais para menores.
familiar.
Em cont rapartida, h á duas características importantes n a direção da
Em seu artigo 33, o projeto prevê, ainda, a criação d e um estabeleci-
judicialização anteriormente ap ontada: wn escrutínio da v ida do m enor
m.ento na parte urbana da cidade (do D istrito Federal), com a d enominação
e um controle s obre sua família. O menor será "pos to á disp osição do
d e "Depósito de Menores", até que o menor receba u m des tino legal por
Govern o e passará por um processo in vestigativo de seus antecedentes parte d o TribunalJ uvenil. E, na zona suburb ana da cidade, duas escolas de
no Tribunal Juvenil, composto por um jurista p enitenciarista, um médico prese rvação (para meninos e meninas); u m estabelecimento para "menores
physiologista e psyquiatra, e um pedagogo ... encarregados d e const atar a11.onnaes" e duas escolas de reforma destinadas a "melhorar o caracter
os factos da accusação, tomando informações detalhadas e precis as sobre dos m enores viciosos ou pervertidos, delinquentes ou não, pela educação
seu estado physico e mental, herança, precedentes, relações d e família e e pelo trabalho" (art. 40). A escola ele reforma para o se xo m asculino teria
educação" (Parágrafo único). uma seção industria l e outra agrícola "com o intuito de transformar os
O projeto trata ta mbém d e d etalhes sobre a suspensão, destituição e internos em operarias agrícolas capazes de applicarem os en s inamentos
restituiçã o do Pátrio Poder, de acordo c01n circunstâncias, que vão d esde da s ciência" (art. 44, Parágrafo único).
o cometimento d e crim e por parte do p a i ou da mãe (inclu sive poligamia Podemos afirmar que as ideias b ásica s a respeito do que fazer estavam
formadas, sendo o Proje to de 1912 uma síntese que as reflete b em. Nele
20. Ligado a esses dois fa tores, há um ou tro que ganhara força alguns anos mais tarde, qual seja en contramos a demanda para que o Estado assumisse a responsabilidade
a u tilização da mão-de-ob ra infantil e juvenil, tanto para o setor agrícola, quanto para o industrial, v i- de exercer uma" tutella official"; o papel proeminente do juiz e do tribunal
sando a educação moral e profissional cios menores," aproveitando e treinando com o factor d e riqueza
o elemento nacional" (Decreto n . 12.893, de 1918) . Voltaremos a este ponto oportunam ente. especializad os nos assuntos concernentes aos m enores, ocupando seu espa-
126 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 127

ço na administração da Justiça; a fixação da idade penal e1n 14 anos, sendo preparação do Congresso, criou-se um comitê brasileiro, subdividido em
a 1nenor idade um atenuante às penas; o escrutínio sobre a vida do menor seções, de acordo com á reas, como por exemplo, seção de direito, higiene,
e sobre os seus antecedentes, assim. cmno o controle sobre a s ua fam.ília, educação, etc. Consta do terceiro boletim, que participavam das seções de
através d o poder de suspender, destituir e restituir o Pátrio Poder. Por fim, direito e de legislação industrial nada m enos do que 23 atores, subdivididos
previa a criação de estabelecimentos que cuidassem da educação ou da em presidentes, secretários e v ice-presidentes, fora os pales trantes. Entre
reforma dos menores, de acordo com as características de cada caso. o s participantes con stavam: Prof. Alfredo Pinto, ex-Chefe de Polícia da
Estas ideias irão evoluir lentamente. Embora não tenhamos encontrado Capital Federal, fundador do Asylo de Menores Abandonados; Senador
referências específicas que explicassem a extensão de quase duas d éca das Dr. Milciades Sa Freire, Membro-Fundador e Ben emérito do Instituto de
até que se regulamentasse uma legislação especial de menores, considera- Protecção e Assistência à Infância do Rio de Janeiro; Dra. M yrthes d e Cam-
mos duas hipóteses que nos parecem plausíveis: uma que realmente não pos, advogada e Dama da Assistência à Infância (RJ); Dr. Deodato Maia,
constava das prioridades do governo, conforme diversas vezes apontaram Advogado e Chefe de Polícia do Estado do Sergipe; Dr. Julio Benedicto
Moncorvo Filho e Ataulpho de Paiva; e outra que houve uma guerra mun- Ottoni, Industrial, Capitalista, Presidente efetivo do Instituto de Proteção
dial neste período, o que deve ter influído d e forma a desviar as atenções e Assistência à Infância (RJ) e Secretário do Centro Industrial; Prof. Ge-
em torno da assistência à infância . neral Serzedello Corrêa, Presidente Honorário do Instituto de Proteção e
Assistência à Infância e ex-Prefeito Municipal (RJ); Senador Alcindo Gua-
O fato é que o tema volta à tona com. força nos anos que se seguem à
nabara, Secretário da Liga contra a Tuberculose; Dr. Lemos Brito, Deputado
g uerra. Apontamos, logo em 19 16, o primeiro Congresso Americano da
Criança, realizado em Buenos Aires. Este será o primeiro encontro entre Estadual, orador eleito da Associação de Imprensa d a Bahia, membro da
os países americanos, os quais manterão uma s istematicidade de debates Sociedade de Criminologia; Dr. Evaristo de Moraes,Advogado e Jornalis ta
em congressos realizados a cada qu atro anos, sob a coordenação da Orga- do Rio de Janeiro.
nização dos Estados Americanos (OEA). 21 O debate ultrapassa fronteiras, Pela importância dos nomes e posições ocupadas dos participantes,
atinge fóruns políticos internacionais e ganha novos aliados. acreditamos poder afirmar sem margem d e erro, que a m atéria era objeto
O que se vai assistir daqui para a frente serão as estratégias encontra- de interesse político na época. Vai ficando cada vez mais claro porque nos
II
das para levar o país à decisão política de assumir a organização geral da anos seguintes os argumentos concent rar-se-ão n a tese de que o Estado só
11
assistência a que tantos atores se referiam.Nesse sentido, pleiteava-se que
,
te ria a ganhar ao regulamentar a assistência à infância . A ssim é que nos
se documentasse efetivamente a assistência pública e privada existente, anos de 1918 e 1919, o d estaque é para a criação e organização, pelo Minis-
conforme constava no Decreto n. 441, de 1903. tério da Agricultura," dos patronatos agricolas, para educação de m enores
desvalidos,nos postos zootechnicos, fazendas-modelo de criação, nucleos
O discurso começa a assumir mn contorno nitidamente utilitarista,
coloniais e outros estabelecimentos do Ministerio". Vale a pena conhecer a
demons trando-se em que m edidas as várias propostas de organização
argumentação utilizada para justificar a legislação:
da assistência atendiam aos interesses do Estado. Interessante exempli-
ficar com a documentação deixada pelos atores envolvidos. Para fins de
"-Considerando que ao Governo cabe, por todos os modos, impulsionar o
rnoviinento d e transformação economica do país, pelo auginento progressivo
21. JGLESJAS, Susana, VILLAGRA, Helena, BARRIOS, Luis . Un viaje a trnvés de los espejos de los d e sua capacid ade productora;
Cong resos Pmmmericnnosde/ Nin o. In: Dei revés alderecho. UNICEF /UNICRI/ILANUD, Buenos Aires:
Galerna, 1992. - Con siderando a necessidade de 'cuidar do el emento productor ';
128 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS
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129

- Considerando que o ensino profissional tornará cada vez mais fructuosa Segundo citação d e A lfredo Russel, em conferência realizada na OAB/RJ
a producção agro-pecuaria, ao mesmo passo que concorrerá para restabe- em 1916, Motta chegou a propor a divisão dos menores em classes "esco-
l ecer o equilíbrio entre a população das cidades e a população dos campos, lar", "in.dush·ial" e "agrícola", de acordo com uma cuidadosa seleção. Há
n ecessário p ela fascinação que as grandes capitaes soem exercer no espírito várias referências indicando que os mais "viciosos" eram encan.1.inhados
da mocidade desapparelhada para o exercício de qualquer emprego ou para atividades agrícolas.
actividade honesta;
- Considerando, mais, que é dever do Governo'contribuir para augrnentar
Uma outra pista a ser seguida refere-se à regulamentação do trabalho
a população rural e formar o verdadeiro agricultor brasileiro, aproveitando infantil. Deve haver bons motivos que expliquem a omissão em termos
e treinando corno factor d e riqueza o elemento nacional'; legislativos. Há um decreto bastante precoce (1891), que estabelece pro-
- Considerando, finalmente, ser ao mesmo tempo obra de previsão social e vidências para regularizar o trabalho d e menores nas fábricas da Capital
economica22 empregar na formação do gremio rural, donde há de promanar Federal,ao que parece jamais respeitado. Em 1911 e 1917, o DeputadoNica-
o engrandecimento r eal futuro do paiz, os menores abandonados ou sem nor Nascimento traz a questão à Câmara do Rio de Janeiro, estabel~cendo
meios de subsistência por falta de occupação legitima" (Actos do Poder oito horas de trabalho diário para menores d e 15 anos de idade para o setor
Executivo, p. 99-100, comercial. E, em 1912, o Projeto n. 94 finalmente propõe oito horas diárias
de trabalho no campo. É tudo o que temos neste período.
Decreto 12.893, assinado por Wenceslau Braz P. Gomes e J. G. Pereira A Lei n. 4.242, de 5 de janeiro de 1921, que "fixa a Despesa Geral da
Lima). Republica dos Estados Unidos do Brasil para o exercício de 1921 ", assinada
Encontramos outra informação valiosa no Decreto 13.706, de 25 de pelo Presidente Epitácio Pessoa, indica que o caminho político havia sido
julho de 1919, que dá nova organização aos patronatos agrícolas: "Os encontrado. O artigo 3° da referida lei autorizava o governo a organizar
patronatos agrícolas são exclusivamente, destinados ás classes pobres, e o serviço de assistência e proteção à infância abandonada e delinquente.
visam a educação moral, cívica, physica e profissional de menores desva- É o tema central da lei, que discorrerá em minúcias sobre os pontos cen-
lidos,23 e daquelles que, por insufficiência da capacidade de educação na trais acima sintetizados. Foi uma vitória reconhecida por todos. Em seus
família, forem postos, por quem de direito, à disposição do Ministerio da comentários sobre a legislação de menores desde o Código Criminal d e
Agricultura, Industria e Commercio". 1830, Aldovrando Corrêa, afirma: "Si em 1864 não attendia o governo ao
Os dados apresentados fornecem algumas pistas de uma trilha inte- problema dos menores delinquentes, máu grado sua importância na repu-
ressante a ser seguida sobre o debate e a prática em torno da utilização da blica, vencido meio século, o caminho ainda é longo e a energia da jornada
mão-de-obra infantil e juvenil, a partir das transformações ocorridas na demanda sacrifícios, nao obstante o triumpho de 1921, enkistado na cauda
economia do país, nas primeiras décadas do século XX. Há indícios de que do orçamento das despezas da nação" (1928, p . 9).
o assunto já era objeto de avançadas considerações no âmbito da legisla- Em 1922, o tema ganha ampla dimensão ao ser objeto de dois con-
ção paulista, como se vê, por exemplo, no projeto do Deputado Candido gressos: o I Congresso Brasileiro de Proteção à Infância, presidido pelo Dr.
Motta (1900) e no Decreto Estadual n. 844, de 10 de outubro de 1902. Resta Moncorvo Filho, coincidindo com o IIl Congresso Americano, tendo à frente
saber até que ponto experimentou-se efetivamente o aproveitamento de o Dr. Olinto d e Oliveira. O discurso é mais aberto do que nunca em relação
menores nos setores industrial e agrícola daquele estado e seus resultados. à importância do tema, no que diz respeito à grandeza dos interesses em
jogo. Diz o Dr. Moncorvo Filho, em abertura noticiada como revestida de
22. Grifo da autora. grande pompa:" Ao saudar-vos, Srs. Congressistas, p elo deslumbramento
23. Idem. que viestes emprestar a este tentamen en1. pról do melhoramento da nossa
RIZZINI • PILOTTI A ARTE OE GOVERNAR CRIANÇAS 131
130

raça, seja-nos licito traduzir-vos, num mixto de orgulho e de jubilo, o que "Vigiar, proteger e collocar os m.enores egressos de qualquer escola
sentimos nesta hora, ante a majestade deste recinto e a imponência desta de preservação ou refonna, os que estejam em liberdade vigiada e
solennidade, vendo aqui tantas dedicações pela mais sublime causa da os que forem designados pelo respectivo juiz";
humanidade: a protecção da creança. 24 "Auxiliar a acção do juiz de menores e seus commissários de vigi-
De 1923 a 1927, sem dúvida o período mais profícuo em termos de lância";
leis, assistimos ao avolumar d e capítulos, artigos e incisos, procurando-se "Exercer a acção sobre os menores na via publica, concorrendo parn
cobrir, com todo o detalhamento possível, a organização da assistência e a fiel observância da lei de assistência e protecção aos m enores";
proteção à infância abandonada e delinquente .
"Visitar e fiscalizar es tabelecimentos de educação de menores,
Ainda em 1923, o Decreto n. 16.273, trata d e reorganizar a Justiça do
fábricas e oficinas onde trabalhem ...";
Distrito Federal, incluindo a figura do Juiz de Menores na administração
da Justiça. Consta que Mello Mattos foi o primeiro juiz de menores da "Fazer propaganda ... corno fim não só de prevenir os males sociaes
América Latina, tendo proferido seu primeiro despacho em processo do tendentes a produzir o abandono, a perversão e o crime entre os
dia 6 de março de 1924.25 menores, ou comprometer sua saúde e vida, mas tambem de indicar
Em 1924, o D ecreto 16.300 institui a Inspectoria de Hygiene Infantil, os meios que n eutralizem os effeitos desses males".
como parte do Departamento Nacional d e Saúde Pública. Estão aí os resul-
tados da persistência de Moncorvo Filho, sobretudo no que se refere aos Conforme consta do texto da lei, tratava-se de urna associação de utili-
artigos sobre assistência à primeira infância, inspeção sanitária escolar e qade pública, cujo pah·imônio se constituía por" doações, h eranças, legados
profilaxia de doenças transmissíveis próprias das primeiras idades, que que receba e pelas subven ções oficiais, contribuições de seus membros, subs-
ele já desenvolvia há anos . crições populares etc." (art. 4°). Como"con selheiros" são listados membros de
No mesmo ano, aprovou-se o regulamento do Conselho de Assistência instituições certamente influentes, designados a prestarem serviços gratuitos
e Proteção dos Menores (Decreto 16.38St que viria posteriormente a ser e considerados de benemerência pública. São citados, entre outros: diretores
embutido no Capítulo V da Parte Especiat do Código de Menores de 1927. do Colégio Pedro II, do Instituto Benjamin Constant, da Assistência Nacional
Trata-se de um texto que impressiona pela determinação em abarcar todos a alienados; representante da Prefeitura Municipal, do Instituto da Ordem
os possíveis detalhes sobre o "problema dos menores": dos Advogados Brasileiros, da Academia Nacion al de Medicina.
"Promover por todos os rn.eios ao seu alcance a co1npleta prestação O decreto de 1924foi assinado por João LuisAlves, Ministro da Justiça
de assistência aos 1nenores se1n recursos, doentes ou debeis"; e Negócios Interiores, que vinha seguindo de perto o movimento que ora
"Occupar-se do estudo e resolução de todos os problemas relacio- descrevemos. 27 O "tom" empregado destoa da trilha jurídica que v imos
nados com a infância e adolescencia" ;26 percorrendo neste texto. Podemos arriscar um.a suposição - a de que
estes senhores que vinham promovendo congressos e se empenhando no

24. Grifo da autora.


25 . A informação consta do livro Direito do Menor, do ex-juiz d e menores (RJ), Dr. Alyrio Cavallieri, pelo menos sob o ângulo da Justiça, o fato esteja r elacionado a uma preocupação mais específica com
que tece o seguinte comentário: "O primeiro juiz menor is la de tal m odo se dedicou ao amparo direto a juventude, fase na qual há maior incidência de crirninalidad e.
que ganhou o a p odo carinhoso de 'Mellinho d as crianças'" (1978, p. 14). 27. A afirmação é feita com base no fato de que foram muitos os decretos assinados por ele no
26 . O termo "adolescencia" aparece p ela primeira vez nos documentos jurídicos consultados período em que esteve na pasta do Ministério. Anos mais tarde, importante instituição para menores
_ __ ,_ ---~squisa. A nosso ver, e ste aspecto merece ser m elhor investigado. Contudo, acreditamos que, no Rio de Janeiro viria a receber o seu .nome.
RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 133
132

movimento aqui analisado, teriam todo o interesse em se manterem parti- O Código de 1927 é extremamente minucioso, contendo 231 artigos.
cipantes ativos no processo que se seguiria. 28 A extensão do texto faz com que destoe dos demais projetos e decretos
que o antecederam; contudo, a sua lógica segue o caminho que vimos
Chegamos finalmente ao Código de Menores. O Decreto de 1926
percorrendo ao longo dos anos, mantendo-se os dispositivos centrais da
instituía o Código e, em 1927, o Decreto n . 17.943-Aconsolidava as leis de
evolução apontada.
assistência e proteção aos menores. De mn ano para outro, o Decreto pra-
A impressão que se tem é que através da lei em questão procurou-se
ticamente duplicou, incorporando novos capítulos e artigos. O Código de
cobrir um amplo espectro de situações envolvendo a infância e a adolescên-
1926 era composto pelos seguintes capítulos: Cap. I. Do Objecto e fim do
cia. Parece-nos que o legislador, ao propor a regulamentação de medidas
Código (art. 1º - "O Governo consolidara as leis de assistência e protecção
"protectivas" e também assistenciais, enveredou por uma área social que
aos menores, addicionando-lhes os dispositivos à guarda, tutela, vigilância,
ultrapassava em muito as fronteiras do jurídico. O que o impulsionava era
edu cação, preservação e reforma dos abandonados ou delinquentes, dando
"resolver" o problema dos menores, prevendo todos os possíveis detalhes e
redação harmônica e adequada a essa consolidação, que será d ecretada
exercendo firme controle sobre os m enores, através de mecanismos de "tu-
como Código de Menores"); II. Das creancas das primeiras idades; III. Dos tela", "guarda", "vigilância", "educação", "preservação" e "refonna" .30
infantes expostos; IV. Dos menores abandonados; V Dos menores delin-
Como assinalamos, a lei já estava constituída em seu conteúdo básico
quentes; VI. Do trabalho dos menores; VIL Da vigilância sobre os menores;
desde os Decretos n. 4.242 de 1921 e n . 16.272 de 1923. Seu detalhamento
VIII. Dos varias crimes e contravenções; IX. Do juízo de menores do Districto
prov avelinente resultou da redação conjunta de vários juristas, ansiosos por
Federal; X. Disposições diversas. elaborar uma lei a mais completa possível. Havia muitos atores envolvidos,
Tendo sido a lei consolidada no ano seguinte, deter-nos-emos no que não poderiam simplesmente ignorar os interesses e possivelmente as
texto de 1927. Em seu artigo 1º, o Código estabelecia que: - "O menor, pressões em jogo na época sobre matérias a serem contempladas n a lei.
de um ou outro sexo, abandonado ou delinquente, que tiver menos de 18 En, termos dos dipositivos que a compõem, a lei será mais minuciosa
annos de idade, será submettido pela autoridade competente ás medidas quanto às atribuições da autoridade competente, o juiz de menores e sobre a
de assistencia ·e protecção contidas neste Codigo". De forma complemen- atuação do juizado de menores. Um grande número de situações se encaixa
tar, o artigo 54 esclarecia que: - "Os menores confiados a particulares, a na sua esfera de ação. Seguem alguns exemplos:
institutos ou associações, ficam sob a vigilância do Estado, representado Infantes com menos de 2 anos de idade, criados fora das casas dos
pela autoridade competente", reconhecidamente o Juiz de Menores, após pais, bem como os menores nos" asylos dos expostos" são" objecto
legislação de 1924. de vigilancia da autoridade publica, com o fim de lhes proteger a
Além dos capítulos incorporados ao Código de 1926, foram introdu- vida e a saúde" (art. 2°).
zidos os seguintes: Da inibição do Pátrio Poder e d a remoção da tutela, da "Pessoa que quizer alugar-se comonutriz" - deve obter"attestado
liberdade vigiada, das medidas aplicáveis aos menores abandonados. 29 da autoridade policial do seu domicilio" (art. 6º). -A inspeção e

28. Caso a posição esteja co.rreta, eles abrirnm uma outra trilha rumo ao Código. De fato, o Con-
selho de Assistência e Protecção aos Menores viria a ser introduzido no Código de Menores de 1927
! 30. O termo educação aqui era empregado de forma restrita, aludindo-se aos menores, portanto,
aqueles que estavam sujeitos à ação do juizado, ou seja, todas as modalidades de a bandonados e delin-
(Parte Especial, capítulo V). quentes. Chamamos a atenção para o fato de que a documentação jurídica d este período, em contraste
29. Na realidade tais tópicos já eram contemplados n o decreto de 1926, mas foram ampliados e com o que apontamos ern relação à legislação do século XIX, sequer faz referência às questões relacio-
organizados ern capítulos separados. nadas à educação pública. O fato nos parece da maior importância e merece estudo aprofundado.

[
~.
134 RIZZINI • PILOTTI I' A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 135

a vigilância executadas pela Inspetoria de Hygiene Infantil pode- d e menor abandonado ou perverti.do, a frase" ... ou em perigo de o ser",
riam se dar em qualquer data ou local: nas residências (família ou abria-se a possibilidade de enquadrar qualquer um no raio de ação de com-
pessoas que tivessem m.enores sob sua guarda); n as escolas, nas petência da lei. A intenção é a inda mais óbvia no concernente aos rn.enores
vias públicas, nos estabelecimentos d e recolhimento e internação caracterizados corno delinquentes. Uma simples suspeita, urna desconfian-
de menores, n as oficinas, indústrias etc. ca, o biotipo ou a vestimenta de um jovem poderiam dar margem a que este
Suspende-se o Pátrio Poder ao pai ou à mãe: "que por abuso de fosse sumariamente apreendido. Diz a lei: "Si o menor não tiver sido preso
autoridade, negligencia, incapacidade, impossibilidade de exercer em flagrante, mas a autoridade competente para a ins trucção criminal achar
o seu poder, faltar habitualm.ente ao cumprimento dos deveres conveniente não o deixar em liberdade, procederá d e accôrdo com os§§ 2º
paternos". e 3° (confiado, 'mediante termo de responsabilidade, à sua propria familia,
pessôa idonea,instituto de ensino de caridade', art. 86, § 4º)".
Quanto aos menores considerados abandonados (há uma longa
lista d e possibilidades), caberia à autoridade competente: ordenar a Aintrodução do Capítulo X, que trata "Da vigilancia sobre os menores",
apreensão, providenciar sobre a sua guarda, e ducação e vigilância, emprestará um tom policial investigativo ao Código, estabelecendo ampla
separando-o após cuidadosa classificação (idade, instrução, pro- liberdade a que a autoridade pública competente fiscalize qualquer local
fissão, saúde, abandono ou perversão do menor e a situação social, onde existam menores e proceda a investigações que con sidere necessárias.
moral e econômica dos pais ou tutor), recolher vadios e mendigos Apesar de já termos indicado essa tendên cia em decretos anteriores, o Código
e apresentá-los à autoridade judicial. d e 1927 vai muito mais longe, ao exercer vigilância sobre o que poderia ser
Os menores delinquentes, contando idade inferior a 14 anos, não · exibido a m enores, vetando-lhes tudo aquilo que fizesse" ...temer influencia
seriam "submettido(s) a processo penal de especie alguma", mas prejudicial sobre o desenvolvimento moral, intellectual ou physico, e pos-
cabia à autoridade competente tomar" as informações precisas" ... sam excitar-lhes perigosamente a phantasia, despertar instinctos máos ou
sobre sua vida e da família. doentios, corromper pela força de suas suggestões" (art. 128, § 4°). 31
"Se o menor fôr abandonado, pervertido, ou estiverem perigo de o Mesmo procurando-se considerar a importância e o peso do mora-
ser, a autoridade competente promoverá a sua collocação em asylo, lismo, sobretudo nos círculos jurídicos mais conservadores, é difícil ima-
casa de e ducação, escola d e preservação, ou o confiará a pessôa gin ar tamanha invasão nas vidas das pessoas. Um episódio interessante,
idonea, por todo o tempo necessario à sua educação, comtanto que ocorrido pouco tempo depois da aprovação do Código de Menores, nos
não uth·apasse a idade de 21 annos". permite captar o impacto causado pela lei na sociedade de então. Vejamos
Se não for abandonado, pervertido ou em perigo de o ser... escola o que aconteceu quando o juiz de menores cumpriu a lei, mas confundiu
de reforma por 5 anos; se abandonado, pervertido ou em perigo menores e crianças ...
de o ser... escola de reforma "por todo o tempo necessario à sua Conta-nos Corrêa que o Dr. Mello Mattos "prohibiu a representação de
educação, que poderá ser de 3 annos no 1nínirn.o, e de 7 annos no determinada revista theatral em espetaculo dedicado a menores, impedindo
má ximo". a entrada dos mesmos por intermedio da policia, nas casas de diversoes,

A legislação reflete um protecionismo, que bem poderia significar um 31. Por exemplo, menores de 14 anos só p oderiam ir ao cinema d esacompanhados de seu s p a is
cuidado extremo no sentido de garantir que a m eta d e resolver o problema em "sessões diurnas, nas quaes sejam exhibidas p eliculas instructiv as ou recreativ;is, devidamente
do menor efetivamente seria bem sucedida. Ao acrescentar à categorização approvadas pela autoridade fiscalizadora" (art. 128, § 1°).
136 RIZZINI • PILOTTI A ART E DE GOVERNAR CRIANÇAS 137

declarando irnmoral a peça" (1928, p. 101). Houve intensa reação, argu- Considerações finais
m entando-se que" o juiz não podia zelar mais que o pae".
Os jornais da época vão retratar, sobretudo, o desagrado do m eio em- Observa-se que uma das importantes contribuições do Código de
presarial, que obviamente se viu prejudicado diante da interferência: "A 1927 foi a introdução do Capfü1lo IX, sobre a regulamentação do traba-
Portaria do Juiz de Menores provoca Forte Agitação nos Meios Theatrais" lho infantil e juvenil. Trata-se de uma questão que, estranhamente, não
(Correio da Manhã, 20/12/1927). "E, em sinal de protesto, a maioria das parecia constituir objeto de discussão e polêmica n as décadas que antece-
empresas resolve fechar as suas casas de espetáculos". No dia 29 de de- deram a promulgação da lei. Contudo, o fato de ter a matéria justificado
zembro, reportarão, ainda, as m anchetes "Os Theatros e Cinemas em Crise: a elaboração de um novo capítulo, nos leva a crer que sua importância
Ainda a Famosa Portaria do Juiz Mello Mattos". era reconhecida, ainda que não aparecesse nas leis e projetos anteriores
É nítida a provocação dos empresários ao fechar as portas, incitando ao Código.
a opinião pública contra a atitude do juiz. O fato é que o caso chegou à Sobre o trabalho, estabelecia a lei logo em seu primeiro artigo, a proi-
Côrte de Appellação, que acabou suspendendo o juiz do exercício de suas b ição de que fossem empregados menores com idade infe rior a 12 anos,
funções. Sem dúvidanenhuma,houve um embate de forças. O juiz perdeu em todo o território da República. Seus dispositivos impunham restrições
e o episódio deixou claro que serian1. estipuladas fronteiras ma.is precisas rigorosas quanto aos locais, horários e pessoas que empregassem menores,
para a ação da legislação. exercendo vigilância e inspeção dos mesmos, sob p ena de multa ou prisão
Talvez mais importante que o próprio episódio inusitado, tenha sido celular para os infratores. A jornada de trabalho permitida a menores de
a reação esboçada pelos "meios jurídicos do paiz e nas camadas cultas da 18 anos será fixada no limite de seis horas por dia, "interrompidas por
sociedade carioca, ao ter o digno Juiz cumprido as normas da nova legisla- um ou vários repousos, cuja duração não pode ser inferior a uma hora''
ção". O relato é de Corrêa, que acompanhou de perto o ocorrido e afirma: (art. 108).
" ...de todos os pontos do paiz vierarn os applausos à attitude do mesmo.
Ao refletirmos sobre os motivos pelos quais a ques tão do trabalho
Raros foram os jornaes contrarios que, sophismando, reclan1.avam contra
infantil não constituía terna significativo nos debates e por que os setores
a interpretação littera l da lei - que, feita para menores abandonados e
industriais e comerciais, que certamente contavam com a força de traba-
d elinquentes - deveria, como lei restricta, especial 'reconh ecer o patrio
lho infantil, não confrontaram os legisladores da época, seguem algumas
poder',32 deixando socegados e frequentando espectaculos irnmoraes os
observações. A primeira ideia que nos ocorre é que, tendo a questão sido
filhos acompanhados de seus paes" (p. 101). O próprio Correa exibe or-
objeto de regulamentação d esde 1891, e jamais cumprida, não suscitava
gulhosamente matéria que publicou na Gazeta de Piracicaba, afirmando:
maiores preocupações. Parece-nos, também, que havia uma espécie de
"Si ao paes não importa nem constrange as scenas ünmoraes das revistas,
danças e outras modalidades da ruina actual dos costwnes, ao Juiz compete
intervir fazendo valer a lei contra estes cidadãos em beneficio dos menores caso de Lauro O. Santos, advogado de Belo Horizonte, que impetrou uma ordem de habeas-corp11s ao
Tribunal da Relação do Estado de l\1inas em favor de seus filhos menores "afim de que cesse o cons-
rnoralmente33 abandonados" (p. 103)34 · trangimento illegal, qu e estão soffrendo em sua liberdad e d e locomoção... " (p. 135). O juiz aproveita
o caso para defender o Código, a legando que as leis não se baseiam em "exorbitancias", como alega
o impetrante, e sim em princípios morais, pois que: "É fóra de duvida a influencia desses espetaculas
32. GrifadoporCorrêa.
sobre a mentalidade ea moralidade dos menores (e até dos adultos ... !)". Elevai ma is longe, revelando
33. Grifado por Corrêa. o absoluto conflito de ideias: "Não se pode confiar ao arbítrio dos paes o ingresso dos filhos menores
34. Houve pelo menos mais urna reação digna de referência, por ter, inclusive, sido objeto de nessesespetaculos, porque a experiencia quotidiana tem demonstrado que mes mo entre os mais cultos
resposta por parte de Mello Mattos. Em seu artigo: "Em Defesa do Código de Menores", o juiz relata o não existe o necessario escrupulo a esse respeito" (p. 139).
138 RIZ ZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 139

consenso por parte das elites sobre a n ecessida d e de educar o jovem das que tornou possível a criação d e uma legislação pela indústria fabril, onde
classes populares para o trabalho - o que dispensava m aiores elucubra- se n ecessitava d e 'dedos pequenos e ágeis"' (1985, p. 107-109).
ções sobre o assunto. Sobre a ausência de unla reação pública por parte dos A legislação dirigida aos m enores d e idade virtha a legitimar o obj e-
empresários, é bastante possível que, em primeiro luga r, n ão quisessem se tivo d e manter a ordem alm.ejada, à medida gue, ao zelar p ela infância
expor e prov ocar uma "visita" a uma fábrica, urna usina ou a um estaleiro, abandona d a e criminosa, prometia extirpar o m al pela raiz, livrando a
a exemplo daquela ocorrida na Casa de Detenção décadas a trás. Por fim, nação de elem entos vadios e d esordeiros, que em nada contribuíam para o
pode-se supor que, após o episódio no qual o juiz foi publicarnente intimi- progresso do país. Para atingir a reforma almej ada para"civilizar" o Brasil,
dado, ao ser su spenso do e xercício d e s u as funções, não teria ele coragem entendia-se ser precis o ordená-lo e saneá-lo . Designada como perten cente
de invadir uma fábrica e prender os donos que n ão estivessem cumprindo ao contingente de" menores abandonados e delinquentes" (portanto poten-
a lei. Dada a posição social que ocupavam, faz mais sentido concluir que, cialmente perigosos), a população jovem que fugia aos m ecanis m os sociais
s e não reagiram, é porque não era preciso. 35 de disciplina, foi um dos focos para a ação moralizadora e civ ilizadora a ser
A regulamentação do trabalho a ting ia também a o cupação d o espaço empreendida. Sob o comando da Jus tiça e da Assist ên cia, julgou-se estar,
das ruas - uma preocupação já presente no início do século XX. A lei as- d esta forma, combatendo os embriões da desordem. Traços desta história
segurava que: "Nenhum varão menor de 14 armas, n em 1nulher solte ira assombram o país a té os dias de hoje.
m enor de 18 annos, poderá exercer ocupacção alguma que se desempenhe
nas ruas, praças ou lugares publicas; sob pena de ser apprehendido e jul-
gado abandonado, e impost a ao seu responsav el legal 50$ a 500$ de multa
Referências bibliográficas
e 10 a 30 dias de prisão cellular" (art. 112).
A proibição expressa d a permanência de menores nas vias públicas
BOOKWALTER, Leroy King. Boletim D emographico do M unicípio da Capital de Siio
não se restringia à questão do trabalho. Ela v inha sendo mencionada em
Paulo. S.l.: s.n., 1887.
legislações anteriores, mas aparecerá de forma explícita e d etalhada em
diversos artigos do Código de 1927. BOSWEL, John. The kindness ofstrangers :The abandonment of children in western
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35. É preciso que se esclareça que a exploração ela força ele trnbalho infan til, n otad amcnte na CH ALHOUB, Sidney. Trabalho, lar e botequim: O cotidiano dos trabalhadores no
indústria têxtil, era um fa to documentado nas primeiras décadas do século XX. Bandeira Junior
Rio de Janeiro da belle époque. São Paulo: Brasilien se, 1986.
refere-se a "considerável... n ú mer o d e menores, a contar de 5 anos ocupados em ser viços fabris n o
ano de 1901, n a condição d e aprendizes, sem qualquer remu neração. O jornal Fan/111/a, numa edição CONGRESSO Brasileiro d e Protecção à Infância. Primeiro Congresso Americano da
de 1917, faz m enção aos 'pequenos e improvisados operários (qu e) podem produzir tanto quanto os
Creança. Rio d e Janeiro: Comite Nacional Brazileiro-3º Boletim, m aio e junho de
adultos, recompensados, entre tanto, com mísero salário' (Moura, 1991, p . 113). Marx, ao descrever
os métodos d e acumulação p rimitiva, reporta-se a 'crian ças a rrancadas d e seus lares para trabalhar'; 1916.
'roubo e in ternação de cr.ianças como apren dizes d os w ork-houses pertencentes às diversas paróquias'
e' deportação de milha res de crianças abandonadas' para que fossem exploradas p ela indústria fabril,
CORRÊA, A ldrovando Fleury P. Comrnentários ao Codigo de M enores. São Paulo:
onde se n ecessitava ele 'dedos pequ enos e ágeis"' (1985, p . 107-109). LivrariaAcadêrn.ica, Saraiva & C. Editores, 1928.
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Vasconcellos e Clemente Pereira, sessão em 31 de agosto de 1829. Hospital de Misericordia da Cidade de São João D'El Rei quatro loterias
paraoestabelecirnento,e1nanutençãode humRecolhimentodeexpostas,
1830 - BRASIL. LEI de 16 de dezembro de 1830. Manda executar o Código Penal.
m as também huma loteria á Matriz da Villa de Oliveira.
Código Criminal do Império do Brasil.
1859 - BRASIL. N. 44, FAZENDA em 17 de março de 1859. Sobre m a trícula de
1831 - BRASIL. LEI de 26 de outubro de 1831. Prescreve o modo de processar
escravos menores de doze anos.
os crimes publicas e particulares e dá outras providências quanto aos
policiaes. 1859 - BRASIL. N. 312. Aviso de 20 de outubro de 1859. Declara que a menor,
filha de pai incognito, e que tem mãi viva, he Orphã em face das Leis do
1835 - BRASIL. LEI N. 4, de 10 de junho de 1835. Determina as penas com que Paiz.
devem ser punidos os escravos, que matarem, feri re1n ou outra qualquer
1863 - BRASIL. N. 478-Justiça - Aviso de 17 de outubro de 1863. Ao Presidente
offensa physica contra seus senhores etc.; e estabelece regras para o pro-
da Província do Maranhão. Approva solução dada ás duvidas sobre o art.
cesso.
13 do Código Criminal.
1838 - BRASIL. LEI N . 60, de 20 de outubro de 1838. Fixando a Despeza e Orça- 1863 - BRASIL. DECRETO N . 3.183, de 18 de novembro de 1863. Manda obser var
~1.~nto a Receita para o anno fina nceiro de 1839 a 1840. o Regulamento que com este baixa para a adminssão de meninas pobres
1846 - BRASIL. DECRETO N . 407, de 23 de setembro d e 1846. Dispensando as no Collegio de Macaúbas.
Leis de amortisação a favor do Recolhimento d e Santa Theresa da Cidade 1870 - BRASIL. N . 275,de21 de setembro d e 1870. Cria umcollegioparameninos
de São Paulo, e do Convento de Santa Theresa desta Côrte. indígenas.
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os escravos da Nação e outros, e providência sobre a criação e tratamento
1850 - BRASIL. DECRETO N. 682, de 11 de julho de 1850. Altera os arts. 95 e 96 daquelles filhos menores e sobre a libertação aiu1ual de escravos.
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1874 - BRASIL. DECRETO N. 5.532, de 24 de janeiro de 1874. Crêa 10 escolas
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146 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 147

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1896 - BRASIL. N. 104, de 1896. D iscurs o do Senador Lopes Trovão. Parecer de
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tencia Judiciaria no D is tricto Federal.
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148 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 149

1908 - BRASIL. DECRETO N. 6.863, de fever eiro ele 1908. Dá novo regulamento 1920 - BRASIL. DECRETO N. 2.340, de 18 d e novembro de 1920. Considerada
á Casa de Detenção elo Distrito Federal. de utilidade publica municipal para todos os efeitos o Departammento
1908 - BRASIL. DECRETO N. 6.994, d e 19 ele julho de 1908. Dos casos de inter- da criança no Brasil.
nação. 1921 - BRASIL. LEI N. 4.242, de 5 de janeiro de 1921. Fixa a despesa geral da
1910 - BRASIL. DECRETO N. 8.233, de 22 de setembro de 1910. Approva o República dos Estados Unidos do Brasil para o exercício de 1921.
regulamento do patronato official dos liber ados ou egressos definitivos 1923 - BRASIL. DECRETO N. 16.272, de 20 d e d ezembro de 1923. Approva
da prisão no Distrito Federal. regulamento d a assistência e proteção aos menores abandonados e d e-
1911 - BRASIL. DECRETO N. 8.824 A, de 7 de julho de 1911. Manda proviso- linquentes.
riamente depositar na Colonia Correccional de Dous Rios as praças dos 1923 - BRASIL. DECRETO N. 16.273, de 20 de d ezembro de 1923. Reorganiza a
corpos de Marinha que tiverem de cumprir pena correccional e da outras Justiça do Distrito Federal.
providências.
1923 - BRASIL. DECRETO N. 16.300, d e 31 de dezembro de 1923. Approva o
1911 - BRASIL.PROJETO.Sessãode15dejulhode1911.Sr.NicanorNascimento. regulamento do Departamento Nacional de Saúde Pública.
Dá regras para contractos de locação de serviço entre patrões e emprega-
. dos do c01nmercio. 1924 - BRASIL. DECRETO N . 16.388, de 27 de fevereiro de 1924. Approva o
r egulamento do Conselho de Assistencia e Protecção dos Menores.
1912 - BRASIL. PROJETO N. 94, d e 17 de julho de 1912. Providencia sobre a
infância abandonada e cri1:1inosa. Projeto de João Chaves. 1924 - BRASIL. DECRETO N. 16.444, de 2 de abril d e 1924. Approva regulamento
do Abrigo de Menores do Distrito Federal.
1912 - BRASIL. PROJETO N. 322, d e 17 d e setembro de 1912. Reorganiza o ensino
da Escola Quinze de Novembro e dá outras providências. 1924 - BRASIL. Lei N. 2.059, de 31 de dezembro de 1924. D ispõe sobre o processo
de menores delinquentes.
1914 - BRASIL. DECRETO N. 1.001, d e 13 de novembro de 1914. Crêa uma
commissão especial de história e estatística de assistencia publica e Pri- 1925 - BRASIL. DECRETO N. 3.828, de 25 de março de 1925. Dá regulamento á
vada .. lei n. 2.059 d e 31 de Dezembro de 1924.

1915 - BRASIL. LEI N. 2.992, de 25 de setembro d.e 1915. Modifica os arts. 266, 1926 - BRASIL. DECRETO N. 17.181, de 8 de janeiro de 1926. Resolve d ará Casa
277 e 278 do Código Penal. de Prevenção e Reforma, a denominação d e Escola Alfredo Pinto.

1916 - BRASIL. DECRETO N. 11.945, de 9 de fevereiro de 1916. Divide em duas 1926 - BRASIL. Constituição do Brasil, de 7 d e setembro (em enda de 1891).
a Curadoria Geral de Orphãos d.o Distrito Federal. 1926 - BRASIL. DECRETON.5.083, de 1 de dezembro de 1926. InstilueoCódigo
1917 - BRASIL. Projeto. Sessão em 25 de outubro de 1917. Sr. Nicanor Nasci- de M enores.
mento. Do contrato d e trabalho.
1927 - BRASIL. DECRETO N. 17.943-A, de 12 de out ubro de 1927. Consolida as
1918 - BRASIL. DECRETO N. 12.893, de 28 de fevereiro de 1918. Autoriza o leis de Assistência e Proteção aos menores.
Ministro da Agricultura a crear patronatos agrícolas, para educação
de me1~ores desvalidos, nos postos zootechnicos, fazendas-modelo de
criação, nucleos coloniaes e outros estabelecimentos do Ministerio.
1919 - BRASIL. DECRETON.13.706,de25dejulhode 1919. Dánovaorganização
aos patronatos agrícolas.
~ CORTEZ
~ EDITORA 151

P.t~RTE 2

Pontos de partida para


uma história da assistência privada à
infância no Brasil
1ªCORTEZ
'l!:l,EOITORA 153

Capitulo DIU

Rostos de Criancas no Brasil


'

Esther Maria de Magalhães Arantes*

Notas metodológicas

Enfrentar a chamada questão da criança no Bras il é percorrer um


campo complexo, tão variadas, e n1uitas vezes nebulosas e dramáticas, as
situações que empiricamente se apres entam. Difícil não se perder nesta va-
riedade de situações, como também no em_a ranhado de prá ticas, programas
e ins tituições -~-onstitutivos da par~Iernália responsável p elo atendimento
a esta criança . .
A coplados a este dispositiv o, constituindo-o e por ele sendo consti-
tuídos, proliferam agentes e discurnos con1 inspirações e pretensões tam-
b ém as mais divers a s: do discurso "piedoso" da caridade ao discurso de
"denúncia" do militante, passando pelo discurso "competente" daqueles
a quem s e atribui a responsabilida de pela gestão do problema.
Assim, noções como ilúância "desvalida" ou "infeliz", constitutivas d a
antiga caridade e quase hoje desaparecidas, ainda se mis turam às "faltas" e
"desvios" resultantes das teorias da carência e marginal idade sociocultural,

~Professorada Pontifíc ia U n iversidade Ca tólica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e Universidade do


Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
154 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS
155

bem como a outras noções nascidas do jargão médico-jurídico-policial como Pela análise genealógica, as identidades aparecerão, não como natureza
"doente", "irregular", "perigoso", "incorrigível". humana, mas como produções históricas, a partir d e práticas múltiplas que
A difusão dessas noções na vida social, ao mesmo tempo em que serve se imbricam e se agenciam.
de baliza quanto ao embaralhamento das práticas, constitui-se, por outro Havendo descontinuidade das práticas, novas identidades emergirão
lado, em verdadeiro logro ao pesquisado1~ militante ou trabalhador da área, na paisagem enquanto objetos para um sujeito do conhecimento. Neste
na medida em que essas noções ou identidades são tom.adas como sendo sentido, tanto as crianças "tábulas rasas" dos primeiros jesuítas quanto
a natureza mesma das crianças. os "expostos" e "desvalidos" da antiga caridade, b em como os "aban -
Para se aventurar por esse terreno, ao menos duas possibilidades donados" e "irregulares" da República aparecerão como rostos datados,
se apresentam ao pesquisador: tomar as categorias do "campo" como em descontinuidade uns em relação aos outros - perpassados todos, no
verdades e, a partir daí, enumerar e descrever os diferentes momentos entanto, p ela herança de exclusão que marca a história do Brasil des de o
da trajetória da criança e da assistência a ela prestada, admitindo uma descobrimento.
relação de exterioridade de uma em relação à outra (a infância pos tula- Pretende-se assim, c01Tt este estudo, operar i.un deslocamento: não mais
da como objeto natural e a assistência como políticà pública a partir de escrever um texto que confirme a ilusão desses objetos-irregular, carente,
um centro gerador, o Estado) ou, colocar em cheque as noções dadas de delinquente etc. - m as escrever mn texto que evidencie os 1necanismos
antemão no "campo", desnaturalizando-as através de uma análise his- dessas fabricações.
tórico-genealógica.
Preferimos a segunda opção, não por desprezo às análises descritivas
e factuais, mas porque as estratégias de poder-saber neste setor são hoje Ogoverno através das crianças - Os primeiros jesuftas
por demais evidentes. Adicionalmente, as políticas públicas voltadas para
a infância, no sentido em que comumente sã.o d efinidas, só tiveram lugar
"Para que1n vivia no mundo europeu do século XVI, recém se libertan-
no Brasil a partir da República.
do da hegemonia católica e já se engalfinhando em novas lutas religiosas
Neste sentido, as análises de Michel Foucault sobre sujeito-poder- que representavam mais constrangimentos e menos liberdade, a visão que
-verdade são referências priv ilegiadas, por recobrirem um domínio de se deslumbrou nas praias da costa brasileira foi realmente extasiante( ... ).
práticas que, investindo o corpo, são produtoras de modos históricos de Os navegantes e aventureiros normandos, ingleses, irlandeses e até ale-
subjetividade. mães trouxeram d e volta às suas pátrias as histórias impressionantes desse
Não se trata, em Foucault, conforme críticas costmneiran1ente a ele paraíso sem maldade nem desonras, cheio de bonança e abundância, com
dirigidas, de desconsiderar as relações de classe, minimiz ar o papel do igualdade e generosidade de todos e para todos. E com uma brutalidade que
Estado ou desqualificar a função do técnico do campo social. Trata-se lhes parecia ingênua e insensata, como de crianças (Gomes, 1991, p. 37).
apenas de reconhecer que os mecan.ismos de domina ção e assujeitamento Tentemos, por um momento, imaginar este instante, já que aos olhos
não decorrem m.ecanicam.ente dos mecanismos de exploração, embora os do historiador:
pressuponha, e que o poder cenh·alizador do Estado, enquanto se exercendo
sobre sujeitos civis não exclui a existência de um outro tipo de poder ou "A tentativa d e implantação da cultura europeia em extenso territór io,
governo (biopoder) exercido sobre indivíduos vivos (Foucault, 2003). dotado d e condições naturais, se não adversas, largamente estranha à sua
156 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 157

tradição milenar, é, nas origens da sociedade brasileira, o fato dominante e Censuravam os jesuítas aos portugueses os castigos desmesurados
mais rico em consequências. Trazendo de países distantes nossas formas de infligidos aos fodios, principalmente aos já convertidos e cristãos:
convívio, nossas instituições, nossas ideias, e timbrando em manter tudo
isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil, somos ainda hoje uns "O que mais espanta aos Indios e os faz fugir dos portugueses, e por conse-
desterrados em nossa terra. Podemos con struir obras excelentes, enriquecer quencia das igrejas, são as tiranias que com eles usam, obrigando-os a servir
nossa humanidade de aspectos novos e imprevistos, elevar à perfeição o tipo toda a sua vida corno escravos, apartando mulheres de maridos, pais de filhos,
de civilização que representamos: o certo é que todo o fruto de nosso trabalho ferrando-os, vendendo-os etc.(...)" (idem, p. 342).
ou de nossa preguiça parece p articipar de um sistema de evolução próprio
de outro clima e de outra paisagem" (Holanda, 1988, p. 3). Censuravam-lhes também pela pouca ounenhuma preocupação com
a conversão dos gentios e por estarem, os próprios portugueses, vivendo
em estado de pecado grave, inclusive o clérigo:
Oestado da terra - Otempo antigo do Brasil
" ( ... ) e desta m.aneira viviam e vivem ainda agora muitos em p erpétuas trevas
sem terem mais que nomes de cristãos, de maneira que assim se haviam com
Cinco décadas após o descobrimento, duas preocupações ocuparam
eles e ainda agora se hão, como se não fossem suas ovelhas; ne1n os Bispos
os portugueses: como povoar a terra, assegurando a conquista e o tráfico
fazem muito caso disso, pois com os Indios livres visto está que não se faz
das riquezas, e como governar povos que, segw1.do diziam, não tinham" fé,
diligência n enhwna no que toca a sua salvação, quais como de gente que não
lei, e rei" (Barléu, 1974, p. 22)? tem alma racional nem foi criada e r edimida, para a Glória" (idem, p. 330).
Dos primeiros escritos sobre esta Índia Brasílica, inúmeras são as
referências às marav ilhas do clima, fauna e vegetação, como também aos Por último, censuravam ainda os portugueses por dizimarem os índios,
escândalos que aqui se cometiam, herança do "tempo antigo" do Brasil, não percebendo que da aliança entre eles dependia um Brasil português
anterior ao estabdecimento do governo geral e da chegada dos jesuítas, e cristão:
ambos em 1549 .1
Tais escândalos foram iniciahnente atribuídos aos costumes praticados "A gente que d e 20 anos a esta parte é gastada nesta Baía, parece cousa, que
pelos da terra mas, principalmente, aos desregramentos dos cristãos que senão pode crêr; porque nunca ninguém cuidou, que tanta gente se gastasse
nunca, quanto mais em tão pouco tempo; porque n as 14 igrejas, que os Padres
para cá vieram nas primeiras levas. Nas palavras dos primeiros jesuítas:
tiveram( ...) se chegam ou passam de 80.000 almas."
" ( ... )é fóra de dúvida que não quererão chegar-se ao culto da fé cristã; pois são Ver agora os engenhos e fazendas da Baía, achá-los-ão cheios de negros da
de talfórma barbaros e indomi.tos, que parecem aproximar-se mais ánal1Jreza Guiné, e mui poucos da terra e se perguntarem por tanta gente, dirão que
das feras do que á dos homens. O que não é tanto para admirar com a detestavel morreu,( ... )" (idem, p. 385-6).
maldade dos proprios Cristãos, nos quais acham não só o exemplo de vida "( ...) e em todas estas guerras foram sempre à sua custa, com seus mantimentos
como favor e auxílio para cometerem delitos" (.. .)" (An.chieta, 1988, p. 56). e armas, onde morreram muitos, porque não tão sómente pelejavam contra
seus contrários, mas serviam aos Portugueses, e lhes buscava de con1er, sem
por n enhuma cousa destas terem nenhum premio" (idem, p. 387).Tais eram
1. Segundo Afrãnio Peixoto, apenas a cobiça das terras brasileiras e a pirataria moveram a colo -
nização portuguesa (Navarro e outros, 1988, p. 38). considerados os vícios da época e tantos, não apenas em terras portuguesas
158 RIZZINI • PILOTTI • A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 159

como em holandesas, que aqui se divulgava:"Além. da linha equinocial n ão "Os Padres incitam sempre os Indios, que, faça1n sempre suas roças e manti-
se peca" (Barléu, 1974, p. 49). n1entos, pera que se fôr necessário, ajudem com eles os Portugueses por seu
resgate, como é verdade, que Muitos Portugueses comem das aldeias, por
Acresce-se aos males oriundos dos cristãos os da terra, chegando onde se pode dizer, que os Padres da Companhia são pais dos Indios assim
os jesuítas a longos inventários, como o clássico texto de Anchieta "Dos das almas como dos corpos" (Anchieta, 1988, p. 390).
impedimentos para a conversão dos Brasis e, depois de convertidos para "( ... )ficamos meninos na escola, onde aprendem a ler e escrever, contar e
o aproveitamento nos costumes e vida Cristã" (Anchieta, 1988, p. 341-2). outros bons ensinamentos pertencentes á polícia crist㺠(idem, p. 389).
Dentre os impedimentos, cita Anchieta o possuírem os índios muitas mu-
lheres, beberem vinhos, as guerras que faziam aos seus contrários, o serem Na luta pela conquista das terras e das almas, Estado e Igreja foram.
pouco constantes no trabalho e, sobretudo, faltar-lhes temor e sujeição. incansáveis, podendo-se concordar que "tirar o medo aos cristãos, senl10-
Muitas são as referências jesuíticas a tais impedimentos: rear gentio pela guerra, amedrontá-lo con.1. grandes ameaças( ... )" foram
estratégias de governo, a partir de 1549 (Rodrigues, J. H. In: Abreu, 1982c,
"( ... ) não são sujeitos a nenhum rei ou capitão, só tên~ em alguma conta os p.14).
que alguma façanha fizeram, digna do homem valente, e por isto comumente
recalcitram, porque não h a quem os obrigue a obedecer; os filhos dão obe-
diencia aos pais quando lhes parece; finalmente, cada um é rei em su a casa e
vive como quer; p elo que nenhum ou certamente pouco fruto se pôde colhei~ Os remédios - O governo dos Brasis
deles, se a fôrça e o auxilio do braço secular não acudirem para domá-los e
submetê-los ao jugo da obediência". (Idem, p . 55) Dos grandes impedimentos sentidos para a con v ersão dos gentios,
"O que mais crêrn e d e que lhes nasce muito mal é que em alguns tempos que resume tudo o mais que se seguirá, eram lhes faltar "rei, lei e fé". Suprir
alguns de seus feiticeiros, que chamam Pagés, inventam uns bailes e cantares estas ausências era tarefa considerada árdua, mas não impossível, para
novos, de que estes Indios são mui amigos, e entram com eles por toda a terra,
aqueles que fizeram desta terra o seu empreendimento. O fato de andarem
e fazem ocupar os lndios em beber e bailar todo o dia e noite, sem cuidado de
os índios soltos, sem prestarem obediência a um rei e sem se encontrarem
fazerem mantimento( ... ). Cada um dêstes feiticeiros( ... ) vem dizendo que o
organizados por um poder centralizador nos moldes dos Estados europeus,
mantimento ha de crescer por si, sem fazerem plantados (... ). Outros dizem
que as velhas se hão de tornar moças( ... ), que os que os não receberem se hão dificultava a conversão. Segundo o Irmão Pero Correia:
de tornar em pássaros (... ). De modo que bem se pode crer que ali particular-
mente obra o demonio (... )"(Idem, p. 339). "( ... ) e si tivesse1n um.Rei, convertido este, converter-se-iam todos. Mas como
"( ... ) Mas por duas cousas principalmente entendo que se lhes não deve ad- não há um Rei para a conversão destes, é necessário que para cá venham
ministrar o Baptismo. Uma, é não terem Rei a quem obedeçam, nem moradia muitos Irmãos( ... ) (Cópia da carta de Pero Correia, pessoa que esteve muito
certa, mudando-se de aldêa todos os annos (.. .). A outra (... ) o uso de comer tempo no Brasil e um dos primeiros da Terra; serve a Deus com grande fervor
carne humana( ... )" (Navarro, 1988, p . 76-7). na Companhia de Jesus", In: Navarro, 1988, p. 121).

Feito o inventário dos males e desgovernos, os remédios não tardariam, Quanto à ausência de lei, os primeiros remédios bem sucedidos foram
através do braço secular com o auxílio dos bons ensinamentos e costumes as ações empreendidas por Mern de Sá, terceiro governador geral do Brasil,
pertencentes à m edicina da alma ou polícia cristã. sujeitando todos às leis de Deus e do Estado e, em consequência, diziman-
160 RIZZI NI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS
161

do milhares de índios. As inúmeras cartas dos jesuítas são unânimes em Antes de prosseguirn1os, porém, façamos breve menção à relação Esta-
comemorar esta sujeição, tomando-a como m arco de governabilidade: do e Igreja, à época. No Regímen to de Tomé de Sou za, assinado por D.João
III, encontram-se as principais diretrizes do govern o geral. Pela ordem: 1)
"Todos êstes impedimentos e costumes são mui faceis de se tirar se houver
"o serviço de D eu s e o exalçamento d a nossa santa fé"; 2) "o serviço m eu e
temôr e s ujeição, como se viu por experiên cia desde do tempo do governado r
proveito dos meus reinos e senhorios"; e 3) "o enobrecimento das Capitanias
Memde Sá até agora;porque com o os obrigar a se juntar e terem igreja, bas tou
para receberem a doutrina dos Padres e perseverar n ela até agor a, e assim e povoações das terras do Brasil e o proveito dos naturais dela".
será sempre, durante esta sujeição( ... )" (Anchieta, 1988, p. 341). Ordenava a inda D. João III que se realizasse a catequese dos índios
"O primeiro remédio, e que já succede bem, foi fazer ajuntar os de quatro bem c01no o seu a ldeamento e o en sino dos m.eninos:
aldeias em uma só ( ... )e serve isto também pera melhor se poderem remediar
seus erros e peccad os ( ... )"(Translado de uma carta do Padre A:nlônio Pires, "Porque parece que será grande inconveniente, os gentios, que se tornarem
da Bahia, de 19 de julho de 1558. ln Navarro, 1988, p . 225). cristãos, morarem n a povoação dos outros e andarem 1nisturados com eles
"Todos, assi gentios como christãos, guardam a lei de Christo, uns por serem (... ). E aos meninos, porque n eles se imprimirá melhor a doutrina, trabalhareis
obrigados, e outros por se apparclharem pera bautisar, e se afazer em ao jugo por dar ordem como se façam cristãos e que sejam ensinad os e tirados d e
do Senhor( ... ). E is to despois de Deus d eve-se ao Senhor Governador e á s ua conversação dos gentios; e aos capitães das outras capitanias direis da minha
prudência e zelo( ... ) ordenou que h ouvesse em cada povoação des tas um dos parte, que lhes agradecerei muito ter cada um cuidado de assim o fazer em
mesmos lndios, que tivesse carrego de pr ender em um tronco os que fizessem sua capitania; e os meninos estarão na povoação dos portugueses e em seu
cousa q ue pudesse estorvar a conversão, e isto quando n ós lho dizemos. E h ão ensino folgaria de se ter a m an eira que vos disse" (Leite, 1954, p. 6-7).
tanto medo a estes troncos, que, despois de Deus, são elles cau sa de andarem
no caminho e costumes que lhes pômos, ( ...) ao men os não estorverem aos A ssim combinados, em relação aos ú1.dios, os esforços das missões
pequenos, nem os mettam em seus maus costumes( ...) e não se permittirem jesuíticas con sistiriam em
fei ticeiros entre elles ( ... ) vêm á hora da morte a pedirem o bautismo e mor-
rerem chri$tãos. E alguns, si escapam da doença (posto que são mui raros),
"( ... ) fazê-los de bárbaros homens, e de homens cristãos, e de cristãos perse-
dizem maravilhas do bautismo" (Carta do Padre Ru y Pereira aos Padres e
verantes na fé" (idem, p. 12).
Irmãos da Companhia da Província de Portugal, da Bah ia a 15 de setembro
de 1560". ln Navarro, 1988, p. 285-286).
Que se d obre o infiel ao r econhecimen to da verdade única, ainda
Estando os índios sob su jeição, estava aberto o caminho para a con- que is to signifique negar a su a própria existência. Que se transforme em
versão e o trabalho escravo, que en tre n ós persistiu até 1888, apenas um súdito de El-Rei de Portugal e que se regozije, mesmo que n a condição de
ano antes da Proclamação da Repúb lica. escr avo.

Se a "au sência" de rei e lei pôde, des ta forma, ser equacionada, ainda
que pela força, restava a d ifícil questão da fé. É em relação a esta questão que
se descortina toda a pedagogia da época - massacre cultural t ão terrível Separação, medo, morte por imaginação -A medicina da alma
como os sofrim entos infligidos aos corpos-e que motivou, por ocasião dos
500 anos do descobrimento da América, que o Papa João Paulo II pedisse Uma das primeiras inicia tivas dos jesuítas, auxiliados p elo governo
perdão pelos excessos da catequiz,ação entre nós. geral, foi isolar o índio do colono.
162 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS
163

"A experiência convenceu-o (ao padre Manoel da Nóbrega) da n ecessidade, Em outra carta, Nóbrega volta a se referir à casa d e recolhimento para
para colher resultado útil e duradouro, de isolar o indíge na do colono, para as índias:
aperfeiçoá-lo ao h·abalho moderado, resguardando-lhes a segurança pessoal
e garantir-lhe economia ind ependente" (Abreu, 1982, p. 160).
"Damos ordem a que se faça hmna cassa pera recolhe r todas as m oças e mo-
lheres do gentio da terra que h á muitos a1mos que vivem entre os christãos,
Outras separações se fizeram necessárias aos olhos da época, para impor e sam christãs e tem filhos dos homcins branquos; e os mesmos homeins que
aos índios o casamento monogâmico e oficializado p elo sacramento e per- as tinhão ordeno es ta cassa, porque ali douctrinadas e governadas por algu-
severá-los na douh·ina. Era necessário recusar o sexo fácil, cobrir a pele nua m as velhas delas mesmas, pollo te1npo em diante muitas casarão e ao menos
dos índios, separar meninos de adultos e 1nulheres de homens, bem como vivirão com menos occasiom d e peccados; e h este h é ho m ilhar meio que nos
desmoralizar os Pajés, retirando-lhes qualquer influência sobre os índios. pareceo por se nam tornarem ao gentio" (Nóbrega, ln Leite, 1954, p. 292).

"O metodo que se adota nestas missões, é ensmar e explicar a doutrina cristã Quanto aos meninos:
aos lndios e Africanos reunidos em um l u ga1~ batizar, ouvir-lhes as confissões,
separá-los das concubinas e sujeitá-los ás leis do matrimonio: o que nesta "Temos também em casa comnosco alguns filhos dos Gentios, que atraímos
provfocia é trabalh.o quotidiano, n ecessário e utilíssimo á salvação das almas" para nós de diversas partes e êstes até abominam. os costumes paternos a tal
(Anchieta, 1988, p. 407). ponto que( .. .) passando com os nossos Irmãos pela aldeia em que morava a
1nãe, dando-lhe os mesmos licença para ver sua mãe, não a saudou no entanto
Já em 1551, Nóbrega ordenou uma casa d e recolhimento para os me- e passou alérn; assim, antepõem en1 tudo ao amor dos pais o nosso. Louvor e
ninos e outra para as índias. glória a Deus, de quem todo o bem procede" (Anchieta, 1988, p . 52-3).

"As índias forras, que há muyto que a ndão com os christãos em peccado, h·a- Pensando os índios como matéria dócil, folhas em branco ou tábulas ra-
balhamos por remediar por nom se irem ao sertão já que são christãas, e lhes sas, acreditavam t udo neles poder imprimil~ mediante o medo e o terror.
ordenamos huma casa a custa dos que as tinhão para nella as recolher e dali
casarão com alguns homens trabalhadores pouco a pouco. Todas andão com "(... ) e foi com esta gente o padre Nobrega com uma cruz na mão, que dava
gr ande fervor e querem emendar-se de seus peccados e se confessão já as m ais grande consolação aos Christãos e espanto e terror aos lndios ( ... )Estão agora
entendidas e sabem (-se) muy bem accusar. Com se ganharem estas se ganha os Negros tão medrosos, que qualquer jugo de bem vi ver que lhes fôr posto o
muytas, porque são mais de 40 soo nesta povoação, afora muytas outras que aceitarão, ainda que seja por temor e medo dos Brancos" (Carta que o Padre
estão polias outras povoaçõis, e accarretão outras do sertão asi já c.hristãas como Antônio Pires escreveu no Brasil, da Capitania de Pernambuco, aos Irmãos
ainda gentias. Algumas destas mais antigas p regão ãs outras( ... ). Ganhamos da Companhia, d e 2 de Agosto d e 1551. ln Navarro, 1988, p. 105-6).
tambem que estas nos frarão meninos do gentio para insinarmos e (criarmos) "(...)nos mandou o Padre( ... ) a confessar os que se havia de bautisarao outro
em hum a casa que para isso se ordena, (e já se faz, e trabalha) nella com muyta dia, a qual confissão, corno já saberã o, não é mais que peca lhe fazer detestar a
pressa e fervor todo ho povo asi hornens como molheres".2 vida passada e conhecer a que querem tomar( ...)" (Carta do Padre Leonardo
do Valle, da Bahia para os Irmãos". InNav arro, 1988, p . 356).
2. Nóbrega, M., Cartas dos Primeiros Jesuítas do Brasil.ln: Leite, 1954, p. 286. Ambas as casas parecem "( ... ) porque têm grandíssimo desejo de conhecer a Deus e de saber o que
ter sido,respectivamente, o princípio do Recolhimento de Moças, de Olinda eo Colégio de Pernambuco, hão de fazer para se salvai~ porque temem muito a morte e o dia de Juízo e o
também em Olinda . Ver notas 7, 8 e 9, p. 286. Inferno, de que têm já alguma notícia. Depois que Nosso Senhor trouxe ao
164 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 165

carissimo Pero Corrêa a ser nosso Irmão, nas praticas que lhe faz sempre lhe da cidade de Salvador, Bahia de Todos os Santos, para o Padre Mestre Geral
mando tocar nisso e o ten,or os mette em g rande confusão" (Outra carta do Diogo Laynez e aos mais Padres e Irmãos da Companhia, de 23 de Setembro
Padre Leonardo Nunes, de São Vicente, a 20 de Junho de 1551. ln Navarro, d e 1561. InNavarro, 1988, p. 338-9).
1988, p. 92). " ( ...) são algo melancólicos e se querem morrer com aprender somente a morte
na imaginação ou com comer terra; ou llies digam que se hão de morrer ou
Pode-se creditar à medicina da alma parcela de responsabilidade na
lhes ponham medo morrer am brevissimamente" (Anchieta, 1988, p. 442).
devastação dos povos indígenas.3 No entanto, dentre tão numerosas e tantas
mortes, escapava aos jes uítas o sentido das "mortes por imaginação" - que
tanta perplexidade lhes causavam.
O governo através das crianças
"Muito trabalho nos dá a imaginação d es ta gente n os taes tempos de doenças,
porque quasi tantos parece morrem della como coma peste" (Carta do Padre Cedo puseram-se os padres a utilizar índios recém-convertidos n a
Leonardo do Valle d a Bahia para o Padre Gonçalo Vaz, Prov incial da Compa-
catequização de outros índios, não apenas pela dificuldade da língua mas,
nhia de Jesus de Portugal, aos 12 de Maio de 1563 InNavarro, 1988, p. 414).
principalmente, porque os convertidos seriam exemplo e espelho para os
"Nõ ·a ia seguinte baptisou o Padre Provincial a cento e setenta e tres, guar-
demais.
d ando-se o modo e ordem acostuma dos. Logo depois (... ) foi-se à povoação
d e Santiago e dahi a quinze dias ao Espírito Santo, para que se mudasse Necessitando de "bons línguas" e "bons espelhos", um tanto descren-
aquella povoação, porque, por ser o sitio mui doentio, morriam muitos e les d a eficácia da conversão de índios adultos p elos hábitos já formados, e
muito amiudo, e porque neste comenos achei-me ali, direi como testemunha contraditoriamente , acreditando serem os Úldios tábulas rasas onde tudo se
de vista que havia dias em que morriam ora quah·o, ora tres, e o commum
podia imprimir, voltaram-se os jesuítas, prioritariamente, para a educação
não passava dia em que não morressem, pelo que andavam elles mui tristes
das crianças.4
e d esconsolados, vendo tanta mortandade entre si, e não ha que duvidar
si.não que era para cortar o coração de lastima ver tantos meninos orphãos,
"( ...) só aos pequenos acho com boa inclinação, si os tirassem.os de casa de seus
tantas mullieres viuvas e a doença e enfermidade tão continua nelles que
parecia pestilencia. Andavam attonitos e como que pasmados vendo o que paes, o que não se poderá fazer sem que Sua Alteza faça edificar um collegio
por elles passava. Não usavam seus cantares e bailes, mas tudo era tristeza nesta cidade com destino a essas crianças para as educar, de maneira que com
e pela aldêa não se ouvia si.não choros e gemidos pelos d efuntos. Acudiu os maus costuines e malicia dos paes se não perca o ensino que si ministra
o Padre Provincial, e a primeira cousa que fez foi traballiar por lhes deitar
aquella melamcolia fóra, provocando-os a que folgassem e se regosijassem, 4. É necessário ter em conta a ambiguidade da palavra criança quando referida ao índio. Mesmo
porque são elles dados tanto a o imag inar e embebevecem-se tanto nis to, que os índios adultos foram tratados como menores: incapazes do p onto de vista jurídico, psicológico e
morrem de pura imaginação" (Carta do Padre Antonio Blasquez do Brasil, social.
A Carta Régia d e 1798 diz textualmente que os índios são"crianças órfãs". Esta condição jurídica é
reafirmada pela Regência, em 1831. Na República, pelo Código Civil de 1916, essa cond ição se modifica
3. Segundo D arcy Ribeiro, o que mais d evastou os povos ind ígenas "foram as pestes europeias para a de "menor de idade", "relativamente capaz" (Gomes, 1991, p. 77).
de extremada virulência que grassavam de tribo a tribo, em cadeias de contaminação generalizada". Segundo o autor: " A té os liberais e amigos dos índios, como o general Couto de Magalhães, a cha-
Outras pragas foram o "genocídio e o extermínio cultural, o etnoddio, induzido tanto pela própria vam que essa era a maneira correta de se tratar os índios: como crianças, g uiando-os na sua vontade,
burocracia oficial protecionista, como pela ação missionária" e ainda pela "opressãopsicológica" e "pela admoestando-os e punindo-os no seu erro, e procurando o melhor p ara eles pelo trabalho, a obediência
d esmoralização de suas crenças e indução da ideia d e sua inferioridade" (ln Gomes, 1988, p. 10-1). e a religião" (idem, p. 81).
166 RIZZ!NI • P!LOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 167

aos filhos" ("Extrac to d e uma carta do P adre João d e Azpilcueta N avarro da tivessem as qualidad es recolhê-los para Irmãos e os que não fossem tais dar-
índia do Brasil a 28 de Maço d e 1550". In Navarro, 1988, p. 77) . lhe vida por outro modo.( ... ) que ser á mui grande serviço de Deus tê-los e
criá-los n a mesma conta que os In.d ios e quand o ch egarem a anos d e discreção
Parte des te empenho também se devia à esperança de que algumas mandá-los a Espanha, onde h á menos inconvenientes e perigos para serem
des tas crianças da terra se tornassem Irmãos da Companhia. ruins que aqui( .. .)" (Anchieta, 1988, p. 77-78).

"Ao grande zêlo da conversão dos Brasis ajuntava outro que lhe era con se- Em 1585 a Companhia de Jesus já havia fundado no Brasil três Colégios
quente, con vem a saber: g randíssimo cuidado e dilingencias de criar Irmãos (Bahia, Rio de Janeiro e Pernambuco) e cinco Casas (Ilhéu s, Porto Seguro,
da Companhia quepudes semserins trumento desta conversão. Por esta causa Espírito Santo, São Vicente, São Paulo). Nos Colégios e nas Casas h aviam, d e
ajuntava em casa rnoços pequenos mes tiços e outros de todo Portugueses,
ordinário, escola de ler, escrever e algarismo, classes d e humanidade, latim,
nascidos na terr a, por sere m línguas.5 E trabalhava pelos fazer chegar até onde
cursos de arte, liçõ es de casos de consciência e teologia. Diferentem ente d as
alcançasse sua h abilidade, assim no espírito como no estudo, e por não deixar
cousa por intentar para ês te fim, determinava manda r a Portugal alguns ( ... )" 6 Casas, g ue se sustentavam com esmolas, tinham os Colégios renda própria
(Anchieta, 1988, p . 479-80). -dotações do Rei de Portugal. Tanto os Colégios g uanto as Casas tinham
a seu cuidado aldeias, nas quais alguns dos padres residiam. Quanto aos
Construindo cas as e colégios, atraindo para junto de si os filhos dos que residiam nos Colégios e Casas, por exemplo, descreve Anchieta, em.
índios e mestiços, amparando órfãos portugueses e brasileiros, ocupan- relação à Bahia:
do-s e das famílias e dos filhos dos portugueses, foram os jesuítas, por mais
de duzentos anos, os educadores do Brasil.7 "Tem êste Colegio ta nta gente p or ser seminário, e n ele se criam os nov iços,
escolares, línguas, e estão os velhos, que ha muitos anos que trabalham, e
"Todo este tempo que aqui ternos estado nos h ão mandado d e Portugal alguns quanto aos escravos são tantos porque muitos n ão fazem por um, e tam.bêm
dos meninos órfãos, os quais havemos tido e temos c01mosco sus te ntando-os são oficiais de vários oficios, como p edreiros, carpinteiros, ferreiros, carreiros,
com muito trabalho e dificuldade; o que nos moveu que aqui também reco- boieiros e alfaia tes, e é n ecessário comprar-lhes mulheres por n ão viverem em
lhessemos alguns órfãos principalmente dos mestiços da terra, pera assim mau es tado e para êste efeito na roça têm a dita povoação com suas mulheres
os amparar e ensinar, porque é a gente mais perdida desta terna, e alguns e filhos, as quais tamb em servem para plantar e fazer os mantimentos, lavar
peores que o s m esmos Indios. a roupa, anilar e ser em costureiras etc." (idem, p. 422-423) .
Como disse no quadrimest re d e Agosto e durante esse tempo pretendemos
conquistar um dêstes como umlndio, porque n eles está muita parte da edifi- Quanto às ativ idades n este Colégio:
cação ou des truição da terra como também porque como línguas e intérpretes
para nos ajudarem na con versão dos Gentios e dêstes o s que fossem aptos e "As ocupações dos nossos com os próximos são: urna lição de teologia que
ouvem dois ou três estudantes de fóra, outra. d e casos d e conciência que ouve
5. P adres e menin os "líng uas" eram aqueles que, por d ominarem o português e a língua da terra, outros ta ntos e uma e ouh·a alguns da casa, um curso de artes que ouven1 d ez
podiam servir como intérpretes. de fora e alguns de casa, escola de ler, escrever e contar que tem a té seten ta
6. Sobre o Padre Manoel da N óbrega.
rapazes filhos dos Portugueses, duas classes d e humanidades, na primeira
7. Quan do do goven10 d o Marqu ês de Pombal, em 1755, h á uma cisão entre Coroa e Igreja, no que
aprendem tri nta e n a segunda quinze escolares de fóra e alguns de casa"
se refere ao tratamento a ser d ado aos índios, tendo a Companhia de Jesus sido e xpulsa d o território
brasileiro (Gom es, 1991, p. 74-5). (idem, p. 423).
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Q uanto às aldeias: E es ta talvez tenha sido a primeira lição aprendid a pelos jesuítas em
terras d o Brasil: nada ensinamos se n ão son1.os o u nos torna1nos semelhan-
"Tem êste Colegio três aldeias de Indios cristãos livres a seu cargo, que terão
tes ao outro.9
duas m il e quinhentas pessoas( ... ). Tem nelas suas casinJ:ias, cobertas de pal-
mas, b em acon1odadas e i grejas capazes, onde ensinam aos Indios as cousas
necessarias á sua salvação, lhes dizem missa e en sinam a doutrina cris tã duas
vezes cada dia, e também em cada uma ensin am aos filhos d os Indios a ler,
Os filhos dos escravos - O lucro através das crianças
escrevei~ contar e falarportguês, q ue aprendem bem e falam com graça, ajudar
O apresamento d e n aturai s da África, transformados em escravos,
as missas, e d esta rnaneira os fazem p olidos e h omens. (... ) Em uma d elas lhes
para servirem nas plantações de can a no Brasil, não constitui novidade no
en sinam a cantar e tem seu côro de canto e flautas para suas festas, e fazem
suas danças á portuguesa com ta mboris e violas, com muita graça, como se
cen ário portug u ês e espanhol da época. Em 1541, estimava-se em 10 a 12
fossem m eninos portugueses( ... ) e põem uns diademas na cabeça de penas mil os escravos levados a nualmente a Portugal:
de passaros d e várias côres, e( ...) assim pintados e mui galantes a seu modo
fazem suas festas muito apr aziveis, que d ão contento e_causam d evoção por Dificilmente se e n contraria h abitação onde n ão h o uvesse pelo menos uma
n egra. Agente m.ais rica tinha escravos d e a mbos os sexos, e n ão faltava quem
serem feitas por gente tão indomita e b a rbar a, mas, p ela b ondade divina e
diligência dos nossos, feitos já homens políticos e cristãos" (idem, p . 424). tirasse bons lucros da venda dos filhos de escravos" (Holan da, 1988, p. 23).

Outro asp ecto da pedagogia jesuíta foi permitir adaptações nos rituais
No Brasil o tráfico negreiro foi inten so, mesmo considerando as pres-
sões existentes após meados do século XIX, conforme estatísticas relativas
religiosos e utilizar, quando necessário à conversão de adultos e crianças à
ao tota l de "entradas" ou "importações" :
fé católica, costumes d os próprios ú1.dios, como: permitir a eles assistirem à
missa nus ou seminus junto com os portugueses, cantar cantigas religiosas
em sua língua e p elo tom d e seus instrumentos musicais, e mesmo admitir Ano Número de entradas
a confissão com intérprete aos que não sabiam falar o portu guês. 1845 19.463
1846 50.354
"( ... ) e isto para os a trahir a d eixar em os outros cos tumes esentiais e, permi- 1847 56.172
tindo-lhes e aprovando-lhes estes, trab alhar por lhes tirar os out ros; e assi 1848 60.000
o pregar-lhes a seu modo em certo toom andando p asseando e batendo nos 1849 54.000
p eitos, como elles fazem quando querem persuadir alg uma cousa e dizê-la 1850 23.000
com muita eficacia; e assi trosquiaren1-se os meninos da terra, que em casa 1851 3.287
temos, a seu modo. Porque a sem elha nça é causa de a mor. E outros costumes 1852 700
sernelhantes a estes" .8 Fonte: Holanda, 1988, p. 44.

8. Carta de Nóbrega ao Pe. Simão Rodrigues, Lisboa, onde consulta sobre a justeza destes pro- Em 1727, o rei de Portugal proibiu que se falasse língu a indígena no Brasil, para que a portuguesa
cedimentos, na m edida em que nunca haviam sido u sados anteriormente pela igreja e tendo estes se tornasse oficial.
procedimentos sido criticados pelo bispo D. Pedro Fernandes, em seu primeiro sermão n o Brasil (In 9. Segundo Mércio P. Gomes. "a grande experiência q u e os índios tiveram com a religião cató lica
Comissão do I V Centenário, op . cit., p. 407-8). Ver também p. 357-366. fo i m ais d e o rdem social do que propriamente religiosa" (Gomes, 1991, p. 58).
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Embora como toda colonização, implantada de "fora para dentro", o p olidos( ... ) Os do Congo e Sonho são os mais aptos para o trabalho, de sorte
rn.odo de colonização realizado no Brasil visava, fundamentalmente, aliar que é do interesse da Companhia tomar em con ta o tráfico dêstes ( ... )" 11
à abundância de terras o trabalho escravo. As terras do Brasil só foram
ocupadas e defendidas à medida em que representavam riquezas a serem Embora os europeus, com. as exceções de praxe, pouca curiosidade
transferidas e acmnuladas. 10 Desta forma, em que pese a retórica da cris- manifestassem em relação à humanidade dos povos escravizados, encon-
tianização de povos selvagens e primitivos, índios e africanos só entraram tramos em Barléu um relato curioso sobre as razões que nos levariam a ter
no empreendimento colonial na condição d e escravos. cores diversas.

"É pouco verissimil ser a negrura dos íncolas devi.da à adustão do sol( ... ). De
"Não é possível o fabrico do açúcar sem o auxílio dos negros, gue de Angola
sorte que a causa da côr da cu tis parece deve r-se atribuir antes às qualidades
e outras partes da Africa se transporta em gr ande número para o Brasil. Dos
ocultas da terra, do céu e do ar (asilos, oh! pesar! da humana ignorância) ou ao
livros da alfândega consta que nos anos de 1620, 1621, 1622 e 1623,numqua-
temperamento inato dos homens, recebido dos pais, ou a uma e outra cousa,
driênio, só do pôr to deAngolaforamlevados para a capitania d e Pernambuco,
principalmente quando, mesclando-se entre si brancos e n egros, nascem os
com grande lucro para o rei da Espanha, 15.430 p eças''. (Barléu, 1974, p. 42).
trig ueiros, corrigida a negrura por uma coloração mais clara, por se confun-
direm os elementos geradores" (Barléu, 1974, p. 63-64).
No entanto, registros históricos frequentemente apontam mn temor por
parte dos governantes com a massa negra e mestiça que se avolumava. Também a brutalidade com a qual ia se fazendo a colonização levou
a -que os europeu s se indagassem sobre serem as suas atitudes dignas de
"Um após o outro, os governantes coloniais se ala rmaram ante o número
povos cristãos. Longas discussões foram feitas sobre o direito natural e
crescente de negros -
a justiça dos hon.1.ens. Em Barléu encontramos uma exposição um tanto
Assumar, qu e governou Minas entre 1717 e 1721, passou toda a sua gestão
"angustiada" sobre ser ou não lícito aos cristãos possuíre1n escravos.
aterrado com a possibilidade d e uma insurreição escrava - e desqualifica-
ram das mais diversas formas a gente mes tiça que ia surgindo a partir dos "Alei faz escravos, não a natural, que manda nasçamos todos livres, mas o
inevitáveis uniões mistas" (Souza, ln Del Priore, 1991, p. 35) . direito das gentes, contrário à natureza, é verdade, mas, n ão obstante, intro-
duzido não sem razão( ... ).
Na categoria de "peças", eram os escravos vendidos em logradouros Também os cristãos,nos primórdios da Igreja, tiveram escravos( ... ) Entretanto
públicos, cuja cotação dependia das qualidades da "mercadoria". Segundo em época posterior, aboliu-se a escravidão entre os cristãos, abrandados pela
relatos de Barléu, três eram as classes de escravos existentes no território doutrina e espírito de Cristo( ... ).
holandês: os "índios", os "trazidos do Maranhão" e os" africnnos". Quanto Depois que a avidez do ganho medrou ainda mesmo entre os cristãos, que
a estes, abraçaram fé mais pura e mudada para melhor abrindo caminbo com a guerra
e com as arn1.as, também os holandeses voltámos ao costume de com.prar e
"( ... ) são os angolanos os m ais trabalhadores. Os ardras muito preguiçosos vender um homem apesar de ser êle irnagen1. de Deus, resgatado pelo sangue
(... ). Os de Calabar teem pouco valor( ... ). Os negros da G uiné, os da Serra de Cristo e senhor do universo, escravo apenas por vício da natureza e do
Leoa e os do Cabo Verde são menos próprios para a escravidão, porem mais engenho" (Barléu, 1974, p. 192-3).

10. Diferentemente das "colônias de povoamento". Ver CUPERTINO, Faus to, 1977. 11. Refere-se Barléu à Companhia das Índias Ocidentais.
172
RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 173

E termina a exposição com a frase grega, a qual não é necessário nada Uma outra "fazenda de criar escravos" é relatada por Mott:
acrescentar ou comentar
"Melchior Yvan, que esteve por cerca de um mês no Rio d e Janeiro, diz a certa
"De sorte que nesta época na qual os cristãos dominam o Brasil, poderia um altura, ter pernoitado na Casa de um fazendeiro de aspecto 'misterioso' cujo
escravo qualquer laJUentar, exclamando: 'Que misera sorte, ó Júpiter e Deuses, vizinho lhe afirmou, mais tarde tratar-se de um francês, que se dedicava à
é ser escravo de um senh or louco"' (Barléu, 1974:193). l'élevage de negre" (Mott, 1979, p. 63-64).

Quanto aos castigos destinados aos negros, não eram menores do Sendo o trabalho manual totalmente desqualificado, existindo como
que os infligidos aos índios. Por volta de 1850, em visita ao Brasil, relata marca de servidão, restava aos brancos, para algum ganho extra ou mesmo
Thomas Ewbank ter encontrado nas ruas do Rio de Janeiro toda form.a de para sua sobrevivência, alugar as escravas como amas-de-leite ou ocupar
deformidade física entre os escravos, decorrentes de suas parcas condições os escravos em alguns ofícios menos qualificados.
de vida e dos castigos recebidos, entre os quais
"Assim, qualquer pessoa com fwnaças de nobreza podia alcançar proveitos
"Agentes estrangeiros de comissões interessados na questão doca tiveiro, de- derivados dos trabalhos mais humildes sem degradar-se e sem calejar as
cepcionam-se frequentemente. Estas vísi tam os engenhos uma ou duas vezes mãos" (Holanda, 1988, p. 29).
por ano. Os agricultores, informados de suas visitas, vestem decentemente
os seus escravos e untam-nos bem, de modo a darem a impressão de 1nacios Quanto aos filhos das escravas, indaga Mattoso sobre a idade na qual dei-
e em boas condições. Depois de uma visita, um observador ficou de tal modo II
xavam de serem percebidos como crianças" e passavam a serem vistos con10
satisfeito, que escreveu um relatório lisonjeiro em torno do tratamento dos "escravos" (Mattoso, ln Del Priore, 1991, p. 78). Aponta a existência de duas
escravos. O outro continuou os seus inquéritos e apareceu inesperadamente idades, na faixa de crianças ainda muito jovens - de Oa 7 e d e 7 / 8 a 12 anos
numa fazenda e ali topou com o que não esperava, um negro sendo cozido
- distinção referendada em documentações várias, incluindo inventários,
até a morte por qualquer a to de insubordinação. O seu senhor havia convida-
testamentos, cartas de alforria e a própria legislação civil e eclesiástica:
do, de acordo com os h ábitos em tais casos, os proprietários e vizinhos para
assistirem à tragédia" (Ewbank, 1976, p. 324-5).
"É por demais conhecido que, para a Igreja, a idade de razão de todo cristão
jovem situa-se aos 7 anos de idade, idade de consciência e de responsabilida-
Ao lado do tráfico negreiro surgiu uma oub:a prática ligada à escra- de. Para a Igreja, aos sete anos a criança adquire foro de adulto: de ingênuo
vidão colonial. Trata-se da produção de crianças para a escravidão, ou torna-se alma de confissão. Por sua vez, na sua parte de direito civil, o Código
"pecuária negreira". Embora no Brasil tal "pecuária" não passasse de em- Filipino, mantido em vigor durante todo o século XIX, fixava a maioridade
preendimento isolado (Cupertino, 1977, p. 22), em visita à fazenda Macacos, aos 12 anos para as meninas, e aos 14 anos para os meninos . Finalmente, a lei
dos frades Carmelitas da Igreja da Lapa do Rio, Ewbank constatou que de 28 de setembro de 1871 (Lei do Ventre Livre), ao colocar em poder e sob
a autoridade dos senhores os filhos de escravos nascidos ingênuos, obriga a
"Dos escravos, apenas seis eram homens, os restantes, aproximadamente estes 'crial-os e tratal-os até a idade de oito anos completos'" (idem, p. 80).
cinquenta, eram mulheres. Os proprietários acham mais rendoso criar ne-
gros que plantar café. Os rapazes a certa idade são mandados para a cidade A partir de 7 anos, entrava a criança para o mundo do trabalho na
e entregues a ofícios pelos quais ganham dez vezes mais do que se fossem condição de "aprendiz" ou "moleque" e aos 12/14 anos já se constituía
utilizados trabalhando na terra" (Ewbank, 1976, p. 276). plenamente como força de trabalho escrava.
174 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 175

Os filhos de ninguém - Os primeiros brasileiros "só hab itado de oficiais m ecânicos, p escadores, marinheiros, mula tos, p retos
boçais e nus, e a!g LU1S hon1ens de n egócios, dos quais 1nu ito poucos p od em
ter esse n01ne, sem haver guem pudesse servir ele veread01~ n em servir cargo
Em torno da grande propriedade colonial, impedido d e qualquer
autorizado, pois as pessoas de casas nobres e di stintas viviam retiradas em
a tividade produtiv a independente, cresce um contingente de pobres e
suas fazen d as e en genhos" (Holanda, 1988, p. 59-60) .
desclassificados: são mamelucos e mestiços - os primeiros brasileiros.
Segundo D arcy Ribeiro, será n ecessário Esta oposição entre campo e cidade irá perdurar até recentemente em
nossa história - motivo pelo qual o campo será visto com o ideal para a cura
" aprofundar muito mais o n osso conhecimento sobre o p apel do con vívio
e ressocialização de loucos, d elinquentes e m enores, onde se con struirão
dos ú.di.os com a civilização, d ebaixo das opressões d o escravismo, e sobre as
asilos, colônias e intern atos.
condições em que mulheres apresadas eram prenhadas para parir filhos que
n ão se identificam com a eh1ia materna e que eram rech açados pela paterna. No entanto, sendo campo e cidade verso e reverso de um m esmo mo-
Esses filhos d e ninguém é q u e, ao se avoluma r em , iam constituindo uma delo de coloniza ção, incap az de absor ver o contingente populacional em
terceira camad a de g ente, nem nativa nem e urop eia, que seriam os prin1eir os contínuo crescimento, tem início aí a his tória d o povo brasileiro, até h oje
brasileiros" (In Gomes, M ., 1991, p. 10). div idido em cidadãos d e primeira e segunda categoria - o que dá à nossa
história um cará ter de permanên cia, continuidade e repetição do mesmo.
Condição semelhante é vivida p elo filho da escrava negra.
"Criou-se aqui, desd e os n ossos primórdios, um suj eito his tórico d e p oder,
"O olhar mais próximo é o olhar de m ãe; do pai nada se sab e . Em Salvador, sem p re a rticulado transn acionalmente, q u e se mantém, sem ruptura, até os
entre 1870 e 1874, em 85 batismos d e crianças escravas, todos, absolutamente d ias d e hoje, onerando poderosam ente a con s trução d e u ma nação soberana "
todos, são batismos d e crian ças ilegítimas. Mas é também verdad e que, para (Boff, 1994, p. 11).
o m esmo p eríodo, a taxa de ilegitimidade atinge 62% d a p opulação livre .
Por outro lado, os inventários silenciam sobre o estado civil dos escravos É sem perder d e vista este fio condutm~ esta marca in augural que não
recenseados: todas as mulheres de nossa amostra são mães solteiras. Mas cess a d e se reproduzh~ que podemos falar de rupturas e d escontinuidades
m ães solteiras que n em sempre poderão cuida r de suas crianças, mesmo as das práticas que incidiram sobre a criança no Brasil e mesmo d e uma his tó-
que estão em tenra idade. Porque a cri ança escrava não somente se vê p riva- ria específica da criança - lembrando que tal história, na medida em que
da d e referência paterna, mas frequentemente falta-lh e também a m a terna"
privilegie as estratégias ins titucionais em relação à crian ça pobre, muito
(Mattoso, ln Del Priore, 1991, p. 83).
dificilmente deixará de se confundir com uma hist ó ria da assistência.

Outro contingente populacional igualmente desclassificado vai pro-


gressivamente se fixando nas cidades - estas ainda de bases muito frágeis
nos dois primeiros séculos da colonização, totalmente assentadas na eco- Aantiga caridade - Sobre expostos, órfãos e desvalidos
n omia d e base a gr ário-exportadora (Cupertino, 1977) . No entanto, dife-
rentemente do campo, o a mbiente das cidades era malvisto p elas famílias O abandono de recém-nascidos não constitui fato recente no Brasil.
de b em , e em carta dirigida ao rei de Portugal, em 1767, o conde de Cunha, Nos períodos Colonial e Império, crianças deixadas n as portas das igrejas,
primeiro v ice-rei do Brasil, descreve o Rio de Janeiro como conventos, residên cias e n as ruas dos principa is centros urbanos
176 RIZZINI • PILOTTI /;- ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 177

"( .. .) eram frequentemente devoradas por cães, porcos ou outros animais. do Rio de Janeiro, em 15 de setembro de 1740, a partir de doações de 50.000
Outras vezes, morriam d e fome ou de exposição aos elementos" (Orlandi, cruzados feita pelo Capitão Francisco dos Santos e Marçal de Magalhães
1985, p. 75). Lima. O Recolhimento funcionou em estabelecimento anexo ao Hospital
Geral da San.ta Casa até o ano de 1842. Por decreto de 14 de março de 1852,
"Expostos", "enjeitados", "deserdados da sorte" ou da "fortuna", foi criado por D. Pedro II o Recolhimento de Santa Thereza, destinado a
"infância desditosa" ou "infeliz" foram denominações de uso corrente no meninas desvalidas, ficando também sob a administração da Santa Casa
período, referindo-se aos recém-nascidos abandonados. Para eles, d esti- do Rio de Janeiro. Em 1866, os dois Recolhimentos passaram a fw1cionar
nou-se a "Roda":12 no prédio destinado ao Recolhimento das Desvalidas de Santa Thereza.
"( ... ) aparelho, em geral de 1nadeira, do formato de um cilindro, com um dos Quanto à Casa dos Expostos da Côrte, por um longo tempo também
lados vazados, assentado num eixo que produzia um movimento rotativo, funcionou ao lado do Hospital da Santa Cas a, mudando várias vezes d e
anexo a um asilo de menores .A utilização desse tipo de engrenagem permitia local, até se estabelecer onde atualmente se encontra o Educandário Romão
o ocultamento da identidade daqu ele(a) que abandonava.( ... ) Amanutenção Duarte, no bairro do Flamengo.
do segredo sobre a origem social da criança resultava da relaçã.o promovi-
da entr~ _abandono d e crianças e amores ilícitos. Os espaços especialmente "A Casa dos Expostos, hoje "Educandário Romão de Mattos Duarte", passou
destinados a acolher crianças visavam, num primeiro momento, absorver os por verdadeira. via crucis, até estabelecer-se no ende reço atual. Esteve na rua
frutos de tais uniões. Com o tempo essas instituições passaram a ser utilizadas Santa Te resa até 1850; depois, de 1850 a 1860, no Cais da Glória, na rua da
também por outros motivos (... ) Casa dos Expostos, Depósito dos Expostos e Lapa; Rua dos Barb onos, atual Evaristo da Veiga de 1860 a 1906; depois Praia
Casa da Roda eram designações correntes no Brasil para os asilos de menores doFlamengons. 82/3 e Rua SenadorVergueiros, de 1906 a 1911; e por fim, a
abandonados" (Gonçalves, ln Almeida, 1987, p. 37-8). sede definitiva, na Rua Marquês de Abra11tes, 48, em terreno que pertencia
ao Conde D'Eu, genro do Imperador D. Pedro II" (Zarur, 2003, p. 26).
Tal era a situação, que uma carta régia de 1693 ordenava ao governador
da Capitania do Rio de Janeiro, Antonio Paes Sandi, que fossem os expos- Segundo Dahas Zarur, no período de 1840 a 1911, foram recolhidas na
tos criados às custas do poder público. No entanto, como tem sido muitas Roda do Rio de Janeiro 43. 750 crianças. 14 Dados relativos a longos períodos
vezes a regra no Brasil, esta carta permaneceu esquecida e apenas em 14 de também podem ser encontrados nos Relatórios do Ministério do Império,
janeiro de 1738 criou-se a Roda no Rio deJaneiro, 13 a partir de uma doação além de estatísticas anuais:
feita por Romão de Mattos Duarte. Outras duas Rodas foram criadas no
Brasil no século XVIII: a da Bahia, em_1726, antecedendo a criação da Roda
Núméro de Crianças Lançadas na Roda dos Expostos do Rio de Janeiro
do Rio de Janeiro, e a de Recife, em 1789. No Rio de Janeiro, além da Roda
Período Número de entradas
d os Expostos da capital, duas outras foram criadas no interior do Estado:
1738-1850 21.630
a de Campos e a de Cabo Frio.
1851-1888 25.625
Para as meninas órfãs, na época do Provedor Manoel Corrê a Vasques,
1738-1888 47.255
foi inaugurado o Recolhimento das Órfãs da Santa Casa da Misericórdia
Fonte: Relatórios do Ministério do Império

12.A Roda não é um dispositivo originário do Brasil, tendo existido em diversos países europeus como
França, Itália, Espanha e Portugal. Ver Gonçalves, 1987, p. 44; Orlandi, 1985, p. 50, e Leite, 1991, p . 98. 14. ZARUR, Dahas. Educandário Romão d e Mattos Duar te. 4. ed. Rio de Janeiro: Binus Artes
13. A Roda do Rio de Janeiro foi des ativada em 1938, segundo Ubaldo Soares (1959). Gráficas Ltda., 2003, p. 26.
178 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 179

Dentre as diversas explicações apontadas para o número crescente recém-nascidos não eram devidos a maus-tratos recebidos na Casa dos
de recém-nascidos d epositados na Roda - ou seja, para que os senhores Expostos, mas ao fat o de serem as crianças já depositadas mortas ou mo-
pudessen1 alugar as escravas como amas-de-leite; para proteger a honra d as ribundas. Assim, as estatísticas buscam discriminar o número de crianças
famílias, escondendo o fruto de amores considerados ilícitos; para evitar o depositadas vivas das depositadas adoecidas e mortas. Veja-se, por exemplo,
ônus da criação de filhos das escravas, em idade ainda não produtiva; pela o Relatório de 1850, que corresponde ao Ano Compromissal 1849-1850:
esperança que tinham as escravas de que seus filhos se tornassem livres,
entregando-os à Roda; ou apenas para que os recém-nas cidos tivessem um "Na Roda dos expostos, Estabelecunento que se acha annexo á mesma Santa
enterro digno, já que muitos eram expostos mortos ou adoecidos - 1-rma Casa, houve no período indicado (de 31 de maio de 1849 a 30 de junho de 1850),
outra razão frequentemente escapa ao p esquisador da história social da o segui11te movimento, p elo que respeita ás creanças que farão alli expostas:
criança: as inúmeras epide1nias de febre amarela, cóler~ e varíola que se aba- Passarão do anno anterior ............ 50 Fallecêrão ......... ............. .. . 460
teram sobre o Rio de Janeiro, por exemplo, d e 1853 a 1879, fazendo grande Entrarão vivas 571 Sahirão .......................... .... 153
número de vítimas, dizimando famílias inteiras e deixando crianças órfãs Lançadas na roda já m ortas .......... 43 Ficá rão se creando ............. 51
ou em estado de necessidade (Soares, ln Orlandi, 1985, p. 78-80). 15 Total. ...... ......... ............... .... ....... ..... 664 Total .. ... ................... .... ...... 664
Em que pese, no entanto, o espetáculo doloroso da exposição de crian-
ças nas ruas, segundo Russel-Wood, o que de fato determinou a criação de Cumpre porém advertir que no número de 460 fallecidos, além das 43 que
farão lançadas já mortas, muitas outras entráram extremamente maltratadas,
casas de recolhimento para os expostos
e algumas prestes a expirar. Desde a ins tituição deste Estabelecimento se
"( ... ) foi a atitude muito católica de ver em. cada criança morta n ão um corpo tem nelle recebido 21.630 expostos, e o dos menores de 8 annos que se crião
mutilado, mas uma alma que não r ecebera batismo da Igreja Catolica" (Rus- externamente sobe a 344" ( Relatório do Ministro do Império, 1850, p.36)
sel-Wood, In Orlandi, 1985, p. 75).
Para resguardar a credibilidade dos procedimentos higiênicos utilizados
As frequentes mudanças de local da Casa da Roda tanto se deve ao n a Casa dos Expostos,no Relatório do Ministro do Império de 1866 os dados
desejo de acomodar melhor o crescente número d e recém-nascidos expos- são apresentados tomando-se o tempo decorrido entre a enh·ada da criança
tos, como também para melhorar as condições de salubridade do ambiente e sua morte, indicando que o breve lapso de tempo transcorrido entre uma
e diminuir a taxa de mortalidade - o que mostra o avanço da investida situação e outra, se devia ao fato da criança ter sido depositada doente.
médico-higienista em mn setor até então considerado prioritariamente
caritativo. Estes médicos higienis tas, inicialmente favoráveis à existência "Durante o ano entraram para a casa 528 crianças, já existiam n ela 107 e vol-
da Roda enquanto medida de prevenção do aborto e do infanticídio, com o taram 94, cuja criação havia sido confiado a pessoas externas, faleceram 244,
passar do tempo iniciam um movimento para sua extinção, sendo o m édico sendo a mortalidade de 33,47%, assim distribuída:
baiano Martagão Gesteira um de seus maiores expoentes no Brasil. 1 dia a 1 n1.ês: ............... ......... . 135
Constata-se, n os Relatórios do Ministério do Império, uma crescente 1 mês a 3 m eses: .......... .. ..... ..... 66
preocupação em dern.onstrar que os índices elevados de mortalidade dos 3 a 6 meses: ....... .. ......... ........... 15
6 meses a 1 ano:
1 anoa3anos: ......................... 10
15. Orlandi cita como referência O scar Macedo Soares, mordomo do Hospital N . S. ela Saúde
"Hospício de N. S. da Saúde". In "Notícias dos diversos estabelecimentos mantidos pela Santa Casa 3 anos a 6 anos: 1
de Misedcórdia ela cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro", 1908. Total: 244"
180 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 181

Inicialmente, as crianças entregues à Roda eram dadas a serem criadas que se dão muitas esmolas, assim em vida como em 1norte, e se casam mui tas
por amas-de-leite ou negras-de-aluguel. Só mais tarde, segundo Ubaldo órfãs, curam os enfermos de toda a s orte e fazem outras obras pias, con forme
Soares, iniciou-se o movimento de reuni-las em internatos - movimento a seu instituto e a possibilidade de cada uma e ainda o regimento d elas nos
este atribuído à iniciativa de Miguel Carvalho, então provedor da Santa principais d a terra. Há também muitas confrarias em que se esmeram muito
Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro. Con sta q u e desde 1903, preocupa- e trab alham de a levar adeante com m uito cuidado e d evoção" 16 (Anchieta,
do com as taxas de m orta lidade infantil, vinha este provedor tentando 1988, p. 329).
abolir o sistema das criadeiras externas à Roda - o que teria acontecido
Excetuando-se algumas cartas régias onde se demonstrava preocupa-
definitivamente em 1913 (Soares, 1959).
ção com a situação de abandono e indigência das crianças e pequenas dota-
Por observações próprias e tam.b ém por influência da medicina euro- ções às instituições caritativas - que em sua maioria, viviam de esmolas,
peia, difundia-se entre os médicos brasileiros a ideia da mortalidade infantil donativos e contribuições de seus associados ou m esmo sustentando-se em
a ssociada ao aleitamento mercenário - para o qual se ofereciam mulheres
parte com o trabalho das próprias crianças- o Estado só veio a se m anifes-
brancas e negras, n acionais e estrangeiras. Passaram então a reivindicar
tar mais concretamente após 1850, quando da criação do Imperial Instituto
uma regulamentação sobre a matéria. Em 1901, funda Moncorvo Filho, o
de Meninos Aprendiz de Marinheiro (1873); Asilo de Meninos Desvalidos,
In stituto de Proteção e Assistência à Infância do Rio de Janeiro, dando início
posteriormente Cegos (1854) ;17 Imperial Instituto de Meninos Surdos (1855);
ao exame médico das nutrizes.
Escola de Ins tituto Profissional João Alfredo (1875); 18 Escola Quinze de
Com a investida médico-higienista a partir de meados do século XIX, Novembro (1889), todos no Rio de Janeiro. Também foram fundados, em
com a extinção das Rodas e o início de uma legislação específica sobre a São Paulo, o Ins tituto Disciplinar (1902) e o Instituto de Edu cando Artífices
criança nas primeiras décadas do século XX, a crian ça pobre deixa de ser (1869); em Minas, o Instituto João Pinheiro (1909).
obje to apenas d a caridade e passa a ser objeto de políticas públicas. Todo
De um total de 32 instituições de recolhimento para m enores e 22
um novo ciclo se inicia.
associações e estabelecimentos de assistên cia extra-asilar existentes no
Rio de Janeiro entre 1738 e 1930, analisadas por Rizz ini, apenas 7 e 3 são,
respectivamente, iniciativas do Estado- ainda assim, incluindo a Casa d e
Antecedentes da criação da rede de assistência à infância no Brasil
Detenção, o A silo de Mendicidade e a Colônia Correcional, onde podia-se
Pode-se dizer que dw:ante três séculos e meio, as inicia tivas em relação encontrar crian ças, embora esta n ão fosse uma finalidade específica destes
à infância pobre no Brasil foram quase todas de caráter religioso. estab elecimentos (Rizzini, 1993, p.130-190).
Grande parte destes estabelecim entos d estinados a acolh er crianças
"Sob o manto do catholicismo continuava a desen volver-se a beneficiência, "órfãs", "necessitadas","d esvalidas" ou" viciosas" dispunha-se a oferecer
fundando-se instituições que acolhiam os peregrinos e como as antigas alber-
a lgum tipo de ensino manu al, prático ou profissionalizante . O próprio
garias, enterravam os mortos, educavam e dotavan1 os órphãos desvalidos
Governo, através do Decreto n. 1.331-A , de 1 de fevereiro de 1854, ordenou
etc." (Moncorvo Filho, 1926, p . 30).

Já em 1584 escrevia Anchieta: 16. A fundação da Santa Casa d a Misericórdia do Rio de Janeiro, em 1582, é atribuída a José de
Anchleta. Verirma Rizzini, 1993, p. 161.
"Em todas as Capitanias h a Casas de Misericordia, que servem de hospitais, 17. Sobre o Imperial In stituto de Meninos Cegos, ver Araújo, 1993.
edificados e s ustentados pelos moradores da terra com muita devoção, em 18. Sobre o Asilo de Meninos Desvalidos, ver Lopes, 1994.
182 RIZZIN! • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 183

que os menores encontrados vagando em estado d e n ecessidade fossem • Orfanato Santo Antonio (fundado em 1905):
recolhidos e a eles ministrado algum tipo d e instrução. "Asilar e dar instrução primária e en sino doméstico às meninas
No entanto, quando analisamos mais de perto em que consistia o orfãs, desvalidas, visando formar futura s criadas e esposas de
ensino ministrado pela caridade, constatamos que ele não apenas era o operários" .
mÚ1imo suficiente para a incorporação da criança nos postos mais baixos 0 Ó r fãs Brancas do Colégio Imaculada Conceição (fundado em
da hierarquia ocupacional, como também era a travessado por subdivisões 1854):
das próprias categorias de órfãos, abandonados e desvalidos como, por
"Formação religiosa, moral e prática de boas empregadas domés-
exemplo, órfão branco e órfão de cor, filho legítimo e ilegítimo, pobre válido
ticas e donas de casa" -para "órfãs brancas".
e inválido, criança inocente e viciosa. Ou seja, um ensino marcado pelos
preconceitos da época, que visava apenas a m anutenção do ordenamento
0 Recolhimento das Órfãs (hmdado em 1740):
social, como se pode ver: "Recolher e educar órfãs filhas de legítimo matrimônio - (... ) não
0 Asilo Agrícola Santa Isabel (fundado em 1886): só amparar meninas pobres, 1nas também criar para a sociedade
"É destinado a meninos vagabundos ou destituídos de amparo mulheres estimáveis por suas virtudes domésticas".
da-família, que aí receberão e ducação moral e religiosa, instrução
primária, elementos de instrução profissional, ensino agrícola d e Especificamente em re]ação às meninas, observa-se grande preocupa-
caráter prático" .19 ção dos estabelecimentos caritativos com sua honra, separando-as em "pu-
-ras" e "impuras". Caso ocorresse o d efloramento, a menina não 1nais seria
• Asilo Bom Pastor (fundado em 1891):
considerada inocente, não podendo mais conviver com as outras meninas.
"Promover a regeneração das mulheres que se desviaram. do cami-
No entanto, a separação das meninas pelo critério da honra não se limitou a
nho do bem e da virtude".
este período histórico e n em mesmo aos estabelecimentos caritativos. Um
• Asilo Nos_sa Sra. do Amparo (fundado em 1914): dos diretores do Serviço de Assistência ao Menor (SAM), criado em 1941 e
"Educar as meninas emmisteres domésticos, preparando mães de que foi subs tituído em 1964 pela Fundação Estadual de Bem Estar do Menor
família cristãs". (FUNABEM), descrevendo os horrores que lá aconteciam, menciona a triste
• Asilo de São Cornélia (fundado e m 1900): situação de meninas que haviam sido desvirginadas e que eram conside-
"As internas são ministradas cursos de lavagem, engomagem e radas indignas. Assim, o próprio SAM separava em diferentes internatos
trabalhos manuais". as meninas virgens das não virgens.
°੉ Casa de Preservação (fundada em 1907); Transcrevemos, abaixo, alguns preceitos ensinados às 1noças-de-boa-
"O serviço profissional é dado nas oficinas d e carpinteiro, vassou- -família em colégio religioso, nas primeiras décadas do século XX, que tanto
reiro e ferreiro". preparava as futuras "mães de família cristã" e as "mulheres estimáveis
• Orfanato Santa Maria (fundado em 1872): por suas virtudes domésticas" quanto para o magistério.20 Tais preceitos
"Formação de empregadas domésticas e semelhantes" - para
"1neninas de cor". 20. Trata-se de apontamentos escolares cedidos por aluna do Colégio Nossa Senhora das D ores,
em Uberaba, Minas Ger ais, da d écada de 1920. Como encontram-se nestes cadernos escolares anota-
ções posterimes, sem que se possa discriminar com exatidão o que foi matéria estritamente ensinada
19. Todas as informações a seguir foram retiradas do cadastramento feito por lrma Rizzini, 1993. neste Colégio e o que se adicionou pos te riormente, preferimos situar o conteúdo dos cadernos como
184 RIZZINI • PILOTTI A ARTE OE GOVERNAR CRIANÇAS 185

demonstram como as ideias da medicina higienistas alastravam-se pelo convulsões etc. A morte do ébrio é a mais horrível de todas; morre
Brasil afora, não se limitando à capital do Brasil. como se tivesse o corpo cheio de labaredas. Tem-se a impressão de
0
Sobre a importância da puericultura que um fogo interno lhe queima as entranhas".
0 Exame médico pré-nupcial
"na era cristã, após grande declínio, houve renascimento espiritual.
Jesus Cristo amou a criança, elevando-a nos conceito dos povos "Cuja finalidade é zelar pela hwnanidade,impedindo a união de seres
(.-<) .Aposição da ci-iança foi sempre melhorando, posição essa que doentes portadores de tara.Nos países evoluídos há uma compreen-
culminou nos tempos atuais com o aparecimento da Puericultura. são perfeita do examepré-nupcial e é previsto por lei e os pretendentes
Todos os povos atuais compreendem a necessidade da puericUl- a eles se submeterem com o máximo de naturalidade".
tura e tratam de proteger a criança. No assunto, o Brasil está bem ., Eugenia
desenvolvido. Já possui órgão oficial encarregado de definir os "Estabelece regras e princípios que determinam a formação de
conh ecimentos de puericultura e daí nasceram leis de proteção à gerações sadias( ... ) Exige a eugenia que o homem ao escolher uma
maternidade e à infância". c01-rtpanheira e vice-versa não despreze a ques tão biológica do ma-
• Sobre a saúde trimônio, para evitar degenerações. Para isto indica uma apurada
educação dos jovens, exigindo que os noivos estejam em boas condi-
"Tanto mais p erfeita é a saúde quanto mais são observados os
ções sanitárias, livres de taras para que não se inferiorize a prole".
preceitos da higiene. Entre as condições de saúde está em primeiro 0 Medidas eugênicas
lugar a h ereditariedade."
"São divididas em dois grupos: positivas e negativas. As primei-
• Fatores de degenerescência humana
ras são de caráter estimulantes para a creação de bons elementos
"álcool - é um veneno traiçoeiro que vai matando aos poucos, sem humanos à procreação. As segundas, de caráter profilático, deter-
sentir. O homem que ingere álcool, suicida-se em pequenas doses. minam meios para o impedimento da procriação defeituosa. Para
Tem-se verificado que os homens que vivem mais de 100 anos, que as medidas eugênicas produzam efeito, é necessário uma vasta
nunca beberam uma gota de álcool. Ao contrário, os que d' ele fazem divulgação dos ideais da Eugenia por meio de campanhas bem
usos, morrem sempre cedo( ... ). Os bebedores acabam sempre: ou orientadas com o objetivo de formar a consciência dos povos. Isto
loucos, ou na miséria. Se o mal se limitasse só a eles, não haveria seria mais eficiente do que as leis proibitivas. Toda campanha teria,
tanto dano à sociedade. Mas não: estende-se aos filhos, bem como no seu conjunto, orientações científicas, educativas e sanitárias".
aos descendentes até a 4ª geração. Os filhos de bebedores nascem • Medidas eutécnicas
degenerados: uns: com os beiços rachados; outros: com os pés tor- "Visam melhorar os indivíduos nas manifestações de suas tendên-
tos; outros vesgos; uns idiotas; outros surdo-mudos; outros com cias (... ). Como medidas eutécnicas temos: a higiene pré-natal, a
puericultura, a educação física, a higiene da alimentação, a higiene
pertencentes ao período 1920-40. Não se trata aqui de verificar a "autoria" dos escritos, mas de cons- mental( ... ). A observância das medidas eutécnicas constitui um
tatar a difusão d as ideias higienis tas - uma vez que não foi possível distinguir o que são anotações h ábito, um h ábito salutar que pode melhorar as sociedades".
livres de aulas e o que são cópias de lições a partir do quadro-negro o u livros . É possível, e mesmo
provável, que tais anotações tenham tido por base l ivros muito difundidos n a época. Urna observação • Hábitos mentais sadios
encontrada nos cadernos nos autoriza a assim pensar: "Existe um outro livro, O Guia das Mães, feito
por um alemão". Para uma lis tagem dos principais livros de puericultura de autores brasileiros ver
"O indivíduo é o que ele pensa. Os seus hábitos são reflexos dos
Orl andi, 1985, p.166-174. seus pensamentos. Ahigiene de pensar é de sumaimportâ11cia para
RIZZIN\ • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 187
186

o desenvolvimento d a criança. Se nos treinarmos desde pequenos a intra-uterin a e a extra-uterina. Postulavam a predominân cia do fator
no m odo de pensar, nos tornaremos pessoas úteis" . genético para a saúde da prole e ad vogavam o casamento eu gênico, cien-
tificamente planejado.
0 Proteção à criança
"No seio da sociedade é a criança digna de todo respeito, acata- "Os homens criadores escolhe m os animais d estinados à procreação, seleccio-
m ento e cuidad o . Há muitos motivos para a crian ça afastar-se d o nam paciente, p ersever ante m ente. Elles veem que deste m odo asseg uram a
ambiente familiar: ou p orque lhe faltam os pais por m orte ou por posse de Mas crias, fortes, sadias. Pois som ente os ho1nens p ais n ão sentem a
outras circuns tân cias, outras vezes quando mais crescida, dev ido o n ecessidade d a escofüa para ter filhos sãos? Pela seleção se con segue con ser-
meio impróprio ou por ciência de instituição educacional é a crian ça var os caracteres úteis, vantajosos e banir os nocivos, d esagradáveis.( .. .) em
en viada a colégio, ficando assim. a cargo dos professores a m.issão prol da infância aconselh a mos e p edimos a seleção dos esposos, effectuada
pelo m a trimônio" .2 1
da família".
• A leitamento Na escolh a do cônjuge deveriam prevalecer os critérios e u gênicos,
"A alimentação natural da criança é o le ite materno( ... ) Hoje, p o- devendo-se evitar os casamentos precoces, tardios e os d esproporcionados
rém, é moda elas não darem d e m amar. O s médicos combatem es te em idade; os casamentos consanguíneos e entre portadores d e taras d ege-
proceder. nerativas ou doenças contagiosas. Deveriam as famílias cuidarem em n ão
Só deve dar-se outra alimentação no caso dos m édicos at est arem e casar suas filhas co1n "avariados", o u. seja, "deb ochados", "alcoólah·as",
pelas seguintes causas: m ãe tuberculosa( ... ), alcóolatras, epilé ticas ~'tuberculosos" e "sifilíticos".
(... ). Há outras causas que impedem a amamentação devida a doen- Assim com o o criador de animais e o agricultor, deveriam as famí-
ças das crianças. (... ) N ão sendo p ossível o a leitament o materno, lias se tornarem "puericultores": cultivado res de crianças. Para tanto, o
recorre-se ao aleitament o m ercenário, artificial ou misto.( ... ). Diz melhor m étodo era a prevenção. Daí a ênfase nos exames pré-nupciais,
a estatística que uma m ãe estando amamentando seu filho já m ais devendo os n oivos apresentarem exames de sanidade mental e ates tado
velho pode amamentar o filho de o utra, mesm o em idade m en or. A de saúde, além d e exercerem a temperança n ão fumand o, não bebendo e
experiência j á foi feita no Rio de Janeiro. Quando a criança tem um mantendo-se castos e puros.
m ês, o leite tem a composição para um mês; d e cinco meses, para Na arte de cultivar as crianças, o higienismo m édico se colocou com.o
cinco meses de idade". o melhor a liado do Estado e a ele pode ser creditado, em grande parte, o
surgimento do sentimento de infância no Brasil. Acrian ça surge como futuro
A estas ideias correspondia a "arte de cultivar as crianças" ou pueri- do homem e da pátria d evend o sua autonomia ser desenv olv ida.
cultura, dirigida predominantemente à edu cação das crianças r icas.
"Devemos respeitar na criança a sua in dividualidade e jamais d izer-lhe que
'menino não é gente'. Menino é gente, p recisam.os fazer-lhe compreend er e
como tal praticar.
Aarte de cultivar as crianças
21. Trabalho apresentado por A lfredo Ferreira de Magalhães, 1930, na Comemoração do prime iro
Sob o rótulo "arte de cultivar as crianças", entendiam os médicos centenário da Academia Nacional de Medicina - Bahia, Estabelecimento dos Dois Mu ndos - 25- Rua
hig ienistas do começo do século XX a puericultura da pré -fecund ação, Consel heiro Saraiva, 25, 1930.
188 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS
189

Não mais ouçamos dizer-se que - 'menino não se governa, n ão tem liber- Da antiga caridade à filantropia esclarecida
dade'. - D ' este modo teremos o desprazer de formar homens incapazes de
tomar qualquer iniciativa, de praticar e exercitar a vontade".
Com a chegada da Côrte Portuguesa ao Brasil e o processo de moder-
Estes ensinamentos e advertências não têm, no entanto, por objetivo, nização que se instala a partir data m e dicina, progressivamente, ganha
as crianças pobres. Alerta o expositor, baseado em autor esh·angeiro, que: espaço na vida social. No início do século XX, com a República, o projeto
disciplinar higienista encontrava-se solidamente delineado.
"( ... ) as altas v irtudes d e uma elite d e nada servem si nas camadas inferiores
se accumularem seres, cuja decadência nos inquieta"22 (Idem, p. 46). "A conversão do universo familiar à ordem urbana foi um dos objetivos
fund amentais d a medicina social através da higiene, em se u proje to de nor-
O que fazer, então, p ergunta o expositor, com as crianças vítimas de pais
malização da vida social brasileira" (Muricy, 1987, p. 70).
esquecidos de seus d everes, crianças se1n provisão de suas necessidades,
desamparadas, criminosas, inferiores física e moralmente? A assis tência
É necessário, no entanto, discriminar aqui duas políticas médicas. Se-
deverá alcançar a todas -sendo que esta assistência, mais do que caridade,
gundo Moncorvo Filho, só a partir do século XVIII começaram a aparecer
significará d efesa da sociedade e proteção ao homem hones to e de bem.
vagas referências a atos que refletiam a lg uma preocupação com a infância.
"Quando recolhemos um pequeno ser atirado sosinho nas tumultuosas ma- A criança em geral e a criança pobre, em particular, não eram ainda obje-
rêtas dos refolhos sociais, victimas de paes indignos ou de taras profundas, não tos de cuidados especiais. Quando muito, ministrava-se algum ensino à
é elle que nós protegemos, são as pessôas h onestas que defendemos; q uando criança rica e assistia-se caritativamente à criança pobre. Quando, mais,
tentamos chamar ou fazer voltar à saúde physica ou moral seres decade ntes tarde, se mencionava a família pobre, era com o propósito de servir de
e fracos, ameaçados p ela contaminação do crime, é a própria sociedade que contra-exemplo à família rica:
defendemos contra aggresões das quais, para ella mesma, o abandono das
crianças con stituem uma ameaça ou um preságio".
" ( ... ),no processo d e d efinição da 'família', a higiene dirige-se exclusivamente
- Inquestionavelmente o problema da criança é o máximo problema do
às familias de extração elitista. Não interessav a ao Estado modificar o padrão
Estado.
familiar dos escravos( ... )
A protecção dos meninos infelizes é ao mesmo tempo a protecção dos nossos
filhos; devemos ter o máximo interesse em alcan çar para o s meninos desgraça- Esses últimos, juntamente com os desclassificados de todos os tipos, serão
dos uma certa dose de moralidade e felicidade, de saúde e d e bem-estar" .23 trazidos à cena médica como aliados na luta contra a rebeldia familiar. Es-
cravos, mendigos, loucos, vagabundos, ciganos, capoeiras e tc ... , servirão d e
Parece claro, aos nossos olhos, que a rede de assistência à infância pobre antinorma, d e casos-limites de :infração higiênica. A eles vão ser dedicadas
começa a ser pensada ali, onde a" arte de cultivar as crianças" é apenas um outras políticas médicas" (Costa, 1983, p. 33).
privilégio e uma marca das classes abastadas.
Segundo Moncorvo Filho, só por volta de 1872 Pediatria e Filantropia
se juntaram.
22. Cita M. Prins, um dos expositores no "Primeiro Congresso Internacional de Proteção à Infância,
de Bruxela s", Bélgica, em 1913, conforme nota do autor.
23. Fonseca, 1961, v. I, p. 137. Refere-se nesta passagem, à criação do Imperial Instituto de Meninos "Sem dúvida alguma não se compreende hoje Philantropia sem o prestimoso
Cegos e Imperial Instituto dos Surdos-Mudos. concurso da sciência e longe lá vae o tempo em que o altruísmo mal entendi-
190 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 191

d o se cifrava na distribuição de esmolas em m oeda ou no en cerramento das Segundo a autora, toma impulso, nas primeiras d écadas do século XX, a
creancin.has em asylos (... )" (Moncorvo Filho, 1926, p. 92). ideia da assis tên cia exh·a-asilar que, no entanto não se imporá como modelo,
continuando o asilamento da criança até o final d a década de 1980. Cabe
No entanto, n ão obstante os esforços de alguns médicos, entre eles então perg untar em que consistiu o deslocamento da assistência pres tada
Moncorvo Pae, as tentativas de se construir um programa de Assis tência pela II antiga" caridade para a "nova" filantropia e poste r iormente, a partir
à infância desvalida subvencionada pelo Es tado, apenas na década de da criação d a FUNABEM na década d e 1960, para a "mod erna" p olítica d e
1920 encontra ria con dições de florescer. M esmo a tentativa d e Moncorvo b em-estar do menor.
Pae d e acrescent ar uma cadeira de "1noléstia d e crean ças", no currículo Com a crescente intervenção do Es tado na assist ên cia, a partir da
da Faculdade d e Medicina do Rio d e Ja neiro n ão encontrou, d e imediato, d écada d e 1920, tem início a formalização d e modelos de atendimento,
ressonância e apoio. não se constatando, no ent anto, dintinuição da pobreza ou d e seu s efeitos.
Assim, a p retendid a racionalização da a ssistência, através da inclusão de
"A ignorân cia dos mais elementares princípios de higiene p opula1~ a falta de especialistas do campo social, longe d e concorrer para uma mudança n as
interesse por parte da administração até hoje pelas condições das creanças condições concretas de v ida da criança e de sua família, foi muito m ais uma
brasileiras, rnaxime da classe p obre, tem agravado cada vez mais a situação a estratégia d e m edicalização e criminalização da pobreza. O caso do Serviço
tal respeito, de modo a attingir a mor talidade das creanças n o Rio de Janeiro de Assistência ao Menor (SAM), estab elecido no início d os anos 40, é exem-
proporções consideraveis, pois ella se pode calcular approximadamente na plar neste sentido. Pensado para ser um grand e pólo irra diador d a nova
razão de 460 por 1.000, incluindo os nascidos mortos, ou de 410 por 1.000 até raciona lidade, acabou por ser conhecido, no final da década de 1950, com o
a idade de 7 anos, excluindo esses últimos" (idem, p . 97). · "famigerado" o u "escola do crime" (Nogueira Filho, 1956). O mesmo se
passou com a PUNA BEM. Criada na década d e 60 em s ubs tituição ao SAM,
A investida neste set01~ até então prioritariamente caritativo, (por parte ao final dos anos 80, fazia a sua própria autocrítica, condenando o modelo
de m é dicos e outros agentes, entre os quais juristas, políticos, educadores "correcional-repressivo", adotado nas duas d écadas de s u a v igência .
e a ssistentes sociais), visava fundamentalmente uma maior racionalidade Recolhida a instituições "higiênicas" ou "pedagógicas", a criança pobre
da assistên cia através d a interven ção do Estado. N este sentido, contamos passou a ser constantemente subme tida a observações, exames, avaliações:
com exaustiv o trabalho d e Irma Rizzini, s obre o período 1890-1927. no caso d as meninas, exame ginecológico, para se d etectar a integridad e d o
hímen; exame da ossatura, para verificação da idade; testes, para aferição
"O m odelo de assistência, que é delimitado neste período, parte da recusa da inteligência e p ersonalidade; inquéritos, a resp eito da v ida pregressa e
ao modelo caritativo, acusado de fomentar a miséria e a improdutividade
entrevistas psicossociais, para avaliação d as condições familiares.
do pobre.
Maria Esolina Pinheiro, uma assistente social com trabalho pioneiro
O projeto d a assistência nacional, m etódica e baseada nos cânones cientí-
no Rio de Janeiro dos anos 30, publica em seu livro Serviço Social - Docu-
ficos, a tende aos anseios de disciplinização d a sociedade, do n ovo regime
político.(... ) mento Histórico:
Impõe-se um novo modelo de atendimento à infância abandonada e delin-
"Resultado dos exames do Laboratório de Biologia Infantil:
quente onde o asilo funcionaria com 'uma microssociedade, onde os preceitos
Exame p siquiátrico: Caráter instável - mitom ana
da higiene médica são obedecidos, onde a educação é dirigida para o trabalho
e onde o poder disciplinador atinge o efeito moral desejado da introjeção da Psicológico: Subnormal
vigilância pelos internos"' (Rizzini, 1993, p. 97). Neurológico: Superemotiva
RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 193
192

Clínico: Nada de anormal para o lado do aparelho genital controle do "pai de família", que tinha poderes quase ilimitados. Da mesma
Psicotécnico: Aproveitável: 4° ano primário forma os meninos" da terra", contidos nos colégios jesuítas ou nas aldeias,
Ginecológico: Virgo intato, sem sinais de violência e os "n egrinhos", propriedades do senhor, encontravam-se controlados
Bacteriológico: negativo para gonococos no material colhido no fundo socialmente através destas relações de tutela e posse. Os "expostos" e os
da vagina" (Pinheiro, 1985, p. 98). "órfãos", embora sem o suporte familiar, encontravam nos estabelecimentos
mantidos pela caridade, como as Casas da Roda e os Recolhimentos das
Absorvendo os efeitos da pobreza como demanda por trata1nento e Órfãs, o seu guardião legal.
ressocialização e, respaldados na legislação em vigor, ficaram os técnicos e Na Colônia e Império, as categorias que colocavam problemas à ordem
as ins tituições de atendimento autorizados a intervirem diretamente sobre social eram as gentes" sem-eira-nem-beira" - os mendigos, os viciosos, os
o corpo, o tempo, as formas de se vestir e alimentar das crianças e de suas vadios -- fenômeno tão bem descrito por Laura de Mello e Sousa no livro
famílias. "Os desclassificados do ouro". Essa gente dita desclassificada não tinha
Para compreendermos todo este processo teríamos que nos aprofun- como se inserir na estrutura dual da sociedade. Não eram escravos propria-
dar, o que não é possível nos limites deste texto, nas questões de como se mente falando, porque não haviam sido comprados, e também não eram
deu o agenciamento entre as várias instâncias que compuseram até a Cons- senhores, não podendo ocupar posições na estrutura burocrática e adminis-
tituição Federal de 1988, a "rede d e proteção à criança", em suas tentativas tra tiva da Colônia. Existiam como uma espécie d e "mão-de-obra-escrava",
de diminuir o número e os efeitos da miséria e do abandono, sem, contudo, temida com.o sendo"a pior raça de gente", mas, ao mesmo tempo, reserva
alterar as condições concretas de vida da classe trabalhadora. útil, objeto de recrutamento forçado sempre que o Estado necess itasse de
milícias para o combate aos quilombolas e aos índios, ou para a construção
de estradas, prisões e demais edificações e serviços.
Considerações finais - A propósito das noções de criança e menor O problema modifica-se quando, a partir da Lei do Ventre Livre e da
Abolição, os escravos adquirem a condição de livres e, portanto, de "filhos"
No Brasil colônia não existia "a criança", pensada como categoria e "pais de família", sem, contudo, adquirirem as condições materiais para
genérica, em relação à qual pudéssemos deduzir algum direito universal, o exercício pleno da cidadania. Foi quando crianças e adolescentes pobres,
pois não existia o pressuposto da igualdade entre as p essoas, sendo a socie- agora identificados como "menores abandon ados material e 1noralmente",25
dade colonial construída justamente na relação desigual senhor/ escravo. passaram a ser encontrados nas ruas, brincando, trabalhando, esm.olando
O que exis tiam eram categorias específicas, como os" filhos de família", os
ou mesmo cometendo pequ enos furtos.
"meninos da terra", os "filhos dos escravos", os "órfãos", os" desvalidos",
os "expostos" ou" enjeitados"; ou ainda, os "pardinhos", os "negrinhos", O governo republicano, longe de reverter este processo, buscou ins-
tituir uma l egislação específica para os menores, visando, sobretudo,
os" cabrinhas" etc. 24
o controle daqueles considerados moralmente abandonados. Assim, o
Os chamados "filhos legítimos de legítimo matrimônio" não coloca-
Código Penal de 1890, um ano após a Proclamação da República, reduziu
vam problemas à ordem social, pois que, justamente, encontravam-se sob o
a idade p enal para 9 anos, nos casos e m que o juiz julgasse que a criança

24. Ve1· Arantes, E. M .; Brito, L. T.; Rodrigues,H. C. Adolescência,ato infracionalecidadarúa no Rio


de Janeiro: 1900-2000. A construção do "jovem perigoso". Edital FAPERJ 2003/ 4-Direitos Human os 25. A este respeito, ver: VAZ, Franco. A infância abandonada. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional,
Para Todos. Ver também Arantes e Tonim, 2006. 1905.
194 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 195

havia agido com discernimento. Ao não abolir, mas apenas regulamentar o sem um ofício e expulso/ evadido da escola ou fugitivo do lar, caminhava
trabalho infantil, também permitiu que criança pobre ficasse fora da escola ocioso pelas ruas, à cata de um qualquer expediente ("perambulante").
ou, quando muito, fosse encaminhada à escola correcional ou de reforma. Pela legislação, qu e vigorou até 1990 (Código d e Menores), todas essas
Construiu-se, desta forma, sobre a base da regulamentação da idade penal crianças e jovens eram passíveis, num 1nomento ou outro, de serem sen-
e do trabalho infantil, da possibilidade de destituição do pátrio poder e da tenciadas como "irregulares" e enviadas às instituições de recolhimento,
internação dos menores, um sistema dual no atendimento às crianças, uma triagem,ressocialização ou guarda, a fim de que cessasse a situação de irre-
vez que, enquanto o Código Civil de 1916 tratava dos "filhos de família", g ularidade. A lógica era aparentemente simples : se a família não pode, ou
o Código de Menores de 1927 tratava dos "expostos", "abandonados", falha no cuidado e proteção ao menor, o Estado toma para si esta função.
"desvalidos", "vadios", "1nendigos", "viciosos" e " libertinos".
Em princípio, a passagem da tu tela familiar para o Estado não deveria
Embora não se possa estabelecer apenas rupturas entre os modelos suscitar maiores dificuldades, uma vez que, devido à sua pouca idade e
caritativo e filantrópico-coexistindo muitas vezes o mes mo propósito de imaturidade, a criança já se encontrava anteriormente sob tutela. Ou seja,
controle social e o mesmo método de confinamento -podemos afirm ar, no muda-se o tutor, p ermar1ece o status - a menoridade jurídica. 26 No en-
entanto, que o primeiro 1nodelo, de natureza relig iosa e asilar, ocupava-se tanto, ao analisarmos esta ques tão mais d etidamente, ob servamos grande
basicamente da pobreza, motivado principalmente pelo dever d e salva- complexidade. Com o a situação de irregularidade n ão é comum às classes
ção d as almas. Já a filantropia dita esclarecida, de natureza cientificista e média e alta, pode-se concluir, com Simões, que o Código de Menores visava,
favorável a uma assistência estatal, tendeu sempre a uma gestão técnica sobretudo, os filhos dos trabalhadores, principalmente de seu s segmentos
dos problemas sociais, ordenando os des vios a partir de um modelo d e ·111.ais pauperizados.
normalidade que, em última instância, revelou-se preconceituoso - pois
Simões faz uma análise do movimento d e constituição/ destituição do
que definia a criança pobre quase sempre como "anormal", "deficiente"
pátrio poder n a nossa sociedade, onde se torna evidente que criminalizar
ou "delinquente".
as estratégias de sobrev ivência das famílias e dos menores das camadas
Tal a força e abrangência deste sistema dito de proteção à infância populares constituiu, neste período de vigência do Código de Menores,
que praticamente cobria todo o universo de crian ças pobres, pois que à um. "pressuposto" e uma "estratégia".
"situação irregular do menor" (categoria do Código de Menores de 1979)
correspondia uma suposta família "desestruturada" - por oposição ao "No primeiro momento, os pais são d estituídos do p od er sobre o filho que,
modelo burguês de família, tomado como norma - à qual a criança sempre desde o nascimento, tem existência pública.
escap ava: seja porque n ão tinha família(" órfã" ou" abandonada"); porque No segundo momento, o Estado devolve esse poder aos pais, delegando a
a família não podia assumir funções d e proteção ("carente"); porque não responsabilidade de uma função pública; a formação física e espiritu al do
podia controlar os excessos da criança (" conduta antissocial"); porque as futuro cidadão. Para isso constitui-nos no pátrio poder. O menor fica, assim,
ações e envolv imentos da criança ou do adolescente colocavam em risco sua em sit uação regular.
seguran ça, da família ou de terceiros ("infrator"); seja porque a criança era O terceiro momento, com a intervenção do Estado por meio do direito do
dita portadora de algum desvio ou doença com a qual a família não podia menor, n ão é mais univer sal: em nome do interesse públi co, o Estado na
ou sabia lidar(" deficiente"," doente mental", com" desvios de conduta"); pessoa do Jui z de Menores, destitui determinados pais do pátrio poder em
seja ainda porque, necessitando contribuir para a renda familiar, fazia da rua
local de moradia e trabalho (meninos e meninas" de rua"); ou ainda porque, 26. Sobre o tema, ver CASTEL, Robert, 1978.
196 RIZZIN I • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 197

relação a menores considerados em certos casos de situação irregular" (Si- M unidos de farta documentação e de pesquisas que evidenciavam a
mões, 1983, p. 85). falência do modelo de atendimento dito "correcional-repressivo", foi pos-
sível por ocasião da Con stituinte em 1987, mostrar: 1) que os internatos não
Nesta condição, passava o Estado a poder declarar como "irregular" eram o melhor meio de proteção à criança pobre; 2) que o papel do técnico,
parte da população. Através de mecanismos jurídicos, ficava a pobreza("ca- longe d.e ser apenas terapêutico e educativo, estava sendo de controle e que,
rência") convertida em hipótese de irregularidade - situação que tendia na realidade, a rotulação da criança (ou o seu" diagnóstico") já era feito an-
a ser resolvida, não se alterando as condições de vida d a população, mas teriormente pelo policial, no a to mesmo da apreensão da criança na rua; 3)
através de procedimentos tidos como "pedagógicos" e "terapêuticos". que as famílias, muitas vezes, toleravam as infrações das crianças na medida
em que isto significava renda familiar, e que o melhor meio para se resolver
"O Código autoriza os juízes a internarem crianças que se encontram "em
este problema não seria enviando crianças paras as delegacias policiais; 4)
situação irregular" e define a carência como uma d as hipóteses de situação
que segmentos da sociedade, preocupados com sua seguran ça pessoal e
irregular. E como se carente fosse apenas uma pequena parcela das crian ças
com o patrimônio, pressionavam o poder público para punir e confinar o
brasileiras e não a grande maioria. Se se levasse o Código a sério, estariam os
adolescente, sem, contudo, oferecer-lhe alternativas; e, finalmente, 5) que
juízes legitimados a mandar internar talvez a quarta ou terça parte do povo
bras~leiro. Já que o juiz não pode fazer isso, ele usa a faixa discricionária que
a criança não estava apenas sendo aliciada por adultos para roubos, furtos
a lei lhe concede para internar uns e recusar a internação de outros, segundo e venda de drogas, mas estava sendo tomada como mercadoria a qual se
o que ele e seus assessores entenderem". 27 podia trocar, vender e mesmo executar.
À medida que se pode efetivamente questionar o modelo de assistência
Como grande parte das crianças mantidas nos internatos n ão era até então vigente, tornou-se possível a emergência de novas proposições.
"órfã", mas "carente", a disputa pela guarda das crianças era rn.uito com- Na redação do artigo 227 da Constituição Federal de 1988, o Brasil adotou
plexa e penosa para as famílias, envolvendo esta disputa o Juizado de não apenas a Declaração Universal dos Direitos da Criança, como também
Menores, a Delegacia de Menores e as instituições de atendimento. Muitas o pré-texto da Convenção destes mesmos direitos, que,naquela data, ainda
vezes as famílias pobres acabavam por realmente abandonar as crianças não havia sido apresentado à Assembleia Geral das Nações Unidas. Ao
nos internatos, nunca as visitando. assim proceder, aboliu o Código de Menores de 1979 e, em seu lugar, em.
Este abandono, frequentemente apontado pelos técnicos dos internatos 1990, promulgou o Estatuto da Criança e do Adolescente.
como mais uma "prova" da"imoralidade" das famílias, configtu-ou-se, mui- A aprovação do Estatuto foi saudada com bastante entusiasmo por
tas vezes, como uma estratégia dos próprios internatos, para que estes pu- todos aqueles que esperavam grandes mudanças na política de atendi-
dessem ocupar um lugar quase que absoluto face à educação da criança. mento, afirmando os mais otünistas que o Estatuto representava uma
Foi para romper com esta lógica e com estas práticas que, principal- verdadeira revolução nas áreas jurídica, social e política -por considerar
mente a partir da década de 1980, os movimentos sociais e organizações a criança como sujeito de direitos, pelo princípio da absoluta prioridade
não governamentais que recém despontavam no cenário nacional iniciaram no seu atendimento e pela observância de sua condição peculiar d e pessoa
ampla mobilização para introduzir na Con stituição Federal os direitos da em desenvolvimento . Depositava-se grande esperança nos Conselhos de
criança e do adolescente. Direitos e Conselhos Tutelares, principalmente pelo princípio da partici-
pação popular, também estabelecido no Estatuto.28
27. Trecho da proposta de mudança d a FEEM/RJ, e laborada por Roberto Mangabeira e equipe
(Luppi, 1981, p. 99). 28. Ver Arantes, E., M. ln Zamora, M. H. (org.), 2005.
198 RIZZINi° • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 199

Transcorridos quase 18 anos de sua aprovação, no entanto, o Estatuto ALMEIDA,AngelaM.;CARNEIRO,Maria J.;PAULA,SilvanaG. (orgs.).Pensando
volta a ser intensamente debatido no noticiário nacional, não em virtude a família no Brasil. Rio d e Janeiro: Espaço e Tempo, 1987.
de significativa melhoria nas condições de vida das crianças e dos adoles- AMARAL, Antonio F. ln: ARANTES, Esther M. M.; MOTTA, M. Euchares. A crirm-
centes pobres, mas em virtude de propostas de agravamento das medidas ça e seus direitos: Estatuto da Criança e do Adolescente e Código de Menores em
sócioeducativas, bem como de propostas para a redução da idade penal. Debate. Rio de Janeiro: PUC-RJ /FUNABEM, 1990.
Aponta-se, insistentemente, como causa do aumento da criminalidade entre ANCHIETA, José de. Cart as : Informações, fragmentos históricos e sermões .
os adolescentes, uma suposta impunidade proporcionada pelo Estatuto . Belo Horizonte/São Paulo: Ita tiaia/Universidade de São P aulo, 1988 . (Cartas
Ao pender o barco para as medidas punitivas e não para as políticas Jesuítas, 3.)
públicas de inserção social, longe de resolver nossas aflições, o Brasil pode ARANTES, Esther M. M.; MOITA, M . Euchares. A criança e seus direitos. Rio de
estar caminhando para a consolidação e o aprofundamento da histórica Janeiro: PUC-RJ /FUNABEM, 1990.
divisão entre "criança/adolescente" e "menor " - divisão esta que foi
ARANTES, E.M.; BRITO, L. T.; RODRIGUES, H. C. Adolescência, ato infracional e
jus tamente o motivo que levou os movimentos sociais a lutarem, na Cons- cidadania no Rio de Janeiro: 1900-2000. A construção do "jovem perigoso". Edital FAPERJ
tituinte de 1987, para que o Brasil adotasse a Proteção Integral para toda a 2003 / 4 - Direitos Humanos Para Todos.
infância e não apenas para uma parte dela.
ARANTES, E. M. Estatuto da Criança e do Adolescente: Doutrina da proteção
Em visita ao Brasil, o historiador Jean Hébrard 29 afirmou que a socie- integral é o m esmo que direito penal juvenil? ln: ZAMORA, M. H. ( org.) . Para além
dade brasileira encontra-se diante de um dilema, pois "a separação das das grades. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio; São Paulo: Loyola, 2005.
crianças em dois mundos que não se encontram vai acabar num desastre"
ARANTES, E. M . e TONIM, M. Direitos Humanos - Um retrato das Unidades de in-
-uma vez que partilhar valores comuns é um pressuposto e urna condição
ternação de adolescentes em conflito com a lei. Brasília: Conselho Federal de Psicologia
essencial nas democracias ocidentais. e Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, 2006.
Finalizanc;lo, o que parece estar em jogo na história da infância no
ARAUJO, Sonia M. Duarte de. Elementos para se pensar a educação dos indivíduos cegos
Brasil não é a noção científica, ou supostamente científica, de criança, n em
no Brasil:Ahistória do Instituto Benjamin Constant. Dissertação d e mesh·ado. Rio
mesmo o seu correlato jurídico menor-de-idade, mas a instituição de uma
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PRIORE, Mary. História da criança no Brasil. São Paulo: Contexto/CEDHAL,
1991. valor no Brasil Colônia e no Império*
VAZ, Franco. A infância abandonada. Rio de Janeiro: hnprensa Nacional, 1905.
ZARUR, D. Educandário Romão de Mattos Duarte. 4. ed. Rio de Janeiro: Binus Artes
Gráficas, 2003.
Eva Teresinha Silveira Faleiros**

Introdução

C.ompreender a assistência à criança e ao adolescente no Brasil Co-


lônia implica situá-la nas relações econômicas e sociais então vigentes,
ou seja, no ~ontexto d a ~~Ionização e_da escrav_idão ne_gr~. Acolonização
de um país recém descoberto como o Brasil exigia, necessariamente, seu
l?_~_v~~1:1ento e mão-de-obra para o traba11:-o, Ae.scravidão ne8"ra, da qual
lançaram mão os portugueses, formou e modelou as relações econômi-
cas e sociais neste período, b em como as políticas referentes à infância e
adolescência, e cuja influência se fez sentir na história da atenção a esta
população no Brasil. No início da c?._lo_nização os jesuítas trataram de
converter, cristianizar e "humanizar" os índios brasileiros, e tentaram
isolar os filhos destes de sua "má influência", com o o atestam a criação
das "casas de muchachos" e, a correspondência deixada por Nóbrega e
Anchieta (Del Priore, 1991).

• A pesquisasobre a situação e a assistência à criança e ao adolescente no Brasil Colônia e no Império


orientou-se pelo mesmo marco teórico da pesquisa do período da República, realizada por Vicente de
Paula Faleiros, e que consta neste livro sob o título Infância e Processo Político no Brasil.
•• Mestre em Serviço Social, professora aposentada da UnB, diretora da ONG - Inverso.
204 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 205
r:~,
Partimos do postulado de que as crianças escravas e abandonadas não relações familiares dos escravos, quando existentes, reduziam-se à relação
- -··-··- --··-···-··h ...
eram uma n~~~ssidade para o sistema produtivo, restando para os sobre- ~~-e-filhos p_~qu~~9s.
viventes, o trabalho. Durante o período do intenso tráfico de negros para
º
- · -..... ~ - - ..... . . ~ - - - • • •• - · 0 0 0 O O O • • -·- - •L • - ·-

~rasil, a taxa de crescimento da população escrava era nula, ou ?lesmo " ... do pai nada se sabe. Em Salvador, entre 1870 e 1874, em 85 batismos de
~eg~tiva, e o padrão de reprodução muito baixo. 1 A reprodução escrava era crianças escravas, todos, absolutamente todos, são 1?atismos de criél!1-ças ilegí-
considerada antieconôrrúca, pois com um ano de trabalho o escravo pagava timas
,~
... todas as mulheres de nossa amostra são mães solteiras
.-- .. ... O número de
~

seu preço de compra e, facihnente, outros escravos, adultos ou crianças, crianças sem filiação, isto é, sem menção do nome de sua genitora, é enorme:
poderiam ser adquiridos (Vainer, 1979). representa 41,2% das crianças de menos de 12 anos" (1992, p. 83).

"Em todas as palestras entre fazendeiros se ouvia este cálculo: compra-se um Já Russell-Wood
- ·• ·-·v- •• ••··--·- afirma que" os escravos demonstravam considerável
negro por 300$000, colhe no armo 100 arrobas de café que produzem líquido grau de coesão. Os proprietários rurais frequentemente estimulavam os
pelo menos seu custo: d'ahi em diante é lucro: não vale a pena aturar as crias escravos a casar-se" (1981, p. 247).
que só depois de 16 annos darão igual serviço" (ln A Liberdade dos Ventres, A Lei~~ ~ntr~ Livre (1~71_), em seu artigo 4°, parágrafos 7° e 8° res-
1880, citado por Giacomini, 1988, p. 24).
guardou a r~!ação mãe-filho_e a família escrava. Kátia Mattoso, em seu
belo ~_!ig<?_S?!'~~ ~-~12an5~ -~~':_r_~"."él., trata de responder à questão" quando a
A baixa taxa de _c1:~_s cimento da população escrava explica-se por di-
criança filha de escravos deixa de ser criança e passa a ser escravo, ou seja,
versas razões: o número de mulheres escravas era inferior ao de homens
a entrar compulsoriamente no mundo do trabalho?" Identifica a autora
escravos,2 abortos por maus-tratos sofridos durante a gravidez, alta mortali-
três maioridades para os filhos dos escravos: a religiosa aos 7 anos, idade
dade infantil devido às péssimas condições do cativeiro, infanticídios eram
da razão; a civil aos 12 anos para as meninas e 14 anos para os meninos
praticados por escravas como uma forma de livrar seus filhos da escravidão,
segundo o Código Filipino,3 e pela Lei do Ventre Livre até os 8 anos, sob
e porque muitas vezes as mães escravas nutrizes eram separadas do filho
a autoridade do senhor, idade após a qual este tinha a opção de t9má-los
récem-nascido ao serem vendidas ou alugadas como amas-de-leite.
~vres (mediante indenização do Estado) ou u~i:i!:ar seus serviços até os 21
~ii-~__!lá__ac<;:>r<:i-c. _entre pesquisadores sobre a situação da f_§lmíg_a,_~s-
crava. Para .Giacomini, a farru1ia escrava era inexistente; era ela muitas -anos;
-----··-e tuna terceira
.
maioridade quando de seu ingresso na atividade eco-
.
.... . . ·- ·-- ' nômica produtiva, bem antes dos 12 anos( ou seja, entre 7 e 8 anos quando
vezes destruída ou separada, no momento da captura ou no da venda ou
ingressavam nas categorias de aprendiz ou moieque.
aluguel do pai, da mãe e mesmo de crianças escravas. Segundo ly!~_!toso1 as
Em sua ~enoridade as crianças escravas serviam como brinquedo dos
~os dos senhores (a quem inclusive eram doadas como presente) e diver-
1. Kátia de Queirós Mattoso, em seu artigo sobre "O filho da escrava", indica que em sua pesquisa
a média de crianças escravas, por inventário analisado, era de 2,8 entre 1860-69, de 2,0 entre 1870-79 e timento das visitas, ou seja, eram consideradas ~aizinhos de estimação
de 5,4 entre 1880-89, portanto, bastante maior com a proximidade da abolição da escravidão. (cavalinhos, macaquinhos). Além de 1:-urrúlhações, sofriam _!11-aus-tratos e
2. "Historkamente, a proporção entre-o s sexos, no tráfico transatlântico, estabeleceu-se em tomo
de 2/3.de homens para 1/3 de mulheres. A sua distribuição no país não era, entretanto, regular. Áreas
como as de garunpageme mineração,concentravam, em geral, populações preponderantemente mas- 3. Com a ascensão da dinastia Habsburgo ao trono de Portugal, Felipe II ordenou a reestruturação
culinas. Nessas regiões, os escravos nascidos na África predominavam sobre os originários do Brasil. da legislação portuguesa. Em 1603 entram em vigor as Ordenações Filipinas, com base nas Ordenações
A pirâmide de idades concentra-se na faixa masculina dos 15 aos 35 anos, com exclusão de crianças Manuelinas de 1521, e que, embora com wna série de modificações, foram v igentes até a elaboração do
em tenra idade e de velhos" (Beozzo, 1993, p. 30). · primeiro Código Civil brasileiro, em 1917, já na República (Mendes Junior et al., 1979).
...,

208 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 209 ("(

pobres para protegerem seus filhos" (ibid., 1981). Havia urna preocupação Analisando essa questão no contexto histórico da época, Aries, em seu
em proteger e casar donzelas, órfãs, virtuosas, filhas de legítimo casamen- estudo sobre a criança e a família na s_o ciedade tradicional francesa ( do fim
to, cristãs-velhas e brancas, como também enjeitadas. Com este fim foram da Idade Média às sociedades industriais) conclui que:
fundadas Casas de Recolhimento mantidas pelas Misericórdias da Balúa
(1726) e do Rio de J~1:1:_eiro (1740), a primeira dez anos antes da Roda e~ "Essa sociedade via mal a criança, e pior ainda o adolescente ... um sentimento
segunda dois anos após a criação da Roda. superficial da criança era reservado à criancinha em seusprimeiros anos de vida,
enquanto ela ainda era uma coisinha engraçadinha. As pessoas se divertiam
Há referências à existência de miseráveis, completamente d esprote-
coma criança pequena como com um animalzinho, ummacaquinhoimpudico.
gidos. Segundo Nascimento Vieira: Se ela morresse então, como muitas vezes acontecia, alguns podiam ficar deso-
lados, mas a regra geral era não fazer muito caso, pois uma outra criança logo a
"Existiam também os pobres irremediáveis ... São numerosas as menções substituiria ... Se eu tivesse de escrever este livro hoje ... eu chamaria a atenção
encontradas das 1;1eninas q1:_1~ "'.~g~y3.1_m P.<:!~~ ~as da cidade, ped~!~s~ ~1:>~- para um fenômeno muito importante e que começa a ser mais conhecido: a
donadas, as quais os delegados das freguesias pretendiam encaminhar à p_ersistêpcia até o fim do século XVII do infanticídio tolerado... "
Santa Casa (ao Recolhimento de Orfãs ), pedidos invariavelmente rejeitados, "O infanticídio era um crime severamente punido. No entanto, era praticado
situações irrecuperáveis. Esse tipo de pobreza total, irreversível, não era en: s_egr~9"0, correntemente, talvez, c~uflado! sob a forma de 1;1Il1 acidente ...
somente de j~ve_n s mulheres, mas de um grupo livre, mas absolutamente
J. L. Flandrin analisou essa prática oculta numa conferência da Societé du
carente, de vidas atribuladas, em condições por vezes miseráveis ... " (1993,
XVIIeme Siecle. Ele demonstrou como a diminui~o da mortalidade infantil
p. 159). observada no século XVIII não pode ser explicada por razões médicas e hi-
giênicas; simplesmente, as pessoas pararam de deixar morrer ou de ajudar a
No Livro 2º de Registros, do arquivo da Santa Casa de Misericórdia morrer as crianças que não queriam conservar" (1981, p. 10-17).
da Bahia, fls. 86, de 22 de junho de 1806, há o relato de que:
A seguir veremos que a a,ssistência à criança necessitada consistia
" ... existia por debaixo do prédio do recolhimento, provavelmente ~m porão, num território de indefinições, acordos e desacordos entre o público e o
uma e~e_rm_a ~_a 1e mulheres pobres_e miseráveis, com vários tipos de m9- privado. No Brasil Colônia, a assistência_às _crianças abandonadas, órfãs
léstia. _A S_~ nta _Ca_s~ as abrigava para lhes prestar socorro espiritual e para, e pobres seguiu os moldes ditados pela Corte e adotados em Portugal, ou
se possível, serem cuidadas de suas enfermidades. E:stas eram mulheres de
seja, era de responsabilidade das câmaras municipais, ~as foi em grande
pobreza irremediável, i1.Tecuperável. As recolhidas que habitavam o andar
parte as_s umida pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia. Segundo
superior não as respeitavam como seres humanos, nem se condoíain de sua
Maria Luiza Marcílio:
desdita. Jogavam sobre o piso do andar muitas águas que desciam pelas
frestas sobre aquelas desgraçadas ... " (ibid., p. 160).
"Pelas Ordenações Manuelinas (1521), depois confirmadas pelas Filipinas
(1603), às Câmaras Municipais incumbia a obrigação de criar as crianças
Há referências a uma denominada "po1?rez~ ~nv~rgonhad~", que era
abandonadas, mesmo que tivessem de criar novos impostos para essa defesa
bem vista e recebia algunrn ajuda. (Marcílio, 1993, p. 151).
~
Além destes dados há que se considerar, no que se refere ao descaso
e à desvalorização da criança no Brasil Colônia e no Império, as altíssimas A Irmandade de Nossa Senhora, Mãe de Deus, Virgem Maria da Mi-
taxas de mortalidade infantil, co~o-veremo~ adiante. -----· sericórdia, conhecida popularmente como $,anta Casa da Misericórdi<l ou
fl

Rl2ZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS


210 211
:r:)

Santa Casa, foi :h.µldada em Lisboa em 1498_,por um grupo de leigos e um Nosséculos16e17,tantoasCâmarasMunicipaiscomoasMisericórdias


. frade trinitário. Foi aprovada pela Regente D. Leonor e confirmada por seu prestaram alguma assistência a crianças abandonadas e enjeitadas, adotando
II

irmão D . Manuel (Russell-Wood, 1981). Sua fundação inscreve-se no qua- ambas a colocação" destes emra~as particulares, onde deveriam ser cuida-
dro geral da .a ssistência à pobreza urbana, promovida por Irmandades de 4os e amamentados por amas-de-leite até 3 anos, mediante pagamento.5
Caridade de leigos, instituição então existente n~ Europa, tendo o modelo No Brasil, os custos desta assistência e posteriormente os da assistência
it~liano inspirado o português. ' no s,i.stema das Rodas, assim como a responsabilidade de assumi-la, foram
motivo de constantes atritos entre o governo real e a Irmándade da Santa
Embora de cé:r_~te_r. ~e.igo ~ goz<l!lcio d_e autono~a, a Ir1.nandade da
Casa de Misericórdia. Esta situação vivida no Brasil ~ão fez senão repetir
Misericórdia mantinha estreitas relações com a realeza e com a hierarquia
da Igreja Católica, relações estas de privilégio, mas muitas vezes c~nflih~o-
Õque já vinha ocorrendo em Portugal no que se referia à assistência aos
enjeitados, que era prestada pela Misericórdia, embora fosse responsabi-
~as. Dentre os p rivilégios_reais concedidos à Misericórdia destacam-se seu
lidade do governo. Este ~umpria muito mal suas responsabilidades, bem
m~?opólio da coleta de esmolas e da assistência. Russell-Wood afirma:
como seus compromissos financeiros com as Misericórdias.
"Na mente de D. Manuel, a política de centralização de serviços hospitalares
"No império português ultramarinho havia confusão, mal-entendidos e
passou a incluir a fusão de outras formas de filantropia social mun único-a
acrimônia semelhantes em relação à responsabilidade pela assistência aos
Misericórdia" (Russell-Wood, 1981, p. 12). expostos. Tanto em Goa quanto em Macau, Luanda ou na Bahia, os conselhos
municipais eram responsáveis de jU,:~· Mas em todos os casos eram_as res-
As Misericórdias multiplicaram-se. Foram fundadas nas colônias pectivas Misericórdias que recebiam, alimentavam~vestiam e abrigavam as
portuguesas na África, Oriente e também no Brasil. crianças abandonadas pelas mãe~. Essas Misericórdias não tinham obrigação
estatutária de assistir enjeitados ... No caso dos enjeitados, a Câmara, sim,
"Em 1524, quando D.Leonor morreu, todas as cidades e muitas vilas de tinha responsabilidade legal, e a atividade da Misericórdia somente se tornou
Portugal tinham uma Santa Casa da Misericórdia, totalizando sesse:c:i-ta e necessária em consequência da falência oficial em cumprir essa obrigação"
uma ... " (ibíd., p.17). (ibid., p. 234-235).
A honra da fundação da primeira Misericórdia no Brasil é disputada pelas
11

capitanias de S. Vicente e de Pernambuco. Os historiadores geralmente con- N a primeira década do ~éculo 18houve um agr~vamento das tensões
cordam em que o galardão deve caber à Irmandade de Santos, fundada por entre o governo colonial e as Misericórdias, referente às despesas e financia-
Brás Cubas em 1543. Essa fundação foi confirmada por Alvará real de abril mento da assistência aos expostos ( como também à assistência hospitalar
de 1551. Em muitos casos, a fundação de uma Misericórdia era simultâne'a prestada por estas a presos e soldados), ocasionando desentendimentos
com a fundação de uma cidade, ou a seguia de pouco. A data de fundação entre as autoridades ':!~ Coroa e a Câmara Municipal da Bahia e tomando
da Misericórdia do Espírito Santo é incerta, mas já existia em 1551, quando tensas as relações no interior do governo (rei, vice-rei, câmaras).
se mudou para a nova cidade de Vitória. Olinda e Ilhéus possuíam Miseri-
11

córdias na década de 1560. A Misericórdia do Rio de Janeiro funcionava em A ~!>~!icórdia tomou posição contra essa falta de cooperação oficial. As
1582 ... Ao fim do século XVI havia também Misericórdias em São Paulo e Mesas fizeram cortes drásticos no número de enjeitados assistidos pela Innan-
Porto Seguro. No início do século XVII fundaram-se Misericórdias em muitas •
partes do Brasil-Sergipe, Parru.'ba (1604), Itamaracá (1611), Belém (1619) e 5. Chama atenção que esta primciramedida deproteçãoàcriançaabandonada-colocação familiar
Igarassu (1629)" (ibid., p. 30-31). !emunerada-de aproximadamente 500 anos, seja adotada ainda hoje.
....,

212 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS


213 '<

dade ... Não há indício de súbito aumento do número de enjeitados no registro Expostos da Bahia, autorizada pelo rei, foi criada em 1726, e segundo Mar-
municipal. O resultado foi que no irúdo do século XVIII não havia mecanismo
cílio "foi o grande legado, deixado pelo rico João Aguiar de Mattos, que
adequado para a assistência a enjeitados na Bahia" (ibid., p. 237).
permitiu a fundação e manutenção dê!, Roda dos Expostos, na Santa Casa
de Misericórdia de Salvado!-··" (1993, p. 153).
A situação dos expostos tornara-se uma questão que preocupava
autoridades, religiosos e homens públicos. Somente doze anos após, em 1738 foi criada a Roda do Rio de Janeiro,
através do legado do rico negociante Romão de Mattos Duarte. Em 1775,
"O número de crianças abandonadas nas ruas causou escândalo público. o Alvará do Ministro Sebastião José de Carvalho e Mello
As mães deixavam os filhos à noite nas ruas sujas. Frequentemente eram
devorados pelos cães e outros animais_que rondavam pelas ruas da capital "regulamentou de forma mais estrita e definitiva a questão das crianças e x-
brasileira. Em outras ocasiões, morriam simplesmente de fome ou de expo- postas: é, sem dúvida, a mais importante lei existente no século XVII~sobre
sição aos elementos. Algumas mães deixavam os filhos nas naves das igrejas o assunto, mas volta-se sobretudo para a relação entre enjeitados, Santa Casa
ou às portas dos conventos ... Outras abandonavam as crianças na praia para de Misericórdia e Juiz de Orfaos,7 deixando de lado a questão das câmaras"
que se afogassem com a maré enchente. O grande número de enjeitados era (Souza, 1992, p. 2).
considerado pelas autoridades como indício do desleixo moral da popula-
ção baiana ... D . João V exortou o arcebispo e o vice-rei a fazerem algo para Segundo Souza, a partir do Alvará intensificou-se a luta pela criação
remediar essa mancha na reputação nacional" (ibid., p. 237-238). de Rodas. No entanto, ao observarmos as datas de criação das Rodas,
verificamos que o Alvará não representou um marco na assistência aos
Com o agravamento da sihrnção dos expostos, como vimos, inten- expo~tos. No período da Colônia foram criadas apenas três Rodas num
sificaram-se as pressões e discussões em torno da criação de Rodas de período de 63 anos e com grande distância uma da outra (a da Bahia em
expostos nas Misericórdias. Tratava-se de uma questão extremamente 1726, a do Rio de Janeiro 1738 e a do Recife em 1789), e apenas uma (a do
polêmica, envolvendo aspectos morais, religiosos,humanitários, políticos Recife) após o Alvará.
e econômicos.
A Roda se constituía em todo um sistema legal e assistencial dos expos-
Em 1726 o arcebispo e o vice-rei começaram entendimentos com tos até sua maioridade. Em realidade, "Roda" era o dispositivo cilíndrico
guardiões da Misericórdia no sentido de convencê-los a criar urna Roda no qual eram enjeitadas as crianças e que rodava do exterior para o interior
de expostos. As relações eram tensas entre a Irmandade da Misericórdia e da casa de recolhimento. A denominação de Roda para o atendimento que
o vice-rei, o que tomou as negociações mal re.c ebidas e difíceis. era oferecido aos nela enjeitados presta-se à confusão e ao entendimento de
A Junta e a Mesa6 deliberaram sobre a questão em 14 de fevereiro que a assistência a estes resumia-se ao recolhimento imediato à exposição e
de 1726; a .criação ·da Roda foi aprovada por dois terços dos votos, com a deixa obscuras todas as etapas e modalic~ades de assistência que os mesmos·
ausência de sete membros à reunião da votação (ibid., p. 239). A Roda dos recebiam até sua maioridade.

ó. A Mesa era o principal órgão administrativo da Irmandade da Misericórdia. Era composta tradução da Junta, órgão administrativo secundário, de caráter consultivo, composto paritariamente
de 13 irmãos, seis de cada classe (Russell-Wood, 1980, p. 15): o provedor ou presidente e o corpo de de dez irmãos de cada cl~se.
~ardiães constituído pelo escrivão, nove .conselheiros e dois mordomos, eleitos por uma comissão 7. As Ordenações Filipinas, Livro I, Título 88, trata dos Juízes dos Órfãos, suas responsabilidades
eleitoral d e dez irmãos escolhidos pela totalidade da Irmandade, e com mandato de um ano. Em 1618 e mecanismos a serem adotados no que se refere à constituição deste Juízo, aos bens e criação dos
houve mudanças no Compromisso de Lisboa, pelo qual se regia a Irmandade da Misericórdia, e a in- órfãos.
RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 215
•) 214

Não há consenso entre os pesquisadores sobre o tempo inicial de per- "Muitos orfãos, ao sair da adolescência, são entregues a artífices reputados,
manência das crianças enjeitadas na casa da Roda. Este seria de um a dois aos quais pagam com sua atividade a alimentação e cuidados recebidos"
meses (Lima e Venâncio, 1992), de oito dias (Leite, 1992, citando Andrews, (Moreira Leite, 1992, p . 101).
1887) ou até um ano e meio (Alvará de 1775), sendo após entregues para
"famílias honestas" para serem criadas e amamentadas até três anos por Andrews, falando sobre a Ro~a do ~o de Janeiro diz dos enjeitados
amas-de-leite que" ... são em geralnegras alugadas pela administração, que que: "quando têm idade suficiente para frequentar a escola voltam à ins-
entregam os salários aos senhores" (Leite, 1992, p. 101).8 tituição, onde recebem instrução até os 12 anos e então são enviados para
Segundo Russell-Wood, a responsabilidade da Santa Casa com o enjei- aprender ofícios" (1887, p. 43-46; ibid., p. 107).
tado ia até 3 anos, porém o Alvará de 1775 refere-se à assistência prestada Um dos graves p_roblemas das Roda~ foi a alta mortalidade dos expos-
pela Misericórdia até 9 anos, situação que o Alvará modifica, reduzindo-a tos nelas recoihic1.os: ii;taüstic-;,·~ ~01~taã~~ por pesquisadores e diários de
- - ·- ·
até os 7 anos. visitantes revelam números surpreendentes que levam ao q1:estionamento
O Alvará de 1775 determinava que: não só da qualidade da assistência nelas prestada como do ~istema Roda
enq~anto p~liti~a d~ assistência:Ou seja, tratou-se de ~ápolítica perversa;
" ... logo que completarem s!_:!te annos, se lhes suspenda a creação, ese lhes ~ão no sentido de que seus r~u!tados foram opostos aos objetivos propostos,
contribua mais com cousa alguma" (item I) " ...querendo a pessoa, que crear · pois os expostos recolhidos para que não morressem abandonados nas ruas
qualquer Exposto tornallo a levar grahritamente, ou para conservar em sua
acabavam aí morrendo.
casa, ou para o accomodarna de outra da sua vizinhança,não se achando nisso
inconveniente ... "(itemlli)"...Mando,queestandocompletoosseteannosde Em 1821, Maria Graham escrevia:
idade de cada Exposto... se haja por desobrigado o Hospital, e a Mexa da Mi-
sericórdia demais curar delle; ficando por este mesmo motivosemPrevilégio " ... A primeira vez que fui à ~oda dos Expostos_(do Rio de Janeiro) achei sete
algum da referida Casa, como se nunca tivera existido ... ficando reduzidos crianças com duas amas; nem berços, nem vestuário. Pedi o mapa e vi que
a huns simples Orfãos, como outros quaesquer dos Povos ..." (item VII)" ... em treze anos tinham entrado perto de 12.000 e apenas tinham vingado 1.000,
reputando-os como quaesquer outros Orfãos, a quem incube a obrigação n ão sabendo a Misericórdia verdadeiramente onde se achavam.
de curar: Podendo os referidos Juízes (de Orfãos) distribuillos pelas Casas ... ~ -de setembro. Fui aoA::~~iE:.qtfão~, que é tambémh~spital dos expos-
que os quizerem, até completarem doze annos, sem vencerem outro algum tos. Os rapazes receb em instrução profissional em idade adequada ... A casa é
Ordenado, que o da educação, sustento, e vestido" (item IV). extremamente funpa, como também o são as camas para as crianças expostas,
das quais somente tres estão agora sendo criadas por amas-de-leite dentro
O futuro dessas crianças após 7 anos dependia, em grande parte, da da casa. As demais estão colocadas fora, no campo. Até ultimamente têm
família que as criavam; os meninos podiam se~ encaminhados a aprendi- morrido nu.ma proporção apavorante em relação ao seu níunero. Dentro de
zes de algum ofício, caixeiros de lojas, seminários. As meninas realizavam pouco mais de i;,.ove anos foram recebidas 10.000 crianças; estas eram dadas
tarefas domésticas em troca do sustento ou eram encaminhadas à Casa de a criar for a, e de muitas nunca mais houve notícia ... as pensões pagas para
Recolhimento (onde recebiam dotes para o casamento). a alimentação d~ cada uma eram, a princípio, tão pequenas que as pessoas
pobres que as recebiam., dificilmente podiam proporcionar-lhes meios de
8. João Baptiste Debret, pintor oficial do primeiro reinado (1816), t. II (v. III), 45-49, citado por subsistência. Um melhoramento parcial já foi feito e ainda maiores ampliações
Miriam Lifchitz Moreira Leite. deverão ser realizadas.
..,.~.,

216 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 2'17 ~

Há grande falta de tratamento médico. Muitos dos expostos são colocados na " ... a fragilidade das Misericórdias no desempenho das funções assistencia-
Roda, cheios de doenças. Por outro lado aparecem também crianças mortas, listas, a iinpossibilidade das Irmandades assumirem totalmente a criação dos
a fim de que sejam decentemente enterradas" .9 expostos, a indefinição legal da metrópole, vigente até 1775 (Alvará), devem
ter contribuído para que grande parte das crianças expostas morressem antes
Em relatório do Ministro do Império para o ano de 1859 constam os mesmo de serem matriculadas nos assentos camarários ... e o fato de muitas
seguintes dados: crianças sequer serem registradas encobre, talvez, uma taxa de mortalidade
mais alta do que as cogitadas até o presente momento" (1992, p. 31-32).
"Em 1854, 588 crianças foram recebidas, somadas a 68 já no estabelecimento.
,~ 1,
Total 656. Mortas 435. Restantes 221. Em 1853 o número de expostos recebido O Alvará, documento real, portanto legal e oficial, não menciona
foi de 630 e mortos 515" (Moreira Leite, 1992, p. 102). quaisquer obrigações financeiras da Corte, nem das Câmaras Municipais
com a criação dos expostos na Roda.
Segundo Russell-Wood, a situação na Roda da Bahia não era diferente
Ao omitir as responsabilidades das câmaras municip,is (e, portanto,
da do Rio de Janeiro.
as do governo) em relação à assistência aos expostos, o Alva\á de 1775 não
definiu a questão fundamental no que se refere às Rodas enquanto política
"Anegligência das amas de leite pode haver contribuído para taxa excepcio-
governamental. As responsabilidades que este importante documento legal
nalmente alta da mortalidade entre os enjeitados. Nos últiinos três meses de
1757, doze das vinte e três crianças deixadas na Roda morreram. Em 1758, atribui ao governo são,sobretudo, burocráticas (registro dos expostos, guias
morreram quarenta e nove, de um total de setenta e nove ... miútas dessas de e~caminhamento da colocação destes em lares pelos Juízes de órfãos,
crianças já chegavam à Roda com poucas possibilidades devida.Além disso, recibos de recebimento do exposto).
a taxa de mortalidade na Bahia era muito alta entre as crianças de menos de Uma das questões cruciais na assistência aos expostos foi a do seu
cinco anos -justç1.mente a idade com que eram colocadas na Roda" (Russell- f~~~iamento, e nela se evidenciam as relações, os acordos e desacordos
Wood, 1981, p. 249). entre o público e o privado.
A assistência prestada aos expostos através da Roda deveria, legalmen-
A análise dessa a_lta mortalidade implica contextualizá-la nas condi-
te, ser financiada pelas câmaras municipais, bem como por concessões e
ç_õ es políticas e econômicas da época. O Brasil, enquanto colônia, dependia
doações do rei.No entanto, as Irmandades Nossa Senhora da Misericórdia
de-deéisões da Corte portuguesa, que se ~ostrou mais do que _<_:>missa no
dependiam quase que exclusivamente de doações de particulares, espó-
enfrentamento da questão da infância abandonada e pobre. Os interesses
lios de ricos senhores e de juros, para manter sua assistência às crianças
da Coroa no Brasil e dos portugueses que para cá vieram eram meramente
ec~~ômicos, -él~-espoliação, e por meio da escravidão estabeleceu-seno país abandonadas.
um modelo de desprezo pela vida. · O governo nunca assumiu verdadeiramente o financiamento desta
Evidentemente, são múltiplas as causas de tão altas taxas de mortali- assistência, o que provocou inúmeras crises entre ambos, caracterizando-se
dade entre as crianças recolhidas pelas Rodas. Segundo Mello e Souza: como uma situação de permanentes e constantes atritos, acordos e desacor-
dos, ameaças de fechamento da Roda por parte da Irmandade, concessões
e esmolas por parte da Coroa. Esta questão foi um pouco diferenciada de
9. Maria Graham, escritora e desenhista inglesa, governanta dos filhos de D. Pedro e da princesa
D. Leopoldina. Citado por Moreira Leite, 1992. uma Roda a outra.
218 RIZZINI • PILOTTI AARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 219
,-J

Russell-Wood e Souza frisam a diferença entre as Rodas na Bahia, a os gentis-homens, as classes profissionais e os eclesiásticos. A segunda era a
dos plebeus, conhecidos como'oficiais mecânicos' ou 'irmão de menor condi-
cargo da Misericórdia, e nas Minas, a cargo das câmaras.
ção' ... Na Bahlacolonial os irmãos da categoria superior podem ser divididos
A Misericórdia (da Bahia) dependia inteiramente de recursos privados
11
em dois grupos. O primeiro era a aristocracia rural, cuja riqueza e prestígio
para o financiamento desses serviços sociais. As contribuições da Coroa e da viera do cultivo da cana de açúcar ou da criação de gado... O segundo grupo
Câmara eram insignificantes" (Russell-Wood, 1994, p. 97-98). pode ser denominado de haute bourgeoisie ... Os irmãos de categoria 'maior'
eram ... funcionários públicos, eclesiásticos, inquisidores, oficiais militares e
"Caio Cesar Boschi, por fim, deixa claro que, nas Minas, a criação dos en-
diplomados em urúversidades" (ibid., p. 15-96).
jeitados recaía basicamente sobre as Irmandades ou sobre as câmaras, estas
últimas, muitas vezes, deixando de cumprir o prometido: o pagamento das
mensalidades aos criadores ou às amas de leite" (Souza, 1992, p. 30). Estudo realizado por Russell-Wood sobre os registros de admissão de
candidatos ingressados nalrmandadena Bahia, entre 1665 e 1755, revela que
Afim de compreender as articulações entre o poder público e o poder o número de "irmãos de maior condição" foi sempre superior ao de"irmãos
das elites na política da Roda é muito importante ater-se às relações entre de menor condição", o que evidencia o caráter elitista desta Irmandade.
a Irmandade da Misericórdia e o governo. Um provérbio alentejano dizia A oligarquia rural baiana pratica_g.i.ente se apossou durante muitos
"Quem não está na Câmara, está na Misericórdia" e·mais do que isto, estes anos do cargo de Provedor da Irmandade da Bahia, numa clara expressão
lugares eram ocupados rotativamente pelas mesmas pessoas ou famílias. de patrimonialismo.
Segundo Russell-Wood:
"Não é por coincidência que ... o cargo de Provedor muitas vezes passasse de
"Em nenhum momento houve ligação oficial entre a Misericórdia e a mu- p~para filho ... Praticamente todos os Provedores entre 1660 e 1750 tinham re-
nicipalidade. Mas na pequena sociedade baiana os conselheiros murúcipais lações de parentesco em maior ou menor grau... Nas famílias nobres da Bahia,
pertenciam. automaticamente à Misericórdia, à Ordem Terceira de São Fran- fazer parte da Misericórdia era uma tradição de família" (ibid., p. 90-91).
cisco e à meia dúzia de outras Irmandades.As mesmas pessoas participavam
ativamente da Misericórdia e do Conselho Murúcipal. Um cargo na primeira Por outro lado, a emergente burguesia comercial, os "homens de ne-
recomendava o titular para um posto executivo no segundo" (1981, ~.101). gócios", cujos negócios eram as finanças, ocupou muitas vezes o cargo de
tesoureiro na Irmandade da Bahia.
A Irmandade da Misericórdia era organizada de maneira a garantir
As Irmandades da Misericórdia, trazidas de Portugal para o Brasil
o controle das elites e da alta hierarquia da Igreja Católica, ou seja, dos
tão logo se iniciaram os processos de colonização e de expoliação, eram" a
donos do poder, no interior da própria Irmandade e sobre suas decisões e
cara filantrópica" deste processo, ou seja, atores privados articulados com
ações. Tratava-se de uma Irmandade exclusivamente de homens brancos,
atores públicos, pertencentes à mesma elite, "executores" de uma mesma
implicando em expulsão o casamento com mestiça pu negra. O racismo da
política de dominação, cujas contradições internas geravam conflitos e
Irmandade se manifestava também na admissão no Recolhimento das órfãs
crises e acabavam sendo "negociados" e superados.
(exigência de ascendência branca). Seus membros, os "irmãos"
A política da Ercravidão, apoiada pelo Império e articulada pela oli-
" ... eram divididos em q.uas classes, numericamente iguais. A primeira era a garquia rural e nascente burguesia comercial, usava a Roda como esquema
dos 'irmãos nobres', às vezes designados como 'irmãos de maior condição'. que, por um lado, validava e institucionalizava o enjeitamento da criança
A nobreza nesse caso não significava nobreza de sangue, mas compreendia desvalorizada (negra, mestiça, ilegítima) e, por outro lado, a incorporava

/ )h\~
220 RIZZINI • PILOTTI A ARTE OE GOVERNAR CRIANÇAS
221

ao trabalho, como" cria" (com soldada) 10 ou como trabalhador n ão assala- campo da assistência à infância necessitada. O governo legisla sobre órfãos,
riado. Segundo Moreira Leite: aprendizes,menores infratores, instituições de assistência privada, educação,
e cria alguns asilos/ escolas para meninos órfãos, abandonados e pobres.
"AR.oda dos Expostos foi uma instituição que existiu e foi extinta na França,
A análise do Cadastro das Instituições para Menores e Associações de
que existiu em Portugal e foi trazida para o Brasil no século XVIII. Os gover-
nantes a criavam com o objetivo de salvar a vida de recém-nascidos aban-
Assistência (1738-1930) (Rizzini, 1993) e do ~elatório Oficial do Barão de
donados, para encaminhá-los depois para trabalhos produtivos e forçados. Itajubá em 1887 (Moncorvo Filho, 1926, p.118), revelam a existência n o Bra-
Foi uma das iniciativas sociais de orientar a população pobre no sentido de sil, em 1887, de oito Rodas de Expostos, trinta asilos de órfãos, sete escolas
transformá-la em classe trabalhadora e afastá-la da perigosa camada envol- industriais e de artífices e quatro escolas agrícolas, em maior número no
vida na prostituição e na vadiagem" (1992, p. 99). Rio de Janeiro (lO)ena Bahia (11). Verifica-se, pois, umnúmero significativo
de asilos de órfãos (sete, sóno Rio de Janeiro) e o aparecimento d e escolas
No plano ideológico, o sistema da Roda revela, por suas características industriais e agrícolas para meninos órfãos e desvalidos (pobres e aban-
(arquitetura, anonimato de quem depositava a criança, desconhecimento donados). Era bastante diferenciado o atendimento e o tipo de formação
da filiação), seu caráter de ocultação e de "garantia" da ilegitimidade, da oferecido às meninas e aos meninos. Elas, em geral órfãs, eram recolhidas
qual as crianças nela expostas eram, em geral, o fruto. Há indícios de que por instituições religiosas, segundo a cor e a filiação (legítima ou ilegíti-
neste período havia uma relativa tolerância em relação ao concubinato (o ma) e preparadas nas artes domésticas, para o casamento (dotes) ou para
casamento religioso era extremamente caro) e às relações extraconjugais serem empregadas domésticas. Os meninos, órfãos, pobres, vagabundos,
eventuais ou estáveis (de senhores de escravos, ricos comerciantes e padres mendigos, de rua, eram encaminhados a escolas de formação industrial
com negras escravas ou brancas). ou agrícola, ou a instituições militares, em geral estatais, com vistas à pre-
paração para o trabalho.
Em síntese, no Brasil Colônia, apesar d a necessidade de povoamento
não se percebe uma política populacional. Foi um período de desvalorização Aparecem também no Rio de Janeiro, associações particulares destina-
da criança, inclusive de sua existência e vida. As crianças e adolescentes es- das ao amparo não asilar da infância desvalida, com ênfase na instrução.
cravos eram considerados mercadoria (cara) e sua mão-de-obra explorada. A Lei do Ventre Livre (28/ 9/ 1871) manteve a política da escravidão
Os expostos, recolhidos e assistidos pelo sistema da Roda ao final de·suas e reafirmou a política de desvalorização da criança escrava-cria, estabe-
diferentes etapas, eram conduzidos (os poucos sobreviventes) ao trabalho lecendo para os "ingênu os" uma "liberdade controlada e vigiada" que,
precoce e explorado, pelo qual ressarciam seus "criadores", ou o Estado, embora aparentemente d oada, tinha que ser comprada por longos anos de
dos gastos feitos com sua criação. trabalho ainda escravo. Aos "vadios" restava o constrangimento e a pena
Após a independência, em 1822, verificam-se significativas mudan- de trabalhar nos estabelecimentos públicos.
ças na assistência às crianças expostas, órfãs e pobres, com a ampliação e Tratava-se de "salvar" a agricultura (os proprietários de terras e de
diversificação de instituições de atendimento a esta população. escravos) dos "perigos" da abolição gradativa da escravidão. O autor d e
Em relação às Rodas, entre 1825 e 1937, foram criadas quatro em doze um projeto de fundação de uma fazenda-escola para órfãos e meninos
abandonados e ou SEµn trabalho afirmava:
anos. Novas mantenedoras, particulares e/ ou religiosas começam a atuar no
"Nas nossas mãos temos um paliativo, senão um remédio, para os males
10. Soldo, remuneração. que p ossam cair sobre a agricultura: temos os meninos do país, que podem
222 RIZZINI • PILOTTJ
®~~ 223

tomar-se excelentes obreiros, bons agricultores; ternos todos esses crioulinhos


libertos ... " (Lima e Venâncio, 1992, p. 72).

O peso desta história até hoje nos pesa. Ao crioulinho, ao moleque, à


----·
criança pobre, em suma, ao menor, não resta senão vender muito cedo sua
força de trabalho, não resta senão uma "infância-curta", pois histórica,
ideológica e economicamente está destinado, através do trabalho precoce
e desqualificado, à reprodução da situação de exclusão vivida pelos pobres
no Brasil desde a Colônia.
PARTE 3
Referências bibliográficas

ARIÊS, Philippe. História social da criança e da família. 2. ed. Rio de Janeiro: Edit9ra O menor filho do Estado. Pontos
Guanabara, 1981.
GJACOMINI, Sonia M.aria. Mulher e escrava. Petrópolis: Vozes, 1988.
de partida para uma história da
MARCíLIO, Maria Luiza. A Irmandade da Santa Casa de Misericórdia e a assis- assistência pública à infância no Brasil
tência à criança abandonada na história do Brasil. ln: Família, mulher, sexualidade e
~greja na história do Brasi1. São Paulo: Loyola, 1993.
MONCORVO FILHO,Arthur.Histórico da proteção à infância no Brasil. Rio de Janeiro:
Empresa Gráfica, 1926.
RUSSEL-WOOD,A. J- R. Fidalgos e filantropos: A casa de Misericórdia da Bahia
-1550-1755. Brasília: Universidade de Brasília, 1981.
___.As Santas Casas de Misericórdia. Revista Humanidades, Brasília, UnB, v. II,
n. 9, out./ dez. 1994.


l!
~COR.TEZ
~EDITORA 225 (,

Capitulo V

Meninqs desvalidos e menores transviados:


a trajetóri~ da assistência pública até a Era Vargas

lrma Rizzini*

Com a instauração do regime republicano no país, os debates e as


práticas assistenciais dirigidas à infância desvalida assumiram novas
configurações? A resposta não é tão simples. O teor das discussões e os
~~<:1-<:l.os institucionais não foram criações deste período, na medida em
que diversos segmentos da intelectualidade urbana do Brasil imperial se
envolveram com o tema da ·edU:cação das crianças desvalidas, dos filhos
das escravas e me~n:no dos Í!ldios. Instituições de caráter educacional e / ou
~~~is~en~iéil surgiram de norte a sul do país, ao longo do século XIX, como
as Casas /Institutos de Educandos Artífices, as colônias agrícolas, o Asilo
para Meninos Desvalidos no Rio de Janeiro, os rec<?~en.tos e asilos para
meninas e meninos órfãos/ desvalidos, entre outras iniciativas.
O que há de~.?~<? nos horizontes assistenciais da _R epública? Em pri-
meiro lugar, um ardoroso '=º~b-~_t~--~-P!.~!icas identificadas com o atraso,
como o ~nclausuramento junto aos adultos dos chamados menores vadios,
vagabundos, viciosos e delinquentes, !odos apreendidos pelas ações poli-
_ciais de "limpeza" das ruas ~a1, cjda<:l~s,1

• Universidade Feder~! do Rio de Janeiro / Faculdade de Educação.


1. Desde a criação da chefia de polícia no século XIX até a instalação dos j~zados de menores a
partix da década de 1920, coube à ~tituição p(?licial a apreensão_9-e ~enores nas ruas . A respeito ver
Schueler,Rizzini, 2007 e Vianna, 1999.

- _. lli
~.
226 RIZZINI • PILOTTI
A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS
" Em seguida, as c~Jtiç~~ ao caráter _d e clausura destes ".d epósitos", sem
227

as finalidades de tege~<;_r_~çiio,_rec_µ~~ç~o ~ re~9:u_sação d gs i!).!e~(?S, que Esta" ~ssistênciamal praticada" era, por sua vez, percebida COIJlQ_p..ro-
os tomassem úteis à sociedade. OJ~~~o.d a introdução de t:<?~~es <:Le çunhC? - ~ a de -~feitos nefastos, tais como a "9.:~g~nerescência g _a _:,;aça'~-(Paiva,
fient:ificistanas instituições que atendiam.a essa população tomar-se-á uma 1903, p. 16), o incitamento·à-" ~ a " , ao '~e_ar~~!i~~o" e à "vaq.iªgern",
bandeira de luta nas décadas seguintes, encabeçada por autoridades e re- fatores que " ~~~~~~oéiedade" (Correia, 1903, p. 80). A~~~ê!lc:~a_das
formadores de grande notoriedade na época, como por exemplo,Ataulpho i_4i!1ª-ª..hlgi~rg~J.?s-~.e!-(gênic!§]las ~cussões _é ineqajv9ci3- e marcante.2
de Paiva, Mello Mattos, Evaristo de Moraes, Franco Vaz, Moncorvo Filho, . A assistência _o ficial durante esse período orientava-se p ela tradição
, Lemos Britto e outros. Este capítulo temcomo_~ _n~.? :pf!I1cipais_~~_p_e3guj.~~ / das práticas caritativ~, constituindo-se a partir da _çriação de instituiç_õ,es
<·- a~ p~bE~é:~~e~-9:.: .~~t~!~~a~~-s pú}:>licas na ár~~ ~~ infância e da j1:1~entude, r do tipo as~f~r,.a despeito dos clamores pela especialização do atendimento.
~._ a legislação e a produção institucional de órgãos jurídicos e assistenciais. ) Ao longo das duas primeiras décadas da jovem~_e pública, surgirão os refor-
, -
matórios e as escolas_p,:_emonitórias e C07?'!_<:_io_naf!>, para onde serão distribuídos
os "menores abandonados e viciosos". Essas denominações substitt!ind_ç,
_ _ , , _ ._ -- - - . L - O - · · - ·

ARepública e a caridade oficial o termo_asilo _indicam mudanças na con~~o da assistêntja, destinada,


agora, a erevenir as desord_ens e_!ecuperar os ~-~-~vi<!:P-~.- .
1
No período inicial do regime republicano, a assistência pública à infân-
cia foi qualificada por seus críticos como uma espécie-d e ·,; cáddàdê'oficial".
A expressão é de Ataulpho de Paiva (1903), que a utilizou em um sentido As colônias correcionais
pejorativo, dE:_n._~~~~o-·o ··estadÔ.da assistência pública, caracteriz~ci_a
pela ':Uspersão, pela desorganização~ pela "duração efêmerél. e de efei!~~
Instituiçõt~-~-P.ara o rec~~~.!!!Q.~Q~ indesejados das_cid;'!d_~s foram
inteiramente
- --.... ..
nulos", de vez que não havia um "rígido
'- · ·- controle" sobre os criadas poucos anos após a instauração da República, atendendo a f!olJµc~~-
seus rumos (op. cit., p. 16).
repressiv<'!M~~ desconsideravam a~ ru.-sc_gªªº-~§.D.asio.:o.~ e internacion_a is
-,f-2':.:.
Essas críticas à assistência oficial se repetem em todas as suas publi- e
sobre o _ater{dkento êspecial êsp~dalizado aos chamados_menores.
cações sob"i-e ·o tema, ao longo do período, que vai de !90~ <:': ~?g?,_. Em 1903,
Em 1~23,_o governo r~public!m.9 adotou uma primeira medida para
o magistrado, Juiz do Tribunal Civil e Criminal, via no que ele designou
II ~ar ~s ."~ac:UQs,_-~rngª.k!.ID4.o§....e_~ap.!)eiras", promulgando o Qe..cr.1:.!.~-~-} 4_~,.
de assistência mal praticada", a produção de ~feitos nefastos, tais como a
de 11 de julho de 1893. Este autorizou o governo a f:Y.?.~~_uma col§.~_cor-
degen":rescênciadaraça(p.16).Enãoestavasozinhonasualuta.Rivadávia
recional, "par8:_correção p elo trabalh~" dos acima citados. Independente
Correia (1903), na mesma publicação, combateu a ~ssistênciaque inci~~-
de sexo e idade, o que inch.úa menores e mulheres, seriam recolhidos indi-
::.'.J
'.
':':ª. a pre~ç~ ~ parasitismo e a vadiag~m (p. 80). Duas décadas depois, '= -- -·· -
víduos que, n ão estando sujeitos ao poder paterno, não tivessem m eios de
Paiva (Município do Rio de Janeiro, 1922, p. 2) conclui, uma vez mais, que subsistência, a "vagarem peia cidade na ociosidade" (art. 2º).
o governo federal e a munictpruid.ade " quase nada têII: feito que mereça
aplausos". Referindo-se à assistência como um todo, denuncia: Em ......_._
1902, a disposição do governo em ...criar
. ___ __ colônias
- correcionais
para resolver o problema da vadiagem no Distrito Federal foi reforçada
(...) "os trabalhos de assistência são executados em fragmentos, parcelada- pela aprovação da_~~~-~;}_~?_,_de 29 de dezembro d ~ 1902,_que "reforma o
mente, sem o rigor do método, sem a cooperação eficaz, sem a organização
inteligente dos auxílios recíprocos e dos resultados compensadores." 2. A respeito do interesse médico pelo tema da infância e das instituições educacionais/ a ssisten-
ciais, ver Gondra {2004) e Rizzini (1993).
RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 229
228

serviço policial no Distrito Federal". Nesta, empregou-se a categoria dos Debaixo de duras.críticas provenientes de j:uristas, médicos_~_.9-~ tori-
"m~~~r~~-~icig_sos", que, julgados como tais, deveriam ser_i~t_~_rn~~<.?~_nas 9-~_d es que se ocupavam da questão da assis_tência na ~poca, a Colônia foi
_co~_?.~él.8. correcionais. Tratava-se de uma ~~~~oria mu_i!o am_E!a, na qual ~xtj.nta em 19 de dezembro de_1914 pela Çomissão de Finanças da C âmara
se iµc:luía!ll os menores inculpados criminalme!.!_t_e, que tivessem agido dos Deputados, com destacada atuação do jornalista e parlamentar Felix
"~em d iscernimento", bem como aqueles que, "por serem órfãos ou por Pacheco, que acompanhava o caso (Paiva, 1916, p.151). Ao que parece, no
n~g,lig~~c:ia", fossem" encontrados sós na vi~_EQ!>_!_icél." (art. 7°). entanto, a .Sol?!::~'!. tinha uma curiosa c~g~çj..§_~g.~_d_~ sobr_~V.:.!Y.~r às tentati-
Assim, podemos constatar que nas prim.eiras inidativas do g9verno vas de extinção. Uma referência de Evaristo de Moraes em ,l2..21, nos seus
republicano predominava_-ª.Pª!!ht rem-~_$.iÜ ª ~-para ~ qual a qrfa~~-ª-ª-~ e a "Ensaios de Patologia Social", demonstra que ela continuava existindQ e
po__Qrezé_:!j1:ls!if.ic~Y.~-~apreens_ão do menor. Apesar disso, alguns ideais da com os ~esmos problel"!!as apresentados desde o início de seu funciona-
i:lssistência "científiçc( já se encontravam na _l~i, que pre:'{!ª a reabilitação mento, aos quais se acrescentara, ainda, o"!:!~<?. 4~ institt.tj_ÇÍ:\Q comQ_"meçlida
Jõfn:divíduo e a separação dos internos por classes, segundo a Cé;l11_g do. de corre_ç ão familiar":
r_~c<?!hlmento, o sexo ea idade. Outra inovação dalei, e das mais notáveis,
consistiu eml!=:gitimar a interve~ão do Estado na vida privada (q?s pobr~~), (A-Col_ônia Correcional dos Dois Rios)" é um estabelecimento i!lq1J.-ª.li.fiçç1.y el,
sobrepondo-se mantido sob absurda d_ireção da Polícia, e no qual se misturam, em inevitável
- à.. autoridade paterna, quando se trata do -~~---
..,. ___., .. ----·-- ····--...__._ ·
internamêrifo
---·- . de
menores P.IQ.Il1isc_1:1_i_c.J..9-_d~: <;9~tj.enados adultos, de ambos os sexos; menores t~mbém
-~------.
. , -_
C<?!l~E::t.~s!_os; outros por_ilegal medida de correção familiar_" (p. 33).
O pai, tutor, parente ou pessoa em cujo poder, guarda ou companhia esteja
o menor, não poderá obstar a internação deste na colônia, ordenada pela No Regulamento da Escola de Q1E;I1Ze de Novemb1;? (14/5/1923), a
autoridade competente (art. 8°). Colônia surge como instrumento coercitivo e punitiv_o , quando se prevê a
"remoção p}lra a seção de menores_da CoJônia Correcional dos Dois Rios,
U ma vez !:!}!emAd..Q,.J.1.0 entanto, o n:i:enor deveriapermanecer naco- ou transferência para outro estabelecimento, nos casos <!E: reincidência em
--
lônia até os 17 anos, cabendo exclusivamente -· ao Juiz de__ Órfãos
..__,_....,_ - .... o pode'r°'de
_. _ _ ·····----. .{aJtas graves, e provada a impossibilidade de modificar o educando a sua
s~5.tar a internação. conduta, notoriamente má" (Decreto n. 16.037, cap. II, art. 70, XII).
Em decorrência daki, foi instalada em 1903 a Colônia
- -- -Correcional
-- ---- ----- ..dos
. '
~
Desse modo, a Colônia, instalada n~~-p~:1a, atendia -~~-~alida1es
Dois Rios, na Ilha Grande. De acordo com o Decreto n. 4.753, de 28 de janeiro de_sanear a ci_d ade e isolar os indesejáveis. Ao mesmo tempo, no entanto,
1
_ J_e_i"{)of ~CQf.Q!JJ.a deveria receber "mep-9;~!3__viciosos;;-e~s;çã~ ~ara<!a, a a_g_r.:~~-ª os novos ideais da assistê~.<2!ª, para a qual a promiscuidade ~ a
~_ · · partir dos 9 anos de idade. Um ano após sua fundação, a Colônia foi visitada
9ciosidade_eram qualifiG~ções intoleráveis. Segundo Lemos Britto (1959,
por urna-Corníssão especial de "altos magistrados e membros do Ministé-
obra publicada em 1929), somente com a aerovação do Código de Menores ,:. ·
:ri_? Públ~c~_
- ? .--Êst;s volt~ram imp~-;;-;s·i ~~ad~s-~~~-;é~~~~1~~~i;;ntre
em 1927, a Colônia deixou 4_e receber menores.
9-e_!e?tos adultos, os menores e as mulheres - "abuso que assumiu largas ,
proporções" e se manteve através dos anos. 1ªJ..P..1912, o Ministro da Justiça Tambémna__Ballié3., algumas autoridades abraçaram a ideia da criação
resolveu pessoalmente fazer uma ~ª-Peção à ilha, com amp)a repercussã<;> de colônias correcionais
~
para abrigar os enjeitados da cidade. Essas ten-
na imprensa da capital (Paiva, 1916, p. 151). Em-·--
1913, tativas foram, no entanto, infrutíferas, devido à "falta de recursos", como
. - Ataulpho de Paiva
(1916) concluía que "tudo ali foi mal começado, muito mal continuado até registra Lemos Britto, em 1916. O primeiro projeto de lei, neste sentido, foi
o momento atual" (p. 150). de 1895, sendo seu autor o deputado Lellis Piedade. O Projeto (n. 169, de
~. -
A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 231
230 RIZZINI • PILOTTI
~ 1

25/4/1895), à diferença do aprovado no Rio de Janeiro, dois anos antes, Valendo-se de um relatório de Franco
...-- .. Vaz
- -sobre
.
a Escola
···-
Premonitória
determinava a criação de duas colônias correcionais, uma para"adultos" e 15_<ieNovembro, elaborado em 1912,Ataulpho de Paiva (1916) clama pela
criação de outras instituições do gênero, destacando a trágica situação
outra para "meninos" .Asegundareceberia "menores criminosos, vagabun-
educacional da cidade.
dos, órfãos ou miseráveis, entregues por seus pais" (Britto, 1959, p. 87).
Duas décadas depois, continuava-se a lutar pelas colônias correcio- "E com razão pondera, ainda, que é preciso não esquecer..q__~~sa instituição
nais, agora sob a ótica do" aproveitamento das energias produtivas dess_es já não basta por si só, necessitando que se criem outras congêneres, para dar
desocu}2?dos, através da instalação de uma colônia correcional, industrial vazão à g;'.ª,!!g~_g-t<:1ssa_de criança-?A.f:~p:r;~t_~gJ4?~9'-~-~!!1-ª-.Çi_clade cheia c.le
e agr:ícola", conforme pleiteava o Chefe de Segtuança_Pública da Bahla, analfabetos, onde o ensino e a educação são muito descurados, onde a massa
Álv.ar~ Cova, em seu relatório de 1912 (Britto, 1959, p. 31, obra de 1916). ignorante é muito densa e que conta um milhão de habitantes" (p. 147).

Da mesma forma, Evaristo ~e _M o~~~s _O9_?1), figura importante da


"campanha tenaz" pe_la_P-:t:<.?J~.@Q.it)nfânc_iª, lutava pela ~i~ãP.-:~ e_.I),ClVas
As "instituições apropriadas" para menores: mantêm-se a "fórmula '~~?!as e recolhin~_entos" pelo governo. O_iurista denunciou a situação
dos asilos e dos recolhimentos" em que se encontravam as "menores" vítimas da prostituição, as quais não
II
podiam ser arrancadas a conhecidíssimos prostfüulos", porque não havia _
Jáno_irúcio do sé_c ulo, era amplamente aceita a ideia de que os menores asilos para recebê-las (ibidem). Esse clamor dos t_d_~alizadores d!=l-_as~istê~i_a
deveriam ser educados em "instituições ªPJ:OFriad~s". Assim, por exemplo, íp.ão deve ser interpretado como uma defesa incondicional do m<29:.elo do ·- --
'-------' - ·-·-- --·- -- - ·- ·- - -· - . - -
Franco Vaz (1905) refere-se a discurso do então presidente da República :ipterna!º· O atendimento realizado, até o início do século, pelos asilos de
_Rodrigues Alves (1902 a 1906) invocando sua ,r caridade foi alvo de inúmeras críticas p_or:fia"q corresponder ao-119.y_qjg~_a j
ªOs "princípios científicos", no ~ -<:t~~n!~. gos _menores. _O g,.é_g i_co lylo_n -
[...) "clara percepção de que numa cidade moderna e_saneada era preciso -c~-~~!?.? (1926) expressou de maneira ineqtúvoca a in_g_igwiçã_o_yigen,te
também uma população
-- --·- ··- --
expurgada
-
de seus
-
piores element~s
...
(... ) era urgente contra II
essas instituições condenáveis", onde crianças eram educadas no II
~
'------- -- .... . ---
e indispensável r ~ ~}~,,ya_g_<!_~~q~g~~-2...~í-<i~~~ 9 s_r.~ ~ ço~ _?:_c,riação carrancismo de uma ~~_trução quase exclusivamente religiosa1 vivendo
de s 9lônias correcionais, preservando ao mesmo tempo, a mocidade que ~em o menor preceito de higiene, muitas vezes ª!!°-~~?-_9-_é!.5-P~!?, falta de ar e
para aquele se dirigia, por meio d'uma educação em instituições apropriadas." de luz suficientes" (p. 134). ·- · · ··
/ (p. 89) [Grifo nosso]
~S!!_~c.':':~~~-C?.1::1.~~~n~e-~qs._~ il,CJ~Ó partiu, como era de se esperar, -'.~..
Apesar das críticas às instituições de intema~~!.)-tO até então existentes ~~d~~os, juristas ou educadores, mas do e~genheiro André Rebouças. ·
Rebouças publicou, em !~89.! uma gbrjl, sobre í:l.Ssistência à infân~~a, com ,0,r::
de que:n._~9 promoviam a eduç_çlç~o dª-çriança e sua preparação para o futuro,
c!,uras C!íticas aos pilares que até então sustentavam o atendimento insti- ', ·,
a "fó_pnula dos asilos e dos recolhimentos", como tal, não era condenada.
tucional: ':~m", "autoridade", ~'comando"! "tig_s>~~~~(', "_obediêrl.cia
"Claro está que não é a fórmula dos asilos e recolhimentos o que se combate e se passiva", "h,~___êllt~-~ depra'_'adora doutrina d~ _relig~ã_o" (p. 10). Tais J

condena. Dez vezes mult_iplic~d~ ~ núme;Õ dessasinstituições, ainda assim, críticas o colocam ft frente dos aut~_r~ de sua época, os quais, empenha-
ele não seria bastante para as necessidades prementes" (Município do Rio de dos na análise destas :instituições{nã~ tocavam nas qu_e§>tQ_e? _<:l.Q_p9_der e
Janeiro, 1922, p. 4; grifo nosso) da ___
ordem
,. ______d.iscinlinar,
.____ :.r:______ ..avassalador~nos asilos
.. ·---.-···--- --·-··-·---·· ····-- ---- para
--·-·- pobres e indigentes.
-·-----·--·-- -
232 RIZZINI • PILOTTI
A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 233 (,

O autor segue a tendência que desponta na época da crença incondicional 1959 [1929], p . 483-484). A formação de um operariado tornou-se necessá-
nas vantagens ilimitadas do uso dos princípios científi~os na assistência, ria para at_~nder à d~manda incipiente de indus~;ializaçã'? da_economia.
ao eleger a "l\:í?~al Nova", a "Moral Científica", a ",M oral Raciocinad~" Neste cenário, a colocação mais elevada qu e o "menor" podia almejar era
como a melhor orientação para os asilos. Entretanto, d.-~Ei!.Qa dos seus con- '\ ~-<!~~ºP.~l'.i!fJ9, tendo como ~ediadoranesta engrenagem i~_~alizada pelos
temporâneos ao .oI?_or radicalmente a ciência contra a religião, descrita por pl~ejadores, a institu.,~ção de pres_ervação_ou de reforma.
ele como o ':fr_e io do povo, na exploração dos fracos, das crianças e das . -·~ . .. .. .. - ···- .
O Regulamento da "Escola Correcional Quinze de Novembro',', d e
mulheres" (p. 8 e 10).3
~ - deixava bem claro o s'eu prospe~t; ·p~;;
os~t~~os: -··
O ~~?-~~o~~ '.:!e!.:'!im~nt<? al_Ill~jac:lo, cuja formulação datava dq_século
XIX, estava calcado na razão científica, a qual pressupunha objetivos, um "Sendo a f;_scola destinada a grmte q-esclassifica_da, .ª instrução_ ministrada na
método de trabalho e resultados palpáveis, que juntos, constituíam o 11ma- mesma não 'ultrapassará o indispensável à integração do internado na viç:la
quinismo da assistência" (Britto, 1959, obra de 1929). qmét_o doprE:conizav~ social. Dar_.-se-lhe-á, pois o cultiv~-~ei~essá~io··;~-~x~~~íci~-p~ofissional" (Re-
i. ' -
uma organização do atendimentojpstitucionalnos_seus diversos aspectos, gulamento de 2/3/1903, Tít. I, cap. I, art. 3°; grifo nosso)
__ - - . --- . -· - - ·-
-........:____ ~ - .
como a µish·ibuição da clientela, segundo uma classificação baseada em
inúmeros, e cada vez mais complexos critérios, entre eles, o motivo da inter- O novo regulamento da Escola, aprovado em 14/5/~~23, mantém
nação, a inteligência, as aptidões e o caráter do menqr, a ocupação criteriosa a determinação, com urna atenuante para aqueles que "revelarem dotes
do espaço e do tempo dos internos, conforme descrição do juiz de meno- §Upe~~~!2s", aos quais era oferecida a oportunidade de ingressar em es-
res do Distrito Federal, Sabóia Lima (1937). O atendimento instituciont,tl tabelecimentos de e~~~o JE:~'"::'-.<!.~E!~_<:~1:l i:i!!í~.t!ç9, custeado pela .JJnião.
deveria favorecer a "opservação continuada e individual" dos menores, A instituição recebeu .,
denominaçõ~~.Qif~r.ente~
------ ao longo de sua história,
o seu tratamento, que poderia ser de regeneração ou preservação, tendo oscilando entre a f>é:Uta repressiv~ e a 6Balidade preventiva, como J;:_scola
por meta incutir o "sentimento , __ de amor ao trabalho" e uma "conveniente t.~!.!_ecional, premonitória e de preserl!.ação .
educação moral" (Regulamento do Abrigo de Menores, Decreto n . 16.444 ·:. Além do aprendizado de uma profissão, o trabalho era valorizado
de 2/4/1924), cap. III, seção II, art. 17, item VIII). como um instrumento disciplinador_qQ çorp9 e. çl.c1,gi.~IJ:te, fator cuja impor-
O trabalho era, neste sentido, o único instrumento capaz de tomar o tância é ressaltada por ½emas Britto e, também, por Sabóia Lima (1937):
menor desvalido, um in~ÍVÍ~ll:lO váli<io p-~~~ ~-;Õciedade. Ü !€S~ltad? que
se esperava desse atendimento era, portanto, a E!95,Í_~ç}~() ~e "!°lPIIl_en._s_~~~is "O trabalho é necessário, como poderoso :p:t~io de disciplina e regeneração.
Com a atenção presa ao trabalho, os menores des.viruI), seu pensamento de
~ válido~_" , capazes de contribuir para a "prosperidade da nação" (Britto,
coisas que podem prejudicá-los; é necessário, porém, que esse trabalho esteja
de acordo com suas aptidões. Não sendo assim o trabalho constitui um suplí-
3._Na República, o e~~g.4aPcligião era proibido pelos regulamentos dos estabelecimentos oficiais. cio, que revolta, em vez de educar. Causa pena ver-se no campo, de enxada à
Lemos Britto (1959), diretor da Escoia 15de Novembro, no período de 1926 a 1930, questionou o fato,
em 1929, preocupado com a transformação dos internos em "homens sem religião" (p. 477). No Quinto
mão, menores delicados, aptos para serviço mais brando" (p. 113).
Congresso Pan-Americano da Criança e no seu "Relatório de 1926", o Diretor defendeu a instrução
religiosa para a" classe dos abandonados e recolhidos dó Estado", que pela sua vida pregressa e pouca Na primeira d~cada do ~éculo XX, os governos de diversos estados
idade não h aviam tido a óportunidade de abraçar uma religião (p. 478). A luta de Lemos Britto não foi
em vão: no seu relatório dos anos de 1~37-38, o juiz de menores do Distrito Federal Sabóia Lima (1939),
da federação empreenderam uma.política de criação de instituições para
registra que o~~()-~e.ligioso fora restabelecido em todos os estabelecimentos de amparo à infância)-, atender às c~tegorias de menores que vinham
se definindo com mais clareza:
~E!~s>r:,ad~, yisando_à _"pre?e'êyaç~o mo~~ da infânc~:' (p. 40). l\ os abandonados, os moralmente abandonados e os delinquentes. Destacamos, a
A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 235
RIZZINI • PILOTTI
(l 234
maneira," organizar uma instituição recomendável em todos os sentidos,
titulo de exemplo, três_iniciqtj,vas: a J:<;scola Quinze de Novembro, no Rio que seria mesmo _modelar, se as autoridades atentassem cuidadosamente
de Janeiro (1903), o Instituto "João Pinhe~~o", em Minas Gerais (1909) e o nesse e noutros problemas de i:elevância social" (Paiva, 1916, p. 147).
Insti~to Discip!mar, em São Paulo (1902). Em Salvador, criou-se~ em 190g,
Os dados disporúveis sobre o Instituto "João Pinheiro", fundado pelo
a Escola
... Correcional da Bahia,
. desqualificada por Lemos Britto, porque
__
governo de Minas em 1909, encontram-se em relatório organizado pelo
"no acanhado de seus recursos e de seu plano, não correspondia a seus
seu diretor, Leon Renault, e publicado pela Imprensa Oficial do Estado
fins" (1959 [1916], p. 88). em 1930. Do relatório, constam inúmeros pareceres elogiosos sobre o Ins-
. ....___.,_____;::---··;. -· ····--·- '--.- .. - -
As duas primeiras foram, em períodos diferentes de sua história, tituto, provenientes de a~toridadesdo país inteiro que o tinham visitado;
consideradas instituições mod~lares. A Escola Quinze de Novembro sofreu da imprensa, sobretudo mineira; e d.e pais e ex-alunos, que mantinham
duras críticas, em 1905, por parte de Franco Vaz, em relatório encomendado correspondência com o diretor.
pel~ então Ministro da Justiça é Negócios Ínt~riores José Joaquim Seabra,
De acordo com Renault (1930), o Instituto '7 oão Pinheiro" foi uma
sobre a situação da "infância abandonada", no Brasil e em outros países.
instituição pioneira no atendimento de "menores1carecedores do socorro
A avaliação que fez da instituição correspondia a aspectos amplamente
público" (p. 163). Correspondia, além disso, aos anseios da sociedade da
condenados, no Brasil e no exterior, com relação à E:duc~ção ~~ ~ânc~a,
época pel~_c_!jª_Ç~C> 4e~~~çõ~s funci()nais, discip~~das_ ~ disciplinado-
que deveria ser orientada pelos bons hábitos higiênicos e discipl~~l'.'~ . O ras, regidas pelos cânones da assistência "científica", sendo sua clientela
autor não deixou de anotar o desrespeito ao regulamento que algumas de c·~ tituída por "~_l:!nqres_ _apanqq:g,~do!! mate_rt~l Q1.J._moralp:l.ente: órfãos,
tais práticas implicavam: crianças, cujos progenitores for~ privados do pátrio-poder, ou cujos
Organização puramente de caserna, vivendo os educandos na pais, pela suas_~~~~~() de indig_ê ncia, ;não possam cuidar da educação dos
"mais absoluta promiscuidade, com refeitórios, alojamento etc., filhos" (ibidem) .
em comum'' . Com o q_bj~ti~d de regenerar os "inadaptados" e prevenir as "faltas",
Insuficiência do ensino prático profissional, com poucas opções e a_~tituição ~'êco~~ia ao tratamento "preventivo ~u regenerativo", com-
restrito a poucos alunos (somente30 dos 173 internos frequentavam preendendo "e~hicaçKgJ~sica, moral, cívica, intelectual e profissional" ..
as oficinas em31/12/1904). (Renault, 1930, p .164). Esta últimaconsistianafçrJ:E:~Ç.ª-~_ãgrícÓla-indu~trial, _- i"'
Condições insatisfatórias de higiene e vigilância sobre os internos, muito elogiada por todos, inclusive pelos ex-internos. o~
ponto de vista
com leitos demasiadamente aproximados. qrganizaciOJ!~!1. o Instituto mantinha uma dinâmica de funcionamento não
- Envio de menores, por parte de seus protetores, com pai e mãe vivos encontrada em nenhuma outra instituição do gênero, no país. Ele almejava ·
e em condições de educá-los. ser uma "República Escolar", pautada no modelo político da nação, onde
Menores delinquentes convivendo com menores não-delinquentes. __
os lemas II trabalho",
...___
"honra", 11disciplina" e "justiça" pudessem sobrepor-
~-·-·--·- --- -------- -·------------- - ·-·-·-·· - .
se à "corrupção", aos "vícios", à "suntuosidade" e a "burocracia" (op. cit.,
Inexistência do ensino agrícola, pois os parques de cultura não p . 157).
foram criados (Vaz, 1905, p . 195).
A~rganiza9.~e;.d~ --e~_p~ç_<?_~~.E?.~ era considerada i ~ , por favore-
cer o ~ e familiar. Ao invés de grandes dormitórios, havia pavilhões,
~1?:':!:~, o mesmo Fr8;flco Vaz, agora como diretor, reorganizou a Es-
divididos em aposentos, cada um dos quais era ocupado por um grupo
cola, a começar pela elaboração de um novo regulame_l:!..t~ (8/9/1910), com
de três alunos. Em cada pavilhão morava um chefe, a esposa e os filhos,
ênfase na <!P~caçãori~rosa-d ~-; ;;~htÓ-pr9.fi~ª!9~i conseguindo, dessa
236 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS
237 ,.,
constituindo, corn os alunos, um "núcleo doméstico". O diretor e sua família
- ·------ - Di~ciplinar,
O-....Instituto ·--· . .criado em 1902 pelo governo do Estado de
residiam em um p avilhão esp ecial (op. cit., p. 164). Os alunos participavam São Paulo, se d estinava a receber os menores considerados delinquentes,
da administração dos aposentos (municípios), d os pavilhões (estados) e do vadios e viciosos (Goulart, 1912), uma clie~tela que sempre representou
instituto (República ). O presidente da República era o diretor, apoiado p or (e até hoje representa) um verdadeiro Êrobl~ro.a _p_ara as políticas públi-
h'ês Mmish'os m enores, eleitos pelos colegas. Esses Mmistros-da Faze~1~ ,cas ~!!~gid~-~-à_~ .½ .sia. A proposta original previa a criação do Instituto
da Justiça e do Exterior-- auxiliavam nas contas da casa, fazendo compras irducativo P a ulista, cujo p rojeto foi apresentado à sessão legislativa d e 9
ipãgãn~entos; no í'policiamento 9-~Í!:_s~t~ui_ç_§o" e n os "jl:1-g~m~ ~de de maio d e 1900, n a Câmara dos Deputados de São Paulo, pelo d eputado
menores", que tivessem cometido faltas; e na recepção dos visitantes, bem Candido Nogueira Motta (1909). O Instituto, designado de "correcional,
como na "propaganda no Estado" (op. cit., p . 28). industrial e agrícola", disporia os internos em celas ind ividuais, distrib1.údos
A experiência do Instituto, mesmo contando apenas com o relato de em três classes, segundo o m erecimento. Os m enores criminosos de até 14
seu diretor, é interessante para uma reflexão sobre os rumos do atendimento anos ficariam na primeira classe, isolados. Os outros poderiam mudar de
~~_à ~~cj-_a. A questão que surge de imediato é: se o modelo idealizado classe, conforme sua evolução.Nenhum menor p.óderia ser mantido preso
/
e testado no Instituto "João Pinheiro" era um exemplo p ara o país em termos n a cadeia. Segundo Candido Motta (1909), o projeto foi aprovado n a Câ-
de eficácia e harmonia, porque não foi amplamente divulgado e adotado mara, sendo, no entanto, bastante simplificado no Senado, p or ocasião de
em outros esta dos? Algumas suposições podem ser apontadas: su a transformação na Lei n. 844 d e outubro d e 1902. Pelo relato de Braulis
Goulart (1912) em tese apresent ada à Faculdade de Medicina d o Rio de
- um ~odelo baseado na harmonia de interesses, sem levarem conta as dife- Janeiro, constata-se que q_Institut~!l~_o _passo_u de !Xl~is ~ depósito para
renças, onde as soluções encontradas para se debelarem os comportamentos .os indesejáve.i§. çJ.~ _çt~foç!.~_s~ea.c!_~.
indesejáveis, como o .f.:urto e_~fµ ga, tendiam a escamotear o surgunento de
conflitos ameaçadores à ordem institucional;4 "(Os menores) vivem em inteira P,:Omiscuidade, porque, infelizmente a de-
' '
- um modelo que implicava em gastos que os governos não estavam dis- ficiência do edifício torna impossível qualquer seleção" (p. 75).
postos a assumir, apesar das cobranças que os Poderes Públicos vinham
sofrendo, desde o início do século, em prol do incremento da assis~ência Na Bahia, a situação n ão era ouh'a. Em)916, Lemos Britto defendia a
pública à infância; criação de colônias correcionais especificamente para menores. À época, os
-a ideia equivocada de que a sociedade estava preparada para receber estes
'-- - ------ criminosos
menores - ·- ~---·- eram internados
-·· -- na Penitenciária ou n a Casa de Corre-
. -- ...... ,_ ...-~- ..... ---- --·-- - ---
jovens de braços abertos, após longos anos de preparação para ocupar um ção, que o autor chama de a "Ç~sa ~~_iy_I.9:,;tq~", inspirado em Dostoiewsky.
lugar na vida social. O fato de a ~r,pa.rte do ex-interno~ não terem se e~- Os m enores "de cambulhada com a ralé do vício" e as menores e mulheres
pregado~in~tividades agrícolas, ênfase da formação profissional dos alunos, condenadas eram recolhidas à Casa de Correção, "prisão infecta e sem luz",
i;;;~l; dor da enorme distância existente entre a s_(!~i~d~de_ide!'llizada _p_!:l~ um "ultraje d e pedra à cultura d a Bahia" (1959 (1916), p. 31 e 89) .
República
- - -··-. . -.Escolar
- .., ___ _... e a realidade encontrada fora da instituição.
5
~
Não tardar á para que a propalada eficácia das escolas e reformatórios
1, ~asse que~t!_~!1,ªda, inclusive pÕrseus m ais ativos empreendedores. Já em
4. Aos "inadaptáveis", o regulamento do instituto previa a" exclusão" e sua devolução aos tutores
ou juízes de órfãos (Renault, 1930, p. 165).
\ 1929: L;mos Britto (1959) acusou as dificuldades da "vida do internato"
5. Dos 67 casos d e ex-alunos apresentados pelo diretor, somente 21 estavam empregados em
"serviços agrícolas", ou seja, 31,34%.
l ~·os ofs_tfc~~~~-9.l!e os egr_e ssos dest_a s ~ stit~~çpes enfrentavam devid o à
falta de amparo fo_ra dos seus muros.
RIZZlNI • PILOTTI A ARTE OE GOVERNAR CRIANÇAS 239
238
t

"É fáál de conceber o que será a vida para os que saiam dos internatos sem p. 26). Críticas a este sistema não tardaram a surgir. Cândido de Oliveira,
parentes e sem amigos, se não encontram uma instituição capaz de ampa- na década de 10, por exemplo, considerava este"o mais formidável golpe
rá-los.( ...) É preciso convir que a vida do internato, se pode desenvolver as desferido contra a unidade da legislação pátria, senão contra a homoge-
qualidades da inteligência ou do caráter do menor, não lhe dá a coragem, a neidade bras~eira, c'üja fragmentação era as;im oficialmente consignada"
força de vontade, o espírito de iniciativa, o autogoverno indispensáveis à (ibidem). Na mesma época, Correa Bittencourt, formulava críticas ferrenhas
..____ .__,_ ·- -·- ._ .
vitória quando lançado em plena batalha" (p. 565). à descentralização dos serviços de higiene, que teve lugar com o advento
'--- --- -----· -- - . . . ..
da R@~~~~, afirmando:

Modelos de assist_ência públk~ segundo médiq:is e juristas "O atual regime sanitário é a ae<i!:!ia_9_~amzada, como quase tudo nesta
~J_.'. ).,'{° , •. •. : ,•. • ;.., -. • . , ~; €1 , • ..: li . ·~- •. • '. , ' :' ' ,.'.
~ep_:út>ijgi.. Em lugar de um si~tE:_rr.,.~ho~o_gêneo, obedecendo a um.cen_tr9
-· •. ..
-) } · ' diretor, contamos hoje ~te organizações <:'-iferentes nos estad_os e mais duas
~~s importantes da época, como Ataulpho de Paiva, Mon- nesta cidade, cada uma das quais em uma órbita diversa, sem um centro de
corvo Filho e Franco Vaz, entre as décadas de~90 e 1920, propuseram em gr~ade" (op. cit., p. 207).
suas 12ublicaç~e <!Jscursos modelos de assis!ência pública~ infân5:~a,
--------- ~pirados nas exp~riência~gstrang~µ-as, que tomavam contato através-dos ~a assistênc~~ ~ ~~si.a, o quadro era parecido. Havia, nas gran.9:~s
congressos e das publicações internacionais. De untmodo geral,os projetos
para organização da assistência pública começaram a circular através dos
1*· ppitaµ; do país, ~titajç~~~_públicas e privadas com sup~enção go_v~_ma-
mental,
..__,,___ atendendo - .
à infância ~~êessitad;,
- . basicamente em internatos, . -- ... :.--sem
-
impressos no início do século XX, mantendo propostas semelhantes ao
~
qualqu.er controle centralizado dos serviços e do uso das verbas. Em suas
-·---------- - - . . ··- .. - - ·- - --- -. ·------
longo de três décadas. Aêruáse.reé-;na sobre ç!_ajs as:eec~~: a_<;.~,lt:~_!i?:-~Ç~:t. publicações,Ataulpho de faiv~_(l 907) dedicou com veemência à defesa da
I -- - • . -· ••

..'· · \ ~?s serviços~o controle ~o ~stado sobre os_mesmos e a aliança dos setor~~ / "intervenção direta e desassombrada do Estado", de modo a promover a
•• ' _públicos e privados na execução do atendimento. Í "centralização
...____ -- -- ---- --e a---uniformidade
·· -· -- ..
dos s~rviço_
.
s em um- órgão
-- . bem. - definido"
·- -
1\_ . . . ... ... .. . .. -

Em 1903, Ataulpho de Paiva referia-se à falta de controle e à dispersão (p. 26). Além da c_~!\tralização do~ s~rviços, a aliança entre os esforços dos
. ~~c_un,os do go:7emo. Confiante,afirmaq~ ~;ép.;nsamento do gove~o ~c!.E:.~~s_p~l;>J.i~~-~ da~_ini_~i~ti~~s p~~u!~~~-;;;; bãstant~ val;ri~~da, n:as
criar um instituto que aproveite os elementos esparsos da caridade priva- propostas d e criação de serviços de assistência pública.
da ou oficial e lhes imprima sistemática direção com inteira garantia dos ;:\ A __áliança entre o público e <? privado interessava aos dois lados. O
fins a que eles se destinam" (p. VIll). Em 1922, o médico Moncorvo Filho Estado... passaria a intervir .~m uma áreé!_
~-· que sempre -estivera
-· - · . ··
à parte - a
- continuava a insistir na "ideia da imperiosa e urgentíssima necessidade "~~~~~t~~~~_s.9~al" - co?tro~~':!9.º u~o d_o ~eir~proveniente :1,~_f?.~es
\ · r_ • ••..' da organização da nossa assistência públi~a", cuja existência, até então, se :eúblicas,
-·-·-- - -- como as subvenções
.. . .. -·-~·- ..____-..dadas
_....... às
.
instituições
___,,. -.-.. .. . -- . privad~s.
-- .._, Além disso,
~:. . • • resumia a "movimentos dispersivos, levados a efeito sem uma orientaç~o a utilização dos rec1:1:1'sos privados deson erava o erário público, como bem
1
~ harmônica, sem uma dire triz" (...) (p. 9). lembravaAtaulpho d e Paiva em 1922. Em contrapartida, a eenefic~ ~~
:·r ·· A descentra!i~~5~º . .?ª
j1:1~rt_ç~_«:__?_<?~~~ryiço_s p_~~Ji~-9.? foi ~ d a priva,9-a passava a trr -ª ~esso aos recurso_~ g(?vern_ament~~~-' desde sempre
-:-·1J>elo governo republicano, que tratou de implantar a federação. Esta con- escassos e cobiçados.
, i - - -~ -- ·- - · - - - · - - -- - - '
verteu as Províncias ell':_~~!ados autc'.?~0~9.s, com o direito de decretar a \ Em 1889, voltando de unt Congresso, em Paris, Ataulpho de Paiva
sua p~ópr~~ c_?ns!!~ç~?.e eleger os seus próprios governos (Oliveira, 1986, trouxe consigo a ideia da criação do "Ofício Geral de Assistência'', que já
.. - - -,- ,

1. ·_ ,_ ' . ..\.' · . )

\.'
RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 241 "J
240

funcionava na França, com algum sucesso. Tal Ofício teria por obj~tivo r~sponsáveis, da perd_a do p _á trio-ppçle_r e da obrigatoriedade do ensino
m~tf_o_!.~ iza_!. e si_s tematizar os recursos privados e oficiais, garantindo o pri!ll~i.9, mediante punições severas pelo não cumprimento da lei.7
seu uso mais adequado, mediante fiscalização, com a ressalva de que 1;1.ão Alguns autores acreditavam que a iné_:_c-~~_do E~tado diante da questão
se pretendia ~xtinguir a "completa autonomia dc1s associações e estabe- se devia ao grande :i:iúmero de associações particulares de beneficência (Sil-
lecimentos já existentes" (Paiva, 1903, p. 2). O _üffcio_qeral de A?sis~ênc!?- vado, 1903). O próprioAtaulpho de Paiva (1907), referindo-se à disposição
teria ainda a função de id_entificar e classi.fic;a.r_gs "realmente necessitados", do país à caridade, ironizava a situação, afirmando que "o Brasil surgiu
para que apenas os "v_e ~daderr.osmendigos" fossem socorridos (Paiva, op. como um país, onde o problema da assistência se poderia julgar resolvido
cit., p. 21). pelo avesso, isto é, pelo indivíduo e 1:ão pelo Estado" (p. 17). No censo das
As expectativas depositadas no Ofício eram ambiciosas-resolver os instituições de assistência social, que realizou, em °1913, sob encomenda
/ .. '
"proble~Õciãi?(Paiva, op. cit., p . V), principalmente as "causas gera- da prefeitura do Rio de Janeiro, Até!-11~pho de_P_a iva relacionou mais de 500
doi~ãs·do e.r ime". O prefeito do Distrito Federal chegou a assinar.. o decreto estabelecimentos dirigidos à infância, à velhice, à mulher, aos estrangeiros
de criação do "Ofício Geral de Assistência" (Decreto Municipal n. 441 de e à mendicidade profissional. Em virtude disso, o jurista via no Brasil "a
26/06/1903), mas· o órgão não chegou a existir na prática. No entanto, o terra produtiva e fertilizante da filantropia e da caridaqe", embora "sob
decreto permitiu que a administração ......... .
\.. .,._
pública desse os primeiros pas15os fórmulas rudimentares" (Município do Rio de Janeiro, 1922). Paiva, na
rumo a um controle _____... . . mais efetivo sobre as práticas assistenciais, pois de-
.... _
introdução ao l~:7antament~ das obras assistenci~i~ 9:0 ~o de Janeiro,
terminou a organização da "I:us_!ó_!ia" e a da" e_~_t'."-tí~tic~ geral" de todos os mostrou-se um crítico do "nosso confuso e indistinto sistema de socorro
6
estabelecimentos de caridade e assistência, públicos e privados. público" (Município do Rio de Janeiro, 1922, p . 1) e um ardoroso defensor
Foi este o espírito que presidiu a sua campanha em prol da criação de do in_<?remento da ação oficial, submetida às "normas científicas e jurídicas"
"asilos para a infância abandonada", fosse pelo Estado, fosse pela inicia- <op. cit:~P~-ú).Ac;~ando as cadeias ;·~s cõieiiuãs.cõrrécion~is de não serem
tiva privada, com a colaboração daquele e fiscalizados pelo "Oficio Geral "organizadas cientifi_camente" ,Ataulpho de Paiva recordava que"o direito
de Assistência" (Vaz, 1905, p. 26). Na perspectiva de Franco Vaz (1905), ·){ à apsistência é ~ dir~it~ s~cial, isto é, :um direito que não pode ter senão
tratava-se de "criar o maior número possível de instituições, visando . uma Õ~igem soci~i": Para ele:·,,o fstadç):tã_o pode ser somente um Estado
preservar e refo;mar, éonforme a"s circ~stâncias, as crianças mor~hnente de polícia, ou um Estado de direito-~~~ também, um Estado de cultura"
apandonadas, as que tenham delinquido, mas séjam.considerada~_ (Paiva, 1907, p. 30).
discernimento e as que hajam infringido as leis penais, com a suficiente " Como seus colegas da área jurídica, o médico lv!?.ncorvo Filho (1922)
resportsabilidad.e" (p. 2.14) . Não se buscava somente fundamentar o poder ..._., defendia a centralização da atuação do Estado, através da" AssistênciaPú-
----~----------- - - - ·-·-·· --· ... ------ . "··-·-----·-· --- ···· -
do Estado em J:ntervir na assistência aos necessitados, mas também em outra ~ a F_E:?_~~a_l, repa_r~~~<?S~J:}g:al em cor_r!:~P~-~ ~ência oficial e comunicação
instituição percebida como corrompida:_~_!am_ília (popular). Exemplares, telefônica e telegráfica direta para a Capital Federal e todo o Brasil" (p. 10).
neste sentido, foram as propostas de Franco Vaz (1905), que, para di~\tir O serviço proposto por Moncorvo Filho, entretanto, não se restringia à as-
o "~xército 9-e m9-lfeito~es~', sugeriam aumentar o poder do Estado sobre sistência realizada em instituições("socorros coletivos"). Pretendia, através
a família, valendo-se para esse fim da retirada do direito de guard_a _d~-~ ~

7. As soluções apresentadas por Franco Vaz para solucionar o "problema da infância abandonada''
6. O levantamento foi r ealizado em 1Jt3, sob a coordenação de Ataulpho de Paiva, e publicado foram republicadas em 1908 no Relatório Geral do Congresso Científico Latino-Americano, 5° tomo,
em 1922,sob o título Assistêncill Pública e Privada no Rio de Janeiro-História e Estatística. Rio de Janei.ro, Imprensa Nacional.
------ -
A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 243
,, 242 Rl2ZINI • PILOTTI

duas décadas, defen?endo a criação de instituiçõe:5 específicas para o aten-


do que ele denominava de "socorros individuais", ter um "registro bem
dimento desta população. No entanto, os juízes ~--- . tinha1?'.l a seu favor a nova
organizado dos pobres do Distrito em local a qtie pertencessem", para que ~--
legislação, que previa medidas específicas para dar conta da "assistência
recebessem "assistência médica em domicílio" ou o atendimento médico '-.-- -·- ·- -· - · -- . .
~_proteção aos menores abandonados e d~linquentes" (Decreto n. 16.272
nos ambulatórios (idem, ibidem). A centralização dos serviços assistenciais 1
, ofici_9.-is só_seria instaurada durante~ regime do Estado Novo, que.~~~~f~~ ( ;J;k
1. de 20 /12/ 1923),8 bem como à ~tilização d~-~~-~!~~!.?.~~~~ ~o rr.ioyim_ento do
o atendimento ao menor e à cria!!fEL_como veremos adiante. _)
' ~?~ q~~ i?dicavam o aumento da dem~d~ 9-e ~te1:1aç~o. O uso de ar-
~::1!~~..:!~:_':'~.9 .e!!gfü,_o s, para j~-~ ~cé:.: .~ ~t«:rvençª<? do corpo técnic~ do
Juízo nessa população, passou a ser um recurso a_o qual os juízes recorriam
com frequência cada vez maior. Ao final do período, instaurado o Estado
Ajustiça de menores e a ação social do Estado
' ; ~ 1
'------- •. . ·- . . - ..
~ , a " obra de salvação da infância" passou a justificar-~~-~inJ?.f~peJo
---
,J,"1
•: r; as,E_~~~_opolítico da c!_<:_f!:!!:Jé!.~~çionaj., visando af~_~ t~qp~rtgo_c!9- ~'infiltração
A criação do P!.~~o l~!z.()__ 9"_~-M.~~~~~ do país ocorreu no Rio_d~ ) / v c~~unista na Américçt"_(Lima, 1937, p. 272).

Jan
__e_ir
_o_ e~ -~~,?~? inaugurando uma nova er~_~a _ a_s~~!§n~I.~ ?!i:c~~!- O Juízo
de Menores do Distrito Federal .estruturara um modelo....,______ --de atuação que se
. . - --· . . -·- - ·-··-· ·-···· -
map.t_E!!.~ª ao longo da história da assistência pública no país, funcionando
Oserviço de assistência e proteção à infância abandonada e
~~
~~mo ~ §~gão centralizador do atendimento oficial ao meno_r, fosse ele
recolhido n-;s-!Y-a.s "ou l~yado pela família. ' delinquente
No -Ri,o de Janeiro, este atendimento consistia na internação de me-
A prímeira medida de organização da assistência à infância surgiu
~~r~E. '~ab~donados" e "delinquentes", nas poucas in~tituições oficiais
existentes, nas "!5tituições subvencionadas pelo governo federal e nas com a Lei Orçamentária Federal n. 4.242 de 5 / 1 IJ-2.?.!Lque criou o "~~rviço
i.J:lstituições particülai~s, que os juízes de menores passaram a ':~m,tratar ':1,~~s_s!stência e P.t~!~Ç?<? à_!1;if_ânC!?:8-b~d_op.9-da e_pelinquente". Aimple-
p~ãreceber menores encaminhados pelo Juízo, através do pagamento de mentação desse"serviço" consistiuna~dação de duas novas in_~ ?tuiçqes
. ·•·•· ~--~·-· - . - .s,
para menores, na ampliação da Escola 15 de Novembro e na nomeação de
um p~~ capit~.
um "j~ de direito privativo de IIlen'?res". A lei determinou a criação de
º -~~:Y..<?.9-.ª-inJ~@~.çã,_o era preservar ou reformar os menores apreen-
um aprigo par~_Q_.!~_ç_qfuirP:~11.to provisório ~~ ~~~IlOrE::S_'?-e ambos os sexos
didos. E, com essa finalidade, os fiízeiem s~us relatórios ao Ministério d_a
e um~"c~;depreset_y?,Ç~O para mênore.s _do sexo feminino. Anexo~ .à Es-
L1!.~.~Ç~ e Negócios Interiores, e nos ~~gos p~a a imprensa, defenderam com cola 15-d;; NÕve~b~o, se;}i:c:;;· construídos dois pavilhões para menores
veemência a necessidade da instalação urgente de instituições de reforma e
------ . - .. abandonados e delinquentes, visando à sua "modesta educação literária e
de preservação. Alegavam que o número de vagas disponíveis ~ão atendia
- - - . : ;_ , _ __ , • ,- '-- •r• • • • •• _, • '
completa educação profissional" (Lei n. 4.242, 1921, art. 3°).
às necessidades do Juízo e que as Í!15tituições ofici~não correspondiam aos
seus fins. Em artigo-publicado pelo Correio Manhã (8/2/1927), Evaristo da Em 20 de dezembro de 1923, a lei foi regulamentada pelo Decreto n .
de Moraes alude à precarieda.,4?.Q~ rede de atendimento com que o Juízo 16.272, que "ae_ova o regularn~::i,_tC? da assistêp.cia e prot~_çã~-ª .<:>~ menore_s
P2.~ ~ contar, revelandÓ q~~-o ~ã-9-~;a~brigãéfoã recÕ:rrér àsãssociações abandonados e delinquentes". Nas "disposições referentes ao Distrito Fe-
p~tic~~!~~ não subvencionadas "para recolher ~~!~n~s_ge}X!~I)._Qr:~t'.

Essa campanha não era n~va: Outras autoridades, como Franco Vaz, 8. Ver capítulo "Crianças e Menores-Do pátrio poder ao pátrio dever: Um histórico da legislação
para a Infância no Brasil", Parte I.
Ataulpho de Paiva, Evaristo de Moraes e Moncorvo Filho, já vinham, há
"-?_,_j \ .

244 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 24 5

11
deral foram tomadas algumas iniciativas, constituindo-se um serviço de a~s_istencialista, termo utilizado por Araujo (1985) para caracterizar o forte
assistência aparelhado para atuar, desde a apreensão do menor nas ruas, , cunho assistencialista/pate_rn~lista da _sua_atuação. Entre as f,unções do
passando pela f~scalização dos estabelecimentos, até as visitas.às fanu1i~s:- Juízo de Menores, prescritas pelo regulamento de 1923, estavam a assis-
Assim, o ~ret() ª1:~~~!~~~y:~_<? governo a criar no Distrito Federal um ; tência e a proteçâ.o aos menores abandonados e delinquentes. O juiz devia,
Juízo Privativo dos Menores Abandonados e Delinquentes, "para· assis- : neste sentido," ordenar as medidas concernentes ao tratamento, colocação,
e
t~êia~·p;ÕtÊição,defesã, processo julgamento dos menores (art. 37); um
11
- - -· • - •• 4 .. • • •

guarda, vigilância e educação" dos me~:rru?s (art. 28, ill). Em entrevista ao


- - •

f'.brigo de Menores; uma escola de preservação; e a dividir a Escola 15 de jornal A Noite (Rio de Janeiro, 11/2/1924), Mello Mattos, considerado um
No~embro em du~s seções, uma de reforma e a outra de preservação. Criou-se "especialista da matéria", discorreu sobre o papel do Juiz de Menores,
também, o Conselho de Assistência e Proteção aos Menores com a função aprovando o "jui~ sing:Ul~r_e privatiy9..", pois "sendo só, ele pode penetrar
de vigilância e proteção dos menores, fiscalização dos estabelecimentos de a individualidade q.ojovem inculpado (... ),descera fundo de sua consciên-
assistência e das fábricas e quando preciso, visitar os pais ou responsáveis, cia". Apesar de MeUo Mattos ter concordado com o legislador na escolha
verificando a II situação 1noral e material do menor 11

de um juiz de direito, na medida em que ele teria de ocupar-se de questões
Em São Paulo, esse tipo de serviço foi criado em31/12/1924, através jurídicas, ele acreditava que:
da
da Lein. 2.05-9, que al!._tO!_~ ava a instalação do J1.úzo de Menores Cornai:c:!l
da Capital e de um abrigo provisório. Alei foi regulamentada pelo Decreto "A obra do juiz é toda feita de proteção, vigilância, preservação, prevenção
Estadual n. 3.828 de 25 / 03 / I925. Houve 'Z~zes dissonantes no meio juríd_i- ou regeneração. Aa u toridade de que éinvestida apresenta um caráter tutelar,
co, como a do então juiz de Direito da comarca de São Manoel (São Paulo), e sua ação é, sobretudo, preventiva".
JoaquimC. de Azevedo Marques (1925, p.11), ao '-:~~~cara nova legislação
por ferir os "sagrados direitos de familia" quando faculta , ____ -
à "autoridade ! 1 Desde o início, o Juízo cuidou da_~X_!:_~ES.?-.S, do__él._tendimento, em ge-
competente" d~~retar a suspensão do pátrio-poder dos pais ou tutores e a ral, de_terminando a in1:er_11.aç~c::> de m~n<?~~~ m1s ins~tuições oficiais e nas
1 apreensão dqs menores considerados abandonados. contratadas. Os convênios eram feitos com o Ministério da Justiça, através
·- · - - - ··- .. ... - -·· ~

A <!~finiç~_?._de abandono no regulamento da assistência (Decreto de ~-ubvenções, ou diretamente com o Juízo, mediante p~_g_a mento de uma
n. 16.272, de 1923) era extensa e encobria, na verdade, uma tentativa de q:iota mensal po;_il).terno. Apesar dos co:.1v~nios, as '{ag~s disponív eis
regulamentar a educação dos filhos das famílias pobres, já que se referia revelaram-se ll25Uficientes par_~ alojar" toda uma ~_1:1-W_<:i_ão_infantil apreen-
basicamente a situações vividas por cr~anças das camadas p opulares, tais l did~", que a~ar_rq~~vam os "asilos da ca.:rida_de" (Correio da Manhã, Rio d e
como: não ter habitação certa; não contar com meios de subsistência; estar .· Janeiro,24/3/1927) .
- empregado em ocupações proibidas ou contrárias à moral e aos bons cos- )
Assim, a demanda por internações cresc_e~, mantendo-se sempre em
tumes; vagar pelas ruas ou mendigar etc. (op. cit., art. 2°).
número superior à lotação dos estabelecimentos. Nos anos de 1_9 37 e 1938,
-;
i~~ de-Menores.dÕ. Rio
-------·~ ·- -
de Janeiro trarnitou4.546
- - .. ---·· - -- _..
pedidos de .internação,
..... __ ---·-· .
quando, nestes anos, a lotação dos estabelecimentos disponíveis não passava
Aação social do Juízo de N\enores: a justiça assistencialista de 2.630vagas. Em 1938, 1.626 menores foram considerados abandonados,
.--- ------ --- --- ---
mas só 678 foram internados. As delegacias recolheram 300 "menores das
No período que vai da criação do Juízo de Menores do Distrito Fede- ruas", t~d~s el~s inte~adõs pelo e;tãoJühd~ M~~~~e~ Sabói;Lima (1939,
ral até o surgimento doê,~~, em 1941, prevaleceu uma espécie de justiça p. 531 ), que claramente deu prioridade a desafogar as ruas da cidade de um
RIZZINI • PILOTTI
,f- 246 A AITTE OE GOVERNAR CRIANÇAS 247

~xército de crianças que usavam o espaço público para atividades conside- Assistir à infância era, principahnente no Est~9-g Novo, uma questão de
radas inadequadas. A autoridade, no entanto, lembrava que a função do d~ã;;âcionãI:-iim 1937,-â éonviteêfã Lig~
de Defesa Nacional, o Jui~ de
Juízo "não é só de internar menores" . Entendia o "problema da criança" MenOrês-Sàbói~ Lima:-fulando sobre"A Criança e OComuniSD."10", na Aca-
como sendo o "p_roblema
. .... -··da família", o qual por sua vez era um "problema
. . .- -··- --·--- ---
., demia Brasileira de Letras, sustentava que"é necessário cuidar da criança
~Qft<!l."- Desse modo, Sabóia Lima (1939, p. 15) atribuía aqJ~çi_ ~ '~~ç~o no sentido da defesa da pátria e da sociedade",já que "a criança é um dos
, s.oci!!1'~ de proteção à f~~, obrigando os pais que abandonaram os filhos elementos m?.!s_qJsP.1:1:t~dos pelo com~mo, para desorgãnizar a s~~l~d~·q.e
, ... , . a co~_trib~~~m__~ _P-Eil!.~ªP.·ª-~!:-1:;? de_~~~!l:tos (~~ÇQ~!_c:> e_~ fQfuª). a'."hiãi''êü~~, 1937, p. 266 e-267).-N~sta conferênci~;s~t>ói;L~a citou o
- , . ! Além"êHsso, cabia-lhe não criar obstácüiôs aos pedidos de tutela e guarda, apelo feito por Getúlio Vargas aos governadores dos Estados, em prol da
----------·-- ·- -- . - ·· -·····- - . · - . ---- .. .. - - -· . .
sendo este um. dos meios de oferecer ao "menor -----desvalido"
- um ambiente
. ·- . -- -- infância, no Natal de 1932.9 ·
fanúliar, e autorizar o trabalho d~ menores, "impedindo a vadiagem e_a
,
QciO~!dade" e proporcionar recursos aos lares pobres.
_ _ __ • ·•• · r · •
(... ) "nenhuma obra patriótica, intimamente ligada ao aperfeiçoamento
A criação do Juízo de Menores p._~_o se restringi~ à necessidade con- da raça e ao progresso do país, excede a esta, devendo constituir, por isso,
creta de ~:r,~aniz~ e ~~pµ._a r a assi~tên~ia oferecida à infância desvalida. preocupação verdadeiramente nacional. Os poderes públicos, aliados à ini-
, O Juízo nasceu após duas décadas de discussões sobre o papel de_:> Est_él~O ciativa particular e guiados pelo estudo atento e científico dos fatos, têm no
. -~~ti~~-I l~a~-inf~li.zes;êie pro.t estõs' contra a falta de uma.assi~tência amparo à criança, sobretudo, quanto à preservação da vida, conservação da
saúde e ao seu desenvolvimento físico e mental, um problema da maior trans-
pública no país e de cobranças da" intervenção direta e desassombrada do
cendência, chave da nossa opulência futura, principalmente na nossa terra,
y, Estado", combase na"c_e~tr~ação e ~~!ffiÍZ<lÇãp 9-~~ ~~~iç(_)_~ em um
onde, mais talvez que nas outras, se acumulam fatores nocivos à formação de
i, órgão bem definido e bem normalizado da vida governamental de uma ~~-!'_ªça [orte e sadia. O índice da mortalidade inf<l_:1:_~ ~, na própria caP! tal
nação" (Paiva, 1907, p. 26).
..
da República, ·só comparável ~o das grandes·cid~des tropicais.
da_África e
~~~os ~~-~o (1959 [1929]) também apoiava a "intervenção do Estado <:la Ásia e no rest o do país, as cifras são desoladoras. A hora impõe-nos zelar
em beneficio da parte da comunhão carecedora". Entendia até que" a as- pela nacionalidade, cuidando das crianças de hoje, para transformá-las em
sistência é, sem contestação, um dos principais fins do Estado moderno" cidadãos fortes e capazes" (p. 275).
(p. 175). Não obstante a sua luta por um melhor aparelhamento dos institu-
tos para menores, o então diretor da Escola 15 de Novembro pondera que Em seu ~_Ç.lJ.!$..Q,. V~r.g~~ expressava as gr~n«:I~~ E~'::S)Ct,lp~çõ_e~ _das
· · os benefícios da assistência pública não poderiam ser excessivos, sob pena @~s 4a época c?~ relação à assistê!lcia à infância, tais como a "L...~açãp
9-e s~cri~-" u:ma clas~e de indivíduos a quem Mário D'Amb~ósio ch~a~ia de -~!.itérios cie.n~cos no a!~d.i-iP~nto,__a ª~él!1ça_~ntre ?_S SE:_t_ore~ p_Ú:blic9. e
d";eéonomicamente passivos" (p. 177). O autor concorda com o "filósofo ~ -v~_~ o, a defesa da nacionalidade, a vergonhosa mortalidade inftU1til d?-s .
britânico Herbert SpE;ncer", de que a ilus~o de _benefícios imediat~? "fez cidades
----··
-~
brasileiras e a formação de uma raça sadia, de cidadãos úteis.
nascer nas~~~~ a ccmyi~ção de um di!eito à ajuda e à proteção q~e, em A problemática da constituição da !_~Ç._ê!_adquiriu maior ênfase na déca---
.r . ..folhjln<:l,o, ~ cond~ ao g._e,~~-:;;pg!o e à r evolução". ~egundo Lemos Bri~o, da de iJ_
2.º: Fundament~e-te~;i;;~ente n~~l!g~__a, ou seja, no estudo
~{, , Spencer teria prevISto em 1906 "o advento do comurusmo_com°. consequen-
~
. ~inE:yi~~el desse_errad~_c onceito de assistência" (p. 178). 9. Circular dirigida aosinterventoresnos Estados em 25/12/1932, e que segundo o médico Olinto
Se o exagero da benefi~ê~~i~f-;;;zia--e~ergir o Í€lfitasma do comunis- de Oliveira, inspetor de Higiene Infantil, ficou conhecida como M~nsagem de Natal. Publicada na

t~bé~-~ra p-;;~ciosa, sobretudo c~m-rel~ção à c~i~ç~~


fulta íntegra nos anais da Conferência Nacional de Proteção à Infância, realizada e111J9J.3, por iniciativa do
mo, a .s ua "Governo Provisório" de Getúlio Vargas (Ministério da Educação e Saúde Pública, 1933).
-~!

A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 249


248 RIZZINI • PILOTTI

dos fator~s favoráveis à melhoria da raça e daqueles que provocam a sua orfandade", fundada em 1908, no Rio de Janeiro, por dois desembargado-
res, então Juízes de Órfãos (Patronato de Menores, 1938, art. 14). Um dos
decadência. Neste sentido, a Liga Brasileira de Higiene Mental, criada em
seus fins era justamente "propagar as vantagens da eugenia, procurando,
1?,2~pelo psiquiatra Gustavo llied~l, su~giu, huciahnente, para ap~rf_ei_çoa.r especialmente rec~rl!leceretratar--á li<:red9:..sífilis, as taras tuberculosa e
a assistência aos doentes. A partir de 1:_?,~§, começaram a aparecer :e!ojetos
-n~~~osa, combatendo as verminoses" (op. cit., art. 3°, h). Mantido por sub-
voltados para a_pI._e_ve1:),ç}í_~..!-~-~:1g~nia e a educação dos in~~víduos (Cost~,_
venções públicas, o Patron.atg tinha uma atuação afinada com o Juízo de
1976, p . 32). Em 1925, Ernani Lopes, presidente interino da Liga, organi-
Menores do Distrito Federal recebendo em seus estabelecimentos, menores
zou um programa que incluía a cr!_~ç_ão ~e um consultório de euis.:enia, que
encaminhados pelo juiz e administrando estabelecimentos públicos, sob a
responderia por escrito a consultas sobre "questões.sexuais~ profilaxia fiscalização do Juízo.
matrimonial" (Rizzini, 1993, p. 88). Um dos objetivos da Liga era propagar
Da mesma forma, contribuíram para a criação do Juízo os novos ideais
os novos ideais, o que era feito através de palestras e dos artigos da sua
de proteção e assistência à infância. A compj€ensão restrita ao ponto de
publicação periódicaArchivos Brasileiros de Hygiene Mental. Ai.nfluência das,
yista da moral não era mais suficiente para abarcar o universo da infância
ideias h igü,inistas e eug~nicas nas discussões é inequívoca e marcante. 10
--- - --- · - · t-:.{ : il, I r.' r :: ~--·;•- •·' ' · . ~··· ~ · - ·· ~l:!_~i{donada e 4elinq~e;t;~--~~ sua c~~plexid~de ca.da vez maior. Os
A!epercussão das ideias eugênicas nos meios assistenciais é eviden- e~Eeciali~tas passaram, então, a recorrer, com ~~_i_o~_frequência ao enten-
ciada pcl.os textos dos autores daépÓca, inclusive das autoridades do setor di:rnento científico da questão. Começaram, inclusive, a ampliar o leque
público, como os j~_e-~d~ 1:1:~!lºr.es_das déca._das de 1920 e 1930: Na"relação desse campo, colaborando até no desenvolvimento de novas disciplinas,
de membros titulares" da Liga, aparecem diversos nomes conhecidos no como foi o caso do Serviço Social: 11 •

círculo da assistência à infância. Na "seção de delinquência",Ataulpho de Q próprio decreto (n. 16.272 de 20/12/1923) que instituiu o Juízo de
Paiva (d~~-e ~bcl!:gª~?r da Corte de Apelação), Lemos Britto (advogad(?, Menores abriu uma brecha, embora tímida, à Rª~P:Çip_ação das ciências no
jom~is_ta e diretor da Escola 15 de Novembro no período de 1926 a 1930); na .:;tendi:rnento de sua cli~_n tela. Assim, era t~efa do juiz ~'inquirir e examinar
"seção de educação e trabalho profissional", Mello Mattos (Juiz de iyle:r:ioi:es); _o es~~<:12 ~s!~9( ~eD!é!lgmoral do~ 1!1€f!~rés'~, como também a "situação
na "seção de Puericultura e Higiene Infantil", Moncorvo Filho (diretor do social, moral e econômica dos pais, tutores e responsáveis por sua guarda".
Instituto de Proteção e Assistência à Infância e do Departamento da Crian- P"àra tal, deveria contar com o ~uxílio de um "mé_d ico-psiquiatra" e seis
ça) e Nascimento Gurgel (professor de Clínica Pediátrica na Faculdade de "çomissários d~_yigilª1:1-cia". Ao médico cabia "proceder a todos os exames
Medicina); na" seção de Medicina Legal", Evaristo de Moraes (a9:vo~a_do) médicos e observações dos menores" e "fazer às pessoas das famílias dos
(Liga Brasileira de Hygiene Mental, 1925, p. 182). menores as visitas médicas necessárias para as ~vestigações dos ante-
A aproximação entre a assistência à infância e ~ eug_enia_está~~~ çedentes
·- hereditários
. - . ..
e pessoais destes" (art. 41). Os comissários
. .. . ·-- .... . "--- --.. .. .
tinham
representada na afirmação do Juiz de Menores Sabóia Lima (1939, p. 503), incumbência de fazer as "ir].ve~tig~\ões relªtivas aos menores, seus pais,
"pr~teger a criança é valorizar a raça!". O objetivo eugênico aparec~_i3:_~é tutores
' - - -·
... ", além da apreensão
.
e. vigilância de menores (art. 42).
no~-e~t~úitos de associações, como o Patron~d-;Menores, ,i assc>ciação de O es~do do _menor era praticado desde os primórdios do funciona-
assistência e beneficência privada, destinada a amparar e proteger a infância mento do Juízo de Menores do Rio de Janeiro, como revela, em entrevista
desvalida, os menores abandonados, filhos de reclusos ou condenados à

11.Aassociação S. O. S. (Serviço de Obras Sociais), organizou na qécac!!i_!!.e. 30, com a colaboração
do Juízo de Menores, um e~~~~~ ~!._Serv~ç_o 5-C?~al, orientado pela en~ão~~tente técnica .do
10.A respeito do interesse médico pelo tema da infância e das instituições educacionais/ assisten-
Juízo, Maria Esolina Pinheiro (1939, 1985). O_curso funcionava na sede do Juízo de Menores.
ciais, ver Gondra (2004) e Rizzini (1993).
~ RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 251

à Gazeta de Notícias (3/10/1924), o primeiro juiz de menores do país, Mello da criança e ora médico-pedagógicas, r_e sultou de uma ruptura na forma
Mattos. Diante de "um menor ab~donado, delhÍ.qÚente ou vítima de cri- de se conceber as causas da delinquência e do abandono. Após o domínio
-iii;,~andotdep~~itá:i; em estabelecimento adequado, sujeitá-lo a exame absoluto da causalidade m.ÕÍ-al, começaram a _cr~sc~r, em importân~i~, as
l!!:éc!i~o~psi~~Íógi~ÕEip~d;gó~co,~ p·;;~ed~~~ in~estigações sobre os seus Cé!-US~~_psíquicas, físicas, sociais e econômicas, na explicação do desvio de
precedentes, educação, modo devida, situação social, moral e econômica com~_t-ª!Ilento do~e~~r.'As causas morais, como.os "maus costumes", a
dc:1família, e tudo o que possa fazer-se conhecer a natureza, o caráter, a v~da 11
frouxidão moral", o"enfraquecimento da autoridade familiar", juntaram-se -./,
do menor e os meios em que ele tem vivido ou frequentou". O entrevistador os "distúrbios físicos e psíquicos", a "hereditariedade", o "urbanismo", o
·-...-.•- --· ··~- -· - . f
recebeu do juiz um exemplar impresso dos questionários utilizados, consi- "industrialismo" e o "pauperismo" (Louzada, 1940, p. 25).
derando-os" de uma :qij.n~cio~idade admirável, com perguntas a respeito No processo de identj_ficação das causas da sua !=On_q.~ta e/ ou estado' .
de tudo o que possa concorrerpara o pleno conhecimento da personalidade
física, psíquica e moral do menor".
de abandono, o ~e~~r recebia um ,d iagnóstic~ '(ou apreci~çãc(;fque li r
', &íhri~--~-sua condição de indivídu~ fis:Íca é-psíquicamente norma!'ou ·::?{·
,
\,.,_ .....--- .. - - . - •. .. . - - - •.. .. - - · ···'
Em meados da década de 30, os s.erviços de obsery_a ção, e~a~e e :1 anormal. Auxiliado por esses exames técnicos, o Juízo atribuía ao indiví-
mvestig;ção d;;_;;:;_;:;:-passaram a ser realizados pelo J.,~borat§.:rio ~~ !!!o~
'- ' ·---·-· . ~ - ----·-· ·- - ·- -····--·
< ;au:o -ás cau~}!s_de seu comportamento desvian~e, e1?1??ra o dis~urso dos .
:E.~gia_Jnf~til, destinado a "fornecer as 1?ases_den~<:~~para o tr~tamen~o / \. agentes reconhecesse a importância das causas sociais e econômica.:' da
n;tédico-pedagógico da infância abandonada e delinquente" (Lima, 1939, criminalidad~: O di~~.?3.~~o (que não era somente mé<:1,_i~o, mas também '·
p. 204)." 0 Laboráforfo, c·r íadoporportaria do então Juiz de Menores Burle psicológico), formulado por uma instituição que tinha o respaldo da ciência .
de Figueiredo, com autorização do Ministro da Justiça, passou a funcionar médica, ·como o L~boratório, leg5:~;y~,__c!entificam~nte, ~a :p_r.,í.tic~ de :}1
junto ao Instituto Sete de Setembro, antigo A:bdgo-d~ Menores. Coube-lhe, ~,s<;l_u são e_9-iscrimin~_ção. ·····
desde então, s:1bsidiar o judiciário nas decisões a respeito do destino dos
1º:€!19res que, por abandono, delinq:1ência, vadiagem, ou simplE:~mente
pobreza, passavam pelo gabinete do juiz. O ~a!'orc!_t~rio Jazia os exames O desencanto: instituições para menores
&:i.~~~ ~eni~i esó~ú. i, com·ó ol?j~t:i~?. de_in~~sjig~ ,, as causas que levam
a criança ao vício e ao crime, apurando a inflm~~cia do meio e das taras. O Juízo de Menores inaugurou uma pqlíticasistemátiça d~intemação
~ ---, •••- _ _ ,_ "' • _ _ . .. • + , _ _ , .... + , ~ P f t - •• - • ~ -

b'ênidit~h~~s" -(Lhna,·1939, p. 549). Os processos de menores do períod~ em estabelecimentos c!~él..~,~~ -~ .!.~!o:r:m~c_:lp_s_,p_ara atender a p.92._1:1-_!a_s:~o
cÕ~am que o alvo principal dos examinadores do Laboratório era o específica dos µienores _rnaterial ou mor~ep.te aband~n~q9s, e/ ou de-
·- _..__ _ _ . ·i • • - • ,. - - • - ~- ,. • •

grupo dos suspeitos de terem infringido as leis. ~~~ntes. No entanto, a ~sJi:utu.!.él_g~g~aqa para receber esta clientela
O Juízo de Menores de São Paulo tinha também o seu labo.ratório. apresentava, desde seus primórdios, prople~as, que o _exc:es:5_(? d~ _d emanda,
Tratava-se do ½i_~ituto de P~~q~~.?-~~]½':'egis, cuja finalidade -;-a efetuar só veio a aumentar. A <:!-=.1 :.1~da <i~ intern-:ições era fomentada pelo próprio\ . · ·
"pesquisas e investigações referentes aos problemas pedagógicos e de re- --
Juízo,
- que passou a recolher
- '·· . . . ..· centenas
... ------- .de "menqres
. . das. ruas"
. ... . (Lima, 1939, -
1

educação ·da criança, que é estudada sob aspecto biológié~ e ·so~i~Çte~do p. 531), com a ajuda da p~líci_c!_~- ~~_Delega~a Esp~c~~l c!e :tv):enore_s Aban-
~d;-medida-s -e instih.tlção de psicotécniéa ·e-de-c:;ri~~taçã~ p~~fi;~ional" donados, a partir de 1937.12
-·-. - . . .. ·- - .. - .
(Lima, 1939, p. 535). "
A atuação desses serviços auxiliares, que para Sabóia Lima (1939, p . 12. Em 1937, o chefe de polícia Filinto Muller, em colaboração com o juiz_de menores Sabóia Lima,
criou uma d!!legacia especializada de menores, com a finalidade de "amparar todos os menores que
393) deviam ser chamados de clfuicas, ora psiquiátricas, ora de orientação fossem encontrados emcompieto abandono nas ruas, em espetáculo deprimente para a nossa civiliza-

'\
')

252 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 253

A partir da d~_c ada de 1930, as instituições que recebiam menores ditos para criar novas instituições, encontrou para resolver as dificuldades
encaminhados pelo ~1:~~z-~_9-0 Rio de Janeiro, passaram a ser9.ivididas em oriundas da falta de estabelecimentos que "permitissem o funcionamento
"in~t_i~utos ofici~~s mantidos diretamente pelo governo federal" (cinco do Juízo de Menores". Este recurso, porém, não evitou que o sistema já
estabelecimentos, sendo dois, patronatos agrícolas situados em Minas nascesse com problemas, que haveriam de acompanhá-lo, nas tentativas
Gerais); "i:µstit_y.t9s oficiais, adm~strados p()r _a ssoci_ações civis e man- posteriores de implantar novos aparatos de assistência.
tidos por verbas do orçamento do Ministério da Educação e Saúde" (sete Entre as ~~_.fisl!t<:1:~des que mais perturbavam os j_~Cê:.S., estava a f.9-lta de
estabelecimentos);" e~tabeles_tgi.~~to~ particul_a~~s que contrataram com o estabelecimentos para atender a todos os recolhidos, o que já demonstrava
Ministério da Justiça, inte;nação de menor~;,, (três patronatos agrícoias) ---- .
J a falência do sistema. Como internar todos os menores enquadrados na
e "estabelecimentos parti.~-ul~1:es que ajustaram com o Juízo de Menores a / ..·· ·'· ·elástica categoria de trI._~1:._<!_~es _c{fa..f!ndc;mad_os _e_d~_l.i11_:q11:e7:_tes? Em seu relatório
internação mediante o pagamento de quota mensal de 50$000 por m enor" de 1938, Sabóia Lima (Lima, 1939, p. 372) estimou para o Distrito Federal
(dez estabelecimentos) (Lima, 1937, p. 104). a existência de ~O mil menores "carecedores de imediata assistência, por
1'.<?_do~_O..§._esté.J.belecimentos, mesmo os particulares sem qualquer s~u estado de abando~() mafédà1 e moral". .
víncula"·c~m os pod~res públi~os, estavam subordínados à fiscalização do O primeiro estabelecimento ~-~.:_!.-~l criado após a apr~yação do Re-
Juízo.
~-·-
Em 1940~
- ~~...... .
o juiz de menores do Rio de Janeiro Saul de Gusmão (1941, gulamento da Assistên~ia (Decreto n. 16.272 de 20/12/23), o Abrigo de
p. 59) deu início ao "serviço de recenseamento e fiscalização das casas ele Menores, "destinado a receber em depósito, até que tenham conveniente
proteção à infância". Com esse fim, o curador de menores inspecionou pes- destino, os menores postos à disposição do Juízo de Menores" (op. cit., art.
soalmente !?4 __
.,.__ estabelecimentos,
. - --- - 33 deles registrados no Juízo de Menores. 62), começou a apresentar problemas de superlotação. Até mesmo a seção
Das instituições registradas, 27 eram católicas e seis espíritas. feminina, ·embora ampla, com capacidade para 200 internas, não atendia
O Juízo de Menore~' pret~~di~-~er ingerência direta na vida cotidiana ~igências do recolhimento, como assinala,;a Le~os Britto, em 1929
dos estabelecimentos, principalmente no que se referia à educação, através (1959, p. 457). Segundo Sabóia Lima (Lima, 1937, p. 108), o Abrigo, a partir
de suas Seções Educativa e de Educação Físiq1.. No seu relatório dos anos de de 1929 denominado Instituto Sete de Setembro, chegou a ter ~00 menores,
1937 e 1938, Sabóia Lima (1939) informa que a Seção Educativa preparava quando deveria abrigar somente 3_00, suscitando "severas, mas justas crí-
l.~progrimaJnínimo de e~sin?,pr_imário, de quatro anos, e de _e ns~_o _r~- ticas". A "Escola de Preservação 15 de Novembro", considerada..modelar,
. . .. ~ . . '
r_al profis~~o:~~l, de dois anos, para os patronatos agrícolas. A avaliação era na gestão de Lemos Britto (1926-1930), abrigou mais de 400_internos, em
feita através de "provas globalizadas", remetidas ao Juízo com os relatórios 1929, quando o número de yag_a~ era de apena~-~Ji...Q. (Britto, 1959 [1929], p.
pedagógicos dos professores. As provas dos alunos eram estudadas pela . 460) . Para o então q.i:r:~~.9r, o 1<~:11_-~o~~~~t~ da_E§~ola era responsável pelos
equipe e guardadas em pastas individuais. excessivos pedidos de internação (op. cit., p. 459).
Os_convêni()s e_s tabelecidos com associações particulares foram, segun- O problema da superlotaçãg_das instituições oficiais, no entanto, era
do Sabóia Lima (Lima, 1937, p .. 147), a forma que o governo, carente de cré- anterior ao surgimento dos Juízos, embora tenha se agravado com o reco-
lhimento sistemático dos"garotos das ruas". Em 1_?18., o Diretor do Depar-
ção" (Lima; 1939, p . 504). ~Rol~~ª faria a_ apreensão dos menores nas ruas e investigaria as condições tamento Nacional do Ppvoamento, Dulphe Pinheiro Machado, enviou um
µ,orais e materiais do menor e dos seus pais e responsáveis, e no caso destes serem responsáveis pelo ofício ao Ministro da Agricultura, Indústria e Comércio, indignado com a
abandono, iniciaria inquérito para o processo penal. Os menores seriam "abrigados" p ela Polícia até
que o Juízo conseguisse mandá-los para local definitivo. Para este fim, o juiz reservaria vagas nos situação da infância na capital da República. Nele refere-se ao "depósito
patronatos agrícolas dos Estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais. de menores" criado pelo Chefe de Polícia Alfredo Pinto, em 1907, o qual de
A ARTE OE GOVERNAR CRIANÇAS 255
J 254 RIZZINI • PILOTTI

rior ao que gasta uma familia rica para manter um filho no mais caro dos
"d~_p_(?_s ito P!ovisório para 50 crianças, converteu-se em -:_!?_i~? per:n.~-e~t~
colégios do Rio de Janeiro" (Lima, 1939, p. 344).
_____
para
... 380, -·--porque não havia para onde mandá-los" (Lima, 1937, p.123).
13

O Regulamento da Assistência (Decreto n._16.272 de 20 /12/23) previa


A utilização de instituições particulares para auxiliar o Estado na enor-
a criação de uma"escola de reforma para menores crinúnosos e contraven-
me tar~fa que começara a ~s~umir com a criação dos Juízos, g~renciando a
tores", anexa à Escola 15 de Novembro (art. 74). As obras chegaram a ser
assistência, não era a melhor saída, diante da precariedade com que essas
iniciadas, mas foram suspensas por ordem do Ministro da Justiça Affonso
_ casas funcionavam. Afi_§calizaç~o, realizada, em 1940, a mando do juiz de
,. menores,Saul de Gus;ão (1941, p:63);~; aliou que,df:_5-4 e~t~~~e?-ID-entos, f- Penna Jr., que recusou a proximidade entre elementos que, a seu ver, não
deveriam ser confundidos (Britto, 1959 /1929, p. 537). Em 1925, o Congresso
: soment~t{L~ª-t~~am ''bem organizados e orient!3-dos"; ~6 fo!.~ classificados ) " Nacional autorizou o governo a reorganizar a escola de reforma, localizan-
, como "sofrivelmente organizados" e 10 como "desorganizados".
• -· . - • t do-a no Galeão, Ilha do Governador, nas instalações da antiga Colônia de
As instituiç_ões oficiais, algumas delas consideradas modelares, como a
......___,__ --- ·· ~ --···-~------
Escola 15 de Novembro, também apresentaram sérias dificuldades, analisa-
-- Alienados(Decreton.4.983-Ade30/12/1925).Aescolafoiinauguradaemll
de novembro de 1926, com um discurso de Lemos Britto, seu"organizador
ciãs porSab-óiai ~a (Lima, 1939), no Memorial sobre a situação d~s institutos e instalador" (op. cit., P- 551).
oficiais de proteção à infância abandonada e delinquente. Esse documento O próprio Lemos Britto (1959, [1929], p. 549) h avia fornecido ao Minis-
foi remetido ao Ministro da Educação e Saúde, Olinto de Oliveira, em 29 tro da Justiça as diretrizes da reforma. As instalações deveriam prescindir
de novembro de 1938 (Proce~so n. 42.568). O Ministro, por sua vez enútiu_ dos muros, para oferecer aos internos a "sensação de semiliberdade":
1
· um parecer sobre o mesmo, apoiando as propostas do juiz de menores. O l
- · Memorial apresentava dados comprometedores sobre a adnúnistração dos (_ "Mas, para que muralhas, se aquilo era uma escola e não uma p risão?"
institutos,
.
tais como custo elevado
..._________ por aluno, funcionalismo
. . --- ---- ,-.. .. - . excessivo,J
. - ~

buro~acia e nomeações por_influência política. O então juiz de menores M~~a_!!9s, presente na solenidade de
A Escola João Luís Alves, criada em 1926 para "regenerar pelo tr~l;>.a- inauguração da ~sc<?1.~.' manifestou suas apreensões a Beatriz Mineiro, ad-
Jl::to, ed~~açã'a e ~~çãÓ" os menores d; linq~entes rec~lhidos pelo Juízo vogada e defensora gratuita no Juízo de Menores do Rio de Janeiro desde
. (Decreto n. 15.508 de 4/11/26), apresentava abundantes exemplos dos a sua instalação, em 1924:
problemas apontados acima: c~da aluno custava por mês 720$000< enqu8:fitO
"Está parecendo-me um sonho irrealizável esse ideal de reformar delinquen -
nos estabelecimentos administrados por associações civis esse custo não
tes em escola de portas abertas e sem castigos corporais; tenho receio que a
passava de 150$000 mensais; havia52funcionários para 70 alunos (emvisita
·- ---· -- -- .. .. - ... . .. maioria deles se amotine e fuja" (Britto, 1959 [1929], p . 550).
à Escola, por ocasião da fuga de 13 menores, Sabóia Lima constatou que
havia apenas 58 alunos para 60 funcionários); vaga,de professor ocupada Lemos Britto, entretanto, relata que, ao menos nos dois anos seguintes,
por um sargento da polícia etc. (Lima, 1939, p. 333 e 728). Os membros da tal fato não ocorreu, apesar da "atmosfera hostil de terror e desconfiança"
Comis~ão verificaram que "o dispêndio com cada aluno na Escola é supe- que perdurou no estabelecimento durante os primeiros meses (op. cit., p.
558). As apreensões~ Mello Mattos, porém, não eram infundadas, como
13. Tratava-se do Asilo de Menores Abandonados, o qual teve seu nome mudado em 1918 para demonstram os r~gi~tro? 9-e fµg~s o~orridas entre 1936 e 1938 (Lima, 1937,
Casa de Preservação. Em 1916, a direção do asilo passou para o Patronato de Menores, uma associação
p.120; 1939, p. 727).Noanode 1941,aEscolaJoão LuísAlv esfoi transferida
particular.
256

para um pavilhão constn.údo nos "latifúndios da Escola Quinze de N ovem-


bro" e seu prédio transformado em estabelecimento de ensino primário,
para crianças de 7 a 12 anos (Ministério da Justiça, 1944, p .16). No mesmo
RIZZINI • PILOTTI

l A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS

que lhe haviam sido en caminhados para incorporação, por "insu ficiência
intelectual e incapacidade física" (Lima, 1939, p . 346). Fato grave, porque
um dos objetivos explícitos da Escola era oferecer ao interno a "educação
257

ano, o pavilhão foi destruído por um motim dos alunos, tomando-se "ina- militar", prevista no seu Regulamento d e 14/ 5 / 23. No período em que
bitável", de acordo com o que relata Saul de Gusmão (1941, p. 27), juiz de Lemos Britto dirigiu a escola (1926-1930), os alunos praticavam exercícios
menores na época. Finalmente, os menores foram transferidos para a Casa militares (tiro de guerra e companhia de guerra) e, a partir dos 16 anos
de Correção," onde foram localizados em dependência inteiramente separa- ingressavam na Escola de Soldado, fundada com o apoio do govern o, em
da das ocupadas pelos criminosos de maioridade" . Houve posteriormente 1928, tendo formado "numerosos reservistas" (Britto, 1959 / 1929, p. 476).
um inquérito policial, em que funcionários, incumbidos da vigilância dos
~ ---- ---- - ~ - -- . . ·- A Comissão verificou que " a ineficiência das Escolas João Luís Alves e
m enores, foram d enunciados como autores de espancamentos contra os 15 d e Novembro decorria das causas de ordem moral, técnico-pedagógica,
!Ilesmos-(i~l;;_, ibid;~). Os menm:es foram d épois enviados para a Colônia
-··- - ----
Agrícola Cândido Mendes, na Ilha Grande, como relata Lemos Britto, em
administrativa e material" (Lima, 1939, p. 336). As irregularidades encon-
tradas não surpreenderiam a opinião pública dos nossos dias, graças à sua .
palestra realizada no Serviço de Assistência a Menores - SAM, em 1943 atualidade: nom
------····-- -- . . .
(Ministério da Justiça, 1944, p.121). Segundo Lemos Britto, os menores não
.- --- ---eações sem critério
- , - - .. .. .. .
técnico
. . - --
(por conveniências p olíticas);
. -- - . - .. - -·
!?c~~cidade .a dministrativa dos diretores; falta de recursos; transações
podiam aceitar a vida num pavilhão fechado, vendo, ali perto, "centenas f!audulentas com fornecedores na compra de gêneros alimentícios de
de outros que iam e vinham folgadamente" (op. cit., p. 120). Argumentava q~~~~~de inferior (op,. cit., p. 338).
que na Escola João Luís Alves, onde ~~o ~ayié~ m':!os e que não estava sob .
Q reg~~yigente nessas Escolas era outro ponto crítico questionado
a guarda da polícia, não haviam ocorrido revoltas deste porte. O então pre-
p elos j~iz~s e até me~mo pelos próprios dire tores. O relatório do diretor
sidente do Conselho Penitenciário responsabilizou a mudança de regime da Escola João Luís Alves, apresentado ao juiz â.e menores Sabóia Lima
pelos distúrbios verificados no estabelecimento.14 (1939, p. 326), continha uma crítica ao regime de caserna da instituição,
Uma Comissão, nomeada pelo Ministro da Justiça para estudar os de- que contrariava a convicção corrente cfâs vantage.O:s-do sistema familiar,
sacertos d as instituições oficiais, indicados pelo Memorial de Sabóia Lima, na edu~ação de crianças:
apontou entre outras causas, a 9-is_plicência, o desinteresse, a apatia e a falta
d e escrúpulos dos diretores das Escolas João Luís Alves e 15 de Novembro, ( ...) "o r~g_ime dos grandes dormitórios coletiV?S (... ) fez desapa recer aquele
C~mO fatores desenc~de~teS da d ecadência deSSeS eStabelecimentOS.15 ambiente de fanu1ia, que deve existir nos educandários destinados à rege-
Constatou-se, então, que a Escola 15 de Novembro apresentava um neração d e menores".
- --- - --- - - - -- -
núi:_neE~ elevado de eyasões _e que vinha funcionando mais como uma
"escola de deseducação de menores do que como estabelecimento desti- Neste sentido, Lemos Britto (1959 (1929], p. 460) lembrava que a extin-
n~do a formar cidadaos-füeis à coletividade social brasileira". Outro fato ção dos"1.?r~~?~i~J_-casernas" era m~did~recomendada em vão,há já d uas
constatado foi a rejeição, pelo Corpo de Bombeiros, de 10 dos 13 m enores d écadas, isto é, desd e ? início do sécw.o. Os Regulamentos da Escola 15 de
"-...: --·- -··· Novembro dos anos de 1903 e 1923 proibiam a sua adoção, determinando
que, para o p ernoite, oJ grupos de educandos fossem divididos em turmas
14. Sobre a história das instituições de reforma, ver Rizzini (2005).
15. Integravam-n a o m ajor Correa L~a (subchefe do Gabinete, presidente e relator), Cincinato
e alojados em "casas", sob a v igilância dos chefes, que nelas residissem
Ferreira Chaves e Pedro Amaral Palie t. com suas famílias. O sistema preconizado nos regulamentos tentava, pois,
'
,>

258 RIZZINI • PILOTTt


A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 259
J'-

reproduzir a vida familiar. Os internos formariam pequenos grupos, sob sete deles, cinco oficiais e dois subvencionados. Em 31 de dezembro de
os cuidados de um casal, num regime doméstico. Como o próprio Lemos
1929, os patronatos abrigavam2.600 menores, para 2.852 vagas disponíveis
Britto admitia, no entanto, neste, como em muitos outros pontos, o Regu- ( (op. cit., p72.sr·---- .... - ..
lamento não era seguido. r. ..._,.., .:.--v·
.. ~ Os P.~!~~n~t<?s eram regidos pelo Qecreto n. 13.706 de 25/7/1919,
11
sendo ~_?.(~lusivamente destinados às classes_pobres e visavam à educação
( ··_,,
i:;r}ç,rc:tl_,_cívica, fís!~a e p_r.<?~~ional dos menores desvalidos e daqueles que,
' 1 ''. ' '.:· .
Ascensão e decadência dos patronatos agrícolas por insuficiên~ia d~ ~apacid;de· d~ edu~ação na família, fossem postos à
+i-e; , ., .' .\. v'
disposição do ~-~-rviço de Povoame~to" (Lima, 1937, p. 125). A meta era
Na cléca_c!.~_<i~1.Q1 o governo federal deu grande in:i,pulso à criação de incorporá-los ao campo, em buscada "gr~dezanacional",jáque, "a base
patronatos agi:íc;:_Qlas, exe'cut~do-~~~-política delht~ada pela" Departa- ~a economia está na agi:icultur~" (op. cit., p. 126).
me~t~·N;~i;~al de Povoamento e de,,form"açã;do trabalhadorn;ci~~l",
A lém do objetivo genérico de "incutir na criança uma educação que
~om ~-~bjetivo d ~·;;;_;~a"q,orar ~~ ~~~'é;~~;-tutelad'ó s ~a vida dos campos"
"'-·- ···.~ .... - -· .., .
. - a possibilite mais tarde se tornar eficiente e útil" (Lima, 1937, p. 122), as
(Lima, 1937, p. 121). Nessa perspectiva, a ~E!..~ça era cC>mp~rada ao imi- instituições agrícolas poderiam reunir todas as vantagens apregoadas na
g:a_n~E: - estrangeira na própria terra, ela devia inserir-se na sociedade época como ideais para a formação e regeneração de crianças, além da crença
produtiva. Em entrevista ao Correio da Manhã (27/12/1938), S_abóia Lima
11,a superioridade da vida do camp~ sobre a da cidade. O governo mineiro,
(1939, p. 232) expressava, com clareza, as m~gy~çõ~s q1:_1~ ~~Y..ª!~ à criaç~o na sua "Exposição de Motivos para a Criação do Instituto João Pinheiro",
dos patronatos agriçoJ~s: · · ···
----- ·------····-~-...- fundaç.o em 1909, arrolou os principais motivos capazes de justificar a
criação do insti~tô agrícola/indusÍ:r1al: - ..
"Entre nós, a criança quase que vive com a sua integridade física e moral em
·perigo. Sendo ela o melhor imigrante, precisamos contar com o seu valor
futuro. Neste particular, aos p atronatos cabe uma grande tarefa. Realizá-la (... ) "o tratamento educativo do menino desvalido só é r~alizado _co_m su-
com inteligência e patriotismo é um belo programa". cesso em internato, e este deve ser instalado no campo, porque: a) o regime
higiênico é aí muito melhor assegurado do que na cidade; b) a solicitação da
Segundo Sabóia Lima (1937, p. 122), o grande responsável por esta rua, do meio deletério em que crescia o abandono é muito menos intensa; c)
política foi Dulphe Pinheiro Machado, Diretor do Departamento Nacional a ação educativa do trabalho agrícola é reconhecida como a mais eficaz; d) o
sistema de internato em pequenos grupos de regime familiar (cottage system),
~~~-ºYºi:1ffi.ento. Em ofício de ~_9l$ ao ~~~9- çla A&ricultura, Indústria
preconizado pelos educadores modernos, só é viável no campo" (Renault,
e Comércio, Pereira Lima, Pinheiro Machado dava um "grito de alarme" · 1930, p. 157).
~~:mtra o ªpandono da infâJ;1cia na ~apita! do p~~, sugerindo a criação de 1
~!.~-()-~~!?.S agrícolas (ibid.). A~]:~~9-t_.vários desses patronatos foram _;) Apesar de todas essas vantagens atribuídas às ~tituições agrícola_s,
qiados, sob a égide do_DepaE_trup.«:n,tcl.}'Jacional do Povoamento. A partir
de então, foram ~cul~çl.~i:,

___
feder~i;'~~;7stad'as
........__, ..,.,_
- ~· .

do· .............
P~~á,
ao 1-vfinist~rio d~Agricultura.
.

nar~ 20 patronatos, _16 oficiais e quatro subvencionados pelo governo


P~r~íb~P~~~i;;:;cc:;:
--- -- ~.... - ~ · ·- .
. .. Ao todo funcio-

Béiliia, Minas Gerâis,


~ .. ....
.
a alternativa da~d1:1:cação no campo não teve continuidade. Os P~!!onatos
funcionaram po;12 anos, sob a orie~taçã~ de Dulph~ Phili~iro Mach~~~ Na
' -------·· .
. visão de Sabóia Lima (1937, p. 126), com o tempo, as "oscilações adminis-
i trativas" comprometeram a experiência, diminuindo o esplendor que dela
São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Só em Minas Gerais houve
se esperava. Em 1933, finalmente, os patronatos agrícolas foram fechados
. - -·-·- ---- - - . .
·1 ·
260 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 261

por ordem do Ministro da Agricultura Juarez Tavora, sob a alegação de A falência do regime admini~trati:-70 das insti_!uições oficiais, apontada
que não passavam de "1!1:e!..C?S asilo~" (Lima, 1939, p. 79). De acordo com no Memorial de Sabóia Lima, gerou, por parte do governo, p~op_ostas de mo-
o juiz de menores, o fechamento dessas instituições representou prejuízo dificação no quadro da assistência à~ância pobre.No parecer do Ministro
para a coletividade.A despeito de apontar sem piedade os erros cometidos, da Educação e Saúde, Olinto de Oliveira, sobre o Memorial apontava-se a
Sabóia Lima era um defensor dos patronatos. No relatório dos anos de 1937 necessidade de "u~a ime~i_a~a E: radka_~~o~~?~~ção _d_aqt~ele regime admi-
e 1938, o juiz reconhecia que "ainda não há 20 anos, os patronatos agr~êolas ~strativo" (Lima, 1939, p. 311).Alémdisso,oMinistro aprovava a sugestão
serviam mais para castigo da iJ.úância abandonada e d elinquente, do que de Sabóia Lima de que o governo federal criasse o "Patronato Nacional de
mes~o P".1:i~
e.~_coias de ~rde~, dE; _f:!~tu-~o, de produção e.__cJv:ismo'; (Lima, Menores", organismo autônomo, com independência administrativa e
1939, p. 232). econômica e que estaria sob a jµrisdição do juiz de menores (idem, ibidem).
Segundo ele, a pçilícia usava os patronatos como depósitos de "pívet- Desse modo, a ideia da centralização do atendimento como solução para a
tes" que recolhia nas ruas da capital federal: questão social ~ià'inffu-lcia desvalida voltava ~o cenário da assistência. Ago-
, /,
. ra, ,não mais restrita ao município, mas inserida no contexto
,_ --· . d a n ação.
1,. "(Os patronatos) ~~am. vistos como centros indesejáveis. Em grande parte, / , A comissão nomeada pelo~~?:? da Justiça para estudar o assunto
'· ·semelhante descrédit;,-pe-la deturpação d~ su~s finalidades, era devido à fez igualmente sugestões, todas elas voltadas para a melhoria do funcio-
própria polícia. Esta, em seus q<:_~~~!!~_p_er~ódic'!_S d~ !í:np_eza do__l~,í_p, lançava a namento interno das instituições, como a ado_ç ão de "relógios rondantes"
.... . * ' " • -

rede das pescarias da extinta 4ª Delegacia Auxiliar, recolhia tudo quanto para os inspetores de alunos das 18h às 6h, de forma a punir os faltosos
era pivette que encontrava na malandragem primária, e enchia os referidos e atenuar "a_prática dos vícios de homossexuaD:dade, tão desenvolvidos
estabelecimentos de elementos nocivos, sob a alegação de que não havia
em aglón:i~r,ações de menores" e a ocupação plena do tempo dos menores,
penitenciárias para eles" (ibidem; grifo nosso).
sendo as atividades distribuídas em quadros diários, de forma a se "saber
a ocupação de cada menor em qualquer hora do dia" (op. cit., p. 351 ). Além
Embora considerados"~~n_ti:os indesejáveis", os p~p:-onatosnãoforam das questões referentes à dinâmica interna das instituições, a Comissão
totalmente extintos. A pedido da "p9..l_ític~ 1~Mmas qerais", cinc~p~qona- sugeriu a criação de um "Departamento de Educação e Fiscalização Ad-
tos
'~· -foram ..restabelecidos
. - · -·· - '. ...
no estado
- . . ... .-
pelo
.
Decreto
. n. 24.706 de julho de 1934,' .
' ministrativa e Técnica, subordinado às diretrizes do Ministério da Educa-
por d ecisão elo Ministro da Justiça Antunes Maciel. A justificativa era a de ção, mas dependente diretamente do Ministério da Justiça ou do Juízo de
que não se podia atirar às ruas "centenas de menores desamparados", o Menores" (op. cit., p. 348).
que P.r-;;:.;~;ei~~~te ~conteceu ~os outros estados.
As ~uas propostas coincidem na subordinação dos órgãos ao Juízo
Em .1939, Sabóia Lima via os l?~!J.:o_n atq~ com outros olhos: "são muito de Menores, à época, o único órgão oficial que já ensaiara criar um serviço
mais centros de reeducação do que de punição" (1939, p. 232). O juiz lou- de assistência à infância desvalida e delinquente, questão que permane~ia
vava o apoio do então Ministro.da Agricultura Fernando Costa, que tinha v_inculada ao Ministério da Justiça. Como veremos no próximo item, o Mi-
enviado "agrônomos competentes" aos patronatos do Estado do Rio e de nistério da Educação e da Saúd_é°hão:2hegou a ter participação nas questões
Minas Gerais, fornecendo o material necessário. Na avaliação de Sabóia relativas ao "menor:', tendo sua àtüação dµ-igida à criança e ao adolescente
Lima, estes patronatos (dois n o Estado do Rio e quatro em Minas Gerais) - uma divisão de atribuições dos setores do governo a partir da divisão
atendiam aos objetivos de favorecer a saúde dos internos, a formação do de seu objeto de interve~ção: _c;> _n:z.enor permanece sob o do?1ffiio da esfera
caráter e de "homens sãos com almas sãs" (Lima, 1939, p. 579). j:urícµca e a c_riança sob a proteção da esfera médico-educaçional.
· :>
, ...., .
/
._,, ~ ", I ,.
- \
r
,f 262 RIZZIN( • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 263

Acriança e o menor na Era Vargas: o Serviço de Assistência a uma política compensatória em relação às mazelas do trabalhador e de sua
Menores (SAM), o Departamento Nacional da Criança (DNCr) e familia, incluindo neste rol, a_cri~ça e o adolescen~e. São elas: L_egiã°-!J!a~i-
a Legião Brasileira de Assistência (LBA) !~!r-~9-eAssistência, Serviço Nacional d e Aprendizagem Industrial, Serviço
~ocial do Comércio, Serviço Social da Indústria, Campanha N acional de
Educand~os Gratuitos. Destas, focalizaremos somen te a Legião Brasileir~
No início da década de 1:Q, portanto em pleno ~?.~-9:9 Noyo, período
de Assistência (LBA) devido ao seu caráter eminentemente assistencial,
dita!~~~~~d~ ~~ ~927 com o golpe de Eê_!~~o implementado pelo en-
questão que n os interessa analisar neste estudo.
tão p residente da República Getúlio Vargas, o governo federal inaugurou
uma Ro1ítica mais nítida de proteção e assistência ao m enor e a infância,
representada pela criação d e órgãos federa is que se especializaram no
atendimento a essas 4.~;;; citiS9.!!~S~ agora indiscutivelmente ~p_éJ!ad a_s Sangue, Corrupção e Vergonha: Serviço de Assistência a Menores (SAM)
~-espE:c#i.~é!s_:_ o _
mf:_
Y!º!. e a 0'.!E.!lffl·
Sangue da mocidade, lama da corrupção e vergonha da incúria
Até então, no que se refere à ~s-~istênci~_pública, o ~e!l?r(e seus dis-
recaem sobre a sociedade brasileira, enquanto perdura a tra-
sabores vinham sendo tratados pela esfera jurídica, através dos Juízos de gédia dos menores abandonados.
Menores e pela atuação i~~l~da d~ a l ~·estabele~imentos parã"ii=i.eno~e-s. ·

Pa"~ém, e~ 1941, governo federal tomou a inicia"tiva de criar um 6~~o q~e
(Paulo Nogueira Filho, ex-diretor d o SAM,}9?_6)

d everia çe~trà.Iiz~r a assistência ao m enor, inicialmente n; ·D ~trito F~deraÍ,


e a partirde 1_944,- ém todo o ·te~ritório n~cional. A criação do Serviço de -Paulo
-
Nogueira Filho,
,. -· --·· .... ---- - - - - .
diretor do SAM entre 1954 e 1956, deixou uma
Assistênci~ÕsMenores (~~)~ãopo d e.se~:~n t;~dida somentecomouma ~"l?!aex_t~a, intitulada SE_]:!gue, Co_rrupção e Verg<!nfza: ~~ (1956), sobre os
atit1,1de de ~~~~~_:._ Ç~i:t!r.a,li?~_d.9r de um governo ditatorial. Deve-se levar de;~andos que ocorriamnÕórgão e oreÍato d e suas t~ntativas infrutíferas
0

em conta que, há pelo menos três décadas, os "apóstolos" da assistência ~e deb_e lar a corrupção que imperava ~m todos os níveis hierárquico~ e
--
vinham defendendo o lema de-~uácentrak"âção em ~órgão quepassaria
- -- -- .
~ ter o controle sobre as ações dirigidas a esta população, tanto do setor
'
~s maus-tratos infligidos aos menores assistidos . Apesar d a h:~ignaç~o .
expressa pelo diretor citado, o SAM surgiu como uma tentativa de centra-
V.ú~li_co quanto do privado_. · /· ~-~~ assistência n o Distrito Fe-d eral e resolver os probli~as e"nfrent~dos
A criança pob re e su a família 12..assaram a ser obk_to de inúmEas ações pelo Juízo d e Menores na sua ação jurídico-social como, por exemplo, a
do gÕv;;;~arg_~~E.9...P.éríodo de_ 1940 a 19~ª.. Em 1940, o govem ~ ou ~e
i~ta cºoii.ti.nirldade ~os serviços p:r:esta~o,s( quando o ~enor es~dado
uma ~ítica de proteção materno-infan!il, tendo co:o:i:olneta a E..~E.ª5ªº e ?ª~si.ficado pelo Juízo n ão encontrava local adequado para ser educado
do futuro cidadão, de acordo com a concepção de cidadania da época, isto ou reeducado.
··-- ----------~--------~- ··- -~ .

é, a formaçãó do trabalhador como "capital humano" do país, através do A "organização de um aparelhamen to assistencial adequado" (Lou-
P...!~E_arO2..!.Q..Í!~êÍO~~C~o;;-~;it~-à-hier~qcia ~tr~~é; da educação da crian-
ça (P~~ira, 1992, p . 18). fustalou-se, éntão, o Q~partarnento N aéional_âã
Çriança (DNC_r), órgão responsável pela c_~or<l._~-~~~~-:l.~~~5~s <li?:gi~as
à criança e à família.
1

1
'*
, zada, 1940, p. 7) tornava-se uma necessidade urgente diante dos novos

.
conhecimentos médicos, psicológicos e p~_? -agógi~os_sobre as ~_a usas do
aband ono e da delinquência e dos métodos d e tratamento d e males que
. . ..
·-·- --- --- -- . .... . 1 assumiam proporções preocupantes, principalmente para os meios espe-
Os anos de 1942 e 1943 viram surgir diversas instituições de caráter cializados. Na década de 1930, os juízes de menores p ropu seram a criação
social e de âmbito nacional, governamentais ou privadas, associadas a ..-t, e/ou a reforma de instituições de assistência, visando a atender à finalidade
-- -r:z--

264 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 265

de educar ou reformar o menor, instihrições que estariam sob ~ control~ contrato com instihrições particulares para o encaminhamento de menores
t~~nico e_fisca_l_iz~çii_o_~~J_aj_zp. que passavam por sua triagem, somando ,33 "educandári?s", sendo que
Com a criação do Seryiço de Assistência a Menores _(SAM),__e.~ 1941, três deles colaboravam gratuitamente com o governo, recebendo em troca
'----- ·-- ·- ··· -···
pelo governo Getúlio Vargas, as funções_de orgai:üzar os serviços de as_sis- "orientação técnica e fiscalização" (op. cit., p. 1944, p. 16). O vínculo com
tência, fazer o estudo··-··· e ministrar o tratamento aos menores, as instituições particulares era praticamente o mesmo que existia desde o
. . .. - ·--· - -· ' •.. .. --.... ... .. .
, - . foram
-
retiradas ,
da alça4a dos j~~s, Mantiveram-se a cargo destes a fiscalização do regime II final da década de 20, obedecendo à seguinte classificação: a)_'.'estabeleci-
di·s~iplin?-re educativo dos internatos, de acordo com a legislação vig~nté 1).1.entos oficiais" (quatro estabelecimentos, somente para o sexo masculino);
(Gusmão, 1941, p. 50). ··· '._.. _,_, · -1 • . : (. • · · ·' b) "casas sob contrato" (cinco estabelecimentos para meninos); c) ~,órgãos ,..
de colaboração gratuita" (três estabelecimentos, dois para meninas e um
As ~~!ida_d~..5. -~9~~M, previstas no d~reto-lei que o instituiu, não
misto); d) "instituições particulares onde são internados menores mediante
representaram nenhuma novidade no campo das ideias e das práticas cor-
contribuição mensal per capita" (19 estabelecimentos, para ambos os sexos,
rentes no atendimento ao menor. Alguns serviços praticados pelo Juízo de
em separado); e) "órgãos subvencionados pelo governo e administrados
Menores do Distrito Federal foram e_n campados pelo novo Serviço e muitas .
por instituições particulares" (seis estabelecimentos, para o sexo feminino,
propostas de juízes voltadas para a reforma da assistência foram absor-
masculino e misto).
vidas pelo legislador. Portanto, com o $.AM;,_~ execução do atendiment? ·
As instituições contratadas eram, na sua maioria, do Distrito Federal, e
foi parcialmente s~parada da instância jurídic::!1, continuando, no entanto,
muitas já traziam a experiência do trabalho com o Juízo ou como Ministério
subordinada• ao Ministério da Justiça.
. 1
da Justiça. 9 SAM, quando foi criado, tinha sua ação restrita~ Capital da
Segundo o Decreto-lei n. 3. 799 de 5 / 11 / !941 que instituiu o~~, este _Repúb"li_ca, como se pode ver no item e de suâs.finalidades. Os Patronatos
tinha por fim: Agrícolas situados .em Minas Gerais recebiam menores encarn.inhados pelo
. .
~ . -·
Juízo do Distrito Federal e depois pelo SAM. O_~AM seria um" ~rgão central
a) sistematizar e orientar os serviços de assistência a m enores desvalidos
orientador", que, pela divulgação de normas de trabalhos e de resultados de
e delinquentes, internados em estabelecimentos oficiais e particulares; b)
estudos e pesquisas, proporcionaria aos"serviços estaduais a possibilidade
proceder à investigação social e ao exame médico-psico-pedagógico dos
de µi.o_ldarem suas instituições pelas da capital, _a lém de propiciar estágios,
menores desvalidos e delinquentes; c) abrigar os menores, a disposição do
Juízo d e Menores do Distrito Federal; d) recolher os menores em estabeleci-
para aperfeiçoamento do pessoal técnico das organizações estaduais ou
mentos adequados, afim de ministrar-lhes educação, instrução e tratamento ?1:unicipais" (Ministério da Justiça, 1946, p. 92).
sômato-psíquico, até o seu desligamento; e) estudar as causas do abandono e Somente em_1944, com o J:?e_creto·:l~i !)., 6.865 de 11/9 /1_944, ~ SAM
da delinquência infantil para a orientação dos poderes públicos; f) pro~over adq~iriu âmbito nacio1;1al, passando a "prestar aos menores desvalidos e
a publicação periódica dos resultados de pesquisas, estudos e estatísticas. infratores das leis penais, em todo o território nacional, assistência social
1
sob todos os aspectos" (art. 1º). Assim, ao invés de apenas abrigar meno-
Ç)SAM passou a ser resp()J.:l.Sável pela sistematização e orientação dos } res encaminhados pelo Juízo de Menores do Distrito Federal, competia,
"serviços de ~~s_istêr:tci~ a menor._es desvalidos e transviados", ficando os 1 naquele momento, ao SAM "abrigar menores mediante autorização dos
estabelecimentos federais (institutos e patronatos agrícolas) a ele subor- 1

Juízos de Menores" (art. 2º). No entanto~_:1-em o decreto-lei que lhe conferiu
dinados (Ministério da Justiça e Negócios Interiores, 1946, p. 92). Como já âmbito nacional e nem o regimento aprovado na mesma data tratavam da
ocorria antes, através do Juízo e do Ministério da Justiça, o SAM mantinha operacionalização do Serviço nas demais regiões do país.
A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 267
266 RIZZINI • PILOTTI

Na década de 50, havia pos_tos do SAM em vários estados _d o pflÍS, se- e_~l~ Ju_íz_o de Menores, nos estabelecimentos _oficiais e nos particulares
gundo Paulo Nogu~iraFiTho (1956, P· 266). Porém, o ex-diretor do Serviço contratados. No Rio de Janeiro, onde estava localizada a maior parte de
afirma em sua obra que,~()~ _e xceção de meia dúzia de estados, domina- sua rede de atendimento, o _SAM, nos anos de 1950 a 1953_, i1;te~:1-~:m 3.721
vam os 11núcleos de sinecuristas designados para cargos hipotéticos", isto menores contra 4.085 menores internados pelo Juízo de Menores do Distrito
é~-agê~cias do SAM que ~existiam de fato, a não ser para os efeitos de · federãJ., entre"1927 ~ 19iQ. o~ seja, p~ssados 23 anps, esses dado~ levam a
<:i~signação ~~pe~sq~l (~P- ~it., p. 241 ). Eram 11 ~~dos políticos", que por crer que o"aparelhamento assistencial" da Capital da República mél!1teve
prC?_ç1=1:taç~o re~~~i~ seu~ ord~:rta<l,~s do Tesouro, no}-~.io _de Janeiro, sem praticamente a mesma estrutura de que dispunha Mello Mattos na década
t;r nada a fazer, nem ao menos recebiam quaisquer instrução ou ordem de de 20. E o que constata o ~stro da Justiça Tancredo Neves na Portaria
trabalho. Q-1:!!!~~ _i:1:re~laridades ,foram constatadas por Nogueira Filho n. 248-A de 9/9/1953:
no.
processo de "expansão nacional" do SAM, como '
a falta
. . ...... --...de
- critérios
-· .. - .
na
comp'?sJçã-9_9-a "rede de educandários regionaisn e na definição de 11 d~s- "Convémressaltarquenãotendosido sequer resolvido oproblemana Capital
~ªJift9", fazendo com que estabelecimentos não voltados.para a internação da República, uma vez que a ª ~-r~9:e a_ssistencial do SAM é praticamente a
rp.esma do tempo em que estava o problema de menores exclusivamente afeto
~e "meninos e meninas sem responsáveis pelas suas vid~s 11, 9s "autênticos
ao JuízÓ de Menores, como pode aquele s~i:y~ço oficial ter âmbito nacional,
cl~svalidos"_,recebessem auxílios do SAJ-4 ou que os educandários contrata-
complexas e diferentes como são as situações peculiares às diversas regiões
dos atendessem ... -·
aos"falsos desvalidos",,
crianças
-· de-----
famílias com recursos, - de nosso vasto País" Ouí.zo de Menores do Distrito Federal, 1957, p. 147).
que através de pistolão ou corrupção internavam seus filhos diretamente
nos m_1:~ores 'educàndários ~anti.dos p~lo serviço: O ex-diretor denuncia O então juiz de menores do Distrito Federal, Alberto Mourão Russel,
que o SAM mantinha convênio com externatos em alguns estados, e com
- - • • ·- . • •. J - • - no artigo ao jornal Última Hora Oüízo de Menores do Distrito Federal, 1957,
E_ s colas-Normais,. Ginásios
, ---~ ... -- -
e Seminários ~m quase todos os..... estados. . .
Eram p. 145, artigo de 12/9/1953), defendeu a construção e a remodelação de
mais de_S0 ginásfos e mais de 20 seminários (op. cit., p. 251). "estabelecimentos destinados à proteção dos menores desvalidos, aban-
donados e transviados", os quafu, "precisam de escolas e não de simples
i
depósitos". Por escolas leia-se in_ternatos, que, apesar das críticas às suas
O atendimento: Sem Amor ao Menor - SAM 1· <:l_ef.iciências, defendia-se_~ sua remodelação e a expansão das vagas.
Ainternação de menores" desvalidos" e "transviad,os" encaminhados · ·
O SAM, no imaginário popular, alcançou uma fama tal que automa- pelos Juizados
----------.--- de Menores- constituiu o modelo
... ·- . .
básico de atuação
... . . - .
,. -
do SAM,
ticamente nos remete à imagem de uma enorme estrutura cuja atuação não sendo, porém, uma unanimidade no meio jurídico. A primeira Semana
representava mais uma ªE-:.1:~~ç_a à criança pobre do que propriamente de Estudos do Problema de Menores, organizada pela presidência do Tribunal
proteção. "EJ~s>~~_do Crime", "F~~~ica -~ e Criminosos", "Sucursal do In- de Justiça de São Paulo em 1947, e com ampla participação de juízes ~e me-
ferno", "Fábrica de Monstros Morais", "SAM-SemAmor ao Menor", são nores dos municípios do Estado de São Paulo, chegou à conclusão que "o
ri~:eJe~t~5~~j g__~e-o~ _ó rgão adqciriu comº tempo, notadamente partir ª prol_?.le~é:l d~ menores é, antes de tudo, um problema 4~ família" (Sampaio,
da d_écada de_l~_ª-_0. 1952, p. 264). Tal afirmativa levou o Subprocurador Geral de Justiça,Arruda
Não obstante a imagemnegativa que conseguiu cultivar, qSAM ~ a Sampaio, a defende{na segunda Semana de Estudos, o ~p~o à f~a, para.
~~__atu~ção ~::_l:ito ~es!rlta. O atendimento realizado pelo órgão era basi- que o"o 1.penornão se afaste do seu meio natural e impfesçindível". O autor,
camente constituído pela ~i~ge1.p e ~ter;,.ação dE:_I?enores ~ncaminh~d9.s apesar d~-admitir que o abrigo é um "mal necessário", critica a ânsia dos
..-.::~

268 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 269

juízes de menores em fundar "institutos para recolhimento de menores", este último formado de "elementos representativos da comunidade e dos
sob o risco de se "f~!?!icar menor abandonado" (ibidem). grupos sociais mais diretamente interessados nas atividades do Instituto"
Sampaio elege a" ação pre~n.,t_i~a" como a mais importante, buscando (ibidem).
"prevenir o perigo de ai~~ desvio" e "educar os meninos no comporta- Quanto aos objetivos pretendeu-se E:lTI?IDar "as interpretações tenden-
mento social". A prevenção do desvio seria feita através da criação de " obras ciosas e contraditórias" no atendimento realizado pelo SAM. Verifica-se, no
preventivas", tais como parques infantis e seções de semi-internados nos ~ntanto, queos objetivos e a estruturação do novo órgão~~ ;e diferenciam,
educandários, o que chegoü-a"ser feito em c~~os _isolados, por iniciativa_s de ein essência, aos do SAM, havendo somente uma preocupação em delinear
juízes de municípios do interior de São Paulo. Outras experiências foram com clareza e precisão as suas ~alidad~s e lhe dar maior autonomia d e
tentadas, como a realização de palestras nas escolas, concursos de traba- atuação.
lhos manuais, hortas e jardins, biblioteca circulante, portarias advertindo Assim, através do INAM, o Estado assistiria aos "menores transviados,
os pais da obrigatoriedade da frequência escolar e obrigando à matrícula desvalidos e desajustados", "integrando-os na normalidade social", através
escolar no curso de adultos os operários menores de 18 anos analfabetos da sistematização, manutenção e auxílio aos educandários, de acordo com
(Sampaio, 1952, p. 258). 1 os "princípios aplicáveis das ciências psicossociais e da _
t écnica atualizada
\do Serviço Social" (p. 293). Com o fim de concretizar os seus objetivos, o
Projeto previa para o Instituto um regime próprio de aquisição de bens e
utilidades, devendo prestar contas ao Tribunal de Contas da União através
Projeto de criação do Instituto Nacional de Assistência a Menores
(INAM) · 1 .,., .· do Ministério da Justiça e Negócios Interiores, promovendo a tão almejada
i' independência em relação ao Departamento Administrativo do Ministério
!
da Justiça.
Após ver lograda sua tentativa de reformar o SAM e neutralizar a ação
O INAM passaria a ter o controle direto sobre a assistência aos "meno-
dos" ~orais do SAM", Nog,-ueira Filho (1956, p. 293) passa a defender a sua
res desamparados" .Até as concessões de auxílios e subvenções do governo
substituição por um novo órgão- o INAM - Instituto Nacional de Assistência
a entidades públicas e privadas de assistência a esta população ficariam
a Menores. Não foi o primeiro a pedir a extinção do S.A11: dois antecessores -1 sujeitas a :parecerd.-.9 ~stih:~º' devendo este tambérnfisça1:!~!:.:.~-~~~ utiliza-
seus na direção apresentaram projetos ao Ministro da Justiça propondo a 1
ção (p. 294TQuãi-ito ao problema de pessoal, os" amorais d.9 SAM", seriam
criação de um "Instituto", com autonomia administrativa e financeira . transferidos ~x-oficio para outros órgãos da administração pública.
O anteprojeto de lei da criação do INAM, elaborado por urna comissão Meses após a apresentação do anteprojeto de lei que "transforma o
presidida por Paulo Nogueira Filho, foi apresentado pelo presidente da· Serviço de Assistência a Menores (SAM) em Instituto Nacional de Assis-
República ao Congresso Nacional em 17 / 8 / l?_55_~ tência a Menores (INAM)" ao Congresso, foi instaurada urna ÇQ~is-ª.fiO
Para o ex-diretor, não se tratava de uma mera alteração de siglas - as ra!lam.entar de Inquérito para apurar irregularidades ocorridas no SAM,
mudanças propostas no Projeto visavam a eliminar todos os empecilhos que tendo Nogueira Filho prestado dois depoimentos. A CPI, ao que parece,
impossibilitaram ao SAM cumprir o seu papel. A começar com a .extinção não apresentou resultados, ao menos, não ameaçou a existência do SAM.
da "figura de opereta do Diretor-Ditador do S.AM, todo-poderoso para os Somente seis anos~depois, após a realização de uma sindicância para no-
papà.lvos; fantoche oÜ marionete para os verdadeiros Senhores do Servi- vamente apurar irregularidades no SAM (Portaria.do Ministro da Justiça
ço" (p. 292). A proposta visava a criação de uma diretoria e um conselho, de 21/3/1961), a proposta de extinguir o Serviço foi retomada, tendo sido

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270 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 271
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nomeada um.a corrússão para elaborar o anteprojeto de criação da FNBEM falta de cuidados e da má convivência, sendo enviada para uma das ins-
- Fundação Nacional de Bem-Estar do Menor, aprovado em pr.im.eiro de tituições previstas. Não é possível precisar até que ponto estas iniciativas
dezembro de 1964 e transformado na Lei n. 4.513.16 f()ra.!11-.ll.IlPlantadas, pois as e~tatísticas do Departamento no Estado Novo
não eram sistemá~cas. Pereira se limita a informar que em alguns lugares
o projeto foi levado adiante (op. cit., p. 17).
Aproteção à maternidade, à infância e à adolescência: O DNCr sofria com a falta de recursos, fato que o levou a associar-se à
o Departamento Nacional da Criança (DNCr) , ·"· ' ·. Legiã;Brasileira de Assistência (LBA), criada pelo governo federal em 1942,
c~J~ escop~ de atuação incluía a ~~!!:!f!.Üd9-de, a infância e a adolescência,
O d ecreto-lei que fixou as bases da organização da proteção à materni- enfim, a população" economicamente desajustada" (op. cit., p. 278). ALBA,
dade, à infância e à adolescência no país deternúnou a criação de um óq~ão diferentement~-d.Ó DNCr e do SAM, possuía rece~ta própria, advinda de
fed._~_r_~~-~.? .~~r~.ª~~-~~~!~~~-~~?~~<:~Ç~~_e§~li~e, para coordenar as con_tribuições compulsórias dos trabalhadores sindicaliza~os, além de estar
atividades relativas à nova política: o Departamento Nacional da Criança vinculada à "autoridade moral" da pr.im.eira dama. O D~_s:r conseguiu
(Decreto-lein. 2.024 de 17 /2/1940).A-o D.NC::r competia estudar e divulgar
meios com a LBA para financiar obras de seu programa, principalmente
o"problemasocialdamatemidade,dainfânciaedaadolescência"(art.5º),
os postos de puericultura.
e conceder
· - -·
auxílio--federal aos Estados. ..e subvenção
.... .... --·- · -- ...-- ·-·- -· -
às instituições
. .
de
-
caráter
privado para a manutenção e desenvolvimento de serviços dirigidos a esta Qual
...._....
a-- relação do DNCR com
-·- .. -- -· .... --
o SAM e com a justiça
- - ---- .. . - ·---- . .
de menores?
·• - - .. - .
O
população, bem como fiscalizar a execução.dos mesmos. decreto-lei que instituiu o Departamento previa a ~~9p_e:r:.a_ção deste com
~ justiça de menore._s, de modo que à "criança" sob vigilância da autori-
Segundo Pereira (1992, p. 17), o objetivo do Departamento era "salyar
dade judiciária esteja assegurada "a mais plena proteção" (art. 16). Neste
~.!.anaj!J~!.P.':1:1-"<il_pr~t«:!g~r .ª sr,~an_ça". Para tal, estava prevista a ~.!'i ~.ç~_9 d_e
uma rede de instituições, localmente dirigidas por organizações privadas, _momento, o texto do decreto abandona o termo" criança" e adota o termo
"roas·orientadas pelos preceitos científicos elaborados pelo DNCr. A Junta '~enor", deixando claro que se trata de uma outra parcela da população,
Municipal da Infância, formada por ativistas locais, como médicos, pro- alvo de medidas de outra natureza daquelas dirigidas à "infância", como,
fessoras, "senhoras da sociedade", religiosos, a~toridades públicas, teria a, . -
por exemplo, a internação para a elaboração de "diagnóstico", como de-
termina o parágrafo único do artigo 17:
,
função de distribuir subsídios às organizações privadas e de fiscalizá-las. .,_

As unidades de atendimento, dirigidas às gestantes, às mães e seus filhos


seriam os postos de puericultura, as creches, os jardins de infância, as ma- "Serão instituídos, nas diferentes unidades federativas, centros de obser-
ternidades, os hospitais para crianças etc. vações destinados à internação provisória e ao exame antropológico e psi-
~~lógico dos menor~5- cujo tratamento ou educação exijam um diagnóstico
O fim últi.ino destas instituições seria ~anter a estabilidade da família
especial".
- Estado e sociedade se unem para evitar que ela seja atingida por qualquer
ameaça. Q_p_~p_(:!_1_9:~-~~~-~-p~~E:&é.id_o_: ~la é. responsável pelo~.c~~~c!9_s
-!!~.i~os ~ p~laeducação moral da criança, devendo para isso permanece._r ~~
~~-ª· Não sendo possível, a criança deveria ser resguardada dos perigos da .
_O DNCr deveria receber os menores sob custódia judiciárja, mas o
próprio órgão reconhecia o controle dos juristas sobre .
este grupo, uma
espécie de acordo tácito sobre o objeto de intervenção de cada setor do
1

poder público. Os médicos puericultores do Departamento incorporaram


16. A partir da década de 1970, a sigla da fundação passa a ser FUNABEM.
elementos do discurso dos juristas, cujos textos eram publicados pelo órgão.
7
1

272 RIZZINI • PILOTTI A ARTE DE GOVERNAR CRIANÇAS 273

Sob uma política de boa vizinhança, os juristas eram convidados a parti- ALegião Brasileira de Assistência (LBA)
cipar das cerimônias das Semanas da Criança, comemoração promovida
anualmente pelo Departamento. Para os juristas, o ".rn.enor abandonado" era ALBA, criada em 1942 pela primeira dama Darcy Vargas com o obje-
resultado do esfacelamento da família, e a ~C?J1:1ç~o estava no internamento tivo de assistir às famílias dos convocados na II Guerra Mundial, assumiu
e no reforço das leis, visão corroborada pelos médicos puericultores. Na como prioridade a a.~s~5._tê1:1cia à maternidade e à infância a partir de 1945,
divisão de atribuições, o programa do .P .NCr estava voltado para a ação apressando o fim de seus compromissos com as famílias,dos convocados.
preventiva, visando evitar a ruptura na estabilidade familiar e a produção Os Estatutos da LBA já previam a sua manutenção nos tempos de paz,
de "menores abandonados" (Pereira, 1992, p. 257). através do redirecionamento de suas ações para os problemas da mater-
A divisão de ah·ibuições entre o fy!~istér~~ da Educação e da Saúde nidade e da infância necessitada. Suas ações tinham um caráter nacional,
(MES) e a esfera jurídica gerou algumas tensõgs. O MES, através de seu Mi- tendo a primeira dama convocado, através de telegrama, as esposas dos
nistro, Gustavo Capanema, r!;!quisitou para si o controle sobre a assistência governadores estaduais e dos interventores federais para instituir em
pública dirigida ao menor, tentando re!i!á:-la da esfera do jurídico, ou seja, cada estado uma representação da recém fundada Legião Brasileira de
das S~c~etarias de Justiça e dos juízes de menores, que não eram vistos por Assistência.
ele como autoridades capacitadas para administrar a questão. Com um O relatório do ano de 1943 das atividades da LBAno Estado do Rio
subterfúgio que o fazia ~ubstituir o termo "recolhimento de menores" por de Janeiro apresenta os planos da Comissão Estadual, presidida por Al-
"estabelecimentos de ensino", Capanema entendia que o MES deveria zira Vargas do Amaral Peixoto, filha da primeira dama. O primeiro plano
deter o controle sobre estes estabelecimentos. O Ministro propôs a criação refere~se à assistência permanente, a subsistir após o término da guerra. O
do "Patronato Nacional de Menores", alegando que inexistia um aparelho segundo plano, de natureza emergencial, dada a necessidade de apoiar as
nacional coordenador e orientador dos "estabelecimentos de ensino", já "classes armadas", foi considerado prioritário, ficando o primeiro plano
que o SAM atuava somente no Distrito Federal. sujeito às disponibilidades de verba. O "plano definitivo" buscava levar
A proposta de Capanema não teve repercussão no governo. Pereira à "imortalidade a obra legionária", objetivo perseguido pela primeira
(1992) avalia que, provavelmente, o projeto encontrou resistências junto ao presidente da LBA, Darcy Vargas, ao convocar em 1945 o Conselho Deli-
Ministro do Trabalho Marcondes Filho, que acumulava a pasta da Justiç\.J berativo do órgão para estudar os novos rumos a serem seguidos. A insti-
Além do que, pouco tempo depois, mais precisamente em.!944, o S.AM,.:. tuição assumiu como finalida_de prestar somente assistência à infância e à
órgão subordinado ao Ministério da Justiça, adquiriu