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Abordagem Qualitativa x Abordagem Quantitativa

Falso dilema? Subjetividade e objetividade na pesquisa


Vanda Bellard Freire

Partimos do pressuposto de que toda pesquisa reflete a visão de mundo do


pesquisador, portanto, expressa alguns valores e convicções ideológicas que priorizam
um olhar predominantemente objetivista ou subjetivista sobre o fenômeno estudado.
Colocado esse pressuposto, algumas questões parecem aflorar: em que medida os
métodos “quantitativos” dão conta de um objeto estético, como a música? Serão os
métodos e a abordagem “qualitativa” mais adequados à pesquisa em música? Por que
discutir sobre as possibilidades de abordagem “quantitativa” e “qualitativa” em música?
Ao analisarmos essas questões, consideramos, inicialmente, que as abordagens
chamadas de qualitativas (subjetivistas) diferem essencialmente das abordagens não
qualitativas ou quantitativas (objetivistas), desde a formulação das questões, portanto
desde o início da pesquisa e, consequentemente, dos objetivos a que se propõe.
Na verdade, conforme o pressuposto que assumimos no início deste capítulo, o
enfoque de pesquisa a ser empregado antecede, de certa forma, o início da
investigação, pois reflete a visão de mundo do pesquisador, que está implícita nas
questões que ele formula, nos objetivos e delimitações que estabelece. Ou seja, em seu
"nascedouro", a pesquisa já se perfila com uma dessas abordagens, pois sua visão de
mundo preexiste às questões da pesquisa, mesmo que o pesquisador não tenha plena
consciência disso.
A pesquisa “qualitativa”, contudo, conforme já apontado anteriormente, não é
antagonista da pesquisa “quantitativa”. Elas se movem de forma diferente, têm
perspectivas e objetivos de natureza diferente e, eventualmente, uma abordagem pode
contribuir para a outra. Por que então a denominação “qualitativa”? Porque essa
abordagem de pesquisa privilegia o nível subjetivo e, consequentemente, interpretativo
da pesquisa, ao contrário de outras abordagens que privilegiam maior objetividade,
valorizando a explicação objetiva, a relação causa-efeito, a mensuração etc., em vez da
interpretação?
A abordagem qualitativa desloca o foco central da pesquisa do “objeto” para o
“sujeito”. Ilustramos esse deslocamento citando uma passagem do livro de Laborde
(2005, p. 91), na qual o autor, ao descrever uma pesquisa realizada sobre improvisações
cantadas na cultura Basca, recorre a Schutz (1987) para enfatizar a importância de
deslocar a atenção da ação como ato efetuado (como ato “em si”), para a ação como o
ato de agir ou em curso, concluindo que “cada um de nós faz a experiência”. Laborde
situa, na pesquisa, os diversos atores e suas subjetividades como foco central. Esse
exemplo evidencia o deslocamento do foco das pesquisas qualitativas para o sujeito que
interroga e investiga, ressaltando, assim, seu caráter predominantemente subjetivo.
Cabe ressaltar que não há objetividade sem certa dose de subjetividade e vice-
versa, portanto a pesquisa dita qualitativa não pressupõe um alheamento da realidade
nem a ausência de certa dose de objetividade. Por outro lado, a pesquisa não pode ser
totalmente objetiva, pois há, inevitavelmente, alguma dose de subjetividade envolvida.
Não é o objeto de pesquisa quem "define" o tipo de abordagem de pesquisa, e sim
a visão do pesquisador e seus propósitos investigativos, em um sentido mais amplo. Ou
seja, os possíveis objetos de pesquisa não trazem, em si, uma “pré-moldagem”, quanto
ao enfoque de pesquisa que lhe seria “mais favorável”. Ao contrário, é o olhar do
pesquisador e a natureza das indagações que ele formula que direcionam a pesquisa.
Por exemplo, uma situação de ensino de música pode ser avaliada ou explicada
mais objetivamente a partir de determinados parâmetros quantificáveis (índice de
rendimento, percentual de aceitação, índice de evasão etc.).
Por outro lado, pode ser avaliada a partir da análise de aspectos não
necessariamente quantificáveis, como a visão dos alunos, a visão dos professores e as
considerações do próprio pesquisador, colhidas por meio de observação qualitativa ou
outros procedimentos metodológicos pertinentes (sobre métodos de pesquisa e
abordagem qualitativa, o capítulo seguinte se deterá com mais detalhes). Os objetivos
da pesquisa revelam o "perfil" da abordagem a ser empregada (não sendo, portanto,
uma decisão posterior ao início da pesquisa, mas subjacente às questões formuladas).
Um outro exemplo de abordagem objetivista (quantitativa), relativo à pesquisa na
área de composição musical, consistiria na busca de caracterizar o estilo de um conjunto
de obras de um mesmo autor a partir da identificação de aspectos objetivos,
quantificáveis, como o percentual de incidência de determinados acordes ou de
determinadas estruturas, ou até mesmo pelo aferimento acústico de alguns aspectos
das obras consideradas. Qualitativamente, ou sob um enfoque subjetivista, o mesmo
conjunto de obras poderia ser visualizado a partir da recepção das mesmas pelo
pesquisador ou por um conjunto de receptores (que podem ser intérpretes,
compositores, regentes ou até mesmo indivíduos sem formação musical sistemática),
buscando, a partir da percepção dos diferentes sujeitos, desenhar um perfil estilístico
das obras em questão. Em ambos os casos, a análise deverá estar fundamentada
teoricamente, e suas diferenças estarão cunhadas desde o início pela visão de mundo
do pesquisador, pelas questões que ele formula e pelas respostas que pretende obter.
As questões que deram início a essas pesquisas citadas como exemplos
hipotéticos podem até se assemelhar, mas diferem essencialmente quanto ao nível de
objetividade ou de subjetividade levados em conta. E é justamente a intensidade maior
ou menor desses aspectos que leva a pesquisa a ser classificada, muitas vezes, como
“qualitativa” ou “quantitativa”, em que pese o reducionismo a que esses “rótulos”
induzem.
Ibarretxe in Diaz (2006, p. 24) descreve, com base em diferentes autores, três
paradigmas de pesquisa encontráveis no âmbito da pesquisa em educação e em ciências
sociais, mas que podem ser estendidos às demais subáreas de pesquisa sobre música. O
autor também não envereda pela dicotomia quantidade versus qualidade, buscando
visualizar o tema por outro ângulo, a partir da definição de paradigmas de pensamento:
• Paradigma positivista, que envolve uma metodologia quantitativa e que busca
explicar, controlar, predizer os fenômenos, verificar teorias, descobrir leis para regular
os fenômenos.
• Paradigma interpretativo, cuja metodologia é qualitativa e que procura
compreender e interpretar a realidade, os significados atribuídos pelas pessoas, suas
intenções e ações.
• Paradigma sociocrítico, com uma metodologia preferentemente qualitativa, que
se propõe identificar o potencial de mudança, emancipar sujeitos, analisar a realidade.
Ibarretxe aponta os enfoques predominantes de investigação (quantitativo e
qualitativo), como representantes das duas tradições de pesquisa nas ciências sociais e
humanas (a positivista e a interpretativa). Ressalta, contudo, o perigo de que se
considerem as duas metodologias como dicotomias conceituais ou como enfoques
totalmente opostos, observando que, em vez de considerá-las como polos opostos,
convém reconhecer níveis de gradação em cada uma dessas abordagens.
Flick (2009) também aborda as diferentes linhas de abordagem metodológica em
pesquisa, identificando-as como qualitativas ou quantitativas, embora também
reconheça limitações nessa categorização. O autor observa que há um crescimento
recente das pesquisas qualitativas e relaciona esse interesse crescente à pluralização
atual das esferas de vida e as tendências epistemológicas do pensamento pós-moderno.

A mudança social acelerada e a consequente diversificação das esferas de


vida fazem com que, cada vez mais, os pesquisadores sociais enfrentem
novos contextos e perspectivas sociais. Trata-se de situações tão novas para
eles que suas metodologias dedutivas tradicionais - questões e hipóteses de
pesquisa obtidas a partir de modelos teóricos e estadas sobre evidências
empíricas - agora fracassam devido a diferenciação dos objetos. Desta forma,
a pesquisa está cada vez mais obrigada a utilizar-se das estratégias indutivas.
Em vez de partir de teorias para testa-las, são necessários “conceitos
sensibilizantes” para a abordagem dos contextos sociais a serem estudados.
Contudo, ao contrário do que vem sendo equivocadamente difundido, esses
conceitos são essencialmente influenciados por um conhecimento teórico
anterior. No entanto, aqui, as teorias são desenvolvidas a partir de estudos
empíricos. O conhecimento e a prática são estudados enquanto
conhecimento e práticas locais (Geertz, 1983). (Flick, P· 21).

Flick (p. 21) também analisa a pesquisa quantitativa e observa que os princípios
norteadores da pesquisa e do planejamento nessa linha de abordagem em pesquisa são
utilizados com as seguintes finalidades:
• Isolar claramente causas e efeitos, buscando, ao máximo, controlar as condições
e as relações em que os fenômenos estudados ocorrem a fim de melhor classificá-los e
garantir a clareza e a validade das relações causais identificadas.
• Operacionalizar adequadamente relações teóricas.
• Medir e quantificar fenômenos (por exemplo, classificando os fenômenos de
acordo com sua frequência e distribuição).
• Desenvolver planos de pesquisa que permitam a generalização das descobertas
e permitam formular leis gerais, o que implica em minimizar, tanto quanto possível, as
influências do pesquisador, do entrevistador etc., buscando garantir a objetividade do
estudo (o que implica em desconsiderar, muitas vezes, grande parte das opiniões
subjetivas, tanto do pesquisador quanto dos indivíduos submetidos ao estudo).
Essas características descritas por Flick relacionam-se à realização de
levantamentos e métodos quantitativos e padronizados (já que se busca,
frequentemente, nessa linha de abordagem, identificar padrões de ocorrência, sua
frequência e distribuição, por exemplo) e a um interesse especial em aperfeiçoar os
instrumentos de coleta de dados e de análise estatística dos mesmos. Divergem,
portanto, das pesquisas eminentemente subjetivistas.
Observa-se, pela análise de Flick, que o tipo de interesse (e, portanto, de questão
de pesquisa) que conduz a uma abordagem objetivista é essencialmente distinta dos
interesses e questões que conduzem a uma abordagem predominantemente
subjetivista, cujas respostas não dependem, necessariamente, de padronização ou de
quantificação.
Outros autores que abordam a temática da polarização entre pesquisa
quantitativa e pesquisa qualitativa, como Santos Filho e Gamboa (2002), já citados,
também enfatizam a implicação das visões de mundo implícitas ao processo de pesquisa
e acrescentam que

[...] as opções de pesquisa não se limitam à escolha de técnicas ou métodos


qualitativos ou quantitativos, desconhecendo suas implicações teóricas e
epistemológicas. As opções são mais complexas e dizem respeito às formas
de abordar o objeto, aos objetivos com relação a este, às maneiras de
conceber o sujeito, aos interesses que comandam o processo cognitivo, às
visões de mundo implícitas nesses interesses, às estratégias de pesquisa, ao
tipo de resultados esperados etc. (p. 9).

Quanto ao relacionamento ou antagonismo entre essas principais tendências de


pesquisa, Santos Filho e Gamboa identificam a existência de pelo menos três
posicionamentos no que tange à relação quantidade-qualidade:

1) os que argumentam a favor da incompatibilidade entre os paradigmas


científicos que estariam subjacentes aos enfoques quantitativo e qualitativo;
2) os que defendem a complementaridade entre esses enfoques (diversidade
complementar);
3) e os que defendem a tese da unidade possível entre esses paradigmas, através
de sínteses entre ambos.

Os autores procuram substituir a análise dessa polarização entre qualidade e


quantidade pela discussão epistemológica (relativa às teorias do conhecimento
envolvidas) e pela análise da possibilidade de identificação de um terceiro
posicionamento. Esse terceiro foco corresponderia ao das teorias críticas, que, a partir
de um substrato dialético, visualizam um movimento incessante entre qualidade e
quantidade, a partir da aplicação de princípios como os de síntese de contrários e de
movimento, que têm sempre em vista as possibilidades de transformação.
Essas considerações de Gamboa e Santos se aproximam das de Ibarretxe. Ou seja,
não há como desconhecer que há um debate, no ambiente científico, sobre os enfoques
qualitativo e quantitativo, mas também não há como desconhecer que a simples
polarização entre esses enfoques é um tanto simplista, deixando de lado aspectos
importantes.
De qualquer forma, os autores, em geral, reconhecem que o predomínio de
características como subjetividade ou objetividade estão por trás dos enfoques
qualitativos ou quantitativos, e que mais importantes que as possíveis divergências
entre abordagens técnicas seriam as diferenças epistemológicas entre esses enfoques,
pois correspondem a diferentes visões de mundo e de propósitos de pesquisa. As
questões ligadas à crítica e à transformação social apontariam um terceiro caminho, que
é também marcado pela predominância do subjetivismo, e que tem a transformação
social entre suas prioridades.
O presente livro se identifica como entendimento de que abordagens de pesquisa
e procedimentos metodológicos predominantemente subjetivos ou objetivos não são
necessariamente antagônicos, podendo trazer contribuições mútuas, e que o debate
sobre essas questões pode, para a área da pesquisa em música, aportes instigantes e
renovadores. Cabe ressaltar, contudo, que os autores priorizam a abordagem
subjetivista.

Questões e sugestões aos pesquisadores iniciantes:


Sua questão de pesquisa parece indicar um caminho subjetivista ou objetivista?
Por que?
Procure identificar as ênfases “embutidas” em seus objetivos, para que você possa,
com clareza, conduzir seus caminhos de pesquisa:
• Se há ênfase em identificar características e estabelecer relação de causa e
efeito, como atributos “em si” da realidade, sua tendência está sendo objetivista.
• Se, ao contrário, sua tendência mais forte é para interpretar os fenômenos, e
não para identificar o que já “está lá”, a tendência que se anuncia é
predominantemente subjetivista.
Ou seja, se a ênfase está em identificar algo já contido na realidade e que deve
ser revelado pela pesquisa, a inclinação prevalecente é objetivista. Ao contrário, se a
tendência é para encontrar respostas sobre os fenômenos, consideradas como frutos
da interpretação do sujeito que pesquisa, o que predomina é o subjetivismo.

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