Você está na página 1de 6

1

GT2 - O MODELO NEOLIBERAL PARA A EDUCAÇÃO E A IMPLANTAÇÃO


DO “PROJETO MUNDIAR” NO PARÁ
Elen Lúcia Marçal de Carvalho - UFPA/Brasil elencarvalho@ufpa.br
Neli Moraes da Costa Mesquita1- UFPA/Brasil nelilogia@yahoo.com.br
Terezinha F. A. Monteiro dos Santos2- UFPA/Brasil tefam@ufpa.br

RESUMO

Neste artigo buscamos de maneira breve analisar as reformas educacionais implantadas


no Brasil, da década de 1990 até os dias atuais. Nosso objetivo é contribuir com a
discussão sobre o tema e para isso fizemos uso da pesquisa bibliográfica que mediante
produção acadêmica vem de maneira sistematizada, confirmar a tese de que se trata de
reformas orientadas pelo Capital com a intenção de garantir novos nichos para sua
perpetuação econômica, social e educacional. Assim, corroboramos que nosso objeto de
pesquisa “O Programa de Aceleração da Aprendizagem-Mundiar” coaduna-se com o
ciclo das novas reformas implantadas pela Secretaria de Estado de Educação – SEDUC,
conforme as orientações das diversas agências e organismos internacionais no trato das
políticas educacionais a serem implementadas nos países periféricos.

Palavras-chave: Neoliberal; Reformas Educacionais; Programa Mundiar.

Introdução

Este artigo tem como objetivo contribuir com a discussão sobre as reformas
educacionais iniciadas no Brasil, principalmente a partir da década de 1990 e cada vez
mais incisivas nas décadas de 2000 até os dias atuais e que se expressam localmente em
programas e projetos como o “Programa de Aceleração da Aprendizagem-
Mundiar”, nosso objeto de pesquisa no Mestrado Acadêmico concluído em dezembro
de 2018. São 30 anos de reformas que se inserem no contexto neoliberal com submissão
às políticas e recomendações do FMI e do Banco Mundial e que também modelam e
modificam significativamente a realidade da educação escolar pública brasileira, tudo
com base no mercado como garantidor do progresso.
Para Freitas “Chamar a reforma de “nova gestão pública” remete às formas de
gestão e ao mesmo tempo permite a ocultação dos reais promotores da “reforma”:
empresários compromissados com a agenda neoliberal do livre mercado e seus aliados”
(2019, p.55).

1
Discente do Programa de Pós- Graduação em Educação/ linha Políticas Públicas Educacionais-
Doutorado em Educação da Universidade Federal do Pará- UFPA. E-mail: nelilogia@yahoo.com.br
2
PhD em educação pela Universidade Metodista de Piracicaba- SP e pós-doutorado na UniRio no RJ e
pela Universidade de Aveiro- Portugal e professora Associada da graduação e pós-graduação da
Universidade Federal do Pará. E-mail: tefam@ufpa.br
2

Deste modo, este trabalho de pesquisa se desenvolveu com uma breve


contextualização das reformas educacionais implantadas no País, a partir da revisão da
literatura específica, bem como a partir da visitação ao site oficial da Secretaria de
Estado de Educação - Seduc, na intenção principal de desvelar as ações do Estado
efetivadas pelo alinhamento desta Secretaria ao modelo preconizado pelos organismos
internacionais quando se trata da educação básica e pública.

Contextualizando para melhor compreender.

A instauração da política neoliberal no Brasil, principalmente a partir dos anos


1990, com o governo de Fernando Henrique Cardoso (FHC), foi significativamente
influenciada pela enorme atuação dos grandes conglomerados empresariais
internacionais, a partir da defesa da liberdade de atuação no mercado e o cumprimento
de uma agenda global segundo a ideologia capitalista que preconiza como sendo
imprescindível a elevação da taxa de juros, a diminuição dos impostos sobre os altos
rendimentos, a criação de níveis de desemprego massivo, o fim do controle sobre fluxos
financeiros, o lançamento de um amplo programa de privatização e acelerado corte dos
gastos públicos.
Essa foi a estratégia usada pelo capitalismo depois da recessão vivenciada nos
anos 19703.
Nesse contexto, o discurso oficial que respalda as reformas neoliberais tem sido
a urgente necessidade de enxugar o Estado que se encontra sobrecarregado e
insustentável financeiramente, pois só assim o Estado tem as condições objetivas de
garantir a prestação dos serviços públicos com mais qualidade e efetividade, nem que
para isso transfira a responsabilidade desses serviços às organizações não
governamentais. Esse discurso é alimentado pela ideia de que há desperdícios dos

3
Nos anos 1970, o conflito entre as demandas democráticas por justiça social e as demandas capitalistas
por distribuição segundo a produtividade marginal, ou “justiça econômica”, se deu primordialmente nos
mercados de trabalho nacionais, onde a pressão salarial dos sindicatos, no contexto de regimes de pleno
emprego politicamente garantidos, provocou inflação acelerada. Quando aquilo que era, no fundo, uma
forma de redistribuição mediante desvalorização da moeda corrente se tornou economicamente
insustentável, forçando os governos a extingui-la com um alto risco político, o conflito ressurgiu na arena
eleitoral. A partir daí ele ocasionou uma disparidade cada vez maior entre gastos públicos e receitas
públicas e por consequência uma dívida pública rapidamente crescente, em resposta a demandas dos
eleitores por benefícios e serviços para além daquilo que uma economia capitalista democrática poderia
ser capaz de conceder ao seu “Estado taxador” (Streeck, 2012, p. 18).
3

recursos públicos por conta da pouca fiscalização e compromisso de seus servidores que
incham a máquina pública por conta de seu número excessivo.
Para Freitas (2018, p. 31), “O neoliberalismo olha para a educação a partir de
sua concepção de sociedade baseada em um livre mercado cuja própria lógica produz o
avanço social com qualidade, depurando a ineficiência através da concorrência”. Tudo o
que o mercado deseja, a livre concorrência sendo garantida pelo Estado, numa violenta
inversão de valores sociais.
Por isso, vivenciamos tempos de verdadeira precarização da educação em suas
diversas expressões, como por exemplo, a aprovação da proposta de Emenda
Constitucional que enfatiza a necessidade de impor limites aos gastos públicos pelos
próximos 20 anos, tendo como base o orçamento do governo em 2016.
No Pará, a estratégia do governo estadual foi mobilizar um grande número de
atores públicos e privados, nacionais e estaduais, além de agentes locais e que teve o
objetivo de promover, segundo discurso oficial, ”a melhoria da qualidade e expansão da
educação do Pará”, a partir de uma articulação mais ampla denominada “Pacto pela
Educação”.
Assim, a Seduc deu concretude ao Pacto a partir, conforme informações
disponíveis no site oficial, da execução do “Programa de Melhoria da Qualidade e
Expansão da Cobertura da Educação Básica do Estado do Pará” viabilizado com a
garantia dos recursos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que financia
57,3 % de um investimento total de 351 milhões de dólares (201 milhões do
financiamento concedido ao Estado pelo BID e 150 milhões de dólares da contrapartida
do Tesouro Estadual conforme o contrato 2933/OC-BR e assinado em 16 de dezembro
de 2013).
Nesse movimento percebemos a ênfase da lógica produtivista do mercado que
define e orienta as políticas educacionais como sistemas de avaliação de desempenho e
mensuração da proficiência dos alunos matriculados, um conhecimento voltado para
saber executar, saber usar a técnica, há a priorização do quantitativo em detrimento do
qualitativo que poderia ter como expressão, mais sociabilidade, mais pluralismo, mais
tempo na escola, melhores condições de trabalho, mais verbas para a educação, maior
participação da comunidade, entre outras. Essas reformas têm mesmo caráter educativo?
Como elas tem se efetivado nas escolas estaduais a partir de uma proposta intersetorial,
intergovernamental e de parceria público-privada? Isso é o que buscaremos desvendar.
4

O Mundiar como componente do Programa de Melhoria da Qualidade da


Educação no Pará e as Parcerias Público - Privadas.

Em pesquisa realizada por Mesquita (2018) constatamos que em 2013, o Estado


do Pará, via Seduc, celebrou parceria com a Fundação Roberto Marinho (FRM) que
vem desde 1997 atuando em 10 Estados da federação com uma rede de parcerias
público/privado que cada vez mais se mostram inerente as recomendações centrais. O
Telecurso é uma marca da FRM e o Projeto Mundiar tem sido implementado na rede
pública do Estado a partir dessa parceria
Deste modo, em 2014 o projeto Mundiar iniciou - se com mais de 2 mil alunos e
em 2015 esse número passou para 18 mil, no ano de 2016 atendeu mais de 20 mil e a
meta era chegar a pelo menos 40 mil em 2017, e já envolve pelo menos 709 professores,
conforme informação disponível no site oficial da Seduc.
O projeto prioriza a atuação do professor unidocente, ministrando em blocos ou
módulos, todas as disciplinas que compõem o currículo e, ao fazer uso da teleaula,
muitas vezes cala o aluno, limitando a este a condição de telespectador, ficando a
relação professor/aluno mais frágil, porque o silêncio é necessário para que haja melhor
aproveitamento das aulas televisionadas. Assim, podemos notar que existe uma
instabilidade entre os sujeitos sociais envolvidos e os que não estão envolvidos
diretamente no momento da execução desses projetos que chama a atenção.
A escola continua sendo um espaço apenas do discurso de inclusão que deve ser
visto com cautela, por via de regra, pode estar a serviço da exclusão ou de um tipo de
inclusão, a qual Sawaia (2001) chama de “inclusão perversa”, é uma inclusão de
sujeitados, mas não de sujeitos históricos que agem, exprimem, interagem e
transformam a realidade, a partir de si mesmos.
O que nos chama atenção também é o caráter segregacionista que empiricamente
esses projetos apresentam, pois ao fomentar a ideia de classe exclusiva, isto é, preparada
para as teleaulas com horário de intervalo diferenciado da educação regular,
impossibilitam uma interação diária e mais próxima com os demais alunos da escola
regular, além de suscitar generalizações absurdas e preconceituosas, pois ao serem
implementados sem os devidos esclarecimentos junto à comunidade escolar, dificultam
a compreensão de sua especificidade por parte dessa comunidade que tende a
5

estigmatizar os alunos atendidos pelo projeto, pois esses são vistos como atrasados,
preguiçosos, alunos de pouca inteligência e culpados pelo próprio infortúnio. No dizer
de Martins (2008, p. 115) “há uma solidão na implementação de suas atividades
(ausência de suportes físicos e humanos) e ainda novas formas do fazer pedagógico”
pois:
O novo paradigma supõe, também, um novo papel do professor, ou seja,
da mesma forma que, para os alunos, oferece-se um kit de habilidades
para sobrevivência, oferece-se ao professor um kit de sobrevivência
docente (treinamento em métodos e técnicas, uso de livro didático,
formação pela EaD). A posição do Banco Mundial é pela formação
aligeirada de um professor tarefeiro, visando baixar os custos do pacote
formação/ capacitação/ salário (LIBÂNEO, 2012, p. 20).

Portanto, podemos verificar a grande contradição existente na letra dessas


reformas, traduzidas em programas e projetos, pois de um lado se mostram redentoras
da educação, assumindo um caráter salvacionista e de outro, quando da sua efetividade
no chão da escola, tem se mantido como espaço de exclusão para alunos e professores,
pois reduzem ainda mais o diálogo. Eis- nos um grande desafio.

Considerações finais.

As leituras feitas a fim de analisar as diversas reformas instituídas no Brasil ao


longo dessas décadas nos anos de 1990 até os dias atuais nos permitem considerar que a
agenda neoliberal para a educação escolar pública foi transformada em programas de
governo e com isso vem ocorrendo um verdadeiro desmonte no sistema educacional do
País e o incremento da desigualdade que acaba por se expressar nas diferentes formas de
exclusão, principalmente quando nos remetemos, por exemplo, ao acesso e permanência
no sistema público de ensino, isso porque, a obediência dos governos ao paradigma
neoliberal significa para o campo da educação um verdadeiro retrocesso e corrobora
com um modelo de educação que persiste em ser dual e por isso mesmo extremamente
cruel para a classe trabalhadora e seus filhos. O desmonte perpassa pela subjetividade e
solidariedade, nada mais é duradouro, sonhar com novas perspectivas de vida não cabe
na agenda neoliberal prevista aos pobres.
Atualmente, vivenciamos o avesso do que se idealiza como o melhor para a
educação escolar pública, vivenciamos tempos onde o professor é visto como um mero
6

doutrinador, o projeto de escola sem partido coexiste ao nosso projeto de escola


inclusiva e participativa, o certeiro corte de verbas tem amedrontado e sufocado
gestores públicos que estão na contramão do ideal neoliberal. O atual governo de Jair
Bolsonaro (2019 - ? ) deixa a todos nós, no desconforto e na insegurança contínuos, pois
trata-se de um governo com incrível impulso destrutivo ao desmontar os sistemas
públicos que custaram tão alto preço aos diversos movimentos instituídos ao longo
destas últimas décadas. Os tempos são difíceis, o mercado e o setor privado são vistos
como sinônimo de eficiência, qualidade e de equidade, numa total inversão de valores
sociais. Todo discurso por parte do atual presidente do país se apresenta de maneira
tosca, homofóbica, racista, obscurantista, desrespeitosa até mesmo com seus eleitores,
pois é autoritário e desconsidera a opinião de terceiros, como já se pronunciou
publicamente.
Estamos vivendo tempos de verdadeira barbárie na educação pública que alonga
o caminho do sonho de uma educação plural, reflexiva, crítica, inclusiva, democrática e
emancipatória.

Referências

FREITAS, Luiz Carlos. A reforma empresarial da educação: nova direita, velhas


ideias.1ª ed. São Paulo: Expressão Popular, 2018.

HARVEY, David. O neoliberalismo: história e implicações. 5ª ed. São Paulo: Edições


Loyola, 2014.

LIBÂNEO, José Carlos. O dualismo perverso da escola pública brasileira: escola do


conhecimento para os ricos, escola do acolhimento social para os pobres. Educação e
Pesquisa, São Paulo, v.38, n.01, p.13-28, 2012.

MESQUITA, Neli Moraes da Costa. A Implantação do Projeto de Aceleração da


Aprendizagem “Mundiar” como componente do “Pacto pela Educação do Pará”.
167f. Dissertação de Mestrado. Instituto de Ciências da Educação, Universidade Federal
do Pará, Belém, 2018.

SAWAIA, Bader. (org). As artimanhas da exclusão. Análise psicossocial e ética da


desigualdade social. 2ªed.Petrópolis: editora Vozes, 2001.

STREECK. Walfgang. As crises do capitalismo democrático. Novos estudos