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Forças Armadas e política, 1945-1964: a ante-sala do golpe

José Roberto Martins Filho

Reflexões sobre o papel das forças armadas dentro da sociedade são importantes
para se entender o golpe de 1964, dessa forma, Filho busca fazer uma análise da “ante-
sala” do golpe, demarcando um período de 1945 até 1964. Suas reflexões nos mostram
que o grupo militar ocupava um papel influente na sociedade, e não apenas se comportava
como um setor colocado “a parte” das decisões, como se entende em determinadas visões.
“A visão mais influente desse período defende que, até 1964, os militares aceitaram
voluntariamente um papel secundário na condução do país” (FILHO, 2008, p. 99).

Nessa ótica produziu-se o mito do poder moderador, apresentado por alguns


estudiosos, como Alfred Stepan, Oliveiros Ferreira e Raimundo Schaun. Os militares
ocupariam um papel específico, restrito e basicamente conservador, eles eram chamados
a intervir no cenário político brasileiro como uma forma de manter o sistema em
funcionamento. Os militares teriam legitimidade para intervir porém baixa legitimidade
para governar, fato que aceitam com certa resignação. A ideia de que os militares
ocupavam um papel secundário na sociedade e comportavam-se como uma “folha em
branco”, esperando uma situação favorável para ocupar um novo papel, ignora pontos
cruciais do envolvimento militar nos acontecimentos políticos em fases como, 1930,
1937, 1945, e demais eventos que resultaram em 1964.

As forças armadas constituíam um grupo influente politicamente desde 1930,


assumindo uma relevância maior a partir de 1937, e uma autonomia política a partir de
1945, “eles não dependeram dos civis para definir seus inimigos, suas doutrinas e seus
objetivos de unidade institucional e influência direta nos rumos do país” (FILHO, 2008,
p. 121). A influência dos militares no âmbito político já pode ser percebida na revolução
que derrubou a ordem oligárquica, característica que se estendeu ao pós 3º - um período
marcado por mudanças profundas em um curto período de tempo. Sob a liderança de Góes
Monteiro e Eurico Gaspar Dutra, a instituição militar, particularmente o Exército, passou
por uma fase de consolidação e organização, teve seu lugar garantido no orçamento
nacional, foi ampliada de 38 de 38 para mais de 90 mil homens, contavam com o serviço
militar obrigatório, ocupando assim um papel importante no aparelho estatal. Segundo o
autor, “depois do golpe de 1937, os militares passavam a ser os principais fiadores tanto
da ordem social como da política de desenvolvimento nacional do regime do Estado
Novo” (FILHO, 2008, p. 105)

A queda de Getúlio e o fim do Estado Novo teve como um dos atores principais
as Forças Armadas. A eleição de Eurico Gaspar Dutra para a presidência ainda marca um
período que a intervenção militar estava pautada na figura de determinados indivíduos. O
advento da guerra fria e o constante sentimento de combate ao comunismo - que já vinha
crescendo gradativamente - inaugurou uma fase entre os grupos militares mais
conservadores, criou-se uma perspectiva de uma intervenção mais orgânica dos militares
na política. É nesse contexto que houve a criação de uma importante instituição militar
no Rio de Janeiro.

A Escola Superior de Guerra (ESG) surgiu em dois momentos diferentes,


primeiramente em 1948 - como uma continuidade da ideia de 1942- e posteriormente em
20 de Agosto de 1949 quando foi estabelecida definitivamente. Mais do que uma escola
dedicada a conhecimentos de guerra a ESG surgiu tanto da necessidade dos chefes
militares de aprenderem assuntos dos altos ofícios civis, quanto da capacidade da
produção de ideias e ideologias por parte dos militares. "O mais correto nesse sentido,
seria dizer que o grupo que fundou a ESG partia da percepção da necessidade de estreitar
os laços entre elites militares e civis na luta contra o comunismo" (FILHO, 2008, p.107).
A instituição militar era marcada por divisões internas, a fundação da ESG significou uma
primeira tentativa da consolidação de uma ideologia que fosse hegemônica, como uma
forma de união institucional. A luta contra o comunismo, recorrente em vários âmbitos
nesse momento, mostra que o surgimento da ESG estaria ligado ao destino do Brasil que
é o destino da soberania do Ocidente, a derrota do "Império Universal da URSS". "Com
base nessa constatação, a doutrina hegemônica no seio das Forças Armadas vinculou num
pacto faustiano os objetivos da Nação aos objetivos da Segurança Nacional dos Estados
Unidos" (FILHO, 2008, p. 109).

Como dito anteriormente a instituição militar era marcada por divergências


ideológicas e isso pode ser percebido no momento do retorno de Vargas ao poder, que
marcou também uma nova eleição para o comando do Cube Militar. A polarização das
chapas repercutia a inquietação no qual se passava o país.
Os dois grupos que disputavam as eleições do Clube foram caracterizados por um
Coronel como "comunistas" e "democratas", porém as chapas - amarela e azul-
defrontavam correntes "nacionalistas" e "antinacionalistas". É importante analisar a
ligação entre a Escola Superior de Guerra e a chapa azul (antinacionalistas), é certo que
em muitos momentos esses dois grupos se confundiam e eram considerados duas faces
de uma mesma moeda, mas "os oficiais vinculados à ESG participavam das lutas no Clube
Militar, mas nunca perderam a noção de que seu principal objetivo, a longo prazo, era
definir uma doutrina e uma linha de ação para as forças armadas" (FILHO, 2008, p. 115).
Isso é um ponto essencial para se entender a construção do golpe de 64 e a participação
de grupos miliares diferentes.
Os acontecimentos que resultaram no golpe de 1964 nos permite afirmar que
diferente do que muito se prega, os militares não eram uma “folha em branco” aguardando
a existência de um grupo que fosse preencher suas páginas. A instituição militar marcou
presença na sociedade de maneira efetiva em diversos momentos. As divisões existentes
entre os grupos militares eram esquecidas quando a pauta se tratava de anticomunismo e
antinacionalismo, segundo o autor, “seus líderes não foram capazes de tonar vitoriosas as
tentativas de golpe de 1954 e 1961, não porque os militares temessem a intervenção
autônoma na política, mas porque as condições objetivas impediram uma maior união e
eficácia do campo afinal vitorioso em 1964” (FILHO, 2008, p.121).

Bibliografia
FILHO, João Roberto Martins. Forças Armadas e política, 1945-1964: a ante-sala do
golpe. In: FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucilia de Almeida Neves; (org.). O tempo
da experiência democrática: da democratização de 1945 ao golpe civil-militar de 1964.
2ºe.d. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.