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UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

Trabalho de conclusão de Disciplina: A inversão do ônus da prova no


Direito do Consumidor

Alunos: Matheus Philipe Silva de Faria, Marco


Antônio Moreira, Maria Clara Passos Trindade
Prof(a): Patrícia Serra
Disciplina: Direito do Consumidor
Direito 6° período de 2018

Novembro/2018
1. Introdução: Ônus da Prova

Comumente divide-se o ônus da prova em dois aspectos: o objetivo e o


subjetivo. O último, em suma, definirá qual das partes terá a responsabilidade a
produção de provas, já o primeiro é usado como uma regra de julgamento a ser
aplicada pelo julgador quando não há lastro probatório suficiente. Assim leciona
Leonardo Greco:

“As regras de distribuição do ônus da prova têm duplo objetivo:


primeiramente, definir a qual das partes compete provar
determinado fato, o chamado ônus subjetivo; em seguida, no
momento da sentença, servir de diretriz no encadeamento lógico
do julgamento das questões de fato, fazendo o juízo pender em
favor de uma ou de outra parte conforme tenham ou não resultado
provados os fatos que a cada uma delas interessam, o chamado
ônus objetivo” (GRECO, 2004)

A partir do momento que a prova é produzida, não importando por quem,


o juiz se baseará na prova sem a necessidade da aplicação da regra analisada.
Trata-se do princípio da comunhão da prova, que determina que uma vez
produzida, o conteúdo probatório pertence ao processo e não há produziu.

É importante salientar que, não necessariamente porque a parte que


detinha o ônus da prova não a produziu implica num estado de desvantagem,
pois existem hipóteses como a produção de prova de ofício, ou, através do
princípio anteriormente dito, prova produzida pela parte contrária. Mas o ônus
indica sim quem será o prejudicado diante da insuficiência de prova.

2. Regras de distribuição do Ônus da Prova

De acordo com art. 373, I e II do CPC, o ônus da prova pertence, via de


regra, ao autor, que deverá comprovar os fatos constitutivos de seu direito, a
matéria fática, já em sua petição inicial. Naturalmente, poderá o réu demonstrar
possíveis inverdades alegadas através de provas também, contudo se não o
fizer, não o prejudicará a ausência de provas, mas sim a produção de provas
pelo autor.
Caso o réu alegue, por meio de defesa de mérito indireta, um fato novo,
impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor, terá o ônus de comprová-
lo. O conteúdo do art. 373, II do CPC, quando o ônus da prova é carreado ao
réu, expressa justamente a situação quando só existe interesse por parte do juiz
a existência ou não de algum fato impeditivo, modificativo ou extintivo do autor.
O código de processo civil de 2015 inova nesta matéria quando atende a
teoria da distribuição dinâmica do ônus da prova, que já havia sido admitida pelo
STJ em casos de ações civis por danos ambientais, quando mesmo apesar de
o art. 373, em seus dois incisos, repetir as regras contidas no art. 333 do
CPC/1973, em seu § 1.º permite que o juiz “diante de peculiaridades da causa
relacionadas à impossibilidade ou à excessiva dificuldade de cumprir o encargo nos
termos do caput ou à maior facilidade de obtenção da prova do fato contrário, poderá o
juiz atribuir o ônus da prova de modo diverso, desde que o faça por decisão
fundamentada, caso em que deverá dar à parte a oportunidade de se desincumbir do
ônus que lhe foi atribuído.”
Esse sistema segue a lógica que o ônus da prova deverá ser daquele que
tem maior facilidade de realiza-la, logo dependerá de análise do caso concreto,
e para que o ônus não se torne uma oneração a parte, existe a vedação do §2º
do mesmo dispositivo legal, proibindo-a sempre que possa gerar situação em
que a desincumbência do encargo pela parte seja impossível ou excessivamente
difícil
3. Inversão do Ônus da Prova.

3.1. Inversão Convencional

Esse tipo de inversão decorre de um acordo de vontade entre as partes,


podendo ocorrer antes ou durante o processo, tendo suas limitações previstas
no art. 373, §3º do CPC em duas situações:

(I) recair sobre direito indisponível da parte.


(II) tornar excessivamente difícil a uma parte o exercício do direito.

Essa modalidade de inversão tem destaque no Direito do Consumidor


devido ao art. 51, VI do CODECON, que anula a cláusula contratual que
estabeleça inversão do ônus da prova em detrimento do consumidor.

A primeira vista, parece haver um desentendimento entre as normas,


impossibilidade de aplicar ambas, contudo, seguindo a doutrina, os tribunais
aplicam o art. 51, VI do CODECON quando este trouxer prejuízo ao consumidor,
não excluindo a possibilidade da convenção.

Conforme dito anteriormente, o ônus da prova serve para balancear o


litígio, incumbindo este papel aquele que tiver melhor chance de fazê-lo,
entretanto, qualquer cláusula contratual que atribua ao consumido um ônus
probatório que seria legalmente do fornecedor será considerada nula de pleno
direito.

3.2. Inversão Legal

O que chamamos de inversão legal o ônus da prova nada mais é que


aquela que está prevista no sistema normativo, prescindindo assim, qualquer
decretação judicial. No CDC, ela aparece em duas situações predefinidas.

A primeira situação de inversão legal do ônus da prova está prevista no


art. 14, §3º do Código de Defesa do Consumidor, nos casos em que se configure
defeito na prestação do serviço. Nesses casos, são as fornecedoras/prestadoras
de serviço que devem provar que não há dever de indenizar.

Art. 14. O fornecedor de serviços responde, independentemente


da existência de culpa, pela reparação dos danos causados aos
consumidores por defeitos relativos à prestação dos serviços, bem
como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua
fruição e riscos.

[...]

§ 3º O fornecedor de serviços só não será responsabilizado


quando provar:

I - que, tendo prestado o serviço, o defeito inexiste;

II - a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro.

A segunda, por sua vez, se manifesta através do art. 12 do CDC:

Art. 12. O fabricante, o produtor, o construtor, nacional ou


estrangeiro, e o importador respondem, independentemente da
existência de culpa, pela reparação dos danos causados aos
consumidores por defeitos decorrentes de projeto, fabricação,
construção, montagem, fórmulas, manipulação, apresentação ou
acondicionamento de seus produtos, bem como por informações
insuficientes ou inadequadas sobre sua utilização e riscos.

[...]

§ 3º O fabricante, o construtor, o produtor ou importador só não


será responsabilizado quando provar:

I - que não colocou o produto no mercado;

II - que, embora haja colocado o produto no mercado, o defeito


inexiste;

III - a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro.

Como esses dois casos configuram a inversão do ônus da prova expressa


em lei, não se faz necessária nenhuma decisão judicial, nem demonstração de
hipossuficiência e verossimilhança. Basta que se preencha o critério objetivo,
expresso nos dois artigos citados, que a inversão é automática.

3.3. Inversão Judicial

Em decorrência de uma reconhecida vulnerabilidade do consumidor,


quando busca afirmar um direito em face de um fornecedor de produto/serviço,
a regra que dita o ônus da prova, estabelecida pelo Código de Processo Civil,
sofre uma espécie de flexibilização, afim de proporcionar maior igualdade de
condições entre os litigantes. Dessa forma, quando tratamos de relação de
consumo, aplicamos sempre o CDC, e utilizamos o CPC de forma subsidiária.

O que acontece nessas situações é que o juiz pode, visando facilitar a


defesa dos direitos do consumidor, e paralelamente garantir a efetividade dos
direitos do indivíduo e da coletividade expressos no art. 5º da Constituição
Federal, inverter o ônus da prova, passando-o para as fornecedoras.

No entanto, para fazê-lo, o juiz deve observar dois requisitos


importantíssimos: o da verossimilhança e o da hipossuficiência.

A verossimilhança diz respeito à razoabilidade daquilo que o litigante


apresenta. Suas afirmações devem ser plausíveis e convincentes, para que o
juiz, em seu juízo de valor, evidencie-a, e decrete a inversão. A hipossuficiência,
por sua vez, diz respeito à vulnerabilidade do consumidor, não apenas financeira,
mas também uma deficiência de conhecimentos técnicos e de acesso à
informação.

4. Momento de Inversão do Ônus da Prova

Não existe um consenso entre os juristas acerca do momento em que


deve ocorrer a inversão do ônus da prova. Acerca dessa questão, existem três
correntes de pensamento. A primeira delas, defendida por Ada Pellegrini, admite
a inversão da prova por ocasião da sentença, afirmando que por se tratar de
regras de julgamento, cabe ao juiz a inversão ao término da instrução.

A segunda corrente, por sua vez, tendo como principal defensora Tania
Liz Tizzoni Nogueira, considera que o autor da ação, o consumidor, deverá
requerer a inversão já na inicial, e sendo assim, o juiz deverá se manifestar sobre
no primeiro despacho, que não se trata de mero despacho determinante da
citação, mas de decisão interlocutória, passível, portanto de recurso de agravo.
Segundo ela, dessa forma se propicia a defesa dos direitos do consumidor de
forma ampla.

Por fim, a terceira corrente, defendida, entre outros, por Humberto


Theodoro Júnior, afirma que o momento processual correto para a inversão do
ônus da prova é o despacho saneador, para que o magistrado possa prosseguir
de forma regular com o processo, livre de vícios ou questões que venham a tirar
o foco da análise do mérito da causa.

5. Bibliografia

GRECO, L. (julho/agosto de 2004). A prova no processo civil: do Código de 1973 ao novo Código.
Revista Forense, 374, pp. 183-199.

TARTUCE, F., & ASSUMPÇÃO NEVES, D. A. (2017). Manual de Direito do Consumidor (6ª
edição ed.). Rio de Janeiro: Forense.

SOARES, Leandro Sader. A inversão do ônus da prova no Código de Defesa do Consumidor.


2015. Disponível em: <https://www.direitonet.com.br/artigos/exibir/9015/A-inversao-do-onus-da-
prova-no-Codigo-de-Defesa-do-Consumidor>. Acesso em: 24 nov. 2018.

THEODORO, Fernanda. Inversão do ônus da prova e o CDC. 2013. Disponível em:


<https://www.migalhas.com.br/dePeso/16,MI188019,101048-
Inversao+do+onus+da+prova+e+o+CDC>. Acesso em: 24 nov. 2018.
CASTRO, Ana Luiza. A inversão legal do ônus da prova nas relações de consumo. 2017.
Disponível em: <https://analuizacastro.jusbrasil.com.br/artigos/518420598/a-inversao-legal-do-
onus-da-prova-nas-relacoes-de-consumo>. Acesso em: 24 nov. 2018.