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PRÁTICA E TEORIA DA GESTÃO ESCOLAR DE UMA ESCOLA DE ENSINO

BÁSICO

Maisa Kugler Rodrigues – Universidade da Cidade de São Paulo


maisakugler@yahoo.com.br
Jair Militão da Silva – Universidade da Cidade de São Paulo
jtmilitao@uol.com.br

Resumo: A estrutura organizacional de uma escola segue em geral o regimento escolar ou legislação
específica estadual ou municipal e diferencia-se conforme as concepções de organização e de gestão
adotada. A reflexão sobre a interação e a intervenção dos diversos sujeitos e de suas formas de
organização, busca uma efetiva apropriação da escola no sentido de promover uma gestão de políticas
públicas educacionais para a melhoria da qualidade de ensino. Nesse sentido, propõe-se a análise a partir
dos aspectos da cultura organizacional e da gestão, eixos norteadores das ações de um gestor escolar.
Palavras-chave: políticas públicas de educação; gestão escolar; cultura organizacional.

INTRODUÇÃO

O tema deste trabalho é a Gestão Escolar na escola pública municipal. Ao estudar o


fenômeno da gestão escolar destaquei um núcleo específico, relacionado com a questão da
qualidade do trabalho do diretor de escola: a competência científica e técnica na perspectiva de
transformação e crescimento profissional. O termo competência revela uma preocupação com o
desempenho das práticas do gestor escolar, tanto do ponto de vista do conhecimento, como do
ponto de vista da sua atitude. Pois é fundamental para o gestor escolar ter conhecimentos na sua
área de atuação e saber traduzi-los em resultados para a escola. O domínio dos conteúdos da
gestão escolar e das técnicas de gestão para articular esse conteúdo às características do contexto
escolar, permite ao gestor uma atuação mais segura na condução dos seus objetivos. Neste
trabalho destaco a competência científica e técnica do gestor escolar, na medida em que reflito
sobre uma prática que é a minha. A prática de gestão vivenciada na rede escolar atuando na
função de assistente de diretor de escola possibilitou uma observação mais atenta das
interpretações e formas de planejamento, organização e liderança desenvolvida nesse ambiente,
como elementos que influenciam os processos de mudança e de inovação educacional. Num
processo de mudança, a cultura organizacional da escola revela-se como elo de ligação com as
áreas de atuação da organização e da gestão escolar. A dinâmica do processo de mudança é
acompanhada de incertezas e ansiedade e seu desenvolvimento exige da gestão escolar novas
competências, valores e significados (Schneckenberg, 2000, p.113). Nesse sentido faço uma
análise a partir do fenômeno da teoria geral da administração e da gestão escolar considerando os
aspectos da cultura organizacional. A teoria geral da administração diz respeito à história da
organização do processo de trabalho e às novas demandas para o setor. A gestão escolar refere-se
às técnicas de gerência. A cultura organizacional aborda aspectos sociológicos, ideológicos e
históricos das instituições públicas no Brasil.

OBJETIVO

- Investigar a prática do gestor escolar à luz do referencial teórico adotado, sinalizando a


importância da cultura organizacional no ambiente escolar.
- Compreender a prática cotidiana do gestor escolar, buscando contribuir no debate sobre a
sua formação e profissionalização.

METODOLOGIA

No que tange às considerações metodológicas, destaca-se o caráter exploratório e


explicativo desta investigação, uma vez que procura esclarecer e aprofundar os conceitos sobre a
prática de gestão escolar e identificar fatores que contribuem para a melhoria da qualidade do
ensino. O procedimento metodológico foi:
-Observação participativa: A observação e a participação direta nas atividades da
unidade escolar como assistente de direção de escola (o que possibilitou o acesso a diversos
materiais, documentos e registros da prática educativa).
-Pesquisa Bibliográfica: Foram levantados os seguintes materiais:
Legislação de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – Lei nº 9.424 de 24/12/1996
Cadernos Temáticos da Educação Municipal
Declaração Universal dos Direitos Humanos
Constituição da Republica Federativa do Brasil 1988 Seção I Da Educação
Relatório do SARESP
Ministério da Educação e Cultura
Secretaria de Educação do Estado de São Paulo
União Nacional dos Dirigentes de São Paulo - UNDIME
Examinei a literatura que analisa e discute o tema proposto contido nos livros, artigos,
trabalhos de dissertação e teses de mestrado, transcrição de seminários, debates e sites da
internet.

DESENVOLVIMENTO

Minha experiência de atuação na rede escolar na função de Assistente de Diretor de


Escola permitiu perceber que existem várias interpretações e formas de planejamento de projetos
para melhoria do ensino. Parto do pressuposto das políticas públicas estabelecidas que chegam à
unidade escolar, e que geram um desencontro de práticas educacionais pela falta de uma cultura
organizacional e capacidade gerencial. O setor público é agora acompanhado e avaliado como
um agente que tem a necessidade de fazer escolhas e legitimá-las perante a sociedade. A
legitimidade da ação pública torna-se tanto mais complexa quanto mais se avança no processo de
modernização e democratização das sociedades atuais, em que o Estado atua diante de interesses
variados e não tão poucos conflitantes. O conteúdo desta pesquisa analisou o campo das ações e
articulações que encontramos no dia-a-dia das escolas de Ensino Fundamental Municipal de São
Paulo e que tem buscado a efetivação de políticas públicas educacionais voltadas para a melhoria
do ensino. Para tanto, a proposição da qualidade do ensino está fundamentada em várias
dimensões e que neste trabalho foi considerado o ambiente administrativo como identificador da
realidade de alguns problemas instalados na escola. Nesse sentido, cito alguns conceitos
pertinentes aos aspectos sobre cultura organizacional e gestão que devem ser partilhados entre
todos que participam do processo ensino-aprendizagem, visando à humanização das relações
escolares. No campo do conhecimento e da ação humana a Educação está voltada para a
formação do sujeito. O sujeito solidário, coletivo, responsável, livre e autônomo. Este é o sujeito
que se pretende formar, um sujeito com uma nova lógica na compreensão do que é o mundo e o
papel que desempenha nele. Assim, a concepção de Educação está promovida no campo da
ciência. Entretanto, a questão é: como está acontecendo esta Educação nas escolas. Pensar em
educação é pensar em prática pedagógica e administrativa. E, ao observar a prática do trabalho na
escola, percebi que é ainda muito restrito o espaço de decisão, formas de organização e gestão,
modelo pedagógico e principalmente a sua equipe de trabalho. No entanto, a escola adota
inúmeras formas de orientações para contornar as demandas externas, seja por falta de condições
mínimas para cumpri-los, ou por pressões exercidas pelo meio social, alunos e profissionais que
trabalham na instituição. O espaço de liberdade concedido na LDB 9394/96 não possibilita uma
escola com plena autonomia, ela está buscando estratégias para cumprir seu objetivo principal
que é o de ensinar. A descontinuidade de programas políticos e a avaliação de desempenho do
sistema não privilegiam a avaliação dos agentes como um todo, mas apenas alguns. Apesar dos
movimentos e investimentos pela autonomia da escola, pela gestão democrática e participativa e
a formação de gestores, a escola municipal continua com falta de planejamento, de estratégias de
ações, de comunicação e organização. O que colocamos é que todos estes movimentos chegam à
escola sem força de transformação por falta de conhecimentos de práticas gerenciais inovadoras e
formulação de estratégias que sustente credibilidade na área da gestão escolar voltada para o
objetivo de melhoria da qualidade do ensino.

TEORIA GERAL DA ADMINISTRAÇÃO

O ato de administrar envolve qualquer tipo de trabalho que seja realizado por duas ou
mais pessoas. A administração no modo geral é praticada não só entre aqueles que possuam
formação acadêmica específica, como também é possível encontrar em diversas organizações
administradores que não são formados e contam somente com a prática (Chiavenato,2000).
Busca-se o alcance de determinados objetivos com eficiência e eficácia. De acordo com
Chiavenato (2000), a eficiência está relacionada com os meios para se alcançar um objetivo e a
eficácia preocupa-se com os resultados. Entre os vários exemplos que o autor dá, relativamente à
distinção entre os dois conceitos, diz que ser eficiente “é jogar bola com arte”, enquanto a
eficácia reside em “ganhar a partida”. Desta forma, administrar é a condução racional das
atividades de uma organização seja ela qual for. A vida das pessoas depende das organizações e
estas dependem do trabalho daquelas. Neste contexto entendemos por organização uma entidade
social composta de pessoas e de recursos, deliberadamente estruturada e orientada para alcançar
um objetivo comum. As organizações são constituídas de recursos humanos, físicos e materiais,
financeiros, tecnológicos e mercadológicos. Apresenta-se pela produção de bens ou prestação de
serviços com ou sem fins lucrativos. Pelo tamanho e complexidade de suas operações, as
organizações precisam ser administradas e a sua administração requer todo um aparato de pessoas
colocadas em diversos níveis hierárquicos que se ocupam de tarefas diferentes: do planejamento,
da organização, da direção e do controle. De todas as tarefas diferenciadas pela divisão do
trabalho, e conseqüentemente divisão das tarefas que ocorram dentro de uma organização, sem a
administração, as organizações jamais teria condições de existirem e crescerem. Nos tempos
atuais, a sociedade típica dos países desenvolvidos é uma sociedade pluralista de organizações, na
qual a maior parte das obrigações sociais (como a produção de bens e serviços) é confiada às
organizações que são administradas por dirigentes para se tornar mais eficientes e eficazes.

TEORIA GERAL DA ADMINISTRAÇÃO E AS NOVAS DEMANDAS

A tarefa administrativa nas próximas décadas será desafiadora, pois deverá ser atingida
por grandes transformações, implicando em grandes mudanças como:
1 – O crescimento das organizações
O crescimento é uma decorrência inevitável do êxito organizacional, mas aumenta a
complexidade;
2 – O fenômeno da concorrência
Na medida em que aumentam os mercados e os negócios, crescem também os riscos da
atividade das empresas;
3- Inovação tecnológica
A tecnologia introduz novos processos e instrumentos que causam impactos sobre a
estrutura e o comportamento das organizações.
4- Globalização da economia
A competição se torna mundial e mais acirrada.
5 - Visibilidade maior das organizações
As organizações passam a chamar mais a atenção do ambiente e do público e passam a
ser mais visíveis e percebidas pela opinião pública.

FUNÇÕES E HABILIDADES DO ADMINISTRADOR

As principais funções do administrador são aquelas as quais consagra a maior parte do seu
tempo e que representam sua razão de ser na organização do trabalho que são:
Planejamento é o estabelecimento antecipado de um esquema norteador relativo a ações
futuras. È o traçado de diretrizes, um projeto de pesquisa, a preparação de um cronograma para o
lançamento de novo produto, a elaboração de um orçamento; estes são exemplos de planos
administrativos.
Organização, como função administrativa consiste nas relações estruturais que mantêm
unida a empresa no sistema pelo qual o esforço individual é coordenado. Organizar é agrupar
com lógica as atividades da empresa.
Direção inclui a tomada de decisão entre as diversas alternativas, a transmissão de ordens
à chefia dos subordinados, a coordenação das atividades individuais.
Controle é a verificação da execução do plano, a fim de corrigir os desvios e atingir os
objetivos pré-estabelecidos.
Quanto às habilidades destacamos três que o administrador deve possuir para trabalhar
com sucesso: habilidade técnica, habilidade humana e a habilidade conceitual.
Habilidade técnica consiste em utilizar conhecimentos, métodos, técnicas e
equipamentos necessários para a realização de tarefas específicas por meio da experiência
profissional.
Habilidade humana consiste na capacidade e discernimento para trabalhar com pessoas,
comunicar, compreender suas atitudes e motivação e desenvolver uma liderança eficaz.
Habilidade conceitual consiste na capacidade para lidar com idéias e conceitos abstratos.
Essa habilidade permite que a pessoa faça abstrações e desenvolva filosofias e princípios gerais
de ação.
A Teoria Geral da Administração busca desenvolver a capacidade de pensar, de definir
situações organizacionais complexas, de diagnosticar e de propor soluções. Na medida em que o
administrador sobe para os níveis mais elevados da organização, diminui a necessidade de
habilidades técnicas, enquanto aumenta a necessidade de habilidade conceitual. Nos níveis mais
altos os executivos precisam gradativamente de habilidades conceituais para decidir sobre os
destinos de sua organização. A teoria da administração evoluiu e assumiu um caráter mais
humano, na condução dos destinos de um empreendimento.
CONCEITUANDO E CARACTERIZANDO AS ORGANIZAÇÕES PÚBLICAS

Pires e Macedo (2006), apresentam os estudos de Dias (1998), que analisa de forma geral,
os principais aspectos das organizações públicas. Este autor, afirma que as organizações públicas
têm como objetivo prestar serviços para a sociedade. Elas podem ser consideradas como sistemas
dinâmicos, extremamente complexos, interdependentes e inter-relacionados coerentemente,
envolvendo informações e seus fluxos, estruturas organizacionais, pessoas e tecnologias. Elas
cumprem suas funções, buscando uma maior eficiência da máquina pública e um melhor
atendimento para a sociedade. Segundo Dussault (1992, p.13) citado por Dias (1998), as
organizações de serviços públicos dependem em maior grau do que as demais do ambiente sócio-
político: seu quadro de funcionamento é regulado externamente à organização. As organizações
públicas podem ter autonomia na direção dos seus negócios, mas, inicialmente, seu mandato vem
do governo, seus objetivos são fixados por uma autoridade externa. Percebe-se que as
organizações públicas são mais vulneráveis à interferência do poder político, pois são geridas
pelo poder público. Elas, também, têm a missão de prestar serviços à sociedade. Evidentemente,
esta prestação de serviços está, habitualmente, em contradição com a limitação dos recursos
recebidos por elas. E, quando há recursos disponíveis, eles tendem a depender da decisão política
e das flutuações da capacidade econômica do Estado. A baixa qualidade dos serviços públicos
gera e perpetua uma baixa expectativa em relação ao que pode ser oferecido, tanto por usuários
quanto por prestadores de serviços, contribuindo, assim, para gerar um ciclo vicioso de
insatisfação e frustração de gerentes e usuários. Nota-se que as organizações públicas são
sistemas complexos devido ao alto índice de burocracia existente no seu funcionamento, isto é, o
tipo de regulamento desenvolvido na burocracia estatal tende a ser aplicado a qualquer
organização pública. Dias (1998), classifica de acordo com Carbone (2000), as características da
organização pública que dificultam a sua mudança são as seguintes:

• burocratismo — excessivo controle de procedimentos, gerando uma administração


engessada, complicada e desfocada das necessidades do país e do contribuinte;
• autoritarismo/centralização — excessiva verticalização da estrutura hierárquica e
centralização do processo decisório;
• aversão aos empreendedores — ausência de comportamento empreendedor para
modificar e se opor ao modelo de produção vigente;
• paternalismo - alto controle da movimentação de pessoal e da distribuição de
empregos, cargos e comissões, dentro da lógica dos interesses políticos
dominantes;
• reformismo - desconsideração dos avanços conquistados, descontinuidade
administrativa, perda de tecnologia e desconfiança generalizada. Corporativismo
como obstáculo à mudança e mecanismo de proteção à tecnocracia.

Um ponto fundamental ao planejamento e à gestão pública apresentada por Dias (1998) e


levantado por Martelane (1991), é a presença de dois corpos funcionais com características
nitidamente distintas: um permanente e outro não-permanente. O corpo permanente é formado
pelos trabalhadores de carreira, cujos objetivos e cultura foram formados no seio da organização,
e o não-permanente é composto por administradores políticos que seguem objetivos externos e
mais amplos aos da organização. O conflito entre eles é acentuado pela substituição dos
trabalhadores não-permanentes, que mudam a cada novo mandato. Dias (1998), afirma a idéia de
Schall (1997) que a descontinuidade administrativa é um dos pontos que mais diferenciam a
organização pública da privada, conferindo às organizações públicas características específicas,
que também podem ser aplicadas à realidade brasileira, como:

• projetos de curto prazo — cada governo só privilegia projetos que possa concluir
em seu mandato, para ter retorno político;
• duplicação de projetos — cada novo governo inicia novos projetos, muitas vezes
quase idênticos, reivindicando a autoria para si;
• conflitos de objetivos — conflito entre os objetivos do corpo permanente e do não-
permanente, o que pode gerar pouco empenho em relação aos procedimentos que
vão contra interesses corporativos — ciência de que a chefia logo será substituída;
• administração amadora — administração feita por indivíduos com pouco
conhecimento da história e da cultura da organização e, muitas vezes, sem o
preparo técnico necessário — predomínio de critérios políticos em detrimento da
capacidade técnica ou administrativa dos nomeados.

Alguns problemas de ajustes em relação ao trabalhador permanente são atribuídos por


Pereira (1996, p. 20) considerados por Dias (1998) quando afirma que: no Brasil a extensão da
estabilidade a todos os servidores públicos, ao invés de limitá-la a apenas às carreiras onde se
exerce o poder de Estado, e o entendimento dessa estabilidade de uma forma tal que a
ineficiência, a desmotivação, a falta de disposição para o trabalho não pudessem ser punidas com
a demissão, implicaram em um forte aumento da ineficiência do servidor público. Ainda,
segundo o mesmo autor, outro ponto fundamental gerado pela estabilidade é o aumento dos
custos públicos, que impede a adequação dos quadros de trabalhadores às reais necessidades do
serviço, tanto em termos de quantidade quanto de especialização técnica, inviabilizando, ao
mesmo tempo, a implantação de um sistema de administração eficiente, baseado em incentivos e
punições. Johnson (1996) afirma que o fato de a propriedade ser pública torna frágeis, complexos
e lentos vários processos que se podem apresentar muito simples e dinâmicos na organização
privada, cujos objetivos são mais claros e o foco do controle externo é uma pequena fração
daquele exercitado sobre uma organização financiada pela sociedade. Os autores acrescentam
ainda que o controle público tem influência no planejamento e na gestão. Esse controle, de forte
conotação política, é o único caminho para o equilíbrio das forças sociais. Nas organizações
controladas pelo governo há a predominância dos processos políticos, que muitas vezes oneram
de várias formas os processos operacionais e administrativos ou, mesmo, se opõem a eles. Dias
(apud Shepherd e Valenci, 1996) afirmam que as situações que dificultam a administração de
organizações públicas são:

• A administração pública oferece, principalmente, serviços dos quais ela detém o


monopólio, o que propicia que sejam produzidos de maneira ineficiente;
• O controle dos eleitores sobre os políticos é normalmente imperfeito, sendo que
organizações políticas destinadas a representar os eleitores dificilmente trabalham
sem atrito;
• A dificuldade dos políticos em controlar os funcionários, e definir e medir com
exatidão os resultados da administração pública.

Essa característica, peculiares às organizações públicas, torna-se um grande empecilho


para a implantação de inovações tecnológicas, pois elas, em geral, são processos longos e que
requerem um tempo de desenvolvimento e aperfeiçoamento, dificilmente restringindo-se a um
único mandato governamental. É importante salientar que os traços e características da cultura
organizacional de organizações públicas aqui apresentadas não se aplicam necessariamente a
todas as organizações públicas no Brasil, não devendo ser, portanto, generalizados a priori, o que
se buscou foi levantar traços sobre a representação que se relaciona a organizações públicas "em
geral" no Brasil, se é que esse termo se aplica. O desenho organizacional público, na realidade
brasileira, normalmente é com formas bastante complexas e níveis hierárquicos múltiplos. Essa
estrutura demonstra um paternalismo que gera um alto controle de movimentação de pessoal e da
distribuição de empregos, cargos e comissões dentro da lógica dos interesses políticos
dominantes. Outra característica marcante é que são estruturas altamente estáveis, que resistem
de forma generalizada a mudanças de procedimentos e implantação de inovações. A cultura da
interferência política e administrativa vigente pode ser caracterizada como predominantemente
regida por um governo de poucas pessoas e patrimonialista e, também, burocrática e corporativa.
É esta cultura que orienta a prática de gestão das organizações públicas. A cultura de
organizações públicas leva essas mesmas organizações a burocracias públicas tradicionais que
além de terem se tornado complexo, com características centralizadoras e estruturas rígidas, não
têm sido orientadas para o atendimento das necessidades dos cidadãos, ou para a eficácia e
efetividade. Para tanto, difunde-se no setor pública inovação considerada êxitosa no setor
empresarial, sem que se considerem objetivos e valores predominantes na administração pública.
Os traços da cultura de organizações públicas antes descritos influenciam os seus trabalhadores,
que tendem a encontrar-se em idênticas situações laborais e de organização do trabalho
proporcionado pela burocracia estatal, uma vez que os seus dirigentes são responsáveis perante
uma autoridade externa à organização pública, gerando, assim, uma tendência à centralização das
decisões. Existem algumas especificidades como: apego às regras e rotinas, supervalorização da
hierarquia, paternalismo nas relações, apego ao poder, entre outras. Tais diferenças são
importantes na definição dos processos internos, na relação com inovações e mudança, na
formação dos valores e crenças organizacionais e políticas de recursos humanos. Sabe-se que a
cultura tende a se perpetuar, e que só pode ser transformada por meio de um processo de
construção social. Com as características acima descritas, e atuando em um contexto globalizado,
os resultados das organizações públicas no Brasil deixam a desejar e podem ter sua continuidade
ameaçada. Os projetos para mudanças e intervenções, caso sejam de interesse do poder público,
que deveria representar as aspirações da sociedade organizada, deveriam necessariamente abordar
aspectos estruturais, normativos e enfocar os trabalhadores, com sensibilizações e com
mecanismos que assegurassem a continuidade dos projetos, pois só por meio das pessoas se
transforma uma sociedade (Pires/Macedo, p. 81-105, 2006).

GESTÃO ESCOLAR

A gestão escolar é a atividade pela qual mobilizamos meios e procedimentos para atingir
os objetivos da organização, envolvendo basicamente, os aspectos gerenciais e técnicos
administrativos. Vários são os conceitos e significados para o termo gestão. Segundo Libâneo
(2005), as principais características de cada concepção de organização e gestão escolar assumem
diferentes modalidades, conforme a concepção que se tenha das finalidades sociais e políticas da
educação em relação à sociedade e a formação de alunos. Nesse sentido, apresentamos a seguir as
categorias de gestão conforme Libâneo (2005):

O paradigma da gestão na concepção técnico-cientifica


Na concepção técnico-científica (também chamado como científico-racional), prevalece
uma visão burocrática e tecnicista de escola. A direção é centralizada em uma pessoa, a decisão
vem de cima para baixo e basta cumprir um plano previamente elaborado, sem a participação de
professores, especialistas, alunos e funcionários. A organização escolar é tomada como uma
realidade objetiva, neutra, técnica, que funciona racionalmente e, por isso, pode ser planejada,
organizada e controlada, a fim de alcançar maiores índices de eficácia e eficiência. As escolas
que operam com esse modelo dão muito peso à estrutura organizacional: organograma de cargos
e funções, hierarquia de funções, normas e regulamentos, centralização das decisões, baixo de
grau de participação das pessoas, planos de ação feitos de cima para baixo. A versão mais
conservadora dessa concepção é denominada de administração clássica ou burocrática. A versão
mais recente é conhecida como o paradigma de gestão da qualidade total, com a utilização mais
forte de métodos e de praticas de gestão da administração empresarial. Este é modelo mais
comum de organização escolar que encontramos na realidade educacional, embora já existam
experiências bem sucedidas de adoção de modelos alternativos, em uma perspectiva progressista.

O paradigma da gestão na concepção sócio-crítica


Na concepção sócio-crítica, ao contrário da técnico-cientifica, a organização escolar é
concebida como um sistema que agrega pessoas, considerando o caráter intencional de suas ações
e as interações sociais que estabelecem entre si e com o contexto sócio-político, nas formas
democráticas de tomada de decisões.

O paradigma da gestão na concepção autogestionaria


A concepção autogestionaria baseia-se na responsabilidade coletiva, na ausência de
direção centralizada e na acentuação da participação direta e por igual de todos os membros da
instituição. Tende a recusar o exercício de autoridade e as formas mais sistematizadas de
organização e gestão. Na organização escolar, em contraposição aos elementos instituídos
(normas, regulamentos, procedimentos já definidos), valoriza especialmente os elementos
instituintes (capacidade do grupo de criar e instituir suas próprias normas e procedimentos).

O paradigma da gestão na concepção interpretativa


A concepção interpretativa considera como elementos prioritários na analise dos
processos de organização e gestão os significados subjetivos, a intenções e a interação das
pessoas. Opondo-se fortemente a concepção técnico-científico, por sua rigidez normativa e por
considerar as organizações como realidades objetivas, o enfoque interpretativo considera as
práticas organizativas como uma construção social com base nas experiências subjetivas e nas
interações sociais.

O paradigma da gestão na concepção democrático-participativa


A concepção democrática-participativa baseia-se na relação orgânica entre direção e a
participação dos membros de equipe. Acentua a importância da busca de objetivos comuns
assumidos por todos. Defende uma forma coletiva de tomada de decisões. Entretanto uma vez
tomada às decisões coletivamente, advoga que cada membro da equipe assuma sua parte no
trabalho, admitindo a coordenação e a avaliação sistemática das deliberações estabelecidas. Essas
concepções possibilitam a analise da estrutura e da dinâmica organizativas de uma escola.
Entretanto, raramente identificamos na escola uma determinada concepção. Na escola pode
ocorrer um estilo mais dominante. A opção por uma determinada concepção não garante na
prática a sua implementação. A forma de organização e de gestão adotada pela equipe de trabalho
ou pela direção pode ser por uma concepção progressista, mas na prática o modelo mais
reproduzido é do tipo burocrático. A escola como unidade social, abrange uma rede compacta de
relações e desenvolve características próprias construindo assim a sua identidade - cultura. Sendo
consideradas como organizações vivas, caracterizadas por uma rede de relações a sua gestão
demanda um novo enforque de organização. E é nessa perspectiva que a gestão escolar pode
contribuir valorizando a formação de lideranças, motivação, o desenvolvimento de novos
conhecimentos, habilidades e atitude fundamentada em concepções e não mais em modelos
(LIBÂNEO, 2005, p. 328).

CONCLUSÃO

As condições para a realização de um trabalho competente estão na competência do


profissional e na articulação dessa competência com os outros. O trabalho do gestor escolar junto
à escola é um indicador substancial e tem significativas implicações para a melhoria da qualidade
do ensino. Nessa perspectiva, concluímos que uma das implicações mais significativas para
mudar a escola ocorra com a formação de gestores. O êxito de novas políticas ou de novas
estratégias de desenvolvimento organizacional está ligado diretamente com a gestão escolar.
Nesse cenário ganha importância o desenvolvimento da gestão integrada, onde se destacam as
habilidades de liderança e o trabalho em equipe.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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