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"UM CONTO QUASE MÍNIMO",

Sérgio Sant’Anna

O importante neste conto quase mínimo é que ele traga momentos muito breves de
felicidade, para quem o lê e para quem o escreve. Pode ser assim. Um homem que, por
circunstâncias de uma viagem de carro, deve passar a noite com sua cunhada numa
pousada à beira de estrada, no interior de Minas. Ambos estão fatigados de uma longa
viagem, de Goiânia, onde residem os pais dela – e ele estava lá justamente buscando um
carro –, até o Rio, onde eles dois moram. Vêm se revezando na direção e agora é ele quem
dirige. Estacionam o carro no pátio da pousada e, como são pessoas modernas, nem
precisam dizer que dormirão no mesmo quarto, pois é tão natural isso, que esses quase
parentes dividam um aposento. Como ela é mulher do seu irmão, seria impensável que os
dois transassem, mas, para evitar qualquer mal-entendido, pediram duas camas de
solteiro, embora estejam as duas camas lado a lado. E avisaram aos respectivos
companheiros lá no Rio, pelos celulares, que haviam decidido passar a noite na estrada,
pois estão cansados.
Quem vai primeiro no banheiro é ele, toma uma chuveirada rápida, com água morna,
depois veste uma bermuda limpa, que trouxe numa sacola, uma camiseta sem mangas e
vai deitar-se na cama que lhe cabe. Ela, ainda vestida, cruzou com ele em direção ao
banheiro, tocou-lhe o braço com um dedo por um momento infinitesimal de tempo, à
guisa de um cumprimento brincalhão.
O banho dela é mais demorado, pois lava a cabeça, livrando-se da poeira da estrada,
depois usa o secador. Por uma pequena fresta da porta, ele a vê passando para lá e para
cá, mas não dá para distinguir claramente nenhum detalhe de seu corpo. No entanto, pensa
nela graciosa, como sempre pensou.
Pela mente do quarteto inteiro, os dois irmãos e as duas moças, já se passaram fantasias
em que se trocam os parceiros. Apenas fantasias, pois não são modernos a esse ponto e
também temiam o que poderia acontecer a partir daí. Nenhum dos dois foi fiel na vida
aos respectivos companheiros, mas envolvendo outras pessoas que não irmãos ou
cunhados, pois caso contrário a coisa poderia ser grave, talvez definitiva, cheia de culpa.
Mas ambos estão sentindo um prazer quase inocente com a intimidade que ora desfrutam.
Porém, ele não quer embaraçá-la e cerra quase totalmente os olhos quando ela sai do
banheiro enrolada numa toalha. No quarto quase escuro, pois há apenas uma luz baça que
ficou acesa no banheiro, ela certifica-se de que os olhos dele estão fechados, como quem
já dorme. E pega em sua maleta de viagem uma camiseta e uma calcinha, e só então tira
a toalha do corpo. Depois vai ao banheiro e apaga a luz.
Agora está tudo imerso num breu tão negro que ela tem medo de tropeçar numa cadeira
ou nas camas. Então vai à janela do quarto, visível apenas por frestas, e puxa a correia da
cortina, deixando a janela um pouco aberta, para que não sintam calor à noite (ah, deve
ser isso). Há algumas luzes no jardim da pousada, suficientes para iluminar um pouco o
quarto e para que se projetem no corpo muito branco da mulher – através das frestas e da
abertura na cortina – num leve balançar-se, folhas e galhos das árvores do jardim,
enquanto se ouvem os ruídos de muitos insetos.
Com o coração a bater forte, o homem, com seus olhos entreabertos, vê a mulher nua, as
folhas e os galhos se mexendo no corpo dela, numa espécie de caleidoscópio de sombras.
É uma visão magnífica e o homem acaba por abrir inteiros os olhos.
Intuindo que está sendo espiada, ela olha diretamente para a cama, ele não mais
disfarçando que a observa, mas depois ela finge que continua a olhar pela janela, de perfil.
E sorri, como se fosse para ninguém em especial. E, em vez de vestir-se imediatamente,
pois traz a camiseta e a calcinha nas mãos, ela se dá um pequeno tempo, para que ele a
veja bem, inclusive de frente e de costas. Depois, com gestos muito sedutores e agora
meio séria, começa a vestir-se vagarosamente, com uma sensualidade ainda maior do que
se estivesse se despindo.
Ambos sabem que nada deverá acontecer entre eles e ela agora termina de se vestir e vai
deitar-se na cama, cobrindo-se com um lençol. Não se dão nem boa-noite, pois, para todos
os efeitos, já deviam estar dormindo. E de fato ela adormece logo, mas ele não. Conserva
a imagem dela na mente e está muito excitado, mas seria detestável se se satisfizesse
sozinho. Preferível continuar a pensar nela nua, cheia de folhas e galhos refletidos em seu
corpo tão belo e magro: que ele sente como não menos que maravilhoso.
Na manhã seguinte, eles se vestem cada um a seu tempo, ele no banheiro, ela no quarto,
tomam café juntos e seguem viagem. Jamais tocarão no que aconteceu àquela noite, claro,
mas para a vida inteira compartilharão aquele segredo: que ela se deixou ver e ele a viu,
por um breve tempo, que foi dos mais significativos na vida deles dois.
Quanto aos seus verdadeiros companheiros, terão sentido a desconfiança, quase a certeza,
de que algo se passou entre eles àquela noite, mas sem saber o que ou como, exatamente.
E, enquanto pensavam em probabilidades, logo após eles dois terem chegado, sentiram
um enorme desejo de foder. E, após o almoço, entregaram-se loucamente a seus parceiros
fixos.
O tempo passa e chegou o Natal. Houve uma festa de família e se deram presentes. Ela
deu um livro para ele que, ao abri-lo, viu que era uma coletânea de poemas selecionados
de John Keats, no original. E, com uma voz inocente, ela lhe disse, com um sorriso
angelical: “Você deve conhecer aquele famoso verso de Keats, não: A thing of beauty is
a joy for ever”?

Copyright © 2019 by Sérgio Sant’Anna

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