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Destaco ter 3 razões de não me entusiasmar com a sua poesia: a sua “fome de

reconhecimento”, assumir como tema transversal da sua obra poética a sátira e o seu
antropocentrismo.

1. Fome de reconhecimento

Jorge Sena foi um escritor que, desde muito novo, viveu e exibiu uma incontida e quase
frenética fome de reconhecimento (pag 9).

“Valerá realmente a pena? Que interesse terá tudo isto? Haverá de facto quem nos leia com a
mesma atenção que pusemos no escrever? Quais mais os anos passam, e quanto mais o
convívio dos outros vai passando por mim, mais vou desesperando, e a tal ponto, que, se me
surge alguém a referir-me o que eu algures disse, fico literalmente pasmado, numa elada
gaguez de quase gratidão”.

2. Temas

Quando lhe perguntaram o que melhor caraterizava a sua poesia, se o amor, a música, a
política ou a cultura, Sena respondeu que todos eles, mas depois acrescentou que a sátira era
claramente uma nota dominante em muito do que escrevia.

(…) Não era só aos pontos fracos dos seus compatriotas que Sena dirigia os seus ataques;
criticava definitivamente a mediocridade, a falsidade, a hipocrisia, independentemente da raça,
da nacionalidade, da posição social ou da idade. Conforme, o “Beco sem saída” ilustra:

As mulheres são visceralmente burras.


Os homens são espiritualmente sacanas.
Os velhos são cronicamente surdos.
As crianças são intemporalmente parvas.

3. Antropocentrismo

A natureza interessa-me, mas a natureza interessa-me se houver seres humanos ou marcas


humanas na natureza; de outro modo, não estou nada interessado na natureza.
Poemas

Andante (pág. 31)

I
Soube-me sempre a destino a minha vida.
Por isso, ainda hoje que
Todo o sal secou no fundo do mar
E o mar é câmara, ainda hoje a ignoro
Com que as crianças começam a sentir-se reais

(…)

III
Viemos e crescemos
Jugando que era extenso um abando impassível.
E, mesmo julgando,
Procuramos sinais de transigência,
Golpes circulares e lentos num papel perdido…
Estas ruas, porém, foram encurtando com o tempo.

IV
Não é de um medo enorme que ressurge a vida?
As crianças nascem com uma coragem que perdem-
As mães provocam-nas em si com uma coragem de carne.
E os homens levam-nas consigo sem as conhecer.

Perseguição (1942)

Os trabalhos e os dias (pág. 45)

Sento-me à mesa como se a mesa fosse o mundo inteiro


E principio a escrever como se escrever fosse respirar
O amor que não se esvai enquanto os corpos sabem
De um caminho sem nada para o regresso da vida.

À medida que escrevo, vou ficando espantado


Com a convicção que a mínima coisa põe em não ser nada.
Na mínima coisa que sou, pôde a poesia ser hábito.
Vem, teimosa, com a alegria de eu ficar alegre,
Quando fico triste por serem palavras já ditas
Estas que vêm, lembradas, doutros poemas velhos.

Uma corrente me prenda à mesa em que os homens comem.


E os convivas que chagam intencionalmente sorriem
E só eu sei porque principiei a escrever no principio do mundo
E desenhei uma rena para a caçar melhor
E falo da verdade, essa iguaria rara:
Este papel, esta mesa, eu apreendendo o que escrevo.

Coroa da Terra (1946)


Independência

Recuso-me a aceitar o que me derem.


Recuso-me às verdades acabadas;
recuso-me, também, às que tiverem
pousadas no sem-fim as sete espadas.

Recuso-me às espadas que não ferem


e às que ferem por não serem dadas.
Recuso-me aos eus-próprios que vierem
e às almas que já foram conquistadas.

Recuso-me a estar lúcido ou comprado


e a estar sozinho ou estar acompanhado.
Recuso-me a morrer. Recuso a vida.

Recuso-me à inocência e ao pecado


como a ser livre ou ser predestinado.
Recuso tudo, ó Terra dividida!

Coroa da Terra (1946)

Ode ao Destino

Destino: desisti, regresso, aqui me tens.

Em vão tentei quebrar o círculo mágico


das tuas coincidências, dos teus sinais, das ameaças,
do recolher felino das tuas unhas retracteis
- ah então, no silêncio tranquilo, eu me encolhia ansioso
esperando já sentir o próximo golpe inesperado.

Em vão tentei não conhecer-te, não notar


como tudo se ordenava, como as pessoas e as coisas chegavam
que eu, de soslaio, e disfarçando, observava [em bandos,
pura conter as palavras, as minhas e as dos outros,
para dominar a tempo um gesto de amizade inoportuna.

Eu sabia, sabia, e procurei esconder-te,


afogar-te em sistemas, em esperanças, em audácias;
descendo à fé só em mim próprio, até busquei
sentir-te imenso, exacto, magnânimo,
único mistério de um mundo cujo mistério eras tu.

Lei universal que a sem-razão constrói,


de um Deus ínvio caminho, capricho dos Deuses,
soberana essência do real anterior a tudo,
Providência, Acaso, falta de vontade minha,
superstição, metafísica barata, medo infantil, loucura,
complexos variados mais ou menos freudianos,
contradição ridícula não superada pelo menino burguês,
educação falhada, fraqueza de espírito, a solidão da vida,
existirás ou não, serás tudo isso ou não, só isto ou só aquilo,
mas desisti, regresso, aqui me tens.

A humilhação de confessar-te em público,


nesta época de numerosos sábios e filósofos,
não é maior que a de viver sem ti.
A decadência, a desgraça, a abdicação,
os risos de ironia dos vizinhos
nesta rua de má-nota em que todos moramos,
não são piores, ah não, do que no dia a dia sem ti.
É nesta mesma rua que eu ouço o amor chamar por mim,
é nela mesma que eu vejo emprestar nações a juros,
é nela que eu tenho empenhado os meus haveres e os dos outros,
nela que se exibem os rostos alegres, serenos, graciosos,
dos que preparam as catástrofes, dos que as gozam, dos que são
É nesta mesma rua que eu [as vítimas.
ouço todos os sonhos passar desfeitos.

Desisti, regresso, aqui me tens,


coberto de vergonha e de maus versos,
para continuar lutando, continuar morrendo,
continuar perdendo-me de tudo e todos,
mas à tua sombra nenhuma e tutelar.

Pedra Filosofal (1950)

Camões dirige-se aos Seus Contemporâneos

Podereis roubar-me tudo:


as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.
Deixai que a vida sobre vós repouse
qual como só de vós é consentida
enquanto em vós o que não sois não ouse

erguê-la ao nada a que regressa a vida.


Que única seja, e uma vez mais aquela
que nunca veio e nunca foi perdida.

Deixai-a ser a que se não revela


senão no ardor de não supor iguais
seus olhos de pensá-la outra mais bela.

Deixai-a ser a que não volta mais,


a ansiosa, inadiável, insegura,
a que se esquece dos sinais fatais,
a que é do tempo a ideada formosura,
a que se encontra se se não procura.

As Evidências (1955)

Quem a tem (pág. 136)

Não hei-de morrer sem saber


Qual a cor da liberdade.

Eu não posso senão ser


Desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença
E sempre a verdade vença,
Qual será ser livre aqui,
Não hei-de morrer sem saber.

Trocaram tudo em maldade,


É quase um crime viver.
Mas, embora escondam tudo
E me queiram cego e mudo,
Não hei-de morrer sem saber qual a cor da liberdade.

Fidelidade (1958)

Desencontro

Só quem procura sabe como há dias


de imensa paz deserta; pelas ruas
a luz perpassa dividida em duas:
a luz que pousa nas paredes frias,
outra que oscila desenhando estrias
nos corpos ascendentes como luas
suspensas, vagas, deslizantes, nuas,
alheias, recortadas e sombrias.
E nada coexiste. Nenhum gesto
a um gesto corresponde; olhar nenhum
perfura a placidez, como de incesto,

de procurar em vão; em vão desponta


a solidão sem fim, sem nome algum -
- que mesmo o que se encontra não se encontra.

Post-Scriptum (1960)

Fontes consultadas:

Lisboa, Eugénio (1984), Estudos sobre Jorge Sena


Sena, Jorge. (1972) . Trinta anos de poesia
http://www.citador.pt/poemas/independencia-jorge-de-sena
http://www.citador.pt/poemas/ode-ao-destino-jorge-de-sena
http://www.citador.pt/poemas/deixai-que-a-vida-sobre-vos-repouse-jorge-de-sena
https://www.escritas.org/pt/t/3231/camoes-dirige-se-aos-seus-contemporaneos
http://www.citador.pt/poemas/desencontro-jorge-de-sena