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Better to reign in hell: o republicanismo em "Paradise Lost", de John Milton

Vinícius Batelli de Souza Balestra

Quentin Skinner aponta, em Liberdade Antes do Liberalismo, que podemos


contrapor dois conceitos de liberdade: o conceito dos liberais, e o conceito dos
teóricos neo-romanos. O liberalismo clássico, diz Skinner, parte do pressuposto de
que apenas a força e ameaça coercitiva constituem ameaças à liberdade individual dos
cidadãos; o que Skinner chama de teoria neo-romana – e que podemos chamar
também de republicana – é aquela que parte do pressuposto que a ameaça à liberdade
dos indivíduos parte, principalmente, do fato de não poderem gozar do direito de
auto-governo1. Skinner aponta para o fato de que essa definição republicana tem clara
inspiração nos Discorsi de Maquiavel, que definia como cidades livres aquelas que eram
governadas por sua própria vontade2.

Estados livres, como pessoas livres, são assim definidos por


sua capacidade de autogoverno. Um Estado livre é uma
comunidade na qual as ações do corpo político são
determinadas pela vontade dos membros como um todo.3
O que Skinner argumenta por todo seu livro – com foco especial no
desenvolvimento e embate dessas ideias no contexto da história constitucional inglesa
– é o exato oposto do argumento que encontramos entre os liberais clássicos, como
Benjamin Constant e seu elogio de uma liberdade meramente negativa como aquela
adequada aos governos da modernidade4; Skinner aponta para a emergência e
consolidação de uma ideologia republicana “altamente subversiva” – com formadores
ilustres como Harrington e John Milton na formação da Inglaterra moderna, em

1 SKINNER, Quentin. Liberdade antes do Liberalismo. São Paulo: Editora Unesp, 1999, p. 37.

2 SKINNER, Liberdade antes do liberalismo...cit., p. 33.


3 SKINNER, Liberdade antes do liberalismo...cit., p. 33.
4 CONSTANT, Benjamin. Da liberdade dos antigos comparada a dos modernos. Revista Filosofia política,

Rio Grande do Sul, Número 2, 1985, pp. 09–25.


especial no período que vai do regicídio de 1649 até a restauração da monarquia5.
Inicialmente críticos da monarquia, também tornaram-se (subversivos) opositores do
protetorado de Cromwell6.

No interior dessa ideologia, encontramos uma defesa de que corpos políticos


livres são aqueles em que as leis são decretadas com a participação dos membros do
corpo político como um todo7. Qualquer forma de governo que não respeitasse esse
ideal de autonomia pública era imediatamente taxada de escravidão 8. E essas ideias,
que haviam sido fermentadas já no Renascimento Italiano e tomado forma
especialmente nos Discorsi de Maquiavel.

Opositor da monarquia, sabemos que John Milton fora grande entusiasta e


apoiador da república de Cromwell, ao menos em seus anos iniciais. Segundo a
interpretação de David Armitage, Milton teria, no entanto, se decepcionado com os
rumos do domínio de Cromwell; sua principal crítica residiria, como veremos, no afã
militarista e imperialista, em especial com o eclodir da guerra Anglo-Espanhola entre
1654 e 1660. Paraíso Perdido seria, assim, uma ilustração dessa decepção; o
comportamento de Satã refletiria o voluntarismo e tirania de Cromwell.

Isto diz Satã a Belzebu, quando se vê em meio ao Caos, boiando com seus
anjos em meio ao lago de fogo. O motivo: “desafiar o onipotente a armas/ Nove
vezes o espaço dia e noite/ dos mortais, ele e sua acerba chusma Jazeram voltos no
lago de fogo/Confusos e imortais.”

Recebe o novo dono, o que traz


Mente por tempo ou espaço não-trocável.
A mente é em si mesma o seu lugar,
Faz do inferno Céu, faz do Céu Inferno.
Que importa onde se eu o mesmo for, ou o que seja, logo que não seja
Inferior ao que deu fama ao trovão?

5 SKINNER, Liberdade antes do liberalismo...cit., p. 22.


6 SKINNER, Liberdade antes do liberalismo...cit., p. 59.
7 SKINNER, Liberdade antes do liberalismo...cit., p. 33.

8 SKINNER, Liberdade antes do liberalismo...cit., p. 66.


Aqui seremos livres; o magnânimo
Não alçou cá a inveja, nem daqui
Nos levará. A salvo reinaremos,
Que é digna a ambição mesmo se no inferno:
Melhor reinar no inferno que no Céu
Servir.

Sabemos, assim, que já em 1654, na conclusão de sua Defensio Secunda, tida


por muitos como um elogio a Cromwell, Milton encerra sua defesa do regime
parlamentar – liderado por Cromwell – com uma advertência: o protetor da república
muito se enganaria se cedesse à tentação de lidar antes com os assuntos externos antes
mesmo de lidar com a corrupção e opressão internas. O motivo dessa advertência,
nos informa Armitage, reside no fato de que já em 1654, circulavam notícias de que
Cromwell pretendia entrar em conflito com a Espanha.

E de que modo estaria refletida essa preocupação miltoniana com uma


república que cuide, primeiro, de seus assuntos internos, antes de se aventurar por
conquistas mundo afora? Encontraremos parte desse debate no Livro II, por ocasião
da assembleia de anjos caídos, em que se debate, sob a liderança de Satã, sua sorte
coletiva. Assim é que será a opinião de Mammon:

Não busquemos pois,


Por força obstante, por licença obtida,
O inaceitável grau, no Céu Embora,
De vassalagem esplêndida, mas antes
O nosso bem em nós, e de nós próprios
Vivamos pra nós, mesmo em vasto ermo,
Livres, sem conta a dar a quem, amando
A árdua soltura mais que o suave jugo de pompa vil.
(...) Tudo convida
A conselhos de paz, à ordem fixa,
Das coisas, à maneira mais secreta
De afinar estes males, com respeito
Ao que somos e fomos, rejeitando
Toda a veia marcial: eis o que penso.

De outra opinião será Belzebu, que defenderá não uma república para
conservação, mas uma república voltada à expansão:

Nisto se revê o eleitorado...

...chocado ocos impérios. (p. 133)

Para Belzebu, portanto, permanecer uma república voltada apenas à própria


preservação seria um convite ao desastre e traria mais derrotas ao pandemônio. Com
isso, Satã se oferece para que com “transcendente glória” e “soberba monárquica”,
explore esse novo mundo de que falava a profecia celestial. O próprio Satã faz a
pergunta retórica: “Por que assumo eu reais prerrogativas?” (p. 137); Satã se aventura,
diz Milton, como “Supremo chefe, o único Adversário do Céu, imperador cruel do
inferno, cheio de grã pompa e ar de Deus.”

Milton iniciara sua obra, Paraíso Perdido, nos meses finais do protetorado;
veio a ser publicada já depois da Restauração, no ano de 1667. Embora esteja claro
que muitos republicanos, Milton entre eles, tenham preservado sua crença na causa e
razão republicanas, todos haviam se decepcionado com o rumo que tomara a
república de Cromwell. Por isto mesmo, ao explicar sua guinada tirânica, sempre o
comparavam a um Monarca. Em Paraíso Perdido, a saga de Satã rumo à conquista da
Terra, criada para os homens, é descrita de modo a compará-lo a um monarca e
imperador.

Houve, assim, entre os republicanos ingleses, uma mudança: da aprovação


do republicanismo maquiaveliano para uma concepção de que as repúblicas deveriam
se restringir, evitar excessivos compromissos e alianças e rejeitar as conquistas,
favorecendo o comércio e os assuntos domésticos. A transição para o protetorado
havia confirmado os piores anseios dos republicanos: de que a grandeza da república
poderia fazê-los retornas à tirania. Já que Cromwell era pessoalmente responsável, os
republicanos não vieram a culpar sua ideologia, mas a aventura tirânica, militarista e
pessoal do protetor. Do mesmo modo que a república encontrara sua desgraça frente
à política externa de Cromwell, também Satã encontra má sorte após atingir seus
intentos na terra.

“Domínios, tronos, virtudes, poderes...

... como que intacta” – p. 717.