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ATERRA
ioHoiiian
no
nORDEITE

178
A Terra e o Homem no Nordeste 9
ÍNDICE

PKKPÁCIO ........................................................., ........... ,, ...................................................... 11

í — Introdução 15
II — O Nordeste: região tlc contrastes ................................................................... 19
1. Conceito.......................................................................... de Nordeste 21
2. Condições naturais c diversificações regionais 23
3. População e estrutura fundiária no Nordeste .................................................... 55

— A propriedade da terra e a mão-de-obra na


Região da Mata c Litoral
Oriental ...................................................................................................................... 63
1. A colonização portuguesa e o problema da mão-de-obra .................................. 65
2. Os holandeses e a escravidão ............................................................................. 72
3. O desenvolvimento econômico e as relações de trabalho na segunda metade do século XVII c no século XVIII
.............................................................................................................................. SI
4 Trabalho esetavo c assalariado no século XIX ................................................... 96
5. O desenvolvimento das usinas e a prolctarização do trabalhador
rural ................................................................................................................. 109
6. O trabalho no campo, nas áreas de cultura do coco, do arroz
ç do cacau ..................................................................................................... 131
III ............................................................................................................................................ — Propriedade, policultura
e mão-de-obra no Agreste ....................................................................................................... 141
1. A pecuária e o povoamento do Agreste ... ................................... 143
2. O surto algodociro no Agreste e o desenvolvimento do trabalho
assalariado .................................................................................................... 150
3 As relações de trabalho no Agreste em nossos dias ..................... 159
V — O latifúndio, a divisão da propriedade c as relações dc trabalho
no Sertão c no Litoral Setentrional .......................................................................... 177
1. A pecuária e o latifúndio na conquista do Sertão e do Litoral
Setentrional ................................................................................................... 179
2. O desenvolvimento da agricultura sertaneja .................................................... 1SS
3. Parceria e trabalho assalariado na economia sertaneja ................................... 198
VI (3 Meio Norte e a Gutana Maranhense .............................................................................. 223
I Franceses c portugueses: a conquista ................................................... 225
2, A ocupação do território ........................................................................ 226
3. O problema da mão de ohra ......................................................................... 232
I ON sistemas agrícolas atuais ............................................................................. 234
ninuiHinAPiA ....................................................................................................................... 24i
A COLONIZAÇÃO PORTUGUESA E O PROBLEMA DA MÃO-DE-ORRA

A costa nordestina foi, inegavelmente, dentre a grande extensão litorânea


brasileira, a primeira a ser explorada, Por aqui passavam as naus que da Europa
vinham para a Terra de Santa Cruz; aqui encontravam, por trás dos recifes,
penetrando nos estuários por um ou dois quilômetros, abrigo contra as forcas da
natureza c contra os inimigos. Aqui havia também o pau-brasil largamente
utilizado na Europa pela indústria da tinta.
Antes mesrno da colonização, da viagem de Martim Afonso, já havia em
Pernambuco algumas feitorias, entrepostos onde os valiosos produtos da terra eram
trocados por “bugigangas” de baixo preço c eram remetidos para as respectivas
metrópoles. Se a caravela que os transportava não defrontasse com o inimigo no
caminho da Europa, o negócio garantia grande sucesso econômico. Nessas feitorias
habituaram-se os portugueses com alimentes indígenas, com costumes indígenas e,
provavelmente, com mulheres indígenas, uma vez que dificilmente as mulheres
européias se disporiam a atravessar o Atlântico
A Terra e o Homem para 9viver na América, na incerteza
no Nordeste
dos primeiros anos de conquista.
Dentre as feitorias fundadas na costa nordestina e que certamente tinham
caráter temporário, (1) destacou-se a de Ttamaracá, de onde, segundo Varnhagen,
(a) foi remetido açúcar para Portugal em 1526 e para onde teriam sido levados
naquele ano, por Diogo Leite, 10 escravos a fim de se dedicarem a trabalhos
agrícolas. L1) Luís Ra- irúrez, que a visitou, afirma que nela viviam 13 europeus que
haviam assimilado certos costumes alimentares indígenas, pois possuíam cul-

1 Oliveira Lima, A Nova Lusitânia, em “História da Colonização Portuguesa”, vol. ITT.


66 Manuel Correia de Andrade
turas de mandioca e milho e criavam alguns papagaios. Dc animais europeus eles
possuíam apenas galinhas. )
Foi com Duarte Coelho, porém, aqui chegado em 1535, que se iniciou
verdadeiramente a colonização. Homem de têmpera com um tina prático
admirável c recebendo do Rei a doação de um lote de terra que se estendia desde a
foz do Rio Santa Cruz, ao Norte, até a foz do Rio São Francisco, ao Sul, para aqui se
transferiu com a esposa, o cunhado, parentes, amigos e companheiros que
desejavam fazer fortuna na América.
Dentre as inúmeras atribuições que Jhe competiam, estavam as de doar terras
em sesmarias a pessoas cristãs e a de escravizar os índios a fim de usá-los no
trabalho. Poderia até exportar para Portugal, em cada ano, 24 indígenas; permissão
que não deve causar estranheza uma vez que em Portugal, no século XVI, havia
grande quantidade de escravos negros. (2)
Chegando a Pernambuco, tratou Duarte Coelho de conquistar a terra ao
gentio, fundando, em 15 anos, duas vilas — Igaraçu e Olinda — e cinco engenhos,
um dos quais de sua propriedade. Teve de manter árdua Juta, desde que os tabajaras
e caetés, insuflados, às vezes, pelos franceses, hostilizavam constantemente o
donatário. Daí afirmar o cronista Rocha Pita (c) que o terreno que fora concedido a
léguas foi conquistado a palmos, e queixar-se o donatário ao Rei, em uma de suas
cartas, que se achava “gastado, pobre e endividado’’. (1)
Não sendo um visionário que se deixasse embriagar pela ambição da
descoberta de tninas de ouro ou prata e sendo o comércio de pau- brasil monopólio
da Coroa, achou Duarte Coelho que a sua fortuna só seria conseguida através da
agricultura da cana-de-açúcar, uma vez que este produto tinha grande procura no
mercado europeu. O clima quente, com uma estação seca e outra chuvosa,
dominante em sua Capitania, ao lado de um solo argilosa de massapê, favoreciam
consideravelmente essa atividade agrícola, por isto tratou de apossar-se das terras
férteis c úmidas das várzeas. Tratou de doar terras a pessoas que o acompanhavam,
escravizar índios e conseguir, no Reino, os créditos necessários à instalação dc
engenhos c à cultura da cana.
Na realidade, num período de quase 20 anos, ele conquistou poucas terras em
torno de Igaraçu e de Olinda e, ao falecer, os caetés ainda constituíam sério
obstáculo à ação coloniza doía dos portugueses. Coube a Jerônimo de Albuquerque,
após 15.53, conquistar a várzea do Capí- baribe, ampliando consideravelmente a
área favorável à cana-de-açúcar, c aos filhos do donatário, Jorge e Duarte de
Albuquerque Coelho, realizarem, na sétima década do século XVI, a conquista das
várzeas dos rios Jaboatão, Pirapama, Ipojuca, Serinhaém, Una e Manguaba,
estendendo o povoamento europeu quase até a foz do São Francisco. Esta expansão
fulminante para o Sul foi o resultado do fortalecimento dos colonizadores e da
necessidade de terras e de braços para o canavial.
Essa arremetida pelo território indígena era feita com grande energia, e ao
mesmo tempo que lhes tomavam as terras e os aprisionavam como escravos,
destruíam suas tabas e cercas defensivas e passavam a consumir os mantimentos
encontrados e a realizar novas culturas, (3) muitas vezes, até, usando as mesmas
“covas” dos roçados indígenas.
Com a grande expansão territorial conseguida, pôde o donatário aquinhoar os
seus companheiros com grandes porções cie rerra em áreas de matas consideradas
as mais propícias às culturas, cortadas por rios e riachos perenes e localizadas nas
proximidades dos trechos navegáveis dos rios que desembocam no Atlântico, o que
permitia o embarque do açúcar produzido para Olinda ou diretamente para o

A Terra c o Homem ao Nordeste 67


2 Goulart, Maurício, /I Escravidão Africana no Brasil, págs. 17 e sega.
3 Salvador, Frei Vicente do História do Brasil, pdjz. 201.
Reino. Na verdade, os estuários dos pequenos rios tiveram uma influência decisiva
no povoamento do Nordeste, até a construção das estradas de ferro no século
passado. Antes destas, cidades localizadas a alguma distância do mar, por trás da
área ocupada pelos mangues, no ponto termina! do trecho fluvial navegado,
formavam portos para onde convergiam os produtos de grandes áreas do interior.
Em função disto tiveram notável desenvolvimento, no século passado,
Mamanguape, na Paraíba. Goiana c Rio Formoso, ern Pernambuco, Porto Calvo e
Coru- ripe, em Alagoas, e Maruim e São Cristóvão, em Sergipe.
A proximidade do porto barateava o transporte não só do açúcar, como das
máquinas e utensílios necessários ao engenho; os rios e os riachos, numerosos e
pouco profundos, forneciam água para o consumo tia população, irrigavam os
canaviais de suas margens e, às vezes, moviam os engenhos; a mata fornecia a caça,
nos primeiros tempos, quando o gado era ainda insuficiente, fornecia a lenha para a
fornalha e a madeira para as construções e para a confecção das caixas de açúcar.
Assim, as condições naturais favoreceram o desenvolvimento de uma civilização
eminentemente agrária como a que Duarte Coelho com seus sucessores realizou em
Pernambuco.
Mas a posse da terra doada em extensos latifúndios, às vezes com dezenas de
léguas de extensão, não era tudo. Necessário era derrubar a mata, instalar os
engenhos, as casas-grandes, as senzalas, plantar os canaviais c as lavouras de
mantimentos. Para isso os ses- meiros necessitavam ter animais — bois e cavalos
importados da Europa — e escravos. A preação de índios tornou-se, então, uma ati-
vidade muito rendosa c olhada com grande simpatia pelo segundo donatário —
Duarte de Albuquerque Coelho,
Em seu governo, após derrotar os índios de Serinhaém, abateu-se sobre o
gentio grande desânimo, e os brancos, sequiosos de escravos, subiam os rios e
aprisionavam os índios, trazendo-os para o litoral quase sem encontrar resistência.
Aí eram cks vendidos ao preço de um carneiro, por dois cruzados ou a mil-réis a
cabeça, conforme assevera o cronista Frei Vicente do Salvador. (,J)
Nesta época tornou-se famoso o ex-jesuíta Padre Antônio de Gouveia, que
sabendo fazer mágicas, penetrou para o interior com alguns companheiros e
convencendo os índios do seu poder, por processos de magia, trazia-os a Olinda a
fim de vendê-los aos proprietários sempre sequiosos de escravos. Disto resultou
para o padre aventureiro, não só uma grande renda, como a -alcunha de Padre do
Ouro e o chamamento a Portugal para responder a processo perante a Inquisição,
(4) apesar de os índios caetés estarem condenados à escravidão por haverem devo-
rado em 1555 o Bispo D. Pero Fernandes Sardinha.
Estava sendo, assim, concluída a fase heróica da conquista, em que cada
proprietário “era obrigado a sustentar quatro terços dc espingardas, vinte espadas,
dez lanças e vinte gibões ou pelotes de armas, além de manter uma casa-forte; cada
morador, por seu lado, devia possuir uma arma; lança, arcabuz ou espada”, (”) a fim
de resistir a algum ataque dos selvagens, São desta fase, ou nela inspiradas, as casas-
grandes verdadeiramente acasteladas que existiram em Pernambuco e que teve na
do engenho Megaípe seu exemplo mais característico.
Afastados os índios do Litoral e sendo ainda dispendiosa a importação de
escravos africanos que provavelmente era feita desde o governo do primeiro Duarte
Coelho, trataram os colonos de env;ar entradas que, subindo o rio São Francisco,
trouxessem escravos do Sertão. Este caminho, apesar de ser o mais extenso, tinha a
vantagem de

68 Manuel Correia de Andrade


4 Salvador, Frei Vicente do, História do Brasil, pág. 204; Carvalho Alfredo de, Aventuras e
Aventureiros no Brasil, págs. 49 a 97.
permitir o transporte peJo rio, livrando os entradistas da penetração pela mata
e da subida da escarpa da Borborema, onde os indígenas teriam condições
excepcionais para lutar e bater os europeus.
As entradas são-franciscanas resultaram em completo fracasso. Assim, a que
foi feita pelo provedor Francisco de Caldas, auxiliado por Gaspar Dias dc Taíde, foi
concluída após lutas e canseiras, com a morte dos entradistas cm mãos dos índios
que os devoraram. A outra, realizada cm 1578 pelo Capitão Francisco Barbosa da
Silva, também não trouxe resultados positivos, uma vez que os entradistas voltaram
a Olinda, cansados e estropiados. Essas entradas provocariam
fortes divergências entre os tabajaras c os portugueses, fazendo com que aqueles se
aliassem aos potiguares da Paraíba e passassem a atacar a combalida capitania dc
Itamaracá. Os ataques indígenas provocaram forte reação dos luso-brasileiros e a
conquista das regiões situadas ao Norte da Nova Lusitânia. Realmente, foi notável a
arrancada feita para o Norte e Nordeste, daqueles que, partindo de Olinda,
conquistaram a Paraíba, o Rio Grande do Norte e o Ceará e arrebataram aos
franceses o Maranhão, no curto período de 35 anos, de 1580 a 1616.
A cana-de-açúcar acompanhou os conquistadores olindenscs sempre que
estes encontraram condições de clima e solo que permitissem a sua cultura. Daí
surgirem os vales açucareiros do Paraíba do Norte, na Paraíba, e o de Cunhaú, onde
Jerônimo de Albuquerque fundou o engenho do mesmo nome no Rio Grande do
Norte.
Nos lugares onde as condições climáticas e edáficas não permitiram a cultura
da cana-de-açúcar, como nos tabuleiros litorâneos que do Norte de Olinda se
estendem até o Rio Grande do Norte ou nas caatingas localizadas a Leste e ao Norte
da Borborema, os proprietários organizaram currais e criaram o gado necessário
para suprir de alimentos e de animais dc trabalho a área açucareira de Olinda.
O número de engenhos crescia constantemente-, se eram 5 em 1550, ('*)
somavam trinta em 1540, (,4) sessenta e seis em 1584 (5) e cento e quarenta e quatro
por ocasião da conquista holandesa (’") cm Pernambuco, havendo, ainda, dezenove
na capitania da Paraíba
e dois na do Rio Grande do Norte, totalizando, assim, no Nordeste, 166 engenhos.
É claro que o crescimento constante do número de engenhos estava sempre a
exigir um correspondente crescimento do número de braços, de escravos.
Crescendo a população, tornava-se necessário desenvolver a cultura de
mantimentos que desde o governo dc Duarte Coelho se fazia com razoável
interesse, tanto que, dirigindo-se ao Rei, em 1550, afirmava o grande Donatário que
entre os moradores de sua Capitania, os mais ricos montavam engenhos, outros
plantavam canaviais, tornando-se lavradores que moíam suas canas nos engenhos
dos primeiros, e outros, mais pobres, plantavam algodão e mantimentos “que são a
principal e mais necessária cousa para a terra1’. ( 6)
Ao lado da cana-de-açúcar cultivavam-se, no primeiro século de colonização,
produtos americanos que os europeus se acostumaram a consumir, como o algodão,
a mandioca, a macaxeha (aipim), o milho, várias espécies de favas e legumes, além
de plantas exóticas como o arroz e várias fruteiras, legumes e coqueiros
introduzidos aqui pelos portugueses que, navegando por todo o mundo, trouxeram-
nos da Europa, Ásia, África e Oceania. (ls)
Mas, o problema principal, o mais sério, era o da mão-de-obra, de vez que os
trabalhadores eram necessários não só à cultura da cana — plantio, limpa e colheita
— como à fabricação c ao transporte do açúcar e ainda à cultura dc mantimentos e

A Terra
5 Cardim. Fernão, e o Homem
Tratados da Terrano Nordeste
e da 69Brasil, pág. 290.
Gente do
6 Carta de 24 de novembro de 1555, transcrita na História da Colonização Portuguesa, tomo III,
pás;. 320.
aos serviços domésticos. Os índios não satisfaziam a essa necessidade de mão-de-
obra; inicialmente eram potico numerosos e as guerras e a migração para o interior
contribuíam seriamente para diminuí-los. Além disto, o seu desenvolvimento
cultural não havia atingido, ainda, a fase da agricultura sedentária, dc vez que na
época do descobrimento ainda se alimentavam, sobretudo, dos produtos da coleta,
da caça e da pesca. Ainda mais, conhecendo bem a região, fugiam facilmente para a
mata, onde se alimentavam dos produtos fornecidos pela floresta, conheciam os
seus perigos e o meio de evitá-los. Ainda em favor do gentio — embora a sua
aplicação fosse sempre burlada — havia uma série de leis regulamentando os casos
em que podiam ser escravizados, embora a sua escravização só tivesse sido
terminantemente proibida por lei de 27 de outubro dc 1831. (In)
[UVA-CCH/BIBLIOTEC |
Por essas razões, desde os primeiros tempos, houve sempre a importação de
africanos para o Brasil, e escravidão negra e indígena coexistiram desde o início da
colonização, uma vez que o próprio Duarte Coelho, já em 1542, solicitava ao Rei
autorização para importar negros da África. Nos anos que se seguiram, foram
introduzidos negros no Nordeste e, em 1559, a própria Rainha D. Catarina
determinou ao Governador da Ilha de São Tome que permitisse a saída, para cada
senhor-de-engenho do Brasil que apresentasse certidão do Governador Geral, de
120 negros do Congo, pagando apenas um terço dos direitos que lhes eram
cobrados. (211) Assim, apesar do preço elevado, os escravos africanos eram
importados para Pernambuco, quando os portugueses ocupavam ainda pequenas
áreas da Capitania. A expansão para o Sul, tornando desenfreada a caça ao índio,
não dispensava a importação de negros de Guiné, de vez que o Padre Fernão
Cardim, que esteve em Olinda em 1584, afirmou que aí havia grande escravaria de
Guiné e já poucos índios da terra. (7) Na realidade, o negro, representante de uma
civilização agrícola e já acostumado ao regime servil na África, oferecia maior
produtividade no trabalho que o indígena. Daí preferirem os proprietários, apesar
do alto preço, adquirir escravos negros a escravizar índios para o trabalho. Dois
fatos, porém, tornavam pernicioso um grande emprego de capital em escravos afri-
canos: a mortandade muito grande entre eles devido à má acomodação das
senzalas, à má alimentação, ao excesso de trabalho c à aclimata- bilidade, como
também a alta percentagem de fugas para o interior, onde se reuniam em
quilombos, bastante numerosos e freqüentes em todo o território nacional. O de
Palmares, devido à sua longa duração e à área de influência que abrangeu,
conseguiu romper a “cortina-de- -silêncio” que os nossos historiadores estenderam
sobre as reações negras contra o cativeiro no Brasil. Estas revoltas negras, porém,
no inicio do século XVII alarmaram o Governador D. Diogo de Botelho, uue
enviou forças militares para os combater. D. Diogo de Meneses c Siqueira,
Governador Geral que muito se preocupou com a agricultura nordestina, cm cartas
ao Rei (8) achava que a escravaria de Guiné, devido ao alto preço e aos riscos que
advinham da sua conservação, era a causa da ruína de muitos senhores-de-
engenho e tornava-se advogado da escravidão indígena.
A mortandade e ós quilombos, porém, não impediram os proprietários de
continuar a importar negros da África, tanto assim que, no começo do século XVII,
Brandônio dizia a Alvino cm seus diálogos: “neste Brasil se há criado um novo
Guiné, com a grande multidão de escravos vindos dele que nele se acham; em tanto
que, em algumas capitanias, há mais deles que dos naturais da terra, e todos os

70 Manuel
7 Obra Correia de Andrade
citada, pág. 294.
8 Cartas de 23 de agosto de 1608, publicadas nos Anais da Biblioteca Nutintitíl. vol. LVIT, pág.
37.
homens oue neles vivem têm metido quase toda sua fazenda em semelhante
mercadoria’’. ( i 3 )
Mas a produção do açúcar não era apenas uma atividade agrícola; ela requeria
um ccrto nível técnico que os escravos negros ou indígenas não possuíam. Daí
haver tido Duarte Coelho, logo nos primeiros tempos, o cuidado de importar
técnicos da Europa, os quais eram quase sempre israelitas. (9) Estes, que nunca se
dedicavam à agricultura, mas demonstravam pendores industriais, aproveitavam a
ocasião para deixar o Velho Mundo justamente quando grande era a pressão
exercida pela Inquisição contra o povo judeu. Tão grande era o número de judeus c
tal a sua importância em Pernambuco, nos fins do século XVI, que a Capitania
duartina recebeu a visitação do Santo Ofício, demorando-se o seu representante em
Olinda, procurando punir os cristãos novos que permaneciam fiéis às práticas
religiosas do mosaísmo. Foram, certamente, estes técnicos importados pelo
primeiro Donatário, os primeiros mestres de açúcar, caldeireiros, purgadores,
banqueiros e caixeiros dos engenhos coloniais. Eles e os pequenos lavradores iriam
construir o núcleo central de uma classe media rural que, pouco numerosa e
dominada pela aristocracia do açúcar, manter-se-ia como classe até a proletarização
quase total, imposta nos últimos anos pela concentração fundiária resultante do
aparecimento das grandes usinas.

2
OS HOLANDESES E A ESCRAVIDÃO

A conquista holandesa de Pernambuco e demais capitanias nordestinas


representa um empreendimento bem diverso do da colonização portuguesa na
mesma área, como experiência de adaptação do europeu aos trópicos. Uns e outros
eram, sobretudo, comerciantes, ao se defrontarem com as plagas nordestinas e aqui
chegar no afã de expandir o

A Terra c o Homem ao Nordeste 71


9 Diégues Júnior, Manuel, População e Açúcar no Nordeste do Brasil págs. 43 e
segs.
seu comércio. Os portugueses, porém, defrontaram-se com uma terra
desconhecida, inculta e habitada por indígenas que se achavam em plena idade da
pedra, e que, para proporcionar lucrós, tinha de ser conquistada aos selvagens e
transformada em função dc um mercado externo que começava a tornar-se
sequioso de produtos tropicais. Produtos que por isto atravessavam uma fase de
constante e ascendente valorização. Os holandeses aqui chegaram conhecendo a
terra e as possibilidades de lucro que dela podiam retirar, conhecendo as grandes
possibilidades de colocação do açúcar no mercado europeu. Daí acharem os
historiadores modernos (1) que foi o comércio de açúcar e os lucros que ele poderia
oferecer, a causa principal da escolha de Pernambuco para início da conquista
holandesa no Brasil, após o fracasso experimentado na Bahia em 1624.
Conquistaram uma colônia com economia organizada cm função da produção
açucareira, visando ao abastecimento do mercado externo, dispondo dc numerosa
população branca, possuidora de grandes latifúndios nos quais, utilizando o braço
escravo, desenvolviam uma atividade monocultora de “plantation”. Assim, como
explica Gilberto Frcyre na série de livros em que interpretou a formação social do
Nordeste, (a) a colônia portuguesa que os holandeses conquistaram tinha sua
economia baseada na trilogia: latifúndio, monocultura e escravidão. Daí sua
permanente relação com a África, que lhe fornecia os braços necessários à
agricultura, e com a Europa, para onde exportava açúcar c pau-brasil e dc onde
importava alimentos como farinha de trigo, queijo, manteiga, vinho, e vestuário,
calçados, adornos etc.
A intenção dos holandeses não era destruir esta civilização já consolidada, mas
tomar aos portugueses as posições, os lucros e os privilégios que aqui usufruíam.
Vencendo aos portugueses, fariam modificações de superestrutura, mas na
realidade manteriam intatas as instituições econômicas bem rendosas na época. Daí
ser grande o número de holandeses que logo após a conquista se fez senhor de- -
engenho, lavrador de cana e até proprietário de currais. (3)

í1) Opinião de José Antônio Gonsalves cie Mello, neto, Tempo dos flamengos, pág, 150; José
Rodrigues e Joaquim Ribeiro, Ciuilizaçào Holandesa nu Brasil, pág. 92. O historiador pernambucano
Alfredo de Carvalho admite em Estudos Pernambucanos, pág. I, que a desejo dc encontrar minas de
ouro também tenha influído na determinação desta invasão.
(2) Frcyre. Gilberto, Casa-Grande & Semala, 4." edição, Sobrados e Mo- cambos, Ordem e
Progresso e Nordeste são os livros principalmente dedicados pelo sociólogo dc Apipucos à formação
social da civilização açucareira do Nordeste.
(3) Gonsalves de Mello, neto, José Antônio, Tempo dos Flamengos, págs.
I e 153; Honório Rodrigues, José e Ribeiro, Joaquim, Civilização Holandesa 110 Brasil, págs. 254 e
segs.
Pernambuco c as capitanias vizinhas e dela dependentes econômica e
socialmente, estavam em plena fase de desenvolvimento quando, em 1630, os
holandeses iniciaram a invasão. Segundo Verdonk, que agia como verdadeiro
espião, (10) Olinda era o grande centro da colônia, pois aí viviam quase 10.000
pessoas, dentre as quais 4.000 eram escravos, e era também o ponto para onde
convergia o comércio do açúcar, uma vez que o porto do Recife, então simples
povoação, (*) dela distava apenas 6 quilômetros. A área açucareira por excelência,
mais rica e de mais famosos engenhos, era a várzea do Capibaribe, que ficava
próxima e dispunha, então, de 13 a 14 engenhos, seguindo- -Ihe a região do Cabo
de Santo Agostinho, onde havia 16 engenhos. Também com mais de 10 engenhos
em cada uma, dedicavam-se inteiramente à cultura da cana as várzeas do Ipojuca,

10 Vcrdoní», Adrien, Memória oferecida ao Senhor Presidente e mais Senhores do Conselho


desta cidade de Pernambuco sobre a situação, lugares, aldeias
A Terra c comércio
e o Homem da mesma
no Nordeste 72 Cidade, bem
conto de Itamaracá, Paraíba e Rio Grande. "Revista do Arquivo Público”, Ano LV, n." VI, págs. 613 a
628.
do Serinhaém, em Pernambuco, a do Goiana, na capitania de Itamaracá, e a do
Paraíba do Norte, na capitania deste nome. Nestas áreas o gado criado era pouco e
as lavouras dc subsistência feitas em função do auto-abaste- cimcnto.
Zonas de criação c de lavoura visando ao abastecimento da própria capitania
em produtos como o feijão, mandioca, milho, arroz, cereais, fumo e frutas, era a
compreendida pela bacia do Rio Una e pelo atual território alagoano, onde havia,
de permeio, alguns engenhos. Porto Calvo, por exemplo, apesar dos engenhos
fundados por Cristóvão Lins, (°) era zona mais dc pecuária que de agricultura.
Pecuária que crescia de importância à proporção que se caminhava para o Sul, uma
vez que essa era a atividade quase exclusiva na zona do São Francisco e no
território sergipano. Convém ainda lembrar que no Norte da Bahia estavam
estabelecidos os Dias d’ÁviIa, que iniciaram no governo de Tomé de Sousa uma
verdadeira dinastia de criadores de gado, a qual, em função desta atividade
econômica, realizou, através dos seus prepostos, a conquista dc amplas áreas
sertanejas, tornando-se os mais famosos e poderosos latifundiários do Brasil
colonial e imperial. A famosa Casa da Torre constitui, inegavelmente, um símbolo
do latifúndio pecuário no Brasil. (11 > É claro que, sendo pequena a penetração do
povoamento para o interior no primeiro século, os pecuaristas deviam ocupar áreas
desmaiadas na bacia do Una, grandes extensões de tabuleiros existentes cm Alagoas,
e os campos sergipanos e baianos.
Ao Norte dc Olinda ficava Igaraçu, uma vila pobre, de poucos engenhos e de
pequena produção dc açúcar, uma vez que estava cercada por tabuleiros arenosos
pouco férteis e pot extensos roanguezais. Ao Norte da Paraíba havia apenas um
engenho em Camaratuba, e o Cunhaú e o Potengi no Rio Grande do Norte. Nesta
área surgia novamente em toda a sua plenitude o domínio da pecuária, da pesca e
da agricultura de mantimentos, vivendo a população sempre a poucos quilômetros
de distância do litoral.
Observa-se, assim, que a cultura da cana-dc-açúcar estava em piena fase
expansiva, conquistando terras às matas e às lavouras de Subsistência que a
antecediam no desbravamento dos locais mais inóspitos e distantes; havia extensas
áreas com solos propícios ainda não conquistadas por ela. Poderia estender-se pelos
vales férteis do Sul e do Norte, assim como para o interior, onde as espessas matas
eram perlustradas apenas pot preadores dc índios e pessoas dedicadas à exploração
do pau-brasil. Estas áreas possuíam alguns engenhos que nem sempre moíam todos
os anos, campos de criação e culturas dc mantimentos. Forneciam, assim, os
alimentos necessários à área canavieira e às vilas e povoações das capitanias
nordestinas. Também o mar e os rios eram muito piseosos, os mangueznis
ofereciam saborosos caranguejos e as matas, abundante caça.
Cada engenho era uma unidade econômica que reunia grande número de
pessoas. Geralmente, além do senhor-de-engenho, viviam, no mesmo, brancos: o
capelão, o mestre de açúcar, o banqueiro, o mestre purgador, o escumador, (“) o
feitor e os lavradores. É verdade que, com o tempo, os mulatos c negros foram
ascendendo a estes postos e houve até escravos que chegaram a ser mestres de
açúcar. Também em cada engenho havia, então, em média, de 50 a 60 escravos do
senhor, além dos pertencentes aos lavradores. Estes, ou eram negros de Guiné, ou
índios locais, ou do Maranhão.
A conquista holandesa foi feita após mais dc cinco anos dc lutas intensas que
provocaram grande destruição nas capitanias nordestinas. Olinda, o mais
importante centro urb-ano regional, foi incendiada e com ela vários engenhos
tiveram casa-grande, senzala e fábrica inteiramente destruídas pelo fogo. Muitas
A Terra <? o Homem no Nordeste 73

11 Ver a respeito, Boxer, C. R., Oi Holandeses no Brasil (1624-16S4), pág. 200.


máquinas foram lançadas aos rios ou ao mar. Os canaviais foram destruídos. O gado
foi em parte dizimado e em parte dispersado. Os fazendeiros de Sergipe c do São
Francisco levaram os animais que puderam para a Bahia, ou subiram o curso do
grande rio. Os escravos, aproveitando-se da luta, fugiram para o interior, para as
matas, e organizaram quilombos onde voltavam à vida que levavam na África.
Bandos de salteadores passaram a agir naquela área outrora florescente e agora
abandonada por grande parte dos proprietários que se retirara para a Bahia.
Cabia aos holandeses reorganizar aquela economia cujos alicerces haviam
abalado. Apesar de muitos inicialmente haverem-se tornado senhores-de-engenho
e lavradores, compreenderam que necessitavam dc apoio dos portugueses,
conhecedores dos processos de cultura da cana e da fabricação do açúcar, para fazer
florescer as capitanias conquistadas. Maurício de Nassau, chegado ao Recife em
1637, era a figura mais indicada para concluir e consolidar a conquista, pois às suas
qualidades de administrador juntava grande espírito de tolerância e profundo amor
à terra conquistada. As tarefas eram muito árduas. Era necessário combater os
salteadores que agiam na região açucareira, captar a confiança e a colaboração dos
portugueses e luso-descendentes que permaneceram nas capitanias conquistadas,
destruir os quilombos, aliar- -se aos índios que em geral odiavam os portugueses,
conquistar os pontos fornecedores de escravos — a África e o Maranhão — reunir o
gado disperso, reorganizar a pecuária e tomar providências a fim de normalizar o
abastecimento do Recife e da cidade Maurícia que ele, o conde holandês, iria criar
na Ilha de Antônio Vaz. Eram todas, tarefas para muitos realizarem em inuitos
anos.
Adrien van der Dussen, em levantamento feito em 1639, quando muitos
engenhos podiam ter sido já consertados, informou que 27% dos engenhos das
capitanias conquistadas não moeriam naquele ano, havendo até alguns cuja
reconstrução se apresentava ao holandês como difícil de ser feita. Dos engenhos
mencionados, a maioria — 78 — era movida a água, enquanto 37 eram movidos a
bois; quanto aos restantes — 33 —, o relatório não indica qual a força utilizada. E
interessante observar como, a esta altura, era grande o número dos engenhos — 23
— adquiridos à Companhia das índias Ocidentais pelos holandeses. Esta os havia
confiscado aos portugueses que se retiravam para a Bahia com as forças de
Bagnuolo. Posteriormente, estes holandeses foram-se desinteressando da produção
do açúcar e se dedicando mais ao comércio, como convinha ao povo, em geral
çitadino, e por dar lucros mais fáceis. Só alguns, como Servacs Carpentier e Gaspar
van der Ley, adaptaram-se realmente à vida dos engenhos, havendo

74 Manuel Correia de Andrade


o segundo casado com pernambucana e permanecido no Brasil após a
expulsão dos seus compatriotas. (°)
Mas a produção do açúcar não dependia apenas da reconstrução dos
engenhos. Era necessário que os proprietários e os lavradores dis- pusessem de
escravos. Estes, antes da conquista, eram constituídos por três grupos: os indígenas
da região que, legalmente, ou haviam sido apreendidos em guerra ou sido
adquiridos aos tapuias; os indígenas aprisionados no Maranhão e remetidos para
Pernambuco, e os negros trazidos da costa da África, de várias nações, e oriundos
de vários portos desde a Guiné até o Congo e a Angola. {tc*) Os holandeses, visando
conseguir apoio dos índios que pertenciam às tribos da região, libertaram os
pertencentes ao primeiro grupo, admitindo como legal a escravidão dos negros e
dos índios do Maranhão. Também, para que a indústria açucareira se reorganizasse,
ocuparam certos pontos da costa africana, como os portos da Costa da Mina e de
Luanda e a Ilha de São Tomé, e passaram, eles próprios, a realizar o ttáfico como
monopólio da Companhia. Os escravos eram trazidos amontoados em navios, sob
condições alimentares e sanitárias as mais precárias e sujeitos a grande mortandade.
Condições, dizem, (12) mais precárias ainda que as dos tumbeiros portugueses e
agravadas, sobretudo, para aqueles provenientes da costa da Guiné que, devido às
calmarias, faziam quase sempre uma viagem muito longa.
Chegando ao Recife os negros eram
expostos à venda no mercado dos escravos
e adquiridos quase sempre a prazo, com
vencimento na época da safra, por
senhores-de-engenho e lavradores. A
Companhia deveria, com isto, obter grande
lucro, uma vez que o escravo era comprado
na África a preços módicos — de 12 a 75
florins em Guiné, e de 38 a 55 florins
em Angola — e vendidos no Recife a
preços elevados — de 200 a 300
florins por peça comum (1 -) —quando os
negros eratn fortes e sadios davam, às vezes, 600 a 800 florins. Este comércio teve
tanta importância que. dos fins de 1636 até o verão de
1645, os holandeses trouxeram para o Recife 23.163 negros. Mais
de 2.500 escravos por ano, portanto. Os lucros, porém, desapareciam porque os
compradores quase nunca saldavam os seus débitos. Fugindo a este prejuízo, a
Companhia passou a vender os escravos a vista, mas como os senhores-de-engenho
c lavradores não dispunham de capitais para isto, os negros eram vendidos a
comerciantes judeus que os revendiam a prazo, aos que deles necessitavam, por
preços exorbitantes e juros elevados. Isto criava uma situação vexatória oara os
produtos de açúcar, uma vez que o preço deste produto não dava para cobrir as
despesas com a reconstrução dos engenbos, aquisição e manutenção dos escravos, a
manutenção da prónría família e os Dreiuízos causados pelos salteadores, soldados
holandeses às vezes muito prepotentes, e pelos bandos de guerrilheiros oriundos da
Rabia, que incendiavam os canaviais da área sob o domínio batavo. Incursões essas
que se tornaram mais freqüentes após a volta para a Holanda do Conde de Nassau.
Naquela época, porém, o senhor-de-engenho era mais um industrial yue um
A Terra e o Homem no Nordeste 75

12 Gonsalves de Mello, neto, José Antônio, Tempo dos Flamengos, pág; 210.
agricultor, de vez que cultivava apenas uns poucos nartidos de cana, quando o
fazia, preferindo industrializar a Cana fornecida pelos lavradores. Assim, no
relatório de van der Dussen, quando ele menciona o número de partidos de cana
lavrados em 61 engenhos, apenas uns 13% pertenciam aos proprietários, sendo a
imensa maioria de mais de 85% dos partidos, de propriedade dos lavradores.
Estes às vezes lavravam terras próprias, fornecendo suas canas para o
engenho próximo que mais lhes aprouvesse. Cabia a eles o plantio e trato da cana,
colheita e transporte até o engenho onde ela era entregue ao senhor; o senhor-de-
engenho com seus empregados c escravos se incumbia da moagem, sendo o açúcar
produzido dividido em partes iguais, uma para o senhor e outra para o lavrador. O
lavrador necessitava, assim, de escravos e de bois com os respectivos carros, a fim
de atender à sua cultura. É claro que o número de escravos e de juntas de bois de
que dispunha, variava com as posses e os partidos que podia cultivar. Após a
moagem, cabia ao lavrador as despesas com o secamento do açúcar, o
cncaixotamcnto e o frete para o mercado ou lugar conveniente.
Sc o lavrador não dispunha de terras próprias, alugava-as de um determinado
engenho, obrigando-se a nele tnoer as suas canas; neste caso, a sua percentagem
era menor, sendo de um terço contra dois do senhor-do-engenbo, se a terra era
fértil e próxima à fábrica, ou de dois quintos se não ocorressem essas vantagens.
Também o mel que escorria do açúcar na casa de purgar era propriedade do
senhor-de- -engenho, que o utilizava na entre-safra sob a forma de garana, na
alimentação de escravos, cavalos e bois. Ora, um lavrador que cultivasse 40 tarefas
de cana, lembrando-se de que cada tarefa correspondia à quantidade de cana
moída por um engenbo em 24 horas, necessitaria dispor de, aproximadamente, 20
escravos com enxadas, foices e machados, e de 4 a 8 carros com uma quantidade de
bois que oscilaria, conforme o número de carros, entre 12 e 24. A tarefa
correspondia, tios engenhos a boi, a 25 ou 30 carros de cana e, nos movidos a água,
a 40 ou 50 carros.
O número de tarefas que cabia a cada lavrador dependia tanto da área
disponível, como da capacidade e do número de lavradores existentes no engenho.
Isto porque a moagetn só podia estender-se de setembro a abril, lambem cabia ao
lavrador realizar, por intermédio dos seus escravos, lavouras dc subsistência,
geralmente nas terras menos férteis ou mais distantes, a fim dc alimentar a família
e a escravaria. Levava, assim, uma vida bem morigerada, uma vez que o lucro
obtido era quase sempre empregado em escravos, em animais e em utensílios de
trabalho. Lavouras de subsistência ainda eram cultivadas pelos chamados
moradores, homens livres que o proprietário autorizava a viver cm sítios distantes
do engenha e que pagavam anualmente uma pequena renda, sempre em gêneros e
chamada geralmente de foro.
O senhor-de-engenho que mofa as canas dos lavradores e a de seus partidos,
quando cultivava cana, tinha de empregar grandes cabedais e, apesar de receber
um bom quinhão das canas que moía, vivia quase sempre em dificuldades para
amortizar as suas dívidas. Isto porque era grande o capital empregado nas
construções que necessitava fazer (casa de rnoenda, chamada de ''moita” ao Norte
de Pernambuco, casa de purgar, olaria, além da casa-grande, da senzala e, às vezes,
da capela), nas máquinas, na aquisição dc negros — em número que normalmente
oscilava entre 40 e 70 indivíduos, conforme a capacidade do engenho — em
animais — de 30 a 40 bois — em cerca de 10 a 12 carros e numa série enorme de
utensílios. Também cabia a ele pagar o salário de uma série de empregados, como
76 que
os Manuel Correia ademoenda,
dirigiam Andrade a plantação, os negros e os bois. (**)

Os negros eram obrigados a trabalhar todo o dia, "de sol a sol”, reunidos
formando o eito, sob as ordens de um feitor. Engenhos havia que, devido à sua
importância, possuíam vários feitores, sendo o chefe deles chamado feitor-mor.
Costumavam os senhores-de-cngenbo e lavradores portugueses, por serem
católicos, permitir o descanso dos seus escravos nos domingos c dias santificados,
enquanto os holandeses, por serem calvínistas, guardavam apenas os domingos. Os
escravos dos judeus tinham mais folga, já que estes, por motivos religiosos, guar-
davam os sábados c por temor às autoridades guardavam também os
domingos. Daí os escravos preferiram os senhores judeus aos católicos, e estes
aos ealvinistas. (11) Pelo exposto observa-se o grau de importância do negro na
produção do açúcar. A necessidade de produzir açúcar fez com que os calvinisras
holandeses afastassem seus escrúpulos religiosos contra a escravidão, (15) o que
levou em 1640 os Heercn XIV a afirmar que “sem negros e sem bois nada se
poderia esperar de Pernambuco”. (I6) Assim, Pernambuco e Angola tinham de
permanecer na mão de um único senhor se se quisesse, naquela época, abastecer de
açúcar a Europa. O tratamento recebido pelos negros, dos seus senhores tanto
holandeses como portugueses, era bastante severo, como ocorria na cpoca. Os
escravos eram freqüentemente submetidos a maus-tratos, a castigos corporais,
podendo ser batidos com chicote, varas ou correias de couro, ser postos a ferro ou
no tronco ou até ser acorrentados pelos pés ou pelo pescoço; não convinha,
entretanto, aos senhores, matar ou mutilar os cativos que lhes haviam custado
muito dinheiro; é possível que alguns mais perversos às vezes mutilassem ou
ferrassem a fogo os seus escravos, mas não devia ser freqüente a fim de não
desvalorizar “peças” tão caras. Entretanto, mesmo aqueles cautelosos e cientes do
valor dos seus escravos, como o famoso João Fernandes Vieira, recomendavam que
não se castigassem os escravos com paus nem com pedras quando merecessem, a
fim de não desvalorizá-los, mas que os colocassem sobre um carro c os açoitassem
e, após o açoitamento, fossem os mesmos picados com navalha e faca que cortasse
bem, pondo-se depois, sobre as feridas, sal, sumo dc limão ou urina. Após isto,
ainda era o pobre escravo metido em corrente por alguns dias. (1T) Vê-se, assim,
como eram pouco humanas as condições de vida impostas aos escravos em nossos
engenhos. (ls)
No Brasil holandês, entretanto, não se usava na agricultura apenas o trabalho
escravo; os índios livres que viviam em seus aldeamentos dcdicando-se à coleta, à
caça e a uma pequena agricultura de mandioca e feijão, aceitavam, às vezes,
trabalhar por algum tempo, desde que lhes prometessem aguardente ou outras
bebidas fortes, Não tendo ambições, vivendo em choças na maior miséria, não se
dispunham a trabalhar se não houvesse o estímulo mencionado. (,!))
As destruições causadas pela guerra e o alto preço da escravaria, fizeram corn
que os senhores-de-engenho e lavradores empregassem os braços de que
dispunham na cultura da cana-de-açúcar c se descuidassem das culturas de
mantimentos. Resultou daí tornar-se freqüente, durante o domínio holandês, a
falta dc alimentos básicos, sobretudo da farinha de mandioca. Como tal fato
provocasse sérios transtornos na capital, resolveu o Conde de Nassau determinar
que cada senlior-de- •engenho e cada lavrador de cana plantasse mantimentos,
determinando que emre estes se exigisse a plantação de 5.000 covas de roças por
cada escravo que possuíssem. Os lavradores que se dedicavam a outros culturas
deveriam plantar 1.000 covas por cada escravo. (13)
Assim, tentando apenas substituir os portugueses, inicialmente, nos negócios
do açúcar, e depois se dedicando mais ao comércio deste produto que à sua
produção, os holandeses, apesar de desenvolverem consideravelmente a cidade do
Recife e a vida urbana na área sob o seu domínio, não introduziram modificações
sensíveis nem nas técnicas de produção do açúcar, nem nas relações de trabalho no
campo. Dominaram militar e politicamente grande área do território brasileiro,
mas a produção de açúcar continuou em mãos portuguesas, uma vez que os batavos
não aprenderam bem as técnicas de sua fabricação, nem as maneiras mais hábeis de
tratar os escravos e fazê-los produzir.

78 Manuel Correia de Andrade

13 Gonsalves dc Mello, neto, J. A., Tempo dos Flamengos, pág. 189,


3
O DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E AS RELAÇÕES DE TRABALHO NA
SEGUNDA METADE DO SÉCULO XVII E NO SÉCULO XVIII
No período que se estende desde a expulsão dos holandeses ( 1654) até a
abertura dos portos brasileiros às nações amigas (1808 ), a agricultura canavieira no
Brasil atravessou fases de crise e de esplendor. As primeiras provocadas pelo
desenvolvimento da indústria açu- careira nas Antilhas, onde melhores solos e uma
técnica agrícola e industrial mais desenvolvida permitiram uma produção mais
econômica. Também a política monopolista das potências colonizadoras causou
sérios transtornos à nossa indústria açucareira, devido à baixa
população do Reino e aos sérios problemas criados pelas companhias de comércio.
Em compensação, as guerras travadas na Europa na segunda metade do
século XVIII, em que se envolveram as principais potências colonizadoras, e as
revoluções surgidas nos fins daquele século nas Antilhas — Haiti, sobretudo —,
favoreceram muito a nossa indústria açucareira, dando-lhe uma fase dc euforia
econômica, adiando, em conseqüência, para o inicio do século XIX, as lutas
cmancipacionistas que se deram com tanta intensidade em Pernambuco. Isto
porque, ficando Portugal à margem daqueles conflitos, colocava facilmente a
produção brasileira do açúcar no mercado europeu. (14) Produção de açúcar que,
apesar dos seus altos e baixos, deu à potência colonizadora, em todo o seu período
de domínio sobre o Brasil, mais rendas do que a mineração do ouro.
Interessante é que, apesar da flutuação da procura do açúcar no mercado
europeu e dos baixos níveis técnicos da agricultura e da indústria, a população
nordestina espalhou-se no período que ora estudamos por toda a região,
ocupando-a quase inteiramente. É verdade que amplas áreas continuaram cobertas
de matas e que os engenhos, vilas e povoações ficavam situados distantes uns dos
outros, mas a superfície dos Estados nordestinos ficou praticamente desbravada, o
que não ocorreu em outros trechos do território nacional, como os Estados do Sul
do país e São Paulo, que ficaram com terras a desbravar ate o século XX.
Levantamento feito em 1774, (15) constata um povoamento quase contínuo
em toda a região estudada, desde Natal, no Rio Grande do Norte, até Penedo, no
atual Estado de Alagoas. Sergipe e o Norte da Bahia já eram também naquele ano
bastante povoados, A área canavieira localizava-se quase sempre próxima ao
litoral, mas em Pernambuco já penetrara bastante para o interior cm freguesias
como Tracunhaém, Vitória de Santo Antão e São Lourenço da Mata, que ficavam,
nos fins do século XVI, cm plena área dc exploração do pau-brasil. Espalhados pela
região havia 387 engenhos reais e 85 engenhocas. Em Sergipe, nos fins do século
XVIII, localizavam-se 30 engenhos — 10 no vale do Vaza-Barrts e 20 na
Cotinguiba — ao lado
de 10 engenhocas que se dedicavam à fahricação de aguardente. (s) Os engenhos
reais se distinguiam das engenhocas por se destinarem à fabricação do açúcar e não
à fabricação de rapadura ou de mel, matéria-prima pata a fabricação da aguardente.
A maior concentração de engenhos se localizava no atual território
pernambucano onde somava o número de 287, contra 63 na atual Alagoas, 32 na
Paraíba e apenas 3 no Rio Grande do Norte. É que aí havia melhores condições

14 Prado Júnior, Caio, História Econômica do Brasil, pág. 81 c scgs.


15 Idéia Geral da Capitania de Pernambuco c das suas anexas, extensão de suas Costas, Rios e
Povoações notáveis. Agricultura, número de Engenhos, Contractos, e Rendimentos Reaes, augmento
que estes tem lido desde o atino de 1774 em que tomou posse do Governo das mesmas Capitanias e
Governador e o Capitan General José César de Menezes, em ”Anaes da Biblioteca Nacional”, Rio. de
Janeiro, vol. XL, pág. 1 a 113. A Terra e o Homem no Nordeste 79

82 Manuel Correia de Andrade


naturais, maior densidade demográfica e maior proximidade do porto do Rccifc, o
que tornava os fretes mais baratos.
O progresso sobre o período anterior, quanto à indústria açuca- reíra, era
mínimo, uma vez que continuavam a dominar os engenhos a tração animal sobre
os engenhos d’água, apesar destes oferecerem maior capacidade de produção (Foto
n,“ 8), A pouca declívidadc do solo nas áreas próximas ao litoral e a pouca água no
verão, nos lugares mais distantes, certamente levavam os proprietários a preferir a
força mccáníca dos animais à força hidráulica na movimentação dos seus
engenhos. Observe-se, porém, que os bois, largamente usados para movimentar as
almanjarras até o domínio holandês, haviam sido, então, quase inteiramente
substituídos por cavalos e éguas bem mais velozes. Continuavam, porém, a usar
lenha para alimentar as fornalhas, enquanto o bagaço era queimado na bagaceira;
ignoravam o uso de adubo na cultura dos canaviais, perdendo o esterco dos
animais c o próprio bagaço apodrecido, e continuavam a fazer a “coivara”, ou seja,
a queima da vegetação nativa após o corte, a fim de desocupar as terras onde
pretendiam cultivar a cana. Nunca procuravam obter novas variedades de cana;
cultivavam sempre a variedade introduzida no século XVI e que, posteriormente,
chamaram “crioula"; e só a partir do século XIX, pas saram a cultivar outras
variedades.
Ao lado dos canaviais, outras atividades econômicas, feitas em menor escala e
ocupando áreas ainda nao disputadas pela cana, tinham, então, alguma
importância, Dentre elas se destacaria a cultura do algodoeiro, pois, graças à
descoberta da máquina a vapor, o algodão passou a ser largamente consumido na
Europa peía florescente indústria de tecidos. Quem estudar a história econômica
do Nordeste verá que cia se resume, nos dois últimos séculos, numa luta entre a
cana-de-açúcar e o algodão. Conforme as solicitações do mercado externo e a
oscilação dos preços, a cana-de-açúcar, partindo das áreas mais úmidas onde domi-
nava, avançava por áreas de clima menos úmido, que por sua vez eram
A Terra e o Homem no Nordeste 81
disputadas pelo algodão, dominante nas regiões semi-áridas, quando os preços
subiam c os do açúcar baixavam. O algodão ainda alimentava importante
fabricação de tecidos ordinários largamente consumidos no país c muito
vendidos na feira de Santo Antão. A pecuária, indispensável tanto à indústria
açucarcira como ao abastecimento dos centros urbanos então florescentes,
ocupava não só o Agreste e o Sertão, como até mesmo certos trechos da região
da Mata e do Litoral Oriental, sobretudo no Rio Grande do Norte, na bacia do
Mamanguape (Paraíba), e ao Sul, nos vales do São Miguel, do Coruripe, do São
Francisco e dos rios sergipanos. Este gado permitiu a existência dc vários
curtumes c movimentou importantes feiras nas vilas dc Santo Antão e na
povoação dc Pau d’Alho, Informa documento da época, (16) com possível
exagero, que aos sábados se abatiam nessa povoação de 90 a 100 reses.
Outras culturas como a mandioca, o milho, o feijão e as fruteiras nativas c
exóticas eram largamente cultivadas até mesmo naquelas várzeas que se
destacavam pela produção de açúcar, como a do Capi- baribe e a do Jaboatão,
garantindo não só o abastecimento da população rural, como da urbana.
Também a cultura do coqueiro já começava, nessa época, a expulsar o cajueiro
nativo das regiões praieiras, modelando uma paisagem bem diversa da que
antes existia, Muitas das cidades já se destacavam como vilas ou povoações.
No Recôncavo Baiano a cana-de-açúcar limitou-se a ocupar as terras de
massapê, deixando para o fumo os terrenos arenosos; a cultura do fumo se
expandiu muito, dc vez que este produto passou a ser usado como moeda para a
aquisição de negros na África. Assim, a área que produzia açúcar para o
mercado europeu e que se abastecia de negros na costa africana passou a
abastecer este contincntc.com o fumo.
Em toda a região estruturou-se, nesse período, uma sociedade aristocrática
dividida em classes. No ápice aparecia a figura do senhor- -de-engenho com um
prestigio e poder que eram tanto maiores quanto maior fosse a extensão de suas
terras, a produção dos seus canaviais ou o número de escravos que possuísse.
Para salientar a sua posição, construía a casa-grande assobradada ou com
calçada alta sobre uma colina ou uma encosta, de onde falava a lavradores,
empregados ou escravos. Saía sempre a cavalo, (17) dc onde continuava a falar
do alto àqueles a quem dava ordens. Daí a comum paixão por bons cavalos que,
como ainda hoje se diz; “andam de meio abaixo”.

16 Idéia da população etc., já citada, pág. 36.


17 Freyre, Gilberto, Nordeste, 2.* edição, pág. 124.
A instalação e o desenvolvimento de um engenho implicavam num
grande emprego de capital, não só devido à construção dos prédios
indispensáveis como a “moita” onde se localizavam a caldeira e o assentamento,
a "casa de purgar" onde o açúcar era posto em formas, em estrados sobre um
tanque para onde escorria o mel de furo, o seca onde, após o escoamento do
mel, ele era posto a secar ao Sol, e c> cncai- xamento onde ele era
acondicionado para a exportação, como também dos prédios complementares
como o curral, a estrebaria, a casa-grande, a casa do feitor e a senzala (Foto n.°
9). Empregavam também capital na aquisição dc escravos, bois e cavalos sem os
quais a cana não seria plantada nem moída. O número de escravos era sempre
de várias dezenas, havendo até grandes engenhos que dispunham de 150 a 200
escravos, cifra que à primeira vista poderia parecer exagero, mas que não o era,
devido às condições de cultura e industrialização da cana- -de-açúcar.
Assim, quando se iniciava a estação chuvosa, geralmente em março, não
tinha ainda o engenho concluído a moagem e já cra tempo de limpar o mato
para a cultura da cana. Essa limpa, que requeria sempre um grande número de
braços, era feita a machado quando se tratava dc mata, ou a foice, quando era
em área antes explorada, e sempre seguida da “coivara”. Na época a que nos
referimos, esta terra podia ser utilizada na cultura do milho e do feijão, feita em
fins de marco e começo dc abril e colhido em junho e julho a fim de ser
utilizado na alimentação dos escravos. Em junho e julho era feito o plantio da
cana destinada à moagem do ano seguinte, isto é, aquela a ser feita 13 a 18
meses após o plantio, podendo este estender-se nas várzeas úmidas até
novembro ou dezembro. Em setembro começava a moagem que se estenderia
até março ou abril do ano seguinte. Assim, devido ao longo ciclo vegetativo da
cana-de-açúcar, o senhor-de-engenbo tinha c ainda hoje tem sempre duas
safras a tratar, a do ano corrente e a que moerá no ano seguinte, necessitando
manter a cana limpa até que ela alcance o seu pleno desenvolvimento. Como a
cana, uma vez cortada, refloresce, renasce, distinguimos a de planta (1* folha), a
da soca (23 folha), da ressoca (33 folha), da 43, da 53, da 63 folha etc. A
primeira necessita de cinco limpas anuais, ao passo que as demais se manterão
limpas e darão boa produção, em média, com 3 limpas por ano.
Devido a este sobrecarregado calendário agrícola é que o senhor- -de-
engenho sempre necessitou de braços, sempre precisou adquirir escravos para
pagar quando entregasse o açúcar e, consequentemente, sempre esteve
endividado devido ao alto preço dos negros e à freqüente perda dos mesmos por
doenças, acidentes ou fuga. Salientamos por fuga, porque, apesar de se afirmar
sempre que o negro su-
84 Manuel Correia de Andrade
portou com paciência, sem reação, o cativeiro, o fato é que ele sempre estava a
fugir para o mato, a organizar quilombos, a suicidar-se. a reagir, enfim, das formas
mais diversas contra a prepotência dos seus senhores.
Fm segundo lugar na escala social dessa aristocracia canavieira estavam os
lavradores que, por não poderem instalar engenhos, embora dispusessem de terras,
ou por não terem terras, moíam ou cultivavam a cana no engenho do senhor.
Conforme as posses, a terra de que dispunham para cultivar, o número de escravos
que possuíam e as safras que produziam, era maior ou menor a importância
econômica c social dos lavradores. Muitas vezes, filhos de senhor-de-engenho
tornavam-se lavradores do pai ou do próprio irmão; grandes lavradores possuíam,
às vezes, numerosos escravos que tratavam dos partidos de cana e lavouras,
enquanto outros, mais pobres, tinham poucos escravos e cies próprios lavravam a
terra ou íeitoravam as mesmas.
O ponto nevrálgico para os lavradores era a relação destes com os senhores-
de-engenho, uma vez que o seu lucro ou prejuízo ia depender da conduta dos
mesmos; pois se havia scnhores-de-engenho que respeitavam os direitos dos
lavradores, havia também aqueles prepotentes que causavam aos seus dependentes
grandes transtornos. Era freqüente o senhor-de-engenho proibir aos lavradores a
entrada na “casa de purgar” durante a moagem de suas canas. Alegava que a
presença do lavrador ali implicava numa fiscalização e, conseqüentemente, numa
desconfiança no senhor-de-engenho. Ora, sem poder acompanhar a moagem dc
suas canas, o lavrador ficava sem saber ao certo quanto produzira nem a qualidade
do açúcar produzido, podendo o senhor-de-engenho lhe dar uma cota inferior a
que tinha direito ou trocar o açúcar de boa por um de má qualidade. Outras vezes
dava a conta ccrta de Drodução mas retinha parte do açúcar do lavrador como
empréstimo, prometendo pagar na safra seguinte, o que o prejudicava seriamente
pois, moendo cana uma vez por ano, estava ele na safra necessitando de dinheiro
para atender aos seus compromissos. (,!) Outras medidas prejudiciais aos lavradores
eram tomadas por senhores- -de-engenho prepotentes quando havia desavenças
entre uns e outros; assim, para causar prejuízo ao lavrador bastava não consentir
no corte da cana na época certa, e esta, passado o período de amadurecimento,
começava a secar diminuindo o seu conteúdo de açúcar, provocando
uma séria queda na produção do lavrador. Outras vezes o proprietário não
negava o corte, mas chegada a cana ao engenho, deíxava-a no “picadeiro" por três
ou quatro dias, ficando a mesma azeda e imprestável. O senhor-de-engenbo perdia
a meação, mas não se arruinava porque dispunha das canas próprias e das dos
partidos dos outros lavradores, mas o lavrador que só dispunha daquela, perdia em
uma semana o que lhe custara um ano de pesados serviços; deixava de dispor dos
meios necessários a atender seus compromissos, ficava insolúvel e, em conse-
qüência, arruinado.
Outras vezes, depois de ter o lavrador cortado e mofdo suas canas, tratava de
fazer “aceros" nos partidos já explorados e queimar a palha a fim de que a soca
nascesse e lhe desse no ano seguinte uma renda razoável - prática ainda hoje usada
sobretudo nos lugares útnídos a fim dc eliminar os ratos dos canaviais. Então o
senhor-de- -engenho comunicava estar extinto o seu arrendamento e lhe dava um
prazo curto para desocupar o sítio, uma vez que pretendia entregá-lo a outrem,
Com pequena indenização ou sem qualquer indenização, conforme a consciência
do proprietário, via-se o lavrador obrigado a perder a colocação e as socas da cana
que plantara e a ter dc procurar estabelecer-se em outro lugar, embora, com esses
exemplos, não possamos concluir que todos os senhores-de-engenho agissem
assim; muitos deles eram corretos no trato com os seus lavradores e demais
dependentes. O que se deve salientar, porém, é que a estrutura econômica então
dominante e a organização político-social dela emanada, permitiam que esses
abusos fossem cometidos sem que os lavradores tivessem a quem recorrer em
defesa dos seuS mais legítimos direitos. Toda a organização político-social se
orientava no sentido de garantir ao senbor-de- -engenbo o exercício pleno do seu
poder sobre suas ternas, agregados e dependentes.
A insegurança na renovação dos contratos de arrendamento constituía para
Tollenare, que nos visitou na segunda metade do século XIX, (18) o principal
empecilho ao progresso dos lavradores que, por isto, construíam pequenas e toscas
habitações ao lado de cercados provisórios, já que a qualquer momento poderiam
ser expulsos. As rendas de que dispunham empregavam sempre cm negros e em
gado porque eram bens que podiam ser transportados para onde se transferissem.
Analisando o problema, achava o observador francês que os lavradores deviam ser
protegidos por lei que obrigasse os senhores-de- -engenho a arrendar os terrenos
baldios com contratos de arrendamento que durassem nove anos. Assim, os
lavradores, garantidos por um prazo longo de arrendamento, poderiam fazer nas
áreas que exploravam melhores instalações, preocupando-se também com a
conservação do solo.
üra, assim, bem difícil a vida dos lavradores nos séculos XVII e XVIII. Mas
seus problemas não advinham apenas das relações com o scnhor-de-engenho; os
escravos de que necessitavam constituíam uma grande inversão dc capital e, como
não dispunham de numerário, compravam-nos a prazo para pagar na época da
safra, geralmente com juros altos. O tempo também causava sérios transtornos

18 Tollenare, L. F., Notas Dominicais, pág. 93 a 95.

A Terra e o Homem no Nordeste 86


porque se o verão era muito seco, sem chuvas, as canas das encostas pouco se
desenvolviam, e se o inverno era excessivamente chuvoso, as cheias prejudicavam
as canas das várzeas. Certos rios de regime mais irregular, como o Paraíba, em
alguns anos destruíam safras inteiras e até, às vezes, engenhos.
Também o capim, sempre a crescer e a exigir limpas a fim de não atrofiar o
canavial, era um inimigo pertinaz e constante do agricultor. Ao lado disto,
animais criados soltos, como cabras, porcos e aLc bois e cavalos fugidos dos
cercados, causavam grandes prejuízos aos partidos de cana, obrigando seus
proprietários a colocar vigias que muitas vezes matavam os animais predadores,
causando dissensões entre os proprietários dos canaviais e os proprietários dos
animais. Quem conhece a área canavieira nordestina sabe o grande ódio dos
lavradores ao “boi ladrão’’, isto é, ao boi capaz de fugir do cercado c invadir as
plantações.
Apesar disto tudo, cultivando o produto rei de exportação, a cana- -de-açúcar,
o lavrador tinha melhor situação que o morador, roceiro que cultivava produtos
dc subsistência, e os empregados, uma vez que estes, recebendo salários, estavam
mais vinculados ainda ao senhor-de- -engenho. Depois destes estavam os escravos,
que eram considerados como coisa e tinham um tratamento semelhante ao
dispensado aos bois e cavalos.
Os moradores, cm geral mestiços que viviam nos engenhos, constituíam uma
elevada percentagem da população rural livre. Geralmente conseguiam dos
senhores-de-engenho autorização para desbravar um pequeno pedaço de mato e
estabelecer uma choupana e um roçado. Choupana excessivamente pobre, coberta
dc folhas e onde os únicos bens existentes eram esteiras e panelas dc barro. As
mulheres (s) costumavam fazer renda, enquanto os homens plantavam alguma
mandioca para prover a alimentação. A caça, abundante nas matas, e a pesca, nos
rios ou nos manguezais se sc localizavam próximos à praia, contribuíam
enormemente para a alimentação. Nos anos chuvosos em que a produção era
maior, costumavam comercializar o excedente do consumo e com isto adquirir
roupas e alguns utensílios. O foro que pagavam era, cm geral, muito baixo, não
necessitando por isto de realizar grandes explorações,
A insegurança era uma constante na vida dos moradores, uma vez que o
proprietário, por qualquer motivo ou sem nenhum motivo, podia expulsá-los das
terras que ocupavam. Isto se dava freqüentemente devido a choques de interesses
ou a problemas de família — os senhores-de- -engenho tinham especial
predileção por mulheres de moradores (#) — provocando até assassinatos.
Proprietários havia, que dificilmente saíam de suas propriedades sem guarda-
costas, temendo a ação agressiva de moradores que haviam expulsado de suas
terras. Constituindo uma boa parcela da população rural, eram esses moradores
uma reserva de mão-de-obra que poderia ser utilizada pela agro-índústria do
açúcar, que não absorvia esta massa humana disponível por preferir o trabalho
escravo ao assalariado. Formava-se, assim, lentamente, como que à espera da
extinção do tráfico, uma reserva de mão-de-obra de que os proprietários
disporiam na hora cm que os escravos lhes faltassem.

A Terra e o Homem no Nordeste 87


No trabalho dos engenhos não havia, porém, somente escravos; ao lado
destes havia alguns homens livres que por suas habilitações ocupavam vários
postos administrativos e, digamos também, técnicos, exigidos pela indústria
açucareira. Embora dependentes dos senhores- -de-engenho, dc quem recebiam
as ordens e o salário, tinham uma posição de destaque na propriedade porque
cabia a eles dirigir os negros no trabalho e fabricar e encaixar o açúcar a scr
remetido ao mercado consumidor.
Dentre os assalariados destacava-se, segundo Antonil, (’") o capelão que no
engenho tinha grandes atividades a exercer e muitos engenhos dispunham de
capelas paramentadas, conforme reza levantamento feito em 1774. Ao capelão
cabia a asssitência espiritual c o ensinamento da doutrina cristã tanto à família do
senhor-de-engenho como a dos agregados e aos escravos. Cabia a ele rezar missa
todos os domingos, ouvir as queixas, dirimir as contendas, aconselhar aos des
contentes e organizar as festas religiosas. Se o vigário não comparecia no dia do
início da safra, da “botada”, cabia ao capelão benzer as moendas. o que fazia
também no término da safra, no dia da "pejada”. Recebia um ordenado anual de
quarenta a cinqüenta mil-réis no início do século XVIII, eqüivalendo, portanto, à
remuneração de um feitor de moenda, inferior, porém, a dc um feitor-mor ou a de
um mestre de açúcar.

88 Manuel Correia de Andrade


O feitar-mor era a segunda autoridade, depois do proprietário, no engenho;
dele recebia ordens às vezes por escrito e as transmitia aos outros feitores, o da
moenda e os dos partidos. Quando o senhor sc ausentava, cabia a ele a
administração do engenho; seu poder era limitado apenas pela vontade do
proprietário, que lhe dava ordens e podia dcspcdi-lo a qualquer momento,
Geralmente cabia ao feitor-mor castigar os escravos, com cuidado para não torná-
los incapazes ou ineficcntcs para o trabalho. Era também atribuição sua fiscalizar
os escravos, contá- -los todos os dias a fim de procurar os que fugissem, obrigá-los
a assistir à missa aos domingos e a confessar-se todos os anos e providenciar medi-
camento para os que adoecessem. Cabia-lhe ainda evitar que os escravos hrigassem
entre si e que faltassem ao trabalho. A fim de que os negros se auto-abastecessem,
o feitor-mor obrigava-os a trabalhar em suas roças nos dias santificados e durante
o inverno, quando o engenho estava pejado, aos sábados. Com isto os senhores se
livravam do ônus de alimentá-los às suas custas.
Diégues Júnior (u) afirma que, como esta prática era feita inicialmente no
Brasil, sendo daqui levada para as Antilhas, passou a ser conhecida como “sistema
do Brasil”. À primeira vista parecia uma liberalidade do senhor permitir que seus
escravos cultivassem, nos dias livres, um pedaço de terra para si; mas, desde que o
senhor os obrigava — como já fazia o famoso João Fernandes Vieira, (11!) herói da
Restauração Pernambucana — a trabalhar em “suas roças” nos dias santificados,
fazendo-os perder o repouso que a Igreja lhes garantia, e que o produto deste
trabalho era empregado na alimentação do próprio negro, vemos que o chamado
“sistema do Brasil” era uma vantagem para o senhor e não para o escravo. Maiores
ainda eram os cuidados do feitor- -tnor com a boiada, uma vez que para os bois
não havia tronco e eles gozariam sempre que possível de um dia de descanso por
um de trabalho.
Os afazeres e as responsabilidades do feitor-mor eram muito numerosos,
devendo fiscalizar o estado das construções, cercar os canaviais, defender as matas,
impedir que os vizinhos invadissem a propriedade, consertar os açudes, levadas c
pontes, fiscalizar a olaria e a destilação — casa em que se fabricava a aguardente
— limpar os pastos, repartir e encaixar o açúcar etc. Por tanto serviço e tamanha
responsa bitidade o feitor-mor tinha a régia remuneração de cinqüenta a sessenta
mil-réis por ano.

'i > Manuel Correia de Andrade


Sob as suas ordens o feitor da moenda, que percebia cerca de quarenta a
cinqüenta mil-réis por ano, encarregava-se de pôr a trabalhar as negras que
levavam as canas à moenda, atento para evitar acidentes, e providenciar a lavagem
diária da moenda a fim de que o caldo não azedasse, prejudicando a fabricação do
açúcar.
Os feitores de partidos que ganhavam menos, cerca de trinta mil-réis por
ano, cuidavam destes, pondo os escravos a trabalhar no plantio limpa e corte das
canas, fiscalizando ainda as roças. Entre suas obrigações estava a dc estar sempre
atento “para que não se pegue o fogo nos canaviais por descuido dos negros boçais,
que às vezes deixam ao vento o tiçao de fogo, que levarão consigo para usarem no
cachimbo”. (19) Sempre o fantasma do fogo, do incêndio, a amedrontar os
senhores-de-engenbo que poderiam perder, em um dia, o resultado de anos de
trabalho.
No cozinhamento do caldo da cana e na fabricação do açúcar trabalhavam o
mestre-de-açúcar e o soto-mestre ou banqueiro. Permaneciam durante a safra na
casa das caldeiras, o primeiro durante o dia e o segundo à noite, onde se
localizavam as quatro ou cinco tachas destinadas ao cozinhamento do caldo da
cana. Deste cozinhamento, da maior ou menor intensidade e duração do mesmo,
que devia variar conforme o solo c a topografia do local onde fora a cana plantada,
dependia a boa ou má qualidade do açúcar. Cabia a eles providenciar a colocação
do mel açucarado em formas no tenda! e daí transferi-lo para a casa de purgar,
quando passaria à competência do mesue pur- gador. Os mestres de açúcar
percebiam de cem a cento e vinte mil-réis por ano, ao passo que o soto-mestre
percebia de trinta a quarenta núl- -réis.
Ao purgador dc açúcar cabia administrar a casa de purgar e dirigir o processo
dc purgamento, isto é, de embranquccimento do açúcar, com barro colocado na
parte superior da forma. Além da responsabilidade da obtenção de açúcar de boa
qualidade completando a obra do mestre, cabia a ele zelar pelo mel que escorria
para os tanques, o chamado “mel de furo” que seria a matéria-prima para a
fabricação da aguardente. Seu salário era bem inferior ao do mestre-de-açúcar,
uma vez que só nos grandes engenhos chegava a perceber quarenta mil-réis por
nno.
Ao caixeiro cabia encaixar o açúcar após a purga, separando-o, conforme a
qualidade, em branco, macho, batido e mascavado. Após o encaixamento devia
determinar o barreamento dos cantos das caixas,

19 Antonil, obra citada, pág. 84.

A Terra e o Homem no Nordeste 93


a retirada do Dizimo, a porção dos lavradores etc. Por este trabalho percebia
de trinta a cinqüenta mil-rcis por ano.
Além destes havia os escravos, que eram numerosos, atingindo nos grandes
engenhos dc 150 a 200 indivíduos, Sua importância era tanta que um cronista
colonial a eles sc referindo afirmou: (H)“Os escravos são as mãos c os pés do
senhor-de-engenho, porque sem eles no Brasil não é possível fazer, conservar e
aumentar a fazenda, nem tet engenho corrente,” Eles eram encontrados por todos
os lados, tanto nas fábricas, nos partidos dc cana, nas roças, nas olarias, nas
serrarias como nas barcas. Todos os anos eram adquiridos vários deles para cada
engenho, sendo originários de pontos diversos da costa africana. Uns eram fracos,
como os oriundos de Cabo Verde e São Tomé. Os de Angola tinham mais
capacidade para os ofícios mecânicos, enquanto os do Congo eram industriosos e
bons para o serviço da cana e da casa. Os mais espertos eram, às vezes,
aproveitados para aprender ofícios, tornando-se caldeireiros, carpinas, calafates,
tacheiros, barqueiros, marinheiros etc.
Viviam nas senzalas, em casas pequenas e ligadas umas às outras,
constituindo ou não família, mas trabalhando sempre. Homens e mulheres eram
empregados nas duras fainas do campo e nos trabalhos da indústria. Apenas no
campo, as mulheres não trabalhavam com o machado; no plantio e na limpa do
canavial, os escravos eram postos a trabalhar com o nascer do sol e se recolhiam à
senzala à noite, terminando a faina com o pôr do sol. Na colheita da cana, cabia a
cada negro cortar, por dia, trezentos c cinqüenta feixes dc 12 canas que eram
amarrados por uma escrava. Assim, cada cortador de cana era acompanhado na sua
faina por uma amarradora. Essa quantidade era o suficiente para a fabricação de
uma forma de açúcar,
Uma vez cortada e amarrada, era a cana transportada para a casa da moenda
e depositada num amplo salão, o “picadeiro”. Este ocupava um lado da casa cm que
se colocava a moenda, ficando o outro lado ocupado por uma almanjarra, no
engenho a tração animal, ou por uma roda d’água no engenho d’água. Aí
trabalhavam várias escravas; amas levando a cana do “picadeiro” para junto da
moenda, outras, com grande risco, uma vez que por um descuido podiam ser
presas e espremidas entre os tambores da moenda, punham a cana na mesma; uma
terceira, ainda, fazia passar o bagaço entre os tambores, uma quarta cuidava de
consertar e acender as candeias; finalmente uma outra cuidava do “parol” tacha
em que sc acumulava o caldo da cana que ia para o cozinhamento. Assim, como o
engenho moía as 24 horas do dia, estas sctc escravas necessitavam de outras sete
que com elas se revezassem,
Na casa das fornalhas, também chamada de assentamento, trabalhavam
sempre escravos doentes uma vez que acreditavam que o forte calor aí ex.stente os
curasse, Ao lado destes, os escravos rebeldes, criminosos, mal vistos e perseguidos
pelo senhor-do-engenho ou pelo feitor, eram colocados presos em corrente para
trabalhar como cal- deireiros e tacheiros a fim de purgar suas culpas. Além disso,
uma escrava, a “calcanha", limpava e acendia as candeias e tirava a espuma do

94 Manuel Correia de Andrade


“parol” a fim de tornar a colocá-la na caldeira. Como as fornalhas consumiam
muita lenha, era grande o número de escravos que trabalhavam nas matas,
recebendo cada um a tarefa diária de cortar e arrumar uma pilha de lenha com
sctc palmos de altura e oito de largo, o suficiente para a carga de um carro de boi.
Eram os escravos negros que punham o mel cozinhado no tendal e que após
três dias transportavam as formas para a casa de purgar. At, além do purgador e do
caixeiro, trabalhavam escravos; uns punham o barro sobre a forma de açúcar,
outros assistiam ao balcão de mascavar, enquanto outros ainda traziam as formas,
tirando delas os pães de açúcar, e amassavam o barro de purgar. (,5) Ainda
trabalhavam escravos nos balcões de secar.
Estes escravos levavam vida dura trabalhando seriamente durante todo o ano
na cultura, na limpa e na colheita da cana, assim como na fábrica de açúcar. Um
dia por semana, em geral, era dedicado à cultura das lavouras de subsistência.
Qualquer reclamação era punida com castigo, uma vez que, como informa
Antonil, (,0) ‘‘no Brasil costumam dizer que para o escravo são necessários três
P.P.P., a saber, pão, pau e pano”.
A alimentação constituída de farinha de mandioca e carne seca era entregue
a cada escravo em uma cuia; além disto recebiam também ração de mel de furo,
alimento dado largamente a bois e cavalos.
Assim, vivendo como verdadeiros animais em senzalas infectas, mal
alimentados, sem direitos e sem conforto, foram os escravos, por mais de três
séculos, o sustentáculo da economia açucareira nordestina.
TRABALHO ESCRAVO E ASSALARIADO NO SÉCULO XIX

O século XIX foi um período de grandes transformações econômicas,


políticas e sociais. Os velhos engenhos que durante três séculos haviam tido uma
evolução muito lenta, foram sacudidos por uma série de inovações que
melhoraram a técnica agrícola e transformaram profundamente tanto os
processos industriais, como os de transporte. A cana-de-açúcar, que era a senhora
absoluta das terras, passou a sofrer concorrência de outra lavoura dc exportação
que interessava também aos grandes proprietários — o algodão —. Embora este
concorrente tenha sido vencido na região úmida, foi durante alguns anos concor-
rente da economia açucareira.
Dentre os melhoramentos introduzidos na agro indústria do açúcar,
salienta-se, nos primeiros anos do século, o uso do arado, introduzido no século
XVIII, mas generalizado no século XIX, e a introdução de uma nova variedade de
cana, a caiana, trazida da Guiana Francesa, durante o curto período de ocupação
deste território por tropas portuguesas. (20) Tomando conhecimento da existência
de outras terras onde havia produção de açúcar, os senhores-de-engenho,
sobretudo aqueles que freqüentavam os grandes centros regionais, o Recife e Sal-

20 Pinto, Irineu Ferreira, Datas e Notas para a História da Paraíba, tomo I, pág. 190; Koster, Henry,
Viagens ao Nordeste do Brasil, págs. 426 t 428.

A Terra e o Homem no Nordeste 95


4

vador, passaram a preocupar-se com a introdução de novas técnicas e de novas


variedades de cana, ao notarem que, com o tempo, a caiana, como acontecera
antes à crioula, também degenerava e decaía de produção. Por isto, ainda no
século passado, passou-se a cultivar novas variedades surgidas de variações
espontâneas da cana caiana — a “imperial” e a “cristalina” — que só seriam
suplantadas no período republicano, pela cana “manteiga” ou “Flor de Cuba”,
obtida graças a seleções e cruzamentos feitos no engenho Cachoeirinha, situado
no município de Vitória, em Pernambuco, pelo seu proprietário, Manuel
Cavalcanti de Albuquerque. (21)
Com as novas variedades dando o aumento da produtividade, sentiram os
senhores-de-engenho a necessidade de aumentar a produção e melhorar a
qualidade do produto a fim de, no mercado europeu, concorrerem com o açúcar
das Antilhas e com o produzido na própria Europa, graças à industrialização da
beterraba.

21 Carli, Gileno dc, Geografia Econômica c Social da Cana-de-Açúcar no Brasil, págs. 29 e 72.

96 Manuel Correia de Andrade


Começaram, então, a sentir as inconveniências dos seus engenhos movidos a
bois e a éguas, que não só produziam menos que os engenhos d’água — moíam de 25
a 30 tarefas por dia contra 30 ou 40 nos engenhos d’água —, como também
necessitavam manter uma quantidade enorme de animais. Esses, que eram
facilmente alimentados durante a safra, quando havia muita cachaça — escuma e
sujo retirado do caldo durante o cozinhamento — e muito olho de cana, nos meses
de entre- -safra — de abril a setembro — necessitavam ser retirados para outras
áreas. Áreas como a região de Bom Jardim recebiam muito gado da freguesia de
Tracunhaém durante o inverno, que ía pastar "no verde” aí existente, apascentado
por vaqueiros, pessoas pobres c livres que deste trabalho retiravam os magros
salários para o seu sustento. (:i) Outras propriedades situadas em freguesias próximas
ao litoral costumavam reservar grandes áreas incultas para apascentar os eqüinos
durante o inverno, enviando os bovinos para as praias a fim de se alimentarem com
o capim que se desenvolvia à sombra dos coqueiros, (22) Daí Ler sido para estes
proprietários uma grande solução o aparecimento dos engenhos a vapor. Apesar das
vantagens que apresentava, a dificuldade de obtenção de capitais e de créditos e o
atraso dominante na mentalidade dos proprietários da época, impediram que este
novo tipo de engenho se propagasse rapidamente. Daí ter o primeiro sido instalado
em Pernambuco em 1819, e em 1854, 35 anos depois, existirem apenas 5 engenhos a
vapor contra 101 a água e 426 a tração animal. (!>) Em 1857. porém, este número
ascendera oara 18, Estas estatísticas não espantam porque em 1914, num total de
2,756 engenhos existentes em Pernambuco — incluindo as engenhocas produtoras
de rapadura do sertão —, os movidos a vapor eram apenas 785, contra 329 movidos a
água, 1.182 a tração animal. Apenas 490 engenhos estavam de "fogo morto’',
fornecendo suas canas para as usinas. (®) Assim, apenas 28% des engenhos eram do
primeiro tipo, 19% do segundo. 42% do terceiro e 18% do quarto. Como já
salientamos em trabalho anterior, {23) estes melhoramentos eram feitos inicialmente
nas áreas em que as condições de clima, solo e relevo eram mais favoráveis à cultura
canavieira e, só posteriormente, é que atingiam as áreas periféricas. Assim, os
engenhos a vapor só surgiram no vale do Ceará-Mirim depois dc 1865, (s) nos vales
açucareiros da Paraíba nas últimas décadas do século passado, (,J) enquanto Alagoas,
com condições mais favoráveis que os Estados mais setentrionais, possuía 2 engenhos
a vapor já em 1851 e 5 em 1852. <>")
Ainda neste período, a cal passou a substituir a potassa na fabricação do açúcar,
as moendas que tinham os seus tambores colocados em posição vertical, passaram a
tê-los em posição horizontal, foi feita a substituição das formas de barro por formas
de madeira e metal e generalizou-se o uso do bagaço como combustível, mediante
certas modificações nas fornalhas. (24) Estes melhoramentos tiveram consideráveis
conseqüências, uma vez que atenuaram a desenfreada destruição de nossas matas
que iam gradattvamente sendo transformadas em lenha, a fim de atender à fome
insaciável das casas de caldeiras, e ao mesmo tempo resolveu o senhor-de-engenho o
problema da destruição do bagaço que se acumulava em torno da casa de moenda no
fim da safra.
Na segunda metade do século começaram os engenhos a usar aparelhos capazes
de fabricar açúcar branco, libertando-se, assim, do rotineiro processo empregado de
purgar o açúcar com burro colocado na parte superior da forma. Passou-se a tratar,
então, da instalação dos engenhos centrais.
Os engenhos centrais seriam maqninismos possantes, capazes de esmagar canas
dc vários engenhos bangüês e de fabricar açúcar de melhor qualidade e que, de

A Terra
22 Koster, Henry, Viagens ao Nordeste do Brasil, pág.e 440.
o Homem no Nordeste 97
23 Andrade, Manuel Correia de, O Vale do Siriü (Um estudo de Geografia Regional), pág. 57.
24 Perca, Apolônio, A Indústria Açucareira em Pernambuco, pág, 57
acordo com os estadistas que os idealizaram, separariam a atividade agrícola da
industrial , Estes engenhos que seriam montados com garantia da obtenção de juros
dos capitais empregados — garantia esta dada pelo Governo — pertenciam a
companhias estrangeiras que não poderiam cultivar cana, não usariam o braço
escravo e, como iriam receber a matéria-prima de áreas muito amplas, muito mais
extensas que a de um engenho bangüê, deveriam construir estradas de ferro a fim de
que estas substituíssem os rotineiros carros dc boi no transporte da cana, dos
partidos até a fábrica. Os carros de boi se limitariam a levar as canas dos partidos
distantes da estrada de ferro até os desvios construídos à margem da mesma. Era a
modenvzação total da indústria açucareira, o inído da transformação de uma pai-
sagem relativamente estática já havia três séculos. Também tratou o Estado, já que
garantia o juro do capital empregado pelas companhias inglesas, francesas e
holandesas, de determinar a localização dos engenhos centrais, a fim de que cada um
tivesse a sua zona dc influencia, que um não disputasse as canas dos outros. Apesar
dos tropeços surgidos, ao ser decretada a Lei Áurea a 13 de maio de 1888, já havia
em funcionamento uma série de engenhos centrais; o Central São João, fundado
nesse ano na várzea do Paraíba, (25) o Santo Inácio, Cuiambuca, Firmeza e Bom
Gosto, instalados em 1884 em Pernambuco, enquanto, em Alagoas, datam da última
década do século os engenhos Centrais de Brasileiro, no Vale do Paraíba do Meio, do
Utinga Leão, no Mundaú, e o Sinimbu, no pequeno Vale do Jiquiá, e, em Sergipe, já
em 1888 se instalava no município de Rtachuelo o primeiro engenho central. (26)
Estes engenhos centrais seriam, porém, apesar da aplicação de capitais
estrangeiros, um sério fracasso; a maioria deles não moeu mais de um ano, Esse
fracasso deu margem ao aparecimento da usina e à transformação de alguns
engenhos centrais em usinas, mantendo-se, assim, a atividade agrícola c a industrial
em uma só mão.
A estes aperfeiçoamentos também se juntaria a preocupação do governo com a
construção de estradas, a princípio de rodagem e, posteriormente, de ferro, que
partindo do Recife se dirigiam para o interior, para as zonas produtoras de açúcar e
de algodão. As primeiras tiveram seu traçado planejado pelo famoso engenheiro
francês L. Vauthier, que aqui esteve por vários anos a serviço da Província, (3 **) e as
segundas foram construídas a partir de 1858. (’•"')
Essas estradas iriam livrar os engenhos disiantes do litoral dos tropeços de
longas viagens até os pequenos portos de mar e do respectivo transbordo do açúcar
para as barcaças que demandariam o Recife. Iriam também provocar a decadência de
cidades situadas nos fundos dos estuários, que por scrcm portos tinham uma
desenvolvida função comercial, como Mamanguape, Goiana, Rio Formoso, Porto
Calvo, Alagoas, Valença, Camamu etc.
A concorrência do algodão constituiu também sério problema para a cana-de-
açúcar que, considerada até então como cultura imperial, apossara-sc das terras,
conquistara as várzeas de massapê e as grotas de barro vermelho, destruíra as matas,
afugentara os animais e só permitia que outras lavouras se desenvolvessem, qual
vassalas, nas áreas em que ela não podia, nas condições da época, medrar.

98 Manuel Correia de Andrade


25 Andrade, Gilberto Osório de, O Rio Paraíba do Norte, pág. 115
26 Diégues Júnior, Manuel, O Bangüê nas Alagoas, págs. 112 3.
Os coqueirais, respeitando o imperialismo da cana, coníinaram-se à estreita
faixa litorânea, dando margem a que se desenvolvesse, aí, uma sociedade pobre,
democrática, que nenhuma sombra fazia à aristocracia dos canaviais; pois, como
testemunhou o arguto Koster, (’”) numa época de divisão de classes bem acentuada, é
singular que houvesse povoações como a de Gamboa, em que a pessoa de maior
consideração e prestígio da Comunidade fosse um homem pobre e de cor; e,
saliente-se, um homem de cor que não dispunha, como outros, enriquecidos, de
“cartas de brancura” em seu favor,
Esta faixa com paisagem característica se estendia tanto nas proximidades do
Recife, pelas freguesias de Mamanguape e Itamaracá, (27) como nos pontos mais
distantes, emoldurando o litoral da Paraíba, do Rio Grande do Norte, de Alagoas,
Sergipe e Bahia. O coqueiro ( apesar de levar seis a sete anos para começar a
produzir, não exigia industrialização local com maquinismos de preços elevados
como a cana-de-açúcar, permitindo o fracionamento da propriedade já assinalada na
primeira metade do século XIX. Também não exigia limpas constantes, o que
eqüivalia a ocupar poucos braços, e, dando 5 safras anuais, fornecia aos proprietários
uma renda quase permanente. Além disso o coqueiral fornecia, fora o fruto, o tronco
e as folhas usadas na confecção das palhoças. Mas até aí chegava a tirania da cana,
uma vez que o gado dos engenhos invernava à sombra dos coqueirais aproveitando
as gramíneas que aí se desenvolviam.
A mandioca, o feijão e as fruteiras largamente consumidas por ricos e pobres
nunca fizeram sombra à cana-de-açúcar. Contentaram-se sempre com a posição de
vanguardeiros do avanço canavieiro, ocupando áreas desmaiadas e distantes à espera
da chegada da cana, e nas regiões mais povoadas se limitavam a ocupar os solos que à
cana não interessavam. Constituíam a pequena lavoura feita por escravos e
moradores para o auto-abastecimento e venda da sobra, e por senhores-de-engenho
e lavradores, às vezes, apenas para o consumo dc suas famílias e seus dependentes.
Sintomático é que ainda hoje, na região da Mata e do Litoral Oriental, a fabricação
de farinha se faça pelos mesmos processos da época colonial; a descrição de uma
“casa de farinha” feita por Nicuhof, f15} em pleno domínio holandês, identifica-a com
as casas de farinha existentes nas “grotas” e nas “chãs” dos nossos atuais engenhos.
Enquanto a fabricação do açúcar evoluiu desde o engenho

IIK1 Manoel Correia de Andrade

27 Kiddef, Daniel P., Reminiscências de viagens e permanência no Brasil (Províncias do Norte),


pág. 109.
de bois até as grandes usinas que moem anualmente mais de 500.000 sacos de
açúcar, a casa de farinha continua muitas vczcs a ser movida a força humana, Apesar
dc sua importância, foi uma cultura relegada a um plano secundário, sempre
desprovida de proteção c sempre descuidada a ponto de a sua falta ter sido
freqüentemente assinalada em toda a história nordestina, falta que estava a dificultar
e a piorar cada vez mais o regime alimentar, por si já deficiente, dc moradores e es-
cravos.
O gado foi sempre um servo da cana; ocupava áreas pioneiras à sua espera e
cada vez se distanciava mais do litoral, tendo, conseqüentemente, que ir alongando
cada vez mais as suas caminhadas para chegar aos centros de consumo. Foi ele que
desbravou e ocupou os vales fluviais distantes de Olinda, fixando-se, ao Sul, no Vale
do São Francisco e nos campos de Sergipe e, ao Norte, nos tabuleiros da Paraíba e do
Rio Grande do Norte. Não fosse a pecuária e os tabuleiros se teriam tornado
verdadeiros vazios demográficos e econômicos entre as áreas úmidas e férteis das
várzeas.
A cana o expulsava sempre para o interior, tanto que a feira de Tgaraçu, ao
Norte do Recife, teve de ser transferida para Goiana, depois para Pedras de Fogo e,
finalmente, para Itabaiana, já no Agreste, (1U) onde permaneceu até os nossos dias.
Mas com o algodão o problema foi diferente; ele enfrentou a cana e não foi
apenas lavoura de pobre, como afirmou Gileno dc Carli, (28) mas também lavoura de
rico, como, referindo-se à Paraíba, assegurou Celso Mariz. (29)
A cultura algodoeira, feita no Nordeste desde o início da colonização, teve uma
fase de estagnação durante o século XVII c a primeira metade do século XVIII.
Desenvolveu-se, depois, em função da fabricação de tecidos ordinários usados na
vestimenta dos escravos e, mais ainda, em conseqüência da revolução industrial,
com o desenvolvimento da indústria têxtil que então se processava na Inglaterra.
Portugal, como usufrutuário dc nossas riquezas, ganhando somas enormes como
intermediário entre o Brasil e a Inglaterra, estimulou a cultura deste produto e criou
em 1751 uma estação de Inspecção do Algodão e, logo após, uma Alfândega do
Algodão. (211) A sua cultura, que se iniciara na região úmida, logo se propagou para o
Agreste e o Sertão como que repelida pela cana e pelo clima. Mas, se nas épocas dc
baixa do preço o algodão recuava para o Agreste, deixando a Mata livre para a cana,
quando subia o preço ou quando havia crise na indústria açucareira, a cultura do
algodoeiro avançava em direção ao litoral. Sendo cultura de ciclo vegetativo curto e
produto industrializado por comerciantes estabelecidos em vilas e povoações, às
vezes, ate, em engenhos e usinas — como ocorreu em Serra Grande, em Alagoas, na
primeira metade do século XX — por bolnndeiras e descaroçadorcs, o algodão
conquistava a preferência de ricos e pobres, de senhores-de-engenho e lavradores.
Cultura fácil, barata, democrática, deixava-se associar à fava, ao feijão e ao
milho, fornecendo o roçado ao pequeno agricultor, a um só tempo, tanto produto
para a venda como alimentos, O seu curto ciclo vegetativo requeria apenas poucas
limpas ou capinas; conseqüentemente, não ocupava braços durante todo o ano como
ocorria com o açúcar. Não havia, assim, vantagem em adquirir escravos a preços ele-
vados para que eles trabalhassem apenas durante algum tempo, ficando inativos
vários meses, sem produzir e consumindo alimentos. Daí a cultura do algodoeiro na
segunda metade do século XIX quase não usar o trabalho escravo, sendo preferível
pagar a moradores as fainas agrícolas, mesmo quando a procura de braços se tornou
grande e a mão-de-obra, insuficiente, provocou a ascensão dos salários até mil-réis
diários. Os salários altos, mas pagos cada dia, eram mais vantajosos que a aquisição
A Terra e o Homem no Nordeste 101
28 Carli, Gileno de, Geografia Econômica e Social da Cana-de-Açúcar no Brasil, pág. 13.
29 Mariz, Celso, Evolução Econômica da Paraíba, pág. 41.
de escravos, quando essa aquisição era difícil e representava uma grande inversão de
capitais. Produto leve, o algodão era facilmente colhido por mulheres e crianças; daí
uma série de vantagens para enfrentar a cana nas ocasiões em que o mercado
europeu necessitava de algodão. Koster, nas primeiras décadas do século XIX, encon-
trou até ricos senhores-de-engenho, como o de Cunbaú, representante de uma das
mais nobres estirpes de Pernambuco — a dos Albuquerque Maranhão - cultivando-o
em seus domínios, ao lado da cana-de-açúcar e da pecuária. (2:l) Grande expansão
teve a cultura algodoeíra durante a guerra de Secessão, quando os E.U.A, não podiam
atender ao mercado europeu. Nessa ocasião o algodão avançou pelo Vale do Paraíba,
dividiu com a cana as terras drenadas pelo Mamanguape e possibilitou o
devassamento dos interflúvios do Siriji com o Tracunhaém, ao Norte de
Pernambuco. Nessas regiões eie não só disputou terras à cana, como tornou os
engenhos empresas híbridas, uma vez que mantinham junto às suas “moitas”
descaroçadores de algodão. (2l) Muitos moradores pobres — mulatos, caboclos, ou
mesmo negros — enriqueceram cultivando algodão e ascenderam socialmente;
foram os chamados “brancos do algodão”,
Mas não foi só aí que se travou o duelo açúcar-algodão; também em Alagoas e
Sergipe ele se fez sentir com toda a intensidade. Em Alagoas, por exemplo, apesar de
sua cultura achar-se em decadência, os algodoais têm importância econômica ainda
hoje em municípios da Mata como São José da Laje e União. No século passado não
só progrediu de mãos dadas com o açúcar, uma vez que o senhor-de-engenho se
dedicava a uma e outra cultura, como chegou mesmo, em certos períodos, a
suplantar o açúcar, como ensina o historiador-sociólogo Diégues Júnior. () Teve
também grande importância em Sergipe, embora o principal produto fosse, em 1S48,
nos meados do século, portanto, o açúcar, como se pode observar da análise de
depoimento contemporâneo, (2U) pois havia, então, nessa pequena província, cerca
de seíscentos engenhos que produziam 20 mil caixas de 50 arrobas de açúcar cada
ano.
O café, introduzido na região no início do século, não faria séria concorrência
à cana-de-açúcar na região da Mata, pois ocuparia apenas as encostas da Borborema
e só iria disputar terras à gramínea imperialista, no Agreste, nas regiões de brejos.
Como produto de exportação, como grande lavoura, ele iria transformar as paisagens
agres- tinas, fazer com que essa região povoada com vistas no abastecimento do
mercado interno — criação de gado — dirigisse mais ainda as suas vistas para o
mercado externo, para onde se inclinara desde o surto algodociro.
Quanto ao problema da mão-de-obra, o período que ora estudamos é aquele
em que sc travou séria batalha entre o trabalho escravo e o assalariado.
Na primeira metade do século dominava ainda o trabalho escravo e o tráfico
com a costa africana era feito com grande intensidade. Tollenare, que esteve no
Recife em 1817, (2T) teve oportunidade de

102 Manuel Correia de Andrade


observar o mercado de escravos onde os negros de ambos os sexos, de todas as
idades c vários tipos fisionômicos eram vendidos apenas com uma tanga, expostos
aos olhares dc possíveis compradores ou de simples curiosos. O preço de um escravo
era bastante elevado, pois custava cerca de 900 francos, enquanto um boi custava,
geralmente, 200 francos c um cavalo, 70 francos. Assim, em média, um escravo valia
cerca dc 4 bois ou 13 cavalos. Nesses mercados ele cra vendido aos senhores-de- -
engenho, que o levavam para as suas propriedades. No Sul de Pernambuco e no
Recôncavo da Bahia, apesar da existência de muitas terras inaproveitadas, estavam
localizados os engenhos mais ricos, era a área mais favorável à cultura canavieira. Os
grandes engenhos dispunham, em geral, no começo do século, de mais de 100, às
vezes, até, de 150 a 200 escravos. Apesar da existência de grande número de
moradores, os senhores não recorriam com freqüência ao trabalho assalariado; limi-
tavam-se a receber a pequena renda que arbitravam pela morada e cultura de cada
morador,
Já ao Norte do Recife, eram raros os senhores-de-engenho ricos que possuíam
numerosa escravaria e sólidos sobrados; por isto, ao lado de algumas dezenas de
escravos, costumavam contratar trabalhadores assalariados — índios semicivilizados,
mulatos e negros livres —. O próprio Henry Koster, como senhor-de-engenho em
Jaguaribe, na cpoca de maior trabalho, geralmente dc plantio ou de colheita da cana,
fez longas viagens a Goiana e Paraíba, eom o fito de assalariar indígenas para as suas
plantações. (30) Ilavia também terras de irmandades religiosas que eram arrendadas a
pequenos agricultores que as cultivavam com lavouras de subsistência, visando ao
abastecimento interno.
Era freqüente, nessa região, os senhores-de-engenho, por não poderem
adquirir escravos devido a seu alto custo, para suprir a necessidade de braços,
facilitarem o estabelecimento de moradores em suas terras, com a obrigação de
trabalharem para a fazenda. Esses trabalhadores tinham permissão para derrubar
trechos de matas, levantar chou- panas de barro ou de palha, fazer pequeno roçado e
dar dois ou três dias de trabalho semanal por baixo preço, ou gratuito, ao senhor-de-
-engenho.
Surgiu, assim, aquilo que se chamou "moradores dc condição”, constituindo
grande parcela dos trabalhadores do campo na segunda metade do século passado e
até os nossos dias. Esses moradores procuravam colocar-se sob a tutela do senhor-dc-
cngenho; naquela época, no interior nordestino, não se gozava dc nenhuma garantia
governamental. Os senhores-de-engenho, embora as doações de terra se fizessem,
então, em porções bem menores que na época de Duarte Coelho, quando as
sesmarias podiam ter dimensões ilimitadas — passaram a ter a extensão máxima dc
quatro léguas de comprido por uma de largo em 1695,(2Ü) reduzidas para três de
comprido por uma de largo em 1729, e passaram a ser de uma légua em quadro no
século XIX (31) — detinham grandes latifúndios e em suas terras eram senhores abso-
lutos, Os desordeiros e ladrões de animais agiam abertamente na região açucareira,
criando uma situação incerta para a população. Alguns deles, como Antônio
Bernardo e o Cabeleira, ficaram famosos c vivem ainda no cancioneiro popular. Daí
os moradores pobres procurarem colocar-se sob a proteção destes potentados,
recebendo deles amparo e um lugar onde morar. Os senhores-de-engenho, por outro
lado, ocupavam assim melhor as suas terras, dispunham de braços para as lavouras e
de pessoas que os acompanhassem nas lutas contra vizinhos. Se um morador era
preso por alguma falta, o seu patrão considerava-se diminuído em sua autoridade,
desprestigiado, e procurava
HM Manuel Correia de Andrade libertá-lo, Ainda hoje, raro é o proprietário que não se
sente diminuído se um morador seu for desarmado pela autoridade policial. Para

30 Obra cilada, pág, 290.


31 Carli, Gileno dc, Geografia Econômica c Social da Cana-de-Açúcar no Brasil, págs. 32-3.
reter os moradores, costumavam os senhores-de-engenho emprestar pequenas
quantias aos mesmos, só permitindo que os devedores deixassem a sua propriedade
quando o debito fosse saldado, O próprio Koster perseguiu um morador que tentou
deixar o engenho Amparo, de sua propriedade, sem saldar os seus débitos. (32) Este
hábito, de uso generalizado cm grandes áreas nordestinas, apesar da nossa legislação
proibir a prisão por dívidas, c em parte tolerado pelo art. 1.230 do Código Civil,
quando este dispõe que o locatário de serviços agrícolas é responsável pelo
pagamento dos débitos do locador com o locatário anterior.
Os moradores viviam em choupanas e na maior pobreza, dispondo apenas de
esteiras e panelas de barro, mas andavam sempre armados de uma faca chamada
localmente de “peixeira” e de uso proibido pelas autoridades. A povoação de
Pasmado, localizada entre Igaraçu e Goiana, era famosa pela fabricação deste tipo de
arma. Geralmente eles vigiavam as matas, “aímocrcvavam”, isto é, transportavam o
açúcar cm cavalos para os portos ou para as estações de estrada de ferro c também
participavam com os escravos do trabalho no eito.
Com as restrições ao tráfico e sua posterior abolição, a lei do ventre livre e a
venda de grande parte da população escrava para os

A Terra e o Homem no Nordeste 103

32 Obra citada, págs. 221 a 223.


cafezais do Sul, que estavam em franca fase expansiva, diminuía o número de
escravos e os trabalhadores assalariados iam aumentando a sua contribuição na
produção da indústria açucareira. (52) Certos ofícios como os de pedreiro, carpina,
oleiro, tanoeiro etc., ao Norte do Recife, eram exercidos por homens livres que
muitas vezes residiam em vilas, cidades e povoações. Este fato que se observava ao
Norte de Pernambuco era ainda mais sentido no Rio Grande do Norte e na Paraíba,
onde era menor o número de escravos, mas se dava de forma mais atenuada ao Sul
do Recife, em Alagoas e Sergipe. Tanto que, visitando este Estado em 18.59, Robert
Avé-Lallemant deparou com sua grande área açucareira — a Cotinguiba — com a
produção em decadência, devido à falta de braços, à diminuição do número de
escravos provocada tanto pelas causas anteriores, como em conseqüência do surto de
eólera-mórbus que grassava na região em 1855 e 1856.
Na realidade, não era grande a percentagem de escravos na população dos
Estados nordestinos dos meados para os fins do século passado. Assim, no Rio
Grande do Norte o número de escravos nunca foi muito elevado. Como depõe
Câmara Cascudo, (33) nunca o Estado teve importação direta de negros africanos,
sendo os escravos daí adquiridos em Pernambuco; como o ciclo do açúcar chegou
retardado à terra potiguar, os escravos do Rio Grande do Norte não chegaram a
constituir uma grande percentagem da população, pois em 180.5 compreendiam
apenas 16,3% do total dos habitantes da então Capitania. O número de escravos
subiu à proporção que aumentou a produção de açúcar; assim, em 1835, havia na
província 10.240 escravos, continuando o número a ascender até 1870. 0 avanço da
cultura do algodão e a grande seca de 1877 arruinando muitos proprietários,
determinou a venda de grande quantidade de escravos para o Sul, a ponto de em
1884 restarem apenas 7.623 cativos em toda a Província. Comparando- -se com a
Bahia, em 18.54, observa-se que, enquanto nessa província havia 1.200 engenhos
com 70.000 escravos, no Rio Grande havia apenas 144 engenhos e 1.508 escravos,
isto é, 10 escravos para cada engenho, contra 58 para cada engenho na Bahia.
Segundo argumentava o Presidente Passos, tinha a Bahia oito vezes mais engenhos e
quarenta e seis vezes mais escravos que o Rio Grande do Norte. (3:i) Nos meados do
século era comum haver senhores-de-engenho, dc pequenos engenhos, é claro, que
mantinham sua propriedade com 4 ou 5 escravos e 20 ou 30 trabalhadores livres.
Estes, além de ficarem na mais rigorosa dependência do senhor, ganhavam salários
já então baixíssimos, em torno de 400 réis diários. Tanto que, ao ser aprovada a 1 .ei
Áurea, havia no Rio Grande do Norte apenas 482 escravos; a transição para o
trabalho livre já havia sido feita.
Na Paraíba o quadro não era diferente; grande era o número de trabalhadores
livres que ganhavam de 400 a 600 réis diários, e a esta massa sc juntaram os antigos
cativos após a abolição. (30)
Na realidade, na Paraíba nunca houve grande percentagem de escravos na
população, uma vez que eram 16,3% (20.000 escravos em 122.407 habitantes) em
1825 e apenas 5,7% (isto é, 21.526 escravos para 377.226 habitantes) em 1872. (34)
Em Pernambuco, mesmo, sobretudo ao Norte, na ‘'mata seca”, o trabalho
assalariado era, na segunda metade do século XIX, de uso generalizado. Henrique
Millet, profundamente preocupado com os nossos problemas, afirmou (33) que a
supressão do tráfico não nos trouxe prejuízo, uma vez que a produção aumentou
depois dc 1855. Salientou ainda que as lavouras de algodão eram feitas quase inteira-
mente por assalariados, assim como "mais da metade da lavoura da cana-de-açúcar,
106 Manuel Correia de Andrade
33 Cascudo, Luís da Câmara, História do Rio Grande do Norte, págs. 45 a 48.
07) Almeida, José Américo de, A Paraíba e seus Problemas, págs. 208-9.
pela proporção cada vez mais importante que representava, na safra dos engenhos, o
quinhão devido aos plantadores livres, isto é, ao sistema de parceria”. Só certos
trabalhos mais pesados, como o corte, transporte e manipulação das canas,
continuavam a ser feitos quase unicamente por escravos.
O próprio Millet admitia, em torno de 1875, que afastados os grandes
engenhos que produziam mais de 5.000 pães de açúcar por ano -— o pão de açúcar
pesava em média 75 kg — outros, num conjunto de perto dc 2.000 engenhos de
Pernambuco e capitanias vizinhas, cujo açúcar era comercializado no Recife,
dispunham em média de 4 a 12 escravos em cada engenho, número bastante
modesto, e que pagavam, então, salários muito altos aos trabalhadores livres — de
800 u 1.000 réis diários — caso comparassem estes salários com o preço tio açúcar
que, entre 1872 e 1875, oscilou entre 1.600 e 2.200 réis a

A Terra e o Homem no Nordeste 107


arroba (15 quilos). Achava ele, por isto, que o lucro líquido dado pelos engenhos não
compensava o custo da produção (8'J) do açúcar.
Em Alagoas a situação era diversa da dos Estados setentrionais, desde que,
ainda em 1871, os escravos deviam constituir menos de 16% da população total da
Província, pois, segundo os cálculos de T. Espíndola, (35) seriam 48.816 indivíduos
numa população total dc 310,585 habitantes. Também aí, à proporção que o número
de escravos diminuía devido à abolição do tráfico, à lei do ventre livre, à venda de
escravos para o Sul e às medidas de alforria cada vez mais numerosas depois de 1879,
não deve ter a abolição trazido grandes transtornos à economia açucareira. É
verdade que o Nordeste não recebeu, como São Paulo, imigrantes europeus, e que
estes não se adaptariam às condições sub-humanas de trabalho aqui existentes, mas
não havia aqui uma cultura cm expansão, sequiosa de braços, como o café, e havia
aquela formidável reserva dc mão-dc-obra representada pelos moradores que,
devido às suas ínfimas condições de vida, à sua ignorância e às condições de trabalho
então existentes, facilmente seria absorvida, como o foi pela agro-indústria do
açúcar. Também o escravo que se viu liberto de uma hora para outra, sem nenhuma
ajuda, sem terras para cultivar, sem assistência dos governos, sentiu que a liberdade
adquirida se constituía apenas no direito de trocar dc senhor na hora que lhe
aprouvesse. Transformou-se em assalariado, em “morador dc condição”,
continuando a habitar choupanas de palha ou senzalas, a comer carne seca com
farinha de mandioca e a trabalhar no eito de sol a sol por um salário que oscilava
entre 400 e 600 réis, (11) O salário do trabalhador rural sofrerá séria redução após o
término da guerra de Secessão, quando os Estados Unidos reconquistaram o mercado
europeu, expulsando do mesmo o nosso algodão. Sem mercado, sem poder exportar,
o preço do algodão caiu, sua cultura foi se reduzindo cada vez mais e milhares de
trabalhadores sc viram sem ter o que fazer. Aumentando a mão-de-obra disponível,
os proprietários rebaixaram os salários numa proporção de 40 a 60% dos pagos
durante o rush algodoeiro. Achamos mesmo que a crise do açúcar posterior à
abolição resultou mais da falta de mercado externo, devido à concorrência do açúcar
de beterraba europeu e do açúcar antilhano, do que da libertação dos escravos. Esta
foi feita na hora em que as condições econômicas e
sociais estavam a exigir tal medida, que não foi progressista, uma vez que ao escravo
liberto não deu qualquer perspectiva dc uma boa colocação para seu trabalho. A
liberdade de ir e vir, de não ser propriedade de tim senhor, foi a única conquista que
o escravo conseguiu com a Lei Áutea.

5
O DESENVOLVIMENTO DAS USINAS E A
PROLETARIZAÇÃO DO TRABALHADOR RURAL

Os engenhos centrais da nona década do século passado constituíram um


fracasso na tentativa de modernização do nosso parque açucareiro, e fizeram ir por
terra o sonho do Barão de Lucena de separar a atividade agrícola da industrial. As
companhias estrangeiras que montaram os engenhos centrais não estavam, através
de seus técnicos, identificadas com as condições naturais e econômicas do meio
nordestino, a maquinaria era de má qualidade e insuficiente (36) e os fornecedores da

35 Espíndola, Dr Thomaz do Bom Fim, Geografia Alagoana ou D es- cripfão Physica, Política e
108 Manuel
Histórica Correia de
da Província dasAndrade
Alagoas, pág. 97.
36 Diégues Júnior, Manuel, População e Açúcar no Nordeste do Brasil,
pág. 183,
matéria-prima nem sempre cumpriam as cláusulas contratuais, impedindo que a
atividade industrial atingisse a sua plenitude.
A melhoria da indústria açucareira era, porém, um imperativo econômico. O
açúcar bruto de inferior qualidade produzido pelos engenhos bangüês, não podia
competir no mercado internacional, e muitos proprietários já vinham procurando,
desde 1870, aperfeiçoar as suas instalações industriais a fim de produzir um açúcar
dc melhor qualidade. Daí surgiu a usína, que consistia na instalação da moderna
fábrica dc açúcar em terras do antigo bangüê e às custas de seu proprietário; quase
sempre de proprietário mais rico, às vezes possuidor de vários engenhos, mais
esclarecido, e de espírito empreendedor. As duas últimas décadas do século XIX
foram o período em que a usina sofreu o seu impulso inicial em Pernambuco, Estado
líder da produção açucareira no Nordeste, uma vez que aí surgiram, entre 1885 e
1900, cerca de 49 usinas. (a) A instalação, porém, era feita sem o estudo prévio das
condições existentes, sem a análise das áreas de influência que caberiam a cada usina
e, muitas vezes, freqüentemente mesmo, eram instaladas por pessoas ou firmas que
não dispunham de capital necessário à movimentação de uma grande indústria;
tanto que muitas dessas usinas então instaladas, estão hoje de “fogo morto”, tendo
encerrado as soas atividades industriais poucos anos após a instalação. Também raros
foram os fundadores de usinas que se mantiveram como proprietários das mesmas. À
maioria, sem dispor de capital, endividou-se, e teve de se desfazer da usina passando
a indústria a terceiros. Daí, se examinarmos a relação das usinas fundadas neste
período, observaremos que muitas delas -— cerca de 24 — não existem mais, estão,
como os velhos bangüês, “de fogo morto", tributárias de outras que tiveram melhor
sorte.
Este surto usineiro foi olhado com grande simpatia pelo governo estadual,
sobretudo na administração de Barbosa Lima, que foi rnuito generoso na concessão
de empréstimos à nova indústria, empréstimos estes que eram condicionados à
utilização pública das estradas de ferro que se construíssem e a outras cláusulas que
tentavam evitar fosse o dinheiro público beneficiar apenas os proprietários. Também
contribuiu para o surto usineiro a grande elevação do preço do açúcar na década dc
1890-1900, uma vez que o tipo Clistal chegou a valer quase 10 cruzeiros antigos por
arroba ( 15 quilos). Essa euforia se estenderia até 1901, quando uma crise atingiu a
lavoura canavieira, pois a arroba de açúcar branco teve a cotação baixada para menos
de Cr$ 4,00. (:l) Com esta crise que se estenderia, praticamente, até a primeira
Grande Guerra (1914-1918), o surto de fundação de usinas foi bastante amainado,
embora não tivesse sido, de forma alguma, paralisado,
Nesta fase, outros Estados nordestinos tiveram também as suas primeiras
usinas, quer fundadas por antigos senhores-de-engenho, quer resultantes da
transformação em usinas, dos primitivos engenhos centrais, uma vez que estes
passaram a adquirir terras e a cultivar canas. É o caso da Central São João, no Vale do
Paraíba, única usina deste Estado no século XIX. Em Alagoas, onde as condições
ecológicas eram, nos vales do Paraíba do Meio e do Mundaú, cjuase tão favoráveis
quanto no Sul de Pernambuco, surgiu a primeira usina —- a Brasileiro — em 1890,
fundada pelo Barão de Vardesmert. Três anos depois era instalada a Leão, no baixo
Mundaú, c a Sinimbu, no pequeno Vale do Jiquiá. (1) Sergipe também teve suas
primeiras usinas naquele século. Só o Rio Grande do Norte iniciaria o século XX
ligado na produção açucareira apenas aos velhos bangüês,
Apesar da crise iniciada em 1901, como o consumo interno já absorvia mais de
70% da produção nacional, continuaramAas Terra e o Homem no Nordeste 109
usinas
a ser fundadas, a ponto de, em 1910, existirem no Nordeste 130 usinas, a
maioria das quais, de pequena produção, localizava-se em Sergipe. O elevado preço
alcançado pelo produto, devido à desorganização da indústria de açúcar de
beterraba, provocada pela guerra 1914-1918, não só intensificou a fundação de novas
usinas, como também aper feiçoou e elevou a capacidade de produção das já
existentes. O quadro seguinte dá bem a idéia do que afirmamos:
TABELA N.n 3

Estado Número de usinas 1910 1920

Rio Grande do Norte 4 3


Paraíba 5 2
Pernambuco 46 54
Alagoas 6 15
Sergipe 62 70
Bahia 7
22

Como vemos acima, o Rio Grande do Norte e a Paraíba tiveram, na segunda


dccada do século atual, uma diminuição do número de usinas, enquanto em
Pernambuco, Alagoas e Sergipe, estes números foram aumentados. (37)
Dcvc-se, porém, salientar que a produção de açúcar não era maior ou menor
conforme o número de usinas, uma vez que, apesar do menor número de fábricas, -
a produção pernambucana era 8 vezes maior que a sergipana, ao mesmo tempo que
Alagoas, com apenas 15 usinas, tinha uma produção 50% superior à sergipana com
70 usinas. É que em Sergipe se desenvolveu largamente a fundação de pequenas
usinas, correspondentes, cada uma delas, quase a um antigo bangüê, enquanto nos
outros Estados as usinas aumentavam constantemente a sua capacidade de
esmagamehto de canas e iam, cada ano, absorvendo novos engenhos e até mesmo
outras usinas. A título de curiosidade chamamos a atenção para o fato de a
produção das 36 usinas sergipanas, na safra de 1945-55, ter sido de 785.613 sacos e,
na safra de 1955-56, ter sido de 716.765 sacos de 60 quilos, enquanto a Catendc, a
maior usina de Pernambuco, teve nestes dois anos, respectivamente, as seguintes
safras: 761.884 e 866.277 sacos. Também a Central Barreiros, cm 1955-56, teve
sozinha maior produção que as 36 usinas sergipanas reunidas — 824.390 sacos. Nos
últimos anos começa a processar-se, no pequeno Estado do Nordeste, a
concentração fundiária, uma vez que o número de usinas caiu de 1956 para 1961 —
em cinco anos apenas
— dc 36 para 22. Em 1973 são apenas seis. O total da produção de açúcar
sergipano, porém, manteve-se relativamente estável desde que atingiu a 635.900
sacos na safra 1959-60 e ascendeu a 790,079 sacos na de 1960-61.
Em 1973, ao analisarmos as quotas de produção estabelecidas peiu I.A.A., as
maiores usinas pernambucanas são: Central Barreiros (1.200.000 sacos), Catende
(983,000 sacos), Central Olho d’Água (703,162 sacos), Cucau e SanLa Teresinha
(700.000 sacos, cada uma), Estas cinco usinas deverão produzir um total de 4.286.000
sacos ou cerca de 30% da produção estadual (17.810.000 sacos de 60 kg).
Além de Pernambuco, só Alagoas é grande produtor de açúcar rio Nordeste —
26 usinas com a quota total de 9.510.000 sacos. Os demais Estados possuem poucas
usinas e poucas quotas de produção, como a Paraíba — 7 usinas com quota de
A Terra e o Homem no Nordeste 110

37 Carli, Gíleno de, O Açúcar na Formação Econômica do Brasil, págs. 32 c 33.


1,620.000 sacos , Rahia
— 6 usinas e quota de 1.000.000 de sacos —, Sergipe — 6 usinas para 900,000
sacos —, Rio Grande do Norte — 2 usinas para 600.000 sacos — e Ceará, Maranhão
c Piauí, com uma usina cada e, respectivamente, 200.000, 100.000 e 60.000 sacos. A
política governamental em fase de implantação de estímulo à fusão de usinas e à
transferência para melhores áreas, provocará, naturalmente, uma redistribuição
geográfica das mesmas, Na situação atual dificilmente poderão manter-se as pe-
quenas usinas que produzem menos de 100,000 sacos anuais. A usina era, assim, um
autêntico D. João de terras, (f') estando sempre disposta a estender seus trilhos, como
verdadeiros tentáculos, pelas áreas onde pudesse obter cada vez mais canas. Esta
fome de terras iria dar origem ao agravamento do problema do latifúndio que desde
a colonização aflige o Nordeste. Na realidade, as antigas sesmarias, de dimensões
descomunais, foram sendo desmembradas pelos primitivos proprietários à proporção
que os filhos se tornavam adultos ou que as filhas se casavam, a fim de que novos
engenhos fossem fundados para uns e outros. Daí se falar em engenhos “cabeças de
sesmarias”, quando se quer referir a engenhos muito grandes e antigos, e haver
muitas vezes engenhos chamados “velhos” ao lado de outros denominados "novos”.
Por isto os grandes latifúndios primitivos foram se dividindo até

(6) Carli, Gileno de, O Processo Histórico da Usina em Pernambuco,


pág. 18.
formar propriedades médias, digamos assim, capazes de manter um engenho bangüê,
propriedades que, conforme a área em que se localizavam, tinham geralmente de
200 a 1.000 hectares. Com a usina, esse processo de divisão, de retalhamento de
propriedades não só foi detido, ccmo se passou a formar um processo dc
concentração fundiária a ponto de haver usinas, hoje, como a Catcnde, a Central
Barreiros e a Santa Teresinha, que controlam áreas enormes, superiores a 35.000
hectares em cada uma delas, reunindo sob seu domínio mais de cinqüenta antigos
bangüês. Vinte ou trinta engenhos estarem nas mãos de uma única usina 6 fato
comum em Pernambuco. Ha, assim, usinas que controlam dezenas de engenhos,
concentrando em suas mãos vales inteiros.
As usinas, ao serem instaladas, dispunham de máquinas com capacidade de
esmagamento superior à capacidade de produção — dentro das condições técnicas
então dominantes — dos engenhos a ela vinculados, e tratavam de adquirir mais
terras para atender à fome de canas de suas moendas, Adquiridas as terras sem certo
planejamento, o desequilíbrio passava a proceder de forma contrária, ficando as
máquinas com capacidade inferior à produção agrícola, e tratavam os usíneiros de
adquirir novas máquinas. Assim, ampliando as terras e as máquinas ela ia acentuar
cada vez mais a concentração fundiária.
Também as estradas de ferro, quer particulares, quer da antiga Great Western,
atual Rede Ferroviária do Nordeste, muito contribuíram para aumentar o poder
expansivo das usinas já que permitiam que as canas fossem para elas transportadas de
grandes distâncias. Assim, a usina Brasileiro, hoje de “fogo morto”, mas que teve seu
período áureo e foi uma das mais importantes do pais na década de 1931-40,
localizada cm Atalaia, Alagoas, possuía engenhos à margem da estrada de ferro em
União e São José da Laje, a cerca de 30 quilômetros de distância. Por sua vez as
estradas de ferro particulares de cada usina não só cortavam os engenhos próprios
como, muitas vezes, mediante concessões,
A Terra passavam porNordeste
c o Homem no engenhos
111 de terceiros.
F.stes quase sempre desmontavam suas máquinas, passando os proprietários, agora
sem industrializar sua produção, de bangüczcjros a fornecedores. As estradas de
ferro, itradiando-se em muitas direções mas quase sempre subindo ou descendo um
vale, demarcavam a extensão da área de influência de cada usina. Às vezes a
conquista de uma zona onde havia bons engenhos era disputada entre várias usinas
que queriam levar até lá os seus trilhos, e estes engenhos eram verdadeiramente
leiloadas pelos seus proprietários, vencendo a empresa industrial que desse maior
preço. Também a passagem dos trilhos por engenhos particulares era comprada por
altos preços. A crise, com a conseqüente queda do açúcar

112 Manuel Correia de Andrade


que se iniciou em 1923 e atingiu o auge em 1930, teve suas conseqüências sobre a
indústria estendida até 1940, fazendo com que muitas Usinas e muitos bangüês
fechassem as suas portas, apagassem seus fogos, tornando-se tributários de outros
mais poderosos.
Interessante, porém, é salientar a capacidade de resistência do bangüê. Com
menores capitais, técnicas mais atrasadas, baixa produtividade e pondo no comércio
um produto de qualidade inferior, o bangüê resistiu como pôde ao surto usineiro,
voltado que estava para o mercado consumidor regionaí. À reação do bangüê fez-se
com tal energia que, apesar de sua fraqueza econômica e das vantagens conseguidas
pelos usinctros perante as instituições governamentais, só no fim da década de 1951-
60, veio praticamente a cxtinguir-se. Assim o bangüê reagiu por mais de 70 anos à
investida das usinas, para só baquear realmente depois de 1950. Para citar apenas
alguns exemplos salientamos que em 1914, exatamente 30 anos após o
estabelecimento dos primeiros engenhos centrais em Pernambuco, só 490 engenhos,
isto é, 17,5% dos bangüês do Estado estavam de “fogo morto", dominados pelas 49
usinas então existentes.
Também cm Alagoas em 1931 havia 27 usinas, mas 60% dos engenhos, cerca
de 618. continuavam a funcionar e produziam ainda cerca de 31% do açúcar
alagoano. (38) Hoje, porém, o bangüê aparece raramente, um ou outro ainda a moer
toda ou parre da safra, sem constituir mais uma força de resistência ao avanço
avassalador das usinas. Estas, com o novo surto de desenvolvimento provocado pela
Guerra Mundial dc 1939-45, não só aumentaram consideravelmente a sua produção,
como, devido ao uso do caminhão e ao melhoramento das rodovias, passaram a
ampliar a área de influência, estendendo a mesma até os altos cursos dos rios, até os
“corgos" mais distantes, até mesmo as encostas íngremes da Borborema. (3) Casos há
de usinas situadas quase no Agreste, em verdadeiras indentações da Mata, nas
caatingas da Borborema, como ocorre com a Santa Helena, na Paraíba, com a
Central Olhos dlÁgua, a Petribu c a N. S. dc Lourdes, em Pernambuco, e com a
própria Serra Grande, em Alagoas. Também a pequena usina Crauatá, em
Canbotinho, Pernambuco, localiza-se nas vertentes muito inclinadas drenadas pelas
cabeceiras do Rio Canhoto, afluente do Mundaú. É que nos períodos favoráveis,
quando o açúcar dá bom preço e o I.A.A , — Instituto do Açúcar e do Álcool —
permite, fundam-se usinas cm locais topograficamente pouco favoráveis, Tal é o caso
da criação da usina Laranjeiras, no Vale do Siriji, e da usina Centrai N. S,

! 14 Aíunufí Correia de Andrade

38 Costa, Craveiro, Alagoas em J9JI, pifes. 78-9.


de Lourdes, na bacia do Capibaribe-Mirim, na década de 1951-60, que vêm
fazendo desaparecer os últimos bangüês que surpreendemos ao estudar aquele vale
em 1958, e que Orlando Valverde estudou nesta bacia em 1959. (39)
Hoje o número dc usinas também diminui e, no Rio Grande do Norte, a mais
importante — Estivas — mói menos de 340.000 sacos <de açúcar dc 60 kg por ano;
na Paraíba, cota superior a esta já é produzida por duas usinas — Santa Helena e São
João — ultrapassando a primeira os 400 mil sacos anuais. Em Alagoas, as principais
usinas — Central Leão e Coruripe — ultrapassam os 800 mil sacos, sendo poucas as
que produzem menos de 250 mil sacos. Em Pernambuco as três maiores usinas —
Catende, Central Barreiros e Central Olhos d’Água — estão com produção superior a
700 mil sacos cada uma. Das 40 usinas em atividade no Estado, apenas 11 têm
produção inferior a 300 mil sacos e elas só são consideradas médias quando
produzem pelo menos 400 mil sacos dc açúcar anuais. Aí o processo de concentração
indusLrial chegou a tal ponto que não só há usinas maiores absorvendo menores,
como também as firmas proprietárias de grandes usinas estão adquirindo outras,
organizando grupos econômicos que controlam não uma, mas várias úsinas. É o caso
do grupo Bezerra de Melo, que possui as usmas Rio Una, Santo André e Central
Barreiros, em Pernambuco, e a Santana em Alagoas, dispondo de uma arca dc mais
de 70.000 hectares em terras contínuas com uma produção de perto de 2.000,000
sacos de açúcar por ano. O grupo Costa Azevedo, controlando as usinas Catende e
Piranji, dispõe de perto de 45.000 hectares produzindo cerca de 1.000.000 de sacos
de açúcar por ano. O grupo Dias Lins possui as usinas União e Indústria, em
Pernambuco, e a Serra Grande em Alagoas, com uma produção anual de cerca de
1.000.000 sacos. José Ermírio dc Morais, que recentemente vem aplicando capitais
em usinas de açúcar em Pernambuco, adquiriu as usinas São José e Tíúma, e já forma
um pequeno império com cerca de 40.000 hectares e uma produção de 1.060,000
sacos de açúcar na safra de 1972-3. Por sua vez, pequenas usinas como Regalia, Santa
Inês e Peri-Peri encerraram suas atividades, absorvidas que foram, nos últimos anos,
por usinas maiores. Ve-sc, assim, como a concentração vem se fazendo com grande
intensidade no parque industrial açucareiro pernambucano, com sérias implicações
em Alagoas. Em Sergipe esta concentração não foi observada até 1961 quando sua
maior usina, a São José, em Laranjeiras, produzia apenas 121.655 sacos dc açúcar.
Para uma produção anual de 790.079 sacos de açúcar, existiam no pequeno Estado 22
usinas, o que dava uma produção média por usina de 35.912 sacos. Daí estar o parque
açucareiro sergipano em decadência, uma vez que pequenas usinas não podem
concorrer com as grandes devido ao alto custo de sua pequena produção, obtida em
condições técnicas inferiores a da grande indústria. Por isto, em Sergipe, mesmo na
histórica área da Cotinguiba, pontilhada de cidades tradicionais, de igrejas antigas,
muitas delas tombadas pelo Patrimônio Histórico, e dc vetustos solares senhoriais,
observava-se o rccuo da cana-de-açúcar, como cultura, ante o avanço da capineira.
O fato é que, com a valorização sempre crescente da carne, achavam os pequenos
usineiros sergipanos mais vantajoso criar c engordar gado para o açougue do que
plantar cana e fabricar açúcar. Por isto desmontavam as usinas, vendiam as
ferragens, faziam capineiras onde havia canaviais, cercavam as propriedades e
criavam ou engordavam gado mestiço nzebuado. O boi, corno outrora o algodão,
favorecido pelo aumento do mercado interno, enfrentava e vencia a cana, ali, onde a
indústria açucareira, não encontrando condições excepcionais ao seu
desenvolvimento, não alcançou o alto padrão obtido nos Vales do Pirapanta, do
Jaboatão, do Ipojuca, do Scrinhaém, do ATJna,
Terrado
e o Paraíba
Homem nodoNordeste
Meio ou 115do Mundaú.
O avanço do gado, porém, não provocou a queda da produção açucareira

39 Valverde, Orlando, O Nordeste da Mata Pernambucana (A região de Timbaúba). “Boletim


Carioca de Geografia”, Ano XIII, n,“ 1 e 2, pág. 42.
sergipana, boje com quota de 900.000 sacos para a safra 1972-3. Na realidade, a
maior porção das usinas desapareceu e a produção de açúcar concentrou-se em seis
fábricas com capacidade que oscila entre os 250.000 (Central Riachuclo) e os 75.000
(Vassouras e Proveito) sacos anuais. Estas usinas são pequenas se comparadas com as
de Pernambuco e Alagoas, mas apresentam porte equivalente as dos outros Estados
do Nordeste.
A grande concentração fundiária tornou-se um dos mais graves problemas do
Nordeste, sobretudo nas áreas de elevadas densidades demográficas como a Mata e o
Agreste, Tal fato tornou a região açucareira da Mara uma área de forte tensão social
e de choques entre proprietários e assalariados. Daí a SUDENE, já em seu primeiro
Plano Diretor, haver admitido atacar o problema agrário nordestino com uma política
dupla: a) — promovendo a migração dos excedentes demográficos da região para
áreas sub-povoadas, o Sul da Bahia e o Noroeste do Maranhão; b) — reestruturando
a agro indústria açucareira através de uma elevação da produtividade agrícola e
industrial provocada pelo desenvolvimento de métodos modernos — irrigação,
adubação, uso de inseticidas c herbicidas — e de reequípamento de usinas e
liberação de terras, como pagamento dos empréstimos governamentais pelos usi-
nciros, onde seriam instalados lotes familiares produtores de alimentos.
0 Estatuto da Terra promulgado em fins de 1964 e a criação do 1BRA (Instituto
Brasileiro de Reforma Agrária) trariam perspectivas de uma reformulação agrária
para a região. O cadastramento das propriedades rurais feito em 1965 constatou o
domínio, na região, do latifúndio por exploração e, conseqüentemente, de ociosidade
no tiso da terra. Daí serem as regiões da Mata e do Agreste de Pernambuco e Paraíba
consideradas como áreas prioritárias para a Reforma Agrária, e ter sido a Usina
Caxangá, com mais de 20.000 ha., desapropriada para experiência de reforma.
Agora, inicia-se a desapropriação, através do programa da PRO- TERRA, dos
excedentes de grandes propriedades para instalar pequenos e médios proprietários.
De acordo com este programa os latifundiários que possuírem mais de 1.000 ha.
deverão organizar projetos, cedendo ao poder público uma porção de suas terras para
ser distribuída entre agricultores, que encontrarão financiamento e assistência
técnica governamental. Esta porção corresponderá a 20% para as propriedades de
área equivalente a 1.000 ha., a 30% nas propriedades com mais de 1.000 e menos de
3.000 ha., a 40% nas propriedades que tiverem entre 3 c 5.000 ha., e a 50% naquelas
de mais de 5.000 ha. As parcelas resultantes das terras liberadas poderão oscilar entre
um e seis módulos (Instrução NR 08/72 do INCRA). Os preços por hectare das terras
a serem desapropriadas foram estabelecidos pelo Ministério da Agricultura, com
base nas declarações dos proprietários ao responderem aos cadastros do INCRA, o
que fez com que eles fossem compensadores para os latifundiários desapropriados e,
apesar de uma reação inicial pouco favorável de proprietários maís conservadores,
houve uma ponderável adesão dos mesmos ao PROTERRA, Assim, ao se concluir o
prazo para entrega dos projetos ao INCRA, a 26 de janeiro de 1973. este recebeu, em
Pernambuco, a adesão de 119 proprietários de terras, dentre os quais se encontravam
várias usineiros. Foram oferecidas à liberação 77.000 ha. de terras, (J0) dos 130 000
que deveriam ser liberados para o INCRA, Na Paraíba deverão ser liberados 12.478
hectares e, no Ceará, área que ultrapassará os 500.000 ha. O processo de fusão dc
usinas e os programas de reflorestamento coexistem com este programa.
O que ocorreu em Sergipe, o recuo da cana ante o avanço do gado, tem
conseqüências sociais das mais sérias, já que empregando a agro-indústria do açúcar
maior número de braços do que a pecuária, isso acarreta um grande desemprego no
meio rural. O usineiro, tornado pecuarista, necessita de poucos braços, dispensa e faz
com que grande parte dos moradores se retire de suas terras. Estes afluem. então.
116 Manuel
para Correiacidades
as pequenas de Andrade
próximas, Maruim, Divina Pastora, Riachuelo etc., para os
povoados e vilas das imediações e para Aracaju, dando aos mesmos um excedente de
população que esses lugares, não dispondo de indústria, não podem empregar. E a
população, sem perspectivas de melhor futuro, ou emigra para a Bahia — ê grande o
número de sergipanos que vivem em Salvador — ou para o Brasil Sudeste — Rio de
Janeiro e São Paulo — ou ainda para o Norte do Paraná. Assim, o gado resolve a
situação econômica de algumas dezenas de proprietários, levando ao desemprego, à
miséria e à emigração uma grande percentagem da população sergipana.
A Bahia, Estado outrora grande produtor de açúcar, teve os seus canaviais
bastante reduzidos, de vez que o Recôncavo foi, cm grande parte, ocupado pelo
fumo (Cruz das Almas, São Félix, Cachoeira), pela mandioca (Nazaré e Maragogipe)
c pelo cacau em sua porção meridional. Hoje possui seis usinas, as maiores com
quotas de 260.01)0 sacos (Aliança e Cinco Rios) e a menor com quota de 20.000
sacos (Altamíra). Sua produção total de 1.000.000 de sacos de 60 kg tem pouca
expressão na região nordestina.
A usina deu margem ao aparecimento de uma nova figura na paisagem
açucareira do Nordeste, a do fornecedor de cana, sucessor do bangüezdro. O antigo
senhor-de-engenho, ao desmontar seu velho bangüê, de bueiro quadrado e baixo,
sempre localizado na meia encosta, transforma-se em fornecedor proprietário. Sua
figura de produtor da matéria-prima para a fábrica dc outrem, lembra, guardadas as
proporções, a figura do lavrador da era colonial, assemelhando-se o atual usitieiro ao
antigo senhor-de-engenbo. Realmente, o fornecedor está na dependência do
usineiro, como o lavrador estava na do senhor- -dc-cngenho, uma vez que até 1930
não tinha o usineiro obrigação de moer a cana do fornecedor, ficando este com o
fornecimento, mais cedo ou mais tarde, dependente do usineiro. Também as
balanças das usinas não podiam ser fiscalizadas pelos fornecedores, que ficavam,
assim, à mercê dos usineiros. As contendas eram freqüentes, os atritos ocorriam a
todo instante, mas a capacidade de luta dos fornecedores foi muito grande e aos
poucos eles conseguiram o direito de possuir urna cora de fornecimento que
participava da cota total da usina, sendo esta obrigada a moer as canas dos engenhos
a ela vinculados. Conseguiram também facilidades de crédito, e financiamento, para
a realização de suas safras, a juros módicos com desconto na época da moagem.
Graças à sua capacidade de luta, os fornecedores conseguiram sobreviver e
constituem, ainda hoje, os produtores de grande percentagem das canas moídas em
todo o Nordeste. Assim, na safra de 1960-61, em Pernambuco, cies contribuíram
com 49% das canas esmagadas, cn-

A Terra e o Homem no Nordeste 117


quanto em Alagoas, na safra dc 1958-59, a percentagem da cana dos
fornecedores foi de quase 58%. Sua importância d muito grande, portanto, para a
indústria açucareira.
Nem todos os fornecedores, porém, cultivam terras próprias, pois muitas vezes
eles alugam engenhos da usina para plantar; enquanto os fornecedores proprietários
tcrn, muitas vezes, cotas em várias usinas, não dependendo exclusivamente de uma,
os fornecedores rendeiros estão vinculados à usina proprietária da terra que lavram,
só podendo fornecer a ela as canas que cultivam. Pagam uma renda equivalente a 15
ou 20% da sua produção ao usinciro. Há ainda usinas que possuem lavradores, isto é,
pequenos plantadores de cana que dispõem de áreas onde cultivam alguns hectares,
lavrando pessoalmente a terra com seus familiares e empregados; a Santa Rita, por
exemplo, no Vale do Paraíba, reservou um dos seus engenhos — o Gargaú — para
estes pequenos lavradores. São eles, quase sempre, funcionários da usina — maqui-
nistas, mecânicos ctc. — que trabalham na sua especialidade na safra c lavram a terra
na entre-safra, A Monte Alegre, no vale do Maman- guape, possui mais de 60
lavradores instalados em um engenho vizinho, de propriedade do Estado, Outras
usinas aí localizadas, corno a São João, possuem cerca de 1,000 lavradores, enquanto
a Santa Helena recebe de lavradores e fornecedores cerca de 70% da cana que esma-
ga. (u)
Usinas há, em Pernambuco, embora constituam exceções, que não cultivam
uma “touceira” de cana. Toda a matéria-prima é adquirida de fornecedores, como
ocorre com a Laranjeiras, a Matari, a Muçurepe e a Central N, Senhora de I.ourdcs.
O mesmo fato ocorre em Alagoas com as usinas Boa Sorte, Santa Clotildc e Taquara.
Conveniente é salientar que, na luta contra a absorção usineira, os plantadores de
cana não se organizaram em cooperativas, senão como exceção, para instalarem suas
próprias usinas. Apenas um movimento deste tipo ocorreu em Alagoas, no Vale do
São Miguel, dando margem à instalação da Usina Caeté. Esta, instalada em 1946,
moeu até 1957 — com interrupção no período de 1952-56 — quando, fracassando a
cooperativa, foi vendida a uma sociedade anônima. Duas outras usinas alagoanas
juridicamente organizadas sob a forma de cooperativas — a Boa Sorte e a Santa
Clotiide — são, na realidade, sociedades organizadas por famílias, respectivamente a
Brandão Vilela c a Oiticiea, de antigos bangtie- zciros que, parentes, associaram-se
para montar a usina. Estão, assim, os associados, ligados mais pelos vínculos do
parentesco que pelos ideais e convicções cooperativistas.
A tendência das grandes usinas, porém, é cultivar terras próprias, eliminando
os fornecedores. Querem, além do lucro industrial, o agrícola; por isto adquirem
grande número de engenhes, ligam nos por estradas de ferro e de rodagem à usina,
dividem o total das terras que possuem em zonas e estas em capitanias que por sua
vez se dividem em administrações que correspondem quase sempre a um primitivo
engenho de 400 ou 500 hectares, Têm, então, os fiscais de zona, os capitães de
campo e os administradores a dirigirem cada uma destas circunscrições. E como um
todo monolítico, a área é cultivada em moldes modernos, com mecanização, adubo
c, aquelas localizadas em áreas mais secas, com irrigação, A seleção de variedades de
cana mais resistentes e mais produtivas é hoje problema que preocupa os usi- netros,
sobretudo depois que -a Co 333 dominou os canaviais nordestinos, fazendo cair o
rendimento industrial das usinas. A vitória da Co 333 sobre as outras variedades da
Coimbatore, da POJ, da CB etc. deveu-se, sobretudo, à sua rusticidade, à sua
resistência às secas e ao seu razoável rendimento agrícola. Por ser uma cana de ciclo
vegeta- tivo longo — 18 meses — e de curto amadurecimento, é sempre molda
A Terra e o Homem no Nordeste 118
verde ou seca, provocando como conseqüência a queda do rendimento industrial das
usinas. Sua substituição parcial por outras variedades de cana de menor ciclo
vegetativo, a fim de que as usinas moain sempre canas maduras, é um imperativo
para a indústria açucareira do Nordeste. Serra Grande, por exemplo, inverteu
grandes capitais em açudes a fim de irrigar canas situadas, em sua maior porção, em
terras altas. Também foi em Catende, como agrônomo, irrigando canaviais, que
Apu- lônio Sales se notabilizou a ponto de ser chamado à vida política, cm 1937, por
Agamcnon Magalhães, Para ter-se uma idéia desta concentração basta lembrar que
apenas 18% das canas esmagadas em Catende são de fornecedores, sendo esta
percentagem também baixa em Santa Teresinha ( 3 2 % ) e em Salgado ( 6 % ) . Por
isto há quem afirme que a tendência é o bangüezeiro lotnar-se fornecedor
proprietário, depois fornecedor rendeiro c, finalmente, ter de deixar a terra que
possuiu e lavrou durante quase toda a vida. (,IS)
O administrador de engenho é um empregado da usina que apenas administra
as culturas feitas por esta em sua circunscrição, recebendo remuneração semanal e
no fim do ano uma gratificação proporciona] à produção da área por ele
administrada. Não tem economia própria, não gere negócios seus e, como preposto
da usina, pode ser despedido na ocasião cm que esta desejar. Não tem por isto nem a
auto-
I U VA-.C H/BIBLIOTECA [
nomia do fornecedor, nem a clássica independência e altivez do senhor- de-
engenho.
Na área açucareira ainda há um grupo econômico que a usina vem eliminando,
mas que teve na primeira metade do século XX relativa importância e, em certas
áreas, até uma grande importância — a dos foreiros —. Estes surgiram ainda na
época da escravidão e eram homens que viviam em áreas mais distantes dos
engenhos, cultivando lavouras de subsistência e pagando ao proprietário um
pequeno aluguel anual. Nas épocas de maior trabalho nos engenhos — plantio e
colheita — costumavam os foreiros dar ao proprietário alguns dias de trabalho por
semana, às vezes gratuito, às vezes por ínfimos salários; era a “condição” ou o
“cambão” que, segundo Lacerda dc Melo, assemelbava- -sc à corvéia medieval. (40)
Por isto são os foreiros, às vezes, chamados de moradores de condição. A
importância dos foreiros cresceu com o desenvolvimento da cultura do algodão,
sobretudo nas áreas propícias a essa atividade agrícola. É que sendo o algodão uma
cultura comercial por excelência, tinha fácil colocação no mercado, dando ao foreiro
uma renda monetária razoável, Muitos senhores-de-engenho chegaram a instalar em
suas propriedades descaroçadores de algodão, passando a adquirir para
beneficiamento a produção deste e dos pequenos proprietários da vizinhança, Este
fato era freqüente na Paraíba c em Alagoas ainda na primeira metade deste século.
A crise do açúcar e a conseqüente baixa dos preços fez com que inuitos
senhores-de-engenho encerrassem suas atividades industriais. Quando próximo a
estes bangüês de “fogo morto” havia usinas, eles se tornavam fornecedores; quando,
porém, não havia, eles costumavam dividir os engenhos em pequenos sítios e alugar
a foreiros. Dizia-se, então, que o engenho estava “aforado” e que seu proprietário ia
viver “de foros”. Este fato ocorreu sobretudo nas áreas que, além dc distantes das
usinas, ficavam também distantes das principais estradas. Dava-se também, de
preferência, naqueles engenhos próximos à encosta da Borborema, com terras férteis
para a cultura de fruteiras e dc lavouras de subsistência. Municípios como Vitória de
Santo Antão, Amaraji e Bonito, cm Pernambuco, prestaram-se muito a estes afora-
mentos. Estes engenhos, divididos cm grande número de pequenos
estabelecimentos, logo se tornaram famosos pelo abastecimento das cidades que, em
crescimento contínuo, consumiam a produção dos mesmos e davam margem ao
desenvolvimento de uma pequena classe média no campo. Mas a conclusão da

A Terra e o Homem no Nordeste 119


40 Lacerda dc Melo, Aspectos do “habitat" rural no Nordeste do Brasil, em '‘Anais da
Associação dos Geógrafos Brasileiros”, vol. X, tomo I, pág. 251.
guerra de 1939-45 trouxe a valorí-
zação do açúcar, que passou a ter boa colocação no mercado externo; as usinas,
modernizadas, trataram de expandir suas áreas de influência e muitos dos senhores-
de-engenho que viviam de "foros” na cidade, resolveram voltar à atividade agrícola
ou encontraram melhores ofertas de renda para suas propriedades por parte das
usinas. Trataram então de expulsar os foreiros, às vezes indenizando as benfeitorias c
outras sem lhes dar indenização alguma, apenas alguns meses para colherem as
lavouras temporárias. Também ocorreu o caso das usinas permitirem que os foreiros
permanecessem nas suas posses, chamadas localmente de "sítios”, com a condição de
que destruíssem os pomares, colhessem as lavouras c sc tornassem plantadores de
cana. Assim, de várias maneiras e por vários processos, foram os foreiros atacados e
batidos nos primeiros eníreveros. Trataram, depois, de se organizar e se associar
usando "slogans” de combate “ã condição” ou "ao cambio”, Foi desta luta dos
foreiros, dos pequenos rendeiros contra os proprietários que os queriam desalojar de
sítios ocupados, muitas vezes, há dezenas de anos, que surgiu o caso do engenho
Galilcia, em Vitória de Santo Antão; caso que deu origem às famosas Ligas
Camponesas lideradas pelo então Deputado Francisco Julião. As conseqüências das
primeiras vitórias dos grandes proprietários sobre os foreiros foram sentidas pelos
habitantes das cidades círcunvizinhas que viram, repentinamente, diminuir as frutas
que eram vendidas em suas feiras, ao mesmo tempo em que os preços subiam
assustadoramente. As condições alimentares, que sempre foram precárias na região
úmida nordestina, tornavam-se, assim, cada vez mais difíceis.
Infelizmente não dispomos dc dados estatísticos sobre o assunto, mas, da
observação direta no campo, podemos afirmar que, entre 1945 e 1955, foi grande a
área, outrora ocupada por foreiros, que foi conquistada pela cana-de-açúcar c grande
o número de foreiros que teve dc afastar-se da atividade a que se dedicava.
Os trabalhadores assalariados também denominados, em certas áreas, de
"trabalhadores de eíto”, “cassacos” e “eiteiros” constituem a imensa maioria dos
trabalhadores rurais na área açucareira. Conforme a sua maior fixação à terra e
dependência ao proprietário, podem ser agrupados em três categorias: os moradores
que residem na propriedade onde trabalham, os trabalhadores "de fora”, que vivem
nas cidades, vilas e povoações da zona, constituindo a maioria da população das
mesmas, e os "corumbas” ou “caatingueiros” que residem no Agreste c Sertão, mas se
deslocam todos os anos para a zona canavieira durante a safra, a fim de participar da
colheita. Fazem, assim, uma migração sazonal, uma vez que com as primeiras chuvas
voltam para a sua terra.

120 Manuel Correia de Andrade


Os primeiros são moradores que residem em engenhos ou fazendas e recebem
uma casa para morar e um pedaço de terra para a lavoura c!e subsistência. A casa,
sempre pequena e humilde, varia muito, quanto aos cômodos e ao material de que é
construída, de uma região para outra. Algumas usinas e engenhos, sobretudo na
Paraíba e cm Pernambuco, costumam construí-las de alvenaria, uma vez que dão
mais conforto e têm maior duração, A maioria, porém, é de taipa, isto é, formada por
esteios de madeira ocupando as várias extremidades da casa, Estes esteios são ligados
uns aos outros por um entrançado de varas amarradas por cipós, Sobre este
entrelaçado lança-se, então, o barro. De taipa foram construídas rio passado até as
casas-grandes dos engenhos, como a do Teitanduba no Vaie do Siriji. Em Alagoas,
porém, na zona canavieira, encontramos freqüentemente casas cobertas de palha
com telhado cm quatro águas, que por sua forma fazem lembrar as habitações
africanas. As casas dos moradores, de melhor tipo, compreendem quase sempre uma
sala de frente, um corredor, um ou dois quartos e uma cozinha. A maioria, porém, é
formada por três cômodos paralelos que sc sucedem da sala da frente à cozinha.
Nunca, ou quase nunca, são assoalhadas, sendo o chão de terra batida. Não dispõem
de instalações sanitárias, sendo os rios utilizados para o banho e as touceiras de mato
mais compactas, para o atendimento das necessidades fisiológicas. Esta ausência de
instalações sanitárias contribui consideravelmente para piorar as condições mcdico-
higiênícas regionais. A casa com a área para a cultura em torno é chamada
geralmente dc “sítio”,
ü morador fixado em um “sítio” tem uma série de obrigações para com o
proprietário, sendo a principal delas a de dar-lhe um certo número de dias dc
trabalho por semana. Nos demais dias ele pode, com a ajuda da família, cultivar na
área em tomo da casa qualquer lavoura temporária; as permanentes, como a
bananeira e o cafeeiro, são terminantemente proibidas a fim de que o morador em
caso de mudança não possa pleitear indenização. Geralmente a mais cultivada é a
mandioca; em Alagoas cultiva-se muito milho, e na Paraíba e no Rio Grande do
Norte o algodão tem grande importância nestes roçados. Este sistema é ainda
generalizado nas áreas em que o processo usineiro está em desenvolvimento e onde
o proprietário exige apenas uma “sujeição" de três ou quatro dias por semana
durante a estação das chuvas. À proporção que o processo usineiro evolui, a área
cultivada com cana vai aumentando c os proprietários não só restringem os sítios
dos moradores, tirando-lhes as áreas mais favoráveis, como exigem dos mesmos
cinco ou seis dias de serviço por semana nos seus canaviais, o que impede os
trabalhadores de cuidarem dos seus roçados. Vai então se processando
gradativamente a proletarízação da massa camponesa.
Na quarta década do século XX, quando este sistema estava no apogeu, o
economista Humberto Bastos (41) e o agrônomo Gilcno de Carlí realizaram estudos
sobre as condições de vida dos trabalhadores rurais, O primeiro encontrou em
Alagoas, em 1936 c 1937, esses trabalhadores ganhando uma diária de três cruzeiros
antigos c cultivando roçados sobretudo de algodão. Nessa época constatou, através
dc inquéritos, que eles consumiam em sua alimentação bacalhau, farinha de
mandioca, café de segunda, feijão e carne-de-ceará. (lr’) Pelo Natal consumiam, às
vezes, carne dc boi,
Estes salários, porém, oscilavam durante o ano conforme a maior ou menor
necessidade de braços dos engenhos eA usinas.
Terra c o Gileno deNordeste
Homem no Carli 121
em 1940 ainda
encontrou em Pernambuco trabalhadores do campo ganhando de Cr$ 2,00 até Cr$
3,00 diários. Nessa época até os catn- biteiros que conduziam os cavalos e muares

41 Bastos, Humberto, Açúcar & Algodão, pág. 96.


com cana durante a safra, ganhavam apenas de Cr$ 2,60 a CrS 3,00 pot dia, e os
carreiros, com todo o prestígio que tinham no meio rural, percebiam Cr$ 3,30 por
dia. (,<l) As condições de vida eram difíceis, os salários baixos e os gêneros, para o
valor da moeda de então, eram caros. Havia, porém, os roçados, os “sítios”, onde no
inverno, se não havia ainda trabalho de plantio da cana, cultivavam roça, feijão e
algodão. A mulher e os filhos menores também ajudavam a cuidar do sítio; às vezes
criavam bodes, porcos, galinhas e até mesmo, excepcionalmente, possuíam uma vaca
de leite ou um cavalo. O roçado e as criações complementavam a alimentação e
forneciam algum dinheiro, empregado na aquisição de vestimentas.
Na década 1956/65 esse sistema de vida vê-se completamente transformado;
nas áreas de usinas menores, sobretudo na Paraíba e no Norte de Pernambuco, os
engenhos c usinas ainda dão direito dc plantar, mas os sítios são pequenos e
localizados em terras cansadas; além disso exígetn dos moradores sempre de cinco a
seis dias de serviços por semana, o que impede os mesmos do trabalho em suas la-
vouras.
No Rio Grande do Norte, em seu vale mais fértil — o do Ceará- -Mirím — as
condições topográficas e edãíicas têm uma influência muito grande sobre a
distribuição do habitat; as habitações se distribuem sempre cm forma linear entre as
terras da várzea areno- -humosas e as da encosta, mais íngreme na porção Norte e
meros inclinada na Meridional. (42) Por isto os moradores que vivem quase
agrupados não dispõem de terras para a cultura junto a suas habitações. Permitem
que os moradores cultivem "mil covas”, isto é, um terço de hectare, nos terrenos
arenosos da encosta chamados arisco, ou nos tabuleiros também arenosos dos planos
interflúvios. Nunca ou quase nunca eles usam deste direito, pois as áreas de cultura
ficam distantes das casas em que residem, o solo é de baixa produtividade, a área é
exígua, as garantias de colbeíta do roçado não existem, uma vez que podem ser
despedidos a qualquer momento, e o tempo de que dispõem para cuidar das lavouras
é pouco, pois a época dc instalação da lavoura (agosto a setembro) coincide com a do
plantio e colheita das canas, quando têm de dar seis dias de serviço por semana ao
proprietário, Também impressiona a quem visita a região de Ceará-Mirim, a
proximidade existente entre as sedes dos engenhos. Estes, além de pequenos, com
extensão que varia entre 100 e 200 hectares, têm forma linear, são compridos e
estreitos, formando todos eles lotes com testada no leito do Ceará-Mirim, possuindo,
assim, áreas de várzea enxuta, de arisco e dc tabuleiro. A uma testada de alguns
metros de largura, na margem do rio, corresponde às vezes um comprimento de
quilômetros.
Nas zonas de grandes c de muitas usinas, no Sul de Pernambuco e no Norte de
Alagoas, a proletarização dos trabalhadores já chegou ao auge. A maioria deles
reside em casas localizadas nas sedes dos engenhos — lembrando antigas senzalas —
e não tem direito de fazer lavouras. Mesmo aquelas usinas que teoricamente dão
terras para esse fim, na prática impedem o cultivo das mesmas, pois exigem dos
trabalhadores 6 dias de trabalho por semana. Dá-se, assim, a proletarização
crescente do trabalhador do campo. À proporção que aumenta a produção de açúcar
e que se usa a técnica agrícola e industrial mais avançada, o homem do campo fica
mais pobre, mais necessitado, com menos direitos, fato aliás salientado por Caio
Prado Júnior em trabalho recente. (,s) Por isto, nessas áreas, os trabalhadores não se
fixam mais; nada possuindo, vivem errantes, trabalhando hoje em um engenho,
amanhã em outro. Uma trouxa, denominada geralmente de “bomba”, é o único bem

42 Lacerda de Melo, Mário, fisionomia do Habita! rural no Baixo Ceará -Mirim. "Anais da
Associação dos Geógrafos Brasileiros", vol. X, tomo I, pág. 272 c segs.
que transportam cm suas sucessivas mudanças, ao contrário do que ainda ocorre nas
zonas de menor proletarização, onde é comum o morador passar vários anos, às
vezes até dezenas de anos em um

A Terra e o Homem no Nordeste 9


mesmo engenho, até em um mesmo sítio. A proletarizaçâo c, conse-
qüentemente, O empobrecimento cada vez maior do trabalhador rural, leva o
mesmo ao descontentamento, à insatisfação. Os proprietários, compreendendo isto,
realizam pequenos trabalhos de assistência que servem de meros paliativos, sem
conseqüências positivas, ou exercem medidas drásticas, violentas, para conter os
anseios populares,
A preocupação com a manutenção do trabalhador residente nas proximidades
leva os usinciros e senhores-de-engenho a concederem ao mesmo alguma assistência
social, embora em 1941 houvesse em Pernambuco uma grande usina que lhe dava
apenas assistência religiosa. Essa assistência social, porem, está muito aquém da
concedida aos trabalhadores na indústria, que contribuem para os institutos de
previdência, são sindicalizados e têm uma série de direitos garantidos pela
Consolidação das Leis de Trabalho. Aos trabalhadores rurais não eram concedidos
nem mesmo o direito a férias e à percepção do salário mínimo, apesar da referida
Consolidação estender-lhes esses direitos em seus artigos 76 e 129, desde 1943. É
freqüente, porém, receberem dos proprietários assistência médica, farmacêutica,
dentária — apenas para extração de dentes — e social. Essa assistência, feita com o
fito de prender o trabalhador à empresa, era feita com maior ou menor intensidade,
conforme as condições econômicas c a maneira mais ou menos evoluída de pensar
dos proprietários. Mas não era só com assistência social que muitos costumavam
prender o trabalhador; em algumas áreas dominava um costume bastante ofensivo à
liberdade do mesmo c que era muito apropriadamente chamado de “compra do tra-
balhador”. Consistia no seguinte: o proprietário facilitava ao trabalhador pequenos
empréstimos; este, ganhando pouco, com família numerosa e abasteccndo-se em
barracão que cobrava sempre preços elevados, ia semanalmente fazendo novos
empréstimos, novas dívidas. Quando o débito se elevava, o proprietário começava a
negar novos empréstimos, alegando que a conta estava grande. Ameaçava de um
desconto semanal no salário a fim de que fosse feita a amortização do débito, ü
trabalhador desesperado procurava sair para outra propriedade mas o credor não
consentia que ele se mudasse se não saldasse a conta. Então ele pedia um
empréstimo equivalente ao débito ao proprietário do engenho onde ia morar e, se
conseguia, pagava o débito anterior c se mudava; não era livre, porém, porque "se
vendera ao novo proprietário” e só poderia sair dc suas terras quando pagasse a
importância devida. Incrível é que quando o morador não encontrava quem o com-
prasse e saía à noite fugido — esta a expressão usada — da propriedade do credor,
era comum que este conseguisse o apoio de uma autoridade que fosse prender o
íotagido onde estivesse a fim de que ele trabalhasse para o credor e saldasse o débito.
Às vezes, o trabalhador que fugia ficava na propriedade do credor trabalhando
durante o dia e permanecendo à noite preso em um quarto sob vigilância dos vigias
em verdadeiros cárceres privados. Embora hoje esteja se tornando esporádico, ainda
ocorre a imposição de castigos corporais a trabalhadores.
Grande parte dos trabalhadores rurais vive, porém, nas cidades, vilas e
povoações da zona canavieira. São geralmente pequenos aglomerados onde, ao lado
das autoridades, dos poucos funcionários públicos, comerciantes, proprietários e
artífices, vive uma grande quantidade dc gente que se mantém graças ao serviço no
campo, nas propriedades vizinhas. O trabalhador vive neste aglomerado que chama
geralmente de “rua”, para ter a liberdade de trabalhar no dia que quiser, freqüentar
o culto religioso que desejar, votar no candidato que preferir ou que melhor pagar o
124 Manuel
seu Correia
voto, ter vidadesocial
Andrade
mais movimentada, pois organiza danças, geralmente aos
sábados, poder freqüentar bodegas e tomar cachaça e ter o direito de receber salário
um pouco mais elevado. Não recebe, porém, qualquer assistência médico-dcntária,
farmacêutica nem social, e dificilmente consegue empréstimos.
Em 1963 o Estatuto do Trabalhador Rufai veio garantir ao assalariado o direito
à percepção do salário mínimo, das férias, do repouso semanal remunerado e do
décimo terceiro mês. Os proprietários reagiram à aplicação da lei mas os
trabalhadores, organizados em sindicatos, resistiram. Criou-se uma atmosfera de
tensão na região e a lei passou a ser aplicada com maior ou menor intensidade. Com
a aplicação da lei os proprietários preferiram diminuir o número de moradores, de
empregados permanentes, utilizando geralmente Lrabalhadores avulsos contratados
por empreiteiros residentes nas cidades e vilas. A assistência médica c social passou a
ser dada aos seus associados pelos sindicatos rurais. Acentuou-se, assim, o processo
de proletarizaçlo do trabalhador rural. A partir de 1971 — Lei Complementar n.° 11
— a previdência social foi estendida aos trabalhadores rurais, que passaram a gozar
do direito à aposentadoria por velhice e por invalidez, e as suas famílias, à pensão e
ao auxílio funeral. Concedeu-se assim, portanto, ao trabalhador rural, os direitos de
que gozam os trabalhadores urbanos desde a quinta década do século XX.
Os “corumbas”, “caatingueiros” ou "curam” são habitantes do Agreste e às
vezes do Sertão que passam o “inverno" — estação chuvosa — na sua região. Aí,
como proprietários de pequenos lotes ou como rendeiros, se não possuem terra,
cultivam lavouras de subsistência ao caírem as primeiras chuvas, permanecendo,
como veremos no próximo capítulo, até o período da colheita. Chegado, porém, o
estío, nos
meses de setembro e outubro, quando as usinas começam a moer e a seca não
pennite a existência de trabalhos agrícolas no Agreste, eles descem em grupos em
direção à área canavieira, às vezes a pé, às vezes em caminhões, e vêm oferecer seus
trabalhos nas usinas e engenhos. Aí permanexem até as primeiras chuvas que são no
Agreste em março ou abril, quando regressam aos seus lares a fim de instalar novos
roçados.
Os corumbas se destacam pela grande capacidade de trabalho, pelo espírito
gregário que os une e os mantém sempre afastados dos trabalhadores da região
canavieira, c pelo apetite que demonstram ao chupar a cana ou ao tomar o seu
caldo. É que utilizam o caldo e a cana ccmo alimento para economizar os salários
recebidos e voltar ao Agreste ou ao Sertão, no fim da safra, com alguma economia.
Antigamente, quando havia dificuldade de transporte e eles se locomoviam a pé,
costumavam visitar a família apenas na Festa -— período que vai do Natal ao Ano
Novo, isto é, de 24 de dezembro a 1.° de janeiro —, Hoje, com as constantes viagens
de caminhões, vão às vezes de 15 em 15 dias ou de três em três semanas passar os
sábados e os domingos com a família. Sem esta mão-de-obra agrcstina as usinas do
Nordeste dificilmente conseguiriam realizar as suas moagens com as grandes safras
dos dias atuais. Em pesquisas realizadas nos últimos 5 anos em mais de cinqüenta
usinas, desde o Rio Grande do Norte até Alagoas, não encontramos uma única que
dispensasse a cooperação dos corumbas.
No Vale do Ceará-Mirim, por exemplo, onde a vãr/ea permanece encharcada
no inverno e o plantio da cana só pode ser feito na época da moagem, há, neste
período, uma necessidade grande de mão-de-obra. Na antiga usina Ilha Bela há uma
diferença de 50% entre O número de trabalhadores na safra e na entre-safra,
enquanto na São Francisco, que não explora carnaubaís, essa diferença sobe a 70 e
80%. Este acréscimo de mão-de-obra vemA das Terraregiões agrestinas
c o Homem vizinhas.
no Nordeste 125 (111)
Na Paraíba essas migrações sazonais se fazem com menos intensidade, pois nao
coincidindo o plantio com a colheita, o aumento do número de trabalhadores da
safra sobre os da entre-saíra não excede a 20%.
O mesmo fenômeno, com intensidade semelhante ao que ocorre na Paraíba,
acontece também em Pernambuco, Alagoas e Sergipe.
Destacam-se como municípios fornecedores de corumbas os do Agreste, como
Taipu, no Rio Grande do Norte; Guarabira, Sapé, Ingá e Itabaiana, na Paraíba; Bom
Jardim, Limoeiro, Gravata, Bezerros.

Í20) Andrade, Gilberto Osório de, Rio Ceará-Mirim pág. 53.

126 Manuel C.nrreia dc Andrade


Caruaru, Cupira, Panelas, São Bento do Una c Bom Conselho, em Pernambuco;
Palmeira dos índios, Arapiraca, Junqueiro, Anadia e Limoeiro de Anadia, em
Alagoas etc.
Interessante é que estas migrações sazonais, devido à direção das estradas c
caminhos, são feitas, em geral, na direção Noroeste-Sudeste, sobretudo em
Pernambuco. Assim os corumbas de Taquaritinga do Norte, Surubim e Vertentes
deslocam-se quase sempre pata Vicência, Aliança e Nazaré da Mata, os de Limoeiro
e João Alfredo, para Vitória de Santo Antão e Moreno, os de Gravatá, Bezerros e
Caruaru, para Amaraji, Gameleira e Ribeirão, os de Cupira e Panelas, para Catende,
Palmares e Barreiros, e os de Garanbuns e Bom Conselho, para Viçosa, União e São
José da Lage, já em Alagoas, enquanto os de Palmeira dos índios e Arapiraca sc
dirigern para os vales do São Miguel, do Jiquiá, do Corurípe etc.
As usinas mais distantes do litoral, como Roçadinho, Pedrosa, Catende, Serra
Grande etc., por se localizarem próximas ao Agreste, recebem corumbas mais
facilmente e em maior número, Aquelas localizadas distantes, necessitam, às vezes,
enviar caminhões às cidades agrestinas em dias de feira para agenciar trabalhadores.
As usinas Sta. Teresinha, Sto. André e Central Barreiros, localizadas muito a Leste,
próximas ao litoral, têm, freqüentemente, que lançar mão deste recurso para
conseguir os braços dc que necessitam.
Hoje, estamos seguramente informados de que em algumas usinas — Catende,
Roçadinho e Sta. Teresinha, sobretudo - têm-se fixado, com suas famílias,
trabalhadores oriundos do Agreste, o que é vantajoso para as mesmas, uma vez que
estão aumentando consideravelmente suas safras e necessitam sempre de braços.
É pequena a proporção da área cultivada com máquinas agrícolas, pois os
processos de cultura da cana ainda são rotineiros; além disso, os terrenos no interior
são muito acidentados e algumas várzeas, mesmo, não se prestam à mecanização, ou
por passarem grande parte do ano encharcadas - - a Corurípe, por exemplo — ou
por serem muito entre- cortadas por canais e valetas de drenagem, como ocorre no
Ceará-Mirim. Daí o grande emprego que tem ainda hoje a enxada. No Vale do Coru-
ripe a várzea encharca tanto que nem mesmo a enxada é empregada, sendo
substituída pelo furão, instrumento de origem indígena.
O regime de trabalho sofreu modificações consideráveis nos últimos anos; até
a década de 30 era paga sempre a diária, iniciando-se a fairia agrícola com o nascer e
terminando com o pôr do sol. Os trabalhadores eram reunidos em turmas que
trabalhavam juntas, enfilei- radas, sob a vigilância do feitor. Era o eito. Às 10 e às 15
horas, os familiares levavam o almoço e o jantar, fazendo-se uma pausa a fim de que
eles se alimentassem.
Hoje os trabalhos são feitos por empreitada, e pagos nas limpas à base da
“quadra” ou da “tarefa”, que variam um pouco de uma área para outra, Na Paraíba e
no Norte de Pernambuco uma “quadra” oscila entre um quadro com cerca de dez até
treze metros de cada lado, conforme o mato esteja maior ou menor. No Sul de
Pernambuco a unidade c a “tarefa”, que corresponde a um terço de hectare, e a 625
braças em quadro, em Alagoas. O morador pela manhã vai para o serviço e é
informado pelo “cabo medidor de conta” da área que lhe cabe limpar. Concluída a
conta, a qualquer hora do dia o “cabo” a fiscaliza para ver se o trabalho foi executado
como devia, e o trabalhador sc retira, livre pelo resto do dia. Conforme o mato, ele
trabalha geralmente desde o amanhecer até às 14 ou 16 horas, quando, então,
conclui a conta. A Terra c o Homem ao Nordeste 127
No plantio e na adubação da cana costumam pagar diária aos trabalhadores de
serviço, sendo na adubação largamente empregado o trabalho das mulheres, mão-
de-obra que é empregada com menor intensidade na limpa ou capina das canas.
Na época da moagem uma atividade de grande importância é o corte de cana,
que é a sua própria colheita, É um serviço pesado que só os melhores trabalhadores,
os mais dispostos, executam; este trabalho é pago à razão do “cento de feixe” dc cana
cortado e amarrado. Cada feixe deve ter 12 canas e um trabalhador comum corta de
100 a 200 feixes por dia, podendo um excepcional cortar uma média diária até de
300 feixes. O pagamento por “cento dc feixe” varia um pouco dc uma área para outra
e até numa mesma área durante a safra, conforme o atraso ou adiantamento da
moagem.
Os salários oscilam um pouco, dc acordo com a lei da oferta c da procura e
com a especialização e capacidade do trabalhador. Man têm - -se, perém, em níveis
próximos ao salário mínimo, em uma região em que a vida é muito cara. Assim, em
1973 o bacalhau é vendido entre Cr$ 8,00 e Cr? 10,00 o kg, conforme seja de barrica
ou de caixa, o charque oscila entre Cr$ 10,00 c Cr? 12,00, a farinha de mandioca é
vendida a Cr? 1,50 o kg, o feijão a Cr? 1,80, o açúcar a Cr$ 1,00 se cristal, e a Cr$
1,20 sc refinado, e o ovo, com preço sempre oscilante, é vendido até a Cr? 0,25 a
unidade.
Estes são os preços das mercadorias nas cidades; os moradores abastecem-se
muitas vezes cm cooperativas de consumo que obedecem mais ou menos a estes
preços, mas em muitos engenhos e usinas impera ainda o regime do barracão, onde
os produtos são de inferior qualidade e os preços ainda mais altos, Há até lugares
onde o pagamento não
C feito em dinheiro, mas em “vales” que circulam apenas no barracão, Jicando este
com condições para impor os preços. Também as feiras são pontos de abastecimento,
embora na “Zona da Mata” elas sejam mais de venda de tecidos, roupas feitas,
sapatos e utensílios, que de cereais, carnes e outros alimentos, como ocorre no
Agreste.
De' um modo geral, observa-se o crescente empobrecimento do homem do
campo, do trabalhador rural. Em entrevista e inquéritos que realizamos, tivemos a
oportunidade de constatar que a sua alimentação c feita à base dc farinha de
mandioca c peixe seco ou salgado, oriundo das praias e do Rio São Francisco; entre
estes destacam-se a manjuba, a piranha, havendo um verdadeiro comércio
organizado dispondo de caminhões para o seu transporte. Também um minúsculo
crustáceo pescado nas lagoas litorâneas — a pitinguirra — é largamente vendido
seco, cm Alagoas, à população rural pobre. Às vezes ela adquire o que chama
“lombinho”, retraços de carne seca de inferior qualidade. Feijão, macaxeira e
jerimum (abóbora) só come quando planta. O charque e o bacalhau, comida
cotidiana desde a época da escravidão, subiram tanto de preço que hoje figuram
apenas nas mesas das casas ricas e remediadas.
O estado sanitário é contristador e a esquistossomose é endêmica,
contaminando em alguns municípios mais dc 80% da população; a ela se juntam,
conforme a área, outras moléstias, como a bouba, a doença das Chagas, vários tipos
de vermtnoses e a anemia, conseqüente do nível de vida levado pela população da
região açucareira.

e
O TRABALHO NO CAMPO, NAS ÁREAS DE CULTURA DO COCO, DO ARROZ
E DO CACAU
128 Manuel Correia de Andrade
Na região da Mata e do Litoral Oriental a cana-de-açúcar não conseguiu
dominar grandes extensões contínuas, mas apenas as faixas praieiras, formadas pelos
terraços de acumulação de 2 a 3 m acima do nível do mal-, alguns trechos da encosta
da Borborema, as margens do São Francisco, os campos sergipanos que chegam quase
até a praia e o Sul da Bahia.
Na faixa litorânea, por sobre os terraços de acumulação acima mencionados, o
coqueiro domina imperialmente. Na verdade, apesar de ser, como a cana-de-açúcar,
um vegetal exótico, aqui introduzido pelo colonizador português, o coco-da-baía
logo se estendeu pelo litoral, ocupando-o em toda a área ora estudada. Sua
penetração para o interior depende da largura do terraço arenoso, ora se alargando
por quilômetros,

A Terra e o Homem no Nordeste 129


como ocorre às vezes em Pernambuco c freqüentemente em Sergipe, ora se
estreitando a ponto de desaparecer, como ocorre na Paraíba, ao Sul de João Pessoa, e
em Alagoas, em certo trecho situado entre Santo Antônio e Maragoji. Algumas vezes
esse terraço é seccionado na foz de algum rio, como o Paraíba do Norte, o Goiana, o
Serinhaém, o Formoso etc.
Na praia o coqueiral domina inteiramente a paisagem, sendo visto a grande
distância cobrindo com a soa sombra as habitações dos pescadores, os apetrechos e
redes de pescar quando expostos ao vento, as “caiçaras”, onde os veranistas
descansam e os pescadores consertam as suas redes, como a própria vegetação
rasteira que aí se desenvolve. As pequenas povoações e cidades litorâneas como
Muriu, no Rio Grande do Norte, Pitimbu, na Paraíba, São José da Coroa Grande e
Jaguaribe, em Pernambuco, Maragoji e Barra de Santo Antônio, em Alagoas, Porto
das Cabras e Atalaia Velha, cm Sergipe, e Barra do Ita- riri ou Conde, na Bahia,
desenvolveram-se no meio do coqueiral de tal forma que as casas e palmeiras se
misturam cm verdadeira promiscuidade. Fora do terraço arenoso cultivam o
coqueiro em menor escala nos tabuleiros entre uma ou outra plantação, devido à
sua importância, como a do engenho Ubu, em Goiana.
Na realidade, é grande a área cultivada com coqueiros c considerável a
produção de coco-da-baía nos Estados nordestinos, destacando-se entre estes por
sua produção a Bahia, Alagoas e Sergipe, como os três maiores produtores
nacionais, como vemos na tabela seguinte referente ao ano de 1970, (*)

TABELA N.6 5
Estado Área cultivada (ha.) Produção (t)

Maranhão 1.123 20.226


Piauí 156 1.069
Ceará 11.038 64,935
Rio Grande do Norte 7.210 41.441
Paraíba 7.268 42.620
Pernambuco 9.850 63-321
Alagoas 22,207 103.085
Sergipe 21.157 92.629
Bahia 31,196 182.665

(1) Anuário Estatístico do Brasil, 1971. 132 Manuel C.orreia de Andrade


A cultura do coco-da-baía, por não exigir grandes cuidados, produzir
continuamente por dezenas de anos e não necessitar de dispendiosa industrialização,
tanto é feita por grandes, como por pequenos proprietários, embora o início da sua
produção só se dê vários anos após o plantio — 5 a 6 anos se feito na praia, e 15 a 20
nos tabuleiros —. O coqueiro anão, porem, introduzido no Nordeste nos últimos 30
anos, não tem se expandido muito comercialmente, apesar de produzir 2 ou 3 anos
após o plantio e de ser facilmente colhido devido à sua pouca altura. Isto se deve ao
fato de seu fruto deteriorar-se mais rapidamente que o do coqueiro comum,
tornando precária a venda. Como planta de “fundo de quintal” para uso doméstico,
sobretudo para fornecer “água dc coco verde”, tem tido grande aceitação, Muitas
vezes, o coqueiro é cultivado cm pequenas propriedades de 20 a 30 metros de frente,
de testada para o mar, estendendo-se por centenas de metros para o interior, outras
vezes forma verdadeiros latifúndios explorados por grandes proprietários. A usina
Central Barreiros, por exemplo, estendendo suas terras até a praia, possui um
departamento destinado a supervisionar e tratar do coqueiral de sua propriedade,
que corresponde a cerca de 100.000 pés. Pouca é a mão-dc-obra empregada no
coqueiral, de vez que se faz uma capina anual, quase sempre realizada por
trabalhadores que residem nas cidades e vilas do litoral, sendo o pagamento feito à
diária ou por tarefa. A tarefa corresponde a 25 braças — uina braça eqüivale a 2,20
metros — em quadro, levando um homem dc dois dias c meio a três para executá-la.
Quando o proprietário dispõe de recursos suficientes, realiza adubação com a torta
de mamona e sais minerais, sobretudo o nitrogênio, potássio e cálcio. Com a
adubação, a produção do coqueiro é maior, atingindo, em média, de 40 a 60 frutos
anualmente. A maioria dos pequenos proprietários não aduba os coqueirais e tem,
por isto, uma produção bem menor que a dos grandes proprietários.
O principal trabalhador do coqueiral é o “tirador de coco” que, munido de uma
“peia de corda” e de uma foice, sobe na palmeira, tira o fruto maduro e corta as
folbas secas. Percebe um salário por cada palmeira em que sobe, desfrutando, cm
média, 80 coqueiros por dia. O coqueiro dá quatro ou cinco safras anuais, uma em
cada dois ou três meses.
A população praicira utiliza a sua sombra e adquire aos proprietários as palhas
para cobrir suas casas, rolos do tronco para facilitar a ida das jangadas para o mar e a
saída dessas do mar para a terra; alimenta-se com o fruto, mas quase nunca possui
coqueiros ou trabalha no coqueiral. Esta múltilpa utilização do coqueiro
impressionou vivamente o pastor evangélico Daniel P. Kidder, quando no século
passado visitou a Ilha de Itamaracá. Sobre as suas múltiplas apli-
cações, afirmou o visitante norte-americano: “O coco é de fato o principal vegetal da
região, e, conquanto não se conheçam na ilha todas as suas aplicações, ainda assim
ele proporciona à população alimento, bebida, combustível, teto e comércio. Além
da venda do coco natural, sua polpa é convertida em óleo, a casca em vasilhames c as
fibras cm cordas. O valor de sua água como bebida c reconhecido por todos. A folha
fornece, ainda, todo o material necessário para a construção de uma casa completa.
Pode também ser trabalhada em forma de cestos, cercas, c quando seca pode ser
usada para escrever, ao passo que sua cinza contém potassa. A ponta da haste
constitui excelente iguaria”. (43) Com o coco são feitos famosos pratos regionais como
o feijão de coco, o doce de coco, o peixe de coco e a cocada. É comido também com
pão pela população praieira, substituindo a manteiga.
A industrialização do coco-da-baía é feita de forma sumária; armam-se no
meio do coqueiral galpões dc palha de coqueiro onde os frutos são descascados e
empilhados à espera de transporte para os portos, para as fábricas de beneficiamento
e os centros consumidores regionais cm barcaças e caminhões. No descascamento os
trabalhadores ganham por milheiro de coco descascado, podendo os mais dispostos
descascar até 1.300 cocos por dia. Uma boa média é a de um milheiro por dia. Como
só os frutos grandes c médios conseguem boa colocação no mercado consumidor,
existem fábricas, sobretudo em Sergipe e Alagoas, que industrializam os frutos
pequenos, produzindo óleo e farinha dc coco; este óleo pode ser de dois tipos: com e
sem açúcar.
Embora o coqueiro seja uma planta de grande valor econômico, a ponto de se
calcular o valor das propriedades na praia não pela extensão, mas pelo número de
palmeiras frutificando que possuem, não moldou uma civilização típica como a
cana-de-açúcar e não emprega, permanentemente, uma grande quantidade de
trabalhadores. O praieiro dcdica-sc quase sempre à pesca, embora por processos
ainda bastante rotineiros, com jangadas, em viveiros ou em currais. (s) Ele é consi-
derado em toda a região como preguiçoso, como homem que gosta de pouco
trabalho, o que c cm parte um exagero, uma vez que é muito dura a faina do
A Terra e o Homem no Nordeste 131
43 Kiddcr, Daniel P., Reminiscências de viagens e permanência no Brasil
(províncias do Norte), pág. 106.
pescador. Na verdade, se o regime de trabalho não tem a continuidade do trabalho
dc outras áreas, é que depende muito do tempo e porque, na praia, a alimentação é
facilmente encontrada nos
mangues que fícam por trás das restingas. Aí são encontrados, em grande
quantidade, os caranguejos, crustáceos que dão excelentes pratos.
Nas faixas de terra mais para o interior, em solos onde o coqueiral não avança
devido às condições pedológicas desfavoráveis, existem pequenos sítios onde se
cultivam fruteiras — mangueiras e jaqueiras — como ocorre em Itamaracá,
bananeiras, como se vê no Vale do Ceará-Mirim, ou araruta — tubérculo cuja
farinha se presta à fabricação de biscoitos, papas c mingaus — no Cabo de Santo
Agostinho. São pequenas lavouras feitas em sítios em que o próprio proprietário,
com a ajuda da família e de um ou dois empregados, encarrega-se da faina agrícola.
A área, porém, é pequena, porque logo após está o tabuleiro quase estéril ou os solos
oriundos da decomposição do cristalino com os canaviais,
No baixo São Francisco, a jusante de Propriá, a principal cultura, aquela que dá
maior renda e mais interessa aos proprietários é o arroz. O algodão tem alguma
importância; as demais culturas como a mandioca, o inhame-da-costa, a macaxeira, o
inhame-d’água são feitas apenas para o consumo local e a cebola não tem, aí, a
importância que conquistou no médio São Francisco.
A influência do rio é decisiva na vida econômica regional e, como na
Amazônia, é o seu regime, e não o da chuva, quem comanda o calendário agrícola. A
grande diferença do volume d'água do São Francisco, entre a cheia, quando o débito
sobe a 13.000 m44 d’água por segundo, e a vazante, quando este mesmo débito sc
torna inferior a 900 m3, faz com que em suas margens existam depressões que se
transformam em lagoas na época da cheia, e que a foz de seus afluentes se
apresentem afogadas como acontece coin os igarapés do Amazonas. As cheias do São
Francisco, determinadas pelas chuvas dc verão caídas em seus cursos alto e médio,
não coincidem com as dos seus pequenos afluentes do baixo curso, onde dominam as
chuvas de outono-inverno. Também é freqüente a existência de vales fluviais
encharcados durante todo o ano, como o Merítuba, que compreende mais de 7,500
hectares. Só com a drenagem estes vales poderão ser aproveitados pela agricultura.
A cbeía garante uma adubação natural da área inundada, de vez que o rio
deposita na mesma cerca de 2 a 3 cm de vasa chamada localmente de “colha”, e
constrói pequeno dique marginal que retém a água por algum tempo nas depressões.
Essas depressões são localmente chamadas "lagoas de arroz”. As áreas situadas a
barlavento recebem maior quantidade de vasa dc colmatagem que as situadas a sota-
vento, sendo por isto melhores produtoras de arroz. A produtividade das terras
ribeirinhas do São Francisco é alta, de vez que se obtém, em média, 1.800 quilos de
arroz por hectare.
A época do plantio e da colheita é diversa, conforme se esteja nas proximidades
da foz — Píaçabuçu — ou a montante de Penedo, devido ao fato de ali o arrozal ser
irrigado naturalmente, devido à maior influência da maré dinâmica, assim como a
colheita ter dc ser iniciada antes de agosto, mês em que o débito do São Francisco já
sc acha muito reduzido, fazendo, conseqüentemente, a água salgada do oceano
penetrar muito no rio,
A cultura do arroz era feita na região desde o século passado, usando-se uma
variedade de pouca penetração no mercado consumidor urbano, chamada
localmente dc macambira ou chatinho, dc grão vermelho e curto; propagava-se

Manuel
13244 LacerdaCorreia de Andrade
de Melo, Mário, Paisagens do Nordeste em Pernambuco e Paraíba, págs. 78 a 85; Scttc,
llilton, Aspectos da Atividade Pesqueira em Per nambuco, cm “Anais da Associação dos Geógrafos
Brasileiros”, voí. XI, tomo t págs. 235 e segs.
facilmente por ser muito rústico. Iniciando suas atividades, resolveu a Comissão do
Vale do São Francisco, hoje SUVALE, após 1 955, revolucionar a rizicultura
regional, introduzindo uma nova variedade de arroz chamada cana roxa ou arroz do
Texas, que é hoje a dominante. Também cultivam uma outra linhagem oriunda de
Sete Lagoas, Minas Gerais.
A Comissão dá assistência aos proprietários e agricultores, orientando-os na
racionalização das culturas, no combate às pragas, sobretudo a lagarta, vendendo
inseticidas, máquinas agrícolas e trilhadeiras para o beneficiamento do arroz a
preços módicos, e facilitando o pagamento a prazo com juros bancários. Também
tem plano de mecanização, cobrando ao agricultor uma taxa horária pelo uso do
trator.
O proprietário tem quase sempre muitas terras, mas não as cultiva
diretamente. Isto seria para ele grande transtorno, uma vez que não teria serviço
durante todo o ano para os seus moradores, como ocorre na área canavieira. Os
trabalhos são Iniciados quando baixa o nível do rio com a litnpa dos campos onde o
arroz será cultivado, limpa feita por assalariados pagos pelo proprietário. Estes
salários variam com a quantidade de braços disponíveis e com o tipo de mato a
limpar. Finda a limpa, esses assalariados são dispensados, passando a obter seu
sustento com outras atividades — pesca, caça, roças — que esporadicamente se
apresentam. Há, assim, subemprego e miséria. O arroz é então plantado cm
canteiros, na região de Piaçabuçu, em fevereiro ou março, conforme a distância da
foz, a fim de ser entregue aos meeiros na época do transplante, em abril e maio. A
colheita inicia-sc em julho, estendendo-se até outubro, quando, devido à diminuição
do débito do rio, a maré oceânica, salgada, sobe o mesmo até acima dc Piaçabuçu.
Entre Penedo e Propriá a semeadura se procede em maio e o transplante vai sendo
feito à proporção que as águas do rio vão baixando. A colheita se estende de
setembro a dezembro.
A sementeira é feita pelo proprietário, que paga a trabalhadores assalariados,
Os meeiros iniciam as suas atividades anuais recebendo as mudas do proprietário,
quando então deixam as cidades em que residem, acompanhados de suas famílias, e
se estabelecem ern choupanas nas proximidades do arrozal. Geralmente, cada família
toma conta de 4 a 5 tarefas, às vezes até 10. Nesta região, uma tarefa compreende 25
braças em quadro ou 3.025 m2, quase Lim terço de hectare. As famílias numerosas
poderiam cuidar de áreas mais amplas, mas o número de candidatos é grande c o
proprietário necessita atender a todos. Essas áreas poderão ser ampliadas quando o
saneamento e drenagem dc certos vales como o Marituba abrirem mais terras à rizi-
cultura As “lagoas do arroz” são divididas em quadros de 50 por 60 braças e com
declive da ordem de 30 a 40 centímetros. Como a colheita se estende, a montante de
Penedo, até outubro e novembro, são instaladas portas d’água que não só impedem a
penetração das águas vindas com as primeiras enchentes, como também na vazante
controlam a saída das mesmas, a fim de que se faça à proporção que o arrozal
caminha para o centro da lagoa.
Como os meeiros necessitam adquirir alimentos e não percebem salários, é
praxe os proprietários financiarem os mesmos cobrando juros de 6 a 10% ao mês a
receber na colheita. Cabe ao meeiro cuidar do arrozal desde o transplante até a
colheita, por um espaço, em média, de três meses. Feita a colheita é necessário que
se realize a debulha do arroz a fim de que ele possa ir ser descascado nas usinas. Essa
debulha pode ser feita manualmente, a pau, o que estraga muito o produto, ou
através da máquina chamada trilhadeira ou batedeira e muito difundida no vale,
graças à Comissão, A Terra e o Homem no Nordeste 133
Para usar a trilhadeira tem o meeiro de pagar ao proprietário aluguel por cada
alqueire beneficiado fo alqueire alagoano eqüivale a 240 kg), pagando ainda ao
cevador que trabalha com a máquina, por alqueire. Além do cevador, trabalham na
trilhadeira o medidor, empregado do proprietário e por ele pago, e de 8 a 10
ajudantes que são os próprios meeiros em regime dc mutirão. Uma trilhadeira des-
casca cerca de 40 alqueires por dia. Convém salientar que ela é vendida pela
Comissão do Vale do São Francisco a prazo, com uma entrada dc 25% e o pagamento
do restante feito em três anos com juros de 7% ao ano. Como se vê, é a aquisição da
trilhadeira um excelente emprego de capital para os proprietários.
Alcançado o primeiro benefíciamento é o arroz dividido, ficando 50% para o
meeiro e 50% para o proprietário. Muitas vezes o contrato obriga o meeiro a vender
a sua parte ao proprietário por preço equivalente a dois terços do preço corrente na
praça. Às vezes, porém, o meeiro pode vender a sua parte na produção a quem lhe
aprouver. A reclamação é grande, mas os proprietários alegam que seus lucros são

134 Manuel Correia de Andrade


pequenos. Ultimanientc há alguns proprietários cm Penedo dando terras a
agricultores de arroz, cobrando apenas 25% da produção, ao mesmo tempo que
encarninham e avíl]izarn 0 (financiamento dos mesmos. É uma medida que( Jeguida por
outros proprietários, sobretudo quando as terras dc arvoz forem ampliadas e
diminuir a oíerta de braços, poderá revolucionai ° regime de trabalho na região.
O arroz vendido aos proprietários de usinas dc beneficiamemo estabelecidos nas
cidades — Penedo e Propriá .sobretudo — é seco e descascado, e rcrnetldo aos
mercados consumidores em caminhões, quando localizados Nordeste, e por via
marítima quando destinados ao Rio de Janeiro f a ^antos. Uma firma pencdense —
Peixoto, Gonçalves & Cia. —■ pussuí <dois vapores empregados neste transporte. A
seca do arroz colhido na área de Piaçabuçu é feita em estufas, devido às chuvas
ainda freqüentes em julho, agosto e setembro, mas o arroz colhido no estio era até ]
962 secado no leito das ruas das cidades mais importantes, como ocorre em Penedo,
na parte da cidade vizinha ao porto. Os meeiros de arroz não se limitam à atividade
rizícultora, que os emprega apenas durante quatro a cinco meses por ano; alugam
também, na zona de TgfeJa Nova, terras onde cultivam roça, feijão e milho, pagando
20% da renda ao proprietário. De qualquer forma, têm baixo nível de vida e pasSam
vários meses do ano sem ter em que empregar o seu trabalho.
Os proprietários costumam cultivar nas terras altas, com irrigação, o algodão
herbáceo de iibra longa (Sakaa 4) e, nos cordões sedimen- tares silícosos, o algodão,
o milho, a bananeira e a mangueira, Criam gado, de vez que há boas pastagens na
regíão, c durante o verão utilizam a palha de arroz como ração suplementar. Há, assim,
uma eom- plementação, uma aSsociíção rizicultura-pecuária em uma área onde esta
tende a tornar-se cada vez mais importante, pois a capacidade de lotação é de 1 rês
por hectare.
O Sul da Bahia é praticamente uma área nova que se abre à exploração agro-
pecttãria nesta segunda metade do século XX. Fazemos tal afirmação apesar du saher
que as primeiras vilas do litoral — São Jorge dos Ilhéus e Porto Seguro — foram
fundadas no século XVI, no início da colotiizaçá0 da costa brasileira. Estas vilas,
porém, pcuco prosperaram c £Uus capitanias foram absorvidas pela da Bahia. A partir
dos fins d° século XVIII foram abertas matas ao Oeste de Ilhéus onde começou a Ser
cultivado, com sucesso, o cacau, cultura oriunda da Amazônla que aí encontrava
solos favoráveis e um clima quente e úmido com chuvas distribuídas durante todo o
ano, E o cacau fez a riqueza da regtóo, voltando-a inteiramente para o mercado
externo, de veü que mais de 90% de sua produção é destinada à

I Manuel Correia tle ^^drade


exportação. Sua cultura e a riqueza canalizada por ela para a região,
provocaram migrações de trabalhadores de outras regiões da Bahia e de Sergipe,
criando aí um sistema agrícola e uma sociedade diferentes de quaisquer outros do
Brasil. O cacaueiro, necessitando de sombra para se desenvolver, não acarretou
destruição da floresta e, sendo permanente, fez com que houvesse grande
necessidade de braços apenas no período da colheita. Por isto é pequeno o número
de trabalhadores fixos nas fazendas, residindo os mesmos nas cidades e vilas e
prestando serviços aos proprietários quando convocados, como assalariados. Na
entre-safra o trabalhador deixa-se ficar nos centros urbanos — Ilhéus e Itabuna,
sobretudo — vivendo de serviços ocasionais, ou migra para outras regiões, Nas
fazendas o cacau imperialisticamentc ocupa toda a área agricultável, permitindo
apenas a existência de pequenos cercados nas sedes de fazendas, e inexistem culturas
de subsistência. A farinha, o milho, o feijão, as frutas e os legumes consumidos na
área são importados de outras regiões e vendidos, conseqüentemente, a preços
elevados.
Modernamente, nas áreas arenosas situadas na proximidade da costa e
refugadas, devido às condições pedológicas, pelo cacau, vêm sendo ocupadas por
culturas que se desenvolvem na região em função do crescimento industrial do país,
como o dendê e a seringueira. São culturas feitas por grandes empresas com elevado
emprego de capital e de técnica moderna e que utilizam mão-dc-obra assalariada, A
pecuária e a exploração florestal são também duas atividades de grande importância
econômica no Sul da Bahia,
A recente abertura da BR-101, que diminuirá a distância entre Salvador e o
Rio de janeiro, estimulará o desenvolvimento do turismo, sobretudo se levarmos em
conta que na área se encontram Porto Seguro — cidade histórica ligada ao
descobrimento do Brasil — e Ilhéus, popularizada em todo o país pelos famosos
romances de Jorge Amado.
IV

PROPRIEDADE, POLICULTURA E MÃO-DE-OBRA NO


AGRESTE
A PECUÁRIA E O POVOAMENTO DO AGRESTE

A criação de gado foi desde os primeiros tempos uma atividade econômica


subsidiária da cana-de-açúcar. Os engenhos eram quase sempre movidos a tração
animal e tanto o transporte da cana, dos partidos para a fábrica, como o transporte
do açúcar, das fábricas para os portos dc embarque, estavam sempre a exigir grande
número de bois e de cavalos. Nas entre-safras eram esses animais colocados em áreas
de praias ou, se distantes do mar, em trechos próprios nas grandes propriedades, a
fim de passarem o “inverno” sem molestar as plantações, nem criar transtornos às
atividades agrícolas. Não dispondo de arame farpado para lazer cercados,
costumavam os senhores-de-engenho destinar à criação propriamente dita, áreas
distanciadas tanto dos canaviais como de Olinda c do Recife, que eram o grande
empório açuca- reiro. Por isso, por ocasião da invasão holandesa, já a agricultura ca-
navieira se concentrava em alguns vales como o Paraíba do Norte, o Capibaribe, o
Jaboatão, o Ipojuca e o Serinhaém, enquanto a pecuária extensiva ocupava os amplos
tabuleiros alagoanos, sobretudo nas áreas drenadas pelo São Francisco e pelo
Coruripe e se expandia, ao Norte, pelos vales do Mamanguape, do Camaratuba e
pelo Rio Grande do Norte.
Nos primeiros tempos a criação dc gado foiA uma Terra eatividade a que
o Homem no alguns
Nordeste 139 sc
dedicaram geralmente com espírito demasiado independente para se submeterem à
hierarquia social rígida da civilização açucareira; como não dispunham de capitais
para montar engenhos, adquirir escravos e plantar canaviais, procuraram
estabeleccr-se sempre nas proximidades da costa ou dos rios navegáveis, uma vez
que os transportes por água eram os únicos usados para as grandes travessias. A
guerra holandesa e o medo de perder seus animais, requisitados pelos invasores,
fizeram com que criadores alagoanos e sergipanos subissem o Rio São Francisco em
demanda do sertão.
Ricos senhores-de-engenho, como João Fernandes Vieira, André Vidal de
Negreiros e Duarte Gomes da Silveira, costumavam fundar,
nas áreas mais secas e distantes, fazendas e currais onde soltavam o gado visando
abastecer os seus engenhos (Foto n.° 10).
O Agreste, localizado quase inteiramente sobre a Borborema, apesar de
próximo à área açucareira e dc dispor dc condições climáticas e pastagens
favoráveis ao desenvolvimento da pecuária, foi tardiamente povoado. Na
realidade, só a sua porção baixa, situada ao sopé da serra e que se estende pelo
médio curso do Paraíba do Norte e do Maman- gttape, foi ocupada por criadores
antes da guerra holandesa- Essa ccupação, que se estendia até as proximidades
da serra do Cupaoba, onde Duarte Gpmes da Silveira possuía currais (45) esparsos
em área muito ampla, rcsultara do devassamento do médio Mamanguape pelos
franceses que com apoio dos potiguares dominaram a região por várias décadas
do século XVI, desenvolvendo intenso comércio de pau-brasil, produto típico
das matas secas. (46)
A parte alta, as superfícies aplainadas sobre a Borborema, não haviam sido
exploradas, haviam sido contornadas ao Sul por criadores de gado quando
subiam o São Francisco, ao Norte quando alcançavam e subiam os Vales do Açu
e do Apodi e ao Oeste quando os criadores baianos transpuseram o Rio São
Francisco e subiram os seus afluentes da margem esquerda — o Moxotó e o
Pajeú —. O Ipanema seria a via de penetração para o Agreste, como assegura
Hilton Sctte. (47) Só após a guerra holandesa, porém, é que esta região seria

45 Hcrckmann. Elias. Descrição Geral da Capitania da Paraíba (1639), em "Revista do


Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano”, n ” 31, págs. 239 e 265.
46 Andrade, Manuel Correia de, Oi Rios de Açúcar do Nordeste Oriental. II — O Rio
Mamanguape, pág. 25.
47 Serte, Hilton, Pesqueira. Aspectos dc sua Geografia Urbana e de suas relações inter
regionais, pág. 40.

144 Manuel Correia de Andrade


conquistada e economicamente integrada no Nordeste.
O devassamento do Agreste deve ter-se iniciado durante a ocupação
holandesa, quando companhias de emboscada c predadores ligados ao governo
português da Bahia procuravam, usando os mais difíceis caminhos, destruir os
canaviais da área submetida ao domínio batavo. Este conhecimento se tornaria
mais sistemático após a expulsão dos holandeses, quando os pernambucanos
tiveram de destruir o Quilombo dos Palmares e liquidar a chamada
“Confederação dos Cariris”.
O Quilombo dos Palmares, com uma série de redutos satélites, exerceu
influência na segunda metade do século XVII, por áreas que se estendiam desde
Atalaia, em Alagoas, até Garanhuns, cm Pernam-

145 Manuel Correia de Andrade


buco, compreendendo, assim, grandes porções da Mata e do Agreste. A sua
destruição deu margem a que inúmeras sesmarias surgissem em áreas antes fora do
domínio do governo português.
A luta contra os índios cariris revoltados ante a pressão cada vez maior dos
pecuaristas que lhes tomavam a terra e os escravizavam, fazendo por qualquer
pretexto o que chamavam de “guerra justa”, não só possibilitou o desbravamento
do Agreste e de parte do Sertão, como aniquilou o poderio indígena, fazendo com
que os remanescentes das poderosas tribos se recolhessem às serras, aos brejos
altos menos acessíveis aos brancos e menos cobiçados pelos criadores de gado,
Assim, após esses dois eventos, a liquidação do Estado Negro e das tribos
indígenas, passaram os governadores a doar sesmarias nas ribeiras do Paraíba do
Norte, do Capibaribe, do Ipojoca e do Una. Aí se constituíram, nos primeiros
tempos, grandes fazendas, uma vez que a propriedade doada em sesmaria tinha
quase sempre três léguas de comprimento por uma de largura, ou seja, uma
extensão superior a
10,0 hectares. Como o Agreste tem relevo movimentado e os brejos são
freqüentes, as propriedades dispunham quase sempre de amplas extensões
aplainadas propícias à criação, onde sc desenvolviam a m;lh'ã c capim de cheiro e
o mimoso, e possuíam também algumas áreas úmidas de brejo onde se faziam,
desde os primeiros tempos, culturas de subsistência; dispunham ainda de água no
leito dos rios durante a estação chuvosa, ou em cacimbas neles escavadas durante
as estações secas. Formavam, assim, estabelecimentos com economia própria que
se auto- abasteciam, pois era uma área onde, devido ã movimentação do relevo,
tornava-se difícil abastecer-se com produtos de outra região. Só o gado, que se
auto-transportava, era mercadoria destinada ao abastecimento da cidade de
Olinda e dos engenhos da zona úmida.
A criação extensiva, com gado solto, não requeria grandes cuidados, não
necessitava de muitos braços. Por isso, nos primeiros tempos, era pequeno o
número de escravos na região. A fazenda era quase sempre administrada por um
vaqueiro que zelava para que o gado não se extraviasse e não fosse dizimado pelas
epizootias, O proprietário vivia geralmente na cidade ou cm engenhos da Mata. O
vaqueiro providenciava a consLrução de cacimbas durante a seca e a condução do
gado aos bebedouros, assim como cortava as “ramas”, as cactáceas e as ma-
cambiras, alimentos que mitigavam a fome dos animais nos meses secos, quando
não havia mais pastagem. Fiscalizava o gado no campo, ferrava, “assinalava”,
benzia em caso de doença e a mansa va bois e burros. Às vezes, nas grandes
fazendas, havia uma verdadeira equipe de va-
queiros, cada um com a sua especialidade, donde a existência do cam- pejro, do
ferrador, do benzedor e do amansador. (1 j
Para que os animais de um proprietário não se confundissem com os de
outro, recebiam o “sinal” ou a "ferra”. O sinal cra feito geralmente em caprinos e
ovinos e consistia em um corte na orelha, corte que era feito de maneira diferente
por cada proprietário. O gado bovino era marcado com um ferro em brasa com as
iniciais do seu proprietário: era a “ferra”. Ferrava-se com o ferro do proprietário
do lado direito, enquanto no esquerdo se punha a marca da ribeira em que a
fazenda se localizava. Assim, animais de fazendas e de ribeiras diversas,
caminhando, reuniam-se em pontos mais favoráveis, sem que houvesse
dificuldade de ser identificada a fazenda a que pertenciam. Findo cada inverno,
quando se costumava remeter ao mercado Aconsumidor os animais
Terra e o Homem gordos,
no Nordeste 147 os “bois
do ano”, reuniam-se os vaqueiros de várias sesmarias para apartar o gado,
separando os animais de propriedades diversas e ferrando os novos. Essas
reuniões, que eram chamadas de “juntas” ou “apartações”, tornavam-se
verdadeiras festas, pois reuniam vaqueiros das mais diversas procedências. (48)
Não raro alguin animal mais arisco fugia ao laço do vaqueiro, passando anos
na caatinga sem ser preado. Era o animal bravio semi- -selvagem, o “barbatão”
que logo ganhava fama atraindo os vaqueiros mais famosos em sua perseguição.
Para a sua captura convocavam-se vaqueiros das várias ribeiras que em verdadeira
festa iam perseguir o animal bravio. O que o derrubava, além dc grande fama,
recebia corno prêmio, ou o animal vencido, ou uma importância em dinheiro.
Ainda hoje, no Sertão, fazem festas deste tipo, precedidas por impressos em que se
anuncia a data, o local, os característicos do animal e o valor do prêmio. A própria
vaquejada, (“) festa popular cm toda a átea pecuarista nordestina e que consiste
em fazer correr um grupo de vaqueiros atrás de uma rês arisca, em cercado
estreito e comprido, teve origem, certamente, nas antigas apartações.
O vaqueiro, que era o responsável pela fazenda, não recebia salário etn
dinheiro. Sua remuneração correspondia a um quarto da produção da fazenda,
pois em cada quatro bezerros que nasciam, um lhe pertencia e os outros três eram
do proprietário. Ao apartar, podia o vaqueiro vender os animais de sua
propriedade. Às vezes, ern grandes fazendas, devido à elevada produção, o
vaqueiro terminava também fazendeiro;
geralmente havia em cada fazenda, fora o vaqueiro, alguns mestiços forros,
chamados ora de “alugados” ora de “fábricas”,^) que faziam serviços auxiliares
recebendo pequena remuneração em espécie, além de casa e comida. Aqueles que
tangiam a pé as boiadas para a área úmida, fazendo viagens de muitas léguas, eram
chamados dc tange- dores ou tangerinos. Para essas longas caminhadas, assim
como para dias inteiros a perseguir os animais bravios nas caatingas, o habitante
do Agreste e do Sertão tinha uma alimentação própria. Em um alforje de couro, o
“mocó", levava a paçoca (carne seca pisada no pilão com farinha) e a rapadura.
Também costumava levar o camboeiro (carne seca cortada miudinha com farinha)
e um saco de couro — a borracha — utilizado para transportar a água que se
conservava, aí, fria e límpida. (s)
Para prover a própria alimentação, costumavam os vaqueiros e agregados
derrubar trechos das matas existentes nos brejos, desde que os indígenas não
ofereciam mais séria resistência, e aí faziam roçados onde cultivavam alimentos
básicos, sobretudo o milho, o feijão e a mandioca, Costumavam também cultivar
os leitos secos dos rios, aproveitando a umidade fornecida pelo lençol d'água
aluvial; essa atividade agrícola é chamada ainda hoje de “lavoura de vazante”, de
vez qúc avança pelo leito do rio à proporção que baixa o nível das águas.
Geralmente os agricultores não se fixavam nos brejos; abriam clareiras na mata,
onde plantavam roçados e faziam uma choça que servia dc abrigo nos dias de mais
intenso trabalho e de local para guardar os utensílios. Geralmente essas choças
eram cobertas de folhas de pín- doba ou de catolé e às vezes de sapé. ('■*)
Agricultura transuroante deste tipo foi surpreendida ainda em 1952 por Mário
Lacerda de Melo (49) na serra Negra, no Sertão pernambucano, e por nós em 1961,
no baixo São Francisco, em Alagoas e Sergipe.
As instalações das sedes de fazenda eram de grande pobreza se comparadas
com as instalações dos engenhos da Região da Mata; quando o proprietário nela
residia, a casa era coberta de telhas. Ao seu lado ficavam as casas dos vaqueiros e
agregados, quase sempre cobertas de palha, os currais de pau-a-pique e em frente

Manuel
148 48 Joffily,Correia
Irineu,de Andrade
Notas sobre a Paraíba, pág. 126 e segs.
49 Lacerda de Melo, Mário, A Serra Negra, uma “ilha" na caatinga. pág. 150.
ficava o pátio, isto é, um campo aniplo de onde se retiravam todas as árvores e
onde se concentravam as reses trazidas para os currais.
Nus meados do século XVII, quando a população agrestina já crescera
bastante e a pecuária extensiva não era capaz de absorver a mão-de-obra aí
existente, os índios refugiados nos brejos de altitude foram sendo aldeados c as
secas foram fazendo com que os habitantes da caatinga se abrigassem nos brejos
úmidos, ambientando os mesmos à coleta dos produtos florestais e à agricultura;
foi aí que os brejos de altitude passaram a scr mais densamente povoados. Aí
iriam concentrar-se grupos humanos que se dedicavam à agricultura de manti-
mentos e à cultura de cana-dc-açúcar, que era transformada por engenhocas cm
rapadura e aguardente, dando origem a sítios e até a pe quenas vilas. Agregados
dos fazendeiros da caatinga tornatam-se muitas vezes foreiros, agricultores e
rendeiros, que abasteciam o Agreste He stêneros alimentícios e, quando a cultura
e o comércio do algodão abriram condições, passaram a fornecê-los também à
Mata e ao Sertão.
Assim, na segunda metade do scculo XVIII, existiam na região agrestina
seis freguesias com uma população total de 14.095 hab. (n) distribuída de acordo
com a Tabela n.° 6.

Tabela N.“ 6

Freguesias
Campina Grande 2.480
Cimbres 1.140
Bom Jardim 4.687
Limoeiro 272
Bezerros 1.838
Garanhuns 3.669

Observa-se, assim, já em 1774, uma tendência a maior concentração


populacional nas áreas úmidas de brejo, onde se localizavam Cimbres, Bom
Jardim e Garanhuns, dedicando-se essa população, em geral, à agricultura de
subsistência. As outras três vilas se localizavam à margem dos caminhos de
penetração: Campina Grande, centro de comércio do gado, era como a porta de
penetração para o sertão paraibano, para o Carirí; Limoeiro e Bezerros,
localizados respectivamente nos vales do Capibaribe c do Ipojuca, eram "pousos”
à espera dos tropeiros que do Recife demandavam o Agreste ou o Sertão ou que,
oriundos destas regiões, procuravam o Recife.
A população agrcstina cra cm gera! pobre, limitando-se a cultivar o algodão
— produto cuja cultura se expandia desde os meados do século XVIII, mas que só
no início do século XIX realizaria uma revolução no Agreste e no Sertão — o
milho, o feijão, a mandioca e a cana-de-açúcar, para fazer mel e rapadura. As
lavouras davam, assim, lucros reduzidos.
O gado destinado ao abastecimento do mercado interno não dava grandes
despesas, nem também grandes lucros. A população pobre ganhava a vida,
conforme a área, ora com o comércio do gado — Campina Grande —, ora
apascentando o gado dos senhores-de-engenho da Região da Mata, que ia passar o
"inverno” no Agreste - Bom jardim —, ora se alugando como tangedora do gado
que ia para o Recife ou para Salvador — Garanhuns, Cimbres e Bezerros, Interes-
A Terra e o Homem no Nordeste 149
sante é que a influência dessas duas cidades era muito grande na região, urna vez
que vinha gado de Garanhuns e de Cimbres para o Recife ao mesmo tempo em
que ia de Bezerros, localizada muito mais próxima desta cidade, para Salvador, A
influência da Capital baiana chegava, assim, até quase a nossa zona açucareira,
embora a influência pernambucana penetrasse nesta área “economicamente
contestada” até a porção mais ocidental do Agreste,

2
O SURTO ALGODOEIRO NO AGRESTE E O DESENVOLVIMENTO DO
TRABALHO ASSALARIADO

O algodão operou, após os meados do século XVIII, uma verdadeira


revolução agrária no Agreste. Cultura autóctone que tivera relativa importância
no primeiro século dc colonização, fora praticamente eclipsada no século
seguinte, para reaparecer estuante de vida no século XVIII e tornar-se uma das
principais culturas agrícolas do Nordeste até os nossos dias. Vários fatores
contribuíram para o seu desenvolvimento: o aumento da população e o
conseqüente aumento do consumo de tecidos ordinários como o chamado
“algodãozinho”; a descoberta da maquina a vapor e o seu emprego na indústria
Lêxiii na Inglaterra e a conseqüente revolução industrial; a abertura dos portos às
nações amigas por D. Joao VI em 1808; e os eventos políticos internacionais como
a Guerra de Secessão, eliminando do mercado internacional, por período
relativamente longo, concorrentes que dispunham de técnicas mais aperfeiçoadas
c dc produto de melhor qualidade que o Nordeste brasileiro. Por isto podemos
dizer que, desde 1750

150 Manuel Correia de Andrade


até 1940, o algodão foi um dos principais produtos nordestinos e o único que
enfrentou a cana-de-açúcar com algum êxito, na disputa às terras e aos braços.
Foi a partir de 1750 que o algodão começou a ter importância e a pesar na
economia nordestina, segundo se deduz dos ensinamentos de Pereira da Costa, ( 50)
o Governo criou uma Inspecçâo do Algodão, depois transformada em Alfândega
do Algodão, destinada a fazer o exame c a classificação do artigo destinado à
exportação. As culturas eram feitas, inicialmenLe, na própria região da Mata, mas
penetraram cada vez mais para o interior, uma vez que à proporção que se distan-
ciavam do litoral, encontravam condições naturais mais favoráveis ao seu
desenvolvimento. Favorecia o avanço algodoeiro a estagnação que dominava o
parque açucareiro, tanto com a baixa produtividade agrícola da cana “crioula",
como da baixa produtividade industrial dos engenhos a tração animal. O
economista Celso Furtado (*> é dc opinião que esta fase possibilitou a liberação da
mão-de-obra que a indústria açucareira não podia absorver, e permitiu a expulsão
de excedente populacional para o Agreste e outras áreas próximas à Mata.
O algodão era por natureza urna cultura mais democrática que a cana-de-
açúcar, Não só os grandes proprietários, utilizando mão-de- -obra escrava e
assalariada cultivavam-no, como também pequenos proprietários, foreiros e
moradores. A industrialização mais barata e menos urgente que a da cana, colocou
o beneficiamento do algodão na mão de comerciantes que, com suas bolandeiras, a
princípio, e seus descaro- çadores, depois, estabeleciam-se em cidades, vilas e
povoações, passando a comprar a matéria-prima ao agricultor para vendê-la, após
o beneficiamento, aos exportadores. Daí ter contribuído desde os primeiros
tempos para o desenvolvimento da vida urbana, ao contrário do que ocorria com a
cana-de-açúcar. Ainda hoje as cidades localizadas no Agreste são maiores e têm
mais movimento comercial que as da região da Mata.
Primitivamente cultivavam variedades de algodão nativo do tipo arbóreo,
que produzia por um período de cerca dc três a quatro anos. Koster, (:l) ao
percorrer o Nordeste, encontrou-o cultivado nas terras descansadas, em associação
com o milho. Esta era uma das suas grandes vantagens: partilhar com uma cultura
de subsistência a terra que ecupava, permitindo ao pequeno agricultor produzir
em uma mesma área. com um só trabalho de preparação da terra e de limpeza das
culturas, o alimento e o produto comercial. Além disto, após a colheita,
feita no período mais seco do ano, podiam a “rama" do algodoeiro e a palha do
milho servir de alimento ao gado que era posta a pastar por dois ou três meses na
área em que fora cultivado; justamente nos meses mais secos do ano, quando o
gado não dispunha de pastagens no campo. Esta vantagem viria animar os grandes
proprietários da região, sempre criadores de gado, uma vez que aumentariam seus
lucros sem abandonar, ao contrário, melhorando ainda mais a sua atividade
econômica tradicional, Ainda hoje podemos observar como, no Agreste e no
Sertão, a criação de gado é a atividade econômica mais ligada ao latifúndio,pois os
grandes proprietários são sempre, principalmente,
pecuaristas , e só subsidiaríamente, agricultores, Esta regra só é
quebrada nos brejos, onde as condições climáticas são
desfavoráveis à
criação de bovinos e onde a propriedade estáquase sempre muito
dividida.
O desenvolvimento da cultura doAalgodoeiro
‘Perra e o Homem no Nordeste
tornou-se maior151no início do

50 Anais Pernambucanos, vol. VI, pág. 83.


(2) A Operação Nordeste, pág, 22; Formação Econômica do Brasil, pág, 81.
(3) Viagens ao Nordeste do Brasil, págs 451 e 455.
século XIX quando, graças aos estudos do naturalista Arruda Câmara, passou-se a
retirar o óleo do caroço do algodão; desenvolveu-se mais ainda após a abertura dos
portos quando o Recife, ligado diretamente ao comércio inglês e depois ao francês,
teve os preços dos produtos de exportação elevados consideravelmente. Na década
de 1841 -50 foram introduzidas em Pernambuco mudas de algodão herbaeeo (51)
de origem norte-americana, que logo se alastraram pelo Agreste e Sertão,
adaptando-SC em municípios os mais diversos quanto às condições climáticas,
como Garanhuns, Brejo da Madre dc Deus, Cimbres c Flores. Davam-se, assim,
alicerces sólidos ao verdadeiro rttsh algodoeiro que atingiria o clímax durante a
guerra de Secessão ( 1861-64), quando o Sul dos Estados Unidos, sem o conttole
dos mares, viu-se fora do mercado consumidor inglês. Não só o Agreste e o Sertão
se embriagaram na voragem algodoeira; também vales açucareiros, como o do
Paraíba do Norte, do Capibaribe Mirim, do Tracunhaém, do Siriji, do Mundaú e
do Paraíba do Meio, viram áreas de matas devastadas e terras de cana ocupadas
por algodoais, Muitos descaroçadores funcionaram em bagaceira e até em moitas
de engenhos e muitas pessoas de parcos recursos enriqueceram, ascenderam de
síatus social, passando a conviver em igualdade de condições com os orgulhosos
senhores-de- -engenho. As pessoas de cor que conseguiram essa ascensão em
poucos anos, foram chamadas em certas áreas os “brancos do algodão”. O algodão
teve ainda grande importância no nosso século; não fosse a crise dc 1929-30, a
praga da lagarta rosada e a expansão dos algodoais paulistas, e talvez hoje ainda
fosse o algodão o grande concorrente do

152 Matutei Correia de Andrade

51 Pereira da Costa, F, A,, O Algodão em Pernambuco Vista Histórico- ■retrospectiva,


pág. 17.
açúcar naquelas áreas nordestinas sub-úmidas, indecisas entre as áreas
úmidas da Mata e semi-áridas cio Agreste e do Sertão.
Os cronistas que nos visitaram nos primeiros anos do século XIX, Tcllenare
e Koster, sobretudo, afirmavam que os grandes proprietários dc terras, após a
abertura dos portos, eufóricos com os altos preços do algodão, organizavam
verdadeiras planlations deste produto. Cultí- vavam-no aristocraticamente, como
faziam com a cana-de-açúcar. Assim, para o arguto comerciante francês que aqui
esteve em 1816 e 1817, a cultura algodoeira era feita nas terras afastadas de 10 a
15 léguas da Capital, havendo proprietários que empregavam de 100 a 150 negros.
No Ceará havia até proprietários que dispunham para a sua cultura, de 300 negros.
Poucas eram as despesas com a manutenção dos escravos, uma vez que não davam
carne aos mesmos, alimentando-os com farinha e angu de milho, obrigando-os a
cultivar a mandioca e o milho, este em associação com a malvácea. É possível que
houvesse na época muita caça no Agreste e que o próprio escravo tratasse, nas
ocasiões de menos trabalho, de complementar essa alimentação. Admitindo que
cada negro produzisse 20 arrobas de algodão por ano e que a arroba valesse, então,
de seis a onze cruzeiros, o negro dava um rendimento bem superior ao que daria
no trabalho dos engenhos, isto sem se levar em conta o desgaste físico que deveria
ser maior na área açucareira, onde se teria que exigir do negro um trabalho mais
árduo, mais pesado. (®) O que encarecia o produto era o transporte para o porto
do Recife através de péssimas estradas, em dorso de animais. Só mesmo a pequena
produção dos plantios feitos nas proximidades do litoral deu motivo a que esta
cultura fosse empurrada para o interior até os sertões, distantes várias léguas do
porto de embarque,
Até pessoas de nobreza, possuidoras de dezenas de escravos e de muitas
léguas de terras, deixaram-se embriagar pela cultura dessa malvácea; Koster cm
sua viagem ao Norte observou que, em face da incerteza da produção algodoeira
ante as variações climáticas, era freqüente os senhores-de-engenho plantarem a
um só tempo cana-de-açúcar e algodão. (") Procuravam, assim, consolidar sua
economia em duas culturas para não ficarem na dependência apenas do preço de
uma só.
No Agreste surgiram grandes plantações; em Bom Jardim, por exemplo, teve
o observador inglês a oportunidade de visitat a fazenda Pindoba, cujo dono era
rico e possuía muitos escravos, recebendo seus hóspedes com luxo e iguarias. (52 )
Também um outro construíra, recentemente, com ccrtcza com dinheiro do
algodão, um sobrado para sua residência e senzalas com “um ar de conforto” para
alojar seus escravos.
No Brejo da Paraíba, a fase inicia! das culturas de subsistência -— mandioca,
cereais e cana em pecjuena escala para ser moída cm engenhos de moenda de pau,
verticais e movidos a boi -— havia sido substituída pela algodocira, já cm 1815, a
ponto de haver, na primeira metade do século XIX, só na vila dc Areia, quatro
bdandeiras, além das localizadas em outros povoados e sítios. Aí, o algodão, apesar
de ter contra ele "os inconvenientes das chuvas excessivas, da friagem e rambém
das pragas” que prejudicavam as safras pendentes, foi mais compensador do que a
cana até os meados do século. (s) Só então se iniciou o terceiro ciclo econômico do
Brejo paraibano — o da cana- de-açúcar - sucedendo ao algodão, da mesma forma
que este sucedera ao das lavouras de subsistência.
Na caatinga agrestina paraibana também o algodão se alastrou de tal forma
que as propriedades rurais aí localizadas “chegaram a rivalizai com os engenhos de
A Terra e o Homem no Nordeste 153
'7) Koster, Henry, Viagens ao Nordeste do Brasil, págs. 268 a 272.
açúcar, não somente pelo número de escravos que chegaram a possuir, c pelas
construções, como pelas vantagens e lucros que dava o exercício da indústria”, f0)
Mas não foram só os grandes proprietários que se lançaram à cultura do
algodão; os poucos pequenos proprietários e moradores passaram logo a semeá-lo
nos pedaços de terra de que dispunham, associando-o ao milho e ao feijão, a fim
de colher de um mesmo roçado o produto de subsistência e o de venda. Para estes,
a produção era pequena, mas as despesas também eram mínimas, pois investiam
apenas um pouco de trabalho. Não só a possibilidade de poder fazer cultura
associada, como o fato de ser a mesma de ciclo vegetativo curto e de não ter o
agricultor necessidade de industrializar o produto, fazia com que o algodão, mais
democrático que a cana, se tornasse cultura dc ricos e de pobres. Também
compreenderam os proprietários que a “rama” do algodão e a palha do milho
poderiam scr ração suplementar para o gado nos meses mais secos — janeiro e
fevereiro —. Passaram, então, a ceder “pela palha”, terra aos moradores de suas
propriedades, das vilas e dos povoados próximos. Em março, com as primeiras
chuvas, o proprietário entregava a terra ao agricultor, que semeava, o milho, o
feijão, a fava c, em maio, o algodão, Durante o ano o agricultor ia colhendo para si
o produto do seu roçado, devendo concluir a colheita em dezembro e devolver a
terra ao proprietário a fim de que o gado deste, para aí transportado, se
alimentasse com o restolho destas culturas no período anterior às primeiras
chuvas. Nenhuma renda era cobrada, uma vez que havia muitas terras e poucos
agricultores, e dizia-se, então, que a terra era dada “pela palha”. Este sistema
vigorou até o início deste século e ainda hoje, nas zonas mais distantes e nas terras
menos produtivas, é, às vezes, encontrado em vigor.
O trabalho escravo não era, porém, o mais rendoso para a cultura algodocira.
O algodão, sendo uma lavoura de ciclo vegetativo curto, dava trabalho ao negro
apenas dc maio a dezembro e sua colheita era largamente feita por mulheres. Não
tinha, como a cana, de ser cuidado todo o ano. Por isto foram os proprietários
compreendendo não ser vantajoso manter o escravo por todo o ano, sc o
ocupavam apenas durante oito ou nove meses. Também os preços dos escravos
passaram a se elevar muito a partir de 1854, depois da extinção do tráfico, e nos
anos de seca, mantê-los era um problema. Daí irem os fazendeiros do Agreste
gradativamente substituindo o trabalho escravo pelo livre, chegando mesmo a
pagar salários elevados para a época, quando o algodão subia e queriam ampliar
suas plantações. Assim, no Sertão cearense, chegaram a pagar, em 1863, 1$280 réis
por um dia de trabalho, (53) enquanto cm Pernambuco, em 1875, os salários
oscilavam entre 1$000 e $800. (”) Nesse ano, segundo depoimento dc testemunha
conhecedora dos nossos problemas rurais, (54) o trabalho escravo desaparecera
completamente das nossas culturas de algodão e legumes, onde dominava a
pequena exploração, continuando, porém, a compreender perto dc 50% dos
trabalhadores em canaviais.
Na segunda metade do século XIX, quase um século após o surto algodoeiro,
novo produto viria transformar as paisagens agrestinas, devastar grandes áreas dc
mata nos brejos e ampliar a contribuição da agricultura à economia regional — o
café —. Ele se desenvolveria tanto nas áreas de brejo, nas encostas, cristas e nos
planaltos de altitudes superiores a 500 metros, como nos rebordos da Borborema,
na área em que o Agreste e a mata se encontram e confundem. Introduzido no
Nordeste nos últimos anos do século XVIII (55) e início do XTX, (1-4) o café foi por

53 Thcophilo, Rodolpho, História tia Seca do Ceará (1877-1880) pág. 27.


154 Manuel Correia de Andrade
54 Millet, Henrique Augusto, Auxílio à latvoura e Crédito Real, pág. 33.
55 Mariz, Celso, Cidades e Homens, pág. 93 4.
algumas dezenas de anos planta de quintal, cultivado apenas para uso doméstico.
Nos meados do século XIX, porém, aproveitando o baixo rendimento dado pela
cultura da cana- de-açúcar, foi o café introduzido nas áreas de altitude, nos brejos
agrestinos, e desenvolveu-se de forma considerável. Parou engenhocas, expulsou
para as terras arenosas e mais pobres as pequenas e tradicionais lavouras de
mandioca, milho e fumo, destruiu as matas existentes e enriqueceu grandes
proprietários. No Brejo paraibano sua trajetória foi rápida e brilhante; introduzido
na área de Bananeiras aproximadamente em 1840, tornou-se produto rei desde as
últimas décadas do século passado até 1925, quando foi liquidado pela praga do
Cerococus parabibensis. Bananeiras viveu nesse período grandes dias, formou-se
aí uma aristocracia do café, com coronéis, comendador e até Barão — o de
Araruana —. A pequena cidade teve igreja grande e bem construída, colégios,
jornais e comércio movimentado, para ver a decadência chegar, trazida por uma
praga que os conhecimentos técnicos da época não souberam combater. (56) No
seu período áureo o café se estendeu por todo o Brejo paraibano, aproveitando-se
da destruição da cana “caiana” pela praga da gomose, que atingiu o seu clímax em
1884. O café teria, assim, o seu auge de desenvolvimento na última década do
século passado e nas duas primeiras deste século. A destruição dos cafezais, de
1921 a 1925, provocaria uma volta à cana- de-açúcar, em Areia e municípios
vizinhos, com a criação de engenhos rapadureiros a vapor e a posterior instalação
de usinas — Santa Maria em 1931 c a S. Francisco em 1948 ( " !) — e o
desenvolvimento das culturas de fumo, em Bananeiras, e da agave, sobretudo em
Areia. (57)
Observa-se, assim, que no maior brejo agrestino houve uma sucessão dc
ciclos econômicos cm poucos séculos de utilização da terra. Ciclos determinados
pelo aparecimento de culturas que substituíam outras geralmente devastadas por
pragas. Observa-se, porém, que a cana-de-açúcar, o caíé e, modernamente, a
agave foram lavouras feitas no estilo de grandes culturas que imperialisticamente
afastavam para as áreas de solos pobres os outros produtos. Foram lavouras que
carrearam ora mais, ora menos dinheiro para os grandes e médios pro prietários,
deixando em situação de miséria a maioria da população.
A escravidão não tinha, aí, grande importância como nas áreas do Sul de
Pernambuco, uma vez que viviam no Brejo apenas 3.630 escravos, isto é, 14% dos
cativos da Paraíba, em 1880, (l*) mas os trabalhadores rurais levavam e levam, até
os nossos dias, vida dc escravo. Horácio dc Almeida, o arguto escritor areiense,
falando sobre os moradores dos engenhos e fazendas do Brejo paraihano, afirma
que “Os

A Terra e o Homem no Nordeste 155

56 Mariz, Celso, Cidades e Homens, págs. 95 e segs.


57 Almeida, Horácio, Brejo de Areia, págs. 147-165.
•assalariados moravam em mocambos dc palha, que mais pareciam chi-
queiros de porcos. E nessas esterqueiras criavam a família, dormindo cm magotes
em jiraus de vara ou no chão úmido, na mais abjeta promiscuidade. Quando
chovia, a água corria em bica por dentro da pocilga, cnde todos viviam agacbados.
No terreiro dos casebres, meninos pan- çudos de pés cambados ostentavam a
barriga cheia de lombrigas. As íilhas moças não tinham mais que uma muda para
cobrir o corpo, e os moleques de dez anos já pegavam no pesado para ajudar os
pais. Roçados não tinham porque mourejavam no alugado os seis dias da semana e
também porque o patrão não lhes dava terra para plantar. A única alegria cra
beber dois vinténs de cachaça nas feiras, aos sábados, O saldo do salário, que ao
fim da semana recebiam, mal chegava para a farinha, a pinga e, às vezes, um litro
de fava para o consumo da semana. Tomavam bons tragos mas não ficavam
alterados. Embora tristes, sem razão mesmo para expansão da alegria, eram
dóceis, respeitadores, serviçais. Comendo pirão d’água com caico, ou fava pura
com farinha, resistiam ao trabalho pesado de sol a sol, com inexplicável energia
física. Os que tinham uma cabra de leite para sustento do filho de colo
consideravam-sc ricos. Meninos de cinco anos cachimbavam à vista dos pais para
prevenir contra possível dor de dente, O pito e a pinga tanto serviam para
enganar o estômago como dc consolo ao aviltamento da condição social em que
viviam”. ()
Em Pernambuco e Alagoas o desenvolvimento da cafeicultura também sc fez
a partir da metade do século XIX. A cultura tomou logo grande impulso na Região
da Mata, nos municípios localizados ao sopé e na encosta da Borborcma, e no
Agreste, nas áreas ocupadas pelos brejos de altitude e exposição, ocupando a serra
de Taquaritinga, as cristas localizadas nos interflúvios do Capibaribe com o
Ipojuca e do Ipojuca com o Una, e no Planalto de Garanhuns, estendendo-se em
Alagoas pelos municípios localizados no rebordo meridional da Borbo- rema,
como Palmeira dos índios, Quebrângulo e Viçosa, Na Rahia ocupou áreas na
Chapada Diamantina. No Sertão, seiras como a de Triunfo logo sc cobriram de
cafezais. As condições mesológicas eram bastante favoráveis nestes brejos, uma
vez que a cultura era feita em vertentes relativamente altas que apresentavam
condições de drenagem e aeração; os solos profundos conservavam umidade e
facilitavam a fixação de raízes. O sombreamento, dc uso generalizado em quase
toda a região, mantinha um razoável pH de solo e atenuava a erosão. (*°)
Encontrando condições favoráveis c mão-de-obra assalariada barata, quando a
escravidão já estava prestes a expirar, o café tornou-se a cultura comercial de
maior importância dos brejos do Agreste pernambucano e alagoano, colocando
Pernambuco como o principal produtor regional. Em 1958, para uma produção
nordestina de 26.200 toneladas, (58) que representam apenas 1,596 da produção
brasileira, Pernambuco entrou com 20,976 toneladas, o que corresponde a 79,6%
da produção regional, seguido do Ceará com 2.852 toneladas (10,8% da produção
nordestina) e de Alagoas com apenas 1.845 toneladas, ou seja, 7% da produção
nordestina.
A partir de 1965, caiu consideravelmente a produção nordestina de café, de
vez que o Governo Federal, através do IBC (Instituto Brasileiro dc Cafc), executou
a política de erradicação dos cafezais que apresentavam baixa produtividade. Os
fazendeiros de café eram indenizados pelos cafezais erradicados e podiam destinar
suas terras à pecuária e a outras culturas. Esta política fortaleceu a tendência à
pecua- rização no Agreste, provocando o desemprego no meio rural, estimulando
o êxodo para as cidades. Em áreas de encostas em que o cafczal cra sombreado,
A Terra <? o Homem no Nordeste 156
58 Anuário Estatístico do Brasil. 1960.
com o desmatamento houve a aceleração dos processos erosivos. A produção caiu
consideravelmente, sendo em 1970 de 43.282 ton. na Bahia, dc 14.152 ton. em
Pernambuco e 10.082 ton. no Ceará. A Paraíba produziu 1.183 ton., ficando os
demais Estados da região com produção inferior a 700 ton, Hoje o IBC está
estimulando, ante a queda da produção brasileira de café e ao crescimento da
demanda, a formação de novos cafezais nos municípios tradicionalmente
produtores da rubiácea.
O café logo sc tornou cultura de ricos e pobres, mas sendo uma cultura
permanente, foi desde os primeiros tempos vedada aos moradores e foreiros, a fira
de que estes não pleiteassem indenização pelos cafezais que plantassem quando os
proprietários os despedissem. O café, uma vez cultivado, só começa a frutificar aos
três anos, representando, desse modo, uma séria inversão de capital. Seria uma
cultura de ricos se, quando novo, não permitisse a associação com a mandioca, o
milho e o feijão, garantindo a subsistência do pequeno proprietário, Este ainda podia,
nas ocasiões de dificuldades, alugar seu braço aos grandes proprietários nas limpas
dos cafezais, geralmente em julho e em dezembro. Nestas ocasiões necessitavam
os proprietários de muitos braços, pois a faina agrícola era realizada a enxada. No
período da colheita, de agosto a dezembro, mulheres e crianças eram largamente
empregadas neste serviço leve, permitindo que os mesmos completassem o magro
salário familiar. (59) Era, assim, seme- ihante a situação tios trabalhadores nos
cafezais a dos assalariados rurais de oneras áreas do Nordeste.
Desse modo, o Agreste essencialmente pecuário do século XVIII, tornou-se
dominantemente agrícola nos séculos XIX e XX; a agricultura, com a melhoria das
condições técnicas, o aumento da densidade demográfica e a construção de boas
estradas que ligam a região às capitais de Estado, assim como a maior divisão de
propriedade, vai cada vez mais se diversificando, tornando a região policultora c
contribuindo, de forma superior à Mata e ao Sertão, para o abastecimento das
grandes cidades nordestinas. A pecuária vai perdendo cada vez maiores áreas;
entretanto vai se tornando uma atividade econômica altamente conv pensadora,
pois vai passando dos padrões culturais mais extensivos para os intensivos, vai se
especializando na produção de leite e dc carne, intensificando a engorda dos
animais. À proporção que perde áreas de criação, aumenta, graças a técnicas mais
avançadas, a sua capacidade de lotação, e apesar de ocupar área
consideravelmente inferior à pecuária sertaneja, tem a criação dc gado agrestina
importância relativamente tão grande quanto aquela.

3
AS RELAÇÕES DE TRABALHO NO AGRESTE EM NOSSOS DIAS

O Agreste, região dc transição que é, possui variações mesológicas bem mais


acentuadas que a Mata e o Sertão. Apresenta grandes diversificações no tipo de
uso da terra e, conseqüentemente, nas relações de trabalho no campo. Por isto,
neste capítulo em que pretendemos retratar as condições dc vida e o trabalho do
homem que moureja na terra, procuraremos focalizar o verdadeiro mosaica que c
a região. Assim, após salientarmos a importância regional da pequena propriedade
e os padrões econômico-Culturais dos pequenos proprietários, passaremos a
estudar as relações de trabalho dominantes
A Terrana
e oárea açucareira
Homem e da
no Nordeste 157agave, na área
da pecuária associada à cultura do algodão e de cereais, na zona do café e na área
da fumicultura. Não falaremos das relações de trabalho na região rizicultora são-
franciscana, por serem feitas nas mesmas bases da realizada na zona da mata, já

59 Ramos, Augusto, O café no Brasil e no estrangeiro, págs. 259 a 265.


estudada,
A primeira realidade com que se depara o estudioso dos problemas agrários
do Agreste é a importância que tem nesta região o pequeno estabelecimento, ao
contrário do que ocorre na região da Mata e no Sertão. Realmente, mais de 85%
dos estabelecimentos agropecuários

158 Manuel Correia de Andrade


do Agreste são formados por propriedades ou explorações com extensão
inferior a 20 hectares, embora disponham dc apenas 14% da área regional, Estes
pequenos proprietários formam, inegavelmente, uma classe mídia rural que tem
um nível de vida bem infctíor ao dos grandes c médios proprietários, mas uma
situação econômica e social bem superior a dos trabalhadores sem terra. Entre
eles, porém, há um acentuado escalonamento econômico, escalonamento este que
& determinado não só pela extensão da propriedade, como também pela sua
localização e pela fertilidade dos solos dc que ela dispõe. Assim, o povo, em sua
sabedoria empírica, chama dc “sítios” aquelas parcelas maiores de terras, mas
chama de “chão de casa” aqueles pequenos lotes de menos de um hectare. O uso
da terra e o nível de vida dos pequenos proprietários é também o mais variado, de
uma área para outra. No Brejo de Areia, na Paraíba, por exemplo, os pequenos
proprietários costumam, imitando os senhores-dc-cngcnbo, cultivar cana- -de-
açúcar e agave, mas cultivam também, às vezes, entre as fileiras de agave, as
tradicionais lavouras de subsistência. Têm eles, geralmente, um ofício de
pedreiro, marceneiro, carpinteiro, mecânico etc., que lhes garante uma renda
certa. (60) Sao os artesãos, chamados na região de “artistas”, e ter uma “arte"
constitui uma garantia dc segurança econômica para os dias incertos.
Nos brejos pernambucanos, a propriedade também está muito dividida. Há
pequenos sítios cm brejos como o da Serra do Vento, em Belo Jardim, o da Seira
Vermelha, em Caruaru, e os de Bezerros e Camocim de São Félix, em que os
pequenos proprietários apanham um pouco de café, de castanha de caju, uma vez
que o cajueiro é usado no sombreamento do cafeeiro, um pouco de pimenta-do-
reino, cultivada junto aos cajueiros que lhe servem de suporte, e algumas fruteiras
— laranjeira, mangueira, abacatciro, jaqueira etc. — plantadas no meio do cafezal;
tudo isto, porém, c insuficiente para manter uma família. (*) Há uma verdadeira
promiscuidade vegetal no uso da terra, desde que o proprietário, dispondo de
pequena área. procura aproveitá-la ao máximo, embora o rendimento seja
insignificante. Não conhecendo os processos técnicos de conservação do solo c
não dispondo de dinheiro para adquirir adubos, têm eles uma produção mínima,
sendo a tenda auferida insuficiente para a manutenção d a família. O
sitiante complementa o seu orçamento trabalhando '‘alugado”, como camarada,
diriam no Sul do país, para os grandes e médios proprietários vizinhos, ou emigra
no estio para a área açucareira, a fim de trabalhar nas usinas em moagem,
deixando à mulher a guarda e administração de sua gleba. Engaja-se, assim, no
grande exército formado pelos trabalhadores sem terra que, a partir de setembro,
migram para a região da Mata, voltando à gleba em março, com as primeiras
chuvas.
Também o pequeno proprietário se preocupa com o auto-abaste- cimcnto,
procurando nas exíguas áreas de que dispõe plantar algumas “covas de roça” —
macaxeira (aipim) e mandioca — um pouco de milho, sempre associado ao feijão e
n fava, e criar alguns animais. Estes são representados por uma vaca de leite ou
um garrote, criados presos "na corda”. A vaca destina-se ao fornecimento de leite
à família e à obtenção de “crias” que, ao serem apartadas, são vendidas visando à
aquisição de roupas, O garrote é quase sempre adquirido em feiras de gado, com
um ou dois anos dc idade, e passa a ser engordado para scr vendido quando
reformar. A feira dc gado de João Alfredo, pOT exemplo, caracteriza-fie pelo
domínio absoluto de garrotes para a "recria”. Estes, engordados, alcançam melhor
preço para o açougue que o gado comum engordado cm cercados, sendo muito
usados para a fabricação de “carne-dc-sol”, alimento muito apreciado no Agreste e
Sertão nordestinos. Carne-de-sol assada com feijão-macassar, manteiga do sertão

Manuel
159 60 CorreiaNilo,
Bernardes, de Andrade
Observações sobre a paisagem agrária no município de Areia “Anais da
Associação de Geógrafo* Brasileiros”, vol. VI, tomo II, pág. 60 a 62.
derretida e farinha dc mandioca é prato regional hoje largamente apreciado
mesmo nas cidades litorâneas, nas capitais dos Estados nordestinos, £ muito
freqüente, também, cada família criar dois ou três porcos, os “capados”, visando
com a sua venda, no fim do ano, atender aos gastos extraordinários da época dc
“Festa” — Natal e Ano Bom —. As “miunças”, cabras, sobretudo, são encontradas
em todas as casas fornecendo, às vexes, leite, quando não há vacas.
Em certos trechos da caatinga agrestina onde domina o clima semi-árido mas
os solos são arenosos e profundos, como ocorre cm Lajedo, Surubim, Vertentes e
Distrito de Capoeiras, em Pernambuco, a propriedade é bastante dividida e os
pequenos proprietários dedicam- -se à cultura de tubérculos, sobretudo mandioca,
inhame, cará e batata. Casas de farinha a tração animal são encontradas com
freqüência, c a farinha constitui um produto comercial por excelência destes
pequenos proprietários. Têm eles nível dc vida modesto, mas bem superior aos
assalariados; suas casas se distribuem pela paisagem, próximas umas das outras,
sempre construídas de alvenaria e com um terraço na frente. Para se
locomoverem e transportar os produtos do sítio para a cidade, têm quase sempre
um cavalo "de cangalha”, um burro, um jumento, ou, às vezes, um pequeno carro
de boi puxado por dois
A Terra e o Homem no Nordeste 161
“boiatos” — animais novos ainda não formados — numerosos sobretudo nos
distritos vizinhos de Capoeiras, em São Bento do Una, e Cortês, em
Garanhuns. Aí, nos dias dc feira, as estreitas estradas carroçáveis, ladeadas
por cercas vivas de avelós (Foto n.“ 11), ficam durante horas praticamente
obstruídas por estes pachorrentos e vagarosos veículos que vão à vila,
dirigidos pelos pequenos proprietários, carregados de produtos do sítio
destinados à venda, e voltam à tarde com os mantimentos da semana. Eles
lembram as carroças dos colonos alemães e poloneses, puxadas a cavalo c
muito encontradas em Santa Catarina e no Paraná; lembram também aquelas
outras de pneumático, a tração animal, usadas largamente no vale do Apodi,
no Rio Grande do Norte. Há, assim, uma correspondência entre as pequenas
propriedades e os veículos dc tração animal, uma vez que o pequeno
proprietário não dispõe dc meios para adquirir um jipe ou um caminhão, O
veículo a tração animal — carroça, ou o carro de bois — serve para trans-
portar a família e a produção do sítio, sem ser muito oneroso às suas parcas
finanças. Estas vilas, como as cidades agrestinas próximas aos brejos, têm
grandes feiras, uma vez que a menor concentração fundiária permite maior
divisão do dinheiro: diminui o número de ricos e de pobres, aumentando o
dc remediados. Por isto feiras como as dc Camocim dc São Félix, Cupira,
Cachoeirinha e Capoeiras (Foto n.° 12), apesar da pequena população do
aglomerado, são muito mais importantes do que as de cidades grandes da
zona da Mata, como Goiana, Nazaré ou Palmares. Às vezes as barracas e
caçuás onde são expostos à venda os mais diversos produtos, estendem-se por
todas as ruas do aglomerado, ocupando-o inteiramente. Isto para não falar de
feiras como as de Campina Grande, de Feira de Santana ou de Caruaru, fa-
mosas pela sua importância cm todo o Brasil. Também no Agreste sergipano,
em Itabaiana, em brejos de pé de serra, existem pequenas áreas em que a
propriedade é extremamente dividida. Aí os agricultores cultivam a
mandioca, ao lado de legumes, cebola e, sobretudo, tomates, visando ao
abastecimento dc Aracaju e Salvador. Dispondo de pouca terra e
necessitando tirar o máximo dc rendimento, os proprietários compram
adubo orgânico oriundo da área de criação e fazem uma agricultura que c
uma verdadeira jardinagem. O grande problema com que sc defrontam é o
da grande oscilação dos preços dos produtos, uma vez que o poder público
não garante aos mesmos um preço mínimo. A comparação entre o nível de
vida do pequeno proprietário c o do trabalhador assalariado já é um foric
argumento em favor de uma maior democratização da terra, de uma política
que vise a maior divisão da propriedade.
O nível dc vida poderá ser elevado quando os pequenos proprietários,
arrendatárias e parceiros receberem uma assistência técnica
A Terra e o Homem no Nordeste 163
mais eficiente, mria educação que os leve a melhor utilizar os recursos que o
meio lhe oferece, tiverem acesso amplo ao crédito bancário e tiverem a
comercialização de sua produção organizada, eliminando a ação do agiota nos
empréstimos de entre-safra e do intermediário na comercialização da
produção.
Na verdade, grande esforço vem sendn feito nos últimos trinta anos para
levar ao pequeno agricultor o crédito fácil e barato, a assistência técnica e a
garantia do preço mínimo para a sua produção. A talia de organização dos
agricultores, o baixo nível cultural dos mesmos, a ausência de espírito
cooperativista, a oposição dos grandes proprietários e comerciantes, o caráter
estático e as estruturas das instituições bancárias vêm retardando a aplicação de
leis que tentam beneficiar os pequenos produtores.
Assim, a criação do Banco do Nordeste do Brasil e a expansão do sistema
ABCAR pelos Estados do Nordeste abriram perspectivas, ainda na década
1951-60, à assistência ao pequeno agricultor com crédito agrícola
supervisionado. O Banco do Brasil, sobretudo a partir de 1960, procurou, com
a organização das MOVECS, levar o crédito ao pequeno produtor, sem esperar
a sua vinda à agência do Banco. Sua ação foi freada pela incapacidade do
mesmo de atender a uma grande multiplicação do número de contratos. Daí
experiências feitas em alguns Estados, como Pernambuco, onde em 1963-4,
com apoio de repartição estadual, o GEPA (Grupo Executivo de Produção de
Alimentos), foi ampliado consideravelmente o número de empréstimos.
Hoje, como executor do programa dc preços mínimos para os produtos
agrícolas, o Banco do Brasil vem adquirindo parte da produção de algodão (já
descaroçado), do milho, do feijão e de outros produtos da pequena lavoura,
utilizando os armazéns da CIBRAZEM para depositá-los. Ainda assim os
intermediários, apesar de perderem parte de sua clientela, continuam a
controlar a produção dos pequenos agricultores localizados cm distritos
distantes das cidades que dispõem de agências do Banco do Brasil e de
armazéns e silos da CIBRAZEM. Também os arrendatários e meeiros, sem
contratos escritos, ficam na dcpendcncia dos proprietários das terras em que
trabalham, e que muitas vezes exigem que lhes vendam a produção.
Acreditamos ser necessário uma política cooperativista que congregue um
rnaior número de pequenos agricultores, para complementar a ação das
entidades oficiais e efetivar as medidas de proteção e assistência à pequena
agricultura.
Quanto às relações de trabalho que envolvem os trabalhadores sem terra
convém salientar, por ocupar maiores áreas e ser mais tipicamente agreslinas,
aquelas que caracterizam as regiões onde domina a pecuária, associada à
cultura do algodão e cereais.

A Terra e o Homem no Nordeste 101


A criação de gado no Agreste é feita em fazendas bem menos extensas
que as do Sertão. O fazendeiro geralmente divide a propriedade em cercados,
uns destinados à permanência do gado durante a estação chuvosa, sendo outros
reservados para a estação seca; durante grande parte do ano são divididos em
pequenos lotes e arrendados a agricultores que recebem as terras em março
com obrigação de devolvê-las em dezembro e janeiro. Não necessitam ter,
como nas propriedades essencialmente agrícolas, muitos empregados, grande
número dc moradores. Os padrões de criação, apesar de bem mais evoluídos
que os do Sertão, não podem ainda ser considerados intensivos, a não ser em
certas áreas especializadas na produção de leite ou na seleção dc raças zebuínas
para venda de reprodutores. Defendendo-se das implicações climáticas, usam
migrações sazonais, arraçoamento ou o aproveitamento do restolho de certas
culturas milho, algodão e arroz, sobretudo (Foto n.u 13).
As migrações sazonais usadas desde o século XVIII, ora são feitas entre a
Mara e o Agreste, quando o proprietário dispõe de terras cm uma e outra
região, ora entre a caatinga e os brejos de altitude no próprio Agreste. No
primeiro caso, o gado é levado para a região da Mata em setembro, quando
começa a colheita da cana, de vez que as pastagens do Agreste estao secas e na
Mata há abundância de palha de cana. Com as primeiras chuvas, em março, o
gado é devolvido à caatinga, onde vai passar o “verde”, isto é, o período em que
as pastagens se tornam abundantes graças ao florescimento da milhã e do
capim-raiz. Antigamente era freqüente o senhor-de-engenho ter fazenda no
Agreste e lá passar às vezes o “inverno”. Hoje esse costume vai desaparecendo
devido, certamente, ao alto preço da terra e à intensificação tios trabalhos
agrícolas nos engenhos, com a ampliação recente dos canaviais devido ao
aumento constante da capacidade de produção das usinas.
SemelbanLe movimento ocorre entre a caatinga agres tina e os brejos de
altitude. As serras, muito úmidas no inverno, não se prestam à pecuária e são
aproveitad-as por agricultores que cultivam cereais, plantas de ciclo vegetativo
curto. Na estação seca, após a colheita do feijão, do milho e do algodão, o gado
é levado para a serra, para o brejo, onde se mantém com este alimento
suplementar à espera de que, com as primeiras chuvas, a caatinga reverdeça.
São famosas por servirem de refrigério ao gado certas serras como as de
Jacarará, da Moça e de Ororobá. em Pernambuco, e de Mar Vermelho e
Quebrán- gulo, em Alagoas. No Brejo paraibano geralmente os senhores-de-
en- genho possuem fazendas de gado a Oeste, na bacia do Curimataú, e fazem
iguais migrações sazonais de seus animais de uma região para outra.

166 Manuel Correia de Andrade


Quando não dispõem de terras em regiões diversas para fazer a migração, costumam os
proprietários arraçoar o. gado no “verão”. Antigamente, como ainda hoje, no Sertão e até em
alguns trechos do Agreste, eram utilizadas neste arraçoamento plantas nativas, brome- liáccas
como a macambira e cactáceas como o facheiro e o mandacaru. A primeira, cozinhada c
picada, c as cactáceas queimadas para neutralizar a ação dos espinhos, eram dadas aos animais
nas ocasiões em que faltavam as pastagens.
A melhoria da qualidade do gado e a elevação dos padrões técnicos levaram os
fazendeiros a procurar cultivar plantas que servissem de alimento aos animais; surgiram e
intensificaram-se, então, nas duas últimas décadas, os plantios de palma e as capineiras. A
palha é muito difundida nas áreas semi-áridas de clima menos rigoroso, como o Agreste
paraibano e pernambucano e 110 Sertão alagoano — município de Jacaré dos Homens, Major
Isidoro e Batalha — enquanto no Agreste alagoano e sergipano ,t!e clima sub-úmido, domina
a capi- neira (Foto n.° !4).
O plantio da palma (a) faz com que os fazendeiros necessitem mobilizar moradores para
o seu serviço. Cultivam centenas de hectares de palma sem despender grandes capitais,
porque ela é uma cultura permanente que dura no campo de 12 a 15 anos. Os moradores cul-
tivam a palma em áreas que os proprietários lhes entregam desmatadas, prontas para 0 cultivo
juntamente com as “raquetes1'. Estes sc incumbem de plantar as “raquetes” c de manter limpo
o palmai; podem cultivar para si, entre as fileiras de palma, como culturas intercaladas, o
milho, a fava, o feijão e o algodão. Por um período de três a quatro anos, enquanto a palma
nâo dá corte e necessita apenas para 0 seu desenvolvimento de duas a três limpas anuais, o
agricultor cuida dela c de suas culturas sem qualquer emprego de capital por pane do
proprietário; quando ela começa a dar corte, sombreia muito o terreno e impede as culturas
intercalares; o agricultor retira-se, então, do palmai, deixando a terra c a palma ao
proprietário. Daí em diante o proprietário limita-se a pagar diária a assalariados que uma vez
por ano roçam o mato que cresce no palmai.
A capineira, por não permitir a associação de outras culturas, é feita por trabalhadores
assalariados. O plantio e conservação do capim não ocupa, porém, os trabalhadores por um
longo período, daí haver uma incerteza muito grande quanto à obtenção de trabalho
assalariado durante grande parte do ano.

(3) Três são os tipos de palma: a chamada localmente de palma graúd.1 (Oputttia Ficus
indica MUI), a palma redonda (Opuntia sp) e a palma miúda (Nupolea Cacbettilifera Saltn-Dick).

168 Manuel Correia de Andrade


O trato direto do gado exige pouca gente, ü vaqueiro hoje c um simples
empregado adaptado ao trato de animais, sabendo laçá-los, fazer curativos de
urgência, ordenhar as vacas etc. Não se assemelha muito aos dos primeiros
tempos e, ainda hoje, aos do Sertão, que vestidos de couro varam as caatingas
à procura das reses mais ariscas, O animal, criado em cercados dc pequena
extensão, vindo ao curral com freqüência a fim dc ser vacinado, ferrado,
ordenhado, curado dc bicheiras ou enfermidades e arraçoado, é sempre
manso e facilmente conduzido pelo vaqueiro. Por isto, este hoje administra
ou assiste ao proprietário na administração, fiscaliza e conserta cercas,
conduz os animais a scrcm vendidos nas feiras, conduz o rebanho nas
migrações sazonais, ordenha e fiscaliza a entrega do leite que se destina à
venda c percebe uma remuneração em dinheiro, tendo casa para morar e
direito de montar roçado. Aquele costume de pagai ao vaqueiro com um quarto
dos bezerros nascidos, a “quarta”, foi inteiramente abolido no Agreste, desde
que o gado da região, raceado com o zebu, o holandês e o schuwytz, está
muito valorizado, elevando consideravelmente o salário do vaqueiro se o
pagamento continuasse •& ser feito em espécie. Assim, o pagamento em
moeda, substituindo a “quarta”, de uso ainda generalizado no Sertão, onde
domina o gado crioulo ou “pé duro", não representa uma melhoria para o
vaqueiro, mas uma inferiorização sobre a remuneração anterior, pois o
proletaríza e impede que, como ocorria no passado, ele tenha a oportunidade
de tornar-se fazendeiro.
Além do vaqueiro há em cada fazenda alguns moradores que residem
em casas dc "taipa”, das chamadas no Sul de casas de "sopapo”, que trabalham
na roçagem dos cercados, na limpa dos currais, no a maço a men to dos
animais e cm outros misteres suplementares, obrigando- -sc a dar tres ou
quatro dias de serviços semanais, reservando os demais à cultura dc algodão e
cereais que fazem em área de um a dois hectares, cedida pelo fazendeiro.
Estes moradores, cujo número é pequeno, variam de uma fazenda para outra
e recebem um salário baixíssimo pelos “dias dc sujeição”, tendo remuneração
mais aha nos mais dias, caso trabalhem para a fazenda. Nem sempre o salário
mínimo é respeitado, de vez que não trabalhando seis dias por semana,
perdem o direito ao repouso semanal remunerado e têm as férias anuais
reduzidas. Além disto, recebendo casa para morar e área paru cultivar, têm o
seu salário parcialmente pago em espécie, Muitas vezes o proprietário não
respeita a lei, usando artifícios que minimizam os efeitos de sua aplicação, c
os moradores dele dependentes não têm condições de recorrer à Justiça do
Trabalho.
A utilização do restolho de culturas na alimentação dos animais leva o
fazendeiro a manter relações econômicas com grande número de
agricultores; são os rendeiros, uma vez que quase sempre eíes não residem na
propriedade do fazendeiro, mas em cidades, vilas e povoa- ções próximas ou

170 Manuel Correia de Andrade


até em suas pequenas propriedades, pois muiios destes agricultores lavram
terra alheia mas possuem um “chão de terra”, um minifúndio onde moram
com suas famílias. Hoje, porém, é raro o proprietário ceder a lerra “pela
palha”, pois o número dc agricultores a desejar terras é grande e as extensões
são exíguas. Às terras são quase sempre arrendadas, variando o preço da
“quadra” (12.100 m2 j conforme a qualidade da terra e a distância dos centros
consumidores e das estradas mais movimentadas. Em alguns casos, o proprie
tário reserva áreas dc piores solos para ceder “pela palha”, com a condição de
que a terra seja devolvida em outubro ou novembro, impedindo, assim, a
cultura do algodão que é sempre colhido a partir de dezembro, O pagamento
cia renda c, às vezes, feito em moeda e às vezes em algodão. O agricultor não
tem qualquer garantia de renovação do contrato, nenhum documento que
legalize a transação, ficando à mercê do proprietário em qualquer
emergência, Geralmente a terra é entregue aos agricultores em março, com
as primeiras chuvas. Preparada a terra, cultivam o milho e o feijão; em maio
realizam a cultura do algodão herbácco; em junho colhem o feijão e parte do
milho ainda verde para poder atender aos festejos juninos. A colheita do
milho seco é feita a partir de setembro, contribuindo para a alimentação de
homens e animais. A colheita do algodão, iniciada em dezembro, estende-se
geralmente até janeiro, quando a terra ê restítuída ao proprietário a fim de
que o gado solto nos velhos roçados se alimente com a rama do algodão e a
palha do milho, Em março novamente a terra volta às mãos dos agricultores
para o reinicio do ciclo anual de cultura (Fig. n.u 1); esses agricultores são os
que cm setembro, quase não tendo o que fazer no Agreste, migram para a
área açucareira a fim de trabalhar nas usinas que neste mês iniciam a
moagem, fazendo as migrações sazonais típicas do Nordeste, desde o Rio
Grande do Norte até Sergipe. À família cabe cuidar do roçado, colhendo o
algodão e utilizando como alimento o milho seco.
Este sistema está em decadência, tornando-se cada vez menor a área de
terras oferecidas aos agricultores pelos pecuaristas, Duas razões levam os
grandes proprietários a esta política de restrições na oferta de terras: a) — o
receio de que uma reforma agrária venha beneficiar os parceiros e rendeiros,
com desapropriação de parte de suas terras; b) — o desenvolvimento da
cultura de gramíneas como o capim pangola, que permite a restrição do uso do
restolho do milho c do algodão. Para o plantio destas gramíneas conta o
proprietário com o crédito a juros módicos c a prazos razoáveis, fornecido
pelos hancos oficiais e particulares.

A Terra e o Homem no Nordeste 171


CALENDÁRIO AGRÍCOLA DA ZONA DE PASTOREIO E CULTURA
DO ALGODÁO E CEREAIS DO AGRESTE
z
<

r PASTOREIO ................................
o ti ô

PLANTIO E LIMRA ...............

CRESCIMENTO .....................

CONVENÇÕES COLHEITA DE FEIJÃO ---------

COLHEITA DE MILHO VERDE

COLHEITA DE MILHO SECO

COLHEITA DE ALGODÃO -
Os “corumbas” são conhecidos na zona da Mata por não confraternizarem facilmente
com os “matutos”, pot gostarem dc chupar cana e por scrcm extremamente econômicos, a
ponto de regressarem ao seu rincão com um “pé-de-meia”. São tão necessários às usinas e
aos engenhos da mata, que na sede de cada propriedade canavieira há sempre um conjunto
de quartos, “os castelos”, destinados a hospedá-los. Com este fim também são utilizadas,
freqüentemente, casas nobres de engenhos de "fogo morto” absorvidos pelas usinas, c
chamadas desdenhosamente de “galpões”. Muita casa assobradada de Barão, Comendador e
Coronel da Guarda Nacional, que abrigou no passado, no período áureo do bangüê, muita
riqueza e opulência, está, hoje, suja e semi-abandonada, transformada em “galpão”, onde se
alojam durante a safra os "corrumbas”. Sua permanência na zona úmida é determinada
apenas pelo tempo; çe chove na sua terra, o “caatingueiro” arruma n trouxa e volta para
montar roçado.
A elevada densidade do Agreste e as precárias condições de vida ai dominantes
transformaram a região em um centro de emigração, e por isto muitos dos seus filhos têm
abandonado a terra e se fixado nas cidades maiores, nas capitais litorâneas — Recife c
Salvador sobretudo ou seguido cm “paus-de-arara” para o Rio, São Paulo, Norte do Paraná
e Brasília. O “candango", construtor da epopéia de Brasília, nada mais é que o “corumba”
que fez uma viagem mais longa e se dispôs a permanecer mais tempo para o Sul e Centro-
Oeste. {*} Esta migração para o Centro, Sul e Sudeste muito preocupou senhores- de-
engenho e usineiros que sentiam a falta de braços cada vez maior em seus partidos de cana
e em suas moendas,
No brejo paraibano, sobretudo na região que compreende os municípios de Areia,
Serraria, Pirpirituba e Alagoa Grande, as relações de trabalho rural tomam aspectos bem
diversos, uma vez que domina, ai, a cultura da cana-de-açúcar e da agave (Agave üsalatta).
Por isto, se bem que em proporções bem mais modestas que na zona da Mata, desenvolve-
se aí uma agricultura do tipo plantation, ocupando grandes c médías propriedades. A mão-
de-obra assalariada, numerosa, preo- cupa-se com dois produtos de exportação sujeitos,
portanto, às osci-

(4) O problema da migração dus nordestinos foi estudado em 1953 por Souza liarros no livro Èxoda e Fixação
c por Lopes de Andrade ein Forma e Efeitos das Migrações no Nordeste; e mais recentemente pelo Instituto Joaquim
Nabuco de Pesquisas Sociais, na sérte As Migrações para o Recife, formada por quatro ensaios: Estudo Geográfico, de
Mário Lacerda de Melo; Aspectos do crescimento urbano, de Antônio Caroltno Gonçalves; Aspectos econômicos, de
Paulo, Maciel, todos publicados cm 1961; e LavarecU, José, Migrações internas no Nordeste — Caruru um dos seus
centros detentores. “Boletim n.“ 9", do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, págs. 7 e scgs.
lações e caprichos do mercado externo. Os velhos bangüês rapadureiros estão às vezes em funcionamento, às
vezes de fogo-morto, pois moem as suas canas nas pequenas usinas surgidas após 1930: a Santa Maria e a
Tanque. Estas e a S, Francisco moeram juntas, na safra de 1955-56, pouco mais de 100.000 sacos de açúcar,
safra considerada pequena pata uma única usina de Pernambuco.
A Usina São Francisco teve poucos anos dc moagem, tendo se extinguido em 1963. Atualmente (1973)
as usinas Santa Maria e Tanque, juntas, têm uma quota dc produção fixada pelo 1AA (Instituto do Açúcar c do
Álcool) em 360,000 sacos dc 60 quilos — 180.000 para cada uma das usinas —, produção que corresponde a
uma usina média cm Pernambuco ou Alagoas.
O senhor-de-engenho, apesar de não ser aquela figura prestigiada da região da Mata, ocupa posição de
destaque na hierarquia social da região, inferior apenas à figura do usineiro. No campo vivem os "lavradores” c
os "moradores de sujeição”, üs primeiros, que já foram figuras tradicionais nas regiões açucarciras, estão hoje
quase desaparecidos. Recebem do proprietário um lote de terra de extensão quase sempre inferior a 10
hectares, e o cultivam com os seus próprios braços e com a ajuda da família; às vezes, se o trabalho é muito,

A Terra e o Homem no Nordeste 173


contratam trabalhador assalariado para ajudá-los. Quando chega a moagem, cortam a cana e moem nu
engenho do proprietário, sendo as cargas dc rapadura divididas igualmente enrre o lavrador c o senhor-de-
engenho, cabendo 50% para cada um. Alem da cana, pode o lavrador cultivar para o abastecimento dc sua
família as várias lavouras de subsistência.
Os trabalhadores de “sujeição” recebem um “sítio”, área de aproximadamente um hectare, c uma
choupana para viver; cultivam produtos de subsistência e algodão. O principal produto, porém, é a mandioca
com que fazem a farinha, usando as casas de farinha do engenho. As vezes, o uso dessa rudimentar indústria é
gratuito, mas às vezes pagani ao proprietário uma cota, a “congaM, que corresponde a uma em cada dez “cuias"
de farinha produzidas. Trabalham para u senhor-de-engenho obrigatoriamente de 2 a 3 dias por semana
durante a estação chuvosa — a “sujeição” — e dc 5 a 6 dias na safra, üs dias que subram podem ser destinados
à sua lavoura ou podem trabalhar para o patrão, recebendo melhor salário. Os salários são, porém, multo
baixos, pois as diárias eram entre 1952 e 1955 de Cr$ 20,00 a CrS 36,00 para trabalhadores de fora nos dias
“não sujeitos”, e de CrS 10,00 a Cr$ 12,00 para os dias de sujeição. ( n) Em 1957, estes salários, apesar da desva-

(5) Btrrnardes, Nilo, Observações sobre a paisagem agrária no Município de Areia, pág. 57; Vai verde,
Orlando, O Uso da Tens no J-esre da Paraíba, pág. 75.
lumaçáo da moeda, ainda oscilavam entre Cr$ 35,00 e Cr$ 50,Uü, ('*) não ultrapassando Hoje os Cr$ 100,00
diários a não ser em casos excepcionais. Hoje nem sempre pagam o salário mínimo. Com a expansão da área
de cultura da cana-de-açúcar e a pressão sobre os proprietários para que respeitem o Estatuto do Trabalhador
Rural e paguem o salário mínimo, os sistemas de moradores estão em completa decadência, em verdadeira
desintegração. Mais miseráveis ainda que os moradores são os “empreiteiros”, isto d, os sertanejos que na época
du seca migram para o Brejo a fim de trabalhar na colheita da cana, Fazem para a grande ilha úmida migração
igual a dos corurobas para a região da Mata, e o seu número é tanto maior, quanto mais intensa for a seca no
Ágrcstc c no Sertão,
Outra cultura importante até 1965 e que gerava condições dê trabalho um pouco diversas era o café.
Quando feita em pequeno sítio, era o próprio proprietário que com a sua família limpava o cafezâl e colhia as
cerejas. As grandes e médias propriedades possuíam moradores qnc, como no Brejo paraibano, recebiam casa
para morar e pequena álea para as culturas de subsistência. Era raro, aí, arrendar-se a terra, pois o proprietário
nunca tinha gado para aproveitar a resteva. Recentemente, porém, devido ao alto preço alcançado pelo
tomate, os proprietários em Camodm de São Félix vêm arrendando, a preço elevado, pequenos trechos dc
menos de uma tarefa, para esta cultura. (3} Em geral o morador dá ttês dias de serviço por semana à fazenda,
percebendo um salário inferior ao corrente. Estes dias de obrigação podem ser aumentados ou diminuídos
conforme as necessidades do serviço. Em Alagoas c costume, quando o trabalhador não reside na propriedade,
receber além do salário a “bóia”, isto é, uma refeição composta de feijão com charque ou com peixe salgado, ao
meio-dia. (s) A colheita de café iniciava-sc em agosto, estendendo-se até novembro OU dezembro. Era feita
vagarosamente, colhendo se apenas as cerejas já amadurecidas, deixando-se no pé, para a próxima catação, as
que estivessem verdes, fazendo-se de duas a três apanhas por safra.
Nas regiões fumiailtoras já temos outro tipo de relações de trabalho. Essas regiões formam importantes
manchas em terras arenosas no Agreste nordestino, dentre as quais se salientam os municípios de Bananeiras
na Paraíba, de Gravata em Pernambuco, dc Arapiraca em Alagoas e de Lagarto em Sergipe. Na Bahia, o
Recôncavo ê & área produtora de fumo. Estes quatro Estados reunidos produzem cerca dc
10,3% da produção nacional. A área de cultura mais intensa e a que ocupa superfície mais
ampla, porém, c a de Arapiraca, A cidade, situada em um plano de altitude superior a 100
metros, c cercada por campos de fumo que se estendem por ccrca de 10 a 15 quilômetros em
todas as direções. Fumais mais densos que os de Cruz das Almas, na Bahia, e de Ubá em
Minas Gerais.
O fumo, que c lavoura extremamente trabalhosa, mas remunera- dora, é cultivado

174 Manuel Correia de Andrade


por arrendatários ou meeiros e pequenos e médios proprietários que dispõem de áreas que
não excedem quase sempre a 200 hectares,
O plantio é feito na estação chuvosa, a partir de março, desde que sofre dois
transplantes para ser colhido a partir de agosto. Trinta dias após o primeiro corte, o fumo
poderá dar um segundo, que é a ‘"soca”. Paga-se atualmente ao trabalhador que faz as
“leíras” por tarefa, correspondendo essa medida a mais de 3.000 m2. O trabalhador leva de
quatro a cinco dias para preparar as “íeiras” de. uma tarefa. Usam também a meação,
costumando os meeiros trabalhar ajudados pela própria família, Se pagam o serviço à
diária, essa é valorizada em relação às áreas vizinhas. Sendo na maioria das vezes diarista,
os assalariados das regiões vizinhas afluera para a área fumicuítora durante a colheita. Para
abrigar estes trabalhadores migrantes, os proprietários costumam construir, junto ou nas
proximidades de suas casas, quartos que lembram os “castelos" dos engenhos de açúcar da
região da Mata,
Colhida a folha dc fumo, é ela posta a secar cm estaleiros de varas arrumadas no
campo durante 25 dias, ou enrolada por processo que dura 90 dias, para obter-se o fumo de
corda. É o fumo uma lavoura que exige cuidados especiais, adubação e tratamento
demorado antes que seja lançado no mercado; daí serem as áreas onde é cultivado de alta
densidade demográfica e ser o salário do trabalhador rural mais elevado.
Por ser lavoura de ciclo vegetativo curto, permite que se faça rotação de culturas,
beneficiando até com o adubo que para cia c colocado, a lavoura que a substitui. Enquanto
em Ubá a lavoura que faz rotação com o fumo é o milho, (3) em Arapiraca é o algodão
hcrbácco, plantado a partir dc julho no meio do fumai, para ser colhido em janeiro. Tiram,
assim, o proprietário e o meeiro, em um mesmo pedaço de terra, lucro correspondente a
duas lavouras. Ainda cultivam em pequena escala, visando ao auto-abastecimento, o
milho, o feijão c a fava.

A Terra e o Homem no Nordeste 175


O LATIFÚNDIO, A DIVISÃO DA PROPRIEDADE E AS RELAÇÕES DE
TRABALHO NO SERTÃO E NO LITORAL SETENTRIONAL

V
1

A PECUÁRIA E O LATIFÚNDIO NA CONQUISTA DO SERTÃO E DO


LITORAL SETENTRIONAL

O Sertão nordestino foi integrado na colonização portuguesa graças n


movimentos populacionais partidos de dois focos: Salvador e Olinda, hiram
estas duas cidades que se desenvolveram como centros de áreas dc terras
férteis dc “massapê” e, conseqüentemente, como centros açucareiros que
comandaram a arremetida para os sertões à cata de n na onde se fizesse a
criação de gado indispensável ao fornecimento de animais de trabalho —
bois e cavalos — aos engenhos, e ao abas- irdmento dos centros urbanos em
desenvolvimento.
A exploração da hinrerlândia baiana foi iniciada por enttadistas que
subiam os rtas da vertente atlântica — o Jequitinhonba, o Para- jpuiçu, o
Ttapicuru, o Real ctc. — à procura de minas que os encheriam de riquezas c
de mercês. F. o caso, por exemplo, de Espinosa, de João t loelho de Sousa, do
cronista Gabriel Soares e do famoso nela dc Cntitmuru, Helcbior Dias
Moréta, cujo segredo das minas de prata muda hoje não foi desvendado.
Garcia d’Ãvila e seus descendentes, porém, estabelecidos na casa- •foite
da baía dc Tatuapcra — a famosa Casa da Torre — embora não
desdenhassem as possibilidades de riquezas minerais, deram maior
importância ao gado e, desde o governo dc Tomé de Sousa, trataram ilr
conseguir doações de tetras, sesmarias, que cada vez mais peneiravam o
Sertão, subindo o Itapicuru c o Rio Real, para alcançarem o Rio São
Francisco, f1) Nem este grande rio deteve a ambição, a fome dc lerras dos
homens da Casa da Torre que, através dos seus vaqueiros <■ prepostos,
estabeleceram currais na margem esquerda, pernambucana pnrlnnto, do Rio
São Francisco e ocuparam grande parte dos sertões de Pernambuco e do
Piauí. Até no Carirí cearense pleitearam os hornens da < .o.ii da Torre o
recebimento de sesmarías. (a) Construíram, assim, os

A Terra e o Homem no Nordeste 179

L
maiores latifúndios do Brasil, tornando-se senhores de uma extensão ter-
ritorial maior do que muitos reinos europeus, pois possuíam, em 1710, em
nossos sertões, mais de 340 léguas de terra nas margens do Rio São Francisco
e de seus afluentes. Competindo com cia pela extensão das terras que possuía,
só sc comparava a família do Mestre-de-Campo Antônio Guedes de Brito,
uma vez que possuía propriedades que se estendiam desde o Morro do
Chapéu até as nascentes do Rio das Velhas, compreendendo mais de 160
léguas de terras. (:i) Não eram estes, porém, os únicos grandes latifundiários;
outros havia, cujas posses eram bem inferiores, mas que viviam como grão-
senhores por possuírem sesmarias de grandes extensões, esparsas pelas mais
diversas áreas dos sertões nordestinos, Barbosa Lima Sobrinho, com a sua
autoridade dc pesquisador honesto e historiador consciencioso,(4) aponta,
entre outras, Domingos Afonso Mafrense, João Peixoto Viegas, Lou- renço de
Brito Correia, Manuel de Abreu Soares e Manuel de Oliveira Porto. (3) Não
foram estes grão-senhores, porém, como querem fazer entender alguns
historiadores, os homens fortes da conquista dos nossos sertões, Não
enfrentaram o calor e a sede nas caatingas adustas, nem as flechas traiçoeiras
dos indígenas que atacados pelos brancos não tinham para onde recuar,
passando a defender palmo a palmo aquela telra seca onde caçavam e aquelas
ribeiras onde pescavam para a sua alimentação. Esta luta difícil cm um rncío
hostil contra selvagens belicosos, assim como a defesa das reses deixadas nos
currais como verdadeiros marcos do avanço do movimento povoador, eram
feitas pelos vaqueiros, muitas vezes escravos, e por posseiros que, não
dispondo de prestígio cm Salvador, nem das habilidades necessárias para
obterem concessões de terras nos meios palacianos, não conseguiam
sesmarias. Eram obrigados a colocar-se sob a proteção dos grãos-senhores,
não por temer o ataque dos índios, mas para não serem perseguidos pelos
poderosos de Salvador. Reconhecendo o domínio da rerra aos mesmos c
tornando se seus foreiros, estabeleciam-se com o curral e as reses no que
chamavam de “sítio”, pagando anualmente um foro que atingia em 1710, 10
míl-réís na Bahia. (45) Estes sítios não tinham aquelas dimensões de
principados das sesmarias, mas eram formados quase sempre por um lote de
uma légua em quadro.
Estes posseiros que como autênticos heróis dominaram os índios e
estabeleceram fazendas na interlândia sertaneja, lutando em con-

(3) Antonil, André João,


Cultura e Opulência do Brasil em suas Drogas
e Minas, pág. 264-5.
(4) BarbosaLima Sobrinho, O Devassamento do Piaui, pág
134-5.
(5) Barbosa Lima Sobrinho, O
Devassamento cio Piauí, 141.
(6) A.ntoni!, André João,
Cultura e Opulência do Brasil em suas Drogas
e Minas, pág. 265,

180 Manuel Correia de Andrade


dlções designais com ÜS pücjerosos senhores que recebiam doações de terras como merte pnJr
£avüres prestados ou pela amizade e influência junto aos Ciovetna(iores GeraiSi nã0 tiveram ainda o
historiador que i escrevesse a epopci^ pür e|C5j realizada, como o tiveram os latifundiários da
Casa da IVirn-.,
O avanço Pcmâtr3bucano, embora rivesse no século XVÍ se dirigido paia
o grande Rio^ Sg0 Francisco — entradas do Provedor Francisco Caldas e do
Capitão Francisco Barbosa da Silva — logo foi desviado para o Noite
seguindo a linha litorânea, uma vez que ao Norte o Sertão chegava ate o
litoral c oferecia boas pastagens para o gado, ao mesmo tempo que 110 Litoral
Setentrional os franceses constituíam uma ameaça constante a jovem colptua
portuguesa. Por isto, voltados para o Norte, os pernambucanos Lindaram a
Paraíba, expulsaram os franceses dos vales do Mamunguape e Camaratuba e
fundaram Natal, no Potcnji ou Rio Grande, em i59J$. Daí
partiria a arremetída para o Noroeste com a
conquista dos vales cl0 Açu, do Apodt, do jaguaribe, do Acaraú e, 1 malmente,
a expufs§0 franceses do Maranhão e a garantia para a América Português^
pOSSe desembocadura do Amazonas. (1) Nas tetias secas do fçj0 Grande do
Norte e do Ceará, os pernambucanos iriam dcsenvo!ver a peCuária e nisto
pensaram desde os primeiros momentos, uma vez qUC; em chegando ao Ceará,
ao fundar o Forte de São Sebastião e a <trigjc{a de N. S. do Amparo, Martins
Soares Moreno, o romanceado guerrojro branco de Iracema, lá soltou “gado
cavalar, suíno, caprino e aves domésticas”. (*) G Sertão paraibano seria tam-
bém invadido e seniça(j0 sesmarias na segunda metade do século XVII por
entradas parindo do Leste, com Teodósio de Oliveira Ledo, c por outras
vindas 4q Suí que ocuparam o alto curso do Rio Piranhas e a bacia do Rio
Peixç (U) j\ influência paraibana penetrava os Cariris Velhos até o Boqueir^0 e
^aí se estendia a Tapeioá, enquanto a baiana e paulista atingia as ãrcas drenadas
pelo Piancó c pelo Piranhas,
Graças a essa t^menda expansão que cada clia ocupava mais terras e
semeava currais on<je pavia água permanente, é que os índios foram levados à
revolta, Revolta que se estendeu por mais de 10 anos e que entrou para a
história com 0 nome de Guerra dos Bárbaros.
Os^ vários grupdS indígenas que dominavam as caatingas sertanejas. não
podiam vef coni b0ils olhos a penetração do homem branco que chegava com
gad^ escravos e agregados e sc instalava nas ribeiras mais férteis. Conslrt)[a
casas, levantava currais dc pau-a-pique c sol-

\ A^uide, M;'U5üc] Q)rie[a Economia Pernambucana na século


XVI, pág, 63.
/\ i'r5?' RTaí.mU^, História Econômica do Ceará, pág. 65.
(9) Jofrily, Icineu, Natas sobre a Paraíba, pág. 31 e segs.
tava o gado no pasto, afugentando os índios para as serras ou para as caatmgas
dos interflúvios onde havia falta d’água durante quase todo o ano. Vivendo
na idade da pedra, retirando o sustento principalmente da caça e da pesca, o
indígena julgava-se com o direito de abater os bois e cavalos dos colonos,
como fazia com qualquer outra caça. Abatido o animal, vinha a vindita c a

A Terra e o Homem no Nordeste 181


reação do indígena e, finalmente, a guerra. Guerra que provocou muitas
mortes e devastações, que atraiu os bandeirantes paulistas, hábeis na luta
contra os índios, que provocou o devassamento do inierior e que se concluiu
com o aniquilamento de poderosas tribos e com o aldeamcnto dos
remanescentes. Guerra que possibilitou a ocupação, pela pecuária, do Ceará,
do Rio Grande do Norte, e de quase toda a Paraíba. Várias extensões foram
incorporadas economicamente à colônia portuguesa, passando a fornecer os
animais dc trabalho e a carnc às áreas mais povoadas da Mata pernambucana
e do Recôncavo baiano.
O sistema dc criação era o mesmo encontrado no Agreste; apenas aqui
as extensões eram maiores, as fazendas mais importantes, possuindo até,
algumas delas, mais de 5.000 cabeças de gado; as secas eram mais rigorosas,
provocando grandes prejuízos aos criadores, e as comunicações com o litoral,
mais difíceis devido às imensas distâncias.
No início do século XVIII os currais baianos se estendiam pela margem
direita do Rio São Francisco e pelas ribeiras do Rio das Velhas (hoje território
mineiro), das Rãs, Verde, Paramirim, Jacufpe, ltapi- curu, Real, Vasa Barris e
Sergipe, possuindo perto de 500.000 cabeças dc gado. Os currais
pernambucanos, que deviam abrigar perto de
800.0 reses, ocupavam a margem esquerda do Rio São Francisco e os
vales dos Rios Preto, Guaraíra, Corrente, Jajeú, Moxoró, além do São Miguel,
em Alagoas, do Paraíba do Norte, do Pi tardias-Açu, dó Apodi, do Jaguaribe,
do Acaraú, do Piauí e até do Parnaíba. Hra um mundo que se estendia desde
Olinda, a Leste, ate a fronteira do Maranhão, ao Oeste,
A área de influência das capitais não era determinada pelas
circunscrições políticas, uma vez que a Influência baiana penetrava
consideravelmente o Sertão pernambucano, o que levou o historiador
Capistrano de Abreu (Ifl) a afirmar que a influência pernambucana se detivera
muito próxima au litoral, na atual cidade de Bezerros.
Nestes sertões desenvolveu-se uma civilização stã gene ris. Aí os
grandes sesmeiros mantinham alguns currais nos melhores pontos de suas
propriedades, dirigidos quase sempre por um vaqueiro que, ou era escravo dc
confiança, ou um agregado que tinha como remuneração

182 Manuel Correia de Andrade


u “quarta” dos bezerros c potros que nasciam. Outras áreas eram iladas
em enfiteuse, os “sítios”, que correspondiam a uma légua cm quadro e eram
arrendadas a 10 mil-réis por ano aos posseiros. As grandes distâncias e as
dificuldades de comunicação fizeram com que iií se desenvolvesse uma
civilização que procurava retirar do próprio meio o máximo, a fim dc atender
às suas necessidades. Assim, na alimentação usava-se principalmente a carne
e o leite, este abundante iipenas no "inverno”, frutos silvestres e alguns
produtos de uma incipiente lavoura de subsistência feita nos brejos, nas
vazantes dos rios ou, nos bons invernos, na própria caatinga. Lavouras de
ciclo vege- i.tlivo curto — feijão, fava, milho etc. — eram confinadas por
cercas <|e varas ou de pedras a fim de impedir a danificaçao provocada por
animais (Foto n.u 15).
Os mais variados utensílios domésticos e móveis eram feitos de couro.
Capistrano de Abreu, analisando o complexo cultural que dominou a região e
que ele com grande oportunidade chamou “civilização do couro”, afirmou: (n)
“De couro era a porta das cabanas; rude leito aplicado ao chão, e nuus tarde a
cama para os partos; de muro todas as cordas, a borracha para carregar água, o
mocó ou alforje pura levar comida, a mala para guardar a roupa, a mochila
para milhar cnvfllo, a peia para prcndé-lo cm viagem, as bainhas dc facas, as
brocas i os surrões, a roupa de montar no mato, os bangüês para curtumes mi
para apanhar sal; para os açudes o material de aterro era levado em couros
por juntas de bois, que calcavam a terra com o seu peso; em couro pisava-se
tabaco para nariz”. Este sistema dominou por MLUIOS O Sertão, e quando Spix
e Martíus percorreram o Nordeste, ao chegarem no Piauí ainda encontraram,
ate nas fazendas de propriedade dti (inverno Imperial, o sistema de criação
extensivo enunciado por Anlonil. Aí, segundo eles, (61) as dezenas de fazendas
reais eram divididas cm três inspeções, cada uma dirigida por um inspetor
que j inhava 300|000 por ano. Cada fazenda era dirigida por urn vaqueiro i|ue
devia obediência ao Inspetor, servindo às vezes gratuitamente durante anos
para, ao entrar na posse do devido pagamento, rece- bn um quarto dos bois e
cavalos criados na fazenda. Era permitido que ele criasse cabras, porcos e
carneiros e tinha direito à produção de leite c queijo. Havia nas fazendas
“escravos do rei” que recebiam ape- nUh roupa e carne, devendo retirar o
resto do seu sustento de suas próprias plantações c crias.

61 Spix J. von e Martins C. E. P. von, Viagem ao Brasil, vol, II, |ntg <118.

A Terra e o Homem no Nordeste 183


Como as chuvas caíam a partir de dezembro indo até abril, costumavam
nessa época reunir as vacas ao anoitecer e ordenhá-las pelas manhã. Com o
leite faziam queijo. Após maio, quando chegava o tempo da seca, as vacas não
produziam mais leite e eram deixadas soltas no pasto durante todo o tempo.
Sistema idêntico, apenas sem a existência de escravos, encontramos em 1960
na chapada do Apodi, no Rio Grande do Norte, e ainda é dominante nos altos
sertões de Pernambuco, Piauí e Bahia.
O gado para chegar ao mercado consumidor fazia intermináveis
caminhadas, havendo pessoas especializadas na condução destes animais.
Ántonil, com a precisão característica de suas observações, (1:1) .ifirma que as
boiadas eram compostas dc 100 a 300 cabeças, sendo conduzidas por pretos,
brancas, índios e mulatos.
Costumavam locomover-se com um homem caminhando à frente du
hoiada, cantando o “aboio sertanejo”, enquanto os demais acompanhavam as
reses tangendo-as c vigiando-as para que não se dispersassem. Caminhavam dc
4 a 6 léguas por dia se havia água com facilidade no caminho, mas estendiam a
jornada até 15 ou 20 léguas, emendando dias e noites, nas áreas onde não
havia água. Nas passagens dos rios, um vaqueiro, pondo sobre a cabeça uma
caveira dc boi, nadava mi frente da boiada a fim de que os animais o
acompanhassem.
Quando a caminhada se estendia por 15 ou 20 dias, costumavam os
proprietários pagar ao encarregado do transporte quatrocentos réis por cabeça,
em uma época cm que um boi valia, em média, na Bahia, dc quatro a sete mil-
réis. A este cabia pagar a manutenção dos tange- ilores e guias. Se algumas
reses fugiam no caminho, era descontado n pagamento equivalente ao
transporte das mesmas. Essa paga auraen- i iiva ou diminuía, conforme as
distâncias.
Os caminhos do gado eram muito longos, ocupavam grande parte dos
moradores do Sertão e, devido ao emagrecimento nas viagens, costumavam
fazer os animais oriundos do Piauí, do Ceará, do Rio Grande do Norte, da
Paraíba e de Pernambuco, quando tangidos para a Bahia, passar algum tempo
se refazendo nos campos de jacobina. Só depois dc refeitos é que eram
tangidos para Capoame, nas imediações de Salvador.
Para Olinda c, posteriormente, Recife, o gado também fazia longas i
.iiTiinhadas, Assim, havia um caminho de gado que partindo de Olinda H-
dirigia para o Norte, passando por Goiana, Espírito Santo (Paraíba),
Mnmatiguape, Canguaretema, Papari, São José do Mipibu, Natal, Açu,

(11) Antonil, Andrc João, Cultura <• Opulência do Brasil em suas Drogas r Mltms,
págs. 268-9,

A Terra e o Iíomem no Nordeste 185


Moçoró, Praia do Tibau, Aracati e Fortaleza (ver mapa n.0 3). Outra estrada ia
drenar o gado piauiense para Olinda, através de Goiana, També, Vale do
Espinharas, Taperoá, Patos, Pombal, Sousa, São ]oãu do Rio do Peixe, Icó, Tauá,
atingindo Cratcús, onde se juntava à vaqueirama piauiense c trazia o seu gado
para a área canavieira. (J4)
Mais tarde, tentando contrabalançar a influência baiana nos sertões
pernambucanos, fez o Governo de OHnda construir dois caminhos que
demandavam o São Francisco atingindo Cabrobó, que junto com Pilão Arcado
eram as duas freguesias pernambucanas do medio São Francisco na segunda
metade do século XVIÍI (1774). Estes caminhos, tendo de atravessar a
Borborcma, aproveitavam os Vales do Capibaribe e do Ipojuca, Assim, o
primeiro, partindo do Recife dirigia-se para Limoeiro pelo Vale do Capibaribe
e subia o rio até suas nascentes. Atravessando seus imerflúvios ia atingir o
curso do Pajeú na fazenda São Pedro, descendo o vale deste rio, passando por
Serra Talhada e continuava a segui-lo ate Floresta, de onde se desviava para o
Oeste a fim de alcançar Cabrobó. O segundo caminho subia o Vale do Ipojuca
até a Serra de Ororobá (traçado atual da Rede Ferroviária do Nordeste e da
estrada central de Pernambuco), daí descia para o Sul até a atual cidade de
Inajá, onde se desviava para o Oeste procurando Tacaratu, Jatina e,
finalmente, Cabrobó. (,!i)
O gado cearense, porém, chegava magro a Olinda e, devido à distância,
pagava maiores preços pelo transporte que o paraibano e o norte-
riograndense. Daí se lembrarem os cearenses, ainda cm 1740, dc exportar suas
reses já abatidas, transformadas cm carne seca, salgada e cm couros. Para a
salga dispunham das salínas naturais do Aracati, da foz do Jaguaribe, enquanto
os bois vinham do litoral c do baixo e médio cursos deste rio. Surgiram, assim,
as “oficinas” para a fabricação do eharque, mais conhecido no Nordeste como
“carne-do-ceará”. c que permitiram àquela região competir com a Paraíba c o
Rio Grande do Norte no abastecimento de Pernambuco. As “oficinas” surgidas
no Aracati logo tiveram congêneres na foz do Parnaíba, do Acaraú, do
Camocím, do Moçoró e do Açu. Com tão grande número de char- queadas
tornou-sc difícil o abastecimento de animais dc trabalho para os engenhos
pernambucanos, e aquelas localizadas no Rio Grande do Norte foram
proibidas de funcionar; as demais continuaram em ativi-

(14) Câmara Cascudo, Luís da, Tradições Populares da Pecuária Nor- destina,
pÁe,, 6.
(15) Rocha, Tadcu, O Homem e a Técnica em Paulo Afonso, no Diário de Pernambuco,
de 29 de abril de 1953; Andrade, Manuel Correia dc, Evolução e Características da Pecuária
Nordestina (Contribuição ao Estudo dá Geografia Pastoril do Nordeste Oriental), pág. 5.

Iítf> Manuel Correia de Andrade


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CAMINHOS DO GADO PARA OLINDA E RECIFE

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dade até a grande seca de 1790-92, que dizimou praticamente o rebanho
cearense, acabando com a florescente indústria, f1") O colapso dessa indústria
beneficiou a princípio os produtores de Parnaíba e, logo após, as charqueadas
gaúchas que durante muito tempo dominaram completamente o mercado
nordestino c só nos últimos anos é que está sofrendo séria concorrência dos
produtores do Centro-Oeste.
Deste modo, foi a pecuária quem conquistou para o Nordeste a maior
porção de sua área territorial. Complementou a área úmida agrícola com uma
atividade econômica indispensável ao desenvolvimento da agro indústria do
açúcar e ao abastecimento das cidades nascentes. Carreou para o Sertão os
excedentes de população nos períodos dc estagnação da indústria açucareira c
aproveitou a energia e a capacidade de trabalho daqueles que, por suas
condições econômicas e psicológicas, não puderam inregrar-se na famosa
civilização da “casa-grande” e da “senzala”. Permitiu, assim, a formação
daquilo que Djacir Meneses chamou de “O Outro Nordeste”, do Nordeste das
caatingas e do gado, que a um só tempo se opõe e complementa, o Nordeste do
massapê e da cana-de-açúcar.

2
O DESENVOLVIMENTO DA AGRICULTURA SERTANEJA
O início da atividade agrícola no Sertão deve ser contemporâneo do
deshravamento do interior e da criação do gado. Apenas a agricultura não foi
a atividade principal, desenvulveu-se mediocremente à sombra dos “currais”,
devido à grande distância que separava aquela zona do litoral e ao elevado
preço que os gêneros atingiam após o transporte por dezenas e centenas de
léguas. Era feita, porém, de forma penosa, sendo os pequenos campos
cultivados limitados por cercas ou vaiados que vedavam não só a passagem de
bovinos e eqüinos, como também das “miunças” — bodes c carneiros.
Ocupava a agricultura pequenas áreas, utna vez que era feita visando ao
abastecimento da população de cada “curral”, e nos locais mais úmidos, mais
favoráveis, onde os solos eram mais espessos, como os leitos dos rios (Foto n.°
16) e as lagoas secas; cultivavam também o leito do Rio São Francisco e seus
afluentes, à proporção que o baixar

(16) Girão, Raimundo, Pequena História do Ceará, pigs. 91 a 97; Editora A. Batista
FontcncIIc, Fortaleza, 1953.

I8& Manuel Cone ia de Andrade


das águas deixava descobertas as “praias” e ilhas; eram, portanto, culturas dc
vazante. Cultivavam ainda as “serras frescas” de que fala Raimundo Girão. f62)
Essa agricultura restringia-se apenas a mandioca, ao milho, feijão, algodão
e., às vezes, à melancia e ao melão. Nas “serras frescas”, porém, além destes
produtos, surgiram logo a cana-de-açúcar e as fruteiras. As áreas agrícolas
constituíam, porem, pequenas manchas, “ilhas” isoladas na vastidão das caatingas.
Esses pequenos roçados eram feitos, a princípio, pelo próprio vaqueiro com
a sua família ou agregados, de vez que os proprietários não tinham preocupação
direta com o abastecimento dc seus prepostos. Estes é que deviam prover a sua
alimentação dentro das condições que o meio natural lhes oferecia. Nem mesmo o
sal ia do litoral para o interior, pois, em certas áreas centrais, ele era retirado dos
depósitos aluviais do São Francisco e de alguns dos seus afluentes, como o Rio
Salitre. Ainda hoje a retirada do que chamam “sal da Lerra” é feita nas margens do
grande rio sertanejo. No litoral setentrional, desde o Açu até o Acaraú, o clima
quente e seco, a costa baixa e a presença dc marés com amplitude razoável
permitiram o aparecimemo de salinas naturais conhecidas desde a época do
povoamento. Hoje, na costa Norte do Rio Grande do Norte e na cearense,
localiza-se o mais importante parque salineiro do pais.
A preocupação com o gado era de tal ordem que terras de verdadeira mata,
como o Carirí cearense, foram requeridas em sesmarias para criação. ( 63) Só
depois, à proporção que a população foi se adensando, é que essas manchas úmidas
de maior extensão como as Serras de Ibiapaba, Meruoca, Baiuritc c o Cariri, no
Ceará, as de João do Vale, do Martins e de Portalegre, no Rio Grande do Norte, ÍI
do Teixeira, na Paraíba, as de Araripe e da Baixa Verde, em Pernambuco, as de
Água Branca e Mata Grande, em Alagoas, a de ltiubá, na Bahia, e muitas outras,
passaram a ser cercadas por grandes vaiados chamados “travessões”, que serviam
de limite entre a área agrícola e a de criação. Dentro do travessão a agricultura era
feita livremente c o gado só poderia aí permanecer, se cercado ou preso; fora do
travessão a lavouru é que era cercada e o gado podia ficar solto, em campo aberto,
desde que a área era reservada à pecuária. Vales como o do Açu são aindit hoje
cercados lateralmente por travessões de arame farpado que indicam o limite entre
uma e outra área. O travessão eta formado ora por um vaiado, ora por uma cetca,
que podia scr dc pedra — freqüente no

62 História Econômica do Ceará, pág. 59.


63 Pinheiro, írineu, O Cariri, pág. 26.

190 Manuel Correia de Andrade


Scridó —, ora de varas, ora de ramos, ora de “espinhos”, isto é, de
■ nc ulceas. Algumas vezes o travessão era fixo, mas às vezes era tepre-
Ni-niado por uma cerca de fácil locomoção, e ele avançava ou recuava de acordo
com a estação do ano ou com a vontade de um Coronel pode- tnsu ou de um
político influente. Nos últimos cinqüenta anos, o arame I arpado vem sendo
empregado neste mister e é comum os grandes piuprietátios cercarem áreas de
melhor pasto formando as “mangas” I|MC reservam para o seu gado. Restringem,
assim, a possibilidade dos vaqueiros c dc pessoas pobres criarem animais nas áreas
de campo níirllO, de 64 'posse em comum". A importância desses travessões
chegou mm nossos dias e, ainda em 1928, o Governador Estácio Coimbra ptiiK
npou-se com a construção de um vaiado com 86 quilômetros de
■ * 11 usão, que protegesse a cultura de mandioca da Chapada do Araripc.
im 1111-11 inverteu grandes quantias, sendo esta obra considerada como UIHil das
que marcaram a sua administração por tentar um zoneamento *111 flt a
agricultura e a pecuária. (3) Ainda hoje o governo de Pernambuco vem
conservando o famoso travessão.
Aquelas primeiras culturas juntar-se-ia logo a cana-de-açúcar, sur- |i|iidn
nintla, no século XVIII, os primeiros engenhos de mel e rapa- diuii Engenhos
pequenos, com uma moenda de madeira, movidos q<M i sempre a tração animal
— bois ou cavalos — e apenas excepcio- Mdlmcrur a água, e que em vez de
açúcar produziam rapadura ou aguar-
• im Engenhos deste tipo, verdadeiras “engenhocas”, já moíam cana *’i
iInul.i" no Cariri cearense em 1731, (■*) e seu número subia nessa
i '7 que “fabricavam mel e rapadura” em 1765. (5) Célebres |im MPUK engenhos
rapadurciros eram quase todas as serras sertanejas,
• du Hnixa Verde, em Pernambuco, e de Água Branca, em Alagoas;
hnuU in nus margens do São Francisco, pequenos engenhos rapadurciros i* di .i
nvolveram disseminando canaviais pelas margens e ilhas do ri Midi riu. As canas
a eles fornecidas chegavam às fábricas por via llm lnl, nu canoas. Crato, no Cariri
cearense, e Triunfo, na serra da
n .1 Vnde, foram e são, ao seu modo, centros açucareiros produtores di in|nulunis
que ainda hoje são largamente consumidas no Sertão para iduini ccrtus alimentos
ou diretamente misturadas com farinha. Iíoje M idniü rapãdureiros se
encontram cm decadência, em face da ação
diui u .iiwr, que, abrindo escrirórios de venda de açúcar nas principais ci- diulrn
m iiiinejas, vêm colocando no mercado regional o açúcar cristal. \ j*i ia iniçiio
deste tipo de açúcar é devida tanto à facilidade de trans-
portes quanto à necessidade, por parte das usinas, cora produção cm

64 ' I Pivyrc, Gilberto, Estácio Coimbra, Governador dc Pernambuco, em I' 110 Pm lides
e outros Perfis, pág, 193.
I I) l iguclrcdo Filho, José dc. Engenhos de Rapadura de Cariri, pág. 13.
i i i Hrlgidu, João, Ceará (Homens e Patos), pág. 416.

A Terra e o Homem tio Nordeste 191


expansão, de ampliarem o seu mercado no país, sobretudo nos períodos de
retração do mercado externo. Até viajantes ilustres, como os ingleses Koster
(11) e Gardner, (65) provaram-na e a cia se referem com
simpatia,
Com os engenhos fundados por proprietários vindos da região da Mata,
tornaram-se diferentes a fisionomia e as relações de trabalho nestas manchas
úmidas, daquelas dominantes na caatinga, pois os senhores-dc-cngcnho,
embora não dispusessem do prestígio c das disponibilidades econômicas dos
que vieram daquela zona, tentaram organizar plantalion do tipo realizado na
região da Mata. Para isto organizaram um sistema de trabalho agrícola,
empregando escravos; procuraram também interessar homens livres em
cultivar a cana para moer “de meia” em seus engenhos. Surgiam, assim, no
século XVIII, no Sertão úmido, os lavradores, como ocorrera dois séculos antes
na capitania duartina. F. o ciclo do açúcar nas serras frescas do Sertão, como no
brejo paraibano, se processaria como se fosse uma miniatura distanciada no
tempo c no espaço da civilização canavieira da região da Mata. Os melhora-
mentos e inovações feitos chegavam com dezenas de anos de atraso, e às vezes
os engenhos do brejo c das manchas úmidas do Sertão eram montados com
moendas, caldeiras e tachas que, após longos anos de uso na Mata, haviam sido
substituídas por outras novas ou mais possantes, | Sendo, porém, a rapadura um
produto destinado ao consumo local, não alcançava grandes preços; a
capacidade das moendas era pequena e por isto os canaviais pouco cresciam.
Daí ter sido sempre pequeno o número de escravos que, mesmo nos séculos
XVIII e XIX, raramente ultrapassavam a duas dezenas naqueles engenhos de
proprietários mais ricos. Normalmente os senhores-de-engenho dispunham,
apenas, de 12 a 15 escravos por engenho, (s) o que os obrigava, sobretudo nas
épocas de plantio e colheita, a recorrer a agregados c a assalariados.
Irincu Pinheiro, após atenta investigação nos velhos cartórios do Cariri,
salienta que o pequeno número de escravos era o resultado do alto preço dos
mesmos, pois custavam, faz um século, “centenas de mil- -réis”. A distância
do litoral c as péssimas estradas impediam a exportação dos produtos
agrícolas que se destinavam apenas ao mercado regional, impedindo que a
culturas se expandissem por grandes áreas c que os proprietários dispusessem
de capital necessário à aquisição de grande escravaria. Por isto mesmo, por
ser a escravaria pouco nume-
lusa e por serem os senhores mais pobres, havia no Cariri maior apro- dinação
entre senhores e escravos, menores distinções sociais. Devemos inclusive lembrar-
nos aqui do depoimento de Rugendas, de que nas fazendas maiores a comida dos
escravos c feita eni separado, mas • 'iide eles são menos numerosos, e
principalmente nas plantações longínquas do país, os senhores comem à mesma
mesa que os escravos”. Por isto a abolição, feita no Ceará em 1884 c nos outros
Estados ' m 1888, não trouxe problemas a estas micro-áreas açucareiras, onde i* ■

65 Gardner, George, Viagens no Brasil, pág. 13,5.

192 Manuel Correia de Andrade


nna-de-açúcar foi o produto mais importante, mas nunca chegou a lonuir-se
monocultura.
Como nos brejos agrestinos, também no Sertão, a partir de 1840, imncçou a
desenvolver-se a cultura do café. Os pequenos engenhos ra- IMilitrciros tiveram
na rubiáeea uma séria concorrente, de vez que matas i- i miaviais foram
transformados em cafezais. Serras como a de lb'a- piib.i, dc Meruoca, dc Baturité,
da Baixa Verde e o próprio Cariri •' a11.use tornaram-se, por vários anos, grandes
produtores. Não somente riluN cciam a região, como Ceará e Pernambuco
tornaram-se exporta- iliuch do produto. Em Baturité, chegou até a ocorrer o que
se deu um Bananeiras, no Brejo paraibano: formou-se & “pequena nobreza diiít
Cltfezais” de que fala GirSo, uma vez que muitas famílias enrique- i lilif.
destacaram-se por “hábitos e costumes maís apurados e projeção m i inl mais
salientes”. (") Nos fins do scculo XVIII c no scculo XIX. | 111-. mesmos motivos
que ocorreram no Agresle, a agricultura tomou, iihii ii surto algodoeiro, rápido
desenvolvimento no Sertão. Grande pinte do produto erit consumido na própria
região, após tecido manualmente pelas tecedetras. Vilas houve, como a dc
Itabaiana, situada no Aginue sergipano, que se notabilizaram, no início do século
XIX i ItlOKi, por essa atividade artesanal exercida sobretudo por mu- lluRiv (“')
Grande parte do algodão, porém, como o do Vale do atravessava as caatingas por
caminhos com mais dc uma centena i|i li-guns cm demanda do porto do Recife, de
onde seguia para ser In ivlieiado nos teares ingleses.
Essa atividade agrícola, porém, passados os primeiros anos, não
fiiioti de tantos escravos como a cana-de-açucar e proporcionou
um grande desenvolvimento ao trabalho assalariado no Sertão. Real ni* Mi- ,
mima área em que em quase cada decênio havia uma grande i timnando o gado e
provocando a migração dos proprietários mais ' I o l< '• , não poderia dar bons
resultados o emprego de grandes cabedais

A Terra e o Homem no Nordeste 193


em escravos. Escravos que, devido ao curto ciclo vegetativo do algodão, ficariam
grande parte do ano sem ter o que fazer, sem produzir o suficiente d ar a pagar a
sua manutenção e que nos períodos de seca seriam vendidos a preços ínfimos para
outras regiões ou morreriam de inanição. Por isto mesmo, cm 1872, em uma
população total de 721,688 habitantes, havia no Ceará apenas 31-915 escravos,
percentagem ínfima, portanto, correspondente a 4,4% do total. (n ) Isto, antes da
seca de 77, quando a maioria dos escravos da região passou a ser vendida para os
cafezais do Sul, ávidos de braços.
O salário pago aos trabalhadores variava muito durante o ano, dc acordo
com a lei da oferta e da procura, ou de um ano para outro, conforme fosse o
inverno c. conseqüentemente, as perspectivas da produção agrícola.
No período da Guerra de Secessão nos E. U. A., por exemplo, quando chegou
ao auge o rusb algodoeiro, a jornada de trabalho chegou a ser paga a 1 $280. É
verdade que o assalariado pouco lucrava deste salário, porque as culturas dc
mantimento haviam praticamente sido abandonadas e os gêneros alimentícios,
importados de outros Estados, alcançavam preços extraordinários. (,2) Para se ter
uma idéia do valor deste salátio, bastít compará-lo com o que era pago aos
sertanejos pela Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas na construção de
açudes no Ceará, mais de cinqüenta anes depois, em 1924, de 1$800 diários.! 13) O
aumento seria, assim, dc menos de 50% em quase 60 anos. O que ocorreu, porém,
é que, vencidos os F.stados Confederados na América do Norte, caiu a procura do
algodão no mercado internacional e os preços no país. Os algesdoais minguaram c
os trabalhadores. tendo seus salários reduzidos para $400 e $500 diários, voltaram
a sua faina anterior ao rusb. Destes $400 e $500 diários 6 que os salários subiram
até atingir os 1$800 dc 1924.
Após o período do rusb algodoeiro, passaram os agricultores sertanejos a
regular sua vida amanhando a terra, ajudando-se uns aos outros e procurando
obter tanto o produto comercial pur excelência — o algodão —, como os produtos
alimentícios. Assim, nos anos regulares, costumavam os sertanejos, reunidos cm
mutirão, “brocar” os seus roçados em outubro, fazendo a queima ein fins de
dezembro, a fim de que em janeiro fossem construídas as cercas. Com a chegada
d<> '‘inverno” — período chuvoso — o chefe de família, ajudado pela
mulher e pelos filhos, fazia a semeadura, Esta era iniciada pelo Imifio “ligeiro",
pelo milho de “sete semanas", (14) o jerimum c a im lancia. À mandioca, o algodão,
o milho e o feijão eram semeados «Icpuis. Entre o primeiro e o segundo plantios, a
família mantinha o mçiulo limpo, enquanto o chefe trabalhava assalariado nas
grandes e médias propriedades. O salário era utilizado na aquisição da farinha >|iif
constituía com a caça do preá, sobretudo, o alimento cotidiano. \i>: agosto eram
colhidos e consumidos o milho, o feijão, o jerimum r ii melancia. Em setembro
começavam a desfazer a mandioca, a realizai a "farinhada", trabalho em que
contavam com a ajuda dos pa- . i»i rü e amigos, sendo a farinha guardada em sacos
sobre giraus exis- icnic;. nas pequenas casas de taipa. Esta cooperação da farinhada
t iitrmimente chamada de “ajutório”. A farinha devia ser consumida mm

194 Manuel Correia de Andrade


parcimônia, pois dela dependia o sustento da família até abril,
• |iniiulo o roçado começava a dar o jerimum, a melancia e as primeiras ■
i|M iis dc feijão. A colheita e venda do algodão permitiam ao pobre IKihnlhttdor a
aquisição de roupas e outros utensílios para a família (I&)
1 -m rra o tnodus vivendi do trabalhador sertanejo sem terra nas áreas iIr
(iintinga até quase os nossos dias. Pelo calendário agrícola que i Hjiiihemos,
observa-se que, morando em uma propriedade, tinha o tra-
• nlliiidor que dividir o seu trabalho entre o roçado próptío e o do I
HIIIHI O trabalho para o patrão era, às vezes, remunerado em dinheiro, httiu cm
que o morador necessitava pagar renda da terra que cultivava
i .11.1 .i em dinheiro ou com parte da produção; outras vezes ele tinha
ii |t?fil para cultivar sem pagar rendas, mas obrigava-se a dar três dias «|i
noviços gratuitos para o proprietário, estando, assim, sujeito ao "i «mbfio’1, A
gama de relações era muito variável c, como estas telaçÕes [H’iHimein em nossos
dias, serão estudadas no próximo capítulo.
A carnaubeira, palmeira que recobre grandes áreas dos vales secos .1" Açu,
do Apodi-Moçoró, do Jaguaribe e do Acaraú e é abundante n . inólb São Francisco
(Foto n.° 17), tinha uma grande importância .1. vido il multiplicidade de
utilidades que apresentava. Vários foram un visitantes a quem ela impressionou, a
ponto de o famoso sábio AmicoÍz afirmar que ela “fornece uma madeira muito
linda, forte e du- > »"'I com que aqui se fazem as armações dos telhados, dá
também

A Terra e o Homem no Nordeste 195


tinu cera que, mais bem purificada e clareada, daria velas excelentes; >i‘-sim
mesmo como é, constitui a única espécie de iluminação usada; com suas fibras
sedosas, fabricam-se cordas c urn fio muito resistente, ii miolo das folhas,
depois de cozido, dá um verdadeiro legume, mais
■ Mirado que a couve, c as folhas inteiras servem de forragem muito
IIIiltiliva para o gado. Na província do Ceará, passa como um provi rbio que,
onde a carnaúba não falta, um homem possui tudo de 'lia necessita para si e
pata o seu cavalo7'. (10) Apesar de todas essas utilidades, não era dada à
carnaubeira a importância que ela merecia
• i I.I freqüente nas épocas de seca serem derrubadas carnaubeiras
novas piit.i alimentar o gado. Só na segunda metade do século passado é que
■ ii governos provinciais começaram a proteger a famosa palmeira,
proibindo que se derrubasse a árvore para tirar as folhas. A colocação da
m i 110 mercado internacional e a $ua valorização despertaram interesse ilo-.
proprietários de carnaubais, e a extração da cera passou a ser em limpais dias.
como veremos no próximo capítulo, uma das principais ali cidades econômicas
rurais de grandes áreas do Sertão. A extração ilii u ra de carnaúba é hoje uma
das fases de mais importância do
• iili ndário agrícola de grande parte do
Ceará, doRio Grande do Norte
• do Piauí.
Assim, analisando-se a evolução econômica do Sertão, observa-se iilim
corta semelhança com o que ocorreu no Agreste. Dizemos seme- IIiiiiiçii o
não identidade porque as dificuldades dc comunicação do Ser- Mi mm a
região da Mata eram bem maiores que as do Agreste, aear-
ii 11111»Io o encarecimenro dos produtos agrícolas, como tambem
difícul-
In a colocação dos mesmos. Ficou, assim, o Sertão mais “ilhado”.
In ir nfustndo dos progressos que se faziam na região mais desenvol-
> iil.i Também no Sertão as áreas úmidas mais favoráveis à atividade
ii|nl*iil.i constituem uma pequena percentagem da superfície total, ao
Minniirio do que ocorre no Agreste. Por isto é o Sertão, ainda hoje. uma área
onde predomina o critério extensivo, enquanto o Agreste i dominantemente
agropecuário, onde avultam economicamente a poli* MIIMII.I c uma pecuária
com tendência a ternar-se intensiva. À seme- IImin, ;i que salientamos deriva
do fato de ambas as regiões haverem MIIIU | a'VOadas por criadores de gado, e
de ter sido a pecuária a razão di i < du conquista e do povoamento regional.
Com o aumento da po- i" »b" .tu desenvolveu-se em uma e outra,
primeiramente a agricultura de
iiliM'.icucia. depois, como complemento desta, a cultura da cana-de-
iii iii .ii i- o indústria dc rapaduras. Na segunda metade do século H
VIII, iis duas regiões passaram a ser atingidas pelo ciclo do algodão, tiiiiinmlo-
sc esta malvácea a cultura dominante. Cem anos depois, a

A Terra e o Homem no Nordeste 197


f l<i) Agassiz, Luís, Viagem ao Brasil (1865-1866), pág. 539.
parLÍI* de 1840, chegou a vez do café, que sem roubar terras ao algodão, uma
vez que era cultivado apenas nas manchas úmidas de altitude, tornou-se, até a
segunda década do nosso século, um produto de grande importância nas duas
áreas. Hoje, com as facilidades de comunicação, o Agreste voltou-se para a
policultura e a racionalização da pecuária, enquanto o Sertão mais
vagarosamente vai transformando sua organização econômica c cultural.
Houve, assim, como no todo brasileiro, uma sucessão de ciclos econômicos.

PARCERIA E TRABALHO ASSALARIADO NA ECONOMIA SERTANEJA

A pecuária é hoje, como foi no passado, a grande riqueza do Sertão,


apresentando-se ora como atividade econômica quase exclusiva, ora em sui
generis associação com o algodão. As fazendas, quase sempre sediadas à
rnargem ou nas proximidades dos grandes rios, estendem- •se por léguas pelo
interior das caatingas, isto porque, nas margens dos principais rios como o São
Francisco e, mais acentuadamente, nas várzeas do Açu, do Apodi-Moçoró e do
Jaguaribc, a sucessão hereditária dividiu as propriedades de tal forma que elas
se rornatam estreitas c alongadas, tendo algumas braças dc testada na margem
do rio, por quilômetros de comprimento, penetrando as caatingas do interior.
E é a extensão que possui à beira-rio, na várzea, que indica o seu valor, sendo
as terras das caatingas quase sempre desvalorizadas.
O regime de criação nas grandes fazendas sertanejas pouco evoluiu nos
últimos anos, salvo em certas regiões mais favoráveis como os Ca- riris Velhos
da Paraíba, o chamado Sertão Baixo de Pernambuco e o Sertão alagoano, que
analisaremos depois. Nas maiores extensões, sobretudo nas áreas baianas e
pernambucanas drenadas para o São Francisco, c no Sul e Oeste do Piauí,
porém, domina a pecuária ulira- extensiva com gado criado solto, cm campo
aberto, produzindo animais de pequeno porte e peso (de 8 a 9 arrobas) e que sò
chegam ao ponto de açougue aos 6 anos.
Esta pecuária não dá grandes rendimentos nem também grandes
despesas. Os fazendeiros vivem, em geral, nas cidades do interior mais
próximas às suas fazendas, onde sc dedicam a outras atividades econômicas,
sobretudo ao comércio. A fazenda é administrada pelo vaqueiro e ele lá
demora-se, quando o faz, apenas na estação das chuvas, que se estende, nos
anos bons, de outubro e novembro — “época das trovoadas” — ate março ou
abril. Neste período a temporada no campo 6 itgíâdável, uma vez que a
caatinga está verde, a água é abundante, as vacas são ordenhadas permitindo
que se use o leite e se faça requeijão puta as refeições, e as “criações” gordas
oferecem bons pratos. Em março ou abril, quando as águas começam a
escassear, é época do regresso, ficando a propriedade e o rebanho aos cuidados
do vaqueiro,
I nesta “estação chuvosa” que o proprietário fiscaliza a atenção do
vaqueiro, mandando consertar cercas, currais e casas, e adquire animais

199 Manuel Correia de Andrade


llingros dc outras regiões para engordá-los e vendê-los para o açougue
• inundo, terminada a estação chuvosa, o pasto torna-se escasso.
No estio o pasto não é suficiente e o gado é retirado para as •niits onde há
pastagem mais abundante. Estas serras são eonstdera- - Ir, “o refrigério” do
gado, e a sua existência é a razão de ser da permitia sertaneja em grandes áreas,
No Sertão baiano o gado do Vale
II ■ São Francisco é levado para as “serras” que servem de limite entre
i Ihihia, de um lado, e Goiás e o Piauí, do outro. São as “gerais”. Esta migração,
conforme a intensidade e o período das chuvas, sabendo-se li irregularidade
pluvial dos climas semi-úmidos e semi-áridos, inicia- ftc, geralmente, em
março c abril, permanecendo o gado lá geralmente iiir outubro. O gado já está
tão acostumado a essa migração que mui-
h. r. vezes ele a faz sozinho, sem necessitar ser conduzido. Com a queda ilar,
primeiras chuvas, porém, vão os vaqueiros às “gerais” buscar o u Linho que lá
ficou por cinco ou seis mcscs inteiramente livre, em vldrt quase selvagem. Este
regresso com as primeiras chuvas é neces- «ili lo porque, se o gado lá
permanecer neste período, c atacado por uma iiii léstia chamada vulgarmente
de “o toque”.
]\rn Pernambuco, nas bacias dos afluentes do São Francisco, faz sc
iiunbém esta migração sazonal; assim, o gado do baixo Pajeú, por tntrmplo,
conforme os rigores da estiagem, é levado para as serras de
• .... Imo ( Arapuá, ou para o alto curso deste rio, para Serra Talhada, onde mi
iiucndeiros alugam cercados a fim de não só disporem d’água, como
aproveitar o restolho das culturas de algodão, fava e milho, aí abundam c. Para
o alto Pajeú — Municípios de Tabíra, São José do Egito r liiipetim, sobretudo
— também são levados os rebanhos dos Cariris piuiiiLiiujs. Trazem-nos ainda,
se dispõem dc terras, para as margens dn ‘mu Francisco onde, em geral,
cultivam capim fartura e cabeludo,
i mdo arraçoar o gado f Foto n.° 18). As fazendas são muito extensas iLiI
Sertão uma vez que são necessários 10 hectares de terras para ali- HM uiiiv um
boi, enquanto no médio São Francisco, a montante da foz do lllii ' o nnde, são
suficientes de 3 a 6 hectares por cada rês. Domina, um• mi Sertão baiano, o
gado crioulo “pé duro”, entretanto, procuram Ini lliotMr esse rebanho
introduzindo reprodutores zebus das raças Gyr c i I' lnii Por isto mesmo
costumam cercar as melhores áreas da proprie- il.idi , irservando estas
“mangas” para os seus próprias animais.

A Terra e o Homem no Nordeste 200


No Vale do Paraíba também costumam fazer migrações; o gado :^ssa o período
chuvoso na “ribeira” e na seca sobe para as serras do Teixeira, do Jacararé e de Poção.
Na ribeira domina o campo aberto, hoje interrompido por diversas “mangas”, enquanto
nas serras o gado pasta nos roçados já colhidos, aproveitando o restolho das
plantações; alimentação suplementar, como a denomina com muita propriedade o aéo-
economista Dirceu Lino de Matos. Q)
A chapada do Araripe é ponto para onde converge tanto o gado pernambucano
como o cearense; é trazido quase sempre em maio, ( 66) na estação seca, a fim de
aproveitar o “capim agreste, o quicé, a mu- cunam, o taqui, a flor e a vagem do
visgueiro, o fruto e a flor do maracujá etc.”, e é retirado com as primeiras chuvas para
que não seja .•cometido, como nas Gerais, pelo “toque”. Assim, em quase toda a .irea
sertaneja a migração sazonal é um hábito que se repete todos os anos. Quando o
proprietário não a faz anualmente, necessita recorrer c ela nos anos mais secos em que
o “inverno” não chega.
A hgura central de trabalhador em uma fazenda é o vaqueiro, que cuida do
rebanho, administra a propriedade e, na ausência do proprietário, dá ordens aos
trabalhadores e agregados. A sua remuneração às vezes é feita pela “quartiação”, isto
é, o vaqueiro recebe um quarto dos bezerros, potros e cabritos nascidos na fazenda,
sendo a partilha feita pela sorte, aproveitando um dia em que o proprietário esteja na
fazenda. Quando este é mais liberal, conserva essa forma tradicional de pagamento em
toda a sua plenitude, permitindo que os animais do vaqueiro sejam criados ao lado dos
seus, como se fossem animais “da fazenda”. Outros, porém, achando que os animais
crescem mais “com a vista do dono” e que ele, ao contrário do vaqueiro, está ausente a
maior parte do tempo, temendo que nas ocasiões de seca os seus animais sejam
relegados em benefício dos do empregado, exigem, então, que o vaqueiro lhes venda
os animais que a ele couberam, logo após a partilha. Tiram, assim, a possibilidade de um
dia o vaqueiro vir a ser também fazendeiro, ter um rebanho próprio. Com a introdução
de touros da espécie zebu, de origem indiana, melhorando os padrões do gado, e a
valorização da carne sempre em ascensão, os fazendeiros estão preferindo abandonar o
sistema tradicional e passam a pagar aos vaqueiros um salário semanal que raramente
alcança os níveis do salário mínimo. Em 1960, encontramos na Chapada do Apodi, no Rio
Grande do Norte, a “quartiação” exercida em toda a sua plenitude, uma vez que até o
leite e o queijo apenas na estação chuvosa eram dados ao va- quciro, que podia usá-lo
na alimentação e vender as sobras na feira. Convém salientar que o leite no Sertão só tem
valor comercial in nalura nas proximidades das grandes cidades, sendo transformado em
requeijão e em queijo de coalho nas fazendas mais distantes. O queijo com rapadura e
carne de bode constituem os alimentos cotidianos do sertanejo, bem superior, portanto,
quanto ao valor nutritivo, à farinha com peixe seco consumida na região da Mata.
Parece à primeira vista que o gado criado solto, à lei da natureza, permite ao
vaqueiro uma vida morigerada, de pouco trabalho, este, porém, é árduo e contínuo. Passa
o vaqueiro grande parte do tempo montado a cavalo percorrendo a fazenda, fiscalizando
as pastagens, as cercas e as aguadas. Nas migrações, conduz o gado a lugares distantes na

202 Manuel Correm de Andrade


66 Pinheiro, Irineu, obra citada, págs. 26 e segs.
ida c no regresso, visitando-o algumas vezes durante o “refrigério” para informar-se do
estado do rebanho. No “inverno”, com o gado recolhido às “mangas", reúne os bezerros à
tarde para que durmam presos, e ordenha as vacas pela manhã. Sua família se encarrega
da fabricação, por processos rotineiros, do queijo e da coalhada. Neste período é que
todos cuidam da reconstrução de cercas e currais; zelam pouco pela casa de taipa onde
residem, principalmente depois que o proprietário eliminou a “quartiação”, pois o
pagamento cm moeda é considerado pelo vaqueiro como um esbulho parcial do seu
salário.
Cabe ainda ao vaqueiro, auxiliado pelos companheiros das fazendas da redondeza,
reunir o gado nos currais e assiná-lo com a marca do dono, com ferro em brasa. Também
é trabalho seu a doma dos potros, serviço em que muito se arrisca, pois os animais bravios
reagem muitas vezes à montaria, obrigando-o a realizar grandes proezas.
F. a época seca, porém, o pior período da vida do vaqueiro; nem sempre a migração
sazonal c feita, havendo propriedades em que só é necessária a sua realização nos anos
mais secos, sendo necessário, então, o gado ser alimentado. Geralmente nessas regiões as
cactáceas são abundantes e por isto são batizadas de “áreas de espinhos”, como ocorre em
Pernamhuco com o vale do Moxotó. Quando existe o res tolho dos roçados de algodão,
feijão, fava c milho, costuma-se usá-lo na alimentação do gado; às vezes se usam também
concentrados, como o caroço dc algodão ou ramas de certas árvores como a caatingueira,
o umbuzeiro, a jurema, a ingazeira, o angico, o tamburlm etc., que têm de ser podadas
pelo vaqueiro. As cactáceas, como o mandacaru e, nos anos mais secos, o facheiro e o
xique-xique, têm de ser queimadas antes dc ser dadas ao gado, do mesmo modo a
macambira que, além de ser queimada, deve ser picada para poder ser dada aos animais.
Às vezes os animais esfomeados comcm as cactáceas no campo sem que tenham
sido submetidas à rudimentar preparação, o que

A Terra <? o Homem no Nordeste 203


ihes poderá ser fatal se a cactácea escolhida for a pequena e espinhosa quipá. A lida
com o gado na caatinga cheia de galhos e espinhos é das mais difíceis, necessitando ter o
vaqueiro indumentária própria e característica para enfrentá-la. Para correr o gado ele
usa sempre chapéu, gibão, jaleco ou peitoral, calças, perneiras e luvas, tudo de couro do
chamado veado caatingueiro. Tem sempre -aos pés um par de esporas e nas mãos uma
chibata de couro, indicativa de que, sc não está mentado, pode fazê-lo a qualquer
momento. O maior problema com que ele se defronta é o da água, já que às vezes 0 gado
tem de ser conduzido por dezenas de quilômetros até os hebedouros. Daí o costume de
deixar o gado sem beber durante 48 horas e de se cavar cacimbas no leito dos rios.
Cacimbas que vão sendo aprofundadas à proporção que baixa o nível do lençol d'água;
são quase sempre cercadas de um lado, para que os animais não destruam seus barrancos,
c aí eles bebem água, urinam, defecam, transmitindo, assim, as doenças de que são
portadores. Nicolau Athanassof, em relatório ao Governo pernambucano nos últimos
anos da década de 1921-30, chamava a atenção contra o perigo deste uso que poderia
contaminar todo o rebanho, propagando as mais nocivas epizootias. (67)
Em algumas áreas vêm sendo cavados poços que melhoram consideravelmente as
condições da criação. Tsto se deu a partir dc 1950, 11a Chapada do Apodi, onde o lençol
d’água é encontrado a apenas 70 in de profundidade. A existência dc água durante todo o
ano permite que o gado permaneça na chapada calcária de janeiro a dezembro, ao
contrário do que ocorria antes, quando ele só poderia ficar nela na estação chuvosa. A
importância da água é tal, que nessas fazendas o poço e a casa de máquinas que
bombeiam água são, ao lado das manjedouras, as únicas construções de alvenaria, as quais
contrastam com a pobreza das de taipa habitadas pelos vaqueiros.
Além dos vaqueiros, têm as fazendas alguns empregados pcrce hendo salários em
dinheiro, dentre os quais se destacam os carreiros. Sua importância decorre do uso do
tradicional carro-de-bois, que vai diminuindo de ano para ano com a abertura dc novas
estradas e o aumento do número de caminhões. Na reahdade, tem sido o caminhão,
nessas duas últimas décadas, o grande conquistador do Sertão, o veículo que vem
quebrando estruturas seculares e transformando os gêneros de vida delas decorrentes, ü
carreiro que páchorrcntamente, usando avental e chapéu de couro e de vara ao ombro,
conduz pelos caminhos das caatingas os carros puxados por duas ou três juntas de bois, é
auxiliado no seu mister por seus filhos dc mais de dez anos de idade, que aprendem com
o pai os mistérios de uma profissão que vem sendo transmitida de geração em geração.
Os tangerinos ou tangedores também constituem uma outra profissão em vias de
desaparecimento, estando o seu campo de ação limitado aos sertões mais distantes,
devido à concorrência do caminhão que transporta o gado às cidades mais afastadas.
As áreas hoje de maior trabalho para os tangerinos são aquelas que do sertão do
Piauí demandam a cidade dc Araripina. em Pernambuco; as que do Norte da Bahia —-
sertão de Rodelas c Raso da Catarina —• demandam as cidades sertanejas de
Parnamirim, Salgueiro e Arcovcrde, em Pernambuco, atravessando o Rio São Francisco
em Glória e em Barra cie Tarrachil; os caminhos que, partindo do Norte de Minas e do
Sul da Bahia, convergem para Propriá penetrando em Sergipe por Siraão Dias; ou ainda
os que de Propriá demandam Caruaru. Maceió e Recife.
Os tangerinos conduzem a botada como o faziam no tempo de Antonil; residindo
nas cidades e vilas onde têm mais facilidade dc encontrar trabalho, na realidade passam a
vida a varar os sertões, percebendo salários. Geralmente acompanham as boiadas a pé,

67 Athanassof, Nicolau, A Indústria Pastoril,


A Terrapág.
e O255.
Hnmerrt MO Nordeste 204
havendo porém, junto ao gado alguns cavalos nos quais eles sc revezam algumas horas
durante a viagem.
Às vcz.es os tangerinos residem em alguma fazenda onde plantam “roça”; moram
cm choupanas com telhado de uma só água, chamadas cm Sergipe de ‘‘testas de bode”.
As camas de que dispõem, muito pobres e formadas por um estrado, sobre forquilhas, são
chamadas dc “isidoras". À hora do almoço toda a família sc reúne em torno de 'um
alguidar de barro de onde se retira com as mãos o alimento. A única refeição diária c
constituída, quase sempre, de feijão, farinha, pimenta e sal, às vezes acompanhada de
carne.
Quando na fazenda existem áreas de melhores solos, costumam os proprietários
permitir que seus moradores e os das vilas c cidades próximas façam roçados. Nessas
áreas desenvolve-se também a agricultura de algodão mocó, que c plantado de três cm
três ou dc quatro em quatro anos associado ao feijão e ao milho. Muitas vezes os proprie-
tários fazem por sua conta grandes roçados deste tipo, contratando para isto assalariados.
A maior parte, porém, prefere entregar a terra a agricultores, como se íaz no
Agreste, para a cultura de. algodão e de cereais, ficando com o roçado nos dois meses
mais secos do ano para apascentar o gado. Apesar do algodão mocó ser arbóreo,
permanente, o gado limita-se a comer as suas folhas, a “apará-lo”, fazendo que com as
primeiras chuvas cie "rebente” viçoso. As terras cm geral não são arrendadas, preferindo
os proprietários entregá-las aos agricultores sob regime de parceria. Dentre estas
destaca-se a “meia”, de uso generalizado no sertão norte-riograndensc, na qual os
proprietários fornecem a terra e a$ sementes, financiando o agricultor durante a
formação e o trato do roçado, Após a colheita, recebem como pagamento a metade da
produção de algodão e o restolho das culturas, ficando o agricultor com a outra metade
do algodão, com os cereais — milho, feijão e fava — c com as “frutas de rama", isto 6, o
jerimum, a melancia e o melão. (’) Quando o roçado se localiza em terras de vazante, o
proprietário exige também a meação dos cereais e das “frutas de rama".
Em algumas áreas sertanejas, em condições semelhantes à anterior, usa-se a "terça"
em lugar da “meía". Neste caso cabem dois terços da produção ao proprietário, licando o
agricultor com apenas um terço. Interessante é que na Paraíba chamam esta parceria de
“meação” e, para distingui-la da “terça”, dão à verdadeira “meação" o título de “meação
meio pelo meio". (B) No Piauí o processo da “quarta" não é usado somente na pecuária, Ioi
estendido também à agricultura. Assim, ao aproximar-se a estação chuvosa, os
agricultores recebem dos fazendeiros as áreas que devem ser cultivadas e as sementes dc
milho, feijão, fava, algodão etc. Cabe ao agricultor a limpa do mato, o plantio e a capina
do mato, mas caso haja necessidade dc foliar formigas ou de usar ervicidas, os “venenos”
são fornecidos pelo fazendeiro. Chegada a época da colheita, o agricultor paga ao
proprietário de um a dois alqueires por cada tarefa. Caso o agricultor deva algum
dinheiro ao proprietário, este poderá cobrar a dívida, exigindo que o pagamento seja feito
em espécie.
A "sujeição” típica da região da Mata também é encontrada no Agreste e no Sertão.
Por ela os foreiros se obrigam a dar ao dono da terra um dia semanal de trabalho gratuito,
o famoso "cambão” contra o qual tão ingentemente lutavain as Ligas Camponesas. É uma
obrigação pessoal, o que !cva em certas regiões ao costume de não se permitir que o
foreiro pague a outro para que ele execute a tarefa, tendo dc prestá-la pessoalmente,
como uma homenagem ao proprietário. Se levarmos em conta o valor dc um dia de
trabalho, sabendo-se que o trabalhador presta anualmenie 52 dias de trabalho gratuito ao
proprietário, concluiremos que ele paga um aluguèl exorbitante pela pequena área de
cultura e pela cboupana — às vezes construída pore oele
A Terra próptio
Homem — cm que
no Nordeste 205 habita. Vê-se,
assim, nas relações de trabalho acima especificadas, a grande desvantagem levada pelo
agricultor que, não possuindo terras, vê-se obrigado a Sujeitar-se a condições de con

206 Manuel Correia de Andrade


tratos verdadeiramente leoninos. Devemos lembrar ainda que, plantando em
região seca, estão os agricultores sujeitos a perder o trabalho se o “inverno” não for
regular, o que ocasiona freqüentes prejuízos. O arbítrio do proprietário também
funciona como verdadeira espada de Dámocles sobre a cabeça do agricultor, de vez que
ele, não tendo contrato escrito, não possui garantias de permanência na terra, podendo
a qualquer momento ser despedido e ter de procurar área para trabalhar em condições
idênticas em outra fazenda.
Algumas áreas sertanejas vêm tendo maior desenvolvimento e transformando
estes característicos estruturados em três séculos de exploração da terra. Assim,
municípios sertanejos de Alagoas como Jacaré dos Homens, Major Isidoro, Batalha,
Palmeira dos índios e Pão de Açúcar vêm desenvolvendo largamente a pecuária de corte
e de leite, com base na cultura da palma. Na cidade de Batalha há mesmo uma moderna
fábrica de laticínios que recebe, quase que apenas desse município, cerca de 11.500
litros diários de leite. Aí, os palmais de hectares e as fazendas, ao lado da criação de
gado com alta percentagem de sangue holandês, fazem a engorda de bois trazidos do
Norte de Minas Gerais e do Sul da Bahia e que se destinam ao consumo do Recife e
Maceió, Nessas fazendas que engordam de quatro a cinco mil bois por ano, usam o
trabalho assalariado. Os empregados que trabalham no trato do gado em caráter
permanente, são contratados eventualmente entre moradores de cidades e vilas
próximas, assalariados para o plantio e trato do palmai. Na cultura da palma geralmente
os homens cavam a terra e as mulheres plantam as “raquetes”. Os salários das
mulheres correspondem a dois terços dos salários dos homens. Os moradores também
não têm direito de cultivar a terra para si e estão obrigados a dar cinco dias de trabalho
por semana. Apesar de desejarem ter acesso à propriedade da tem, não podem adquiri-
la, porque pertencem a grandes e médios proprietários que não querem vendê-la.
A jornada de trabalho começa ao nascer do sol para interromper-se às dez horas,
quando há uma hora de folga para a primeira refeição; esta é constituída por feijão de
corda, farinha e café, sendo feita no próprio campo. A segunda refeição é feita à noite,
em casa, compreendendo o mesmo cardápio, acrescido de pequenos pedaços de carne
ou peixe seco nos dias que seguem à feira. Condições de trabalho tão pesadas fazem
com que grande parte dos sertanejos desta área procure migrar para o Sul do país,
saindo grande quantidade de caminhões tcdas as semanas com este destino. Esta
migração aterroriza os fazendeiros ante o problema da falta de braços. Assim, o
desenvolvimento da pecuária, aumentando a produção de leite e de carne, acarreta
uma maior circulação monetária e elimina gradativamente as tradicionais formas de
parceria.
Tentativas procurando melhorar as condições de produtividade do gado c criar
outras áreas leiteiras, vêm sendo feitas com base na cultura da palma em outras áreas,
como o Cariri paraibano e o Vale do Acaraú, no Ceará, (68) zonas relativamente próximas
das grandes cidades nordestinas: Recife e Fortaleza. Certamente se houver sucesso nos
planejamentos, transformações semelhantes far-se-ão sentir nas relações de trabalho.
Nas margens do Rio São Francisco e em suas ilhas vem se desenvolvendo
consideravelmente nos últimos anos. graças à irrigação, a atividade agrícola. As

68 Pímentel Gomes, O Nordeste dos Geógrajos, em "Observador Econômico e Financeiro”, págs. 50 a


55.
207 Manuel Correia de Andrade
principais culturas irrigadas são a cebola, a cana-de-açúcar c as fruteiras. As culturas de
vazante, feitas desde o período colonial, foram ampliando consideravelmente a sua área
desde que começaram a fazer irrigação, graças à elevação da água do rio por rodas d’água,
(6) A partir de 1951, ao lado destas, surgiram as moto- -bombas e nos últimos quinze anos
as bombas elétricas. A abundância de água e o desenvolvimento da agricultura vieram
dar serviço, em condições estáveis e com possibilidades dc rendas superiores ao trabalho
na pecuária, a trahalhadores sem terras. Os maiores lucros, porém, ficam com os
proprietários da terra que pouco a cultivam.
Os meeiros recebem do proprietário a terra, a água, a semente — cobrando 50% do
preço desta — o dinheiro, enquanto não há produção, adubo e inseticida. O produto é
obrigatoriamente vendido ao dono da terra pelo preço corrente no mercado. Cabe ao
meeiro, inicialmente, limpar e aguar o terreno por uns dez dias, usando a irrigação por
infiltração e por inundação. A água tanto é elevada por processos mecânicos, como
manuais, usando neste caso latas c cuias (Foto n.“ 19). As sementes são importadas das
ilhas Canárias, uma vez que a nossa semente não produz cebola dc qualidade que permita
a entrada do produto nos mercados citadinos, Após a aguação vem a adubação com
esterco de bode e a semeadura. Vinte a quarenta dias depois, a cebola é transplantada
para canteiros definitivos, de onde será colhida três a quatro meses depois. As duas
limpas que a cebola leva antes da colheita são feitas a mão, empregando neste trabalho as
mulheres e as crianças; depois de colhidas são postas em estaleiros onde ficam sendo
aguadas de cinco a sete dias; cm seguida é feito o “restea- mento”, no qual elas são
arrumadas em tranças com perto de oitenta centímetros dc comprimento, e vendidas
para o Sul, para onde são
A Terra e o Homem no Nordeste 209
transportadas em caminhões. Quando o proprietário cultiva a cebola por sua
conta, o que não é freqüente, usa mão de obra assalariada, conforme a maior ou
menor necessidade de braços. A cebola tem dado grandes rendas a pessoas,
proprietários, sobretudo, que não estavam habilitadas a investir bem estes
capitais. Daí notabilizar-se Cabrobó, maior centro “ccboleiro” do Nordeste, pela
grande venda de caminhões e revólveres, uma vez que julgam os “ceboleiros”
que a sua importância social se elevará cada vez mais em relação à quantidade
de caminhões e dc revólveres que possuírem,
A cana-de-açúcar é cultivada largamente em vazantes e em áreas irrigadas.
É, depois da cebola, a cultura mais importante, estendendo- -se nas margens do
rio e nas ilhas. Pequenos engenhos, movidos a tração animal — bois e cavalos —
a óleo diesel e a eletricidade, transformam a rica gramínca em rapaduras
vendidas cm toda a região sertaneja. Interessante é que velhos engenhos de bois
passam diretamente a ser movidos a eletricidade, pulando, quanto à técnica,
uma série de tipos de engenhos. O plantio de cana é feito em geral por meeiros
que recebem do proprietário a terra c o transporte da cana até a fábrica. Eles
cultivam, limpam e cortam a cana, sendo após a moagem a produção dividida;
50% para o senhor-de-engenho e 50% para o meeiro; este recehe, às vezes, a sua
parte em produto, às vezes, em dinheiro. Quando os proprietários cultivam a
cana-de-açúcar, pagam aos assalariados os mesmos preços que são pagos pelos
ceboleiros.
As relações entre proprietários e meeiros são do mesmo tipo que as
anteriores no cultivo da mandioca, do arroz, do feijão, do milho, do algodão c
dos demais produtos cultivados nas margens do São Francisco. As culturas
permanentes, laranjeiras, mangueiras, bananeiras etc., são feitas apenas pelos
proprietários.
Entre os projetos de irrigação a serem implantados na região são-
franciscana, figura o da instalação de uma grande usina de açúcar com
capacidade de produção de cerca de 1.000.000 de sacos por ano. devendo ser
uma das maiores do Nordeste. Há, também em implantação, o projeto
Bebedouro, graças à ação da SUDENE e da SUVALE, para cultivo de pastagens
visando à produção de carne e, já implantado, cm produção, o de cultura de uva
de mesa (Molina, em Santa Maria da Boa Vista) e dc vinha (CINZANO).
Nas margens do São Francisco há uma importante atividade arte- sanal
que é representada, corno nas praias, pela confecção de rendas de bilros, pela
tecelagem de redes e pela extração do “sal da terra” que é largamente consumido
não só em uso doméstico, como usado no processo de salga dos peixes. A pesca
vem se desenvolvendo consideravelmente e a industrialização do peixe por
processos rotineiros
vem tendo grande desenvolvimento, uma vez que este produto penetra
intensamente no mercado consumidor rural de todo o Nordeste, à proporção que o
bacalhau e o charque recuam devido aos elevados preços que alcançam.
Rotineiro e interessante é o processo de obtenção deste sal; o trabalhador
retira porções de terras argilosas e salinas dos baixios das margens do São

A Terra e o Homem no Nordeste 210


Francisco, no período das águas baixas. Esta argila é depositada em potes de barro
com o fundo furado vedado por paus. No fundo do pote é feita uma grande
abertura por onde se põe areia e, com ela, a argila salgada com água. O sal
dissolvido pela água é filtrado pela areia e vai cair em uma vasilha posta sob a
“trempe”. Obtida a água salgada, leva-se ao fogo e ela, aquecida, evapora-se,
deixando o sal no fundo da “panela”. O sal é, então, posto em um saco, lavado para
tirar as impurezas e posto para secar enterrado por vinte e quatro horas. O pote de
barro é chamado na região de “estilador”, o tripé em que ele é colocado chama-se
“jirau” e a vasilha que recebe a água salgada é a “lata”. A argila, após a sua
utilização, é colocada no solo ao lado dos “jiraus” para servir de pára-vento (Foto n.°
20). Obtém-se, geralmente, em média, um quilo- grama de sal em cada 18 de terra
salgada.
Nos vales secos do Rio Grande do Norte e do Ceará o interesse maior dos
grandes proprietários volta-se para a exploração da cera de carnaúba, e essa indústria
extrativa ocupa a maioria dos braços durante alguns meses do ano, comandando
verdadeiramente o calendário agrícola. Sua influência na paisagem é muito intensa,
já que ocupa, desde o Vale do Açu até o do Parnaíba, todas as terras de várzea dos
cursos dos rios que demandam o litoral setentrional; formam autênticas florestas
galerias que, nos pontos em que as várzeas são muito largas, como ocorre no Açu, a
jusante da cidade deste nome, no Apodi, nas proximidades desta cidade e da de
Moçoró, e no Jaguaribe, em Russas e em Limoeiro do Norte, alcançam alguns
quilômetros de largura. Há uma dominância completa dos carnaubais nativos,
calculando-se que só na várzea do Açu existam seis milhões de carnaubeiras
ocupando uma área de, aproximadamente, vinte e cinco mil hectares, isto é, mais de
62,5% da superfície da mesma. Nos solos mais favoráveis a densidade vegetal é de tal
ordem que se caminha dificilmente no carnaubal e torna-se uma operação penosa e
perigosa o corte de suas folhas na safra. Nas várzeas, porém, existem áreas amplas
não ocupadas pelo carnaubal e utilizadas pela população para cultura de
mantimentos, na construção de habitações e na secagem das folhas. Muitos destes
claros são devidos a incêndios e à destruição feita, no passado, quando a cera de
carnaúba não tinha grande valor econômico e inúmeras palmeiras foram derrubadas
para ceder terras à lavoura, sobretudo de algodão, nos
212 Manuel Correia de Andrade
períodos em que este produto alcançava preços elevados. Também nas épocas
de seca, quando escasseava o alimento para o gado, costumava- -se derrubar os
“quandus” — carnaubeiras novas — para alimentar os rebanhos. Hoje, quando a
cera está valorizada e a sua exploração dá ao proprietário rendas que no Brasil
quase só se comparam com a fornecida pelos cafezais paulistas e paranaenses, os
carnaubais nativos são conservados e até fazem cultura de carnaubeiras nos
“claros” existentes nas várzeas c nos tabuleiros. Ilá, assim, uma grande
preocupação com a conservação e até com a ampliação dos carnaubais c com o
aumento da produção da cera, que mantém boa cotação no mercado
internacional.
A cera dc carnaúba atravessou uma fase crítica no período 1966-9, na qual
até a sua colheita era anti-econômica, porque os custos de produção eram
superiores ao valor do produto. Os proprietários passaram a fazer a colheita
apenas uma vez cada dois anos para obter maior produção e compensar o baixo
preço. Houve até proprietários que se dispuseram a derrubar o carnaubal para
ocupar a área com culturas que dessem maior renda. Nos últimos anos houve
intervenção do Banco do Brasil, que melhorou os preços do produto fazendo,
outra vez, crescer a produção.
O carnaubal não marca apenas a paisagem e ° calendário agrícola, como já
salientamos. A estrutura fundiária está diretamente ligada a ele e às terras da
várzea. Como esta é a única produtiva no meio dos tabuleiros pouco férteis,
secos e desvalorizados dos interflúvios, as velhas sesmarias, ao serem divididas
pela sucessão hereditária, o foram cm fatias que partem da margem do rio para
o interior. Daí deriva a forma hoje dominante dc propriedades estreitas, com
algumas braças de “testada” — uma braça corresponde a 2,20 metros — e três a
quatro quilômetros de fundo, e a formação de um habitat linear pelo qual as
casas dos proprietários colocadas à margem da estrada, que é quase paralela ao
rio, apresentam-se como se fossem uma verdadeira povoação, tão próximas se
acham umas das outras. Ilá casos extremos, como um que constatamos, em que
uma propriedade tinha nove braças de frente por seis quilômetros de fundo. É
grande o número de pequenas propriedades, não se concluindo deste fato,
porém, que elas ocupam maior área que as grandes propriedades, uma vez que
só a fazenda Itu tem
12.0 hcctarcs, incluindo em seus domínios várzeas, tabuleiros, lagoas ctc. A
própria lagoa do Piató, que é considerada muito subdividida, tem grande parte
dc sua superfície encravada em uma propriedade de 500 hectares. São
propriedades bem extensas, sobretudo se considerarmos que toda a várzea do
Açu tem 40.000 hectares aproximadamente. Essas mesmas considerações sobre
a estrutura fundiária no Açu podem ser repetidas cm relação ao vale do Apodi c
do Jaguaribe.
Pela extensão ocupada pelos carnaubais e pela multiplicidade de
aplicações dos produtos da carnaubeira, podemos aíirmat que há um verdadeiro
complexo cultural na região, uma verdadeira civilização da carnaúba que está a

213 Manuel Correia de Andrade


exigir um minucioso levantamento, um verdadeiro inventário que a encare do
ponto dc vista da importância econômica, das influências culturais,
antropológicas e sociológicas, sem esquecer os aspectos históricos.
As casas de taipa são muitas vezes feitas com esteios e pecíolos de
carnaúba, aos quais é juntado o barro; a cobertura é feita, freqüentemente, com
as folhas coladas sobre peças de tronco de carnaubeira; os cata-ventos que
retiram água do subsolo têm suas hastes de carnaubeiras; os cercados e currais
são feitos com tábuas ou lascas do seu tronco; os caçuás onde se transportam
mercadorias no dorso de cavalos e muares são feitos com couro e pecíolos
também desta palmeira; a palha, após a extração da cera, alimenta importante
indústria artesanal de bolsas e chapéus (Foto n." 21) c, se a extração foi feita por
processos mecânicos e a palha ficou inutilizada para esta indústria, é utilizada
como cobertura para o solo, evitando a perda de umidade por evaporação e o
crescimento da vegetação natural, nociva aos roçados. A cera, que é o seu
principal produto, é fonte dc renda segura para os proprietários e de trabalho
durante três a quatro meses por ano para os trabalhadores, È assim um vegetal
de múltiplas utilidades, que cm uma região de parcos recursos atende ao homem
de várias maneiras. Daí dizermos que se pode falar no Brasil em uma civilização
da carnaúba, ao lado da civilização do couro, da civilização da cana- -de-açúcar,
da civilização do ouro e da civilização do café.
Os carnaubais só ocupam os trabalhadores praticamente durante a
colheita, de setembro a dezembro, excepcionalmente até janeiro ou fevereiro, já
que quase sempre eles são nativos e não se usa fazer a capina dos mesmos.
Poucos foram os plantios feitos a partir de 1935 e intensificados depois da
segunda guerra mundial, após 1945, cotn a alta cotação do produto.
Acreditamos que as plantações não se tenham estendido consideravelmente,
devido à tradição do extrativismo da ccra que refreia uma ação mais positiva dos
proprietários mais rotineiros, e ao longo período de espera pela primeira
produção, que c de 6 anos na várzea e de 20 anos nos tabuleiros. Apenas quando
o mato está muito grande costuma-se brocar o carnaubal, o que não se faz
freqüentemente, uma vez que são poucos os vegetais que conseguem desen-
volvcr-sc à sombra dos carnaubais. Tanto assim que, quando o carnaubal á
novo, costuma-se no verão trazer o gado a fim de que ele se alimente com a
vegetação nativa; ao envelhecer o carnaubal, porém, esta vegetação se atrofia,
desaparece e cessa inteiramente a associação
Foto n.' 21 — O trabalho anesannl com a folha da carnaubeira tem grande importância no vale do Jaguaribè, Ceará

A Terra e o Homem no Nordeste 215


gado-carnaúba, apesar de muito bem vista pelos proprietários dos carnaubais que são
também, quase sempre, criadores de gado.
Neste curto período de cinco meses, porém, há muito trabalho na coleta da cera, e os
proprietários sc vêem a braços com a falta de trabalhadores, pois a safra da carnaúba coincide com -a
época da extração do sal, que é outro grande produto regional, e a população pobre divide-se, uns
preferindo trabalhar nos carnaubais, enquanto outros prccurain as salinas. ( ,J) Entretanto, mesmo os
que preferem os carnaubais, a partir de dezembro, quando já sc acha adiantado o corte das iolhas da
carnaubeira e o serviço vai escasseando, transferem-se para as salinas. Participam, assim, com seus
braços, das duas principais indústrias extrativas regionais.

A colheita da cera é muito complexa e. como salienta o agrônomo Pimeotel Gomes, {10) é feita
através de seis fases; a) corte; b) secagem; c) batedura; d) fusão; c) resfriamento; f) classificação.

0 corte c feito por trabalhadores especializados no manejo de uma foice ligada a uma vara
comprida, com cerca de 15 metros, e leve. 0 cortador deve ser bastante hábil para cortar as folhas
sem prejudicar a árvore e sem deixar que cias caiam sobre a sua própria cabeça. 0 salário do
“cortador”, pago por produção, varia conforme o ano, se o inverno foi bom ou mau. No primeiro
caso, de, como meeiro, obtém colheita e exige melhores salários; no segundo, nada tendo obtido
com a sua atividade agrícola, fica à mercê do proprietário do carnaubal. Em 1960 os cortadores
percebiam, em média, de Cr$ 100,00 a Cr$ 150,00 diários. {51)

Cortam as folhas da palmeira mas deixam sempre as “do olho” para que a árvore não morra;
vêm então outros trabalhadores que reúnem essas folhas derrubadas, amarram-nas e, utilizando
geralmente jumentos, transportam as mesmas ao estaleiro. Este é o nome dado ao terreiro onde elas
são postas a secar e onde, à cera, junta-se uma grande quantidade de impurezas. Expostas ao vento,
as folhas ainda perdem dc 20 a 30% da ccra que contêm. Os operários que trabalham neste mister,
em geral mulheres e crianças, são chamados ajuntadores e percebem salários consideravelmente
inferiores aos cortadores.
Após vários dias, quando as folhas já estão secas, são transportadas pelos trouxeiros para um
barracão de madeira onde são guarda-

(9) Petroni, Pasquitle, A Várzea do Açu, pág. 53, avulso n,“ 2. Associação dos Geógrafos
Brasileiros. São Paulo, 1961.
(10) Pimentel Gomes. A Carnaubeira.
(11) Vai verde, Orlando e Mesquita, Miriam Gomes Coelho, Geografia Agrária do Baixo Açu,
pág. 468.

A Terra c o Ho/nem na Nordeste 215

das as máquinas dc bcneficiamcnto. A este barracão dão pomposamente o nome de


“usina”. Quando não dispõem de máquinas, usam o tradicional processo da
batedura, quase desaparecido na Várzea do Açu, mas ainda de uso generalizado no
Jaguaribe. Esse processo tem a grande vantagem de deixar a palha em condições de
ser utilizada na fabricação de bolsas, chapéus e esteiras, e na cobertura de casas. É
perniciosa, porém, por provocar uma queda na produção de cera por unidade. A
maioria dos proprietários, porém, beneficia a cera através dc máquinas a diesel de 5
a 12 HP. Há ainda na região o empreiteiro, que possui a máquina e se instala na
zona produtora, migrando de uma propriedade para outra a fim dc beneficiar a cera
dos pequenos proprietários que não dispõem de meios para adquirir a máquina.
Estes empreiteiros contratam com os proprietários “a olho” o beneficiamento das
arrobas de cera, cobrando urna taxa por arroba. Outras vezes, porém, o contrato é
feito na seguinte base: dois terços da produção são do proprietário e um terço é do
empreiteiro.
As máquinas trabalham sob a direção de um maquinista competente e capaz
de fazer pequenos consertos de que ela necessite, tendo às suas ordens um
banqueiro que transporta as folhas do estaleiro a um banco, deixando-as prontas
para serem usadas na máquina; um ceva- dor que toma as folhas no banco, pondo-
as de três em três na máquina; e um bagaceiro que remove o bagaço da palha da
máquina pata o campo, já que o pó da cera é automaticamente ensacado pela
máquina. O maquinista é o mais bem remunerado dentre estes trabalhadores, en-
quanto os trouxeiros que transportam as folhas do estaleiro para a usina e o
bagaceiro percebem salários que correspondem a 50 ou 60% da remuneração do
primeiro.
No processo do cozinhamento ainda trabalham o mestre ou feitor de cera, o
auxiliar do mestre e o prenseiro.
Após a fusão, a cera é resfriada em recipientes apropriados c de várias
dimensões, seguindo depois para os armazéns das companhias exportadoras que às
vezes necessitam beneficiar a cera, purificando-a. Logo após cia é classificada em
tipos diferentes: a do olho — retirada das folhas ainda não de todo abertas e por isso
de melhor qualidade — em primeira e cm mediana, e a de folhas, que é classificada
em gorda, gordurosa e arenosa. Os preços garantem aos produtores em períodos
favoráveis um lucro tão elevado que conforme a extensão dos seus car- nauhais
residem sempre fora da propriedade, quer nas principais cidades da região (Açu,
Moçoró, Aracati, Russas, Limoeiro do Norte etc.) quer nas capitais dos Estados —
Fortaleza ou Natal — ou até, os mais ricos, no Recife ou no Rio de Janeiro. Só
necessitam ir ao carnaubal no curto período da safra.
Passada a safra da cera de carnaúba e o período de extração do sal, tratam os
moradores de cuidar de suas lavouras de subsistência, utilizando as terras de
vazantes nas margens dos rios e das lagoas. Entre estas desracam-se por sua
extensão e importância, as do Piató c a da Ponta Grande, esta inteiramente
localizada na fazenda Itu, imenso latifúndio com mais de 12.000 hectares. O
calendário agrícola depende mais da variação do nível das águas dos rios e lagoas
que da época das chuvas. Em geral, porém, as plantações se iniciam cm janeiro c
fevereiro com a cultura do feijão associada a do algodão, geralmente da variedade
verdão. Estes vegetais são plantados primeiro, porque as primeiras terras
descobertas são arenosas e eles se desenvolvem bem em solos silicosos. Com a baixa
das águas são descobertos, sobretudo nas lagoas, solos argilosos que se crestam com

A Terra <• o Homem no Nordeste 217


a insolação, onde são plantados o melão, a melancia, o jerimum e o milho — este
nos anos bons, enquanto o sorgo, chamado na região de milho-trigo, é cultivado
nos anos maus. — O sorgo, por fechar muito ao se desenvolver, impede a associação
com outras culturas. Nas lagoas também vem sendo muito cultivado nos últimos
anos, após 1956, o arroz. Em áreas de várzeas, vêm sendo feitas com irrigação não
só estas culturas, como também as fruteiras em geral — mamoeiro e bananeira,
sobretudo. Os proprietários que proíbem aos meeiros as lavouras permanentes para
evitar complicações se quiserem despedi-los, exigem dos mesmos a “meia” do
algodão e a “terça” dos outros produtos. Os meeiros ainda são obrigados a vender o
algodão ao proprietário da terra e pagam juros do dinheiro que lhes é fornecido
durante o período em que a lavoura está a se desenvolver. Quando O ano é seco, a
produção é pouca c ao ser feita a colheita, em agosto ou setembro, o lucro não é
suficiente para pagar os débitos à fazenda, à qual eles ficam presos para tentar o
pagamento no ano seguinte.
Os agricultores utilizam neste trabalho processos rotineiros, a enxada ou o
espeque — bastão de pau branco resistente e com ponta fina — que batendo contra
o solo cava “covas” estreitas e profundas, onde colocam as sementes de sorgo e um
pouco de areia. A profundidade deve ser relativamente grande a fim dc que o
passarinho não destrua as sementes. Apesar do emprego de processos rotineiros, as
terras de vazante e os fundos de lagoas secas são tão férteis que se obtêm, em média,
5-000 quilogramas de sorgo ou 3-500 dc arroz por ha. Os meeiros têm no algodão
sua cultura comercial, vendendo-o logo após a partilha. Os outros produtos, após o
pagamento da terça dos proprietários, eles utilizam na alimentação da família,
armazenando-os para o verão e só nos anos de boa produção vendem a sobra.
Interessante é o processo por eles empregado na conservação de certos cereais
como o feijão; colocanvno em uma lata de querosene em que

218 Manuel Correia de Andrade


haja apenas uma pequena abertura, depois dc cheia vedam esta abertura com
sabão, conservando-se o cereal por muito tempo. Aos produtos qtie obtém da lavra
da terra juntam o peixe pescado no rio ou lagoas e só uma vez por semana comem
carne,
A falta de crédito é um problema seríssimo para os meciros, já que os
empréstimos que lhes são feitos pelos proprietários e comerciantes são muito
onerosos. Em pesquisas que realizamos na Várzea do Açu, em 1960, colhemos
informações de um plantador de sorgo, na Lagoa do Canto da Velha Joana, cuja
produção fora vendida antecipadamente “na palha", O comerciante que financiara
o plantio o fizera com a condição de que o sorgo lhe fosse antecipadamente
vendido por um preço 40 ou 50% inferior ao do mercado. É interessante observar
como essa planta africana, que é um dos principais alimentos utilizados pela
população do Sudão, ao Sul do Saara, teve larga difusão nesta parte do Nordeste.
Chamam-na de “planta dos anos maus", porque tendo um ciclo vegetativo mais
curto que o do milho, é nos anos secos o seu sucedâneo natural. Uma vez cultivado,
desenvolve-se rapidamente dando uma primeira colheita entre 80 a 90 dias e, se o
solo conserva a umidade, produz uma primeira soca após 25 dias e uma segunda
com outros 25 dias, Com a sua farinha faz-se uma série de pratos regionais
semelhantes ao milho. E uma cultura para a qual os governos nordestinos deveriam
voltar as vistas e procurar difundi-la nas áreas secas dos seus Estados; resistente à
estiagem e desenvolvendo-se com pouca chuva, o sorgo seria um alimento
indispensável tanto aos homens como aos animais, pois c também ótima forragem.
Esta cultura, que é feita largamente no Sudão, onde se desenvolveu uma verdadeira
“civilização do sorgo”. na índia, na China e nas regiões centrais dos Estados Unidos,
poderia dar ao gado, como já salientou o técnico americano Klarc S. Markley em
relatório ao Banco do Nordeste, uma forragem excelente e rica cm proteínas.
Considerava-a, como forragem, superior à palma, hoje tão difundida. (69) Achamos
mesmo que a difusão da cultura do sorgo é um dos esteios para o desenvolvimento
da pecuária nordestina c, conseqüentemente, da recuperação econômica regional,
O grande inimigo do sorgo e do arroz é o passarinho, que vem comer as suas
sementes, sendo necessário, nos períodos de produção, manter-se nos plantios
meninos armados de fundas — os pastorcadores — a perseguir as aves famintas.

69 Andrade, Francisco Alves de, Agropecuária e Desenvolvimento da Nordeste, pág. 75.

153 Manuel Correia de Andrade


Os proprietários também cultivam estes produtos e tanto eles como os
meeiros costumam contratar assalariados que eram pagos, em 1959, a 40 cruzeiros
antigos diários com a "bóia”. Entre os meeiros, estes assalariados fazem as refeições
cm companhia dos patrões, o que não acontece quando trabalham para os grandes e
médios proprietários.
A irrigação na várzea, retirando água de um lençol aluvial que está a sete
metros dc profundidade, vem sendo feita faz anos, visando à cultura da bananeira
(das variedades leite e anã) e de outras fruteiras, de hortaliças, de arroz e até, apesar
do seu baixo preço, do sorgo. No governo do Presidente Juscelino Kubitscheck,
passou-se a financiar os proprietários que quisessem adquirir moto-bombas. Muitos
pequenos proprietários adquiriram estas bombas. No Açu e no Apodi várias áreas
de várzea foram irrigadas e cultivadas, dando no visitante uma magnífica impressão
de fartura. Depois, a conservação das moto-bom- bas, a substituição de peças gastas
e quebradas que só podiam ser adquiridas no Recife c em São Paulo, e a falta de
assistência técnica fizeram com que este surto agrícola amainasse. O bispo de
Moçoró, D. Eliseu Mendes, que foi o grande animador do aproveitamento agrícola
dos vales do Apodi e do Açu, também foi transferido da região, perdendo os
agricultores um entusiasta e verdadeiro advogado dos seus interesses. Assim, é
muito precária a situação daqueles que lavram a terra na área dos carnaubais.
Outra atividade agrícola interessante é a feita no leito do rio, aproveitando
algumas fontes existentes próximo à vila do Governador Dix-Sept, antiga São
Sebastião, na margem do Rio Apodi. O “beira deiro”, habitante da margem, cultiva
no próprio leito do rio o alho e a cebola.
Ao baixar a água do rio, deixando o leito quase inteiramente descoberto, os
beiradeiros fazem canteiros onde misturam à areia o estrume de bode, abundante
na região. O canteiro tem sempre nove palmos de largura por vinte e um de
comprimento. A um conjunto de vinte, trinta, quarenta ou até mesmo cinqüenta
canteiros, dão o nome de lastro. Em geral contratam trabalhadores assalariados para
fazer o lastro. Cada assalariado prepara diariamente de cinco a seis canteiros. Fazem
depois o “traçado” do canteiro, revolvendo a terra até que a água do lençol aluvial
chegue à superfície, por capilaridade. Em junho e julho semeiam pessoalmente o
alho das variedades branco e roxo, que será colhido de outubro a novembro,
levando nestes quatro meses duas limpas ou capinas. A mulher c os filhos menores
do “beiradeiro” se encarregam de, com um regador, aguar as plantações duas vezes
por dia, pela manhã e à tarde.
Em outubro e novembro, à proporção que colhem o alho, plantam a cebola,
das variedades encarnada, branca e de leite, as quais são colhidas trcs meses após o
plantio, levando neste período duas limpas. Após a colheita, em janeiro e fevereiro,
vem a enchente do rio que ocupa todo o leito, espalhando a areia e destruindo os
lastros c canteiros que só serão reconstruídos após a estação das águas. A produção é
toda vendida para Fortaleza, Natal, Recife c Salvador, sendo o transporte feito em
caminhões. Desenvolve-se, assim, em pequena área no leito do rio, uma agricultura
de jardinagem na qual trabalham os morífdorcs da margem com suas famílias.

A Terra e o Homem no Nordeste 219


Constitui uma pequena ilha agrícola na imensidão das caatingas onde domina a
pecuária extensiva menos exigente, como os caprinos, uma vez que a vila, que é
pomposamente crismada como “a capital do alho”, acha-se encravada em terras
pertencentes a "fazendas de bodes”.
No Cariri e nas serras frescas há um contraste muito grande com as áreas
sertanejas vizinhas. Os habitantes destes verdadeiros oásis de verdura no meio do
deserto cinzento de caatingas, geralmente não gostam até de ser chamados
sertanejos. Sentem que é maior a semelhança do seu rincão com a Mata distante do
que com o Sertão próximo. O contraste é determinado pela topografia, devido à
presença de serras, pois o Cariri fica ao pé da Chapada do Araripe, na vertente
cearense, c as serras frescas localizam-se sobre porções mais altas e mais expostas
aos ventos úmidos, como ocorre com a dc Triunfo; c determinado também pelos
solos, em geral espessos e escuros, só aparecendo exposição das rochas subjacentes
nos pontos mais acidentados; pela vegetação luxuriante onde a mata primitiva
ainda não foi destruída e pelas capoeiras muito densas em solos que já foram
lavrados; pela atividade agrícola que aí substitui a pecuária típica do Sertão. Estas
“manchas úmidas”, determinadas ora pelas condições climáticas, ora pela estrutura
geológica, constituem verdadeiros oásis no meio do peneplano semi-árido. Dentre
elas destacam-se por sua grande extensão o Cariri (7.649 kms) c a região de Triunfo
(quase 500 km*).
A sucessão hereditária fez com que nestas áreas as primitivas sesmarias se
dividissem muito e se formasse uma grande população de pequenos proprietários.
Para sc ter uma idéia do fato, basta salientar que no Cariri os engenhos rapadureiros
são chamados “sítios”. Os pequenos proprietários dedicam-se geralmente à
policultura, cultivando milho, feijão, arroz., mandioca c amendoim; nos pontos
mais úmidos cultivam ate a cana-de-açúcar, que moem mediante o pagamento da
meacão, nos engenhos rapadureiros vizinhos. Daí serem as várzeas de altitude dos
riachos perenes, ou dos que não secam completamente no verão, ocupadas quase
sempre por canaviais, e de haver no Cariri

220 Manuel Correia de Andrade


um regulamento que controla o uso da água em irrigação pelos vários
agricultores.
Os engenhos rapadureiros são movidos a tração animal, a vapor, a motor
diesel, prevetidu-se nos pontos em que se faz a eletrificação rural utilizar até a
energia elétrica. Os engenhos de pau movidos a boi escasseiam, confinando-se aos
pés de serra mais pobres ou aos rincões mais distantes, nas “manchas úmidas” dos
sertões piauienses. Estes pequenos engenhos são muito numerosos, subindo seu
número, em 1956, em Triunfo, a 113, com capacidade de produção para cada um de
300 a 400 cargas de rapadura por ano, (,:i) enquanto no Cariri, só no município do
Crato, existiam em funcionamento, em 1958, 73 engenhos, dos quais 67 acionados a
motor diesel, três a água e três a bois. (M) Hoje grande parte destes engenhos estão
dc “fogo morto”, e projeta-se a instalação de uma usina de açúcar no Cariri
cearense. Em linhas gerais, as relações dc trabalho nessas áreas assemelham-se as
que ocorriam na região da Mata antes do surto usineiro. Os moradores distribuem-
se pel-as propriedades cm çasas de taipa, dispondo cm torno desta de exíguas áreas
onde cultivam para si um pouco de algodão c lavouras de subsistência. Da colheita
destas culturas não participa o proprietário, que exige do empregado um certo
número de dias de serviço por semana por preço inferior ao pago aos trabalhadores
de fora. Só a cana-de-açúcar é que, sendo plantada mesmo por moradores, paga
mea- ção pela moagem. A diferença de salário entre os moradores e os
trabalhadores que não residem na propriedade é considerada como o pagamento de
aluguel da casa e do sítio. Nos períodos de safra exigem- se dos moradores de cinco
a seis dias dc serviços semanais e, como ocorre na Mata, utiliza-se o braço dos
migrantes que vêm das caatingas vizinhas à procura dc trabalho.
Na época da safra os trabalhadores que passaram o ano na enxada cuidando do
plantio, passam a ter as mais diversas ocupações: aparece, então, o “cambiteiro” a
dirigir cavalos e burros que transportam a cana dos partidos para o engenho; o
“cortador” de cana, que ganha salário por produção c, com seu facão “rabo-de-galo”,
despe os solos tirando rapidamente a cobertura verde dos canaviais; o “botador” de
cana na moenda, que a qualquer descuido pode perder o braço, tragado pela
mesma; os “totnbadores”, que pegam feixes de cana no “picadeiro” e colocam sobre
a mesa próxima à moenda, ao alcance do botador; o

(13) Lacerda dc Melo, Mário, Paisagens do Nordeste em Pernambuco c Paraíba, pág. 190.
(14) Figueiredo Filho, José de, Engenhos, de Rapadura do Cariri, págs. 3637.
maquinista, que cuida do motor e verifica de quando cm vez a pressão das caldeiras;
o mestrc-dc-açúcar, que dá “ponto ao caldo durante o cozinbamento, indicando o
momento em que o mesmo deve passar de uma tacha para outra, e da última para as
formas das rapaduras: os caldeireiros, que são os ajudantes do mestre-de-açúcar; o
"tirador” de bagaço, que remove os resíduos da cana da moenda para a bagaceira,
onde ficarão expostos ao sol a secar, A descrição das funções dos vários
trabalhadores que mourejam em um engenho de rapadura lembra muito as
descrições minuciosas que dos engenhos coloniais fez, no início do século XVIII, o

A Terra e o Homem no Nordeste 221


arguto jesuíta Antonil.
Estes trabalhadores, prestando serviços por todo o dia, às vezes em jornadas
que se estendem por mais dc dez horas de trabalho, per cehem diárias de acordo
com a especialidade e a produção dc cada um. Salátios que não lhes podem dar
condições de existência, mesmo modestas, A contribuição das lavouras de
subsistência à manutenção dos moradores, tão salientada pelos apologistas da atual
estrutura social do campo no Nordeste, é quase insignificante, uma vez que os
“sítios de moradores” são pequenos — dc um terço a meio hectare — e lavrados
todos os anos, sem que haja rotação de terras nem adubação; além disso, os
moradores dispõem em geral de poucos dias para cuidar do seu "roçado”, Convém
salientar ainda que não há qualquer preocupação das estações experimentais com as
lavouras de subsistência, procurando selecionar sementes das variedades mais
produtivas e mais bem adapta das ao meio, não há um estudo sistemático das pragas
que as atacam, nem uma orientação técnica visando tornar o agricultor um homem
mais identificado com as lavouras que cultiva e com o meio em que vive. A
preocupação das estações experimentais volta-sc unicamente para a grande lavoura,
para a cultura dc exportação e, em menor escala, para as fruteiras que também
interessam apenas aos proprietários, aos meci- ros e aos foreiros.
Tanto quanto a reforma de uma estrutura, torna-sc premente a reforma de
uma mentalidade, é preciso dar educação ao povo para que aprenda a tratar a terra
de forma mais adequada, permitindo que ela produza o máximo com o mínimo dc
desgaste.
O MEIO NORTE E A GUIANA MARANHENSE
FRANCESES E PORTUGUESES; A CONQUISTA

Na conquista e ocupação do Meio Norte distinguimos duas direções do


povoamento e de ocupação do espaço. O litoral, inicialmente disputado entre
franceses c portugueses, foi ocupado por povoamento oriundo de Olinda, ponto
de onde partiram os lusos para a conquista de todo o litoral setentrional e da
própria Amazônia, Ao mesmo tempo, correntes de vaqueiros, de criadores de
gado oriundos da Bahia, subiram os rios da vertente oriental — Itapeeuru, Vaza
Barris, Paraguaçu, etc. — atravessaram os interflúvios existentes entre as
nascentes destes rios — Chapada Diamantina — e as nascentes dos afluentes da
margem direita do São Francisco e, após conquistar o vale do grande rio,
subindo os cursos de seus afluentes da margem esquerda, atravessaram as cha-
padas que separam o Piauí da Bahia e se espraiaram pelas terras drenadas para o
rio Parnaíba. Dominaram assim o espaço piauiense — ainda hoje o Sul do Piauí
recebe uma grande influência baiana — e a porção meridional do Maranhão.
Poderíamos falar, conseqüentemente, em uma corrente de povoamento
pernambucana e outra baiana, durante o período colonial.
A porção litorânea do Meio Norte não se integraria na América
Portuguesa no século XVI, só o fazendo no século seguinte. A tentativa de
povoamento das Capitanias Hereditárias falhou completamente ao Norte de
Itamaracá; durante quase um século os franceses, aliados aos tupinambás,

222 Manuel Correia de Andrade


A OCUPAÇÃO DO TERRITÓRIO

controlaram esta porção do território brasileiro, desenvolvendo um escambo de


produtos da terra por produtos europeus de pouco valor.
Nos fins do século XVI instalaram no atual território maranhense uma
colônia — a França Equinocial — e construíram na ilha a sua capital — São
Luís. Aí permaneceram por mais de vinte anos, até quando os portugueses,
oriundos de Pernambuco e chefiados por jerô- nimo de Albuquerque,
expulsaram-nos, instalando-se na mesma cidade.
Por muito tempo esta nova Capitania permaneceu muito pobre, com a sua
economia baseada na agricultura de subsistência c no apre- samcnto do
indígena, que era utilizado no trabalho agrícola ou vendido como escravo para
áreas mais prósperas como a Capitania de Pernambuco. (70) As dificuldades de
comunicações marítimas com a Metrópole, cm face da direção dos ventos e
correntes marítimas, impediam que ela se integrasse no sistema colonial
português de uma economia inteiramente voltada para o mercado externo,
fornecedora de produtos tropicais. Ficou, assim, numa posição secundária,
dentro da estrutura colonial brasileira, de fornecedora de mão de-obra à região
canavieira, como ocorria com o Sertão, abastecedor de couro e de carne à região
mais dinâmica. O povoamento limitou-se inicialmente à porção litorânea e à
baixada maranhense, mais facilmente defendida, embora houvesse caminhos
que iam a grande distância da costa, por onde os preadores de índios
entravam a procura do seu produto comercial c
por onde os índios muitas vezes desciam a fim de fazer guerras aos
seus inimigos. Estas lutas entre colonos c indígenas seriam causa de tremendas
divergências entre os colonos e os jesuítas que, desejando catequizar os
indígenas c aldeá-los, opunham-se tenazmente à sua escra- vização.
Por isto, conforme testemunho de Maurício de Heriarte, (71) o
povoamento se restringia, nos fins do século XV11I, à área próxima ao Golfão
Maranhense e à ilha de São Luís, havendo fazendas de gado nos baixos cursos
dos rios Grajaú, Píndarc, Mearini, Itapecuru e Munim, assim como ao Nordeste,
nas proximidades da próspera vila Alcântara. Canaviais eram cultivados, afim
de possibilitar a produção de açúcar c de aguardente, em vinte engenhos c vinte
c seis “molinetes”, a maioria dos quais se localizava na
ilha. nas imediações de Alcântara
e no vale do Itapecuru. Tinha ainda algum destaque na ilha de São

70 Vai) der Dussen, Adrien - Relatório sobre ar Capitanias Conquistadas cm Pernambuco pelos
holandeses (1'dJD) pág. 91, Edição do Instituto de Álcool e Açúcar, Rio de Janeiro, 1947.
71 Descrição do Estado do Maranhão, Pará, Coruja e o rio das Amazonas pág. 10. Imprensa
do Filho de Carlos Geroid, Viena d’Austria, 1874.

226 Manuel Correia de Andrade


Luís a cultura do fumo. Restavam a criação de gado, sobretudo na baixada
inundada em grande parte durante a estação das chuvas — o verão — c grandes
plantios de fruteiras, utilizadas pela população local. As florestas permitiam a
exploração dc madeira
O comércio era feito sobretudo através de trocas, tendo pouca
importância a circulação da moeda.
A criação da Companhia Geral do Grão-Pará e do Maranhão em 1756,
como tentativa de recuperação econômica da colônia, no dinâmico governo do
Marquês de Pombal, iria transformar o Maranhão cm uma colônia produtora
de artigos de exportação, estimulando o desenvolvimento da cultura do arroz e
do algodão, produtos que tinham grande demanda no mercado europeu. O
ciclo da caça ao índio já estava cm decadência eni face da dizimação dos
nativos; para transformar a área cm uma zona exportadora, tratou a referida
companhia dc regularizar o tráfico comercial com a Europa, consumidora em
potencial dos seus produtos tropicais, e com a África, fornecedora dos braços
necessários ao desenvolvimento da atividade agrícola. A Companhia passou
ainda a fornecer créditos aos colonos a fim de que adquirissem os escravos
negros, as sementes selecionadas de algodão c dc arroz c pudessem avançar o
povoamento e a ocupação do espaço na margem dos rios navegáveis. Ela
garantia um justo preço, quase sempre não obedecido, para os produtos da
terra, c fornecia os produtos importados que passaram a scr consumidos pela
classe enriquecida pela nova política econômica — proprietários de terras c
altos funcionários, sobretudo —. O consumo do arroz e do algodão em
expansão na Europa, que vivia os anos da Revolução Industrial, era altamente
estimulante para o crescimento econômico da Capitania que, nos últimos anos
do período colonial, era uma das mais ricas do Brasil. Os sobradões de São Luís
ainda hoje atestam a grandeza desses dias.
A expansão geográfica do povoamento criaria sérios problemas a essa
economia voltada para o mercado externo, e que não dispunha de facilidade dc
escoamento da produção do interior para o litoral, de vez que os rios, apesar dc
eaudalosos, tinham regime muito irregular, com grande queda do débito no
inverno e leitos rapidamente assoreados, sobretudo após o desmatamento. Os
solos oriundos da decomposição de rochas do terciário e muito silicosos,
sujeitos à ação dos agentes meteorológicos em um clima tropical muito quente
e com estação chuvosa muito prolongada, logo se lixiviavam, forçando os
agricultores a procurar sempre novas tetras, tetras virgens, mais produtivas.
Este fato alarmava o inteligente governador do início do século XIX —

A Terra e o Homem no Nordeste 227


Bernardo José da Gama—. (72)
A OCUPAÇÃO DO TERRITÓRIO

72 Gama, Bernardo José da — Informação sobre a Capitania do Maranhão dada em


181J, pá* 10. Imprensa do filho de Carlos Gerold. Viena d'Ãustria. 1872.

228 Manuel Correia de Andrade


Este processo de ocupação, ampliando a área ocupada de forma
horizontal fazia com que os povoadorcs do Norte, do litoral, que subiam os
rios, fossein encontrar no alto Itapecuru e no médio Parnaíba os povoadores
baianos vindos do Sul e criadores de gado. Estes, caminhando na frente dos
vaqueiros das grandes famílias baianas — Garcia TVÁvila, sobretudo — ou a
serviço das mesmas, instalavam curtais nas caatingas e cerrados onde criavam o
gado bovino c as “miunças'' — carneiros e cabras —, estabelecendo uma
economia inteiramente pastoril. Faziam pequenas lavouras de subsistência,
cercadas, a fim dc que os animais criados soltos para aproveitarem as pastagens
naturais não as danificassem, e conduziam o gado das áreas mais secas para as
mais úmidas — as margens dos rios perenes cu as serras — nos períodos sccos,
no inverno. Dos animais retiravam tudo O que necessitavam, daí haver
Capistrano de Abreu falado na civilização do couro, e recebiam remuneração,
quando homens livres, cm espécie. Geralmente utilizavam o leite das vacas
paridas e recebiam um bezerro em cada quatro que nasciam, hábito ainda hoje
usado nas áreas mais distantes e onde dominava o gado “pé duro” (Foto n° 22),
crioulo, de pouco valor. Os criadores de gado, vivendo vida rude e distante dos
centros exportadores, forneciam carne e animais de trabalho para a região
litorânea, exportadora de açúcar e fumo, e couro para exportação. O gado fazia
longas caminhadas dc centenas de léguas que duravam meses, das áreas de
produção às áreas de consumo. Era grande o contraste entre a área dc criação
dc gado, que ocupou praticamente toda a porção meridional e central do Piauí
e o Sul do Maranhão até Pastos Bons, e a área produtora de arroz, algodão c
açúcar, dominante sobretudo no vale do Itapecuru.
Necessitando de poucos braços e não sendo o trabalho, em uma pecuária
ultra-extensiva cm campo aberto, (73) contínuo c sedentário como o agrícola,
pouco utilizou a mão-de-obra escrava, sendo o vaqueiro um homem de certa
independência e poder de decisões, não só em face da sua condição de homem
livre, como da distância que se encontrava do patrão; além disso, tinha a
possibilidade dc se tornar, ele próprio, uni fazendeiro em face do sistema de
remuneração e do hábito dos grandes proprietários de arrendarem “sítios" —
áreas de uma légua cm quadro — sob o sistema de enfiteuse No Itapecuru
maranhense, porém, a agricultura era feita por grandes proprietários que
utilizavam o trabalho escravo visando atender à demanda de produtos tropicais
do mercado internacional. Daí o grande intercâmbio havido na sua

73 Andrade, Manuel Correia de L'Elevage au Nord Est du Erfiil. Les C.ãhiers d’Aulre
Mor, Tome págs , Bordcaux, 1968.

162 Manuel Correia de Andrade


fase áurea entre São Luís e a costa africana, pois o tráfico de escravos era feito
para esta cidade com igual intensidade àquele feito com os principais centros
produtores do país no século XVIII — Recife, Salvador e Rio de Janeiro. A
importação de negros modificou, inclusive do ponto de vista étnico, a
população maranhense, hoje em grande parte formada por negros e mulatos, ti
que levou Caio Prado Júnior a afirmar que “o algodão”, apesar de branco,
tornou preto o Maranhão, (5)
A importância da porção Norte do Maranhão como região de especulação,
(*') isto é, região em que os europeus instalaram uma economia de exportação de
produtos tropicais, cresceu dc tal forma que nos fins do século XVIII o
Maranhão cra, depois dc Pernambuco, a maior capitania exportadora de
algodão, destacando-se ainda como exportadora de arroz e de couro. Este fato
indica que parte da porção Sul, obtendo uma saída para o mar pelo Norte, onde
o porto era mais próximo, desviou-se da atração dc Salvador. É claro que à
proporção que os campos dc criação se distanciavam da capital da colônia, pas-
savam a sofrer a ação das forças centrífugas e a serem capturados, parcial ou
totalmente, por novos pólos. Para se ter uma idéia do crescimento econômico
do Maranhão c, conseqüentemente, do Meio Norte na segunda metade do
século XVIII, basta salientar que, iniciada a exportação do algodão pela
Companhia em 1769 com 130 sacas, atingiria, 31 anos depois, em 1800, 29.799
sacas. O arroz, após a introdução de sementes da Carolina c a instalação de
fábricas de beneficia- mento, teria um crescimento expressivo, c!e vez que suas
exportações cresceram de 2.847 arrobas em 1766 para 102.944 arrobas em 1774,
atingindo .360.000 arrobas em 1777. C) couro também teve crescimento
expressivo nas exportações saídas de São Luís, de vez que subiu de 21.810 peles
em 1760 para 3 1 62.5 peles em 1767, caindo em 1771 para 11.460 peles. (1)
Ao iniciar-se o século XIX, era o Maranhão uma das Capitanias mais
prósperas do .Brasil, beneficiando-se com a política de D. João VI de abertura
dos portos às nações amigas. São Luís tornara-sc uma cidade onde vivia uma
burguesia rica, consumidora de produtos finos europeus c educada à européia.
Os eventos da Guerra da Independência, quando a burguesia maranhense,
ligada a interesses portugueses, procurou manter-se fiel a Lisboa, enquanto
proprietários, agricultores

(5) llistória Econômica do Brasil, pág. S4, 4.1 edição, Editora Brasiliensc Ltda. São
Paulo, 1956.
(6) Kayser, Bernard — Lcs divnions dc i‘espace Geographique dam les P/lyS SouS-Dcvclüppés.
Extrait dc Annales dc Geov/apbic. Paris, 1966.
(7) Viveiros, Jerônimo — Obra cilada, págs. 16-7.
e grupos populares do interior lutavam pela independência, e os acon-
tecimentos do período regencial, quando grande parte da população pobre do
interior, vaqueiros, artífices e escravos, desordenadamente, sem um comando
único, desfecharam a revolução chamada dc Balaiada, criaram sérios problemas
e desorganizaram uma economia rural e exportadora. Ainda assim, durante o

230 Manuel Correta de Andrade


Segundo Reinado, apesar da constante luta entre os comerciantes e os
lavradores, a região dcstacou-se por sua produção agrícola sempre em ascenção.
Na segunda metade do século XIX, a então província distinguia-se por sua
produção de algodão, de açúcar c de arroz como produtos de exportação, e de
mandioca e milho como produtos de subsistência. A cana-da-açúcar era
cultivada sobretudo na porção mais úmida, o vale do Pindaré, utilizando em
larga escala o braço escravo. Em 1860 havia no Maranhão 410 engenhos, 284
dos quais movidos a vapor. (s) O algodão cultivado no vale do Itapecuru tinha
tal importância que a produção estadual atingia as 460.000 arrobas em 1875.
Utilizava uma menor quantidade de mão-de-obra e o produto era de inferior
qualidade, se ccmparado ao de outras regiões du Nordeste, de vez que a
industrialização cra feita por processos atrasados, com a utilização dos
engenhos de serra no descaroçamento do mesmo, que cortavam c esfarrapavam
a pluma ao extrair a semente. O arroz, exigindo melhores solos, tinha sua
cultura em terras recentemente desbravadas, perdendo importância devido à
distância e aos fretes, perdendo gradativamente competitividade no mercado
internacional, disputado por outras áreas produtoras tropicais. Passou de
cultura de exportação a cultura de consumo interno, o que lhe tirou condições
de compelir com a cana-de-açúcar e com o álgodão, na disputa de terras c de
braços.
Enquanto isto ocorria no Maranhão, o Piauí continuava dedicado
inteiramente à pecuária, exportando o gado vivo para a Bahia ou trans-
formando-o em charque em suas oficinas. Charquc que era exportado para
Pernambuco e Bahia por via marítima. As “oficinas”, nome dado então no
Nordeste às charqueadas que precederam às gaúchas, tiveram grande
importância no século XVIII, sobretudo nos vales do Parnaíba e do Aracati. As
grandes secas do fim do século, dizimando os rebanhos, e a concorrência
gaúcha no século XIX, provocaram a decadência c o desaparecimento das
charqueadas.

(8) Viveiros, Jerónimo — Historia do Comércio do Maranhão (I(il2 IX'J: págs. 201 e
segs. Edição da Associação Comercial do Maranhão. São Luís, 1951
O PROBLEMA DA MÃO-DE-OBRA

No período colonial toda a atividade agrícola esteve dependendo da mão-


de-obra escrava, sendo o escravo inicialmente indígena e pos tcriormente
negro. Durante os primeiros tempos cm que o Meio Norte não se integrara na
economia de exportação, as culturas tinham expressão relativamente pequena e
necessitavam de poucos braços. O indígena era suficiente para atender às suas

A Terra e o Homem no Nordeste 231


3
necessidades. Posteriormente, a expansão da área cultivada c a possibilidade de
exportar escravos para Pernambuco e Bahia levaram os entradist-as a
intensificar o preamento dos indígenas, agravando a divergência existente entre
colonos e jesuítas. Nessa fase as entradas foram se distanciando cada vez mais
do litoral, indo buscar o indígena nos lugares distantes para onde ele recuara
(Foto n.“ 23).
Com a criação da Companhia Geral do Comércio do Grão-Pará e do
Maranhão, iniciou-se o tráfico africano etn larga escala e o Maranhão passou a
receber grande quantidade de negros. É claro que a quantidade de negros
importada cada ano variava com a demanda dos produtos maranhenses no
mercado europeu e com a expansão das lavouras, mas sabemos que só no
período que vai de 1812 a 1820, portanto cm oito anos, entraram no porto dc
São Luís cerca de 36.436 escravos, ou seja. uma média de 4.500 peças por ano.
Estes escravos eram mais -abundantes no vale do Pindaré, onde se desenvolveu
a cana- -dc-açúcar, mas eram também muito abundantes no vale do itapecuru-
-Mirim, zona produtora de algodão. O tratamento dado aos escravos,
considerados peças caras e que deveriam repor, em poucos anos, o investimento
feito pelos fazendeiros ao adquiri-los, era muito duro, fazendo-os trabalhar de
12 a 14 horas por dia, conforme as necessidades da cultura. Os escravcs,
revoltados, muitas vezes reagiam ao cativeiro ou fugiam para as florestas, onde
a caça e a pesca — os rios eram numerosos c perenes — eram abundantes,
fazendo roças de mandioca para complementar a alimentação. Chamavam aos
seus redutos dc mocambos, e foram estes tão numerosos que, durante a
Balaiada, era o preto Cosmc. chefe dc um quilombo, ura dos mais influentes
líderes.
A população pobre e livre pouco trabalhava nos latifúndios, de vez que
em região tropical úmida era abundante a oferta de alimentos pela natureza e
poucas as vantagens oferecidas pelo trabalho para os fazendeiros. Vivendo no
meio do babaçual, a população rural pobre

232 Manuel ("arreta de Andrade


obtinha alimento com a caça, a pesca, a coleta tio coco babaçu c pequenas
roças de mandioca, milho ou arroz. Mantinha-se isolada das pequenas
cidades, vivendo em uma economia fechada, de subsistência (Foto n.u 24).
A abolição da escravidão, em 1888, veio agtavat seriamente a economia
da a'rea agrícola, embora só afetasse indiretamente a área de pecuária. Com a
libertação, os negros abandonaram as fazendas e engenhos, embriagados com
a liberdade adquirida. Embrenharam-se pelos cocais c pelas florestas,
retirando facilmente das mesmas o seu sustento. Ilavia abundância de terras
devolutas, desocupadas, de onde o índio já havia sido afastado mas que o
branco ainda não ocupara com as suas plantações, podendo viver numa
economia fechada, arnonc- tária, de subsistência. Os engenhos e as plantações
ressentiram-se da falta de mão-de-obra e regrediram. Plantações e fábricas de
açúcar desapareceram, Na álea pecuarista, porém, o número çle escravos era
diminuto e a mão-de-obra necessária era pouco numerosa; conseqüen-
temente, só indiretamente sofreu com a abolição, porque, com a desor-
ganização econômica da área agrícola consumidora de animais de trabalho e
de carne, teve reduzida a demanda dos seus produLos.

4
OS SISTEMAS AGRÍCOLAS ATUAIS

Ao analisarmos os sistemas agrícolas c os problemas das relações dc


trabalho no Meio-Norte, podemos distinguir nitidamente duas regiões: aquela
cm que domina a pecuária, ou seja, a região de velho povoamento, e aquela de
povoamento recente em que domina a agricultura.
Na região de velho povoamento o grande proprietário é sempre
interessado pela pecuária, sendo sobretudo criador de gado. Possuindo
grandes fazendas cria o gado solto, utilizando vaqueiros para vigiá-lo em suas
migrações a procura de pastagens, ou para lugares distantes nas ocasiões dc
secas — Piauí e Sul do Maranhão — ou de cheias — na baixada maranhense.
Necessitando de alimentação suplementar para o gado nos períodos em que os
pastos são pobres e dc alimentos para a população da fazenda, permitem que
agricultores cultivem por çôes de suas terras com algodão e produtos de
subsistência — milho, feijão e mandioca, sobretudo — ou alugando-as ou em
regime de par ceria. O preço do aluguel ou a participação na produção
agrícola por parte do fazendeiro varia consideravelmente no espaço e no
tempo, conforme o poder dc barganha que as duas partes possuam. Assim,

234 Mattuel Correia dc Andnuic


quando há abundância de terras e falta de mão-de-obra os contratos são mais
favoráveis aos agricultores, sendo, ao contrário, mais favoráveis aos proprietários
quando ocorre o inverso, e estes ficam munidos de maior poder de barganha. As
relações com os vaqueiros e trabalhadores que se dedicam aos cuidados com o
rebanho são feitas pelos sistemas dominantes, já vistos ao analisarmos o Sertão,
Nas áreas dc várzeas cortadas pelo rio Parnaíba e pelos seus principais
afluentes — o Gurgueia, o Píauí-Canindé e o Poti — existem grandes
carnaubaís, verdadeiras matas dc galerias que, da mesma forma que no Ceará e
110 Rio Grande do Norte, são explorados em função da exportação para o
mercado externo c tem grande importância paéa a economia piauiense. Em 1970
este Estado produziu 4.085 toneladas de cera de carnaúba, 110 valor de Cr$
8.363.000,00, tendo o Piauí contribuído com cerca de 20% da produção
brasileira. A cera de carnaúba era quase totalmente exportada pelo porto de Luís
Correia, chegando até Parnaíba, importante centro comercial e de
beneficiamento, pelo rio do mesmo nome, A construção da rodovia Terezina-
Fortalcza, porém, fez com que a Capital cearense capturasse para sua área de
influência grande parte das terras situadas ao Sul da rodovia, roubando ao único
porto do Piauí grande parte do seu hinterland, fato que provocou uma
desaceleração no crescimento populacional e econômico da cidade de Parnaíba.
Na porção Norte-Oricntal do Maranhão domina o babaçual, e as
populações pobres que aí vivem dependem em grande parte da coleta do coco de
babaçu; as terras outrora cultivadas com algodão e arroz se encontram quase que
esgotadas, e o babaçual domina inteiramente a paisagem. Os grandes
proprietárias, quase sempre comerciantes, funcionários ou industriais nas
cidades da região, exploram as terras que possuem, desenvolvendo uma pecuária
extensiva e uma atividade comercial complementar. De um modo geral, não
edificam em suas fazendas casas confortáveis, a não ser por exceção, e
estabelecem nas mesmas um pequeno entreposto onde vendem produtos
adquiridos nos centros urbanos — sal, pólvora, tecidos ordinários, remédios, etc
- e compram os produtos locais — peles, amêndoas de coco babaçu, etc.
Permitem que caboclos da teria ou nordestinos que migram das porções orientais
superpovoadas se estabeleçam em suas terras, desde que apanhem o coco babaçu,
extraiam as amêndoas e entreguem no seu entreposto, onde as adquirem pelo
preço que estabelecem, geralmente inferior ao do mercado. O pagamento aí não
é feito em moeda, devendo o caboclo adquirir em troca das amêndoas os artigos
de que necessita; assim ele não toca em moeda e o proprietário estabelece os
preços dos produtos que vende e que compra, elevando os primeiros e rebai

236 Ma/iuel Correra de Andrade.


xando os segundos; muitas vezes o sou lucro ainda é acrescido pela
utilização dc pesos falsos.
O caboclo, ignorante, sem apoio, cheio dc verminoses c outras moléstias,
leva uma vida primitiva, em habitação de palha construída por ele próprio no
meio do babaçual. Alem da apanha do babaçu, dcdica-se à caça e pesca c ao
trabalho nas roças. Pela manhã, após magra refeição, ele e seus familiares
apanham um cesto dc palha dc babaçu e passam a caminhar por veredas que se
afastam gradativãmente dc sua habitação, apanhando os cocos que encontram,
Estes são numerosos, de vez que cada palmeira dá em média 12 cachos, e que
cada cacho contem cm média de 20Ü a .300 coquilhos. Em cada coquilho sc
obtêm íle 2 a 6 amêndoas. O trabalho é penoso porque as palmeiras, não sendo
cultivadas, crescem de forma irregular no terreno, encontrando-se muitas vezes
muito próximas umas das outras. Além disto, existem no sub-bosque vegetais dc
baixo e médio porte, de variedades as mais diversas, e o chão fica coberto por
folhas e coquilhos apodrecidos, sendo numerosas as cobras, ao lado de animais de
caça como tatus, pacas e cotias. Muitos trabalhadores morrem em conseqüência
de mordidas de cobras. Não há uma solução na apanha dos coquilhos, sendo
recolhidos ao cesto espécimes dos mais variados tamanhos, ora mais verdes, ora
mais maduros. À tarde, voltando à casa, os coquilhos são depositados no terreiro
onde mulheres, sentadas no chão. passam a quebrá-los para retirar a.s amêndoas.
Os processos usados são manuais, pois até hoje não se descobriu uma máquina
que quebrasse os coquilhos sem danificá-los; elas seguram com as pernas um
facão afiado, com o gume paru cima e, colocando o coquilho sobre o mesmo,
batem com um macete a fim de dividi lo em duas partes, Partido o coco retiram
as amêndoas, depositando-as em uma cuia. Trabalhando todo o dia pode uma
mulher obter de 8 a 10 quilos de amêndoas. Posta a secar para se desidratar 6 a
amêndoa, após alguns dias, vendida ao proprietário — comerciante que a
revenderá aos industriais de óleo estabelecidos nas principais cidades. O preço
pago ao caboclo corresponde quase sempre a 40% do preço que o proprietário
vende a amêndoa. Os processos primitivos dc apanha c quebra dos coquilhos e os
problemas decorrentes das relações de trabalho existentes entre o caboclo e o
proprietário são os grandes responsáveis pela baixa qualidade da maior
percentagem da produção do babaçu do Brasil.
É impressionante o baixo nível dc conhecimentos existentes acerca do
babaçu, produto abundante no Nordeste e no Centro Oeste do país, e que tendo
sua produção racionalizada poderia dar uma grande contribuição à nossa
economia. Infelizmente não se fizeram estudos geo- -agronômicos sobre a
palmeira, e continuamos n ignorar qual a área pela mesma ocupada, quais as
condições climáticas e pedológkas que proporcionariam uma maior
produtividade das palmeiras, qual o espaçamento necessário entre as palmeiras
para estimular a sua maior produtividade e quais os processos racionais de
apanha do ccquilho. É bem verdade que é difícil uma coleta mais racional em
uma floresta espontânea tropical, em que as palmeiras se distribuem de forma

A Terra c o Homem ao Nordeste 237


anárquica pelo espaço, e que a descoberta de máquinas para quebra dos
coquilfcos provocará um grande desemprego entre a população rural,
Bem diversos Scão os problemas da área de ocupação recente localizada ao
Nordeste do Maranhão, ainda no Meio Norte e já na Guiana Maranhense. A
Hiléia Amazônica vai sendo aí destruída por migrantes que acompanham
picadas - como a do telégrafo — e estradas, ã proporção que essas vão sendo
abertas, destruindo a mata pela coi- vara e plantando arroz. As terras, a princípio
devolutas e agora em grande parte controladas pela SUDENE e por empresas que
conseguiram subsídios da SIJDAM, vão sendo apropriadas e as matas destruídas.
Na fase da ocupação espontânea, muito intensa até a sétima década do século XX
— 1961-70 —, os caboclos nordestinos migravam para o Maranhão, a procura dc
terras virgens de mata. Ao encontrarem as mesmas faziam um rancho, roçavam
parte da mata e ateavam o fogo, preparando as rerras para a cultura (Foto n.u 25).
No solo cheio de cinzas e de troncos semeavam o arroz, sendo financiados pelos
donos de usinas beneficiadoras, a quem pagavam juros altos e se comprometiam
a vender a produção. No ano seguinte, como a terra estivesse enfraquecida.
plantavam na mesma a mandioca e derrubavam uma nova área dc mata pata o
plantio do arroz, caminhando sempre para a frente, cada ano, fazendo novas
queimadas, no que podemos chamar de uma agricultura migratória. As terras por
eles deixadas à retaguarda vão sendo agora ocupadas por comerciantes,
industriais benefictadores de arroz ou funcionários que as cercam para criação.
Vai havendo, assim, uma devastação da floresta e uma expansão da cultura do
arroz c da pecuária. A madeira, em grande parte queimada, não c utilizada,
destruindo-se dessa forma, sem qualquer aproveitamento, uma riqueza secular.
O que se observa é que o agricultor pobre prepara a área para o pecuarista rico
ocupar. Os títulos de propriedade dificilmente existem, ficando as terras com o
pecuarista.
A SUDENE, desde o seu primeiro Plano Diretor, vem tentando implantar
um programa de povoamento e colonização da área de extensão superior a
30.000 km* a ela concedida pelo Governo do Estado, procurando fixar o
agricultor ao solo, financiá-lo através de uma política coqperativista e organizar
a sua produção. Faz experiências, com a finalidade de introduzir na área culturas
tropicais que tenham fácil

238 Manuel Correia de Andrade


colocação no mercado exierno, como a banana. Problemas ligados ao porte dos
financiamentos necessários, à baixa fertilização e ao problema de lixiviação
dos solos, à dificuldade de transportes da área aos portos c de ordem
administrativa têm retardado o andamento do proicto, ora em fase de
reformulação.
Após a abertura da estrada Belém-Brasília c, mais recentemente, da
Belém-São Luís, e com a facilidade de obtenção de créditos oriundos do
mecanismo dos artigos 34/18, através da aprovação de projetos agro-pecuários
aprovados pela SUDENE e pela SUDAM, empresas da região Sudeste,
sobretudo de São Paulo, vêm instalando fazendas na área, promovendo o
desmatamento, a plantação de pastagens e a introdução de gado zebu,
produtor de carne. Trata-se de uma criação extensiva em cercados, em que os
padrões técnicos empregados são bem superiores aos em uso na região, e que
tenta obter um produto para ser consumido nos grandes centros urbanos do
país e tenha aceitação no mercado externo. Os altos preços da carne no
mercado internacional estimulam o Brasil a se tornar um exportador do
produto, embora a expansão da pecuária venha criando sérios problemas de
desemprego e de migração da pouplação rural para centros urbanos que não
dispõem dc infra-estruturas que empreguem os migrantes.
A produção rizícola do Maranhão tem grande importância, tendo
alcançado 675.553 ton. em 1970, no valor de Cr$ 144.565.000,00. Representa
cerca de 9% da produção brasileira, enquanto o Estado é o 5." produtor do
país. O arroz maranhense, entretanto, plantado por sistemas primitivos, sem
uma seleção de variedades c beneficiado cm usinas primitivas, não possui os
padrões do arroz de outras áreas do país — Rio Grande do Sul, Baix-o São
Francisco, ctc. — sendo vendido por preço inferior ao destas áreas. Tem um
grande mercado no Nordeste c no Sudeste, porem, graças aos baixos preços e à
expansão da pcpulação urbana da classe média baixa e média, de padrões de
vida inferiores. Necessário se faz o desenvolvimento de uma política de assis-
tência ao pequeno produtor, que lhe garanta, efetivamente, o crédito agrícola
a juros baixos, a garantia dos preços mínimos, a assistência técnica e a garantia
da posse das terras por ele desbravadas com orientação conservacionista. Do
contrário, dentro de alguns anos os grandes pecuaristas terão ocupado as terras
em produção do Meio-Norte, substituindo arrozais púr áreas dc criação. Um
sistema cooperativista com amplo apoio oficial poderia melhorar as culturas e
as condições de vida dos pequenos agricultores, contribuindo assim para a
elevação do nível de vida e da capacidade de consumo dos niesmos, assim
como pata melhorar o abastecimento dos centros urbanos.
(2) Varnhagen, História Geral do Brasil, tomo I, pág. 124.
(3) Diégues Júnior, Manuel, População e Açúcar nu Nordeste do Brasil, pág. 43.
(4) Carta publicada na “Revista do Instituto Histórico e Geográfico Bra
sileiro", tomo XV. pág. 14.
(6) História tia América Portuguesa, pág. 81.
(7) Carta de 14 de abril de 1549, publicada na História da Colonização
Portuguesa, vol. III, págs. 318 e 319.

240 Manuel Correia de Andrade


(9) História do Brasil, pág. 203.
(31) Prado Júnior, Cato, Evolução Política do Brasil. Ensaio de Interpretação Materialista
da História Brasileira, pág. 32.
(12) Salvador, Frei Vicente do, História do Brasil, pág. 220; Barbosa Lima Sobrinho,
Pernambuco e o São prancisco, págs. 36 a 39.
(13) Costa Porto, Sobre velhos engenhos, em “Jornal do Comercio" do Recife, de 14 de
janeiro de 1962.
(14) Gandavo, Pero dc Magalhães, História da Província dc Santa Cruz, cm "A Nossa
Primeira História”, de Assis Cintra.
(16) van der Dussen, Adrien, Relatórios sobre as Capitanias conquistadas no Brasil pelos
holandeses (1939). Tradução, introdução e notas de José Antônio Gonsalves dc Mello, neto.
(18) Gonsalves de Mello. neto. José Antônio, Notas acerca da introdução de vegetais
exóticos cm Pernambuco, em “Boletim do Instituto Joaquim Nabuco dc Pesquisas Sociais, vol.
III, págs. 33 a 138.
(19) Perdigão Malheiro, Dr. Agostinho Marques, A Escraviaão no Brasil. Ensatn
Histórico-Juridico-Social, vol. T, pág. 138.
(20) Gandavo, Pero de Magalhães, obra citada, pãg. 78.
(23) Brandão, Ambrósio Fernandes, Diálogos das Grandezas do Brasil, pág. 99.
(3) Sobre a povoação do Recife no período pré-holandês, escreveu Guerra, Flávío, o
ensaio Arrecife de São Miguel.
(6) Dtégues Júnior, Manuel, O Bangüê nas Alagoas, pág. 25 e scgs.
(8) van der DuSsen, Adrien, Relatório das capitanias conquistadas no Brasil pelos
holandeses (1639). Suas condições econômicas e sociais
(9) Gonsalves de Mello, neto, Tose Antônio, Tempo dos Flamengos, pág, 163 a 163.
(10) van der Dussen, Adrien, Relatório sobre as capitanias conquistadas no Brasil pelos
holandeses, pág. 91,
(12) Watjen, Hermarm, O Domínio Colonial Flolandês no Brasil, págs. 486 e 487.
(13) van der Dussen, Adrien, Relatório sobre as capitanias conquistadas no Brasil
pelos holandeses (1639), págs. 93 a 96.

A Terra e o Homem no Nordeste 79


(14) Gonsalves de Mello, neto, José Antônio, Tempo dos Flamengos,
pág. 221.
(15) Gonsalves dc Mello, neto, José Antônio, Tempo dos Flamengos,
pág. 208.
(16) Boxer, C. R., Oi Holandeses no Brasil (16241654), pág, 192 e 193
(17) Gonsalves de Mello, neto, José Antônio, Um Regimento de feitor-mor
de engenho era 1663, em “Boletim do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais", n° 2,
pág. 83.
(18) Boxer, C. R., obra citada, págs. 188 e 189,
(19) Boxer, C, R., obra citada, pág. 160; Gonsalves de Mello, neto, J. A,, Tempo dos
Flamengos, pág. 175.
(3) Freire, Dr. Felisberlo ilc Oliveira, História de Sergipe (1575-1855),
205.
(6) Antonil, André João, Cultura e Opulência do Brasil por suas drogas e minas, págs.
74 c scgs.; Vilhcna, Luís dos Santos, Notícias Soteropolitanas e Brasllkas, vol. I, págs. 182 c 183;
Barbosa Lima Sobrinho, Problemas Econômicos e Sociais da Lavoura Canavieira, 2.' edição, pág
9 e segs.. analisam estes problemas.
(8) Notas Dominicais, páfí. 94.
(9) Tolknsue, obra citada, pás. 96.
(10) Obro cilada, pág. 77.
(11) População c Açúcar no Nordeste do Brasil, pág. 69 e segs.
(12) Gonsalves de Mello, }. A., Um regimento dc feitor-mor de engenho em 1663. págs.
80 a 87, Recife, 1953.
(14) Antonil, obra citada, pág 91.
(15) Antonil, obra citada, págs. 105 a 181; Tollenare, obra citada, págs.
34 « 35.
(16) Obra citada, pág. 94.
(3) idéia da População dc Pernambuco, cit., pág. 30.
(5) Diégues Júnior, Manuel, O Bangüê em Pernambuco no século X I X , em "Revista do
Arquivo Público”, Anos VII a X, n.“ IX a XII, pág. 23.
(6) Peres, ApoJòniô, A Indústria Açttcareira em Pernambuco, pág. 33,
(8) Andrade, Gilberto Osório de, 0 Rio Ceará Mirim, pág. 33.
(9) Muii/.. Celso, Evolução Econômica da Paraíba, pág. 78,
(10) Diégues Júnior, Manuel, O Bangüê nas Alagoas, pág. 92.
(14) Freyre, Gilberto, Um Engenheiro Francês no Brasil, págs. 178 e segs,
(15) Pinto, F,stêvão, História de uma Estrada de Feno do Nordeste,
pág. 62.
(16) Koster, Henry, Viagens ao Nordeste do Brasil, pág. 346.
(18) Nieulwf, Joan, Memorável Viagem Marítima e Terrestre ao Brasil, pág. 284.
(19) Joffily, Irineu, Notas sobre a Paraíba, pág. 144.
(22) Pcteira da C.osra, F. A., Anais Pernambucanos, vol. VI, pág. 83; e () Algodão em
Pernambuco (Vista históricoretrospectiva), pág. 11.
(23) Koster, Hetity, ohra citada, pág, 103,
(24) A respeito escreveram Andrade. Gilberto Osório de, O Rio Paraíba Jo Norte, págs.
105 c 106; Andrade, Manuel Correia dc, O Vaie do Siri/i (Um P.studo de Geografia Regional),
pág. 62; Maria, Celso, Evolução Econômica da Paraíba, pág. 22; Pinto, Irincu, Datas e Notas
para a História da Paraíba, tomo
II. pág. 210; Lira Tavares, A Paraíba, págs. 539, 543 e 603-4.
(25) Bangüê nas Alagoas, págs. 87-8.
(26) Costa Pereira. José Saturnino, Apontamentos para a formação de um roteiro das
Costas do Brasil, pág. 118.
(27) Obra cilada, págs. 22-3.
(29) Diígues Júnior, Manuel, População e Propriedade da Terra no Brasil, págs. 19-20.
(32) Millet, Henrique Augusto, O Quebra Kilos e a Crise da Lavoura, pág. 35,
(33) Avé-Lallemant, Robert, Viagem pelo Norte do Brasil no ano de JS57. vol. I, pág, 337;
Pereira Rego, Dr. José, Memória Histórica das Epidemias que têm reinado no Brasil, pág. 1.235.
(35) Cascudo, Luís d<i Câmara, História do Rio Cirande do Norte, págs. 1HR 189;
Andrade, Gilberto Osório dc, O Rio Ceará-Mirim, págs. 28-9.
(36) Mariz, Celso, Evolução E.cotiômica da Paraíba, pág. 37-8.
(38) Auxílio à Lavoura e Crédito Real. Tipografia do “Jornal do Recife”, Hg 33.
(39) Milkt, Henrique Augusto, O Quebra-Kilos e a Crise da Lavoura, pág. VII, 3 e segs.
(41) Carli, Gileno de, Geografia Econômica c Social da Cana-de-Açúcar no Brasil, pág. 49.
(2) Caril, Gileno de. Aspectos da Economia Açucareira, pág. 18,
(3) Carfj, Gileuo de, O Açúcar na Formação Econômica do Brasil, págs. 28 a 29.
(4) Carli, Gileno dc, Aspectos da Economia Açucareira. pá}7, 9,
(8) Andrade, Manuel Correia de Oliveira, O Vale do Siriji, pfes, 86 e segs.
(10) O Estadu de São Paulo de 27-1-1973.
(11) Andrade, Gilberto Osório dc. O Rio Paraíba do Norte, píg. 126.
12) Lacerda de Melo, Mário, Pernambuco: Traços de sua Geografia Humana, pág.
92; Paisagens do Nordeste em Pernambuco e Paraíba, páp 112.
(15) Nesta época o bacalhau era vendido a Ctí 3,50 o quilo; o café ti
CrS 2,80;o açúcar a Cr$ 1,00; â manteiga a Cr$ 9,50; e o charquc a Cr$ 3,80
Afarinha dc mandioca era vendida a CrS 0,80 o litro, c o feijão a Cr$ 1,40.
(16) Carlí, Gileno de, Aspectos Açucareiros de Pernambuco, pág. 19.

124 Manuel Correia de Andrade

242 Manuel Correia de Andrade


(18) Contribuição para 11 análise da Questão Agrária no Brasil, cie, págs. 179
e 180.
(4) Documentação Histórica Pernambucana, vol. I, págs. 4, 91, 93, 171 e 173; Joííily,
Irineu, Notas sobre a Paraíba, págs. 31 e 32.
(6) Câmara Cascudo, Luís, Tradições Populares da Pecuária Nordestina, pág. 13 a 25.
(7) Diégues Júnior, Manuel, Regiões Culturais do Brasil, págs 154; Prado
Júnior, Caio, Formação do Brasil Contemporâneo, pág, 187.
(8) Câmara Cascudo, Luís, História do Rio Grande do Norte, pág. 116
(9) Joffily, Irineu, Notas sobre a Paraíba, pág. 117.
(11) Idéia Gera! da Capitania dc Pernambuco e suas anexas, etc , etn “Anais da
Biblioteca Nacional do Rio dc Janeiro”, vol. XL, pái;s 100 e segs.
(5) Toilenarc, L. F., Noteis Dominicais, pág. 112 e segs.; Koster, Henry, obra citada, pág.
462.
(6) Koster, Henry. Viagens ao Nordeste do brasil, págs. 101 a 107
(8) Almeida, Horácio de, Brejo de Areia, pág. 147 c 148.
(9) Joffily, Irineu, Notai sobre a Paraíba, págs. 115 c 116.
(11) Millet, Henrique Augusto, Os Quebra-Kilos e a crise da Lavoura,
pág. VII.
(14) Koster, Henry, Viagens ao Nordeste, pág. 463-
(16) Andrade. Manuel Correia dc, Os Rios de Açúcar do Nordeste Oriental
U— Rio Mamanguape, págs. 43 e segs.
(18) Almeida, José Américo de, A Paraíba e os seus problemas, pág. 208.
(19) Almeida, Horácio de, obra citada, pág. 154-5.
(20) Andrade, Manuel Correia de, 0 Vale do Siriji (Um estudo de Geografia Regional),
pág. 64.
(2) Lacerda de Melo, Mário e Andrade. Manuel Correia dc. Um brejo dc Pernambuco
(Região dc Camocim dc São Félix), págs, 19 e 20. Separara do “Boletim Carioca dc Geografia", Rio
de Janeiro, 1%1.
I 6) Andrade, Manuel Correia de, O Rio Mamanguape, pifo- 53.
(7) Lacerda de Melo, Mário e Andrade, Manuel Correia dc, Um Brejo de Pernambuco (Região
de Camocim dc São Félix). pág. 31.
(8} Andrade, Manuel Correia dc. Anadia, um município do Agreste alagoano, inédito.
(9) Andrade. Manuel Correia de, Aspectos Geográficos da Região de Ubá, pág. 41.
( i) Calmem, Pedro, História da Casa da Torre; e Cascudo, Luís da Câ nuva, Tradições Populares
da Pecuária Nordestina, págs. 1 a 7.
(2) Rrígido, J,, Ceará (Homens e Fartos), págs 65 e segs.
(10) Abreu, Capistrano, Cantinhos antigos e Povoamento do Brasil, pág. 37.
(11) Trecho de Capistrano de Abreu, transcrito por Andrade, Manuel i • 11 oiíi de, cm
Evolução e Características da Pecuária Nordestina, pág. 17.
(6) Koster, Hcnry, obra cilada, pág. 152.
(8) Figueiredo Filho, J., obra cilada, pág. 24.
I11 Girão, Raimundo, História Econômica da Ceará, págs. 371 e 372
í 10) Sousa, Marcos Antônio de, Memória sobre a Capitania de Sergipt (anu A (SOR), págs.
32 e scgs.
(11) Pinheiro, Irineu, obra cilada, págs. 36, 43 e 44.
(12) Thcophilo, Rodolpho, História da Seca do Ceará., pág. 27.
(13) Moraes Barros, Dr. Paulo de, Impressões do Nordeste Brasileiro pág. 76.
I I I ) Thcúphilo, Rodolpho, obra citada, pág. 53.
i IV) Informações colhidas em pesquisasde campo nos levam & ora-
Uni .. feijão “ligeiro” de que fala Rodolpho Teóphiio, seia o feijão de corda lua |iiminue
difundido no Sertão. Quanto ao milho dc “sete semanas” não
ttilliriliiiiniis identificar e cremos que não seja o sorgo, muito cultivado nos
id«« • I. • J.iguaribe, do Apodi e do Açu. uma vez que o ciclo vegetativo deste
• >i|"'iliu II 75 dias, e o “sete semanas” corresponde a apenas 49 dias.
(1) Lino de Matos, Dirceu, Região da Baixa Mojiana (Contribuição ao
Estudo da Geografia Agrária do ponto de vista do uso da terra), pág. 61.
(4} Gálvão, Ilclio, O Mutirão no Nordeste, pág. 47.
(5) Lopes de Andrade, Introdução à Sociologia das Secas, pág. 34.
(8) Coelho, José Cláudio Mcira, Irrigação na Área Pernambucana do São Francisco, pág.
13.

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