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Ele

Humilhou-se
a Si Mesmo
Redescobrindo a esquecida
arte de servir

Kenneth C. Fleming
ISBN-0-8297-1758-7

Categoria: Discipulado

Traduzido do original em inglês:


He Humbled Himself

© 1989 por Kenneth C. Fleming


© 1994 por Editora Vida

Tradução de Oswaldo Ramos

Todos os direitos reservados na língua portuguesa por


Editora Vida, Deerfield, Florida 33442-8134 — E.U.A.

Salvo onde outra fonte é indicada, as citações bíblicas


foram extraídas da Edição Contemporânea da Tradução de João Ferreira
de Almeida, publicada pela Editora Vida.

Ilustração: Ford Maddox Brown/ The Tate Gallery,


London/ Art Resource, N.Y.
ÍNDICE
Prefácio 7
PARTE I: SIGNIFICADO
1. A perdida arte de servir 11
2. Aprendamos a ser ministros 19

PARTE II: MODELO


3. Jesus Cristo, servo de Deus 29
4. O Messias que completou a obra 39
5. A missão de paz do redentor 52
6. Jesus Cristo, o discípulo 67
7. Cântico do Servo sofredor 78
8. "Em resgate por muitos" 89
9. Nosso humilde Salvador 100

PARTE III: RETRATOS


10. O círculo íntimo de Deus 110
11. Histórias para os seguidores de Cristo . . 122
12. Mais do que apóstolo — um servo 132
13 • Aos pés de Jesus 141
Conclusão 151
' Este livro eu o dedico afetuosamente à minha
esposa Helena, que tem sido exemplo singular
de excelência na arte de servir, tanto no campo
missionário como no lar e na igreja local.
Faça-me teu escravo, Senhor, e liberto sempre serei;
Força-me a depor minha espada, e conquistador me tornarei.
Mas se tento erguer-me por mim mesmo, nos temores da vida
afundarei.
Aprisiona-me em teus braços, e mais força nas mãos terei.

Fraco é meu coração, pobre e sem rumo o vi,


Não tendo estímulo nem ação, solto no vento, caído
Sem direção certa, até que se acorrentasse a ti.
Subjuga-o, pois no teu amor e pela morte jamais será traído.
Débil foi minha força, até que aprendi a servir;
É necessário o fogo para brilhar e a brisa para subir;
Não podendo dirigir o mundo, até que tu mesmo a venha
guiar,
Sua bandeira não se desfralda, sem teu sopro nela tocar.

Minha vontade não é mais minha, pois tu a fizeste prisioneira;


Se ao trono do monarca chegasse, com sua coroa reinaria
Serena em meio à discórdia e ao conflito sempre estaria,
Em teu peito apoiada, encontra apenas em ti a vida primeira.

George Matheson
. . . . :

' rKi-.;- > ,!•' ' * ' .V •


Prefácio

uando perguntou-se a uma classe de calouros de Harvard quais

Q seriam seus objetivos pessoais para o novo ano entrante,


responderam: dinheiro, poder e reputação, nesta ordem.
Não há dúvida de que essa pesquisa reflete o pensamento
generalizado da maioria dos estudantes universitários do Ocidente.
Este livro também trata de objetivos. Contudo, são objetivos
bem diferentes dos do estudante universitário típico. O Senhor
Jesus deixou bem claro qvie os objetivos no Reino de Deus opõem-
se aos do mundo secular. A grandeza, no Reino de Deus, mede-se
pelo espírito de servir, do qual o próprio Jesus foi exemplo:
"Pois o Filho do homem não veio para ser servido, mas para
servir e dar a sua vida em resgate por muitos" (Marcos 10:45).
A Bíblia dá grande ênfase ao espírito de serviço. A Concordância
Bíblica da Sociedade Bíblica do Brasil apresenta cinqüenta referên-
cias ao verbo "servir", 800 ao substantivo "servo", mais 300 às
palavras derivadas de "servo", e ainda 130 para as palavras "escra-
vo, escravizar e escravidão". É óbvio que as pessoas a quem Deus
mais usa são as que estão mais dispostas a serem servas. Servir
constitui um modo de vida, uma atitude, um relacionamento. As
páginas seguintes contêm um estudo bastante amplo do que
significa a atitude de servo na Bíblia. Minha oração fervorosa é para
que meus leitores possam aprender mais a respeito deste espírito
de serviço segundo a Bíblia, e que se sobressaiam de modo excep-
cional ao imitar o Servo perfeito.
Kenneth C. Fleming
Dubuque, Iowa
.-.-.• • . '

• ' - ••,• •
PARTE I

SIGNIFICADO
A perdida arte de servir

o mercado de trabalho e por toda a parte, nossa geração


vem testemunhando um declínio alarmante na arte de
servir.
A antiga idéia de serviço era que se fizesse algo em prol de
outra pessoa, a fim de ajudá-la. Em nossos dias, nesta era do
"sirva-se a si mesmo", a ênfase recai sobre redução dos custos
de mão-de-obra a fim de não diminuir o lucro. Nos supermerca-
dos, nos centros de lojas e no comércio em geral é cada vez mais
difícil encontrar alguém que conheça os produtos que vende e
nos explique suas qualidades.
A disponibilidade em servir está desaparecendo, a menos que
você tenha em mente o "sirva-se a si mesmo", isto é: procure,
pegue, leve para casa e faça você mesmo. Até mesmo na igreja
a idéia de ajudar o próximo perde terreno. Aos domingos vamos
a um culto na igreja, onde nos sentamos e usufruímos boa
seleção de hinos, orações e mensagem, em ambiente amistoso
e simpático. Quanto melhor nos sentirmos, depois de uma hora
mais ou menos, melhor é nossa opinião a respeito do culto. Só
pequena minoria faz mais do que sentar-se e ouvir. Alguns julgam
que "já serviram a Deus" só pelo fato de estar lá, quando, na
verdade, nós é que fomos servidos pelo pregador. Em contraste,
o Senhor Jesus veio não para ser servido, mas para servir (Marcos
10:45).
À personagem principal da igreja dá-se o nome de "ministro",
uma antiga palavra que significa "servo", embora hoje não haja
às vezes muita evidência desse significado. Belos ternos e grava-
tas enfeitam ministros que ocupam púlpitos luxuosos e pisam
espessos carpetes. Muitos são mais professores do que pastores,
outros sabem mais como levantar fundos do que restaurar almas,
ou são melhores na direção de entretenimentos sociais do que
no pastoreio espiritual.
O principal ministro de grande igreja poderá exibir uma
descrição de cargo muitíssimo diferente do "ministério" vivido
pelo Senhor Jesus. Dele se espera que seja pregador eloqüente,
superorganizador e grande administrador. Deve residir numa
casa que esteja à altura de seu "status". O carro, as roupas, sua
mobília e seus livros, tudo que lhe pertence deve ser da melhor
qualidade. Nós, membros da congregação, queremos que ele
reflita nosso próprio estilo de vida. Com toda alegria doamos
dinheiro para sustentar nosso pastor, mas mostramo-nos relutan-
tes em dedicar nosso tempo e esforços em trabalhar com ele
como servos e companheiros na mesma obra. Será que carrega-
mos a culpa de desejar que nosso pastor reflita nossos ideais
materialistas, em vez de liderar-nos, como servos, na obra de
Deus?
O espírito de serviço em ação é o transbordamento da vida
cristã em prol do próximo, assim como o culto é o transborda-
mento da vida cristã na direção de Deus. Ambos começam no
próprio Deus. Quando cultuamos a Deus, estamos reagindo à
divindade em função de quem é o Senhor, e do que ele faz.
Ficamos maravilhados com seus atributos infinitos, e com sua
obra. Assim é que o culto se torna nossa expressão de gratidão
e nosso louvor, porque conseguimos vislumbrar a glória do
Senhor.
Talvez cantemos, talvez oremos, talvez permaneçamos em
humilde silêncio, enquanto nos inclinamos diante dele. Essa é a
reação vertical do homem diante de seu Criador.
Maravilhados diante do amor de Deus, e em face à redenção
que nos transferiu do reino das trevas para o Reino de seu Filho
amado, expressamos nosso amor ao alcançar horizontalmente
nosso próximo (Colossenses 1:13-14).
"Nós o amamos porque ele nos amou primeiro" (1 João 4:19).
Espírito de serviço é obediência, disposição e gratidão a Deus,
ao expressarmo-nos em atos de amor às pessoas.
A perdida arte de servir 13
Assim exortava o apóstolo Paulo:
"Não atente cada um somente para o que é seu, mas cada
qual também para o que é dos outros. . . haja em vós o
mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus que. . .
tomando a forma de servo. . . humilhou-se a si mesmo,
sendo obediente até à morte" (Filipenses 4-8).
Cristo Jesus, o Servo, sofreu para nosso benefício, sendo
obediente até à morte na cruz.
Duas dimensões
O conceito neotestamentário de servo apresenta duas facetas:
ação em favor do próximo e submissão a um senhor.
A primeira é representada pela palavra grega diakonos, usada
muitas vezes por todo o Novo Testamento. Na maioria das vezes
é traduzida por "servo" por Almeida, Edição Contemporânea,
sendo traduzida também como "ministro" e "diácono" (Veja 2
Coríntios 6:4, Colossenses 1:25, 1 Timóteo 3:12). A ênfase está
no serviço como ação, algo que fazemos por alguém.
Outra faceta, a da submissão, é representada pela palavra
grega doulos, usada com mais freqüência ainda, a fim de descre-
ver o povo de Deus. É traduzida pela palavra portuguesa "escra-
vo" ou "servo", como aparece na Edição Contemporânea
(Filipenses 1:1, Efésios 6:6,1 Pedro 2:16). Doulos enfatiza a idéia
de submissão. Epafras é descrito como um "servo de Jesus
Cristo", indicando assim que vivia em completa submissão à
autoridade do Senhor Jesus (Colossenses 4:12). Para os cristãos
primitivos Jesus Cristo era Senhor e Mestre, e tinham imensa
alegria em aceitar a posição de escravos de Jesus.
Uma terceira palavra grega para ministro é litourqos, que
transmite a idéia de alguém a quem foi designado um trabalho
especial a ser executado para o Estado. Quando usada para
designar crentes, a ênfase recai sobre a responsabilidade que
lhes foi atribuída por Deus. Paulo, que tinha assumido a obra de
evangelizar os gentios, usa a palavra litourqos para descrever-se
a si próprio (Romanos 15:16).
Quem deseja ser um doulos, um diakonos ou um litourqos?
Pouca gente. Ser escravo não é anseio popular. Quem deseja
acatar com respeito a todas as pessoas ao seu redor? Quem quer
carregar a valise de alguém, ou lavar-lhe as meias? Quem almeja
ser considerado um "joão-ninguém" mesmo quando trabalha
com afinco? Quem aprecia não receber nenhum reconhecimen-
to? Nem mesmo os discípulos primitivos mostravam muita von-
tade de ser servos, e nenhum deles se apresentou como
voluntário a fim de lavar os pés de seus companheiros, na Última
Ceia (João 13:1-11).
Por que o espírito de serviço é tão desprezado?
O espírito de serviço, segundo a Bíblia, opõe-se de modo
radical aos valores do mundo. O mundo nos oferece uma atmos-
fera onde se desenvolvem interesses egoístas; é um lugar de
prazer, em que se busca a satisfação dos cinco sentidos. No
mundo há oportunidade para adquirirmos coisas materiais que
nos atraem de forma tentadora: roupas, carros e produtos de
consumo. Oferece-nos, também, a oportunidade para aumentar
nossa autoridade pessoal, "avançar na vida".
A palavra usada no Novo Testamento para mundo é kosmos,
e primordialmente significa ordem, disposição, adorno, beleza.
É a "condição atual dos assuntos humanos, a oposição a Deus
e a alienação de Deus" (W. E. Vine). "O senhor deste mundo" é
o próprio Satanás (João 12:31; 14:30; 16:11), que também é
chamado de "príncipe das potestades do ar" (Efésios 2:2). "Ar
significa aquela esfera onde vivem os habitantes do mundo. . . e
que constitui o seu trono de autoridade" (W. E. Vine). Satanás é
o senhor daqueles que andam "segundo o curso deste mundo"
(Efésios 2:2).
O espírito de serviço cristão opõe-se aos valores do sistema do
mundo. "Sé alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele" (1
João 2:15). Os dois "amores" mencionados neste versículo opõem-
se entre si. O "amor do mundo" é uma cobiça que busca o que
mundo tem para oferecer: prazer pessoal, possessões materiais,
auto-exaltação. Tais coisas são descritas nesta passagem como "a
concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba
da vida" (1 Jqão 2:16). O crente que ama a Deus deve rejeitar este
falso sistema de valores.
Prossegue o apóstolo João afirmando que tudo quanto nos
interessa neste mundo há de passar ( l j o ã o 2:16,17). Nada é
permanente. Os servos segundo a Bíblia não desperdiçam suas
A perdida arte de servir 15
energias esforçando-se "pela comida que perece, mas pela co-
mida que permanece para a vida eterna" (João 6:27).
Outra razão pela qual o espírito de serviço é desprezado é que
ele se opõe aos "nossos direitos". Fomos educados crendo que
nossos direitos ã saúde, ã riqueza material e ã felicidade são
inalienáveis, isto é, não nos podem ser tirados, nem transferidos —
eles nos são garantidos por lei. As guerras acontecem por causa de
direitos.
No entanto, o crente precisa aprender a distinguir a diferença
entre seus direitos como cidadão nacional e seus direitos como
cidadão do Reino dos Céus. No Reino dos Céus ele é um servo, um
simples escravo. Que direitos possui um escravo? Salário, relacio-
namentos, tempo livre, autoridade, escolhas próprias? Nada disso.
O escravo não tem direitos, nenhum direito. Ele depende totalmen-
te das boas graças de seu senhor. Em termos humanos, o senhor
poderia ser cruel no caso em que a situação fosse intolerável. No
Reino de Deus, entretanto, o Senhor dos escravos é o próprio
Deus, cheio de graça, que trata seus servos com amor, que deseja
sempre o melhor para eles, e tudo faz nesse sentido. Seus servos
o amam, e gostam muito de servir a ele. Todavia, sendo servos,
reconhecem que ele é Senhor, e que a ele cabem todas as decisões.
Não têm direitos próprios, senão os de agradar e obedecer a seu
Senhor. Ao agir assim, estão assumindo o lugar ocupado por Jesus,
quando este tomou a "forma de servo" (Filipenses 2:7). Mable
Williams, missionária na China, captou este pensamento nos se-
guintes versos:

Ele não tinha direitos


Ele não tinha direitos.
Nenhum direito a uma cama macia, à mesa bem posta.
Nenhum direito a um lar seu mesmo, ou lugar onde
pudesse encontrar um prazer próprio.
Nenhum direito de encontrar companheiros agradáveis,
do mesmo temperamento, capazes de compreendê-lo
e nutrir simpatias por ele.
Nenhum direito de esquivar-se da sujeira e do pecado,
de ajustar as roupas ao redor do corpo
e caminhar por caminhos mais limpos.
16 Ele Humilhou-se a Si mesmo
Nenhum direito de ser compreendido e apreciado: não,
nem mesmo por aqueles sobre quem ele
derramara uma porção dobrada de seu amor.
Nenhum direito, nem mesmo o de não ser abandonado pelo Pai,
a Pessoa mais importante para ele.
Seu único direito foi o de suportar a vergonha em silêncio,
levar cuspidas e bordoadas, assumir o lugar do pecador, o do
criminoso no tribunal:
levar sobre si meus pecados, em angústia, até a cruz.
Ele não tinha direitos. E eu, tenho?
Tenho o direito aos "confortos" da vida?
Não, mas tenho o direito ao amor de Deus
onde posso repousar a cabeça.
O direito à segurança física?
Não, mas tenho o direito à segurança
de quem lhe faz a vontade.
O direito ao amor e à simpatia das pessoas ao meu redor?
Não, mas tenho o direito à amizade de Alguém que me
entende melhor do que eu mesmo.
O direito de ser líder entre os homens?
Não, mas tenho o direito de ser liderado e orientado
por Alguém a quem entreguei todo meu ser,
a ser guiado como uma criancinha,
com a mãozinha na mão do Pai.
O direito a um lar, a ter entes queridos?
Não necessariamente.
Tenho direito, todavia, de morar no coração de Deus.
O direito de ser eu mesmo? Não, mas, ah!
tenho o direito de ter Cristo.
Tudo que quiser de mim lhe entregarei.
Tudo que me der aceitarei.
Ele é todo o meu direito!
Ele é o direito diante do qual
todos os demais direitos transformam-se em nada.
Recebi o direito de tê-lo integralmente.
Ah! Possa ele ter direito integral sobre mim!
(Nós não temos direitos? Moody, 1957)
A sociedade respeita os poderosos, não os escravos. Ela com
certeza vai honrá-lo pelo que você tem, e não pelo que você é.
Com certeza respeitará seus diplomas universitários mais do que
o que você sabe. Com certeza reconhecerá os símbolos de cultura
que você exibe mais do que suas atitudes e atos de amor genuíno.
A sociedade procura poder e o honra, quer seja mau, quer seja
bom, respeita qualquer paspalho político, quer goste dele, quer
não. O rico usa o poder econômico para seus próprios propósi-
tos e também para controlar pessoas. Atletas detêm poder para
influenciar milhões, alguns o usam para o bem, outros para o
mal. Pessoas que trabalham na televisão exercem tremenda
influência, e nossa cultura lhes paga tributo. Parece que nossa
sociedade conhece e honra o poder, nunca a servidão.
A maioria das pessoas é responsável diante de outrem, como
empregados (servos) que são. Entretanto, os empregados racio-
cinam em termos de benefícios, ao invés de serviço. Discutimos
salários, política de aposentadoria, férias, benefícios médicos e
outros, mas não queremos discutir a qualidade do serviço que
prestamos.
O movimento feminista opõe-se ao espírito de serviço segun-
do a Bíblia. Esse movimento foi além da promoção da igualdade
e da dignidade pessoal das mulheres. O campo de batalha hoje
é o papel que as mulheres desempenham no lar, na igreja e nos
negócios.
Sempre que os princípios bíblicos invalidam seus objetivos,
as feministas prontamente descartam as Escrituras. Os velhos
papéis de dona-de-casa e mãe são papéis próprios de servas e,
por isso, desprezíveis de todo. As feministas fazem sentir sua
presença nas igrejas, à medida que um número crescente de
mulheres assume posições de liderança e de ensino. Elas tentam
justificar-se mediante reinterpretação de 2 Timóteo 2, e passa-
gens correlatas.
Os servos formam uma espécie em extinção. Entretanto, o
perigo não é tão moderno como pensam alguns. Tão logo Deus
colocou ordem no universo, Satanás rebelou-se e, em seu orgu-
lho, declarou:
"Subirei acima das mais altas nuvens; serei semelhante
ao Altíssimo" (Isaías 14:14).
Adão e Eva rebelaram-se quando duvidaram da orientação de
Deus e comeram do fruto proibido. Satanás lhes havia dito:
"No dia em que comerdes desse fruto, os vossos olhos
se abrirão, e sereis como Deus" (Gênesis 3:5).
Ninrode rebelou-se contra Deus e construiu uma cidade,
Babilônia, a fim de prover um nome para si mesmo (Gênesis
10:10; 11:4). A História é uma longa lista sobre as tentativas do
homem no sentido de descartar-se do papel de escravo, e esta-
belecer seus próprios propósitos orgulhosos. O resultado tem
sido discórdia, revolução e guerra.
O espírito de serviço é uma arte. Onde a ordem de Deus se
estabelece há harmonia. Que é que existe de mais belo do que
um lar abençoado pela harmonia, onde cada um desempenha
suas responsabilidades?
Como é atraente a igreja cujos líderes e liderados desempe-
nham adequadamente suas atribuições e responsabilidades: os
crentes em paz, adorando a Deus juntos, e assim aprendendo as
coisas de Deus, enquanto os líderes assumem suas responsabili-
dades de servos e ministros (Atos 20:28), guiando e alimentando
o rebanho de Deus.
Como é abençoada a nação cujos governantes insistem no
cumprimento da lei, na observância da ordem, e conduzem o
povo à prosperidade e à paz! Sem o adequado relacionamento
entre governantes e governados, entre senhores e servos, não
pode haver harmonia.
Quando cada pessoa pratica o que julga ser direito a seus
próprios olhos, o resultado final é a anarquia, como nos dias dos
juizes (Juizes 21:25). Entretanto, quando a ordem designada por
Deus é colocada em prática, há verdadeira harmonia. O espírito
de serviço é fator chave no Reino de Deus.
2
Aprendamos a ser
ministros

eria a minha posição a de um simples "office-boy"? Cresceu

S dentro de mim forte sensação de mágoa. Eu havia sido


missionário entre o povo zulu, na África do Sul, durante mais
de dois anos. Meu tempo havia sido ocupado principalmente no
estudo da língua e cultura zulus, bem como na extração de
dentes, assentamento de tijolos, e ensino das Escrituras na escola
local. Havia iniciado a pregação de mensagens simples, em zulu,
e funcionava, de modo geral, como ajudante de nosso missioná-
rio mais antigo, Edwin Gibbs.
Certa época ele e a esposa partiram de férias para os Estados
Unidos. Por isso, minha esposa e eu éramos os únicos missioná-
rios casados naquela sede missionária. Sentia certo prazer em
ser considerado "o encarregado". Finalmente, seria um "missio-
nário de verdade!"
Então, no concilio trimestral, alguns dos líderes zulus entra-
ram em acordo segundo o qual alguém dentre eles mesmo é
quem deveria assumir a "posição e autoridade" do Sr. Gibbs. Aí
surgiu a questão do cargo a ser atribuído ao novo missionário,
ou seja: a mim.
O cargo dele — disseram os zulus — seria de "office-boy". Foi
quando, então, nem prestei atenção mais à luz tremulante e aos
besourinhos esvoaçantes que rodeavam as velas acesas, cada vez
mais perto, até morrerem queimados. Só conseguia pensar numa
coisa: "office-boy!" Minhas defesas ergueram-se. A maioria deles
nem sequer sabia ler. Será que não sabiam do padrão de vida que
havíamos abandonado na América do Norte a fim de estarmos
ali? Que ligação haveria entre o cargo de "office-boy" e o trabalho
missionário que eu deveria executar? Terminada a reunião,
alguns irmãos zulus conversaram comigo lá fora — também
ficaram perturbados com a notícia.
Foi quando meu melhor amigo zulu, Isaque Zindela, levou-me
para um canto. Zindela era excelente homem, evangelista de
coração ardoroso. Morava com a família numa vila de cabanas
de barro, numa colina 1.500 metros acima do rio Umzimkulu.
Ele e eu havíamos percorrido quilômetros e mais quilômetros,
para cima e para baixo, subindo e descendo montanhas, em
visitas pastorais. Ele era como um pai para mim: corrigia minha
gramática zulu, e ensinava-me coisas relativas à cultura de seu
povo. Ria deliciado quando eu, afinal, conseguia entender deter-
minado ponto, depois de tê-lo explicado pacientemente várias
vezes.
Quando ficamos a sós, disse-me ele:
— Não fique perturbado com o que ouviu há pouco. Lembre-se
do que Jesus disse aos discípulos em Marcos, capítulo dez,
versículo quarenta e cinco.
Eu sabia esse versículo de cor, em inglês. Entretanto, agora,
quando esse homem o mencionava com deliberação, devagar,
na língua zulu, cada palavra fazia-me sentir como alguém que
estivesse sendo apedrejado, nos tempos bíblicos.
"Pois o Filho do homem não veio para ser servido, mas
para servir e dar a sua vida em resgate por muitos."
De súbito, o quadro todo ficou perfeitamente em foco. Eu
havia aprendido esse versículo dez anos antes, em Seattle. Lorne
Sanny havia discipulado alunos universitários, sendo parte do
programa a memorização de partes das Escrituras. Várias vezes
antes esse versículo me apanhara quando tentava superestimar
a mim mesmo, com o objetivo de satisfazer meu "hábito de
orgulho". Agora, ei-lo que me pega de novo, e com a mão na
botija.
O ministro é um servo
A palavra ministro ecoou nas escarpas de minha mente duran-
te muitos dias, depois deste incidente. Percebi de novo que essa
palavra tão antiga significava apenas "servo". Até mesmo o Filho
do homem viera para servir, não para ser servido! Para que eu
viera? Viera para ministrar, para servir, exatamente como meu
Salvador. Aos poucos, a glória do caráter de servo, protagoniza-
do por Cristo, começou a nascer em minha mente obscurecida
pelo orgulho. O cargo de "office-boy" começou a adquirir um
pouco de dignidade.
Marcos 10:45 é, para mim, o versículo mais desafiador da Bíblia.
À semelhança daquela noite em 1954, vezes sem conta tenho sido
despertado espiritualmente pela verdade nele contida. Este ver-
sículo tem barrado observações sarcásticas na ponta da minha
língua. Ele decepa pela raiz a tendência à autopiedade. A mágoa
derivada de pessoas ingratas tem sido, de forma literal, transforma-
da em gratidão pelo privilégio de servi-las. O conceito integral
de servir como o Senhor serviu consegue mudar-nos a vida.
Aprender a servir é aprender a ser como o Senhor Jesus. O
espírito de serviço e o espírito de Cristo estão interligados, visto
que Cristo foi um servo.
"Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, porque
sou manso e humilde de coração"
(Mateus 11:29).
Esta declaração representa um modo figurado de dizer: "Sub-
metam-se às minhas instruções assim como um boi se submete
ao jugo, a fim de servir". Tenho muitas vezes observado bois no
momento de receber o jugo. O boi precisa abaixar a cabeça ao
máximo, a fim de receber o jugo. Eis uma ilustração bem
apropriada para nós, se quisermos receber o jugo de Cristo. O
Senhor Jesus, que é "manso e humilde de coração", é nosso
modelo. O exemplo de Cristo pode tornar-se realidade experi-
mental em cada um de nós. Faz parte da vontade de Deus que
cada crente seja servo. E quanto mais profundo for nosso espírito
de serviço, mais satisfação sentiremos.
Graça em servir
Infelizmente, em nossa apreciação da vida de Cristo, muitos
de nós perdemos o impacto de seu programa de treinamento
para o discipulado.
Nossas emoções explodem quando lemos a respeito de uma
pomba que, de modo visível, repousou sobre o Senhor; com
uma voz de trovão partindo das nuvens; ou com o misterioso
desaparecimento de Jesus diante da multidão enfurecida.
Identificamo-nos de modo fácil com as reações de Cristo às
necessidades humanas: morte de uma criança, doença de uma
mulher, cegueira de um homem. Podemos sentir seu toque
poderoso, quando multidões famintas são alimentadas, ou quan-
do um homem endemoninhado se liberta, enquanto porcos
despencam no mar e morrem afogados.
Ficamos sobremodo alegres quando crianças correm para ele.
Aplaudimos quando inimigos, de língua ferina, procuram esca-
pulir sorrateiramente às suas sábias respostas.
Reagimos de maneira afirmativa também quando vemos sua
obra redentora. Entendemos que a salvação de que nos benefi-
ciamos proveio de sua morte expiatória, de sua ressurreição, e
que nos livramos da perdição eterna.
Todavia, precisamos compreender que as implicações de seus
ensinos vão mais longe um pouco. Precisamos identificar-nos
com sua graça em servir, precisamos partilhar o Senhor na
semelhança dele como Servo.
"O Filho do homem. . . veio. . . para servir" (Marcos 10:45).
Marta, à semelhança de muitos de nós, estava confusa quanto
ao conceito integral de serviço ao Senhor. A "obra" envolvida
no serviço não era problema para ela. Ninguém a superava na
excelência do serviço de hospedagem: "Marta o recebeu em sua
casa" (Lucas 10:38). Nós a encontramos ocupada com todos os
preparativos que precisavam ser feitos (v. 40). Entretanto, a
atitude de Marta pôs à mostra a confusão que fazia a respeito do
que significa realmente servir. Diz-nos Lucas que ela estava
"distraída" com todos aqueles preparativos.
A distração de Marta relacionava-se com os afazeres do trabalho,
em vez de prender-se à Pessoa a quem estava servindo. Ela fazia
coisas certas com atitude errada. O Senhor Jesus a repreendeu,
dizendo: "Marta, Marta, estás ansiosa e preocüpada com muitas
coisas, mas uma só é necessária" (w. 41-42). Essa única coisa
necessária era que Marta fixasse toda a atenção na Pessoa por quem
executava tanto serviço. Marta precisava da graça em servir.
Aprendamos a ser ministros 23
Não era alimento o fator importante. Nem era importante o
fato de que a ajuda de sua irmã apressaria os preparativos. A coisa
mais importante era que o Mestre fosse servido por ambas as
mulheres. Maria agradava ao Senhor porque se sentara a seus pés
e ouvia. Marta poderia agradar-lhe de modo semelhante ao
trabalhar na cozinha. Não era a atividade em si, mas a atitude,
que constituía o fator-chave. Marta precisava de graça divina, a
fim de bem servir a seu Senhor.
Servir faz parte do discipulado
As exigências básicas do discipulado são fáceis de entender
porque são simples: no entanto, difíceis de serem postas em
prática porque exigem demais. O programa de discipulado do
Senhor inclui o seguinte:
1. Completa submissão a seu senhorio.
2. Completo espírito de serviço voltado ao povo do
Senhor.
3. Completa separação do sistema mundano.
Eis aí os ingredientes essenciais do discipulado prático.
"Da mesma forma, qualquer de vós que não renuncia a
tudo que tem, não pode ser meu discípulo"
(Lucas 14:33).
"Todo aquele que, entre vós, quiser tornar-se grande,
seja vosso servo"
(Mateus 20:26).
"Como não sois do mundo, antes, dele vos escolhi, é por
isso que o mundo vos odeia"
(João 15:19).
Observe que o espírito de serviço ocupa posição central no
modo de viver segundo os princípios bíblicos. O problema é que
tais princípios se tornam muito incômodos para nós que esta-
mos conformados segundo o padrão de vida mundano. E assim
é que reagimos e resistimos.
Eu, escravo? Que horror!
Eu sou um escravo? Tais palavras ressoam a princípio como
sentença eondenatória, ou como pesadelo. Associamos a palavra
escravo com trabalho de jumento, salário exíguo, serviço braçal
para analfabetos. Na África do Sul, a idéia de escravo, ou servo,
traz à tona a figura de um negro ou negra trabalhando na cozinha
de uma família branca. Tais servos trabalham longas horas em
troca de remuneração vil. Às vezes são tratados bem, às vezes
não. O padrão total da cultura passa por alterações, mas ainda a
imagem de servo naquele país é pejorativa.
Os ocidentais, de modo geral, também desligam automa-
ticamente diante do conceito de servo. Jamais se apressariam
em atender a um anúncio que fosse assim redigido:
Precisa-se de servo. Que seja bem disposto, responsável,
obediente e humilde. Exigem-se cinco anos de experiên-
cia, e que traga referências.
Os norte-americanos sonham com sucesso, segurança, inde-
pendência, direitos e prosperidade — nunca sonham com servi-
dão. Se você almeja "ganhar amigos e influenciar pessoas" o
caminho recomendado não é o do serviço humilde. Se você quer
ver seu nome na lista do "Who's Who" (Quem é Quem!), poucas
pessoas lhe recomendariam fazer o que Jesus ensinou. Contudo,
se estudar a Bíblia e quiser seguir os ensinos claros do Mestre,
prestar serviço é coisa que aparece no topo da lista.
O verdadeiro espírito de serviço ganha de fato amigos, e
influencia pessoas. Produz resultados que vão além de nossos
sonhos, embora não apareçam em termos de prosperidade
material. Países ocidentais estão cheios de pessoas bem sucedi-
das — mas infelizes. A felicidade lhes escapou porque os objeti-
vos dessas pessoas de tiveram-se em si próprias. Não aprenderam
que a verdadeira felicidade é o resultado de darmos, não de
recebermos, de servir a outros, não de servir a nós mesmos. Os
objetivos do serviço autêntico projetam-se para além de nós
mesmos e atingem outros — inclusive Deus. Ao fazer isso influen-
ciaremos pessoas da mesma maneira como Jesus o fez.

A alegria de servir
Pense um pouco nas pessoas mais realizadoras que você
conhece. Descobrirá que conhecem a alegria de alcançar a
outros. O segredo da felicidade está no servir.
Muitos acham difícil crer neste princípio, visto que contraria
os ideais de nossa cultura. Acontecia a mesma coisa nos dias de
Jesus. Disse ele:

"Qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas


qualquer que, por minha causa, perder a sua vida, esse a
salvará"
(Lucas 9:24).

Perder a vida significa pôr de lado os objetivos egoístas da


sociedade. Entretanto, é perda apenas do ponto de vista do
mundo. Salvar a vida é encontrar satisfação espiritual. Os servos
"salvam" suas vidas.
Um exemplo exponencial de pessoa que perdeu a vida a fim
de salvá-la foi Helen Flint, esposa de um professor de seminário
teológico. Ela empregou a vida no serviço em prol dos semina-
ristas. Sua casa ficava próxima ao Seminário, de modo que ela
sempre estava pronta para "ministrar" às necessidades de cada
aluno que a procurava. E eles apareciam às dúzias. Aos sábados,
iam bem cedo, para o café da manhã com bolinhos. Praticamente
todos os dias apareciam por ali, a fim de usar o fogão dela,
embora nem sempre o deixassem tão limpo como o encontra-
vam.
Helen de forma alegre o limpava. Todos os alunos do seminá-
rio eram incluídos em suas festinhas comemorativas de aniver-
sários, feitas todos os meses.
Dificilmente passava um dia sem que algum estudante não se
beneficiasse daquele lar aberto, daqueles ouvidos atenciosos,
daquele coração amoroso e receptivo. Helen partilhava alegrias
e desapontamentos dos jovens. Distribuía conselhos maternais,
piedosos. Embora muitas vezes se sentisse cansada, sorria sem-
pre. Poucas pessoas seriam capazes de servir como Helen servia,
e poucas pessoas conheceram a alegria profunda, plena de
satisfação, experimentada por Helen. Ela e o marido estão apo-
sentados agora. Entretanto, ela deixou um testemunho monu-
mental em homenagem à alegria de servir. Fez a felicidade de
centenas e, neste processo de servir, tornou-se a pessoa mais
feliz entre todas.
Você também pode experimentar a mesma alegria!
-
2a PARTE

MODELO
Jesus Cristo, servo de
Deus

e quisermos aprender de modo apropriado o ensino bíblico

S a respeito do espírito de serviço, torna-se necessário conhe-


cermos os costumes e leis dos hebreus e, em seguida,
relacioná-los a Jesus Cristo, o Servo. A lei concernente ao serve
hebreu é explanada duas vezes nas Escrituras (Êxodo 21:1-6;
Deuteronômio 15:12-18).
Na economia agrária dos hebreus, os pequenos proprietários
de terras às vezes faliam. O interesse pelo bem da família poderia
induzir esse homem falido a oferecer-se como servo de algum
fazendeiro. Não se tratava de um acordo perpétuo, mas com
duração de seis anos apenas. No sétimo ano esse servo deveria
ser libertado. Ele só não podia levar consigo a esposa e os filhos
adquiridos durante a escravidão; a esposa deveria terminar c
contrato dela. O homem seria liberado e partiria bem provido
de mercadorias de modo que pudesse reiniciar a vida. Essas
provisões de ajuda deveriam ser proporcionais aos bens com
que Deus havia abençoado o fazendeiro rico, o qual deveria
lembrar-se de que Deus o libertara da escravidão no Egito. E
assim era que tal homem libertava alegremente uma pessoa que
passara por grandes dificuldades.
Entretanto, constitui elemento básico, importantíssimo, no
ensino bíblico a respeito da servidão, que o escravo às vezes
decidia não abandonar seu amo e senhor. É possível que enten
desse que as circunstâncias lhe seriam melhores se continuasse
como servo, do que sendo livre: boas acomodações, comida
sadia, lar feliz, senhor bondoso. Por isso, poderia escolher a
opção de continuar como servo, e recusar a liberdade.
A fim de oficializar essa servidão perpétua, havia uma pequena
cerimônia prescrita para a ocasião. O senhor apresentaria o
servo a Deus — a saber, para o juiz local, que agia em nome de
Deus. O servo deveria declarar de público:

"Eu amo a meu senhor, e a minha mulher, e a meus filhos,


e não quero sair forro"
(Êxodo 21:5).

Em seguida era levado à porta de madeira e sua orelha era


furada com uma sovela, deixando uma cicatriz permanente,
marca de servidão perpétua. A partir de então não haveria
retrocesso, ele serviria a seu senhor pelo resto da vida.
Quatro coisas caracterizariam seu serviço a partir daí. Basear-
se-ia no amor, visto que havia experimentado o amor de seu
senhor e reagido a ele positivamente. "Eu amo a meu senhor",
havia dito. Era voluntário. O homem havia tido oportunidade de
libertar-se, mas preferiu a servidão. Esta seria perpétua. Não
haveria maneira de fugir do cativeiro, no futuro. O relacionamen-
to senhor-servo nunca se alteraria. Seria total. Teria obrigação de
cumprir a vontade de seu senhor em tudo.
O salmo 40 relata a lei dos hebreus concernente ao servo, à
pessoa do Senhor Jesus. Trata-se de um dos salmos messiânicos,
o que significa que contém uma referência ao Messias, citada de
forma direta no Novo Testamento.
Davi escreveu baseado numa de suas experiências de rejeição,
provavelmente quando seu filho Absalão rebelou-se e furtou os
corações das pessoas. Absalão dera início à revolta aberta com
uma festividade sacrificial. Esses sacrifícios, que objetivavam
significar a vinda do Salvador, o qual deveria sofrer e morrer
pelos nossos pecados, tornaram-se meramente cerimoniais.
Contudo, Absalão abusou desses sacrifícios mais ainda.
Sentindo-se rejeitado, Davi clamou ao Senhor numa oração
em que pede livramento. Lembra-se de que Deus o livrara de
dificuldades anteriores, e confia em que será ajudado de novo.
Os primeiros cinco versículos são um cântico de louvor pelas
Jesus Cristo, servo de Deus 31
respostas anteriores às suas orações. Deus havia levantado Davi,
tirando-o da cova, e dando-lhe um cântico de agradecimento.
É na parte seguinte (w.6-10) que ocorre a referência à lei
hebraica concernente ao servo. Ali declara Davi sua devoção a
Deus, sendo servo obediente. Ele observa que Deus não está
primordialmente interessado na faceta cerimonial dos sacrifí-
cios. "Sacrifício e oferta não quiseste" (v. 6).
Os sacrifícios legais de animais eram apenas figuras do único
sacrifício verdadeiro pelo pecado, que seria oferecido pelo
Servo-Redentor que a si mesmo se ofereceu na cruz.
O próprio Servo perfeito é quem fala, na frase seguinte: "as
minhas orelhas furaste". Eis uma frase estranha, até que nos
lembremos de que o servo passava pelo furo das orelhas ao
dar-se de maneira irrevogável à vontade de seu senhor. E aqui,
no salmo 40, o Servo perfeito fala que sua orelha foi furada ao
dar-se a si mesmo, em sacrifício verdadeiro pelos nossos peca-
dos. O Senhor o havia transformado em servo: "As minhas
orelhas furaste". O sacrifício era eficaz porque partia da iniciativa
do Senhor.
No versículo seguinte o Servo declara:
"Então, eu disse: Eis-me aqui, cheguei, no rolo do livro está
escrito a meu respeito. Deleito-me em fazer a tua vontade, ó
Deus meu, a tua lei está dentro do meu coração" (w. 7-8).
O servo hebreu faria a vontade de seu senhor e, aqui, o Servo
perfeito declara que encontra prazer e grande alegria em execu-
tar a vontade de Deus. Seu serviço é todo voluntário. "Eis-me
aqui, cheguei". Não se trata de mero indício da Encarnação.

"Eu desci do céu não para fazer a minha vontade, mas a


vontade daquele que me enviou"
(João 6:38).

O servo do salmo 40 é mencionado mais uma vez em Hebreus,


onde as palavras deste são aplicadas diretamente a Cristo (He-
breus 10:5-7). Os primeiros quatro versículos desse capítulo
declaram que os sacrifícios animais da Antiga Aliança não po-
diam remover pecados. A prova disso estava na repetição desses
sacrifícios. Todavia, quando o Servo do capítulo 40 veio ao
mundo, não trouxe sacrifícios animais, mas trazia um corpo
preparado para o único sacrifício eficaz (Hebreus 10:5). 0 corpo
do Servo foi oferecido pelo pecado, na cruz.
Observe que o autor de Hebreus usou palavras específicas:
"corpo me preparaste" em lugar de "minhas orelhas furaste" do
salmo 40. Entretanto, ambas as expressões se eqüivalem, na
verdade, visto que a orelha perfurada do servo significava que
se dera inteiramente a seu senhor. Tal doação incluía seu corpo,
o qual, no caso de Cristo, deveria ser usado como sacrifício.
Quando crentes se reúnem a fim de celebrar a Ceia do Senhor,
participam do pão que é descrito como "meu corpo que é
entregue por vós" (1 Coríntios 11:24).
A lei concernente ao servo hebreu era, pois, em primeiro
lugar, assunto civil, parte da regulamentação da sociedade he-
braica. Em segundo lugar, tornou-se parte da promessa messiâ-
nica, no salmo 40. Por fim, a verdade integral foi explicada no
oferecimento do corpo de Cristo como sacrifício pelo pecado.
A Palavra de Deus é maravilhosa.
À semelhança do servo hebreu do Antigo Testamento, nós
também fomos libertos pelo Senhor de grande destruição e
fracasso. Nós também nos tornamos recebedores de sua graça.
Também chegamos ao ponto em que o amamos e o apreciamos.
Ele nos deu inteira liberdade de escolha. Entretanto, se nosso
amor for genuíno, só desejaremos a liberdade para executar a
vontade dele, e ser servos do Senhor. A verdade é que ao
escolher nossos próprios caminhos, escolhemos a pior servidão.
E ao decidirmos que seremos servos de Deus encontramos a
maior liberdade.
Da mesma forma que o servo hebreu dos tempos bíblicos,
devemos chegar a nosso Deus e Senhor e dizer: "Eu amo a meu
senhor, e não quero partir em liberdade. Quero servir-lhe para
sempre". Teremos nossa orelha perfurada, como marca da en-
trega perpétua ao Senhor.
A orelha representa nossa habilidade de ouvir a voz de Deus
e a ela obedecer. Considere a resposta que o adolescente Samuel
deu ao Senhor, quando este o chamou: "Fala, pois o teu servo
ouve" (1 Samuel 3:10).
Na língua zulu há uma mesma palavra para ouvir e para
obedecer: lalela. Handley Mouletaptou dá o conceito integral
Jesus Cristo, servo de Deus 33
desta idéia em seu hino de consagração:
Meu glorioso Vencedor, Príncipe Divino,
Segura minhas mãos rendidas nas tuas mãos,
Porque finalmente minha vontade é só toda tua vontade,
Sou vassalo alegre perante o trono do Salvador.

Mestre meu, conduze-me à tua porta,


Perfura mais uma vez minha orelha a ti sujeita;
Tuas algemas são liberdade, permite-me permanecer
Contigo a fim de trabalhar, sofrer e obedecer.

Sim! Orelhas, mãos, pensamentos e vontade,


Usa tudo que sou em teu serviço querido,
Minha liberdade, exaurida, atiro aos teus pés.
Toma-a e prende-a contigo.

Espezinha minha liberdade própria, e saberei


Então que estas mãos transbordarão de bênçãos tuas,
Minhas orelhas perfuradas captarão as palavras
Tuas que me dizem que eu e tu somos um.
A atitude do Servo
O tipo bíblico de Cristo como servo foi cumprido na vida e
obra de Jesus. Uma das passagens mais maravilhosas e impres-
sionantes das Escrituras a esse respeito é Filipenses 2:3-8, que
descreve a auto-humilhação do Salvador. O texto apresenta
algumas das mais profundas verdades bíblicas a respeito da
divindade e humanidade de Cristo.
A intenção de Paulo ao expressar essas verdades não era
primordialmente teológica, mas prática. Exortava os crentes
filipenses a renunciar o egoísmo, e a ver as outras pessoas como
sendo mais importantes do que os próprios destinatários de sua
carta. Essa atitude não significa que o piloto deve permitir que
a comissária de bordo faça a aterrissagem de um Boing 747.
Significa que o piloto considerará o bem-estar e conforto da
comissária mais importantes do que seu próprio bem-estar e
conforto. Todas as pessoas têm dignidade como pessoas, e
devem ser consideradas importantes, não importando sua pro-
fissão.
Paulo prossegue, exortando os crentes a se concentrarem
nos interesses dos outros e não apenas em seus próprios. Muitos
de nós falhamos neste ponto por sermos bastante egocêntricos.
A fim de imprimir a lição com profundidade, Paulo nos reco-
menda que tenhamos a mesma atitude de Cristo, que não
buscou os próprios interesses, mas concentrou-se nos interes-
ses dos outros. Ele pôs de lado seu nome, seu trono, sua
dignidade, sua glória e sua coroa a fim de livrar-nos de nosso
pecado, de nossa desesperança e condenação. Ao considerar
nossas condições desesperadoras, Cristo demonstrou uma ati-
tude que personificou o espírito de serviço. Pense bem nas
palavras das Escrituras:

"Não atente cada um somente para o que é seu, mas cada


qual também para o que é dos outros. De sorte que haja
em vós o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus,
que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação
ser igual a Deus, mas a si mesmo se esvaziou, tomando
a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens. E,
achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo,
sendo obediente até à morte, e morte de cruz"
(Filipenses 2:4-8).
A ênfase aqui é que devemos manter a mesma atitude de
Cristo, e que isso resultaria em dar-nos a nós mesmos aos outros,
como Cristo o fez. A tentação reside em aceitarmos a oferta
sacrificial do Senhor, pelos nossos pecados, e rejeitar essa mes-
ma oferta sacrificial como modelo para nossa vida. Entretanto,
é absurdo aceitar uma coisa e rejeitar a outra. Havendo recebido
de forma gratuita os benefícios da servidão de Cristo, que ele
operou por nós, devemos naturalmente reagir seguindo seu
exemplo.
O efeito proveniente do estudo das seis etapas da humilhação
de Cristo deveria ser que viéssemos a desejar, acima de todas
as coisas, ser como Jesus. Não estamos contemplando, aqui, a
magnitude espantosa das declarações teológicas, mas o impac-
to prático que trarão ao nosso conceito de servidão. O caminho
percorrido por Cristo inicia-se na glória de ser Deus e termina
em humilhação, na crucificação.
Jesus Cristo, servo de Deus 35
Cristo e sua dignidade pessoal
"Sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual
Deus" (v. 6).
A palavra "forma" aqui indica mais do que formato e aparên-
cia. Indica que Cristo possuía a natureza e a essência de Deus.
lintretanto, não considerou isso vantagem a ser explorada, nem
dignidade a ser arrebatada e agarrada. Cristo estava disposto a
despir-se de sua glória exterior.
Em contraste, às vezes consideramos certos atos como estan-
do "abaixo de nossa dignidade". Como professor universitário,
por exemplo, poderia considerar coisa baixa demais para mim
limpar manchas de café no piso do "hall" de entrada. Este
trabalho poderia ser executado pelo departamento de zeladoria
ou conservação, ou por um estudante que tivesse de executar
"trabalho de escravo" — mas, eu não! No entanto, tendo o Servo
Salvador como exemplo, devo demonstrar atitude semelhante à
dele, não tendo meu "status" pessoal como um tesouro que deva
ser resguardado ou reconhecido.
Cristo renuncia à sua dignidade pessoal
Uma das mais profundas declarações das Escrituras é a seguin-
te: "a si mesmo se esvaziou" (v. 7). Cristo caminha mais um passo
em sua humilhação ao fazer de si mesmo "nada" (como diz uma
versão inglesa) ou "sem nenhuma reputação" (como diz outra).
Ele abriu mão do direito de expressar sua Divindade. Delibera-
damente lançou um véu sobre sua majestade e poder, enquanto
esteve na terra, como o Filho encarnado, sendo que os únicos
que lhe contemplaram a glória (no monte da Transfiguração)
foram Pedro, Tiago e João. Como servo, Cristo de propósito
escondeu os aspectos exteriores de sua Divindade. Quando
pessoas referiam-se a ele só como o carpinteiro, ou mestre, ele
não as corrigia, e tampouco as impressionou com demonstração
de onipotência.
Nós, por outro lado, freqüentemente fazemos as pessoas
saberem "quem somos". Somos alguém, mas tentamos fazer
parecer que somos humildes, apesar de quem somos. É por isso
que deixamos escapulir sempre uma ligeira pista indicativa da
dignidade que julgamos merecer. Nosso perfeito Servo jamais
fez isso! Ensinou-nos a ter um coração igual ao dele, a estarmos
interessados na execução de nosso trabalho em vez de ficar
demonstrando nossa dignidade. Na verdade, Cristo ocultou de
nós a glória de sua Divindade.
Às vezes acontece de usufruirmos a companhia amistosa de
outro irmão em Cristo e só depois descobrimos, encantados, que
se tratava de pessoa de renome, cujo prestígio não revelou
durante a conversa conosco. Eis uma característica do verdadei-
ro serviço a Deus.
Cristo assumiu o papel de servo
Cristo não apenas se esvaziou mas tomou "a forma de servo",
(v. 7), a saber, assumiu a natureza essencial de um escravo. Em
relação a Deus, o Senhor Jesus assumiu o lugar de um servo.
Estava determinado a fazer a vontade de Deus em sua máxima
expressão. A satisfação do Pai era a ordem que o impelia.
Eis a atitude que nos convém assumir, a atitude de Cristo, que
tomou a posição de sujeição e submissão total à vontade de seu
Pai. Agora, devemos entregar-nos de maneira total ao senhorio
de Cristo, caminhar para o portal a fim de que nossa orelha seja
furada, e apresentar nosso corpo em sacrifício vivo (Romanos
12:1).

Enquanto houver sangue quente pulsando nestas veias,


Enquanto tiver saúde, força e energia,
Enquanto permanecer em mim uma fonte latejante de vida,
Toma este corpo que te ofereço, ó Deus, ele é teu!
(William Blane)

Cristo se torna homem


O quarto passo descendente, na humilhação do Senhor Jesus,
foi a encarnação: ele se tornou um homem. Os teólogos dão a
isso o nome de encarnação de Deus. O Senhor abandonou a
eternidade e invadiu o tempo. Tornou-se verdadeiramente ho-
mem. Foi feito, por um pouco, menor do que os anjos. Que
condescendência! Milton colocou esse fato em sua poesia:
Aquela Forma gloriosa, aquela Luz inefável. . .
Ele tudo deixou de lado para estar aqui conosco,
Abandonou a corte celestial da eternidade,
Preferiu estar aqui, numa casa escura, de barro mortal.
Jesus Cristo, servo de Deus 37
A identificação de Cristo com o homem, a fim de tornar-se
nosso Redentor, é fato singular na história do universo, dando-
nos uma visão ampla da atitude de servo que o Senhor requer
de- seus seguidores. As vezes se dá a essa doutrina o nome de
cncarnação divina para cumprimento da missão redentora. Sig-
nifica apenas que você, sendo servo de Deus, deverá estar
disposto a identificar-se com outro ser humano a fim de salvá-lo.
Cristo se humilhou como homem
Cristo não desceu apenas na escala, caindo da divindade para
a humanidade: ele se dirigiu à extrema baixeza da humanidade.
Nasceu numa manjedoura, numa estrebaria ou caverna, moradia
de gado. Cresceu em circunstâncias pobres, numa cidadezinha
desprezada, Nazaré. Sabia identificar-se com os oprimidos e
destituídos de privilégios. Soube o que era sofrer, sentiu fome e
cansaço, tudo que se associa a um mundo amaldiçoado pelo
pecado.
Poucos crentes sabem a respeito de escolhas deliberadas para
estar ao lado dos desprezados e rejeitados. Entretanto, é isto que
devemos fazer se quisermos imitar o Servo perfeito. É freqüente
agirmos de forma paternalista, em relação aos menos afortuna-
dos. Em vez de humilhar-nos, enviamos por um portador um
pacote de gêneros de primeira necessidade, ou um cheque.
Conseguimos assim, aliviar nossa consciência. Entretanto, não
nos damos a nós mesmos.
O Senhor conversou com uma mulher de reputação questio-
nável, à beira do poço. Conversava com publicanos e pecadores.
Amava as pessoas como ninguém mais conseguiu amar. O Filho
do homem veio para servir, não para ser servido. Ao fazê-lo,
humilhou-se a fim de estar onde os homens estavam.
Cristo obedeceu até à crucificação
Os passos de Cristo na descida humilhante se iniciaram na
glória de sua Divindade, e se encerraram com sua humilhação
na morte como criminoso, numa cruz romana, a indignidade
máxima. Profeticamente, Cristo poderia dizer:
"Eu sou verme, e não homem, opróbrio dos homens e despre-
zado do povo. Todos os que me vêem zombam de mim" (Salmo
22:6-7).
A obediência de Cristo como servo levou-o a dar-se a si mesmo
em sacrifício pelo nosso pecado. A morte por crucificação era a
mais dolorosa, e mais degradante, porém, o Salvador foi obedien-
te até à morte, "e morte de cruz" (v.8). Cristo foi ao extremo,
por obediência ao Pai.
Essa atitude do Servo, que cobriu todo o caminho até à cruz,
deve ser também nossa atitude.
"Haja em vós o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus"
(v. 5).
Nenhum caminho é áspero demais, nenhum lugar longínquo
demais, nenhuma dor intensa demais. A obediência nos condu-
zirá por todo o caminho, integralmente, ou não será obediência,
de modo algum. No Antigo Testamento, o servo hebreu fazia
uma entrega, um compromisso de obediência total, quando sua
orelha era perfurada. O Senhor Jesus entregou a própria vida em
obediência, como sacrifício pelo nosso pecado. E nós recebe-
mos a ordem de assumir a mesma atitude de Cristo.
Que a mente de Cristo, meu Salvador,
Esteja em mim dia após dia.
Que seu amor e seu poder controlem
Tudo que sou, que faço e digo.
(Katie B. Wilkinson)
4
O Messias que
completou a obra

prender a servir não é coisa complicada, especialmente

A quando dispomos do maior Mestre (e Servo) que já existiu.


Deus nos ensina as características do Servo perfeito por
inúmeros meios, inclusive as vidas dos santos do Antigo Testa-
mento. Moisés, por exemplo, é comparado ao Senhor Jesus:
"Mas os filhos de Israel caminharam a pé enxuto pelo
meio do mar, e as águas lhes foram qual muro à sua direita
e à sua esquerda. Assim o Senhor salvou a Israel naquele
dia das mãos dos egípcios, e Israel viu os egípcios mortos
na praia do mar. E quando Israel viu o grande poder que
o Senhor havia mostrado aos egípcios, o povo temeu ao
Senhor, e confiaram no Senhor e em Moisés, seu servo"
(Êxodo 14:29-31, grifo do autor).
"Considerai a Jesus. . . ele foi fiel. . . como também o foi
Moisés em toda a casa de Deus. . . Moisésfoi fiel... como servo.
.. " (Hebreus 3:1-5, grifo do autor).
Todavia, é mais significativo ainda que as características do
Antigo Testamento, que prefiguraram Jesus como Servo, foram
transmitidas através de profecias diretas. E dentre os profetas
que falaram dele como servo nenhum se destaca mais do que
Isaías, o príncipe dos profetas do Antigo Testamento.
Os capítulos 40 a 66 da proclamação de Isaías alcançam o
ponto mais elevado entre as profecias veterotestamentárias con-
cernente ao Messias. Estes vinte e sete capítulos antecipam a
verdade neotestamentária, com seus vinte e sete livros. A seme-
lhança do Novo Testamento, iniciam-se com o ministério de João
Batista e terminam com a glória dos novos céus e nova terra.
(Compare Isaías 40:3-8, 65:17-22 com Mateus 3:1-3, Apocalipse
21,22). O messianismo épico que se desdobra entre esses dois
eventos revela a glória do Messias em sua vida, sofrimentos e
exaltação. Não é de admirar que esses capítulos sejam mencio-
nados mais vezes no Novo Testamento do que qualquer outra
parte do Antigo Testamento que se refira ao mesmo assunto.
O Messias é um servo
Pode parecer estranho que a maior pessoa que andou pela terra
seja caracterizada pelo termo "servo". Entretanto, a servidão de
Cristo está entre as principais profecias messiânicas. Suas funções
de servo ocupam posição central no tema de Isaías visto que, como
servo, Jesus executou a obra que o Pai lhe havia atribuído: salvar
e redimir pecadores (Marcos 10:45). Quando esta obra estava
terminada, ele o anunciou da cruz: "Está consumado" (João 19:30).
O espírito de serviço demonstrado pelo Senhor era essencial para
o cumprimento de sua missão.
Deus quer que estudemos a Cristo, o Servo, e o sigamos como
modelo. Deus nos chama a atenção para isso com a seguinte
declaração: "Aqui está o meu servo. . . " (Isaías 42:1). Portanto,
obedeçamos ao imperativo do Senhor.
Cânticos do Servo
Quatro passagens poéticas de Isaías freqüentemente são men-
cionadas como "Cânticos do Servo". Cada cântico enfatiza algo
singular a respeito de Cristo, o servo incomparável. Revelam
também outros aspectos de seu espírito de serviço, que devemos
imitar, à medida que vamos sendo conformados à sua imagem
(Romanos 8:29). Tais cânticos encontram-se nas seguintes passa-
gens:
Isaías 42:1-7 O Caráter do Servo
Isaías 49:1-7 A Missão do Servo
Isaías 50:4-9 A Disciplina do Servo
Isaías 52:13 — 53:12 O Sofrimento do Servo
A descrição do Servo perfeito encontrada nessas quatro pas-
sagens líricas são inigualáveis em toda literatura. A primeira
passagem mostra o caráter do Servo:
"Aqui está o meu servo, a quem sustenho, o meu eleito,
em quem se compraz a minha alma; porei o meu Espírito
sobre ele, e justiça produzirá entre as nações. Não clama-
rá, não se exaltará, nem fará ouvir a sua voz na praça. A
cana ferida não quebrará, e não apagará o pavio que
fumega. Em verdade, ele trará a justiça. Não faltará, nem
será quebrantado, até que ponha na terra a justiça. Na
sua lei as ilhas esperarão. Assim diz Deus, o Senhor, que
criou os céus, e os estendeu, e formou a terra, e a tudo
o que produz, que dá a respiração ao povo que nela está,
e vida aos que andam nela. Eu, o Senhor, te chamei em
retidão, eu te tomarei pela mão. Eu te guardarei, e te darei
por aliança do povo, e para luz dos gentios, para abrir os
olhos dos cegos, para tirar da prisão os presos, e do
cárcere os que jazem em trevas"
(Isaías 42:1-7).

A Glória do seu caráter


Submissão
Quando se inicia o cântico, o Senhor descreve quatro aspectos
do relacionamento entre ele próprio e seu servo. Quando o Senhor
o chama de "meu servo", torna-se clara a propriedade e a autorida-
de do Senhor. Cristo sempre esteve bem ciente disso, durante toda
sua vida. Pense em quantas vezes Cristo se referiu a "Meu Pai"
demonstrando completa submissão do Filho a seu Pai.
Força
A segunda área de relacionamento mencionada pelo Senhor
percebe-se nas palavras: "A quem sustenho". O Senhor Jesus foi
sustentado ou fortalecido pelo Pai. Jesus, o servo, afirmou que era
o Pai quem realmente executava a obra (João 14:10). Nos momen-
tos de tensão, também, Jesus procurava e recebia forças do Pai.
Na obra que executamos para o Senhor, nós também devemos
reconhecer que não é o instrumento humano que executa, mas
a força divina. Assim disse Paulo: "Posso todas as coisas naquele
que me fortalece" (Filipenses 4:13).
Os discípulos aprenderam que sem o Senhor nada poderiam
fazer (João 15:5).
Propósito
A terceira coisa que o Senhor Deus afirma a respeito de seu
servo é: "O meu eleito". O Servo foi escolhido para a grandiosa
missão redentora, para a qual foi enviado:
"O Pai enviou o seu Filho como Salvador do mundo"
(1 João 4:14).

Disse Jesus: "A minha comida é fazer a vontade daquele que


me enviou"
(João 4:34).

Consciente de que havia sido escolhido para a missão de


redimir a raça humana, Jesus exibia atitude triunfante nas mais
difíceis provações; até mesmo na cruz.
Como crentes, também fomos escolhidos para o serviço que
temos de fazer. O fato de sabermos que o Deus onisciente nos
escolheu para este momento particular deve transformar as
provações em triunfo. A experiência de Paulo durante a tempes-
tade ilustra bem esse princípio (Atos 27:23-25).
Satisfação
Agora o Pai diz o seguinte a respeito de seu servo: "Em quem
se compraz a minha alma". O Senhor se alegra na obra e no
caráter de seu servo. O Novo Testamento registra duas vezes
uma expressão do Pai a respeito de seu Filho amado. No batismo
deste uma voz celestial trovejou: "Este é o meu Filho amado, em
quem me comprazo" (Mateus 3:17). E na transfiguração a mesma
voz celestial declarou que Deus estava satisfeito (Mateus 17:5).
Todos os aspectos da obra executada pelo Filho agradaram ao
Pai.
Essas quatro frases a respeito de Cristo como o servo dão-
nos o padrão para nosso trabalho. Primeiramente, reconhece-
mos com alegria que pertencemos a Deus. Quanto maior for
nosso senso de pertencer a Deus, e nossa submissão a ele,
maior será nossa eficiência como servos. Quando Tomé con-
fessou: "Senhor meu e Deus meu", estava confessando sua
submissão ao Salvador.
Em segundo lugar, estamos cônscios de sermos sustentados
pela "graciosa e onipotente mão" de Deus. Essa é a razão por
que Paulo orou no sentido de a igreja de Colossos ser fortalecida:
"Com toda a fortaleza, segundo a força da sua glória, em
toda a paciência, e longanimidade com gozo" (Colossenses
1:11).
À semelhança de Cristo, o servo, nós também fomos "esco-
lhidos".
"Somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras"
(Efésios 2:10).

Quanta dignidade isso empresta à nossa obra! É uma honra


servir ao Deus vivo!
Por fim, devemos viver a fim de agradar ao Senhor, assim
como Cristo agradou ao Pai. Paulo desafiou a Timóteo, exortan-
do-o a ser soldado de Cristo, cujo anseio é agradar ao Coman-
dante, livrar-se de seus compromissos pessoais, e entregar-se à
obra de tal maneira que satisfizesse integralmente ao grande
Comandante (2 Timóteo 2:4). Nós servimos com alegria, a fim
de satisfazer ao Senhor.
Um dos fatores de sucesso, capaz de motivar equipes vence-
doras de futebol, é a dedicação ao jogo com o intuito de agradar
ao treinador. Os jogadores sabem que na segunda-feira todos
verão os videoteipes, e alguém avaliará o desempenho de cada
jogador. Tendo isso em mente, os aplausos ou as vaias da
multidão já não os distraem. Tudo que almejam é um elogio do
treinador: "Muito bem!" De modo semelhante, nada deveria
deliciar-nos, senão o objetivo de agradar a nosso Senhor.
Unção do Espírito Santo
Prossegue a profecia de Isaías, afirmando no versículo primei-
ro: "porei o meu Espírito sobre ele". A descida do Espírito Santo,
de forma visível, sobre Jesus, foi acompanhada de uma voz
celestial que declarava Deus satisfeito com seu servo (Lucas
3:21-22). Tal evento marcou o início do ministério do Servo. Há
um elo importante ligando a satisfação do Pai e a unção do
Espírito Santo, como aparece em Isaías 42 e também em Lucas
3. A "satisfação" e a "unção" estão sempre juntas. A partir desse
momento, os grandes acontecimentos do ministério de Jesus
estariam ligados à capacitação do Espírito.
Como servos, os crentes também precisam do poder do
Espírito, que os capacita. Sem o Espírito nosso trabalho é desti-
tuído de poder, e não tem sentido. Quando os discípulos rece-
beram a comissão, receberam também o poder do Espírito Santo
(Atos 1:8). Grande parte das atividades da igreja de hoje é
ineficaz porque fica na dependência única dos recursos huma-
nos, em vez de dependerem do poder do Espírito de Deus. Nossa
tendência é trabalhar com equipamento imponente, organiza-
ção excelente, e força deficiente.
Os servos cheios do Espírito são eficientes porque o poder de
Deus está operando através deles.
Na vida de Davi há uma boa ilustração da falta de poder da
igreja. No vale de Elá, onde os filisteus enfrentavam o exército
de Israel, Golias dia após dia desafiava o povo israelita, sem que
alguém se apresentasse:
"Desafio as fileiras de Israel! Dai-me um homem, para que
ambos pelejemos"
(1 Samuel 17:10).

Ninguém se atrevia a aceitar o desafio, nem mesmo Saul. No


versículo 2 lemos que "Saul e os homens de Israel se ajuntaram
e ordenaram a batalha contra os filisteus" mas isso foi tudo que
conseguiram fazer.
A igreja é mais ou menos assim. Bem-treinada, bem-equipada,
até parece uma igreja militante. Todavia, quando chega o mo-
mento da batalha, não temos um Davi. Quando aquele Davi veio,
ele veio com o Espírito do Senhor (1 Samuel 16:13). Assim
fortalecido, gritou para o gigante:
"Do Senhor é a guerra, e ele vos entregará nas nossas mãos"
(1 Samuel 17:47).

Esta é a chave para a vitória.


Justiça para as nações
O mundo de Isaías, tanto quanto o nosso, estava cheio de
injustiça, do palácio à choupana. O Messias-Servo, cuja vinda
estava próxima, finalmente traria justiça às nações. Isaías profe-
tizou a respeito de um Reino em que a justiça seria estabelecida
em todas as nações do mundo (Isaías 40:1). Esse dia ainda não
chegou, a justiça e a paz ainda estão ocultas. Entretanto, a obra
do Servo resultará, no fim, em justiça e retidão, quando ele voltar
O Messias que completou a obra 45
para estabelecer seu Reino.
Todavia, antes mesmo deste dia chegar, há um sentido no qual
a justiça já está, agora, chegando às nações. À medida que as
Boas Novas são pregadas ao redor do mundo, o resultado é a
liberação das pessoas do cativeiro do pecado. Todos os crentes
que são verdadeiros servos podem levar esta mensagem às
pessoas perdidas deste mundo.
O Senhor Jesus pediu a seus discípulos que levantassem seus
olhos e contemplassem os campos prontos para a colheita (João
4:35). O trabalho de colheita é para os servos.
A glória do serviço divino
É possível que a característica que mais se destaca na descri-
ção do Servo do Senhor, feita por Isaias, esteja nos versículos 2
a 4 do capítulo 40. O caráter do Servo é percebido pelo tipo de
serviço que presta.
Serviço de autonegação
"Não clamará, não se exaltará, nem fará ouvir a sua voz na
praça" (v 2).
O cerne desta declaração é que ele não ergueria sua voz a fim
de se autopromover. No desempenho de sua missão, Cristo não
procurou reconhecimento. Como ele foi diferente dos homens
de hoje! Poucos desejam que suas realizações permaneçam
anônimas.
Jesus curou sem jamais dizer quem o fizera (Lucas 23:9). A
obra dele era humilde, gentil, pacífica. Disse ele:
"Sou manso e humilde de coração"
(Mateus 11:29).
Obra que se nega a si própria é obra semelhante à de Cristo.
É triste dizê-lo, mas o mundo evangélico às vezes se vê infectado
pelo caráter autopromocional do mundo secular. Grandes no-
mes recebem preeminência nos meios de comunicação cristãos,
e o perigo é que o povo de Deus poderá presumir que as maiores
bênçãos de Deus acompanham os maiores nomes. É verdade que
alguns dos líderes cristãos mais conhecidos são genuinamente
humildes, mas a humildade não constitui um caminho fácil.
Precisamos ser relembrados, com constância, de que ele "humil-
hou-se a si mesmo" (Filipenses 2:8). Devemos negar-nos a nós
46 Ele Humilhou-se a Si mesmo
mesmos, se quisermos servir como ele serviu.
Serviço orientado para os outros
"A cana ferida não quebrará" (v. 3).
As pessoas geralmente estão como "canas" feridas, carregan-
do cicatrizes da vida que as encurvaram e magoaram. Um líder
agressivo poderá quebrar tais canas, atirando-as de lado. O Servo
perfeito nunca agiu assim. Ele se especializou em curar canas
feridas, fazendo-as renovar-se sob seu cuidado gentil e paciente.
Pedro era "cana ferida" quando negou a seu Senhor. Como é
que esse homem seria reconhecido depois como grande líder
da igreja primitiva? A resposta está no ministério do Servo que,
com máximo cuidado, restaurou a Pedro:
"Apascenta os meus cordeiros"
(João 21:15).
Há desesperada necessidade, em nossos dias, do ministério
de cura às "canas" feridas. Corações dilacerados, vidas e lares
desintegrados são vistos por toda a parte. Os verdadeiros servos
têm aqvii excelente oportunidade de exercer seu ministério.
O Messias não só endireitaria as canas quebradas, mas restau-
raria os pavios fumegantes (v. 3). A imagem é a de um antigo
lampeão feito de barro, que queima óleo, tendo um pavio que
sai de um orifício menor. Com o tempo, o pavio se torna
chamuscado e recoberto de crosta dura, fazendo com que a
chama vacilante vá diminuindo cada vez mais. O pavio precisa
de limpeza periódica, e deve ser aparado também, a fim de
prosseguir iluminando.
O pavio vacilante ilustra a pessoa cuja luz do testemunho se
tornou ineficaz. O servo de quem Isaías fala não vai apagar o
pavio fumegante. Ao contrário, vai rèstaurá-lo, de modo que
volte a iluminar o ambiente. É muito significativo que esta
passagem seja mencionada em Mateus 12:18-21 como base da
compaixão do Senhor pelos doentes e sofredores. Que trabalho,
o do Servo!
Há necessidade, na igreja, do ministério de restauração de
pavios vacilantes. Vidas que antes brilhavam maravilhosamente
às vezes chegam a perder seu grande brilho e fulgor. João Marcos
foi uma dessas pessoas. Abandonou Paulo e Barnabé em sua
primeira viagem missionária e regressou à sua casa (Atos 13:13)-
O Messias que completou a obra 47
Mais tarde, porém, Paulo escreveu que Marcos lhe era útil no
ministério (2 Timóteo 4:11). João Marcos estava brilhando de
novo. Sem dúvida alguma, nesse intervalo houve um ministério
de restauração do pavio (provavelmente executado por Barna-
bé).
Igrejas locais possuem inúmeros pavios queimando mal, ne-
cessitados de atenção. É fácil a liderança esquecer-se das pessoas
com problemas, como as que não se casaram, os divorciados,
ex-presidiários e outros grupos estigmatizados. O servo de Cris-
to dará um jeito de fazer com que tais pessoas recebam o toque
restaurador do amor. É verdade que são canas feridas, mas
ficarão de pé de novo. São pavios fumegantes, mas voltarão a
brilhar, sem dúvida.
A glória da fidelidade do servo
Outra coisa que Isaías diz a respeito deste servo maravilhoso
é sobre sua fidelíssima perseverança até o fim:
"Não faltará, nem será quebrantado" (v. 4).
Há um trocadilho interessante nos versículos 3 e 4. As palavras
traduzidas por "quebrar" e "apagar" no versículo 3 são as mes-
mas traduzidas por "faltar" e "ser quebrantado" no versículo 4.
A força desse enunciado está em que Aquele que não apaga
pavios fumegantes jamais falta e nunca se apaga. E Aquele que
restaura canas feridas jamais se quebra. Ele não se apaga, nem
se quebra, embora ministre às pessoas que se apagaram ou se
quebraram.
Na mitologia grega, os deuses que supostamente faziam atos
maravilhosos eram tão egoístas e imorais como as pessoas aqui
da terra. Não foi assim que aconteceu quando Deus enviou seu
Filho — o Servo. Embora seus inimigos procurassem falhas em
seu caráter jamais encontraram uma sequer. Cristo, a cana,
permanece inquebrantável. Cristo, a Luz, brilha intensa e fulgu-
rantemente. Que modelo extraordinário ele é para nós, seus
servos!
Mais um pensamento a respeito dos versículos 3 e 4: a cana
se quebra por causa de um golpe exterior, o pavio da lamparina
se torna imprestável devido impurezas internas. Tanto homens
ímpios quanto o próprio Satanás procuravam ferir a Cristo.
Forças sutis da mente e do corpo foram utilizadas a fim de
tentá-lo no íntimo. Em ambos os casos, as Escrituras testificam
que Cristo permaneceu completamente isento de pecado.
Servindo ao máximo
"Não faltará, não será quebrantado, até que ponha na terra a
justiça" (v. 4).
A fidelidade do Senhor à sua tarefa foi perseverante até a
consumação da obra. O Servo continua a servir àqueles a quem
o mundo ignora. Nenhum desânimo o atinge, nada o desenco-
raja, ainda que as pessoas a quem serve tropecem e caiam. Cristo
não apenas salva ao máximo — ele também serve ao máximo.
O Novo Testamento nos lembra que o Senhor pode "compade-
cer-se das nossas fraquezas". (Hebreus 4:15). Sabe quão fracos
somos, lembra-se de que somos pó (Salmo 103:14). Entretanto,
"suas misericórdias não têm fim" (Lamentações 3:22). Do mesmo
modo, ao servir, não devemos sentir-nos desanimados, mas pros-
seguir com fidelidade até que nossa missão esteja terminada.
Talvez nos ajude a manter o ânimo a lembrança de que o
Senhor fez tudo para nos salvar. Passou pelo Getsêmani, por
provações e negações, pela zombaria na cruz, pela escuridão e
solidão. Quando a obra de nossa salvação estava cumprida,
clamou: "Está consumado" (João 19:30). Cristo obedeceu fiel-
mente ao Pai até que a obra se completasse. Nós também
precisamos ser constantes no trabalho. Admiramos desempe-
nhos magníficos nos esportes, na música, nas artes, nos em-
preendimentos comerciais, etc. Entretanto, poucos dentre nós
estão dispostos a perseverar até o fim. Dentro e fora da igreja há
gente demais no papel de espectadores; poucos desempenham
algum papel principal. No que concerne à disposição de servir,
precisamos de muitos mais que queiram esforçar-se a fim de
atingir a perfeição.
No versículo 4, pela terceira vez em quatro versículos, a
justiça clama pela nossa atenção. É interessante que o Servo do
Senhor traz justiça por meios opostos aos usados no mundo
contemporâneo. Nosso mundo de hoje persegue sua própria
idéia de justiça mediante a força, o terrorismo, o boicote, a
demagogia política. Que contraste com o Servo que agrada ao
Senhor em tudo quanto faz, que age com gentileza e humildade
(v. 3), que persevera até que seu trabalho esteja terminado (v.
O Messias que completou a obra 49
4). A justiça universal é um dos objetivos do Servo, que o
alcançará.
Incontáveis milhões de pessoas
A última frase do versículo 4 está no contexto da justiça
universal vindoura, que chegará mediante o Servo do Senhor.
Ela ainda não chegou, pela qual as "ilhas esperarão" a lei do
Senhor.
As "ilhas" eram regiões habitadas do Mediterrâneo que ainda
não tinham ouvido de Deus, nem de sua Lei. Muitas passagens
proféticas do Antigo Testamento exprimem o interesse de Deus
por estas terras.
Há uma falsa noção de que o Deus do Antigo Testamento
estava interessado exclusivamente no seu povo escolhido. De-
zenas de passagens escriturísticas contradizem essa idéia. O
Deus do Antigo Testamento era e ainda é um Deus missionário,
interessado em todos os povos.
A aplicação para nós, hoje, é que discipulemos todas as nações
(Mateus 28:18-20). O cumprimento maior, final, é que o julga-
mento de Cristo, e sua justiça, alcançarão todas as pessoas
quando ele estiver reinando.
A glória de seu ministério no mundo
O último verso desta canção refere-se à bênção mundial da
glória do nosso Salvador (w. 5-7).
Quem fala no versículo 5 é "Ha El", nome associado ao poder
do Criador. Ele é o Criador dos céus (incluindo todo o espaço
astronômico, com todas as suas galáxias). Ele dedicou interesse
especial às formas de vida que colocou na terra, objetivando
demonstrar sua sabedoria e glória. O ponto mais alto neste
versículo é que ele cuida de maneira especial das pessoas que
criou, dotando-as da capacidade da vida eterna. Os seres huma-
nos são de mais valor para ele, do que todo o universo inanima-
do, ou as demais formas de vida na terra. Nosso valor como
pessoas, diante do Senhor, faz com que seja sobremodo impor-
tante que sua mensagem nos atinja, de tal modo que saibamos
de que maneira o Servo veio redimir a criação decaída.
O versículo 6 explica o papel desempenhado pelo Servo para
alcançar todas as pessoas, gentios e judeus igualmente. Observe
que neste versículo Deus fala como Senhor, o Deus da Aliança.
Fala ao Servo, lembrando-lhe de seu chamado, e da força dispo-
nível para cumpri-lo.
A linguagem aqui é semelhante à do versículo 1. O Servo que
foi fortalecido ("a quem sustenho"), no v. 1, é protegido ("eu te
tomarei pela mão"), no v. 6. O Senhor toma conta do Servo e
transforma-o em "aliança do povo". Ele veio para seu próprio
povo; é esta a idéia implícita na frase "aliança do povo". Faz
também referência à obra redentora do Servo, consumada na
cruz.
Luz para as nações
Como servo, Cristo brilha iluminando outros povos, além do
seu próprio povo, a saber, as nações (gentios) que vivem na
escuridão. Refere-se ao programa de amplitude mundial de
Detis, que "visitou os gentios, para tomar dentre eles um povo
para o seu nome" (Atos 15:14). O propósito de Deus é salvar um
povo perdido na escuridão do pecado.
Este tema é desenvolvido em muitas passagens da Bíblia. O
velho profeta Simeão fez referência a esta passagem ao amparar
nos braços o bebê Jesus, usando a profecia de Isaías para confir-
mar que a Luz viera para todos os povos, incluindo os gentios
(Lucas 2:25-35). Todos nós podemos mostrar gratidão pela Luz
que veio até nós.
Como servos que procuram seguir o perfeito Servo, nós
também temos um ministério, que é levar essa Luz ao mundo.
Disse o Senhor Jesus:
"Vós sois a luz do mundo"
(Mateus 5:14).

Muitos de nós que nos consideramos servos de Cristo não


somos como João Batista, de quem Jesus disse: "era a lâmpada
que ardia e iluminava" (João 5:35).
A luz do evangelho se faz necessária neste mundo tenebroso,
onde devemos brilhar como luzeiros de Cristo.
No começo do século 16 um homem chamado Martinho de
Basiléia converteu-se, mas tinha receio de deixar sua luz brilhar.
Escreveu sua confissão num pedaço de pergaminho e escondeu-
o sob uma pedra, em seu quarto. Cem anos mais tarde esse
pergaminho foi descoberto. Assim dizia o manuscrito:
O Messias que completou a obra 51
"Ó misericordiosíssimo Cristo, sei que só posso ser salvo
pelos méritos de teu sangue. Reconheço teu sofrimento por
mim. Eu te amo, eu te amo".
Mais ou menos na mesma época outro Martinho (Lutero)
encontrou a verdade do evangelho. Assim disse ele: "Meu Se-
nhor me confessou diante dos homens. Não fugirei, mas vou
confessá-lo diante de reis".
Um dos Martinhos escondeu a luz debaixo de uma pedra. O
outro deixou sua luz brilhar, iluminando milhões no norte da
Europa, durante cem anos. Qual destes exemplos seguiremos?
A missão de paz do
redentor

segundo cântico do Servo encontra-se em Isaías 49- En-

O quanto o primeiro cântico centralizou-se no caráter do


Servo, o segundo retrata a missão do Servo. Sua missão
incluiu a doação de paz ao mundo mediante seu sofrimento,
demonstrando, assim, a glória do Senhor (v. 3)-
A posição deste cântico na estrutura do livro de Isaías é
importante. Dos vinte e sete capítulos de Isaías, dos capítulos
40 a 66, existem três seções de nove capítulos cada (40-48,49-57
e 58-66). Estas seções estão demarcadas claramente pela frase
que as divide:
"Para os ímpios não há paz, diz o Senhor" (48:22,57:21).
O capítulo 49 inicia a segunda seção, cujo tema é a redenção
mediante o Salvador que sofre. Na introdução dessa seção Isaías
apresenta o Servo de maneira notável:

"Ouvi-me, ilhas,
E escutai-me vós, povos de longe: O Senhor me chamou
desde o ventre, desde as entranhas da minha mãe fez
menção do meu nome. Fez a minha boca como uma
espada aguda, na sombra da sua mão me cobriu, pôs-me
como uma flecha limpa, e me escondeu na sua aljava. Ele
me disse: Tu és o meu servo, Israel, em quem manifestarei
a minha glória. Mas eu disse: Debalde trabalhei, inútil e em
vão gastei as minhas forças. Todavia o meu direito está
perante o Senhor, e o meu galardão perante o meu Deus.
E agora diz o Senhor, que me formou desde o ventre para
ser seu servo, que lhe torne a trazer Jacó, e ajunte Israel a
ele, pois aos olhos do Senhor sou glorificado, e o meu
Deus tem sido a minha força. Diz ele: Pouco é que sejas o
meu servo, para restaurares as tribos de Jacó, e tomares a
trazer os preservados de Israel. Também te darei para luz
dos gentios, para seres a minha salvação até as extremi-
dades da terra. Assim diz o Senhor, o Redentor de Israel,
o seu Santo, à alma desprezada, ao que as nações abomi-
nam, ao servo dos que dominam: Os reis o verão, e se
levantarão, os príncipes diante de ti se inclinarão, por
amor do Senhor, que é fiel, e do Santo de Israel, que te
escolheu
(Isaías 49:1-7).

É o próprio Servo quem fala, convocando as terras habitadas


pelos gentios a ouvirem o que tem para dizer (v. 1). É provável
que esta mesma passagem tenha sido usada pelo Senhor ressus-
citado ao caminhar para Emaús na companhia dos dois discípu-
los (Lucas 24:13-35). Ele lembrou-os bem adequadamente de
tudo quanto os profetas disseram, "o que dele se achava em
todas as Escrituras". Assim disse ele:
"Não era necessário que o Cristo padecesse estas coisas e
entrasse na sua glória?"
(Lucas 24:26).

Não é de admirar que os corações lhes queimassem enquanto


o Senhor lhes dissertava sobre as Escrituras. Isaías 42 ajudaria os
discípulos a reconhecerem o Mestre, Isaías 49 revelaria a glória
dele.
Há importante semelhança entre o cântico do capítulo 42 e
este, do capítulo 49. Parece que constituem a primeira e a
segunda estrofes do mesmo hino. A vocação do Servo, sua
separação, sua preparação e proteção divina — todos estes as-
suntos estão em ambos os cânticos.
Os sete primeiros versículos do capítulo 49 constituem uma
espécie de diálogo entre o Servo e o Senhor. Quando o Servo
fala, menciona o que o Senhor fez (w. 1, 2, 4 e 5b). À semelhança
de qualquer servo fiel, engrandece-se no caráter e nas realiza-
ções de seu Senhor. Quando o Senhor fala, relembra ao servo os
grandiosos propósitos e a maneira como o Servo se envolverá
neles (w. 3-5a, 6 e 7).
A prontidão do Servo em fazer a obra do Senhor ( w . 1-2)
Após chamar as ilhas (o mundo gentio) para ouvir, o Servo do
Senhor fala de sua vocação desde o ventre de sua mãe: "O Senhor
me chamou desde o ventre". O Antigo Testamento silencia a
respeito do pai terreno do Senhor Jesus, mas refere-se com muita
freqüência à sua mãe (Gênesis 3:15; Salmo 22:9-10; Miquéias
5:1-3). A referência à mãe do Senhor aponta para um privilégio
da maternidade cristã: dar à luz a nobreza divina: os servos de
Deus. Escolhida para dar à luz o Messias, Maria engrandeceu ao
Senhor. Todas as mães crentes são encorajadas do mesmo modo,
uma vez que seus filhos foram convocados pelo Senhor para
servir a ele.
As mulheres de nossos dias encontram motivação para culti-
var uma carreira profissional, ainda que às custas da educação e
criação de filhos e filhas para que sejam servos do Senhor. Por
isso, muito mais feliz é a mãe cujos filhos a chamam de bem-
aventurada, sendo sua satisfação mais profunda o fato de seus
filhos serem usados pelo Senhor. Se Deus escolhe seus servos
quando ainda estão no ventre materno, certamente é privilégio
sem qualquer comparação dar à luz filhos e educá-los na obra de
Deus.
Observe mais uma coisa. Neste cântico o nome do Servo foi
èscolhido antes de nascer (v. 1). Embora o nome Jesus não seja
mencionado no Antigo Testamento, o cumprimento desta pro-
fecia se efetuou quando o nome dele foi revelado tanto a Maria
quanto ajosé, antes da criança nascer (Lucas 1:31, Mateus 1:21).
Este nome era importante, visto que haveria de identificar a obra
que realizaria: "ele salvará o seu povo dos pecados deles". O
nome Jesus significa: "O Senhor é salvação". Jesus foi chamado
para essa obra.
Espada afiada na mão do Senhor
Tendo estabelecido a vocação do Servo antes de nascer, e seu
nome como indicação da obra que haveria de realizar, o profeta
fala agora da boca do Servo, e das palavras que dela sairiam: "Fez
a minha boca como uma espada aguda" (v. 2).
O servo Jesus falou toda a verdade, de modo que com freqüên-
cia feriu a consciência dos fariseus hipócritas. Falou com auto-
ridade (Mateus 7:29), embora os homens não estivessem
dispostos a reconhecê-lo. Falou com poder, o que resultou
doentes serem curados e até mesmo mortos serem ressuscita-
dos. Considere o poder destas palavras:
"Lázaro, vem para fora"
(João 11:43).
O Salvador falou com sabedoria, e ninguém jamais ousou
fazer-lhe muitas perguntas.
Marcos, autor do "Evangelho do Servo", apresenta o ministé-
rio de Jesus com grande ênfase em sua pregação:
"Veio Jesus para a Galiléia, pregando o evangelho do reino
de Deus"
(Marcos 1:14).
Durante os três anos seguintes, a boca do Senhor era "como
uma espada aguda". Jamais a verdade tinha sido tão clara, jamais
a sabedoria tinha sido tão coerente. Alguém que ouviu a Jesus,
disse:
"Jamais alguém falou como este homem"
(João 7:46).
Cerca de 60 anos mais tarde, quando João, o apóstolo, estava
exilado na ilha de Patmos, o Senhor exaltado se lhe revelou dos
céus com "uma afiada espada de dois gumes" que saía de sua
boca (Apocalipse 1:16). Mais uma vez a espada simbolizava a
verdade perscrutadora do Senhor. Mais tarde, perto do fim do
Apocalipse, João teve uma visão da segunda vinda de Cristo em
glória. Nessa visão, o nome do Senhor era "o Verbo de Deus", e
mais uma vez se via uma espada que saía de sua boca, com a qual
iria julgar as nações (19:13-16).
Sem dúvida, o servo que Isaías viu, que tinha uma boca
semelhante à espada afiada, era a mesma pessoa cujas palavras
cortam, penetrando até no coração de seus adversários, e a
mesma pessoa que João viu na glória de sua revelação — o Senhor
Jesus Cristo.
Espada ou espanador de penas?
A Palavra de Deus é, hoje, uma espada de dois gumes a ser
usada pelos seus servos (Hebreus 4:12). O avanço da igreja de
(Jesus Cristo depende do uso eficaz da "espada do Espírito, que
é a Palavra de Deus" (Efésios 6:17). Tanto a ira quanto a graça de
Deus estão nessa espada. Deus usa soldados bem treinados no
uso da espada a fim de penetrar no território do inimigo. Nossas
bocas devem tornar-se como espadas afiadas, visto que falamos
da Palavra de Deus. Espadas bem afiadas cortam, de modo que
precisamos estar preparados para um ministério cortante, quan-
do a ocasião assim o exigir. É muito mais agradável brincar com
um espanador de penas do que trespassar alguém com uma
espada. A verdade, contudo, não é um espanador de penas mas
uma espada, e o servo fiel deverá munir-se de coragem e usá-la.
A chave para o uso da espada está na frase seguinte: "na
sombra de sua mão me cobriu" (v. 2). O poder dessa espada deve
estar sob o controle da mão do Senhor. Vê-se com clareza o
cumprimento disso na vida do Servo perfeito. Ele foi extrema-
mente cuidadoso no uso da espada afiada, quando falava, pois
fê-lo de acordo com a vontade do Pai.
Isaías usa a imagem do cabo da espada sendo seguro pela mão
do Senhor. As palavras que usa indicam que o próprio Servo
estava na mão de Deus. "Na sombra de sua mão me cobriu". O
Servo e suas palavras são considerados uma coisa só. A palavra
está no Servo, que está na mão do Pai. O Senhor Jesus falou a
verdade, e ele próprio era a verdade (João 14:6). Assim como
um bom soldado usa sua espada para cortar, perfurar e defen-
der-se, sem desferir golpes desnecessários, o Senhor usou de
modo eficiente sua língua com máxima graça e verdade.
O abuso na utilização da espada é tentação comum para
muitos de nós que nos mostramos naturalmente agressivos na
obra do Senhor. Deveríamos, por isso, ter máxima cautela e
certeza de que estamos ocultos "na sombra de sua mão", sempre
que se torna necessário o uso da espada em nosso ministério. Às
vezes tendemos a golpear com força demais, ou a torcer a lâmina
enfiada na pessoa. Devemos lembrar-nos de que se trata da
"espada do Espírito", e não nossa. Usemos apenas enquanto
estivermos na segurança da mão do Senhor.
Flecha polida na aljava do Senhor
O cântico prossegue no tema da missão do Servo. Entretanto,
a imagem é trocada: do uso controlado da espada passa-se à
flecha polida, pronta para ser usada. Sendo bom servo, está
pronto para qualquer serviço, pronto para ir a qualquer lugar,
sem escolher trabalho. Isaías usa a imagem de uma flecha na
aljava do arqueiro. A flecha é polida, reta, e está pronta para ser
usada, oculta na aljava. É o próprio Servo que fala neste versícu-
lo:
"Pôs-me como uma flecha limpa, e me escondeu na sua aljava"
(v. 2).
Pronto, espera ser enviado em alguma missão, pelo Senhor.
A grande missão atribuída à Flecha foi a de ser enviada para
assegurar nossa salvação. O alvo localizava-se num lugar chama-
do Calvário. A Flecha já estava pronta desde a época em que o
pecado penetrou no mundo. Aguardou 4.000 anos, escondida
na aljava do Senhor.
"Vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho"
(Gálatas 4:4).

A flecha do Senhor foi atirada, o inimigo destruído e nossa


salvação alcançada, exatamente no tempo e no alvo determina-
dos.
Nós também devemos ser flechas na aljava de nosso Mestre.
Precisamos estar em prontidão constante, polidos e retos.
Durante quanto tempo permaneceremos escondidos na aljava,
longe da vista, é assunto do arqueiro. João Batista permaneceu
escondido durante trinta anos, antes de ser lançado num minis-
tério breve, de apenas seis meses. Paulo ficou escondido durante
dez anos, mais ou menos, no período entre sua conversão e sua
missão. A história da igreja é pontilhada de flechas preparadas
de antemão, que ficaram escondidas durante algum tempo e, em
seguida, foram lançadas pelo Deus onisciente, atingindo o alvo.
"Para que servem, as flechas senão para serem
disparadas?"
Jim Elliot, um dos cinco mártires do Equador, em 1956, foi
uma das flechas escolhidas de Deus. Ainda quando estudante
universitário sentia grande anseio de atingir os índios quechúas,
no Equador, que nunca haviam ouvido as Boas Novas. O irmão
dele acabara de partir para outro campo missionário, na América
do Sul também. Jim partilhava aquele anseio com seus piedosos
pais. Quando estes manifestaram alguma tristeza à vista da
missão a que o filho se propunha, replicou:
— Não fico admirado por sentirem tristeza diante da notícia
de que vou para a América do Sul — disse ele em 8 de agosto.
— Isso nada mais é do que aquilo sobre que o Senhor Jesus
advertiu seus discípulos, ao dizer-lhes que deveriam tornar-se
tão apaixonados pelo Reino, ao seguir a Cristo, que todas as
demais lealdades deveriam tornar-se como que inexistentes. Ele
jamais excluiu os laços familiares. Na verdade, o amor aos entes
queridos, aos nossos íntimos, como os chamamos, deve parecer
ódio, disse-nos o Senhor, quando comparado aos nossos anseios
de abraçar a causa dele. Não se entristeçam, pois, se seus filhos
parecerem estar desertando-os, mas, ao contrário, regozijem-se,
vendo que a vontade de Deus está sendo executada com alegria.
Lembram-se de como o salmista descrevia os filhos? Dizia ele que
os filhos são herança do Senhor, e que cada homem deveria
sentir-se feliz ao encher sua aljava com eles. De que se enche
uma aljava senão de flechas? E PARA QUE SERVEM AS FLECHAS
SENÃO PARA SEREM DISPARADAS? Assim, fortalecidos os bra-
ços com a oração, estiquem o arco com força, e deixem todas
as flechas voarem, direto às hostes do inimigo.

"Permite que teus filhos sejam portadores


da mensagem gloriosa.
Dá-lhes das tuas riquezas,
para que se apressem no caminho.
Derrama tua alma sobre eles,
em oração vitoriosa.
Pois, tudo quanto gastares,
Jesus te reembolsará".
(Elizabeth Elliot, Shadow of the Almighty
[Sombra do Todo-poderoso] Harper & Row, p. 132)
A compreensão da missão
O cântico do Servo prossegue, agora, a fim de revelar o
A missão de paz do redentor 59
propósito para o qual foi preparado. Quem fala nesta parte é o
Senhor, que assim começa: "Tu és o meu servo, Israel" (v. 3).
Poderia parecer que o Senhor dirigi-se à nação de Israel, aqui,
mas o contexto indica claramente que alguém será usado pelo
Senhor, no futuro dessa nação (v. 5). Cristo, o servo, deveria vir
da nação de Israel e, por fim, realizar o trabalho pelo qual Israel
era responsável. Esse propósito é aí revelado.
A missão do Servo — mostrar a glória do Senhor
A passagem declara o seguinte: "Meu servo. . . em quem
manifestarei a minha glória". Os discípulos de Jesus, tendo-o
observado, exclamaram:
"Vimos a sua glória. A glória como do Unigênito do Pai, cheio
de graça e de verdade"
(João 1:14).
O que eles viram foi uma manifestação da glória do Pai. O
próprio Senhor Jesus expressaria de modo verdadeiro esse fato
em sua grandiosa oração sacerdotal:
"Eu te glorifiquei na terra, concluindo a obra que me deste
para fazer"
(João 17:4).
Pessoas cheias de fé viram-no em pleno serviço ministerial, e
Deus foi glorificado. Cada movimento, cada reação trazia em si
a perfeição, cada palavra dele era pura. Até mesmo o centurião
romano que testemunhava a crucificação disse:
"Verdadeiramente este homem era o Filho de Deus!"
(Marcos 15:39).
Faça tudo para a glória de Deus
Os antigos neceitos bíblicos estão certar quando declaram
que o principal objetivo do homem é glorificar a Deus. Nada
mais no universo é tão importante.
"Portanto, quer comais, quer bebais, ou façais outra coisa
qualquer, fazei tudo para a glória de Deus"
(1 Coríntios 10:31).,
Devemos glorificar a Deus no uso físico de nossos corpos (1
Coríntios 6:20), no uso de nossos recursos financeiros (2 Corín-
tios 9:13), em nossas relações do dia-a-dia, no ambiente da igreja
local, uns com os outros (Romanos 15:5-6). Até a morte é ocasião
para glorificarmos a Deus (João 21:19).
A medida máxima de nossa eficácia como servos é o grau em
que temos glorificado a Deus. Esta medida não é o que nosso
chefe humano escreve em seu relatório, nem o sucesso exterior
do projeto, mas se Deus foi ou não glorificado. Os fins jamais
justificam os meios, se estes meios não trouxerem glória e honra
a Deus. Um serviço fiel e paciente pode trazer mais glória a Deus
do que demonstrações impressionantes aos olhos humanos.
George Fellingham era missionário, colega nosso, trabalhan-
do no sul da África, entre o povo zulu. Em uma cidade chamada
Ermelo, desenvolvia-se um ministério sonolento que se resumia
em estabelecer igrejas e imprimir alguma literatura, e isto ocorria
já há algumas décadas. Parecia que nada de espetacular tinha
acontecido. Um dia esse missionário me disse que com freqüên-
cia havia sido animado pelas palavras que o Senhor disse certa
vez aos discípulos:
"Vós sois os que tendes permanecido comigo nas minhas
tentações. . . Eu, porém, entre vós sou como aquele que serve"
(Lucas 22:27-28).

O Sr. Fellingham aprendera que a fidelidade no serviço, para


a glória de Deus, era a coisa mais importante.
A confiança do Servo
No versículo 4 prossegue o diálogo entre o Senhor e o Servo.
Assim diz o Servo:
"Debalde trabalhei, inútil e em vão gastei as minhas forças.
Todavia, o meu direito está perante o Senhor, e o meu galardão
perante o meu Deus".
As palavras do Servo indicam a presença de desânimo pessoal,
e senso de aparente fracasso. Tal senso de desânimo lhe advém
dentro de um contexto, quando o Senhor expõe seu propósito
de demonstrar sua glória. Houve épocas em que as circunstân-
cias externas pareciam encobrir esse propósito. Desapontamen-
tos e desânimo ecoavam ocasionalmente na vida do Senhor
Jesus, conforme os evangelhos nos revelam:
"Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam"
(João 1:11).
Ele chorou por causa da incredulidade de Jerusalém: "Jerusa-
lém, Jerusalém! Que matas os profetas. . . quantas vezes quis eu
ajuntar os teus filhos. . . e tu não quiseste!"
(Mateus 23:37).
Noutra ocasião sentiu desânimo humano, quando seus discí-
pulos deixaram de segui-lo, um a um:
"Então perguntou Jesus aos doze: Não quereis vós também
retirar-vos?"
(João 6:67).
O fracasso aparente seguia os passos de outros servos tam-
bém, nas Escrituras. Exemplo clássico é Elias, deitado sob um
zimbro. Por certo fracassara, de modo que pediu a morte a Deus
(1 Reis 19:4). Mas pela graça o anjo de Deus tocou o profeta e o
reanimou, colocando-o no caminho da restauração.
Davi experimentou o gosto do fracasso mais de uma vez.
Quando rejeitado por Saul, fugiu para o deserto de Judá, onde
viveu escondido durante anos. Mais tarde, sendo já rei de Israel,
foi obrigado a exilar-se pelo seu próprio filho Absalão. Entretan-
to, para Davi, aqueles lugares de desânimo se transformaram em
lugares de confiança renovada em Deus. Alguns de seus salmos
mais lindos surgiram dessas experiências de fracasso:
"Eu, porém. . . confio no constante amor de Deus para sempre
e eternamente" (Salmo 52:8). "Só ele é a minha rocha e a minha
salvação"
(Salmo 62:6).
Do desapontamento trazido pelos fracassos aparentes pode
advir uma confiança mais profunda em Deus. É a esse lugar de
confiança que o servo descrito por Isaías vem. Desprezando as
circunstâncias desencorajadoras, assim diz o Servo:
"O meu direito está perante o Senhor, e o meu galardão
perante o meu Deus" (v. 4).
Embora não se percebam ainda resultados visíveis, eles estão
nas mãos de Deus e por isso são reais.
Meu irmão, Peter Fleming, foi um daqueles cinco mártires no
Equador em 1956. À semelhança dos demais, esperava fazer
avançar a causa de Cristo, alcançando pessoas que jamais haviam
ouvido as Boas Novas. Lanças quechúas encerraram as vidas
daqueles missionários, deixando cinco viúvas e onze crianças
órfãs. Que outro nome você poderia dar a isso senão o de
fracasso? Entretanto, o que os homens chamariam de fracasso
foi usado por Deus para, no fim, levar aqueles índios a Cristo.
Não foi só isso, mas daquela aparente tragédia surgiu um ímpeto
missionário enorme, em meados do século vinte. Poucos dias
antes de morrer, Peter escreveu em seu diário que sentia medo.
E prosseguiu, então, escrevendo que Deus confortara seu cora-
ção com as palavras de João 14: "Não se turbe o vosso coração".
A confiança dele foi honrada por Deus.
A missão do Servo
No diálogo contínuo entre o Senhor e seu Servo, no versículo
5, há indicação de um propósito mais abrangente a ser atingido:
"E agora diz o Senhor, que me formou desde o ventre para ser
seu servo, que lhe torne a trazer Jacó, e ajunte Israel a ele, pois
aos olhos do Senhor sou glorificado, e o meu Deus tem sido a
minha força".
O Servo receberia um futuro ministério de importância nacio-
nal. Seria usado a fim de trazer de volta a nação, encerrando o
exílio vindouro na Babilônia. O fato de Isaías ter escrito isto
muitos anos antes de o povo ser levado em cativeiro torna sua
profecia mais extraordinária ainda. Quando o Messias veio à
terra, a maior parte da nação de Israel ainda se encontrava do
lado de fora da Palestina. Ele não ajuntou esta parte, em seus
dias, nem estabeleceu o trono de Davi, conforme promessa. Os
homens poderiam dizer que isso foi um fracasso, todavia, a hora
do Messias ainda não chegara.
O versículo 5 termina com a palavra de confiança do Servo
em que os propósitos nacionais do Senhor seriam atingidos:
"Meu Deus tem sido a minha força". A força de Deus era a chave
do cumprimento da missão do Servo, algo que tocaria em toda
a nação.
Alcance internacional
Entretanto, este ministério nacional foi meramente um prelú-
dio para uma esfera ministerial maior ainda, mencionada no
versículo 6. Observe este progresso no propósito da missão do
Servo. No versículo 4: vitória pessoal oriunda de aparente fracas-
A missão de paz do redentor 63
so. No versículo 5: reunião nacional após o julgamento de Deus
sobre o pecado da nação. Agora surge o clímax no versículo 6:
bênçãos internacionais oriundas da luz lançada sobre os gentios
que estão em trevas. Aqui, a missão do Servo é levar a salvação
ao mundo inteiro.
"Pouco é que sejas o meu servo, para restaurares as tribos
de Jacó, e tomares a trazer os preservados de Israel.
Também te darei para luz dos gentios, para seres a minha
salvação até as extremidades da terra".
A ênfase aqui está no caráter universal da missão do Servo.
Reunir a nação de Israel, percorrendo os quatro cantos da terra,
é tarefa descrita como "pouco". É modo retórico de dizer-se que
o Servo tem uma tarefa bem maior para executar: trazer salvação
ao mundo todo. Deve ser "luz dos gentios", deve brilhar onde
as trevas têm dominado. A missão do Servo como "luz" já havia
sido mencionada no primeiro cântico de Isaías (42:6).
Neste capítulo a Luz liga-se à vinda da libertação aos cativos e
da visão aos cegos. Aqui, no capítulo 49, a Luz se relaciona ao
alcance mundial do evangelho.
Quando o Senhor Jesus estava na terra, ele descreveu a si
próprio como "a luz do mundo" (João 8:12). Paulo, o apóstolo,
viu essa luz na estrada de Damasco e imediatamente começou a
proclamar "a luz do evangelho da glória de Cristo" aos outros,
tanto judeus como gentios (2 Coríntios 4:4). Na Antioquia da
Pisídia, em sua primeira viagem missionária, houve grande revi-
ravolta no ministério de Paulo. Tinha sido rejeitado pelos judeus
ali (Atos 13:45), e por isso tomou a decisão deliberada de
voltar-se para os gentios (v. 46), utilizando essa passagem de
Isaías a fim de confirmar que a salvação aos gentios fazia parte
do plano de Deus (v. 47).
A mensagem de Cristo, a Luz do mundo, tem sido pregada nos
lugares escuros da terra desde então, sendo mais brilhante hoje
do que em qualquer época da história. Entretanto, a Luz de maior
fulgor brilhará quando o Senhor voltar em poder e glória.
Cumprimento final da missão
Na última parte do cântico, o Senhor promete que a missão
de seu Servo será completada (w. 7-13)- O Servo do Senhor será
finalmente o centro das nações da terra, os governantes das
nações o reconhecerão como o escolhido do Senhor, o soberano
em toda a terra. (Há aqui um indício de que o soberano é também
o sofredor. Antes de ser reconhecido como rei, ele também é
chamado de "alma desprezada", e de alguém a quem "as nações
abominam" [v.7].)
Os dois temas desta seção são introduzidos pela frase: "Assim
diz o Senhor" (w. 7-8). No versículo 7, a missão do Servo resulta
na adoração dos gentios. Nos versículos 8-12 a missão do Servo
resulta na restauração de Israel.
O Senhor, falando no versículo 7, chama a si mesmo de
"Redentor" e de "Santo de Israel", é Salvador e também Juiz.
Estes dois nomes com freqüência se combinam na profecia de
Isaías (41:14; 43:14; 47:4; 48:17; 49:7 e 54:5). O Salvador rejei-
tado é também o Juiz que julga a terra toda. O Servo a quem "as
nações abominam", inclusive pela pequenina Israel no fim será
reconhecido pelos governantes das grandes nações, quando
perante ele se inclinarem em humildade (v. 7). Este versículo
nos leva ao reconhecimento do reis gentios, após sua rejeição e
seu próprio povo, os judeus.
A promessa do Senhor, aqui, é que os gentios o adorarão.
Aquele que se submeteu ao governo romano, em sua primeira
vinda (o servo dos governadores, ou "servo dos que dominam"
[v. 7]), se tornará o Rei de todos os reis terrenos em sua segunda
vinda ("os príncipes diante de ti se inclinarão" [v. 7]). A fidelida-
de de Deus é vista tanto no sofrimento do Servo quanto em sua
exaltação.
Restauração de Israel
O segundo tema desta seção é a promessa feita pelo Senhor
de restaurar a nação de Israel, na época determinada. Mais uma
vez o tema se inicia com "Assim diz o Senhor". O Senhor está
falando a seu Servo a respeito do "dia da salvação" vindouro, a
época em que a obra do Servo será executada. "Vindo a plenitu-
de dos tempos, Deus enviou seu Filho" (Gálatas 4:4).
Paulo cita este versículo de Isaías a fim de exortar os coríntios
a crerem (2 Coríntios 6:2). Entretanto, o cumprimento integral
dessa promessa ocorrerá no final dos tempos. Só então é que as
quatro promessas desta seção serão cumpridas literalmente.
A missão de paz do redentor 65
Quatro promessas de Israel
A primeira dessas promessas (w. 8-13) refere-se à restauração
da terra (v. 8). O Servo está associado às promessas da aliança,
segundo as quais haveria um mundo estabilizado, quando o
povo de Israel teria de novo a posse da terra. A segunda promessa
diz respeito à libertação dos cativos (v. 9a). A terceira é o
pastoreio de Israel como sendo rebanho do Senhor (w. 9b-10).
E a quarta promessa: o caminho de volta à terra fica livre de
obstáculos, de modo que o povo do Senhor pode voltar de todas
as direções (w. 11-12). Estas promessas estão em ordem inver-
tida, sendo mencionados em primeiro lugar os resultados finais.
Todas essas grandes promessas do concerto serão cumpridas
pelo Servo do Senhor. A grandiosidade das promessas enfatiza
o privilégio do Servo em seu cumprimento, o verdadeiro serviço
sempre se faz acompanhar de dignidade.
O cântico se encerra com uma doxologia em louvor do
Senhor. Está completada a obra do Servo. Por isso, toda a criação
é convocada a cantar louvores:
"Exultai, ó céus, e alegra-te, ó terra, e vós, montes, rompei em
cânticos! Pois o Senhor consola o seu povo, e dos seus aflitos se
compadecerá" (v. 13).

POLIDO, ESCONDIDO, AGRADÁVEL A DEUS


Ó Senhor, quem me dera ser polido,
E esconder-me em tua aljava!
Quem me dera ser preparado por ti,
Por ti dotado, para fazer tua vontade.
Quisera ser devotado ao teu serviço,
Quisera esperar só em ti
Para ser agradável ao meu Deus,
Agradável a ti, Senhor!

Embora as provações mais duras


Firam e esmaguem meu coração,
Embora laços queridos se rompam,
E eu me consuma como ferrugem,
Peço-te que venhas polir-me
Até que teu reflexo tu vejas em mim,
66 Ele Humilhou-se a Si mesmo
Até que eu te seja agradável,
A ti, Senhor, só a ti!

Então, eu ficaria oculto em tua aljava,


Bem ao alcance de tua mão,
E mui feliz ali ficaria, embora
Nenhum olho humano me visse:
Sim, feliz seria trabalhando, ativamente.
Feliz seria esperando, passivamente,
E ainda feliz se te fosse agradável,
Se eu te agradasse, Senhor!

Ali, é isso que eu anseio:


Teu sorriso doce, de aprovação,
Tivesse eu amor ao louvor terreno,
Meu coração se enganaria de todo.
Sei, porém, que quando tu vieres
Meu galardão será rico
Se eu te for agradável,
Se eu agradar a ti, Senhor!
6
Jesus Cristo, o discípulo

:rescente revelação do Servo, em Isaías, descortina-se mais


mplamente no capítulo 50. Este cântico extraordinário
ontem fatias discerníveis da vida de Jesus como servo, que
poderíamos considerar singulares em todo o Antigo Testamen-
to.
Essa passagem enfatiza o sofrimento do Servo. No primeiro
cântico a humilhação dele nem sequer foi mencionada. No
segundo, sua humilhação foi apenas sugerida, em termos de
"alma desprezada", alguém a quem "as nações abominam"
(49:7). Aqui, o sofrimento do Servo torna-se muito mais eviden-
te, embora o desenvolvimento completo do tema fique para o
cântico final. O sofrimento do Servo neste capítulo é visto no
contexto de sua entrega e compromisso de lealdade, como o
tema principal. É o próprio Servo que fala:
"O Senhor Deus me deu língua instruída, para saber a
palavra que ampara o cansado. Ele me desperta todas as
manhãs, desperta-me o ouvido, para que ouça como
discípulo. O Senhor Deus abriu os meus ouvidos, e eu
não fui rebelde, não me retraí. As minhas costas dei aos
que me feriam, as minhas faces aos que me arrancavam
os cabelos, não escondi a minha face dos que me afron-
tavam, e me cuspiam. Porque o Senhor Deus me ajuda,
não serei confundido. Por isso fiz o meu rosto como a
pederneira, e sei que não serei envergonhado. Perto está
o que me justifica. Quem contenderá comigo? Compare-
çamos juntos! Quem é meu adversário? Chegue-se para
mim! É o Senhor Deus quem me ajuda. Quem há que me
condene? Todos eles como vestidos se envelhecerão, a
traça os comerá. Quem há entre vós que tema a Deus, e
ouça a voz do seu servo? Quando andar em trevas, e não
tiver luz nenhuma, confie no nome do Senhor, e firme-se
sobre o seu Deus. Mas todos vós que acendeis fogo, e vos
cingis com tições acesos, ide, andai entre as chamas do
vosso fogo, e entre os tições que acendestes. Isto é o que
recebereis da minha mão: Em tormentos jazereis"
(Isaías 50:4-11).

Compromisso de fidelidade à disciplina


A disciplina é o caminho para o espírito de serviço autêntico.
Nesta passagem, o Servo perfeito fala de seu compromisso de
entrega voluntária ao Senhor, como discípulo, como servo que
se submete a um processo de treinamento que o tornará apto
para os objetivos que propõe atingir. O Senhor escolheu doze
homens e treinou-os para servirem a Deus. Nós os chamamos de
"discípulos" (que quer dizer "disciplinados"). O fato extraordi-
nário é que a pessoa divina que treinou estes doze discípulos
identifica a si própria como um "discípulo" de Deus. Este cântico
é muito instrutivo para nós, que almejamos ser discípulos do
Servo.
No português moderno, usualmente, associamos a palavra
disciplina à idéia de punição, de correção designada a ensinar e
treinar. Nós, frágeis seres humanos, precisamos dessa forma de
disciplina, mas de maneira alguma dela precisaria o perfeito
Servo, que não conheceu pecado. A disciplina que se tem em
mira aqui é aquele tipo de treinamento que produz o caráter
desejável, ou a habilidade que se busca. Assim como os estudan-
tes universitários se submetem às autoridades de ensino a fim de
serem treinados em determinadas áreas (disciplinas), o Servo de
modo voluntário submeteu- se à autoridade divina, e a treino
específico, para determinados propósitos.
O caminho controlado da excelência
A chave para a compreensão deste cântico está na repetição
de um nome usado para Deus, que não se encontra nos demais
cânticos do Servo. Trata-se do nome "Adonai Javé", com freqüên-
Jesus Cristo, o discípulo 69
cia traduzido por "Senhor Deus", indicando superioridade sobe-
rana. Quatro vezes este título é usado no "Cântico do compro-
misso do Servo" (w. 4, 5, 7 e 9)-
A autoridade enfatizada no nome "Adonai Javé" é a base da
submissão do Servo como discípulo. Ao soberano Senhor ele se
entrega voluntariamente, enquanto percorre o caminho da dis-
ciplina, a vereda da excelência. Isto se aplica não apenas ao
Senhor Jesus na terra, mas a todos quantos desejam tomar seu
jugo e aprender dele (Mateus 11:29). Várias áreas importantes
de disciplina são mencionadas nesta passagem — áreas presen-
tes na vida de Jesus.
A língua disciplinada
Menciona-se em primeiro lugar a língua do Servo. O mesmo
afirma que o Deus Soberano lhe deu uma "língua instruída" (v.
4). A língua do Servo estava em plena submissão ao Pai (João
8:28). As palavras de Isaías afirmam que o Servo recebeu apren-
dizado integral, instrução completa. As palavras que pronuncia,
ele as recebeu de seu Mestre.
Nenhum órgão do corpo humano constitui melhor indício da
qualidade da disciplina de alguém do que a língua. Jesus sempre
esteve no controle total de suas palavras, a tal ponto que as
pessoas se maravilhavam. "Todos. . . se maravilhavam das pala-
vras de graça que saíam da sua boca" (Lucas 4:22). "Jamais
alguém falou como este homem" (João 7:46).
Controlar a língua nunca significou que ele diluía a verdade,
ou apresentava respostas fracas, sem vigor. Estava sempre pron-
to a falar com franqueza em prol da justiça e da retidão, ainda
que alguns se sentissem ofendidos. Visto que controlava sua
língua, jamais precisou lamentar alguma coisa que dissera. Ele
só falou aquilo que era coerente com a glória do Pai, só o que
vinha do Pai (João 12:49).
Quem consegue domar sua língua?
A história do povo de Deus transborda de situações em que
palavras irresponsáveis causaram o surgimento de ódios, divi-
sões e mágoas que jamais se curaram. Quando Tiago afirma que
"a língua, nenhum homem a pode domar" (Tiago 3:8), ele fala
com toda razão.
No entanto, a boa notícia é que aquilo que o homem não
consegue fazer, Deus pode. A língua sob o controle de Deus não
só é resguardada para não causar danos, mas pode transformar-se
em canal de incontáveis bênçãos para o mundo. Conforto,
esperança, vida e edificação, tudo isso pode fluir da língua. Ao
perfeito Servo foi dada uma "língua instruída" a fim de proferir
"a palavra que ampara o cansado" (v. 4).
Nos primeiros anos de seu discipulado, Pedro com freqüência
era afligido por sua língua não-disciplinada. Por exemplo, suge-
riu que se construíssem três tabernáculos no monte da Transfi-
guração, indicando que o Senhor estava no mesmo nível de
Moisés e Elias (Mateus 17:4). Sugeriu que o sofrimento e a morte
jamais deveriam advir ao Senhor, o que exigiu a resposta de
Cristo: "Para trás de mim, Satanás!" (Mateus 16:21-23). Mais
tarde, quando Jesus desejou lavar-lhe os pés, Pedro insistiu em
que seu corpo inteiro fosse banhado (João 13:9). Pedro foi
rápido em dizer: "Por ti darei a minha vida" mas foi repreendido
duramente pelo Senhor que lhe disse: "de modo algum cantará
o galo antes que me negues três vezes" (João 13:37,38).
Entretanto, a língua indisciplinada de Pedro tornou-se "língua
instruída". Foi a língua de Pedro que declarou: "Tu és o Cristo,
o Filho do Deus vivo" (Mateus 16:16). Foi Pedro quem levantou
no dia de Pentecoste e pregou o perdão de pecados para os
judeus provenientes de quatorze nações (Atos 2:14 e seg.). A
mensagem de Pedro introduziu a graça de Deus aos gentios na
casa de Cornélio (Atos 10). Pedro usou sua língua a fim de
defender a unidade da igreja, quando muitos advogavam a sepa-
ração entre crentes judeus e crentes gentios (Atos 15:7-11). Esse
mesmo Pedro escreveu numa de suas cartas: "Se alguém fala, fale
segundo as palavras de Deus. . . Não pagueis mal por mal, nem
injúria por injúria. Pelo contrário, bendizei, porque para isso
fostes chamados, a fim de receberdes bênção por herança" (1
Pedro 4:11, 3:9).
Muitos de nós, como servos de Deus, hoje, precisamos seguir
o exemplo do perfeito Servo, e aprender o que Pedro aprendeu,
a respeito da disciplina da língua.
Compromisso de obediência
A seção seguinte no "Cântico da disciplina do Servo" diz
respeito ao ouvido do Servo:
Jesus Cristo, o discípulo 71
"Ele me desperta todas as manhãs, desperta-me o ouvdo, para
que ouça como discípulo" (v. 4).
Há conexão entre a língua instruída e o ouvido atento. Muitos
de nós falhamos neste ponto. Não, porém, o perfeito Servo, que
fala aqui. Pelo menos duas coisas percebemos:
(a) Primeiramente, sua capacidade para ouvir era constante e
coerente: "todas as manhãs". Na vida de Jesus há várias referências
de sua comunhão solitária com o Pai. Marcos 1:35 declara que o
Senhor se levantou bem cedo, de madrugada, e foi a um lugar
solitário, a fim de orar a sós. Lucas nos diz que ele "se retirava para
lugares desertos, e orava" (Lucas 5:16). Essa comunhão regular
com seu Pai constituía fonte de poder espiritual dia após dia.
Visto que a expressão "todas as manhãs", característica de sua
capacidade para ouvir, era ponto vital no espírito de serviço de
Cristo, seria essa prática menos importante para nós? Só apren-
demos enquanto escutamos. Lembro-me bem de meu avô, du-
rante meus dias de meninice. Costumava derrubar "pérolas de
sabedoria" enquanto confiava o cavanhaque branco. Às vezes,
quando achava que não estávamos prestando muita atenção, ele
citava um velho poema inglês:
"A velha coruja, muito sábia, pousada no carvalho,
Quanto mais ouvia, menos falava.
Quanto menos falava, mais ela ouvia.
Por que você não faz como essa coruja?"
Todos precisamos receber instruções regularmente da parte
do Senhor. Talvez o melhor para isso seja aqueles momentos que
denominamos de "hora tranqüila". E quando separamos algum
tempo para estar diante do Senhor, com a Bíblia aberta, a mente
aberta, e o coração aberto! A comunhão matinal com Deus,
talvez a melhor ocasião para a maioria das pessoas, como no caso
de Jesus, é aquele momento em que nossa alma fica preparada
para as atividades do dia. Esses momentos com o Mestre nos
estimulam a "caminhar com o Senhor sob a luz de sua Palavra",
e nos equipam para a batalha espiritual contra a carne, o mundo
e o diabo. Nossa eficiência como servos de Deus depende de
nossa prontidão em ouvir como discípulos.
Em 1946 estive em Chonju, na Coréia, fazendo parte do
exército norte-americano de ocupação. No topo da montanha
havia uma torre de concreto para vigilância, bem onde minha
unidade estava estacionada. Era para lá que me dirigia todas as
manhãs para a minha "hora tranqüila", quando o tempo permi-
tia. Naqueles dias um versículo me impressionou:
"Sobre a minha torre de vigia estarei, e sobre a fortaleza
me apresentarei e vigiarei, para ver o que fala comigo, e
o que eu responderei a esta queixa"
(Habacuque 2:1).
(b) Em segundo lugar, muitos servos em potencial são lentos
demais para detectar o toque de Deus, que anseia por ver-nos
disciplinados, capacitados para ouvir bem. A verdadeira capaci-
dade de ouvir conduz à obediência.
Diz o Servo em nossa passagem: "Eu não fui rebelde". O servo
fiel estará pronto sempre para obedecer a cada palavra de seu
senhor. Na língua zulu, da África, a palavra lalela significa ouvir
e também obedecer. Quando o diretor de uma escola zulu pede
a seus alunos que o "lalela", ele na verdade está pedindo-lhes:
"Ouçam e me obedeçam".
Compromisso para com a submissão
O "desperta-me o ouvido" da obediência é seguido de "o
Senhor Deus abriu os meus ouvidos" da submissão (v. 5). Com
referência à lei dos hebreus (Êxodo 21:1-11, Deuteronômio
15:12-18), pela qual um homem pobre poderia vender-se a si
próprio a fim de servir a um senhor durante seis anos. No sétimo
ano, contudo, era-lhe oferecida a liberdade. Todavia, se ele
gostasse de seu trabalho e amasse a seu senhor, poderia volun-
tariamente entregar-se a si mesmo para uma servidão perpétua.
A confirmação pública desta decisão se fazia quando a orelha do
servo era perfurada com uma sovela, a qual deixava uma cicatriz
permanente no corpo do servo, que todos notavam. Ei-lo trans-
formado em servo pelo resto da vida.
Como já vimos, esta "lei do servo hebreu" é aplicada ao Senhor
Jesus, nas Escrituras. O Salmo 40, messiânico, fala do Messias
como Servo do Senhor, obediente até à morte. Isaías 50:4-11
constitui-se no "Cântico do compromisso do Servo". E Hebreus
10 menciona o salmo 40 com referência à alegria do Servo em
Jesus Cristo, o discípulo 73
entregar-se à vontade do Senhor. As frases pertinentes nessas
passagens são as seguintes:
"Mas se esse escravo expressamente disser: Eu amo a
meu senhor. . . e não quero sair forro. . . o seu senhor
lhe furará a orelha com uma sovela"
(Êxodo 21:5-6).
"Sacrifício e oferta não quiseste, mas as minhas orelhas
furaste. . . Eis-me aqui, cheguei. . . Deleito-me em fazer
a tua vontade, o Deus meu"
(Salmo 40:6-8).
"O Senhor abriu os meus ouvidos, e eu não fui rebelde;
não me retraí"
(Isaías 50:5).
"Sacrifício e oferta não quiseste, mas corpo me prepa-
raste. . . Aqui estou. . . para fazer, ó Deus, a tua vontade. . .
Nessa vontade é que temos sido santificados pela oferta do
corpo de Jesus Cristo, feita uma vez por todas"
(Hebreus 10:5-10).
Vê-se com máxima clareza o compromisso de entrega de si
mesmo, feito por Jesus, o perfeito Servo, para fazer de livre
vontade o desejo do Senhor. Esse desejo era que Jesus se
sacrificasse a si mesmo em holocausto pelo pecado. Como servo
leal, absolutamente fiel, o Salvador foi obediente até à morte. A
marca de sua entrega voluntária havia sido ilustrada na orelha
perfurada. Jesus recebeu a execução desse compromisso pes-
soal em seu próprio corpo, na cruz. Assim foi que o autor de
Hebreus modificou a citação do salmo 40, referindo-se especifi-
camente ao corpo do Senhor Jesus. Tomé vislumbrou essas
marcas e exclamou, em adoração: "Senhor meu e Deus meu!"
(João 20:28).
No Apocalipse de João, em que o apóstolo vê o Cordeiro no
céu ("como havendo sido morto"), os anjos, criaturas vivas, e os
anciãos prostraram-se diante dele e cantaram, em louvor: "Digno
é o Cordeiro, que foi morto" (Apocalipse 5:6-12). Ele ostentará
aquelas marcas em seu corpo por toda a eternidade, e nós o
adoraremos para sempre, com coração íntegro.
O Servo-modelo jamais esquivou-se da formidável tarefa que
lhe havia sido dada. "Eu não fui rebelde, não me retraí" (v. 5). O
Servo jamais recusou aceitar e desempenhar de maneira integral
as ordens de seu Senhor. Para ele não havia a alternativa de
retrair-se. Isso é obediência perfeita.
Compromisso de sofrimento
A submissão do Servo dá, agora, um passo adiante — na
direção de seu sofrimento (v. 6). O Servo obediente precisa
pagar o preço de seu compromisso de auto-entrega. A trilha
solitária o conduz à agonia do Getsêmani, à zombaria de seu
julgamento e à tortura de sua crucificação.
Os verbos de ação do versículo 6 indicam a prontidão delibe-
rada do Servo do Senhor para sofrer. Esta verdade é refletida com
freqüência nos evangelhos (João 10:18). Ele não foi a vítima
desafortunada de uma rebelião cruel, mas teve toda a intenção
de entregar-se por nós.
"As minhas costas dei aos que me feriam", isto é, ele sofreu a
tortura do açoite (veja Mateus 27:26). Essa punição era designa-
da para criminosos, açoites repetidos eram horrivelmente dolo-
rosos. O Servo também entregou "suas faces aos que me
arrancavam os cabelos". Embora não haja, no Novo Testamen-
to, uma referência direta e exata a este ato, está coerente com
o que aconteceu durante seu julgamento diante de Caifás, o
sumo-sacerdote (Mateus 26:67). O Servo nunca vacilou diante
da humilhação de ter os olhos vendados, ser esmurrado no rosto
e em seguida, sofrer a zombaria de ouvir a pergunta sobre quem
o ferira. Ele deu a face para isso. Em fúria insolente os ímpios lhe
cuspiam no rosto, como se fosse o mais vil dos criminosos
(Mateus 26:67; 27:30). Eis um verdadeiro servo! Ele "a si mesmo
se entregou por mim" (Gálatas 2:20).
Há um sentido no qual a implícita obediência de todos os
servos fiéis em geral termina em alguma forma de sofrimento,
exatamente como aconteceu a Paulo e a Pedro, e a outros servos,
segundo o registro do Novo Testamento. "O servo não é maior
do que o seu senhor" (João 13:16) e, por isso, pode esperar
sofrimento. Não se trata de ascetismo, mas de auto-entrega a um
propósito por amor ao próximo.
Jesus Cristo, o discípulo 75
Auto-entrega baseada na confiança
O tema da auto-entrega continua nos versículos 7-9, com a
declaração do Senhor, de que ajuda a seu servo: "O Senhor Deus
me ajuda" — o Todo-poderoso que responde às nossas orações e
cuida de seu povo. Com a ajuda do Todo-poderoso, o Servo sente
a maior confiança, ainda que as circunstâncias envolvam dor e
sofrimento (w. 5-6).
A palavra usada aqui para "ajuda" com freqüência era usada para
denotar assistência militar, no Antigo Testamento. Aqui, entretan-
to, o contexto sugere não uma ajuda externa (como um batalhão
de infantaria) mas, com toda probabilidade, ajuda interna, com
respeito às atitudes mentais e à determinação. Parece que a idéia
seria que o Senhor dotaria seu servo de perseverança e paciência
a fim de tornar-se perfeitamente obediente.
O resultado final da determinação do Servo é que ele não cai em
desgraça. Ainda que seu sofrimento resulte em morte, não se trata
de desgraça visto que sua morte atende a um propósito nobre. Fica
implícito aqui que o Senhor sustentará seu servo, e esta certeza dá
ao Servo nova coragem e força para a tarefa.
Fiz o meu rosto como a pederneira
Tendo a dupla promessa de que o Senhor Deus o ajudaria, de
modo que não cairia em desgraça, o Servo declara sua determina-
ção de completar sua obra: "Fiz o meu rosto como a pederneira"
(v. 7). Nos tempos bíblicos, pedras eram usadas como instrumen-
tos de corte. A palavra indica, aqui, o caráter determinado de Jesus
em aceitar a cruz. Lucas usou linguagem semelhante ao registrar a
caminhada do Senhor na direção de Jerusalém e da crucificação
(Lucas 9:51). Deus operou em Ezequiel da mesma forma (Ezequiel
3:8-9).
Mais uma vez declara o Servo que não será envergonhado (v.7).
Homens ímpios tentaram condená-lo, em tribunais baseados em
farsas, passando-lhe julgamento e sentença imerecidos, mas a
vergonha não o acometeria. Como servo que fazia com perfeição
a vontade de seu Senhor, não havia de que envergonhar-se.
No versículo 8 o Servo fica livre de toda culpa. Disseram seus
inimigos que seu sofrimento era prova de que o Senhor o abando-
nara, e que ele recebia o justo castigo que lhe era devido, pelos
pecados cometidos. Entretanto, o Senhor sustentou de modo
completo seu Servo/Filho, na ressurreição, na ascensão, na exalta-
ção e no reino vindouro (veja Isaías 52:13). Ele é apresentado como
o Servo perfeito, enquanto seus inimigos permanecem comprova-
damente errados. Estas palavras exatas de Isaías devem ter confor-
tado Cristo nas horas sombrias do Calvário.
Desafio aos inimigos
O Servo, confiante em suas bases, desafia agora seus adversários:
"Quem contenderá comigo? Compareçamos juntos! Quem é meu
adversário? Chegue-se para mim!" (v. 8). Eis um desafio que ficou
sem resposta. Ninguém consegue acusar o perfeito Servo e ter
razão em sua acusação. Paulo atinge o clímax em sua discussão,
em Romanos, apresentando uma série de desafios semelhantes
(Romanos 8:33-35). A pessoa cuja retidão se baseia no Senhor
ressuscitado atira o desafio: "Quem intentará acusação. . . Quem
os condenará. . . Quem nos separará do amor de Cristo?" Nin-
guém!
Tem certeza também o Servo a respeito da derrota de seus
inimigos (v. 9). Iniciando com a repetição do fato de que o
soberano Senhor o ajuda e o sustenta, o Servo afirma a respeito de
seus inimigos: "Todos eles como vestidos se envelhecerão, a traça
os comerá". Estas figuras de linguagem indicam a destruição gra-
dual mas certa do inimigo. A acusação deles redundará em nada,
no fim, na corte do supremo Juiz do universo. Acima de seus
inimigos humilhados, o Servo perfeito permanece impávido.
ApHcação e resumo
Nos dois últimos versículos deste cântico do Servo (w. 10-11),
o Senhor fala diretamente a duas categorias de pessoas: fiéis e
infiéis. Osfiéissão exortados a confiar; os infiéis são advertidos de
que o caminho que escolheram terminará em julgamento.
Na pergunta do Senhor: "Quem há entre vós que tema a Deus, e
ouça a voz do seu Servo?" (v. 10), o pronome "quem" se refere aos
fiéis que estão no meio de "vós", os infiéis. É sempre assim, nesta
vida. Osfiéissão a minoria que teme ao Senhor, e obedecem à voz
de seu Servo. Visto que acatam ao Senhor Deus em santa reve-
rência, é certo que serão obedientes a seu Servo.
Caminhando na escuridão
"Quando andar em trevas, e não tiver luz nenhuma, confie no
nome do Senhor, e firme-se sobre o seu Deus" (v. 10b).
Os fiéis são exortados a "confiar" no Senhor e "firmar-se" em
Deus, embora estejam caminhando na escuridão. Caminham
pela fé, não pela vista; não conseguem enxergar com clareza,
através das circunstâncias externas. À semelhança do Servo, às
vezes caminham pelo "vale da sombra da morte" (Salmo 23:4).
Poderão passar por épocas de sofrimento, como o Servo do
Senhor passou (w. 7-9)- Deverão imitar a confiança do Servo,
quando este caminhava pela escuridão, e que exclamou: "É o
Senhor quem me ajuda" (v. 9).
Nós, como servos do Servo, podemos aprender a confiar
como ele confiou, a firmar-nos em Deus como ele se firmou. O
poeta sacro, tomando este versículo da Palavra de Deus, descre-
veu-o bem:
"Firmados no Senhor, o coração cheio de bênçãos, En-
contramos, conforme ele prometeu, perfeita paz e des-
canso".
O salmista também expressou esta verdade:
"O Senhor é a minha luz e a minha salvação, a quem
temerei?"
(Salmo 27:1).
Por fim, o Senhor volta sua atenção para os infiéis (v. 11),
os que confiam em si mesmos ao invés de confiar no
Senhor. São identificados como os que ateiam fogo e se
rodeiam de brasas. Isto quer dizer que quando se vêem na
escuridão, tentam prover uma luz que eles mesmos fize-
ram, em vez de voltar-se para Deus.
A atitude do Senhor para com tais incrédulos é definida
com toda clareza, porquanto rejeitaram ao Senhor e recu-
saram a palavra de seu Servo. Pelo que o Senhor lhes diz:
"Andai entre as chamas do vosso fogo", sabendo que isso
terminará em julgamento:
"Isto é o que recebereis da minha mão: Em tor-
mentos jazereis" (v. 11).
Que contraste com o fiel que encontra na presença do Senhor
conforto e força!
"Prefiro andar com Deus no escuro do que andar a sós na luz".
7
Cântico do servo
sofredor

D
e Isaías 52:13 a 53:12, encontramos o clímax dos Cânticos
do Servo. Policarpo, pai da igreja de Esmirna, chamava esta
passagem da Escritura de "áurea paixão do Antigo Testa-
mento". Sendo o pico mais alto de toda a profecia messiânica, a
passagem fala do sofrimento do Messias e de sua obra mais
extensivamente do que qualquer outro texto do Antigo Testa-
mento. E citado de forma direta no Novo Testamento sete vezes
e são feitas alusões a ela outras doze vezes.
O ponto principal de Isaías 53 é o Messias como servo, em
seu sofrimento e glória. Ao contemplarmos o "meu servo" (Isaías
52:13), que estejamos bem conscientes de que estamos contem-
plando o Rei da Glória sob a forma de um servo. E ao fazê-lo, que
sejamos transformados à sua semelhança (2 Coríntios 3:18).
"Vede, o meu servo procederá com prudência será engran-
decido, e elevado, e muito sublime. Exatamente como
muitos pasmaram à vista dele — o seu parecer estava tão
desfigurado, mais do que o de outro qualquer, e a sua
aparência mais do que a dos outros filhos dos homens —
assim borrifará a muitas nações, e os reis fecharão as suas
bocas por causa dele. Pois, aquilo que não lhes foi anuncia-
do verão, e aquilo que não ouviram entenderão.
Quem deu crédito à nossa pregação, e a quem se mani-
festou o braço do Senhor? Ele foi subindo como renovo,
Cântico do servo sofredor 79
perante ele, e como raiz de uma terra seca. Não tinha parecer
nem formosura: e, olhando nós para ele, nenhuma beleza
víamos, para que o desejássemos. Era desprezado, e o mais
indigno entre os homens, homem de dores, e experimenta-
do no sofrimento. Como um de quem os homens escondiam
o rosto, era desprezado, e não fizemos dele caso algum.
Verdadeiramente, ele tomou sobre si as nossas enfermi-
dades, e as nossas dores levou sobre si, contudo, nós o
consideramos como aflito, ferido de Deus, e oprimido. Mas
ele foi ferido pelas nossas transgressões, e moído pelas
nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre
ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Todos nós andá-
vamos desgarrados como ovelhas, cada um se desviava pelo
seu caminho, e o Senhor fez cair sobre ele a iniqüidade de
nós todos.
Ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a sua boca,
como cordeiro foi levado ao matadouro, e como ovelha
muda perante os seus tosquiadores, ele não abriu a sua boca.
Pela opressão e pelo juízo foi tirado. E quem pode falar da
sua linhagem? Pois foi cortado da terra dos viventes: pela
transgressão do meu povo foi ele atingido. Deram-lhe sepul-
tura com os ímpios, e com o rico na sua morte, embora
nunca tivesse cometido injustiça, nem houvesse engano na
sua boca.
Todavia, ao Senhor agradou moê-lo, fazendoo enfermar,
quando a sua alma se puser por expiação do pecado, verá a
sua posteridade, prolongará os seus dias, e o bom prazer do
Senhor prosperará na sua mão. Ele verá o trabalho da sua
alma, e ficará satisfeito, com o seu conhecimento o meu
servo, o justo, justificará a muitos, e as iniqüidades deles
levará sobre si. Pelo que lhe darei uma porção entre os
poderosos, e com os fortes repartirá ele o despojo, porque
derramou a sua alma na morte, e foi contado com os trans-
gressores. Pois ele levou sobre si o pecado de muitos, e pelos
transgressores intercedeu"
(Isaías 52:13 a 53:12).
Há cinco estrofes aqui, cada uma das quais com três partes em
nossas Bíblias em português, facilmente reconhecíveis. As estro-
fes centralizam-se nos seguintes temas progressivos:
O Servo exaltado (52:13-15)
O Servo rejeitado (53:1-3)
O Servo ferido (53:4-6)
O Servo na morte (53:7-9)
O Servo satisfeito (53:10-12)
A primeira e a última estrofes são como picos de montanhas,
ao descrever a glória do Servo. As três intermediárias são como
um vale de permeio, ao descrever-lhe o sofrimento e morte. Uma
miniatura do mesmo padrão se vê na primeira estrofe.
Primeira estrofe: O Servo exaltado
A expectativa da exaltação (53:13)
O vale da humilhação (52:14)
O pico da glória (52:15)
O Senhor inicia o cântico do Servo reivindicando-o como sua
propriedade ("meu servo"), cuja obra deveria ser completada
com máximo sucesso e, assim, ele seria exaltado. Três expres-
sões são usadas para exprimir isto, no versículo 13 ("será engran-
decido", "elevado" e "muito sublime"), cada qual sobrepujando
a anterior.
Tais expressões podem ser ligadas à ressurreição, ascensão e
entronização do Servo ao término de sua obra. "Deus o exaltou
soberanamente" (Filipenses 2:9) "acima de todo principado, e
autoridade, e poder, e domínio, e de todo nome que se nomeia,
não só neste século, mas também no vindouro" (Efésios 1:21).
O versículo seguinte fala de sua humilhação e do espanto total
das pessoas, ao contemplarem a intensidade de seu sofrimento.
A face se lhe desfigurou, ficando irreconhecível. O seu corpo se
minguou de forma que não mais parecia ser humano.

A morte e a maldição estavam naquele cálice.


Ó Cristo, o cálice estava cheio, para ti.
Mas, tu sorveste tudo, até a última gota amarga.
Ei-lo vazio, por mim.
Teu corpo foi esmagado, tua face moída.
A taça está cheia de bênçãos para mim.
O versículo 15 leva-nos de volta às alturas da glória do Servo.
Assim como os judeus ficaram atônitos diante da humilhação do
Calvário, os gentios ficarão atônitos diante da exaltação gloriosa
da segunda vinda do Servo.
As duas expressões finais deste mesmo versículo 15 foram
usadas por Paulo à guisa de justificativa para evangelizar os
gentios (Romanos 15:21). Paulo possuía o coração de um servo,
a fim de atender às pessoas que teriam menores oportunidades
para ouvir o evangelho. Que nós não façamos menos do que
isso, visto que o dia da volta do Messias, quando todas as nações
ficarão atônitas, aproxima-se muito depressa.
Segunda estrofe: O Servo rejeitado
A rejeição das boas-novas (53:1)
A dor da rejeição (53:2)
A razão da rejeição (53:3)
Quando o cântico do Servo sofredor entra na segunda estrofe,
quem fala é o remanescente judeu do futuro, que nele crê. Ao
explicar como os judeus incrédulos trataram o Servo Messias em
sua primeira vinda, contemplam-no, sim, Aquele a quem tres-
passaram, e lamentam-se (Zacarias 12:10).
Rejeição das boas-novas
Esses judeus crentes começam fazendo uma pergunta: "Quem
deu crédito à nossa pregação? (literalmente: "àquilo que ouvi-
mos?")
Haviam ouvido a respeito do Servo glorioso e sua humilhação.
Mas, fica implícito aqui que ninguém creu. Haviam visto a
evidência do "braço do Senhor" em seus sinais e milagres, e o
haviam rejeitado. Comeram os pães e os peixes e, apesar disso,
recusaram-se a crer naquele que os alimentou. O próprio Senhor
lhes disse que a profecia de Isaías se referia à incredulidade deles:

"Apesar de ter realizado todos esses sinais miraculosos


na presença deles, ainda não criam nele. Para que se
cumprisse a palavra do profeta Isaías: Senhor, quem creu
na nossa pregação? E a quem foi revelado o braço do
Senhor? "
(João 12:37-38).
O "braço do Senhor" refere-se ao seu poder salvífico, a invasão
de Deus nos assuntos humanos, a fim de realizar a redenção de
seu povo. Essa frase é usada para especificar o livramento de
Israel do cativeiro egípcio pelo menos dez vezes. Por exemplo:
"Vos resgatarei com braço estendido" (Êxodo 6:6).
"Lembra-te de que. . . o Senhor teu Deus te tirou dali com
mão forte e braço estendido" (Deuteronômio 5:15).
Esse "braço" foi estendido pelo Servo Messias, mas foi recu-
sado. Tal recusa está melhor explicada no versículo 2.
Jesus foi rejeitado quando veio da maneira que os judeus não
esperavam. Estes aguardavam o aparecimento súbito de um
cedro majestoso, mas o Messias veio à semelhança de um broto
de árvore delicado, tenro. Isaías (11:1) profetizou que o Messias
haveria de vir como um "rebento" do "tronco" de Jessé (pai de
Davi), mas ninguém estava à espera de um renovo tenro. Não
acharam que o bebê nascido em Belém poderia vir a ser o
Messias, e conseqüentemente ficaram privados de seu amor e
de sua perfeição moral. O Senhor viu a beleza do Messias, mas
seu próprio povo não conseguiu vê-la.
O Servo era visto, não apenas como rebento, mas "como raiz
de uma terra seca" (v. 2). Essa é uma figura de linguagem que
toma a imagem de uma videira no inverno, quando ramos
retorcidos e feios não parecem que irão florescer. Israel não
conseguiu perceber que ali estava a verdadeira Vinha (João
15:1).
Ele não era "formoso de porte e de semblante" como achavam
que o Messias deveria ser, como era José e Davi (Gênesis 39:6,
1 Samuel 16:12), o Servo não se enquadrava nos ideais humanís-
ticos do primeiro século: A verdadeira beleza estava nele, mas o
povo não a percebeu.
A tristeza e a dor da rejeição
"Era desprezado" (de forma literal, "tratado com desprezo"
[v.3]). Era tratado pelo seu próprio povo como não tendo valor
algum. "Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam"
(João 1:11).
Quando muitos o deixaram, Cristo perguntou a seus discípu-
los: "Não quereis vós também retirar-vos?" (João 6:67), e até
mesmo esses o abandonaram no Getsêmani (Mateus 25:26).
Cântico do servo sofredor 83
Também o abandonaram na cruz; na verdade, até o Pai o aban-
donou ali (Mateus 27:46).
O Servo é chamado de "homem de dores" (v. 3). Levou uma
vida cheia de sofrimentos. Também estava familiarizado com as
doenças. Dessa forma ele pode "compadecer-se das nossas fra-
quezas" (Hebreus 4:15). Ele sentiu os efeitos destrutivos do
pecado, embora ele próprio jamais tivesse sido maculado pelo
pecado. Era homem cheio de tristezas.
A reação das pessoas era negativa. Voltavam o rosto para outro
lado, como alguém que vê algo repugnante. Desprezavam-no (o
termo é repetido, para maior ênfase, no começo e fim do
versículo). As pessoas chegaram, pois, à conchisão de que o
Servo não exerceria importância alguma em suas vidas.

Não faziam dele "caso algum".


Homem de dores, que nome
Recebeu o Filho de Deus
Que veio salvar pecadores!
Aleluia! É Senhor e Salvador!
Terceira estrofe: O Servo ferido
A ocasião humana de seu sofrimento (53:4)
A iniciativa divina de seu sofrimento (53:5)
A necessidade humana de seu sofrimento (53:6)
Esta estrofe explica a anterior, visto que o Israel convertido,
no futuro, compreende sua rejeição do Messias, quando este
veio pela primeira vez. Havia um propósito inesperado naquilo
que pareceu ser o maior erro da história da humanidade. Essa é
a força da palavra "verdadeiramente" que inicia esta estrofe.
A ocasião humana de seu sofrimento
Foi algo inesperado: o "desprezado", de quem as pessoas se
escondiam, virando o rosto, foi quem levou a punição pelo
nosso pecado (v. 4). O termo "tomou" com freqüência é tradu-
zido por "perdoado", como no caso do "bem-aventurado" do
Salmo 32:1.
Além de tomar sobre si nossas "enfermidades", o Servo tomou
também nossas "dores", as dores do desespero e morte. O Servo,
"homem de dores, e experimentado no sofrimento" (v. 3), levou
sobre si mesmo nossas tristezas e carregou nossas aflições.
84 Ele Humilhou-se a Si mesmo
Sofreu sob nosso fardo de pecado.
A segunda metade do versículo 4 menciona a falta de com-
preensão da parte dos judeus, quanto ao seu sofrimento. Consi-
deravam-no "ferido de Deus, e oprimido" por causa de seus
próprios pecados. Julgavam-no um homem que quebrava o
sábado e blasfemo (João 5:18). Por isso, achavam que sua morte
foi castigo merecido da parte de Deus.
A iniciativa divina de seu sofrimento
O versículo 5 explica o que aconteceu, da perspectiva de
Deus. Longe de ser punição de seu próprio pecado, o Servo foi
ferido pelo nosso pecado. Deus havia predeterminado o Calvário
por causa de nossas transgressões, pelas quais o Servo foi tres-
passado e moído.
O contraste entre suas dores e nossas bênçãos em lugar algum
é mais vivido do que aqui. Ele assumiu a ira santa de Deus pela
soma total de todos os nossos pecados, isto é, de todas as pessoas
da história do mundo. Por causa de seu sacrifício, os crentes
estão libertos das conseqüências eternas de seus pecados, foram
curadas da culpa do pecado, e receberam perfeita paz com o
Deus santíssimo. Observe as quatro declarações no versículo 5,
que explicam o sofrimento do Servo:
A causa de suas feridas foram nossas transgressões.
A causa de ele ser moído foram nossas iniqüidades.
O resultado de sua punição (castigo) foi nossa paz (com Deus).
O resultado de suas pisaduras foi que ficamos sarados.
Estes quatro fatores, somados, apenas começam a descrever
a profundidade dos sofrimentos do Servo. Suas chagas eram mais
profundas que os cravos romanos. Foi moído com maior peso
do que o da cruz. Sua punição foi mais severa do que a morte
por crucificação. Os cortes de suas costas não foram tão marcan-
tes como os de sua alma. A verdadeira angústia de seu sofrimento
está expressa no versículo seguinte: "O Senhor fez cair sobre ele
a iniqüidade de nós todos".
Ó, concede-me a compreensão,
Ajuda-me a entender bem
O que significa, Senhor:
Levaste sobre ti meu pecado!
Cântico do servo sofredor 85
A necessidade humana de seu sofrimento
Um remanescente judeu que veio a crer, no futuro, olhando
para trás, para o Servo sofredor, faz aqui uma notável confissão
de seu estado pecaminoso. Admite que assim como uma ovelha
segue seu líder, todos seguiram o primeiro homem na direção
do pecado, a saber, o homem é pecador por natureza. Esse
remanescente também admite que "cada um se desviava pelo
seu caminho", isto é, o homem é pecador por escolha pessoal.
Ambos esses aspectos da culpa humana foram colocados sobre
Cristo, o Bom Pastor que leva os pecados das "ovelhas" transvia-
das.
O comentário de Pedro sobre esta passagem enfatiza o exem-
plo do Servo sofredor (1 Pedro 2:21-25). Assim como ele sofreu
pelos destituídos de merecimentos, nós também devemos sofrer
pacientemente quando injustiçados. Quando tentados a recla-
mar contra nossas provações na obra, devemos pensar no Cal-
vário: "também Cristo padeceu por vós, deixando-vos o
exemplo, para que sigais as suas pisadas".
Quarta estrofe: O Servo na morte
Sua submissão como cordeiro sacrificial (53:7)
Sua sentença como veredicto injusto (53:8)
Sua sepultura como testemunho honroso (53:9)
O Servo sofredor é visto aqui fazendo o sacrifício último. Ele
foi "obediente até à morte, e morte de cruz" (Filipenses 2:8).
Recebeu tratamento violento (v.7). Empurraram-no de um julga-
mento de arremedo para outro, socaram-no, chicotearam-no.
Entretanto, em toda essa opressão e aflição ele não abriu sua
boca para defender-se, não pronunciou uma palavra sequer.
Ainda que pressionado por Caifás, Pilatos e Herodes, o Servo
nada lhes respondeu (Marcos 14:60-61; 15:3-5; Lucas 23:9)- Não
exigiu respeito a seus direitos, não exigiu um advogado. Seu
silêncio foi a medida de sua submissão ao serviço, ainda que isso
o levasse à morte.
O versículo 8 mostra que a sentença de morte que recaiu
sobre ele foi um veredicto injusto: "Pela opressão e pelo juízo
foi tirado". Sem processo legal, justo, foi empurrado desde o
Getsêmani, passando por três "julgamentos" — e executado.
Talvez nem dez horas se passaram durante todo o curso dessa
"opressão e julgamento" (de maneira literal "detenção e proces-
so judicial").
"Quem pode falar de sua linhagem. . . " poderia ser traduzido
de forma mais apropriada por: "Quem dentre seus contemporâ-
neos levou em consideração os fatos?" Ninguém entendeu real-
mente o que estava acontecendo. Nem perceberam o propósito
de sua morte: ele estava sendo "condenado" pelo julgamento
divino sobre o pecado. A obra do Servo foi mal-interpretada,
como freqüentemente acontece aos servos de Deus. Podemos
receber conforto mediante a amarga experiência que o Servo
sofreu por nós.
O versículo nono menciona a sepultura do Servo. Os homens
determinaram que seu túmulo fosse entre criminosos e prosti-
tutas. Esteve "com o rico na sua morte" (v. 9). Deus transformou
os planos dos homens, de modo que José sepultou o corpo de
Cristo em sua própria sepultura. Deus fez isso pelo seu Servo
porque nunca havia "cometido injustiça". Sua vida sem pecado
fez com que fosse adequado ser sepultado com todas as honras,
como recompensa pela sua humilde submissão à vontade de
Deus. Este versículo testifica a ausência total de pecado em
Cristo, sete séculos antes de sua vinda.
Quinta estrofe: O Servo satisfeito
Satisfação pela obra terminada (53:10b)
Satisfação pelo crente justificado (53:11)
Satisfação pela herança merecida (53:12a)
Os versículos 10a e 12b são duas visões finais do Servo
sofredor que constituem a base da satisfação do Servo.
Esta última estrofe é um clímax muito apropriado para o
"Cântico do Servo sofredor", falando da satisfação que ele usu-
frui como resultado de seu sofrimento obediente. Trata-se de
uma visão da cruz da perspectiva do trono de Deus.
O tema se inicia com a declaração do prazer do Senhor em
ferir (ou moer) o Servo. Não é que o Senhor Deus auferisse
satisfação da agonia do Servo, mas seu prazer estava no resultado
que seu sofrimento traria: a expiação do pecado.
A oferta pelo pecado, um dos cinco principais sacrifícios da
lei levítica (Levítico 5:14-19), referia-se às exigências da justiça
de Deus e à restituição exigida, por causa do mal praticado. Jesus
Cântico do servo sofredor 87
foi nossa oferta pelo pecado, pois, ele pagou todos os nossos
débitos, todas as nossas dívidas para com um Deus santíssimo.
Não há dúvida de que os sofrimentos experimentados pela sua
alma excederam seus sofrimentos físicos feitos pelas mãos de
homens iníquos.
Foi a alma do Servo transformada em oferta pelo pecado que
lhe trouxe satisfação. Salientamos aqui três aspectos dessa satis-
fação:
(a) Primeiramente, a satisfação pela obra terminada: ele vê "a
sua posteridade" ou seus filhos. A maior bênção para um hebreu
era ver seus filhos e netos. O Servo vê seus filhos espirituais
trazidos à família do Senhor.
(b) Em segundo lugar, ele "prolongará seus dias" além de seu
sofrimento e morte. Isto se cumpriu em sua ressurreição — ele
vive para sempre (Apocalipse 1:18). A seguir, acrescenta-se a
seus dias prolongados o cumprimento com máximo sucesso de
seus planos: "o bom prazer do Senhor prosperará na sua mão".
O plano de salvação do Senhor se iniciara na eternidade, antes
da criação do mundo, e agora, mediante a atuação do Servo,
estava consumado.
(c) Em terceiro lugar, a satisfação do Servo veio do prazer que
sentia em dar à luz muitos filhos (v. 11). A imagem aqui é a do
trabalho de parto, é o nascimento de uma criança. Assim como
a mãe sente alegria em contemplar seu filho recém-nascido, o
Servo, "com o seu conhecimento, o justo, justificará a muitos",
pois viu que muitos filhos chegariam à glória, e isso o enchia de
satisfação.
Sendo o Servo justo, deu sua justiça a muitos. Sendo o Salvador
ressuscitado, declarou-os justos (justificados) porque levou so-
bre si suas iniqüidades. Contemplar esses antigos pecadores que
agora permanecem perfeitos à vista de Deus Santíssimo é coisa
que traz ao Servo perfeita satisfação.
Eis aqui uma herança bem merecida. A "porção" que ele
recebe do Senhor é fruto de sua vitória na cruz. Visto que o
Servo justificou a muitos (v. 11), o Senhor agora lhe dá uma
recompensa: os justos são sua herança. (A palavra "muitos"
do versículo 11 é a mesma palavra traduzida por "poderosos"
no versículo 12). O Senhor lhe dá também as "nações" como
herança (Salmo 2:8). O Servo divide o despojo com os fortes (os
redimidos). Em outras palavras, recebendo os crentes como sua
herança, o Servo faz deles seus sócios, em seu reino. São "co-
herdeiros" com ele (Romanos 8:16-17).
8
"Em resgate por muitos"

ada um dos redatores dos evangelhos enfatizou uma das

C quatro características do Messias encontradas em todo o


Antigo Testamento. Mateus focalizou o Reinado de Cristo;
Lucas, sua Humanidade, e João, sua Divindade. Entretanto,
Marcos enfatizou o caráter de servo que Cristo possuía.
A biografia que Marcos traçou de Cristo é um registro singular
do servo mais perfeito que já viveu nesta terra. E o espírito de
serviço de Cristo é padrão para todos nós.
"De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve
em Cristo Jesus, que. . . a si mesmo se esvaziou tomando a forma
de servo"
(Filipenses 2:5,6).
Marcos, o Servo escritor
Marcos foi singularmente qualificado para escrever a respeito
do Servo perfeito. A primeira vez em que aparece na Bíblia é
numa reunião de oração, em uma casa, quando Pedro foi liberto
da prisão, por milagre. A mãe dele, que era viúva, por certo
cedera a casa espaçosa da família como ponto de encontro dos
primitivos crentes de Jerusalém (Atos 12:12-17). Depois Barnabé
e Saulo visitaram Jerusalém, por ocasião da "grande fome" e, em
seguida, regressaram à Antioquia da Síria, com Marcos em sua
companhia. Parece que Marcos era aprendiz, sendo treinado na
tarefa de evangelizar (Atos 12:25). Um ano depois Marcos foi
levado por eles, em sua primeira viagem missionária, na qualida-
de de auxiliar (Atos 13:5). Marcos estava aprendendo a ser um
bom servo. Depois, abandonou Paulo e Barnabé, por razões não
90 Ele Humilhou-se a Si mesmo
registradas, e regressou à Antioquia.
Quando Paulo e Barnabé tiveram um desacordo entre si, a
respeito de levar Marcos pela segunda vez, e se separaram,
Marcos viajou com Barnabé, e mais nada é dito a seu respeito,
durante muitos anos, até que Paulo lhe envia lembranças de
Roma (Colossenses 4:10, Filemon 24). Por essa ocasião já
ocorrera a reconciliação, visto que agora Marcos é menciona-
do como sendo "cooperador" de Paulo. Por fim, Paulo apela a
Timóteo, um pouco antes de morrer, para que trouxesse Mar-
cos, "porque me é muito útil para o ministério" (2 Timóteo
4:11). Marcos aprendera a servir com o grande apóstolo, e Deus
o usou mais tarde para redigir o Evangelho do Servo.
O tema do Servo
É bem provável que Marcos, filho espiritual de Pedro (1 Pedro
5:13), dirigiu seu evangelho ao povo romano, estando ele próprio
morando em Roma, logo após a morte do apóstolo. Usa com
freqüência termos latinos, como "centurião", "legião", e apela para
a mentalidade latina ao registrar as atividades e trabalhos de Cristo.
(Os gregos estavam mais interessados nas idéias de Cristo, enquan-
to os judeus se voltavam para as profecias messiânicas.) Marcos
apresenta Cristo aos gentios romanos como o servo ativo que
cumpre as missões a ele atribuídas; servo disciplinado que não quer
ser descartado; servo obediente que sempre faz a vontade de seu
Pai.
O tema do evangelho de Marcos apóia o propósito de Marcos:
convencer os romanos de que Jesus Cristo é Deus, e Filho de
Deus (1:1). A declaração central do evangelho fornece-nos um
esboço simples:
"O Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir
e dar a sua vida em resgate por muitos"
(Marcos 10:45).

Um estudo comparativo de Marcos com os outros evangelhos


demonstra que a ênfase de Marcos está no espírito de serviço de
Cristo — e de muitas maneiras. A palavra "ministrar" ou "minis-
trou" (ou "servir" e "serviu") é usada mais vezes por Marcos do
que por Mateus ou Lucas. Por outro lado, a palavra "senhor" é
usada apenas dezesseis vezes em Marcos, em comparação com
"Em resgate por muitos" 91
setenta e noventa vezes, respectivamente, em Mateus e Lucas.
Marcos não chama Jesus de "senhor" senão nos dois últimos
versículos. Marcos omite fatos não coerentes com o tema do
serviço. Não há a visita de magos em sua busca do rei, não se
apresenta o "pedigree" do servo — não interessa sua ascendên-
cia, mas o seu trabalho. Não se revela a confusão entre os
doutores em religião, pelo menino de doze anos.
Doze dos dezesseis capítulos iniciam com a palavra "e", que
demonstra ação contínua. A palavra "imediatamente" é usada
dez vezes no primeiro capítulo e mais trinta vezes, nos capí-
tulos seguintes. Marcos retrata sempre um servo ativo que
sempre tem serviço a fazer. Quando estudamos nosso mara-
vilhoso Servo, visto pelos olhos de Marcos, nós o admiramos
de todo coração e assim o adoramos. Operando maravilhas,
ele era o poderoso Servo do Senhor, e Filho de Deus.
Por ocasião do batismo de Cristo, o Pai declarou esse fato:
"Tu és o meu Filho amado em quem me comprazo" (1:11).
O próprio Cristo declarou que, sendo Filho, tinha autorida-
de para perdoar pecados (2:10). Até os demônios reconhe-
ciam-lhe a autoridade (3:11). Ao pé da cruz, o centurião
exclamou:
"Verdadeiramente este homem era o Filho de Deus"
(15:39).
Lembre-se de que o centurião era romano, e o propósito de
Marcos era que os romanos (gentios) viessem a conhecer
quem Cristo era na realidade.
Que contraste espantoso — a majestade de Cristo, o Filho
do Deus vivo, colocada ao lado da humildade do Servo do
Senhor! Como essa comparação intensifica as maravilhas
do caráter do Salvador! Entretanto, há uma faceta prática
nesta verdade, para todos nós que desejamos ser servos,
como Cristo. Nós também somos chamados de "filhos de
Deus" (Romanos 8:14) e temos uma dignidade que excede
qualquer outra deste mundo. Assim se maravilha o apóstolo
João: "Vede quão grande amor nos concedeu o Pai, que
fôssemos chamados de filhos de Deus. E somos mesmo seus
filhos!" (1 João 3:1). Paulo acrescenta: "Se nós somos fi-
lhos, logo somos também herdeiros, herdeiros de Deus e
92 Ele Humilhou-se a Si mesmo
co-herdeiros de Cristo" (Romanos 8:17).
Entretanto, tendo toda esta dignidade, também somos ser-
vos, e precisamos assumir nosso lugar com humildade, à seme-
lhança do grande Servo.
O Servo que trabalha
A ênfase de Marcos sobre Jesus como Servo também é percebida
em seu retrato do Senhor como obreiro. Só Marcos se refere a Jesus
como "o carpinteiro" (Marcos 6:3), e foi nessa função que Jesus
gastou a maior parte de sua vida terrena. Durante talvez uns quinze
anos a serra, a plaina e o martelo foram suas ferramentas. O exemplo
dele sempre protegerá a dignidade do trabalho honesto; o exemplo
do Servo perfeito diante da banca de carpinteiro produzindo com
destreza jugos, para os fazendeiros, e mesas, para os lares.
Todos os artesãos são servos; na maioria dos casos trabalham para
outrem ou, em última instância, trabalham para o consumidor final.
O bom obreiro, então, mantém uma atitude de interesse pelos
outros, considerando suas necessidades. Mesmo trabalhando sob a
liderança de alguém, procurará fazer tudo que dele se espera, ainda
que os demais operários não ajam assim. Ele sente prazer em fazer
os consumidores felizes, apresentando-lhes um produto bem feito.
Muitos gregos e romanos pensavam que o trabalho braçal era
adequado apenas para os escravos. Jesus desmentiu essa falsa noção.
Assim disse James Stalker: "A virtude do trabalho está em que ele
carimba a terra bruta com a assinatura da mente, que é a imagem
daquele que constitui a Razão Suprema". Em seu livro, esse autor
prossegue, usando o exemplo de Antônio Stradivari, o famoso
fabricante de violinos. Stradivari sentiu-se chamado por Deus para
produzir os melhores violinos, enquanto outros o criticavam por não
"atender às massas". Stalker faz citação de um poema de T. S. Eliot:
Quem traça uma linha e satisfaz sua alma
Fazendo-a torta, quando deveria ser reta?
Entretanto, louvado seja Deus,
Antônio Stradivari tem um olho
Que se constrange diante do trabalho falso,
Mas ama o verdadeiro trabalho.
Bendita mão, e braço que agarra a ferramenta
Com a disposição de uma ave canora
Que de madrugada começa seu mavioso canto,
"Em resgate por muitos" 93
Pois ama a tarefa de cantar, e ama sua melodia.
Diz Naldo:
É insignificante a fama,
Se há alguma, para quem faz violinos,
Tarefa que tampouco atende às massas.
De todo o jeito irás para o purgatório.
Stradivari replica:
Purgatório é fazer violinos ruins.
Quanto à minha fama — quando um mestre
Segurar um dos meus violinos entre
A mão e o queixo, para fazê-lo vibrar,
Alegrar-se-á de que Stradivari viveu,
E fez violinos, e dos melhores.
Só os mestres sabem de quem é o bom trabalho;
Escolherão o meu. Deus lhes dá o gênio,
Eu lhes dou instrumentos para tocar.
Deus me escolheu para ajudá-los.
Ao deixar a bancada de carpinteiro para tornar-se profeta e
mestre, Jesus imprimiu a mesma dignidade a estas novas esferas
profissionais, que antes havia imprimido à oficina de artesão.
Para Cristo, a diferença entre colarinho azul e colarinho branco,
entre o burocrata e o operário, está na vocação, não na qualida-
de. Trabalhando com as mãos, ou com o espírito, seu trabalho
era marcado pela excelência; em ambas as esferas ele é exemplo
para nós. Praticou, ao servir, tudo quanto pregou aos discípulos.
O Servo-modelo
"O Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir
e dar a sua vida em resgate por muitos" (10:45).
É bastante proveitoso observar o contexto desta declaração.
Jesus estava a caminho de Jerusalém. Ele havia dito aos discípu-
los, já pela terceira vez, que seria condenado à morte pelos
judeus, entregue aos gentios, escarnecido, cuspido, açoitado e
morto, três dias depois ele ressurgiria de entre os mortos (10:33-
34). É óbvio que Tiago e João não estavam ouvindo — pediram
as duas posições mais importantes no Reino, pois julgavam que
seria estabelecido imediatamente. Jesus os repreendeu com
suavidade, dizendo-lhes que estavam pedindo muito mais do
que podiam suportar.
Os demais dez discípulos, é bem provável que partilhassem
da mesma mentalidade de Tiago e João, mas indignaram-se
contra os dois irmãos. Imaginavam a audácia deles, em pedir uma
coisa dessas. Jesus os chamou a todos, para perto de si mesmo,
conhecendo suas mentes, como conhecia, a fim de explicar-lhes
um dos princípios mais importantes do discipulado cristão (10:42-
45). Jesus os fez lembrar-se de que entre os gentios, as pessoas mais
importantes eram as que exerciam maior autoridade sobre o povo,
todavia, entre os discípulos o assunto seria bem diferente: o maior
dentre eles seria o servo deles!
Jesus mencionou sua própria vida como exemplo último do
verdadeiro discipulado. Seu grande propósito ao vir à terra, seu
objetivo global na vida não era ser servido pelos outros, mas servir
aos outros. Livre de qualquer interesse egoístico. Essa não era uma
idéia típica do ano 30 a.C., e tampouco é hoje.
Dale Carnegie não inclui este conceito em seu livro Como Fazer
Amigos e Influenciar Pessoas no Mundo dos Negócios. Entretan-
to, o Senhor Jesus Cristo chamou-o de essência real do discipulado.
Servir aos outros é o alicerce da regra áurea: "Fazei aos outros o
que quereis que vos façam".
"Entre vós sou como aquele que serve" (Jesus).
Praticamente todo o serviço de Cristo relacionava-se com o
atendimento às pessoas. O caráter humilde e gentil de Jesus já
estava fora de "moda", até naquela época, em relação à arrogância
das sociedades construídas sobre o poder. Assim disse ele a seus
seguidores:
"Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, porque sou
manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as
vossas almas"
(Mateus 11:29).

O difícil é encontrar pessoas que queiram aprender. Estamos


ocupados demais, empurrando a nós mesmos para cima, para
subirmos a escada dos valores mundanos. Não se trata também de
um jogo exclusivo entre pessoas ambiciosas. A busca dos próprios
interesses é verificada entre bebês do curso maternal, que brigam
por causa de um brinquedo. Crianças costumam brigar até na
decisão de quem vai ser o capitão do time. Meninotas do ginásio
"Em resgate por muitos" 95
brigam, e tentam exercer domínio exclusivo sobre um garotão
simpático. Estudantes universitários colam nos exames, a fim de
parecerem mais inteligentes do que seus colegas. As nações que
se sentem iradas, se seu orgulho nacional foi ferido, partem para
a guerra. Serviço humilde? Quem está pensando nisso?
Seria bem difícil avaliar todo o fracasso, ou a infelicidade,
tristeza e depressão que advêm quando as pessoas não são
servidas, e tampouco estão dispostas a servir. Em nossa cultura,
somos educados esperando ser servidos, que os outros nos
sirvam. Nossos pais devem mimar-nos, nossos professores apro-
var-nos e nossos companheiros dar-nos reconhecimento. Bem
erroneamente, enxergamos estas coisas como algo que é nosso
direito. Assim é que professores de escola dominical abandonam
o cargo se não forem elogiados com muitos agradecimentos,
missionários voltam para casa se lhes parece que nada está
acontecendo, e pessoas mudam de igreja quando não recebem
o reconhecimento que julgam merecer.
Ala! se tomássemos as palavras de Jesus com seriedade e
vivêssemos à altura delas! Meu avô, um homem santo, um
gigante espiritual, costumava cantar com sua voz áspera: "Ali!
Nada sou!"
Quando menino, achava isso muito estranho. Hoje entendo
que meu avô queria ser cada vez mais parecido com o Salvador
a quem amava. Ele procurava reagir de maneira positiva às
palavras de Jesus:
"Qualquer que entre vós quiser ser grande, será o que vos
sirva"
(Marcos 10:43).

Jim Elliot, missionário nas selvas do leste do Equador, tornou-


se mártir, ao tentar levar o evangelho aos aucas. Tinha uma
definição espantosa de missionário: "Missionários são um bando
de joões-ninguém tentando exaltar alguém". Ele havia com-
preendido a essência do espírito de serviço bíblico.
O retrato do Servo em Marcos
O evangelho de Marcos pode ser visto como o retrato pintado
de Jesus, o Servo perfeito. Como acontece a qualquer pintura
de boa qualidade, quanto mais cuidadosamente estudamos o
retrato, mais detalhes e estrutura ficam evidentes.
Em meu escritório, em casa, há uma cópia enorme de "Jere-
mias", de Rembrandt. De vez em quando descubro outro detalhe
planejado pelo artista, e que só agora consigo enxergar. É
provável que prosseguirei descobrindo outros detalhes à me-
dida que o tempo passe. O retrato feito com palavras, elabo-
rado por Marcos, tem essa qualidade. Vamos dar uma olhada
em alguns dos lindos detalhes lançados pelo autor sagrado.
Cristo, como servo, tinha uma missão. Possuía compreen-
são clara do que fazia, e dedicou-se eficientemente no cumpri-
mento de seus propósitos. Ao povo ele pregava o evangelho
(1:4). Convocou discípulos em potencial para que se entregas-
sem ao serviço (1:17-18). Aos judeus na sinagoga ele ensinava
com autoridade (1:22). Aos possuídos pelo demônio trazia
libertação imediata (1:25). Aos doentes trazia a cura (1:31-34).
Todos esses atos se encaixavam, formando parte da obra do
Servo, no cumprimento de sua missão.
Foi Servo diligente:
"Levantando-se de manhã muito cedo, ainda escuro, saiu, e
foi para um lugar deserto, e ali orava" (1:35).
Achava que valia a pena dormir menos a fim de completar
sua tarefa. Isso poderá desafiar aqueles dentre nós que amam
demais o sono.
Entretanto, a diligência do Servo era equilibrada pela sua
percepção de que há necessidade de descanso. Quando ele e
seus discípulos trabalhavam arduamente durante longo tempo,
no momento apropriado lhes recomendava que se retirassem
por um período, a fim de recarregar suas baterias físicas,
mentais e espirituais:
"Vinde vós, aqui à parte. . . e repousai um pouco" (6:31).
O espírito de serviço do Senhor também foi marcado pela
compaixão. Olhando um leproso, sentiu "grande compaixão"
(1:41). Vendo a multidão como ovelhas sem pastor, "teve
compaixão deles" (6:34). O amor tem sido sempre um dos
maiores motivadores do trabalho, e o Servo amou como jamais
alguém amou. Quando a multidão estivera com ele durante
três dias sem alimento, ele mais uma vez demonstrou sua
compaixão, alimentando a todos (8:1-9).
Tal amor, todavia, jamais deixou de notar o pecado na vida
de seus ouvintes. Chamava os fariseus e escribas de "hipócri-
tas". Fazendo brilhar a luz das Escrituras, mostrou-lhes que
seus corações estavam longe de Deus, e que o culto deles
era vão (7:6 -7).
Marcos toma o cuidado de apontar a excelência de tudo
quanto o Senhor fazia. Após ter curado o surdo-mudo, as pessoas
ficaram espantadas e felizes reconheceram que ele "tudo faz
bem" (7:37). Muitos de nós que desejamos ser verdadeiros
servos de Cristo e servir aos outros, temos agido meio "serve de
qualquer modo" em algum setor de nossa vida. Reconhecemos
nossas fraquezas e até fazemos compensações. Deveríamos,
entretanto, estar também continuamente lutando, à busca da
excelência que se vê no Senhor Jesus.
Fé é outra característica do Salvador. Um exemplo será suficien-
te. Durante uma tempestade, em que os discípulos ficaram toma-
dos de terror, julgando que fossem todos afogar-se, "Jesus estava
na popa, dormindo sobre uma almofada" (4:38). O grande Servo
descansava na fé: um Deus todo-poderoso estava no controle.
Quando a tempestade cessou, mediante uma palavra de Cristo,
este voltou-se para os discípulos aliviados e perguntou-lhes:
"Por que sois tão tímidos? Ainda não tendes fé?" (4:40).
Os discípulos tinham acabado de ver um exemplo inesquecí-
vel de confiança no Pai. Deveríamos orar como os discípulos
oraram em certa ocasião: "Aumenta-nos a fé" (17:5).
Outro detalhe do retrato de Cristo é sua prontidão para servir
a todas as pessoas. Até mesmo uma mulher siro-fenícia suplicou
e recebeu a cura para sua filha possuída do demônio (7:26).
Diferentemente dos fariseus, ele amava e servia a todos com
quem entrava em contato, e seus verdadeiros servos o imitam.
Ele ordenou a seus discípulos que fossem por todo o mundo e
pregassem o evangelho a toda criatura (16:15).
O Servo sofredor
Marcos, mais do que os demais evangelistas, descreve os
eventos da redenção. A razão disso é que a redenção no evan-
gelho de Marcos é a obra do Servo.
"O Filho do homem (veio). . . para dar a sua vida em resgate
por muitos" (10:45).
A principal tarefa do maior dos servos foi redimir o homem
da escravidão do pecado.
O evangelho de Marcos relaciona de modo direto o sofrimen-
to de Cristo na cruz com Isaías 53, que é a profecia sobre o Servo
sofredor.
"Crucificaram com ele dois ladrões, um à sua direita, e outro
à sua esquerda. E cumpriu-se a escritura que diz: 'Com malfeito-
res foi contado'" (15:27-28, Isaías 53:12).
Só Marcos estabelece este relacionamento. Em seguida, o
forte brado do Messias, por cavisa de seu abandono,"Deus meu,
Deus meu, por que me desamparaste?" (15:34), relaciona seu
sofrimento ao Salmo 22:1. Esta é outra passagem central do
Antigo Testamento, a respeito do sofrimento de Cristo. A trilha
do Servo foi uma trilha de sofrimento. Foi assim que sua obra se
completou e nossa redenção se assegurou.
De maneira alguma poderemos participar da obra redentora de
Cristo, se nos importarmos com o quanto vamos sofrer. Entretanto,
podemos sentir-nos encorajados pela atitude e comportamento do
Senhor, em seus sofrimentos. Pedro desenvolve este tema tanto
para escravos literais quanto para servos de Cristo:

"Vós, servos, sujeitai-vos com todo o temor aos vossos


senhores, não somente aos bons e moderados, mas tam-
bém aos maus. Pois isto é agradável, que alguém. . .
suporte tristezas, padecendo injustamente. . . Para isto
fostes chamados, porque também Cristo padeceu por
vós, deixando-vos o exemplo, para que sigais as suas
pisadas. Ele não cometeu pecado, nem na sua boca se
achou engano. Quando foi injuriado, não injuriava, e
quando padecia não ameaçava. Antes, entregava-se
àquele que julga justamente"
(1 Pedro 2:18-23).

Durante séculos os maltratados servos de Deus têm encontra-


do coragem no exemplo do Servo sofredor, e audácia para a
batalha, em meio às situações impossíveis, quando sob persegui-
ção por amor de Cristo. Afinal, que são nossos sofrimentos deste
momento, quando comparados com o Calvário? Pedro prosse-
gue, desafiando-nos:
"Em resgate por muitos" 99
"Visto que Cristo padeceu por nós na carne, armai-vos tam-
bém vós deste mesmo pensamento. . . (para que) vivais. . .
segundo a vontade de Deus" (1 Pedro 4:1-2).
Vemos, portanto, que Marcos nos forneceu o melhor modelo
de servo. Só podemos enriquecer-nos, quando examinamos a
vida daquele que veio não para ser servido, mas para servir e dar
sua vida em resgate por muitos.
"Eu. . . entre vós sou como aquele que serve"
(Lucas 22:27).
9
Nosso humilde Salvador

esus demonstrou seu caráter de servo mediante um ato de

J extrema humildade que chocou os discípulos, e que serviu


de exemplo para o relacionamento entre eles.
'Eu vos dei o exemplo, para que façais o que eu fiz"
(João 13:15).
A cena de João 13 passa-se no cenáculo, onde a páscoa (a
última ceia do Senhor) havia sido preparada, na mesma noite
em que Cristo foi traído. Foi a última vez em que os doze
discípulos estiveram reunidos com o Senhor Jesus. Durante três
anos e meio haviam aprendido o caminho de Cristo e seguido
seus passos. Pelo menos em três ocasiões ele lhes havia dito
com toda clareza que daria a vida em resgate de muitos, que
sofreria e seria morto, tirado deste mundo. Os discípulos o
amavam, mas estavam obcecados pelas posições de liderança
que esperavam exercer em um reino literal prestes a ser esta-
belecido.
Quem é o maior?
Os discípulos estavam tão confusos a respeito da ocasião
em que o reino messiânico haveria de estabelecer-se, e do
papel que nele desempenhariam que, no instante exato em
que adentravam o cenáculo, discutiam quem dentre eles era
o maior (Lucas 22:24). À semelhança de galinhas numa gran-
ja, bicavam-se entre si a fim de obter o melhor pedaço de ração.
Não é assim que somos também? Nossa perspectiva é tão
orientada para o ego que estamos constantemente procurando
o primeiro lugar. Essa atitude não conduz com a mentalidade do
servo, cujo espírito de serviço orienta-se para o próximo.
Por causa dessa disputa acerca de quem seria o maior dentre
eles, o Senhor os repreendeu:
"Os reis dos gentios dominam sobre eles, e os que
exercem autoridade sobre eles são chamados benfei-
tores. Mas vós não sereis assim. Pelo contrário, o maior
entre vós seja como o menor, e quem governa seja como
quem serve. . . Eu, porém, entre vós sou como aquele
que serve"
(Lucas 22:25-27).
Um por um, tomaram seus lugares à mesa, sentando-se nas
almofadas. É evidente que não havia nenhum servo doméstico
em disponibilidade que fizesse a costumeira lavagem dos pés.
Ali por perto deveria haver um vaso de água, uma bacia e toalha,
mas nenhum dos discípulos fez um movimento sequer no sen-
tido de servir a alguém fazendo aquela tarefa. Estavam todos
muito acima desta função destinada aos escravos mais servis.
Jesus, todavia, não se achava superior aos servos.
Um Salvador que serve
O apóstolo João nos diz que quando Jesus lavou os pés aos
discípulos, sabia quatro coisas que tornariam esse ato muito
memorável.
Primeiramente, somos informados de que ele sabia que "sua
hora de passar deste mundo para o Pai já tinha chegado" (v. 1),
sua hora de partida e sofrimento. Essa "hora" era um momento
determinado no tempo, desde antes da fundação do mundo. Este
o rejeitara e logo haveria de crucificá-lo. Quando isto aconteces-
se, partiria para estar com o Pai. Várias vezes João registra que
"ainda não chegou a minha hora" (João 2:4; 7:30; 8:20). Mas,
agora, às vésperas da crucificação, a hora chegara, hora em que
ele partiria "deste mundo".
Observe que ele não estava deixando "o mundo", mas "este
mundo".
É evidente que o mundo para ele era um lugar terrível, cheio
dos efeitos do pecado. Agora, pois, à luz de sua próxima partida
deste mundo mediante a morte, ele se humilhou lavando os pés
aos discípulos. Nesse momento-chave, estando o fim bem pró-
ximo, o Senhor fez o que jamais faríamos: assumiu a condição
de servo humilde. Quanta graça demonstrou o Senhor pelos
seus!
Em segundo lugar, "como havia amado os seus, que estavam
no mundo, amou-os até o fim" (v. 1). Os discípulos eram chama-
dos de "os seus" porque o Senhor tinha prazer em reivindicá-los
para si. Ele os conhecia como homens que haviam falhado uma
porção de vezes, e continuariam a falhar. Sabia que Filipe não
entenderia bem, ali à mesa. Sabia que Pedro o negaria naquela
mesma noite. Sabia que Tomé duvidaria de sua ressurreição, que
todos o abandonariam e fugiriam antes da noite cair. Entretanto,
sabendo tudo isso, e apesar disso, ele os amou até o fim (literal-
mente: "ao máximo"). Conhecendo-lhes as falhas, ele se inclinou
e lavou-lhes os pés. O Senhor tomou a forma de servo.
Em terceiro lugar, "durante a ceia, tendo já o diabo posto no
coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, que o traísse. . ."
v. 2). Jesus estava bem ciente de que o traidor estava sentado à
mesa, ao seu lado (v. 21). Ele viu que nos recônditos escuros da
mente de Judas o esquema da traição estava sendo armado.
Ciente de tudo isso, o Servo-modelo inclinou-se a fim de tomar
os pés de Judas em suas mãos e lavá-los — um exemplo notável
de perfeito espírito de serviço.
Por fim, os versículos 3 e 4 declaram:
"Jesus, sabendo que o Pai depositara em suas mãos todas as
coisas, e que havia saído de Deus e ia para Deus, levantou-se da
ceia".
Jesus estava totalmente consciente de sua origem divina e da
glória vindoura. Sabia que o Pai lhe prometera autoridade sobre
todas as coisas do universo. Entretanto, o Herdeiro de todas as
coisas humilhou-se a fim de realizar a obra de um escravo.
"Haja em vós o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus"

(Filipenses 2:5).

A beleza da auto-humilhação de Cristo é descrita, a seguir, por


João, numa série de frases cheias de significado:

"Levantou-se da ceia, tirou a vestimenta de cima, e to-


Nosso humilde Salvador 103
mando uma toalha, cingiu-se com ela. Depois colocou
água numa bacia, e começou a lavar os pés dos discípu-
los, e a enxugá-los com a toalha com que estava cingido"
(w. 4-5).

Estes atos são uma "paráfrase" da obra do perfeito Servo, a da


redenção, conforme Filipenses 2:5-8. Ele se levantou de seu
lugar ao lado do Pai, nos céus. Deixou de lado o aspecto exterior
de sua glória. Assumiu a forma de servo. Derramou seu sangue
em oferta pelo pecado. Em seguida, ressuscitou e sentou-se à
direita do Pai (veja v. 12).
Os discípulos, no entanto, não reconheceram esta "paráfrase".
Cada um em seu coração sentiu, sem dúvida alguma, que o
Senhor deveria ser o último dentre eles a fazer o serviço de um
escravo doméstico. Entretanto, ninguém se apresentou a fim de
executar o trabalho no lugar de Cristo. É possível que cada um
pensasse que outro qualquer, dentre os doze, deveria fazer o
serviço.
É provável que Tiago pensasse por que seria que André não
aceitara o trabalho. Enquanto cada um pensava assim, em seu
coração, Jesus apenas continuou a lavar os pés deles, um a
um — até chegar a vez de Pedro.
Jesus aos pés de Pedro
Embaraçado diante daquela situação, espantado pelo que o
Senhor fazia, Pedro não compreendeu que o Senhor jamais agiria
em desacordo com a dignidade de sua posição. Em certa ocasião
quando foi repreendido por ter falado a respeito da cruz, o
Senhor fez Pedro lembrar-se de que estava tomando o partido
de Satanás, visto que não punha sua mente nas coisas de Deus,
mas nas dos homens (Marcos 8:33).
Pedro agora explode: "Senhor, tu vais lavar os meus pés?"
(v. 6).
Por que razão o Mestre haveria de servir ao servo? A resposta
do Senhor (v. 7) indica que havia muito mais neste ato do que
simples água e pés limpos:
"O que eu faço não o sabes agora mas o compreenderás
depois" (v. 7).
Pedro precisava observar e aprender, e não falar. Mais tarde,
Pedro aprenderia duas valiosas lições espirituais relacionadas
com este evento. A primeira foi a lição da purificação, ao ser
restaurado, depois da negação tríplice do Senhor. A outra foi
uma lição sobre humildade envolvida no serviço, sobre a qual
escreveu muitos anos mais tarde (1 Pedro 5:1-6).
A reação de Pedro às palavras de Jesus não foi a de colocar
seus pés nas mãos do Senhor, para serem lavados. Em vez disso,
ele os recolheu depressa e declarou: "Nunca me lavarás os pés"
(v. 8).
É evidente que Pedro tinha humildade suficiente para reco-
nhecer que Jesus não deveria lavar-lhe os pés, mas tinha orgulho
suficiente para instruir o Senhor sobre o que ele deveria fazer.
Com máxima ênfase Pedro afirmou que Jesus nunca lhe lavaria
os pés, mas sessenta segundos depois precisou mudar de opi-
nião.
A semelhança de Pedro, com freqüência apertamos o gatilho
com rapidez, pensando que temos razão. Todavia, logo precisa-
mos procurar a "bala" erroneamente disparada.
Com doçura o Senhor mostrou a Pedro uma das maiores lições
concernentes à lavagem de pés: os benefícios da limpeza espiri-
tual. "Se eu não te lavar, não tens parte comigo", disse Jesus a
Pedro (v. 8). O Senhor estava usando os pés sujos de Pedro como
ilustração de uma verdade espiritual de grande importância.
Assim como aqueles pés precisavam ser lavados pelo escravo
doméstico, porque estavam sujos, os crentes também, contami-
nados pelo mundo, necessitavam de ser lavados. Como foi
necessário a Pedro admitir que seus pés estavam sujos, e colo-
cá-los nas mãos do Senhor para que os lavasse, assim o crente
que pecou chega-se ao Senhor, confessa seu pecado e recebe
perdão e purificação.
Disse Jesus a Pedro que se ele não fosse lavado não teria
"parte" com o Senhor. "Parte" significa comunhão diária, com-
panheirismo diário com Cristo, não significa vida eterna. A
mesma palavra foi usada quando Jesus disse a Marta que Maria
havia escolhido "a boa parte" (Lucas 10:42), pois, Maria esco-
lhera permanecer na presença de Cristo, enquanto Marta estava
ocupada com outras coisas. Nossa comunhão prática com Cristo
é tão frágil que o pecado mais insignificante pode rompê-la. Eis
Nosso humilde Salvador 105
a razão por que esta lição é tão importante para todos nós que
queremos servir ao Senhor.
Assim disse Lutero: "O Diabo não permite que cristão algum
alcance o céu de pés limpos durante todo o trajeto". Tinha razão.
Todavia, a comunhão partida, que se rompeu por causa dos pés
imundos, pode ser restaurada pela purificação oferecida por
Cristo.
"Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos
perdoar os pecados, e nos purificar de toda injustiça"
(1 João 1:9).

Quando Pedro afinal começou a entender que o Senhor estava


falando de purificação espiritual, e de comunhão com Cristo, o
apóstolo reagiu com a impulsividade que o caracterizava.
"Senhor", disse ele, "se tu estás falando de comunhão contigo,
dá-me um banho completo, então" (veja o v. 9). Mas o Senhor
explica por que Pedro precisava de ter apenas os pés lavados, e
não o corpo todo (v. 10).
O Senhor Jesus usou a imagem dos banhos públicos, comuns
nas cidades daqueles dias. Após o banho, as pessoas voltavam a
suas casas por ruas poeirentas, usando sandálias. Ao chegar a
casa, viam que lhes era necessário lavar os pés. Da mesma
maneira quando iam ao mercado, ou em visita a um amigo. Havia
apenas um banho, mas muitas lavagens dos pés sujos. As dife-
rentes palavras gregas para "lavar" e "banhar" no versículo 10
corroboram esta distinção.
A lição para Pedro e para nós é que ele já tomara um banho
(era crente em Cristo e tinha seus pecados perdoados) e não
precisava de mais um banho. O de que ele precisava era de uma
lavagem para livrar-se das impurezas do mundo (que seus pés
fossem lavados). Ao pecar, Pedro já não precisava de salvação,
mas de renovação da comunhão com Deus. Era importante que
Pedro aprendesse essa lição nessa ocasião, pois dentro de pou-
cas horas haveria de cometer o pior pecado de sua vida, o de
negar a seu Senhor. Ainda assim não estaria precisando de mais
um banho de salvação, mas apenas da lavagem, da restauração
da comunhão. Parte dessa história não está registrada, e parte
dela está escrita em João 21. A história toda se baseia, entretanto,
no fato de que Cristo amava a Pedro ao extremo (v. 1).
É maravilhosa a provisão da lavagem espiritual dos pés, para
os crentes. Quando pecamos, podemos dirigir-nos ao Salvador
e obter restauração. Ele usa a água da Palavra, a fim de efetuar
essa lavagem (Efésios 5:26). Quando estivermos conscientes de
que desagradamos ao Senhor, podemos ir a ele de imediato, e
confessar nossa falta. Em seguida, o Servo perfeito graciosamen-
te efetua o trabalho de lavar nossos pés e, assim, a comunhão
com Cristo volta a ser de novo realidade gloriosa. Não consegui-
remos ser servos eficientes de Cristo se tivermos pés imundos.
E evidente que um dos doze jamais passara pelo banho da
regeneração. Esse era Judas, a quem Jesus apontou com cuidado
(w. 10-11). Em seguida, do versículo 12 ao 17, o Senhor lhes
ensina outra importante lição, oriunda de sua parábola dramati-
zada, lição associada de modo direto com o aprendizado do
serviço, ou como servir. Terminado seu ato de serviço, Jesus
assumiu seu lugar à mesa e começou a ensinar-lhes uma lição. A
lição aplicada a Pedro referia-se ao relacionamento vertical com
o Senhor. Agora, ele fala de um relacionamento horizontal, o dos
discípulos entre si.
O Senhor começa com uma pergunta: "Entendeis o que eu
fiz?" (v. 12). Sem aguardar a resposta, o Senhor explicou:
"Vós me chamais de Mestre e Senhor, e dizeis bem, pois eu o
sou. Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis
também lavar os pés uns aos outros. Eu vos dei o exemplo, para
que façais o que eu fiz" (w. 13-15).
O Senhor Jesus dizia, com efeito: "Se eu, que sou o Mestre e
Senhor de vocês, assumi o papel de servo, então vocês que são
meus servos deverão estar prontos e dispostos para servir uns
aos outros". Há muita lógica aqui, e muita dificuldade. Eles
alegremente lavariam os pés de Cristo, mas o Senhor insistiu em
que deveriam servir ao próximo.
O ponto enfático aqui não é apenas o do serviço humilde, mas
de maneira mais específica, a lavagem dos pés imundos dos
outros. Paulo se referiu a esse ministério em Gálatas 6:1:
"Irmãos, se alguém for surpreendido nalguma ofensa, vós, que
sois espirituais, corrigi o tal com espírito de mansidão. Mas olha
por ti mesmo, para que não sejas também tentado".
Se um irmão é apanhado em pecado, como, por exemplo,
Nosso humilde Salvador 107
orgulho ou mexerico ou. . . os crentes espirituais agem como
verdadeiros servos e o restauram, considerando-o mais impor-
tante do que a si próprios (Filipenses 2:3). Deverão "lavar-lhes
os pés". Como? Tomando a "água" da Palavra de Deus e, com
máximo cuidado, máxima delicadeza, aplicá-la ao irmão que
pecou, estando o tempo todo conscientes de que eles também
estão sujeitos à tentação.
A tendência da carne é executar esta regra com severidade,
usaremos água fervente para que a pessoa não se esqueça jamais;
usaremos lixa em vez da água pura, que é a Palavra de Deus. A
comunidade cristã está repleta de pessoas cujos pés estão encar-
didos. Só os servos genuínos, humildes, espirituais e sábios
conseguem restaurá-los, mediante a obra do Espírito Santo.
O ato do Senhor foi um serviço de autonegação. Ele praticou
o que ensinava ao dizer a seus discípulos que viera a fim de servir,
e não ser servido (Marcos 10:45). Seus seguidores lembrariam
do que ele fez naquela noite enquanto vivessem. Vinte e cinco
anos mais tarde, quando Pedro escreveu sua primeira carta, fez
ecoar nela a mensagem do Mestre a respeito do lava-pés, exor-
tando os presbíteros da igreja a demonstrarem que suas vidas
são exemplos para o rebanho, ao deixar de impor-lhe uma
tirania, mas ao humilhar-se sob a poderosa mão do Senhor (1
Pedro 5:3-6). Pedro aprendeu essa lição muito bem. Será que nós
também a aprendemos?
Uma bem-aventurança
A lição do Salvador a respeito do espírito de serviço encerrou-
se com uma bem-aventurança:
"Agora que sabeis estas coisas, bem-aventurados sois se as
fizerdes" (v. 17).
À semelhança das bem-aventuranças de Mateus 5, esta bênção
advém da parte de Deus como resultado da obediência. Deus
tem uma bênção especial para o servo humilde que se inclina a
fim de "lavar os pés" de seus companheiros de servidão. Sendo
cumpridores da Palavra os servos obedientes serão abençoados
naquilo que praticam (Tiago 1:22-25).
Quantas dores inúteis suportamos só porque nos recusamos
a humilhar-nos e prestar serviço como "lavadores de pés". Se
considerarmos esse serviço como estando abaixo de nossa dig-
nidade, estamos coloeando-nos acima do Senhor Jesus. Ele disse
que "o servo não é maior do que o seu senhor" (v. 16); os
verdadeiros servos dele não deveriam recusar fazer o que ele fez.
Diótrefes não teria errado se houvesse atendido às palavras de
Jesus (3 João 9). Semelhantemente, muitos capítulos tristes da
história da igreja teriam sido evitados e muitas divisões não
teriam ocorrido, nem continuariam ocorrendo hoje.
Com tantos crentes sofrendo ao nosso redor, há inúmeras
oportunidades para a obra de lavar os pés dos irmãos. O próprio
Senhor Jesus nos encoraja neste serviço; na verdade, essa é uma
ordem que recebemos dele. Se quisermos em realidade seguir a
Jesus, haveremos de caminhar pelos caminhos da humildade, a
saber, caminhos do serviço.
Ó Senhor, permite-me caminhar contigo
Pelas sendas humildes do serviço.
Revela-me teu segredo; ajuda-me a carregar
O fardo do trabalho, o peso do cuidado.

Ajuda-me a carregar a pessoa morosa de coração


Mediante uma palavra clara, cheia de amor vencedor;
Ensina-me a firmar os passos vacilantes do desviado
Dirigindo-os na direção do céu.
(Washington Gladden)
TERCEIRA PARTE

RETRATOS
10
O círculo íntimo de Deus

s maiores personalidades entre o povo de Deus têm sido


"servos". O título de servo de Deus merece a maior distin-
ção na história da Bíblia, foi empregado àqueles que se
tornaram elementos-chaves no plano mestre de Deus para o
planeta terra, e ainda se aplica a todos os que andam verdadei-
ramente com Deus. No Antigo Testamento, "servo" se aplicava
apenas aos gigantes espirituais que percorriam o caminho da fé.
Vamos focalizá-los neste capítulo.
Servo de Deus no Antigo Testamento aplica-se com mais
precisão ao relacionamento da pessoa com Deus do que com
outras pessoas. Não havia na época o conceito de um líder ou
rei ser um serventuário público, um serviçal ou funcionário do
povo como dizemos hoje (1 Reis 12:7 é exceção). Parece que
Deus aufere máxima satisfação em conferir o título de "meu
servo" àqueles que o honram com fidelidade integral.
O servo da fé — "Meu servo Abraão"
O primeiro dos grandes a quem Deus chamou de meu servo
foi Abraão. Deus usou esse título enquanto falava com o filho de
Abraão, Isaque.
Vivendo como beduíno, Isaque experimentava constantes
atritos, ao procurar água para seus grandes rebanhos. Era ele
quem cavava os poços; no entanto, enfrentava disputas ao tentar
usá-los. As vezes os filisteus entupiam esses poços para fazer com
que os homens de Isaque permanecessem longe de suas frontei-
ras.
Por fim chegou a Berseba e cavou mais um poço (Gênesis
O círculo íntimo de Deus 111
26:18-25). O pai dele, Abraão, o levara para morar em Berseba,
logo após o grandioso sacrifício no monte Moriá. Isaque havia
sido liberado e Abraão ofereceu um cordeiro, em sacrifício
vicário, após o que Deus confirmou sua promessa feita a Abraão
(Gênesis 22:1-19). Agora que Isaque havia regressado a Berseba
para morar ali, Deus lhe apareceu confirmando a promessa de
que ele seria abençoado, e seus descendentes seriam muitos. A
razão por que Deus fez isso está em Gênesis 26:24: "por amor
de Abraão, meu servo".
Deus chamava a Abraão de seu servo porque esse homem teve
a ousadia de crer em Deus e agir segundo sua fé. Quando o
Senhor da glória lhe apareceu, sendo Abraão vim adorador
pagão, em Ur, cidade dos caldeus, e lhe ordenou que deixasse
seus parentes e partisse para um lugar que jamais vira, Abraão
obedeceu. Era servo obediente.
Também quando Deus prometeu que abençoaria a Abraão
materialmente, o servo creu que o Senhor faria isso mesmo! Com
toda alegria permitiu que Ló escolhesse para si as campinas bem
regadas de Sodoma. Com toda alegria recusou-se a tomar para si
mesmo qualquer coisa do rei de Sodoma, após uma operação
militar de resgate. Sendo servo do Altíssimo, queria que todos
soubessem que quem o tornara rico havia sido seu Deus (Gêne-
sis 14:22-23).
Foi Abraão o primeiro a usar o nome Adonai (senhor) para
Deus (Gênesis 15:2). Trata-se de um título que expressa o
senhorio de Deus. É título que o servo usa para seu senhor.1
Ainda quando Deus provou sua fé, ordenando que oferecesse
seu filho Isaque em sacrifício de holocausto, o servo obedeceu
sem questionar.
"Levantou-se, pois, Abraão de madrugada, albardou seu ju-
mento, tomou consigo. . . a Isaque, seu filho. . ."
(Gênesis 22:3)-
A vida toda de Abraão foi marcada pelo espírito de serviço a
Deus, sem qualquer reserva. Ele ousava crer em Deus, e agir de
acordo com essa fé. Não é de estranhar, pois, que Deus lhe haja
conferido o título de meu servo Abraão.
O servo confiante — "Observaste a meu servo Jó?"
A história de Jó transcorreu numa época que ninguém pode
precisar exatamente. Por causa dessa aura de mistério, a história
desse homem se torna mais fascinante ainda.
No livro de Jó temos um lembrete, tanto no começo como no
final, de que Jó é chamado por Deus de meu servo (1:8; 42:7).
Na introdução do livro Deus pergunta a nosso inimigo se este
havia observado Jó, que era bom exemplo de homem crente (1:8).
À essa altura, Deus concede permissão a Satanás para tentar Jó de
várias maneiras a fim de que ficasse provado que o espírito de
servidão de Jó baseava-se em algo mais que simples prosperidade
material. Observe a maneira como Deus descreve Jó, seu servo:
"Não há ninguém na terra semelhante a ele, homem íntegro e
reto, que teme a Deus e se desvia do mal" (1:8).
Os verdadeiros servos são conhecidos pelo que são, e também
pelo que fazem. Nada se diz quanto às ações de Jó, como servo;
toda a ênfase repousa naquilo que ele era, em seu caráter. Disse
Deus que não havia outra pessoa como Jó, na terra; Jó se tornara
modelo de retidão humana. Com relação ao mal, Jó não só era
inculpável, mas de modo concreto o evitava. Com relação a Deus,
era reto, e de forma ativa e reverente buscava a face do Senhor.
O autor do livro de Jó notou estas características logo no
primeiro versículo. E Deus desafiou Satanás logo depois, mencio-
nando tais características (1:1-8), que são as qualidades de Jó como
servo de Deus. Os servos já devem sê-lo antes de exercer as funções
de servo. Todas as tentações e provações que se seguiram não
puderam sacudir Jó, porque este era verdadeiro servo de Deus, em
seu coração, sendo esse o segredo da integridade de Jó através de
todas as suas tribulações. Embora não soubesse o que estava
acontecendo, ele nunca perdeu de vista a confiança que depositava
em Deus. Jó permaneceu um verdadeiro servo.
Quando tudo se acabou, Jó falou a respeito de "coisas maravi-
lhosas demais para mim" (42:3). Em vez de concluir que Deus se
esquecera dele, verificou que o poder, a majestade e a sabedoria
de Deus eram mais infinitos do que entendera anteriormente. E o
servo inclinou-se em arrependimento reverente. Os três "amigos"
é que encontraram julgamento, e foram instruídos a oferecer
sacrifício a Deus, enquanto o "servo Jó" orasse por eles (42:8).
Nós, que temos a intenção de ser servos de Deus, precisamos
aprender com Jó que Deus exige em primeiro lugar, e em último,
O círculo íntimo de Deus 113
e sempre, santidade de vida. Nenhum volume de atividade
compensa um viver iníquo, pois o servo há de ser íntegro e reto,
que teme a Deus e se desvia do mal.
O servo submisso — "Eu e minha casa serviremos ao
Senhor"
Deus atribuiu honra a Josué ao chamá-lo de seu servo. Entretan-
to, Josué foi singular, pois também foi chamado de servo de um
senhor humano, Moisés. Duas vezes na Bíblia ele é Josué. . . servo
do Senhor, e outras duas vezes, servidor de Moisés (Josué 24:29;
Juizes 2:8; Êxodo 33:11; Números 11:28).
A dupla servidão de Josué tem algo a revelar-nos.
E evidente que Josué tornou-se famoso por sua eficiência em
receber e dar ordens, razão por que foi escolhido por Moisés
para ser seu assistente durante o êxodo do povo, saindo do Egito
e indo para Canaã (Êxodo 33:11). A primeira imagem que temos
de Josué nas Escrituras mostra-o em atitude de obediência a
Moisés, quando este lhe pediu que selecionasse um exército e
enfrentasse os amalequitas.
"Fez Josué como Moisés lhe dissera" (Êxodo 17:9-10).
Vemos aí o "servo" dentro de Josué. Mais tarde, acompanhou
Moisés ao monte Sinai a fim de receber a aliança da parte de
Deus, e foi incumbido também da responsabilidade da "tenda
da congregação", onde o Senhor falava a Moisés de tempos em
tempos (Êxodo 33:11).
Josué foi fiel durante a rebelião onde aparece o bezerro de
ouro, da qual até o irmão de Moisés, Arão, participou. Josué e
Calebe foram honrados por Deus pela sua fidelidade: foram os
únicos, dentre os doze espias, a entrar na Terra Prometida.
"Josué, o filho de Num
E Calebe, o filho de Jefuné,
Foram os dois únicos que entraram
Na terra que mana leite e mel".
Dando provas de ser excelente servo sob as ordens de Moisés,
Deus confiou-lhe obra maior ainda, após a morte de Moisés.
Aconteceu como na parábola do Senhor Jesus, sobre os talentos:
"Bem está servo bom e fiel. Sobre o pouco foste fiel, sobre o
muito te colocarei" (Mateus 25:21).
Há dois incidentes registrados no livro de Josué que salientam
de modo especial a dedicação deste servo. O primeiro ocorreu
após a travessia do Jordão, logo antes da conquista de Canaã
(5:13-15). Deus deu a Josué uma visão a fim de confirmar o
propósito divino de destruir totalmente tudo, homens e mu-
lheres, "ao fio da espada" (Deuteronômio 20:16-17, Josué 6:21).
Vendo um homem de espada na mão, perguntou-lhe Josué:
"És tu dos nossos, ou dos nossos inimigos?" (v. 13).
O homem com a espada na mão identificou-se como "príncipe
do exército do Senhor" ou comandante supremo do exército do
Senhor. Quando Josué percebeu quem era que lhe falava na
visão, "se prostrou sobre o seu rosto em terra, e o adorou e
perguntou-lhe: Que diz meu Senhor ao seu servo?" (v. 14).
Daqui em diante não seria o grande comandante Josué quem
lideraria o povo à vitória, mas o servo Josué que executava a
vontade de Deus — a vontade do Comandante Divino. Não seria
o brilho de Josué como estrategista militar, mas sua obediência
a Deus que iniciaria as batalhas santas pela Terra Prometida.
O segundo incidente onde vemos de modo especial o espírito
de serviço de Josué está registrado em Josué 24:14-24. Após
entregar responsabilidades aos líderes que o sucederiam à sua
morte (capítulo 23), Josué entregou responsabilidades ao povo
numa grande reunião em Siquém (capítulo 24). Depois de fazê-
los relembrar seu passado idolatra, exortou-os a temer ao Senhor
e só a ele servir, e a fazer um compromisso definido no sentido
de servi-lo realmente:
"Escolhei hoje a quem silvais" (v. 15).
Submeter-se a Deus e a ele servir significava rejeitar os falsos
deuses pagãos que moravam além do rio Eufrates, e dos canani-
tas. Em seguida, Josué acrescentou uma declaração pessoal:
"Porém eu e a minha casa serviremos ao Senhor" (v. 15).
Que tremendo desafio esse com que Josué concluiu 110 anos
de serviço ao Senhor.
"Serviu Israel ao Senhor todos os dias de Josué e todos os dias
dos anciãos que ainda viveram muito depois de Josué" (24:31).
O exemplo de Josué nos inspira a servir a Deus de modo
completo. Ele aprendera a servir em nível humano, sendo servi-
dor de Moisés e, em seguida, recebeu maiores responsabilidades
O círculo íntimo de Deus 115
sob o Comandante divino, salientando-se como um dos verda-
deiros grandes servos da história bíblica.
O servo leal — "Meu servo Calebe... perseverou em
seguir-me"
O testemunho de Deus a respeito de Calebe é dos mais
notáveis em todas as Escrituras: ele seguiu ao Senhor e "perse-
verou" em segui-lo. Deus, Moisés, Josué, e o próprio Calebe
testificam a esse respeito. Cinco vezes as Escrituras confirmam
que esta era a marca identificadora de Calebe (Números 14:24;
Deuteronómio 1:36; Josué 14:8,9,14). Quem, dentre nós, não
gostaria que Deus dissesse tal coisa a seu respeito?
Observe, entretanto, que o homem que seguiu ao Senhor com
perseverança foi chamado de "servo". Isso não deveria surpreen-
der-nos, pois, que é que caracteriza um servo do Senhor mais do
que o "seguir" com perseverança? A obediência é a essência do
verdadeiro espírito de serviço. Todos os discípulos de Jesus
ouviram, um a um, este convite: "Segue-me". E obedeceram.
Calebe pertencia a uma das principais famílias da tribo de
Judá. (O irmão dele, Ram, pertence à linhagem direta do Senhor
Jesus Cristo, aparecendo sob outros nomes: Rão, Arã e outros).
Foi escolhido para representar a tribo de Judá, quando doze
espias foram enviados para investigar a terra (Números 13:6).
Feito o relatório da maioria, a saber, dez espias, tão negativo
quanto às probabilidades de Israel derrotar os cananitas, Calebe
levantou-se como porta-voz da minoria (ele e Josué), dizendo:
"Subamos animosamente, e possuamo-la em herança. . . se o
Senhor se agradar de nós, então nos fará entrar nessa terra, e
no-la dará" (Números 13:30; 14:8).
Calebe acreditava que seguir ao Senhor significava acatar-lhe
a palavra, ainda que as probabilidades humanas fossem adversas.
Tentou persuadir os israelitas. Estes, no entanto, não quiseram
ouvi-lo, mas, na verdade, tê-lo-iam apedrejado se a glória do
Senhor não aparecesse. Em seguida, Moisés orou pedindo per-
dão. A resposta de Deus foi que aqueles que lhe haviam contem-
plado a glória, no Egito e, desde então se haviam rebelado dez
vezes, de modo nenhum entrariam na terra que lhes havia sido
prometida. Entretanto, a respeito de Calebe assim se expressou
o Senhor:
"Porém o meu servo Calebe, porque nele houve outro espírito,
e perseverou em seguir-me, eu o levarei à terra em que entrou,
e a sua semente a possuirá em herança" (Números 14:24).
E foi isto mesmo que aconteceu. Quando, enfim, o povo
chegou à Terra Prometida, Calebe requisitou sua herança — o
mesmo lugar que havia inspecionado há quarenta anos — a área
ao redor de Hebrom, onde moravam os gigantes. Tendo Deus
no comando, Calebe, agora homem idoso mas ainda disposto a
seguir, tomou aquelas cidades e instalou-se ali. O servo que
seguia ao Senhor com total obediência foi ricamente abençoado.
O mesmo ocorre hoje.
O servo fiel — "Moisés, na verdade, foi fiel... como
servo"
O servo de Deus mencionado com mais freqüência, no Antigo
Testamento, é Moisés. É bem provável qvie seja o maior de todos
os líderes do Antigo Testamento. Comandar dois milhões de
pessoas que peregrinaram durante 40 anos num deserto inóspito
não é tarefa fácil. Entretanto, esse foi o trabalho de Moisés, que
exigia excepcional força de caráter como a maior responsabili-
dade jamais colocada sobre um homem. Quando entendemos
isso, é quase chocante ler a descrição de Moisés como sendo:
"Homem muito manso (humilde, em algumas versões), mais
do que todos os homens que havia na terra" (Números 12:3).
Neste aspecto Moisés foi como o Senhor Jesus, que disse:
"Sou manso e humilde de coração" (Mateus 11:29)-
No mesmo capítulo em que Moisés é descrito como o homem
mais manso que já viveu na terra, Deus diz que Moisés é "meu
servo" (w. 7- 8). Estas duas facetas do caráter de Moisés são vistas
num incidente registrado nesse mesmo capítulo. Miriã, irmã de
Moisés, ligou-se a Arão no ataque discriminatório desferido
contra Moisés, por este ter desposado uma mulher cusita (de
pele negra). Afirmavam que também podiam exercer um minis-
tério profético. É óbvio que o orgulho fermentava no coração
deles. E é exatamente nesse momento que Deus nos diz que
Moisés era o homem mais manso da terra (v. 3).
Em seguida, Deus fez algo notável: chamou Miriã e Arão para
fora da tenda da congregação, fora do acampamento, a fim de
passar-lhes uma descompostura. Disse-lhes o Senhor que se
fossem profetas de verdade, o Senhor lhes falaria mediante
sonhos e visões, mas Moisés ocupava uma categoria superior:
"Não é assim com o meu servo Moisés, que é fiel em toda a
minha casa. . . boca a boca falo com ele"
(Números 12:7,8).
Deus declarou que Moisés lhe era servo fiel com quem podia
falar face a face. Visto que Miriã havia sido infiel, faltando-lhe a
correta atitude de serva, Deus estava irado contra ela, e fê-la
leprosa. Entretanto, Moisés intercedeu por ela e Deus a curou.
Mais tarde, porém, ela morreu em Cades, sem jamais ter entrado
na Terra Prometida. Nada nos tenta mais a ficarmos cáusticos do
que o criticismo injusto que parte da própria família. Moisés
conseguiu passar por esse teste com notas altas.
O autor de Hebreus chama a Jesus de "Apóstolo e Sumo
Sacerdote da nossa confissão" e em seguida compara a fidelidade
de Cristo com a de Moisés, que foi fiel "em toda a casa de Deus"
(v. 2). Extraordinário que o Senhor seja comparado a vim ho-
mem, mas é significativo que esse homem seja Moisés. Assim
prossegue a passagem de Hebreus:
"Moisés, na verdade, foi fiel em toda a casa de Deus, como
servo" (v. 5).
Aos olhos de Deus, se quisermos ser grandes, devemos servir.
O servo obediente — "Meu servo Isaías andou. . . nu"
Isaías, príncipe dos profetas, foi outro entre um grupo de elite
que o Senhor chamou de "meu servo". Produziu grande impacto
sobre o pequeno reino de Judá, durante a época de declínio
moral, advertindo os líderes da nação que comprometiam sua fé
em Deus, aspirando poder político e entregando-se à indulgên-
cia sensual. Era certo que julgamentos adviriam à pequenina
terra de Judá, mas Isaías lhes dirigiu a atenção não para tais
julgamentos, porém, para um reino vindouro onde prevalece-
riam a justiça e a paz.
Ao ser chamado para servir, Isaías viu o Deus santíssimo em
seu trono (Isaías 6). Prostrado diante desse trono, estarrecido
pela sua própria indignidade, Isaías ouviu o chamado de Deus:
"A quem enviarei, e quem há de ir por nós?" (v. 8).
O profeta respondeu da maneira como responderia qualquer
servo verdadeiro:
"Eis-me aqui. Envia-me a mim!"
Era servo disposto, pronto a ouvir, pronto a falar, pronto a ir
aonde o Senhor ordenasse. É bem apropriado que tenha sido a
Isaías que Deus revelou as maravilhosas profecias concernentes
ao Servo Messias (42-53).
As circunstâncias do capítulo 20, em que Deus o chama de
"meu servo", são peculiares e instrutivas. O rei assírio Sargão II
marchava em guerra pela Palestina ao tempo em que Judá era
uma entre várias nações pequeninas. A forte cidade dos filisteus,
Asdode, havia já caído diante dos exércitos assírios, em 721 a.C.
As cidades circunvizinhas, trêmulas de medo, eram tentadas a
fazer aliança com o Egito a fim de resistir aos assírios. Os líderes
de Judá preferiam também essa alternativa, embora estivessem
bem advertidos pelo profeta para que confiassem em Deus e não
no Egito. À esta altura Deus ordenou a Isaías que executasse um
ato simbólico incomum.
O profeta já se havia vestido de estopa, lamentando pela nação
de Judá, sob julgamento. Agora recebe ordem de despir-se da
estopa, ficar descalço e perambular assim pelas ruas de Jerusa-
lém durante três anos (20:2). Isaías deveria demonstrar como
seriam os egípcios capturados pela Assíria. O Egito seria derro-
tado pela Assíria, e seus cativos desnudados marchariam em
exílio para a Assíria. Por que então Judá haveria de confiar no
Egito, que seria derrotado?
Isaías pode ensinar-nos, aqui, alguma coisa a respeito do
espírito de serviço. Sendo profeta de respeito, foi-lhe ordenado
que fizesse algo ridículo — que aparecesse em público vestido
apenas das roupas íntimas. Não apenas uma vez, mas de modo
regular, durante três anos, em meio às mulheres murmuradoras,
às crianças que riam dele, e dos políticos que zombavam. Isaías
não incomodou-se com o criticismo, ou com as risadas. Deus
falara, seu servo Isaías suportaria as agruras do escárnio. Para o
profeta, um "bem está, servo bom" da parte do Senhor era
melhor do que o aplauso dos ímpios.
Os verdadeiros servos de Deus com freqüência passam pelo
teste do ridículo. Assim aconteceu a Jesus.
"Suportando vergonha e rude zombaria,
Ele foi condenado em meu lugar.
Meu perdão ele selou com seu sangue,
Aleluia! Que maravilhoso Salvador!"
O servo cheio de poder — "Meu servo Zorobabel"
Zorobabel, governador de Jerusalém, dentre os exilados que
retornaram da Babilônia, também foi chamado de "meu servo"
pelo Senhor (Ageu 2:23). Nascera no cativeiro, sendo da linha-
gem real davídica (Mateus 1:12). Sua principal tarefa seria a de
reconstruir o templo, que havia sido destruído por Nabucodo-
nosor setenta anos antes. Dois profetas o encorajaram nesse
trabalho: Ageu e Zacarias. Ageu encerra sua profecia com a
promessa de que num dia, no futuro, Zorobabel haveria de
reinar, sendo seu anel de selar símbolo de governo e autoridade
(Ageu 2:23). O significado da profecia era que Zorobabel, o
servo, representava o Servo vindouro, maior, aquele que remaria
no trono de Davi.
Quando Zorobabel ouviu o profeta Ageu fazer contraste entre
as casas das pessoas com o templo em ruínas (1:7-8), "ouviu
Zorobabel. . . a voz do Senhor seu Deus" e começou a recons-
truir o templo (1:12). Deus o encorajou a não ligar para a
pequenez do segundo templo, comparado com o primeiro, mas,
em vez disso, que se lembrasse de que o que estava fazendo
constituía parte do plano de Deus, de modo que um dia a "glória
desta casa" excederia tudo que se passara (2:4-9). A promessa
de Deus foi poderoso estímulo para Zorobabel, e deveria sê-lo
para nós também, ajudando-nos a evitar comparações desenco-
rajadoras, e levando-nos a confiar no Senhor.
Zorobabel, o servo de Deus, também foi encorajado pelo
profeta Zacarias durante o projeto de reconstrução:
"Não por força, nem por poder, mas pelo meu Espírito" (4:6).
Zorobabel precisava ser lembrado de que a energia e os
recursos humanos não eram os principais fatores na execução
da obra de Deus. Não é isso pura verdade para nós, nos dias de
hoje? Não somos muitas vezes culpados de confiar mais nas
armas da carne do que no poder dos servos de Deus?
"Mas, pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos".
Servo amoroso — "Tendo Davi no seu tempo servido
conforme a vontade de Deus"
Nosso último personagem bíblico que é chamado de "meu
servo" por Deus é Davi, a quem esse título se aplica mais do que
a qualquer outro. Parece que Deus tinha prazer especial em
chamar a Davi de "meu servo".
Quando simples pastorzinho de ovelhas, Davi não recebeu
atenção nenhuma, até que o profeta Samuel o ungiu como futuro
rei. Sua trajetória a partir de então até sua coroação foi longa e
difícil. Entretanto, durante todo esse tempo Davi caminhou ao
lado de Deus com humildade, como servo. Suas falhas nos são
bem conhecidas. Entretanto, a fidelidade de Davi como servo
merece nossa melhor atenção também.
A primeira vez em que Deus chama Davi de "meu servo" é
quando o Senhor fala a Natã, o profeta, a respeito do lugar
reservado para Davi, na história, e a respeito de seu reino que
duraria eternamente (2 Samuel 7). Este capítulo também contém
uma oração maravilhosa de Davi, o servo, que inclui estas
palavras dignas de ênfase:
"Quem sou eu, Senhor Deus, e qual é a minha casa, para
me trazeres até aqui?. . . também falaste da casa de teu
servo para tempos distantes. . . fizeste toda esta grandeza,
dando-a a conhecer a teu servo. . . grandioso és, ó Senhor
Deus, porque não há semelhante a ti. . . foste resgatar para
ser teu povó, e fazer a ti mesmo um nome. . . Agora, pois,
ó Senhor Deus, quanto a esta palavra que falaste acerca de
teu servo e acerca da sua casa, confirma-a para sempre. . .
Sê agora servido de abençoar a casa do teu servo. . . ecom
a tua bênção será para sempre bendita a casa do teu servo"
(w. 18-29).
Foram as condições do coração de Davi que o tornaram um bom
servo. Quando o rei Saul fracassou, Deus disse a Samuel que estava
procurando para si um homem segundo seu coração (1 Samuel
13:14). E esse homem era Davi. Dele assim disse o Senhor:
"Achei a Davi, meu servo. . . a minha mão será firme com ele,
o meu braço o fortalecerá. . . o meu amor fiel estará com ele"
(Salmo 89:20-24).
Mil anos depois disso, Paulo cita esta passagem, ao apresentar
o evangelho ao povo de Antioquia, e menciona de modo especial
o coração de servo de Davi:
"Achei a Davi, filho de Jessé, homem segundo o meu coração,
que executará toda a minha vontade. Da descendência deste. . .
levantou Deus a Jesus para Salvador de Israel" (Atos 13:22-23).
A chave da grandeza de Davi está na/prontidão de seu coração
para executar a vontade de Deus. Paulo registrou um comentário
adicional ao espírito de serviço de Davi, em Atos 13:
"Pois tendo Davi no seu tempo servido conforme a vontade
de Deus, dormiu" (v. 36).
Um servo bíblico nada mais deseja senão servir aos propósitos
de Deus em seu tempo. Quer isso signifique obscuridade ou
notoriedade, ministério no estrangeiro ou no próprio país, ca-
sar-se ou permanecer solteiro, nenhuma coisa é mais importante
do que servir ao nosso Deus. Deus nos ajude a proceder assim,
como Davi procedeu!
O famoso poeta John Milton, totalmente cego à idade de
quarenta e quatro anos, teve percepção especial destes assun-
tos:
"Quando penso que minha luz se extinguiu
Em meio aos meus dias, neste mundo imenso, escuro,
E que o talento de desprezar a morte me foi entregue,
Mas, inútil, embora minha alma por ele se incline mais
A servir a meu Criador, e prestar-lhe contas justas,
Com grande afeto rogç, que ao retornar
Não me censure, ao Deus que exige trabalho diurno,
Embora me haja negado luz. Porém, a paciência
Impede a murmuração e logo me replica
Que Deus não precisa de humanas obras,
Tampouco de humanos talentos.
Serve-o melhor quem seu jugo leve suporta.
Suas condições são as de vim Rei:
Milhares açodem, convocados, e percorrem
Terras e mares, sem descanso.
Servem-no também os que em prontidão,
Alertas, apenas aguardam."
On His Blindness ("Sobre Sua Cegueira").
11
Histórias para os
seguidores de Cristo

D
entre os ensinos mais belos de toda a Bíblia, a respeito do
espírito de serviço, estão as lições de Jesus aos discípulos,
dadas em forma de parábolas. A menos que estes apren-
dessem a servir, jamais seriam eficientes.
Em pelo menos oito de suas parábolas, Jesus ilustrou os
princípios básicos do verdadeiro serviço. Nós, que almejamos
ser úteis na obra de Deus, precisamos prestar máxima atenção
a tais ensinos.
Servos responsáveis prestam contas
A parábola de Jesus a respeito dos servos fiéis (Lucas 12:35-48)
fala de mordomos ou serviçais domésticos de um homem rico
que tinha ido a uma festa de casamento. Desconhecendo o dia
em que o senhor voltaria, os servos deveriam estar alertas,
aguardando sua chegada a qualquer momento, prontos para
prestar contas de suas ações durante a ausência do patrão. Assim
foi que o Senhor iniciou a parábola instruindo seus discípulos:
"Estejam cingidos os vossos lombos e acesas as vossas can-
deias. Sede vós semelhantes aos homens que esperam o seu
senhor" (w. 35-36).
Deveriam estar preparados para o regresso do Mestre a qual-
quer momento.
Essa parábola continha lição clara para os discípulos que logo
seriam deixados no mundo sem o Senhor, que ascenderia aos
Histórias para os seguidores de Cristo 123
céus. Recebendo a promessa do regresso de Cristo, os discípulos
também deveriam conduzir-se como servos, prontos para servir,
em constante alerta, com "vossas candeias" acesas.
O servo que havia sido fiel, mostrando sensatez na execução
da vontade de seu senhor, seria galardoado com maiores respon-
sabilidades e privilégios (w. 43-44). Porém, o servo que agiu
irresponsavelmente na ausênéia de seu senhor seria julgado,
pois embora conhecesse a vontade de seu senhor abusou de seus
privilégios, pondo-se a espancar os demais empregados e a
desprezar o iminente regresso de seu senhor. Seria punido com
"muitos açoites" (w. 45-47).
Jesus está ensinando, aqui, que somos responsáveis por saber
a vontade de Deus e devemos estar prontos para prestar contas,
quando o Senhor voltar. Encerra o Senhor sua parábola com esta
declaração:
"A qualquer que muito for dado, muito se lhe pedirá, e ao que
muito se lhe confiou muito mais se lhe pedirá" (v. 48).
Servos responsáveis consideram a eternidade
A parábola de Jesus sobre o Mordomo Injusto, às vezes cha
mada também de parábola do Gerente de Visão (Lucas 16:1-13),
é a história de um servo cujo trabalho era gerenciar os assuntos
da propriedade de seu senhor. Acusado de malbaratar as posses
de seu patrão, e de apropriação indébita a fim de atender a seus
próprios interesses, foi despedido, recebendo ordens de prepa
rar um relatório onde prestaria contas. Tudo isso conduz ac
ponto mais alto da parábola, que é o servo usando a oportuni
dade de preparar-se para o futuro.
Contemplando o futuro, ele fez, em secreto, uma série de
negociatas com os credores de seu senhor, de tal modo que eles
seriam seus amigos quando estivesse desempregado. Com toda
probabilidade, seu senhor cobraria juros exorbitantes, ilegais,
de modo que o servo infiel cancelou os juros de cada um dos
devedores, permitindo-lhes pagarem apenas a dívida primária
O patrão se viu, assim, numa posição delicada, porque se des
pedisse aquele servo, exporia sua própria desonestidade. C
patrão foi ludibriado, assim, por um velhaco espertalhão que
tinha visão comercial suficiente para usar as oportunidades à
mão, tendo um olho no futuro.
Como afirmou Jesus, "os filhos da luz" podem aprender uma
lição com "os filhos deste mundo", que usam o presente a fim
de preparar o futuro. E Jesus fez a aplicação: "Granjeai amigos
com as riquezas da injustiça" (v. 9). Ou, como diz uma versão
inglesa: "Usem as riquezas mundanas a fim de conseguir amigos
para vocês mesmos". Deviam usar coisas transitórias objetivan-
do benefícios eternos.
Mamom (as riquezas mundanas) jamais deve tornar-se senhor.
"Não podeis servir a Deus e às riquezas" (v. 13). Entretanto,
Mamom pode ser usado para promover a causa do reino de Deus.
Por exemplo, pode-se usar dinheiro a fim de sustentar evange-
listas, ou adquirir exemplares das Escrituras, para distribuição.
E assim teremos "amigos" nos céus, como resultado do uso sábio
das possessões transitórias da terra.
Jesus encerra sua parábola com esta máxima:
"Ninguém pode servir a dois senhores. Ou há de aborrecer a
um e amar ao outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro.
Não podeis servir a Deus e às riquezas" (v. 13).
Jesus já havia dito antes, no contexto de a pessoa estar ansiosa
a respeito de comida e vestuário (Mateus 6:24-25), e agora ele
diz de novo, mas num contexto de valores eternos. Os servos
não deverão servir às riquezas, mas usá-las para a glória de Deus.
É como diz antigo hino: "Quero fazer o trabalho de cada dia para
Jesus, tendo os valores da eternidade à vista".
Servos responsáveis são diligentes
A parábola das dez minas enfatiza o terceiro princípio mais
importante do verdadeiro espírito de serviço (Lucas 19:11-27),
o princípio da diligência. O Senhor se aproximava de Jerusalém,
quando narrou esta parábola, na companhia de seus discípulos,
que imaginaram ter chegado o tempo em que o reino literal seria
estabelecido. Sabendo disso, Jesus lhes contou a história de um
nobre que partiu para outro país, onde seria ungido rei, e de
onde voltaria a seguir. Durante sua ausência, dez de seus servos
receberam cada um uma mina, com estas instruções:
"Negociai até que eu volte" (v. 13).
Uma mina valia o equivalente a cerca de 100 dias de trabalho
de um operário. Os servos deveriam trabalhar com as minas que
lhes foram confiadas, tendo em vista os interesses de seu senhor.
Histórias para os seguidores de Cristo 125
Após algum tempo, o nobre regressou, tendo sido empossado
como rei num país distante, mas rejeitado como rei em sua
própria terra. Ele chamou, então, seus servos e exigiu deles que
prestassem contas.
Na parábola, três dos servos relataram suas atividades. Um
deles ganhara outra^ dez minas, trabalhando com aquela única
que recebera. Outro ganhara cinco minas. O terceiro, todavia,
limitou-se a guardar a mina em lugar seguro.
Os dois primeiros servos receberam elogios do senhor por sua
fidelidade, e assumiram posições de honra e autoridade no
remo. O terceiro servo, por não ter demonstrado disposição de
assumir riscos no trabalho com a mina, foi a julgamento. Ele
havia recebido ordens específicas de negociar com a mina, e
agora só lhe restava apresentar a desculpa do medo que sentia
por causa da severidade do patrão. A mina que lhe havia sido
entregue foi confiada ao que ganhara dez.
Todos nós, que somos servos, precisamos ser diligentes na
obra do Senhor. Ele próprio demonstrou isso quando não passa-
va de um garoto de 12 anos:
"Não sabeis que me convém tratar dos negócios de meu Pai?"
(Lucas 2:49).
Ele usou todas as oportunidades disponíveis para glorificar o
Pai. Nós também somos chamados a fim de "comprar oportuni-
dades" (Efésios 5:16, tradução literal, em vez de remir o tempo).
Deveríamos lembrar-nos das instruções de Paulo a outro servo,
Timóteo:
"Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que
não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da
verdade" (2 Timóteo 2:15).
Servos responsáveis não têm limitações

"Qual de vós terá um servo a trabalhar na lavoura ou a


apascentar o gado, a quem, voltando ele do campo, diga:
Chega-te e assenta-te à mesa? E não lhe diga antes: Prepa-
ra-me a ceia, e cinge-te, e serve-me, até que tenha comido
e bebido, e depois comerás e beberás tu? Dá graças ao
tal servo, porque fez o que lhe foi mandado? Creio que
não. Assim também vós, quando fizerdes tudo o que vos
for mandado, dizei: Somos servos inúteis; fizemos so-
mente o que devíamos fazer"
(Lucas 17:7-10).
Esta curta parábola enfatiza as obrigações do servo em relação
a seu senhor. Até que ponto é ele responsável? A parábola mostra
que não há limitações às obrigações do servo. Os discípulos,
percebendo que precisavam de fé a fim de executar as ins-
truções a eles entregues pelo Senhor, pediram-lhe: "Aumenta-
nos a fé". Ao responder, o Senhor lhes disse que a fé, ainda que
tão pequenina como uma semente de mostarda, seria suficiente
para remover montanhas (v. 6). Ele estava dizendo-lhes que não
precisavam de muita fé, mas precisavam exercer a fé de que já
dispunham. A parábola apenas amplifica esse pensamento.
Chegando a casa após um dia de trabalho, cansados e famin-
tos, os servos poderiam esperar dispor de algum tempo para si
mesmos. Em vez disso, o senhor lhes ordena que preparem sua
ceia, e que aguardem, enquanto ele usufrui a noite. As necessi-
dades e desejos do senhor assumem total, absoluta precedência
sobre as necessidades e desejos de seus servos. Assim pergunta
Jesus: "Dá (o senhor) graças ao tal servo, porque fez o que lhe
foi mandado? Creio que não". A resposta é não mesmo — os
servos apenas fizeram o que era de sua obrigação.
Em seguida o Senhor faz a aplicação da parábola: "Assim
também vós, quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei:
Somos servos inúteis: fizemos somente o que devíamos fazer"
(v. 10). Devemos apresentar nossos corpos "como sacrifício
vivo", descrito como "culto racional" (Romanos 12:1-2). Não há
limitações às nossas responsabilidades para com o Senhor Jesus
Cristo. Ao dar-lhe o que de melhor temos, estamos apenas
cumprindo nossa obrigação.
Servos responsáveis perdoam
A parábola de Jesus sobre o credor incompassivo aponta com
ênfase o princípio do perdão (Mateus 18:21-35). A parábola
surgiu em resposta a uma pergunta formulada por Pedro, sobre
quantas vezes ele deveria perdoar a alguém que pecara contra
ele. Pedro não esperou pela resposta do Senhor, mas rapidamen-
te sugeriu que uma pessoa muito espiritual poderia perdoar "até
Histórias para os seguidores de Cristo 127
sete vezes". Não há a menor dúvida de que ele considerava esse
procedimento uma oferta generosíssima. O Senhor de imediato
fez murchar o balão de Pedro ao dizer-lhe que o perdão deveria
ser estendido para setenta vezes sete vezes.
Em seguida, contou uma parábola, a fim de explicar seu ensino.
A parábola era a respeito de um rei que desejava acertar suas contas.
Descobriu-se que um de seus servos lhe devia dez mil talentos, uma
dívida astronômica, impossível de ser paga. O rei, em obediência às
leis da terra, sentenciou o devedor e sua família a que fossem
vendidos como escravos. O pobre homem prostrou-se perante
o rei que, cheio de compaixão, lhe perdoou toda a dívida.
O rei nesta parábola representa Deus. O devedor incapacitado
de pagar sua dívida é o pecador. Ao confessarmos nossa dívida
espiritual, o Rei demonstrou sua misericórdia amorosa ao esten-
der-nos perdão total. Louvado seja Deus!
Prossegue a parábola, segundo a qual o servo perdoado saiu
à procura de um companheiro que lhe devia algo, uma quantia
insignificante, se comparada com a que lhe havia sido perdoa-
da. O companheiro rogou-lhe que lhe desse algum tempo para
pagar, mas foi atirado numa prisão. O servo que havia sido
perdoado não demonstrou piedade alguma. Quando tal fato foi
relatado ao Rei, este irou-se revogando seu perdão, atirando o
primeiro servo na prisão, para ser punido.
A aplicação é clara, embora chocante. O servo que entende
quão grande misericórdia lhe foi concedida na cruz deve, a
seguir, conceder perdão e misericórdia ao próximo. Deixar de
perdoar lhe traz julgamento — não a perda da vida eterna, mas
um castigo por parte do Deus santíssimo.
Sendo servos de Deus, com freqüência nos veremos como
vítimas de ações e palavras diabólicas. Deveremos perdoar tudo
isso, sob pena de não exercermos um ministério frutífero a
Deus. Perdoar a alguém setenta vezes sete (isto é, perdoar
sempre e sempre, continuamente) a mesma falta, nos parece
exagero, até vermos as coisas sob a luz do Calvário. Visto que
somos pecadores perdoados, podemos perdoar aos outros.
O verdadeiro perdão faz parte da responsabilidade dos ver-
dadeiros servos.
Servos responsáveis não esperam recompensas
A parábola dos trabalhadores na vinha tem muita coisa ;
ensinar aos servos de Cristo (Mateus 20:1-11). Pedro havi;
acabado de perguntar:
"Nós deixamos tudo, e te seguimos! O que, então, haverá par
nós?"
É óbvio que presumiam que os sacrifícios que haviam feit<
lhes dava o direito a uma recompensa bem maior do que a d<
outros que não pagaram o mesmo preço. O Senhor repreendei
Pedro afetuosamente, lembrando-lhe que as bênçãos vindoura
ultrapassariam quaisquer sacrifícios que ele fizesse:
"E todo aquele que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs
ou pai, ou mãe, ou mulher, ou filhos, ou terras. . . receberá cen
vezes mais" (Mateus 19:29).
Em seguida, ele declara, tanto antes quanto depois da parábola
"Porém, muitos dos primeiros serão últimos, e muitos do
últimos, primeiros" (Mateus 19:30; 20:16).
O princípio da parábola é que Deus concede recompensas d<
acordo com sua graça soberana, e não de acordo com as idéia:
dos homens.
Na história, o fazendeiro concordou em pagar a seus trabalha
dores um denário por dia, o salário usual. Mais tarde, na hor;
terceira, na sexta e na nona, ele encontrou alguns homen:
desempregados a quem atribuiu trabalho em sua vinha. Algun
foram contratados na undécima hora, os quais trabalharam ape
nas uma hora. Findo o dia, o fazendeiro pagou primeirament<
os últimos trabalhadores contratados. Estes receberam um de
nário, à semelhança dos trabalhadores que iniciaram na non:
hora, e na sexta, e na terceira. Os que haviam trabalhado o di:
todo murmuravam, dizendo que mereciam mais; suportaram c
calor do dia, e os demais, não.
A resposta do fazendeiro aos murmuradores é o ponto princi
pai de toda a parábola:
"Toma o que é teu, e retira-te. Eu quero dar a este último tantc
quanto a ti. Não tenho o direito de fazer o que qviiser com o qu<
é meu? Ou é mau o teu olho porque eu sou bom?" (Mateu:
20:14-15).
Trata-se de decisão soberana de Deus. A perfeita justiça ba
Histórias para os seguidores de Cristo 129
scia-se na justiça de Deus, porque só ele conhece todos os fatos.
Os servos devem evitar comparar-se com outros, e evitar a
predeterminação das recompensas que Deus atribuirá. Muitos
que são primeiros; segundo o julgamento dos homens, serão
últimos no julgamento de Deus. E os últimos segundo o julga-
mento humano serão primeiros, segundo Deus. Os servos res-
ponsáveis não ficam comparando suas recompensas.
Servos responsáveis lideram com sabedoria
Como parte do sermão do jardim das Oliveiras, o Senhor
contou a parábola dos dois servos (Mateus 24:45-51). Nessa
grandiosa mensagem profética o Senhor Jesus estava responden-
do à pergunta dos discípulos, acerca dos sinais de seu regresso,
e do fim dos tempos (v. 3). Ele lhes explicou o sinal da "abomi-
nação da desolação", durante a "grande tribulação" e que, a
seguir, viria o Filho do homem com poder e grande glória (w.
15-31)- Em seguida, contou a parábola da figueira, e extraiu uma
lição dos dias de Noé. Com isso, eles aprenderam que a época
geral seria claramente distinguível, mas o dia exato, e a hora, não
(w. 32-41). A arca terminada foi um sinal geral. O dia exato do
dilúvio permaneceu desconhecido.
Os discípulos receberam ordens de permanecer alertas, por-
tanto, visto que não sabiam o momento da volta de Cristo.
Entretanto, deveriam estar também ativos e responsáveis, fazen-
do a vontade do Senhor. Sendo servos, não deveriam jamais
negligenciar seus deveres, em especial no que se relacionasse às
pessoas que estivessem sob sua autoridade. Na parábola, rece-
beram a responsabilidade de alimentar e guiar apropriadamente
os membros da família (v. 45).
A responsabilidade dos discípulos era a da liderança, enquan-
to o Senhor estivesse ausente. No entanto, de modo nenhum
poderiam abusar da autoridade que tinham sobre terceiros.
Deveriam proceder sem egoísmo, mas com muito cuidado, de
modo diferente do servo ímpio que disse:
"O meu senhor tarde virá" e, assim, pôs-se a maltratar as
pessoas (w. 48 e 49).
Um servo fiel e sábio, contudo, levou em conta as necessida-
des e fraquezas daqueles que estavam sob sua responsabilidade,
não se esqueceu de modo algum do retorno de seu senhor, e
130 Ele Humilhou-se a Si mesmo
almejou obter sua aprovação.
A aplicação primordial desta parábola é para os servos na
época da "grande tribulação", que estarão esperando a vinda do
Senhor em poder e grande glória. Todavia, o princípio do
espírito de serviço, aqui, aplica-se de modo igual a todos nós.
Disse Jesus a Pedro:
"Apascenta os meus cordeiros. . . apascenta as minhas ove-
lhas" (João 21:15-17).
Não era da conta de Pedro o que iria acontecer a João, ou a
qualquer outra pessoa. Ele tinha sua própria responsabilidade,
até que o Senhor voltasse. Nessa parábola, há outro aprendizado,
fora a cuidadosa liderança: o severo julgamento do Senhor
quando ele regressar (w. 50-51). Como é importante, portanto,
que nós nos desincumbamos de nossas responsabilidades com
sabedoria e fidelidade! A liderança será parte de nosso serviço
para Cristo, quer como mães que cuidam de seus filhos, quer
como empregadores, ou líderes da igreja local, ou. . . A boa
compreensão e o altruísmo marcarão nossa liderança.
Servos responsáveis usam seus talentos
A parábola dos talentos, encontrada no sermão do jardim das
Oliveiras (Mateus 25:14-30), faz parte da explicação do Senhor
sobre sua vinda, e da responsabilidade dos que o aguardam. Na
parábola precedente, a das dez virgens (w. 1-13), o assunto é a
expectativa e os preparativos. Nesta outra parábola a ênfase está
no serviço, em vez de na vigilância.
O Senhor é retratado nesta parábola como uma pessoa que
parte em viagem, confiando a três de seus servos responsabili-
dades diversificadas, de acordo com suas diferentes capacida-
des. A um foram dados cinco talentos, a outro, dois e, a um
terceiro, apenas um talento. Esperava-se de cada servo que, na
ausência de seu senhor, aumentasse a importância que lhe havia
sido confiada.
A diferença entre esta parábola e a das minas (Lucas 19) está
naquilo que os servos receberam inicialmente. As minas se
referiam às coisas básicas da vida, como o tempo, as oportuni-
dades, a vida em si. Todos recebem o mesmo. Na parábola dos
talentos há diversificação nos talentos, pois estes referem-se a
coisas como personalidade, força física, recursos circunstan-
Histórias para os seguidores de Cristo 13'
ciais. Podem constituir dons do Senhor, mas são diferentes par;
cada um de nós. E somos responsáveis pelo uso destes dons
para a glória de Deus.
Referimo-nos a uma pessoa dizendo que é talentosa quandc
tal pessoa foi dotada de habilidades excepcionais, em algun
campo. Este termo veio exatamente dessa parábola.
Deus atribui a todos os seus servos alguns talentos, espcrandc
que os usemos para ele mesmo. Não se esperava do servo d<
cinco talentos que produzisse os mesmos resultados daquel<
que recebeu apenas dois. O serviço destes dois servos era usa
o que lhes havia sido entregue. Ambos os servos usaram seu:
talentos e foram elogiados com as mesmas bem-aventuranças:
"Bem está servo bom e fiel" (w. 21 e 23).
A parte mais solene da parábola é aquela em que as expecta
tivas do senhor não compreendiam complacência para com <
servo improdutivo que escondeu seu talento. Parece que a rai:
desse fracasso era a preguiça, visto que o senhor condenou <
servo com estas palavras:
"Mau e negligente servo" (v. 26).
Muitos servos de Deus "escondem" seus talentos sob a pre
guiça. Que nós, servindo a Deus, sejamos cuidadosos e muitc
diligentes no uso dos talentos que ele nos confiou. O dia di
prestação de contas não está longe. E somos responsáveis pe
rante o Senhor.
12
Mais do que apóstolo
—um servo

e há um verdadeiro gênio por trás da estratégia missionária

S do Novo Testamento, esse gênio é Paulo. Se há um modelo


padrão para a implantação de igrejas, esse modelo é Paulo.
Se há um estadista representativo da igreja primitiva, ninguém
ultrapassa Paulo. Paulo é o líder "por excelência". Então, não é
porventura extraordinariamente notável que Paulo, sem qual-
quer traço de falsa modéstia, com freqüência se refira a si mesmo
como servo?
A posição de servo
No primeiro capítulo discutimos três palavras gregas traduzi-
das por "servo". Paulo utiliza todas as três ao descrever sua
própria posição e trabalho. A primeira palavra é doutos, uma
palavra genérica para escravo, ou servo, como as Bíblias em
português trazem. Indica total sujeição a um senhor. Os escravos
romanos eram denominados doulos, e parece que Paulo sentia
prazer especial em usar essa palavra para descrever seu ministé-
rio, em particular ao apresentar-se no início de suas cartas.
A carta aos Romanos, por exemplo, inicia-se com "Paulo,
servo de Jesus Cristo". A dirigida aos Filipenses começa com uma
frase semelhante: "Paulo e Timóteo, servos de Cristo Jesus". A
carta a Tito também usa essa frase: "Paulo, servo de Deus". A
frase "nós mesmos somos vossos servos por amor de Jesus"
descreve como Paulo e Timóteo viam-se a si mesmos (2 Corín-
Mais do que apóstolo —um servo 133
tios 4:5). Ele se ligou a outros pelos laços do serviço a Cristo
(Epafras e Tíquico, por exemplo [Colossenses 1:7; 4:7]).
A forma verbal de doulos também é usada por Paulo, para
descrever seus trabalhos. "Servindo ao Senhor com toda a hu-
mildade" foi como se expressou quando dirigiu-se aos anciãos
da igreja de Éfeso (Atos 20:19). E Paulo disse aos Filipenses que
Timóteo "serviu comigo no evangelho" (2:22).
Outra palavra que Paulo usou para descrever-se a si próprio
como "servo" foi diakonos, termo usado para qualquer pessoa
que execute um serviço sob ordens. Diácono é palavra portu-
guesa derivada de diakonos. A ênfase desta palavra está no
trabalho que está sendo feito, enquanto a de doulos está na
submissão do servo a seu senhor.
Observe a ênfase na execução do serviço, em 1 Coríntios 3,
em que Paulo condena o espírito de partidarismo na igreja:

"Pois dizendo um: Eu sou de Paulo, e outro: Eu sou de


Apoio, não sois carnais? Afinal de contas, quem é Paulo,
e quem e Apoio, senão ministros pelos quais crestes. . ."
(w. 4-5).

Os que levaram o evangelho aos coríntios eram meros servos


(diakonos). Era a obra de Deus que esses servos estavam fazen-
do, de modo que os coríntios deveriam alinhar-se com o Senhor,
e não com os instrumentos usados por Deus.
Outro exemplo de diakonos encontra-se em 2 Coríntios 6:4
onde a ênfase de novo é colocada na obra: "antes, como minis-
tros de Deus, recomendamo-nos em tudo. . . " Paulo estava
contente porque podia ser um ministro (servo) que faz a obra
do Senhor.
A terceira palavra que Paulo usa para si mesmo, como servo,
é litouraos, termo que se relaciona com serviço público e culto
sacerdotal. Por exemplo:
"A fim de ser ministro (servo) de Cristo Jesus entre os gentios,
no sagrado encargo (serviço) de anunciar o evangelho de Deus"
(Romanos 15:16).
E certo que Paulo aprendera uma lição sobre a humildade sem
nenhuma hipocrisia ou fingimento. O apóstolo considerava alta
honra ser chamado de servo de Deus — um doulos em sujeição
a seu Senhor, um diakonos fazendo o trabalho do Senhor, e um
litouraos levando o evangelho aos perdidos.
O caráter de um servo
Paulo não se contentava em ser chamado de servo só pelo
trabalho que executava. Queria ser servo por dentro, em seu
caráter. Em 2 Coríntios ele fala bastante a respeito de seu minis-
tério (serviço), mas seu trabalho não fica sozinho. Associa-se ao
caráter do trabalhador. No capítulo 4 surge um bom exemplo
disso:
"Pelo que, tendo este ministério, segundo a misericórdia que
nos foi feita, não desfalecemos. . . não andamos com astúcia. . .
Antes, recomendamo-nos à consciência de todos os homens, na
presença de Deus, pela manifestação da verdade" (w. 1-3).
As pessoas a quem Paulo servia não apenas ouviam sermões,
mas viam um sermão vivóí O caráter de Paulo era coerente com
seu trabalho. Uma paráfrase do texto diz o seguinte: "Não
usamos de truques engenhosos, nenhuma manipulação de-
sonesta da Palavra de Deus. Pregamos a pura verdade e, assim,
recomendamo-nos à consciência de todos os homens, à vista de
Deus". O amor, a paciência e a magnanimidade de Paulo mos-
travam que ele era um verdadeiro servo. No versículo 5 da
mesma passagem ele afirma o seguinte:
"Pois não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus, o
Senhor, e nós mesmos somos vossos servos por amor de Jesus".
Os crentes coríntios podiam aceitar a mensagem paulina
como sendo genuína, por causa da qualidade de seu caráter de
servo.
Assim instruiu Paulo a seu discípulo Timóteo:
"E ao servo do Senhor não convém contender, mas sim ser
brando para com todos, apto para ensinar, paciente, corrigindo
com mansidão os que resistem"
(2 Timóteo 2:24,25).
Descrevendo seu ministério ao povo de Tessalônica, diz Paulo:
"Não buscamos glória dos homens. . . ainda que podíamos,
como apóstolos de Cristo, ser-vos pesados. Antes fomos brandos
entre vós, como a mãe que acaricia seus próprios filhos"
(1 Tessalonicenses 2:6-7).
Paulo os tratou com amor e ternura, tendo o bem deles em
Mais do que apóstolo —um servo 135
mente, servindo-lhes como uma mãe serviria a seus filhos.
Os verdadeiros servos não usam máscara. Servem bem porque
são servos. Paulo, motivado pelo Senhor Jesus, demonstrou o
verdadeiro espírito de serviço ao povo de Corinto:
"Porque não nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus,
o Senhor, e nós mesmos somos vossos servos por amor de Jesus"
(2 Coríntios 4:5).
O espírito de serviço do apóstolo era genuíno porque se
fundamentava na glória de seu Senhor. Ele podia trazer à memó-
ria dos crentes de Éfeso:
"Vós bem sabeis. . . como em todo esse tempo me portei no
meio de vós, servindo ao Senhor com toda humildade"
(Atos 20:18,19).
Paulo não usava máscara. Seu caráter de servo era genuíno.
A submissão do servo
O servo bíblico dá-se a si mesmo livre e voluntariamente a fim
de servir tanto a Deus quanto ao homem. Disse Paulo:
"Embora eu seja livre para com todos, fiz-me servo de todos,
para ganhar ainda mais"
(1 Coríntios 9:19).
A partir do momento de sua conversão na estrada de Damas-
co, a submissão à vontade de Deus tornou-se de primordial
importância. As primeiras palavras de Paulo, quando ouviu a voz
que vinha do céu, foram:
"Quem és, Senhor?" (Atos 9:5).
Ele reconheceu que Jesus era Senhor. A partir daquele ins-
tante, Paulo tornou-se servo de Jesus Cristo. Se nós chamarmos
a Jesus verdadeiramente de Senhor, devemos então submeter-
nos a ele em tudo.
A pergunta seguinte de Paulo revelou sua submissão:
"Senhor, que farei?" (Atos 22:10).
Obediência submissa é a atitude de todos os verdadeiros
servos, o primeiro passo do discipulado, que Paulo de boa
vontade empreendeu.
A submissão de Paulo não era a do escravo acovardado que
trabalha por temor do chicote do senhor. Há dignidade na obra
do Senhor Jesus Cristo, dignidade que advém de agradarmos ao
Mestre e executar seus desígnios. Paulo ainda estava prostrado
no pó da estrada de Damasco e o Senhor lhe entregou uma tarefa
especial:
"Agora levanta-te e põe-te em pé. Eu te apareci por isto, para
te fazer ministro e testemunha das coisas que tens visto como
daquelas pelas quais te aparecerei ainda" (Atos 26:16).
A palavra grega traduzida aqui por "ministro" deriva da imagem
associada a navios antigos tripulados por dezenas de remadores,
todos eles escravos. Não tinham direito de escolha quanto ao
lugar aonde iam, nem tinham conhecimento dos perigos que os
aguardavam. Deveriam remar segundo o ritmo determinado
pelo capitão — em total submissão ao comandante — e isso era
tudo o que deles se esperava.
Paulo considerava grandiosa honra ser um escravo de Cristo,
a fim de adiantar o progresso do evangelismo mundial (veja 1
Coríntios 4):
"Para lhes abrir os olhos, e das trevas os converter à luz, e do
poder de Satanás a Deus" (Atos 26:18).
Tendo em vista um propósito desse quilate, a decisão do
apóstolo de tornar-se escravo de Cristo faz sentido, é perfeita-
mente racional.
A submissão voluntária de Paulo dirigia-se ao homem, bem
como a Deus, transformando-o num servo dos homens, por
amor do evangelho, um devedor perante todos, que pagava seu
débito ao partilhar as Boas Novas com todos. Disse ele aos
coríntios:
"Fiz-me servo de todos, para ganhar ainda mais" (1 Coríntios
9:19).
Ele se submeteu ao Senhor como alguém que era compromis-
sado com o evangelho, submeteu-se aos homens a fim de levar-
lhes o evangelho (Colossenses 1:23).
E Paulo ensinou aos outros o espírito de serviço, também.
Os crentes romanos receberam instruções segundo as quais,
devido às misericórdias de Deus, todos deveriam apresentar
seus corpos "como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus"
(Romanos 12:1).
Paulo chamava à esse ato de submissão: "culto racional", isto
é, "ato de adoração espiritual". O apóstolo usou a mesma palavra
no primeiro capítulo, onde disse:
Mais do que apóstolo —um servo 137
"Deus, a quem sirvo em meu espírito, no evangelho de seu
Filho. . ." (Romanos 1:9).
Os romanos deveriam fazer o que Paulo fazia. O culto que
prestassem começaria com a submissão, perante o altar de um
sacrifício vivo, a saber, sua entrega ao senhorio de Cristo.
A tarefa do servo
A submissão é prima em primeiro grau da obediência. Comen-
tando aquela primeira vez em que viu o Senhor, Paulo testemu-
nhou assim:
"Pelo que, ó rei Agripa, não fui desobediente à visão celestial"
(Atos 26:19).
Tão logo compreendeu a mente de Deus, Paulo lhe obedeceu
e transformou esta compreensão em ação.
Às vezes Paulo recebia orientação específica da parte de Deus.
A visão do homem da Macedônia, por exemplo:
"Logo depois desta visão, procuramos partir para a Macedô-
nia, concluindo que o Senhor nos chamava para lhes anunciar-
mos o evangelho"
(Atos 16: 10).
Na maior parte das vezes, a obediência de Paulo assumia um
caráter geral. Ele já sabia que seu chamado era para pregar o
evangelho. Por isso, obedecia, procurando todas as oportunida-
des para pregar. Esforçava-se para fazer tudo para a glória do
Senhor Jesus Cristo e realizar os propósitos de Deus, da forma
como os entendia.
A mensagem do servo
O serviço a Deus, segundo Paulo, estava ligado ao alcance do
evangelho. Assim disse ele aos colossenses:
"Evangelho que ouvistes, o qual foi pregado a toda criatura
que há debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, fui feito ministro
(servo). . . (para) anunciar entre os gentios. . . as riquezas in-
sondáveis de Cristo" (Efésios 3:7,8).
E aos romanos, assim escreveu ele: "Deus, a quem sirvo em
meu espírito, no evangelho de seu Filho. . . "(Romanos 1:9).
Ele descrevia o evangelho que pregava como algo que "pro-
vém de Deus que nos reconciliou consigo mesmo por Jesus
Cristo" (2 Coríntios 5:18).
O maior serviço que Paulo poderia prestar às pessoas que não
tinham Cristo era levar-lhes a mensagem da reconciliação. Ele
havia sido nomeado ministro tanto para judeus como para
gentios, "para lhes abrir os olhos, e das trevas os converter à luz,
e do poder de Satanás a Deus, a fim de que recebam remissão
dos pecados" (Atos 26:18).
Nós, que somos servos de Deus, precisamos de um coração
semelhante ao de Paulo, inflamado da paixão pelas almas dos
homens.
O trabalho do servo
Paulo amava o povo de Deus e entregou-se a si mesmo a
serviço deste povo. Quando diz: "eu fui feito ministro. . . para
convosco" (Colossenses 1:25), não se referia à ordenação nem
à posição. Dizia que havia sido transformado em servo na família
de Deus a fim de ajudá-la e encorajá-la. À semelhança do Senhor
Jesus, ele queria servir, e não ser servido.
Vendo-se a si próprio e também a seus cooperadores como
"servos por amor de Jesus" (2 Coríntios 4:5), dispôs-se a cobrir
qualquer distância, carregar qualquer fardo, por amor aos cren-
tes, tudo que redundasse na glória de Jesus. Nenhum trabalho
era duro demais, nem servil demais. Dos coríntios disse que
eram "carta de Cristo, ministrada por nós" (cuidada por nós [2
Coríntios 3:3]). Cuidou dos crentes tessalonicenses "como a
mãe que acaricia seus próprios filhos" (1 Tessalonicenses 2:7).
"Eu de muito boa vontade gastarei, e me deixarei gastar pelas
vossas almas" (2 Coríntios 12:15). Isso é que é espírito de servi-
ço!
O sofrimento do servo
Uma das realidades pouco confortadoras a respeito do espírito
de serviço segundo a Bíblia é que este envolve sofrimento. Jesus
sofreu como servo, e todos quantos querem ser como ele hão
de sofrer também. Assim escreveu Paulo aos filipenses:
"Pois, vos foi concedido, por amor de Cristo, não somente o
crer nele, como também o padecer por ele" (1:29)-
O próprio Paulo não foi exceção. A partir do momento de sua
conversão, o sofrimento tornou-se padrão de sua vida. Uma das
primeiras coisas que o Senhor revelou ao discípulo Ananias,
Mais do que apóstolo —um servo 139
acerca de Paulo, foi que ele haveria de sofrer muitas coisas pelo
Senhor (Atos 9:16), embora houvesse escapado num cesto, por
cima dos muros de Damasco. Perdeu praticamente tudo quanto
antes valorizava, porque agora Cristo se tornara prioridade nú-
mero um. Escreveu:
"Tenho também por perda, todas as coisas, pela excelência
do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por quem sofri
a perda de todas estas coisas, e as considero refugo"
(Filipenses 3:8).
Paulo foi constituído em guardião da coisa mais sagrada, o
evangelho. Ao cumprir suas responsabilidades de guardar em
segurança esse evangelho num mundo hostil, o sofrimento
tornou-se inevitável.
"Havendo primeiro padecido, e sido ultrajado em Filipos,
como sabeis, tornamo-nos ousados em nosso Deus, para vos
falar o evangelho de Deus, no meio de grande combate. . .
fomos aprovados por Deus para que o evangelho nos fosse
confiado, assim falamos, não como para agradar aos homens,
mas a Deus"
(1 Tessalonicenses 2:2-4).
Além de sofrer pelo evangelho, Paulo sofreu também por
amor à igreja. A igreja de Corinto foi exemplo:
"Pois como as aflições de Cristo transbordam para conosco. . .
Se somos atribulados, é para vossa consolação e salvação"
(2 Coríntios 1:5,6).
O espírito de serviço na igreja com freqüência redunda em
provações.
"Antes, como ministros de Deus, recomendamo-nos em tudo:
na muita paciência, nas aflições, nas necessidades, nas angústias,
nos açoites, nas prisões, nos tumultos, nos trabalhos, nas vigílias,
nos jejuns, na pureza, no saber, na longanimidade, na benigni-
dade, no Espírito Santo, no amor não fingido. . . por honra e por
desonra, por má fama e por boa fama. . . como desconhecidos,
porém bem conhecidos. . . ó coríntios, a nossa boca está aberta
para vós, o nosso coração está dilatado"
(2 Coríntios 6:4-11).
Tudo isso Paulo suportou como servo de Cristo. Posterior-
mente, nessa carta, ele lembra aos coríntios que sofrerá muito
mais do que os falsos mestres, que afirmavam ser servos de Deus,
mas na verdade evitavam o sofrimento.
"São ministros de Cristo? (falo como fora de mim) eu ainda
mais", desafiou Paulo: "em trabalhos, muito mais. . . em açoi-
tes. . . em prisões. . ."
(2 Coríntios 11:23).
Para Paulo, o caminho da glória era o caminho do sofrimento.
"Se é certo que com ele (Cristo) padecemos, para que também
com ele sejamos glorificados. Para mim tenho por certo que as
aflições deste tempo presente não são para comparar com a
glória que em nós há de ser revelada" (Romanos 8:17-18).
Tudo quanto ele sofreu com Cristo, considerou compartilha-
mento dos sofrimentos de Cristo, "a comunhão dos seus sofri-
mentos" (Filipenses 3:10). Aos colossenses assim disse ele:
"Agora me regozijo no sofrimento no que padeço por vós"
(Colossenses 1:24).
Bem à semelhança de seu Senhor, que veio para servir, e dar
sua vida em resgate por muitos. Faríamos bem em seguir o
exemplo que Paulo nos deixou. Jamais se envergonhou de ser
um escravo. No auge da tempestade, quando os marinheiros
perderam toda esperança de sobrevivência, Paulo lhes disse:
"O anjo de Deus, de quem eu sou e a quem sirvo, esteve
comigo: Paulo, não temas. Importa que sejas apresentado a
César, e Deus te deu todos os que navegam contigo" (Atos
27:23-24).
Essa é a história de sua vida. Ele pertencia a Deus, como seu
escravo, e seu prazer estava em servi-lo.
13
Aos Pés de Jesus

D
eus nos dá alguns quadros esquemáticos fascinantes, no
Novo Testamento, esboçando caracteres cujo espírito de
serviço representam modelos para nós. Deles obtemos
perspectivas valiosas quanto a servir a Deus com mais eficiência.
Estéfanas, dedicado ao serviço
Um dos homens pouco conhecidos no Novo Testamento é
Estéfanas, nome que se assemelha ao de Estêvão, que era líder
na igreja primitiva, e veio a tornar-se o primeiro mártir. Ambos
os nomes significam coroa, ou coroado. Estéfanas só é mencio-
nado no começo e no fim de 1 Coríntios: Paulo havia batizado
Estéfanas em sua casa (1:16). Ele foi um dos primeiros a conver-
ter-se em Corinto (16:15). Sendo um dos líderes da igreja em
Corinto, foi escolhido com outros dois a fim de levarem uma
oferta financeira de Corinto para Paulo, em Éfeso (veja 16:17).
Há menção de que havia uma carta, a resposta de Paulo, a qual
demos o nome de 1 Coríntios. Estéfanas e seus companheiros
evidentemente levaram esta carta com eles, voltando para Co-
rinto.
Paulo faz comentário significativo a respeito de Estéfanas e
sua casa:
"Sabeis que a família de Estéfanas é as primícias da Acaia, e
que se tem dedicado ao ministério dos santos"
(1 Coríntios 16:15).
"Dedicado" significa que a família se empenhara com firmeza
na tarefa. Vemos aqui a idéia de entrega pessoal. Estéfanas se
havia entregado à tarefa de servir ao povo de Deus, sendo que
o versículo seguinte esclarece que ele "auxilia na obra e traba-
lha".
Nossas igrejas estão cheias de pessoas que querem ser alimen-
tadas e atendidas para ter suas necessidades satisfeitas. Porém,
onde estão aqueles cuja prioridade número um seja consagrar-se
de todo o coração a servir aos demais?
Pela dedicação de Estéfanas ao serviço da igreja, Paulo exor-
tou aos coríntios a sujeitar-se a pessoas como eles (cp 16:16), e
a reconhecer a tais pessoas (16:18). É fácil confiar em um líder
que tenha demonstrado sensibilidade e preocupação por meio
de serviço prestado aos outros. Queira Deus que nossas igrejas
sejam cheias de líderes como Estéfanas!
Arquipo, fonte de serviço
Arquipo, mencionado somente duas vezes na Bíblia, viveu em
Colossos, cidade situada no que é hoje o ocidente da Turquia.
Na carta que Paulo escreveu a Filemon, homem preeminente de
Colossos, lemos que Arquipo era seu "companheiro de lutas"
(Filemon 2), uma das expressões favoritas de Paulo aplicadas aos
que o haviam acompanhado na batalha pelas almas dos homens.
Evidentemente havia pessoas que haviam sido arrancadas das
mãos do inimigo graças à luta a que se atirara Arquipo como bom
soldado de Jesus Cristo.
A segunda menção de Arquipo nos dá uma idéia de seu
trabalho. Quando Paulo, preso em Roma, escreve aos crentes de
Colossos, menciona pelo nome vários cristãos. Justamente no
final da carta Paulo tem uma palavra especial de exortação a
Arquipo:
"Dizei a Arquipo: Atenta para o ministério que recebeste no
Senhor, para o cumprires" (4:17).
A fonte do ministério (serviço) de Arquipo era o Senhor. Deus
lhe havia dado um serviço a realizar. O ponto importante aqui é
que tanto a descrição do cargo como o trabalho vieram do
próprio Deus.
Uma versão parafraseia o texto assim: "Lembra-te de que o
Senhor foi quem te ordenou para o ministério — trata de pô-lo
em prática". O fato de sabermos que o Deus vivo é quem nos
ordenou representa um incentivo poderoso para "enfrentar
qualquer barreira". É possível que Arquipo estivesse "amolecen-
Aos Pés de Jesus 143
do" ou, pelo menos, em perigo de arrefecer o ânimo. A mensa-
gem de Paulo era que, se ele recuasse no ministério, estaria
abandonando Deus.
Nem Arquipo nem nós podemos desapontar a Deus.
Marta, propósito do serviço
Marta, de Betânia, talvez seja uma das servas mais bem co-
nhecidas no Novo Testamento, com freqüência vista em con-
traste com sua irmã Maria, que se sentava aos pés de Jesus,
enquanto Marta estava ocupada na cozinha. É verdade que o
profundo anseio de Maria em conhecer o Senhor, e sua humil-
dade para aprender aos pés de Cristo representam a mais urgen-
te prioridade dos cristãos, coisa que Marta precisava aprender.
O Senhor salientou que aquele tipo de adoração era algo real-
mente necessário (Lucas 10:38-42).
Marta servia, porém, na pressa desenfreada, acabou esquecen-
do-se do verdadeiro propósito do serviço. Diz-nos Lucas que ela
"andava distraída em muitos serviços" (v. 40). Importunava-a o
fato de Maria não estar ajudando-a, e que o Senhor não parecia
ter notado isso. E assim, reclamou:
"Senhor, não te importas de que minha irmã me deixe servir
só? Dize-lhe que me ajude" (v. 40).
Nada havia de errado com o serviço que ela prestava; entre-
tanto, o objetivo dela estava distorcido. O Senhor carinhosamen-
te a repreendeu por dar excessiva atenção às questões materiais.
Ela queria ser notada, quis que o Senhor mandasse Maria ajudá-la
na cozinha. Perdera a atitude de uma serva verdadeira.
Entretanto, o registro bíblico não deixa a história de Marta
encerrar-se aqui. João a completa em seu evangelho (11:1-12:2).
Ele nos mostra que Marta aprendera bem a lição, porque ela veio
a brilhar como mulher de grande fé, por ocasião da morte de seu
irmão Lázaro. Marta deu um dos mais importantes testemunhos
de toda a Escritura a respeito de quem era Cristo (11:27). Após
ter falado com o Senhor, foi chamar Maria (v. 28). Não houve
ciúme aqui. Momentos após, embora de início não achasse que
Lázaro ressuscitaria, providenciou a remoção da pedra do sepul-
cro e, assim, viu "a glória de Deus", como lhe prometera o
Senhor (w. 49-41).
Na próxima vez que Jesus visitou Betânia (12:2), Marta servia,
como usualmente; Maria estava aos pés do Senhor, e Lázaro se
reclinava à mesa, com ele. Entretanto, não houve sequer um
murmúrio de queixume da parte de Marta. Ela agora prestava
serviço com sorriso, não com queixas. Qual a razão da mudança?
"Ofereceram-lhe ali um jantar. Marta servia" (12:2).
O propósito dela era servir ao Senhor. Já não interessava a ela
quanto serviço a aguardava, nem quem estaria (ou não estaria)
ajudando-a. O propósito que Marta pusera diante de si fazia toda
a diferença.
Quando o objetivo dela foi demonstrar sua competência
como dona-de-casa e cozinheira, tornara-se distraída e frustrada.
Quando seu propósito foi servir ao Senhor, fazer-lhe uma refei-
ção, ela prosseguia no serviço sem queixar-se. Esta lição primária
no que concerne ao serviço é de importância crucial para nós,
hoje.
Febe, ajuda prestada pelo serviço
No último capítulo de Romanos há uma pequena nota fasci-
nante, acerca de outra mulher cristã que servia com excelência
(Romanos 16:1-2). O nome de Febe significa "brilhante, radiante
ou pura". Febe era uma mulher cristã que morava na Cencréia,
uma das cidades portuárias de Corinto, localizada num istmo
estreito entre os mares Egeu e Adriático, tendo um porto de cada
lado. Paulo a visitara ali (Atos 18:18), plantando uma igreja, sem
dar mais detalhes.
Ao escrever sua carta aos romanos, estando em Corinto, Paulo
soube que Febe planejava viajar para Roma. É bem provável que
tenha sido ela a portadora da carta aos crentes romanos. Tal carta
é o coração doutrinário do Novo Testamento, tendo Febe o
privilégio de servir à igreja romana ao levá-la àqueles irmãos.
Paulo encorajou os romanos a receberem Febe como irmã na
comunidade eclesiástica cristã ali:
"Recomendo-vos a nossa irmã Febe. . . para que a recebais no
Senhor, como convém aos santos" (16:1-2).
Ele a apresentava como sendo alguém que merecia participar
daquela fraternidade cristã, e pediu-lhes que a ajudassem em
tudo quanto fosse preciso.
Paulo chamava Febe de pessoa "que serve à igreja que está em
Cencréia" (v. 1). Ela deveria ser ajudada, porquanto ajudara
Aos Pés de Jesus 145
muitas pessoas, inclusive a Paulo (v. 2). Sendo, provavelmente,
uma mulher de posses, Febe se destaca como exemplo de
serviço piedoso à igreja. Enquanto hoje os "direitos" da mulher
ocupam a atenção de modo especial em muitas igrejas, havendo
muita exigência quanto a conceder-se mais autoridade às mu-
lheres, Febe de maneira alegre assumiu o papel de serva e nesse
espírito alegre ajudou a muitos.
Onésimo, utilidade do serviço
Onésimo era escravo de Filemom, em Colossos. Roubou
algum dinheiro de seu senhor e fugiu. Viu-se, por fim, em Roma,
onde acabou encontrando-se com o apóstolo Paulo. Tendo-se
convertido a Cristo, Onésimo enfrenta a questão moral, agora,
de suas responsabilidades quanto às más ações do passado.
(Qualquer escravo fugitivo normalmente seria morto, se apa-
nhado.) Havia porém uma circunstância complicadora da situa-
ção, e muito interessante: o senhor de Onésimo era Filemom,
um cristão que Paulo conhecia.
A ação justa que o escravo de Filemom, agora acatador da lei,
deveria pôr em prática, seria voltar para seu senhor. Paulo amava
a Onésimo, que se fizera querido do apóstolo mediante o serviço
que lhe prestara na prisão. E foi assim que Paulo escreveu uma
carta a Filemom e enviou-a por intermédio de Onésimo. Nesta
carta, Paulo explica a situação e roga a Filemom que perdoe a
Onésimo, chegando a oferecer-se para ressarcir quaisquer pre-
juízos financeiros. Se Filemom amasse e respeitasse a Paulo, o
que era realidade, não havia como esse crente pudesse recusar
a atender ao velho apóstolo. Pelo que sabemos, Filemom per-
doou a seu escravo fugitivo.
A recomendação de Paulo a Onésimo como servo é interes-
sante:
"Peço-te por meu filho Onésimo, que gerei nas minhas pri-
sões. Outrora ele te foi inútil, mas agora a ti e a mim muito útil"
(Filemom 10:11).
Há, aqui, um trocadilho com o nome de Onésimo, que quer
dizer "útil". Sendo ladrão e fugitivo, fora inútil; como crente,
tornara-se o que seu nome indicava: útil.
Não é para isso que os servos existem: para serem úteis?
É evidente que Onésimo estivera servindo a Paulo de algum
modo significativo. Talvez lhe preparasse as refeições, ou levas-
se mensagens de Paulo para outras pessoas, em Roma.
Fosse o que fosse, assim diz Paulo a respeito de Onésimo:
"Mando-o de volta a ti, a ele que é o meu coração. Eu bem
quisera conservá-lo comigo, para que por ti me servisse nas
prisões do evangelho" (w. 12-13).
Sendo servos de Cristo, e servindo-nos uns aos outros, encon-
tramos nossa capacidade de serviço.
Paulo, altruísmo no serviço
O segundo capítulo de Filipensès é uma das mais importantes
passagens escriturísticas a respeito do espírito de serviço. Inicia
com uma exortação para que tenhamos atitude de servo - os
interesses pessoais jamais devem assumir precedência sobre os
interesses do próximo (w. 3-4). O exemplo máximo é o do
Senhor Jesus Cristo:
"De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve
em Cristo Jesus que. . . tomando a forma de servo. . . humilhou-
se a si mesmo, sendo obediente até a morte, e morte de cruz"
( w . 5-8).
O restante do capítulo fornece três exemplos humanos de
espírito de serviço: Paulo, Timóteo e Epafrodito. Assim diz Paulo
sobre si próprio:
"E, ainda que seja oferecido por libação sobre o sacrifício e
serviço da vossa fé, folgo e me regozijo com todos vós" (v. 17).
Paulo compara a si mesmo com a "oferta derramada" do
Antigo Testamento (Números 15:1-12). Em conexão com as
ofertas queimadas, o vinho era derramado em ritual, sobre o
cordeiro sacrificial que era colocado sobre o altar, repre-
sentando o Senhor Jesus que "derramou a sua alma na morte"
(Isaías 53:12). O vinho derramado sobre a oferta perdia-se de
vista imediatamente.
Essa é a imagem que Paulo usa. Sentia-se feliz em ser uma parte
não-observável daquilo que os filipenses estavam fazendo para
Deus. Que exemplo de humildade e espírito de serviço! É uma
atitude que se assemelha à do próprio Jesus, que assumiu a forma
de servo e "a si mesmo se esvaziou" (Filipenses 2:7). Pouquíssi-
mos crentes que a si mesmos se consideram servos de Deus
mostram-se dispostos a serem oferta de libação ao serviço do
Aos Pés de Jesus 147
próximo. Tornamo-nos invejosos do ministério alheio, cheios
de ciúme do sucesso de outros. Entretanto, se formos mesmo
servos, nós nos regozijaremos sempre que o Senhor for glorifí-
cado.
Timóteo, excelência no serviço
Outro exemplo de espírito de serviço de Filipenses 2 é Timó-
teo (w. 18-24). É interessante que Paulo mencione a si próprio
em um único versículo, nesta passagem, porém tem muito que
dizer do serviço de Timóteo e Epafrodito, nos versículos seguin-
tes. Timóteo é tido como alguém que "serviu comigo no evan-
gelho" (v. 22). Aqui está a excelência de seu serviço:
"A ninguém tenho de igual sentimento, que sinceramente
cuide do vosso bem-estar" (v. 20).
Diferente de muitos outros, o interesse de Timóteo pelos
filipenses era genuíno. O moço não teve motivos estranhos, não
alimentou desejos egoístas. Timóteo foi como um filho que
servia a seu pai, com obediência e fidelidade (v. 22). Outros
"buscam o que é seu, e não o que é de Cristo Jesus" (v. 21). No
entanto, Timóteo era diferente. Estava interessado no bem-estar
dos crentes, às custas de seu próprio bem-estar. Estava sempre
disposto a servir, e a ir quando e aonde o mandassem.
Epafrodito, limitações do serviço
O último exemplo de espírito de serviço, em Filipenses 2, é
o de Epafrodito, que chegara a pouco de Filipos a Roma, onde
estava Paulo, na prisão. Trouxera consigo uma oferta em dinhei-
ro, da parte dos crentes. Paulo o chama de "vosso enviado para
prover às minhas necessidades" (v. 25). O caminho entre Filipos
e Roma era longo mas Epafrodito empreendera a viagem a fim
de assegurar a Paulo o amor da igreja filipense. Após chegar a
Roma, Epafrodito adoeceu gravemente, e assim permaneceu
algum tempo. Chegaram em Filipos notícia de sua doença, pelo
que os crentes filipenses escreveram expressando preocupação.
Agora é Paulo que lhes escreve, e faz alguns elogios notáveis a
Epafrodito.
Paulo o descreve como "meu irmão" (v. 25), indicando o laço
comum que os unia na família da fé. É chamado de "cooperador"
e de "companheiro nos combates" também, indicando sua pron-
tidão para envolver-se na luta. Paulo encerra a lista de elogios
chamando-o de "vosso enviado para prover às minhas necessi-
dades".
Epafrodito amava o povo de sua igreja, estando ansioso por
voltar para seu trabalho ali. Preocupava-se porque os crentes
demonstraram cuidado pela doença que o acometera, de modo
que Epafrodito estava ansioso mais pelo bem-estar de sua igreja
que pelo seu próprio bem-estar (v. 26). Paulo sugere, ao escrever
aos filipenses, que lhe preparassem uma recepção digna de
herói, quando Epafrodito chegasse à cidade. Por quê?
"Porque pela obra de Cristo chegou até bem próximo da
morte, não fazendo caso da vida para suprir para comigo o
serviço que vós próprios não podíeis prestar" (v. 30).
Epafrodito esteve disposto a arriscar sua própria vida em prol
de outros. Este servo era marcado pela disposição em cumprir
todas as suas obrigações. Nenhuma tarefa lhe era difícil demais,
nenhum lugar longe demais, nenhum preço a pagar elevado
demais.
Uma das coisas que caracterizam os cristãos de hoje é o baixo
grau de entrega em compromisso. Os crentes não aparecem
porque o tempo é adverso, diferente do que esperavam. Desis-
tem de um trabalho na igreja porque interfere com seus diverti-
mentos. Abandonam a obra porque terceiros não querem
cooperar. As descvilpas despencam, umas após as outras, mas a
razão verdadeira porque falham é que os limites do serviço são
fixados pelo interesse próprio. Epafrodito nos provê um exem-
plo de verdadeiro espírito de serviço cristão. A apresentação de
nosso corpo como sacrifício vivo é, afinal, nosso culto racional
(Romanos 12:1). Os sacrifícios não colocam limites ao fogo.
Tíquico, obediência no serviço
Um dos caracteres preeminentes como servos, no Novo Tes-
tamento, é Tíquico, mencionado em cinco livros. Paulo o con-
siderava um de seus cooperadores mais confiáveis. Isso não é de
admirar, já que Tíquico era tudo que um servo deve ser — digno
de confiança, fiel, bem disposto, leal e obediente.
Durante sua terceira viagem missionária, Paulo coletou ofer-
tas em dinheiro, das igrejas, em todas as áreas de seu campo
missionário, a fim de ajudar os crentes pobres de Jerusalém.
Aos Pés de Jesus 149
Cada setor escolheu homens dignos de confiança que acompa-
nhassem Paulo, levando o dinheiro a Jerusalém. Tíquico era um
desses homens, selecionado dentre os crentes das igrejas da Ásia
(Atos 20:4). Este estava feliz por ser capaz de entregar-se à tarefa
de atender aos crentes pobres, para a glória de Deus.
Tíquico reaparece três anos mais tarde, em Roma, durante a
primeira vez que Paulo é aprisionado. O apóstolo escreve a
respeito do serviço especial que esse homem prestava, em duas
cartas (Efésios 6:21-22, Colossenses 4:7-8). A descrição feita
deste crente é bastante reveladora. Tratava-se de um "irmão
amado, e fiel ministro do Senhor". Em primeiro lugar, é alguém
de mesma posição na família de Deus. Paulo e Tíquico eram
irmãos, amavam-se e respeitavam-se mutuamente.
O segundo relacionamento entre esses dois homens era o de
senhor/servo. Tíquico sentia-se feliz em assumir o papel humilde
de obediência à liderança do apóstolo mais velho. Sendo "fiel
ministro" (servo), Tíquico "tocava o segundo violino":

"É preciso muito mais graça do que consigo dizer,


para a tarefa de tocar bem, muito bem, o segundo
violino".

Tíquico compreendia que os fiéis seguidores de Cristo são


verdadeiros servos.
O terceiro relacionamento para com Paulo era o de "compa-
nheiro no serviço". Ambos se consideravam servos do Senhor
Jesus Cristo. Haviam sido comprados por um preço, redimidos
da escravidão do pecado, e alegremente se submeteram ao novo
Senhor, como escravos de sua graça.
As referências em Efésios e Colossenses indicam que Tíquico
recebeu outra incumbência de Paulo: levar duas cartas de Roma
a duas cidades, mais uma carta pessoal para Filemom. Os manus-
critos de três livros do Novo Testamento foram colocados sob
seus cuidados, enfrentando uma viagem longa e cheia de dificul-
dades. Tíquico era um homem digno de confiança.
Outras duas incumbências dadas a Tíquico transparecem no
Novo Testamento. Ao escrever a Tito, em Creta, Paulo lhe diz
que Tíquico está disponível -- poderia ser enviado para substituir
Tito em Creta, de modo que este poderia sair e visitar Paulo em
Nicópolis, no período entre duas prisões, em Roma (3:12). De
novo Tíquico revela-se um servo obediente.
A última menção a Tíquico na Bíblia (2 Timóteo 4:12) indica
que ele havia sido enviado a Éfeso. Fiel até o fim, desempenha
o papel de servo, perante Paulo, indo aonde é enviado, fazendo
o que lhe é ordenado. A obediência foi a grande qualidade desse
servo.
Onesíforo, coragem no serviço
Duas breves referências de Paulo, em seu carta final, é tudo
quanto sabemos a respeito de Onesíforo (2 Timóteo 1:16-18;
4:19). Aparentemente morava em Éfeso, durante a prisão de
Paulo teve oportunidade de visitar Roma, tendo procurado o
apóstolo. Diz Paulo: "Diligentemente me procurou e me achou"
(1:17).
Após ter encontrado Paulo, Onesíforo cuidou do apóstolo
("ele me recriou" [1:16]), querendo dizer com isso que esse
obreiro lhe ofereceu amizade e talvez ajuda financeira também.
Paulo o elogiou pelos seus "serviços", enquanto estava em Éfeso
também (1:18). Sem dúvida, tais serviços relacionavam-se à
igreja que lá estava. Todas as igrejas precisam de obreiros que
desejam servir.
O que se salienta em particular a respeito da obra de Onesíforo
é sua coragem. Paulo se lembra dele, contrastando-o com outros
dois: Figelo e Hermógenes, que se envergonharam de Paulo,
como prisioneiro, e dele fugiram (1:15). A rejeição da parte deles
desapontou o velho apóstolo, que obteve, contudo, grande
conforto na coragem de Onesíforo, que "não se envergonhou
das minhas algemas" mas permaneceu fiel (1:16). O estigma do
tribunal e da prisão não fez a mínima diferença para Onesíforo.
Aceitando um risco pessoal, encontrou o apóstolo condenado
pelos ímpios, e ministrou-lhe. Eis um grande exemplo de cora-
gem no serviço.
Conclusão
As Escrituras nos ensinam claramente que a pessoa que Deus
usa tem o coração de servo. O foco central de nosso espírito de
serviço — ou nossa atitude de servo — é Jesus Cristo, o Servo
perfeito que se tornou nosso Senhor. Foi encontrado um poema
na Bíblia de J. N. Darby que estabelece de maneira muito bonita o
relacionamento entre o Senhor Jesus e seus servos:

Bem em baixo, Senhor Jesus,


Sob teus pés, é meu lugar.
Ali onde aprendi lições profundas,
A verdade que me libertou.

Livre de mim mesmo, Senhor Jesus, eis-me


Livre dos costumes dos homens,
Das cadeias dos pensamentos que me prendiam,
E que jamais voltarão a prender-me.

Mais ninguém, senão tu mesmo, Senhor Jesus,


Conquistou minha vontade desviada.
Não fora eu constrangido por teu amor
E até agora estaria desviado. Até agora!

A submissão a Cristo demonstra-se na submissão uns aos


outros. Um copo de água fria, dado em nome de Cristo a um
pequenino, é ato de serviço prestado ao Senhor (Mateus 25:34-
40). A ordem para que nós nos sirvamos "uns aos outros em
amor" (Gálatas 5:13), não nos permite outra opção. Uma igreja
local que tenha bastante servos, que disponha de grandes
líderes e de crentes humildes, há de ser uma igreja sadia, feliz e
próspera.
152 Ele Humilhou-se a Si mesmo
Servir ao Senhor com alegria é servi-lo (ministrar) com base
no amor; no amor de Deus.

Eu servi, mas com o coração pesado,


E no serviço pus pouco amor, e pouca confiança.
Ele é meu Senhor, devo servir,
E por isso servi — porque tinha obrigação.

Daí, na monotonia seca de minha estrada


Surgiu o raio chamejante de uma idéia melhor;
Devia meu serviço a um Deus amoroso,
E, assim, eu servi — precisava servir.

Oh! O Senhor tornou doce o meu serviço,


E, como um raio de glória vindo do céu,
Veio-me a certeza de que servir é alegria.
Assim, servi, por amor!
"Jesus, sabendo que o Pai tinha depositado
em suas mãos todas as coisas, e que havia
saído de Deus e ia para Deus... colocou
água numa bacia, e começou a lavar os pés
dos discípulos" (João 13:3-5)

A vida de Jesus Cristo — o supremo Filho de Deus


— contrasta fortemente com a era de egoísmo em que
vivemos. O Criador de todas as coisas tornou-se o
Servo Sofredor; o Deus imortal desceu à terra "para
servir e dar a sua vida em resgate por muitos".
Neste livro inspirador, Kenneth Fleming afirma
que conhecer e seguir a Jesus significa amar
verdadeiramente a Deus e ao próximo, e que a prova
desse amor é a renúncia aos interesses pessoais em
benefício de outrem.
Ele Humilhou-se a Si Mesmo é tocante apelo a
que em tudo imitemos o Servo perfeito, aquele que
glorificou o Pai ao servir humildemente aos
pecadores.

Kenneth Fleming é professor de missões no


Emmaus Bible College, em Dubuque, Iowa, E. U. A.

1758-2 ISBN 0 - 8 2 9 7 - 1 7 5 8 - /
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