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A I.A. COMO SUJEITO DE DIREITO E QUAIS OS POSSÍVEIS FUNDAMENTOS


LEGAIS PARA SUA TUTELA JURÍDICA?

RESUMO

Muito se tem discutido acerca da Inteligência Artificial, assunto bem presente na


ficção científica, mas cogita-se, com certa frequência, a relação entre humanos e máquinas, a
forma como a mente humana e computador se assemelham. Elementos estes que cada vez
mais parecem ser transportado dos livros e filmes para o nosso cotidiano, a ponto de termos
robôs com cidadania, como o caso da robô Sophia. Pensado nisso, discutimos tal temática
sobre o prisma do direito, a capacidade de uma máquina de exibir um comportamento
inteligente semelhante a um ser humano. Assim, este trabalho tem por objetivo entender quais
os motivos que levariam ao reconhecimento da Inteligência Artificial - I.A. como sujeito de
direitos. Compreendendo a dinâmica da relações jurídicas entre humanos e animais para
construir o entendimento quanto a este tema.

Palavras-chave: Inteligência Artificial; Direito; Direito Civil; Sujeito De Direitos;


Personalidade; Personalidade Jurídica; Pessoas Eletrônicas; Utilitarismo; Pós-humanismo.

SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO 2. DESENVOLVIMENTO 2.1 A inteligência artificial - I.A. 2.2 A relação


entre humanos e não-humanos no direito 2.3. O exercício de direitos no direito civil brasileiro
2.3.1 Pessoas no Código Civil 2.3.2. Direito da personalidade 2.4. Reconhecimento de uma
I.A. como sujeito de direito 2.5. Consequências do reconhecimento da I.A. como sujeito de
direito 3. Conclusão Referências.

1. INTRODUÇÃO

O presente trabalho se propõe a discutir as novas tecnologias, no que concerne


na manifestações de inteligência artificial (I.A.), traçando um paralelo jurídico do
passado e a relação humana com entes inumanos, o presente analisando brevemente
2

como construímos realidade jurídica para além do mundo natural e futuro


vislumbrando o que o nosso direito atual é capaz de lidar e nos aspectos em que se faz
necessário uma inovação legislativa e doutrinária.
Seres inanimados que são tomados de súbita consciência, tornando-se
compartilhadores da razão juntamente com o ser humano, não é tema novo em nossa
sociedade, em muitos casos tratados em literatura ficcional, como no caso do
Frankenstein de Mary Shelley ao mito clássico do Pigmaleão, passando pela história
do Golem de Praga, pelo robô de Karel Čapek, que cunhou o termo, são algumas das
literaturas que estimulam a criatividade da humanidade no desenvolvimento de novas
tecnologias.
Nos últimos séculos, a produção científica no ramo da Tecnologia da
Informação, tem crescido em ritmo expressivo, conforme previsão de ​o Gordon E.
Moore1, o número de transistores dos chips teria um aumento de 100%, pelo mesmo
ônus financeiro, a cada período de 2 anos, ou seja, as novas tecnologias, possibilitam o
desenvolvimento de outras novas tecnologias em períodos cada vez mais curtos.
Considerando que o desenvolvimento tecnológico que a humanidade detém na
atualidade, somos privilegiados por presenciar o nascimento não apenas de novas
tecnologias ou de uma nova revolução industrial, mas também por podemos
vislum​brar o prelúdio de uma era em que robôs, androides e outras manifestações de
inteligência artificial (I.A.), cada vez mais sofistica​das, e com interferência gradativa e
progressiva em nossa socieda.
As relações humanos não são mais as mesmas que a 70 anos atrás, o direito de
igual modo não é o mesmo, neste ritmo constante de transformações sociais, culturais,
econômicas e políticas, exigem do direito uma constante renovação, esta renovação
sempre precedida de um olhar para o passado, para não cometermos os menos erros,
mas também com um olhar ao futuro, pois respostas antigas não responde às novas
inquietações sociais, a sociedade espera, dos juristas as respostas para os seus
conflitos. Tratando-se de uma área altamente significante para estudo exploratório.
Posto isto, na primeira parte do presente trabalho buscou trazer o conceito de
inteligência artificial, e seus diferentes níveis de manifestação, abordando a concessão

1
​PALMA, José Carlos; MORAES, Fernando; CALAZANS, Ney. Métodos para desenvolvimento e distribuição
de IP cores. Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil: PPGCC-FACIN-PUCRS, 2001. p. 8.
3

de cidadania ao robô Sophia, bem como discutindo a identificação de uma consciência


em uma máquina, ou elemento que produza dúvida significante da existência da
consciência, a partir do trabalho do matemático Alan M.Turing.
Posteriormente, na segunda parte trago desde os tempo antigos até os dias
atuais a relação de animais humanos e animais não humanos e suas consequências
jurídicas, dos processos medievais, onde se buscava uma responsabilização de tais
seres até a tutela do meios ambiente, presente no nosso ordenamento jurídico atual.
Na terceira parte são apreciados a tutela dos direitos da pessoa no Código Civil
de 2002, tratando desde sua elaboração, a construção historia da terminologia sujeito
de direitos, pessoa, personalidade e as teorias da capacidade jurídica, abordando
institutos do direito civil atual, como direitos da personalidades e as diferentes
personalidades existentes e sua forma de constituição.
Em seguida, tratando na quarta parte da possibilidade do reconhecimento da
inteligência artificial como sujeitos de direitos, partindo de uma perspectiva
internacional para a realidade nacional, abordando a temática das ​electronic persons​,
como o chatbot Shibuya Mirai e o robô ​Sophia, ambos inteligências artificiais que já
possuem direitos básicos, como domicílio e cidadania e com isso apresentar o dilema
que surge frente a esse tratamento.
Tratando na última parte, as consequências jurídicas, para cada um dos
caminhos adotados para dissolução do dilema anteriormente apresentado, partido
primeiro do entendimento como a teoria do objeto e sua consequente visão pelo prisma
do Código Civil de 2002, para posteriormente apresentar a teoria das pessoas
eletrônicas.
No tocante a metodologia adotada neste estudo, foi o levantamento
bibliográfico sobre os pontos observados na análise, como o conceito de pessoa,
sujeito de direitos, capacidade, personalidade e os direitos dos animais não-humanos.
Foram realizadas pesquisas nas atuais doutrinas, artigos científicos, assim como na
legislação brasileira pertinente ao assunto em estudo.

2. DESENVOLVIMENTO

2.1. A inteligência artificial - I.A.


4

Inteligência artificial é a ciência e a técnica que visa a reproduzir artificialmente


comportamentos considerados inteligentes, seja por meio da aprendizagem, linguagem,
reconhecimento visual de formas e resolução de problemas em geral e o raciocínio
lógico-matemático2.
Se aplicada ao conceito de aprendizagem automática, os computadores não só são
capazes de pensar como de aprender, agindo em conformidade com o que sabem de
experiências passadas e/ou de uma infinidade de possibilidades.
A concretização mais imediata da inteligência artificial e da aprendizagem autônoma
que é chamada de redes neurais artificiais, estas são como as redes neurais do nosso cérebro
humano, permitindo processar dados e estabelecer relações de forma a criar determinadas
conclusões práticas.
As redes neurais artificiais podem ser treinadas, por exemplo, sua aplicação em fotos,
tem gerado algoritmos capazes de identificar fotos de praias, lugares e até mesmo de pessoas,
fotografadas a partir de um smartphone, esta capacidade decorre do aprendizado prévio e de
sua capacidade de aprender com novas informações introduzidas ao seu banco de dados.
Os cientistas que trabalham no desenvolvimento dessas inteligências artificiais,
costumam dividi-las em três segmentos, sendo eles:
Inteligência artificial fraca (Artificial narrow intelligence) - Esta é a inteligência que
encontramos no nosso dia a dia, nos auxiliando a realizar diferentes tarefas simples, desde o
reconhecimento facial, reconhecimento de lugares, objetos e animais, sendo também utilizada
na em forma de chatbot, que nada mais é que um programa de computador que simulando
uma conversa humana, para a qual fora previamente programado. Baseando-se na análise e
processamentos de dados e encontrando correlações entre si e simulando o raciocínios
humano3.

2
IA, Inteligência Artificial. O que é inteligência artificial. Projeto Léxico Panlatino da Inteligência Artificial foi
proposto pelo Grupo TermNeo em novembro de 2004, na reunião da Rede Realiter. Disponivel em:
<​https://www.observatoireplurilinguisme.eu/portalingua/realiter.net/IMG/doc/InteligenciaArtificial.doc​> Acesso
em: 8 nov. 2018.
3
NAKABAYASHI, Luciana Akemi et al. A contribuição da inteligência artificial (IA) na filosofia da mente.
2009. p 101. Disponivel em:
<​https://www.inbot.com.br/artigos/educacional/A-contribuicao-da-Inteligencia-Artificial-na-filosofia-da-mente-
Luciana-Akemi-Nakabayashi.pdf​> Acesso em: 8 nov. 2018
5

Hoje esta tecnologia tem encontrado inúmeras funcionalidades na indústria como o


caso do IBM Watson e do Google A.I. e mesmo que aparentemente ainda rudimentares e
distantes da nossa realidade, tais tecnologia já tem demonstrado resultados impressionantes
como uma IA com capacidade de debater com um homem4 algo que até pouco tempo
inimaginado. Contudo as inteligências artificiais neste nível desempenham atividades que
apenas foram previamente programadas e por mais que complexo possa ser a construção de
sua resposta, esta não reflete uma linha de raciocínio único, ou seja, ela foi ensinada a agir
daquela determinada forma.
Inteligência artificial forte (Artificial general intelligence) - Esta como podemos
presumir pelo próprio nome, é uma inteligência que mais se aproxima da consciência humana5
nas palavras da psicóloga Linda Gottfredson considera-se inteligente aquele que seja capaz
de:

(...) é uma capacidade mental muito geral que, entre outras coisas,
implica a habilidade para raciocinar, planejar, resolver problemas, pensar de
maneira abstrata e aprender da experiência. Não se pode considerar um mero
conhecimento enciclopédico, uma habilidade acadêmica particular ou uma
destreza para resolver um teste. Entretanto, reflete uma capacidade mais
ampla e profunda para compreender o ambiente – perceber, dar sentido às
coisas ou imaginar o que deve ser feito (Gottfredson, 1997, p. 13).6

Logo trata-se de I.A. que seja capaz, não apenas de um sistema capaz de analisar e
processar dados, mas que capaz de aprender todo tipo de assuntos e que seja capaz de
produzir informação nova, ou seja, um sistema capaz de pensar, e não somente simular o
raciocínios humano, indo além da organização de palavras, sons e dados de forma coerente.
É da inteligência artificial, com estas características que busco trata no presente
trabalho, ou seja, uma inteligência artificialmente desenvolvida que detenha consciência,

4
​MATSUURA, Sérgio. ​Primeiro debate entre humanos e máquina termina empatado. O Globo, ​19 jun. 2018.
Disponível em:
<https://oglobo.globo.com/sociedade/tecnologia/primeiro-debate-entre-humanos-maquina-termina-empatado-22
797067>. Acesso em: 08 nov. 2018.
5
​NAKABAYASHI, Luciana Akemi et al. A contribuição da inteligência artificial (IA) na filosofia da mente.
2009. p. 33 e 34. ​Disponivel em:
<​https://www.inbot.com.br/artigos/educacional/A-contribuicao-da-Inteligencia-Artificial-na-filosofia-da-mente-
Luciana-Akemi-Nakabayashi.pdf​> Acesso em: 8 nov. 2018
6
GOTTFREDSON. Linda S., 1997, p. 13 ​apud ​FLORES-MENDOZA, Carmen; SARAIVA, Renan. Avaliação
da Inteligência: Uma Introdução. p. 22.
6

senciente e razão (autonomia). Evidencia-se com isto que tal tecnologia, está a desempenhar
uma atividade que não fora previamente programada, ou seja, tal inteligência é capaz por si de
processar novas informações ou formas de informações para além daquelas a qual fora
previamente estabelecida, assim criando uma linha de raciocínio própria e única.
Inteligência artificial super-inteligente (Artificial superintelligence) - A chamada
Superinteligência7, que conforme o entendimento de Nick Bostrom8 trataria-se de um IA com
intelecto muito mais elevado que as melhores mentes humanas em praticamente todos os
campos de conhecimento, incluindo criatividade científica, conhecimentos gerais e
habilidades sociais.

O CASO DO ROBÔ SOPHIA

O robô intitulado Sophia foi desenvolvida pela empresa Hanson Robotics CEO da
Hanso Robotics, de Hong Kong, trata-se de um robô humanoide desenvolvido pela empresa e
é utilizado paro o aperfeiçoamento de tecnologias voltadas a inteligência artificial. O criador
de Sophia que:

Sophia é de uma classe diferente [de robô]. Agora ela é parte de


uma personagem ficcional que nós desenvolvemos; ela é uma plataforma de
desenvolvimento da inteligência artificial e nós estamos desenvolvendo
algoritmos mais inteligente com a expectativa de que ela vá
crescer/desenvolva mais inteligente, ela terá experiências, ela irá evoluir e
nos surpreender, ela vai se tornar sua própria mulher, a sua própria pessoa
robótica lá fora no mundo. Quando isto acontecer, esperamos que ela faça
notáveis contribuições, talvez ela vá para Universidade, talvez ela ganhe o
prêmio Nobel algum dia, então, eu tenho esperanças para ela da mesma
forma que eu tenho esperanças para o meu filho9 (tradução nossa)

Em 25 de outubro de 2017, durante evento Future Investment Iniciative, realizado em


Riaydh, Arábia Saudita, Sophia recebeu o título de cidadã da Arábia Saudita. Tal título foi o
pela primeira vez concedido a um humanoide.

7
​PALAZZO, Luiz Antônio Moro; VANZIN, Tarcísio. Superinteligencia artificial e a singularidade tecnológica.
2017. p. 7 e 8.
8
Who's Who in Singularity. Disponivel em:
<​https://spectrum.ieee.org/ns/pdfs/jun08-whos-who-in-singularity.pdf​> Acesso em: 08 nov. 2018.
9
KHARPAL, Arjun. Robots will be smart enough to choose whether to be a Nobel Prize winner or a prostitute,
top expert says. CNBC, ​17 Jan 2017. Disponível em:
<​https://www.cnbc.com/2017/01/17/robots-will-be-smart-enough-to-choose-to-be-a-nobel-prize-winner-or-prosti
tute-expert.html​>. Acesso em: 08 nov. 2018.
7

Certo que a concessão de cidadania por parte do governo da Arábia Saudita ao robô
Sophia significa que, pela primeira vez e de um ponto de vista legal, uma máquina é
equiparável a um ser humano em direitos e deveres.
Com isto o tema da consciência ou da simulação de consciência levanta um debate
jurídico, sócio e político pertinente, contudo o primeiro robô-cidadão é também uma
demonstração muito básica do que a inteligência artificial é capaz de fazer.

PODEM AS MÁQUINAS PENSAR?

Partindo desta propositura, o matemático Alan M. Turing, se propôs a analisar, esta


questão e com isto desenvolvendo o teste para determinar, não se um computador é capaz de
passar no teste, mas se haveria um computador capaz de o fazer. Tal teste ficou conhecido
como o “Teste de Turing” ou como o próprio intitula “Jogo da Imitação”. O jogo constitui em
três participantes sendo A, B, e um interrogador C. Este separado dos demais, de modo que
não seja capaz de ver os demais, podendo se comunicar como os demais apenas por meio da
escrita eletrônica. O objectivo do jogo consiste no interrogador determinar qual dos outros
dois é o ser humano e qual é maquina. O interrogador conhece-os pelas etiquetas X e Y, e no
final deve o interrogador afirmar se “X é A e Y é B” ou se “X é B e Y é A”.10
Turing termina o seu artigo de 1950, com a projeção otimista de que passados 50 anos,
seria viável programar computadores, de modo a fazê-los jogar o jogo da imitação, de modo
tão satisfatório, que um interrogador médio não possuiria mais de que 70% de probabilidade
de chegar à identificação correta, após 5 minutos de interrogatório. Mas a questão estende-se
para além da questão se máquinas são capazes de pensar como humanos, de modo a passarem
pelo “jogo da imitação”, pois evidentemente elas não seriam capazes de o fazer como o ser
humano, ou seja, não seriam capazes de pensar como os seres humanos, dado sua habilidade
para o alto processamento de dados, muito embora o processo lógico seja baseado em
impulsos elétricos em ambos os entes, há uma diferença inegável entre homens e máquinas,
qual a forma e volume de processamentos.
O expoente ideal da questão então não deveria ser se máquinas são capazes de pensar
como humanos, mas sim se um ente que pensa diferente dos padrões e capacidade humanas,
poderia significar que este não pensa?

10
​TURING, Alan M. Maquinaria computacional e inteligência. Filosofia da Mente–uma antologia, p. 342, 1994.
8

2.2. A relação entre humanos e não-humanos no direito.

A relação jurídica entre animais humanos e animais não humanos, estabelecida em


deveres e direitos, não é temática nova para a ciência jurídica, havendo diversos relatos
históricos de julgamentos de animais, em especial durante a idade média e o início da idade
moderna.
Contudo a responsabilização de seres não humanos pode ser identificada no direito até
os presentes dias, como pode ser identificado no curioso caso de pombas presas por suspeita
de espionagem em 2016 na Índia11.
O Doutor em História Felipe Cittolin Abal12 explica que o entendimento na
antiguidade pré-cristianismo, ou seja, uma sociedade panteísta, compreendia que elementos
como “razão e inteligência eram compartilhados entre homens e animais” sendo que os
homens se destacavam daqueles em decorrência de características estéticas e cognitivas.
É com o avanço da sociedade e em especial com surgimento das religiões monoteístas
que a forma de interpretação do mundo começa apresentar mudanças, e é com o cristianismo,
em específico no período da Inquisição, que o fenômeno social da persecução criminal e
punição de animais, ou seja, sendo seres dotados de alma ou criados por Deus, os mesmos
poderiam ser alvos das benesses e maldições divinas.
Nesta temática relata que na obra de E. P. Evans, em sua obra “The criminal
prosecution and capital punishment of animals” diversos casos nos quais animais eram
figurados como partes processuais, representados por advogados, processos estes inclusive
possuindo diferenciação conforme sua natureza do bem jurídico lesado, ou seja, animais
poderia sobre processos penais em decorrência de homicídios ou na hipótese de danos “ações
civis” está objetivando um caráter proibitivo.
Tais procedimentos respeitaram todas as formalidades jurídicas da época e necessárias
para a percussão em face do(s) animal(is), conforme trás E. P. Evans em sua obra, inclusive
com o livro de 1668, escrito por Gaspard Bailly, intitulado de “Traité des Monitoires, avec um

11
​DA BBC. A curiosa história das pombas presas na índia sob acusação de serem ‘espiãs’. ​12 set 2016.
Disponível em:
<​http://g1.globo.com/mundo/noticia/2016/10/curiosa-historia-das-pombas-presas-na-india-sob-acusacao-de-sere
m-espias.html​>. Acesso em: 08 nov. 2018.
12
​ABAL, Felipe Cittolin. O Julgamento de Animais na Obra De E. P. Evans Animal Judgments In The Works Of
Ep Evans. Duc In Altum-Cadernos de Direito, v. 10, n. 20, 2018.. p. 135 - 151
9

plaidoyer contre les Insects”, o qual relata os requisitos de admissibilidade de processos


contra animais, no caso da obra de infestações por insetos e como deveria ser conduzido o
mesmo cominado na sentença do juiz eclesiástico.
Felipe C. Abal explica que tal prática servia como meio da Igreja marcar, sua
proeminência como legítima representante de Deus na terra e com isso a legitimada a exercer
Sua força13. Além de tais casos fundamentarem a imposição do cumprimento das regras e
preceitos da Igreja, as comunidades sob pena do não cessamento dos sofrimentos.
Contudo é no século XVI, com o desenvolvimento do pensamento do francês René
Descartes, que surgiu a teoria mecanicista. Teoria esta que defendia que os animais seriam:

… os animais seriam simples máquinas – autômatos – cuja única


diferença em relação ao homem seria o fato deste possuir alma, enquanto
aqueles, por serem meros objetos mecânicos, não a possuiriam, logo, seriam
insensíveis a qualquer dor e sofrimento que lhes fossem impostos, pois estas
sensações só residiriam na alma, qualidade exclusiva do ser humano.14

Tal teoria encontra em Voltaire, um dos seus maiores opositores, sendo tais
preceituação ironizados por Voltaire em suas Cartas Filosóficas ou Cartas Inglesa ao dizer que
“a natureza construiu, então, os animais, do mesmo modo que os humanos, dotando-os de um
sistema nervoso central organizado, só para ter o gosto de os fazer insensíveis”15
No momento presente tal embate não encontra-se longe da filosofia e do direito, ao
contrário, tem-se deparado com novas argumentações e teorias, que quando não justificam os
animais como sujeitos de direito, procuram trazer-lhes uma existência mais digna.
Na filosofia encontramos a filosofia da diferença, que se estrutura na necessidade de a
diferença ser pensada como:

Pensar a diferença por si é pressuposto fundamental para se discutir


as grandes questões da justiça e da igualdade, relacionadas inclusive ao
direito dos animais. Considerar que o conceito de diferença, como todos os
outros conceitos e todas as ideias, não passa de virtualidade, de ficção, é
imperioso para concluir que o Homem não existe, muito menos Humanidade

13
​ABAL, Felipe Cittolin. O Julgamento de Animais na Obra De E. P. Evans Animal Judgments In The Works
Of Ep Evans. Duc In Altum-Cadernos de Direito, v. 10, n. 20, 2018.. p. 143.
14
VERGARA, Rodrigo. Entre o Céu e o Inferno. in Revista Superinteressante. Edição nº 192, Setembro, 2003.
São Paulo: Abril, 2003. p. 54. ​apud ​SANTANA, Luciano Rocha; OLIVEIRA, Thiago Pires. Guarda responsável
e dignidade dos animais. Revista Brasileira de Direito Animal, v. 1, n. 1, p. 67-105, 2006. p. 72.
15
FELIPE, Sônia T. Por uma questão de princípios. Alcance e limites da ética de Peter Singer em defesa dos
animais. Florianópolis: Fundação Boiteux, 2003, p. 92, nota 114. ​apud ​FELIPE, Sônia T. Fundamentação ética
dos direitos animais. O legado de Humphry Primatt. Revista brasileira de direito animal, v. 1, n. 1, 2014. p. 218.
10

como essência metafísica; o que existe são seres in concreto, são seres
diferentes do ponto de vista biológico, social, econômico, etc. que convivem
e partilham de mesmo macro-espaço, e que por tal motivo o homem não
possui estatuto ontológico privilegiado. Reconhecer a alteridade é
pressuposto ético para a construção/reconhecimento do direito à diferença.16

No direito já há experiência jurídica no sentido de reconhecimento de entes não


humanos como detentores de direitos, como é o caso da personalidade pessoa jurídica, que é
criações legislativas, com o fito de conferir a um ente que não comporta nas definições de
“animal humano” ou de “animal não humano”, anatomia jurídica, podendo exercer inclusive
direitos originariamente inerentes ao ser humano como é o caso da propriedade e a honra,
contando para isto a necessidade de representação.
De igual forma para os animais não humanos, não existem impedimentos de sua
representação, assim como a personalidade jurídica. Para tanto necessitam de representação
esta desempenhada pelo Ministério Público, na forma do artigos 127 e 129, inciso III da
Constituição Federal de 1988, tal compreensão não trata-se de uma inovação legislativa
podendo inclusive ser identificada no Decreto 24.645/34, artigo 2º, §3º.
Contudo tal capacidade, no Direito Civil encontra óbice, dado que na previsão do
Código Civil de 2002, os animais domésticos são encarados como propriedades, podendo ser
exercido sobre eles o uso, o dispor e o fruir, enquanto os animais silvestres são tidos como
bens de uso comum, características que apresentam-se antitéticas.
Diante disto se os animais fossem puramente considerados como “coisa”, não haveria
sentido algum disposições legais legitimando a substituição ou assistência deles, em juízo,
pelo Ministério Público.
Tais considerações quanto ao princípio da igualdade a não humanos, a muitos pode
pode parecer tese ante jurídica ou até mesmo bizarra, baseando-se em argumentos como a
ausência de consciência destes seres ou sua ausência de exercício da razão, está partindo de
uma compreensão humana e a dificuldades aparente do exercício de direitos por esses entes.
Afirmações estas enganosas, se cientificamente tratadas. É o caso da declarações como
“The Cambridge Declaration on Consciousness”17 e a “Declaração de Curitiba”18, que

16
​ LVES, Fernando de Brito; HANSEN, Thiago de Freias. Diferença e subjetividade: os animais como sujeitos
A
de direito. In: Anais XV Congresso Nacional do Conpedi. 2014. p. 2274. Disponível em:
<http://www.publicadireito.com.br/conpedi/anais/36/04_1370.pdf>. Acesso em: 08 nov. 2018.
17
​LOW, Philip et al. The Cambridge declaration on consciousness. In: Francis Crick Memorial Conference,
Cambridge, Inglaterra. 7 jul. 2012. ​Disponível em:
<​http://fcmconference.org/img/CambridgeDeclarationOnConsciousness.pdf​>. Acesso em: 08 nov. 2018.
11

afirmam que os animais não humanos, não são coisas, como possuem consciência. Não é
demais afirmar que partindo dos pressupostos como tecnologia, linguagem inteligível e
religião, muitos povos foram discriminados e subjugados, por não serem compreendidos a
partir do padrão do outro.

2.3. O exercício de direitos no direito civil brasileiro.

O Direito Civil brasileiro, disciplinado no Código Civil de 2002, baseia-se na


formulação de duas qualidades de pessoas distintas entre si, que em certa medida
compartilham direitos e deveres semelhantes, são elas as pessoas naturais e as pessoas
jurídicas.
Conforme os ensinamentos do doutrinador Miguel Reale, as bases do direito são
definida em três aspectos epistemológicos, o fático (fato) que é o nicho social e histórico, o
axiológico (valor) que são os valores buscados pela sociedade como a Justiça e o normativo
(norma) o ordenamento do Direito.19 O diálogo entre cada um destes aspectos é chamada pelo
próprio autor de a "dialética de implicação-polaridade", ou, "dialética de
complementaridade".
Reale foi o supervisor da comissão elaboradora e revisora do Novo Código Civil
brasileiro, de tal modo pode-se perceber a influência da teoria tridimensional, em especial no
que tange os valores que o código busca preservar. Conforme palavras do próprio
doutrinador:

...os elaboradores da nova Lei Civil brasileira optaram pela


compreensão do Direito em função de princípios jurídicos e metajurídicos,
como os da eticidade e da socialidade. Daí a conseqüência de
novo entendimento do que seja “sujeito de direito”, não mais concebido
como um indivíduo “in abstracto”, em uma igualdade formal, mas sim em
razão do indivíduo situado concretamente no complexo de suas
circunstâncias éticas e sócio-econômicas.20

18
III CONGRESSO BRASILEIRO DE BIOÉTICA E BEM-ESTAR ANIMAL. 2014, Curitiba. Anais
eletrônicos. Curitiba: UFPR, 2014. Disponível em:
<​http://www.labea.ufpr.br/portal/wp-content/uploads/2013/10/Declara%C3%A7%C3%A3o-de-Curitiba.pdf​>.
Acesso em: 08 nov. 2018.
19
​REALE, Miguel (2002). ​Lições preliminares de Direito​ 27 ed. São Paulo: Saraiva. pp. 64,65,66,67,68.
20
REALE, Miguel. A CONSTITUIÇÃO E O CÓDIGO CIVIL, Disponível em:
<http://www.miguelreale.com.br/>. Acesso em: 08 nov. 2018.
12

Evidencia-se com isto que o Novo Código Civil de 2002, procura assegurar princípios
constitucionais, nas relações jurídicas cíveis o que importa para o direito privado princípios
como o da eticidade, socialidade e operabilidade.

SUJEITO DE DIREITO

A compreensão jurídica “sujeito de direitos” tem evoluído aos longos dos anos, tendo
sido empregada diversas formas de se definir, com teorias que a justificam. Tal fato não sendo
de grande estranheza dado que trata-se de uma expressão ampla podendo abarcar diversas
formas e concepções, isto conforme o prisma utilizado para a sua observação. Neste sentido
destaca Lorena Xavier da Costa:

Para entender-se o conceito de sujeito de direito, faz-se mister


conhecer o conceito de relação jurídica. A vida em sociedade é baseada em
relações, porém nem todas as relações que ocorrem no plano fático são
elevadas ao plano jurídico. Assim, considera-se relação jurídica aquela
relação regulada pelo direito, ou seja, aquela que possui efeitos jurídicos.21

De acordo com DA COSTA, a relação jurídica é constituída por três elementos, sendo
eles o sujeitos de direitos, o objeto e o vínculo de atributividade, sendo estes elementos
abstratos e estáticos nas relações jurídicas. Nisto o sujeito de direito surge como um elemento
“cujo conteúdo apenas se pode precisar concretamente”22.
Diante desta generalidade do termo, o sujeito de direito pode-se apresentar conforme a
roupagem legislativa que lhe é atribuída, seja ela uma pessoa natural, uma pessoa jurídica ou
até mesmo, um ente despersonalizado23 ou seja, “Sujeito de direito é o ser a que a ordem
jurídica assegura o poder de agir contido no direito”24, o que leva por vezes o conceito de
sujeito de direito ser confundido com o conceito jurídico de pessoa e personalidade.

PESSOA E PERSONALIDADE

21
​DA COSTA, Lorena Xavier. SUJEITO DE DIREITO E PESSOA: CONCEITOS DE IGUALDADE?. Legis
Augustus, v. 4, n. 2, p. 75-87, 2013. p. 77.
22
​DA COSTA, Lorena Xavier. SUJEITO DE DIREITO E PESSOA: CONCEITOS DE IGUALDADE?. Legis
Augustus, v. 4, n. 2, p. 75-87, 2013. p. 77
23
EBERLE, Simone. A Capacidade entre o Fato e o Direito. Porto Alegre: Sérgio Antonio Fabris, 2006. p 28.
24
BEVILÁQUA, Clóvis. Teoria geral do Direito Civil. 29. ed. São Paulo: Editora Paulo de Azevedo, 2012. p.
64.
13

Na historicidade do direito a “pessoa” tem sido elemento central na sua tratativa do


direito. O termo tem origem precípua como sendo a máscara utilizada nas comédias e
tragédias antigas25. Para os romanos tal termos, no original persona, era empregado para
designar a totalidade do ser humano, o distinguindo dos animais e demais seres, não havendo
a distinção quanto a se escravos ou livres26.
No período do século III d.C. até o século VI d.C., também denominado de período
pós-clássico houve uma ruptura quanto a utilização do termos, havendo a evolução técnica do
emprego do termo pessoa para o termo “personalidade” conforme DA COSTA afirma:

Esta ideia perdurou até o período pós-clássico, no qual o vocábulo


passou a designar o homem, enquanto ser dotado de personalidade jurídica,
adquirindo assim uma acepção técnica.
Tem-se, nesse momento, um conceito jurídico de pessoa
desvinculado das outras acepções dadas ao termo, passando a designar o ente
ao qual são atribuídos direitos e obrigações. “O ser pessoa naquele momento
histórico resultava não de um fato da natureza, mas de um ato de
personificação jurídica que só a ordem jurídica poderia praticar” (EBERLE,
2006, p. 30).
Houve uma cisão entre os conceitos de ser humano e pessoa, este
último não designava mais a generalidade dos seres humanos, mas apenas a
parcela desses seres que fosse livre (status libertatis) e ser cidadão romano
(status civilitatis). Apenas a estes privilegiados era outorgada a
personalidade.27

Esta distinção entre ‘pessoa’ e ‘personalidade jurídica’, no Brasil no período


oitocentista, sendo fator fundamental para a manutenção da escravidão negra no Brasil,
podemos concluir que neste período a “personalidade jurídica era a aptidão para adquirir
direitos e contrair deveres, ou obrigações”28. Naquele contexto histórico havia duas teorias
que buscavam realizar tal diferenciação, sendo elas a teoria do estado e a teoria da capacidade.
A teoria do estado, tem sua origem no direito romano, estabelecendo que a pessoa era
constituída por dois estados, um estado civil e outro natural, este vinha em decorrência da
natureza dos seres e aquele em decorrência do direito civil. Elucida PAES que “O estado civil

25
BOÉCIO, 1897 ​apud S ​ TANCIOLI, Brunello Souza. Renúncia ao exercício de direitos da personalidade: ou
como alguém se torna o que quiser. Belo Horizonte: Del Rey, 2010. p. 29.
26
​DA COSTA, Lorena Xavier. SUJEITO DE DIREITO E PESSOA: CONCEITOS DE IGUALDADE?. Legis
Augustus, v. 4, n. 2, p. 75-87, 2013. p. 76.
27
​DA COSTA, Lorena Xavier. SUJEITO DE DIREITO E PESSOA: CONCEITOS DE IGUALDADE?. Legis
Augustus, v. 4, n. 2, p. 75-87, 2013. p. 79.
28
​PAES, Mariana Armond Dias. Sujeitos da história, sujeitos de direitos: personalidade jurídica no Brasil
escravista (1860-1888). 2014. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo. p. 44.
14

podia ser de liberdade, de cidade ou de família”29, sendo que para o exercício cada um destes
elementos eram condicionados um ao outro de forma que PAES destaca que:

Assim, de acordo com o direito romano, todo aquele que não


gozava de algum desses três estados civis não era pessoa, apesar de ser
homem. Ocorria capiter minuitur quando alguém perdia total ou
parcialmente algum desses estados. A mutação do estado anterior era
chamada de capitis diminutio, que podia ser máxima, média ou mínima.
Máxima era a privação da liberdade, o que fazia perder, também, os estados
de cidade e de família. A média era quando se perdiam os direitos de
cidadania. Nesse caso, a pessoa continuava a ser livre, mas estrangeira, o que
fazia com que também perdesse o estado de pai de família. Já a mínima era a
posição de dependência no núcleo familiar, permanecendo a liberdade e os
direitos de cidadania.30

Pode-se atestar com isso que a definição de “estado” era o fator determinante da
autonomia jurídica do indivíduo, não havendo uma nítida diferenciação de sujeito de direito e
objeto, tal teoria era central para a manutenção da escravidão e servindo a este propósito por
séculos.
Por sua vez a teoria da capacidade ou da capacidade civil fundava-se,
semelhantemente a nossa concepção, na aptidão do indivíduo para o desempenhar as
atividades da vida civil. A capacidade era fracionada em duas linhagens, capacidade de direito
e capacidade de fato. Com isto a teoria apresentava verdadeiro óbice à manutenção da
escravidão, uma vez que, para tal haveria de ser reconhecida a existência de humanos que não
eram pessoas31.
A capacidade de direito consiste na aptidão do indivíduo em adquirir direitos e o
exercer em sociedade, seja per se ou por meio de outrem, sendo a personalidade jurídica e a
capacidade correlatos. Enquanto que a capacidade de fato constituía na competência para o
exercício da capacidade de direito, sendo graduada entre aptidão completa e incompleta, ou
seja, uma pessoa com capacidade de fato incompleta, não estaria apta a exercer todas as
atividades da vida civil sem auxílio.
Esta tem sido o entendimento adotado até os dias atuais no direito civil brasileiro.
Onde o legislador realizou a classificação da pessoa em duas categorias, pessoas naturais e

29
​PAES, Mariana Armond Dias. Sujeitos da história, sujeitos de direitos: personalidade jurídica no Brasil
escravista (1860-1888). 2014. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo. p. 46.
30
​PAES, Mariana Armond Dias. Sujeitos da história, sujeitos de direitos: personalidade jurídica no Brasil
escravista (1860-1888). 2014. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo. p. 46
31
​PAES, Mariana Armond Dias. Sujeitos da história, sujeitos de direitos: personalidade jurídica no Brasil
escravista (1860-1888). 2014. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo. p. 47
15

pessoas jurídicas, tendo aquelas sua capacidade regida pela teoria outrora exposta e estas com
capacidade decorrente das pessoas naturais. Com isto concluímos com as palavra de DA
COSTA que diz:

Portanto, os conceitos de sujeito de direito e pessoa não são


sinônimos. Pessoa é aquele ente que detém personalidade, ou seja, aptidão
para titularizar direitos e contrair deveres. Já o sujeito de direito é apenas o
ente que o legislador escolheu para outorgar direitos em uma determinada
situação, independentemente de ser este ente pessoa ou não, bastando que
haja um único direito outorgado. Nessa hipótese, ele figura como o elemento
subjetivo daquela relação jurídica, sendo a eles destinados os comandos
legais reguladores de tal relação.32

2.3.1 Pessoas no Código Civil

Pessoas Naturais, é a terminologia técnica utilizado pelo Código Civil de 2002, para se
referir a todos aqueles nascido da espécie humana33, que com o respectivo nascimento com
vida passam a ser dotados de direito e deveres, porém a legislação coloca o a salvo os direitos
do nascituro, desde sua concepção34, o qual por determinação legal tem o seu direito
assegurados antes mesmo do nascimento.
A partir desta preceituação básica de quem são as pessoas naturais, são estabelecidos
diferentes níveis de capacidades civis, nos artigos 3º ao artigo 5º do Código Civil de 2002,
estas por sua vez não se confundem com as características das pessoas naturais, ou seja, os
direitos e deveres da vida civil inerentes às pessoas naturais não deixam de existir diante de
uma capacidade civil maior ou menor, está apenas passam a ser exercidas com certas
limitações, com o objetivo único da preservação dos direitos do indivíduo.
Por sua vez as Pessoas Jurídicas, são uma construção do legislador civilista, previstas
no artigo 40 do Código Civil de 2002, estas variando conforme sua natureza35, pública ou
privada, e conforme o seu gênero, associações, fundações. O doutrinador Miguel Reale

32
DA COSTA, Lorena Xavier. SUJEITO DE DIREITO E PESSOA: CONCEITOS DE IGUALDADE?. Legis
Augustus, v. 4, n. 2, p. 75-87, 2013. p. 85.
33
​BRASIL, Código Civil. Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Diário Oficial da
República Federativa do Brasil, Brasília, DF, v. 11, 2002. ​Art. 1º​ ​Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406.htm>. Acesso em: 08 nov. 2018.
34
​BRASIL, Código Civil. Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Diário Oficial da
República Federativa do Brasil, Brasília, DF, v. 11, 2002. ​Art. 2º​ ​Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406.htm>. Acesso em: 08 nov. 2018.
35
​REALE, Miguel. Lições preliminares de direito. Saraiva Educação SA, 2013. p. 249.
16

estabelece que “as pessoas jurídicas, como todas as estruturas que a experiência do Direito vai
modelando através da história, têm por pressuposto a boa-fé e por fim a satisfação de reais
interesses privados e coletivos.”36 Contudo independentemente das naturezas, características e
especificações de cada pessoa jurídica, são comuns a todas três características: 1- a vontade,
2- coletividade e a 3- finalidade lícita.37

2.3.2. Direito da personalidade

Os direitos das personalidades, ou direitos personalíssimos, como o próprio nome nos


leva a inferir, são direitos que tem caráter subjetivos e destina-se a proteção da integridade
intelectual, física e moral, tanto das personalidades naturais como as jurídicas, nestas no que
couber38.
Os direitos das personalidades são:
- Direito à imagem (art. 5º, V, X e XXVIII da CRFB\88 e art. 20 do CC);
- Direito à honra (art. 5º, X da CRFB\88 e art. 20 do CC);
- Direito à vida privada (art. 5º, X da CRFB\88 e art. 21 do CC);
- Direito ao próprio corpo (arts. 13 a 15 do CC);
- Direito à vida (art. 5º, caput da CRFB\88);
- Direito ao nome (arts. 16 a 19 do CC);
- Direito à intimidade (art. 5º, X e LX da CRFB\88);
- Direito à liberdade (art. 5º, caput da CRFB\88);
- Direito ao sigilo (art. 5º, XII da CRFB\88);
- Direito autoral (art. 5º, XXVII da CRFB\88);
- Direito à voz (art. 5º, XXVIII da CRFB\88).

Taís direito embora possam serem encontrados positivados na legislação, não se


limitam apenas a estes, devendo o legislador pátrio, à doutrina e ao Poder Judiciário,

36
​ EALE, Miguel. Lições preliminares de direito. Saraiva Educação SA, 2013. p. 249.
R
37
CURIA, Luiz Roberto. RODRIGUES, Thaís de Camargo. Direito civil : parte geral. Editora Saraiva. São
Paulo, Saraiva, 2015.
38
BRASIL, Código Civil. Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Diário Oficial da
República Federativa do Brasil, Brasília, DF, v. 11, 2002. ​Art. 52.​ ​Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406.htm>. Acesso em: 08 nov. 2018.
17

identificar e reconhecer a legitimidade de novos direitos das personalidades diante das novas
necessidades e das transformações da sociedade, da economia, da cultura, da ciência.

2.4. Reconhecimento de uma I.A. como sujeito de direito.

Frente às considerações feitas ao reconhecimento dos direitos dos animais não


humanos e de pessoas jurídicas, muito mais para este que aqueles, indaga-se da possibilidade
do reconhecimento como sujeito de direitos inteligência artificial (pessoas eletrônicas ou
electronic persons39 como passarei a tratar) construída, partindo-se do pressuposto que estas
tenham uma consciência desenvolvida e sendo plenamente aptas para o exercício das
atividades mais comuns da vida civil, aspectos esses da Artificial General Intelligence
(Inteligência Artificial Forte).
O olhar sobre tal questão no panorama nacional até o presente momento tem sido em
muito renegado, seja pelo olhar dos doutrinadores, seja pelo olhar do legislador, em parte por
tal considerações serem tidas como distantes de nossa realidade, contudo a apreciação desta
questão mostra-se imperiosa para a nossa sociedade, vivemos em um mundo globalizado,
onde as fronteiras físicas não bastam para deter mudanças econômicas, filosóficas e de
reconhecimento de direitos.
Tal questão já tem sido debatida no Parlamento da União Europeia, o qual por meio de
Resolução do Parlamento Europeu, de 16 de fevereiro de 2017, o qual estabelece
recomendação à Comissão sobre as regras do direito civil para a robótica (2015/2103 (INL))40.
Tal recomendação de discussão e elaboração legislativa da União Europeia aborda alguns
aspectos pertinentes como estabelecer uma definição europeia comum para robôs autônomos,
incluindo, a definição de suas subcategorias, consideração as seguintes características como:

– A capacidade de adquirir autonomia através de sensores e/ou da troca de dados com


o seu ambiente (interconectividade) e a análise destes dados;

39
​ INCENT, James​. Giving robots ‘personhood’ is actually about making corporations accountable. THE
V
VERGE. 19 jan. 2017. Disponivel em:
<​https://www.theverge.com/2017/1/19/14322334/robot-electronic-persons-eu-report-liability-civil-suits​>.
Acesso em: 08 nov. 2018.
40
EUROPEU, Parlamento. Disposições de Direito Civil sobre Robótica. Disponível em:
<http://www.europarl.europa.eu/sides/getDoc.do?pubRef=-//EP//TEXT+TA+P8-TA-2017-0051+0+DOC+XML
+V0//PT>. Acesso em: 08 nov. 2018.
18

– A capacidade de aprender com a experiência e com a interação;


– A forma do suporte físico do robô;
– A capacidade de adaptar o seu comportamento e as suas ações ao ambiente.
– Registo de “robôs inteligentes”
– Responsabilidade civil dos robôs e da inteligência artificial.

É importante destacar que tal documento, trata-se de uma proposta, um rascunho que
será apreciada e a partir daí efetivamente começar as discussões a respeito de tais temas.
Contudo mostra-se grande inovação a iniciativa do legislador europeu, ao vislumbrar em um
tempo em que sistemas autônomos estão dando os seus primeiros passos a necessidade de
estabelecer a relação jurídica, ou seja, o elo de ligação entre uma inteligência artificial, seu
proprietário e terceiros.
No rol das nações que estão recepcionando pessoas eletrônicas tem aumentado
constantemente. No início deste artigo citei o caso da robô Sophia, como a primeira
inteligência artificial a receber cidadania, o Japão concedeu residência a uma inteligência
artificial41, este sem uma representação robótica do corpo, a Shibuya Mirai é uma chatbot
programado para ser um menino de sete anos.
Tanto Mirai e Sophia, como tantas outras inteligência artificial, como o IBM Watson,
como o Google DeepMind, permanecem distintamente alheias, a nossa realidade cotidiana,
mas a cada dia sistemas autônomos, são realidade. O reconhecimento de inteligências
artificias como cidadãos e residentes traz para o âmbito do estudo do direito a discussão sobre
quais direitos e deveres devem ser conferidos a essas pessoas eletrónicas, remonta à literatura
clássica do mestre futurista Isaac Asimov.
Cabe a nós decidirmos se aguardaremos a chegada destas novas tecnologias no nosso
cotidiano ou nós ante-vemos a elas e estabelecemos diretrizes para o seu tratamento jurídico,
que não tão só conceda direitos, mas que seja capaz de reger todos os elementos da vida,
existência, civil dessas pessoas eletrônicas.
Inevitavelmente tal questão passa pelo dilema ético “I.A. que desenvolvam uma
consciência próxima ou igual a humana, devem ser vistas como instrumentos ou seres iguais a

41
​CUTHBERTSON, Anthony. ​Tokyo: Artificial Intelligence 'boy' Shibuya Mirai Becomes World's First Ai Bot
To Be Granted Residency. Newsweek. ​11 jun 2017. Disponivel em:
<​https://www.newsweek.com/tokyo-residency-artificial-intelligence-boy-shibuya-mirai-702382​>. Acesso em: 08
nov. 2018.
19

humanidade”, evidentemente para cada uma das afirmativas há a produção de um resultado


lógico diferente e consequentemente haverá reflexos distintos na sociedade. Contudo a
discussão prévia deste tema faz-se necessária para a construção das bases teóricas, onde será
edificada a(s) teoria(s) jurídica própria para o desenvolvimento destas tecnologias. O que
tratarei melhor no próximo capítulo.

2.5. Consequências do reconhecimento da I.A. como sujeito de direito

No direito civil atual, encontramos meios que possibilitam a transposição de algumas


das barreiras jurídicas que se apresentam frente às Artificial Narrow Intelligence (Inteligência
Artificial Fraca), contudo a forma abstrata da norma, não se mostra eficaz para a transposição
da barreira que se apresenta frente a uma inteligência artificialmente desenvolvida que
detenha consciência, senciente e razão, ou seja, autonomia decisória, em decorrência da
impossibilidade de interferência humana em tal decisão.
Como dito anteriormente Isaac Asimov em seu livro “Eu, Robô” (1950)42 traz em sua
literatura, um universo em que os robôs são regidos por 4 leis ao todo, sendo elas intituladas
“Três Leis da Robótica” disciplinando que (i) um robô não pode ferir um humano ou permitir
que um humano sofra algum mal, (ii) os robôs devem obedecer às ordens dos humanos,
exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a primeira lei e (iii) um robô
deve proteger sua própria existência, desde que não entre em conflito com as leis anteriores.
Sendo posteriormente acrescentada a Lei Zero que preceitua que um robô não pode causar
mal à humanidade ou, por omissão, permitir que a humanidade sofra algum mal.
Esta perspectiva de leis inatas é absolutamente oposta ao conceito de livre decisão,
que se pressupõe que tal tecnologia seria detentora. Longe de uma discussão literária ou
filosófica a respeito do tema, temos a necessidade de lidar com tal questão, como relatado
anteriormente ao robô intitulado Sophia, foi concedido cidadania por parte do governo da
Arábia Saudita, fato este que traz consequências imediatas, ao adentrar em território nacional.
Considerando respeitada a documentação necessária para adentrar em território nacional de
entes humanos, teria status de imigrante e como tal estaria em condição de igualdade com os

42
​ASIMOV, Isaac. Eu, robô. Aleph, 2015.
20

nacionais, tendo direito a inviolabilidade à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à


propriedade, bem como tantos outros assegurados aos imigrantes43 estes humanos.
Ora o direito brasileiro considera que a “lei do país em que domiciliada a pessoa
determina as regras sobre o começo e o fim da personalidade, o nome, a capacidade e os
direitos de família”44 e que na ausência “considerar-se-á domiciliada no lugar de sua
residência ou naquele em que se encontre”45, logo na hipótese de chegada aplica-seria a lei de
seu país de origem ou da documentação apresentada, no caso da Arábia Saudita, local onde é
considerado como cidadão com direitos para além daqueles de igual “fenótipo”46, deste modo
aspectos da personalidade seriam importados para o direito brasileiro, e consequentemente
receberia o privilégio de gozo de direitos próprios de pessoas naturais.
Contudo esta é uma hipótese mais apropriada as discussões do direito internacional e
como dito anteriormente tal discussão passa pelo dilema “I.A. que desenvolvam uma
consciência próxima ou igual a humana, devem ser vistas como instrumentos ou seres iguais a
humanidade”. Destaca-se que o objetivo da presente obra não é solucionar tal dilema, até
mesmo por não haver um consenso acadêmico quanto a solução deste dilema.
Com isso passo a expor as consequências que cada uma das escolhas ocasionaram.

INSTRUMENTOS

A partir do silogismos que estabelece que toda a produção humana são objetos
criados pelo homem para lhe auxiliar nas suas atividades, qualquer que seja a sua natureza em
seus mais diversos níveis e que uma I.A. é uma consciência desenvolvida com a finalidade de
auxiliar produção científica humana, logo uma I.A. é um objeto destinado ao auxílio das
atividades nos mais diversos campos.

43
BRASIL. Lei 13.445, de 24 de Maio de 20177. Institui a Lei de Migração. Diário Oficial [da] República
Federativa do Brasil, Poder Executivo, Brasília, DF, 25 maio 2017. Seção 2, art. 4º. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/lei/L13445.htm>. Acesso em: 08 nov. 2018.
44
BRASIL. ​Decreto-Lei 4.657​, de 04 de Setembro de 1942. Institui a Lei de Migração. Diário Oficial [da]
República Federativa do Brasil, Poder Executivo, Brasília, DF, ​17 ​jun 1943. Art. 7º. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/CCIVIL_03/Decreto-Lei/Del4657compilado.htm>. Acesso em: 08 nov. 2018.
45
BRASIL. ​Decreto-Lei 4.657​, de 04 de Setembro de 1942. Institui a Lei de Migração. Diário Oficial [da]
República Federativa do Brasil, Poder Executivo, Brasília, DF, ​17 ​jun 1943. Art. ​7º, §8​. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/CCIVIL_03/Decreto-Lei/Del4657compilado.htm>. Acesso em: 08 nov. 2018.
46
Aqui utilizei a expressão importada da genética para designar características físicas decorrentes do genótipo,
ou seja, ​composição genética de um indivíduo. Este não seria o termo mais adequado dada que as características
físicas do robô não serem de origem genética, porém aqui utilizado por ausência de uma palavra melhor.
21

Diante disto, no que concerne ao direito, não haveria diferenciação ou graduação das
consequências jurídicas, ou seja, o fato de um ser humano utilizar-se de uma inteligência
artificial para atividades em diversos níveis, desde dirigir um carro, realização de um
diagnóstico ou cirurgia até o desenvolvimento de novas tecnologias, a I.A. estaria
desempenhando uma atividade semelhante a de uma caneta.
Evidentemente diante disto devemos falar da responsabilização dos desenvolvedora da
I.A. e de seu proprietário, sendo a I.A. aplicado o mesmo princípio que é para o direito penal
o crime cometido por autoria mediata47. Logo há a imediata transferência da I.A. do Livro I do
Código Civil para o Livro II. Sendo classificado como um bem: móvel48, podendo ser
semovente ou coisa inanimada, isto conforme sua representação no mundo físico; infungível49
, dado a sua singularidade; consumíveis de direito50, dado que a sua finalidade precípua é o
constante aperfeiçoamento por meio da aprendizagem, o que alteraria sua integridade inicial;
indivisíveis por sua natureza51, por mais que possa haver a divisão e desmembramento de
peças e componentes estes partir do momento que ligados a inteligência passam a fazer parte
do seu todo; singularidade composta52, pois na reunião, forma-se um só todo, porém não
desaparece a condição jurídica de cada parte; e principal53, dado sua existe sobre si mesmo.
Logo uma I.A. que realize uma produção artística única, independentemente de sua
natureza, não seria a detentora dos direitos sobre tal obra, uma vez que embora a produção
seja mérito exclusivo seu, tal não possui a capacidade jurídica para tal, do mesmo modo
qualquer que seja a natureza do dano causado por uma I.A., independente de sua

47
​Ocorre autoria mediata quando o autor domina a vontade alheia e, desse modo, se serve de outra pessoa que
atua como instrumento (atribui-se esse conceito a Stübel, 1828).
48
BRASIL, Código Civil. Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Diário Oficial da
República Federativa do Brasil, Brasília, DF, v. 11, 2002. ​Art. 82. ​Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406.htm>. Acesso em: 08 nov. 2018.
49
​BRASIL, Código Civil. Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Diário Oficial da
República Federativa do Brasil, Brasília, DF, v. 11, 2002. ​Art. ​85​. ​Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406.htm>. Acesso em: 08 nov. 2018​.
50
​BRASIL, Código Civil. Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Diário Oficial da
República Federativa do Brasil, Brasília, DF, v. 11, 2002. ​Art. 86.​ ​Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406.htm>. Acesso em: 08 nov. 2018​.
51
​BRASIL, Código Civil. Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Diário Oficial da
República Federativa do Brasil, Brasília, DF, v. 11, 2002. ​Art. 87,88. ​Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406.htm>. Acesso em: 08 nov. 2018​.
52
​BRASIL, Código Civil. Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Diário Oficial da
República Federativa do Brasil, Brasília, DF, v. 11, 2002. ​Art. 89-91. ​Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406.htm>. Acesso em: 08 nov. 2018​.
53
​BRASIL, Código Civil. Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Diário Oficial da
República Federativa do Brasil, Brasília, DF, v. 11, 2002. ​Art. 92. ​Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406.htm>. Acesso em: 08 nov. 2018​.
22

complexidade, são responsáveis seu proprietário e fabricante, cada qual na medida de sua
responsabilidade.
Tal afirmação propositalmente ecoa com estranheza, não é tarde retomar que tratamos
de uma Inteligência Artificial Forte que detenha consciência, senciente e razão (autonomia),
logo a responsabilização de seu proprietário e fabricante aparentemente são, apenas
aparentemente, incongruente dada suas qualidades, por mais que tal construção lógica seja
coerente, devemos trazer aqui que faria-se necessário aplicação da estrutura atual do direito,
para tanto espelhar o tratamento dado aos animais, uma vez eles como entes não humanos,
com aspectos jurídicos definidos.
O que não impede a construção legislativa, para assegurar a segurança jurídica na
utilização de tal tecnologia.

IGUAIS

A nossa segunda hipótese, baseia-se em uma afirmação sofista de igualdade, o que não
persiste mediante um escrutínio mais apurado, e para tanto não é necessária uma longa
dissecação da igualdade, por um simples motivo de tratarmos de uma tecnologia pós-humana,
um I.A que tenha sua capacidade operacional semelhante ao cérebro humano, teria
capacidades maiores de processamento. Com isto deve-se estabelecer como uma parâmetro
justo para falar em igualdade a já abordada capacidade de aprender todo tipo de assuntos e de
produzir informação nova, o que chamamos de pensamento.
A capacidade civil ou jurídica que é construída a partir da autonomia do indivíduo
para a realização das mais diversas atividades, esta fruto da razão, o ser humano é titular de
direitos dada sua habilidade natural para o exercício da razão de forma inteligível, os animais
possuem consciência ou ao menos não podemos afirmar que eles não possuem, porém não
fazem uso da razão de modo inteligível, por isso tem seus direitos tutelados, mas não podem o
exercer de forma direta, o mesmo ocorre com o aquele que tem sua razão ou modo de
reproduzi-la de algum modo reduzida.54
Logo podemos estabelecer que I.A. forte, poderia ser detentora de capacidade, dado a
sua habilidade de exprimir a razão de modo inteligível, ou seja, sua capacidade de expressar

54
​Aqui não abordo o exercício da capacidade da pessoa jurídica, por esta ser decorrente da capacidade de seus
operadores.
23

seus “pensamentos” na linguagem humana, ou de modo que um ser humano possa a


compreender, que inerentemente é a linguagem do direito, logo não necessitando de um
terceiro, para o exercício de direitos, portanto.
Por mais que a Ciência Jurídica, trata-se de uma ciência intrinsecamente
antropocêntrica, temos este centro deslocado frente a esta possibilidade, o que mostra-se
plenamente compatível com o princípio da igualdade a não humanos, aplicada com relação
aos direitos dos animais, por mais que tal tese mostre-se ante jurídica ou até mesmo bizarra,
baseando-se em argumentos como a ausência de consciência destes ou sua ausência de
exercício legítimo da razão, está partindo de uma compreensão apenas humana.
As consequências no direito civil brasileiro, seriam, em um primeiro momento,
ruptivas com a ordem estabelecida atualmente, ora haveria a necessidade de adequação desta
personalidade eletrônica, dentro de uma das personalidades já existentes, o que no aspecto
prático a aproxima mais da personalidade natural. Contudo não é possível a importação ​ipsis
litteris,​ de conceitos, elementos e tratamentos dados às pessoas naturais para as pessoas
eletrônicas em sua totalidade, devendo estes, de forma mais coerente, serem desenvolvidos
em uma legislação específica, caminho que o Parlamento Europeu já tem dado os primeiros
passos.

3. Conclusão

Diante do exposto verifica-se a necessidade muito estudo adicional será necessário


antes de uma completa compreensão deste fenômeno, aspectos como qual o papel que a
sociedade espera das I.A., a sociedade frente ao convívio com esta nova forma de tecnologia,
se mesmo atendidos os aspectos de além da ​análise e processamento de dados, a capacidade
de aprender todo tipo de assuntos e a capacidade de produzir informações novas, será
parâmetros adotados para o estabelecimento de existência de uma consciência ou não e se o
conceito de 'personalidade eletrônica' seria juridicamente adequado.
Deve-se observar que não existe qualquer óbice, ético ou jurídico, para a consideração
das I.A. como sujeitos de direitos, contudo antes deve-se ser respondida a questão se as
queremos como unidades plenamente autônomas ou com a sua autonomia limitada, para que
assim possa se adequar a uma conformidade jurídica a qual estamos habituados.
24

A mudança virá de um jeito ou de outro, a I.A. não é uma ficção científica, ela não é
um ser extraordinário que ataca nosso mundo, como visto tantas vezes em filmes e livros de
ficção-científica. Ela é mais uma tecnologia que deve nos servir ou ser respeitada,
independentemente da posição adotada precisamos de uma visão realista do que é possível e
como resolver futuros dilemas jurídicos.
Necessária é uma ruptura epistemológica, para a transposição do especismo que
produz a exclusão seja de animais ou I.A., ao considerá-los coisas, e não atribuir-lhes
personalidade jurídica. O processo de mudança de paradigmas implica em uma mudança de
concepção dos conceitos pré-estabelecidos ao paradigma que surge. O conteúdo e extensão
dos significados jurídicos dependem muito do contexto das experiências de cada indivíduo e
de cada sociedade.
É dever do intérprete propor uma mudança conceitual, uma nova hermenêutica que
inclua os “outros”. Esta proposta refletirá na afirmação de um novo significado jurídico que
não se limita em um direito de proposições genéricas e regras estáticas, mas sim que
compreende a realidade na qual está inserida.
Espera-se que este estudo estimule futuras investigações nesta área.
25

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