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OS COMPLEXOS FAMILIARES NA FORMAÇÃO DO INDIVÍDUO1

II. Os complexos familiares na patologia


Lacan indica que neste capítulo tratará de desenvolver duas teses: Na
psicose, os complexos familiares cumprem uma função formal – trazem temas
familiares nos delírios, em conformidade com a “parada” que aí se constitui no
eu e na realidade; e, nas neuroses, uma função causal, pois, aí incidem
constelações e arranjos familiares que determinam os sintomas e as estruturas,
segundo as quais interferem na formação da personalidade.
Ao designar como “familiares” a forma de uma neurose ou de uma
psicose, Lacan entende que o sentido do termo está ligado a algo que se
estabelece nas relações sociais que aí se definem, ou seja, a família. Aqui
estabelece uma distinção preciosa para nossa pesquisa “transmissão e
filiação”. Ele esclarece que aquilo que se transmite na ordem do biológico “[...]
deve ser designado como ‘hereditário’ e não como ‘familiar’ [...]” (p. 68). Assim,
se a transmissão biológica perpetua a hereditariedade, a transmissão familiar
instaura “[...] a forma de uma psicose ou a fonte de uma neurose”. (p.68).
1. As psicoses de tema familiar
Lacan tenta demonstrar sua tese daquilo que designa como “familiar” na
psicose, retomando sua tese de doutorado, para ressaltar que, “[...] entre os
primeiros da França”(p.68), abordou a psicose em sua relação com a
personalidade. Escreve que as reações sociais da psicose, manifestadas nos
delírios e nas pulsões evidenciam “[...] a coerência de um eu arcaico, e em sua
própria discordância deixavam transparecer sua lei interna”. (p.68). A
originalidade de sua paranoia de autopunição, demonstrada no caso Aimée, é
exemplo disso. Ali, Lacan a aborda não apenas a partir de suas relações com o
eu, mas também do supereu e do ideal do eu. O “supereu lhe impõe lhe impõe
seus efeitos punitivos mais extremos, e o ideal do eu afirma-se nela numa
objetivação ambígua, propícia às projeções reiteradas”. (p.69).
Lacan acredita que o progresso desta pesquisa poderia leva-lo a
reconhecer em outras formas de psicose e, em estágios do eu, anterior à
formação da personalidade, a relação com o objeto que lhe é correlato numa

1
LACAN, Jacques. (1938). Os complexos familiares na formação do indivíduo. In: Outros escritos. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p. 29-90.
relação especular do sujeito com o outro, ou, “[...] como pertencimento
subjetivo do corpo despedaçado” (p.69) que poderá ser reencontrado em
suspensão nos objetos do delírio.
Lacan começa então, a estabelecer algumas elaborações entre a relação
com o objeto na psicose e a referência edípica. Através do limite da realidade
do objeto na relação com o narcisismo, ele demonstra como isso se traduz nas
diferentes formas do objeto que, por consequência, daria origem aos diversos
delírios. Na psicose, o objeto edipiano não se reduz a uma estrutura de
narcisismo secundário, mas sim, a um objeto que permanece irredutível a
qualquer equivalência. O preço de sua posse prevalece sobre qualquer
tentativa de compensação, ou seja, é o delírio de reinvindicação. Ele segue
demonstrando que, na psicose, o objeto segue a estrutura do narcisismo
primário. (delírio sensitivo de relações, síndrome de perseguição interpretativa,
com objeto homossexual latente....). O sujeito reconstitui o Estádio do Espelho,
evidenciando uma pertinência subjetiva do corpo despedaçado. Na fase
fecunda do delírio, os objetos internos são transformados em objetos externos,
revelando-se como choques, enigmas. O “supereu” não sofre recalcamento e o
desmedido narcisismo é mascarado em sua relação com a realidade. Lacan
nota que a essência da psicose se resume em uma estagnação da sublimação,
cuja origem, no ideal de eu, está vinculada ao objeto do irmão (complexo do
intruso), imago da homossexualidade primitiva.
Lacan vai articulando a produção dos fenômenos elementares da psicose,
as experiências impositivas, a exemplo do eco do pensamento, na forma das
alucinações auditivas, de conteúdos autodifamatórios podem ser explicadas
através do fantasma especular do corpo, as reações suicidas ligadas a um
relação arcaica com o masoquismo primordial. E por fim, fala da forma de
objeto que se apresenta na megalomania em que o sujeito “[...] incorpora no
seu eu o mundo”. (p.70).
Os complexos familiares desempenham no eu, nos diversos estágios em
que a psicose o detém, um papel notável seja nas reações do sujeito, seja
nos temas delirantes. Sobre as reações do sujeito, Lacan ressalta que elas
se sustentam mais por seu alcance imaginário, que real, que se manifestam
nas relações com cônjuges, pelas significações dos substitutos dos pais, do
irmão, da irmã que, facilmente podem ser reconhecidos nos perseguidores do
paranoico. Há também as filiações secretas de romances, as genealogias
fantásticas de deuses do Olimpo. O objeto, assim constituído na relação
familiar apresenta três alterações: afetivamente, ele se reduz a ser um pretexto
para a exaltação passional, em sua individualidade é desconhecido em sua
reiteração delirante e, em sua identidade esse objeto escapa ao princípio da
contradição. No que tange aos temas familiares do delírio, seu alcance se
mostra na identificação crescente do eu com um objeto familiar, à custa da
distância que o sujeito mantém entre ele e a convicção delirante. As mágoas do
reivindicador em relação aos seus, os temas da espoliação, da usurpação ou
da filiação na concepção paranoica, as identificações com um herdeiro
arrancado de seu berço, a esposa secreta, os personagens míticos do Pai
onipotente, a vítima filial, a Mãe universal ou Virgem primordial.
O eu se confunde assim com a expressão do complexo e o complexo se
exprime na intencionalidade do eu. Lacan ressalta que os psicanalistas dizem
que os complexos na psicose são conscientes e inconscientes nas neuroses.
Mas, lembra que isso não é tão rigoroso assim, pois, o sentido homossexual
das tendências na psicose é desconhecido pelo sujeito.
A questão dos temas familiares na neurose e na psicose é que nestas, eles
são efeitos virtuais e estáticos da estrutura, representações em que o eu se
estabiliza. Possuem a morfologia do complexo (a forma), mas, não revelam sua
organização e nem sua hierarquia. Destaca que foram os psicanalistas que
tiraram a psicose de um evidente artificialismo, a exemplo de como a
erotomania ou o delírio de filiação deslocam a atenção do conjunto para os
detalhes de seu romance, para ver aí uma estrutura calcada na certeza
sistemática que ultrapassa em muito a observação.
Lacan escreve que, se esses papeis e seus temas, desempenham algum
papel na causa e em seu determinismo, esta questão ainda lhe era obscura.
Lacan segue falando sobre o modo pelo qual concebe o orgânico na psicose,
“[...] um móbil orgânico para a subdução mental em que o sujeito se inicia no
delírio”. (p. 73), a exemplo dos estados confusionais, oníricos ou crepusculares.
Aborda também as efusões genitais da puberdade.
As chamadas “anomalias” presentes na situação familiar são destacadas
retomando algumas orientações edípicas da psicanálise. Ele faz menção a
casos em que articulam o ideal do eu e sua formação em relação a um irmão.
Por esse objeto, a libido destinada ao modelo edípico, dá lugar á imago da
homossexualidade primitiva fornecendo um ideal narcísico demais para
sucumbir à sublimação. Também a disposição de “redoma” do grupo familiar
tende a intensificar efeitos de somatização característicos da transmissão do
ideal do eu. Lacan assinala também os efeitos das anomalias da
personalidade, fazendo menção aos casos atribuídos aos chamados “ninhos de
paranoicos” (p. 74), aplicados pelos psiquiatras. Mas são os casos de delírio a
dois, que chamam mais a atenção de Lacan como determinantes para se
pensar a psicose e os complexos familiares. O isolamento social que esse
grupo propicia surte seu efeito máximo, no “par psicológico”, a exemplo do
caso das irmãs Papin.
2. As neuroses familiares
Diferente das psicoses, nas neuroses, os complexos familiares permitem a
produção de sintomas que só manifestam relações contingentes com um objeto
familiar. Por isso, os objetos têm aí uma função causal e dinâmico. Lacan
expõe que os complexos possuem uma função cujo dinamismo e realidade se
opõem diametralmente à da psicose. Os sintomas, neste caso, são expressões
do recalcado, cuja característica é uma permanência no psiquismo. A função
do sintoma se coloca como uma defesa contra a angústia de castração.
Lacan escreve que Freud, como terapeuta se preocupou mais com o doente
do que com a doença. Assim, buscou conhecer o objeto da fobia, a função
somática envolvida em uma histeria e a representação ou o afeto que ocupam
o sujeito em uma obsessão. Lacan, segue introduzindo os aspectos da
sexualidade infantil pelos quais Freud se deparou em sua clínica, a teoria da
sedução, a inscrição do trauma, o surgimento do sintoma, a participação ativa
da criança nas teorias sexuais e o modelo de constelação familiar apresentado
por Freud, através do qual extrai o complexo de Édipo. Esta “origem domina a
concepção que ele formou desse complexo”.(p.76). Lacan conclui que uma
dupla causa é definida pelo complexo, sendo elas os traumatismos precitados
e as relações do grupo familiar “se a prática das neuroses manifesta, na
verdade, a frequência das anomalias da situação familiar, é preciso, para
definir seu efeito, retornar à produção do sintoma”. (p.74).
A produção do sintoma e seu lugar nesse complexo ganha destaque nas
elaborações seguintes. Lacan escreve quer. Reconhecer o papel da resistência
que se opõe à elucidação e da transferência que tem por objeto o analista,
foram fundamentais para isso. O sintoma, é mais do que uma expressão do
inconsciente e Freud precisou rever sua crença socrática inicial, de que o
homem se liberta ao se conhece, é uma defesa contra a angústia, despertada
diante de um perigo de castração.
A definição de Freud para o eu é dada através de um sistema de relações
psíquicas segundo o qual o sujeito subordina a realidade a percepção
consciente. Por esta razão, o supereu se opõe ao sistema das interdições
inconscientes. Este sistema é muito mal definido, escreve Lacan, através do
termo ideal do eu, ao ser confundido com o supereu. As instâncias psíquicas
que escapam ao eu são abordadas a partir da angústia do nascimento, e para
tratar da obscuridade de seus efeitos psíquicos, Lacan recorre ao estádio do
espelho. Essa concepção aborda um estágio de despedaçamento funcional,
determinado pela imaturidade “inacabamento” do sistema nervoso. Através da
identificação ambivalente com seu semelhante “o eu se diferencia, num
progresso comum, do outro e do objeto”. (p. 78). O supereu assegura o
recalque do objeto biologicamente inadequado e o ideal do eu pela
identificação imaginária que orientará a escolha para o objeto biologicamente
adequado na maturação puberal.
O totem é trazido em questão para demonstrar que nas sociedades
primitivas era através dele que se dava a regulação da sexualidade do
indivíduo. O indivíduo identifica nele sua essência vital assimilando-se a ele
ritualmente. Em Freud, o sentido do totem se equivale ao Édipo, e se equivale
a uma de suas funções, a do ideal do eu.
Agora podemos definir melhor o papel da família na gênese destas
questões. Este papel se deve a duas incumbências do complexo de Édipo: o
“acabamento” estrutural do eu e determinar uma certa animação afetiva da
realidade. A regulação deste complexo se dá através das formas
racionalizadas de comunhão social da cultura, e nas quais humaniza-se o ideal
do eu (antes totêmico). Já o desregramento destes efeitos surgem das
exigências crescentes impostas ao eu por essa mesma cultura quanto à
coerência e ao impulso criador.
As vicissitudes e caprichos dessa regulação aumentam em relação ao
progresso social que leva a família a sua forma conjugal e, assim, a submete à
variações individuais. A “anomia” a que dão notícias os psicanalistas advém do
recalque incompleto do desejo pela mãe, com a reativação da angústia, a
investigação inerente à relação do nascimento, o abastardamento narcísico da
relação com o pai na identificação edipiana e a ambivalência agressiva à
relação primordial com o semelhante. Elas advêm das incidências traumáticas
do complexo e da dinâmica das relações de seus objetos e resultam em duas
ordens de neuroses: neuroses de transferência e de caráter. Há também a
fobia, mais facilmente observada na criança. Esta é uma forma degradada do
Édipo. O indivíduo encontra aí a própria forma de defesa para sua angústia, a
própria forma do ideal do eu que reconhecemos no totem. São as incidências
ocasionais do Édipo no progresso narcísico que determinam as outras
neuroses: histeria e neurose obsessiva. Seu protótipo pode ser visto nos
relatos magistrais de Freud de certos acidentes que dão origem às neuroses e
que o sujeito é surpreendido por processos de “recolagem” narcísica,
compostos pela identificação. O sintoma exprime essa composição na
necessidade primordial de fugir da angústia.
A interpretação freudiana da gênese do processo que introduz o sintoma na
personalidade, ultrapassa a análise clínica de Janet, numa compreensão
dramática da neurose como uma luta específica contra a angústia. O sintoma
histérico denota o sacrifício mutilante que a angústia faz ocultar no corpo que
se submete à complacência somática. O sintoma obsessivo ganha sentido
através do deslocamento do afeto na representação, cuja descoberta se deve a
Janet e também a Freud. Este mostra ainda os desvios pelos quais através do
sintoma a culpa vem se compor a tendência agressiva sofrida pelo
deslocamento. Além do desenvolvimento mais abrangente da neurose, é
também possível o caráter essencialmente individual de suas determinações.
Os relatos de Freud dão mostras da infinidade de acontecimentos podem
inscrever os efeitos da neurose como trauma inicial ou como reativação. Lacan
ressalta que os caminhos destes acontecimentos se dão pelos desvios sutis do
complexo edipiano, e que se tratam de eventos que não podem ser definidos
apenas por sua constância. Quando muito, é possível destacar o componente
homossexual da histeria ou a marca da ambivalência agressiva em relação ao
pai na neurose obsessiva. O nascimento de um irmão representa um progresso
narcísico, ao mesmo tempo que sua morte pode ser sentida como ameaça
intimamente sentida como identificação ao outro.
O supereu e o ideal do eu são, com efeito, condições estruturantes do
sujeito. Daí se manifestam em sintomas a desintegração produzida por sua
interferência na gênese do eu, traduzindo-se no desequilíbrio da instância que
lhes é própria na personalidade: a fórmula pessoal do sujeito.
Lacan escreve que o desenvolvimento deste estudo tem a finalidade de
demonstrar que o complexo de Édipo pressupõe certa tipicidade nas relações
entre os pais. Ele insiste especialmente no duplo papel do pai: aquele que
representa a autoridade e que é o centro da revelação sexual. Através da
ambiguidade de sua imago, “encarnação da repressão e catalisadora de um
acesso essencial à realidade, que relacionamos o duplo progresso, típico de
uma cultura, de um temperamento do supereu e de uma orientação
eminentemente evolutiva da personalidade”. (p.84-85).
Na formação do supereu e do ideal do eu o processo não ocorre conforme o
eu do genitor, mas, pelo fato da criança ser sensível às intenções da “pessoa
parental”(p.85), que lhessão afetivamente comunicadas. “Eis, portanto, o que
coloca no primeiro plano das causas de neurose a neurose parental, e
embora nossos comentários precedentes [...] a transmissão tende a ser
similar, em razão da penetração afetiva que torna o psiquismo infantil
receptivo ao sentido mais oculto do comportamento parental”. (p.85)
“Reduzida a forma global do desequilíbrio, essa transmissão é clinicamente
patente, mas não podemos distingui-la do dado antropológico bruto da
degenerescência”. (p.85)
Nas atipias existentes no complexo de Édipo, referentes a relação do filho
com o pai, o conflito se prende ao fazer de cada geração à precedente a
própria condição dialética da tradição do tipo patriarcal. Mas, a cada vez que
ocorre uma ruptura dessa tensão numa dada geração, por questões próprias
ao indivíduo ou dominação paterna, o indivíduo cujo eu se curva recebe ainda
o fardo de um supereu excessivo. Para Lacan o reforço patogênico do supereu
no indivíduo ocorre em função de duas coisas: o rigor da dominação
patriarcal ou a forma tirânica das interdições que ressurgem, com a
estrutura matriarcal, de qualquer estagnação dos laços domésticos.
(p.85). Certos acidentes vitais mais ou menos graves, na mesma idade em que
ocorreram com um dos pais, guinadas da atividade e do caráter ao ser
transposto certos limites de prazos, como a morte que o pai morreu, toda sorte
de comportamentos de identificação, assim como suicídios, levantam o
problema singular de hereditariedade psicológica.
Uma segunda atipia da situação familiar define-se na dimensão dos efeitos
psíquicos assegurados pelo Édipo naquilo em que rege a sublimação da
sexualidade. Toda uma sorte de anomalias são relativas a este aspecto a partir
do uso que se dá em psicanálise do termo libido. A “entidade eterna do desejo”
(p.86) está aí implicada, na verdade, todas as interações do desejo humano
se fazem em formas derivadas do narcisismo primordial. (p.87).
Assim duas formas se distinguem por sua função crucial nesse
desenvolvimento: a do duplo e a do ideal do eu. A segunda representa o
acabamento e a metamorfose da primeira. O ideal do eu substitui o duplo, a
imagem antecipatória da unidade do eu, no momento em que esta se completa,
pela nova antecipação da maturidade libidinal do sujeito.
Lacan destaca que, à época “os analistas têm insistido nas causas de
neurose em que se constituem os distúrbios da libido na mãe, e a mais ínfima
experiência revela, de fato, em numerosos casos de neurose, uma mãe frígida ,
da qual apreendemos que a sexualidade, ao se desviar para as relações com o
filho , subverteu sua natureza: mãe que paparica e mima com uma ternura
excessiva, na qual se exprime, mais ou menos conscientemente, um impulso
recalcado; ou mãe de uma secura paradoxal de severidades mudas, com uma
crueldade inconsciente em que se traduz uma fixação bem mais profunda da
libido”. (p.87)
A anomalia correlata a pai se dá no círculo vicioso dos desequilíbrios
libidinais. É também neste contexto que se pode compreender a frigidez
materna. Lacan acredita que o destino psicológico da criança depende da
relação que mostram entre si as imagens parentais. O desentendimento dos
pais seja explícito ou secreto têm aí papel relevante como uma primeira atipia
familiar ao desenvolvimento neurótico. A conjuntura mais favorável à
identificação evocada como neurotizante é a percepção “[...] muito segura
na criança, nas relações que os pais mantêm entre si, do sentido neurótico das
barreiras que os separam, muito especialmente no pai, em razão da função
reveladora de sua imagem no processo de sublimação sexual”. (p.88). Uma
segunda atipia se revela na relação da desarmonia sexual dos pais em relação
à preponderância conservada pelo complexo do desmame de diversas
maneiras neuróticas. O sujeito fica condenado a repetir indefinidamente o
esforço de desligamento da mãe, assim como algumas neuroses orais ou
digestivas, a aglutinação dos membros do grupo familiar, estagnados nos laços
domésticos, isolados na sociedade. A terceira atipia familiar concerne a função
delicada de assegurar a sexualização psíquica. Lacan escreve que aí,
novamente, a clínica psicanalítica trás os excessos da ternura materna como
papel relevante no processo.
Portanto, para Lacan, a neurose mais simples é a fobia. O animal, fonte de
medo, representa a mãe em gestação, o pai ameaçador ou o irmão intruso. Na
histeria, o sintoma deflagra uma desintegração de uma função somaticamente
localizada, cujo simbolismo organomórfico manifesta-se por uma espécie de
mutilação, recalcando uma satisfação genital. Já o sintoma obsessivo desloca
o afeto ligado a uma representação inaceitável, para outra tida como neutra;
daí a persistência das ideias invasivas, já que o processo de deslocamento não
pode parar de ocorrer, a fim de proteger o sujeito da representação originária.
Para Lacan, não há meios de generalizar os efeitos dos traumas, com exceção
de notar certa tendência homossexual recalcada na histeria e uma
agressividade em relação ao pai na obsessão.
Lacan termina o texto com uma consideração suplementar que relaciona o
processo familiar às suas condições culturais. Aborda então, o protesto viril da
mulher e seus efeitos no complexo de Édipo, para dizer que na hierarquia dos
valores que constituem a cultura, um dos mais característicos é a harmonia que
ela define entre os princípios do masculino e do feminino. “As origens de
nossa cultura estão por demais ligadas ao que de bom grado
chamaríamos de aventura da família patriarcal para que ela não imponha ,
em todas as formas pelas quais enriqueceu o desenvolvimento psíquico,
uma prevalência do princípio masculino, cuja parcialidade o peso moral
conferido ao termo virilidade é suficiente para aquilatar”. (p. 89). Por fim,
Lacan trás a questão da homossexualidade. Ele vem dizer que tal equilíbrio
tem um avesso, a ocultação do princípio feminino sob o ideal masculino. “Não é
por acaso que concluímos na inversão psíquica esta tentativa de
sistematização das neuroses familiares”. É em função da antinomia social que
se deve compreender os impasses imaginários da polarização sexual, quando
nela se engajam invisivelmente as formas de uma cultura, seus costumes, a
arte, suas lutas e o pensamento.