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QUE SABEMOS SOBRE A BÍBLIA?

QUE SABEMOS SOBRE A BÍBLIA?

ARIEL ÁLVAREZ VALDÉS

QUE SABEMOS SOBRE A BÍBLIA?

III

ARIEL ÁLVAREZ VALDÉS QUE SABEMOS SOBRE A BÍBLIA? III EDITORA SANTUÁRIO Aparecida-SP

EDITORA SANTUÁRIO Aparecida-SP

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Álvarez Valdés, Ariel Que sabemos sobre a Bíblia? / Ariel Álvarez Valdés; | tra-

dução Afonso Paschotte |. — Aparecida, SP: Editora Santuário,

1997.

Título original: ¿ Qué sabemos de la Biblia? Obra em 3 v. ISBN 85-7200-481-5 (v. 1) — ISBN 85-7200-482-3 (v. 2) — ISBN 85-7200-483-1 (v. 3)

1.

Bíblia - Estudo e ensino 2. Bíblia - Leitura I. Título.

97-2253

CDD-220.07

 

Índices para catálogo sistemático:

1.

Bíblia: Estudo e ensino 220.07

Título original: ¿Qué sabemos de la Biblia? (III) © Editorial LUMEN, Argentina, 1995 ISBN 950-724-439-5

Tradução de Pe. Afonso Paschotte, C.Ss.R.

Todos os direitos em língua portuguesa reservados à EDITORA SANTUÁRIO - 1997

portuguesa reservados à EDITORA SANTUÁRIO - 1997 Composição, impressão e acabamento: EDITORA SANTUÁRIO -

Composição, impressão e acabamento:

EDITORA SANTUÁRIO - Rua Padre Claro Monteiro, 342 Fone: (012) 565-2140 — 12570-000 — Aparecida-SP.

Ano: 2000

99

98

97

Edição: 6

5

4

3

2

1

ÍNDICE

Que significado têm os números na Bíblia?

5

As três leituras do número

5

Primeiro sentido: quantidade

6

Segundo sentido: simbolismo

6

Os números 1, 2 e 3

7

Os números 4 e 5

8

Os números 7, 10 e 12

9

Outros números com mensagens

10

Ver caso por caso

12

Terceiro sentido: gematria

12

O

Êxodo e os antepassados de Jesus

13

E

o Verbo se fez escritura

14

Com quem se casou Caim, o filho de Adão e Eva?

17

O primeiro homicida

17

A expulsão do campo

18

Uma figura desfigurada

18

O

enigma de uma esposa

19

O

herói Caim

20

O

homicida Caim

21

O

irmão que faltava

22

Plágio em nome de Deus

23

O

segundo pecado original

24

Para que o rei o saiba

25

A

ampliação de Jesus

26

Qual é a origem dos dez mandamentos?

27

Não estão todos os que são

27

Os doze mandamentos

28

Em busca dos dez

28

A

proposta judaica

29

A proposta cristã

30

Para aprender o catecismo

31

Mandamentos para cristãos

32

O

catecismo dos israelitas

33

Os pecados mortais

34

“De” Moisés, mas não “por” Moisés

35

O

espírito do Decálogo

36

De Javé a Jesus

37

Permitiu Moisés o “olho por olho e dente por dente”?

39

A

lei mais antiga do mundo

39

Três vezes na Bíblia

40

Vinganças dilaceradoras

40

A

falta de polícia

41

Um grande passo para a humanidade

42

Não para todo o público

43

Sem levá-la tão a sério

44

A

nova lei de Jesus

44

Um estranha bofetada

45

A

túnica e o manto

46

O

que se passou com o Cireneu

47

Agora sim é para todos

48

Como caíram as muralhas de Jericó?

49

O

primeiro obstáculo

49

O

estratagema insólito

50

Milagre ou terremoto?

51

Quando as pás falam

51

A

primeira cidade do mundo

52

As cidades que se seguiram

53

O

que diz a história

54

O

que diz a fé

55

A

melhor maneira de dizê-lo

55

A

verdade da fé

56

A

nova Jericó

57

Quem foram as avós de Jesus?

59

Um começo que ninguém lê

59

A

importância de ter avós

60

Três etapas da vida

61

As lições da história

61

Não apto para as mulheres

63

A avó Tamar

64

A avó Raab

65

A avó Rute

66

A avó Betsabé

67

Os parentes pobres

67

O Anjo do Senhor anunciou a Maria?

69

A

audácia de Zefirelli

69

Como foi que se manifestou

70

Para que se veja a gravidez

70

Um diálogo repetido

71

Uma forma literária

72

Os cinco elementos

73

Também a Maria

73

Aos juízes

74

E

aos sacerdotes

75

O

que se pretende afirmar

76

O

famoso medo de Maria

76

Não conhecia homem

77

Custa pouco e vale muito

78

João Batista batizou a Jesus?

81

Nasce uma festa

81

O

mesmo, mas distinto

82

Por algo abriram-se os céus

83

Havia começado o final

83

Sem que ninguém percebesse

84

O

mal de aprender mal

85

Quem devia ir a quem?

86

Discípulos em discussão

87

Teve de eliminá-lo

88

Até mesmo Apolo

88

Para entender melhor

89

Jesus foi tentado pelo Diabo?

91

Nem boas, nem más

91

Uma só vez é fácil

92

Com transporte, inclusive

92

Ele as teve permanentemente

93

A

razão do número 3

94

Para o novo povo, tentações antigas

94

A tentação do deserto

95

A tentação do pináculo

96

A tentação da montanha

97

Em substituição ao perdedor

98

Baseados em sua vida

99

Também as demais

99

Modelo a ser imitado

100

Houve cataclismos no dia em que morreu Jesus?

103

Fenômenos insólitos

103

É

possível explicar isso?

104

A

escuridão do meio-dia

105

O

terremoto

106

As rochas que se fendem

107

As tumbas que se abrem

108

Os mortos que se levantam

109

Evocando o fim

110

A

linguagem da Bíblia

111

São Mateus e a genuína “New Age”

112

Perguntas sobre os temas bíblicos para reflexão e discussão em grupo

113

QUE SIGNIFICADO TÊM OS NÚMEROS NA BÍBLIA?

As três leituras do número

Se lêssemos no jornal que morreu um homem aos 38 anos ou que um edifício de 7 andares pegou fogo, ninguém duvidaria do significado destes números. Expressam exata- mente a idade desse homem e a quantidade exata de andares do edifício. Mas, se lemos no Evangelho que Jesus curou um homem que há 38 anos carregava uma enfermidade (cf. Jo 5,5) ou que se recolheram 7 cestos logo depois da multi- plicação dos pães (cf. Mc 8,8), a coisa muda. Já não estamos tão seguros se se refere aos anos que o homem esteve enfer- mo ou à quantidade de cestos que verdadeiramente foram recolhidos naquele dia.

É que para nós o número tem um sentido muito dife- rente do que tinha para os antigos orientais. Enquanto nós normalmente os usamos para indicar a quantidade de algu- ma coisa, para a mentalidade bíblica eles podiam expressar não uma, mas três realidades distintas: quantidade, simbo- lismo e mensagem “gemátrica”.

Primeiro sentido: quantidade

A primeira realidade que um número pode expressar na Bíblia é a quantidade. Assemelha-se, assim, ao uso que damos ao número diariamente.

Por exemplo, quando nos é dito que o profeta Elias predisse uma seca de 3 anos em Israel (cf. 1Rs 18,1) ou que o rei Josias governou durante 31 anos em Jerusalém (cf. 2Rs 22,1) ou que Salomão colocou 12 governadores encarrega- dos de manter o palácio um mês cada um (cf. 1Rs 4,7), ou que Betânia, a aldeia onde Jesus ressuscitou Lázaro, distava 15 estádios (= 3 km) de Jerusalém (Jo 11,18). É evidente que nenhum desses números é simbólico, nem encerra uma men- sagem oculta. Pura e simplesmente se referem à quantidade de anos, de pessoas ou à distância mencionadas no texto.

Assim como estes, é possível identificar muitos ou- tros números com os quais a Bíblia oferece informações e dados históricos concretos e que unicamente expressam quan- tidade. Não há lugar para confusão: o que o número diz é o que o autor queria dizer.

Segundo sentido: simbolismo

Os números bíblicos têm também um segundo senti- do: o simbólico.

Um número simbólico é aquele que não indica uma quantidade, mas que expressa uma idéia, uma mensagem distinta dele, que o supera e o alarga.

Nem sempre é possível saber por que “tal” número significa “tal” coisa. A associação entre ambas as realidades

é, às vezes, desconhecida. Por isso estes números não são “razoáveis” e resultam de difícil compreensão para nós, oci- dentais, prisioneiros da lógica. Mas os semitas os usam com toda a naturalidade, para transmitir idéias, mensagens ou chaves.

Ainda que a Bíblia nunca explique o que cada número simboliza, os estudiosos conseguiram averiguar alguns de seus simbolismos e puderam esclarecer muitos episódios bíblicos que se tornaram mais compreensíveis.

Os números 1, 2 e 3

O número 1 simboliza Deus, que é único. Por isso

indica exclusividade, primazia, excelência. Assim, quan- do Jesus contesta ao jovem rico “por que me perguntas pelo bom? 1 só é o bom” (cf. Mt 19,17). E sobre o matri- mônio: “Assim já não são dois, mas 1 só carne. Não se- pare, pois, o homem o que Deus uniu” (cf. Mt 19,6). Ou quando diz: “Eu e o Pai somos 1” (cf. Jo 10,30). Também quando Paulo expressa que “todos vós sois 1 em Cristo Jesus” (cf. Gl 3,28). “Há 1 só Senhor, 1 só fé, 1 só batismo, 1 só Deus” (cf. Ef 4,5). Em todos estes casos, o 1 simboliza o âmbito divino.

O número 2, por sua vez, representa o homem, pois

nele sempre há dualidade, divisão interior por causa do pe- cado. Ele esclarece alguns enigmas do Evangelho. Por exem- plo, segundo Marcos 5,2 Jesus curou só um endemoninhado em Gerasa. Mas, segundo Mateus 8,28 os endemoninhados eram 2. Conforme Marcos 10,46 Jesus curou somente um cego em Jericó, chamado Bartimeu. Mateus 20,30 fala de 2 cegos. De acordo com Marcos 14,57, no julgamento contra

Jesus apresentaram-se “algumas” testemunhas falsas, mas conforme Mateus 26,60 eram 2. Quem está dizendo a verda- de? Ambos, pois enquanto Marcos nos dá a versão histórica, Mateus usa o número simbólico.

O número 3 expressa “totalidade”, talvez porque 3 são

as dimensões do tempo: passado, presente e futuro. Dizer 3 equivale a dizer “totalidade” ou “sempre”. Assim os 3 filhos de Noé (cf. Gn 6,10) representam a totalidade de seus des- cendentes. As 3 vezes que Pedro negou Jesus (cf. Mt 26,34) simbolizam todas as vezes que Pedro lhe foi infiel. As 3 ten- tações que sofreu Jesus representam as tentações que ele teve durante toda a sua vida. E chama-se a Deus no Antigo Testa- mento o 3 vezes Santo, ou seja, o que tem toda a santidade (cf. Is 6,3).

Os números 4 e 5

O número 4, na Bíblia, significa o cosmos, o mundo,

já que 4 são os pontos cardeais. Assim, quando se diz que no Paraíso havia 4 rios (cf. Gn 4,10) significa que todo o cos- mos era um Paraíso antes do pecado de Adão e Eva. Ou seja, não se trata de um lugar determinado, como pensam alguns que ainda o buscam em algum lugar do Oriente. E quando Ezequiel chama o Espírito dos 4 ventos para que soprem sobre os ossos secos (cf. Ez 37,9) não é que existam 4 ven- tos, mas sim que se invocam os ventos de todo o mundo. E quando o Apocalipse conta que o trono de Deus se assenta sobre 4 seres (cf. 4,6) quer dizer que se assenta sobre o mun- do todo, que a terra inteira é o trono de Deus.

O número 5 significa “alguns”, “um tanto”, uma quan-

tidade indefinida. Assim, diz-se que na multiplicação dos

pães Jesus tomou 5 pães (= alguns pães). Que no mercado se vendem 5 pássaros por duas moedas (= alguns passarinhos). Que Isabel se fechou em casa, depois de sua gravidez, du- rante 5 meses (= alguns meses). Que a samaritana do poço de Jacó tinha 5 maridos (= vários maridos). Jesus usa com freqüência o número 5 em suas parábolas com este sentido indefinido: as 5 virgens prudentes e as 5 imprudentes, os 5 talentos, as 5 juntas de bois que os convidados para o ban- quete compram, os 5 irmãos que o rico Epulão tinha. E Pau- lo, falando do dom das línguas, afirma que prefere falar 5 palavras (= algumas) compreensíveis a 10.000 em línguas (cf. 1Cor 14,19).

Os números 7, 10 e 12

O número 7 contém o simbolismo mais conhecido de todos. Representa a perfeição. Por isso Jesus dirá a Pedro que deve perdoar a seu irmão até 70 vezes 7. Pode também expressar a perfeição do mal ou do sumo mal, como quando Jesus ensina que se um espírito sai de um homem pode re- gressar com outros 7 piores, ou quando o Evangelho conta que o Senhor expulsou 7 demônios da Madalena.

Pelo seu significado de perfeição, este número apa- rece sempre em referência às coisas de Deus. O Apocalipse é o livro que mais o usa: 54 vezes para descrever simboli- camente as coisas divinas: as 7 Igrejas da Ásia, os 7 espíritos do trono de Deus, as 7 trombetas, os 7 candelabros, os 7 chi- fres, os 7 olhos do Cordeiro, os 7 tronos, as 7 pragas, os 7 cálices que se derramam. Muitos se enganam quando tomam este número como se fosse uma quantidade ou um tempo reais.

A tradição da Igreja continuou este simbolismo do 7 e

por isso marcou como 7 os sacramentos, os dons do Espírito

Santo, as virtudes.

O número 10, por outro lado, tem um valor mnemotécnico; por serem 10 os dedos das mãos fica fácil lembrar-se desse número. Por isso 10 são os mandamentos que Javé deu a Moisés (poderiam ter sido mais) e 10 as pra- gas que assolaram o Egito. Igualmente por esta razão é que se colocam somente 10 antepassados entre Adão e Noé e 10 entre Noé e Abraão, ainda que saibamos que foram muitos mais.

Outro número simbólico é o 12. Significa “escolha”. Por isso se falará das 12 tribos de Israel, quando, na realida- de, o Antigo Testamento menciona mais de 12. Com isso se quer dizer que eram tribos “escolhidas”. Da mesma forma serão 12 os profetas menores do Antigo Testamento. O Evan- gelho mencionará igualmente 12 apóstolos de Jesus que, se compararmos seus nomes, serão mais; são, porém, chama- dos “os Doze”, porque são os escolhidos do Senhor. Jesus afirma ter também 12 legiões de anjos à sua disposição (cf. Mt 26,53). O Apocalipse falará de 12 estrelas que coroam a Mulher, das 12 portas de Jerusalém, de 12 anjos, de 12 fru- tos da árvore da vida.

Outros números com mensagens

O número 40 contém também seu simbolismo: repre-

senta a “mudança” de um período para outro, os anos de uma geração. Por isso o Dilúvio dura 40 dias e 40 noites (pois é a mudança para uma nova humanidade). Os israelitas estão 40 anos no deserto (até que mude a geração infiel por

outra nova). Moisés permanece 40 dias no Monte Sinai e Elias peregrina outros 40 dias até aí (a partir de então suas vidas se transformam). O profeta Jonas prediz a destruição de Nínive em 40 dias (para dar-lhes tempo de mudar de vida). Jesus jejuará durante 40 dias (porque é a mudança de sua vida privada para sua vida pública). Por outro lado, o número 1.000 significa multidão, grande quantidade. No livro de Daniel diz-se que o rei Baltazar deu uma grande festa com 1.000 convidados (cf. 5,1). O salmo 90 sustenta que 1.000 anos são, para nós, como um dia para Deus. Salomão ofereceu 1.000 sacrifícios de animais em Gabaão (cf. 1Rs 3,4) e tinha, em seu harém, 1.000 mulheres (cf. 1Rs 11,3). Às vezes este número entra em combinação com ou- tros. Assim, no livro do Apocalipse se diz simbolicamente que no final do mundo se salvarão 144.000, porque é a com- binação de 12 x 12 x 1.000 e significa os eleitos do Antigo Testamento (12) e os do Novo Testamento (x 12), em uma grande quantidade (x 1.000).

Finalmente permanecem outros símbolos menores. São Lucas narra que Jesus elegeu 70 discípulos para enviá-los “a todos os lugares por onde devia passar” (cf. 10,1). Lucas não oferece um número real, mas simbólico, já que, segun- do Gn 10, o total de povos e nações que existiam no mundo era 70. Lucas, homem de mentalidade universal, ao dizer que Jesus mandou 70 missionários, quis expressar que os enviou para que o Evangelho chegasse a todas as nações do mundo. Da mesma forma João, quando conta que na pesca milagrosa os apóstolos obtiveram 153 peixes (cf. 21,11). Por que tanto interesse em registrar um detalhe sem im- portância? É que na antigüidade acreditava-se, entre os

pescadores, que 153 era o número de peixes que existiam nos mares. A mensagem é claríssima: Jesus veio para sal- var as pessoas de todas as nações, raças e povos do mun- do.

Ver caso por caso

Nem todos os números, porém, são simbólicos. Em cada caso deve-se perguntar: esta cifra indica quantidade ou encerra uma mensagem?

Por exemplo: quando se diz que 4 pessoas levaram, numa maca, um paralítico até Jesus, é evidente que o núme- ro 4 é real: a maca tinha 4 extremos e era a forma mais prá- tica de transportá-lo. E quando lemos que Paulo embarcou em Filipos e após 5 dias alcançou Trôade, não se pode pen- sar em número simbólico. Era exatamente o tempo que en- tão se levava para uma viagem dessas.

Terceiro sentido: gematria

O terceiro sentido que o número pode ter, na Bíblia, é o “gemátrico”. Que significa isto? É uma particularidade das

línguas hebraica e grega. Enquanto em português escreve- mos os números com certos sinais (1, 2, 3) e as letras com outros diferentes (a, b, c), em grego e em hebraico se empre- gam as mesmas letras do alfabeto para escrever os números.

Assim, o número 1 é a letra “a”; o 2, a letra “b” etc

forma, se somarmos as letras de qualquer palavra, podemos

Dessa

sempre obter um número. O número assim obtido chama-se “gemátrico”.

Essa possibilidade que as línguas bíblicas ofereciam dava lugar a jogos engenhosos e entretenimentos originais, já que em cada cifra podia estar escondida uma palavra. A Bíblia nos traz vários exemplos disso.

Assim, Gênesis 14 nos relata a invasão da Palestina por quatro poderosos exércitos do Oriente que levaram pri- sioneiro Lot, sobrinho de Abraão. Quando o patriarca toma conhecimento reúne 318 homens e sai em perseguição de- les, consegue derrotá-los e resgata Lot. Mas, pôde Abraão, só com 318 homens, vencer os quatro exércitos mais pode- rosos da Mesopotâmia? Só alguém muito ingênuo poderia acreditar nisto. A menos que este número signifique alguma coisa. De fato, sabemos que Abraão tinha um criado herdei- ro de todos os seus bens, chamado Eliezer (cf. Gn 15,2). Se somarmos então os números que correspondem às letras hebraicas deste nome, teremos: E (= 1) + L (= 30) + I (= 10) + E (= 70) + Z (= 7) + R (= 200) = 318. (Os valores assina- lados correspondem ao alfabeto hebraico, por isso uma mes- ma letra pode conter valores diferentes.) Com isso se queria dizer que Abraão saiu para o combate com todos os seus herdeiros; e que seus herdeiros, isto é, a descendência de Abraão, será sempre superior a seus inimigos.

O Êxodo e os antepassados de Jesus

No livro dos Números há outro exemplo. Conta-se aí que no êxodo do Egito saíram 603.550 homens, sem contar as mulheres, velhos e crianças. Se isto for verdade, o cálculo de pessoas que saíram do Egito seria de 3 milhões aproxi- madamente, uma quantidade exorbitante, talvez nunca alcançada pela população de Israel em toda a sua história.

Mas se substituirmos as letras da frase “todos os filhos de Israel” (em hebraico: rs kl bny ysr’l) pelos seus valores nu- méricos correspondentes, teremos exatamente 603.550. As- sim, ao dizer que saíram 603.550, o autor afirma que saíram todos os filhos de Israel.

São Mateus nos traz também um destes jogos. Divide os antepassados de Jesus em três séries de 14 gerações, cada uma, e acrescenta no final: “De Abraão até Davi são, pois, 14 gerações e de Davi até o cativeiro da Babilônia 14 ge- rações e do cativeiro de Babilônia até Cristo 14 gerações” (cf. 1,17). Isto, porém, é impossível. Mateus coloca três no- mes apenas para cobrir os 430 anos de escravidão no Egito.

E somente dois ascendentes para completar os três séculos

entre Salomão e Jessé.

É que de fato confeccionou artificialmente esta lista, para que dessem somente 14 gerações, já que 14 é o número gemátrico do rei Davi: D (= 4) + V (= 6) + D (= 4) = 14. E como se esperava que o futuro Messias fosse descendente de Davi, o evangelista quis dizer que Jesus é o “três vezes Davi”, e, portanto, o Messias total, verdadeiro descendente de Davi.

O Apocalipse nos dá o mais famoso jogo bíblico de

gematria. Trata-se do número 666 da Besta (cf. Ap 13,19).

O mesmo livro declara que se trata do número de um ho-

mem. E quem se esconde atrás deste número não é senão o imperador Nero: se transcrevermos “Nero César” em

hebraico, teremos: N (= 50) + R (=200) + W (= 6) + N (= 50)

+ Q (=100) + S (= 60) + R (= 200) = 666.

E o Verbo se fez escritura

A nenhum cristão é estranho que Jesus, a Palavra de Deus, se tenha feito homem. Menos ainda que tenha vivido como uma pessoa de seu tempo. Pelo contrário, é normal imaginá-lo vestido com as túnicas do século I, alimentando- se com as comidas de sua época e utilizando os meios técni- cos e de locomoção da época.

Mas para muitos, ao contrário, é difícil entender que a Bíblia, que também é Palavra de Deus, tenha-se encarnado na cultura e no idioma de então. Pensam que fala como nós, com nossas expressões e nossa mentalidade. Não é assim. Como Cristo se encarnou num homem de quase 2.000 anos atrás, a Bíblia também fala como o povo de 2.000 anos atrás. E assim como seria ridículo imaginar Jesus viajando de ter- no e gravata, viajando de táxi até Jerusalém e transmitindo seus sermões pelo rádio, da mesma forma se torna ridículo interpretar a Bíblia literalmente, com nossas categorias men- tais, como muita gente faz. Devemos situar-nos na mentali- dade e na cultura dos judeus daquele tempo.

Desta maneira, quando nos encontramos com núme- ros ou cifras na Bíblia, devemos perguntar-nos se não se trata de quantidade, de simbolismo ou de um número gemátrico. Isto nos ajudará a destrinçar melhor o sentido da Palavra de Deus. E com ela, a mensagem que tem para nos- sa própria vida.

COM QUEM SE CASOU CAIM, O FILHO DE ADÃO E EVA?

O primeiro homicida

Conta a Bíblia que, pouco tempo antes de serem ex- pulsos do Paraíso, Adão e Eva tiveram dois filhos chamados Caim e Abel (cf. Gn 4). O mais velho dedicava-se à agricul- tura e o mais novo era pastor. Eram muito religiosos e ofere- ciam os frutos de seus trabalhos a Deus: Caim, o produto do campo e Abel, as primícias do rebanho.

Deus, no entanto, só se comprazia com a oferenda de Abel. Não se esclarece a razão de tal preferência, nem como os jovens perceberam as diferenças que Deus fazia. Apenas se descrevem o desgosto e a amargura de Caim diante dessa atitude de Deus. Então Deus dirigiu-se a ele com uma frase misteriosa: “Por que estás enfurecido e andas com o rosto abatido? Não é verdade que, se fizeres o bem, andarás de cabeça erguida? Mas, se não o fizeres, o pecado não estará à porta, espreitando-te como um assaltante? Tu, porém, terás de dominá-lo” (cf. 4,6-7).

Caim, porém, não quis escutá-lo e começou a alimen- tar o ódio contra seu irmão Abel. Até que um dia convidou- o a ir ao campo e aí o atacou e o matou.

A expulsão do campo

Deus, então, se apresenta a Caim e lhe pergunta: “Onde está o teu irmão Abel?” E ele respondeu com sua famosa frase: “Não sei. Acaso sou o guarda de meu irmão?” “O que fizeste?” — perguntou ele — “Ouço da terra a voz do san- gue de teu irmão, clamando por vingança! Agora serás amal- diçoado pela própria terra que engoliu o sangue de teu ir- mão, derramado por ti. Quando cultivares o solo, negar-te-á o sustento e virás a ser um fugitivo, errante sobre a terra” (Gn 4,10-12).

Caim toma consciência do que fez e lança um grito de profunda dor: “O castigo é grande demais para suportá-lo. Eis que hoje me expulsas da face deste solo fértil e devo ocultar-me diante de teu rosto. Quando estiver fugindo e vagueando pela terra, quem me encontrar, matar-me-á” (Gn

4,13-14).

Deus, comovido diante de seu pranto desesperado, com um gesto de bondade promete vingá-lo sete vezes se alguém tentar matá-lo, e põe-lhe um sinal de proteção e salvação para que quem o veja o reconheça e o respeite. Assim Caim sai da terra que costumava cultivar e se refugia no deserto, onde é condenado a uma vida errante e de sofrimentos.

Uma figura desfigurada

Quando lemos esse capítulo dessa forma, aparece uma figura de Caim bem diferente daquela que tradicionalmente nos era apresentada. Ele não aparece tão mau, nem tão per- verso, como também não vemos em lugar algum que Abel tenha sido bom, como sempre temos acreditado.

Que Deus tenha preferido as oferendas de um mais do que as do outro não significa que um era bom e o outro mau. Isto se deve a uma livre escolha de Deus. Tal escolha não suscitava, entre os antigos, problemas de moralidade, nem de bondade. Para eles era uma experiência cotidiana ver, muitas vezes, o rei, o faraó ou o imperador fazer o que lhes parecesse melhor com as pessoas, sem que isso significasse alguma injustiça, nem desprezo aos demais, nem maldade com eles.

Foi a tradição que, por causa de uma valorização ne- gativa de Caim, interpretou seu grito — que na verdade é de dor e de penitência — como se fosse de desespero e de ob- sessão; de forma que teria dito: “meu pecado é tão grande que não mereço perdão”. O que não está de acordo com o texto.

E para piorar, o sinal de misericórdia e de salvação que Deus lhe coloca para protegê-lo foi entendido como si- nal de maldição e de vergonha diante do pecado cometido.

O enigma de uma esposa

Chama-nos, porém, a atenção uma série de contradi- ções e de detalhes incoerentes ao longo do relato. Começa dizendo que Caim era lavrador e Abel pastor de ovelhas (v. 2). Mas se ambos são filhos dos primeiros homens isso é impossível. Segundo a paleontologia, os primeiros seres humanos que surgiram sobre a terra, há dois milhões de anos, viviam da caça, da pesca e dos frutos naturais do solo. A domesticação de animais só apareceu 10.000 anos a.C. e a agricultura mais tarde ainda, uns 8.000 a.C. Como poderia Caim conhecer a agricultura e Abel ser pastor?

No versículo 4 conta-se que Abel oferecia a Deus as primícias do rebanho e a gordura dos animais. Mas foi no Monte Sinai, muitos séculos depois, quando Deus ordenou

a Moisés que o povo lhe oferecesse os primogênitos dos re-

banhos (cf. Êx 34,19) e as gorduras dos animais (cf. Lv 3,12-

16). Como poderia Abel oferecer o que ainda não estava

mandado?

Mais adiante Caim convida seu irmão a ir para o cam- po com ele (v. 8). Mas por acaso já habitavam cidades, quan- do não existiam senão eles dois e seus pais?

Depois de seu crime, Caim exclama: “Quem me en- contrar, matar-me-á” (v.14). Quem poderia matá-lo, se até que Abel morreu não existiam senão Adão e Eva?

Mas, talvez o que mais assombre os leitores seja a leitura do versículo 17, onde se afirma que Caim se casou e sua mulher ficou grávida. De onde apareceu essa mulher? Alguns chegaram a supor que fosse Eva. Nada mais que

a

própria mãe, já que nesse tempo não teria sido proibido

o

incesto.

Tudo isso preocupou muita gente durante séculos.

O herói Caim

Hoje os estudos bíblicos ensinam que a história de Caim apresenta tantas incoerências porque passou por três etapas sucessivas, até chegar onde hoje está, no livro do Gênesis. De início era um relato popular, transmitido oral- mente e independente do relato de Adão e Eva. Nele se nar- rava a vida de uma antigo herói chamado Caim, que viveu numa época já adiantada da humanidade. Por isso se falava de cidades construídas, de um culto desenvolvido a Deus,

de povos inteiros que povoavam a terra e se mencionavam a agricultura e a criação de gado.

A história começava com o nascimento de Caim e con-

tava como no dia em que veio ao mundo sua mãe o celebra com uma frase de muita estima e carinho: “Ganhei um ho- mem com a ajuda do Senhor” (Gn 4,1). Talvez se tratasse, no relato original, de um ser semi-divino, bastante conheci- do no antigo oriente. Deduz-se que era uma figura famosa

porque, na Bíblia, costuma-se explicar o nome das pessoas importantes. E o Gênesis dá uma explicação do nome “Caim”, dizendo que significa “adquirir”. Quando a criança se fez grande converteu-se no fun- dador de uma famosa tribo beduína, chamada “cainita”, que habitava o deserto, ao sul de Israel.

A história incluía também seu casamento, talvez com

alguma das muitas jovens pertencentes aos clãs que na épo- ca habitavam o deserto, e o nascimento de seu filho Henoc (Gn 4,17).

O homicida Caim

Essa história, que os cainitas contavam a respeito de seu fundador, Caim, era conhecida pelos seus vizinhos, os israelitas. Eles, no entanto, a modificarão.

De fato, chamava-lhes a atenção o fato de que tais beduínos viviam em pleno deserto, isolados das terras culti- vadas. E que, por não encontrarem em seus áridos territórios os meios suficientes de subsistência, dedicavam-se à pilha- gem e ao saque. Perguntavam então: por que os cainitas levam vida tão penosa e errante, longe da terra prometida e abençoada por

Deus? E respondiam que se tratava de um castigo de Deus

que os havia condenado a viver errantes por causa de algum delito cometido pelo seu fundador. Que tipo de delito? Não

o sabiam, mas, como os cainitas assolavam permanentemente

as terras cultivadas de suas tribos irmãs de raça, imaginaram

que o delito de Caim era contra seu irmão.

Uma vez que os cainitas adoravam a Javé, assim como os israelitas, puseram no relato que “Caim oferecia seus fru- tos a Javé” (Gn 4,3). Estes beduínos eram célebres pelas terríveis vingan- ças que perpetravam contra quem matava um de seus mem- bros. Por isso acrescentaram: “Se alguém matar Caim, será vingado sete vezes” (Gn 4,15). É possível que manifestavam externamente sua per- tença à tribo através de um sinal ou tatuagem. Por isso o texto sugere que Caim tinha um sinal para que ninguém que

o encontrasse o matasse (Gn 4,15).

Para completar o relato faltava ainda um detalhe: acres- centar a figura do irmão assassinado. Assim imaginaram, no relato, a Abel.

O irmão que faltava

Assim foi que esta história entrou numa segunda eta- pa. Aquele legendário herói, chamado Caim, fundador dos cainitas, a tradição hebréia o converteu, pouco a pouco, num fratricida condenado por Deus a viver uma vida errante. Isto esclarece muito bem algumas particularidades do relato. Antes de tudo, o fato da narrativa bíblica colocá-lo

como protagonista principal. Com efeito, fala-se apenas dele;

é o único que desempenha um papel ativo; o único com quem

Deus conversa. Por outro lado, Abel é uma figura decorati- va; seu papel é secundário e sem importância; não diz ne- nhuma palavra, só sofre; Deus nunca fala com ele. E sua única razão de estar no relato é a de completar o protagonismo de seu irmão.

Além disso, não se dá nenhuma explicação do nome de Abel, como se fez com o de Caim. Mais ainda: em hebraico seu nome significa “nulidade”, “vazio”, ou seja, algo sem importância. Permanece tão sem importância que nenhum outro personagem bíblico vai usá-lo jamais.

Plágio em nome de Deus

Mais tarde, na época do rei Salomão, a história de Caim passou para uma terceira etapa. Um escritor judeu anônimo que a conhecia, se deu conta que ela oferecia muitas possi- bilidades. Este lavrador, expulso da terra cultivável e conde- nado a vagar errante para sempre, se prestava perfeitamente para aprofundar a explicação da presença do mal no mundo. E, com alguns retoques, resolveu acrescentá-la como conti- nuação do relato de Adão e Eva, apesar das incoerências que apresentaria, como o fato de aparecer se casando, quando Caim era ainda a terceira pessoa da humanidade.

É que, diante da angustiante pergunta sobre a razão do mal, do sofrimento, de tantas penúrias sofridas pelo homem, nosso autor teria respondido com a história de Adão e Eva:

porque o homem desobedeceu a Deus. Comendo do fruto proibido, preferiu sua própria vontade à vontade do Criador e cortou relações com ele.

Contudo, esse diagnóstico ainda era insatisfatório. Nosso autor o sabia. Dizer que só quando o homem peca

contra Deus é que se produz uma desordem no mundo, era dizer a metade. Ao contrário, com a história de Caim, con- denado a uma vida penosa e dura por faltar contra seu ir- mão, pode completar seu ensinamento, dizendo que o mal também vai crescendo no mundo pelos delitos contra os de- mais homens.

Por isso, ao falar de Abel destaca com insistência sua condição de “irmão”, que é apenas a única coisa que lhe interessa. Essa idéia é tão obsessiva que chega a repeti-la até sete vezes neste breve texto. Como se quisesse ensinar que todo homem, por pertencer à humanidade, é irmão do resto dos homens.

O segundo pecado original

O relato de Adão e Eva tinha quatro partes: a) o man-

dato de Deus (não comerás da árvore da ciência do bem e do mal); b) desobediência do homem (tomou o fruto e o co-

meu); c) castigo de Deus (porque fizeste isto

ça da salvação (Javé reveste o homem e sua mulher com túnicas de pele).

O pecado de Caim e Abel tem a mesma estrutura: a)

mandato de Deus (se ages bem, poderás levantar a cabeça,

b) desobediência do homem (Caim matou

seu irmão); c) castigo de Deus (maldito serás longe deste solo); d) esperança de salvação (Javé pôs um sinal em Caim para que ninguém o matasse).

Ou seja, propõe o mesmo tema do relato de Adão e Eva: a origem do mal. Agora, porém, com uma resposta di- ferente. Naquele o escritor sagrado explicava que o mal no mundo dependia das relações do homem com Deus. Neste,

mas se não

); d) esperan-

);

completa a informação e acrescenta que o mal não nasce unicamente pela ruptura do homem com o Criador. Há como que um segundo “pecado original”: o da ruptura de relação com o irmão.

Por isso na narrativa de Adão e Eva é a voz de Deus que adverte os primeiros pais que pecaram. Na de Caim, porém, é o sangue de Abel o acusador: “Ouço da terra a voz do sangue de teu irmão, clamando por vingança!”.

A pergunta “com quem se casou Caim?” não tem, pois,

nenhuma importância. Era um dado que pertencia ao relato primitivo e que ficou deslocado ao ser inserido aqui. O im- portante era sua mensagem.

Para que o rei o saiba

O ensinamento da história de Caim é realmente revo-

lucionário para sua época. Pretende deixar estabelecido que o crime contra o irmão é tão grave quanto o delito contra Deus. Que a responsabilidade do homem para com seu pró- ximo é a mesma responsabilidade que tem diante de Deus.

Como dissemos, o autor inspirado escreve esta página da Bíblia durante o governo do rei Salomão. Nessa época, tanto a classe governante como os funcionários e sacerdotes ensinavam oficialmente que só era um bom israelita aquele que cumprisse suas obrigações para com Deus. Insistia-se em oferecer os sacrifícios no templo, em pagar os dízimos e em prestar serviços ao rei, representante de Deus. Mas o rei, sob o pretexto de servir a Deus, explorava o povo, abusava dele e o usava de forma gratuita e sem escrúpulos nos can- teiros de obras, para a construção de seus palácios e de seus grandes edifícios.

O autor desse texto, ao colocar aqui o relato de Caim,

completa ousadamente essa doutrina emanada do palácio, denunciando que, segundo Deus, para ser um bom crente é preciso também preservar a vida dos homens, seus irmãos, cuidar dela e zelar por ela.

A ampliação de Jesus

A lenda de Caim, inserida como continuação do relato

de Adão e Eva, fomentou o ensinamento do respeito ao ir- mão com o mesmo afã com que se respeitava a Deus.

Os judeus, porém, consideravam irmão apenas os ou- tros judeus, excluindo o resto das nações. Por isso Jesus, muitos séculos mais tarde, voltaria a atualizar este mesmo ensinamento. Quando lhe perguntaram qual era o mais im- portante mandamento da Lei, respondeu que não era apenas um, mas dois: amar a Deus de todo o coração e amar o pró- ximo como se ama a si mesmo. E quando lhe perguntaram quem era o próximo, ampliou a interpretação desta palavra e a estendeu a todos os homens com os quais nos encontra- mos nos caminhos da vida (cf. Lc 10,25-37).

Muitas vezes, principalmente nos séculos passados, os cristãos fincaram o pé somente no primeiro mandamento, o do amor a Deus, e se descuidaram gravemente do segundo, do respeito aos irmãos. Hoje em dia, os cristãos tendem freqüentemente a acentuar o segundo, o da assistência aos homens, e se esquecem do primeiro, do trato com Deus.

Lá nos começos da pré-história bíblica, o relato de Caim ensina-nos que, para encontrar o equilíbrio da vida é necessário levar a sério os dois.

QUAL É A ORIGEM DOS DEZ MANDAMENTOS?

Não estão todos os que são

Os protestantes costumam acusar a Igreja Católica de ter mudado os dez mandamentos. Afirmam que os católicos suprimiram o segundo mandamento tal como aparece na Bíblia (cf. Êx 20,2-17) e que diz “não farás para ti ídolos, nem figura alguma do que existe em cima, nos céus, nem embaixo, na terra, nem do que existe nas águas, debaixo da terra” (v. 4).

Em parte é verdade. Mas teriam eles autoridade para fazer tal coisa? Se quisermos esclarecer tal questão teremos de estudar a história dos mandamentos.

Conta o livro do Êxodo que, ao ver-se livre da escra- vidão do Egito, o povo de Israel caminhou durante três me- ses pelo deserto até chegar ao pé do monte Sinai. Moisés subiu ao monte, onde lhe apareceu Javé, que em meio a tro- vões, tremor de terra, fogo e ressoar de trombetas entregou- lhe os mandamentos.

Os doze mandamentos

A Bíblia ensina claramente que os mandamentos são dez (cf. Dt 4,13; 10,4). Mas aqui aparece a primeira dificul- dade: não aparecem enumerados. E quando os contamos, na realidade não são dez, mas doze. Ei-los:

1. Não terás outros deuses além de mim (Êx 20,3).

2. Não farás para ti ídolos, nem figura alguma (v. 4).

3. Não te prostrarás diante deles, nem lhes prestarás

culto (v. 5).

4. Não pronunciarás o nome de Deus em vão (v. 7).

5. Lembra-te de santificar o dia do sábado (v. 8).

6. Honra teu pai e tua mãe (v. 12).

7. Não matarás (v. 13).

8. Não cometerás adultério (v. 14).

9. Não furtarás (v. 15).

10. Não levantarás falso testemunho contra o próximo

(v. 16).

11. Não cobiçarás a casa de teu próximo (v. 17a).

12. Não cobiçarás a mulher de teu próximo (v .17b).

Em busca dos dez

Se a Bíblia fala que eram dez os mandamentos, como devemos contá-los para que cheguem a esse número? Desde antigamente judeus e cristãos debateram o assunto e propu- seram vários modos de enumerá-los.

As primeiras tentativas foram as de Filon de Alexandria

do historiador Flávio Josefo, ambos do século I. Segundo eles, o primeiro mandamento é o que manda ter um só Deus

e

(v.

3). O segundo proíbe imagens e prostrar-se diante delas

(v.

4-5). O terceiro ordena não tomar o nome de Deus em

vão (v. 7). O quarto prescreve santificar o dia do Senhor

(v.

8). Os que vão do quinto ao nono enumera-os como estão

(v.

12-16). E o décimo será todo o v. 17, ou seja, não desejar

mulher do próximo, nem cobiçar os bens alheios. Esta classificação distinguia quatro mandamentos para com Deus e seis para com o próximo e foi aceita por vários escritores cristãos antigos, como Orígenes, Tertuliano e são Gregório Nazianzeno. E é o que seguem atualmente os pro- testantes luteranos, calvinistas e anglicanos.

a

A proposta judaica

Contudo o judaísmo oficial não a aceitou. Quando os rabinos escreveram o Talmud, seu livro sagrado, propuse- ram outra maneira de contá-los. Consideraram o v. 2 (“Eu sou o Senhor teu Deus que te libertou do Egito, do antro de escravidão”), que na realidade não é nenhum mandamento, mas o prólogo ou a apresentação do Decálogo, como se fos- se o primeiro mandamento. Depois, para formar o segundo

reuniram os três seguintes, ou seja, a proibição de ter outros deuses, de fabricar imagens e de prostrar-se diante delas

(v. 3-5). O terceiro manda não tomar o nome de Deus em

vão e o décimo reúne num só a cobiça da mulher do próxi-

mo e dos bens alheios. Todos os judeus adotaram essa segunda divisão, tam- bém de quatro mandamentos para com Deus e seis para com os homens.

A proposta cristã

Mas no século V, Santo Agostinho, um dos maiores doutores da Igreja, propôs uma terceira divisão dos manda- mentos. À semelhança dos rabinos do Talmud afirmava que os preceitos de não ter outros deuses, de não fazer imagens e de não se prostrar diante delas eram na verdade um só man- damento, dito de diversas maneiras, mas com referência à mesma coisa: evitar a idolatria e o culto dos falsos deuses. Por isso entendia que devia juntar os três (v. 2-6) e fazer um só mandamento. Mas esse não seria o segundo, como para os rabinos, mas o primeiro.

Assim, santo Agostinho coloca como segundo man- damento o seguinte, o de não tomar o nome de Deus em vão

e como terceiro o de santificar as festas. Mas, por ter junta- do os primeiros mandamentos, faltava-lhe agora um para completar a lista de dez. Então desdobrou o nono manda- mento do v. 17 em dois distintos: o nono que proibia desejar

a mulher do próximo e o décimo, que se refere a outros bens

do próximo. Foi o primeiro a propor nestes versículos dois mandamentos distintos.

A nova classificação de Agostinho reconhecia apenas três mandamentos para com Deus, enquanto que os outros sete eram em relação ao próximo. Segundo ele, uma razão de conveniência o levou a isto: com três mandamentos refe- ridos a Deus ficava melhor “insinuada” a Santíssima Trin- dade.

Essa terceira forma de dividir os mandamentos foi se- guida por quase todos os teólogos cristãos e estudiosos me- dievais e logo se impôs na Igreja Católica.

Para aprender o catecismo

A partir do século XVI, quando começaram a ser di-

vulgados os catecismos populares, viu-se a necessidade de fazer as pessoas memorizarem os dez mandamentos como

exame de consciência para a confissão e como incentivo para

a vida espiritual. Mas redigidos desta forma pareciam

desatualizados, já que pertenciam a uma época em que os israelitas ainda tinham uma moral primitiva. Não levavam em conta o progresso da revelação que Jesus tinha trazido com sua vida e seus ensinamentos.

Por exemplo, o Decálogo mencionava “outros deuses” porque nesta época os israelitas acreditavam que realmente existiam outras divindades para os outros povos; hoje, po- rém, sabemos que existe um único Deus para todas as reli-

giões. Falava de não fazer imagens, enquanto que, no Novo Testamento, Cristo é a imagem do Deus invisível (cf. Cl 1,15)

e portanto é lícito aos cristãos expressar sua fé através de

imagens. Mandava santificar o sábado, enquanto que os cris-

tãos comemoravam como dia de salvação o domingo, dia em que Cristo venceu a morte.

A Igreja, pois, resolveu elaborar um novo Decálogo

para o catecismo, melhorando-o com aquilo que Cristo ti- nha superado do Antigo Testamento, da mesma forma que tinham sido supressos da vida cristã os sacrifícios de ani- mais do Antigo Testamento, a degolação de ovelhas, a quei- ma de novilhos e as sangrentas matanças diárias de cordei- ros no Templo.

Mandamentos para cristãos

Na nova lista suprimiu-se do primeiro mandamento o

e foi formulado de modo mais po-

sitivo e mais perfeito: “Amar a Deus sobre todas as coisas”.

O segundo, o das imagens, foi eliminado, pois seu sig-

nificado era o mesmo que o do anterior: não cair no culto de coisas que substituem a Deus. Seu lugar foi ocupado pelo mandamento que seguia, o de não tomar o nome de Deus em vão.

não terás outros deuses

Do terceiro, santificar um dia da semana em memória do Senhor, só foi modificado o dia. Em vez do sábado im- pôs-se o domingo, por causa da ressurreição de Cristo.

O sexto proibia o adultério, ou seja, tomar uma mu-

lher casada. Mas não estava proibido unir-se a qualquer mulher solteira. A Igreja o converteu em proibição mais pro- funda e exigente de “não fornicar”, ou seja, proibiu a rela- ção com qualquer mulher que não fosse sua própria esposa.

O sétimo, “não roubarás”, que na linguagem bíblica

referia-se ao seqüestro de uma pessoa, converteu-se no mais

genérico de “não furtar”, que incluía todo tipo de proprie- dade.

O oitavo aludia exclusivamente a não levantar falso

testemunho nos julgamentos. Por isso se lhe acrescentou “nem mentir”, para adaptá-lo a qualquer outra circunstância da vida.

Finalmente o décimo, que ordenava não desejar a mulher nem aos demais pertences do próximo, foi desdo- brado em dois: o nono, referido em primeiro lugar e somen- te à mulher e o décimo sobre os demais bens do homem.

Assim a Igreja reelaborou e atualizou o elenco dos 10 mandamentos para que pudessem estar à altura da nova moral cristã. Por isso é que a lista dos mandamentos da Bíblia não coincide com a que nos ensinaram no catecismo. Mas, pode a Igreja mudar os dez mandamentos?

O catecismo dos israelitas

Para responder a essa questão é preciso ver como sur- giram em Israel esses dez mandamentos. A Bíblia narra que Moisés os recebeu no Monte Sinai e depois os entregou ao povo numa solene cerimônia. Mas, se os analisamos cuida- dosamente, vemos que, na realidade, parecem não corresponder à época de Moisés, época de peregrinação pelo deserto e de vida nômade.

Que sentido tem, por exemplo, proibir de desejar a “casa” do próximo, quando eles, como peregrinos, ainda não habitavam em casas, mas sim em tendas? Somente quando na Terra Prometida é que edificaram casas. O mandamento de não levantar falso testemunho supõe que já existem tri- bunais, juízes e processos legais, coisa impossível durante a travessia do deserto. E quando se ordena descansar no sába- do, se declara: “não trabalharás nem tu, nem teu escravo, nem tua escrava”; mas, como poderiam ter escravos, se to- dos eles eram escravos recém-saídos do Egito?

Isso fez os biblistas pensarem que os dez mandamen- tos pertenceriam mais apropriadamente a uma época poste- rior à de Moisés, quando o povo já estava instalado em Canaã, organizado com normas morais e jurídicas adequadas a uma época mais moderna.

Em um dado momento, diante da abundância de leis e da necessidade de ter uma coleção breve que tratasse dos crimes mais graves que punham em perigo a vida da comu- nidade, resolveram redigir uma pequena lista. Para isso bus- caram, dentre suas leis, todas aquelas que incluíam a pena de morte, que terminavam com a fórmula “assim farás desa- parecer o mal do meio de ti”.

Os pecados mortais

Se buscarmos no livro do Deuteronômio, que contém aquela legislação antiga, entre as muitas leis que aparecem podemos descobrir exatamente os dez mandamentos. Cf. Dt 13,2-6: Se aparecer alguém entre vós dizendo:

“vamos servir a outros deuses diferentes de Javé”, este ho- mem deve morrer. Assim fareis desaparecer a maldade de vosso meio. (Corresponde ao 1º mandamento.)

Cf. Dt 17,2-7: Se um homem ou uma mulher for servir a outros deuses e prostrar-se diante deles, ou diante do sol, da lua ou das estrelas, devereis apedrejá-los. Assim fareis desaparecer a maldade de vosso meio. (Corresponde ao 1º . mandamento.)

Cf. Dt 17,8-13: Se alguém não obedecer ao que se or- denou em juízo, ao que se comprometeu, jurando pelo nome de Javé em vão, este homem deve morrer. Assim fareis de- saparecer a maldade de vosso meio. (Corresponde ao 2º mandamento.) Cf. Dt 21,18-21: Se um homem tem um filho rebelde, que não obedece a seus pais, o apedrejarão até que morra. Assim fareis desaparecer a maldade de vosso meio. (Corresponde ao 4º mandamento.)

Cf. Dt 19,11-13: Se um homem matar o outro, o homi- cida deve morrer. Assim fareis desaparecer a maldade de vosso meio (Corresponde ao 5º mandamento.)

Cf. Dt 22,13-21: Se uma jovem casar-se com um ho- mem e acontecer que não é virgem, a apedrejareis até que morra. Assim fareis desaparecer a maldade de vosso meio. (Corresponde ao 6º mandamento.)

Cf. Dt 24,7: Se um homem rapta o outro, o ladrão deve morrer. Assim fareis desaparecer a maldade de vosso meio.(Corresponde ao 7º mandamento.)

Cf. Dt 19,16-19: Se aparecer uma testemunha falsa contra uma pessoa e der testemunho falso, a fareis morrer. Assim fareis desaparecer a maldade de vosso meio. (Corresponde ao 8º mandamento.)

Cf. Dt 22,22: Se um homem for apanhado dormindo com uma mulher casada, ambos serão mortos. Assim fareis desaparecer a maldade de vosso meio. (Corresponde ao 9º mandamento.)

“De” Moisés, mas não “por” Moisés

Os dez mandamentos seriam um resumo para apren- der de cor as leis mais graves da comunidade, aquelas que traziam a pena de morte para alguns membros do clã. Ou seja, a lista dos “pecados mortais”. Foi provavelmente ela- borada na época dos juízes, cerca de 1100 a.C., uns cento e cinqüenta anos depois da morte de Moisés.

O único mandamento que não aparece no Deute- ronômio é o 3º, sobre o descanso do sábado. Talvez por- que antigamente não se tratasse de falta tão grave para

ser um “pecado mortal” e não figurava neste grupo de leis. Mais tarde, quando a partir do exílio a observância do sába- do tornou-se um critério decisivo de fidelidade a Javé, acres- centaram-no.

Com o tempo essa lista assumiu tanta importância en- tre os hebreus que começaram a atribuí-la a Moisés. O que em parte era verdade, uma vez que Moisés tinha sido o le- gislador e o organizador de toda a vida legal do povo. Por- tanto, dizer que Moisés os havia dado no Monte Sinai, era de alguma maneira fazer justiça a quem tinha sido o grande inspirador de toda a legislação de Israel.

Assim, pois, como o povo de Israel havia adaptado uma série de mandamentos e os tinha atribuído a Moisés, também a Igreja, o novo povo de Israel, quando julgou con- veniente, reatualizou estes dez mandamentos para a vida de todos os cristãos católicos. Nisso segue a tradição da Bíblia.

O espírito do Decálogo

Isso explicaria o misterioso corte brusco que há na narração dos dez mandamentos no Êxodo. Diz-se que “Moisés desceu para junto do povo e lhes falou” (cf.19,25). E, seguindo, em vez de Moisés falar, aparece Deus pronun- ciando os dez mandamentos: “Deus pronunciou todas as palavras que seguem” (cf. 20,1). Significa que o que segue, os dez mandamentos dados por Deus a Moisés, não faziam parte do relato original e que mais tarde foram acrescenta- dos nesse lugar.

Seja como for, uma coisa é certa: os dez mandamen- tos se encontram na Sagrada Escritura, são plenamente ins- pirados e conservam toda a autoridade da Palavra de Deus,

quer remontem ao próprio Moisés ou às leis posteriores da vida do povo hebreu.

O que na verdade importa é que se ponha em prática

tudo o que o texto sagrado ensina: que o homem adore uni- camente a seu Criador, que não prejudique a seu próximo e que não cobice seus bens.

De Javé a Jesus

Um dia um jovem perguntou a Jesus o que deveria fazer para se salvar (Mc 10,17-22). E o Senhor lhe pergun- tou se cumpria os mandamentos. Mas mencionou-lhe ape- nas os preceitos referentes ao próximo (não matarás, não roubarás, não mentirás). Chama a atenção e impressiona a ausência do 1º mandamento nos lábios de Jesus, de seguir somente a Javé, quando sabemos da importância e da centralidade que ele tinha para os judeus.

O diálogo, porém, continua. Como o jovem tinha ob-

servado os mandamentos desde sua infância, Jesus pede-lhe que deixe tudo e o siga. Reaparece aqui o 1º mandamento. Jesus aplica a si mesmo a antiga exigência de seguir exclu- sivamente a Javé. Realiza assim uma interpretação nova e revolucionária do mandamento principal, inaudita e só pos- sível ao Filho de Deus. Seguir a Jesus é, pois, o novo Decálogo dos cristãos.

PERMITIU MOISÉS O “OLHO POR OLHO E DENTE POR DENTE”?

A lei mais antiga do mundo

Nenhuma lei é tão incompreendida como a famosa Lei de Talião. Sintetizada na fórmula “olho por olho e dente por dente”, é considerada como uma das normas mais brutais e sangrentas que existem e muitas vezes ela é citada como exemplo de selvageria e vingança.

A Lei de Talião é uma das mais antigas do mundo. Foi encontrada já no Código de Hammurábi que é o código mais antigo que se descobriu completo.

Quem era Hammurábi? Um rei da Babilônia que vi- veu por volta do ano 1700 a.C. e que, diante da instabilidade jurídica e social em que viviam os súditos de seu reino, de- cidiu promulgar um código, isto é, uma coleção de senten- ças onde os juízes pudessem inspirar-se para decidir a jus- tiça.

Esse código, que consta de 282 artigos, gravados numa pedra de 2,25 m de altura, foi encontrado por arqueólogos franceses em 1901 e desde então se acha exposto no Museu do Louvre.

Três vezes na Bíblia

Quinhentos anos mais tarde, Moisés também deu ao povo de Israel uma série de prescrições e leis. E entre elas incluiu a terrível e brutal Lei de Talião. Ela aparece ordena- da três vezes na Bíblia. A primeira, quando os israelitas acamparam-se em frente ao Monte Sinai: “Se houver dano, então pagarás vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferimento por ferimento, contusão por contusão” (Êx 21,23-25). Alguns meses depois, também no Monte Sinai, voltou a ordenar seu cumprimento, dizendo: “Se alguém causou alguma lesão ao próximo, ser-lhe-á feito o mesmo que fez:

Fratura por fratura, olho por olho, dente por dente. Ser- lhe-á feito o mesmo ferimento que causou ao próximo. Quem matar um animal, deverá substituí-lo e quem matar um homem deverá ser morto” (Lv 24,19-21). A terceira vez que ela aparece é nas planícies de Moab, anos mais tarde, quando os hebreus estão por lançar-se na conquista da Terra Prometida. Moisés, prestes a morrer, reú- ne-os pela última vez e os exorta: “Não terás compaixão:

vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé” (Dt 19,21). Por isso, esta lei recebeu o nome de “Talião”. Porque se alguém tivesse feito “tal” coisa (= talis, em latim), era-lhe dado “tal” castigo.

Vinganças dilaceradoras

Ao ler tais passagens muitos cristãos sentem-se escan- dalizados. Como é possível que a Bíblia proponha a Lei de

Talião e ainda por cima três vezes? Como Deus, que inspi- rou as leis de Moisés, pode sugerir-lhe que inclua uma nor- ma tão cruel? Para responder a essas questões devemos levar em conta três outros elementos. Primeiro, que no antigo Oriente existia uma prática muito difundida, quase convertida em lei sagrada: a lei da vingança. Mas isto era feito de tal forma que as vinganças eram sempre muito maiores que as ofensas feitas. Por exemplo, se numa briga alguém cortava um dedo do outro, seus familiares cortavam um braço do ofensor. E se alguém perdia a perna, seu clã cortava as duas do adver- sário ou inclusive a cabeça. No caso de uma pessoa matar a ovelha do vizinho este podia chegar a matar todo o rebanho do outro. E se matasse um homem, seus familiares reparavam-no, matando o as- sassino, sua mulher e seus filhos.

A falta de polícia

Um exemplo dessas tremendas vinganças, praticadas em tempos primitivos, nós encontramos no Livro do Gênesis.

Ali se narra que Caim, depois de matar seu irmão Abel, foge

e se esconde. Então uma voz, que no livro aparece como a

de Deus, mas que na realidade seria da própria tribo de Caim, exclama: “Se alguém matar Caim, será vingado sete vezes”

(Gn 4,15).

E o ponto alto destas vinganças vamos encontrar no cântico composto por Lamec, o filho de Caim, que dizia:

“Matei um homem por uma ferida e um jovem por causa de um arranhão. Pois, se Caim for vingado setes vezes, Lamec

o será setenta e sete vezes” (Gn 4,23-24).

Tais práticas podem parecer-nos demasiado sanguiná- rias. Mas numa época em que não havia polícia, nem uma autoridade central que pusesse ordem na sociedade, o temor de tais vinganças procurava reprimir os crimes e frear qual- quer tentativa de roubo ou de violência.

Pois bem, se é certo que o medo dessas vinganças pu- nha ordem na sociedade, por outro lado se prestava a inúme- ros abusos e gerava uma espiral de violência tal que, com freqüência, culminava em guerras e extermínios de tribos e clãs inteiros. Um simples golpe no rosto podia desencadear uma batalha campal.

A própria Bíblia conta-nos como uma jovem chamada

Dina foi raptada e violentada por Siquém. Então seus irmãos, para vingá-la, entraram na cidade do violador e assassina- ram a ele, a seu pai e a todos os jovens varões (Gn 34,1-31).

Um grande passo para a humanidade

Agora sim se aclara o sentido da Lei de Talião. Foi dada por Moisés para coibir esses abusos. De fato, mandava que, se alguém lhe arrancasse um olho, devia arrancar o do rival. Não os dois , mas um só. E se perdia um dente, devia reparar, arrancando um dente de seu adversário. Não todos os dentes.

A Lei de Talião, não obstante sua aparência cruel, veio,

na realidade, estabelecer um princípio de grande misericór- dia: que a vingança nunca deve exceder a ofensa.

Seu propósito original foi o de frear a reação dos que se sentiam ofendidos e pôr limite à vingança. Supôs, pois, um avanço sobre a lei consuetudinária da vingança desme- dida, própria das tribos sem organização judicial. E deu-se

um passo gigantesco no sentido de pôr medidas à violência pessoal e social.

O Livro do Deuteronômio, em sintonia com o espírito

da Lei de Talião, proibirá incluir nos castigos os parentes inocentes: “Os pais não serão mortos pela culpa dos filhos, nem os filhos pela culpa dos pais: cada um será morto pelo próprio pecado” (24,16).

Não para todo o público

O segundo elemento que se deve levar em conta para

entender a Lei de Talião é que não foi elaborada para que os indivíduos particulares a aplicassem, mas estava dirigida ao juiz, único encarregado de aplicá-la.

Devemos lembrar que os juízes dos tempos antigos não eram profissionais. Não freqüentavam a faculdade, nem sabiam de cor volumosos livros de Direito. Muitos dentre eles nem sequer sabiam ler.

Por isso, para decidir a justiça necessitavam de fór- mulas práticas, de fácil memorização e aplicação, ou seja, de pequenos “provérbios” que lhes permitissem resolver o maior número possível de casos.

A Lei de Talião, pois, não foi promulgada para que

cada cidadão a aplicasse por sua própria conta, nem era uma carta branca para fazer justiça com suas próprias mãos. Foi dada aos juízes, para que decidissem em cada caso como deviam fazê-la aplicar. Isso o afirma o Livro do Deutero- nômio (cf. 19,16-21).

A Lei de Talião não foi pensada para resolver ques-

tões pessoais, como muitas vezes nós a aplicamos, mas sim para dirimir delitos públicos na presença de um juiz.

Sem levá-la tão a sério

O terceiro e último elemento que devemos considerar

é que a fórmula “olho por olho, dente por dente” nunca foi

entendida literalmente.

Tratava-se somente de uma maneira de dizer que ne- nhum castigo devia ser superior à ofensa recebida. Ficava, contudo, a critério do juiz aplicar a pena justa.

Os juízes judeus afirmavam, com razão, que a aplica- ção literal da Lei de Talião podia produzir injustiças, já que se corria o risco de privar alguém de um olho são por um enfermo, ou de um dente intacto por um cariado.

Por isso a própria Bíblia já estabelecia outras penas compensatórias, menos sangrentas. Por exemplo: “Se alguém ferir o olho do escravo ou da escrava e o cegar, deverá dar- lhe a liberdade pelo olho perdido. E se quebrar um dente do escravo ou da escrava, deverá dar-lhe a liberdade pelo dente quebrado” (Êx 21,26-27).

Mais adiante se estabelece que, se um boi matar a chifradas uma pessoa, os juízes podem impor ao dono do boi somente uma multa (cf. Êx 21,28-30).

A nova lei de Jesus

A Lei de Talião foi, pois, em sua época, uma norma

sumamente misericordiosa, compassiva e benigna. Signifi- cou um enorme avanço contra as terríveis leis da vingança e sua aplicação fez a humanidade progredir enormemente em seu caminho para a civilização, a convivência e o progresso das relações humanas.

Mas, quando veio Jesus, ele decidiu eliminá-la. Por- que entendeu que a vingança, por mais controlada, restrita e justa que seja, gera sempre novos ressentimentos. E por isso não tem lugar na vida cristã, na nova ordem que o Senhor veio instaurar.

Por isso no sermão da montanha Jesus ensinou:

“Ouvistes o que foi dito: olho por olho, dente por dente. Pois eu vos digo: não resistais ao malvado. Se alguém te esbofetear na face direita, oferece também a outra. E se al- guém quiser mover uma ação para tirar-te a túnica, deixa- lhe também o manto. Se alguém te obrigar a carregar-lhe a mochila por um quilômetro, leva-a por dois” (Mt 5,38-41).

Uma estranha bofetada

Jesus introduz, assim, um novo espírito de perdão e de não-vingança. Para explicar como funciona ele mesmo dá três exemplos, tirados da vida diária, que não podem ser to- mados literalmente, pois correríamos o risco de interpretar mal sua mensagem. O primeiro exemplo é o da bofetada que Jesus diz que se refere à face “direita”. O que quis ele dizer com isso?

Suponhamos que uma pessoa esteja parada diante da outra e queira dar-lhe um golpe em sua face direita. Como o faria? Habitualmente usa a mão direita. Mas, há uma só maneira de fazê-lo: com o dorso da mão. Mas, segundo a lei rabínica, bater com o dorso da mão era mais humilhante e insultante que fazê-lo com a palma.

Por isso o que Jesus quis ensinar é que, quando al- guém nos dirige um enorme e vergonhoso insulto, não de- vemos responder com outro do mesmo tipo. Na vida não

recebemos com freqüência bofetadas, mas insultos e ofen- sas, às vezes desmedidas, equivalentes a uma bofetada com o dorso da mão para o judeu. O cristão é aquele que apren- deu a não experimentar ressentimentos, nem buscar vingan- ça alguma.

O verdadeiro discípulo de Jesus é aquele que esque- ceu o que significa ser injuriado. Aprendeu de seu Mestre a não tomar nada como insulto pessoal.

A túnica e o manto

No segundo exemplo diz que, se alguém nos leva a juí- zo para tirar-nos a túnica devemos dar-lhe também o manto. Aqui também há muito mais do que aparece. A “túni- ca” era uma espécie de vestido largo, geralmente feito de algodão ou linho, que se usava sobre o corpo e chegava até os joelhos. Mesmo o homem mais pobre normalmente tinha mais de uma, podendo assim trocá-la com freqüência. O “manto”, porém, era uma peça retangular, feita de tecido grosso. Durante o dia usavam-no sobre os ombros como parte da veste exterior e durante a noite servia de manta para dor- mir. Em geral tinha-se um manto só. Pois bem, a lei judaica estabelecia que, em juízo, po- dia-se tirar, a um devedor, a túnica. Nunca, porém, o manto, uma vez que podia ser pobre e ter só este para abrigar-se de noite (cf. Êx 22,25-26).

Quando Jesus pede, simbolicamente, que um cristão entregue também seu manto, quer dizer que não deve viver pensando sempre em seus direitos, mas em seus deveres. Não deve viver obcecado por seus privilégios mas sim pelas suas responsabilidades. O verdadeiro discípulo não é aquele

que coloca “seus direitos” acima de todos, cuidando que não

o “atropelem” de forma alguma. É o que sabe pospor seus direitos quando dessa forma pode ganhar alguém para o Mestre.

O que se passou com o Cireneu

No terceiro exemplo Jesus fala da “obrigação” de acompanhar alguém por um quilômetro. Esta imagem, que nos parece estranha, resulta familiar na Palestina do tempo de Jesus.

A Palestina era um país ocupado militarmente. E os

cidadãos de um país tinham obrigação de prestar qualquer tipo de serviço às tropas de ocupação. Desde dar-lhes ali- mentos ou alojamento, até levar mensagens ou uma carga a algum lugar. Em qualquer momento um judeu podia sentir sobre o ombro o toque da lança de um soldado romano. E com isso ele sabia que sua obrigação era ajudar o soldado que o chamava em tudo que necessitava.

Foi isto que aconteceu com Simão de Cirene um dia que vinha do campo: foi obrigado a carregar a cruz de Jesus,

a caminho do Calvário.

O que Jesus quis dizer é que não devemos cumprir

nossas obrigações com amargura e rancor. Se nos pedem uma tarefa que não é de nosso agrado, não devemos assumir como um dever odioso, rechaçando interiormente a quem no-la pediu. Já que prestaremos o serviço, façamos com ale- gria. E não o mínimo indispensável, mas ir mais além, tra- tando de cumprir o que de fato se nos pediu.

O que faz uma obra de bem, mas ressentido e mal-dis-

posto, não compreendeu ainda o que significa a vida cristã.

Agora sim é para todos

Estes ensinamentos de Jesus não são ideais, nem teó- ricos. São verdadeiros mandamentos que o Senhor propõe a seus seguidores.

Mas com eles Jesus não eliminou da legislação a Lei de Talião. Nem suprimiu os tribunais de justiça, nem quis dar um novo Código de Direito Penal. Estes novos ensinamentos de Jesus se dirigem não já aos juízes, mas ao homem ofendido, ferido, lesado, para indicar-lhe qual deve ser seu comportamento como verdadeiro discípulo seu.

O Senhor não pretendeu abolir a legislação de seu tem- po. Apenas introduziu na sociedade um novo comportamen- to humano, para que os códigos penais vigentes fossem su- perados pelo comportamento concreto dos cidadãos cristãos.

Resumindo, podemos dizer que a humanidade passou por três etapas. Na época primitiva praticava-se a mais crua vingança. Com o advento da Lei de Talião passou-se para a era da justiça. Com a vinda de Jesus Cristo inaugurou-se o tempo do perdão.

Poucas são as passagens do Evangelho que contêm com tanta pureza a essência da ética cristã como as que aca- bamos de analisar. O mundo ainda espera vê-la colocada em prática pelos discípulos do Mestre.

COMO CAÍRAM AS MURALHAS DE JERICÓ?

O primeiro obstáculo

A forma maravilhosa pela qual o povo de Israel con- quistou a cidade de Jericó, sob o comando de Josué, sempre tem estimulado a curiosidade dos leitores da Bíblia. O fato, narrado em Js 6, deu-se por volta de 1200 a.C., quando os israelitas chegaram à Palestina, a Terra Prometida.

Ali, Jericó foi a primeira cidade inimiga com a qual se defrontaram os israelitas. Conforme o relato bíblico era um centro importante e rico (cf. Js 5,24), rodeado com altas e poderosas muralhas (cf. Js 6,5). Em seu interior habitavam os cananeus, povo bem organizado, com um rei, com servi- ços secretos de inteligência (cf. Js 2,2) e com um valoroso exército preparado para a guerra. Os israelitas, ao contrário, não eram senão um bando desorganizado de tribos e clãs que vinham fugindo da escravidão do Egito.

Antes que chegassem, Deus havia prometido que lhes entregaria em mãos o país todo, completo, de norte a sul e de leste a oeste. E eis que, apenas chegados, se erguia diante de suas minguadas forças, como um obstáculo intransponível,

a majestosa e soberba cidade de Jericó. Como poderiam con-

quistar todo o país, se a primeira cidade já se apresentava

inconquistável?

O estratagema insólito

Neste momento Deus falou a Josué, explicando-lhe qual seria a estratégia a ser empregada para vencer Jericó. Antes de atacar, deveria realizar um estranho ritual. Durante sete dias deviam marchar em círculo, em volta da cidade, levando a Arca da Aliança. Os sacerdotes iriam tocando as trombetas enquanto o resto do povo os acompanharia com um solene silêncio. Dariam uma volta cada dia e voltariam ao acampamento.

“No sétimo dia — diz a Bíblia — madrugaram ao rom- per da aurora e rodearam a cidade sete vezes, conforme o mesmo ritual; somente naquele dia rodearam a cidade sete vezes” (Js 6,15). Depois da sétima volta, Josué disse ao povo:

“Gritai, porque o Senhor vos entregou a cidade” (Js 6,16). “Ao ouvir o toque de trombeta o povo lançou um grande grito e a muralha da cidade veio abaixo; o povo subiu para a cidade, cada um à sua frente, e tomaram a cidade” (Js 6,20).

Assim, mediante este insólito estratagema, sugerido pelo próprio Deus e nunca mais repetido por ninguém, o povo de Israel exterminou a todos os habitantes de Jericó, pôs fogo na cidade e a reduziu a um montão de escombros e restos calcinados.

A batalha de Jericó foi um acontecimento militar cha-

ve para todo o povo de Israel, já que lhe abriu as portas para

a conquista da Palestina.

Milagre ou terremoto?

O que de fato aconteceu na batalha de Jericó? Durante

séculos as opiniões de biblistas estiveram muito divididas.

Iam desde o categórico “impossível” até a fé cega no mila- gre de Deus.

Alguns pensavam num fenômeno natural, ou seja, num terremoto que teria ocorrido justamente neste dia. Outros afirmavam que as voltas dadas ao redor da cidade distraíram seus defensores e o alarido de guerra e as trombetas tê-los- iam espantado e perturbado. Outra hipótese sustentava que a expressão “muro da cidade” é uma metáfora para designar “guarnição da cidade” e que, portanto, “o muro foi derruba- do” na realidade significa que “os soldados tornaram-se im- potentes” quando atacaram os israelitas.

E não faltavam também os que explicavam o fato como

uma intervenção direta de Deus que teria derrubado as mu-

ralhas de Jericó para favorecer os israelitas.

Quando as pás falam

Talvez a discussão prosseguisse por muito tempo se não tivesse havido uma descoberta arqueológica que pôs fim ao debate.

Com efeito, os arqueólogos descobriram a cidade de Jericó em 1868 numa localidade chamada de Tel Es-Sultán pelos árabes, a 28 km ao nordeste de Jerusalém, perto do Mar Morto. Era então um fértil oásis recostado entre pal- meiras e tamareiras, com abundantes fontes de água que a convertiam num verdadeiro paraíso, cercado pelo tórrido deserto de Judá.

As primeiras escavações foram realizadas entre 1908

e 1910, por dois investigadores alemães, E. Sellin e C. Watzinger, chegando a resultados muito positivos.

A segunda campanha arqueológica aconteceu vinte

anos mais tarde, entre 1930 e 1936, mediante uma expedi- ção inglesa, dirigida por John Garstang que trouxe à luz acha-

dos de enorme importância.

Mas os descobrimentos mais extraordinários foram feitos pela arqueóloga Kathleen Kenyon, na terceira e últi- ma campanha. Durante oito anos, entre 1952 e 1959, ela es- cavou intensamente toda a região de Jericó até não deixar praticamente nada sem remover. Graças a essas investiga- ções pôde-se trazer quase integramente a história da cidade de Jericó.

A primeira cidade do mundo

A primeira grande descoberta foi que Jericó é a mais

antiga cidade do mundo. Isso se confirmou ao se encontrar

os restos de uma muralha de defesa, construída cerca de 8000

a.C. É a mais antiga muralha defensiva conhecida até agora na história da humanidade. A colossal muralha de pedra, le- vantada para defender a cidade das incursões dos nômades, media 2 m de largura, com uma torre de 9 m de altura e 8 m de diâmetro. Ainda hoje podem-se ver no local os vinte e dois degraus que desciam da torre para o interior da cidade.

Além disso pôde-se averiguar que os habitantes enter- ravam seus mortos debaixo do piso de suas próprias casas. Uma das descobertas mais curiosas foi justamente a de nu- merosos crânios humanos, recobertos com argila, como se quisessem reproduzir novamente a pele que um dia tiveram.

Esta cidade foi destruída pela guerra e abandonada cerca de 7200 a.C. Mas aqui os arqueólogos realizaram uma segunda descoberta: na realidade não existiu uma, mas mui- tas Jericós, visto que ao longo de sua história a cidade fora destruída e reconstruída numerosas vezes. Os escavadores encontraram ruínas de nada menos que dezessete Jericós, as quais puderam estudar e analisar.

As sucessivas destruições e reconstruções da cidade mostram a importância que na antigüidade tinha este estra- tégico oásis e a cobiça que despertava a fertilidade da re- gião.

As cidades que se seguiram

A segunda Jericó foi construída no mesmo lugar lá pelo ano 7000 a.C. Agora uma nova população, com tradi- ções totalmente distintas, chegou e se fixou no oásis. A for- ma de edificar suas casas, o tipo de instrumentos que utiliza- vam, a maneira de sepultar seus mortos, mostra que se trata- va de gente mais rudimentar que a anterior. Esta cidade tam- bém foi arrasada anos mais tarde e deixou de existir.

Por volta do ano 4000 a.C. voltou a se reerguer. Com o passar do tempo a região se viu envolta em grandes catás- trofes. As sucessivas guerras, invasões e conflitos que viveu fizeram com que as fortificações da cidade ruíssem e fos- sem reedificadas várias vezes.

Nas escavações os arqueólogos desenterraram restos de incêndios, casas destruídas, ossos humanos queimados, que mostram claramente as convulsões da história de Jericó. Durante todos estes séculos aquela cidade foi tomada, saquea- da, destruída e abandonada em numerosas oportunidades. E

com obstinada constância voltou a ser edificada e habitada. Assim aconteceu nos anos 3000, 2000, 1900 e 1700 a.C.

Até que finalmente uma nova invasão sofrida pelo ano 1550 a.C. lhe deu o golpe fatal. Depois deste desastre a or- gulhosa cidade não voltou mais a se reerguer até o tempo de Josué. A última Jericó, pois, que os arqueólogos encontra- ram foi a do ano 1550 a.C.

O que diz a história

E aqui vem o fantástico e o enigmático de toda essa história. Se Jericó não conseguiu se reerguer depois da de- vastação de 1550, significa que, quando Josué chegou com os israelitas à Terra Prometida, no ano 1200 a.C., fazia 350 anos que Jericó tinha deixado de existir.

Por mais que os arqueólogos escavassem, exploras- sem e rastreassem as ruínas que ainda se conservavam em Tel Es-Sultán, foi impossível encontrar as ruínas de uma Jericó do ano 1200. É indubitável que quando Josué chegou, tanto a cidade como suas muralhas e construções tinham desaparecido havia quase quatro séculos.

Então teremos de concluir, decepcionados, que a to- mada de Jericó carece de todo fundamento histórico?

Há outra explicação. Hoje os historiadores da Bíblia crêem que nos tempos de Josué, embora a cidade já não exis- tisse, havia alguns grupos de população autóctone, ocupan- do novamente as ruínas daquele lugar, convertido então numa cidade fantasma. Aqueles míseros povoadores, habitantes de ruínas, quiseram, talvez, fazer parar os intrusos, o que teria originado uma contenda, que não teria passado de algumas escaramuças. E os homens de Josué saíram vencedores.

Temos, pois, de admitir a historicidade de certa “to- mada” de Jericó por Josué.

O que diz a fé

Séculos mais tarde os israelitas começaram a colocar por escrito os relatos da conquista da Terra Prometida. Pois bem, se ao chegarem eles à Palestina tivessem topado com a cidade amuralhada, apetrechada e fortemente defendida, ter- lhes-ia sido impossível tomá-la. Ao contrário, quando chegaram ao lugar, o encontra- ram em ruínas, sem muralhas e com uma fraca e miserável população. E perguntaram-se: quem derrubou para nós a ci- dade? Quem destruiu suas muralhas para que pudéssemos tomá-la? Sem dúvida, tudo isso tinha sido obra de Javé. Ele fora o verdadeiro conquistador. E, graças a que, Javé ia adiante deles abrindo-lhes o caminho e anulando-lhes as dificuldades? Graças às orações e rezas de suas liturgias. Então, na hora de escrever aquele episódio, o conta- ram da única maneira que sabiam fazê-lo. Não como histo- riadores, mas como homens de fé. Foi assim que nasceu o relato que ficou imortalizado no capítulo 6 de Josué.

A melhor maneira de dizê-lo

Se agora a analisarmos, veremos que efetivamente a batalha de Jericó está contada como se fosse uma celebra- ção litúrgica.

Em primeiro lugar, não são o exército nem os guerrei- ros os que têm papel principal e decisivo no combate, mas

sim os sacerdotes. Muito menos se empregam armas de guer- ra na luta, mas sim trombetas, que eram os principais instru- mentos musicais de louvor a Deus e de oração em todas as festas religiosas (cf. Nm 10,10).

Nenhum general comanda a batalha, mas sim a Arca da Aliança que desfilava entre eles com sua misteriosa pre- sença. Os soldados israelitas, mais do que um assédio de combate, assistem a uma procissão, guardando o respeitoso silêncio, próprio da oração. E o grito de guerra que lançam no último dia era o “clamor” que os israelitas costumavam lançar em suas festas religiosas (cf. 2Sm 6,15; Lv 25,9; Nm 29,1).

Finalmente vemos que o relato está narrado simboli- camente, pelo abundante uso do número 7 (a procissão dura sete dias, 7 sacerdotes levam 7 trombetas, dão 7 voltas no 7º dia), número muito usado na Bíblia que significa “perfei- ção”. Ou seja, que se tratou de um estratagema perfeito o que o povo de Israel usou para ganhar a batalha.

A verdade da fé

Todos esses elementos nos indicam que, embora te- nha existido uma “batalha de Jericó” real, como dissemos antes, a Bíblia narra como eles interpretaram, ou seja, o que lhes ensinava sua fé. E provavelmente lhes veio a idéia de relatá-la assim, inspirados na procissão que todos os anos realizavam desde o santuário vizinho de Guilgal, ao redor das ruínas, para comemorar a conquista.

Nunca lhes tinha ocorrido escrever uma crônica obje- tiva e fria da batalha de Jericó, segundo o estilo moderno de nossos historiadores. Não lhes serviria para nada. Eles es-

creviam para que seus relatos fossem lidos no templo, em suas reuniões e grupos de oração. E narrar, nua e sobriamen- te que seus antepassados, ao chegar à Terra Prometida, ex- perimentaram um fraco combate com quem no momento habitava as ruínas de Jerusalém, além de deixar de lado a visão da fé, não teria ajudado a sustentar nem alimentar a crença dos fiéis em Deus.

Por outro lado, o relato da procissão ao redor da cida- de, o clamor do povo, o emocionante som das trombetas e as muralhas caindo, isto sim inflamava os leitores, excitava e reavivava a fé de todos os que escutavam e fazia crescer a confiança em Javé.

E, de outra parte, o escritor sagrado estava dizendo a verdade: foi Deus que lhes tinha demolido as muralhas de Jericó (isto sim, vários séculos antes) em atenção às suas orações.

A nova Jericó

Caíram, pois, as muralhas de Jericó? Claro que sim. E a Bíblia narra o fato porque sua queda antecipa, de uma for- ma profética, a vitória de Cristo sobre as forças do mal.

Como a antiga Jericó, também hoje existe um mundo de mal encerrado atrás de suas firmes fortificações: as injus- tiças sociais, a mentira, a corrupção, o desprezo pelos mais fracos, a fome. E essas estruturas levantadas, qual podero- sas muralhas, impedem que os homens entrem na salvação, isto é, num novo tipo de sociedade em que a dignidade de todos seja respeitada e em que todos tenham direito à edu- cação, ao trabalho e a viver em paz, o que constitui a nova Terra Prometida.

A Igreja sabe que a batalha de Jericó é eterna, que se

prolonga através dos séculos. E fazem falta, hoje em dia, trombetas válidas para vencer essa fortaleza injusta e per- versa: as trombetas da solidariedade, do serviço e da fraternidade.

Mas as trombetas só não bastam. Josué ordenou um grito de guerra a uma só voz. A condição essencial para que a Igreja vença e debilite as estruturas injustas é, pois, sua unanimidade, sua unidade.

O som das trombetas prolongado durante sete dias

mostra-nos que com o serviço constante do anúncio do Evan- gelho, com o testemunho de vida e principalmente com a unidade da Igreja, poder-se-á destruir a soberba de Jericó, escondida atrás de suas torres do egoísmo, das injustiças sociais e da corrupção. O dia em que a Igreja gritar, com seu exemplo de vida e sua unidade, tudo o que seja inimigo do homem se transformará em escombros.

QUEM FORAM AS AVÓS DE JESUS?

Um começo que ninguém lê

Para conhecer uma pessoa ou entender suas caracte- rísticas nem sempre é importante conhecer as avós. Muito menos podemos dizer que conhecer as avós de alguém aju- de a entender sua missão e sua tarefa.

É verdade que nossos antepassados têm certa influên- cia sobre nós. Mas, um punhado de mulheres, distantes en- tre si por várias gerações e distanciadas em vários séculos, ajudam a entender o sentido de uma vida? Afirmar isto seria um exagero.

Mas no caso de Jesus não. Teve algumas avós, ou seja, algumas antepassadas tão particulares que, ao conhecê-las, começamos a entender melhor sua pessoa, sua missão e sua grandeza de Filho de Deus.

São Mateus inicia de uma forma estranha seu Evange- lho. Com uma longa lista de nomes, chamada “genealogia”, de todos os antepassados de Jesus (cf. Mt 1,1-17).

Colocar, logo de entrada, o leitor diante desta extensa e enfastiante lista de personagens parece um recurso pouco feliz de Mateus. Inclusive pode ser que nenhum de nós te-

nha lido esta passagem do Evangelho, pesada e aparente- mente sem sentido.

Mas, se nós a analisarmos, veremos que não é assim. Porque em meio a esta cadeia de 42 nomes masculinos, a presença de quatro distantes mulheres, as únicas quatro antepassadas de Jesus que se nomeiam, projeta uma das mensagens mais emotivas do Novo Testamento.

A importância de ter avós

As genealogias eram muito importantes na antigüida- de. Ali encontrava-se todo o registro da ascendência fami- liar. Ainda hoje, entre nós, há pessoas que conservam, com orgulho, sua árvore genealógica.

Para os judeus, no entanto, eram mais importantes ain- da. Porque entre eles era indispensável demonstrar a pureza da raça. Ter mistura de sangue estrangeiro, isto é, ter um não-judeu entre seus antepassados, significava perder os di- reitos como membro do povo de Deus.

Por exemplo, se alguém quisesse ser sacerdote, devia mostrar que sua linha genealógica descendia diretamente do sacerdote Aarão, irmão de Moisés. Se alguém tivesse pre- tensão de ser rei, devia provar que pertencia à família do rei Davi. Quando alguém queria se casar, devia documentar a pureza racial de sua futura esposa a partir pelo menos de cinco gerações.

Sabemos que o próprio Herodes, o Grande, que go- vernava o país no tempo de Jesus, sempre foi desprezado pelo povo pelo fato de ter herdado de seus antepassados san- gue do povo edomita. Tal fato chegou a incomodá-lo tanto

que ordenou a destruição de todos os arquivos de registros oficiais do país, para que ninguém pudesse demonstrar que possuía uma linha de antepassados mais pura que a sua.

Três etapas da vida

São Mateus, que escreve seu Evangelho para os ju- deus, quer apresentar Jesus como o Messias esperado e por isso pensa que o melhor é começar com uma genealogia. Para tanto elaborou cuidadosamente uma lista, ordenada, meditada e pensada com todos os detalhes.

Em primeiro lugar dividiu todos os antepassados de Jesus em três grupos, segundo três etapas importantes da história judaica.

Um primeiro grupo, que vai de Abraão até o rei Davi (cf. v. 2-6). Um segundo grupo, de Davi até o exílio do povo na Babilônia (cf. v. 6-11). E um terceiro grupo de nomes, do exílio até a chegada de Jesus (cf. v. 12-16).

Nessas três seções de nomes, o escritor sagrado quis representar as três etapas da vida de toda pessoa.

As lições da história

Com a primeira etapa mostrou que todo homem nasce para a grandeza. Por isso culmina com o rei Davi, o mais importante de Israel e o homem que levou o povo de Deus a seu máximo esplendor e o converteu numa potência mun- dial. Segundo Mateus, portanto, todo homem nasce essen- cialmente para ser rei.

Com a segunda, quis ensinar que todo homem perde sua grandeza quando peca e que sempre terminará escravo de seus maus atos. Por isso, este grupo se encerra com a escravidão na Babilônia. É a etapa da vergonha, do desastre e da tragédia da nação hebraica.

Com a terceira, mostra que o homem recupera sua gran- deza graças ao Filho de Deus. Por isso, essa cadeia termina em Jesus Cristo, a pessoa que libertou os homens de sua escravidão. Segundo nosso evangelista, Deus não permite que o final da história seja trágico. Em Jesus Cristo toda desgraça pode converter-se em triunfo.

O Messias escondido

Mateus utiliza um segundo jogo de números em sua genealogia. Se contamos os nomes que vão de Abraão a Davi, de Davi até o cativeiro e do cativeiro até Jesus Cristo, em todos os casos temos o número 14. Ele mesmo afirma isso no final: “De Abraão até Davi são, pois, 14 gerações e de Davi até o cativeiro da Babilônia 14 gerações e do cativeiro da Babilônia até Cristo 14 gerações” (1,17). Isto não é possível. Mateus deve ter suprimido vários nomes para obter este número. Entre Farés e Naasson, por exemplo, não podem existir somente três pessoas para co- brir os 430 anos que, segundo o Êxodo, teria durado a escra- vidão do Egito. Muito menos somente dois ascendentes po- deriam preencher os três séculos que vão de Salomão a Jessé. Por que utiliza, então, artificialmente o número 14?

Para entender isso devemos explicar uma característi- ca da língua hebraica sobre a qual já comentamos no pri- meiro capítulo deste volume. Enquanto em português escre-

vemos os números com certos sinais (1, 2, 3) e as letras com outros (a, b, c), em hebraico empregam-se as mesmas letras para escrever os números. O número 1 é a mesma letra “a”;

o 2, a “b”, e assim por diante. Portanto, se somamos as letras de qualquer palavra hebraica podemos sempre obter uma cifra, chamada “gemátrica”. Pois bem. Segundo esses cálculos, muito conhecidos

e difundidos entre os judeus, o número gemátrico do rei Davi era justamente o 14 já que em suas letras temos: D(=4) + V(=6) + D(=4) = 14.

Agrupando os nomes em 14, Mateus encontrou uma elegante e engenhosa maneira de dizer aos judeus que Jesus era descendente de Davi e, portanto, o verdadeiro Messias. Mais ainda: ao reuni-los em três listas de 14, sendo que o número 3 significa “totalidade”, o evangelista quis mostrar que Jesus é “três vezes Davi” e portanto o Messias total, o autêntico e verdadeiro descendente de Davi.

Não apto para mulheres

Mas o que é realmente assombroso nesta genealogia é

a inclusão do nome de quatro mulheres. Na lista de antepas-

sados dos grandes personagens nunca figuravam as mães. A mulher, nos tempos de Jesus, não tinha direitos legais, nem servia para testemunhar nenhum fato. Não era considerada uma pessoa, mas sim uma “coisa”, propriedade de seu pai ou de seu esposo e não gozava de importância na sociedade, onde não contava para nada. Isso verificamos, por exemplo, no relato da multiplicação dos pães por Jesus, quando o Evan- gelho diz que havia uma grande multidão, composta por “uns cinco mil homens, sem contar as mulheres e as crianças” (Mt 14,21).

Tal era o desprezo pelo sexo feminino na antigüidade que todo bom judeu, ao se levantar pela manhã, agradecia a Deus por três coisas: por não ter nascido pagão e nem escra- vo e por não ter nascido mulher.

Nas listas genealógicas da Bíblia é costume não apa- recer mulheres. Por isso a presença de nomes femininos na genealogia de Jesus é um fato surpreendente e revolucioná- rio. E, se indagamos quais foram estas mulheres, mais sur- presos ainda ficaremos. São: Tamar, a incestuosa (v. 3); Raab, a prostituta (v. 5); Rute, a excomungada (v. 5) e Betsabé, a adúltera (v. 6).

A avó Tamar

A primeira antepassada de Jesus, mencionada por Mateus, é Tamar. Sua história se acha em Gênesis 38. Ca- sou-se muito jovem com Her e logo depois ficou viúva, sem ter filhos. Segundo uma lei daquele tempo, chamada “levirato”, seu cunhado devia manter relações com ela para deixar-lhe um filho, que seria de seu esposo falecido. Assim ele não ficaria sem descendência, uma vez que não havia maior desgraça a alguém que morrer sem deixar filhos. Seu cunhado Onã casou-se, então, com Tamar, mas convivia com ela evitando os filhos. Ele também morreu e Tamar, duas vezes viúva, prosseguiu sem filhos.

Judá, o pai dos dois jovens, suspeitando que ela era uma mulher fatídica, negou-lhe seu terceiro filho como es- poso. Não queria perder o último que lhe restava.

Então Tamar planejou um estratagema. Um dia, disfarçada de prostituta, sentou-se junto a uma encruzilha- da, justamente quando passava seu sogro. Ele, confundin-

do-a, prometeu-lhe um cabrito em troca de seus favores. E como garantia deixou-lhe seu bastão, seu cordão e seu sinete. Quando mais tarde ele lhe enviou o cabrito como paga, ela já não estava mais e não se ouviram mais notícias de nenhu- ma prostituta neste local.

Dessa união ela saiu grávida. Ao saber que sua nora esperava um filho, Judá enfureceu-se e exclamou, envergo- nhado: “Trazei-a para fora e seja queimada viva”. Tamar, então, pôs em ação a segunda parte de seu plano. Enviou uma mensagem a seu sogro: “O homem a quem pertencem estas coisas deixou-me grávida. Verifica de quem são o sinete, o cordão e este bastão” (v. 25).

Assim Tamar, a incestuosa, conseguiu um filho e sal- vou sua vida. Mulher perversa ou astuta? Ou simplesmente mulher? O certo é que Mateus pôs o escandaloso nome de Tamar entre os antepassados de Jesus.

A avó Raab

A segunda mulher mencionada por Mateus é Raab, prostituta. Sua história é uma história de espionagem militar durante a época da conquista (Js 2).

Quando Josué, caudilho do exército de Israel, chegou às portas da Terra Prometida, viu-se diante da cidade de Jericó. Para saber se era possível tomá-la ou não, enviou espiões para explorá-la. Eles se alojaram na casa de Raab, uma prostituta da cidade. Descobertos pela polícia, a mulher escondeu-os e os ajudou na fuga, descendo-os com cordas pela janela das muralhas. Antes, porém, pediu-lhes que o exército hebreu respeitasse sua vida e a de sua família, quando tomasse a

cidade. Eles aceitaram e ordenaram-lhe amarrar um cordão de fio escarlate na janela, para identificar a casa.

O assalto à cidade foi tremendo. Os soldados de Josué

destruíram e saquearam Jericó e todos os seus habitantes foram assassinados. Raab, porém, salvou sua vida e a de toda sua família, como havia combinado com os espiões. Pouco depois Raab, a prostituta, chegou a figurar entre as antepassadas de Jesus. E Mateus não esqueceu de colocar seu nome na genealogia.

A avó Rute

Era uma jovem moabita, ou seja, do país de Moab (cf. Rt 1-4). Conheceu o amor desde muito jovem. Mas tam- bém a dor e a solidão, já que tornou-se viúva sem ter filhos.

A partir de então foi um exemplo de fidelidade a sua

sogra Noemi, a quem sempre acompanhou, ajudando-a. Foi uma mulher de trabalho e muito se sacrificou para ganhar o pão. Mais tarde tornou a conhecer o amor na pessoa de Booz. Viveu, então, um segundo idílio, nos campos de Belém. E finalmente encontrou a felicidade, como prêmio a seu traba- lho, à sua abnegação e à sua fidelidade.

Mas, embora sua moral fosse irrepreensível, tinha algo que envergonhava qualquer judeu: era estrangeira. Pior ain- da, pertencia aos moabitas, um dos povos mais odiados pe- los judeus. Eram tão desprezados que a própria lei judaica os tinha excomungado para sempre e jamais lhes permitiria participar da fé de Israel. O próprio livro do Deuteronômio pedia: “Os moabitas não serão admitidos à assembléia de Javé, nem mesmo na décima geração. Não serão admitidos nunca mais”.

A avó Betsabé

Era hitita, esposa de Urias, oficial do rei Davi (2Sm 11). Vivia com seu esposo, em Jerusalém, perto do palácio real. Era muito bonita, tão bonita que o rei Davi se apaixo- nou perdidamente por ela. Aproveitando a ida de Urias para a guerra, o rei mandou chamá-la ao palácio e ambos, em cumplicidade, uniram-se amorosamente.

Ela ficou grávida, e para evitar o escândalo Davi cha- mou Urias da frente de batalha e lhe deu uns dias de descan- so em sua casa, para que convivesse com sua mulher e co- brisse assim as aparências. Urias, porém, sabendo que seus soldados estavam em plena guerra, não aceitou esse privi- légio.

Diante disto o rei fez com que o mandassem de novo à luta, para a zona mais fragorosa e de maior perigo. Urias morreu e Davi pôde ficar com Betsabé.

Algum tempo depois um profeta, mediante uma co- movedora parábola, levou Davi a ver seu crime e seu gravíssimo pecado. Ele reconheceu humildemente sua cul- pa, arrependeu-se e pediu perdão.

Betsabé deu a Davi muito amor. Mas também muitas intrigas, ciúmes, lágrimas e dor. E Mateus colocou essa mulher adúltera como a quarta antecessora de Jesus.

Os parentes pobres

Essas são as únicas quatro avós de Jesus que apare- cem em sua genealogia. Quatro mulheres de diferentes sé- culos, no meio de uma lista de homens. Se Mateus tivesse

buscado com maior afinco em todo o Antigo Testamento não teria podido encontrar quatro personagens mais indig- nas de serem antepassadas do Senhor.

De fato, é assombroso encontrá-las nesse lugar. Uma genealogia era, para os antigos, motivo de orgulho, razão de sua honra e renome. Aqui, ao contrário, tais mulheres não são senão causa de vergonha.

Com a genealogia alguém demostrava provir de per- sonagens importantes e famosas do passado. Aqui se demostra que Jesus provém também da miséria humana, do pior de Israel, do mais baixo e do pior.

Pela genealogia alguém compreendia a grandeza de uma pessoa, seu passado ilustre, sua linhagem. Aqui só se vê a desonra que tem a parentela de Jesus.

Há, contudo, um gesto de grande delicadeza quando Mateus menciona essas mulheres. Trata-se de uma recorda- ção intencional. É como se, de entrada, quisesse deixar cla- ro qual era a missão de Jesus e seu programa de vida. Além de sua história pessoal, essas avós têm uma realidade sim- bólica que as transcende. No amor e na dor, no pecado e na alegria, no perdão de cada uma está retratada a história da humanidade peregrina e sofredora, pecadora e esperançosa, a grande família da qual faz parte o Senhor.

O evangelista quis mostrar que Jesus jamais se enver- gonhou de seus parentes, nem mesmo por ter entre eles gran- des pecadores. Aceitou a todos como foram. E a todos es- treitou com um abraço eterno, único, sentido, como se não quisesse soltá-los mais. É o que Mateus se encarregou de registrar em sua genealogia, para sempre.

O ANJO DO SENHOR ANUNCIOU A MARIA?

A audácia de Zefirelli

Quando o produtor cinematográfico Franco Zefirelli filmou uma de suas mais conhecidas películas, a já clássica Jesus de Nazaré, muitos pensaram que fora ousado demais. Embora esteja concebida com uma excelente sensibilidade, na cena da anunciação, contudo, vê-se uma Maria cheia de candura que desperta, assustada, à meia-noite e, enquanto um raio de luz, sobrenatural, evidentemente, penetra pela janela de sua habitação, a jovem inicia um misterioso diálo- go sobre a futura concepção de seu filho Jesus.

Mas, com quem ela fala? Aqui está a grande ousadia de Zefirelli: com ninguém! Ela é a única que pergunta e a única que responde sem que apareça interlocutor algum. Com uma penada o produtor italiano tinha feito desaparecer o popular anjo Gabriel.

Os católicos criticaram sem piedade o filme: era uma irreverência, uma mutilação inaceitável do Evangelho que atentava contra a verdadeira fé católica. E não era para me- nos. Tinha suprimido um dos personagens mais singulares

do Novo Testamento; o sempre presente anjo a quem estamos

habituados a ver em toda pintura ou cena da anunciação. A quem, desde criança, estamos acostumados a mencionar quando na oração do Angelus dizemos : “O anjo do Senhor

anunciou a Maria

”;

o maior comunicador da história.

De fato, Zefirelli fora ousado demais.

Como foi que se manifestou

Um detalhe, porém, sempre chama a atenção na anunciação do anjo a Maria (cf. Lc 1,26-38). Como Lucas, o único evangelista que narra o fato, fez para inteirar-se do ocorrido? Maria, a única protagonista, ter-lhe-ia contado ou alguém a quem ela teria comunicado?

Mas alguém poderia perguntar-se: Maria andaria con- tando seus segredos? Estaria de acordo com aquela moça

humilde e calada que meditava todas suas coisas, guardan- do-as em seu coração? (cf. Lc 2,19.51) Andaria contando o relato de como o anjo Gabriel entrou, voando, pela janela de sua casa e a felicitou por ser a única mulher privilegiada ante os olhos de Deus, quando não quis nem mesmo contar

a José?

Não é só isso que causa dúvida. Os elementos da nar- ração não parecem ser demasiado históricos, mas sim, va- gos e indefinidos.

Para que se veja a gravidez

Alguém poderia pensar que o detalhe da visita do anjo

a Maria “no sexto mês” de gravidez de sua parenta Isabel

seja muito concreto e parece ser histórico. Mas, olhando bem, é um complemento literário. Se o anjo dá como sinal a Ma- ria que Isabel, embora anciã, está grávida, a observação do “sexto mês” fica evidente: a gravidez de Isabel deve servir- lhe de testemunho fiel e os sinais externos de uma gravidez não saltam à vista senão a partir do sexto mês. Se o relato tivesse acontecido antes do anjo, Maria não poderia ter comprovado a veracidade do sinal.

O detalhe, portanto, não pretende dar uma data histó-

rica, mas só tem a intenção de dizer-nos que as palavras do

anjo estavam certas e podiam ser verificadas.

Por isso hoje os biblistas sustentam que Lucas, ao nar- rar o fato da anunciação, transmitiu algo real, que de fato ocorrera, mas o fez através de uma cena criada por ele.

Um diálogo repetido

A narrativa é uma construção artificial. Isto pode ser

constatado pelos elementos do diálogo entre o anjo e Maria que são copiados do Antigo Testamento.

A saudação “alegra-te” (v. 28) foi tirada do profeta

Sofonias (cf. 3,14). A expressão “O Senhor está contigo” é do livro dos Juízes (cf. 6,12), quando o anjo aparece a Gedeão. “Não temas” é a frase do anjo a Daniel (cf. Dn 10,12). O “nada é impossível a Deus” (v. 37) nós o encon- tramos em Gn 18,14, quando o anjo anuncia o nascimento de um filho a Abraão.

mensagem “conceberás em teu seio e darás à luz

um filho, e lhe darás o nome de Jesus

(v. 31) é a frase do

anjo a Agar, escrava de Abraão (cf. Gn 16,11). E a continua- ção — “ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo.

A

O Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai. Ele reinará

na casa de Jacó pelos séculos e seu reino não terá fim” (v.

32-33) — é uma clara alusão à profecia de Natã ao rei Davi, prometendo-lhe, em nome de Deus, um sucessor em sua casa e o reinado eterno de sua linhagem (cf. 2Sm 7,12-16).

Lucas recolheu, pois, frases importantes do Antigo Testamento, todas elas referentes a intervenções de Deus na história e com elas teceu um relato sobre a maior das inter- venções divinas na humanidade.

Uma forma literária

Os estudiosos, porém, aprofundando-se mais ainda,

descobriram que todas as partes dessa narração correspondem

a uma forma literária judaica, chamada “relato de

anunciação”. Trata-se de um esquema fixo, estereotipado, artificial, que aparece várias vezes na Bíblia. Quando alguém queria contar que um anjo ou um enviado de Deus tinha aparecido a algum personagem bíblico para dar-lhe uma

mensagem, não podia fazê-lo de qualquer modo. Devia res- peitar um esquema já prefixado.

Vejamos um exemplo. Quando hoje alguém quer redi- gir uma carta, geralmente começa colocando em cima, à di- reita, o lugar de onde escreve e a data da emissão. Logo abaixo, à esquerda, a saudação ao destinatário, quase sem- pre com a palavra “prezado” ou “estimado” e o nome. De- pois vem o conteúdo da carta. E, por fim, a despedida e a assinatura. Dentro desse esquema alguém se expressa livre- mente, mas não sai dele. Ao ver esses elementos sabemos estar diante de uma carta.

Os cinco elementos

Assim como uma carta tem sua “forma literária” pró- pria, o relato de uma anunciação tem, na Bíblia, seus ele- mentos próprios e sua estrutura, e nenhum escritor antigo saía dela. Quantos eram esses elementos? Cinco, e bem defini-

dos.

1) A aparição do mensageiro celeste. 2) A perturbação ou o medo do personagem. 3) A mensagem que o enviado traz da parte de Deus. 4) Uma objeção que o personagem coloca e que servi- rá para esclarecer melhor a mensagem. 5) Um sinal que o anjo dá ao personagem para confir- mar que ele vem de Deus.

Toda vez que Deus realiza uma “anunciação”, ou seja, anuncia algo a alguém mediante um mensageiro, a Bíblia o conta seguindo esses cinco passos.

Também a Maria

Na anunciação a Maria podemos distinguir perfeita- mente:

1) A aparição: “O anjo Gabriel foi enviado da parte de Deus” (v. 26).

2) A perturbação: “Ao ouvir estas palavras ela se per- turbou” (v. 29).

3) A mensagem: “Eis que conceberás em teu seio e

darás à luz um filho

(v. 31).

4) A objeção: “Como poderá ser, pois não conheço homem?” (v. 34).

5) O sinal: “Eis que Isabel, tua parenta, também ela concebeu um filho em sua velhice e este é o sexto mês (v. 36). Podemos identificar esses elementos em muitas ou- tras “anunciações” bíblicas. Por exemplo, quando Deus anun- cia a Abraão o nascimento de seu filho Isaac (Gn 17,1-22), narra-se:

1) A aparição: “Quando Abraão tinha 99 anos, apare- ceu-lhe o Senhor” (v. 1). 2) A perturbação: “Abraão caiu com o rosto em ter- (v. 3). 3) A mensagem: “Tu serás pai de uma multidão de nações” (v. 4).

e se pôs a rir, dizendo: será

ra

4) A objeção: “Abraão

que um centenário vai ter um filho?” (v. 17). 5) O sinal: “O filho que Sara te dará no ano que vem, por este tempo” (v. 21).

Aos juízes

Seguindo este mesmo esquema detalha-se a aparição do anjo do Senhor a Gedeão, um dos juízes de Israel (cf. Jz

6,11-21).

1) A aparição: “Então o anjo do Senhor veio e sentou- (v. 11). 2) A perturbação: “Gedeão percebeu que era o anjo do Senhor e exclamou: Pobre de mim, Senhor Deus, porque vi o anjo do Senhor face a face” (v. 22).

se

3) A mensagem: “Vai com essa força que tens e salva Israel da mão dos madianitas” (v. 14).

4) A objeção: “Perdão, meu Senhor! Como posso sal- var Israel?” (v. 15).

subiu um fogo da rocha

que consumiu a carne e os pães” (v. 17-21).

5) O sinal: “Dá-me um sinal

E aos sacerdotes

Lucas descreve a anunciação a Zacarias com termos iguais (Lc 1,11-20):

1) A aparição: “E apareceu-lhe um anjo do Senhor” (v. 11).

2) A perturbação: “Ao vê-lo, Zacarias se perturbou e teve medo” (v. 12).

3) A mensagem: “Isabel tua mulher vai te dar um fi- lho” (v. 13).

4) A objeção: “E como terei certeza disso? Pois já sou velho e minha mulher é de idade muito avançada” (v. 18).

5) O sinal: “Ficarás mudo” (v. 20).

Se continuarmos analisando outras anunciações como a de Agar, escrava de Abraão (Gn 16,7-12), a de Moisés (Êx 3,1-12), a dos pais de Sansão (Jz 13,3-22) ou a dos pas- tores de Belém (Lc 2,9-12), vemos que estão construídas do mesmo modo. Isto mostra claramente que se trata de ele- mentos artificiais, próprios de um gênero literário.

O que se pretende afirmar

Chegamos, assim, a uma conclusão importante. Nos relatos de anunciações só a mensagem central, a base essen- cial é considerada como histórica. Mas os cinco elementos de sua estrutura não são certos, nem são históricos, mas res- pondem a um clichê artificial.

No caso de Maria, o que se quer afirmar? O que é o central, o verdadeiro? O que se quer anunciar e aclarar é a personalidade de Jesus, seu ser, sua figura. Pretende dizer que o menino concebido por Maria é o Filho de Deus, é também o Messias que Israel esperava e que nele se cum- prem todas as expectativas do Antigo Testamento.

Mas, o que aconteceu de fato no momento de sua con- cepção, como se inteirou de sua gravidez espiritual, como descobriu o mistério do Filho de Deus em suas entranhas e as circunstâncias que estão em torno do fato, não são coisas que Lucas pretende contar. E os detalhes pessoais e psicoló- gicos de Maria em sua gravidez desapareceram no mistério para sempre.

O famoso medo de Maria

Graças à descoberta das formas literárias, podemos compreender melhor as afirmações dos evangelistas.

Por exemplo, a perturbação de Maria diante da apari- ção do Anjo sempre chamara a atenção dos leitores da Bí- blia. Por que ela se assusta? Por acaso não saberia distinguir um mensageiro divino, ela que tinha tanta experiência de Deus? Por que pergunta pelo significado de sua saudação, tão conhecido no Antigo Testamento?

Várias são as tentativas de explicação. Para alguns seria uma perturbação lógica, natural, de um ser humano diante dum enviado de Deus. Mas deveria então muito mais se ale- grar. Para outros seria a reação de pudor de uma jovenzinha que vê um homem entrar quando está sozinha em sua habi- tação. Mas contra isso se objeta que os anjos não têm sexo. Enfim estão aqueles que dizem que seria a modéstia de Ma- ria ao ver que Deus se preocupava com ela.

Hoje sabemos que sua perturbação é somente um de- talhe artificial que faz parte de um esquema fictício da anunciação. Para Lucas, Maria tinha de, necessariamente, se perturbar porque assim o exigia o segundo elemento do gênero literário. Isto indicava que o enviado vinha realmen- te de Deus, ou seja, de uma esfera transcendente.

Não conhecia homem

O mesmo deve-se dizer da objeção. Se o diálogo entre Gabriel e Maria tivesse sido real, a observação que ela colo- ca é incompreensível. Estando casada, a mensagem de que vai ter um filho procede? Por que objeta que não vive com nenhum homem? O Anjo já sabia que ainda não morava com José. Sabia também que mais adiante o faria (o que nunca aconteceu, segundo a tradição). Por que, então, coloca esta objeção?

Como única saída alguns propõem que ela fizera, em certo momento de sua vida, um voto de virgindade perpétua e, como conseqüência, a gravidez estava fora de seus pla- nos. Assim se interpretou durante séculos a pergunta de Maria. Esta hipótese, contudo, está completamente equivo- cada e faz tempo que a exegese bíblica a abandonou.

Em primeiro lugar, Lucas não diz nenhuma palavra sobre algum voto de virgindade de Maria. Em segundo lu- gar, a ausência de filhos entre os judeus era um sinal de maldição. Um voto de virgindade é algo absolutamente des- conhecido entre os judeus e nunca teve valor e nem foi tido como virtude. Como Maria iria oferecer a Deus algo que era mal visto segundo sua cultura e sua mentalidade?

Por mais voltas que se dê, se o diálogo realmente ocor- reu, a objeção nos coloca num problema insolúvel. Por outro lado, as dificuldades se esvaem ao compre- ender que a narração, pelo fato de seguir um esquema literá- rio da anunciação, deve incluir sempre uma objeção por parte daquele que recebe o anúncio, para que o enviado possa ex- plicar melhor sua mensagem. Deste modo, a objeção não é uma objeção real de Maria, mas sim um recurso que Lucas emprega para melhor explicar a seus leitores a filiação divina de Jesus. Ou seja, que Jesus não só é o Messias descendente de Davi, mas tam- bém o verdadeiro Filho de Deus, desde o primeiro momento de sua existência no seio de Maria.

Custa pouco e vale muito

Lucas não nos deixou os detalhes de como Deus deu um jeito para anunciar a Maria a gravidez de Jesus, nem como ela assumiu, nem que reações isto produziu em Maria. O anúncio de Deus a Maria é, contudo, certo. E o sim dela é também o nosso.

Todos recebemos diariamente um convite parecido com o de Maria. Um convite para realizar algo para que o plano de Deus continue se concretizando em nossos lares,

em nossa família e em nossa sociedade. Deus entra na casa de cada um como o anjo na casa de Maria, pedindo colabo- ração. Em nosso “sim” estão em jogo muitas coisas. E com nosso “não” muitas outras se frustram.

É assustador pensar quanto o mundo dependia do sim daquela aldeã de Nazaré e a repercussão que isso trouxe para toda a humanidade. Abismar-nos-ia igualmente se soubés- semos quantas coisas dependem de nossos pequenos sim e minúsculos não. Maria disse seu sim e Jesus pôde nascer. Falta, no entanto, muito ainda para que se realize a obra da salvação de Deus. O mundo não está como ele quer. Existe fome, ódio, injustiças, violência. Nosso sim continua fazen- do falta.

JOÃO BATISTA BATIZOU A JESUS?

Nasce uma festa

Numa fresca manhã, provavelmente do mês de janei- ro do ano 27, um homem com um pouco mais de trinta anos, proveniente de Nazaré, se deteve na costa que se desliza até às margens do rio Jordão. Do alto contemplou o grandioso espetáculo: uma desordenada multidão de camponeses, sol- dados, funcionários públicos, homens e mulheres de todas as idades e condições acorria para ser batizada por um aus- tero profeta recentemente aparecido, chamado João.

Lá embaixo ele, com o rio pela cintura, depois de pe- dir à multidão que se convertesse, levanta a mão direita e derrama a água cristalina sobre a cabeça dos penitentes.

Naquele cenário agreste, de pedras e palmeiras, mis- turado no meio do povo simples, estava Jesus. Ele também dirigiu-se até João. E submergindo-se nas águas, como se tivesse culpa a lavar, deixou-se batizar mansamente.

O acontecimento foi considerado de tanta importân- cia pela Igreja primitiva que todos os Evangelhos sinópticos (Mateus, Marcos, Lucas) o relatam. Foi imortalizado em

inumeráveis quadros, pinturas e relevos e converteu-se na grande festa litúrgica do “Batismo do Senhor” que dá início ao ciclo dos domingos do tempo comum.

O mesmo, mas distinto

Quando, porém, lemos o relato que os evangelhos fa- zem do batismo de Jesus, vemos que se trata de três versões distintas.

Com efeito, enquanto Mateus diz que João não queria batizá-lo e lhe opôs resistência (cf. 3,13-17), Marcos afirma que o batizou sem nenhum problema, como um aconteci- mento comum (cf. 1,9-11). João, por seu lado, silencia-se totalmente, como se o batismo não tivesse existido. E Lucas o menciona só de passagem, quase como não querendo fazê- lo (cf. 3,21-22).

Quem deles tem razão e conta o fato tal como aconte- ceu historicamente? Que mistério se esconde por detrás des- ses relatos?

Para entender bem o batismo de Jesus deve-se levar em conta uma chave dos escritores evangélicos: eles não quiseram contar os fatos simplesmente como crônicas frias, mas procuraram aproveitar ao máximo os episódios narra- dos para tirar todos os ensinamentos possíveis que deixa- vam.

Para isso cada evangelista devia levar em conta os seus destinatários e os problemas particulares da comunidade a quem dedicava seu Evangelho.

Com esta chave de leitura na mão tratemos de com- preender agora o que realmente sucedeu.

Por algo abriram-se os céus

O que em primeiro lugar deve-se deixar claro é que o

batismo de Jesus foi um fato histórico, um episódio real de sua vida. E o primeiro evangelista que o colocou por escrito foi Marcos que compôs seu livro por volta do ano 70. Se- gundo esse relato, logo que chegou ao rio Jordão, Jesus foi batizado por João. Aconteceram então três coisas:

A primeira é que “os céus se abriram” (1,9). Esse acon-

tecimento era esperado há muito tempo. Um velho profeta anônimo, chamado Terceiro Isaías, amargurado pelo estado de desolação em que jazia Israel no século V a.C., havia dirigido uma patética e comovedora oração a Deus, pedin- do-lhe que abrisse os céus, ainda que fosse pela última vez, e fizesse um grande milagre em favor de seu povo, assim como havia feito antigamente: “Oxalá rasgasses os céus e descesses” (Is 63,19).

Pois bem, o batismo de Jesus era a resposta a esta sú- plica. Mas de uma forma surpreendente. Deus abria agora os Céus não para enviar um favor qualquer, mas sim para mandar seu filho em pessoa. Com esse detalhe Marcos que- ria dizer que este homem que estava a batizar vinha, nada mais nada menos, lá dos Céus, de junto de Deus.

Havia começado o final

A segunda é que desceu sobre ele o Espírito em for-

ma de pomba (Mc 1,10). Também com este fato cumpria-se uma profecia. Joel, 400 anos antes, já se antecipara, dizendo que, quando chegasse o final dos tempos, Deus haveria de derramar seu Espírito lá dos céus (3,1-5). Com sua descida

sobre Jesus, que agora era batizado, Marcos anunciava a inauguração dos últimos tempos, os mais importantes da história.

Para Marcos era muito importante esclarecer que a descida do Espírito aconteceu quando “Jesus já tinha saído das águas” (1,10) e o batismo havia terminado. Ou seja, que o Espírito Santo não tinha vindo em conseqüência do batis- mo de João, pois o batismo ainda não era um sacramento, nem tinha eficácia alguma, como terá depois o batismo cris- tão. A ablução que o Precursor administrava era somente um rito exterior, símbolo de que os pecadores que vinham arrependidos e mudavam de vida ficavam interiormente pu- rificados.

Sem que ninguém percebesse

A terceira coisa foi a voz do céu que, dirigindo-se a Jesus, dizia-lhe: “Tu és meu Filho muito amado, de ti eu bem me agrado” (1,11).

Para entender essa frase é preciso saber que desde muitos séculos Israel esperava um misterioso personagem a quem chamavam de “Servo de Javé” e que iria redimir, com seu sofrimento, todo o povo judeu. Conforme Isaías, que o anunciou, uma de suas características era a de que Deus lhe queria bem (cf. 42,1). Pois bem, ao dizer, a voz, que o jovem nazareno, recém-saído das águas, era aquele em quem Deus se comprazia, indicava Jesus como o “Servo de Javé”, o re- dentor de Israel, o tão esperado personagem ungido com o espírito profético de Deus, que um dia desceria até a própria morte humana para infundir uma nova vida a todos os ho- mens.

Segundo Marcos, só Jesus viu como os céus se abri- ram e o Espírito descia, e somente ele ouviu a voz do Pai,

Para Marcos, então, a verda-

deira identidade de Jesus, o Filho de Deus vindo do Céu aberto, o que inaugurava os últimos tempos, o Redentor, é um segredo conhecido somente por Jesus. Nem o Batista, nem os que estavam presentes aquele dia no rio Jordão per- ceberão alguma coisa.

uma vez que lhe diz: “Tu és

O mal de aprender mal

Apesar da beleza desse relato, o episódio foi motivo de escândalo na Igreja primitiva. Por que Jesus se deixou batizar pelo filho de Zacarias? Normalmente a pessoa que recebe é inferior àquela que dá. Por isso o batismo deveria ser o contrário: alguém superior como Jesus é que devia ter batizado a um outro de menor dignidade, como João Batis- ta. Mas, como é que João batizou Jesus?

A pergunta, então, se impôs. Faziam-na os cristãos, o povo e todos quantos conheciam esse relato do batismo.

Quando, alguns anos mais tarde, coube a Mateus es- crever seu evangelho a questão era delicada e tinha se con- vertido num sério problema teológico. Em muitos ambien- tes da Palestina já se começara a considerar João Batista superior a Jesus. Tinham-no como verdadeiro Messias e ha- viam se formado grupos que veneravam sua figura e lhe ren- diam culto. Eram as comunidades que, por isso, eram cha- madas de “joaninas”.

Quem devia ir a quem?

Por isso Mateus, ao escrever sua versão, não pôde evi- tar o tema escandaloso do batismo de Jesus. E tratou de en- contrar uma solução para tão ríspido problema, criando um espaço literário onde Jesus mesmo pudesse dar uma expli- cação. Para tanto ele cria uma cena onde João trata de impe- dir o batismo, perguntando: “Eu é que devo ser batizado por ti e tu vens a mim?” (3,14). Era a angustiante pergunta, que na realidade João não fez a Jesus no dia do batismo, mas sim que todo o povo fazia. A resposta de Jesus, que mais era a resposta de Mateus às pessoas preocupadas de sua comuni- dade foi: “Deixa agora, pois convém que assim cumpramos toda a justiça” (3,15).

Com isso Mateus explicava que o batismo era von- tade de Deus. Embora Jesus não tivesse pecado, ele se apresentava como um penitente qualquer, em meio ao povo, para identificar-se com os homens. Carregava os pecados de todos eles e os lavou com o seu batismo. Não tinha Isaías profetizado que ele “se deixou contar entre os rebeldes?” (53,12). Cristo era, assim, o representante da humanidade pecadora.

A finalidade de seu batismo ficava, pois, esclarecida pelo próprio Jesus: quis ser alguém mais dentre os peca- dores.

Mateus fez, além disso, uma segunda modificação. Se, conforme Marcos, a visão dos Céus e a escuta da voz que se seguiram após o Batismo tinham sido percebidas só por Je- sus, para Mateus todos os presentes viram os céus se abri- rem e todo o povo ouviu a voz de Deus que agora não mais dizia “Tu és meu Filho”, como em Marcos, mas “Este é meu Filho”, dirigindo-se a todos. Assim, todos eram testemunhas

da superioridade do Senhor sobre João. Somente a visão do Espírito em forma de pomba é, em Mateus, própria de Jesus. Todo o povo percebeu os outros dois acontecimentos.

Discípulos em discussão

O Evangelho de Mateus não conseguiu convencer to- talmente. Se Jesus fora realmente batizado por João, então ele era superior a Jesus. Nada restava a fazer. E a discussão sobre a preeminência de Jesus ou do Batista tornou-se mais aguda. Os Evangelhos trazem os ecos destas discussões. Um dia, por exemplo, o povo comentava que o Batista era o maior dentre os nascidos de mulher. Jesus confirma: “Eu vos digo, entre os nascidos de mulher não há um maior do que João”. Mas logo acrescenta: “Mas o menor no Reino de Deus é maior do que ele” (Lc 7,28). E quem era o menor no Reino de Deus? Quem era aquele que tinha vindo não para ser ser- vido, mas para servir a todos? Não era outro senão Jesus. Assim, ele mesmo, delicadamente, declarava-se superior a João.

Em outra oportunidade os círculos joaninos ensina- vam que seu mestre era a Luz que veio iluminar este mundo. Então o quarto evangelista teve de esclarecer que na verda- de “ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz.

Era esta a Luz verdadeira

Também circulavam nesses grupos narrações maravi- lhosas sobre o nascimento milagroso de João e como um anjo tinha falado com seu pai Zacarias, curando a esterilida- de de sua mãe Isabel. Lucas não pôde evitar esses relatos e recolheu-os em seu Evangelho, mas como continuação aos

(Jo 1,8-9).

de Jesus, mostrando que este era tão superior a João que nem sequer tinha precisado de um pai humano para nascer (cf. Lc 1-2).

Teve de eliminá-lo

Diante dessa perspectiva de confrontação entre os cris- tãos e os joaninos, o batismo de Jesus resultava cada vez mais embaraçoso para a Igreja primitiva.

Foi nesse momento que coube ao terceiro evangelista escrever seu Evangelho. E, não podendo eliminar este fato por causa da importância que tinha, optou por eliminar a João. E escreve simplesmente: “Ao ser batizado todo o povo

e quando Jesus, depois de batizado, rezava

Quem o batizou? Não se menciona. E mais: pareceria insinuar que não foi João. De fato, um versículo antes havia contado que, no momento em que Jesus se fazia batizar, João estava preso no cárcere por ordem do rei Herodes (3,20).

Depois Lucas acrescenta uma nova modificação: que, quando aconteceram as três manifestações de Deus, Jesus estava em oração. Com isto quis desviar a atenção do fato do batismo para centralizá-la na figura majestosamente orante de Jesus.

Por último ele completa o processo iniciado por Mateus, uma vez que o povo presente naquele dia não só vê os céus abertos e ouve a voz, mas também o Espírito Santo descer sobre Jesus “em forma corporal de pomba”. Agora os três acontecimentos são publicamente conhecidos. Agora, perante todo o mundo, está claro que só Jesus é o centro e o cume da cena.

(3,21).

Até mesmo Apolo

O movimento que se originou em torno do Batista foi adquirindo tal forma e expansão que chegou até Alexandria.

O livro dos Atos dos Apóstolos relata que um dos oradores

mais brilhantes da antigüidade, certo Apolo, oriundo dessa cidade, pertencia ao grupo dos joaninos (18,24-25). Pouco a pouco alcançou a Ásia Menor, de onde foi ganhando adeptos entre alguns círculos judaicos. Da mesma forma em Éfeso, nos confins da Ásia Menor, os Atos con- tam que Paulo encontrou discípulos de João Batista (19, 1-3). Essa seita chegou a competir de tal modo com os cris- tãos que se converteu numa verdadeira ameaça para a vida dessas comunidades. Por outro lado, tampouco as respostas do novo evan- gelho de Lucas satisfaziam completamente o povo, que se- guia questionando a atitude de Jesus em fazer-se batizar por João.

Por isso, quando o apóstolo João compôs o quarto e último evangelho, precisamente em Éfeso, onde as comuni- dades joaninas eram fortes, decidiu cortar pela raiz e fez o que nenhum outro evangelista se atreveu fazer: suprimiu o relato do batismo de Jesus. Com efeito é o único dos quatro que não o menciona. Somente o supõe. Diz que em certa

ocasião João Batista viu aproximar-se Jesus e então disse ao povo: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Eu vi o Espírito descer do céu em forma de uma pomba e permanecer sobre ele” (1,29.32). Mas, quando viu o Espíri-

to descer sobre ele? O evangelista se cala. Em relação ao

conflitivo problema do batismo prefere guardar um pruden-

te silêncio.

Para entender melhor

Assim é como um fato histórico, realmente aconteci- do na vida de Jesus, foi contado de maneiras distintas pelos quatro evangelistas, conforme as vicissitudes que viveram e os problemas que as comunidades destinatárias tinham. Sem distorcer a verdade, sem mudar a mensagem e nem modifi- car o essencial, cada autor soube acomodá-lo para que os leitores pudessem aproveitar ao máximo a riqueza escondi- da neste acontecimento vivido por Jesus.

Conservando o relato primigênio, cada um deu-lhe uma forma distinta, o retocou e amoldou, não segundo seu pró- prio parecer, mas segundo o que o próprio Espírito Santo inspirava. Não o adaptaram porque lhes ficava mais cômo- do, nem pelo afã de mudar a realidade, mas porque Deus os movia para que sua palavra fosse compreendida cada vez mais pelo povo.

É a maneira como pregaram os primeiros evangelistas.

É a forma como nós devemos fazê-lo. Não tanto sair a repe-

tir o que disse a Bíblia, mas sim tomar os fatos que lemos na

Bíblia, que para os estranhos resultariam incompreensíveis,

e depois de fazê-los carne e amoldá-los à nossa vida e

assimilá-los, difundi-los convertidos em gestos compreen-

síveis a todos os membros da comunidade.

JESUS FOI TENTADO PELO DIABO?

Nem boas, nem más

Muitos têm dificuldade em aceitar que Jesus foi tenta- do pelo Diabo. No fundo é porque consideram a tentação como algo desonroso para a pessoa, como uma fraqueza, uma deficiência.

Mas não é assim. A tentação não é nem boa e nem má. É simplesmente inevitável. Todo homem tem tentações, uma vez que ao ter sido criado livre sempre o colocam diante de dois caminhos, duas possibilidades de agir, uma das quais é boa e a outra má. Essa dualidade de horizontes constitui a tentação. Se o homem escolhe o caminho certo, cresce e amadurece; se opta pela via equivocada, se corrompe. Mas a tentação em si mesma carece de moralidade. Passa a ser boa ou má segundo a decisão que cada indivíduo toma diante dela.

Não é possível viver sem tentações. Se alguém não as tivesse, deveríamos supô-lo automaticamente desumanizado, já que não apareceriam os desafios de sua liberdade. Um homem sem tentação seria tão anormal que não pertenceria à categoria dos seres humanos.

Uma só vez é fácil

A Bíblia sustenta que Jesus era verdadeiro homem, semelhante a nós em tudo (cf. Hb 2,17). Que ele padeceu e teve tentações (Hb 2,18) e por isso ele pode entender nossas fraquezas pois esteve sujeito às mesmas tentações que nós, exceto ao pecado (Hb 4,15).

Mas as tentações que se apresentaram a Jesus foram raríssimas, segundo o Evangelho. Como podemos dizer que são as mesmas que as nossas?

Em primeiro lugar, estranhamente o Diabo aparece de modo frontal, sem camuflagens nem máscaras, o que con- tradiz a forma habitual de representá-lo. E assim, com o ros- to descoberto, convida-o a pecar. Em segundo lugar, apare- ce-lhe uma só vez em toda sua vida, no final de um jejum de quarenta dias no deserto; desafia-o, e ao ser derrotado, reti- ra-se e nunca mais voltará durante seu ministério. Que di- ferença do que acontece conosco que sofremos o aguilhão das tentações todos os dias!

Com transporte, inclusive

Ainda que estas tentações fossem pouco habituais, Jesus aparece mudando extravagantemente de cenário. A primeira tentação, por exemplo, acontece no deserto. Mas para a segunda o Diabo aparece transportando-o pessoal- mente ao Templo de Jerusalém (cf. Mt 4,5). Como o trans- portou? Levantando-o? Voando? Isto seria aceitar que o Diabo realizou um impressionante portento. De onde tirou poder para fazer milagres, quando a tradição bíblica susten- ta que só Javé pode fazê-los? (cf. Sl 72,18; 86,10; 136,4).

Na terceira tentação aparece o Diabo levando-o dessa vez a um alto monte, de onde mostra-lhe todos os reinos e países do mundo (cf. Mt 4,8). Existe na terra esta extraordi- nária montanha, de onde se pode contemplar semelhante espetáculo?

E como pôde Jesus permanecer quarenta dias no de- serto sem comer e principalmente sem beber? A desidrata- ção não perdoa ninguém. A menos que Jesus tenha feito um milagre para não sofrê-la. Mas que sentido teria então seu jejum? Teria sido uma mero engano.

Por fim, como os discípulos se inteiraram desse duelo no deserto? Jesus andava contando essas intimidades pes- soais?

Ele as teve permanentemente

Tudo isso nos leva a supor que, embora Jesus tivesse tido tentações durante sua vida, o modo como elas estão aqui contadas não é histórico. Trata-se mais de uma criação lite- rária dos evangelistas com a finalidade de deixar um ensinamento religioso, uma idéia válida para a vida dos cren- tes que tropeçam com suas tentações no deserto da vida.

Em primeiro lugar, Jesus teve tentações não só um dia, mas em todos os dias de sua vida. Ele próprio disse isso uma vez a seus apóstolos: “Vós sois os que permanecestes comi- go em minhas tentações. Eis por que eu disponho o Reino em vosso favor assim como o Pai dispôs o Reino em meu favor” (Lc 22,28-29). Em que tentações seus apóstolos o acompanharam? Não certamente nas do deserto, onde ele aparece só, mas durante toda sua vida pública.

Com efeito, sabemos pelos evangelhos que quiseram tentar a Jesus muitas vezes. Como quando “chegaram-se a ele os fariseus e saduceus e, para prová-lo, pediram que lhes desse um sinal do céu” (Mt 16,1). Ou quando perguntaram- lhe para tentá-lo: “é lícito ao homem despedir sua mulher por um motivo qualquer?” (Mt 19,3). Ou quando ele contes- tou aos que o interrogavam se deveria pagar ou não impos- tos: “Por que me experimentais, hipócritas?” (Mt 22,18). Ou no dia em que lhe trouxeram uma mulher surpreendida em adultério “para tentá-lo” (Jo 8,6).

A razão do número 3

A vida de Jesus, como se vê, esteve repleta de tenta- ções, mas os autores bíblicos quiseram resumi-las somente em 3, porque este é um número simbólico que aparece mui- tas vezes na Bíblia com o sentido de totalidade. Tal simbo- lismo talvez seja pelo fato de serem 3 as dimensões do tem- po: passado, presente e futuro, como já dissemos atrás. Por- tanto, dizer 3 é, de algum modo, dizer o sempre ou o todo. Por exemplo, os 3 filhos de Noé (cf. Gn 6,10) representam a totalidade de seus descendentes. E as três vezes que Pedro negou a Jesus (Mt 26,34) significam a totalidade de vezes que ele lhe foi infiel. As três tentações do Senhor expressam, pois, todas as vezes que ele esteve exposto às tentações em sua vida.

Para o novo povo, tentações antigas

Por que os evangelistas escolheram essas três tenta- ções? Aqui está a chave e o segredo de todo o relato!

Escolheram-nas para traçar um paralelo com aquilo que aconteceu com o povo de Israel, logo após a saída do Egito. Segundo o Antigo Testamento, depois de atravessar de forma prodigiosa o mar Vermelho (cf. Êx 14,15-31), os israelitas entraram no deserto (cf. Êx 15,22), conduzidos pelo Espírito de Javé (cf. Is 63,13-14). Ali permaneceram duran- te quarenta anos (cf. Nm 31,13) e sofreram principalmente três tentações.

Levando em conta esses detalhes, os autores bíblicos apresentam Jesus como o novo povo de Israel, que veio subs- tituir o antigo. Por isso todos os detalhes se repetem: Jesus, depois de atravessar com prodígios as águas do Jordão, no Batismo (cf. Mt 3,13-17), adentra pelo deserto durante qua- renta dias (cf. Mt 4,1), conduzido pelo Espírito de Javé, onde teve três tentações (cf. Mt 4,1-11; Lc 4,1-13).

E por que Jesus vem substituir o antigo Israel? Porque ele havia fracassado. Toda vez que fora tentado, no deserto, tinha sido derrotado. Jesus, ao contrário, sai vitorioso destas mesmas tentações. Por isso, ele agora forma o novo povo, a nova herança de homens e pode realizar o programa liberta- dor encomendado por Deus ao antigo Israel que, por sua infidelidade, não pôde levar avante.

A tentação do deserto

Assim, conforme os evangelistas, a primeira tentação de Jesus tem como cenário o deserto. Os escritores pensam que ali, durante quarenta dias, sem comer, ele sente fome e o Tentador o incita a deixar seu plano de jejum e converter as pedras em pão.

Pois bem, o povo de Israel teve a mesma experiência.

Depois de sair da opressão do Egito e entrar na liberdade do deserto, experimentou, durante quarenta anos, uma fome

parecida. Diante da escassez de alimento o povo caiu na ten- tação. Rebelou-se contra Moisés, desejou poderes especiais para fazer aparecer alimento e até chegou a desejar voltar para a escravidão do Egito, onde se comia bem (cf. Êx 16). Muitos anos depois Moisés lhes jogaria na cara essa fraque- za, dizendo que deviam ter pensado que nem só de pão vive

o homem, mas também de tudo o que sai da boca de Javé (cf. Dt 8,3).

Mas quando sobreveio a mesma tentação a Jesus, ele negou-se a usar seus poderes especiais em benefício próprio

e recordando aquelas palavras de Moisés as apresentou ao Diabo e o derrotou.

A tentação do pináculo

O segundo encontro entre Jesus e o Diabo se deu, se- gundo Mateus, no teto de uma das galerias do Templo, sobre um precipício de mais de cem metros que dava para o vale do Cedron. Ele é convidado a jogar-se dali para o vazio, para provar que Deus sempre cuida dele e não lhe permite acontecer nada.

Também Israel havia passado por semelhante situa- ção. Na localidade de Masá, no deserto, houve falta d’água. Sabia que Javé estava com ele e nunca o havia abandonado. Mas para prová-lo e ver se era verdade que Deus não permi- tiria que nada lhe acontecesse, exigiram de Moisés que, com um sinal maravilhoso, fizesse aparecer água. Caíram na ten-

tação de usá-lo para Deus. E não obstante isto, Deus lhe fez

o milagre, nada mais (cf. Êx 17,1-7). Moisés, porém, re-

cordando esse episódio anos mais tarde, os censurou: “Não tenteis o Senhor vosso Deus como tentastes em Masá” (Dt 6,16).

Essa mesma tentação assaltava agora Jesus: jogar-se do alto, experimentando Deus, para ver se realmente estava com ele. Mas o Senhor, lembrando mais uma vez o conselho de Moisés, voltou a citá-lo ao Diabo, para vencê-lo.

A tentação da montanha

A terceira tentação se dá numa montanha altíssima, de onde, numa visão imaginária, contempla todos os reinos daquele tempo. Dessa vez Satanás vai diretamente ao as- sunto e revela-lhe o objetivo de suas tentações: abandonar o serviço exclusivo do Pai e converter-se em um adorador do Diabo, para obter melhores benefícios e mais riquezas em sua vida.