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4. Sobre o Habeas Corpus 2.

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A. Reconstrua os fatos narrados no relatório da decisão.


(Resposta A) O Habeas Corpus nº 2.794 trata de um caso em que oito intendentes
diplomados em um processo eleitoral municipal de 1909 solicitaram exercer as funções de seu
cargo sem sofrerem constrangimentos de demais autoridades federais e municipais. Isso porque,
em reunião Conselho Municipal, ocorrida vinte dias após o término do processo eleitoral, na
presença do decano e dois secretários mais moços, foram iniciados os trabalhos de verificação
dos diplomas apresentados pelos intendentes em questão em duas comissões separadas. No
entanto, o decreto do Poder Executivo n. 7.689, de 26 de novembro de 1909 declarou inexistente
o Conselho Municipal, exigindo por consequência e de forma legal a finalização dos trabalhos
da comissão. A despeito de tal decreto, os trabalhos da comissão prosseguiram e atenderam os
ritos regimentais da casa, o que compeliu os interessados a recorrerem da decisão à justiça. Na
ocasião, o habeas corpus foi concedido aos oito intendentes diplomados, sendo possível a eles
penetrar no edifício do Conselho Municipal e exercerem as funções decorrentes de seus
diplomas.

É interessante notar que nesse caso, o voto do ministro Pedro Lessa procura uma
tentativa de esclarecimento acerca do instrumento jurídico do habeas corpus. Para o ministro,
“o habeas corpus tem por função exclusiva garantir a liberdade individual, e não investir quem
quer que seja em funções políticas e administrativas”. Esse era, por exemplo, o motivo pela
qual a mesma matéria havia sido negada em sessão anterior. Na sessão em questão, no entanto,
o ministro entendia o processo em questão diferenciava-se do anterior por acreditar que “o
direito de locomoção é uma condição sine qua non do exercício de uma infinidade de direitos”.
Dessa forma, os oito diplomados não poderiam ser fisicamente impedidos de cumprirem suas
respectivas funções.

B. Em que difere o uso do habeas corpus retratado neste caso daquele que hoje predomina
em sua prática? Que ferramentas o direito atual possui que podem desempenhar o papel
que o impetrante buscava obter por meio do habeas corpus naquela época?
(Resposta B - PARTE I) O Habeas corpus que predomina hoje, na sociedade brasileira,
é utilizado para proteger o cidadão brasileiro, à liberdade de ir e vir no país. Podendo ser
requisitado quando há a ocorrência de abuso de poder, responsável por privar o indivíduo de
sua liberdade.

CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL [DE 1989].

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-
se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à
liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

LXVIII - conceder-se-á habeas corpus sempre que alguém sofrer ou se achar ameaçado
de sofrer violência ou coação em sua liberdade de locomoção, por ilegalidade ou abuso de
poder;

No caso retratado, o habeas corpus era estendido à outras situações, não se limitava
apenas à liberdade de locomoção. Esse uso extensivo deu origem a chamada “doutrina brasileira
do habeas corpus”. Tal instrumento processual foi requisitado pelos intendentes diplomados
para garantir o direito de exercerem os poderes inerentes às suas funções, de modo que
pudessem adentrar no edifício do conselho municipal sem que houvesse qualquer tipo de coação
por parte das autoridades municipais e federais que os impedissem. Durante a República velha,
promulgado pela constituição de 1891, o Habeas corpus era um artifício utilizado para assegurar
qualquer direito líquido, evitando o abuso de poder, este também era aplicado nos termos em
que hoje é utilizado o mandado de segurança.

(Resposta B - PARTE II ) Dentre as formas possíveis de se garantir o ingresso no


edifício do Conselho Municipal, a fim de exercerem os direitos aos quais foram diplomados, e
em consonância com a legislação atual (2018), está a de impetrar um mandado de segurança, o
qual, de acordo LEI Nº 12.016, DE 7 DE AGOSTO DE 2009 pode ser utilizado conforme
dispõem os seguintes artigos:

o Art. 1 Conceder-se-á mandado de segurança para proteger direito líquido e certo, não
o

amparado por habeas corpus ou habeas data, sempre que, ilegalmente ou com abuso
de poder, qualquer pessoa física ou jurídica sofrer violação ou houver justo receio de
sofrê-la por parte de autoridade, seja de que categoria for e sejam quais forem as funções
que exerça.
o Art. 22. No mandado de segurança coletivo, a sentença fará coisa julgada
limitadamente aos membros do grupo ou categoria substituídos pelo impetrante.

Tendo por base os artigos supracitados, poder-se-ia argumentar no sentido de que as


partes, nas pessoas de: Manuel Corrêa de Mello, Júlio Henrique do Carmo, Guilherme Manoel
Pereira dos Santos, Alberto de Assumpção, Manoel Joaquim Marinho, Ezequiel Faria de Souza,
Julio Francisco de Sant´anna e Ernesto Garcez Caldas Barreto, lesados e impedidos de adentrar
no referido edifício para o cumprimento das funções as quais foram delegados à fazê-las
(verificação dos poderes) em virtude de um abuso de autoridade do Poder Executivo, amparado
de certo nas disposições seguintes, advindas do decreto LEI Nº 939, DE 29 DE DEZEMBRO
DE 1902:

o Art. 3º No caso de annullação da eleição, ou em qualquer outro de força maior que prive
o Conselho Municipal de se compor ou de se reunir, o Prefeito administrará e governará
o districto, de accordo com as leis municipaes em vigor.

Ainda que baseada no artigo exposto acima, a ação de impedir a entrada dos referidos
intendentes eleitos é arbitrária, visto que não se adequa a situação enunciada pelo mesmo; não
há qualquer motivo ou previsão de anulação da eleição. Evidencia-se, portanto, que há de ambas
as partes uma disputa política vigente, da qual emergiu tanto a tentativa de adentrar no Conselho
Municipal do Distrito Federal, quanto o impedimento por parte do Poder Executivo. A
fundamentação do mandado de segurança, poder-se-á basear nos seguintes artigos da LEI
ORGÂNICA DO DISTRITO FEDERAL de 08 de junho de 1993:

o Art. 20. As pessoas jurídicas de direito público e as de direito privado, prestadoras de


serviços públicos, responderão pelos danos que seus agentes, nesta qualidade, causarem
a terceiros, assegurado o direito de regresso contra o responsável nos casos de dolo ou
culpa.
o Art. 21. É vedado discriminar ou prejudicar qualquer pessoa pelo fato de haver litigado
ou estar litigando contra os órgãos públicos do Distrito Federal, nas esferas
administrativa ou judicial. Parágrafo único. As pessoas físicas ou jurídicas que se
considerarem prejudicadas poderão requerer revisão dos atos que derem causa a
eventuais prejuízos.
o Art. 23. A administração pública é obrigada a:
I – atender a requisições judiciais nos prazos fixados pela autoridade judiciária;

II – fornecer a qualquer cidadão, no prazo máximo de dez dias úteis, independentemente


de pagamento de taxas ou emolumentos, certidão de atos, contratos, decisões ou pareceres, para
defesa de seus direitos e esclarecimento de situações de interesse pessoal ou coletivo.

Parágrafo único. A autoridade ou servidor que negar ou retardar o disposto neste artigo
incorrerá em pena de responsabilidade, excetuados os casos de comprovada impossibilidade.

o Art. 58. Cabe à Câmara Legislativa, com a sanção do Governador, não exigida esta para
o especificado no art. 60 desta Lei Orgânica, dispor sobre todas as matérias de
competência do Distrito Federal, especialmente sobre:

I – matéria tributária, observado o disposto nos arts. 145, 147, 150, 152, 155, 156 e 162
da Constituição Federal;

II – plano plurianual, diretrizes orçamentárias, orçamento anual, operações de crédito,


dívida pública e empréstimos externos a qualquer título a serem contraídos pelo Distrito
Federal;

III – criação, transformação e extinção de cargos, empregos e funções públicas, fixação


dos vencimentos ou aumento de sua remuneração;

IV – planos e programas locais de desenvolvimento econômico e social;

V – educação, saúde, previdência, habitação, cultura, ensino, desporto e segurança


pública;

VI – autorização para alienação dos bens imóveis do Distrito Federal ou cessão de


direitos reais a eles relativos, bem como recebimento, pelo Distrito Federal, de doações com
encargo, não se considerando como tais a simples destinação específica do bem;

VII – criação, estruturação e atribuições de Secretarias do Governo do Distrito Federal


e demais órgãos e entidades da administração direta e indireta;

VIII – uso do solo rural, observado o disposto nos arts. 184 a 191 da Constituição
Federal;

IX – planejamento e controle do uso, parcelamento, ocupação do solo e mudança de


destinação de áreas urbanas, observado o disposto nos arts. 182 e 183 da Constituição Federal;

X – criação, incorporação, fusão e desmembramento de Regiões Administrativas;


XI – concessão ou permissão para a exploração de serviços públicos, incluído o de
transporte coletivo;

XII – o servidor público, seu regime jurídico, provimento de cargos, estabilidade e


aposentadoria;

XIII – criação, transformação, fusão e extinção de entidades públicas do Distrito


Federal, bem como normas gerais sobre privatização das entidades de direito privado
integrantes da administração indireta;

XIV – prestação de garantia, pelo Distrito Federal, em operação de crédito contratada


por suas autarquias, fundações, empresas públicas e sociedades de economia mista;

XV – aquisição, administração, alienação, arrendamento e cessão de bens imóveis do


Distrito Federal;

XVI – transferência temporária da sede do Governo;

XVII – proteção e integração de pessoas portadoras de deficiência;

XVIII – proteção à infância, juventude e idosos;

XIX – organização do sistema local de emprego, em consonância com o sistema


nacional.

o Art. 59. Compete à Câmara Legislativa autorizar, nos limites estabelecidos pelo Senado
Federal, a celebração de operações de crédito, a realização de operações externas de
natureza financeira, bem como a concessão de qualquer garantia pelo Distrito Federal
ou por suas autarquias.

Outra possibilidade é a impetração de um Mandado de Injunção, conforme o artigo da


Constituição Federal vigente:

o Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-
se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à
vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

LXXI - conceder-se-á mandado de injunção sempre que a falta de norma


regulamentadora torne inviável o exercício dos direitos e liberdades constitucionais e das
prerrogativas inerentes à nacionalidade, à soberania e à cidadania;
Diante do exposto, pode-se observar a mudança e a ‘especialização’ de algumas
medidas e prerrogativas constitucionais para garantir que as liberdades fundamentais sejam
respeitadas e cumpridas, independentemente do cargo ou função pública que ocupe.

REFERÊNCIAS

I. BRASIL (Estado). Constituição (1988). Constituição Federal nº 139, de 05 de outubro


de 1988. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. 51. ed. Brasília,
DF, 05 out. 1988.
II. BRASIL (Estado). Lei nº 12016, de 07 de agosto de 2009. Disciplina o mandado
de segurança individual e coletivo e dá outras providências. Lei Nº 12.016, de
7 de Agosto de 2009.. Brasília, DF, 07 ago. 2009.
III. DISTRITO FEDERAL (Estado). Decreto nº 5160, de 08 de março de 1904.
Approva a consolidação das leis federaes sobre a organiação, municipal do
Districto Federal.. Decreto Nº 5.160, de 8 de Março de 1904. Rio de Janeiro,
RJ, 08 mar. 1904.
IV. DISTRITO FEDERAL. Câmara Legislativa do Distrito Federal. Câmara Legislativa.
Lei Orgânica do Distrito Federal. 1993. Disponível em:
<http://www.seplag.df.gov.br/wp-conteudo/uploads/2017/11/LODF-1.pdf>. Acesso
em: 24 out. 2018.
V. LOPES, José Reinaldo de Lima; QUEIROZ, Rafael Mafei Rabelo; ACCA,
Thiago dos Santos. Curso de história do Direito. 3. ed. São Paulo: Método,
2013. 461 p.

Componentes do Grupo: Miriã Sanchini, Daniella dos Santos, Caio Ragazzi, Maria Eduarda
Holthausen, Rafael Medeiros, Lucas Rovaris Cidade, Rodrigo Carlos Junges, Rafael Reis,
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