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CONSTRUINDO © CONCEITO DE CIDADE MEDIA! Roserto Losato Correa Universidade Federal do Rio de Janeiro Pesquisador CNPq, Este ensaio constitui uma contribuigo para a construgao de um objeto particular de estudo, a cidade média. Sua particularidade reside no pressu- posto de uma especifica combinagio entre tamanho demografico, fungoes urbanas ¢ organizagao de scu espago intra-urbano, por meio da qual pode-se conceitualizar a pequena, média ca grande cidade, assim como a metrépole. Esse pressuposto, por outro lado, alicerga o esforco de se construir teorica~ mente esse objeto de estudo, complexo e diferenciado, resultado de um pro- cesso de urbanizacdo em contextos econdmicos, politicos ¢ sociais hetcrogé- neos em um mundo desigualmente fragmentado ¢ articulado. Enquanto contribuicdo, este texto esté organizado em torno de alguns pontos para reflexéo, eximindo-se da intengio de apresentar um quadro te6rico estruturado, com conceitos ¢ mecanismos claros ¢ articulados entre si. O conhecitmento atual e as dificuldades em torno do tema exigem que seja assim, pois trata-se de discutir uma expressio vaga, aberta a miltiplos significados ¢ impregnada do idealismo que a concebe como um ideal a ser alcancado, apresentando as vantagens da pequena cidade sem ter, contudo, as desvantagens das grandes. Dos pontos que aqui sero apresentados alguns sao muito gerais e outros mais especificos, alguns necessitando estabelecer conexées mais sélidas com outros aspectos da vida econdmica, politica e so- cial, enquanto outros jd esto integrados a diversos desses aspectos. Subjacente as idéias aqui expostas est, em primeiro lugar, a rede urba- na brasileira, na qual a cidade média ¢ importante né ¢ de onde é possivel peasé-la como tal. Em segundo lugar, a rede urbana global, em relagéo a qual a cidade média pode ser vista como um né menos importante. T Texto relative & conferéncia de abertura do II Simpésio Internacional “Cidades Médias: Producio do Espaco ¢ Dinimicas Econémicas", realizado pela Universidade Federal de Uherlindia, em novembro de 2006. 23, bot gS Roberto Lobato Corréa oe AS RELACOES ENTRE TAMANHO, FUNCOES E ESPACO INTRA-URBANO Aprofundaremos o pressuposto das relagdes entre tamanho, fungdes € espaco intra-urbano. Tamanho demogréfico significa, para um mesmo contexto regional de renda ¢ padrao cultural, maior ou menor economia de escala, envolvendo a cidade e seu espaco de atuacao, possibilitando maior ou menor desenvolvimento de funcées urbanas ou atividades basi- cas, direcionadas essencialmente para fora da cidade, e de atividades nao- bésicas, voltadas exsencialmente para o consumo da propria cidade. A par- tir dessa relacao € possivel definir e identificar a pequena, média ¢ grande cidade e a metrépole. O inverso também procede. O desenvolvimento de novas funsées ur- banas, criadas por grupos locais ou regionais ou por interesses extra-regio- nais, suscita 0 aumento demogréfico e a multiplicacio de novas atividades ndo-bdsicas ou das jd existentes. A relagéo se mantém mas € possivel que tuma cidade, sob o impulso de novas fungoes passe de cidade pequena para cidade média ou desta para o status de cidade grande. O tamanho demografico tem também nitidas relag6es com as carac- teristicas do espaco intra-urbano. Para um mesmo contexto cultural, socio- econdmico, de sitio urbano, de plano urbano e de politicas publicas, sobre- tudo aquelas referentes & habitagao ¢ as migragées, a rela: fOr o tamanho demografico, maior seri a dimensio do es- 0 € itis vurbano. Em tazao das distindlas viabiliza-se, em grande parte-uma maior diviszoreconémica do espaco, submetido a um mais significativo processo de descentralizacio, origem dispersa ¢ formacio de nticleos de atividades ‘erivados de-economias de aglomeracio, distantes do centro. Mater ota manho demogrifico e mais complexas as atividades econémicas, suscitando maior fragmentacao do tecido social, mais complexa sera a projecio espacial das classes sociais e suas rages, gerando uma mais complexa divisio social do espago, com Areas sociais mais diferenciadas. IO 0 tamanho demografico ¢ mais complexas as ativi- dades econdmicas, particularmente as fungées urbanas, mais fragmentada © Por conseguinte, mais articulada seré a cidade. E neste continuum que 24 Construindo 0 conceito de cidade média vai de mintisculos nticleos de povoamento as cidades globais, que se inse- rem as cidades médias, um tipo de cidade caracterizado por uma particu- lar combinagio de tamanho demografico, funcdes urbanas ¢ organizagio de seu espaco intra-urbano. Combinagio de caracteristicas que, ressalte- se, deve ser contextualizada geograficamente. Isto significa afirmar que na construcio de um objeto de estudo qualificado como cidade média, & necessério que nao se considere isoladamente cada um dos trés pontos aqui apresentados — tamanho demogrifico, fungdes urbanas ¢ organizagio do espaco intra-urbano — mas uma particular combinacao deles. Isso tor- na a tarefa mais dificil, mas, por outro lado, permite a elaboragio de um. quadro teérico mais consistente, evidenciando a unidade da cidade como ponto funcional em uma dada rede urbana ¢ como organizacio, em outra scala, do espaco interno. TRES DIFICULDADES PARA CONCEITUACAO Conccituar cidade média implica em esforgo de abstracio, de estabe- lecer a unidade daquilo que ¢ pouco conhecido, que aparece como muito diversificado. Nao ser surpreendente, pois, se 0 conceito possivel for muito geral, de pequena validade para a compreensio da realidade. Ha varias di- ficuldades na conceituacio de cidade média. Discutiremos de modo breve trés delas referentes a0 tamanho demogréfico, considerado como o prin- cipal, e necessitio, elemento das definicdes adotadas. A primeira gira em torno do tamanho absoluto, a segunda tem como foco a escala espacial de referéncia e a terceita, o recorte temporal considerado. © tamanho demogrifico absoluto constitui primeira dificuldade. Deve ser relativizado. Duzentos mil habirantes tém sentido diferente quando se consideram, por exemplo, os Estados Unidos, a Finlandia ¢ o Uruguai, pai- ses com processos distintos de urbanizagéo, envolvendo, entre outros aspec- tos, parimetros distintos em relagao as dimensdes absolutas de suas cidades e uma relacio também distinta entre a maior ou maiores cidades e as de- mais. Em outros termos, os trés paises exibem estrururas dimensionais de suas cidades marcadas, de um lado, por um continuum de tamanhos de ci- dades que se aproxima da denominada regra da ordem-tamanho; de outro, caso do Uruguai, marcadas pela primazia ou macrocefalia urbana, na qual 25 Roberto Lobato Corméa verifica-se a auséncia de cidades de tamanho médio. Nos dois primeiros pai- ses verificou-se um processo de dispersdo relativa das atividades econémicas ¢ da populaco, enquanto no caso da primazia urbana do Uruguai, verifica- se forte concentracio espacial do processo de urbanizacio: é nesse contexto que a cidade média aparece como um possivel problema. Uma segunda dificuldade advém da escala espacial de referéncia, A cidade média deve ser pensada segundo. uma dada escala espacial, em re- lagao & qual pode adquirir sentido. Assim, Aracaju, por exemplo, pode ser concebida como cidade média na escala brasileira, mas na escala sergipana aparece como uma macrocefilica cidade. Em relacao as principais cidades de Sergipe, Proprid, Itabira, Lagarto e Estancia hé um consideravel hiato em termos de tamanho demogrifico. Isto nos encaminha para o seguinte questionamento: existe uma escala espacial para a qual é possivel pensar A terceira dificuldade aparece ao se considerar a dimensio temporal. Dado 0 rapido ¢ intenso processo de urbanizacio que se verifica por toda parte € preciso considerar que 100.000 habitantes tém significados dife- rentes quando referenciados 2 1940, 1960, 1980 ¢ 2000. Esta observagao é ‘lida tanto quando se considera o valor numérico em si, como quando é considerada uma especifica cidade e sua dinamica demogréfica. Isto nos en- caminha para a questo de que uma cidade tida como média em um passado recente, ndo seja mais assim considerada 20 ou 30 anos depois. E necessdrio, assim, qualificar a cada momento o que se entende, do ponto de vista de- mografico, por cidade média. A cidade média pode set, assim, considerada como um estado transitério. As implicagdes disso podem ser amplas para 0 estabelecimento de um conceito de cidade média, A RELEVANCIA DA DISCUSSAO Por quea cidade média torma-se um tema interessante, que tem atraido a atencio de geégrafos € ndo-gedgrafos? Qual & a relevaincia do tema? Acre: ditamos que a relevincia de qualquer tema derive da capacidade do pesqui- sador em problematizé-lo, de transformi-lo em uma questio teérica ou em- pirica, visando quer a uma acéo pratica, quer 4 compreensio de um ou mais aspectos associados & aco humana. 26 Conseruindo o conceito de cidade média Foi o proceso de urbanizacao fortemente concentrada, na Inglaterra ema Franga particularmente, que levou a uma politica de desconcentracio, visando estabelecer um equilibria relativo entre os centros da rede urbana macrocefilica, focalizada respectivamente em Londres ¢ Paris. Na Inglater- ra, ap6s a Primeira Guerra Mundial, a capital londrina nao apenas polariza- va em excesso a vida econédmica ¢ politica, como as cidades ja se apresenta- yam com sérios problemas sociais ¢ econdmicos. A idéia de desconcentragio traduz-se na intengio de alterar a estrutura po litoeradaceavemTctorpals) hérctackrder Edad fetlia, Criando novas provinclas cujas sedes seriam as a= pitais tegionais-cidades médias; podese-cizer-Na Franca, aposa Segunda — Guerra-Murndiat“Paris ¢ 0 deserte francés; €ra expresso que denunciava a macrocefalia da capital francesa, ¢ estabeleceu-se uma politica de “aména~ gement du territoire”, que reforcaria 0 papel das “metropoles d'equilibre”, cidades médias, também pode-se dizer. No Brasil, a partir de meados da década de 1960, no ambito do recém- criado sistema de planejamento que pretendia incluir a dimensio espacial nas politicas governamentais, a exemplo dos pélos de desenvolvimento ¢ das regides-programa, estabeleceu-se a nocao de “cidade de porte médio”, barreiras receptoras contra as correntes migratétias em diregio aos centros metfopolitanos. Tratava-se de uma retérica de um sistema de planejamento que, na década de 1980, foi esvaziado. No plano da academia poucos foram os esforcos feitos em torno de uma nogao esvaziada, Uma problematica referente a essa nogéo nunca foi solidamente construida, O esvaziamento politico ¢ a falta de base teérica a respeito da rede urbana podem explicar a falta de interesse que se ampliou devido a crescente énfase no estudo do espaco intra-urbano, envolvendo sobretudo 0 conhecimento dos padrées de uso da terra ¢ sua dinamica € os denominados movimentos sociai No plano académico 0 que justificatia o estudo das cidades médias? Estudos de casos sem um quadro tedrico sélido? Estudes comparativos vi- sando estabelecer padrées de semethanga ¢ diferenciacio entre dois ou mais centros? Estudo meramente exploratério, a procura de possiveis regularida- des empiricas? Bis trés motivacées que, com sentidos diferentes, poderiam originar estudos sobre as cidades médias, E possivel, com base em uma pré- problematica, criar uma problemdtica que alimente os estudos a respeito dessa tematica. Cria-se, assim, uma relevancia para o tema em tela. 27 Roberto Lobato Corréa A ORIGEM DAS CIDADES MEDIAS Como nogao ou possivel conceito, a expressio cidade média deriva de uma construgdo intelectual ¢, enquanto tal, inserida em determinado con- texto histérico € geogrdfico. Apenas a partir da segunda metade do século XIX, com a fase industrial do capitalismo, é possivel conceber a cidade mé- dia. A rede de cidades da Europa ocidental e da porgio nordeste dos Estados Unidos passa pelo duplo ¢ incenso proceso de integragio ¢ diferenciacio, a par do consideravel crescimento econdmico e demogrifico. Na integra- cio e diferenciacao demogrifica e funcional emergem centros metropolita- nos, cidades médias ¢ cristalizam-se demograficamente intimeros centros, considerados a partir de entéo como pequenas cidades. © padrio anterion caracterizado por cidades de diversos tamanhos ¢ pouco articuladas entre si, € substituido por uma rede urbana mais articulada e dotada de centros funcionalmente mais diferenciados entre si. Pode-se, entao, falar em cidades médias. E, portanto, no contexto de formagie da modema rede urbana que € possivel se estabelecer a nogéo ou o conceito de cidade média. No processo de urbanizacio diferenciada que se verifica, estabelece-se uma tensio entre, de um lado, maxima concentragao espacial de atividades produ- tivas e populacio e, de outro, maxima dispersio, refletindo a percepeao dos agentes sociais empreendedores para investir capitais lucrativamente ow criar condigées de lucros em lugares com perspectivas consideradas promissoras para as novas atividades. Tentativa e erro, mas também a forga de inércia em torno de lugares jé consolidados funcionalmente, certamente desempenharam um signi- ficativo papel nessa tensio, Nesse contexto, estabelece-se um equilibrio relativo entre concentragio e dispersio méximas, emergindo as cidades médias. Empiricamente sio os diversos contextos nacionais ¢ regionais, incluin- do os agentes sociais, seus interesses ¢ capacidade empreendedora, que de- vem ser analisados nos diferentes contextos histéricos e geogréficos. As con- dicdes, os meios e as priticas sio os ingredientes a setem analisados. As reflexes acima indicadas nos permitem formular, 4 guisa de contei- buir para o debate, alguns questionamentos. (a) Acmergéncia de cidades médias € um produto da historia de bur- guesias regionais? (b}E posstvel o aparecimento de cidades médias hoje, em um contex- to de forte e crescente concentragio de capitais? 28 Construinda 0 conceit de cidade média (© Se possivel, quais so as condig6es para seu aparecimento? (d)_ E possivel e necessirio estabelecer nova nogao ou conceito de cida~ de média hoje? ELEMENTOS PARA CONSTRUCAO DE UM QUADRO TEORICO Na construcao de um possivel quadro tedrico sobre a cidade média admi- te-se preliminarmentea necessidade de se considerar trés elementos, compreen- didos aqui como essenciais: a presenca de uma élite empreendedora, a locali- zagdo relativa e as interagées espaciais. Vejamos brevemente cada um deles. a) Aclite empreendedora Sera que uma cidade com 200.000 300.000 habitantes, por exemplo, que é essencialmente um centro portudrio ou um centro industrial, em am- bos os casos com suas atividades controladas externamente, deve set quali- ficada como cidade média? Admite-se que nao, pois ela é local de operagées como armazenagem, transformacio fisico-quimica, embarque ¢ desembar- que, assim como de atividades associadas. Nao é um local de concepgao, de tomada de decisées ¢ nem de acumulagao de capital e, nesse sentido, nao disp6e de uma elite empreendedora ¢ ativa. Admite-se que ¢ essa elite empreendedora que marca a diferenca com outras cidades com a mesma dimensio demogrifica, porque € ela que esta- belece uma relativa autonomia econémica ¢ politica numa cidade, criando interesses locais ¢ regionais, competindo em alguns setares de atividades com as grandes cidades € centros metropolitanos. Qual é a origem ¢ a natureza dessa elite? Mercantil, origindria de um pequeno comércio que prosperou? Da propriedade fundiéria rural, que migrou para outras atividades de natureza urbana? Origindria da pe- quena industria que prosperou, possibilitando o investimento em outras atividades? b) A localizagéo relativa Uma cidade média, que é também um lugar central na hierarquia re- gional, dispée de expressiva localizacio relativa, constituindo-se em foco de 29 Roberto Lobato Corréa vias de circulacio ¢ ¢fetivo né de tréfego, envolvendo pessoas, capitais, formagées e expressiva variedade e quantidade de mercadorias e servicos, E esta localizagéo uma heranca do pasado, resultado de um modo mais atrasado de circulagao, submetide & conformacio do relevo e das vias fluviais, ou ainda do movimento de avangos ¢ paradas de linhas ferrovidrias, criando “ponta de trilhos” (gateway cities), ou é parte dos empreendimentos realizados por um grupo social que, simultaneamente tornava-se elite ou reforcava essa posigio? Entender o sentido da localizacio relativa da cidade média constitui parte do esforco de construir um quadro tedrico a respeito da cidade média. <) As interacées espaciais Admite-se que a cidade média apresente interagées espaciais intensas, complexas, multidirecionais ¢ marcadas pela multiescalaridade. Mais do que isso, essas interagoes espaciais sio, em grande parte, controladas pela elite da cidade. Por meio dela, a cidade média conecta-se a rede global de cidades ¢ in- teragdes, ainda que outras interagées sejam controladas por grupos externos. As interagées espaciais de ¢ para a cidade média se realizam em duas esca- las espaciais gerais, a escala regional ¢ a escala exera-regional, seja ela nacional ou internacional. Estas interacées extra-regionais sio decisivas para a identi- ficacio de uma cidade média, distinguindo-a de uma usual capital regional. Nesse sentido, admite-se ser necessirio estabelecer as diferencas entre as inte. rages regionais ¢ extra-tegionais, assim como as conexdes entre ambas, dife- rengas associadas 4 natureza dos bens e servigos, agentes sociais ¢ mercados envolvidos. Admite-se que 0 tema das inceragdes espaciais constitua um dos mais fecundos para a construgio de um quadro tedrico sobre a cidade média, UMA TIPOLOGIA POSSIVEL Em outro texto, identificamos que as pequenas cidades brasileiras po- deriam, no final do século XX ¢ inicio do século XXI, ser vistas segundo quatro tipos, a saber: lugares cemtrais de areas agricolas prosperas, centros funcionalmente especializados, lugares de concentracio de forca de trabalho para o mundo agricola ¢ centros que vive de recursos externos como as aposentadorias de crabalhadores e/ou de remessa de fundos dos imigrantes. Serd possivel uma tipologia para as cidades médias brasileiras? 30 Construindo 0 conceito de cidade média Admitimos, de modo preliminar, esta possibilidade. Os tipos, como no caso das pequenas cidades, so tipos ideais e, naruralmente, combinacées entre eles so possiveis. Os tipos preliminares de cidades médias podem ser os seguintes: a) Lugar central, caracterizado por poderosa concentragao da oferta dos bens e servicos para uma hinterlandia regional. Neste caso, trata-se do que se convencionou denominar capital regional, foco do comércio vare- jista e de servigos diversificados, dotado de amplo alcance espacial maximo (cange). Na hierarquia urbana situa-se entre a metrépole regional, quem est4 subordinada, pois a cla recorre para procurar bens ¢ servigos superiores, ou dela advém os capitais que controlam algumas de suas atividades terciirias, € numerosos centros menores, a quem subordina por meio de suas fun centrais. Possui uma elite comercial. b) Centro de drenagem e consumo da renda fundidria. Traca-se de cida- de localizada em tradicional érea pastoril, caracterizada pela grande propric- dade rural ¢ pelo absenteismo de seus proprietézios, que residem na cidade. Também em dreas onde foi implantado um complexo agro-industrial esse tipo de cidade média emerge. Em ambos os casos a cidade apresenta signi- ficativa concentracio de atividades varejistas ¢ de prestacio de servicos que, contudo, tém como clientela principal essa elite fundidria, para quem as lo- jas de luxo, restaurantes, clubes e servicos sofisticados tém a sua razdo fun- damental de existéncia. Essas atividades sio precipuamente atividades néo- basicas e, secundariamente, fungdes centrais. Por intermédio da propriedade fundidria, este tipo de cidade média controla econdmica e politicamente im- portante espaco regional, o espago de atuacio de sua elite fundiria. ©) Centro de atividades especializadas. Este tipo de cidade média caracte- rira-se pela concencragio de atividades que geram interagaes espaciais a longas distancias, pois se trata de atividades destinadas a0 mercado nacional ou inter- nacional. As interagdes espaciais tegionais sio menos importantes. A especiali- zagio advém dos esforgos de uma elite local empreendedora que, sob condigées de competicio com outros centros, estabelecen nichos especificos de atividades que, bem sucedidas, originaram uma especializacio produtiva na induiscria ow em certos segmentos do setor terciério, A especializagio produtiva acaba cons- tituindo simbolo identitdrio da cidade ¢, possivelmente, essas atividades pas- sama ser vistas como 0 resultado de uma acéo de toda a cidade. A tipologia acima apresentada ressalta 0 papel de trés tipos de elites lo- cais, a elite comercial, a clite fundiétia e a elite empreendedora. A presenga 31 Roberto Lobato Corréa dessa elite, insistimos, ¢ crucial para a qualificagao da cidade média. Com isso afirmamos que uma cidade com 150.000 ou 300.000 habitantes, por exemplo, que seja local de concentracio de atividades controladas externa- mente, cujos capitais sejam externos, no podem ser caracterizadas como cidades médias, pois ndo possuem papel direto na gestio das atividades lo- calizadas na cidade ou em sua hinterkindia regional. Nao sio, assim, ainda que nem em todas as atividades, centros de relativamente importante acu- mulagio de capital. Neste sentido, 0 teteeiro tipo de cidade média aqui pre- liminarmente apresentado €, por exceléncia, 0 tipo que melhor descreveria. uma tipica cidade média. Entre as possiveis questées que emergem a respeito da tipologia quere mos ressaltar uma delas. A cidade média assim conceitualizada tem existén- cia real em um mundo globalizado, cada vez mais dominado por poderosas corporacées multifuncionais ¢ multilocalizadas, organizadas em redes geo- gtdficas caracterizadas por centenas de nés e milhares de articulag6es inter- nas € com outras redes? E mais, & medida que 0 processo de concentracio capitalista prossegue, nao estario as cidades médias, assim conceitualizadas, destinadas a desaparecer? Se isto for verdadeiro, questiona-se se as cidades médias nao serio marcadas por uma dada remporalidade, cujo inicio jé se deu ¢ cujo fim se anuncia? Estas so questoes para investigacio sistematica, envolvendo anélises comparativas entre os diversos centros, andlises que in- corporam 0 proceso de formacao ¢ transformagao dessas cidades. AGUISA DE CONCLUSOES Este ensaio se encerra reapresentando as quest6es que foram aponta- das em seu desenvolvimento. A partir delas e de outras a serem formuladas investigagoes referentes 3s cidades médias podem ser realizadas, contribuin- do para aprofundar a discussio a respeito desse pouco conhecido objeto de pesquisa. Acreditamos que se ha possibilidade de construir teoricamente esse objeto de conhecimento denominade cidade média, ela dependerd em grande parte de nossa capacidade de formular questées para investigacio. Seguem-se as quest6es apontadas: © — Existe uma dimensao demogrifica que, a cada momento, permite identificar a cidade média? * — Quala escala espacial adequada para se identificar a cidade média? 32 Construindo o conceito de cidade média © Constitui, cada cidade média, uma situagéo transitéria, que evo- luird a0 status de grande cidade ou que se estabilizaré? Nesse caso, © que significa a estabilidade? * Por que © estudo da cidade média € relevante tanto na esfera do planejamento como ma esfera académica? « Em que condigées € possivel, se possivel, emergirem ci dias em um contexto de forte concentracao de capital? * Como se pode caracterizar as cidades médias brasileiras em 1940, 1975 ¢ em 2005? E mais tarde, em 2020, por exemplo? © — Qual a origem da localizacao relativa da cidade média? Aproveita- mento de posigio estratégica do passado ou criagao efetiva de gru- pos locais empreendedores? * — Qual a natureza, intensidade e alcance espacial das relagbes econd- micas das cidades médias? © Qual a origem e a nacureza dos agentes sociais que viabilizam a ci- dade média? Mercantil, fundidria ou industrial? Local ou de fora? Qual o destino da cidade média? Ainda que nao discutido neste ensaio, questiona-se a respeito da organizacio do espaco intra-urbano da cidade média. © pressu- posto da conex4o entre tamanho demogréfico, fungdes urbanas ¢ espaco intra-urbano pode ser contestado. Mais do que isto, parece io incluir outros elementos que podem afetar a organi- zacio interna da cidade, a saber, entre outros, o sitio da cidade, 0 plano urbano, a natureza das atividades bésicas, a renda da popu- ago, a antigiiidade da cidade ¢ a natureza das politicas puiblicas locais. Neste sentido, o pressuposto deve ser efetivamente testa- do, Questiona-se, assim: que semelhangas e diferengas existem na organizagao do espaco intra-urbano da metrdpole ou mesmo da grande cidade ¢ da cidade média? ides mé- ser neces: Este ensaio resulta, em parte, de minhas pesquisas a respcito da rede urbana brasileira, a partir das quais elaborei intimeros textos, alguns deles reunidos em “Trajerérias Geogrificas” (Ber- rand Brasil, 1997) ¢ em “Estudos sobre a Rede Urbana” (Bertrand Brasil, 2006). A produsio demeus ex-orientandos sobre cidades pequenas e médias foi extremamente itile muito con- taibuiu para este trabalho. Menciono, particularmente, Onorina F. Ferrari, Tania M. Fresca, Lilian H. Mariano da Rocha, Joseli M. Silva, Marly Nogueira ¢ Kelly C. O. Bessa.