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I

O faminto e urgente estômago me tira para fora da cama quando o vento, frio e determinado,
rompe pela janela atacando e empurrando as cortinas para uma dança não desejada; e fico de pé,
visto uma camisa por sobre os seios miúdos, peito ossudo. Os dedos doem, estalam a eternidade
de um não-andar. As coxas doem, se afrouxam e se afirmam sobre o peso de estar levantada em
mim mesma. 'A fome. A fome. A forma. A fôrma', repito baixinho e os lábios estalam ao modo dos
dedos do pé. Os manchados lençóis poderiam ter me guardado por um tempo indefinido, e talvez
infinito - mas dei razão à fome, a escutei e lhe dei minha benção ('devora-me, mastiga-me, digere-
me e vomita-me...'). Desci as escadas como quem capota colina a baixo pela tutela de um relógio
azul, cristalino e congelado. Poderia ter bebido antes disso tudo, mas não lembro: embriagadas, as
sandálias estalavam, também ao modo dos dedos do pé, t-tc, t-tc, t-tc, dando às paredes
amareladas e aos degraus apaixonados e curvos o testemunho da distorcida existência, e quanto
mais as sandálias se faziam boca namorando o chão, mais as paredes se amarelavam. Se
esbranquiçavam. Se acinzentavam. E o vento rompia agressivo entre as vidraças, frustrado por não
serem elas as minhas viciadas cortinas roxas.

Lembro dos olhos de Tristessa a me encararem questionadores de sua capa, da estante do quarto,
antes de tropeçar no rio asfáltico da rua, tão larga quanto uma avenida. Lembro dos olhos de
Tristessa a me encararem questionadores, mas não encontram resposta em meu peito, ossudo.
Sem olhos a me verem, me calo. Poderia eu mergulhar no breu da Noite, como quem se desliga
dos olhos questionadores e se ocupa tão-somente de manter a cabeça à superfície (e olha o mar, e
patina sobre ele), mas me envolvo nela, cercada pelo negror infindável, gritantemente calada,
passiva ante o vento que se vinga da vidraça atirando meus curtos cabelos ao seu rastro quase
invisível. Esqueço dos olhos de Tristessa, a me encararem, questionadores, quando entro no
grande mercado. Vejo a fila de uma noite comum, e a preguiça me domaria quando a irritante e
artificial luz do lugar lhe revelou, mas a fome era quem me guiava, cega, cambaleante, entre as
largas estantes de coisas, vidas, sabores, sonhos tão artificiais quanto a luz, desejo,desejos baratos,
desejos caros, desejos no débito. As mãos sôfregas derrubam qualquer coisa pra comer e qualquer
coisa pra beber na cesta vermelha, emblemada pela logomarca do grande mercado do Rio
Vermelho. A fila já também tinha o meu corpo, até que me vendam por sobre a venda, donam-me
outra dona da minha existência. Meus olhos se espremem por detrás da venda e uma tinta
vermelha e quente, emblemada pela logomarca do grande desejo do meu corpo, me violenta por
dentro à velocidade da luz: diretamente dos tempos imemoriais de minhas vidas passadas, os
cabelos curtos, tingidos de preto, que não vacilam sob o mesmo vento que os meus, a quererem o
mesmo desejo meu: peito miúdo, seios ossudos, eu os vejo em minha colérica torrente de
vontade. Seu nome eu não lembrava, de propósito. Trancara-o num porão inexistente no prédio de
onde saíra. Inexistente, mas de contornos sólidos e de eficácia que eu creditava. Bach cantava sua
voz feminina e agonizante quando, depois de empurrada pela parte da fila logo atrás de mim, me
dei conta de que outro abraçava, entre risos que não me chegavam, o corpo do meu Desejo. E
brincava com as pintinhas de seu pescoço como eu mesma fizera (se o fiz caída em meu sono, não
posso assegurar - os tempos imemoriais faziam isso às visões, roubavam e davam o solo,
indistinguível). Eu lembrava do rapaz que lhe roubava os sorrisos de um show no Dubliners que fui
outra vez, era o guitarrista de uma banda mais ou menos famosa na cidade. De novo um alto,
cabeludo, extrovertido e conhecido guitarrista.

O coração socava-me as costelas, a fila socava-me as costas. Teu pausado andar, até a entediada e
cansada atendente do caixa contabilizar teu engarrafado ouro gelado, magnetiza a minha atenção
com a absoluta e tirana força de um ímã de dimensões planetárias. Olho a tua bunda pequena e
sinto uma saudade terrível de apertá-la. Olho teus longos dedos e sinto uma saudade temível de
ser tocada. Olho o teu pescoço e sinto uma saudade perigosa de mordê-lo e beijá-lo. Olho teu
engraçado nariz saindo pela porta do grande mercado, e sinto uma saudade inconsolável do calor
que me provocava ao respirar deitado sobre meu ombro. De novo olho teu tronco, já a sumir na
esquina, e em um súbito lampejo percebo que teus seios são lindos e escassos, mas teu peito não
é ossudo nem faminto, nem cadavérico, como o meu. Ele canta através da sua divertida voz como
o estômago de alguém que comeu até não poder mais - e essa dor é um prazer inebriante e
satisfeito. E então, o grande e surdo vazio de um grande e cheio mercado do Rio Vermelho,
transitado por toda a horda de carros que atravessa a Orla por um quase engarrafamento, Boa
noite, Boa noite, Mais alguma coisa?, Não, obrigado.

E volto para casa, assombrada por um fantasma de cabelos tingidos de preto que não enxergo e
não toco, para Kerouac me falar dos olhos de Tristessa. Olhos que me veem, mas que não vejo.
Não escuto. Não vejo. Para que incansavelmente me afogue no tédio da tosca tentativa de te
esquecer ou te encontrar em outros corpos, corpos que nunca me bastarão para além da
necessidade absurda da desilusão – [uma confirmação previsível, mas parte essencial do fosco
espetáculo do circo do Desejo. O ciclo segue sem lombadas. Só ladeiras e curvas extremas em meu
viver labiríntico, nos contornos cegos da minha fome. E me escondo atrás da densa e amarga
neblina do Trevo, gozando todos os meus discos, esquecendo eternamente de que são os discos
que você goza enquanto ouve. Lendo todos os autores sem lembrar que os leio como se fossem
meus, mas são seus. Visitando, solitária, no dia seguinte, todos os bares de Amaralina, sorvendo
todos os goles de aguardente sem coragem para lembrar que tu gostas de cerveja mais do que de
pinga.
II

In the desert

I saw a creature, naked, bestial,

Who, squatting upon the ground,

Held his heart in his hands,

And ate of it.

I said, "is it good, friend?"

"It is bitter—bitter", he answered;

"But I like it

Because it is bitter,

And because it is my heart.”

- Stephen Crane

Um frágil raio do sol. Um rosto pendendo ao chão (enegrecido pela fisionomia. Instabilizado pelos
olhos perdidos - pouco úmidos, talvez - e inquieto por sua busca sem nome, seu hábito sem
tempo, seu mergulho sem memória da superfície e sem um horizonte expondo um fundo, um
término. Um repouso). Virava o rosto para aqui, para lá, quando se desprendia de um pensamento
aleatório e vago para outro. Via a poltrona, via a porta e a grama à sua saída, via as estantes, a
cômoda; o chão empoeirado. O teto poderia se mostrar uma próspera colônia de aranhas, com
teias que pareciam imitar uma metrópole e transeuntes tão ocupados quanto os habitantes de
uma, mas seus olhos não percebiam apesar de ver. A sua pele se aquecia com a luz a entrar pela
larga janela, vinda das estrelas agonizantes, mas essa assimilação não lhe chegava. Em momentos
como esse (o que corresponde à maioria dos que tinha), a consciência de Augusto era um aquário
de vidro opaco, desanexado do mundo exterior. Andava de um lado para outro, (passos lentos,
passos acelerados; não-passos) e, sim!, esbarrava em alguma coisa, um copo fendido no chão, um
quadro balançado, uma joelhada na mesa, mas o que lhe vinha como reação era um impulso
inconsciente, instintivo. Seus olhos olhavam os cacos, o balançar da tela, o joelho se avermelhar,
mas era um instante não alcançado por si mesmo. Era o corpo se movendo, as órbitas girando e se
contraindo ao toque etéreo do sol. Eram os olhos do corpo, não os olhos de Augusto: tremulando e
flutuando no precipício que era o seu espírito.

Gotas de suor se atreveram a uma correria pela sua testa antes que finalmente passasse as mãos
em ambos os lados do rosto, comprimindo e esfregando sem pressa. Os dedos passeavam sobre
seus lábios quando, desta vez, foi ele o autor de um atrevimento. Essa queda sua, - o vento a
rasgar rosto, o vento a beijar o rosto - não era inteiramente o seu amor, apesar de ser seu lar há
mais tempo do seria capaz de lembrar, com sua estragada mente. Era verdade, havia uma espécie
de conforto: fruto da familiaridade. Sua perturbação era a sua casa, porque o abrigava, era a sua
mãe, porque o acolhia, era o seu pai, porque o batia. Era o seu teto, era os braços que o envolviam,
o tapa que lhe traía (amor e ódio, próximos demais para não se confundirem vez ou outra).
Entretanto, não era esse conflito oceânico a afogá-lo a totalidade da sua existência, as fronteiras
invioláveis do país que era Augusto. Ele não podia perceber o que estava ao seu alcance, isto é
certo e já foi dito, mas, como bom manquitola que era, ainda tropeçava nas coisas, as derrubava -
e as coisas o encontravam. O que restou do vidro de um copo feriu-lhe o pé e tingia com certa
intensidade e constância a madeira do chão da casa, o quadro permanecia torto até que, em uma
experiência mais amena de si mesmo, ele o note torto com todas as consequências de uma
perspectiva assim. E o joelho não hesitava em conservar-se roxo por um tempo considerável. Esse
é o destino dos que andam sozinhos e vendados. Esbarrar-se, ferir-se, descobrir coisas estranhas e
vagar oscilando em sua desajeitada dança do caos.

Foi desse jeito que as coisas aconteceram há meses atrás. Um homem velho (muito velho, muitas
rugas, arrependimentos e sorrisos amargos e vazios) lhe fizera uma proposta inusitada como
pagamento pelos reparos no seu carro, um Chevette azul (era azul ou era cinza? Enfim, um pedaço
de lata qualquer dos anos 70): um bom e caro violino. Não há dúvida de que Augusto não seria
capaz de distinguir um bom e caro violino de um ruim e barato - ele não entendia de música, a
ouvia e seu peito fervia quando nesses momentos (repousado na poltrona ou no frio soalho da
sala), e o velho compreendeu isso quando o já meio grisalho mecânico meneou a cabeça em
negação instantaneamente (já impaciente, prevendo mais um caloteiro esperto e abusivo), e assim
nunca por julgamento prévio ele firmaria um trato desses. Mas, pois não?, o velho era um maroto.
Com a mesma paciência e inevitabilidade com que as rugas lhe brotaram no corpo ao longo de um
eterno tempo, ele usava sua sagacidade para desnudar o espírito de uma pessoa. Tinha trejeitos
infantis, beirando o descompromisso da senilidade. E lá estava, por detrás do vidro, por detrás da
carne, das vistas do mecânico. Lá estava, dor, agonia, tormento e solidão - além do tato sutil com
que executava suas tarefas (às vezes observava quieto a janela transpirar e as gotas se juntarem
para caírem como uma só - e o velho via isso tudo) e se desconversava dos desavisados tagarelas:
lá estavam, todos os ingredientes de uma alma sensível, ainda que de comportamento arisco e
agressivo; os ingredientes de uma tragédia pintada e talvez de um berro empíreo. Essa foi sua
jogada. Esboçou um sorriso contido por detrás do denso bigode, os músculos da face escondidos
na barba, quando teve calma até tirar do banco de trás do carro o instrumento e, sem mais
nenhuma palavra, tocou do começo ao fim uma sonata de Shostakovich (opus cento e trinta e
quatro). Mais de três dezenas de minutos transcorreram, e a posição que Augusto tinha se posto
no primeiro soar de uma nota perdurava, intacta. Os músculos da testa frouxos - aliás, todo o
semblante era solto, e assim, aquele rosto poderia parecer o mais pesado retrato da indiferença.
Súbitos gritos estridentes, gemidos estrídulos e vácuos que o absorviam com a fatalidade de um
buraco negro, era tudo que passou pela sua cabeça durante o tempo em que o velho, apoiando o
instrumento no pescoço, prosseguia em seu empenho como um encantador faz com as cobras. Ao
fim da longa exibição, baixou os braços ao lado do corpo e não disse mais nada. O mecânico o
olhou nos olhos e tomou o violino de suas mãos antes de passar o resto da noite trabalhando no
automóvel.

Agora, abrindo uma gaveta na sala de sua casa, talvez mal fosse capaz de se recordar do "homem
da proposta inusitada". Em pé, por sobre um imenso tapete cinza, ele não via: sentia o resultado
dos dedos a correrem sobre as cordas. Não recordava o bigode, o Chevette (que cor era mesmo?)
ou o contido sorriso de um indivíduo ousado, mas a música, oh... As paredes eram testemunhas,
era a mesma tocada há tempos atrás na oficina. A mesma destreza, a mesma aflição.

III

Cinzeiro, transcendência depois de consumido

Acordei de um coma depois de ter sofrido um grave acidente. E pra acrescentar, enquanto ainda
estava de cama, também me abateu uma severa doença. A primeira sensação foi de fome. Da
pouca força que tive, me levantei pra olhar em volta (como fazem os que retornam dessa
condição), na tentativa de me situar. Tive a desagradável visão do meu estado físico: costelas a
contar, a barriga e o restante do corpo magros feito caveira, marcados por decrepitudes por todo
canto. Nesse meio tempo em que ergui o corpo, senti pingar uma gota d’água próximo à minha
mão. Olhei o teto e medi a goteira que dava exatamente para a minha boca quando deitado na
posição de agora há pouco, provavelmente matava a sede do meu corpo quando chovia e formava
poças no teto de seiláonde.
Como de moda em meus despertares avulsos, o chão era só poeira e papéis (devia estar
escrevendo freneticamente antes de desmaiar, já atingido pelos delírios da febre alta) e a Lua mais
parecia um farol dando direto pra janela do quarto. Minha barba já daquele tamanho alertava para
uma estimativa de quanto tempo passei ali, mas ignorei as contas, que de qualquer forma me
seriam inúteis, para sair em busca de alimento. Os braços, que mais pareciam gravetos,
arrastaram-me até próximo ao colchão no canto do quarto. Em cima, achei Saramago, que quase
mastiguei, hesitando antes de avançar em Sartre. À proporção que meus olhos se acostumavam a
buscar por foco depois de tempos fechados, as palavras no livro à minha frente ganhavam forma e
significado e uma sonata para piano atingia força gradativa, de forma suave e educada, simpática e
graciosa com aquele que acabara de despertar, norteado por uma acentuada desnutrição, pelo
desgaste de uma alma que parou e não teve sua fome saciada, ganhando espaço e volume ao
poucos em mesma escala que as notas avançavam pela música depois do vagaroso início, como
quem se acostuma com o despertar de um longo sono, soando outra vez depois da pausa.
"Myaskovsky". Tinha pensado depois de ter parado a leitura, reconhecendo dentro de mim a
partitura daquela melodia, que tanto custara para resgatar em minha deteriorada cabeça. Procurei
a fonte da melodia. De início tinha julgado que ecoava de meu peito (e me pareceu que assim se
sucedeu primeiramente, depois é que mudou-se). Mas interrompi o raciocínio e migrei minha
atenção para uma cena próxima a mim: as palavras rabiscadas que formavam um texto pequeno
na parede já meio amarelada saltaram, ou melhor, flutuaram (na certa pra não assustar o pobre
coitado que tinha recobrado a consciência havia pouco) e fundiram-se ao corpo caquético sentado
ali. Fluíram dos pés à cabeça enquanto a harmonia da música fazia o caminho inverso, da cabeça
aos pés, até retornarem e unirem-se em redemoinho entre o abdômen e o tórax. A melodia voltou
a se originar de dentro de mim, na barriga, ecoando pelo quarto. As palavras foram juntas para
fora do corpo. Primeiro era fuligem, depois, retornando à parede em frente a mim, é que
ganharam densidade e, lentamente, se tingiram na parede.

Fome, dúvida e dores sanados pelo turbilhão que tinha me atingido, levantei com todo o cuidado,
ainda um pouco tonto. Pousei o livro na janela, murmurando os dizeres de suas páginas que
dialogavam com minhas memórias, que agora retornavam pouco a pouco. Entretanto, de súbito
me senti mal.Tive de me encostar na parede com firmeza para não sucumbir. Uma dor úlcera
devorava minha barriga, e outra dor nos pés me dilacerava por dentro, subindo até o tronco,
consumindo meu peito. Fazendo-me agonizar terrivelmente. Sentia que meus olhos iam estourar.
Fiquei ofegante, e temeroso, quando entendi a causa do mal estar. Eram as memórias. As
reflexões. A noção do castigo a que me sentenciei. As escolhas que tinha feito. As recusas. A
covardia de ser eu mesmo. A falta de credulidade na integridade do meu espírito. O hesitar em
abandonar meus defeitos, e os vícios e manias inúteis, que, bem na superfície (e não bem no
fundo), eu sabia que não me agradavam, satisfaziam, ou sequer verdadeiramente faziam parte de
mim; o menosprezo da minha consciência, que sussurrava em meus ouvidos a pusilanimidade que
eu tinha em assumir a verdadeira maioridade, a do espírito. O hesitar em alimentar as minhas
ideias, dar forma aos meus pensamentos, concretizar o que já sabia eras antes; abandonar as
minhas desvirtudes, dar vida aos meus planos e tramas. Mas, mesmo quando o tormento das
dores convulsivas tinha passado, nada rondava minha cabeça. Gritei por palavras. Textos. Frases.
Raciocínios; um haikai que fosse. Mas tudo que surgia eram sentimentos inomináveis, que não
saíam de mim nunca. Que não me levavam a lugar algum. Ecos do passado, irmão bastardo do
presente.

A ideia me caiu como uma bomba atômica em oceano. Escrever sempre tornou fácil selecionar
palavra por palavra mergulhada no mar de feelings que corriam em mim.

Tive a mística impressão de que todo esse tempo away foi um contramovimento; um soco em
joãoteimoso. O carregar de uma catapulta. Toda vez que optei por errar, crescia em mim,
involuntariamente, o efeito contrário: uma carga positiva. Um tiro na direção oposta. Gota-pós-
gota em um copo, até transbordar. A vontade, a necessidade e a urgência de não mais ficar com
um pé atrás ante o óbvio e virar-se para caminhar na direção inversa, de seguir até o núcleo da
autoidentidade, parar com a frescura de ter medo de pisar em espinhos, foi inevitável, e emergiu.

Minha mão, e logo em seguida o braço e um pedaço dos ombros, transmutaram-se em uma cor
preta de intensidade semelhante a de um pneu. Saltei em direção à parede, tocando-a com a
ponta dos dedos, moldando o primeiro verso. O restante do meu corpo, que também tornou-se
tinta, compôs as demais linhas do texto intitulado "Eu".

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