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UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

INSTITUTO DE ESTUDOS SOCIAIS E POLÍTICOS

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SOCIOLOGIA

TRABALHO APRESENTADO NA DISCIPLINA ESTUDOS EXEMPLARES

RESENHA DE “ORIENTALISMO: O ORIENTE COMO INVENÇÃO DO


OCIDENTE”, DE EDWARD W. SAID

LEONARDO NÓBREGA DA SILVA

RIO DE JANEIRO/2014
Resenha de “Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente”, De Edward W.
Said

Leonardo Nóbrega da Silva

Nascido em Jerusalém, Edward W. Said (1935-2003) educou-se no Cairo, em


escolas anglicanas, e foi enviado posteriormente para os Estados Unidos, onde
completou sua formação e ingressou como docente na universidade de Columbia,
ensinando Inglês e Literatura Comparada. Ativista político defensor da causa palestina e
intelectual comprometido com questões que envolviam o mundo árabe, Said teve seu
nome associado ao surgimento do que se convencionou chamar estudos pós-coloniais.
Seu livro mais conhecido, Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente,
publicado em 1978, suscitou amplo debate e questões que ainda são bastante atuais.

Said cunha o termo “Orientalismo” para dar conta de abarcar toda a produção de
conhecimento, em diversas áreas, sobre o Oriente1, principalmente a partir do final do
século XVIII. Sua argumentação central, e exposta aqui de forma resumida, é de que o
Oriente, tal qual visto em romances, poesias, estudos históricos, compêndios sobre
política e religião, cartilhas, etc., sobretudo pelos principais países colonialistas
modernos, quais sejam, o Reino Unido, a França e, posteriormente, os Estados Unidos2,
é uma invenção do Ocidente. Diante da centralidade do processo de descolonização
assumida após a Segunda Guerra Mundial, cujo uma das demandas principais era (e
ainda é) a autodeterminação dos povos, o estudo de Said vem na esteira daqueles que
passam a questionar os processos de colonização e as raízes deixadas nas mais diversas
esferas da vida.

1
Por Oriente, Said entende, neste estudo, basicamente o que se conheceu como Oriente Próximo (por
referência a proximidade com a Europa ocidental), principalmente os países árabes com forte influência
do Islã, estendendo-se, entretanto, algumas vezes, a países como a Índia. De qualquer forma, exclui desta
análise qualquer referência a China, ao Japão ou a Coreia.
2
Said reconhece a existência de outros países irradiadores de conhecimento sobre o Oriente, tais como
Itália, Rússia, Alemanha, Espanha, Portugal, dentre outros.

2
O termo Orientalismo, tal qual elaborado por Said, abarca três sentidos: (a)
acadêmico, no que diz respeito a toda produção acadêmica produzida sobre o Oriente3;
(b) ontológica e epistemológica, cujo contexto mais amplo dá conta da criação do termo
Oriente em oposição ao Ocidente; e (c) de dominação, já que o conhecimento produzido
sobre o Oriente, diz ele, serve, como um “estilo ocidental para dominar, reestruturar e
ter autoridade sobre o Oriente” (SAID, 2007: 29).

Este último sentido do Orientalismo, o de dominação, é fundamental na


argumentação do autor, e revela as bases em que seu trabalho se insere. O conceito
fundamental que faz funcionar a argumentação de Said é o conceito de “discurso como
poder”, de Michel Foucault. Diz Said que “sem examinar o Orientalismo como um
discurso, não se pode compreender a disciplina extremamente sistemática por meio da
qual a cultura europeia foi capaz de manejar – e até produzir – o Oriente (...) durante o
período pós-Iluminismo” (Ibidem).

O pensamento de Foucault, marcadamente no que diz respeito a noção de


“discurso como poder”, está vinculado a produção do pensamento cunhado como pós-
estruturalista. Como parte de uma revisão do estruturalismo, de vertente francesa, o pós-
estruturalismo questiona a existência da uma verdade que estaria escondida sob
estruturas aparentemente fragmentadas, instaurando uma crítica ao pensamento
universalizante, de tal modo que se deve desconfiar de qualquer discurso que aparente
ser desinteressado.

Said deixa claro que seu objetivo é mostrar que o Oriente, tal qual se conhece, é
uma construção histórica feita em oposição ao Ocidente, e que tal construção está
baseada num jogo de forças políticas, ou melhor, numa configuração de poder. Tal
configuração de poder se dá com o predomínio de determinadas formas culturais sobre
outras. Este aspecto, como sugere Said, é mais bem entendido com o conceito de
hegemonia de Antonio Gramsci: “é a hegemonia, ou antes, o resultado da hegemonia
cultural em ação, que dá ao Orientalismo a durabilidade e a força de que tenho falado
até o momento” (p. 34), diz ele.

No cerne da argumentação de Said, como se pode notar pela centralidade dos


conceitos de discurso e hegemonia, está uma crítica ferrenha à noção de verdade, crítica

3
“Falar da especialização erudita como um “campo” geográfico é, no caso do Orientalismo, bastante
revelador, porque não é provável que alguém imagine um campo simétrico chamado Ocidentalismo” (p.
86).

3
esta que se estende a todo arcabouço racional cientificista. Um autor nunca é imparcial
na delimitação de seu tema, e sua primeira aproximação é sempre marcada por visões
historicamente construídas sobre o objeto, no caso específico em tela, o Oriente.

Apesar de considerar a existência de um “Oriente real”, que abarcaria a


diversidade de culturas a leste da linha imaginária do globo terrestre, e que nem tudo o
que se disse sobre esse Oriente é em si pura ficção, o Orientalismo é visto, pelo autor,
em sua exterioridade, como um conjunto unívoco, mas que abarca uma infinidade de
dizeres diferentes e até oposto entre si. Não importa tanto as especificidades de cada
conhecimento produzido, mas o que ele traz de exterior e que, em sua superfície, tem as
mesmas consequências. Ele argumenta que é importante insistir na característica de
exterioridade para que fique bem claro, “sobre o discurso e o intercâmbio cultural
dentro de uma cultura, que aquilo que comumente circula não é a “verdade”, mas uma
representação” (p. 52).

Chegamos aqui num ponto fundamental: a noção de verdade como


representação, de origem nietzschiana, perpassa a corrente pós-estruturalista e tem total
influencia na construção argumentativa da crítica pós-colonialista (ou anticolonialista)
de Said4. Como notamos, a crítica de Said se volta a uma construção do Oriente na
forma de um discurso hegemônico que se desdobra em configurações de poder que tem
como consequência a dominação. Como ele deixa claro, seu objetivo “é ilustrar a
formidável estrutura de dominação cultural e, especificamente para os povos outrora
colonizados, os perigos e as tentações de empregar essa estrutura em si mesmos e em
outros” (p. 56). Tal fato é perceptível, e é difícil negar que tais configurações de poder
presentes na construção de conhecimento tenham efeitos de dominação. O problema de
tal argumentação consiste, entretanto, na homogeneização das práticas discursivas e na
deslegitimização (ou, pelo menos, na ferrenha desconfiança) da possibilidade de
conhecimento objetivo/científico.

Ao analisar, no primeiro capítulo, o alcance do orientalismo, o autor estabelece


as bases do conhecimento ocidental sobre o Oriente, avaliando que “ter esse
conhecimento de tal objeto é dominá-lo, ter autoridade sobre ele. E a autoridade nesse
4
“Para qualquer europeu no decorrer do século XIX (...) o Orientalismo era esse sistema de verdades,
verdades no sentido que Nietzsche dava à palavra. É portanto correto dizer que todo europeu, no que
podia falar sobre o Oriente, era consequentemente um racista, um imperialista e um etnocêntrico quase
por inteiro. (...). A minha afirmação é que o Orientalismo é, no fundamental, uma doutrina política,
imposta ao Oriente porque esse era mais fraco que o Ocidente, que elidia a diferença do Oriente com a
sua fraqueza” p. 277.

4
ponto significa que “nós” devemos negar autonomia a “ele” - o país oriental – porque o
conhecemos e ele existe, num certo sentido, assim como o conhecemos” (p. 63).
Diferente do conhecimento pré-moderno produzido sobre o Oriente, o que se institui
chamar Orientalismo tem seu princípio histórico estabelecido com a “invasão
napoleônica do Egito em 1798, uma invasão que foi de muitas maneiras o modelo de
uma apropriação verdadeiramente científica de uma cultura por outra na aparência mais
forte” (p. 76), marcando, segundo o autor, as perspectivas culturais e políticas
contemporâneas da relação entre Oriente e Ocidente.

A relação entre conhecimento e geografia toma proporções reveladoras,


impondo-se a uma diversidade de culturas a estreiteza de um campo erudito. Com isso
Said não pretende negar a possibilidade do que ele chama de um “conhecimento
positivo”, mas alertar que, a despeito da produção “positiva” do conhecimento, não se
conhece tudo o que há para conhecer e, mais importante, que esse conhecimento não
“dissipou o conhecimento imaginativo geográfico e histórico” (p. 93) a que se tem
referido.

A consideração do Orientalismo como um corpus, um campo erudito fechado


em si mesmo e autorreferente, destitui-o, em sua exterioridade, de bases empíricas. O
Orientalismo se estabelece, portanto, como um conjunto de textos sobre o Oriente,
textos estes que se tornam referência para a produção de outros textos e de práticas
políticas. É dessa forma que o Orientalismo pode ser também entendido como um
projeto. Como afirma Said, na base da invasão napoleônica ao Egito está um
“conhecimento” prévio e que tanto legitimava quanto possibilitava tal domínio.

“A idéia que estou tentando expressar é que ocorreu a transição de uma


apreensão, formulação ou definição meramente textual do Oriente para
o ato de pôr tudo isso em prática no Oriente, e que o Orientalismo teve
muito a ver com essa transição disparatada (...). No que diz respeito ao
seu trabalho estritamente erudito (...), o Orientalismo realizou muitas
coisas. (...). No entanto – e neste ponde devemos ser muito claros -, o
Orientalismo atropelou o Oriente. Como um sistema de pensamento
sobre o Oriente, sempre partiu do detalhe específico para a afirmação
geral (...)” (p. 145).

Diante da relação explicitada por Said entre conhecimento e dominação, é a


partir do declínio do imperialismo no século XX, e marcadamente após a Segunda
Guerra Mundial, que o Orientalismo entre em crise e passa a ser questionado. Dentro

5
dessa nova perspectiva de estudos, propõe o autor que “investigar o Orientalismo é
também propor modos intelectuais de lidar com os problemas metodológicos que a
história apresentou, por assim dizer, no seu tema de estudo, o Oriente” (p. 163).

Se, como propõe Said, a investigação do Orientalismo apresenta novos


problemas metodológicos para os estudos nas ciências humanas, nota-se também que
uma melhor compreensão daquilo que compõe o Orientalismo (não em sua
exterioridade, como propõe o autor, mas em seus questionamentos profundos) poderia
revelar tensões em tal discurso. Na divisão entre Orientalismo latente e Orientalismo
manifesto, Sai aponta para uma tentativa de complexicação do seu argumento.

“A distinção que estou fazendo é realmente entre uma posição quase


inconsciente (e com certeza intangível), que chamarei de Orientalismo
latente, e as várias visões declaradas sobre sociedade, línguas,
literaturas, história, sociologia orientais e outros tópicos afins, que
chamarei de Orientalismo manifesto. Qualquer mudança que ocorra no
conhecimento do Oriente é encontrada quase que apenas no
Orientalismo manifesto; a unanimidade, a estabilidade e a durabilidade
do Orientalismo latente são mais ou menos constantes” p. 279.

A latência do Orientalismo, aquilo que perpassa a sociedade em seus discursos,


apesar de intangível, revelaria o que há de mais conservador, enquanto a manifestação
estrita do Orientalismo, o próprio corpus de análise do estudo de Said, possibilitaria
mudanças discursivas e questionamentos internos. Essa divisão mostra que o autor está
consciente dos problemas que acarreta o estudo do Orientalismo em sua exterioridade,
como uma construção discursiva e de dominação do Oriente.

O debate do conhecimento como afirmação de poder perpassou as ciências


sociais, rendendo discussões acaloradas e, em grande medida, trouxe construções
fundamentais para repensar o papel do conhecimento na sociedade. Dessa forma,
entendo que tanto a crítica pós-estruturalista ao logocentrismo quanto à crítica pós-
colonialista à produção de conhecimento como manifestação de poder, são positivas
como formas de complexificar o debate de ideias. Porém, em suas consequências mais
pessimistas, tentam deslegitimar a produção de conhecimento cientifico, rebaixando
tudo a meras práticas discursivas

A argumentação de Said tem o mérito de trazer para o campo das idéias a


dimensão de dominação e opressão inerentes ao movimento imperialista pelo menos nos

6
últimos dois séculos. A homogeneização e exterioridade do seu argumento, entretanto,
impossibilitam a compreensão que muitos dos discursos elaborados sobre o que ele
chama de Oriente tencionavam a própria construção homogeneizante e redutora deste
discurso, como, por exemplo, na centralidade da noção de alteridade cara à
antropologia5. Deve-se, portanto, ter uma apropriação atenta das idéias de Said, mas não
deixando de reconhecer a importância de sua argumentação e a centralidade que tem no
debate pós-colonial, fundamental para a construção crítica do conhecimento científico.

SAID, Edward. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. Tradução


Rosaura Eichenberg. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

5
No pósfacio a edição de 1995, Said rebate algumas das críticas que foram feitas ao seu estudo, dentre
elas o suposto essencialismo e antiocidentalismo, críticas estas que rejeita veementemente. Outra crítica
central é sobre a suposta impossibilidade da construção de um conhecimento que não corrobore com o
imperialismo. Sobre isso ele afirma: “Em suma, é possível estudar a relação entre Orientalismo islâmico
ou árabe e a cultura européia moderna sem, ao mesmo tempo, associar todo orientalista, toda tradição
orientalista ou tudo que já foi escrito por orientalistas a um imperialismo apodrecido e sem valor. De
qualquer modo, nunca fiz tal coisa. É ignorância dizer que o Orientalismo é uma conspiração ou sugerir
que o “Ocidente” é mau (...). Por outro lado, é hipócrita suprimir os contextos culturais, políticos,
ideológicos e institucionais em que pessoas escrevem, pensam e falam sobre o Oriente, quer sejam
eruditos, quer não” (p. 458).

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