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Os efeitos da repressão social sobre a saúde Psíquica feminina No século XIX

Os fundamentos da Psicanálise foram lançados por Freud em um período que


compreende a transição entre os séculos XIX e XX . O contexto histórico que
compunha o plano de fundo da sociedade européia deste período, muito
marcado pelos dogmas religiosos da cristandade, exigia das mulheres uma
conduta moral que beirava a beatitude, sendo estas impelidas, sob pena de
vituperação pública, a recalcar sua pulsão sexual, sob um viés muito marcado
pela culpa e pelo medo da ira social e divina.

A singularidade acima exposta está diretamente ligada ao surto de histeria


registrado no período. Tal fato vem corroborado pela eminente maioria dos
casos da doença ser manifestado nos indivíduos do sexo feminino, a própria
etimologia da palavra histeria do grego ὑστέρα [hustérā} , "útero" reflete a
crença que o referido mal decorria de distúrbios na energia vital uterina, que
afetaria outras partes do corpo.

Ademais o próprio Freud teve de empenhar certo esforço para apresentar em


uma de suas explanações um caso de histeria em indivíduo do sexo masculino.
Outro fato crucial que reforça a premissa exordial é a redução dos casos de
histeria em proporção inversamente proporcional às conquistas sociais de
femininas, ou seja, quanto mais as mulheres eram livres da opressão
sociocultural, sumariamente machista, menos eram afligidas pelos sintomas da
histeria.

A hipótese apresentada nos leva a atribuir às mulheres um papel central na


concepção e desenvolvimento da psicanálise, senão vejamos, não obstante tal
ciência ter sido evidentemente fruto da genialidade de um homem, este contou
como objeto de estudo inicial uma psicose, a histeria, que flagelou
eminentemente o sexo oposto.

Destaca-se também o papel de Anna O.; uma paciente muito singular detentora
de atributos cognitivos que, como reconhecido pelo próprio pai da psicanálise,
contribuiu de forma muito relevante para composição das metodologias clínicas
de Freud.

Em um meio fortemente marcado pela dominação masculina em que todas as


produções acadêmicas relegavam às mulheres uma posição de inferioridade
em todos os aspectos, inclusive biológico, a simples constatação do
acometimento de histeria em homens por si só representou uma importante
quebra de paradigma.

Os estudos de Freud sobre a histeria correlacionam a repressão dos


chamados "Afetos " à seus sintomas no corpo físico, o que foi denominado
conversão histérica. Ante o exposto a conexão entre a repressão imposta a
todos os indivíduos desprovidos da condição de homens e os males sofridos
pelo referido distúrbio é de clareza solar.

Deste modo é possível traçar um paralelo entre o estudo clínico sobre a


histeria, de Freud e Breuer, com o as idéias de seu contemporâneo Émile
Durkeim, que ao final do século em questão ( XIX) lançava os fundamentos de
uma nova ciência, a saber, a Sociologia.

O Fato Social de Durkeim em síntese depreende que as maneiras de agir,


pensar e sentir exercem poder coercitivo sobre o indivíduo, desta forma
podemos encarar o machismo daquela sociedade como um genuíno fato
social.

E este fato social desempenhou papel de agente adoecedor, gerando as


perfeitas condições ao desenvolvimento em massa de uma psicose sobre a
qual pouco se conhecia, tendo como efeito colateral uma chave que permitiria
abertura de um novo conhecimento científico que mudaria para sempre a forma
como se compreenderia, a partir de então, a mente humana.

A separação entre o Estado e a igreja, o desenrolar dos efeitos da Revolução


Industrial e a Revolução Francesa podem ser contados entre os fatores que
permitiram uma gradual ascensão feminina, movimento que ainda nos dias
atuais não teve seus efeitos cessados, nem se pode dizer ao certo se algum
dia se cumprirá em termos absolutos.

Certo é que as formas mais variadas de expressão, a liberdade sexual, o


reconhecimento constitucional de igualdade entre os sexos (em grande parte
do mundo civilizado)representaram não apenas um avanço social, mas
também uma ministração coletiva da cura da mente, do corpo e podemos dizer
ainda da alma, afinal,quão virtuosa é a busca pelo aperfeiçoamento em todos
os aspectos da existência humana.

Podemos concluir, ante o exposto, que a Europa do século XIX impôs um


grave comedimento à população feminina que viu-se impelida a recalcar
importantes e naturais pulsões psíquicas, que pelo processo de conversão
histérica , desenvolveu-lhes a condição da histeria.

Tais conclusões advém dos estudos clínicos de Freud e Breuer que tomaram a
histeria como objeto de estudo desenvolvendo o que viria a se tornar uma nova
ciência, a Psicanálise.

Em um paralelo entre a sociologia e a psicanálise tornou-se verdadeira a


premissa de que o machismo da cultura da época como Fato Social
representou fator de adoecimento de grande número de indivíduos.
A mitigação das causas do referido Fato social aliada aos avanços clínicos da
psicanálise, contida em uma nova forma de compreender o aparelho psíquico
humano permitiram o controle de tais vetores controlando a ocorrência da
histeria ao passo que reduzia a infame discriminação feminina.