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Halloween: e como fica a nossa cultura?

A festa norte-americana virou mania em parte das escolas brasileiras, expondo a


fragilidade do ensino sobre a cultura nacional

Meire Cavalcante

Nos Estados Unidos, comemora-se no dia 31 de outubro o Halloween, o Dia das


Bruxas. No Brasil, a data já virou uma febre na maioria das escolas da rede
particular e, em menor grau, na pública. Alunos eufóricos preparam suas
fantasias, enquanto abóboras, monstros e corpos mutilados enfeitam pátios e
salas de aula. Apesar de a adesão à festa ser crescente – inicialmente ela se
restringia às escolas de idiomas – muitos são os professores que questionam os
motivos dessa comemoração. Enquete publicada no Site do Professor mostra que
a maioria dos leitores (72%) considera que as escolas não devem comemorar a
data. Outros 25,6% vêem no Halloween uma forma de estudar a cultura norte-
americana. Os demais deixam a decisão por conta da direção.

Refletir é preciso
O comércio de fantasias e adereços, nesta semana, não teve do que se queixar. A
data registra o maior número de vendas, depois do carnaval. O apelo comercial e
a importação da cultura norte-americana levantam uma questão: por que
comemorar o Halloween no Brasil?

"O professor deve ter clareza na sua atuação. É preciso indagar o significado
dessa festa na escola", afirma a pedagoga e mestre em Ciências da Educação
Superior Marilza Suanno, da Universidade Estadual de Goiás. "A meu ver, fica a
impressão de que as escolas não estão fazendo uma leitura crítica. Elas dedicam
um tempo precioso para trabalhar uma cultura de mercado, enquanto restringem o
espaço para o estudo sério da nossa cultura", afirma.

Para Marilza, no entanto, não basta simplesmente falar aos alunos do Boitatá, do
Curupira ou do Saci. É preciso mostrar às crianças a necessidade de estudar a
história de elementos culturais como as danças, brincadeiras, festas, lendas e
canções. "O folclore é o estudo de todos os aspectos da cultura de uma região.
Precisamos instigar a garotada a pensar o que estava por trás da mente das
pessoas que criaram as lendas", sugere. "Por exemplo, se um rio é perigoso, os
mais velhos criam uma lenda de que algo existe ali para que as crianças
mantenham distância. As crendices são assim. Mostram os medos, as angústias,
os temores, a esperança e é isso que devemos estudar e valorizar na escola", diz
Marilza.

Troca desigual
Os atuais cursos de formação de professores e os Parâmetros Curriculares
Nacionais orientam o ensino com base na diversidade cultural. Para Marilza, este
é um momento muito propício para a discussão do tema. "O Halloween sem
reflexão é a mera importação de valores culturais. Mas a escola deve ser um
espaço para formar cidadãos críticos que possam desvendar a lógica da
padronização cultural. Por isso, não podemos ensinar as crianças a cultuar valores
que não são nossos", afirma.

"O intercâmbio cultural entre países deve ser equilibrado. Mas a troca do Brasil
com os Estados Unidos é desigual. Você já viu algum norte-americano
comemorando o folclore brasileiro?", questiona Wagner Vasconcelos, membro do
Movimento pela Valorização da Cultura, do Idioma e das Riquezas do Brasil (MV-
Brasil), no Rio de Janeiro. "A constituição brasileira obriga que o Estado defenda a
cultura nacional. Concessões culturais levam a concessões econômicas, que
acabam subjugando nossa nação. Os livros de história estão aí para provar", diz
Wagner.

O que fazer?
A febre do Halloween é um excelente momento de reflexão. "É preciso abordar o
assunto de forma inovadora", diz Marilza. Indo por esse caminho, o município
paulista de São Luiz do Paraitinga, a 170 quilômetros da capital, decretou o dia 31
de outubro o Dia do Saci. A medida foi uma forma de protestar contra a crescente
presença da cultura norte-americana entre as crianças da cidade. "Apesar de
questionar a legitimação da data, que nada tem a ver com o nosso folclore, acho a
idéia louvável. É um caminho. Essa cidade saiu do padrão e deu um passo para o
debate e a reflexão", assinala Marilza.

Em algumas escolas, argumenta-se que, em tempo de globalização, festejar o


Halloween é uma forma de estudar a cultura de outros países. "Julgo essa
justificativa pobre e incoerente", diz Marilza. Ela afirma que se a proposta for
incluir essa diversidade cultural no planejamento, é necessário desenvolver um
projeto sério, com o tempo e os recursos adequados, contemplando festas e
tradições de vários povos. "Os pigmeus africanos, por exemplo, fazem uma
grande festa antes da coleta do mel, produto importantíssimo na região", ensina
Marilza.

Se a sua escola aderiu ao Halloween, vale abrir a discussão com seus colegas de
trabalho. Assim, as atividades do próximo ano podem ser diferentes e mais
proveitosas para o crescimento dos alunos.

Quer saber mais?


Leia o artigo da professora Marilza Suanno "Folclore e Globalização: dá debate?"
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Conheça São Luiz do Paraitinga
Leia a reportagem sobre o Dia do Saci (somente para assinantes UOL)