Você está na página 1de 127

A AUTO-ESTIMA DO SEU FILHO

Dorothy Corkille Briggs

Material destinado às pessoas com deficiência visual, não podendo ser utilizado com fins comerciais.

Tradução

Waltensir Dutra

Revisão da tradução

Silvia Giurlani

Martins Fontes

São Paulo 2002

CONTRACAPA “Uma semana depois de minha esposa e eu decidirmos começar uma família, entramos numa livraria
e compramos dois livros sobre como educar filhos. Por uma série de razões os dois filhos só nasceram seis anos depois e
acabamos lendo não dois, mas 36 livros. Se dependesse de teoria, estávamos preparados. Hoje eles estão crescidos e
um amigo me perguntou que livros nós havíamos utilizado mais. Foi uma boa pergunta a que demorei a responder.
Usamos um livro só, um que educava mais os pais do que os filhos. Intitula-se A Auto-estima do seu Filho, de Dorothy
Briggs, e o título já diz tudo.”

Stephen Kanitz (Veja, 24.04.2000)

A tradução desta obra for publicado originalmente em português com o título “Criança - O desenvolvimento da auto-
confiança”

Título do original: YOUR CHILD SELF-ESTEEM.

Publicado por Doubleday & Company, Inc., Nova York.

Copyright © Dorothy Corkille Briggs, 1970

Copyright © 1986, Livraria Martins Fontes Editora Ltda.,

São Paulo, para a presente edição.

1ª edição abril de 1986

publicada com o título "Criança feliz - O desenvolvimento da auto-confiança"

3ª edição agosto de 2002

Tradução

WALTENSIR DUTRA

Revisão da tradução

Silvia Giurlani

Revisão gráfica

Renato da Rocha Carlos

1
Rita de Cassia Sorrocha Pereira

Produção gráfica

Geraldo Alves

Paginação/Fotolitos

Studio 3 Desenvolvimento Editorial

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Briggs, Dorothy Corkille

A auto-estima do seu filho / Dorothy Corkille Briggs : tradução Waltensir Dutra ; revisão da tradução Silvia Giurlani. -
3ª ed. - São Paulo Martins Fontes. 2002.

Título original: Your child self-esteem.

Bibliografia.

ISBN 85-336-1608-2

1. Auto-estima em crianças 2. Crianças - Criação 3. Crianças - Desenvolvimento - Psicologia infantil 4. Psicologia


infantil. I. Título.

02-3955 CDD- 155.4

Índices para catálogo sistemático:

1. Auto-estima em crianças ; Psicologia infantil 155.4

Todos os direitos desta edição para a língua portuguesa reservados à

Livraria Martins Fontes Editora Ltda.

Rua Conselheiro Ramalho, 330/340 01325-000 São Paulo SP Brasil

Tel. (11)3241.3677 Fax (11) 3105.6867

e-mail: info@martimfontes.com.br http://www.martinsfontes.com.br

ÍNDICE

Meus agradecimentos XI

A omissão de nossa cultura XIII

1. A base da saúde emocional 3

Primeira parte | O FENÔMENO DOS ESPELHOS

2. Os espelhos criam auto-imagens 11

3. A influência dos espelhos no comportamento 25

4. O preço dos espelhos deformados 31


2
5. A armadilha dos reflexos negativos 43

6. Polimento dos espelhos dos pais 51

Segunda parte | O CLIMA DO AMOR

7. O encontro autêntico 69

8. A segurança da confiança 83

9. A segurança do não-julgamento 95

10. A segurança de ser amado 103

11. A segurança de possuir sentimentos 111

12. A segurança da empatia 119

13. A segurança do crescimento individual 129

Terceira parte | SENTIMENTOS NEGATIVOS E AUTO-ESTIMA

14. Como tratar os sentimentos da criança 137

15. Como decifrar o código da raiva 161

16. Como desmascarar o ciúme 173

Quarta parte | CRESCIMENTO MENTAL. E AUTO-ESTIMA17. Motivação, inteligência e criatividade 189

Quinta parte | SEXO E AUTO-ESTIMA

18. O casamento do sexo com o amor 213

19. Conclusão 237

Relação das idéias básicas 241

Dedicado à memória de meu pai, Coronel John D. Corkille, e minha mãe, Helen Young Corkille, pelo muito que
contribuíram para a minha pessoa.

O homem deseja ser confirmado em seu ser pelo homem, e anseia por ter uma presença no ser do outro... - secreta
e timidamente, ele espera por um Sim que lhe permita ser, e que só pode vir de uma pessoa humana a outra.

Martin Buber

MEUS AGRADECIMENTOS

Se a leitura deste livro lhe for de alguma utilidade, isso não se deve apenas a mim, mas à interação com todas as
pessoas e experiências que marcaram a minha vida.

Sou particularmente grata a:

* Edward Bordin, Duane Bowen, Max Levin e Lois Southard, pelo ensinamento que me serviu de inspiração;

3
* Thomas Gordon, cujas importantes lições esclareceram minhas opiniões referentes a que a raiva era secundária, à
distinção vital entre as mensagens do "Eu" e de "Você", à manipulação do poder e à mecânica da democracia
doméstica;

* Frank Baron, S. I. Hayakawa, Abraham Maslow e Carl Rogers, por seminários e conceitos que me intrigaram;

* Tom Johnston e Sam Warren, por uma década de apoio enquanto eu trabalhava com grupos de pais;

* numerosas crianças e adultos, por me terem permitido compartilhar seus mundos particulares, o que contribuiu
para melhorar o enfoque dos conceitos examinados neste livro. Esta participação permitiu-me escrever a partir de uma
experiência pessoal profunda, e não apenas da teoria;

* Myrtle Spencer, pela segurança e inspiração, e por ter agido como "mãe" quando este livro estava ainda nas suas
fases embrionárias;

* Charles Himber, pelo apoio muito especial num momento crucial deste projeto;

XII * Tom Larson, Mary e Norman Lewis, Nancy Lichina, Judy Miller, Betty Riley, Sylvia W. Rosen, Jean Schrimmer,
Barbara Spaulding e Elsa van Vergen, da Doubleday, pelas suas reações pessoais, assistência editorial e apoio moral a
este projeto;

* Mary Baker, Karen Brown, Dorothy McAuliffe e Mary Starley, pela sua habilidade na datilografia;

* Laurie e Kerrie Sue, por me ensinarem tanto sobre a natureza humana e por terem, em numerosas ocasiões,
assumido certos encargos liberando-me para escrever.

A todos, os meus sinceros agradecimentos.

DOROTHY CORKILLE BRIGGS

Palos Verdes Península

Califórnia.

A OMISSÃO DA NOSSA CULTURA

Durante décadas os psicólogos voltaram sua atenção para a doença mental e seu tratamento. Mas desordens
psicológicas estão de tal modo difundidas, que simplesmente não há profissionais em número suficiente para tratar os
doentes. Um estudo sobre 175.000 pessoas na cidade de Nova York mostrou que apenas 18,5% não tinham os sintomas
de enfermidade mental. O número de pessoas que se sentem interiormente confusas e cujo potencial se atola em
defesas doentias atinge proporções epidêmicas. Os problemas neuróticos tornaram-se um modo de vida.

Isto constitui uma denúncia desconcertante de uma lamentável omissão de nossa cultura: nós, pais, não somos
preparados para a nossa tarefa. Quantias enormes são gastas no ensino acadêmico e profissional, mas a arte de se
tornar um pai atuante é deixada ao acaso e a algumas aulas dispersas. E ainda assim, paradoxalmente, consideramos as
crianças como o nosso recurso nacional mais importante!

Recorremos à vontade a médicos e educadores para controlar o progresso físico e intelectual de nossos filhos. Mas,
para orientar sua saúde emocional, quase só podemos recorrer a nós mesmos. Mesmo quando surgem sintomas,
muitos pais consideram a

consulta a um psicólogo como uma admissão de derrota. É o último recurso de que lançarão mão.

A discrepância entre o valor que atribuímos às crianças, de um lado, e nossa incapacidade de proporcionar aos pais
um treinamento

4
específico para a sua tarefa, de outro, parece basear-se na suposição de que um ser humano deve saber criar outro
ser humano. Mas o fato de alguém tornar-se pai ou mãe não lhe confere automaticamente o conhecimento e a
capacidade de criar filhos confiantes, seguros e capazes de viver como pessoas em perfeito funcionamento, e que
possam ter uma vida significativa. Em suma, não foi dada a devida ênfase à prevenção da doença mental. Não obstante,
essa prevenção continua sendo a nossa melhor esperança de conseguir reduzir a alta incidência de desordens
emocionais.

A maioria das pessoas faz o melhor possível, mas muitas vezes fica desorientada. E a realidade continua sendo que,
tal como nossos filhos, temos que viver com os resultados de nossos erros involuntários. E esses erros são geralmente
transmitidos às gerações futuras. O impacto da omissão de nossa cultura recai, até certo ponto, sobre todos nós.

Nessa busca de orientação, nós, os pais, voltamo-nos para os inúmeros livros existentes sobre a educação de filhos.
Mas neles encontramos as questões importantes que temos de enfrentar tratadas em geral, como tópicos isolados, à
parte. Não encontramos um quadro de referência básico, coerente – a auto-estima da criança –, dentro do qual
possamos situar cada aspecto importante da nossa convivência com os filhos.

Este livro pretende dar exatamente esse quadro de referência. Apresentamos uma nova maneira de ver o
desenvolvimento da criança: considerar todo o crescimento e comportamento em função da busca, pela própria
criança, da identidade e do auto-respeito. Passo a passo, mostraremos especificamente como criar um sólido senso do
próprio valor na criança. Com isso ela estará preparada para a felicidade pessoal em todas as áreas de sua vida. Se não
compreendermos perfeitamente a natureza da personalidade humana, e não trabalharmos com ela, andaremos às
cegas e teremos, talvez, que pagar o preço dessa falha.

Este livro foi escrito devido à minha firme convicção, resultado de vinte e cinco anos de trabalho em psicologia e
educação, bem

XV como da minha experiência de mãe, de que a parentalidade é importante demais para ser abordada à base do
acaso e da intuição. O conhecimento dos fatos pode ajudar-nos a desempenhar nossas responsabilidades para com os
que estão sob os nossos cuidados, dando-nos segurança como pais, e mostrando-nos o caminho para o nosso
desenvolvimento pessoal.

Durante anos, os pais que freqüentaram minhas aulas apresentaram mudanças comoventes, em si mesmos e em
seus filhos, quando começaram a aplicar algumas idéias deste livro. Sobre as suas experiências, fizeram afirmações
como as seguintes:

Essa maneira de ver o crescimento das crianças proporcionou-me uma nova confiança. Acho que sou uma pessoa
mais livre, sem temer a responsabilidade de ser pai.

Toda a nossa família tornou-se mais unida, e os conflitos diminuíram muito. Com a mudança de minhas atitudes,
muita coisa tornou-se mais fácil em nossa casa.

Estou mais relaxada e paciente – até meu marido notou isso.

Aprendi a me ver, e a ver meus filhos, sob uma nova luz; sinto-me muito mais compreensiva. E, indiretamente, isso
me aproximou mais de meu marido.

Aprendi a viver com os meus filhos, e não mais apesar deles.

Como pai, parecia-me absurdo ter aulas sobre a maneira de educar filhos. Não havia percebido como estava sendo
cego. Abriu-se para mim um mundo totalmente novo. Quisera apenas ter sabido disso antes de ter filhos.

É muito evidente. Sabendo o que estamos fazendo e tendo como guia um quadro de referência básico, podemos
viver com nossos

5
XVI filhos de maneira que os tornemos emocionalmente sadios. Assim, não precisamos nos preocupar: eles terão os
pés em terra firme.

O fato de você estar lendo este livro indica que você se preocupa com seus filhos e com o seu relacionamento com
eles. Isso mostra o seu desejo de que eles sejam pessoas que funcionem perfeitamente. Tal preocupação, associada ao
interesse por idéias novas, leva tanto você como os seus filhos na direção do crescimento positivo.

A AUTO-ESTIMA DO SEU FILHO

1 A BASE DA SAÚDE EMOCIONAL

Sonhos e realidades

Você tinha, sem dúvida, muitas idéias sobre como iria tratar seus filhos, muito antes de tê-los. E por trás dessas
idéias estava a dedicação: você estava disposto a realizar um bom trabalho. A maioria de nós, os pais, leva a
parentalidade a sério; num sentido muito real, empenhamo-nos totalmente. Mas a realidade interfere em nossos
planos. O que nos parecia tão simples torna-se muito mais complexo.

Ainda que nos venham como um pequeno fardo, as crianças nos despertam grandes emoções. Alegria, certeza e
prazer misturam-se com preocupação, culpa e dúvida. Advém uma boa dose de cansaço e frustração. Temos que
agüentar preguiça, desordem e torrentes de "nãos", e no dia seguinte tagarelice, beliscões e brigas para atender o
telefone. Problemas diferentes – eles mudam, mas não acabam nunca. Não há como voltar atrás.

Apesar de tudo, lutamos para fazer as coisas da melhor maneira possível. Investimos sem cessar, e muito, em
cuidado, tempo, energia, dinheiro. Não poupamos esforços – alimentação e vestuário adequados, brinquedos atraentes,
assistência médica necessária, movimentação constante para proporcionar todas as vantagens. Talvez até
economizemos para a universidade e um seguro extra.

Mas, apesar de nossas boas intenções e de nossos esforços sinceros, nosso filho pode não corresponder exatamente
aos resultados

esperados. Suas notas não são boas, ele é emocionalmente imaturo, rebelde ou excessivamente fechado. Talvez
tenha como companheiros jovens não muito

recomendáveis. "Como pode o meu filho ter problemas, quando fiz tanto e me esforcei tanto?" é uma pergunta que
persegue muitos pais bem-intencionados.

Mesmo que nossos filhos não tenham problemas, o fato de ouvirmos falar do aumento dos índices de delinqüência
juvenil, uso de drogas, abandono da escola, doenças venéreas e filhos ilegítimos aumenta nossas preocupações. Às
vezes uma preocupação insistente surge em nossas consciências para nos fazer pensar num modo de manter nossos
filhos afastados desses caminhos tortuosos. Em certos momentos a incerteza se faz sentir: "Estarei agindo da maneira
certa?" "Devo bater, discutir ou ignorar?" "O que devo fazer agora?" As grandes idéias que tínhamos – aquelas
convicções firmes – tornam-se imprecisas e desaparecem.

A realidade pode levar-nos a perder a confiança em nós mesmos como pais. Mas mesmo assim continuamos a
sonhar com o que nosso filho pode se tornar. Como transformar esse sonho em realidade?

O ingrediente crucial

Se você for como a maioria dos pais, suas esperanças baseiam-se em algo mais do que evitar os colapsos nervosos, o
alcoolismo e a delinqüência. Queremos coisas positivas para nossos filhos: confiança interior, um objetivo e senso de
participação, relações significativas e construtivas com os outros, êxito na escola e no trabalho. E, acima de tudo,

6
felicidade. O que desejamos é claro. Nossas inseguranças recaem em como ajudar nossos filhos a alcançar tais objetivos.
Nós, os pais, estamos ansiosos por uma regra básica, prática, que nos guie – particularmente nos momentos de tensão e
confusão.

Dispomos, hoje, de indicações suficientes para formular exatamente essa regra: se a criança tiver uma auto-estima
elevada, ela terá sucesso. A pesquisa tem mostrado, de maneira cada vez mais evidente, que a criança (ou adulto) que
reage bem é diferente das pessoas que fracassam na vida.

A diferença está nas suas atitudes para consigo mesma, seu grau de auto-estima.

O que é a auto-estima? É a maneira pela qual uma pessoa se sente em relação a si mesma. É o juízo geral que faz de
si mesma – quanto gosta de sua própria pessoa.

A auto-estima não é uma pretensão ostensiva. É um sentimento calmo de auto-respeito, um sentimento do próprio
valor. Quando a sentimos interiormente ficamos satisfeitos em sermos nós mesmos. A pretensão é apenas uma
manifestação falsa para encobrir uma auto-estima precária. Quando se tem uma boa auto-estima, não se perde tempo
e energia procurando impressionar os outros; já se conhece o próprio valor.

A idéia que seu filho faz de si mesmo influencia a escolha dos amigos, a maneira pela qual se entende com os outros,
o tipo de pessoa com quem se casa e a produtividade que terá. Afeta a sua criatividade, integridade, estabilidade e até
mesmo a possibilidade de ser um líder, ou um seguidor. Seus sentimentos do seu próprio valor formam a essência de
sua personalidade e determinam o uso que fará de suas aptidões e habilidades. Sua atitude para consigo mesmo tem
influência direta sobre a maneira pela qual vive todos os aspectos de sua vida. Na verdade, a auto-estima é a mola que
impulsiona a criança para o êxito ou fracasso como ser humano.

A importância da auto-estima na vida de nossos filhos dificilmente poderá ser exagerada. Todo o pai que se preocupa
deve ajudar seu filho a criar uma fé firme e sincera em si mesmo.

Duas necessidades básicas

O auto-respeito sólido baseia-se em duas convicções principais:

"Eu posso ser amado”

("Eu sou importante e tenho valor porque existo.")

e "Eu tenho valor”

("Posso dirigir a mim mesmo, e a meu ambiente, com competência. Sei que tenho alguma coisa a oferecer aos
outros.")

Toda criança, embora completamente diferente das demais, tem as mesmas necessidades psicológicas de se sentir
amada e digna. Tais necessidades não desaparecem com a infância. Todos nós as temos, e elas nos acompanham até a
nossa morte. A satisfação dessas necessidades é tão importante para o nosso bem-estar emocional quanto o oxigênio o
é para a nossa sobrevivência física. Afinal de contas, temos que conviver conosco durante toda a nossa vida. A única
pessoa que não podemos evitar, por mais que nos esforcemos, somos nós mesmos. O mesmo acontece com os nossos
filhos. Eles convivem consigo mesmos da maneira mais íntima, e o auto-respeito é da maior importância para o seu
crescimento, bem como para uma vida significativa e compensadora.

7
A esta altura você poderá dizer: "Mas isso não me diz respeito, porque amo meu filho e acho que ele tem valor." Um
momento, porém. Veja que a receita não diz: "Se você ama seu filho." Diz: "Se a criança se sente amada." E há uma
grande diferença entre ser amada e sentir-se amada.

Por estranho que pareça, muitos pais têm certeza de que amam os filhos, mas, de algum modo, as crianças não
percebem tal afeição. Esses pais não foram capazes de comunicar o seu amor. Os sete ingredientes básicos que
permitem à criança sentir-se amada serão examinados detalhadamente na Segunda Parte. A esta altura, o mais
importante é compreender que:

É o sentimento da criança sobre ser ou não ser amada que afeta a maneira pela qual ela irá se desenvolver.

Acontece com o sentimento de ser digno o mesmo que com o amor. Devemos saber como é recebida, pela criança, a
mensagem de que ela é competente e tem alguma coisa a oferecer. Assim, também esse sentimento poderá se tornar
parte integral da sua auto-imagem.

Se o ingrediente mais importante da saúde mental é uma auto-estima elevada, de onde ela vem? Um estudo de
Stanley Coopersmith (1), entre outros, demonstrou que essa característica não tem relação com a riqueza da família, a
educação, o lugar onde a criança mora, a classe social, a ocupação do pai, ou com o fato de a mãe estar sempre em
casa. Ela

vem da qualidade das relações entre a criança e os que desempenham papel significativo em sua vida.

(1) Stanley Coppersmith, The Antecedents of Self-Esteem. San Francisco, W. H. Freeman & Co., 1967.

Toda criança normal nasce com o potencial de saúde psicológica. O desenvolvimento desse potencial irá depender
do clima psicológico em que ela vive. Para saber se o clima psicológico que cerca nosso filho é estimulante ou sufocante,
devemos compreender:

1. como é desenvolvida a auto-estima;

2. como a visão que a criança tem de si mesma afeta o seu comportamento;

3. o preço pago pela criança quando a sua auto-estima é baixa, e

4. o que é possível fazer para estimular a auto-estima.

Essas questões constituem a base da Primeira Parte – O Fenômeno dos Espelhos.

Uma vez compreendido o processo pelo qual a auto-estima surge, precisamos conhecer os ingredientes específicos
que

permitem à criança concluir: "Eu posso ser amada." Esse material será estudado na Segunda Parte – O Clima do
Amor.

Em seguida, para compreender como a criança desenvolve um senso de domínio e competência – os sentimentos
que alimentam a convicção de que ela tem valor – precisamos familiarizar-nos com as tarefas da individualidade, essas
etapas intermediárias específicas do crescimento que afetam a auto-estima. Quando trabalhamos com uma criança, em
sua escolha psicológica, contribuímos para que ela sinta o seu valor.

Nas seções restantes, examinaremos:

1. a influência que os sentimentos têm sobre a auto-estima e as maneiras positivas de tratá-los;


8
2. a influência das diferentes abordagens da disciplina sobre a auto-estima, bem como os métodos construtivos de
disciplina;

3. o impacto da auto-estima sobre a inteligência e a criatividade, juntamente com as maneiras de estimular o


desenvolvimento mental e, finalmente,

4. a influência da educação sexual na auto-estima.

A compreensão das coisas que atingem nosso filho nos proporciona um instrumento para verificar o clima que lhe
oferecemos. Isso pode detectar áreas que precisam ser mudadas e, o que é mais importante, contribui muito para nos
poupar, e aos nossos filhos, dos resultados de uma atitude paterna baseada na tentativa e erro, na experimentação.

A maioria das pesquisas recentes mostra que as nossas boas intenções como pais terão maiores possibilidades de se
concretizarem se a convivência com nossos filhos lhes

proporcionar satisfação por serem quem são. Não podemos desconhecer, ou ignorar, a característica mais
importante da criança – seu grau de auto-respeito.

Ajudar as crianças a desenvolver sua auto-estima é a chave de uma parentalidade bem-sucedida.

Primeira parte

O FENÔMENO DOS ESPELHOS

2 OS ESPELHOS CRIAM AUTO-IMAGENS

Conclusões dos espelhos

Você já pensou em si mesmo como um espelho? Você é um espelho – um espelho psicológico que seu filho usa pra
construir sua própria identidade. E toda a vida dele é afetada pelas conclusões a que chega.

Toda criança nasce sem um senso do eu. Todas elas têm de aprender a ser humanas, no sentido em que nós usamos
esta palavra. Encontrou-se, ocasionalmente, uma criança que conseguiu sobreviver em total isolamento de outras
pessoas. Sem linguagem, sem consciência, sem necessidade dos outros, sem senso de identidade, a "criança-lobo" só é
humana na aparência. Tais casos nos mostram que o senso da individualidade, ou personalidade, não é instintivo. É uma
realização social, aprendida na convivência com os outros.

Autodescoberta

Tomemos um bebê típico e vejamos como ele constrói a imagem de si mesmo.

Todo vermelho e enrugado, nasce o pequeno Pedro. Seus pais, orgulhosos, expedem comunicados proclamando a
chegada de um novo indivíduo, de um ser à parte – seu filho. Ninguém diz a Pedro que ele chegou. E a essa altura ele
não entenderia a mensagem.

12

Tendo sido uno com a mãe e com o seu ambiente durante nove meses, ele não sabe onde acaba e onde começa o
resto do mundo. Não sabe que é uma pessoa.

Inúmeras sensações novas – tato, ser tocado, fome, dores, sons, objetos imprecisos – despertam a sua curiosidade.
Por mais primitivo que seja seu equipamento, ele começa a explorar, tateando, o seu estranho mundo novo. Quando
ele toca o pé, sente alguma coisa ali e em seus dedos. Quando toca seu ursinho, a sensação está apenas nos dedos. Com
o passar dos dias, compreende que o pé é parte dele mesmo e que o ursinho não o é.

9
Ao mesmo tempo, verifica que as pessoas são diferentes das coisas. Elas se movimentam, fazem barulhos e o ajudam
a sentir-se mais confortável. Um certo dia ele observa a diferença entre colocar um biscoito na boca de sua mãe e
colocá-lo na sua própria boca. Começa a perceber que ele e a mãe são diferentes, mas, nessa fase, ainda se considera
uma extensão dela, talvez um pouco como a cauda de um cão.

Pedro aprende a falar à medida que seu cérebro amadurece. A linguagem é o instrumento que lhe permite sentir-se
plenamente separado, o que é essencial para sua autoconsciência. Vamos ver como isso acontece.

Pedro descobre, através da imitação, que certos sons representam determinados objetos. E verifica logo que os
objetos podem ser rotulados qualitativamente. Aprende: "Fogo quente", "Neném dodói" ou "Papá bom".

Finalmente ele aprende o seu próprio nome. Agora ele tem um símbolo que lhe permite pensar em si mesmo,
separado dos demais. Isso representa um enorme passo à frente. Permite-lhe atribuir qualidades a si próprio, tal como
havia feito anteriormente com coisas. Pode dizer "Pedro quente", "Pedro dodói" ou "Pedro bom". Agora, pode falar
sobre ele mesmo, descrever-se e julgar-se. Pode pensar em si em comparação com os outros: "Eu maior que Bobby", e
em termos de tempo: "Pedro já vai embora.”

13

Entre os quinze e os dezoito meses, Pedro tem uma idéia da separação, mas é imprecisa. A consciência plena só
ocorrerá aos dois anos ou aos dois anos e meio. Antes disso, porém, seu nome lhe dá um ponto de referência com o
qual relaciona vários rótulos descritivos. Primeiro pelos seus sentidos e, em seguida, pela linguagem, toda criança
constrói uma imagem de si mesma.

Mensagens sem palavras

Muito antes de compreender as palavras, Pedro registra impressões generalizadas sobre si mesmo (e o mundo) com
base na maneira como é tratado. Ele sente se é posto no colo com carinho, ou sacudido como um saco de batatas; ele
sabe se os braços que o envolvem são aconchegantes, ou se apenas são um apoio vago e desinteressado. Sabe quando
sua fome é respeitada e quando é ignorada. O toque, os movimentos corporais, as tensões musculares, o tônus e a
expressão facial dos que o cercam transmitem a Pedro um fluxo constante de mensagens. E seu radar é
espantosamente preciso. (Todos os bebês são sensíveis, mas em diferentes graus; alguns são mais sensíveis do que
outros.) As crianças pequenas são particularmente sensíveis aos estados emocionais da mãe. Quando a mãe de Pedro
está apressada ou tensa, ele é exigente e pouco cooperador na hora de mudar a fralda ou de comer. Quando ela está
tranqüila e tem tempo de aturar seus caprichos, ele é quieto e pacífico como um cordeiro. Uma conspiração? Não, ele
está reagindo à linguagem corporal, que lhe informa se o clima psicológico é bom ou sujeito a chuvas.

Vamos dar a Pedro duas mães diferentes e ver como as primeiras impressões de si próprio dependem da qualidade
das mensagens corporais delas.

A mãe A centraliza sua atenção em Pedro, e não na tarefa que está executando. Por exemplo, quando lhe dá banho,
os músculos dela estão relaxados e sua atitude é brincalhona e suave; há uma

14

luz doce em seus olhos. Ela examina os pés gordinhos e enrugados, delicia-se com as suas reações ao pingar água
sobre sua barriga. Quando Pedro balbucia, ela responde. Se ele espalha água com a mão, vê a mãe reagir com uma
risada e participar da sua brincadeira. Não há palavras, mas os dois estão se comunicando. Pedro sente e vê a
receptividade dela. Não sabe que ele é um ser à parte, mas tem as suas primeiras noções de que é valorizado.

A mãe B aproveita sempre a hora da amamentação para ler. Seus braços o sustentam frouxa e indiferentemente. A
atenção não se volta para o menino, mas para o livro. Se Pedro balbucia, ela não toma conhecimento. Quando ele se
movimenta, os braços da mãe não colaboram. Se agarra a blusa dela, a mãe o faz soltar sem sequer olhar para ele.

10
Pedro e a mãe não estão partilhando uma experiência. Na verdade, não há um encontro terno, humano, direto de
pessoa para pessoa. A mãe é todo o mundo de Pedro naquele momento, e suas primeiras experiências ensinam-lhe que
não merece atenção. Para ele, o mundo é um lugar muito frio no qual tem pouca importância. Podemos ver que Pedro
teria uma série de impressões muito diferentes a respeito de si próprio, com a mãe B e com a mãe A.

Algumas experiências com bebês demonstram que o grau de receptividade carinhosa que proporcionamos cria as
bases de uma futura visão positiva do eu. Essa receptividade é construída pelo tipo de atenção, sorrisos, carinhos,
canções e conversas que damos aos bebês (ver Capítulo 7). Os pais que fazem brincadeiras com seus filhos pequenos –
"montar no cavalinho", "o gato comeu", e outras – podem fazê-lo de maneira que elas reflitam um respeito carinhoso e
um prazer. Esses reflexos colocam a criança no caminho da auto-estima elevada. Os pais que nunca brincam com os
filhos, ou que os tratam com uma eficiência fria e impessoal, não lhes transmitem as primeiras impressões de sua
importância. Não há muita alegria, para um ser humano, em ser recebido com indiferença ou rejeição. Antes de se
preocupar com as ocasiões em que ficou irritado, distante ou tenso com seu filho, você deve lembrar-se de que

15

mensagens isoladas, ou pouco freqüentes, não causam danos permanentes. O importante é o número total de
mensagens de amor ou de desinteresse, juntamente com a sua intensidade. Se os momentos de prazer forem mais
freqüentes, a criança receberá a mensagem.

Antes de aprender o significado das palavras, portanto, cada criança recolhe milhares e milhares de impressões
sobre si mesma que lhes são transmitidas pela linguagem corporal dos outros. Essas impressões só se transformam em
juízos claros a seu próprio respeito algum tempo depois, mas são importantes porque as mensagens posteriores
dependem delas; afinal, as primeiras impressões deixam marcas profundas.

Mensagens com palavras

Quando a criança passa a compreender as palavras, abre-se, para ela, um novo caminho para se descobrir como
pessoa.

Assim que aprende a andar, Pedro arranca o brinquedo do amigo, deliciado com o belo prêmio que conquistou.
Nessa idade, a preocupação com as necessidades dos outros é nula, e o choro do amiguinho o deixa totalmente
indiferente. A mãe repreende: "Pedro! Não faça isso! Menino feio!"

Para a criança pequena, os outros – especialmente os pais – são espelhos infalíveis. Quando a mãe o chama de feio,
Pedro conclui que essa deve ser uma de suas qualidades e adota esse rótulo para si naquele momento específico. As
palavras (e atitudes) da mãe encerram um peso enorme (ver Capítulo 9 – A segurança do não-julgamento).

Imaginemos agora que a mãe de Pedro é, para ele, um espelho que devolve os reflexos negativos de si próprio.
Durante anos, ele ouve: "Não posso com esse menino. Ele é

impossível!", “O que você quer?" (num tom impaciente, de "Meu Deus, outra vez!"); "Por que você não consegue
notas melhores, como

16

a sua irmã?"; "Pedro foi convidado a passar o fim de semana fora" (num tom de grande alívio); "Mal posso esperar
que as férias acabem e que Pedro volte logo à escola". Quando ele foi para o primeiro ano, as palavras que a mãe dirigiu
à professora foram: "Tenho pena de você, por ter que agüentá-lo a maior parte do dia!". Pela maneira como Pedro foi
tratado, podemos ver por que ele teria, necessariamente, de formar um juízo negativo a seu próprio respeito. Não é de
surpreender que ele se considere um problema.

Não há dúvidas de que as palavras têm poder. Elas podem destruir ou fortalecer o auto-respeito. Mas as palavras
devem corresponder a sentimentos autênticos. A auto-estima não vem do fato de se enganar a criança; na verdade,
11
nada poderia ser pior. A menos que as palavras e as atitudes se harmonizem, as crianças percebem a discrepância.
Aprendem, então, a não confiar no que lhes dizemos. (O Capítulo 8 examina melhor a importância da coerência entre as
mensagens.) Como ocorre com as mensagens não-verbais, as explosões negativas ocasionais não causam danos
permanentes. Toda mãe perde a calma de vez em quando. (Mesmo assim, os sentimentos negativos podem ser
transmitidos de maneira não-destrutiva; ver Capítulo 9.) Mas a criança que está mergulhada nas acusações de caráter
verbal conclui: "Acho que sou uma pessoa muito má. Se meus próprios pais não gostam de mim, quem vai gostar?”

Tratamento da auto-imagem

A auto-estima elevada, portanto, resulta dos reflexos positivos que cercam a criança. Você poderá dizer: "Bobagem,
conheço muita gente que, quando criança, teve a pior relação possível com os pais e com a vida em geral. Apesar disso,
tiveram sucesso e hoje parecem muito seguras de si e realizam coisas notáveis.”

17

Realmente há muitas pessoas assim. Mas os elementos exteriores do "sucesso" não asseguram a paz interior. Muitas
vezes pessoas que exteriormente parecem bem-sucedidas pagam, no íntimo, o preço: vivem atrás de uma máscara de
falsa confiança, na alienação, com defesas neuróticas e insatisfeitas. Solitários, que não gostam de si mesmos, podem
usar constantemente o trabalho como uma fuga. Mesmo assim, sentem a sua inadequação, por maior que seja o
"sucesso" exterior que conseguem demonstrar.

A verdadeira auto-estima, que nos interessa aqui, é a maneira pela qual nos sentimos intimamente, e não a
aparência de felicidade ou a acumulação de riquezas e posições. Para se considerar uma pessoa realmente adequada e
sentir-se bem interiormente, a criança precisa de experiências de vida que lhe provem que tem valor e que é digna de
ser amada. Não basta dizer à criança que ela é especial. A experiência é que importa. Ela fala mais alto do que as
palavras.

As crianças valorizam a si mesmas na medida em que foram valorizadas.

Vários fatores combinados fazem da mãe ou do pai um espelho extremamente importante na vida de seu filho: a
prolongada dependência dos pais para a sua satisfação física e emocional, o permanente contato com eles, e o fato de
que os reflexos de si mesmo, vistos através dos pais, constituem as suas primeiras experiências. Para a criança pequena,
os pais são tão grandes quanto Deus.

Um menino de quatro anos expressou a visão típica que as crianças têm dos poderes paternos, quando ele e seu pai
passaram de carro perto de algumas casas, certa noite. Apontando para uma delas, que estava com as luzes acesas e as
persianas fechadas, ele perguntou: "O que as pessoas estão fazendo dentro daquela casa, papai?".

"Não sei, meu filho.”

"Ora, e por que você não sabe?", perguntou ele.

18

Para as crianças pequenas o pai e a mãe são todo-poderosos e oniscientes: são, literalmente, uma linha de
comunicação vital. É perfeitamente lógico que aos três ou quatro anos se acredite que os pais podem ver através de
persianas fechadas. Portanto, as razões da criança pequena são: "Esses deuses todo-poderosos me tratam como mereço
ser tratada. O que eles dizem a meu respeito é o que sou." Usando suas palavras e linguagem corporal para construir
essa auto-imagem, ela luta para se enquadrar na visão que tem de si mesma. É uma imagem à qual corresponderá,
como iremos ver no capítulo seguinte. Como pais, devemos ter sempre em mente que nossos reflexos têm um efeito
poderoso sobre o avanço do senso de individualidade da criança.

As outras pessoas são espelhos

12
Não somos, é evidente, os únicos espelhos na vida de nossos filhos. Qualquer pessoa que passe longos períodos com
eles afeta a sua auto-imagem. Pouco importa se essa pessoa é parente, vizinho, babá ou empregada. Os professores
contribuem muito para a imagem que a criança faz de si mesma, já que há um contato constante e também por
exercerem acentuado poder sobre ela. Irmãos e irmãs são outros espelhos. Embora a criança não dependa deles para as
suas necessidades físicas e emocionais, eles oferecem estímulo social, competição e são parte íntima da sua vida
cotidiana. Reagem continuamente a ela enquanto pessoa.

Mais ou menos aos seis anos, a criança se liberta da dependência total da família. A maneira pela qual outras
crianças, que não as de sua casa, reagem a ela torna-se cada vez mais importante. Ela verifica logo que os outros
valorizam certas qualidades. E o fato de ter ou não essa qualidade afeta a idéia que faz de si mesma. Os meninos
tendem a valorizar a capacidade atlética, a força física e a coragem. As meninas, em geral, notam mais os

19

atrativos físicos, a boa aparência, a sociabilidade e a cordialidade. Dão à ternura e às virtudes morais maior
prioridade do que os meninos.

As crianças que têm suas características valorizadas pelas outras da mesma idade sentem-se mais adequadas do que
ao que não dispõem desses atributos, porque recebem repetidos reflexos positivos do grupo.

As crianças cujos interesses e valores discordam visivelmente dos das outras de sua idade provavelmente se sentirão
isoladas – e verão a si mesmas como pessoas de menor valor. A partir dos seis anos, e com maior intensidade à medida
que se aproxima da adolescência, toda criança necessita do apoio social das demais cujos valores correspondem aos
seus.

Domínio e realização

Quando a criança que está aprendendo a andar compreende que é um ser à parte, tenta superar a sua impotência
dominando a si mesma e ao seu ambiente. Seus êxitos e fracassos refletem-se na sua atitude para consigo mesma.
Vejamos como isso funciona.

Toda criança recebe mensagens do próprio corpo.Ted, por exemplo, herdou pernas compridas e músculos fortes e
bem coordenados. Qualquer que seja a atividade que ele praticar, terá bons resultados. Outras crianças querem tê-lo
em seus times esportivos; os professores e os pais o aprovam calorosamente. Sua habilidade lhe permite perceber que
há uma diferença entre ele e seu amigo Clarence, cujo corpo, pequeno e malcoordenado, o convence de que não possui
muitas das coisas valorizadas pelo grupo.

O índice de crescimento, o nível de energia, a capacidade física, a aparência, a força, a inteligência, a cordialidade, a
habilidade e as deficiências de uma criança provocam reações nos outros. A criança chega a conclusões sobre quem é,
em parte, baseada nas suas próprias observações de si mesma, em comparação com os outros, e, em parte, na reação
desses outros para com ela. E cada reação aumenta ou diminui os seus sentimentos de valor próprio.

20

As atitudes dos outros em relação à capacidade da criança são mais importantes do que a posse de determinadas
características. A existência de uma deficiência na criança não é tão importante quanto as reações que ela provoca nas
pessoas que a cercam. Atitudes de pena e desprezo fazem com que o menino ou menina se sinta infeliz. Em
conseqüência, a imagem que tem de si mesmo(a), naquela área, torna-se defeituosa.

A escola apresenta, na sala de aula, no recreio, uma série de obstáculos que devem ser superados para que a criança
se veja como uma pessoa capaz. Ali está Jill, que amadureceu depressa, tanto física como mentalmente. Ela está
preparada para enfrentar as tarefas escolares, sobretudo a leitura, antes de muitas de suas colegas. Aprende a ver-se

13
diferente de Joel, cujo amadurecimento foi mais lento. Ela desenvolve um respeito pelas suas capacidades mentais. Tem
evidências concretas de que é mais do que simplesmente adequada na escola.

Uma menina do segundo ano, cujas notas escolares eram altas, escreveu: "Gosto de mim mesma porque faço bem
os meus deveres." A consciência de sua competência aumentou-lhe o prazer de ser ela mesma.

Ao examinarmos a importância do domínio sobre a auto-estima, não devemos esquecer que o êxito tem mais peso
se ocorrer em áreas importantes para a criança. Harlan, aos doze anos, destacava-se como aluno de piano, mas era um
fracasso nos esportes. Seu talento musical pouco significava para ele, pois não era valorizado pelos amigos.

Toda atividade da qual a criança participa lhe transmite informações sobre ela mesma. Em clubes, esportes, igreja e
grupos sociais, na escola e no trabalho, ela obtém, constantemente, reflexos que acrescenta à sua crescente coleção de
autopercepções.

21

As respostas a “Quem sou eu?"

A imagem que toda criança tem de si mesma é produto dos numerosos reflexos que fluem de muitas fontes: o
tratamento que recebe das pessoas à sua volta, o domínio físico sobre si mesma e sobre o ambiente, e o grau de
realização e reconhecimento em áreas que são importantes para ela. Esses reflexos são como instantâneos de si mesma
que ela cola num álbum imaginário de retratos, e que formam a base de sua identidade. Tornam-se a sua auto-imagem
ou autoconceito – suas respostas pessoais à pergunta "Quem sou eu?". É importante ter em mente que a imagem que a
pessoa tem de si mesma pode ser, ou não, exata. Todo ser humano tem um eu e uma auto-imagem. Quanto mais exata
a imagem que a criança faz de si mesma, mais realisticamente ela conduz a sua vida.

O sr. e a sra. K. precisavam de um filho que se destacasse. Lila, absorvendo os elogios exagerados dos pais, vê a si
própria como uma cantora de talento – ilusão alimentada pela sua professora de canto, ávida por dinheiro. Lila, porém,
tem problemas porque o público não parece entusiasmar-se com o seu canto. Se ela recusar modificar a auto-imagem
alimentada pelos pais e pela professora, poderá esgotar-se tentando se tornar alguma coisa para a qual não tem
talento. Isso só pode levar à frustração e ao fracasso e talvez ao ridículo puro e simples ante os outros. Lila tem,
portanto, menos razões para gostar de si mesma. Se alterar sua auto-imagem, ajustando-a às suas capacidades reais,
não poderá manter a carreira de cantora como seu objetivo – que é o desejo dos seus pais. Naturalmente, quanto mais
o autoconceito de uma pessoa corresponde às suas capacidades reais, à sua habilidade e ao seu potencial, mais
provável é o seu sucesso. Terá, então, maiores oportunidades de se ver como uma pessoa adequada.

22

Aparecimento da auto-estima

No momento em que a criança absorve as descrições que os outros fazem dela, assimila também as suas atitudes
para com essas qualidades. O sr. T., por exemplo, diz freqüentemente a Lilly: "Meu Deus, como você é agitada!" Uma
segunda mensagem – um julgamento de valor – está implícita nessa frase cujo tom diz: "E isso é mau!" Lilly aprende a
ver-se como agitada e aprende a pensar nisso como um traço negativo. Ela pode, então, reprimir uma parte natural de
si mesma para conseguir aprovação e aumentar o seu respeito próprio, ou, se aceitar o julgamento do pai, sentir-se um
pouco menos aceitável devido a essa qualidade.

As palavras são menos importantes do que os julgamentos que as acompanham.

O sr. S. chama Sammy muitas vezes de "monstro". Mas seu tom é de amor e orgulho, como se dissesse: "Meu filho,
você é um grande sujeito!" Sammy refere-se a si mesmo como monstro, mas usa essa classificação com orgulho.
Lembre-se: a linguagem corporal fala sempre mais alto do que as palavras. O juízo que a criança faz de si mesma surge a
partir do juízo dos outros. E, quanto mais a criança gosta de sua auto-imagem, maior a sua auto-estima. Geralmente aos

14
cinco anos a criança já reuniu reflexos suficientes a seu respeito para poder formar a sua primeira estimativa do valor
que tem. Pode não se sentir bem consigo mesma

em todas as ocasiões, mas, se de modo geral se sentir basicamente amada e valorizada, se alegrará por ser quem é.

Sempre que alguém diz "Não dou para isso", na realidade não está dizendo nada a seu respeito. Pode achar que está
fazendo uma observação sobre seu valor pessoal (seu eu), mas, na verdade, está fazendo um comentário sobre a
qualidade de suas relações com os outros – a partir das quais construiu a sua auto-imagem.

23

Pela maneira como uma pessoa vive a sua vida, pode-se afirmar: "Não é tão importante o que você é, mas aquilo que
acha que é."

Brett, aluno do quinto ano, focalizou esse tema quando lhe pediram que escrevesse sobre o que gostaria de falar no
Dia de Ação de Graças:

Estou contente por não ser um peru! Estou grato por eu ser eu e por você ser você. Estou satisfeito por me sair bem
na escola. Estou contente por estar aqui, e não lá. Estou satisfeito por ser uma pessoa e não um cachorro ou um gato...
Estou feliz por freqüentar esta escola. Estou contente por ter bons amigos com quem brincar. Estou agradecido por ter
um irmão para conversar em casa. E estou agradecido apenas por eu ser eu mesmo!

Um testemunho eloqüente dos espelhos positivos que cercam Brett. Lembre-se: nenhuma criança pode "ver-se"
diretamente – ela só pode ver a si própria pelos reflexos que produz nos outros. Seus “espelhos" literalmente modelam
a sua auto-imagem. A chave para a identidade que o seu filho constrói está diretamente ligada à maneira pela qual ele
foi julgado. O que acontece entre o seu filho e as pessoas que o cercam tem, conseqüentemente, uma importância
fundamental.

15
16
17
18
19
20
Uma identidade positiva depende de experiências positivas de vida.

3 A INFLUÊNCIA DOS ESPELHOS NO COMPORTAMENTO

O autoconceito e o comportamento

Lee estava muito contente, brincando com o seu "trem" de caixas, dirigindo-o por uma linha imaginária. Seu
companheiro, Jeff, dava voltas em torno do trem com seu triciclo, gritando ameaças sérias. "Vou arrancar você desse
trem! Tenha cuidado ou dou um soco no seu nariz! Meu triciclo corre mais do que o seu trem!" Lee manteve-se alegre e
indiferente às ameaças.

De repente, Jeff dirigiu-se à professora do jardim-de-infância, perguntando-lhe confidencialmente em voz baixa:


"Quando você tinha quatro anos era forte como eu?"

Tendo sido uma criança fraca, a professora respondeu enfaticamente: "Você é muito mais forte do que eu era
quando tinha quatro anos."

Jeff ficou sentado em silêncio por um momento, como se estivesse assimilando essa idéia. Depois, afastou-se
lentamente, pedalando com tranqüilidade em volta do trem do amigo, sem fazer novas ameaças.

O que levou Jeff a essa acentuada mudança de comportamento?

As crianças de quatro anos recebem muitos reflexos de sua impotência, transmitidos pelo ambiente e pelas pessoas
que as cercam. Como todos os seres humanos, as crianças, por menores que sejam, procuram neutralizar tais reflexos.

26

O comportamento inicial de Jeff visava dizer ao amigo: "Veja como sou forte. Fique com medo para que eu mesmo
possa ver como sou poderoso." Atrás da hostilidade estava simplesmente o desejo de gostar de si mesmo. Quem pode
dizer se, naquela mesma manhã, alguma experiência anterior não ressaltou a sua impotência, deixando, no seu respeito
próprio, um buraco que precisava ser remendado? Quando a professora proporcionou esse remendo, ele pôde afastar-
se com uma nova imagem de força, e suas energias foram liberadas para a brincadeira tranqüila.

Esse breve episódio mostra que o comportamento é dirigido para a auto-estima.

Toda criança busca a auto-imagem de capacidade e força. E o comportamento corresponde a essa auto-imagem.

Pense, por um momento, em você mesmo.Você não se comporta de maneira diferente quando se sente seguro e
quando se sente inseguro? No primeiro caso, você faz afirmações positivas a seu próprio respeito. É, portanto, mais
cordial, mais extrovertido e mais interessado em se relacionar pacificamente com os outros. Quando se sente
inadequado e inseguro você procura não chamar atenção. A própria expressão – autoconfiança – significa uma
segurança interior. No íntimo, você confia na sua capacidade e age de acordo com essa confiança. O mesmo acontece
com as crianças.

Até mesmo a maneira como a criança se expressa é colorida pelo que ela sente a seu próprio respeito. Se pedirmos a
um gago, por exemplo, que diga seu nome, onde mora ou o que estuda na escola, ele gaguejará de uma maneira
agoniante. Se lhe pedirmos, porém, que assuma uma identidade diferente da sua (recitar um monólogo do Hamlet, por
exemplo, ou fingir um sotaque estrangeiro), sua incapacidade desaparecerá. Quando fala dominado pelo sentimento de
inadequação, ele gagueja; quando fala com um sentimento de segurança, ele é fluente.

27

Autoconfiança irregular

21
Confiança numa área não significa, necessariamente, confiança em todas as áreas. Barry por exemplo, recebeu
durante anos muitos reflexos positivos de suas proezas intelectuais. Na aula, nos debates estudantis, nas organizações
escolares, sua convicção de que tem algo a dizer é sempre evidente. Socialmente, porém, Barry se sente como um
"bobo". Por isso, nas festas é tímido, procura não chamar atenção e fica inativo. Nas situações sociais ele age, caminha e
fala de maneira diferente do que nas situações escolares.

Os adultos não são diferentes. Todos nós conhecemos, por exemplo, homens que são confiantes e participam com
firmeza de grupos comerciais. Mas, em reuniões sociais, sentem-se como peixes fora d'água.

Quanto mais generalizada for a auto-estima da criança, mais ela atuará com confiança em todas as áreas de sua vida.

A baixa e a alta estima

A maioria das crianças tem sentimentos mistos a seu próprio respeito, mas, como já vimos, a auto-estima refere-se
aos juízos gerais de si mesmas.

Que tipo de julgamentos poderia Bobby fazer sobre si mesmo, se a sua auto-estima fosse baixa? Diria coisas como:
"Eu não sou muito importante. As pessoas não gostariam de mim se me conhecessem realmente. Não posso fazer as
coisas tão bem quanto os outros. Não há muito sentido em tentar fazer qualquer coisa, porque sei, antecipadamente,
que não conseguirei. Não posso tomar boas decisões. Não falo em grupos porque não digo nada que valha a pena ser
ouvido. Não gosto de ir a lugares novos. Odeio estar só; na verdade, eu gostaria de ser outra pessoa."

Se a auto-estima de Bobby fosse alta, ele provavelmente diria: "Acredito ter alguma coisa a oferecer aos outros e
posso aprender

28

com eles. Meus companheiros me acham digno de respeito. Posso fazer bem várias coisas, embora ainda tenha
muito que aprender. Mas aprender é bom. Se eu não consigo fazer alguma coisa da primeira vez, gosto de tentar uma
segunda. A longo prazo, acredito que poderei ter êxito. Gosto de estar sozinho ou acompanhado. Estou realmente
satisfeito de ser como sou." A confiança de Bobby é evidentemente maior quando ele está em condições de fazer essa
segunda série de afirmações.

Suponhamos duas adolescentes, igualmente atraentes e inteligentes, e vejamos como sua auto-estima afeta o seu
comportamento.

Jean acredita em si mesma, ao passo que Mary, não. Na sala de aula vemos Jean dar informações, dirigir-se
ativamente aos outros e participar, com ênfase, das discussões. Que contraste com o comportamento de Mary!
Hesitante e sem jeito, ela apenas responde ao que lhe é perguntado. Prefere calar suas opiniões por ter medo da reação
dos outros. Numa festa de adolescentes, Jean dirige-se aos outros com calor e participa ativamente das brincadeiras, ao
passo que Mary se retrai. Ela espera ser convidada e, mesmo assim, só participa das atividades comuns com pouco
interesse.

Acreditando secretamente que nada tem a oferecer, não se pode esperar que Mary tenha segurança em qualquer
situação. Suas reservas e suas dúvidas a impedem de ter qualquer participação espontânea e interessada. Esse
comportamento reduz seu impacto social sobre os outros, alimentando-lhe a convicção de que possui pouco valor. Ao
contrário de Mary, a confiança que Jean tem em si lhe dá liberdade para participar, sem reservas, de qualquer situação.
A auto-imagem de cada uma delas é revelada em seus atos.

Sempre que uma criança se considera incapaz, ela espera falhar e comporta-se de maneira que se torne menos
provável o sucesso. Quando deixa de acreditar em si mesma, a criança está destinada ao fracasso. O menino que já teve
êxitos no passado espera continuar

29
22
a fazer bem as coisas. Sua segurança pessoal lhe dá coragem para enfrentar obstáculos e energia para superá-los.

A pequena Becky foi cercada de amor e aprovação durante toda a sua vida. As pessoas reagiam carinhosamente aos
seus olhos grandes e inquietos, à sua alegria e ao seu senso de

humor. "Ah, mamãe", disse ela certo dia, "eu adoro as pessoas." E por que não iria gostar delas? Suas experiências
deram a Becky um sentimento de importância e de valor. A maneira pela qual ela se comportava com as pessoas parecia
até a de um cachorrinho: literalmente ela se lançava ao encontro dos outros e esperava agradar. E sua expectativa
influenciava o seu comportamento – confiante, sincero, extrovertido. Esses traços contribuíam para aumentar-lhe os
sucessos.

Por que as crianças se comportam mal Todos nós queremos evitar o mau comportamento das crianças sempre que
possível. A vida é mais agradável, para nós e para elas, sem tal comportamento. A disciplina é um assunto muito
importante e, se você souber que o comportamento corresponde à auto-imagem, poderá ver que uma das causas do
mau comportamento é um autoconceito negativo. A criança que se considera má modela seus atos para que se
enquadrem nessa concepção. Ela desempenha o papel que lhe é atribuído.

Normalmente, quanto pior o comportamento da criança, mais ela é censurada, punida ou rejeitada. E, em
conseqüência, mais profunda se torna a sua convicção íntima de que é "má". O mau comportamento crônico pode se
basear numa visão deformada do eu, embora uma auto-estima precária não seja a única causa do mau comportamento.

Muitos jovens (e adultos) cujo comportamento prejudica a eles próprios e à sociedade como um todo – os que
abandonam a escola, os delinqüentes, os viciados em drogas – acreditam, no íntimo,

30

que são definitivamente inadequados e que não têm nenhum valor. Eles tateiam em busca do significado pessoal e
da realização. Mas seus esforços desorientados levam a um comportamento autoderrotante.

O jovem que tem uma boa auto-estima dificilmente terá sido uma criança-problema. Ele anda, fala, trabalha,
aprende, brinca e vive de maneira diferente da pessoa que não gosta de si mesma. Sua segurança interior se irradia para
fora, nos seus atos. Como adultos, tais indivíduos são mais capazes de trabalhar de maneira construtiva na solução dos
problemas e nas desigualdades que existem em nosso mundo. Seus núcleos sólidos os liberam para serem inovadores e
não destruidores hostis. A criança que tem respeito próprio provavelmente será um membro construtivo da sociedade.

Felicidade e comportamento

Numerosos pais dizem: "Quero apenas que meu filho seja feliz." Mas não sabem como conduzi-lo a essa felicidade.

Um estudo que visava indicar a diferença entre as pessoas felizes e infelizes concluiu que a desigualdade mais
importante entre os dois grupos era que as pessoas felizes relacionavam-se bem com as outras; as infelizes, não. Uma
auto-estima precária age como um obstáculo à felicidade pessoal, impedindo as relações pacíficas. Um dos maiores
problemas enfrentados quase que por todas as organizações é o das pessoas que representam verdadeiros espinhos
para as outras. O obstáculo que as relações interpessoais representam para o progresso é maior do que podemos
imaginar.

A chave da paz interior e da vida feliz é a auto-estima elevada, pois é ela que está por trás de todo relacionamento
bem-sucedido com os outros.

4 O PREÇO DOS ESPELHOS DEFORMADOS

A falta de respeito próprio

23
Em seus esforços para gostar de si mesma, toda criança busca a aprovação e trabalha de maneira incessante para
adquirir as habilidades que eliminam a impotência. Se as pessoas que a cercam não tomam conhecimento do
desenvolvimento de seus poderes, ela não hesita em chamar-lhes a atenção para seus feitos.

"Papai, veja como sou forte!”

"Sabe de uma coisa? Eu já sei dar o laço no sapato!”

"Eu corro mais do que o Billy!"

Exibicionismo? Não necessariamente. Essas afirmações são apenas pedidos de reflexos positivos – são a
retroalimentação necessária à auto-estima condigna.

Quando as crianças não têm êxito na construção do respeito próprio, seguem caminhos diferentes, baseados nessas
possibilidades (ou combinações de possibilidades). Elas:

criam defesas: elaboram vários disfarces para os sentimentos de inadequação;

conformam-se: aceitam sua inadequação como um fato e levam uma existência apagada; ou retraem-se: refugiam-se
em fantasias que compensam as rejeições de que são vítimas.

32

Cada uma dessas opções tem o seu preço, o que reduz a plenitude da vida.

O caminho percorrido pela criança é influenciado pelo temperamento, modelos, experiências e resultados de suas
tentativas e erros. A maioria das crianças experimenta várias defesas antes de se submeter ou de se retrair, e estas duas
opções, em geral, só são escolhidas em última análise. As crianças não desistem facilmente.

Auto-estima e defesas

Uma defesa é apenas uma arma psicológica contra a ansiedade, o medo, a insegurança ou a inadequação. Seu
objetivo é ajudar a criança a manter sua integridade. Todos nós usamos recursos defensivos em algumas ocasiões.

A tagarelice constante de Sally é a sua maneira de se colocar em posição de superioridade ante os irmãos e melhorar
a sua própria situação. A conversa incessante de Meg serve para chamar a atenção sobre si própria: tem fome de ser
notada.

Há todo um arsenal de defesas. Compensação, racionalização, sublimação, deslocamento, negação e projeção são
comuns em todos nós. Algumas vezes esses mecanismos ajudam a nossa adaptação, mas em outras causam problemas,
particularmente quando recorremos a eles freqüentemente. (Comumente, a maioria das crianças acaba aprendendo
que a fanfarronada, a tagarelice e as manobras para chamar a atenção costumam provocar a rejeição mais do que a
aceitação.) Nossa intenção não é tratar a variedade de defesas detalhadamente, já que esse aspecto é abordado por
outros livros, mas sim mostrar quais os seus objetivos, e examinar os que são comuns.

A maior parte das defesas tem suas raízes na convicção secreta da criança de que é má, indigna e não merece ser
amada. Esse sentimento secreto forma o núcleo da neurose. A neurose é, afinal de contas, apenas o tecido cicatrizante
em torno de uma ferida psicológica.

A criança que tem um respeito próprio profundo não precisa de defesas pouco sadias. Lembre-se de que:

As defesas são erguidas em torno da debilidade, e não da força e da adequação.

Sentimentos de inadequação e defesas doentias estão sempre juntos.

24
Vamos ver como uma criança lida com a sua necessidade de respeito próprio. Suzie, uma menina vigorosa, positiva,
sente que decepciona seus pais. Embora acreditando secretamente que a imagem que seus pais fazem dela é certa, o
seu temperamento não lhe permite submeter-se passivamente. Em idade pré-escolar, ela se lança ao desafio e à
rebelião; tenta abrir à força o caminho da aceitação através da agressão física direta. Aos seis anos, recorre aos disfarces
(compensação) para esconder a sua inadequação. Interiormente ela se sente pequena e indigna, mas externamente é
barulhenta, mandona e se impõe. Dizer a Suzie que deixe de se comportar dessa maneira é como tentar curar sarampo
pulverizando a pele. Os sentimentos de desvalorização não são atingidos pelas repreensões; na verdade, são apenas
intensificados.

Aos oito anos, Suzie compreende que suas táticas apenas afastam as outras crianças. Incapaz de obter aprovação em
casa, ela procura alguma maneira de contrabalançar isso aos olhos do grupo. Descobre, então, que tem habilidade para
o basquete. Dedicando-se de corpo e alma a esse esporte, ela assiste aos jogos de sábado pela televisão, sob um olhar
crítico. Depois da escola, usa seu tempo livre para treinar lançamentos e manobras. Aos dez, ela é a melhor jogadora da
classe. Todos querem tê-la em seus times. Ela conseguiu, assim, um lugar real para si mesma na admiração da sua
turma.

Embora o basquetebol tenha sido apenas uma forma de compensar o sentimento original de falta de importância,
essa solução

34

ajudou Suzie a conseguir o que ansiava ter – o respeito do grupo. Mas ela poderá enfrentar problemas mais tarde,
quando o fato de ser boa jogadora de basquete já não for considerado importante pelo seu grupo. Aí então, se não
desenvolver outras maneiras de conseguir aceitação, ela ficará desamparada.

Outro tipo de compensação pode ser visto na criança que está sempre se esforçando para melhorar as suas
realizações. John, por exemplo, convencido intimamente de sua falta de valor, "coleciona" todo o tipo de realizações
para mostrar seu mérito. Mas, por mais espessas que sejam as suas "camadas de realizações", raramente serão
suficientes para modificar a idéia que ele tem de si mesmo. As evidências externas não apagam a convicção firme que
ele tem interiormente.

A compensação é apenas um dos muitos recursos usados pelos seres humanos para conseguir o respeito próprio.

Defesas e círculos viciosos

Nem toda criança (ou adulto) encontra maneiras construtivas para elaborar a auto-estima. Muitas escolhem defesas
que as lançam num círculo vicioso de autoderrota. Esses processos começam, geralmente, em casa.

Suponhamos que Suzie não tivesse encontrado a solução do basquete. Suponhamos que em lugar disso continuasse
a ser mandona, insistente, autoritária. Quanto mais se acentuam

esses traços, mais rejeitada ela é. A inadaptação entre os colegas soma-se à rejeição pela família, e sua auto-estima
cai ainda mais.

No caso de Suzie, o círculo vicioso não pára. Quanto pior a sua relação com as pessoas, menos capaz ela é de se
concentrar nos trabalhos escolares. Do seu ponto de vista – do ponto de vista de qualquer criança – pertencer a um
grupo é mais importante do que a leitura ou o aprendizado das tabuadas de multiplicação.

35

Como ela pode se concentrar em abstrações quando interiormente está sangrando com as feridas da rejeição total?
À medida que se acumulam as notas baixas, Suzie tem razões ainda maiores para se sentir indigna. Cada novo fracasso
prepara o terreno para uma derrota futura. O fracasso como pessoa contribui para o fracasso escolar. Não importa,
então, se o seu QI é elevado: seu quociente de adequação pessoal está cheio de falhas.
25
Uma defesa doentia encontrada em crianças de baixa auto-estima é o apetite excessivo, e que dá início a um círculo
vicioso difícil de ser rompido.

Jane, de oito anos, sente-se como a ovelha-negra da família. A sensação de não ser aceita cria ansiedade e tensão.
Uma de suas mais remotas lembranças é que o ato de comer lhe proporcionava uma sensação boa, relaxando as
tensões internas. Como bebê, o comer estava ligado a ser colocada no colo e acarinhada. E, ao aprender a andar,
observou a aprovação sorridente da mãe quando comia um bom prato. Agora, à base dessas lembranças e associações,
ela se volta para a comida todas as vezes que se sente frustrada, tensa, solitária ou rejeitada. Não encontrando carinho
entre as pessoas que a cercam, ela obtém uma satisfação momentânea com a comida. Comer tem as suas recompensas
temporárias: a comida é gostosa. Para Jane, a comida torna-se o símbolo da ternura, da proximidade, da aprovação e
dos sentimentos corporais agradáveis. Por isso ela se volta cegamente para o símbolo do antigo bem-estar e,
alimentando-se, tenta compensar a si própria.

Numa autotolerância solitária, ela come demais e torna-se cada vez mais gorda. Isso faz com que seja menos
atraente e menos competente nos jogos, e em pouco tempo passa a ser alvo de piadas. Então ela se volta ainda mais
para a comida, e o círculo vicioso se aperta. Quanto mais gorda fica, mais é objeto de risos. A cada nova rejeição, ela
corre para a comida. E Jane refugia-se num ódio a si mesma e na alienação.

36

A fachada falsa

Algumas crianças (e adultos), com sentimentos profundos de inadequação, recorrem à defesa de usar uma boa
fachada. A menina-modelo é um desses casos. Os pais de Marie só a apreciavam quando ela estava arrumada, era
cuidadosa, bondosa e ponderada. Enquanto ela era boazinha, tinha um lugar seguro na afeição deles.

Ela escondia seus sentimentos normais de raiva, ciúme, frustração e ansiedade. Superficialmente, tudo parecia
ótimo. O problema é que ela sabia que tais sentimentos inaceitáveis estavam escondidos lá dentro. (As desvantagens
dos sentimentos negativos reprimidos e seu impacto sobre a auto-estima serão examinados no Capítulo 14.) Marie
passava a maior parte do tempo edificando a sua imagem de "boa menina" para agradar aos

outros. Tornou-se uma pessoa dependente, flexível, procurando, em todos os seus atos, conseguir a aprovação e
esconder o seu "lado mau". Apesar de seu sucesso em disfarçar, não tinha confiança em si mesma. Suas energias eram
dedicadas a parecer perfeita e não a desenvolver seu potencial. Ela tornou-se escrava do "dever" e acumulou, ainda,
outras evidências exteriores de "sucesso". Em tais casos, "a ênfase transfere-se do ser para o parecer", como disse
Karen Homey (1).

(1) Karen Homey, Neurosis and Human Growth, NovaYork, W. W. Norton & Co., 1950, p. 38.

Todos nós conhecemos pessoas que aparentam confiança, mesmo quando não a sentem. Algumas vezes somos
enganados, mas um nervosismo, um exagero ou uma tensão em seu comportamento freqüentemente denuncia a
inadequação que está por trás da aparência.

Larry é um tanto barulhento, agita demais as mãos, ri com exagero e não consegue ficar sentado por muito tempo.
Dá a impressão de que se empenha mais em parecer, do que em ser confiante. Pessoas como Larry nunca chegam a se
mostrar como

37

realmente são. E não conseguimos penetrar além da máscara para chegar à pessoa real.

Toda pessoa que constrói um falso "eu" cai numa armadilha. As reações que obtém são relativas à máscara que usa,
mas não ao seu verdadeiro eu. Essa pessoa sabe que sua fachada não é autêntica e por isso procura ostentar, na

26
aparência, a aprovação que recebe. Vive com a convicção de que "As pessoas gostam do meu falso eu, mas esse não sou
eu realmente". A aprovação, nesse caso, tem pouco significado, pois é dirigida para alguma coisa que não é autêntica.

A pessoa verdadeira nunca tem a oportunidade de desenvolver-se, porque está distanciada da sua fonte de
alimentação: a interação social com os outros. Essa pessoa teme deixar que alguém a veja como é, porque aprendeu na
infância – em geral, dos pais – que seu verdadeiro eu é inaceitável. Levando tal suposição para a idade adulta, ela perde
a oportunidade de verificar como as pessoas reagirão ao seu verdadeiro modo de ser. Embora a máscara possa ter sido
adequada na infância, mais tarde poderá deixar de sê-lo. Ela supõe que a fachada a protegerá contra novas rejeições.
Mas essa máscara é uma armadilha. E, enquanto insistir nesse jogo, suas relações com os outros continuarão falsas.

Mildred nasceu numa família extrovertida e aprendeu, desde cedo, que para ser aceita pelos seus também ela teria
que ser extrovertida. Armou-se da fachada necessária, mas a solidão de viver atrás de uma máscara começou a cansá-la.
Minou-lhe as energias até que, como adulta, ela começou a passar muito tempo na cama, com uma série de doenças.

Aos quarenta anos submeteu-se a um tratamento e aprendeu a aceitar a sua verdadeira natureza – a de uma pessoa
tranqüila, quieta. Compreendendo que sua vida tinha sido um longo jogo de representação, ela reconheceu que para a
sua saúde física e mental tinha de viver de acordo com a sua própria natureza, embora isso significasse não
corresponder ao que dela se esperava.

38

Ficou espantada quando seus amigos mais íntimos lhe disseram preferir a Mildred verdadeira à falsa. Ao contrário da
família, esses amigos apreciavam a pessoa tranqüila, gentil, ou seja, o que ela era na realidade.

Com freqüência só o reexame dos velhos padrões absorvidos na infância pode nos fazer abandonar as máscaras que
achamos que devemos usar. Verificamos, para nossa surpresa, que elas já não têm "valor de sobrevivência". Na
verdade, os outros gostam muito mais de nós sem elas, pois a autenticidade é cativante.

Muitas pessoas acreditam que devem "parecer boas" – aparentar força, eficiência, competência, perfeição – para
serem aprovadas. E passam anos preparando boas fachadas, sem jamais compreender que elas, a longo prazo, acabam
aprisionando o verdadeiro eu.

O adolescente senhor de si, a mulher que prefere morrer a ser vista sem a sua maquilagem, a outra que fica muito
aborrecida se a vizinha aparece no momento em que a casa está desarrumada, ou o homem baixinho que tem mania de
brigar – todas essas pessoas habitualmente guardam sentimentos secretos de inadequação. Sentindo-se interiormente
pouco adequadas, elas procuram parecer competentes. Inversamente, a pessoa que se sente bem adequada
interiormente não tem de apresentar sempre uma imagem perfeita para os outros.

As máscaras são usadas para ocultar o "eu indigno".

Elas encobrem uma auto-estima precária. Quando a nossa convivência com os jovens os leva a gostar genuinamente
do que são, eles não precisam de máscaras.

Submissão e retraimento

A criança que não consegue desenvolver defesas adequadas pode recorrer à submissão ou retraimento. Bárbara e
Harold, por exemplo, optaram por elas.

39

Bárbara sentia-se pouco aceita pelos pais e, sendo passiva por natureza, fez apenas tímidas tentativas de conseguir
aprovação. O caráter extremamente dominador do pai, e sua aversão pelas mulheres, predominava na casa. Durante
toda a sua infância, Bárbara viu a mãe aceitar passivamente o papel de capacho. Tomando-a por modelo, Bárbara
cresceu acreditando que não merecia respeito. Como a mãe, escolheu uma vida de abnegação e submissão.

27
As primeiras experiências de Harold também o convenceram de que tinha pouco valor. Tentou conquistar o amor
dos pais de muitas maneiras, mas nunca conseguiu. A rejeição deles e as violentas brigas que presenciou deixaram-no
com medo das pessoas. Não tinha muita coragem para tentar aproximar-se dos outros, e os poucos esforços que fez
nesse sentido falharam da mesma forma.

Para Harold, o mundo real e as pessoas que nele vivem não lhe davam satisfação pessoal, nem conforto psicológico.
Frustrado pela sua incapacidade de obter satisfação no mundo exterior, ele voltou-se para si mesmo, para o conforto
solitário dos devaneios. Em sua imaginação, organizava o tipo de mundo e de tratamento que desejava. O recolhimento
para a fantasia não só lhe poupava novas rejeições, como lhe dava um lugar só seu, no qual podia sentir-se menos
ameaçado. Ele preferiu se retrair.

Em geral, quanto pior é o comportamento da criança, maior seu desejo de aprovação. Quanto mais retraída ou
desagradável, mais ela precisa de amor e aceitação. Quanto maiores as suas defesas, mais faminta e alienada está. No
entanto, as próprias defesas da

criança tornam menos provável a conquista da aceitação desejada. Assim, ela gira nesse círculo, tecendo a teia que
acaba por transformar-se em seu cárcere pessoal.

Nossas prisões, nossos tribunais e nossos hospitais ocupam-se, diariamente, de pessoas que sofreram os efeitos dos
espelhos extremamente deformados, e dos reflexos negativos em suas vidas. Na verdade, as páginas da história estão
cheias de exemplos

40

do impacto brutal que essas pessoas tiveram no decorrer dos acontecimentos.

Nada disso precisa acontecer. Os círculos viciosos podem ser evitados ou rompidos, uma vez iniciados. (Ver capítulos
de 6 a 13.) Cada pai e cada professor tem possibilidade de oferecer reflexos que impeçam as crianças de ter uma
existência infeliz e deformada. Submissão, retraimento e defesas doentias são escolhas que as crianças podem evitar, se
forem ajudadas nesse sentido. Lembre-se de que: Se você vive com uma criança de maneira que sufoque sua auto-
estima, você impede o seu crescimento positivo; na verdade, você estimula o desenvolvimento deformado, defensivo.

O ciclo saudável

Quando conhecemos a importância dos reflexos positivos, podemos fazer com que a criança inicie um ciclo saudável
e não um ciclo destrutivo. Esse ciclo funciona da mesma maneira, exceto pelo fato de basear-se em reflexos positivos.

Joe, por exemplo, sentia-se profundamente amado e valorizado pela sua família. Quando estava com outras crianças
suas brincadeiras eram pacíficas e não-defensivas. Naturalmente ele fazia amigos logo e os conservava. Não precisando
de suas energias para a defesa, ele podia relaxar na escola, dedicando toda atenção aos estudos, e utilizar toda a sua
capacidade. Os reflexos positivos do lar, dos amigos e da escola o envolveram num círculo saudável de aceitação e de
domínio de si mesmo. O círculo crescente de reflexos positivos alimentou a sua convicção original de que tinha
importância, e a sua felicidade confiante atraiu os outros. A maneira pela qual nós vivemos com os nossos filhos,
durante os seus primeiros anos de vida, prepara o cenário para o círculo vicioso ou saudável. Mesmo nas melhores
circunstâncias, porém, as experiências de vida e as pessoas fora da família podem proporcionar à criança reflexos
negativos. Mas quanto menores forem as mensagens negativas que a criança receber da família melhor ela poderá
resistir aos reflexos dos outros. Nós, os pais, não somos totalmente responsáveis pelo grau de auto-estima da criança,
mas desempenhamos um papel importante na visão inicial que ela tem de si mesma, e que será significativa em sua
vida, por muitos anos.

5 A ARMADILHA DOS REFLEXOS NEGATIVOS

28
Modificação dos autoconceitos A auto-estima não é de caráter definitivo, embora, uma vez formada, não seja fácil
modificá-la. A visão que a criança tem de si mesma geralmente muda com o seu crescimento e com suas novas
experiências. O respeito próprio de Jimmy, por exemplo, sobe um ponto quando o simples crescimento físico lhe
permite andar de bicicleta.

O processo de formação da auto-imagem se faz da seguinte maneira: um novo reflexo, uma nova experiência, ou o
crescimento, leva a um novo êxito ou fracasso, que por sua vez leva a uma nova concepção, ou a uma concepção
revista, de si mesmo. Dessa maneira, o autoconceito de cada pessoa evolui, em geral, durante toda e sua vida.

Autoconceitos rígidos Às vezes, porém, a atitude da criança para consigo mesmo torna-se rígida, e isso significa
problema. De que modo isso acontece?

Como já vimos, a auto-estima surge com o sentimento, experimentado pela criança, de que pode ser amada e de que
é digna. Desses dois sentimentos, o primeiro – acreditar na própria importância simplesmente porque se existe – é
básico. Quando uma

44

criança sente que não é amada, as provas de sua competência ou valor podem ter pouco significado.

A criança (ou adulto) que está firmemente convencida de que não é boa está preparada, por assim dizer, para só
registrar os reflexos que confirmam essa imagem negativa que tem de si mesma. A convicção de que "não sou amada"
age como um par de óculos de sol, que filtram mensagens contraditórias. Não gostando de si mesma, a criança
desconhece, ou rejeita, os reflexos que contrariam essa auto-imagem.

A razão disso é que os seres humanos devem ser coerentes consigo mesmos.

Devemos sentir-nos intimamente coerentes – "feitos de uma só peça". Nenhuma pessoa pode acreditar que não tem
importância e ao mesmo tempo acreditar que tem valor para si e para os outros. Os dois sentimentos são
contraditórios.

Tina, de catorze anos, por exemplo, sente que não é basicamente amada, porque registrou poucas vezes reflexos de
seu valor como pessoa. Aprendeu a ver a sua incapacidade de ser amada como uma qualidade inata; como uma espécie
de fato consumado. Faltam-lhe certos talentos que são valorizados pelo seu grupo: não sabe dançar, nem nadar. A
convicção de que é inferior influi na compreensão das lições que recebeu de seus pais. Ela tem pouca confiança em sua
capacidade de aprender, e, mesmo quando aprende, a imagem fundamental que tem de si mesma como pessoa não se
modifica. Está convencida de sua inadequação, por mais competente que seja. Ela pensa: "Ah, claro, sei nadar, dançar,
jogar tênis e tocar violão, mas e daí? Muita gente também sabe fazer essas coisas e até melhor. Minhas habilidades não
significam nada!"

Tina não pode usar os seus talentos para melhorar a sua auto-imagem. Sentindo-se rejeitada, ela tem de centralizar
sua atenção nas debilidades e não em seus pontos fortes. As suas realizações tornam-se, nesse caso, vitórias sem
importância. Tendo uma

45

auto-imagem sólida como concreto, Tina perpetua a baixa estima que tem de si mesma. Firme no processo de
continuamente redoutrinar-se, ela se alimenta do que está errado. A menos que sua convicção sobre si própria se
modifique, sua neurose tenderá a crescer com a idade. Com o passar dos anos ela aumentará sua coleção de provas
contra si mesma. Mas, se em lugar disso Tina tivesse sentido que seus pais a aprovavam, poderia reconhecer seus
talentos, pois seus êxitos a fariam acreditar em seu próprio valor.

Um outro aspecto positivo do sentimento de ser amada é que a confiança em si própria permite à criança aceitar a
ausência de certos talentos, sem colocar em perigo a auto-estima. Por gostar de si mesmo, Mark não acredita que deva
29
ser perfeito. Ele não vê as suas deficiências como provas de inadequação pessoal, mas como áreas nas quais pode
crescer. A baixa estima que June tem de si mesma, pelo contrário, faz com que ela utilize todas as suas fraquezas como
uma arma contra si mesma. Ela espera a perfeição, e nada do que faz é suficientemente bom.

A baixa auto-estima está ligada a exigências impossíveis do eu.

Todos nós encontramos pessoas que parecem incapazes de superar suas inadequações. É surpreendente observar as
manobras mentais que estas fazem para ignorar suas próprias habilidades. Temos, por exemplo, a jovem convencida de
que é burra, embora os testes de inteligência mostrem o contrário. Há, também, a mulher bonita que acredita ser feia;
o homem que vê rejeição em situações que os outros interpretam de maneira diferente, e a pessoa de grande
competência que sempre fica aquém de seus objetivos para poder alimentar a idéia de inabilidade. De qualquer
maneira, tais pessoas não conseguem acreditar que têm algo a oferecer. Por quê? A necessidade de coerência interior
as leva a proteger e a preservar a auto-imagem formada anteriormente.

46

Se os que têm uma baixa auto-estima pudessem admitir os reflexos positivos, a convicção de que não são amados,
que serve de base às suas vidas, teria de ser modificada. Isso significaria a reorganização de suas convicções básicas
sobre si mesmos.

Abrir mão da identidade que cultivaram durante anos, mesmo que essa auto-imagem seja insatisfatória, é
desnorteante. Viver com o que se conhece, mesmo sendo desagradável, é mais seguro. A pessoa que se apega a uma
identidade negativa se protege das grandes mudanças, já que as vê com desconfiança. A mudança implica tentar o que
é novo, aventurar-se no desconhecido; significa abrir mão da segurança das coisas familiares.

A pessoa que viveu com a rejeição e o fracasso tem um medo ainda maior da mudança porque a novidade pode
trazer mais notícias ruins. E ela já teve muitas notícias más. Em contraste, a pessoa com experiências positivas tem uma
base para acreditar que a mudança lhe trará coisas boas.

Ocasionalmente, encontramos crianças (ou adultos) cujo autoconceito parece estar fixado numa direção positiva.
Elas se comportam como se fossem uma "dádiva de Deus à humanidade". A imagem que têm de si mesmas,
evidentemente, não é exata, pois não existe um ser humano perfeito. Mas tais pessoas filtram os indícios de suas
imperfeições. (Lembre-se: uma auto-estima elevada não significa pretensão.)

Esse autoconceito aparentemente "positivo" disfarça sentimentos profundos de inadequação. Não tendo uma
imagem realista de si mesma, essa pessoa entra em conflito com as outras" e com seu ambiente. Por se recusar a
admitir fraquezas, não pode superá-las.

Detalhes específicos da rigidez

Vejamos algumas dúvidas que o leitor poderá ter sobre os autoconceitos rígidos.

Se alguém está convencido de que não é amado, essa atitude pode ser modificada?

47

Sim, pode. Lembre-se: os autoconceitos são aprendidos, não herdados. Isso significa que as atitudes para consigo
mesmo podem ser modificadas numa direção positiva. O principal requisito para essa modificação, porém, são as
experiências positivas com pessoas e com a vida. Para sentir-se amada, a criança deve conhecer a aceitação dos que a
cercam (ver Segunda Parte); para sentir-se competente e digna, deve ter êxito em seus esforços.

Se seu filho tem uma baixa opinião de si mesmo, é fácil pensar: "Meu Deus, ele está perdido!", mas não está. Todo
ser humano tem uma espantosa flexibilidade e uma grande capacidade de crescimento. Os orientadores que ajudam as

30
pessoas em dificuldade surpreendem-se, com freqüência, como estas se comportam de maneira positiva, apesar dos
problemas que enfrentaram.

Embora uma criança tenha passado por muitas experiências negativas, ela geralmente reage bem a um clima
positivo e ao "sol" dos reflexos positivos. Os arquivos dos terapeutas estão cheios de relatórios sobre crianças (e
adultos) que, tendo apenas uma hora desse "sol" por semana, fazem progressos enormes nas suas auto-imagens. Pense
nisso por um momento. Apenas uma hora em aproximadamente cem horas de vigília por semana, durante um ano ou
dois, pode ajudar uma criança a modificar a sua auto-imagem. Que testemunho da enorme capacidade de aprendizado
do ser humano! Isso também evidencia que o homem só precisa de um pouco de "sol" a cada semana para florescer.

Os pais que transmitem aos seus filhos reflexos estimulantes constatam surpreendentes mudanças positivas num
tempo relativamente curto, mesmo quando esses estímulos só são dispensados aos filhos na adolescência. Muitas
vezes, sem qualquer alteração do ambiente doméstico, uma criança de baixa auto-estima faz progressos significativos
quanto a uma visão mais positiva de si mesma, se ela tiver à sua volta professores, parentes ou amigos que lhe
proporcionem um clima estimulante.

De que modo algumas crianças desenvolvem opiniões rígidas sobre sua inadequação?

48

Um dos fatores pode ser a hereditariedade. Se você já teve mais de um filho, provavelmente terá observado que as
suas palavras e os seus tons têm muito mais impacto com uns do que com outros. Algumas crianças, em virtude de
peculiaridades de seu sistema nervoso, são mais sensíveis ao ambiente que as cerca – aos alimentos, à luz, cor, som,
aprovação ou desaprovação. Cada criança tem um legado genético único e reage de acordo com ele. Algumas são
menos sensíveis aos golpes da vida e por isso têm capacidade de enfrentar maior volume de experiências negativas
antes de sentir as conseqüências. Elas simplesmente reagem com menor intensidade.

Além disso, a possibilidade de cristalização da baixa auto-estima depende de quão cedo a criança recebe reflexos
negativos, da freqüência e intensidade desses reflexos e de quantas fontes ela os recebeu.

Em que idade a rigidez começa a manifestar-se?

Como já vimos, aos cinco anos a criança já tem uma opinião formada sobre si mesma, como pessoa. Se essa atitude
se torna ou não rígida nessa ocasião, ou mais tarde, depende de muitos fatores: sua hereditariedade, suas experiências
e a maneira pela qual ela os organiza. É necessária, porém, a convergência de muitos fatores num mesmo ponto para

provocar a rigidez. Nenhum fator ou experiência isolada é responsável, apesar do que afirmam os filmes e romances
dramáticos.

Em quanto tempo a rigidez pode ser quebrada?

A resposta depende do fator individual. Quanto menor o número de fatores hereditários que operam contra a
pessoa, menos tempo levará. Quanto mais cedo a criança receber reflexos estimulantes, e quanto mais reflexos
positivos ela tiver, menos tempo será necessário para modificar o desagrado que sente por si mesma. Além disso, certas
defesas provocam maior sofrimento do que outras. Quanto mais dolorosas são as defesas da criança, mais ela desejará
modificar sua atitude básica para consigo mesma.

A superação de uma baixa auto-estima só poderá ser feita com ajuda profissional?

49

A terapia poderá ser necessária se a atitude negativa estiver firmemente cristalizada. Mas, como o caso do sr. W.
mostra, as experiências de vida bastam, por si só, para proporcionar, em muitos casos, os ingredientes terapêuticos
para o crescimento positivo.

31
De modo geral, o sr. W. sentia-se bem consigo mesmo. Aos cinqüenta anos começou a trabalhar para um supervisor
que simplesmente não se contentava com coisa alguma. O sr. W. era o "sujeito errado" e lentamente passou a perder a
confiança em si mesmo. Tornou-se tenso, retraído, reservado. Depois de ficar sete anos nesse clima negativo, ele
mudou de emprego. Na nova firma, suas idéias e experiências foram muito bem recebidas, e ele foi considerado como
um elemento de valor para a companhia. Sua autoconfiança voltou, e mais uma vez ele se tornou comunicativo,
confiante, tranqüilo.

As experiências do sr. W. são o exemplo clássico do poder que os espelhos têm sobre a auto-estima. Os reflexos
negativos podem destruí-la; os estimulantes podem fazê-la reaparecer. Esse caso ilustra novamente que o conceito que
temos de nós mesmos é influenciado pelo tratamento que recebemos dos outros, o que afeta o nosso comportamento.
Mostra ainda que algo tão simples como uma mudança positiva de trabalho pode ser tão terapêutica quanto centenas
de horas de orientação.

Muitas mães, que fizeram dos filhos o seu único interesse na vida, passaram por uma experiência semelhante.
Quando os filhos deixam a casa, elas subitamente se sentem abandonadas e sem importância. Seu autoconceito passa a
ser: "Agora, tenho pouco a oferecer", e com essa nova opinião sobre si mesmas vem a redução da auto-estima. Se elas
se dedicarem ativamente a um trabalho ou passatempo significativo, seu senso de valor pessoal retornará. Ao sentir
mais uma vez que são necessárias, sua alegria de viver se renova.

A aposentadoria, para uma pessoa cujo trabalho teve papel importante na vida, freqüentemente provoca uma
redução na auto-estima, a menos que ela encontre novas atividades que lhe proporcionem um senso de realização.

50

Há muitas circunstâncias que impedem o aparecimento da baixa auto-estima: uma família compreensiva, um
professor que nos respeite como pessoa, um emprego particularmente adequado aos nossos talentos, um amigo ou
cônjuge carinhoso e confiante, uma filosofia religiosa que tenha sentido para nós, uma atitude introspectiva e
questionadora em relação aos nossos pressupostos básicos sobre nós mesmos, a leitura de obras significativas, e a

terapia individual ou de grupo. Cada uma dessas situações, na realidade, pode contribuir para livrar uma pessoa da
armadilha da baixa auto-estima.

Qualquer situação de vida que leve um indivíduo a se sentir mais valorizado como pessoa – que confirme o fato de
ser uma pessoa única – alimenta a auto-estima.

A rigidez, portanto, bloqueia o crescimento e limita o desenvolvimento do potencial.

Quando a criança gosta de si mesma, pode absorver novas evidências sobre si durante seu crescimento. Ela sabe que
tem possibilidades não-desenvolvidas e não tem medo de novas experiências. Seu potencial tem, assim, uma
oportunidade de realizar-se. A criança que se sente basicamente sem qualidades para ser amada apega-se a essa
identidade negativa e não registra as evidências de competência que possam surgir. Ela terá condições de desenvolver-
se apenas quando esse ódio a si mesma desaparecer.

Num certo sentido, uma auto-estima elevada é uma apólice de seguro; é a nossa melhor garantia de que a criança
utilizará suas capacidades da melhor maneira e continuará aberta às inovações. É da maior importância que
verifiquemos, em nossos espelhos, a qualidade dos reflexos que emitimos, pois podemos "poli-los" de modo que nossos
filhos não caiam na armadilha da baixa auto-estima.

6 POLIMENTO DOS ESPELHOS DOS PAIS

Visão através de filtros

De certo modo, todos nós vemos nossos filhos através de filtros resultantes de nossas experiências, necessidades
pessoais e valores culturais. Tudo isso se combina para formar uma rede de expectativas. E
32
essas expectativas podem tornar-se os critérios com os quais medimos uma criança.

Saber o que esperamos, e por que, é o primeiro passo para polirmos nosso espelho como pais. Vamos examinar
alguns filtros comuns e ver como influem sobre nosso comportamento.

Inexperiência

Como cada criança é diferente de outra, todos usamos, em certa medida, o filtro da inexperiência. É comum, porém,
sentirmos essa inexperiência de forma mais aguda com o primeiro filho. A sra. B, por exemplo, explode ao ver que o
quarto do filho fica sempre desarrumado, depois que ele acorda. E diz ao garoto que ele é um menino mau. Alguns anos
depois, a grande desordem deixada pelo seu terceiro filho não mais a surpreende. Na verdade, se ela encontrasse o
quarto arrumado, desconfiaria de que ele não estava

52

passando bem. A simples experiência com crianças na idade pré-escolar e com a capacidade delas de se adaptarem à
realidade modificou-lhe as expectativas. Ela julgava o comportamento de seu terceiro filho de acordo com a
experiência, considerando-o normal. Sua atitude, em ambos os casos, resultou de suas expectativas.

Padrões emprestados

Muitas de nossas expectativas são inconscientemente tomadas de empréstimo. Uma noção muito popular é a de
que uma criança tranqüila é uma criança "boa". E nossa aceitação varia em relação ao barulho que ela faz.

As expectativas que nossos pais tinham a nosso respeito são consideradas por nós como guias. Essas imagens
emprestadas nos permitem agir sem pensar, questionar ou fazer experiências com o comportamento natural das
crianças. Tal atitude economiza energia, mas tem um preço a ser pago.

Inúmeras são as idéias que tomamos de nossa cultura. "Meninos não choram", "meninas devem brincar com
bonecas; meninos, nunca"; "Irmãos e irmãs devem sempre se amar"; "Os filhos não devem nunca se irritar com os pais";
"os meninos devem ser atletas". Estamos continuamente avaliando as crianças por meio desses padrões, por menos
realistas que eles sejam.

Os pais de classe média dão grande valor aos êxitos rápidos na escola, ao respeito à propriedade, à limpeza, à
sociabilidade e ao controle sexual. Por mais desejáveis que tais objetivos possam ser, esperar que eles sejam adotados
pelas crianças que ainda não têm a idade apropriada, ou ainda em todas as circunstâncias, ou esperar que as crianças
aprendam da primeira, da segunda, ou da terceira vez, é o mesmo que condicionar nossa aprovação à realização do
impossível. Nesse caso envolvemos a criança num esforço superior à sua capacidade, minando sua auto-estima. Se
pressionarmos para que tais objetivos sejam alcançados cedo demais, ou

53

depressa demais, estaremos afetando a imagem que cada criança têm de si mesma.

Desejos remanescentes

Algumas de nossas expectativas em relação aos nossos filhos procuram satisfazer nossos próprios desejos frustrados.
Uma mãe contou, chorando, a seguinte história ao orientador da escola secundária de sua filha: "Economizei durante
meses para dar a Ginny um conjunto de suéter e saia de cashmere, e ela o trocou porque nenhuma de suas amigas
usava isso! Quando eu tinha a idade dela, teria dado qualquer coisa por uma roupa como aquela. Como pude ter uma
filha tão ingrata?"

Um sonho não-realizado fez com que essa mãe esperasse gratidão. O seu desejo remanescente a impediu de
compreender que as necessidades da filha eram diferentes das suas.

33
Desejos atuais

Podemos tratar nossos filhos de maneira a que satisfaçamos um desejo nosso atual. A sra. T., por exemplo, anseia
por aprovação. Ela necessita ser aprovada por todos. Se uma visita é favorável à disciplina rigorosa, ela se torna uma
verdadeira ditadora com os filhos. Se a visita é muito tolerante, ela deixa as crianças fazerem qualquer coisa. Sua reação
com os filhos – resultado de sua necessidade atual não-satisfeita – depende das pessoas que estão presentes.

Se ansiamos por ter posição social, e não conseguimos obtê-la através do nosso esforço próprio, podemos,
inconscientemente, pressionar nosso filho a preencher a lacuna. Podemos pretender que ele tenha ótimas notas, que
seja o melhor jogador de sua classe, ou que seja eleito para qualquer coisa; tudo devido aos

54

reflexos que sua glória nos trará. Ele deve sobressair para satisfazer nossas necessidades. Por outro lado, podemos
ter colhido muitas honras em nossa própria vida. Mas, se consideramos os filhos como extensão de nós mesmos, e não
como indivíduos à parte, podemos achar que o brilho de nossa estrela estará prejudicado se nossos filhos não se
destacarem também. Nossa expectativa é de que qualquer coisa ligada a nós deve brilhar com a mesma intensidade.

As carências em nossa relação matrimonial constituem outra série de filtros. Se nos sentimos pouco amados ou
pouco apreciados pelos nossos cônjuges, podemos cair facilmente na armadilha de tentar fazer com que nossos filhos
satisfaçam tais necessidades. E nos colocamos contra eles, se tal satisfação não ocorrer. Quanto mais satisfatório o
nosso casamento, menor será a nossa inclinação de pedir aos filhos que preencham os vazios.

Conflitos não-resolvidos

As expectativas que temos em relação aos nossos filhos nos ajudam, com freqüência, a solucionar problemas não
resolvidos na nossa infância. A maioria dos pais cria os filhos à base de suas próprias necessidades e não da dos filhos.
Um conceito um tanto desagradável, mas verdadeiro.

Quando menino, o sr. P. teve que lutar constantemente com um irmão mais velho e dominador. Ele nunca se
entendeu bem com esse irmão, nem perdeu a vontade de ir à forra. Sem compreender isso, encontrou uma excelente
oportunidade de vingar-se por meio de seu filho mais velho. Quando o seu filho mais velho dominou o mais novo, as
lembranças do sr. P. foram despertadas. Censurou o filho com exagerada severidade. Não sabia por que estava fazendo
isso, como também o filho não sabia, embora sobre ele recaísse o peso de um conflito não-solucionado. Mas os
problemas não-solucionados do pai afetaram a auto-estima do filho.

55

Impacto das expectativas na auto-estima

Nossos filhos medem sua capacidade pelos padrões que nós lhes oferecemos. O valor que atribuem a si mesmos tem
como base a extensão em que conseguem satisfazer nossas expectativas.

Um modelo básico encontrado nos lares de crianças que se tornam adultos alcoólatras são as expectativas altas
demais para serem alcançadas. Constantemente sentindo-se incapaz, a pessoa conclui: "Sou inútil". Não encontrando
em si habilidades que sejam dignas de admiração, ela se volta para o álcool, utilizando-o como muleta para formar um
sentido de adequação. A forte dependência e a baixa auto-estima a fazem iniciar um procedimento que, afinal de
contas, é o da autoderrota.

Os fracassados vêm, freqüentemente, de famílias em que há uma pressão constante para que tudo seja feito da
melhor maneira. O pai e a mãe exigentes dizem, indiretamente, ao filho: "Tenho pouca confiança em você" e "Você não
está correspondendo".

34
Quase sempre que as expectativas são elevadas ou rígidas demais para serem alcançadas por uma criança, numa
determinada idade e em determinadas circunstâncias, ficamos

decepcionados. E a nossa decepção age como um cupim: come as bases do auto-respeito, derrubando a auto-estima.

As crianças raramente questionam nossas expectativas; elas questionam a sua própria adequação pessoal.

Isso significa que para evitar danos à auto-estima devemos jogar fora toda e qualquer expectativa? Absolutamente
não! Assim como as expectativas muito altas fazem a criança sentir que é um fracasso constante, também a falta de
expectativas é interpretada como: "Por que esperar alguma coisa de você? Você provavelmente não conseguiria, de
qualquer modo." Essa falta de confiança acaba com o sentimento de valor da criança.

Nossos filhos sentem a força de nossas expectativas; e estas afetam diretamente a idéia que eles fazem de si
mesmos. Robert

57

Rosenthal, psicólogo de Harvard, verificou que as crianças cujos professores manifestavam confiança na sua
capacidade de aprender tinham QI de 15 a 27 pontos a mais do que as outras. A valorização não-verbal tornou-se um
reflexo positivo para cada criança, permitindo-lhe dizer: "Eu posso fazer." A confiança do professor transformou-se na
confiança da criança. A linha adequada a ser seguida consiste na combinação das expectativas realistas com uma grande
confiança em cada criança.

A aprovação condicional – "corresponda às minhas expectativas, ou não terá amor" – destrói o auto-respeito. Mike
é, pela sua constituição física, um menino quieto e estudioso, mas ele sabe que seu pai prefere atletas extrovertidos.
Para conseguir aprovação, Mike tem de abrir mão de suas inclinações naturais e lutar para corresponder à imagem que
o pai faz do que seria um filho digno de seu amor.

A confiança que a criança tem em si mesma é a semente que lhe permite florescer. Quando ela cede para
corresponder às expectativas preconcebidas, que não levam em consideração seu temperamento essencial, seu auto-
respeito é prejudicado. Ser verdadeiro consigo mesmo significa manter a integridade de sua constituição; é a raiz básica
de sua estabilidade. A submissão às expectativas que são contrárias à natureza da pessoa sempre provoca danos.
Expectativas rígidas, pouco realistas, correspondem a uma imposição: "Seja o que eu preciso que você seja. Não seja
você mesmo!”

A confiança das crianças deve estar no que elas realmente são, e não nas imagens dos outros.

A tragédia da perda do eu

Um exemplo eloqüente e trágico de uma criança que enfrentou o dilema de corresponder às expectativas pouco
realistas de seus pais, ou não ter amor, pode ser visto neste resumo de uma entrevista de orientação: Um menino de
quinze anos, que morava com os pais, cujos padrões eram rígidos, autoritários e de modo

57

algum adequados à natureza do jovem, disse: "Estou totalmente resignado. Não há nada que eu possa fazer em
relação aos meus pais. Não posso fazer com que se modifiquem, portanto eu é que tenho que mudar. Qualquer coisa
que eu sinta ou queira ser... bem, isso apenas representa problema. Eu realmente só tenho uma escolha: tenho de
seguir o caminho que eles desejam “

"É claro que outros meninos são totalmente dominados pelos seus pais, portanto eu não serei o único. Mas sabe de
uma coisa? Acho que alguma coisa morre nesses meninos. Você sabe, eu morri há muito tempo... Acho que morri
quando nasci. Aquilo que eu realmente sou não pode agradar à minha família, nem a ninguém. Como é que a gente se
livra do que é?"

35
Esse menino resignou-se, tristemente, a seguir o caminho estabelecido. Sem jamais questionar as expectativas dos
pais, ele é que se considerava sem razão. Ele é a tragédia do eu perdido.

Contudo, ele tinha consciência de que, quando os meninos tomam essa decisão, sofrem uma morte psicológica.
Estava disposto a esse "suicídio" para conseguir a segurança de uma aceitação e de uma paz aparente. Em sua
ingenuidade e imaturidade, porém, tinha uma comovedora consciência de uma profunda verdade psicológica: muitas
crianças não sobrevivem psicologicamente à tirania da imagem que os pais fazem delas!

Quando as expectativas contrariam a natureza da criança, forçam-na ao dilema de ser ou não ser ela mesma. Se
preferir corresponder às imagens dos pais, ela rejeita a si mesma; e, enquanto negar o seu eu verdadeiro, será uma
pessoa vazia – uma cópia das expectativas dos outros. Será privada de se tornar a única pessoa que realmente deveria
ser – ela mesma!

O duplo dilema

Muitas crianças enfrentam um duplo dilema quando seus pais têm imagens diferentes para o tipo de filho que
poderiam amar.

58

A imagem que o sr. R. tem de um filho aceitável é de uma criança extrovertida e agressiva. A preferência da sra. R. é
por um filho apegado a ela e carente. O menino sairá perdendo seja qual for a imagem que pretenda adotar. Nesse
meio tempo, a pessoa, que ele é verdadeiramente, poderá se perder nessa oscilação.

Receita de dependência

Imagine que seus planos são de tal ordem que o seu filho possa corresponder a eles, ainda que com grande esforço.
Você estabelece quais devem ser os sentimentos, atitudes, valores e metas dele. Você é quem sabe melhor e você
ensina ao seu filho a não ouvir os próprios desejos interiores. Ele se torna um joguete altamente dependente,
movimentando-se de acordo com as cordas que você puxa. A recompensa dele? A aprovação materna (lembre-se: a
aprovação é vital, especialmente para uma criança pequena). O menino coloca, então, o seu centro de gravidade
psicológico fora de si mesmo. Outros têm as respostas de que ele precisa, e sua autoconfiança jamais tem a
oportunidade de se desenvolver. As imagens rígidas e as expectativas muito grandes dos pais criam enormes obstáculos
no caminho para chegar à personalidade verdadeira. São a causa do "eu perdido".

Crianças muito dependentes não se transformam em adultos emocionalmente maduros, confiante. O país sofre
quando uma grande proporção de seus cidadãos é muito dependente.

As democracias precisam de adultos confiantes, que tenham a coragem de afirmar as suas convicções. As crianças
com uma grande auto-estima tornam-se os adultos dotados de tal coragem. Com as suas energias livres para enfrentar
os problemas exteriores a eles, podem contribuir de maneira significativa para o seu país. E nenhum país pode correr o
risco de perder seus cidadãos.

59

Expectativas realistas

Se padrões muito altos ou demasiado baixos prejudicam o auto-respeito, como podemos saber se os nossos são
realistas?

As expectativas são adequadas quando se baseiam nos fatos relacionados com o desenvolvimento da criança, com a
observação atenta e a consideração do passado da criança, e com as pressões a que ela está sujeita no presente.

36
Não podemos saber o que seria razoável esperar enquanto não sabemos como são as crianças em geral. Os pais de
Ted esperavam, constantemente, um adulto em miniatura, em lugar de uma criança. Ficavam irritados quando ele não
suportava as longas excursões feitas para educá-lo, ou esperar pelo atendimento num restaurante. Ficavam aborrecidos
quando seus sapatos e calças pareciam sujos no espaço de uma semana. Não entendiam a sua incapacidade de pegar no
sono na hora de dormir quando passava a noite na casa dos primos. Situações comuns, insignificantes – mas
multiplicadas – davam a Ted doses diárias de reflexos negativos. Não era culpa de ninguém: os pais simplesmente não
sabiam como as crianças se comportam.

Não só devemos saber como são as crianças, como também devemos conhecer as preocupações que têm a cada fase
de crescimento. Assim, as nossas expectativas não se chocarão com as exigências do crescimento.

Saber o que uma criança normal pode ou não fazer, porém, não é suficiente para formular expectativas realistas.
Ninguém vive com uma criança-em-geral. (A vida seria muito mais simples se assim fosse!) Cada criança dá um caráter
especial ao padrão geral de crescimento. E devemos estar atentos para isso. Tratar as crianças como se elas viessem da
linha de montagem equivale a não respeitar a sua individualidade. Conhecer as tendências básicas da criança de quatro
anos é útil, mas deve-se estar atento para ver como, por exemplo, Charlie se comporta nessa idade. A observação
atenta é um dever.

60

A média das expectativas sempre leva em conta as pressões passadas e presentes. A maioria das pessoas tende a
fazer isso, em grande parte.

"As notas de Billy caíram este semestre, mas ele teve problemas com a morte do avô. Eles eram muito ligados.”

"Danny passou a chupar o dedo, mas isso não me surpreende, pois ele está se adaptando ao irmãozinho novo.”

"Agnes anda tão rabugenta ultimamente, mas ela está sob muita pressão em seu curso intensivo. Ela sempre foi a
primeira da classe, mas agora deixou de ser. Deve ser difícil para ela."

Cada um dos pais que fizeram essas afirmações condicionou sua atitude ao exame das pressões que seus filhos
sofrem. Saber que o comportamento tem uma causa, e examinar

periodicamente o mundo da criança do ponto de vista dela, nos ajuda a determinar, com acerto, o que devemos
esperar. Quando as pressões interiores ou exteriores são fortes, todos nós apreciamos uma certa tolerância daqueles
com os quais vivemos.

Inventário das expectativas

Como as nossas expectativas afetam a qualidade de nosso "espelho", devemos examiná-las. Fazendo um exame
interior, podemos descobrir um dos vários filtros que afetam nosso comportamento para com nossos filhos.
Poderemos, então, analisar esse comportamento, em lugar de reagir cegamente com expectativas que só atendem às
nossas necessidades.

Durante os próximos dias observe o seu comportamento em relação a cada um de seus filhos. Procure identificar as
suas expectativas. Escreva cada uma delas num papel e analise-as à luz das seguintes indagações:

Por que tenho essa expectativa?

De onde ela vem?

O que existe nela que pode me satisfazer?

61

37
Baseia-se nas minhas necessidades, ou nas de meu filho?

Que finalidade ela tem?

Ela se adapta, realísticamente, a essa criança, na sua idade e com seu temperamento e sua formação?

Um inventário sincero pode ser doloroso, mas é o prenúncio da mudança. A auto-estima de seus filhos está em jogo.

Trabalhando com o inventário

Examine cada expectativa, procurando avaliar se é razoável. Que significado ela tem na realidade, para você e para
seu filho?

Talvez você venha insistindo em fartos desjejuns, enquanto seu filho prefere alguma coisa mais leve. Ao examinar
essa expectativa, você compreende que ele come bem no almoço, no jantar e depois da escola. Raramente adoece, seu
peso é normal. Resultado? Você pode abandonar um padrão emprestado.

Corte todas as expectativas que vem formulando cegamente e que não têm significado real para você e para seu
filho.

Verifique novamente a sua lista para ver quais as expectativas que satisfazem apenas às suas necessidades. O sr. e a
sra. J., por exemplo, eram contrários ao desejo que seu filho tinha de voar. Apoiavam qualquer outra atividade saudável.
O instrutor da escola disse-lhes que, entre todos os alunos do seu clube de navegação aérea, nenhum era mais
interessado ou mais talentoso que o filho deles. Depois de muita discussão, enfrentaram a questão real. Suas
expectativas eram produto do medo de voar que eles tinham. Decidiram que o filho tinha o direito de viver sua própria
vida, sem ser perturbado pelo medo que eles sentiam. Deixaram de lado suas objeções e deram todo o apoio ao seu
talento genuíno.

Para ajudar seu filho a crescer forte, também você deve ser capaz de abandonar as imagens que não se harmonizam
com a individualidade dele. Você poderá abandonar seu sonho de ter um filho engenheiro, quando seu filho gosta
realmente é de animais? Será que

62

Betty tem que continuar sendo escoteira, se não gosta disso? E Tom, tem que estudar música porque você pensa que
é uma boa idéia?

Cada um de nós tem necessidades que não podem ser rejeitadas ou taxadas como pouco importantes, e que devem
ser satisfeitas pelos nossos próprios esforços. Sem isso, corremos o risco de pedir, inconscientemente, a nossos filhos
que as satisfaçam.

Pergunte a si mesma: "Será que me sinto amada? Tenho uma sensação de realização pessoal, de reconhecimento e
de adequação no meu relacionamento com adultos?" (Isso não quer dizer que as crianças não nos dão amor, um
sentimento de participação e de realização. É de esperar que o façam. Mas a questão é que elas não devem ser
sobrecarregadas com a tarefa de serem nossos únicos fornecedores nessas áreas.)

Examine cada expectativa para ver se ela pode atender aos seus desejos ocultos, aos seus desejos remanescentes, ou
aos seus problemas não-resolvidos. Tenha cuidado, pois é fácil disfarçar uma necessidade que é sua e vê-la como uma
necessidade de seu filho.

Parentalidade significa "alimentar", nutrir as crianças com os "alimentos psicológicos" que as ajudem a construir o
auto-respeito. E nossa tarefa será mais bem executada se nós não estivermos famintos – psicologicamente; ou seja, se
as nossas necessidades forem satisfeitas pelos nossos próprios esforços.

A alimentação é proporcionada pela abundância, não pelo vazio.


38
Quanto mais satisfeita você estiver como pessoa, menos usará seus filhos como cortinas protetoras pessoais.

Se você achar que está usando os filhos como sua principal fonte de satisfação, terá de modificar essa situação.

Antigamente, a terapia era considerada adequada apenas para os doentes mentais. Hoje, porém, a orientação
psicológica é encarada, cada vez mais, como um recurso que pode libertar as pessoas de uma auto-estima insuficiente e
das expectativas rígidas, ajudando-as a desenvolver seu potencial de vida de forma mais plena

63

e rica. A terapia individual, ou em grupo, a educação dos pais e as aulas de desenvolvimento do potencial pessoal
atraem um grande número de pessoas que não são mentalmente doentes, mas que têm consciência da possibilidade de
crescimento.

A comporta emperrada

A sra. L. confidenciou à sua vizinha: "Se meu filho não começar a se auto-afirmar, eu vou explodir!".

A vizinha, que conhecia a sra. L. havia algum tempo, respondeu: "É preciso dar-lhe tempo, ele tem apenas quatro
anos. Mas quem é você para falar? Você deixa todo mundo pisar em você.”

"É exatamente por isso. Não posso tolerar isso em mim e odeio ver essa atitude nele!"

Nossas atitudes para com os outros estão definitivamente ligadas às nossas atitudes para com nós mesmos. Como
disse Frederick Perls: "Fazemos com os outros o que fazemos com nós mesmos." Se você é duro consigo mesmo, é duro
com os outros. Se aceita-se a si

mesmo, pode aceitar aos outros. Quando você tem que lidar com as suas próprias hostilidades, você é menos
ameaçado pela hostilidade vinda de fora. Assim, a sua capacidade de dar uma sensação de aceitação ao seu filho
depende, em grande parte, da sua capacidade de aceitar a si mesmo.

O caminho da auto-aceitação

Porque vemos os outros – particularmente os nossos filhos – à luz das atitudes que temos para conosco, a análise
necessária do espelho que proporcionamos inclui o exame de nossa auto-estima. Quais as suas respostas à pergunta
"Quem sou eu?"

Escreva os seus sentimentos sobre você mesmo. Que tipo de pessoa você é? Quais as qualidades que vê em si
mesmo, e o que

64

sente em relação a elas? Você gosta, basicamente, de ser quem é, ou gostaria de ser outra pessoa?

Se você não gosta de si mesmo, lembre-se de que essa atitude é aprendida. Lembre-se: a baixa auto-estima não é
um comentário sobre o seu valor, mas sim um reflexo dos juízos e experiências que você teve. Você tem o poder de
escolha para fazer alguma coisa em relação à sua baixa auto-estima.

Assim como você não pode ignorar as atitudes que o seu filho tem para com ele mesmo, também não pode ignorar
as atitudes que tem para consigo próprio. A sua auto-imagem tem um papel significativo na qualidade do espelho que
você proporciona. Se você tivesse uma deficiência de insulina ou de tiróide, sem dúvida tomaria medidas para corrigi-la.

É ainda mais importante corrigir uma deficiência na auto-imagem.

Para gostar de si mesmo, procure pessoas que o tratem com respeito, pois você precisa da experiência de ser
apreciado. Participe de atividades que lhe dêem uma sensação de competência e realização. Se o seu auto-conceito
39
tornou-se inflexível, de forma que você não pode aceitar evidências positivas a seu próprio respeito, procure assistência
especializada. Ela poderá libertá-lo da rigidez da auto-estima deficiente.

Embora conviver com pessoas que gostem de você e ter experiências de sucesso sejam importantes para o seu
crescimento pessoal, é crucial que você não permita que os espelhos dos outros influenciem totalmente a imagem que
você faz de si mesmo. Todo ser humano verá você, até certo ponto, através de seus filtros pessoais – de suas próprias
necessidades pessoais. É vital que você se lembre que a imagem que qualquer pessoa faz de você é apenas um dos
muitos reflexos que encontrará. Mas a imagem dessa pessoa pode não ser exata. Em suma, os espelhos dos outros
podem conter algumas deformações.

A criança usa os outros para ter uma imagem de si mesma e tende a acreditar nesses reflexos. Você, como pessoa
adulta,

65

também não pode ver a si mesmo sem os espelhos dos outros. Mas, como adulto, você pode e deve ter em mente
que a maneira pela qual é visto pelos outros pode ser, de certa forma, deformada – os espelhos deles podem não ser
totalmente exatos (1).

(1) Agradeço a Verne Kallejian por sugerir essa inclusão.

É de esperar que, à medida que adquirimos consciência da importância da auto-estima, tomemos medidas ativas
para fortalecer nosso respeito próprio. Nosso crescimento é compensador, não só para nós, mas para incontáveis
gerações futuras, pois nossos filhos transmitirão sua auto-aceitação para os filhos deles e aos filhos de seus filhos.
Desenvolver o potencial que temos como seres humanos é um desafio para toda a vida. Ser ou não ser você,
plenamente – essa a questão de toda a sua vida.

Enquanto você se empenha em melhorar as suas atitudes para com você mesmo, seus filhos não têm de ficar à
espera. Coloque-os em contato com outros adultos e crianças que gostem deles tal como são. Estimule as atividades
que lhes proporcionam êxito. Eles precisam de espelhos positivos, mas, se necessário, a sua autoconfirmação pode ser
proporcionada por outras fontes, além de você.

Segunda parte

O CLIMA DO AMOR

7 O ENCONTRO AUTÊNTICO

A "substância" da vida

Todos nós sabemos que as crianças precisam de amor. A receita parece simples e clara: ame seus filhos e eles se
sentirão amados. Essa recomendação nos é feita muitas vezes. Não obstante, numerosas crianças cujos pais se
interessam profundamente por elas não se sentem amadas. Como isso pode acontecer?

Há uma confusão generalizada quanto ao significado da palavra "amor". Peça a uma meia dúzia de pessoas que a
definam e você, provavelmente, terá seis respostas diferentes. Mas a confusão não fica só nisso. Pergunte às pessoas
como acham que o amor é comunicado, e novamente você encontrará uma grande variedade de idéias. Algumas
crianças nunca ouvem as palavras "eu te amo", mas sentem-se profundamente amadas. Outras, mergulhadas na afeição
verbal, sentem-se não-amadas. Assim, o conselho "ame seu filho" deixa os pais no escuro, sem lhes dar nada de
concreto com que trabalhar.

Antes de poder analisar o clima que você proporciona, precisa saber o que é o amor estimulante e como ele se
comunica.

40
O amor estimulante é o cuidado carinhoso – é a valorização da criança apenas porque ela existe. Esse amor se
manifesta quando você vê seu filho como alguém especial e querido – embora você possa não aprovar tudo o que ele
faz.

70

Se você se sente assim em relação ao seu filho, então a questão fundamental é como comunicar os seus
sentimentos. Temos, em geral, noções muito vagas sobre como essa substância básica da vida é comunicada. Antes de
examinarmos os ingredientes específicos que traduzem o amor aos filhos, é importante examinar alguns equívocos
comuns.

Concepções erradas de amor

Muitas vezes achamos que os pais demonstram amor quando são afetuosos, colocam seus interesses
freqüentemente de lado em favor dos filhos, têm cuidado com eles, proporcionam-lhes boas condições materiais,
passam muito tempo com eles ou os tratam

como se fossem especialmente superiores. Esse comportamento, porém, não faz, necessariamente, com que as
crianças se sintam amadas.

Embora a afeição terna e o contato corporal estimulem o crescimento físico, mental e emocional, essa afeição não
assegura, por si só, que a criança se sentirá amada. O tratamento frio e impessoal, em especial nos primeiros anos,
prejudica todos os aspectos do desenvolvimento; e, além disso, a afeição recebida, por si só, não convence a criança de
que é amada. A criança precisa de muito mais para ter certeza disso. Muitas crianças de famílias afetuosas sentem-se
não-amadas.

O pai, ou a mãe, que continuamente põe de lado as suas necessidades pessoais para satisfazer a de seus filhos pode,
aparentemente, estar dando amor. Mas esse comportamento pode também mascarar um egoísmo intenso, uma baixa
auto-estima, o medo de conflito e até mesmo uma rejeição inconsciente. Ser uma espécie de satélite pessoal do filho
muitas vezes provoca ressentimento nos pais, e esse sentimento se comunica por meio da linguagem corporal. Viver
com martírio não é viver com amor.

71

O pai e a mãe atenciosos que guiam e dirigem todos os aspectos da vida da criança transmitem-lhe a idéia de que o
mundo é cheio de perigos que ela não pode enfrentar. A superproteção passa a mensagem "Você não é competente", e
não "Você é amado". Ela reduz o auto-respeito.

Os pais são aconselhados, com freqüência, a dedicar mais tempo aos filhos. No entanto, é a qualidade do tempo, e
não a sua quantidade, que afeta os sentimentos de ser amado. O sr. H. passa horas com seus filhos, participando, com
eles, de empreendimentos e jogos. Superficialmente, esse tempo parece ser uma prova de dedicação. Mas, se
observarmos melhor, ouviremos uma série de comentários como estes:

"Vamos, Jimmy, é a sua vez, não demore!”

"Você não está segurando o serrote direito. Quantas vezes já lhe disse para segurá-lo assim?”

"Por que você não joga a bola como seu irmão Quando você vai aprender a jogá-la com o apoio do ombro?”

"Você estragou esta pintura. Vamos, deixe que eu faço. Pelo amor de Deus, desta vez fique olhando como eu faço. Se
for para você fazer alguma coisa, faça direito!"

41
As horas passadas com os filhos são cheias de críticas, falta de respeito, comparações e exigências excessivas.
Quanto mais tempo os filhos passam com pais assim, menos adequados e amados se sentem. O tempo, por si só, não
corresponde necessariamente a amor.

Todos nós conhecemos pais que oferecem aos filhos generosas vantagens materiais. Contudo, como disse o filho de
uma dessas famílias: "Meu pai me dava o melhor de tudo. Ele insistiu em que eu colocasse obturações de ouro nos
dentes, embora pagar por elas custasse sacrifício. Mas eu nunca me senti amado."

Esse pai dava ao filho tais vantagens por amor, ou para satisfazer as suas próprias necessidades frustradas na
infância? Fazia

72

isso para corresponder à imagem que tinha do "bom" pai, ou para esconder, tanto de si mesmo como da criança, a
sua rejeição? As vantagens materiais podem ser oferecidas em substituição ao amor. É mais fácil dar presentes do que
dar alguma coisa de nós mesmos.

O sr. S. está convencido de que seu filho é excepcionalmente superior. Exagera as realizações do menino e espera
que ele realize coisas formidáveis. Observando o sr. S. poderemos achar que está "cego" de amor pelo filho. Mas, no
fundo, o menino sabe que a imagem que o pai tem dele não é verdadeira e acha impossível corresponder às suas
expectativas. O filho começa a sentir-se incapaz e não-amado, como realmente é.

Atribuir à criança um papel que satisfaz às nossas necessidades, e não às dela, não constrói amor. Toda criança tem
de se sentir valorizada, quaisquer que sejam as suas realizações.

Se não tivermos cuidado, poderemos confundir afeição física, martírio, superproteção, altas expectativas, tempo
dedicado aos filhos e presentes materiais com provas de amor. Elas podem, porém, obscurecer o carinho, a ponto de
este não chegar a se manifestar.

Os ingredientes positivos

Quais são então os ingredientes ativos que transmitem o amor – o tipo de amor que permite a uma criança
desenvolver um senso profundo de respeito próprio?

O amor se evidencia, de maneira clara, quando proporcionamos encontro verdadeiro e segurança psicológica.
Examinemos, inicialmente, o tipo de encontro que estimula, e no resto desta parte comentaremos os seis ingredientes
que criam a segurança psicológica. Para sentir-se amado, seu filho precisa de porções de cada um dos sete aspectos do
amor estimulante.

73

Encontro autêntico

Toda criança precisa ter encontros autênticos, verdadeiros, periódicos, com os pais.

O encontro autêntico é simplesmente a atenção focalizada.

É a atenção com uma intensidade especial, nascida da participação direta, pessoal. O contato vital significa estar
intimamente aberto às qualidades específicas e peculiares de seu filho.

Crianças muito pequenas demonstram, constantemente, uma atenção focalizada. Quando, por exemplo, uma
criança pequena observa uma lagarta, ela fica totalmente absorvida pelos movimentos ondulantes do animal, pela
maneira como ele come, etc. Fica pessoalmente envolvida com as "particularidades" da lagarta.

42
O oposto do encontro autêntico é o distanciamento. Você não focaliza a sua atenção intimamente; você se contém.
Só vê à distância, evitando um envolvimento pessoal. Muitos pais ficam fisicamente junto de seus filhos, mas,
mentalmente, sua atenção está em outra parte. A proximidade sem encontro autêntico não é a verdadeira proximidade.

Eles sabem quando a têm

As crianças são muito sensíveis ao grau de atenção focalizada que recebem. A sra. C. tinha duas babás idosas, que à
primeira vista pareciam tratar as crianças da mesma maneira. Seus filhos, porém, preferiam claramente uma delas.
Observando melhor, a sra. C. encontrou a razão: a babá preferida participava de tudo com as crianças. Quando elas se
aproximavam

com um inseto ou uma pedra que haviam encontrado, ela lhes dava a mesma atenção concentrada que dava aos
adultos.

74

A sra. N. ficou surpresa quando Molly disse o que sentiu na noite de seu aniversário. Depois do jantar, a mãe havia
levado Molly para um rápido passeio. Mais tarde, ao ir para a cama, Molly disse: "Adivinhe qual foi a melhor parte do
dia?”

"Ganhar a bicicleta que você queria?”

"Não, gosto da bicicleta e a festa foi boa, mas a melhor coisa foi nosso passeio agora à noite – andar de mãos dadas e
conversar sobre tudo o que aconteceu durante o dia."

A atenção concentrada – participação direta, "presença" – é, a qualidade que transmite o amor. Ela estimula o
respeito próprio no que há de mais íntimo, porque ela diz: "Eu me preocupo.”

Eles sabem quando não a têm

Para diminuir o ciúme que Barby tinha do bebê novo, a sra. D. passava algum tempo com ela todas as tardes. A
princípio a atitude da menina melhorou bastante, mas o ciúme voltou logo com toda a força. A sra. D. não podia
compreender por que o tempo que especialmente lhe dedicava já não produzia efeito. E descobriu a razão. Quando
começava a cansar-se de brincar com a filha, a sra. D. usava esse tempo para falar consigo própria mentalmente.
Pensamentos como "Devo lembrar-me de tirar a torta do congelador" e "Esqueci de escrever para Sara" passavam-lhe
pela cabeça. Ela se transferia para o seu mundo particular, e Barby percebia, imediatamente, o distanciamento.

Afastando a atenção das brincadeiras e dos seus planos pessoais, ela concentrou-a no nariz arrebitado de Barby, em
suas sardas, na luz que ia e vinha dos seus olhos. Abriu-se para a "singularidade" de Barby. É claro que, na medida em
que a sra. D. envolveu-se diretamente com sua filha, o ciúme de Barby desapareceu.

As crianças são programadas para uma "presença interior". Sem ela, o tempo passado junto aos pais é desperdiçado
e até

75

prejudicial. E, no entanto, com que freqüência damos presentes em lugar de presença!

Os problemas do não-encontro

A falta de encontro é facilmente interpretada como uma mensagem negativa.

Imagine-se conversando com o seu marido (ou com a sua esposa). Ele olha para você, mas você sente que sua
atenção está muito distante. Ele responde: "É, sim", "Sei", "É mesmo?". Você sente, imediatamente, que ele deseja que
você pare de falar para que possa continuar a ler o jornal, a fazer seu trabalho, ou a dedicar-se aos seus pensamentos

43
íntimos. Por mais que ele diga que gosta de você, se essa reação ocorrer com muita freqüência, você começará a
pensar: "Ele não está interessado em mim. Ele não se importa – talvez ele não me ame." O distanciamento constante é
interpretado como falta de interesse tanto pelas crianças como pelos adultos.

O contrário do amor não é o ódio, mas a indiferença. Nada comunica o desinteresse de maneira mais clara do que o
distanciamento. A criança não pode sentir-se valorizada por pais que estão sempre absorvidos pelos seus próprios
assuntos. Lembre-se de que

o distanciamento faz com que as crianças se sintam não amadas.

Por menores que sejam, as doses de encontro autêntico transmitem uma mensagem vital. A participação direta,
pessoal, diz: "É importante para mim estar com você." Do outro lado dessa linha de comunicação, a criança conclui: "Eu
devo ter importância, porque meus pais dedicam tempo para se envolverem com a minha pessoa.”

76

Excesso de ocupação neutraliza a "presença"

Quantos encontros autênticos você dá realmente aos seus filhos?

Nós, pais e mães, somos pessoas tão ocupadas! Temos tanta coisa em que pensar! É certo que amamos nossos
filhos, mas temos tarefas a executar, planos a cumprir, tanta coisa para fazer, impostos e empregos, lavanderia e lixo,
encontros e aulas – e assim por diante, até à noite. Apressamo-nos em concluir uma tarefa para passar à seguinte da
nossa lista. Mas o excesso de ocupações dificulta os encontros humanos.

A sra. R. preocupa-se muito com seus filhos, mas no que ela pensa durante o café da manhã? Ela resmunga: "É, é",
para a história que Tom lhe conta, enquanto coloca um grampo no cabelo de Kathy, dá uma olhadela rápida nas
manchetes dos jornais, toma um gole de café e tenta lembrar-se do bacon que está quase queimando.

A família senta-se à mesa para o café da manhã, e novamente Tom começa a tentar comunicar uma experiência. Ela
o interrompe: "Ah, é mesmo, Tom? Kathy, por favor, incline-se sobre o prato, você está sujando tudo com migalhas de
pão. Bobby, você fez os seus deveres? Tom, você tem de trocar essa camisa, há uma mancha grande nela."

Não intencionalmente, sem compreender a importância do encontro, nós falamos, falamos, falamos. O
envolvimento profundo com nossos compromissos lá fora impossibilita a nossa presença aqui, agora. Poucas pessoas
vivem o presente com uma atenção concentrada. Fechados no passado, ou concentrados no futuro, não estamos no
presente que, afinal de contas, é o único tempo que na realidade temos. Queremos estar em toda parte ao mesmo
tempo. E assim, num certo sentido, não estamos em parte alguma.

77

Toda pressão que é eliminada representa tempo para você dedicar ao seu filho. Todos nós devemos perguntar: "O
meu comportamento dá prioridade a coisas e planos, ou a seres humanos?"

Um menino definiu os avós como "pessoas que têm tempo para as crianças". O que ele não disse foi: "Os pais estão,
muitas vezes, preocupados demais para ter encontros autênticos com os filhos.”

Qual é o seu enfoque?

Você se concentra tanto em fazer coisas para o seu filho que se esquece de se concentrar nele como pessoa? Você
corre tanto para preparar os doces, coser as roupas, ganhar dinheiro para a educação dele, que se esquece de seu filho
como pessoa?

Ou você reserva tempo – para aqueles momentos em que ele vem com um pensamento ou uma emoção, ou durante
um momento especial com o qual ele pode contar – para abrir-se totalmente para ele? Essa pergunta é respondida
44
todos os dias pelo seu comportamento. Você pode perder de vista a maravilha que é o seu filho, se se preocupa com
atividades, com o passado ou com o futuro, em lugar de se preocupar com a "particularidade" dele nesse momento.

Pratique seu enfoque

Se você está descontente com seus encontros, pode modificar o seu enfoque. Talvez você tenha passado muitos
anos correndo e concentrando-se nas coisas a fazer, e agora é difícil passar para o estar-no-presente com a pessoa de
seu filho. Se assim for, pratique o enfoque do presente, a princípio em situações não-pessoais.

78

Escolha uma ocasião em que esteja sozinho. Deixe de lado todos os outros pensamentos e concentre-se no aqui-e-
agora. Nada de planejamento, nem de lembranças.

Concentre-se totalmente na sua tarefa, seja ela lavar os pratos ou o carro. Fique completamente receptivo à
sensação da água. Olhe atentamente para as bolhas. Você vê alguns reflexos? Imagine que está vendo a água molhar o
carro, ou os pratos, pela primeira vez. Quer esteja numa cadeira de balanço, ou dirigindo numa estrada, feche seu
pensamento a qualquer outra coisa e preste atenção – atenção concentrada – apenas no que vê, ouve, cheira e sente
naquele momento.

Em geral, nós só podemos ficar no momento, no aqui-e-agora, por rápidos períodos; depois deles, nosso
pensamento se perde. Mas pratique. Veja se consegue aumentar o tempo de duração de sua atenção concentrada
quando está sozinho.

Em seguida, pratique o estar aqui-e-agora com seu filho. Fique totalmente com ele, mesmo que seja apenas por
alguns minutos. Deixe tudo de lado, exceto o seu encontro direto. Olhe para ele com novos olhos. Entregue-se a sua
admiração por ele. Enquanto você não se abrir para seu filho, no processo de transformação, de desdobramento e de
evolução, você realmente não o verá tal qual ele é. Quem é ele? Veja novamente com olhos de ver e ouvidos de ouvir e
com um radar sensível. Como é ele agora, neste momento? Verifique constantemente a sua margem de "atenção
concentrada". Pode ser boa este mês, mas sob a interferência das pressões você pode esquecê-la.

Estar aberto para seu filho é uma habilidade que pode se transformar num hábito. O encontro verdadeiro traz
dividendos consideráveis, permitindo que seu filho se sinta amado.

79

Quantidade de encontros

Com que freqüência as crianças precisam de encontros? Quanto mais freqüentes, melhor; mas o encontro constante
não é necessário. Não nos sentimos, habitualmente, rejeitados por falta de atenção exclusiva. É quando os outros nunca
têm tempo de estar realmente conosco, que nos sentimos pouco importantes. Se seus filhos sentirem a sua presença
total,

periodicamente, eles poderão tolerar os momentos em que a sua atenção está em outro lugar.

O encontro reforçado

A criança precisa da atenção concentrada em maior dose quando está sob pressão. Fatos novos como o nascimento
de um irmãozinho, uma nova escola, uma mudança, competição excessiva, e grandes decepções, serão mais toleráveis
para a criança se ela tiver estímulos de encontros verdadeiros com as pessoas que considera importantes. As tensões
internas que surgem quando as crianças sofrem mudanças significativas em seu desenvolvimento são diminuídas pelo
envolvimento direto de pessoa-a-pessoa. Esteja alerta para as ocasiões em que seus filhos precisarem especialmente de
sua atenção concentrada. Os encontros verdadeiros com você reduzem muito a pressão sofrida por eles.

45
Encontros marcados

Quando você perceber que seu filho está sofrendo pressões interiores, ou exteriores, marque com ele um encontro
permanente em que possa comparecer. Podem ser vinte minutos por dia, ou uma hora por semana. Esse entendimento
é útil, quer seu filho precise dele ou não. A mãe, que reservava as tardes de segunda-feira para ficar sozinha com a filha,
contou que a criança considerava esse momento como a sua "hora favorita".

80

Muitas vezes nós só usamos a atenção concentrada quando há um comportamento censurável. Nessas ocasiões,
interferimos como um relâmpago. Mas as crianças precisam de encontros vitais, mesmo em épocas tranqüilas. E é claro
que, quanto mais a criança estiver convencida de que você se interessa, menor será a probabilidade de que se comporte
mal.

Você pode dizer a uma criança, muitas vezes, que a ama, mas é a maneira pela qual convive com ela, dia após dia,
que prova esse amor.

Obstáculos ao encontro

Quanto mais realizado você for, mais fácil será oferecer atenção concentrada. As necessidades interiores podem
pressionar tanto que literalmente impeçam você de estar com seu filho. É impossível estar meio atento e estar
plenamente com outra pessoa, ao mesmo tempo.

A auto-estima da sra. G. era extremamente baixa. Seu desejo de perfeição (sua condição de auto-aceitação)
influenciava sua opinião sobre tudo e todos. Tinha dificuldade em dedicar tempo à filha porque tinha sempre alguma
coisa a melhorar.

Mesmo quando estava a sós com Virgínia, dificilmente lhe dava atenção. Quando a filha sorria, a sra. G. pensava:
"Temos de começar a economizar para os dentes dela." Observando o perfil de Virgínia, a mãe lembrava-se novamente
de quanto havia desejado que ela herdasse seu nariz arrebitado e não o nariz grande do pai. Quando olhava o cabelo da
filha, preocupava-se com a sua aparência. Sua fome de perfeição deixava-a cega às singularidades da filha.

Quando você tem uma boa auto-aceitação fica mais livre para focalizar a atenção no seu filho, sem ser pressionado
por necessidades interiores. As inadequações pessoais não impedem os

81

encontros vitais, mas, se forem insistentes, será necessário maior esforço para deixá-las de lado por alguns
momentos.

O encontro autêntico é um fator poderoso para transmitir o amor aos filhos. Mas é apenas um dos elementos
essenciais. Se ele não for combinado com a segurança psicológica, não surtirá efeito. Vamos examinar cada um dos seis
aspectos da segurança isoladamente.

8 A SEGURANÇA DA CONFIANÇA

Antibiótico para a neurose

Nós não tentamos criar problemas para as crianças. Quando os sintomas aparecem - asma, úlceras, más notas, ou
promiscuidade - ficamos realmente surpreendidos.

Em geral, não temos consciência de que a neurose surge quando as crianças se sentem inseguras. O fato de não
sermos capazes de oferecer segurança pode ser um choque para nós. Na verdade, pensamos na segurança apenas em
termos físicos e ficamos no escuro quando a segurança psicológica é mencionada. Não obstante,

46
o FUNDAMENTO do amor que alimenta é a segurança psicológica.

Combinado com o encontro verdadeiro, os seis ingredientes da segurança são antibióticos contra as neuroses. Sem
eles, as crianças aprendem a usar máscaras e são levadas à alienação, às defesas doentias e ao crescimento deformado.

Uma advertência

Antes de examinarmos a segurança devemos fazer uma advertência: nenhum pai ou nenhuma mãe pode oferecer
um clima permanente

84

de segurança para todos os filhos, em todos os momentos, porque pais perfeitos não existem.

Por mais duro que seja admitir, todos nós temos deficiências que, às vezes, ferem aqueles a quem amamos.
Inevitavelmente, a convivência no meio psicológico e íntimo da família gera atritos. Essa é uma realidade da vida.
Felizmente, a maioria das crianças não é excessivamente frágil. Seus ferimentos psicológicos saram e elas ficam
novamente perfeitas. São levadas a desenvolver interiormente o respeito próprio e, se tiverem oportunidade,
realmente o farão.

A primeira preocupação

Imagine-se sendo enviado subitamente para Marte e cercado de criaturas estranhas. Sua primeira preocupação
seria: "Estarei seguro? Como será este lugar? Poderei confiar nessas criaturas?"

Toda criança que é lançada em nosso planeta está em condições semelhantes. Embora não pense nesses termos,
suas primeiras sensações lhe dizem se pode contar com a nossa ajuda para satisfazer suas necessidades físicas e
emocionais.

O fundamento da segurança é a confiança.

Sem ela, o crescimento posterior repousará em areias movediças, afetando todo o desenvolvimento futuro.

A maioria dos bebês, embora nem todos, sente necessidades intensas e imediatas, e não tolera as frustrações. A mãe
que estabelece uma hora para alimentar o filho, atendendo às necessidades deste, respeita os seus sinais de que está
satisfeito, introduz aos poucos novos alimentos e o desmama lentamente, ajuda o bebê a se sentir seguro. O respeito
pelo modo de ser da criança e a amizade criam a confiança.

85

Mães tranqüilas ajudam seus filhos a se sentirem seguros. Alguns pais e mães são verdadeiros feixes ambulantes de
tensões, e seus filhos sentem isso. As tensões entre os pais, verbalizadas ou não, e as tensões resultantes da inquietação
emocional são rapidamente sentidas pelas crianças. Elas devem ser solucionadas para que as crianças se sintam seguras.

A confiança é criada de muitas maneiras. Deixe seu filho saber quando você sai e aonde vai, e quando voltará. Evite
surpresas desagradáveis. Ajude as crianças nas consultas ao dentista, ao médico ou ao hospital, dizendo-lhes
francamente o que podem esperar. Prepare-os antecipadamente para a escola maternal e para o jardim-de-infância.
Evite as promessas que não podem ser cumpridas. Estas são apenas algumas recomendações para criar um clima de
segurança.

A armadilha da mensagem mista

Muitos pais ou mães podem provocar, inconscientemente, a desconfiança nos seus filhos por deixarem de ser
honestos com eles a respeito de seus próprios sentimentos. Vejamos como isso acontece.

47
Bobby ao voltar da escola encontra a mãe lavando violentamente o chão da cozinha. Inclinada sobre o esfregão, com
os maxilares muito cerrados, ela levanta os olhos e diz rispidamente: "Olá."

Sentindo imediatamente alguma coisa de errado, Bobby pergunta: "O que houve, mamãe?”

"Nada, Bobby", responde ela secamente.

Ele conhece a mãe o suficiente e prefere não dizer mais nada; mas sai pensando: "Meu Deus, será que ela descobriu
aquele sapo debaixo da minha cama? Ou está com raiva de alguma outra coisa que eu tenha feito?"

A confusão de Bobby é compreensível, pois ele recebeu duas mensagens: uma das palavras da mãe ("Nada"), e uma
outra,

86

contraditória, do seu tom e do seu corpo ("Alguma coisa está realmente errada"). Sempre que as palavras contrariam
a expressão corporal, a criança se vê numa armadilha mista. A confusão a força a tentar adivinhar o que aconteceu.

Toda criança aprende a confiar primeiro nas indicações não-verbais. Quando estas entram em choque com as
mensagens verbais, ela naturalmente dá prioridade às primeiras. Confia nelas, mas, ainda assim, tem de levar em conta
as palavras.

As desvantagens das mensagens mistas

As mensagens mistas criam um clima de códigos e de máscaras que ensinam a desconfiança.

Quando você leu a primeira parte deste livro, que trata da importância dos reflexos positivos na vida da criança,
pode ter se perguntado por que não podia desempenhar apenas o papel de espelho positivo. O problema é que a
maneira como nos sentimos se manifesta involuntariamente no comprimento de onda não-verbal. Você sabe disso pela
sua própria experiência. Se a sua mulher finge ser a sra. Agradável, você percebe imediatamente a sua insinceridade. Se
o seu marido quer passar pelo sr. Paciente, você descobre logo. Não podemos conviver com os outros, especialmente
com as crianças, dia após dia e enganá-los quanto aos nossos verdadeiros sentimentos.

Exemplos de que a fachada falsa não funciona encontram-se nas famílias muito tolerantes. O sr. e a sra. G., por
exemplo, desempenham o papel de pais que fazem tudo o que os filhos querem, mesmo quando, no fundo, são contra.
Escondem seus sentimentos com palavras falsas, mas seus ressentimentos vão se acumulando e acabam por ser
revelados em expressões tensas, sarcasmos ou sorrisos forçados.

Algumas das crianças mais infelizes vêm de famílias mais tolerantes (em que os pais disfarçam seus verdadeiros
sentimentos)

87

porque estão mergulhadas numa corrente constante de mensagens mistas. As situações extremas, nas quais os pais
continuamente dizem o oposto do que sentem, contribuem para a esquizofrenia. O esquizofrênico tem uma
desconfiança profunda das pessoas, provocada pelas comunicações disfarçadas e deformadas com que teve de
conviver.

Uma outra desvantagem das mensagens mistas é que as crianças colocam os seus problemas pessoais na
ambigüidade que lhes é transmitida. Em nosso exemplo anterior, Bobby já se sentia culpado por ter um sapo escondido
debaixo da cama e pensou, em primeiro lugar, que seu segredo havia provocado a raiva da mãe. Mas, se a sua principal
preocupação fosse a dúvida quanto ao amor dela, ele poderia ter incluído essa ansiedade nas mensagens duplas que
recebeu. Poderia ter pensado: "Acho que mamãe não está contente de me ver de volta da escola. Talvez ela não
quisesse que eu fosse seu filho."

48
Nenhuma criança pode ter confiança a menos que as pessoas à sua volta expressem sinceramente os seus
sentimentos. As mensagens mistas eliminam a segurança e o amor.

O ingrediente isolado mais importante numa relação estimulante é a sinceridade.

Provavelmente nós gostamos tanto das crianças pequenas pela sua sinceridade. Quando estão com raiva, nós
sabemos; quando estão satisfeitas, enviam mensagens bastante claras. Com elas, nós sabemos onde estamos.

A piada comum, "Vou sair agora, e vocês podem falar mal de mim", é engraçada porque é verdadeira. Sentimos,
muitas vezes, que as pessoas são cordiais conosco de forma superficial, mas ficamos pensando o que dirão de nós, por
trás. Com amigos verdadeiros não temos essa sensação; na verdade, damos valor àqueles em quem confiamos porque
nos sentimos seguros. E as crianças reagem do mesmo modo.

88

Evitar as mensagens mistas

A transmissão de mensagens mistas é um hábito que deve ser suspenso. Nós o fazemos simplesmente por imitação.
Podemos escolher esse caminho por temer a desaprovação ao expressarmos nossos sentimentos com sinceridade.
Podemos hesitar em nos expor ou temer certas emoções. Por vezes damos respostas falsas por ser mais fácil do que
tentar conhecer os nossos sentimentos reais. Outras vezes, disfarçamos porque temos medo de que a nossa franqueza
fira os outros. (A maneira de evitar essa cilada será vista no capítulo seguinte.) Há, porém, coisas muito sérias em jogo, e
devemos fazer um esforço total para evitar mascarar os nossos sentimentos.

Como você poderá evitar as mensagens mistas se na realidade não quiser partilhar os seus sentimentos? Voltemos à
mãe de Bobby. Suponhamos que ela estivesse preocupada com uma questão pessoal, mas não quisesse dizer a Bobby.
Poderia, então, ter respondido: "Meu filho, estou preocupada com um problema de gente grande que não quero
comentar com você." Agora que as palavras e a expressão corporal correspondem, Bobby não se sente confuso com as
contradições.

Por outro lado, suponhamos que ela tenha encontrado o sapo escondido, mas que sinta que vem implicando demais
com Bobby ultimamente. Uma parte dela quer expressar sua frustração, mas outra sente que seria melhor não dizer
nada.

É claro que ela poderia dizer: "Prefiro não falar sobre o que está me preocupando." Mas, nesse caso, ela corre o risco
de acumular irritações que podem explodir mais tarde com um incidente sem importância. A alternativa é a sinceridade
com relação aos dois sentimentos. Ela poderia dizer: "Bobby, encontrei o seu sapo e francamente estou aborrecida
porque você não seguiu a regra de nossa família. Mas ultimamente, ao que parece, eu venho implicando muito com
você, e um lado meu não quer falar no sapo.

89

Estou às voltas com dois sentimentos. Um deles me deixa tão frustrada que tenho vontade de gritar, e o outro me
faz pensar que talvez eu tenha expectativas muito altas."

Compartilhar os sentimentos conflitantes é parte da sinceridade. Raramente temos apenas uma reação ante um
acontecimento; dois sentimentos opostos – ou mesmo quatro ou cinco – são mais freqüentes. Como as crianças são
extremamente sensíveis aos nossos sentimentos profundos, mostrar-lhes apenas parte do que sentimos pode provocar
confusão.

A abertura total é a sinceridade?

Você pode perguntar imediatamente: "Para criar confiança, eu deverei ser totalmente aberto, em todas as
ocasiões?"

49
Evidentemente, não. Você pode preferir guardar certos sentimentos para você mesmo, mas seja sincero quanto as
suas reservas. Se a mãe de Bobby tivesse dito: "Meu filho, estou preocupada com um problema de gente grande e não
quero falar sobre isso", teria guardado para si os detalhes, sendo franca sobre as suas reservas.

Se ela tivesse preferido dar-lhe algumas informações, poderia ter dito: "Ora, eu estou preocupada com uma briga
que tive com um vizinho, mas prefiro não entrar em detalhes."

Não importa que ela diga, o que não deve dizer é: "Não há nada", quando alguma coisa a está aborrecendo
realmente – isso se ela quiser que seu filho confie nela.

Simplesmente não é aconselhável ser totalmente aberto em relação a todos os seus sentimentos, com todas as
pessoas e em todas as ocasiões. Você mesmo terá de decidir quando, onde, para quem e quanto de seu mundo interior
deve ser compartilhado. Seja qual for a sua decisão,

seja sincero sobre suas reservas; não as mascare.

90

Mensagens diluídas

Uma forma menor de mascarar os fatos ocorre quando você transmite mensagens moderadas para disfarçar
sentimentos fortes. A raiva é a emoção que disfarçamos com mais freqüência. (Ver Capítulo 15 – Como decifrar o código
da raiva.)

Geralmente nós acreditamos que os sentimentos fortes indicam imaturidade. E, portanto, se os experimentamos,
procuramos controlar a emoção para nos enquadrarmos na nossa imagem de adulto amadurecido. Muitos homens
acham que sua masculinidade poderá ser posta em dúvida se demonstrarem emoções fortes, com exceção da agressão,
da raiva, ou do interesse sexual. Ensina-se aos meninos ocultar as decepções, a ternura ou o sofrimento, por exemplo,
para não serem considerados maus companheiros ou "mariquinhas".

A pessoa psicologicamente amadurecida reconhece que tem sentimentos e que poderá compartilhá-los quando lhe
parecer adequado. A auto-estima elevada está relacionada com a capacidade de ser aberto a todas as reações
interiores, porque os seres humanos, quer sejam homens ou mulheres, têm realmente todos os tipos de sentimentos
com intensidades variáveis. A pessoa dotada de uma auto-estima elevada não precisa negar o que sente. A aceitação de
si mesma lhe dá a segurança de ser aberta, pois não procura obter a aprovação dos outros. Ter sentimentos às claras,
portanto, indica uma auto-estima bem desenvolvida. (Sentimentos muito intensos, ou inadequados, para uma
determinada situação, mostram que alguma coisa está errada.)

As crianças percebem a discrepância quando usamos mensagens moderadas para sentimentos fortes, mas não
sabem por que nós os diluímos. Muitas crianças concluem: "Não é certo sentir com intensidade. Se meus sentimentos
não forem superficiais, é melhor fingir que são."

O nosso fingimento torna-se um modelo para ser imitado pelas crianças, ensinando-lhes a desconfiar dos
sentimentos fortes. Assim, elas passam a fazer um juízo íntimo de si mesmas menos

91

elevado devido ao que sentem. Nestas condições, a auto-estima não poderá ser sincera e sem reservas.

Você poderá perguntar: "Se eu resolver mostrar meus sentimentos, deverei mostrar exatamente a sua força, em
qualquer circunstância?”

50
É preciso considerar sempre a adequação. A sinceridade não significa transformar as crianças em muro de
lamentações emocionais. É possível harmonizar as palavras com os sentimentos e ainda assim transmitir uma
mensagem adequada.

A sra. V., por exemplo, teve um dia difícil, e a falta de cooperação do filho a irrita. Por um momento ela acha: "Ah,
quisera não ter tido filhos!". Mostrar esse sentimento seria terrível para George. Mas ela pode continuar aberta e fazê-
lo de maneira adequada, dizendo: "George, tive um dia horrível hoje! Preciso ficar só por algum tempo; não posso
conversar nada com ninguém agora!" Essa reação é sincera, pois expressa a necessidade da mãe de ficar alguns minutos
longe do filho, sem prejudicar a auto-estima dele.

Se a sra. V. em lugar disso tivesse falado: "George, você é sempre tão bonzinho para mim; essa falta de cooperação
nem parece que vem de você", é muito provável que a sua expressão corporal indicasse a George que ela estava
disfarçando a sua irritação verdadeira.

Se a sra. V. conclui que preferiria não ter tido filhos, ela precisa, agora, chegar à fonte de sua rejeição. Ou precisa
prestar atenção ao clima que cerca seus filhos e usar a disciplina construtiva para que o comportamento deles seja
menos censurável. Lembre-se:

Modere a sinceridade com a adequação, mas evite as mensagens mistas.

Você ousa ser humano?

A questão implícita aqui é se você ousa ser totalmente humano com os seus filhos, ou se acha que tem de se
comportar sempre sem mostrar irritação.

92

Esse pai ou mãe aparentemente "perfeito" é, com freqüência, um disfarce. As crianças precisam de contato vital com
pessoas reais e não com robôs mascarados, agindo segundo um programa. Como ser humano você pode ter todos os
tipos de sentimentos: fraquezas, desânimo, preocupação, cansaço e confusão. Nem por isso deixa de ser menos digno
ou menos forte. Na verdade, é preciso força para ser franco. Seu exemplo demonstra que os sentimentos são legítimos.
Os pais que reconhecem a sua condição humana evitam que os filhos escondam a deles.

Muitos pais perguntam: "Devo pedir desculpas ao meu filho quando faço alguma coisa errada, ou quando digo
alguma coisa inoportuna? O meu filho não me respeitará menos se eu reconhecer meus erros?"

Você perderia o respeito por alguém que admitisse ter errado? Você o respeitaria menos por ter pedido desculpas?
Dificilmente. É muito mais provável que seu respeito aumente devido à honestidade dessa pessoa.

A sra. T. costumava espancar os filhos quando se comportavam mal. Certo dia achou que não devia mais bater.
Depois de ter mantido sua resolução por algum tempo, em outra ocasião ela voltou a bater. Imediatamente
arrependeu-se e ousou ser franca com a filha.

"Tilly, não foi justo da minha parte bater em você, especialmente porque eu não permitiria que você revidasse.
Lamento profundamente. Eu gostaria de ter podido controlar os meus sentimentos."

Ela ficou surpresa com a resposta de Tilly:

"Ora, mamãe, tudo bem. Eu sei que você está querendo deixar de bater, assim como eu estou procurando não
trapacear mais no jogo de cartas. Mas às vezes é difícil a gente cumprir a resolução, não é mesmo?"

Até mesmo as crianças pequenas são surpreendentemente compreensivas quando somos francos e honestos com
elas. Não

93
51
importa se somos crianças ou adultos, todos respeitamos a sinceridade. Quando ela existe, podemos ter confiança.

Em lugar de decepcionar as crianças, a franqueza as atrai para nós. Faz com que deixemos de ser como deuses
distantes e nos transformemos em pessoas mais reais. Uma idéia falsa que costumamos ter – e que devemos questionar
– é que devemos bancar os deuses para conquistar o respeito das crianças. Tememos, freqüentemente, que a confiança
dos filhos em nós, como pais, termine se eles nos virem preocupados, perturbados, indecisos ou confusos. Mas os
sentimentos disfarçados e mascarados só tornam as crianças conscientes de nossa falsidade, destruindo-lhes a
confiança e levando-as a acreditar que será melhor fazerem a mesma coisa. Tanto os filhos quanto os pais estão em
melhores condições de acabar com as inadequações quando se sentem bastante seguros para revelá-las.

Além disso, nossas máscaras estimulam as crianças a erguer suas próprias fortalezas contra a intimidade psicológica.
E, nesse caso, ficam isoladas de toda a fonte do estímulo humano: as relações estreitas e autênticas com outros seres
humanos.

É claro que os comportamentos extremos magoam a criança. Se as explosões de violência dominam a vida dos pais,
um gesto positivo que eles devem ter é procurar assistência profissional adequada, pois essas violências indicam
deficiências interiores. E o pai, ou a mãe, pode ser honesto com seu filho, dizendo que está procurando não ser
dominado por todos os sentimentos. Essa sinceridade impede que as crianças acreditem que são elas a fonte das
tempestades emocionais.

Confiança e auto-estima

O que um clima de confiança transmite à criança?

Ele lhe diz: "Pode contar comigo para ajudá-lo a satisfazer suas necessidades. Eu não sou perfeito, mas você pode
confiar em minha

94

sinceridade – até mesmo em relação às minhas imperfeições. Você pode ser imperfeito também, e juntos podemos
tentar eliminar nossas deficiências. Se eu lhe oferecer algo menos do que a sinceridade adequada, estarei em falta com
você. As máscaras não são boas porque nos separam. Você está seguro comigo."

Uma atitude assim cria amor e respeito. Dá à criança a segurança de entender-se com os outros de uma maneira
cordial e aberta, porque aprendeu que é assim que deve ser. E os outros, por sua vez, podem confiar nela e respeitá-la.

Toda criança precisa ter a convicção segura de que pode acreditar no que seus pais dizem e confiar neles para
auxiliá-la na satisfação de suas necessidades físicas e emocionais.

Mas ser franco com a criança não basta. Você pode prejudicar ou favorecer a auto-estima dela, dependendo da
maneira como você lhe fala sobre os seus próprios sentimentos. Se a criança se sente segura com você é porque você se
comunica com ela de uma maneira não-crítica. No capítulo seguinte examinaremos as maneiras seguras de compartilhar
sentimentos.

9 A SEGURANÇA DO NÃO-JULGAMENTO

Reações versus julgamentos "Como posso ser sincera e franca com meu filho? Quando manifesto meus sentimentos
fortes, ele fica oprimido ou defensivo. Não tenho certeza de que isso lhe seja útil."

A observação dessa mãe é legítima.

Ser simplesmente franco com as crianças pode trazer resultados indesejáveis, mesmo quando se tem cuidado.
Alguns pais dizem aos filhos como se sentem e, ao fazê-lo, acabam com a auto-estima. Outros são sinceros e criam o
respeito mútuo. Onde está a diferença?

52
A distinção está na maneira de compartilhar os sentimentos.

"Você é grosseiro!", diz a sra. T. ao filho que a interrompe constantemente, durante uma visita a uma amiga.

"Estou cansada dessas interrupções", exclama a sra. M., quando seu filho repetidamente interfere nas suas
conversas.

As palavras da sra. T. a colocam no papel de juiz, e ela formula seu veredicto a partir de uma posição de
superioridade. O rótulo negativo, "grosseiro", atinge diretamente a imagem que seu filho faz dele mesmo.

A sra. M., ao contrário de sua amiga, evita bancar o juiz. Expressa suas reações ante o comportamento do filho
dizendo: "Estou cansada dessas interrupções." Ela transmite seus sentimentos

96

sem julgar. Em conseqüência, ela não atinge a auto-estima do filho.

Os julgamentos negativos transformam você num espelho negativo para seus filhos. E, o que é mais importante, eles
destroem o auto-respeito e a segurança. Diminuem, envergonham e castigam; fazem com que a criança não se sinta
amada. A demonstração das reações interiores sobre o comportamento, por outro lado, não interfere no auto-respeito,
não enfraquece a segurança, nem corrói o amor.

Para ter segurança as crianças precisam das reações reais dos adultos para manter seu comportamento dentro dos
limites adequados, e devem dispensar os rótulos que lhes damos. O não-julgamento é o segundo ingrediente da
segurança psicológica, pois

a culpa – ou julgamento negativo – está no centro da desordem emocional e da baixa auto-estima.

Como já vimos, toda criança assimila, em sua auto-imagem, os rótulos negativos e passa a se ver de acordo com eles.
A avaliação pessoal é sempre uma ameaça. Para realmente estimular, você deve passar do julgamento para o
comentário que provoque uma reação.

Imagine que você é uma criança e ouviu as observações das duas colunas abaixo. Quais são as suas reações? Que
grupo de observações reduz pontos na sua auto-estima?

A B "Você é impossível!" "Não posso suportar todas essas brigas!”

"Você é preguiçoso!" "Estou preocupada com as suas notas.”

"Você é pouco cuidadoso!" "Não estou disposta a cuidar de suas coisas!”

97

"Você é mau!" "Beliscar o pequeno Mike lhe causa dor, e não quero vê-lo machucado.”

As afirmações da coluna A lançam uma culpa. Não lhe provocam o sentimento de ser menos adequado como ser
humano? Por outro lado, os comentários da coluna B informam como os seus pais se sentem, sem atacar pessoalmente
os seus sentimentos.

Até mesmo as avaliações positivas (elogios) trabalham contra a segurança, pois todos os julgamentos colocam a
criança na posição de ter de viver com alguém que gosta de rotular. Não é preciso muito tempo para que a criança – ou
qualquer um de nós – descubra que a pessoa que avalia de maneira positiva também pode avaliar de maneira negativa.

Você pode evitar o papel de juiz simplesmente dizendo aos seus filhos qual a sua reação pessoal ante o
comportamento deles. Você pode dizer: "Eu realmente gostaria que você se lembrasse de arrumar seu quarto", ou

53
"Sinto-me bem sabendo que você se lembra das regras mesmo quando eu não estou!" Essas reações são mais úteis do
que o julgamento típico: "Você é um bom menino."

Muitas vezes ouvimos um dentista ou um médico dizer: "Seu filho é um bom paciente!". Seria muito melhor para a
auto-estima da criança se ele reagisse ao comportamento dela dizendo: "Jack não criou caso durante o exame, o que
tornou as coisas mais fáceis para mim. Obrigado, Jack, por me ajudar."

Assim, muitos pais ou mães mandam os filhos para uma festa, ou para a escola, com a velha observação que é capaz
de abalar a confiança: "Veja lá, hein, comporte-se bem!". O que significa: "Eu tenho minhas dúvidas a seu respeito."
Mas, se você disser: "Espero que você se lembre das regras", estará dizendo à criança

98

o que você pensa no momento, sem lhe impor um julgamento. Como iremos ver dentro em pouco, a dúvida sobre o
seu comportamento é muito diferente da dúvida sobre o seu valor como menino.

Essa é uma distinção que exige uma atenção cuidadosa.

Numerosos livros e artigos estimulam pais e professores a recorrer generosamente aos elogios. E muitas
experiências mostram que eles são bem melhores do que os castigos, como condicionadores eficientes de
comportamento. É claro; as crianças querem reflexos positivos e farão qualquer coisa para consegui-los. Elas querem a
nossa aprovação.

No entanto, há uma diferença sutil, mas ainda assim importante, entre os rótulos positivos ("bom" ou "comportado")
aplicados à pessoa de uma criança e a aprovação ("Eu aprecio" ou "eu gosto") dirigida aos atos. Para acreditar em si
mesma a criança não deve ter que questionar o seu valor como pessoa. Isso deve ser sempre bem compreendido. Essa
distinção não fica clara para a criança quando lhe dizem que ela é boa porque gostaram do que ela fez.

Separação entre o comportamento e o eu

Há um alto preço psicológico a ser pago para se conviver com os julgamentos: a criança aprende a considerar seu
comportamento como sinônimo da sua pessoa. A idéia de que uma pessoa e o seu comportamento são coisas
separadas talvez fique mais clara se você pensar no sol e em seus raios. Pense na bola de gases, que constitui o sol,
como sendo o núcleo interior da criança. Os raios de calor do sol podem ser comparados ao seu comportamento.

Porque o comportamento vem da criança, assim como os raios de calor vêm do sol, é fácil pensar: "Mau
comportamento, má

99

pessoa; bom comportamento, boa pessoa." Esse raciocínio não separa a criança dos seus atos.

Sempre que o valor pessoal depende do desempenho, fica sujeito a ser cancelado por qualquer erro.

O auto-respeito da criança varia constantemente, a menos que ela consiga andar na corda bamba de um
desempenho elevado. Esse "caminhar pela corda bamba", porém, exige uma vigilância permanente que serve apenas
para abalar a confiança.

Nenhuma criança comporta-se sempre de maneira aceitável. Quando as atitudes e palavras dos adultos igualam os
atos da criança com a sua pessoa, ela vive semelhante a um iô-iô. Seu valor pessoal sobe e desce de acordo com o seu
comportamento. Assim, a criança não pode desenvolver um sentimento sólido de valor pessoal porque há sempre o
"se-do-seu desempenho". Mesmo que você não acredite que o seu filho é aquilo que ele faz, o que você diz pode levá-lo
a pensar isso. As "reações do eu" eliminam esse perigo.

Evitar a armadilha do julgamento


54
Para evitar julgamentos diga ao seu filho o que está se passando no seu íntimo, sem usar rótulos.

As palavras rotuladoras - adjetivos e substantivos que descrevem uma pessoa – são as que causam problemas.
Palavras como "preguiçoso", "conversador", "bagunceiro", "grosseiro", "mesquinho", "egoísta", "levado", "bonzinho",
"bom", "mau", "vergonhoso", etc., têm, pela sua natureza, o caráter de julgamento. Esses rótulos não têm lugar no
vocabulário de adultos esclarecidos.

Em geral, o uso de "você", seguido de um substantivo ou adjetivo que descreva ou classifique a criança, representa
um julgamento.

100

Habitualmente "eu", seguido do que se passa no interior do adulto, constitui uma mensagem voltada para o
comportamento(1). Vejamos algumas outras mensagens enviadas primeiro como julgamentos e, em seguida, como
reações:

1. Agradeço a Thomas Gordon esse conceito.

"Julgamentos: Você" - "Você é um moleirão!”

"Reações: Eu" - "Tenho medo de que você chegue atrasado na escola”

"Julgamentos: Você" - "Você é porcalhão!”

"Reações: Eu" - "Eu não quero tirar esses pedaços de cortiça do chão!”

"Julgamentos: Você" - "Como você é bagunceiro!”

"Reações: Eu" - "Essa desordem realmente me aborrece!”

"Julgamentos: Você" - "Você é mentiroso!”

"Reações: Eu" - "Eu não posso confiar nas suas palavras quando elas não correspondem ao que você faz!”

"Julgamentos: Você" - "Você tem bom gosto!”

"Reações: Eu" - "Gosto do vestido que você escolheu.”

"Julgamentos: Você" - "Seu palerma! Não sabe fazer outra coisa a não ser brincar na rua?”

"Reações: Eu" - "Fico tão frustrada que não tolero isso. Já lhe disse várias vezes sobre o perigo de brincar na rua. Fico
morta de medo que você se machuque.”

Não se pode exagerar o fato de que os julgamentos criam problemas.

O segredo da segurança é reagir, mas sem julgar.

101

Praticando o não-julgamento

Deixar de julgar é muito difícil porque quase todos nós passamos a vida inteira sendo julgados. Os rótulos descritivos
são nossos companheiros mentais constantes. Quando alguém conversa conosco, nossos "computadores de
julgamento" funcionam a todo vapor. Julgamos silenciosamente com "Isso é bom", "Isso é bobagem", "Que atitude
estúpida!", "Essa é a maneira certa de pensar".

55
Podemos até mesmo fazer isso conosco. A sra. S. diz para sua amiga: "Ontem eu fiz isso e aquilo. Não foi um
absurdo?" A amiga responde: "Ora, isso não é nada. Certa vez eu fiz isto. Você já viu alguma coisa mais idiota?" Pregar
rótulos em nós mesmos e nos outros é um passatempo nacional. E raramente questionamos esse modo de pensar.

Você pode acabar com esse hábito adquirindo consciência de que está julgando. Quando ouvir a si mesmo fazendo
isso, transforme o julgamento numa reação. A sra. S., por exemplo, pode dizer: "Ontem eu fiz isto e aquilo. Meu Deus,
seria melhor que não tivesse feito" (Uma reação, não um julgamento.). Sua amiga pode responder: "Eu sei o que você
quer dizer. Uma vez eu fiz isto. Como me arrependi!"

Para fugir do carrossel do julgamento, anote algumas das frases que você usa a seu próprio respeito e a respeito de
seus filhos - as frases com "você", seguidas de palavras descritivas. Em seguida, reescreva cada uma delas como uma
manifestação de seus sentimentos interiores.

Evidentemente, a consciência não eliminará o seu antigo costume da noite para o dia. A vigilância constante e a
prática podem, porém, transformar você, e as recompensas valem bem o esforço.

102

Vantagens da "reação-eu”

"Sim" - você pode dizer -, "mas meu filho será julgado por amigos, professores e empregadores, portanto não será
melhor que se acostume com isso desde cedo, em casa?”

É certo que toda criança será rotulada, de um jeito ou de outro, no mundo exterior. Mas ela provavelmente terá
mais condições de ignorar esses julgamentos, vindos de pessoas que para ela nada significam, se as pessoas que
realmente lhe importam não a tiverem

mergulhado em avaliações pessoais, principalmente durante os anos de formação. A ausência de julgamento pelos
pais ajuda a criança a transformar os rótulos de outras pessoas em reações. Assim, a sua auto-imagem é poupada de
golpes desnecessários.

Os "julgamentos do tipo você" provocam a defesa e encorajam as crianças a se isolarem. E, é claro, se acreditarem
neles, acabarão prejudicando sua auto-estima, como já vimos.

Além disso, quando você não banca o juiz, seus filhos são muito mais capazes de compartilhar os sentimentos deles
com você. E também as suas "reações-você" lhes dão um exemplo construtivo para ser usado com os amigos.

Lembre-se:

Os julgamentos são cortinas de fumaça que impedem o amor de ser visto.

Quando seu filho vive com uma pessoa que reage, ele pode dizer:

"Eu sou amado embora nem tudo o que faço seja aceitável." A criança saudável vê a sua própria pessoa à parte de
seus atos. O sentimento do valor pessoal, independentemente do comportamento, é essencial para uma auto-estima
elevada. A maneira pela qual você fala com as crianças afeta a possibilidade de estas estabelecerem a distinção vital
entre o comportamento e o eu.

10 A SEGURANÇA DE SER AMADO

Aceitação versus amor

Aconselha-se aos pais aceitarem seus filhos tal como são. Mas "aceitação" é uma palavra muito suave quando
examinamos o clima do amor. "Aceitação" pode significar a tolerância do inevitável – tufões nos Estados Unidos,
espinhas na adolescência ou a perna defeituosa de Johnny.

56
As crianças sobrevivem com a aceitação, mas não se desenvolvem plenamente.

Elas precisam de alguma coisa mais forte; precisam de amor. Elas devem se sentir valorizadas, preciosas e especiais,
apenas porque existem. Só assim poderão gostar do que são.

Amar não é algo que você transmite necessariamente da boca para fora; é o sentimento que você tem para com o
seu filho. É sentir a singularidade da criança e descobrir que a quer. Apesar das irritações intermitentes, você continua
vendo as suas qualidades.

Por que o amor se perde

Nós, em geral, amamos nossos filhos; sofreríamos o resto da vida se eles morressem de uma hora para outra. Em
momentos de crise, não deixamos de lhes dar valor. Como, então, o amor se perde a ponto de nossos filhos não o
sentirem?

104

Uma das razões é a nossa tendência em aceitar, sem maiores exames, o que temos todos os dias. O direito de votar,
a liberdade de religião, a boa saúde – nós os amamos muito, mas, freqüentemente, não nos preocupamos com eles, a
menos que estejam ameaçados.

É por isso que esquecemos o milagre que cada criança representa – porque vivemos com ela o dia-a-dia.

Damos, em geral, um tratamento especial aos bens materiais preferidos. É um estranho fenômeno que nos impede
de adotar a mesma atitude para com nossos filhos. Damos grande valor a eles, daríamos nossas vidas por eles. Porém,
muitas vezes os menosprezamos.

Essa incoerência merece um exame cuidadoso porque para a criança

o tratamento respeitoso é manifestação de estima.

Faça a si mesmo a pergunta: "Se eu tratasse meus amigos como trato meus filhos, quantos amigos me restariam?"

Nós nem pensaríamos em envergonhar ou analisar amigos em frente de outros, interrompê-los com sarcasmo,
humilhá-los, constrangê-los, espancá-los, ou dar-lhes ordens como se fossem soldados sob o nosso comando. É claro
que não. Mas pense como estas cenas são comuns:

"Ned é tão tímido! Por mais que eu o encoraje, ele parece ser incapaz de livrar-se da timidez", diz o sr. B. ao visitar o
vizinho em companhia do filho.

"Você está apenas se exibindo!", a sra. F. censura o seu filho na frente de quatro amigos.

"Por que você é tão mandão, Gene? Não sei como esses meninos brincam com você", grita o sr. E. para o seu filho,
ao vê-lo jogar com os colegas.

105

"Billy, se você comer essas batatas vai ficar ainda mais gordo do que é", diz a sra. T. ao filho, que sofre de excesso de
peso, na frente dos convidados.

Tratamos as crianças, repetidamente, como criaturas de segunda classe, destituídas de sentimentos; e, no entanto,
gostamos delas! Às vezes não levamos em conta a sensibilidade delas. A sra. A. e sua filha de dez anos estão almoçando
com a sra. L. As duas senhoras conversam animadamente durante quarenta e cinco minutos, esquecendo-se da outra
pessoa (embora seja uma criança), que come em silêncio. Nenhuma dessas duas mulheres pensaria em se comportar
dessa maneira se a terceira pessoa fosse outro adulto. Sem pensar, elas adotam com a criança um tratamento que seria

57
inaceitável para um adulto. E a necessidade que a criança tem de ser tratada com respeito? Ela não é menos sensível só
porque é pequena. O desrespeito sempre obscurece o carinho, impedindo que ele seja sentido.

Um comentário comum nas aulas de educação de pais é: "Essas aulas me fizeram começar a ver meu filho como uma
pessoa." Em geral, não desrespeitamos deliberadamente as crianças. Simplesmente as esquecemos e não nos
colocamos no seu lugar. Ou as tratamos como nós fomos tratados quando crianças.

O seu respeito pelos seus filhos reflete-se na maneira pela qual você os põe no colo, os segura, lhes dá banho, os
alimenta e lhes troca a roupa. Reflete-se no seu modo de falar, de brincar, de discutir e de castigar. Basta você aplicar a
Regra de Ouro para comunicar respeito.

Sempre que você faz com que a criança se sinta pequena, envergonhada, culpada, inexistente ou embaraçada, você
a menospreza; negar-lhe respeito destrói a segurança e prejudica a sua auto-estima.

Por vezes, o amor não é sentido pela criança porque você centraliza a sua atenção no que está errado e não no que
está certo.

1O6

Johnny traz para casa uma prova de matemática; vinte e sete problemas foram respondidos corretamente, mas três
não. O que faz seu pai? Censura os três problemas errados! Se perguntarmos ao pai de Johnny por que faz isso, ele dirá:
"Quero que saiba o que estava errado para não cometer os mesmos erros outra vez." Mas Johnny não ouve nenhum
comentário sobre os vinte e sete problemas que acertou!

Em muitas coisas pequenas esquecemo-nos de focalizar os dotes excepcionais de cada criança. Focalizamos aquilo
que ela não tem. Quando voltamos nossa atenção para as deficiências da criança, o amor se perde. Se ao seu filho falta
confiança em si mesmo, procure ver o que ele pode fazer. Mencione as coisas que ele consegue fazer e deixe de
focalizar o que não pode fazer. Seu senso de sucesso – vitória – é a chave para que acredite em si mesmo. Isso estimula
sua convicção de que tem alguma coisa a oferecer, levando-o a novos esforços.

Outro fato que interfere na comunicação do amor é a nossa tendência em ver a criança à luz dos nossos próprios
traços de personalidade. Valorizamos, nela, qualidades que ainda não se desenvolveram em nós. Inversamente,
tendemos a rejeitar na criança o que rejeitamos em nós mesmos, como já vimos no Capítulo 6. E ela paga o preço de
nossa própria falta de auto-aceitação.

A consciência desse fenômeno, por vezes, nos ajuda a aceitar melhor a nós mesmos e a nossos filhos. A sra. N.
confidenciou: "A sensibilidade de minha filha costumava me irritar. Mas é claro, eu sou terrivelmente sensível e não
gosto disso. Tive de fazer uma certa força, mas agora, quando ela manifesta a sua forte emotividade, eu digo para mim
mesma: 'Tudo bem, ela está reagindo da mesma maneira que eu – da maneira que eu gostaria de não reagir', e o
simples fato de reconhecer essa ligação torna a sua sensibilidade menos aborrecida.”

107

Como dissemos no capítulo anterior, se não considerarmos a criança independentemente de seu comportamento,
estaremos dando a ela apenas uma aceitação condicional. As reações-eu também têm um papel importante para
impedir que o amor se perca. Há várias coisas, então, que impedem que o amor chegue à criança: tratamento
desrespeitoso, esquecer que ela é um ser especial, focalizar as suas deficiências e não as suas realizações, não gostar de
ver nelas o que não gostamos em nós mesmos, os julgamentos do tipo "você", e confundir o comportamento com a
pessoa.

Ampliação da capacidade de amar

Qualquer esforço que você faz para aumentar a sua capacidade de amar reflete-se na auto-estima de seu filho.

58
Para começar, pergunte a si mesmo quanto você valoriza a si próprio. (Lembre-se: você faz com os outros o que faz a
si mesmo.) Em geral, não temos tempo para fazer um sério "auto-inventário". Agora é o momento de fazê-lo. Isole-se e
faça um exame interior.

Que qualidades especiais você tem como pessoa? Você compreende que não há nenhuma outra pessoa como você
em todo o mundo? Você tem certas capacidades e certa sensibilidade que são exclusivamente suas. Você tem uma força
especial que, de certa maneira, difere da força dos outros.

Escreva as qualidades que caracterizam o que você é. Se tiver problema com isso, converse com um amigo íntimo e
veja se juntos podem elaborar uma lista de suas "qualidades especiais".

Se você for como a maioria das pessoas, terá passado anos focalizando sua atenção no que você não tem. Agora,
inverta o seu enfoque e concentre-se em suas qualidades positivas. Coisas interessantes podem acontecer quando você
começa a se analisar.

108

Você pode tornar-se o otimista que vê o copo meio cheio, e não o pessimista que o considera meio vazio.

Em seguida, pergunte-se: "Eu trato a mim mesmo com respeito? Ou costumo menosprezar-me? Viajo de vez em
quando, compro alguma coisa, me permito uma pequena extravagância? Exijo, de maneira tranqüila, mas firme, que os
outros mostrem respeito por algumas de minhas necessidades? Ou faço o jogo do 'não sou importante'?

Respeito as exigências físicas e emocionais de meu corpo e procuro satisfazê-las? Tenho tempo para ficar com outras
pessoas que gostam de mim? Tenho tempo para fazer as coisas que gosto?" (Lembre-se: quanto mais realizado você for,
mais você estimula os outros.)

Pergunte, então, a si mesmo: "Eu acho que sou aquilo que faço?"

Ao ser cumprimentada por um trabalho que havia feito, uma mulher disse: "Fico contente por você gostar de mim."
Ela não separava o seu trabalho da sua pessoa. Um escritor disse: "Se você não gosta do meu livro, não gosta de mim."
Seu senso de valor pessoal não era intrínseco, mas dependia de seus escritos. Se Mary não gosta do ponto de vista de
Sally, ela não gosta de Sally. Ela não consegue separar as idéias da pessoa.

Infelizmente vivemos numa cultura do "realize ou pereça". Com freqüência, somos valorizados pelo que fazemos e
não porque existimos.

Se você pensa no seu valor apenas em termos de comportamento, é provável que as pessoas importantes com as
quais conviveu durante o seu crescimento lhe tenham transmitido essa mensagem. Idealmente, você deveria ter vivido
com reflexos que lhe diziam que tinha valor, simplesmente por estar vivo. Mas você não precisa continuar preso aos
reflexos do passado. Você pode mudar sua maneira de pensar, sozinho ou com ajuda.

109

Para libertar as crianças dos laços do "realize ou pereça", você tem de libertar-se primeiro desses laços. Você
transmite essa distinção importante de maneira mais clara através de suas próprias atitudes para consigo mesmo.
Quando você valoriza a sua singularidade (embora tenha consciência de suas deficiências), quando se respeita e focaliza
a atenção nas suas qualidades positiva, você está mais livre para amar seus filhos.

Quando os pais não podem amar

E se você concordar sinceramente com tudo isso, mas não conseguir valorizar o seu potencial, nem o potencial de
seus filhos? Então seu problema é a incapacidade de amar.

59
Você precisa de espelhos positivos em sua vida. Procure-os. Se seus amigos não o valorizam como ser humano, faça
novos amigos. É possível que os outros o valorizem e que você não se deixe atingir pelos reflexos positivos. Ou você
pode se esconder atrás de uma máscara, de modo que os outros não possam estimulá-lo. De qualquer modo, você pode
conseguir ajuda para acabar com a sua auto-estima insuficiente.

Esforços contínuos e o crescimento, por sua vez, podem ser necessários, mas você pode aprender a encontrar valor
em si mesmo se tiver contato com a aceitação. Você pode depor o juiz tirano que tem dentro de si mesmo; se não
puder, procure ajuda.

As vantagens de ser amado

Se o valor pessoal não está condicionado ao comportamento, a criança pode escolher metas mais realistas e que
mais gostaria de atingir. Os sucessos resultantes aumentam o seu respeito próprio. Quando a criança sabe que os erros
de comportamento

110

não diminuem o amor de que é objeto, tem mais tolerância para com os erros dos outros e pode passar a valorizar
essas pessoas. Ela não tem de focalizar a atenção nesses erros porque as pessoas importantes na sua vida não
focalizaram a atenção nos seus. Essa atitude atrai os outros, permitindo um entendimento melhor com eles.

Quando não há ligação entre os erros e o valor pessoal, esses erros tornam-se menos arrasadores. E então a criança
pode considerá-los como áreas em que poderá melhorar e não como catástrofes pessoais; eles poderão ser enfrentados
e resolvidos.

Scott vinha de uma família que o amava de acordo com o sucesso que obtinha na escola. Em conseqüência, qualquer
nota um pouco mais baixa o fazia tremer. Observá-lo, quando fazia uma prova, era observar uma figura de pura tensão.

Para ele o desempenho era uma luta de vida ou morte; acreditava que o seu valor pessoal dependia da nota de cada
trabalho. A tensão acabou criando dificuldades ao aprendizado; ela literalmente o impedia de pensar com clareza. Ele
tinha que ter um bom desempenho, e essa imposição minou a sua criatividade.

"Espere um pouco", você poderá dizer. "No Capítulo 2 li que as crianças precisam de êxitos para se sentirem
competentes e terem idéia do seu valor. Como harmonizar essas duas afirmações?”

É certo que todas as crianças precisam conhecer a sua competência para criar o respeito próprio. Mas toda criança
precisa sentir que sua pessoa é amada, qualquer que seja a sua competência.

O desempenho bem-sucedido constrói o sentimento de valor; ser querido como pessoa estimula o sentimento de ser
amado.

Toda criança precisa sentir-se amada e valorizada. Mas a capacidade de ser amada não deve estar ligada às
demonstrações de valor. Quanto mais amada a criança se sente, porém, mais satisfatório será o seu desempenho, pois
ela gostará de si mesma.

11 A SEGURANÇA DE POSSUIR SENTIMENTOS

Rejeitando o domínio "Eu quero um doce agora", choraminga Teddy, de dez anos, às onze e meia da manhã.

"Você não pode querer doce agora, isso estraga seu apetite para o almoço", responde a sra. L., sacudindo
negativamente a cabeça.

Brian, de nove anos, bate em seu irmão menor. A mãe diz: "Pare com isso, menino. E diga ao seu irmão que você
está arrependido!"

60
São essas algumas das nossas maneiras de não permitir que as crianças sejam "donas" de seus sentimentos. Dizemos
a elas que suas emoções estão erradas, que são impróprias e mesmo que não existem. E agravamos o erro
determinando quais os sentimentos adequados à ocasião. A sra. L. diz a Teddy que ele não quer doce agora. A mãe de
Brian exige que o arrependimento substitua a raiva.

Isso quer dizer que a sra. L. deveria deixar Teddy comer o doce sempre que ele quisesse? A mãe de Brian deveria
deixá-lo bater no irmão quando quisesse? Certamente, não! Mas

a segurança psicológica é enfraquecida quando a propriedade dos sentimentos é negada.

O respeito pelos sentimentos da criança é parte do respeito à sua integridade. As emoções mostram-se de forma
espontânea e são parte integral do eu de cada pessoa.

112

Sem nos darmos conta disso, tratamos as crianças como computadores emocionais, tentando programar nelas
reações adequadas. Queremos que elas se sintam arrependidas quando nós estamos arrependidos, que tenham fome
quando nós temos fome, que se preocupem quando nós estamos preocupados, e assim por diante. Pedimos às crianças
que regulem seus sentimentos pelos nossos e nos irritamos se não o fazem.

Quando você determina os sentimentos que a criança deveria ter, está literalmente pedindo a ela que abandone a
posse de suas experiências pessoais, íntimas. Mas ela não pode fazer isso. Ela não tem o poder de fabricar emoções: só
pode reprimi-las ou fingir. As emoções ocultas continuam muito vivas (ver Capítulo 14) e a longo prazo, invariavelmente,
dão a última palavra.

Os sentimentos recusam-se a obedecer ordens.

Anote: deixar que a criança seja "dona" de seus sentimentos não significa deixá-la fazer tudo o que quiser. Há uma
grande diferença entre impedir um ato e impor uma emoção. O comportamento precisa, com freqüência, ser contido.
Estamos falando apenas da liberdade de sentir, não da liberdade de agir. (Voltaremos ao assunto no Capítulo 14).

No caso do doce, é a sra. L., e não Teddy, que deseja que o doce seja comido depois do almoço. Não
intencionalmente, ela pede ao filho que sinta o mesmo que ela. Poderia ter evitado a armadilha, dizendo: "O doce seria
gostoso agora, Teddy." (Isto quer dizer: "Você tem o direito de achar assim, mesmo que sua opinião seja diferente da
minha".) "Mas você terá de esperar até depois do almoço e comê-lo como sobremesa" (e aqui ela limita a ação dele).
"Se você está com fome, eu preparo logo o almoço."

Brian bateu no irmão porque estava com raiva. As palavras da mãe não acabam com a sua hostilidade; elas lhe
pedem que minta, provocando um ressentimento maior e culpa. A mãe

113

pode deixar que ele continue com os seus sentimentos, enquanto limita o seu comportamento, dizendo: "Brian, pare
imediatamente de bater em seu irmão!" (ela limita seus atos). "Você está realmente com raiva a ponto de querer bater
nele, não é? Use este travesseiro e mostre-me o que você gostaria de fazer com ele." (Com isso ela estaria dizendo: "Os
seus sentimentos interiores são seus. Embora eu tenha que limitar o seu comportamento, ajudarei você a manifestá-los
de maneira segura.") Para a segurança psicológica, o direito de ter sentimentos deve ser protegido.

Individualidade e segurança É raro o pai ou a mãe que realmente concede ao filho o privilégio de ter seus
sentimentos próprios e peculiares. Por quê? Porque temos vivido com outras pessoas que insistiam em que sentíssemos
o mesmo que elas. E, se não tivermos cuidado, trataremos os nossos filhos como fomos tratados.

61
Além disso, é extremamente difícil deixar que as crianças tenham sentimentos que aprendemos a considerar
inaceitáveis. Suas emoções mexem com os nossos próprios sentimentos reprimidos e proibidos. Por isso, recuamos
alarmados e ensinamos as crianças a ser como fomos.

Quando a criança percebe, repetidamente, que só será aceita se for uma cópia emocional de seus pais e professores,
sua personalidade e sua segurança estão ameaçadas. Na maioria dos casos, o programa é: "Sinta como eu sinto para ter
o meu amor."

A sra. D. determina quanta comida seus filhos devem consumir em cada refeição e insiste em que comam tudo. Seus
padrões determinam a fome dos filhos.

A sra. W. diz ao filho, quando ele não gosta de um prato preparado por ela: "Você não sabe o que é bom." Aos seus
olhos, ele está

114

agindo de forma errada quando os seus gostos não coincidem com os dela. Essa atitude predomina em todas as
relações da sra. W. Ela não pode tolerar ou compreender nada que seja diferente de suas próprias experiências.

Muitas vezes achamos que estamos respeitando a individualidade quando permitimos a um adolescente escolher
suas roupas, as matérias de estudo e sua profissão. Apenas benefícios adicionais! Somente demonstramos um respeito
sincero pela criança quando não pedimos a ela que negue seus próprios sentimentos.

Os pais dão muito valor à individualidade, mas quando estão a sós se perguntam: "Por que Jimmy é mais positivo do
que Bob?”

"Marlene sempre se interessou por ciências. Não posso compreender por que Bob não gosta dessa matéria. Veja só,
eles são da mesma família!”

"Lou gosta de viver em sociedade; que pena que John não goste!”

"Se Eric fosse mais parecido com o meu calmo Van!"

E assim por diante, ad infinitum:

"Viva a individualidade; por que esta criança é tão diferente daquela?" E tudo isso na mesma hora!

"Viva a individualidade e a criatividade! Ufa! Nosso filho sente exatamente como eu!”

"Não posso compreender. Nossos filhos são tão diferentes quanto o dia e a noite." Essa observação, expressa com
muita freqüência, raramente é feita em tom de prazer, mas sim com surpresa ou desagrado.

O surpreendente não é que as crianças reajam de maneira diferente, mas que se pareçam. Cada ser humano, com
exceção dos gêmeos idênticos, é um acontecimento único e não se repete. E a essa individualidade herdada
acrescentamos o fato de que não há duas crianças que possam ter exatamente as mesmas

115

experiências ou o mesmo ambiente, não sendo de surpreender que sejam diferentes.

Sem considerarmos a hereditariedade, poderíamos pensar que três meninos com os mesmos pais, tendo a mesma
alimentação, vivendo na mesma casa, teriam o mesmo ambiente. Exteriormente isso pode parecer certo, mas seus
ambientes psicológicos diferem muito. Nós não reagimos a cada criança da mesma maneira. Cada um de nós está numa
etapa diferente de crescimento e sofre pressões diferentes de cada criança. Cada uma dessas crianças tem experiências
de grupos e de escolas diferentes. Muitos fatores se combinam para dar a cada criança um ambiente psicológico único.
E cada fator influi na maneira de a criança organizar suas reações.
62
De quem são as experiências?

Deixar que a criança seja dona de seus sentimentos levanta a questão sobre os vários tipos de lições que ela recebe –
um problema em muitas famílias. Pergunte a si mesmo: "Quem é dono da experiência?"

Quem pode saber o que desperta o entusiasmo de outra pessoa? Coloque a criança em contato com várias
experiências, mas conceda-lhe o direito de ter suas reações particulares. A segurança desaparece quando você decide
aquilo de que a criança "deve" gostar. E pisa num terreno perigoso quando você comunica às crianças que elas devem
gostar de certa experiência, para serem aceitas.

Mary Ann disse: "O que eu queria, ou preferia, não tinha importância. Minhas reações jamais pareciam ser
adequadas. Devia haver algo de errado comigo.”

O respeito à individualidade prova que você se importa.

116

Levar em conta as diferenças

A intensidade da pressão que você exerce sobre seus filhos, para que experimentem sentimentos iguais aos seus, é
evidenciada pela sua capacidade de vê-los como indivíduos e de tolerar as diferenças.

Examine a sua reação; ela mostra a sua capacidade de mudar e de crescer. E afeta a possibilidade de você permitir
aos seus filhos fazer a mesma coisa. Não deixe a questão de lado, tão depressa. Ouça o que você diz. Observe como
sente. Quando a diferença é vista sob uma luz negativa, você ensina que é errado ser diferente. E nesse caso você envia
reflexos negativos.

Acampar era muito aborrecido para Thelma, mas a família dela gostava muito. Respeitando as preferências da filha,
seus pais organizavam outros programas para ela quando iam

acampar. Não achavam que ela fosse uma desmancha-prazeres por ser diferente. O respeito dos pais permitiu a
Thelma apreciar seu valor como indivíduo, em lugar de considerar esse fato como um desgosto para a família.

Portanto, você só pode dar segurança quando

aceita as diferenças sem com isso retirar a sua aprovação.

Avaliando a tolerância à diferença

Para saber como você tolera a diferença, verifique primeiro o seu relacionamento com pessoas fora de sua família.

A sra. O. tinha dificuldades em se dar bem com os outros. Ela só se relacionava com pessoas que pensassem como
ela. Se você tiver uma atitude dessas para com as pessoas fora de sua família, é muito provável que seus filhos sejam
submetidos a uma dieta ainda mais concentrada de intolerância.

O poema "Os cegos e o elefante" trata dessa questão. Nele, um grupo de cegos encontrou um elefante pela primeira
vez.

117

Cada um deles tocou uma parte diferente do animal, acreditando saber como era o elefante. Aquele que tocou a
cauda disse que o bicho era como uma corda; o outro, que segurou a tromba, disse que era parecido com uma cobra;
um terceiro, que agarrou a perna, insistia em que era como o tronco de uma árvore; outro, finalmente, que se encostou
no dorso, estava convencido de que o elefante era como uma parede.

63
Cada um deles sentia o elefante de maneira diferente, e cada um tinha certeza de que a sua noção do animal era a
única "verdadeira". Nenhum deles levantou a possibilidade de haver outro ponto de vista igualmente razoável.

Como os cegos, freqüentemente temos uma experiência e acreditamos que, por reagirmos de determinada maneira,
a nossa é a única reação correta. Contudo, se aceitarmos sinceramente a individualidade dos outros, não deveremos
insistir em que nosso ponto de vista é o único certo.

Somos, até certo ponto, homens cegos que encontramos vários "elefantes da vida". Cada um de nós usa, em cada
situação, a própria singularidade, as experiências e os sentimentos passados. Cada um de nós vê as coisas de maneira
um pouco diferente.Você precisa lembrar-se sempre de que

seu modo de ver e de sentir não é a única maneira de ver e de sentir.

O ponto de vista da criança é, para ela, tão válido quanto a sua opinião é para você. A sua atitude deve ser: "A
criança é uma pessoa à parte, e os sentimentos dela lhe pertencem." Com isso será possível demonstrar amor e
proporcionar segurança.

Se você tem dificuldades em aceitar as diferenças nos outros, isso pode ser conseqüência de sua baixa auto-estima.
A pessoa que não tem um sentimento forte de seu valor pessoal é ameaçada pelas diferenças, particularmente em sua
família. Ela precisa que a família aprove seus vários pontos de vista, de modo que possa acreditar neles. Essa pessoa
precisa de apoio, exterior para confirmar

118

sua auto-imagem. Quando não recebe esse apoio, começa a sentir-se ansiosa, rejeitada, ou não-amada.

Se isso acontece com você, significa simplesmente que você deve procurar superar a sua falta de auto-estima.

O impacto sobre a auto-estima

Quando permitimos que a criança seja dona de seus sentimentos e reações, causamos um forte impacto sobre a sua
auto-estima, o que lhe permite dizer: "É bom ser como sou. Minhas experiências íntimas são legítimas, mesmo quando
diferem das experiências de minha família. Ter certos sentimentos em certas ocasiões não diminui meu valor como
pessoa."

A criança com essa convicção não se esconde atrás de fingimentos, nem procura impor suas percepções aos outros.
Em conseqüência, entende-se melhor com as outras pessoas.

É interessante notar que quando nos colocamos no lugar de nossos filhos, tentando ver o mundo do ponto de vista
deles, freqüentemente percebemos que esse ponto de vista é razoável. E nesse caso podemos oferecer compreensão e
segurança. Examinaremos essa idéia mais detalhadamente no capítulo seguinte.

12 A SEGURANÇA DA EMPATIA

Revelando o íntimo

Bruce está mal-humorado e sua mãe diz: "Vá para o seu quarto, até que possa ser agradável aos outros." Ela lhe
permite que fique irritado, mas evidentemente não o quer por perto nessas condições. Em suma, ela deixa claro que o
seu mau humor é um convite à rejeição.

As emoções negativas fortes criam tensão interior; no entanto, muitas vezes recusamos a ajuda construtiva quando
as crianças mais necessitam dela. Dizemos que queremos a confiança de nossos filhos, mas nossas reações, muitas
vezes, os afastam. E, se não podemos aceitar os sentimentos de uma criança, também ela aprende a rejeitá-los.

Necessidade de empatia

64
Pense, por um momento, em você mesmo. Quando você comunica um sentimento não quer ser desaprovado ou
encontrar razões que o façam negar o que sente. Você quer ser ouvido com compreensão. Quando você espera ser
compreendido, sente-se seguro para falar.

Imagine por um momento que está profundamente preocupado com uma operação a que sua filha deverá se
submeter

120

proximamente, e conta suas preocupações a uma amiga. Se ela responde: "Ora, não se preocupe. Tenho certeza de
que tudo correrá bem", você dificilmente se sentirá compreendido. Essa tentativa de tranqüilizá-lo não representa
absolutamente nada. Muito provavelmente, você pensará: "Grande ajuda dizer isso. Aposto que ela nunca teve uma
filha que precisasse ser operada." Mas suponhamos que, em lugar disso, ela tivesse dito com ênfase: "Meu Deus, são
dias de preocupação para você!" Essas palavras e esse tom mostram que ela compreende como você está se sentindo
no momento. Você não expressa

seus receios para que lhe digam que são infundados; você quer compreensão para diminuir o peso da preocupação.
Sofrer sozinho é sempre mais difícil do que saber que os outros "estão" com você. A compreensão humana provoca
conforto e segurança e vence a distância da alienação.

O que é a empatia

Há uma palavra especial para esse tipo de compreensão que todos desejamos. É empatia. Algumas pessoas
confundem simpatia com empatia. Mas a primeira expressa uma atitude de "Ah, coitadinha de você!". Embora em
certas ocasiões possamos necessitar de piedade, esta nunca pode ser tão útil quanto a verdadeira compreensão.

A empatia é ser compreendido de acordo com nosso ponto de vista.

Significa que outra pessoa entra em nosso mundo e mostra que compreende nossos sentimentos, refletindo de volta
a nossa mensagem. Ela deixa, temporariamente, o seu mundo para estar conosco em todas as sutilezas de significados
que uma determinada situação tem para nós. Como Carl Rogers observou, a pessoa empática está conosco não para
concordar ou discordar, mas para compreender sem julgamento.

121

Nós nos comunicamos com os outros, normalmente, por dois caminhos: as palavras e a expressão corporal. Em geral,
as palavras contêm os fatos, enquanto nossos músculos e tons revelam nossos sentimentos em relação a esses fatos. O
significado total de nossas mensagens está combinado, e nossa esperança é que as outras pessoas compreendam
integralmente. Mas essa compreensão se baseia no seguinte:

As atitudes e sentimentos são mais importantes do que os fatos.

Quando seu filho conversar com você, só encontrará um entendimento autêntico se você lhe refletir de volta a
totalidade do seu significado. Se, por exemplo, Ted se deixa cair na poltrona da sala de estar e diz, num tom
desanimado: "Finalmente terminei aquele trabalho da escola", suas palavras indicam que o projeto foi completado. Mas
seu tom e sua postura revelam como ele se sentiu a respeito: está deprimido e desanimado.

Se o pai de Ted responde apenas às palavras do filho, reflete de volta apenas o conteúdo ao dizer: "Bem, você
terminou o trabalho." Ao ouvir suas palavras repetidas como por um papagaio, Ted sente que foi ouvido num nível, mas
certamente não se sente compreendido em termos do que aquela experiência significa para ele. Seus sentimentos com
relação ao projeto são consideravelmente mais importantes do que o significado literal de suas palavras. Mas a resposta
do pai deixa os sentimentos de Ted intocados.

65
Se, porém, o pai de Ted ouvir a mensagem total de seu filho, será sensível tanto à mensagem verbal quanto à não-
verbal. Demonstrará sua compreensão se disser: "Embora esteja terminado, você está completamente desanimado."
Nesse caso, ele capta todo o conteúdo do mundo de Ted; seu filho, por sua vez, sente o calor da compreensão humana.

Quando você é empático, não procura mudar os sentimentos da criança. Simplesmente tenta aprender como ela
sente a parte

122

do elefante, por assim dizer. Você não procura ver por que ela sente dessa maneira, apenas tenta perceber todas as
nuanças de seus sentimentos naquele momento. Você consegue ver como a criança vê, sentir como a criança sente.

A empatia é o quinto ingrediente da segurança psicológica.

Como o homem é um ser social, ele procura superar a solidão criando a intimidade psicológica. Para isso, porém, ele
deve saber que será ouvido empaticamente. Os seres humanos são criaturas sensíveis e para que tenham um respeito
próprio autêntico precisam que seus sentimentos sejam aceitos e compreendidos.

Como parte do processo de socialização, a criança aprende que nem todos os sentimentos podem ser transformados
em ações, como dissemos no capítulo anterior. Mas aprender que pode revelar suas reações íntimas, e que as pessoas
importantes na sua vida compreenderão, ajuda a criança a aceitar o que realmente é – um ser humano, com todos os
tipos de emoções.

Você já pensou que pode conhecer todas as estatísticas e todos os fatos relacionados com uma criança, e ainda
assim não a conhecer realmente – ou seja, como pessoa – enquanto não compreender o ponto de vista dela? Você não
a conhece enquanto não compreende a maneira que ela tem de organizar pessoalmente o que lhe acontece. Você não
pode conhecê-la enquanto não penetra no seu mundo interior, privado. É na arena dos sentimentos que os seres
humanos vivem, respiram e morrem psicologicamente. Quando fechamos a porta aos sentimentos, tornamos
impossível a vida, o crescimento e a essência da individualidade. Quando fechamos a porta ao entendimento empático,
acabamos com a intimidade, a segurança e o amor.

Vejamos uma situação típica tratada primeiro de maneira que se enfraqueça a segurança e, em seguida, de modo
que ela seja estimulada:

Karen, uma menina de três anos, fica com medo do barulho supersônico de um avião e corre chorando para a mãe.

123

Reação típica:

Sua mãe diz: "Ora, minha filha, é apenas um barulho supersônico feito por um avião. Você não precisa ter medo."

Essa tentativa de tranqüilizar a criança diz, em essência: "Não tenha esse sentimento de medo. Não há necessidade
de ter medo do barulho dos aviões." Evidentemente a mãe de Karen tenta acabar com o medo por meio de uma
explicação lógica. Mas os barulhos muito fortes são realmente assustadores para as crianças pequenas, qualquer que
seja a sua causa. A lógica acaba com a empatia. E Karen não se sente compreendida. As explicações são mais úteis
depois de ter-se lidado com os sentimentos. No momento dos sentimentos fortes, a primeira necessidade é de
compreensão. As explicações devem ficar para depois.

Reação empática:

A mãe de Karen abraça a filha e diz: "Meu Deus, foi um barulhão. É terrível!"

Nesse breve momento, a mãe de Karen entra no mundo atemorizado da filha e mostra que a compreende. A
resposta empática diz a Karen, primeiro: "Mamãe está comigo; ela sabe
66
como me sinto." Quando a criança sabe que seu medo é compreendido, ela é mais capaz de ouvir a razão lógica para
esse som.

A empatia é ouvir com o coração e não com a cabeça. Se a resposta empática é dita em tom frio, neutro, a criança
não se sente compreendida.

Você provavelmente já relatou uma experiência a outra pessoa, que respondeu muito naturalmente: "É, deve ter
sido difícil." Você não se sentiu compreendido. Se, por outro lado, essa pessoa disser: "É, deve ter sido difícil!", como se
realmente pensasse assim (seu tom e a expressão de seu rosto lhe mostram que ela realmente "está" com você), então
você se sente compreendido. O tom de

124

voz e os músculos indicam se a outra pessoa entrou no seu mundo com compaixão e compreensão, ou se
simplesmente disse alguma coisa. Os tons dão as chaves quanto à sinceridade do entendimento. (Voltaremos ao
assunto no Capítulo 14.)

Pré-requisitos para a empatia

A verdadeira empatia é o casamento das atitudes com a habilidade. Esta última implica a capacidade de penetrar no
mundo da outra pessoa com compreensão. O pai ou a mãe, que se sente relativamente tranqüilo no íntimo, tem mais
facilidade para entrar no mundo de seu filho do que se estivesse envolvido em conflitos intensos.

"Eu mal consigo ouvir meus filhos", diz o sr. G., "porque há muito barulho dentro de mim. Todas as vezes que falam
comigo, eu fico envolvido com minhas próprias reações íntimas." Esse pai deve controlar as suas emoções antes, para
poder ser realmente empático com seus filhos. Ele precisa ser capaz de soltar os seus próprios sentimentos para estar
com os filhos.

A empatia vem mais facilmente quando somos sensíveis aos tons de voz e às inflexões, às posturas corporais, aos
gestos e às expressões faciais. Muitas pessoas não prestam atenção a esses indícios; não estão habituadas à expressão
não-verbal. Mas o psicólogo Albert Mehrabian afirma que apenas 7% de uma mensagem é transmitida pelas palavras,
enquanto o resto é expresso pelo tom e pelos músculos.

A sensibilidade à expressão corporal é essencial à empatia.

Ela pode ser aumentada pela prática e pelo esforço.

A sua possibilidade de ser empático é afetada pela sua atitude, ou seja, pelo papel que você desempenha como pai
ou mãe. A empatia vem mais facilmente quando esse papel é visto como o de um estimulador, com uma grande
margem de confiança na capacidade de auto-direção de seu filho. A empatia é mais difícil

125

quando você acredita que deve dirigir e guiar os filhos; quando você acha que sempre sabe mais.

Com muita freqüência, em lugar de tentar compreender, nós argumentamos, ou ralhamos, ou pressionamos, para
que as crianças organizem suas reações tal como nós mesmos teríamos feito se estivéssemos no lugar delas. Mas a
questão é que nós não somos os nossos filhos. Eles têm as suas próprias maneiras de organizar as experiências, e essa

individualidade deve ser respeitada. Uma atitude que tolera as diferenças e respeita a integridade da outra pessoa
torna mais fácil a empatia.

Finalmente, a sua atitude para com as emoções, em geral, é muito importante. Se você tem medo delas, será difícil,
talvez impossível, ser totalmente empático. A empatia implica ouvir e aceitar os sentimentos como realidades

67
autênticas e não como "tolices". Ser sincero com os seus próprios sentimentos e recusar-se a julgá-los ajudará você a
dar segurança empática aos seus filhos.

Vantagens da empatia

A empatia é uma prova vigorosa de interesse. Quando você deixa de lado, temporariamente, o seu ponto de vista
para estar com seu filho, você demonstra um respeito fundamental por ele, tratando-o como um indivíduo à parte, cujo
ponto de vista pessoal tem importância. A empatia diz: "A maneira pela qual você vê as coisas é importante para mim.
Vale o meu tempo e esforço para estar com você em seus sentimentos. Eu realmente quero compreender como você é,
porque eu me importo."

A empatia permite que seu filho se considere um comunicador competente. Ele aprende que pode comunicar-se
com as pessoas que lhe são importantes. E o sucesso na comunicação é importante para o respeito próprio. A empatia
tem importância fundamental para que as linhas de comunicação fiquem abertas. As crianças deixam de falar quando se
sentem sempre incompreendidas.

126

Um dos padrões encontrados nos lares de crianças dotadas de elevada auto-estima é uma grande dose de conversa
espontânea e despreocupada. Essas crianças se sentem seguras para expressar sentimentos e opiniões. Embora as
outras pessoas nem sempre concordem com elas, suas opiniões pessoais são respeitadas. Nada interrompe mais uma
conversa do que o conhecimento de que as nossas opiniões não serão respeitadas ou compreendidas.

Não há dúvida de que

a empatia comunica o amor.

Ela estimula a proximidade tema, a intimidade e elimina a solidão.

Assim como a empatia aproxima seu filho de você, também aproxima você dele. Quando nos colocamos no lugar de
outra pessoa, quando realmente conseguimos captar o seu ponto de vista, repentinamente acontece algo: o
comportamento dessa pessoa passa a ter sentido. E, então, é difícil ficar com raiva ou aborrecido.

A empatia ajuda a colocar o julgamento de lado.

O relato da sra. N. é um exemplo vivo do papel da empatia na criação da intimidade e na libertação dos pais quanto
aos julgamentos irritados. "Gladys estava sempre implicando com a irmã mais nova, que tem muito mais força do que
ela. Procurei ressaltar suas qualidades e compreender, mas ela não se modificou. Quando a estava colocando na cama,
certa noite, ela começou a queixar-se novamente da irmã e tentei ouvi-la com toda a minha compreensão. Logo depois,
ela começou a falar dos companheiros de escola.”

"Mamãe", disse ela, "na escola é como aqui em casa. Todas as outras crianças são mais fortes do que eu em quase
tudo [o que era verdade] e sempre vencem. Eu sou a última. Elas são melhores até com as palavras. O que elas dizem às
vezes me magoa tanto, que fico sufocada e não consigo dizer nada.”

"Enquanto ela falava, percebi como era o seu mundo e isso partiu o meu coração. Em toda parte ela estava com
crianças que

127

se sentiam superiores a ela. Imediatamente a sua implicância com Anne passou a ter sentido. Em casa, era o único
lugar onde tinha uma possibilidade de igualar a situação. Não era de espantar que fosse incansável. Quando pude
realmente compreender, não tive raiva. Senti apenas compaixão e carinho e resolvi tomar algumas medidas para lhe dar
maior espaço para respirar."

68
Incompreendida, a criança se sente posta de lado e a intimidade desaparece. Elas concluem que "Meus pais não
compreendem. Eles não se importam – talvez eu não seja digna de que se importem". Ao contrário, sempre que
alguém, criança ou adulto, se sente profundamente compreendido, sente-se também amado, pois

a compreensão é a linguagem do amor.

(Ver Capítulo 14 para novos detalhes sobre o preço da falta da empatia.)

A segurança nunca é completa se não há empatia entre pais e filhos, embora o entendimento contínuo não seja
essencial. O entendimento periódico, porém, permite à criança dizer: "Pelo menos em algumas ocasiões meus pais
compreendem o que é ser como sou."

Verifique a sua atitude em relação a esta questão importante: através de que olhos você vê? Se você verificar que
habitualmente vê apenas o seu ponto de vista, provavelmente não estará dando aos seus filhos o amor necessário. Se
pelo menos, ocasionalmente, você pode ver o mundo de acordo com o ponto de vista deles, é mais provável que seu
amor se evidencie. Lembre-se dos cegos e do elefante. Não diga ao seu filho que você compreende: mostre isso pela
empatia. Assim, você estará provando seu amor.

13 A SEGURANÇA DO CRESCIMENTO INDIVIDUAL

A mudança misteriosa

Linda, de quatro anos, surpreendeu sua mãe ao lhe pedir uma chupeta, uma mamadeira e fraldas, antes de ir para a
cama. Mas assim mesmo a sra. L. atendeu ao pedido. Quando foi apanhar as fraldas, Linda disse: "Ah, acho que não
preciso de fraldas." Com isso, deixou de lado a chupeta e foi para a cama levando apenas a mamadeira.

Linda estava verificando a sua "conta corrente de segurança psicológica". A reação da mãe dizia: "Você está
crescendo de uma maneira certa. Se quiser retroceder, respeitarei as suas necessidades." Provando que Linda tinha
liberdade de crescer ao seu modo, a sra. L. proporcionou-lhe outro ingrediente da segurança psicológica – a liberdade
de crescer de forma única. Com essa garantia, Linda não precisava dos símbolos de conforto do bebê: a mamadeira era
o suficiente.

A sra. L. poderia ter dito: "Meu Deus, Linda! Você está grande demais para essas coisas de bebê. Tenha juízo e vá
deitar-se." Essas palavras teriam significado: "Retroceder é errado. Endireite-se e cresça certo (da maneira que deve
crescer!)".

Confiança no crescimento

Muitas pessoas receiam que a regressão temporária detenha o crescimento. Achamos que as crianças jamais
conseguirão crescer

130

se não estiverem avançando. Por mais estranho que pareça, temos confiança na capacidade das plantas de
crescerem. Colocamos a semente num clima propício e acreditamos no potencial que lhe permite desenvolver-se no seu
próprio tempo, a seu modo. Atrasos no crescimento, ou algumas folhas murchas, não nos preocupam. Se alguma coisa
nos parece errada, examinamos as condições que cercam a planta. Mas não a puxamos, nem tentamos distender as
suas folhas.

Às vezes temos menos fé na capacidade de crescimento de nossos filhos do que na de nossas plantas. Pressionando,
insistindo e proibindo, procuramos forçá-los a crescer. Quando não há progresso, voltamos nossa atenção para as
crianças e não para o clima que as envolve. Esquecemos que, como a semente,

cada criança tem seu ritmo de crescimento.

69
Nós, em geral, forçamos a criança a andar, porque temos certeza de que com o tempo ela andará sozinha. Aceitamos
que volte a engatinhar, depois de ter dado os primeiros passos incertos. Mas, num dado momento, muitas pessoas
perdem a confiança e lá vem o "você está muito grande para essa bobagem." Cada retrocesso nos provoca decepção,
preocupação, ou pressão. Essa atitude reduz a segurança e o auto-respeito.

Toda criança tem um esquema temporal interno de crescimento – um padrão que lhe é específico. E essa
especificidade deve ser respeitada.

Crescimento: caminho em ziguezague

O crescimento não é uma progressão pronta, para frente e para cima. É um caminho sinuoso: três passos à frente,
dois para trás, um para os lados, uns poucos momentos parados antes de outro salto à frente. E pena que exista o
padrão de ziguezague porque

131

nós nos preocuparíamos menos se tivéssemos, a cada dia, novas indicações de progresso.

Um princípio fundamental sobre o crescimento, em todas as suas fases, é que ele avança para o novo e regride para
o velho. Ele vai e vem, como a maré.

O crescimento é um movimento de expansão e contração.

Segurança versus crescimento

Como observou Abraham Maslow(1), todos nós sofremos duas pressões. Uma é a da segurança do conhecido; a
outra é a atração ao novo. Cada fase de crescimento exige,

continuamente, que a criança deixe para trás o que lhe é familiar. Crescer é abrir mão do velho.

(1) Abraham Maslow, Toward Psychology of Being, D. van Nostrand, Nova York, 1964, cap. 4.

E a pobre da criança tem de abrir mão de uma coisa atrás da outra, numa rápida seqüência: do seio, da mamadeira,
do dedo ou da chupeta, e das fraldas; do engatinhar, das comidas amassadas e de ter o que quer no momento em que
quer. Tem que deixar o apego à mãe, o santuário da família, a segurança dos seus semelhantes. Tem que equilibrar
dependência e independência, submissão e domínio, guardar e partilhar.

Assim como há um interesse pela nova etapa, também a lembrança carinhosa do colo materno se faz sempre sentir.
Até mesmo os adultos gostam, de vez em quando, de regredir à dependência total e ao cuidado passivo. Não é motivo
de espanto, portanto, que a hesitação e a regressão se combinem com a expansão e o crescimento. O recuo pode ser
um pressuposto necessário a um novo avanço.

132

Primeiro a segurança

Dessas duas pressões – segurança e crescimento – a segurança vem em primeiro lugar. Sem ela, as crianças desistem
de explorar. Jenny fica fascinada pelas cores e consistência dos produtos do mercado. Olha para os lados e não vê mais
a mãe. Todo o interesse pela exploração do mercado desaparece, e ela corre em busca da segurança da mãe.

Em todos os jardins-de-infância as crianças que se familiarizam com o ambiente e estabelecem um relacionamento


carinhoso com os professores conseguem abandonar as saias maternas. As crianças precisam da segurança em primeiro
lugar; depois, então, é que se aventuram para o desconhecido.

70
Todo o crescimento implica uma incerteza. "Como será isso?", "Será perigoso?", "Haverá problemas se eu fizer
isso?". Caminhar na direção do desconhecido pode transformar-se em ansiedade. A criança que se sente segura em
poder recuar precisa de muito menos coragem para aventurar-se, porque seu caminho de volta não foi bloqueado.

A opção do recuo sem desonra torna a criança mais capaz de enfrentar o desconhecido.

Ajudando o crescimento a surgir

Isso quer dizer que você deve adotar uma atitude passiva e não fazer nada em relação ao crescimento? Não,
absolutamente. Introduza novas experiências atraentes quando parecer que a criança está preparada. Estimule-a,
gentilmente, a enfrentar situações novas. Mas, ao mesmo tempo, respeite a sua preferência no caso de ela rejeitar ou
recuar. Forçar o crescimento apenas faz com que a criança se apegue ainda mais ao que é antigo. A incapacidade de
respeitar as preferências e os retrocessos demonstra a falta de

133

confiança na capacidade de crescimento e na individualidade. O respeito ao padrão de crescimento da criança, e à


sua necessidade de segurança, é prova concreta de amor.

É mais fácil confiar na capacidade de crescimento da criança, se você teve, na infância, a confiança dos outros.
Algumas pessoas não tiveram essa sorte, mas insistem em confiar no

padrão de desenvolvimento de seus filhos. Muitas outras, porém, são incapazes de adquirir confiança apenas porque
assim querem. Se for esse o seu caso, procure outros que têm fé em você. (Todo marido precisa da confiança da esposa,
e toda esposa precisa da confiança do marido. Numerosos casais estão de tal modo voltados para as suas atividades
externas, que não se dedicam a esse estimulo mútuo. E, se isso acontece, também não estimulam os filhos.)

O conhecimento dos fatos relacionados com o desenvolvimento da criança permite que você aja em função de um
plano geral desse crescimento. Isso ajuda você a ver o comportamento de hoje em função das tarefas que, a longo
prazo, toda criança deve completar. Ajuda você a evitar o aumento das oscilações.

O impacto da liberdade de crescer com individualidade

O respeito pelos padrões individuais de crescimento de seu filho diz: "Acredito em sua maneira especial de crescer.
Você não deixa de ser aceitável por se desenvolver dessa maneira." Com isso, a criança convence-se de que não há nada
de errado em ser como é.

Clima de amor

Embora tenhamos de examinar separadamente os ingredientes para o estímulo do amor, eles, na realidade, se
combinam para

134

formar uma atmosfera psicológica de reflexos positivos. Sete ingredientes básicos servem para formar o AMOR; essa
palavra de quatro letras que compreende a enorme diferença entre a ternura do respeito próprio e a solidão do ódio a
si mesmo.

Um ingrediente adicional, que dá o toque final no clima de amor, é a maneira de disciplinar seus filhos. Lembre-se,
porém, que o tipo de disciplina usado acrescenta uma dimensão importante à segurança que você oferece.

Os encontros seguros traduzem o amor em termos que qualquer criança pode sentir, independentemente de idade,
sexo, temperamento, inteligência ou capacidade. E esses encontros jamais podem ser falsificados. Envolvida por um
clima de segurança, a criança só pode concluir que

71
"Sou uma pessoa à parte, um indivíduo.

Sei que tenho valor e dignidade porque meus pais gostam de mim, me compreendem e me respeitam como pessoa.
Não preciso ser uma cópia para ser respeitado pelas pessoas importantes que me cercam.

Sou querido, mesmo quando meu comportamento tem que ser limitado.”

Essas são as afirmações da auto-estima adequada.

Porque a sensação de ser amado é importante para a saúde emocional e para o respeito próprio, compete a cada um
de nós reexaminar o clima que proporcionamos. Somente quando estabelecemos encontros pessoais seguros é que
nosso filho se sente confirmado. Então, você pode lhe oferecer o dom, que não tem preço, não apenas da vida
biológica, mas da paz interior e da integridade.

Terceira parte

SENTIMENTOS NEGATIVOS E AUTO-ESTIMA

14 COMO TRATAR OS SENTIMENTOS DA CRIANÇA

O grande paradoxo

Em geral, costumamos tratar os sentimentos das crianças exatamente da maneira que nos desagrada. E esse
paradoxo é levado em conta apenas por alguns de nós.

Quando você partilha os seus sentimentos pessoais, não busca julgamentos, lógica, razões ou conselhos. Você não
quer que seus sentimentos sejam postos de lado, negados, ou que não sejam levados a sério. No entanto, observe estas
reações típicas às emoções das crianças:

"Mamãe! John acaba de me convidar para a Festa da Primavera! Estou tão emocionada que mal posso me
agüentar!", explode Katie.

"Eu não lhe disse, querida, que não precisava se preocupar? Toda aquela agitação da semana passada foi pura perda
de energia!", responde a mãe com um sorriso.

(A mãe de Katie lhe havia dito que suas preocupações não tinham fundamento – fato que a jovem tem agora de
reconhecer e do qual não deseja ser lembrada.)

***

"Eu preferia não ter um irmão: ele não presta para nada!", queixa-se Hugh.

138

"Hugh! Isso não é coisa que se diga! Se alguma coisa acontecesse ao seu irmão, você se arrependeria amargamente
por ter tido esses pensamentos", repreende sua mãe.

(A mãe de Hugh apenas julgou e envergonhou o filho, em lugar de ajudá-lo a superar o acesso violento de ciúmes
que ele está enfrentando.)

***

"Odeio a escola! Tudo aquilo parece tão chato e sem valor – as coisas que aprendemos na aula são inúteis", diz
Crystal.

"Minha filha, uma boa instrução básica ajudará você a ter o emprego que desejar mais tarde", diz seu pai.

72
(O sr. T. diz a Crystal que seus sentimentos de tédio e desinteresse não são pertinentes. Ele parece acreditar que
uma explicação lógica e firme pode neutralizar os sentimentos; mas nada está mais longe da verdade.)

Todos esses adultos tinham boas intenções e todos não tinham, certamente, consciência de que a sua reação foi um
"tampão no sentimento". Mas basta você se colocar no lugar dos jovens que ouviram essas reações para perceber o
efeito delas. E o patético é que não temos consciência de que tais respostas são, a longo prazo, destrutivas.

Independentemente de idade, sexo, raça ou condição de vida, o que leva as pessoas a se abrirem em relação aos
seus sentimentos é a busca de compreensão. Contudo, quando as

crianças querem dividir conosco suas emoções, nós, tipicamente, fazemos recomendações sobre o que elas devem
ou não sentir.

Quando lidamos com emoções, raramente damos o que nós mesmos desejamos.

139

Por que os sentimentos são um problema

Por que lidar com os sentimentos de forma construtiva representa um problema tão sério?

Muitos de nós tiveram seus sentimentos manipulados pelos métodos tradicionais predominantes da nossa cultura e,
como resposta, lidamos com os nossos filhos do mesmo modo. Observe que, quando você manifesta uma emoção
negativa, recorre freqüentemente às razões, lógica, julgamento, conselho, reafirmação ou à negativa.

Apesar de os sentimentos negativos serem um dos fatos da vida, ensina-se que não se deve tê-los. Convencemo-nos
de que somos menos dignos, ou menos amadurecidos, se tais sentimentos aparecem em nós. Mas as pessoas não
podem conviver dia após dia sem conflitos, e os conflitos provocam sentimentos.

Poucas pessoas se dão conta de que a maneira mais rápida de livrar-se das emoções negativas (e a única maneira de
fazer com que não se manifestem por meio de sintomas doentios) é estimular a sua expressão.

Os sentimentos negativos expressos e aceitos perdem o seu poder destrutivo.

Além disso, os pais não foram instruídos quanto às habilidades necessárias para a liberação das emoções negativas.
Não é de espantar que muitas pessoas se desorientem ao lidar com sentimentos, principalmente com os negativos.

Sentimentos provocam modificações corporais

Os sentimentos são importantes para a sobrevivência: eles mobilizam o corpo para a ação. Sob a tensão das
emoções fortes, certas glândulas entram imediatamente em ação e ocorrem modificações psicológicas importantes. O
ritmo cardíaco intensifica-se; o sangue centrado no sistema digestivo é desviado para os

140

músculos maiores; o açúcar do fígado é bombeado para a corrente sangüínea, a fim de proporcionar mais energia; a
adrenalina é liberada; as taxas de coagulação do sangue aumentam; a respiração é mais rápida; as glândulas do suor são
ativadas; os músculos maiores ficam tensos, prontos para a ação. Em suma, o corpo prepara-se para lutar ou fugir. As
emoções nos transformam em pessoas quimicamente diferentes.

Em tais momentos, se alguém nos pedir que tenhamos calma, de nada adiantará. Embora possamos atender
exteriormente, lá dentro a agitação continua. Nossos ouvidos ouvem o pedido, mas as nossas glândulas não. Para
trabalhar construtivamente com as emoções é necessário reconhecer que essas modificações fisiológicas são
provocadas por sentimentos, e que estes não são contidos de acordo com as ordens. Na verdade, se nos mandam parar
de sentir, isso apenas aumenta a nossa frustração e as glândulas trabalham de forma ainda mais vigorosa.

73
Você deve procurar se lembrar de um momento em que esteve realmente perturbado e que, em lugar de dizer a si
próprio que não devia sentir daquela maneira, praticou algum tipo de ação relacionada com os seus sentimentos. Talvez
tenha esfregado o chão da cozinha com um sentimento de vingança, disputado uma vigorosa partida de tênis, ou
arrancado ervas do jardim, ou ainda mandado para o céu a bola de golfe. Talvez você tenha desabafado os seus
sentimentos para um ouvinte compreensivo, ou simplesmente tenha chorado bastante. O resultado? Alívio.

Quando os sentimentos são expressos por meio de uma vigorosa ação física, liberada por meio da argila, da arte, do
drama, da música, ou das palavras, a energia que envolve a emoção é descarregada. O corpo volta, então, ao seu estado
anterior de equilíbrio.

A expressão dos sentimentos descarrega a energia emocional.

141

O preço dos métodos tradicionais

Quando os sentimentos negativos são reprimidos, o corpo continua tenso. Quando as pressões se acumulam em
volume suficiente, a energia é descarregada de várias formas. As emoções recalcadas podem voltar-se contra a própria
pessoa (dores de cabeça, sonambulismo, hiperatividade, roer unhas, bater com a cabeça, enfermidade psicossomática)
ou podem ser dirigidas para outras pessoas e para a sociedade.

A criança pode, ou não, usar sua capacidade mental nessas ocasiões, dependendo da sua liberdade emocional. A
repressão age como uma represa que reduz o rio da inteligência a um simples regato. Há jovens cujo QI aumentou de 60
a 100 pontos com a remoção dos bloqueios emocionais. As crianças não podem absorver o que está escrito na página
impressa quando sua atenção está voltada para dentro delas mesmas.

As energias consumidas na repressão não podem ser usadas para finalidades construtivas. A constante agitação
interior leva ao cansaço crônico e diminui a resistência à enfermidade física. Observe a freqüência com que suas
doenças se manifestam depois de um período de tensão emocional. Uma outra desvantagem é que o controle exercido
pela repressão é feito indiscriminadamente; ela não só prende as emoções negativas, como também bloqueia as
emoções positivas. A criança reprimida é, com freqüência, controlada, distante e fria.

Você poderá dizer: "Mas veja a criança-modelo. Ela reprime seus sentimentos 'maus' e ainda assim continua
sendo'boa'." Mas não é do comportamento-modelo que estamos falando, e sim do comportamento saudável, positivo.
A criança-modelo age como se estivesse lendo um livro de boas maneiras. Seu "bom" comportamento não surge
espontaneamente de um fluxo interior de alegria e contentamento.

142

O impacto da repressão sobre a auto-estima

Como se não bastassem essas desvantagens, a repressão danifica a auto-estima. Nossas maneiras tradicionais de
lidar com as emoções negativas nos afastam de nossos filhos. Essas maneiras mostram a eles que algumas partes reais
de seu ser são inaceitáveis. Por uma questão de auto-respeito, as crianças podem tentar ocultar tais sentimentos de si
mesmas, bloqueando-os das suas consciências. Nesse caso, tornam-se alienadas da plenitude de sua humanidade –
perdem contato com quem realmente são.

Quando a criança não nega a si mesma os sentimentos proibidos, mas apenas os esconde de outras pessoas, conclui:
"Devo ser uma pessoa terrível para ter esses maus sentimentos." E lá se vai o auto-respeito.

Os métodos tradicionais de lidar com os sentimentos negativos têm muitas desvantagens para que continuem sendo
usados. Existe uma alternativa construtiva.

Lidar com os sentimentos construtivamente

74
Lidar com os sentimentos negativos de maneira construtiva é um problema que interessa a todos os que convivem
com crianças. Ao ler este capítulo, várias perguntas, provavelmente, lhe ocorrerão – perguntas pertinentes, legítimas,
que podem pressioná-lo tão fortemente, a ponto de não lhe permitir a absorção deste material preliminar e necessário.

Para não nos desviarmos dos nossos objetivos, vamos examinar primeiro a receita para manejar os sentimentos
negativos de maneira construtiva. Em seguida, esclareceremos as dúvidas que você poderá ter ao ler a receita, tais
como: se os sentimentos devem ser sempre limitados; os seus possíveis receios quanto à sua aceitação; que vantagens
há em aceitá-los; as armadilhas comuns no uso dessa abordagem; e, finalmente, como agir

143

de maneira reparadora, se até agora você vinha usando métodos não-construtivos.

Eis a fórmula para tratar os sentimentos de maneira construtiva: quando surgirem as emoções – sejam positivas ou
negativas –, você estará trabalhando de forma saudável se ouvir a criança empaticamente, se aceitar seus sentimentos
e se lhe proporcionar válvulas de escape aceitáveis.

No Capítulo 12 examinamos o significado da empatia, a importância do tom de voz e o fato de que a mensagem total
captada pela criança é constituída de mensagens verbais e não-verbais. Antes de poder aceitar os sentimentos, você
deve ser capaz de ouvi-los. (Talvez lhe seja útil reler o Capítulo 12 para reativar o seu entendimento da empatia).

Centenas de artigos e de autoridades insistem para que os pais ouçam os seus filhos; e os pais, obedientemente, os
ouvem. Escutam as palavras dos filhos e ficam de boca fechada achando que, com isso, estão seguindo as instruções,
porque só conhecem uma forma de ouvir – ouvir passivamente. Mas, se falarmos com essas crianças, ouviremos a
mesma queixa: "Meus pais nunca me ouvem." Por que essa discrepância? Estarão os jovens deformando os fatos?

Não. O que eles querem é ser ouvidos com atenção – muito embora talvez não sejam capazes de verbalizar esse
desejo. Quando falam, eles, como todos nós, querem que seu ponto de vista seja entendido. Mas não sabem se nós
ouvimos – se compreendemos perfeitamente – a menos que provemos essa compreensão através de uma forma muito
especial de ouvir – ouvir de maneira ativa(1).

(1) Agradeço a Carl Rogers essa expressão.

Para manejar construtivamente os sentimentos devemos estabelecer uma clara distinção entre ouvir de maneira
passiva e ouvir de maneira ativa. Lembre-se:

A prova do entendimento vem apenas através da atenção ativa.

144

Ouvir ativamente é:

1. estar sensivelmente atento às mensagens verbal e não-verbal da criança, e

2. refletir-lhe de volta, empaticamente, a mensagem total.

Quando a criança se comunica, deseja uma prova concreta de que a sua mensagem foi recebida. A diferença crucial
está em ouvir de maneira passiva ou ativa.

Para verificar o grau de compreensão que você oferece, grave, ou recomponha de memória, alguns diálogos com seu
filho no qual os sentimentos são expressos. Examine essa gravação e note quatro coisas:

1. Quem fala mais?

2. Como você reage às mensagens de seu filho? Você usa os tradicionais "tampões do sentimento"? (Julgamentos,
Argumentação, Tentativa de Animar, Negativa);
75
3. Você apenas ouve calado, ou reflete de volta, de maneira empática e atual, a mensagem total?

4. Como você se sentiria se as suas mensagens fossem recebidas da mesma forma que você recebeu as de seu filho?

Se na gravação você verifica que agarrou as suas pás verbais e tentou enterrar os sentimentos de seu filho ao estilo
tradicional, não desanime. Essas reações podem ser eliminadas. Você pode passar a lidar construtivamente com os
sentimentos negativos para libertar seu filho de suas muletas. E então ele não precisará recorrer à repressão ou aos
sintomas.

Ouça a conversa dos outros. Veja se pode identificar suas reações mútuas. Você provavelmente se surpreenderá ao
ver com que freqüência, quando duas pessoas conversam, nenhuma ouve ativamente a outra. Cada pessoa ocupa-se
em mandar a sua própria mensagem, mas nenhuma delas prova ter compreendido o ponto de vista da outra.

145

Se na sua gravação você não falou, ou falou pouco, estava apenas ouvindo passivamente, e seu filho não tem
nenhuma garantia de que você compreendeu realmente como ele se sentia. Teste esse ponto perguntando a você
mesmo quanto se sentiria compreendido ao ter suas mensagens tratadas dessa maneira. Se usou um gravador, preste
bastante atenção ao seu tom de voz. Ele pode representar a diferença entre simplesmente classificar a mensagem de
um jovem, ou unir-se a ele no mesmo comprimento de onda.

Nós não nos sentimos realmente compreendidos se as nossas emoções são classificadas ou catalogadas. O
entendimento intelectual não é o que buscamos. Queremos uma compreensão carinhosa vinda do coração. O rótulo
frio e objetivo ensina o jovem a levar os seus sentimentos a outros lugares.

Sentimentos aceitos

Aceitar os sentimentos significa permitir que seu filho sinta a sua própria emoção sem ser julgado. Isso é mais fácil
quando você se recusa a julgar as suas próprias emoções e quando

vê seus filhos como pessoas totalmente distintas de você. (Ver Capítulo 11.) A aceitação dificilmente pode ser
fingida: para ser útil ela tem que ser autêntica.

O que importa na aceitação de emoções é libertar a mente das categorias "bom-mau". Sem isso, você fica preso aos
"Não Farás". Embora tal pensamento possa fazer sentido com relação às ações, é inadequado para os sentimentos. As
emoções existem, e você tem que manejá-las como realidades que são.

Oferecer saídas aceitáveis

Deixe que as crianças de oito anos, ou mais velhas, expressem seus sentimentos. Seja um ouvinte ativo e empático.
As crianças

146

menores nem sempre conseguem expressar, em palavras, o que sentem, principalmente quando enfrentam
emoções fortes. Responda, então, as mensagens corporais delas, traduzindo-as em palavras.

Alison tenta pegar um pedaço de doce que está na geladeira. Sua mãe agarra-lhe as mãozinhas e fecha rapidamente
a porta. Alison fica rígida, vermelha, fecha as mãos e grita: "Aaaaaiiii", com toda força. A sra. R. repete, com intensidade:
"0000h! Você não quer que a mamãe te segure. Isso deixa Alison furiosa, furiosa." (Nesse momento, a mãe transforma
em palavras a linguagem corporal da filha, provando que compreende os seus sentimentos.)

Alison olha para a mãe, concorda secamente com a cabeça e reage: "Mamãe má, mamãe má, má", saindo da
cozinha.

76
Às vezes as emoções da criança precisam ser desviadas para outras atividades, especialmente quando são intensas.
Proporcione saídas que não prejudiquem outras pessoas, nem danifiquem coisas de valor. Ofereça-lhe tinta, papel e
lápis, argila, bonecas ou alvos substitutivos (animais empalhados, um brinquedo barato, um saco de pancadas, ou
travesseiro). Haverá momentos, é claro, em que você se encontrará numa situação em que não poderá recorrer a esses
escoadouros, como numa loja, por exemplo. Projete, então, um reflexo verbal dos sentimentos de seu filho, imponha
limites ao seu comportamento e lhe dê uma oportunidade de desabafar quando chegar em casa. (Voltaremos logo a
falar da limitação dos sentimentos.)

A mãe de Gary trouxe-o para casa, depois de ter brincado ao ar livre dando pontapés e gritando. Ela lhe disse,
empaticamente: "Você está com raiva; você não quer ir à mercearia comigo. Você gostaria de bater na mamãe. A
mamãe malvada que obriga você a fazer o que não quer".

Nota: Lembre-se de que ouvir ativamente é ouvir o ponto de vista da outra pessoa. Isso não implica concordar ou
não com esse

147

ponto de vista. No exemplo, a mãe de Gary mostra que compreende que naquele momento seu filho a vê como
malvada porque ela o está afastando da brincadeira. Refletindo os sentimentos dele, a mãe não está concordando com
essa atitude. Ela acha que tem direito a levá-lo à mercearia. Mas deixa que o filho saiba que não tem de pensar igual a
ela - permite-lhe ter sentimentos próprios, mesmo que sejam totalmente diferentes dos seus.

Gary tentou dar um soco. A sra. L. jogou um travesseiro no chão, entre eles, e disse: "Não posso deixar você me
bater, mas faça de conta que esse travesseiro sou eu. Mostre-me, Gary, o que você gostaria de fazer."

Gary pisou e chutou o travesseiro. Inclinando-se sobre ele, deu-lhe murros; depois, agarrou-o e jogou-o contra a
parede.

"É bom bater nessa mamãe aí. Bata, chute, jogue contra a parede! Você não quer mesmo vir comigo!"

Aos poucos, a raiva de Gary foi desaparecendo; deu um último pontapé no travesseiro e foi ao seu quarto buscar o
ursinho antes de acompanhar a mãe até a mercearia.

A mãe de Gary ajudou-o a expressar seus sentimentos, primeiro colocando-os em palavras e, em seguida,
oferecendo um escoadouro que permitiu ao menino desabafar suas emoções sem prejudicar ninguém. Ele pôde manter
seu respeito próprio como pessoa, sem deixar de se sentir menos importante por causa de suas reações violentas.

Às vezes as crianças precisam liberar sentimentos quando não temos tempo de estar com elas. Freqüentemente é
possível mantê-las ocupadas até que possamos dedicar-lhes a nossa atenção.

Billy estava brigando com outro menino pequeno durante o recreio. A professora separou-os exatamente no
momento em que a campainha tocou. Ela sabia que Billy era um vulcão de sentimentos fortes e que provavelmente
agitaria todos os outros meninos, se ela não o ajudasse a liberar seus sentimentos construtivamente. Embora quisesse
ajudá-lo tinha, porém, que cuidar das outras crianças.

148

Ao entrarem na sala de aula ela o levou para um canto, dizendo: "Sei que você está muito aborrecido, Billy. Gostaria
de desenhar o que está sentindo?”

"Claro que sim", disse Billy.

Quando as outras crianças já estavam tranqüilamente distraídas com outra atividade, ela dirigiu-se novamente a Billy
e perguntou: "Gostaria de mostrar o seu desenho?"

77
Billy entregou-lhe um desenho de uma galinha muito grande olhando para uma galinha muito pequena.

"Você quer me explicar o desenho?", pediu ela.

"Sim!", respondeu ele enfaticamente. "Isto (apontando para a galinha grande) sou eu, e isto (mostrando a galinha
pequena) é você!”

"Ah, então você gostaria de ser maior e mais forte do que eu!", disse a professora, refletindo o sentimento de Billy.

"É claro! Você chegou exatamente na hora em que eu estava ganhando. Eu gostaria de separar você na hora em que
estivesse ganhando uma briga. Você então veria como é bom!" (Pausa). "Mas o que os outros garotos estão fazendo?" E
Billy ficou tranqüilo o resto da manhã.

A expressão inofensiva de seus sentimentos liberou Billy para voltar pacificamente às atividades da turma e evitou
novo comportamento inadequado. Também o ajudou a manter seu auto-respeito.

Nem todos os sentimentos negativos podem ser liberados por meio de um desenho, uma frase ou um movimento de
cabeça. Às vezes é necessário muito mais tempo para esgotá-los, especialmente quando são produto de um longo
acúmulo de sentimentos. O tempo

necessário para a liberação das emoções recalcadas depende do volume do sentimento reprimido e da segurança
que a criança tem para poder expressá-las.

Como pai, você não é um terapeuta; pode, porém, criar um clima terapêutico, ajudando seus filhos a expressar
sentimentos à medida que se desenvolvem. (Se os sentimentos reprimidos e acumulados parecem excessivos, ou se
você não se acha capaz de enfrentá-los, busque assistência especializada.)

149

O simples fato de liberar emoções hoje não significa que amanhã não surjam outras que necessitem ser liberadas
também. As crianças enfrentam, diariamente, situações que provocam seus sentimentos mais fortes. Permitir que eles
sejam expressos à medida que ocorrem, evita acumulações que, literalmente, afetam a vida das crianças.

Limitação dos sentimentos "Vou dizer àquela babá que não gosto dela", disse Lana à mãe que estava se preparando
para sair à noite.

"Você realmente não gosta dela! É bom saber o que você sente, mas nossa babá não concordaria com isso", advertiu
a mãe. "Por favor, não diga nada a ela. Conversaremos sobre isso amanhã e veremos como resolver a situação.”

***

"Mamãe, hoje fracassei totalmente na escola", disse Edite no momento em que a mãe ia saindo para o cabeleireiro.

"Edite, eu quero realmente saber como foi, mas se eu não sair imediatamente perco a minha hora. Volto às quatro e
conversarei com você todo o tempo que quiser.”

***

Comendo num restaurante com a família, Bobby teve, subitamente, necessidade de expressar sua raiva. "Meu filho",
disse o pai, "você está muito agitado e quero que saiba que concordo com você, mas temos de esperar até sairmos
daqui. O lugar não é apropriado. Vamos terminar de comer em quinze minutos.”

***

Nos exemplos acima, os pais estão sufocando a expressão dos sentimentos negativos de seus filhos? Não, eles os
estão ajudando
78
150

a enfrentar limites realistas. Até mesmo a expressão dos sentimentos deve ser limitada a determinadas:

pessoas – às que são capazes de entendimento empático;

horas – ocasiões que sejam adequadas, e lugares – na privacidade do lar.

Sabendo que terá uma saída para as suas emoções, a criança poderá manter um controle temporário.

Às vezes há ocasiões em que nem mesmo você tem condições de ouvir empaticamente. Você pode ter outros
compromissos a cumprir no momento, ou estar muito cansado, agitado, preocupado ou ansioso, para dedicar toda a
atenção ao seu filho.

Nunca tente ajudar a criança a liberar sentimentos quando você está sob pressões interiores ou exteriores que não
lhe permitam ouvir realmente o que ela tem a dizer.

Nada é pior do que a empatia fingida. Ela enfraquece a confiança – essa pedra fundamental das relações
estimulantes.

Se seu filho precisa ser ouvido, e não é possível dedicar-lhe atenção naquele momento, fixe um limite. Você pode
dizer: "Sei que você precisa conversar agora mesmo, mas estou muito agitado para ouvir. Assim que eu estiver mais
calmo, tentarei ajudar você e os seus sentimentos." Essa promessa deve ser cumprida o mais depressa possível. Para
ajudar a criança a enfrentar realisticamente os sentimentos é preciso mostrar-lhes que a liberação tem que ocorrer
dentro dos limites das pessoas, do tempo e dos lugares adequados.

Medos relacionados com sentimentos

Geralmente estamos tão certos de que o melhor é reprimir ou dominar os sentimentos negativos, que receamos a
sua expressão, ou mesmo a sua aceitação.

151

Disse a sra. P.: "Mas se eu deixar meus filhos expressarem seus sentimentos eles levarão horas. Na verdade, apenas
ficarão piores. Não vejo nenhum sentido em estimular as suas lamentações.”

"Concordo", disse o sr. R., "eu costumava chamar a atenção da minha filhinha para coisas agradáveis quando ela
chorava. Eu dizia:'Barby, já vai passar', ou então: 'seja corajosa'. Depois, li alguma coisa sobre a aceitação dos
sentimentos, e na primeira vez que ela levou um tombo eu disse: 'Meu Deus, isso realmente doeu.' E ela chorou mais do
que nunca. Refletir os seus sentimentos apenas a perturbou mais do que quando eu procurava fazê-la esquecer-se
deles.”

"O senhor tem razão!", concordou a sra. W. "Outro dia fiquei terrivelmente magoada com a observação grosseira de
uma vizinha, depois de uma manhã frustrante. Uma amiga me telefonou mais tarde e mencionei despreocupadamente
o fato. Ela foi tão empática que, sem saber, eu comecei a chorar como uma criança. Sua compreensão apenas me fez
sentir pior."

Essas reações à liberação dos sentimentos são muito comuns. Mas vamos examinar melhor a situação.

Se durante meses o sr. R. havia sufocado ou procurado distrair os sentimentos de mágoa de sua filha, a súbita
permissão para que eles se manifestassem pode ter provocado o desabafo, não apenas dos sentimentos daquele
momento, mas de muitos outros reprimidos no passado. Não é de surpreender que ela tenha chorado muito!

No caso da sra. W., as frustrações sofridas pela manhã foram agravadas pela observação grosseira da vizinha. A sra.
W. disse que a empatia apenas fez com que se sentisse pior. Seria mais exato dizer "A compreensão me impossibilitou

79
de manter meus sentimentos sob controle." Esses sentimentos já existiam – a empatia apenas estimulou a sua
expressão.

A compreensão nunca agrava os sentimentos; ela apenas permite que eles sejam revelados.

152

Como pai ou mãe consciente você deve perguntar a si mesmo: "Quais são as alternativas que permitem a meu filho
expressar seus sentimentos?" De uma maneira ou de outra, as emoções se manifestam.

O medo de que os sentimentos se agravem ao serem expressos tem certa validade quando deixamos de observá-los
por um longo período. A situação pode ser comparada a abrir um furúnculo. Quando o médico corta a camada superior
da pele, o material inflamado e o sangue dão à área uma aparência pior. Mas o pus tem de ser retirado, e sob ele está o
tecido róseo, sadio.

O mesmo acontece com os sentimentos negativos. Quando liberados, podem parecer, à primeira vista, piores.
Quando os sentimentos originais são aceitos, podem surgir outros mais fortes, mais intensos, e isso pode levar você a
achar que teria sido melhor deixá-los em paz. Mas apenas a expressão e a aceitação das emoções impedem que elas
causem algum dano. Só expondo-as é que você realmente se livra delas.

Ao liberar as emoções negativas, seja apenas um ouvinte ativo. Evite a tentação de sondar as razões e as causas. Veja
a si próprio como um "libertador de sentimento" e não como um "verificador de fatos", ou "juiz de evidências".

Advertência: Se, quando os sentimentos mais intensos se manifestam, você formula julgamentos para a criança, as
portas da comunicação fecham-se imediatamente. Esteja atento contra a aceitação limitada. Você deve estar preparado
para aceitar o pior.

A maioria das crianças descobre rapidamente até onde pode expressar-se. Mas se você aceitar apenas os
sentimentos comuns suas crianças terão de enfrentar sozinhas as suas emoções intensas. O resultado é uma baixa auto-
estima (elas sabem o que está escondido no seu interior), a auto-alienação (negam tais sentimentos até para si
mesmas), ou a liberação disfarçada.

Outra restrição que muitas pessoas fazem com relação a deixar que as crianças expressem os sentimentos negativos
refere-se à possibilidade de que elas tentem transformar tais sentimentos em

153

atos. As crianças menores podem tentar exatamente isso. Se você disser para uma criança de três anos: "Você
realmente quer bater no seu irmão", ela concordará entusiasmada e tentará quebrar a cabeça do irmão. Como seus
controles são limitados, é necessário impor limites ao comportamento das crianças, antes de responder aos seus
sentimentos, oferecendo-lhe, em seguida, uma válvula de escape aceitável.

Transmitir às crianças que elas podem se comportar de maneira irresponsável não as prepara para uma convivência
tranqüila na sociedade. Parte do processo de amadurecimento consiste em aprender a controlar um certo
comportamento que pode prejudicar aos outros. Quando ensinamos às crianças as maneiras de lidar construtivamente
com os sentimentos transmitimos a elas que estes só podem ser expressos de maneira que não prejudiquem a elas
mesmas, aos outros ou a objetos de valor.

Vantagens da liberação dos sentimentos

A aceitação dos sentimentos negativos proporciona um alívio emocional, evita a repressão e ensina a criança que ela
não deixa de ter valor devido aos seus sentimentos. Ela pode continuar a ser o que é, sinceramente, e aceitar o modo de
ser dos outros.

80
A liberação dos sentimentos ajuda os jovens a ver seus problemas de maneira mais realista, e não através da névoa
das emoções fortes. Por exemplo, Peggy, uma adolescente de 16 anos, critica seriamente a sua professora.

A mãe responde, empaticamente: "Você acha que ela é intolerável!”

"Isso mesmo. Ela distribui todos esses deveres difíceis e acha que não temos outra coisa a fazer senão o que ela
passa. Será que ela não sabe que tenho mais cinco professores que também marcam deveres de casa difíceis? Que
mulher estúpida.”

154

"A falta de consideração dela realmente irrita você, não?", acrescenta a mãe de Peggy.

"Sim. É claro que reconheço que ela não é a única a passar muitos deveres, mas, não sei por quê, com os outros
professores não me importo tanto.”

"Há alguma coisa com a Dona Y. que torna mais difícil tolerá-la.”

"É isso mesmo", concorda Peggy. Pensa durante alguns minutos e acrescenta, pensativamente: "Eu acho que não
gosto dela porque ela ensina matemática, e não gosto dessa matéria. Quando os outros professores passam muitos
deveres, sei que posso fazê-los sem muito esforço; mas matemática – bem, eu não entendo o que estamos fazendo; é
como escalar uma muralha – cada centímetro é uma luta!”

"Não é tanto a Dona Y., mas a própria matemática. Simplesmente é uma matéria difícil!”

"É. Você sabe, mamãe, talvez eu esteja precisando de umas aulas particulares. Estou ficando atrasada. A professora
não é ruim; eu é que não gosto dessa matéria."

A manifestação de seus sentimentos e a compreensão encontrada ajudaram Peggy a definir o seu verdadeiro
problema. Com isso, ela pôde encontrar sozinha a solução, o que lhe aumentou o sentimento de competência.

A criança que está interiormente sobrecarregada explode à menor provocação; os pequenos obstáculos lhe parecem
gigantescos, e ela perde o senso de perspectiva. Uma criança não pode se dar bem com os outros quando trava uma
batalha constante consigo mesma.

Todas as vantagens estão do lado do entendimento empático e da liberação dos sentimentos negativos por meio de
saídas aceitáveis. Essa abordagem reflete-se na sua saúde física e emocional, bem como na sua competência intelectual
e social. Ajuda a criança a dizer: "Tenho sentimentos de todos os tipos e mesmo assim sou valorizada. Meus pais me
ajudam a enfrentar esses sentimentos; eles não me abandonam à minha própria sorte.”

155

Comunicar os sentimentos

Para estimular seu filho, o pai, ou a mãe, deve apenas ouvir e refletir? Nunca poderá manifestar seu ponto de vista?

A comunicação é uma rua de mão dupla. Tanto os pais como os filhos precisam transmitir algo. O segredo, porém,
está na seqüência. Se apenas ouvir não resolve a questão, os pais precisam conversar. Mas tentar transmitir sua
mensagem quando a criança está perturbada é como tentar colar o papel de parede num aposento cheio de vapor. O
papel simplesmente

não adere. Enquanto houver fumaça, ele não irá aderir. O mesmo acontece com os sentimentos. Seus filhos não
podem lhe ouvir quando estão emocionalmente agitados.

Freqüentemente, quando vemos uma criança muito emocionada, corremos ao seu encontro com nossas mensagens;
mas as palavras não são ouvidas. Há momentos em que é muito adequado ensinar, persuadir, usar a lógica ou partilhar
81
as reações (não os julgamentos!), e mesmo procurar tranqüilizar. Mas o segredo está na oportunidade. A regra é: Deixe
primeiro que os sentimentos sejam expressos.

Um recurso que talvez lhe seja útil é ter em mente que você verá essa criança amanhã. Procure guardar hoje as suas
mensagens: apenas ouça ativamente. Se você as transmitir no dia seguinte, haverá maior probabilidade de serem
aceitas. Se esse prazo lhe parece demasiado longo, procure esperar pelo menos trinta minutos.

Recordando o que foi dito no Capítulo 9, os seus sentimentos, transmitidos como "reações-eu" e não como
"julgamentos-você", aumentam as probabilidades de que seu filho ouça o que você tem a dizer, em lugar de adotar uma
atitude defensiva, ou simplesmente não ouvir.

As idéias que você comunica (depois da liberação dos sentimentos da criança) poderão ser aceitas se forem
oferecidas com o

156

respeito sincero. O sr. O. diz: "Meu filho, você pensou na possibilidade de...", ou "Minha experiência foi que..." Essa
abordagem tem menos probabilidade de provocar resistências, ou antagonizar, do que se ele dissesse: "Bem, se você
não tivesse feito isto e aquilo, não estaria nesta situação", ou "O que você deve fazer é..." ou ainda: "Bem, é óbvio que
você devia..."

Quando a criança tem consciência do problema, tudo o que você pode fazer (depois de ter ouvido atentamente) é
ajudá-la a examinar as várias alternativas, oferecer possibilidades, ou comunicar experiências que lhe foram úteis no
passado. Em última análise é o jovem que irá colocar em prática as soluções. Quanto mais você ajudá-lo a ter idéias
próprias, mais estará estimulando a sua independência e auto-respeito. Encher as crianças com as jóias da sabedoria
apenas provoca nelas uma resistência às soluções que você possa vir a sugerir.

(Se você for parte da situação que causou a perturbação, use a abordagem democrática para enfrentar o conflito.)

Armadilhas comuns

Ao lidar com os sentimentos você deve estar atento para certos perigos comuns. Um deles é a tentação de acusar a
criança por sentimentos que ela revelou anteriormente.

A mãe de Margaret ouviu-a falar do ciúme que tinha da irmã, certa manhã, com grande compreensão. Dois dias
depois, ficou furiosa porque Margaret esqueceu, repetidamente, de realizar as tarefas que lhe cabiam na casa. Explodiu,
então: "Você não faz as suas obrigações e tem a petulância de sentir ciúme de sua irmã, que nunca esquece as dela!"
Quando os sentimentos revelados pelos filhos se transformam em armas nas mãos dos pais, a criança não irá mais se
manifestar.

Uma reação comum à necessidade de ouvir os sentimentos é: "Isso toma muito tempo." Na verdade, podem ser
necessários apenas

157

alguns minutos, como vimos no caso de Billy, que desenhou suas reações para a professora do jardim-de-infância.

Às vezes, é realmente necessário um certo tempo. Disse a sra. E.: "Na semana passada ouvi, durante uma hora bem
contada, minha filha Glória falar de seus sentimentos. Na tarde seguinte, ouvi novamente e ela desenhou muita coisa no
papel. Somente no terceiro dia de conversas e desenhos as suas pressões interiores desapareceram."

Se o tempo gasto para ouvir a criança empaticamente parece excessivo, considere as horas que você passa
enfrentando o comportamento negativo. Como disse a sra. V., "Eu me sinto como se estivesse caçando moscas durante

82
todo o dia. Digo: 'Pare com isso', e os meninos deixam de fazer aquilo para começar outra coisa errada cinco minutos
depois. Param de beliscar e começam a socar. Há dias em que isso acontece o tempo todo".

A sra. V. funcionava em "regime de caçar moscas" porque enfrentava constantemente os atos negativos; ela nunca
se ocupou dos sentimentos negativos.

Uma regra básica do comportamento humano é que os sentimentos negativos surgem antes dos atos negativos.

Se Sally tem febre, e a mãe apenas coloca um saco de gelo na sua cabeça, somos tentados a dizer: "Mas minha
senhora, não vê que está tratando apenas dos sintomas? Se quer curar a febre, terá que verificar a causa!" Mas, como
não temos consciência de que as emoções negativas são os "germes" que levam aos atos negativos, adotamos a atitude
do "saco de gelo".

Focalizamos a ação e ignoramos os sentimentos que a causaram

Pense em você mesmo. Você não é rude senão quando tem algum aborrecimento íntimo.Você não bate, nem
censura, nem explode, enquanto certas pressões não se acumulam interiormente.

158

As crianças funcionam exatamente segundo esse princípio. Beliscam ou batem, choram ou se preocupam, choram ou
respondem mal, quando experimentam certos sentimentos. Logicamente, portanto, para eliminar o comportamento
indesejável, temos que lidar primeiro com os sentimentos. As bolsas de gelo não bastam para tratar do comportamento
negativo. (Se você já conhece esse princípio básico, pode compreender que grande parte do comportamento é
prevenida quando as pressões interiores são liberadas antes de serem transformadas em comportamento inaceitável.)

Tudo sobre a necessidade de ouvir ativamente e de canalizar os sentimentos não adiantará nada se você não usar
esse conhecimento. As intenções não substituem a prática diária.

Trabalho compensatório

O que você pode fazer se, ao tentar compreender seu filho, inadvertidamente retorna ao "tampão do sentimento"?
Seja sincero. Diga-lhe sinceramente que está tentando adotar um novo comportamento, ou que é difícil para você lidar
com certos sentimentos porque aprendeu que eram inaceitáveis. (Isso coloca a responsabilidade no devido lugar – na
sua formação – e não em seu filho.) Conquiste a ajuda dele. Você pode até organizar um jogo

familiar – "Caça às Rolhas". Faça com que todos se empenhem em encontrar esses elementos alienantes:
julgamentos, negativas, argumentação inoportuna, tentativas de fazer esquecer e conselhos. Você se surpreenderá ao
ver como a distância entre as pessoas diminuirá. As crianças têm, em geral, grande interesse em ajudar os pais a
aprender. Todos se beneficiam com o maior entendimento.

Mesmo que em muitas ocasiões você não entenda as mensagens de seu filho, o fato de continuar insistindo
mostrará a ele que você se preocupa tanto, que continua tentando.

As crianças – particularmente as mais velhas – podem relutar em atender a essa abordagem, a princípio. Disse Ken:
"Quando meu pai começou a falar dessa maneira nova, fiquei pensando no

159

que ele estaria querendo. Imaginei que se tratava da mesma coisa, com uma aparência nova: um pouco de
compreensão e depois, pronto, de volta aos velhos discursos. Eu não acreditava que o velho pudesse mudar. Agora ele
parece compreender, pelo menos às vezes, como eu me sinto. E parou de me dar conselhos inúteis. Estou começando a
achar que ele realmente se interessa. Engraçado, eu pensava que não."

83
Se seu filho passou 12 ou 16 anos ouvindo você dizer que os sentimentos dele não tinham importância, precisará de
tempo para ajustar-se à sua mudança. Você talvez tenha que conquistar, com a sua sinceridade, a confiança de seu
filho.

Deixe seus filhos saberem que você tem uma nova meta, no que diz respeito aos sentimentos. Isso é apenas parte de
uma atitude sincera. Eles não ficarão, então, imaginando coisas: "Por que essa súbita mudança?"

Há muita coisa a aprender sobre os sentimentos negativos, mas lidar construtivamente com eles evita tantos
problemas que vale a pena colocar seu conhecimento em prática.

Duas emoções em particular – raiva e ciúme – oferecem tanta dificuldade para pais e filhos que devem ser
examinadas separadamente. Elas se assemelham porque ambas disfarçam outras emoções. Para manejá-las com
eficiência é preciso vê-las como códigos que na realidade são.

15 COMO DECIFRAR O CÓDIGO DA RAIVA

A raiva vem depois

A sra. N. foi fazer compras numa loja, junto com seu filho de quatro anos, quando de repente deu por falta dele.
Desesperada, procurou-o em meio à multidão, enquanto o medo crescia nela ao se lembrar de um recente rapto em sua
cidade.

Finalmente o encontra atrás de um balcão, brincando despreocupadamente com alguns papéis. A mãe o levanta do
chão e lhe dá uma palmada no traseiro, dizendo: "Menino levado! Você sabe que tem que ficar perto de mim! Se você
se afastar mais uma vez vai levar uma surra de verdade, está ouvindo?"

A sra. N. está com raiva, mas esse sentimento é secundário. Sua emoção mais forte era o medo.

***

O sr. E. apressa-se a limpar a garagem antes que seus parentes cheguem para visitá-lo. Tão logo ele joga alguma
coisa fora, seu filho de seis anos a apanha de volta. A frustração do sr. W. cresce. De repente ele explode: "Chega,
Bobby! Já estou cheio de você!"

A frustração desse pai transformou-se em raiva e por isso explodiu com o filho.

***

162

Durante um coquetel, a sra. E. percebe que seu marido está dando uma atenção especial a uma outra mulher muito
mais jovem e mais bonita do que ela. Quando ele volta para junto da esposa ela lhe diz ironicamente: "O que houve,
Romeu? A Julieta jogou você fora do balcão?"

Ameaçada e ciumenta, a sra. E. disfarçou em sarcasmo as suas reações primárias e agrediu verbalmente o marido.

***

O sr.T. volta para casa exausto. Ao abrir a porta, seus dois filhos o recebem pedindo, em voz alta, um aumento de
mesada. "Só no que vocês pensam é em dinheiro!", grita ele.

O cansaço transformou-se rapidamente em hostilidade.

***

84
Ricky se comporta mal na frente de outras pessoas, e o constrangimento de sua mãe cresce. Incapaz de tolerar mais,
ela lhe diz secamente: "Vá para seu quarto, menino, e fique lá até ser capaz de comportar-se melhor!”

"Não vou, sua velha bruxa!", responde ele.

O constrangimento transformou-se em raiva, e a humilhação, em fúria.

Repetidamente nós, seres humanos, transformamos sentimentos primários em raiva. Não importa que sejam
sentimentos de preocupação, culpa, decepção, rejeição, injustiça, choque, incerteza ou confusão. E lançamos essa
segunda emoção sobre as pessoas que nos cercam.

Raramente a raiva vem em primeiro lugar.

163

A raiva é um código

Sabendo que a raiva cobre uma emoção anterior, você pode enfrentá-la de maneira mais eficiente, tanto em você
mesmo como em seus filhos. Vista como um código, ela se torna menos ameaçadora. Se você não tiver consciência
desse fato poderá reagir diretamente, e isso apenas lançará lenha à fogueira.

A mãe de Bobby diz "não" a um pedido para mais uma volta no carrossel. A argumentação dela, de que é hora de ir
para casa, não diminui o desejo do menino. Frustrado e impotente de conseguir o que quer, Bobby grita: "Você é
malvada. Não gosto de você, velha feia!"

Os insultos verbais são apenas uma forma de hostilidade. São menos agressivos do que bater, mas servem aos
mesmos propósitos.

Se a mãe de Bobby compreender somente a fúria do menino, poderá ficar com raiva também e dar-lhe um tapa ou
passar-lhe um sermão. Por outro lado, se ela perceber a frustração do filho (quer o desejo dele seja ou não justo no seu
ponto de vista), provavelmente não irá piorar a situação, somando a sua raiva à do filho.

Decifrando o código "Quando minha filha me xingou, na noite passada, procurei refletir-lhe os seus sentimentos,
dizendo: Carolyn, você está muito aborrecida comigo", disse a sra. H.

"Claro que estou! Por que eu tenho que ir dormir às oito horas e Jimmy fica acordado até às nove horas? Ele tem
todos os privilégios, só porque é mais velho. Não tenho culpa por ter nascido depois!"

Invariavelmente, quando podemos aceitar a raiva, ouvindo ativamente, as próprias crianças nos levam aos
sentimentos subjacentes. O código é decifrado e podemos chegar à essência da questão. Neste exemplo, Carolyn diz à
mãe que sua hostilidade é provocada pelo sentimento de estar sendo injustiçada.

164

"É uma injustiça terrível não ter os mesmos direitos, e ela nada pode fazer, pois é impossível ficar mais velha do que
o irmão", refletiu a mãe.

"É isso mesmo", concordou a menina.

"E você fica com raiva porque seu pai e eu permitimos isso", acrescentou a sra. H.

"Claro que fico. A culpa é sua por eu ter nascido depois. É evidente que, se você tem mais de um filho, alguém deve
ser o segundo; mas eu não gosto de ser a mais nova.”

"Há, realmente, muitas desvantagens em ser mais novo.”

85
"Sem dúvida!", disse Carolyn mais tranqüila. "Mas há momentos em que é bom, porque não tenho que fazer tantas
coisas como o Jimmy.”

"Então às vezes você acha vantajoso ser mais nova", comentou a mãe.

"É, acho que gosto das vantagens, mas não das desvantagens", disse Carolyn sorrindo.

Quando os sentimentos foram colocados em palavras e aceitos, a pressão que os cercava foi liberada e a causa da
hostilidade veio à tona. Não tendo que defender sua posição, Carolyn compreendeu que, apesar de tudo, tinha algumas
vantagens. Além disso, a empatia fez com que ela não se sentisse menos valorizada devido a seu desejo perfeitamente
normal.

A raiva é normal

Em geral nos ensinam que a raiva é "má" e não devia existir. E nós transmitimos às crianças que esse sentimento é
inaceitável. Elas, por sua vez, sentem-se menos valorizadas porque em determinados momentos ficam com raiva.

A raiva é mais um fato da vida – uma das muitas emoções a que os seres humanos estão sujeitos.

A hostilidade mais difícil de ser tolerada é a que se volta contra nós mesmos. Compreendemos as irritações contra os
amigos, os

165

irmãos e irmãs, contra situações, e talvez até mesmo contra professores; mas, de alguma forma, achamos que nós
deveríamos estar isentos.

Mas a nossa condição de pais nos obriga, em muitos casos, a provocar a frustração nos nossos filhos. Do nosso ponto
de vista, as restrições que determinamos fazem sentido. Mas para as crianças pode não parecer assim. Se só
entendermos a "nossa parte do elefante", então a raiva delas nos parecerá injustificada. Depende, portanto, do ponto
de vista adotado. Você não precisa modificar sua posição, mas será capaz de compreender também o ponto de vista de
seu filho?

Um exemplo de como as crianças pequenas vêem os pais nos foi dado por um grupo de meninos de quatro anos,
muito inteligentes. Seu assunto favorito era "Como Conviver com as Mães!" As crianças têm tantas razões para se
irritarem conosco, em algumas ocasiões, que se não o demonstram é porque estão, provavelmente, disfarçando esse
sentimento. Do ponto de vista da criança é difícil conviver conosco – até mesmo com os melhores de nós.

Portanto, se seu filho disser: "Não gosto de você", "Você é malvada", ou "Eu queria ter outra mãe (ou pai)", não se
aborreça e procure acompanhar os sentimentos dele. Ele acabará revelando-lhe o código e então você poderá lidar com
os verdadeiros problemas – as emoções primárias.

Causas da raiva

Todos os sentimentos negativos podem transformar-se em raiva: mas, em cada fase da vida, há situações
particulares que podem provocá-la mais do que outras.

Para a criança muito pequena a hostilidade está relacionada com as necessidades físicas e emocionais não-
satisfeitas. A dor de um estômago vazio, a irritação de uma fralda molhada, ou a necessidade de carinho fazem com que
o bebê chore pedindo ajuda.

166

86
Se suas necessidades forem satisfeitas com razoável rapidez, ele não terá que enfrentar uma frustração muito
grande. Se as frustrações infantis forem mantidas no mínimo, o número de momentos de raiva será, evidentemente,
reduzido. A criança não passará grande parte do seu dia sentindo que está lhe faltando alguma coisa.

A busca de poder, domínio e independência pela criança em idade pré-escolar provoca colisões frontais com as
pessoas à sua volta e com o seu ambiente. A vida tem, para ela, milhares de frustrações.

Como as crianças pequenas precisam de intensa atividade muscular, as limitações físicas representam, para elas,
uma frustração real. Quando Berta era pequena, o castigo que sua mãe lhe impunha era deixá-la sentada numa cadeira
durante meia hora. Com o corpo ansiando por exercícios vigorosos, Berta se sentia muito frustrada. Sua mãe a
considerava muito teimosa. "Ela sai da cadeira e imediatamente faz alguma coisa que sabe muito bem que não deve
fazer." Sua mãe não compreendia que a forma de castigo adotada servia apenas para recarregar a "bateria emocional"
de Berta com maiores doses de hostilidade. Não é de surpreender, portanto, que ela saísse do castigo disposta a ir à
forra.

Para reduzir os acessos de raiva elimine o máximo de frustrações possível, nos momentos em que seus filhos
estiverem passando pelos ajustes psicológicos resultantes de sua fase de crescimento, ou de circunstâncias externas.
Crie um ambiente adequado às necessidades deles para diminuir os conflitos. Evite isolar uma criança com raiva, a não
ser que ela prefira ficar sozinha. Mandar a criança para o quarto gera um sentimento de rejeição que

apenas agrava os sentimentos negativos. O objetivo é reduzir as cargas emocionais e não aumentá-las.

Isso não significa que a frustração seja, por si só, prejudicial às crianças. O segredo está no volume de frustração
enfrentado pela criança, em que fase e com que freqüência essa frustração se torna parte de sua vida. A dose certa, na
ocasião adequada, aumenta a

167

tolerância à frustração, dando condições à criança para enfrentá-la. O bebê, por exemplo, é menos capaz de
enfrentar os atrasos na hora da mamadeira do que a criança de um ano; as pressões da criança de dois anos tornam-na
menos capaz de enfrentar a frustração do que a que tem três anos. A criança que vive com excesso de frustração em
todos os momentos torna-se muito mais sensível: basta um leve arranhão para fazê-la berrar.

Em todas as idades, a hostilidade pode ser motivada por padrões pouco realistas, disciplina destrutiva, encontros
ameaçadores, competição excessiva e constante comparação com outros.

É impossível eliminar todas as situações que provocam raiva, mas você pode procurar reduzir a quantidade delas.
Haverá muitas ocasiões em que a criança ficará com raiva. Você deve, então, ajudá-la a expressar essa raiva de forma
direta. E para isso você deve ouvi-la com uma compreensão empática e uma atenção ativa, aceitando a emoção e
canalizando a raiva para escoadouros seguros.

Lidando com a própria raiva

O primeiro passo para enfrentar com eficiência a hostilidade é aceitar a existência desse sentimento em você
mesmo. Envergonhar-se de suas animosidades, ou negá-las, torna quase impossível enfrentar as raivas de seu filho. Os
impulsos agressivos dele mexem com os sentimentos proibidos existentes em você.

A segunda coisa a fazer, no caso de raiva, é vê-la como ela é: um código que indica a presença de uma emoção
anterior. Da próxima vez que ficar com raiva, procure a emoção subjacente. Identifique o sentimento preliminar e
comunique-o, em lugar de comunicar o código. Em seguida, enfrente a causa de sua raiva. É difícil encontrar soluções
para emoções disfarçadas. Esse hábito faz de você um modelo positivo para seus filhos. Além disso, a comunicação de
sentimentos primários causa menos danos à auto-estima

168
87
do que violentas agressões verbais. A raiva atemoriza as crianças; a comunicação de emoções primárias reduz os
seus temores.

Quando você partilha desses primeiros sentimentos transmite reações do tipo "eu", e não "julgamentos dos outros".
(Ver Capítulo 9.) Invariavelmente as expressões de raiva são séries de julgamentos que destroem o auto-respeito.
Examine as suas reações com relação a isso. Anote algumas das coisas que costuma dizer quando está com raiva, e veja
com que freqüência elas se enquadram nessa categoria. Uma advertência: dizer "Estou com raiva" não é uma reação do
tipo "eu" porque não revela os seus sentimentos subjacentes. Dizer isso apenas disfarça o que realmente está
acontecendo dentro de você.

Em muitos grupos de encontro pessoal, o agressor se afirma manifestando sinceramente a sua ira. (Embora essa
manifestação possa aliviá-lo, deixa a sua vítima insatisfeita, ou ainda

mais na defensiva.) Quando você sabe que a raiva é uma espécie de vapor exalado por outros sentimentos
perturbados, ser totalmente sincero significa transmitir a sua emoção básica, ou seja, a sua primeira emoção.

Sinais de raiva

As crianças pequenas geralmente mostram diretamente a sua raiva. Na idade pré-escolar elas mordem, dão
pontapés, se sacodem, gritam, cospem ou dão beliscões, e não há dúvidas de que estão com raiva. Quando elas estão
perturbadas, podem até mesmo ter um ataque de raiva.

A maneira como você enfrenta esses ataques pode prejudicar o seu esforço de relacionar-se construtivamente com
seus filhos. Os ataques são apenas gritos que significam "Perdi todo o controle! Estou extremamente frustrado!" É
evidente que algumas crianças usam os ataques como uma maneira de controlar o ambiente; aprenderam que gritar e
dar pontapés lhes proporciona o que

169

querem. Se isso estiver acontecendo em sua família, só há uma forma de solucionar a situação: mantenha-se firme,
coloque algodão nos ouvidos, se necessário, e deixe seu filho fora das situações em público nas quais ele queira ter os
seus acessos para tentar impor a sua vontade. Quando ele compreender que você não vai ceder, provavelmente
desistirá. Mas esteja preparado para enfrentar todos os recursos dele, até que se convença totalmente de que você
mudou de tática. Mas, se você não ensinou ao seu filho que ele pode fazer o que quiser quando berra e se joga no chão,
então a "birra" é uma indicação de que ele não se sente capaz de enfrentar as situações.

Os pais de Paul não sabem que as "birras" disfarçam a perda de controle. Consideram-na como um comportamento
inadequado e, em conseqüência, o castigam fisicamente. Quais os resultados desse tratamento?

Coloque-se por um momento no lugar de Paul. Primeiro ele fica totalmente frustrado por uma situação que não
pode controlar. (Aos quatro anos seus controles ainda são mal desenvolvidos.) No momento preciso em que ele está
sobrecarregado de emoções que não pode dominar, recebe uma grande palmada. Passa a ter, então, vários
sentimentos novos para enfrentar: mágoa com a palmada, frustração de não ser compreendido, ressentimento por não
ter a ajuda dos pais, impotência para se vingar diretamente e medo de novo castigo. Resultado: mais sentimentos
negativos do que antes.

"Mas", diz o pai dele, "quando eu lhe dou uma palmada ele pára com a 'birra' imediatamente!" Claro, o sintoma
desaparece, mas por quê? Devido ao medo. Superficialmente a palmada parece eficaz. Mas o que acontece com todos
os sentimentos que provocaram a "birra"? E o que Paul faz com todos os sentimentos novos provocados pela palmada?
Pode reprimi-los, mas eles acabarão por se manifestar por meio de muitos outros modos pelos quais os sentimentos
recalcados se fazem sentir. Paul recebe uma lição sobre como é "Melhor Reprimir do que Expressar".

170

88
Se você tem qualquer dúvida sobre a conveniência de dar palmadas para acabar com ataques de raiva, pergunte a si
mesmo quais seriam seus sentimentos se, num momento em

que tivesse perdido totalmente o controle, a pessoa mais importante de sua vida batesse em você. Você sabe como
se sentiria; as crianças têm a mesma reação. (Alguns pais se acham no direito de ter ataques de raiva e de bater, mas
nem sonhariam em permitir que os filhos tivessem as mesmas reações.)

Quando você sabe o que os ataques de raiva ou "birras" significam – a comunicação de uma frustração extrema – é
evidente que a agressão física, da sua parte, será a atitude menos proveitosa. Nessas ocasiões a criança precisa de uma
assistência construtiva – deve ser ouvida ativamente, e seus sentimentos devem ser dirigidos para escoadouros seguros.
Lembre-se que quando você fecha a porta à expressão direta da raiva – por meio dos escoadouros aceitáveis – você
literalmente insiste na repressão, com todas as suas desvantagens.

Sinais indiretos de raiva

A implicância constante, os mexericos e o sarcasmo são manifestações indiretas de animosidade acumulada. Na


maioria das famílias essas atitudes são mais seguras do que a expressão direta. A criança tem o álibi perfeito: "Ora, eu
não quis dizer nada com isso."

Quando a criança receia expressar a raiva diretamente, encontra alvos substitutivos. A raiva de Brian contra a mãe
foi liberada por meio da indignação contra seu professor. Gerald reprimia as hostilidades contra seu irmão e as liberava
contra os meninos da vizinhança. Gretchen liberava a sua sendo cruel com os animais. Bill enfrentava a agressão contra
os pais contrariando os valores deles. Os pais gostavam de decisão, e ele se especializava no adiamento; eles pregavam
a cortesia, ele cultivava a grosseria; eles queriam que escrevesse semanalmente quando estava no colégio,

171

mas ele não o fazia. Outros, ainda, encontram a liberação associando-se a grupos que "odeiam".

Muitas crianças voltam a hostilidade contra si mesmas, apresentando sintomas de asma, vômitos, acidentes
constantes e medos exagerados. A criança "boa" demais e extremamente tímida mascara, muitas vezes, agressões
fortes que aprendeu a considerar inaceitáveis.

A criança tímida evita o envolvimento com os outros para que seu segredo não seja revelado.

A criança que aprendeu que a hostilidade provoca desaprovação teme os seus impulsos agressivos. As crianças de
menos de seis anos acreditam que os desejos agressivos – de que o bebê desapareça, por exemplo – se transformarão
em fatos. Podem, então, ser excessivamente boas para negar, a si mesmas e aos outros, a existência desse desejo. A
diferença entre a realidade e a fantasia é imprecisa para a criança pequena. Mesmo quando ela coloca seus desejos
agressivos em ação, acredita que são "maus". Você precisa ensinar, de forma ativa, a diferença entre sentimentos hostis
e ações hostis.

A depressão é outro sinal indireto da raiva. Ela resulta da raiva forte e não manifestada contra alguma pessoa ou
situação; da culpa em relação à raiva, e da repressão. Esse processo ocorre no subconsciente, e a pessoa só percebe que
se sente deprimida. A tristeza, freqüentemente, é um disfarce da raiva.

Se seu filho usa meios indiretos para expressar hostilidade, isso mostra que ele se sente inseguro para fazer isso de
maneira direta. Cabe a você ajudá-lo a encontrar saídas socialmente aceitáveis para a expressão direta.

Enfrentar, de maneira construtiva, a raiva de seu filho é ajudá-lo a aceitar todas as partes de si mesmo sem
julgamento negativo. E isso constitui a base do respeito próprio.

16 COMO DESMASCARAR O CIÚME

89
O "resfriado comum"

Tentar eliminar todo o ciúme é como tentar impedir que a criança pegue um resfriado comum. É impossível. O ciúme
é parte integrante da vida.

Todos nós sofremos os seus efeitos e sabemos que o ciúme gera sentimentos e comportamentos que causam
angústia. Nossa experiência pessoal e a incapacidade de nossa cultura em aceitar os sentimentos negativos geralmente
fazem com que ensinemos aos nossos filhos que o ciúme é errado. As crianças, apesar de nossos melhores sermões,
continuam a ter ciúme, embora possam sentir-se culpadas e menos dignas com isso. Muitas vezes não conseguimos ver
que o ciúme é apenas uma máscara.

O que diz o ciúme

O que uma outra pessoa deve ter para que você sinta ciúmes dela? Maiores habilidades, atração ou autoconfiança?
Ser mais aceita, ter posição ou dinheiro? Na realidade, o que provoca esse sentimento não tem importância. O essencial
é que

o ciúme surge quando nos sentimos em desvantagem.

174

Quando você se sente perfeitamente seguro nas áreas que considera importantes, o ciúme não existe. Essa emoção
disfarça a sua convicção de não ter sorte. É um sinal de alarme dizendo "Eu me sinto ameaçado, enganado, inseguro,
excluído". Pode dizer também "Tenho medo de partilhar uma pessoa porque posso perdê-la", ou mesmo "Eu não gosto
de mim mesmo".

Intenso e generalizado, ou moderado e ocasional, o ciúme faz com que você se sinta muito deprimido para ser feliz.
Não importa se a desvantagem é real ou imaginária. O ciúme é real para a pessoa que o sente.

Por que as crianças sentem ciúme

A própria natureza da vida em família traz desvantagens intrínsecas para irmãos e irmãs. Toda criança quer amor e
atenção exclusivos dos pais; ela quer ser a mais amada. Esse desejo torna o ciúme inevitável nas famílias.

Basta você imaginar que vive numa sociedade que permite a poligamia para perceber o sofrimento de seus filhos.
Nessas culturas, a rivalidade entre as esposas constitui um problema sério. Todos os recursos são usados para conseguir
a condição de favorita. Suponha que você é uma mulher vivendo nessa sociedade. Não gostaria de ocupar o lugar
número um, ou pelo menos ter, de vez em quando, a confirmação de que ainda ocupa um lugar de destaque na afeição
de seu marido? Você não procuraria oportunidades para alfinetar as suas rivais e criar-lhes problemas? Possivelmente
você preferiria livrar-se desses espinhos na sua vida.

As crianças estão exatamente nessa posição. Bobby vê a mãe passar longas horas cuidando do novo bebê, e o ciúme
começa a atormentá-lo. Jane, que tem cabelos encaracolados, vê a

mãe amarrar, todas as noites, os cabelos de sua irmã, que os tem lisos, e gostaria de ter alguma desculpa para
receber a mesma atenção. Sallly nota que sua irmã faz rapidamente os deveres de casa, enquanto ela leva muito tempo.

175

Toda criança, de certo modo, vive à sombra dos outros na família, sentindo-se em desvantagem em algumas coisas.
Mesmo o filho único não é poupado desse sentimento, tendo ciúme de outras crianças fora da família, e desejando,
talvez, ter irmãos e irmãs. E pode ter inveja das atenções que seus pais dispensam a outras crianças.

O ciúme é tão normal que, mesmo quando irmãos e irmãs se respeitam mutuamente, podem não se sentir seguros
para revelar seus verdadeiros sentimentos. Por outro lado, se o ciúme é o tema principal da vida da criança, ela sofrerá.
90
Qualquer uma dessas situações - a falta total de ciúme ou a sua presença constante - significa que a criança precisa de
auxílio.

O objetivo não é eliminar totalmente a presença do ciúme, mas reduzir as situações que o provocam e trabalhar com
o sentimento quando ele aparece.

Vantagens das rivalidades

Pode parecer que a rivalidade entre crianças não traz benefícios. No entanto, irmãos e irmãs ensinam, uns aos
outros, a enfrentar uma das realidades da vida: não se pode ter atenção exclusiva, nem todas as vantagens. É uma lição
dura, especialmente para a criança pequena. Ela tem de aprender que o amor não é como um bolo: amor dividido não
significa menos amor.

Irmãos e irmãs ajudam a criança a aprender como dar e receber dentro do círculo familiar. Oferecem experiências
valiosas em comunicação e concessão - lições que o filho único só irá aprender, em grande parte, fora da família. Se as
rivalidades forem tratadas de maneira construtiva, as crianças aprenderão que o valor dos outros não lhes diminui o
valor próprio como pessoas.

As rivalidades familiares normais diminuem a egocentricidade infantil e desenvolvem forças e recursos interiores.
Por mais incômodas que sejam, elas proporcionam experiências no convívio com os outros.

176

Reduzindo o ciúme

Assim como no caso de raiva, é prudente reduzir o número de ocasiões em que a criança possa se sentir em
desvantagem. Em primeiro lugar, e o que é mais importante, deve-se ajudar a criança a desenvolver a auto-estima, pois
assim reduzimos a sua convicção de que é infeliz. A confiança em si mesma funciona como uma proteção contra o
sentimento de ser o último. A criança convencida de seu valor está menos ameaçada pelo valor das outras. Pode dividir
o amor de seus pais porque sabe que ocupa um lugar sólido no coração deles.

A criança que se sente inadequada e não tem consciência de seu valor é um alvo fácil para o ciúme na maioria dos
casos. Sem ter fé em si mesma ela se sente diminuída a todo momento. Tem de agarrar o que pode e procura
oportunidades para depreciar os outros. Não pode tolerar a divisão de tempo e de atenção.

Toda criança convive melhor com as outras – até mesmo com seus irmãos e irmãs – quando gosta de si mesma.

A criança que tem respeito próprio sente ciúme com menos freqüência.

Ela pode sentir um pouco de ciúme, mas a sua experiência positiva e a fé em si mesma fazem com que esse
sentimento dure pouco.

Trabalhe com cada criança para que ela possa desenvolver seus interesses e talentos especiais. Trate cada uma delas
como a um indivíduo à parte. Responsabilizar uma criança pelo mau comportamento de outra apenas provoca
sentimentos intensos. Disse Sid: "Quando meu irmão amassou o carro, Papai tomou as chaves de nós dois. Eu nem
mesmo estava com Skip na hora do acidente. É como se papai achasse que, se Skip amassou o carro, eu também tive
culpa. É sempre assim: ele nos trata como se não fôssemos pessoas diferentes.”

177

Os encontros autênticos são um antídoto para o ciúme. Brian está aborrecido por não ter sido escolhido capitão de
seu time, mas a decepção é diminuída quando seu pai planeja passar momentos especiais sozinho com ele. Henry se
sente infeliz por não ser tão alto e forte quanto o irmão, mas sabe que os pais o amam, apesar de seu tamanho e de sua
força.

91
Dificilmente temos o mesmo sentimento em relação a cada filho, e nem sempre os tratamos da mesma maneira. Se,
porém, um filho recebe sempre um tratamento preferencial, estaremos aprofundando os ressentimentos dos menos
favorecidos.

Se constantemente você prefere um de seus filhos, procure descobrir a causa desse favoritismo. Os menos
favorecidos têm traços de que você não gosta? (Lembre-se: o traço que você menos aprecia num filho é, com
freqüência, o mesmo que você rejeita em si.) Compreender essa qualidade em você mesmo – e aceitá-la – irá ajudá-lo a
aceitar melhor o seu filho.

Como já vimos, o pai pode preferir um dos filhos como uma compensação para as suas próprias necessidades não-
satisfeitas e, com isso, pressiona indevidamente a criança. Esse tratamento provoca um ciúme intenso nos outros
irmãos e irmãs que não sofrem a mesma pressão.

Quando o ciúme existe, examine a situação de sua família e verifique se você realmente oferece mais vantagens a
um filho do que a outros. Há, por exemplo, a tendência em transformar a filha mais velha numa espécie de mãe
assistente. E, se você não lhe oferecer compensações por isso, ela poderá desenvolver um forte ressentimento contra os
irmãos e irmãs mais novos, por terem uma posição de menos responsabilidade na família. Ana foi incumbida de
fiscalizar o comportamento de seus irmãos e irmãs mais novos. Quando eles se comportavam mal, era responsabilizada.
Ana sentia-se em clara desvantagem.

O tratamento desigual, baseado na idade ("Quando você tiver dez anos poderá ficar acordado até tarde como Bill"),
é aceito

178

com mais facilidade pela criança do que a desigualdade motivada pelo sexo ("As meninas não devem ser brutas, isso
não é próprio delas"). Quando o tratamento é diferente devido à idade, a criança pelo menos sabe que terá uma
oportunidade no futuro. Mas quando o tratamento é injusto devido ao sexo a criança se sente presa numa armadilha.
Poderá, nesse caso, ressentir-se de seu sexo e rejeitá-lo.

A maneira mais segura de provocar o ciúme é a comparação. Como o ciúme vem do sentimento de ser "menos que"
o outro, as comparações apenas aumentam a fogueira.

"Não compreendo por que você não estuda como a sua irmã. Eu nunca tenho que dizer isso a ela.”

"Ken não joga fora o dinheiro dele como você faz. Como economizou a mesada, tem o seu próprio carro. Mas você
não faz nada com o seu dinheiro!"

Observações como estas – comuns em milhares de famílias – são um veneno mortal. Elas provocam ciúme,
ressentimento e inadequação. Mostram à criança que ela é inferior a alguma outra. Para compreender a situação, pense
no que você sentiria se o seu chefe dissesse: "Por que você não apresenta seus relatórios em tempo, como John? Ele
nunca se atrasa." Mesmo que você se modifique, não irá gostar que alguém lhe seja apontado como modelo. Se lhe
fizerem tal observação, você provavelmente ficará satisfeito quando John fracassar. Você poderá até mesmo procurar
uma oportunidade para colocá-lo em má situação com o chefe.

Mesmo que você nunca use essas palavras comparativas com seus filhos, se pensar nesses termos eles serão
transmitidos de maneira não-verbal. Como as comparações são freqüentes em nossa cultura, precisamos nos lembrar
sempre de que "Cada criança é única; não adianta compará-la com outra".

Comparações servem apenas para reduzir a auto-estima e estimular sentimentos de inadequação.

179

92
Muitas crianças fazem as suas próprias comparações sem precisar de nós para isso. Na verdade, ensinar às crianças a
não se compararem com outras é um grande desafio.

Para diminuir as rivalidades, mostre diretamente à criança como você se sente (com as reações do tipo "Eu"). Evite
mencionar exemplos brilhantes do comportamento de outras pessoas.

Construir a auto-estima, evitar o tratamento preferencial e injusto, recusar-se a usar a criança para satisfazer suas
próprias necessidades insatisfeitas, e evitar comparações, são algumas das medidas para evitar os ciúmes
desnecessários.

A atmosfera familiar influi no ciúme

O clima que existe em qualquer família afeta a rivalidade contida nela.

A família de George vivia muito bem. Seus pais respeitavam-se e ajudavam-se mutuamente. Uma atmosfera
tranqüila, na qual as pessoas eram mais importantes do que as coisas, evitava muitos atritos. Como grupo, participavam
juntos de muitas atividades; no entanto, todos tinham liberdade para participar sozinhos de outras coisas; todos se
sentiam à vontade para convidar estranhos. A família de George estabeleceu, de forma cooperativa, as suas regras
sobre o respeito às necessidades de cada pessoa. Naturalmente George tinha uma atitude aberta, sentia-se valorizado e
raramente tinha ciúme de seus irmãos e irmãs.

Em contraste, Pauline vinha de uma família muito disciplinada, em que apenas as necessidades do pai tinham
prioridade. Ela observou que, por mais que sua mãe se empenhasse, o pai nunca estava satisfeito. O ambiente
doméstico era marcado pela desconfiança, pela ânsia de perfeição, de bens materiais e de posições, e as crianças
recebiam estímulos ativos para competirem entre si. Viviam numa comparação diária, com

pouco carinho ou humor. Tinham que lutar pelas migalhas de afeição que sobravam. O clima geral da família era tal
que ninguém gostava de ninguém.

180

Não é de surpreender que Pauline considerasse o fato de ser menina como uma desvantagem, ou que os ciúmes
fossem intensos em sua família. Sentindo-se profundamente inadequada, vivia na suspeita de que todos eram melhores
do que ela. Estava pronta a brigar pela menor coisa.

A maneira como vivemos com nossos maridos e nossas mulheres, a divisão da responsabilidade e como satisfazemos
as nossas necessidades afetam o moral da família e os ciúmes. Uma família tranqüila, receptiva, cooperativa diminui o
número de oportunidades que as crianças têm de se sentirem em desvantagem.

Momentos explosivos

Certos períodos na vida de toda criança tornam o ciúme mais presente. Tendo isso em mente, você pode estar
pronto para ajudar.

Sabemos todos que um bebê novo sempre provoca ciúmes em outras crianças. Por mais que elas se interessem pela
sua chegada, acabam sentindo-se um tanto deslocadas depois que a novidade desaparece, ou o bebê se transforma em
alguma coisa que lhe é pessoalmente desagradável.

Podemos esperar o aumento do ciúme cada vez que a criança deve enfrentar uma nova fase de seu
desenvolvimento, pois nessa hora ela se sentirá menos segura de si. A insegurança interior deixa-a mais sensível com
relação às vantagens que acha que os outros têm, apesar dos fatos.

Os acontecimentos externos também podem provocar insegurança e tornar mais provável o ciúme. Entrar para a
escola, adaptar-se a um professor novo, separar-se dos amigos que se mudam, mudar para uma comunidade nova,

93
enfrentar matérias difíceis, ajustar-se à separação, morte ou divórcio na família – qualquer pressão nova pode provocar
explosões nas crianças.

O ciúme é mais intenso entre filhos do mesmo sexo e com pouca diferença de idade. Tom e Dick, de quatro e cinco
anos, são

181

ambos muito apegados à mãe. Seus conflitos são mais intensos do que se Tom tivesse quatro e Dick, quinze anos.

Quando a criança sofre pressões interiores ou exteriores que possam ameaçar sua adequação, você deve ajudá-la
com o apoio empático.

Lidar com o ciúme de maneira construtiva

Mesmo quando você reduz o número de situações que criam ciúme, ele ainda pode surgir em várias ocasiões. Sua
tarefa não é decidir se seu filho deve ou não ter esse sentimento, mas enfrentá-lo junto com ele.

O ciúme é particularmente impermeável à argumentação e à lógica. Como dissemos no Capítulo 14, a maneira mais
construtiva de reduzir os sentimentos negativos de qualquer tipo é estimular a sua expressão – em palavras, desenhos,
pinturas, música, argila, jogo

dramático – ao mesmo tempo em que se ouvem e se aceitam sinceramente tais sentimentos, do ponto de vista da
criança. A criança ciumenta tem fome de compreensão empática.

O ciúme que nos parece ilógico é o mais difícil de ser aceito. Sabemos, porém, a partir de nossas próprias
experiências, que os sentimentos nem sempre são lógicos. A convicção da criança de que está sendo deixada "de fora"
ou enganada pode não corresponder aos fatos. Mas isso não tem importância. A questão é que ela se sente infeliz nesse
momento. E você deve ajudá-la a enfrentar o que ela está sentindo nessa ocasião, pois do contrário ela poderá concluir
que "Meus pais não compreendem".

Veja estas explosões típicas de ciúme que ocorrem, de tempos em tempos, na maioria das famílias:

"Você faz mais pelo Teddy do que por mim!", exclama Gene.

"Ora, Gene, isso é um absurdo!", responde o pai. "Eu não te levo para passear todas as tardes de sábado? Não
comprei uma bicicleta para você no Natal? E você não vai acampar no verão?

182

Isso custa dinheiro e não gastamos tanto assim com Teddy, ainda. Na verdade, você recebe mais coisas do que ele.
Por isso, pare com essa implicância."

O pai de Gene bombardeou-o com fatos para mostrar-lhe que ele não tinha razões lógicas para seus sentimentos.
Como o pai pode aceitar um sentimento irracional que não se harmoniza com a realidade? Os sentimentos podem ser
irracionais, mas quando você os aceita como legítimos – porque eles existem – a criança define as questões reais e se
torna mais realista em suas reações. Tentar acabar com o ciúme pela argumentação apenas reforça o sentimento de
infelicidade da criança.

Como o pai de Gene pode enfrentar os sentimentos do filho de maneira mais construtiva?

"Você faz mais pelo Teddy do que por mim!", exclama Gene. "Parece que você está se sentindo prejudicado",
responde o pai, tentando penetrar nos sentimentos do filho.

"Sim, todas as noites você deixa ele ficar sentado no seu colo e lê aquelas histórias idiotas", retruca Gene. (Como os
seus sentimentos foram aceitos, Gene deixa o pai perceber o que realmente o está aborrecendo.)
94
"Você não gosta que eu trate o Teddy dessa maneira", reflete o pai.

"Ora, por que deveria gostar? Só porque ele é pequeno recebe toda essa atenção como se fosse um personagem
privilegiado aqui, ou coisa parecida!”

(Seria tentador lembrar a Gene, a essa altura, que ele recebeu o mesmo tratamento quando era pequeno, mas tal
mensagem interromperia a comunicação. Lembrar-lhe alguma coisa que recebeu há cinco anos não tem importância
para os seus sentimentos do momento. Observe como uma empatia maior faz aflorar a verdadeira questão.)

"É difícil para você dividir a minha atenção com o Teddy", diz o pai.

183

"É sim, papai", responde Gene calmamente. "Eu sei que você passa todas as tardes de sábado comigo, mas isso
acontece apenas uma vez por semana. Teddy tem a sua atenção todas as noites.”

"Você gostaria que eu dedicasse a você um pouco mais do meu tempo, não é?”

"É sim. Talvez sábado à tarde eu saísse com Bob e o pai dele, nós dois poderíamos passar uma meia hora juntos
todas as noites, depois que Ted fosse dormir, para jogar damas. Eu não quero que você leia histórias pra mim como se
eu fosse uma criancinha, mas gostaria de jogar uma ou duas partidas de damas."

A empatia ajudou o pai de Gene a chegar à verdadeira causa do problema; ajudou o menino a superar a idéia
irracional de que seu pai fazia mais para o irmão do que para ele. Gene pôde levar em conta as limitações de tempo do
pai e, juntos, chegaram a uma solução que atenderia à sua necessidade de ter a companhia do pai com mais freqüência.

No exemplo seguinte, a mãe ajuda a filha a expressar seu ciúme, tanto em palavras como em atos:

"Odeio Jane", gritou Bonnie certa noite. "Uma de nós duas terá de ir embora.”

"Você não pode tolerar mais a sua irmã", disse empaticamente a mãe.

"Não, não posso não. Ela é teimosa; por mais que lhe bata, ela não chora. (Bonnie deixa o código da raiva e tira a
máscara do ciúme para revelar os sentimentos de frustração e inadequação.)

"Você gostaria de ser forte para se desforrar.”

"Claro! Mas não há como. Ela sempre será mais forte do que eu.”

"Você acha que nunca poderá ir à forra com ela.”

"Isso mesmo, mamãe", disse Bonnie, mais calma. "Não consigo ir à forra com ela, por isso quero que ela
desapareça.”

"Essa lhe parece a única solução – livrar-se dela", repetiu a mãe.

"É sim, mas sei que você não fará isso." (E reconhece, assim, que o seu desejo não é realista. É um desejo normal
para alguém

184

que sempre se sentirá em posição de inferioridade; mas, sem precisar de qualquer argumentação da mãe, Bonnie
tem consciência dos fatos. A compreensão empática que recebe da mãe lhe aumenta a probabilidade de poder
enfrentar a realidade de fato.)

95
"Não", responde a mãe. "Não posso mandá-la embora, mas você pode fingir que esta boneca é a Janet e fazer o que
quiser com ela." (A mãe estabeleceu os limites do comportamento, mas ofereceu a Bonnie um canal aceitável para os
sentimentos intensos que precisavam ser expressos.)

Com isso, Bonnie começou a bater com a boneca no chão, a pular em cima dela, gritando: "Sua estúpida, coisa forte
e grande! Agora você não é tão forte; veja agora quem é forte! Você é pequena e fraca e eu vou fazer picadinho de
você! Estúpida, fraca, chorona!" Furiosa, Bonnie bateu na boneca, gritando repetidamente "Você é a pequena! Tome
isto e mais isto!"

Enquanto a mãe continuava a dar-lhe apoio, colocando seus sentimentos em palavras, Bonnie dava vazão à sua fúria.
Depois, olhou para a mãe e disse: "Estou cansada. Vou dormir."

Sem saber se todos os sentimentos de estar em desvantagem haviam sido liberados por Bonnie, sua mãe preparou-
se para ter novas conversas sobre o assunto. Na manhã seguinte, porém, a filha estava de bom humor, oferecendo-se
até mesmo para passar manteiga na torrada da irmã. A tempestade estava superada; o sentimento se havia liberado de
tal forma que a afeição que Bonnie também sentia pôde manifestar-se. Poderá haver outras ocasiões

em que ela se revolte contra a força da irmã, mas a mãe poderá ajudá-la a enfrentar esses sentimentos quando
surgirem.

Proporcionando um escoadouro seguro e ouvindo empaticamente a filha, a mãe de Bonnie ajudou-a


construtivamente a enfrentar seus sentimentos. Não sugeriu soluções, não argumentou, não fez julgamentos.
Simplesmente colocou-se ao lado da filha e tentou compreender como ela via o mundo. Bonnie não se sentiu "má"
devido ao ciúme e à raiva. Seus sentimentos negativos dissiparam-se depois de expressos e aceitos como reais para ela.

185

Muitas crianças têm menos dotes naturais do que os irmãos ou irmãs. É natural que essa desvantagem lhes
provoque sentimentos negativos. A compreensão empática pode ajudá-las a aceitar o inevitável.

Muitas vezes um dos filhos recebe tratamento especial por causa de sua idade ou de uma circunstância
específica.Você pode, nesse caso, diminuir o ciúme proporcionando aos outros um privilégio correspondente; se isso
não for possível, ajude-os a aceitar o fato mais facilmente, compreendendo como se sentem.

A empatia diz: "Você não é menos amado, nem tem menos valor, devido aos seus sentimentos. Eu compreenderei e
tentarei ajudá-lo a enfrentar esses sentimentos." A recusa em aceitar os sentimentos de ciúme faz com que as crianças
se sintam culpadas, menos amadas e indignas. A falta de aceitação dos sentimentos é sempre prejudicial à auto-estima.

Sinais de ciúme

Com freqüência, a criança não revela diretamente os sentimentos que se escondem atrás do ciúme. Ela não diz:
"Tenho medo de dividir você com outro", ou "Sinto-me excluído". Na verdade, a criança pode nem mesmo ter uma idéia
clara do seu problema.

Ela fala, quase sempre, em código. Ela nos agride com ressonantes julgamentos do tipo "você" (Talvez porque
modele seu modo de expressar-se pelo nosso!), dizendo: "Você não me ama", ou "Você sempre faz a vontade de Carla."

Como não reconhecemos o código, reagimos à mensagem literal das palavras. Dizemos: "Ora, querida, é claro que
gosto de você", ou "Isso não é verdade! Eu me esforço para ser justa com Carla e com você". Mas, como o sentimento
subjacente não foi ouvido, nossas explicações não impressionam. Elas não atingem a discriminação sentida pela criança
naquele instante.

Quase sempre, a única indicação de que a criança se sente infeliz é a sua aparência de aborrecimento e de que está
pronta a

96
186

brigar por qualquer coisa. Ou pode começar a implicar com um irmão mais novo. Nós, seres humanos, funcionamos
por um sistema de guinchos. Quando nos sentimos por baixo, tentamos puxar também para baixo os que nos cercam –
em particular os que estão muito acima e que nos incomodam com isso. É como se achássemos que, rebaixando os
outros, nós subimos.

Outro sinal de ciúme pode ser um súbito aumento de dependência. Marta, de seis anos, revelou seus verdadeiros
sentimentos para com seu irmãozinho novo, voltando a molhar a cama à noite, a chupar o dedo e a pedir colo.

Um indício sutil de ciúme pode ser um aumento na exigência de coisas. Quando a criança começa, de repente, a
pedir mais e mais coisas, talvez esteja precisando não de mais brinquedos, e sim de mais tempo – de mais atenção
concentrada.

Muitas crianças que se sentem prejudicadas começam a se comportar mal, subitamente. Peter aumenta o volume da
televisão até ficar insuportável, sempre que o pai ajuda o irmão mais novo com os seus deveres da escola. É a sua
maneira infantil de dizer: "Eu também quero atenção!”

"Ao participar do preparo dos deveres do irmão, mostrando-lhe como resolver um problema, Peter acabou com o
seu comportamento irregular. Ele começou a demonstrar um orgulho sincero pelo progresso do irmão", disse o pai, "e
toda a sua atitude modificou-se." (Ele sentiu, é claro, que tinha uma importante contribuição a dar; que tinha
importância! Não havia, portanto, razão para ciúme.)

Direta ou indiretamente, as crianças nos dizem quando se sentem infelizes. Reagir diretamente ao código nem
sempre é útil. Nossa tarefa mais importante é proporcionar-lhes empatia. Toda criança precisa sentir-se compreendida,
incluída e importante. Quando ela tem certeza disso, não usa recursos duvidosos para acabar com suas desvantagens.
Sente-se feliz e confiante de não estar sendo enganada.

Quarta parte

CRESCIMENTO MENTAL E AUTO-ESTIMA

17 MOTIVAÇÃO, INTELIGÊNCIA E CRIATIVIDADE

O impulso interior

Estrangeira em nosso planeta, toda criança nasce curiosa. Ela interage livremente com aquilo que descobre à sua
volta, sem a influência de idéias preconcebidas. Manipula, experimenta e explora. A criança cuja curiosidade é aceita
como válida recebe a luz verde para aprender.

Aos três ou quatro anos a criança normal é praticamente uma caixa de perguntas ambulante. "Por que a grama é
verde?", "O que prende as nuvens?", "Por que o fogo é quente?", "Você vê quando está morto?", "Para onde vai o
vento quando pára de ventar?", "Deus é casado?", "Por quê?" Aos cinco anos, a maioria das crianças já adotou as
atitudes básicas ditadas pelo aprendizado – atitudes condicionadas pela reação dos pais para com as suas primeiras
explorações.

As crianças aprendem se é seguro aprender.

Infelizmente algumas crianças aprendem muito cedo a não aprender. Como isso acontece?

Tommy vira seu novo carrinho de cabeça para baixo e torce-lhe as rodas. Ouve: "Não, Tommy, os carrinhos andam
assim." Ele se sente fascinado pelas embalagens coloridas e vistosas dos produtos da mercearia. "Pare com isso,
Tommy, tire as mãos daí!" Estende

190
97
a mão para uma estranha criatura do jardim. "Não, Tommy! Isso é uma lagarta, não ponha a mão nela!"
Repetidamente Tommy é desestimulado a investigar e/ou usar de maneira diferente as coisas que encontra. As dúvidas
lhe criam problemas; ele aprende que não é muito seguro explorar.

Por uma questão de segurança, as investigações de Tommy devem ser, em certos casos, limitadas; mas a freqüência
excessiva dessas limitações é desnecessária. Sua necessidade de descobrir não encontra apoio, e ele elimina a
curiosidade para evitar a desaprovação.

O que há de errado se Tommy resolve experimentar o carrinho de cabeça pra baixo? Ele não pode fazer o que quer
na mercearia, mas será que seus pais não podem lhe dar coisas para tocar e cheirar? Não poderão deixar que ele pegue
a lagarta para descobrir pessoalmente como é, e lavar as mãos depois?

As perguntas de Tommy são muitas vezes respondidas com um aborrecido "Vá lá para fora brincar e não me amole."
Ele é, literalmente, estimulado a não perguntar. Recebe aprovação quando é passivo, conformado e quieto. Aprende a
colocar de lado as suas indagações.

Pela manhã a mãe lhe diz: "Deixe-me amarrar o cordão do seu sapato, eu faço isso mais depressa." (Temos de correr
todas as manhãs?) Se fizerem tudo para ele, Tommy pode perder a confiança em si mesmo. Sempre que é forçada a
escolher entre a autoconfiança e a aprovação, a criança pode preferir abrir mão de seus recursos pessoais. O amor tem
prioridade para os pequeninos.

Quando as crianças entram para a escola, já têm atrás de si cinco ou seis anos de aprendizado – aprendizado esse
que influencia, fundamentalmente, toda a sua atitude para com o estudo. Quando a curiosidade é tabu, o entusiasmo
pelo aprendizado morre.

A indagação e a experimentação do desconhecido formam a base do progresso em todos os campos. Se essas


qualidades, que existem em todas as crianças recém-nascidas normais, forem

191

eliminadas, o progresso da raça humana literalmente cessará. Cada pai e cada professor é responsável pela
manutenção da curiosidade na criança. Todas as crianças devem saber que perguntar compensa. Ela não deve se sentir
diminuída porque deseja saber.

O que estimula o aprendizado

As crianças não só precisam de uma atmosfera que estimule a curiosidade e a exploração, como também precisam
de amplos contatos com uma grande variedade de experiências. Há muitas evidências de que um estímulo variado, nos
primeiros anos de vida, afeta o desenvolvimento intelectual. Toda criança precisa do máximo de experiência direta
possível. Só dessa maneira ela pode chegar a conhecer o seu ambiente pessoalmente.

Nós, mulheres, gostamos de ler ou de ouvir falar sobre um novo tecido no mercado, mas nada equivale a ver, pesar e
usar realmente o produto. A experiência direta nos diz muito mais do que a informação de segunda mão. Quanto mais
experiências diretas a criança tiver, melhor conhecerá o seu mundo, o que lhe dará maior confiança e segurança.

O progresso escolar está relacionado com os contatos diretos. Quando Bobby, nascido e criado na cidade, viu a
palavra "vaca" em seu livro de leitura, não tinha associações anteriores para relacionar com os símbolos negros das
letras na página. Disseram-lhe que era um animal que tinha determinada aparência e mostraram-lhe uma foto da vaca.
Seu

cérebro recebeu a impressão da vaca por meio da experiência de outras pessoas e olhando uma ilustração numa
página.

98
Quando Nelson, nascido e criado numa fazenda, viu os símbolos que representavam "vaca", associou-os a muitas
coisas que já conhecia. Havia tocado, sentido o cheiro e ouvido as vacas. Sabia como comiam e como sacudiam a cauda;
tinha visto vacas dando leite e amamentando os bezerros. Seu cérebro havia recebido

192

impressões sobre as vacas diretamente através de seus próprios olhos, ouvidos, nariz e mãos. Muitas conexões
neurais haviam sido estabelecidas para dar ao menino significado pessoal ao símbolo impresso.

Um ambiente pobre na primeira infância resulta em diferentes graus de retardamento mental. O estímulo exercido
desde cedo cria uma rede mais ampla de associações que irão ter relação com os símbolos abstratos utilizados nas
escolas com tanta intensidade.

Juntamente com o contato direto e amplo, a criança precisa praticar a tradução de sua experiência em palavras. O
menino pode ter muito estímulo e ser incapaz de verbalizar suas reações. As escolas dão, evidentemente, muita ênfase
à palavra falada e à escrita. Uma boa prática no lar desenvolve uma habilidade muito valorizada na escola.

Um ambiente lingüístico pobre prejudica o progresso escolar.

Podemos estimular a criança a falar através dos nossos exemplos e do nosso respeito às suas idéias e sentimentos. A
comunicação realmente aberta só floresce num clima de segurança.

Além disso, a criança precisa praticar desde cedo a solução de problemas. As experiências com animais
demonstraram que os que estiveram, desde os primeiros anos de vida, em contato com ambientes que solucionavam
adequadamente os problemas eram mais capazes de enfrentar e resolver problemas do que os que não tiveram a
mesma oportunidade.

Qual o significado que isso tem para você e seu filho? Significa que você estimula o crescimento intelectual dele
quando lhe transmite ricas experiências em primeira mão no princípio da vida e quando o incentiva a falar sobre o que
viu e fez, e sobre o que sentiu. Ajude-o a encontrar respostas para as perguntas que faz. Deixe-o enfrentar os problemas
sozinho, ficando ao seu lado, pronto para lhe dar apoio; e ainda estimule-o a encontrar as suas próprias soluções.

193

A mãe de Buddy estava preparando uma salada para o jantar enquanto o filho a observava.

"Qu'é isso?", perguntou o menino de três anos de idade.

"É um abacate", disse a mãe, lentamente. "Você consegue dizer abacate?"

Buddy tentou: "A-ba-ca-do".

"Olhe para minha boca, Buddy. A-ba-ca-te", e repetiram juntos a palavra, até que Buddy aprendeu.

"Pra que serve?", perguntou ele novamente.

(A mãe poderia ter pensado: "Que burro! Eu não colocaria na salada se não fosse para comer!". Mas a pergunta não
é burra. Ele já tinha visto canudinhos em milkshakes e não

eram para ser comidos. Tinha visto salsa usada apenas como enfeite.) A mãe apóia a curiosidade de Buddy, dizendo:
"Serve para comer. Não comemos este pedaço", mostrou a casca, "nem este", mostrou o caroço. "Você sabe por que
não comemos a casca nem o caroço?"

Buddy pegou um pedaço da casca e mordeu; pegou o caroço e apalpou. "Muito duro", disse.

"Sim. Agora, experimente esta parte", disse a mãe, dando-lhe um pedaço da polpa do abacate.
99
"Ah, é mole!", disse ele com desprezo.

"Quer provar? Que tal cheirar um pouquinho? Experimente espremê-lo com os dedos.”

"Gosto do macio, mas não do gosto", disse Buddy. "Não tem cheiro.”

"Não, não tem cheiro como o abacaxi ou o limão. Antes eu também não gostava, mas agora gosto. Às vezes
colocamos abacate na salada, quando gostamos. Da próxima vez que formos à casa de Tia Mary eu vou te mostrar a
árvore do abacate. Os abacates nascem em árvores, assim como as laranjas do nosso quintal. Agora vamos colocar o
caroço num vaso com água para ver o que acontece."

A mãe de Buddy estimulou diretamente a atitude do filho em direção ao aprendizado. Sua reação aceitou a
curiosidade da criança;

194

ela ajudou-a a conhecer diretamente um objeto estranho através de todos os seus sentidos. Estimulou a conversa
sobre esse objeto e respeitou as reações pessoais do filho. Juntos, os dois partilharam de uma experiência de
aprendizado.

Certo dia, Warren deu um grito de frustração quando seu carro ficou preso numa pedra. Não conseguia tirá-lo
puxando para a frente. A mãe poderia ter levantado o carro e removido a pedra, mas teria perdido uma excelente
oportunidade de deixar o filho provar a sua capacidade de resolver problemas. Mas não o abandonou.

Disse-lhe: "Parece que o carro está preso e não sai ao ser empurrado. Como você poderia tirá-lo daí?"

O menino de cinco anos examinou a situação, espiou por baixo do carro e saiu correndo em busca de sua pá. Cavou
em volta da pedra e puxou-a da roda. O carro foi libertado.

"Foi interessante", disse a mãe mais tarde. "Eu teria levantado o carro ou puxado para trás, mas ele pensou em cavar
para tirar a pedra. Achei que a minha solução era mais fácil, mas pareceu-me importante deixar que ele usasse sua
própria imaginação para resolver o problema."

Ambas as mães estimularam o aprendizado de seus filhos. Se for constante, o seu apoio se refletirá no
desenvolvimento intelectual.

Dentro dos limites da segurança, as crianças precisam da interação com as coisas do seu ambiente, sem
interferência.

Os princípios básicos são: respeite a curiosidade da criança e o seu desejo de explorar; procure saídas aceitáveis para
a sua vontade de conhecer. A auto-estima é fortalecida quando a sua atitude e o seu comportamento dizem à criança:
"A sua curiosidade é importante. Eu ajudarei você a conhecer e a compreender.”

O que é a inteligência?

"Meu Deus, como Bill é inteligente!" Essas palavras soam como música para os ouvidos dos pais orgulhosos.
Geralmente

195

quando dizemos isso, referimo-nos à facilidade que a criança tem de aprender. E em geral pensamos em termos da
capacidade de aprendizado abstrato, exigida pela escola. Há, porém, muitas formas de inteligência.

Bill pode ser rápido no uso de símbolos matemáticos e ter apenas uma habilidade média na leitura. Marta pode ter
pouca capacidade de aprender nos livros, mas sua sensibilidade em lidar com os outros torna-a socialmente capaz. Ted

100
pode sair-se mal na escola e ser musicalmente bem dotado. Mesmo um QI (quociente de inteligência) tem diferentes
significados para diferentes crianças.

Libby, Jean, Harry e Mack têm, todos, um QI de 126, e apesar disso suas capacidades são diferentes. A boa memória
de Libby aumenta o seu QI: ela se sai bem nas matérias em que a memória é uma vantagem. A sua capacidade de
raciocínio, porém, não passa da média, e ela precisa se empenhar mais nas matérias que exigem tal capacidade. Ao
contrário de Libby, o QI de Jean é influenciado pela sua grande capacidade de raciocínio e compreensão. Ela, no
entanto, não tem muito talento para o trabalho que exige memória. Harry, por sua vez, é excepcionalmente dotado e
seu potencial é muito superior ao das duas meninas. Seu QI é reduzido pelos seus bloqueios emocionais. Mack, ao
contrário dos outros três, vem de um ambiente culturalmente deficiente. Seu QI tem, portanto, um significado diferente
do QI das outras crianças.

O QI, apenas, não deve servir de base, pois o crescimento mental é mais rápido em determinados períodos do que
em outros. Muitos fatores, como a saúde física, o grau de amizade entre a criança e o examinador, os contatos culturais,
influem no desempenho do teste.

196

Richards(1) estudou o desenvolvimento de um menino durante um período de sete anos para ver se havia uma
relação entre seu QI e as suas experiências de vida. Sem dúvida, quando o ambiente tanto no lar do menino como na
escola era mais tranqüilizador (emitia reflexos positivos), seu QI aumentava para 140; quando era menos estimulante, o
QI baixava para 117. O clima psicológico que cerca qualquer criança exerce uma forte influência sobre o seu
funcionamento mental.

(1) T. W. Richards, "Mental Test Performance as a Reflection of the Child's Current Life Situation, A Methodological
Study", Child Development, XXII (1951), pp. 221-33.

Um QI nada mais é do que um índice da capacidade geral existente, naquele momento, para enfrentar abstrações
mentais (palavras, números, conceitos). Como as escolas se concentram na manipulação de abstrações, o QI é
necessariamente útil aos seus objetivos. Em si mesmo, porém, ele pouco revela sobre a capacidade de lidar com
abstrações. É necessário examinar cada subteste para se saber onde estão os pontos fortes e os pontos fracos da
pessoa. É preciso examinar o desempenho como um todo para determinar se os pontos registrados refletem a
verdadeira capacidade ou se o potencial do examinado está sendo subestimado.

Os pais, particularmente os de alta classe média, mencionam quase sempre os QIs de seus filhos como se tivessem
algum significado inato. Infelizmente, em certas comunidades, esses pontos são uma marca de status para os pais.

(Em termos da adaptação e da felicidade de seus filhos, esses pais seriam muito mais realistas se se preocupassem
com os quocientes de auto-estima! Não se deve desprezar a capacidade de lidar com abstrações, mas isso não assegura
que a criança funcionará plenamente como um ser humano completo.)

Um QI elevado não significa, necessariamente, um desempenho ou uma motivação elevados. As notas escolares são,
com mais freqüência, um reflexo da motivação, e não da capacidade inata. Como disse um orientador escolar: "Não se
trata tanto de uma questão de inteligência da criança, mas do que ela faz com a inteligência que tem." Com um QI de
120, Olga passa à frente de Perry, que tem 165 de QI. A grande curiosidade e o desejo de aprender levam-na a usar sua
capacidade, ao passo que Perry devaneia e se preocupa com o que os outros pensam dele. A

197

auto-confiança possibilita à criança um bom desempenho; e crianças brilhantes têm, às vezes, problemas de auto-
estima insuficiente.

101
Os testes de QI não medem a capacidade criativa, a liderança, a motivação, a imaginação, o talento artístico ou
musical. Isso não significa que sejam inúteis, mas apenas que devem ser vistos pelo que realmente são.

A inteligência é fixa?

Acreditava-se, antigamente, que a inteligência era fixa e não podia ser modificada. Hoje sabemos que não é assim.

O QI das crianças adotadas está mais próximo do QI de seus pais adotivos do que de seus pais naturais. Em bairros
culturalmente adiantados, cerca de 25% a 30% das crianças registram 125 ou mais em seus testes de QI. Em áreas onde
as crianças estão em desvantagem cultural, apenas 6% delas alcançam esse índice. (Esses resultados devem-se em parte
ao fato de que os testes de QI refletem os contatos com livros, conversas e certos tipos de aparelhos.) Quando as
crianças que estavam em desvantagem passam a contar com experiências enriquecedoras, seus índices de QI sobem
acentuadamente.

Um estudo a longo prazo, feito com 300 crianças pelo Fels Research Institute, do Antioch College, mostrou que os
QIs flutuam consideravelmente. Muitos desses QIs diminuíram de maneira constante durante os primeiros anos de vida
das crianças, quando estas ainda dependiam dos pais. E mais da metade das crianças começaram a ter índices mais altos
ao chegarem à escola e ao enfrentarem o desafio de contar consigo mesmas.

Há muitas evidências de que a inteligência, tal como é medida pelos testes de QI, não é fixa. Os pais podem
contribuir muito para aumentar a capacidade mental dos filhos, uma vez que influem marcadamente sobre o desejo que
eles têm de aprender.

198

Obstáculos ao aprendizado

Até mesmo quando a curiosidade é estimulada num ambiente também estimulante, muitas crianças não usam a
capacidade que têm. As causas podem estar numa fonte, ou numa combinação de fontes.

Deficiências físicas podem dificultar o aprendizado: dificuldade de audição ou visão, problemas neurológicos,
desequilíbrios hormonais ou lento amadurecimento físico afetam a eficiência ou a rapidez do aprendizado da criança.

Sempre que existe um problema com a capacidade de aprender, a possibilidade de defeitos físicos deve ser a
primeira coisa a ser verificada. Muitas vezes descobre-se que uma criança, considerada como de aprendizado lento,
sofre, na verdade, de uma anormalidade física.

Muitos problemas de aprendizado são conseqüência de problemas emocionais.

O crescimento intelectual não ocorre em separado do crescimento emocional; os dois estão interligados.

A criança cujas necessidades emocionais não são satisfeitas tem menos probabilidade de conseguir êxito na escola. O
homem com fome não tem motivação para aprender nos livros. Ele tem, primeiro, que matar sua fome para depois
concentrar-se no estudo. Como já dissemos, a criança que está convencida de ser um fracasso tem pouca motivação
para tentar. E a criança com um acúmulo de repressão não tem muita energia para enfrentar os desafios da escola.

Os pais dizem, freqüentemente: "Gostaria de saber como motivar meu filho." Lembre-se: uma auto-estima elevada é
a principal mola da motivação. A convicção da criança: "Eu tenho capacidade! Eu posso fazer! Eu tenho alguma coisa a
oferecer!" depende de seu vigor. Os desafios são interessantes quando você acha que pode enfrentá-los. Quando não
pode, o interesse desaparece

199

rapidamente. Como disse Emerson: "A autoconfiança é o primeiro segredo do sucesso."

102
Observe constantemente as expectativas que você tem em relação ao seu filho. A causa mais comum do bloqueio ao
aprendizado, particularmente em crianças de famílias da classe média, vem da pressão indevida que sofrem para atingir
certas metas que estão além de sua capacidade. Essas crianças aprendem a falhar.

"Por que você tirou oito e não dez em estudos sociais?" é uma acusação enfrentada por muitas crianças de classe
média. Um dos valores mais firmes dessa classe é o desejo de progresso rápido. Desde o Sputnik, as pressões
acadêmicas nos Estados Unidos aumentaram, prolongando-se até os níveis iniciais de aprendizagem. A ordem é
melhorar, melhorar, melhorar! Impensadamente e de forma não-proposital, muitos pais bem-intencionados comunicam
aos filhos que eles serão mais amados e mais dignos se forem os primeiros da classe.

Lembre-se: o excesso de ambição é recebido pela criança como uma falta de aceitação. Expectativas muito altas
significam decepções grandes. E as decepções prejudicam a auto-estima. Elas acabam com a energia, e a criança nem
mesmo procura ligar o seu interesse.

Outro obstáculo ao crescimento intelectual é uma disciplina tolerante, protetora ou rígida demais. Os pais
dominadores aumentam a hostilidade, a dependência e a inadequação – sentimentos que bloqueiam o funcionamento
intelectual. Pais excessivamente protetores, ou

pais que se recusam a estabelecer limitações, fazem com que as crianças se sintam inadequadas e não amadas. Essas
atitudes são negativas para a auto-estima, o que por sua vez afeta a motivação de aprender.

A disciplina democrática desenvolve o crescimento intelectual, estimulando a participação, o raciocínio, o


pensamento criativo e a responsabilidade. A divisão do poder no estabelecimento de regras tem um papel importante
no estímulo à competência mental. O estudo de Coleman mostrou que o maior fator para motivar

200

a criança a aprender é o seu sentimento de que "Eu tenho um certo controle do meu destino". A disciplina
democrática permite à criança fazer essa afirmação.

A pesquisa do Fels Research Institute mostrou que as crianças cujos QIs continuavam a aumentar com o tempo
também intensificaram a sua autoconfiança. Elas tinham confiança, a certeza de serem amadas, estavam à vontade com
os outros, eram menos excitáveis e pensavam de maneira mais original. Em suma, apresentavam as características de
uma elevada auto-estima.

As crianças que eram dependentes, menos seguras de serem amadas, menos capazes de participar de projetos
próprios, e que precisavam de muita atenção, apresentaram QIs mais baixos. Eram crianças que fugiam da
responsabilidade, cujas características descrevem a baixa auto-estima.

Uma auto-estima elevada afeta acentuadamente o modo pelo qual a criança utiliza as habilidades de que dispõe.

Outro obstáculo ao aprendizado surge quando as linhas de comunicação estão obstruídas, ou fechadas. As pesquisas
mostram que as crianças que se saem bem em testes mentais e nos trabalhos escolares vêm, em geral, de famílias em
que há muita comunicação. Quando pais e filhos interessam-se carinhosamente pelas atividades mútuas, e quando os
filhos se sentem seguros em partilhar suas idéias e seus sentimentos, o crescimento intelectual é estimulado.

Nas famílias em que a comunicação é reservada, tensa e codificada não há estímulo recíproco de opinião e reflexão.
A capacidade mental diminui, deforma-se ou não se desenvolve nessa atmosfera.

Ao examinar os obstáculos do aprendizado, não devemos desconhecer a importância das boas escolas, dos
professores influentes e dos currículos flexíveis, ligados aos interesses das crianças. As crianças autoconfiantes e
motivadas podem perder o estímulo de aprender quando se vêem em salas de aula muito cheias, com maus

201

103
professores que usam técnicas inadequadas. Além disso, quando as crianças têm uma participação ativa no
planejamento do currículo, de acordo com seus interesses, elas reagem de maneira muito diferente do que quando são
tratadas como simples recipientes vazios onde se despeja o conhecimento velho dos manuais.

A aula de estudos sociais do sr. S. ocupava-se especialmente de uma questão específica da comunidade. Os alunos
planejaram pessoalmente a abordagem a ser adotada na coleta de dados e entrevistaram as pessoas adequadas em sua
cidade. As sessões para discutir os dados recolhidos resultaram numa série de recomendações que foram apresentadas
à

câmara municipal. E muitas de suas sugestões foram colocadas em prática. "A taxa de ausências em minha classe
caiu para zero quando experimentamos essa abordagem", disse o sr. S. "E os estudantes, que antes não manifestavam
muita habilidade, passaram a ler como nunca. Toda a classe pareceu reviver." Na verdade, quando os professores
examinam um material que tem importância pessoal para os alunos é quase impossível afastá-los dele. A experiência
direta e o aprendizado participativo são muito mais eficientes do que o conhecimento fornecido apenas pelos livros.

E o que é muito mais importante: esse tipo de experiência educacional diz ao aluno: "Seus interesses são
importantes. Vamos examiná-los na sala de aula e trabalhar com eles. Acreditamos que você está interessado em
aprender e tem competência para enfrentar os problemas verdadeiros. Queremos que você participe ativamente na
solução desses problemas." Que impulso nos sentimentos de valor próprio!

Trabalho em equipe, ensino em grupo, aulas abertas, aprendizado programado, projetos e pesquisas independentes
na área de interesse da criança estão se impondo ao ensino formal que predominou nas salas de aula durante gerações.
Apesar desse progresso, ainda temos muito a avançar na educação, até superarmos a abordagem do tipo "Agora,
ouçam" no qual os professores decidem

202

o que, quando e como as crianças aprenderão. Talvez não esteja longe o dia em que os professores terão liberdade
de ser pessoas de imaginação, que estimulem a curiosidade natural das crianças.

Maneiras de estimular o aprendizado

Nós somos os primeiros professores de leitura, de arte e de música de nossos filhos. Quando os colocamos em
contato pela primeira vez com um novo meio de comunicação, o interesse primordial da criança é se familiarizar com
ele. Quer seja um livro, a argila ou um instrumento, a criança aprecia o encontro em si, sem pensar em atingir nenhuma
meta.

Vicky, de dois anos, segura seu livro de pano de cabeça para baixo, examina suas figuras e em seguida leva-o à boca.
Ela está obtendo informações em primeira mão sobre alguma coisa nova. Mais tarde ela poderá ouvir a história que o
livro conta.

Mike entrega à professora um borrão marrom em seu papel para que ela o admire. "Você gostaria de me falar sobre
o desenho?", pergunta ela. (Evita deliberadamente perguntar "O que é?" Essa pergunta focaliza o produto e faz com
que a criança sinta que deveria ter produzido alguma outra coisa.)

"Claro", diz Mike. "É uma tartaruga debaixo do barro". Inicialmente, Mike havia desenhado uma tartaruga primitiva,
para descobrir, em seguida, ao misturar as cores com o pincel, que tudo estava ficando marrom. Sem receio, ele usou a
descoberta de que o vermelho, o azul e o amarelo formam o marrom, para dar uma morada à tartaruga. Ele dominava a
situação.

Todo produto da criança deve ser aceito e respeitado como uma interação específica dessa criança com o meio
utilizado, ou como sua maneira de ver as coisas. A exatidão não tem importância, mas sim o prazer encontrado em se
expressar.

104
203

Ler para as crianças, antes que elas mesmas possam fazê-lo, aumenta seu interesse pelos livros. Adapte a história ao
nível de interesse da criança e sua capacidade de atenção. Há diminuição do interesse quando a criança não pode
interromper, fazer perguntas e manifestar seus sentimentos. Chegar ao fim da história não é o objetivo: o estímulo à
conversa tem maior valor. Aceite as reações pessoais da criança, pois assim estará alimentando as atitudes positivas.

Leve as crianças à biblioteca quando ainda pequenas, inscreva-as nas turmas que vão ouvir histórias, e tão logo
possam assinar seus nomes inscreva-as como leitoras para que possam retirar livros. As crianças precisam ver você ler,
falar e gostar de livros. Os livros usados como passatempo nas horas em que você fica com seu filho, ou como recursos
para alienar-se da vida, não contribuem para os seus objetivos.

Passatempos, artesanatos, ferramentas e jardins delas mesmas ajudam as crianças a aprender mais sobre o seu
mundo. Deixe sempre uma margem para a experimentação e a descoberta. O material de referência (um globo,
dicionário, atlas, enciclopédia) deve ficar ao alcance da mão e constitui uma fonte importante para o desenvolvimento
intelectual.

O preparo de mapas de lugares conhecidos pelas crianças e as brincadeiras com eles ajudam a tornar a geografia
real. Uma família que se mudava com freqüência mantinha um registro dos lugares onde havia morado, acompanhado
de mapas de suas viagens. "Passamos muitas horas divertidas fazendo isso, juntos", disse o pai, "o que provocou toda a
espécie de perguntas que acabaram levando os meninos a leituras independentes e a projetos de iniciativa própria."

Quando Paul fazia uma pergunta, o pai sempre dizia: "Vamos olhar", e não "Vá olhar". Cooperar na procura das
respostas, até que o hábito de consultar livros de referência esteja bem formado, torna mais atraente o aprendizado.

204

Os quadros de avisos familiares, usados para a exposição de obras de arte, de coleções ou de histórias, aumenta o
interesse pelo aprendizado e estimula a criatividade. Dão à criança um reconhecimento e um sentimento de
importância. (Armários de cozinha e portas de geladeira constituem excelentes quadros de avisos, caso você não tenha
muito espaço.)

Discos e música de qualquer tipo enriquecem a vida das crianças. A invenção de instrumentos próprios, de canções e
de formas livres de dança estimula a criatividade.

A televisão é uma fonte de disputas em muitas famílias. Usada indiscriminadamente, ou como babá, ela estimula a
passividade e atua contra a participação criativa. Mas, sendo seletiva, você pode encontrar programas que valem a
pena. Mesmo quando o programa não é muito bom, você pode aproveitá-lo, levando as crianças a imaginar o que
poderia ser melhorado nele.

Como dissemos, o processo democrático é adequado à seleção de programas, mas você não deve achar que está
prejudicando a auto-estima de seus filhos se vetar alguns deles. Nós não convidaríamos assassinos e bandidos a virem à
nossa casa diariamente para distrair as crianças. E, embora os maus percam, uma dose diária de violência não é
construtiva. A criança deve ter uma margem de participação na escolha de seus programas, mas, se ela deseja ver
sempre espetáculos de violência, isso pode ser uma indicação de que tem sentimentos hostis que precisam ser
liberados de outras maneiras (ouvindo-a ativamente, fazendo-a trabalhar com argila, participar de esportes ativos, sacos
de pancada e até mesmo dando-lhe orientação). Se a criança insiste em ver continuamente televisão, essa preferência

pode indicar que as relações sociais não lhe estão trazendo muita satisfação. Muitas crianças deixam
espontaneamente a televisão quando lhes é sugerido um jogo familiar ou uma hora de leitura.

As marionetes levam o teatro à sua casa e ajudam as crianças a enfrentar seus sentimentos de maneira socialmente
aceitável. Feitas

105
205

em casa – com sacos de papel, meias velhas com o rosto desenhado nelas, ou elaboradas com a técnica de papel
machê – são quase sempre preferíveis às adquiridas comercialmente.

Escrever e contar histórias de maneira criativa proporciona horas de carinhoso convívio familiar. Escreva uma
história infantil para seu filho, leia-a em voz alta e incentive-o a desenhar as ilustrações. Isso apóia a necessidade de
realização e reconhecimento. "Os contos instantâneos" (inventar uma história com dois minutos de duração sobre três
coisas totalmente diferentes – um canguru, uma casca de banana e um cubo de gelo) liberam a manifestação da
imaginação criativa.

As viagens de qualquer tipo oferecem muitas oportunidades para novas descobertas e conversas. Devem ser
planejadas de acordo com a capacidade de atenção e o nível de interesse da criança. As excursões que acabam em
sermões disciplinares não atingem o seu objetivo. A exploração e o conhecimento deixam de ser, nessas circunstâncias,
divertidos. As viagens nunca devem ultrapassar o limite de tolerância da criança e os limites de paciência dos pais.

Estas idéias são apenas algumas das maneiras de estimular as crianças intelectualmente. Mas lembre-se: o modo
como você se relaciona com seus filhos, durante essas experiências em comum, é a chave para fazer com que eles
queiram repeti-las. Se forem transformadas em momentos de crítica e pressão, elas passarão a ser temidas.
Transforme-as em oportunidades para uma aproximação carinhosa e respeitosa, pois assim elas serão apreciadas pelos
seus filhos. O amor estimulante provoca crescimento mental. O clima é fundamental.

Por mais importantes que essas experiências movimentadas sejam, toda criança necessita de algum tempo para ficar
a sós – momentos de liberdade, em que nada está planejado. O estímulo externo pode ser tão constante que a criança
não tem tempo de desenvolver os recursos interiores. Muitos pais, reconhecendo a

206

importância desses contatos ricos em experiências, bombardeiam os filhos com lições e excursões. E o fazem
seguindo o princípio de que, se um pouco é bom, muito é melhor.

Um estudo realizado com pessoas altamente dotadas mostrou que muitas delas passavam grande parte do tempo
sozinhas, sem estarem sujeitas a estímulos constantes dos outros. Um equilíbrio entre o estímulo e o tempo livre é o
melhor – um excesso de qualquer uma das duas coisas pode ser prejudicial.

Criatividade

A maioria dos pais deseja que seus filhos sejam criativos. Mas o que significa criatividade? Como é a criança criativa?
Como estimular a criatividade nas crianças?

A pessoa criativa é a que cria coisas novas e vê as coisas de maneira diferente. A criança muito inteligente não é,
necessariamente, muito criativa. Ela pode ser uma boa imitadora ou uma manipuladora de símbolos e ainda assim não
ser criativa. Por outro lado, a pessoa que tem apenas uma capacidade média para aprender com livros pode ser um
cozinheiro, uma costureira, um entalhador, um músico, um pintor ou um decorador de grande criatividade.

As maneiras originais de ver e de reagir à vida são dons que toda criança normal tem, em graus variados. Muita
gente pensa na criatividade em termos de grandes obras de arte, música, literatura ou ciência. Esquecemos, com
freqüência, que a criatividade que se manifesta em menores proporções também é tão autêntica quanto a que encontra
expressão em grande estilo.

Quase todos nós podemos lembrar de alguém que não passará à história como um gênio criativo, mas que usa sua
individualidade para acrescentar novidades à sua vida cotidiana.

Quais as características que distinguem as crianças criativas das que não o são?

106
207

As crianças criativas tendem a ser independentes, imunes às pressões do grupo ou ao conformismo, e


desinteressadas do que os outros pensam delas. Conservam a capacidade de duvidar e questionar e de ver as coisas sob
um ângulo novo. São flexíveis, imaginativas, espontâneas e brincalhonas, na abordagem dos problemas. São muito
receptivas aos seus sentidos; têm a tendência de ver, sentir e absorver mais tudo que as cerca. Os jovens criativos são
igualmente abertos ao que acontece dentro e fora de si mesmos. Em suma, são muito sensíveis tanto ao seu mundo
interior como ao mundo exterior.

Essas crianças estão dispostas a correr o risco de ouvir a sua intuição e de tentar o que é novo. É preciso um certo
grau de confiança e de segurança para enfrentar o que não está organizado, o que é complexo, incoerente,
desconhecido e paradoxal. As crianças criativas não se preocupam demais com a arrumação ou a rapidez e se
aborrecem facilmente com a rotina.

Frank Barron, que realizou amplas pesquisas sobre a criatividade, dividiu-a em dois tipos: a que vem do inconsciente
reprimido e a que flui livremente de um inconsciente sem cadeias.

A pessoa que cria a partir da repressão, repete, monotonamente, produções semelhantes. São saídas para as
repressões e desejos pessoais. A pessoa que cria livremente expressa sua singularidade com a variedade, e cada
produto seu é novo e diferente.

A poesia de John apresenta muitas imagens vivas e ritmos marcantes, mas ela repete interminavelmente os mesmos
temas. Os versos de Arnold nascem de suas reações pessoais às várias experiências: um tributo aos raios de luz que são
filtrados pelas árvores da floresta, uma dança de girinos, as angústias de uma causa perdida, a música produzida pelas
ondas espumantes. Aberto a tudo o que o cerca e ao que há em seu íntimo, ele reage com a mesma variedade. Sua
criatividade não é perturbada por problemas psicológicos.

207

Como você pode estimular a criatividade nas crianças?

Quando sabem que a sua individualidade é respeitada, as crianças são mais propensas a utilizá-la. As reações obtidas
nas suas primeiras tentativas de ser original determinam se tais impulsos florescem ou não.

A criatividade precisa de um clima de segurança sem julgamentos e de liberdade de expressão.

Se você valorizar o conformismo, o pensamento estereotipado, a ordem constante e a obediência, provavelmente


não estimulará a criatividade. Suas atitudes e valores serão sentidos pelas crianças que reagirão de acordo. Você pode
tolerar a imperfeição e o fracasso? Se puder, é mais provável que seu filho experimente idéias novas se souber,
antecipadamente, que a aprovação não depende do resultado de sua iniciativa.

Criatividade e auto-estima

A relação entre uma auto-estima elevada e a criatividade livre é muito forte. Pela sua própria natureza, a criatividade
é um ato de inconformismo. Ela diz: "Vejo as coisas ao meu jeito e estou disposto a mostrar a você o mundo privado de
minhas percepções." E é necessário ter autoconfiança para tornar pública uma reação pessoal.

Os estudos mostram que a criança livremente criativa tem elevada autoconfiança, maturidade, calma e
independência. Tem a capacidade de manter-se concentrada por longos períodos e de absorver-se em seus projetos.

Essas constatações não são de surpreender porque a criança cujas experiências lhe mostraram que é amada e
valorizada de forma incondicional tem liberdade para ouvir os seus desejos íntimos. Ela confia em suas reações pessoais
e em sua intuição. Sua fé em si mesma apóia a necessidade de demonstrar as suas idéias

107
209

originais. Suas energias – que não são desperdiçadas na autodefesa – estão livres para criar o novo. Ela não acredita
que o valor pessoal esteja ameaçado em cada produção.

Sendo socialmente mais independente e interiormente mais tranqüila, ela é menos limitada pela opinião dos outros.
As pressões do grupo têm menos probabilidade de condicionar as suas expressões. A elevada auto-estima dessa criança
liberta-a para jogar com todo um repertório de possibilidades, confiante em poder escolher as de maior mérito. Ela
pode manifestar suas idéias e opiniões. Para ser criativa, a criança deve confiar em suas percepções e em sua
capacidade de expressá-las. A criança dotada de uma auto-estima elevada tem esse tipo de confiança.

A criança com uma baixa auto-estima pode ter idéias próprias, mas sendo socialmente dependente é mais provável
que as coloque de lado em busca da segurança. Ela é mais sensível à crítica porque já se julgou negativamente. Prefere,
portanto, trabalhar sob a direção de outros. Evita as decisões criativas e independentes, a responsabilidade e a
liderança. Não quer chamar atenção, pois isso apenas lhe traz novas críticas. A competição é uma ameaça, e ela prefere
sufocar seu talento. A conformidade é menos arriscada do que a criatividade. A satisfação de suas necessidades
psicológicas tem prioridade sobre a aventura do desconhecido. De fato, o desconhecido ameaça a criança que tem uma
baixa auto-estima. Ela não espera ter êxito enfrentando-o – já lhe bastam os fracassos registrados.

Embora seja importante para a criança com uma auto-estima insuficiente obter cada vez mais reflexos positivos, sua
falta de autoconfiança age como um obstáculo a isso. Ela tem altos objetivos, mas pouca esperança de sucesso.
Projetando uma imagem de inadequação, convence os outros de que não tem valor pelo próprio comportamento que
adota. A criação da auto-estima nas crianças estimula ativamente seu desenvolvimento intelectual,

motivação e expressão criativa. (É interessante notar que o clima psicológico que gera a criança livremente criativa e
produtiva é

210

constituído justamente dos mesmos ingredientes que compõem o clima do amor – ver a Segunda Parte.) O jovem
com autoconfiança se lança ao desenvolvimento de seu potencial e talento específicos. Os encontros autênticos, os
padrões razoáveis, os contatos enriquecedores e a disciplina democrática asseguram o aprendizado e a criatividade. O
desejo de conhecer, que toda criança possui, deve ser apoiado, e ela deve ter certeza de que os erros não são
catastróficos. Quando as crianças vivem com pais que lhes proporcionam essa atmosfera, elas crescem em todas as
direções.

Como pai interessado, você deve apoiar ativamente os movimentos educacionais que lutam pela eliminação das
práticas escolares restritivas: comparação das notas obtidas pelas crianças da mesma classe, ensino uniforme, salas de
aula superlotadas e uso excessivo de atividades dirigidas pelo professor. As crianças levam para a sala de aula
sentimentos, anseios e atitudes próprias. Muitos pais e professores precisam se conscientizar do papel da auto-estima
na vida delas. A educação deve ocupar-se das emoções e atitudes próprias das crianças, ou não estará se ocupando da
criança como um todo. E toda educação começa no berço.

Pais e professores devem trabalhar juntos para ajudar a criança a desenvolver todas as partes de si mesma, de modo
que seja livre para aprender e criar. Só o respeito à sua total originalidade permite à criança o desenvolvimento da
própria capacidade individual.

Quinta parte

SEXO E AUTO-ESTIMA

18 O CASAMENTO DO SEXO COM O AMOR

O significado da educação sexual


108
Se a educação sexual envolvesse apenas os fatos relacionados com a reprodução, nossas responsabilidades
poderiam ser resolvidas com uma simples conversa entre pai e filho, ou entre mãe e filha, ou com um bom livro. Isso,
porém, não acontece, pois os fatos raramente evitam os problemas. Na verdade, são

as atitudes em relação ao sexo e a si mesmos que determinam o modo como os jovens lidam com o sexo.

E, para muitas pessoas, a parte mais difícil da educação sexual está exatamente nisso. Por que o sexo constitui esse
problema, e como podemos ensinar atitudes saudáveis?

Por que o sexo é um problema

Embora vivamos no século XXI, a crença, originária de séculos passados, de que o sexo é algo mau e sujo permanece
na mente de muitas pessoas. Podemos não admitir conscientemente essa idéia antiquada, mas agimos como se a
admitíssemos.

Nos séculos XV e XVI os prazeres terrenos eram considerados pecaminosos. O sexo era visto como necessário à
continuação da espécie, mas o prazer por ele proporcionado era considerado

214

publicamente como obra do diabo; o sexo simbolizava a queda do homem. Até mesmo entre pessoas casadas ele
não era visto como uma força positiva, e só evidenciava a parte animal inserida no homem. E, para a mulher, gostar de
sexo significava ser imoral, ou mesmo depravada! O sexo era secreto, e a repressão e a hipocrisia predominavam.

Aos poucos, o assunto foi sendo abordado de forma mais aberta, e o sexo recebe hoje uma atenção exagerada, o
que representa, sem dúvida, uma reação contra a maneira sigilosa com que foi tratado no passado. Atualmente o sexo
nos é imposto como recreação em todas as direções e continuamente nos anúncios, cinema, romances, arte e moda.

Alguns pais, reagindo contra a sua própria formação puritana, julgam-se esclarecidos ao darem às suas filhas a pílula
e apenas isso. No entanto, muitos jovens que tentaram o caminho do sexo como diversão acharam-no frustrante. Uma
nova moral está surgindo e com ela a luta para se encarar o sexo sob uma perspectiva nova.

O sexo merece o seu devido lugar enquanto impulso criativo e necessidade vital, do qual se deve falar abertamente.
É, porém, uma força que também deve ser respeitada. Pode constituir-se numa arma para controle e exploração. Ou
pode estar relacionado com amor, responsabilidade e dedicação. Usado indevidamente, o sexo destrói as relações
humanas; usado de maneira responsável, pode ser estimulante e enriquecedor.

Atitudes saudáveis relativas ao sexo

Todo ser humano normal tem sentimentos sexuais. Uma atitude positiva em relação ao sexo representa a aceitação
dessas necessidades como vitais e adequadas. Significa que os sentimentos sensuais não são considerados vergonhosos.
Uma atitude

215

saudável é a aceitação tranqüila pelo jovem de seu sexo e de seu papel sexual.

A maneira como o jovem enfrenta seus desejos sexuais está ligada a todas as suas experiências de vida e amor. E
suas atitudes são formadas desde o nascimento. Para que possamos ensinar atitudes positivas para com o sexo,
devemos ter consciência das várias fontes que afetam a atitude da criança.

Sexo e amor

A necessidade de acasalar e procriar é considerada, há muito tempo, como instintiva. As experiências de Harry
Harlow com macacos, porém, sugerem que os chamados instintos podem, na verdade, ser aprendidos. Os macacos

109
criados longe das mães mostraram pouco ou nenhum interesse em acasalar-se quando adultos e rejeitaram os filhos
tidos em conseqüência de inseminação artificial.

Há evidências de que o vigor do impulso sexual adulto e o desejo de procriar sejam condicionados pelas experiências
de carinho, de afagos e de toques que recebemos no começo da vida. Parece que o ser humano, para dar amor algum
dia, tem de recebê-lo primeiro.

Todas as vezes que você acaricia, embala, afaga, dá banho ou alimenta o seu bebê, você está lhe proporcionando
experiências de receber amor. A maneira pela qual ele é afagado e tratado afeta a sensação de prazer, ou falta de
prazer, que ele recebe e influi na sua futura capacidade de estabelecer intimidade. A ternura e o respeito pelo corpo e
pelas necessidades do bebê são os primeiros contatos que a criança tem com o amor e, portanto, com a educação
sexual.

Quando você proporciona à criança encontros autênticos (confiança, amor, não-julgamento, empatia,
individualidade, atenção

216

concentrada) está ensinando que a intimidade psicológica e o envolvimento pessoal não devem ser temidos. Você
mostra que se abrir psicologicamente a pessoas importantes na sua vida é estimulante, e não perigoso. Você dá lições
silenciosas de amor – lições que são parte integrante da educação sexual construtiva. A criança que é censurada quando
tenta aproximar-se acha que os contatos estreitos são arriscados demais. Ela pode preferir a alienação e o sexo físico à
vulnerabilidade da verdadeira intimidade psicológica. Se assim for, ela estará destinada a relações não-autênticas, pois
um fato predominante é claro: a intimidade física não é um atalho para a intimidade psicológica. Em si mesma, a relação
sexual não elimina a solidão e a alienação. Contudo, muitas pessoas (jovens e velhas) pensam que sim. E ficam
invariavelmente decepcionadas.

O contato sexual é sempre mais satisfatório quando envolve carinho, entendimento, aproximação e sensibilidade aos
interesses do outro. Como Edmund Bergier disse, "O sexo tem melhor gosto quando combinado com amor carinhoso. É
uma experiência que não tem qualquer relação com atitudes morais"(1).

(1) Bergier Edmund, Divorce Won´t Help & Row, 1948, p. 226.

O amor, quando profundo, significa envolvimento. Quando a liberação sexual ocorre no contexto da confiança,
dedicação e segurança, seu prazer tem um significado maior. A criança que viveu num clima de amor é mais capaz de
colocar os seus sentimentos sexuais dentro desse contexto. Ela se interessa menos pelo sexo como recreação.

Sexo e sentimentos negativos

Ajudar um jovem a expressar sentimentos negativos afeta as suas futuras relações sexuais. Como já vimos, a
repressão das

217

emoções negativas é também a repressão das positivas, ou seja, do sentimento de amor. O indivíduo que está na
defensiva não baixa a guarda quando vai para a cama. Sua vida sexual não apresenta a qualidade da espontaneidade e
continua sendo principalmente física.

A pessoa que reprime os sentimentos pode usar o sexo como uma válvula de escape. O truque típico de Jack para se
vingar da esposa, quando há desentendimentos entre eles, é chegar ao clímax sexual antes dela, deixando-a frustrada e
irritada. É uma desforra poderosa, embora inconsciente. Quando os casais receiam solucionar seus conflitos inevitáveis
através da expressão franca de suas reações, a interrupção das comunicações reflete-se também no seu ajustamento
sexual. A impotência e a frieza podem ser resultantes

110
de atitudes doentias em relação ao sexo, mas também podem ser sintomas de sentimentos negativos reprimidos e
de obstáculos nas linhas de comunicação.

Quando os pais de um jovem resolvem seus atritos através do diálogo franco e quando o ajudam a liberar suas
emoções negativas, há uma educação sexual positiva. O jovem aprende que o confronto não elimina a dedicação e o
amor. E não tem de liberar suas repressões, vindas de outras áreas de sua vida, disfarçando-as através dos
desajustamentos sexuais.

Evidentemente, as discussões intensas prolongadas e destrutivas entre os pais podem intimidar e amedrontar a
criança. Podem ensinar-lhe que o casamento é terrível e que deve ser evitado.

As crianças percebem o tipo de relacionamento que há entre os pais e criam impressões sobre as relações amorosas
a partir do que vêem no lar, dia após dia. Como resultado dessas experiências, podem concluir: "O casamento é bom",
ou "O casamento é destrutivo".

218

O sexo e o corpo

Toda criança adota atitudes para com seu corpo e suas várias partes. E essas atitudes condicionam a visão que tem
do sexo. O modo como você se sente em relação ao seu corpo é transmitido aos seus filhos. Se você acha que os órgãos
destinados à eliminação e à reprodução são sujos ou vergonhosos, seus filhos provavelmente terão reações
semelhantes.

Pammie tinha apenas três anos, mas dizia sempre: "Tenho que cobrir minha vergonha", ao vestir as calcinhas depois
de ir ao banheiro. Em pouco tempo ela descobriu que certas partes de seu corpo eram sujas e era melhor não olhar para
elas.

Onde Pammie aprendeu isso? Ninguém lhe disse que os corpos eram vergonhosos. Tudo aconteceu de maneira
indireta: a expressão do rosto de sua mãe quando mudava as fraldas da menina; seu nojo quando Pammie lhe mostrou,
com orgulho, o penico com a sua primeira produção; as pancadas na mão quando ela tentava examinar sua vulva; os
risinhos das crianças mais velhas quando uma menina de dois anos tirou o calção na praia; o "Pare com isso!", quando
se abaixava para ver o cachorro urinar. Essas reações, e outras, mostraram a Pammie que os corpos tinham partes
inaceitáveis, que a evacuação era suja e que certas conversas eram rigorosamente sigilosas.

Todas as vezes que você dá banho, veste ou ensina seu filho a usar o banheiro, as atitudes que tem para com o corpo
dele são tão significativas quanto as respostas que você dá às perguntas específicas sobre corpo, nascimento de crianças
e sexo. A educação sexual é ensinada tanto de forma verbal como não-verbal.

A maneira como você trata as primeiras explorações corporais de seu filho tem um efeito marcante sobre as atitudes
dele para com o próprio corpo. No dia em que o bebê da sra. G. descobriu suas mãos e passou a manhã a examiná-las,
ela sorriu ao ver o espanto que a deliciosa descoberta causava na criança. Naquela

219

noite ela contou o caso ao marido, com satisfação. Mas na manhã em que o menino descobriu o pênis e tentou
examiná-lo ela ficou tensa e disse ao marido que o filho deles havia chegado "àquela" fase.

Toda criança quer explorar cada parte de seu corpo, sob todos os ângulos. Essas investigações constituem prova de
sua curiosidade alerta e são parte da autodescoberta. Quando você trata as explorações de uma certa área como
aceitáveis mas se perturba com outras, você está ensinando que determinadas partes do corpo são tabu.

Mais cedo ou mais tarde as crianças descobrem seus órgãos genitais e, também, que eles proporcionam sensações
agradáveis. Todas elas se dedicam à auto-exploração e a certas formas de exploração mútua ou de jogos sexuais.

111
E o que você faz quando isso acontece? As suas reações falam às crianças. Você franze a testa, envergonha-se ou as
ameaça? Ou você fala o nome das partes do corpo e discute as diferenças entre meninos e meninas? Você diz: "Sim,
essas partes proporcionam sensações agradáveis, mas você não deve brincar assim com outras crianças." Você
considera perigosa e precoce a manipulação genital feita pelo seu filho pequeno?

A palavra "masturbação" é emocionalmente pesada para muitos pais. Alguns adultos ainda hoje acreditam,
erroneamente, que a masturbação provoca enfermidades mentais, retardamento e delinqüência. Não há qualquer
verdade nessa crença; a masturbação não causa nada disso. É certo que as pessoas mentalmente enfermas, retardadas
e delinqüentes praticam a masturbação, mas essa automanipulação não é a causa de seus problemas. Os problemas
existem primeiro; a automanipulação vem depois.

A masturbação é uma ocorrência praticamente universal durante as três fases de desenvolvimento normal das
pessoas. Quando muito pequena, a criança saudável e alerta apalpa e investiga as suas áreas genitais com a mesma
curiosidade com que enfia o

220

dedo no ouvido, ou acaricia o ursinho, ou puxa o rabo do gato. Como os terminais nervosos ali situados são muito
sensíveis, a criança sente naturalmente uma sensação agradável e generalizada. Mas esse sentimento não é a mesma
sensação intensa e excitante do adulto maduro. Você não pode impedir essa descoberta inicial, mas se tratá-la de
maneira imprudente a criança concluirá que os órgãos genitais, e os sentimentos que despertam, são maus e errados.

O segundo período de brincadeira genital ocorre entre os três e cinco anos, quando as crianças se apegam
emocionalmente ao progenitor do sexo oposto. As crianças satisfazem, pela automanipulação, alguns dos seus
sentimentos sexuais dessa fase. Como os meninos têm um órgão mais visível para eliminação, que é agradável tocar,
eles brincam mais freqüentemente consigo mesmos do que as meninas.

"O que eu faço quando meu filho de quatro anos segura o pênis em público? Se o deixar à vontade para fazê-lo
sempre que desejar, ele poderá ser rejeitado pelos outros", disse a sra. W.

Isso é certo, sem dúvida. Você ajuda seu filho a aprender as normas da sociedade dizendo-lhe que se quiser segurar
o pênis terá de ser na privacidade do lar. Diga: "Você sabe que há certas coisas que não fazemos na frente dos outros, e
há outras coisas que só fazemos na privacidade de nossa família. Não andamos pela rua sem roupas, mas podemos fazer
isso em casa se quisermos. Se você quer segurar seu pênis, espere até chegar em casa."

Aos três ou quatro anos, a criança sabe que existem dois sexos, e que é menino ou menina. Sua curiosidade sobre as
diferenças entre os corpos e as maneiras de urinar não tem maior significado do que seu interesse em ver que galinhas
e gatos comem de maneira diferente.

Muitos jardins-de-infância esclarecidos permitem que as crianças vejam outras, do sexo oposto, urinando. Para isso
possuem um

221

banheiro comum para meninos e meninas, sem portas nos cubículos. Essa prática não fez com que as crianças se
tornassem sexualmente precoces, nem tornou mais intensivo o jogo sexual. Em lugar disso, estimulou a aceitação das
diferenças de sexo e eliminou as exibições furtivas para satisfazer a curiosidade. Depois de algumas semanas
desaparece o interesse de ver a outra criança urinar, assim como não há interesse em vê-la beber água.

O terceiro período de automanipulação ocorre na adolescência, quando a atividade específica das glândulas sexuais
se faz sentir. Como as saídas diretas da expressão sexual só estarão ao alcance deles quando forem mais velhos, os
adolescentes voltam-se para a masturbação para lidar com a nova intensidade de seus sentimentos.

112
Um certo jogo genital, portanto, é parte do desenvolvimento normal. Você deve evitar qualquer sugestão de que a
masturbação é suja, faz a criança adoecer, provoca loucura, impotência, ou que é sinal de fraqueza moral.

Você só deve se preocupar se a masturbação for prolongada e excessiva. Quando isso acontece significa que as
relações com os outros podem estar trazendo à criança tão pouca satisfação que ela é forçada a voltar-se para si
mesma.

A masturbação pode servir para aliviar tensões. Quando excessiva, ela indica que o jovem é infeliz ou está sofrendo
pressões demais. Pode indicar que ele tem poucos envolvimentos significativos em sua vida. Suas tensões podem,
também, ser provocadas pela contenção de sentimentos negativos, expectativas pouco realistas, competição excessiva,
sentimento de inadequação, tédio ou solidão, ou por uma disciplina rigorosa ou tolerante demais. É quase sempre
acompanhada de outros sinais de insatisfação.

Devemos tratar da causa e não do sintoma – e a masturbação excessiva é apenas um sintoma. Quanto mais
tranqüilo, receptivo e estimulante o clima que você oferece ao jovem, menos tensões

222

interiores ele retém. Crianças satisfeitas, participantes, têm muito menos probabilidade de recorrer à masturbação
para ter satisfação na vida. Os prazeres da automanipulação raramente superam a alegria de sentir-se amado e digno. A
masturbação proporciona apenas um alívio temporário e solitário, que não pode competir com a profunda satisfação de
um envolvimento significativo com os outros.

A masturbação moderada em certas fases é, portanto, comum; se for excessiva, significa que você precisa examinar
o clima que cerca a criança e fazer com que ela tenha experiências estimulantes para a auto-estima.

O auto-respeito se nutre com a aceitação sincera do corpo e das sensações sexuais, embora tais sentimentos não
devam ser expressos indiscriminadamente. Mesmo que as atitudes e o ensinamento fornecidos por você sejam
positivos, as crianças podem assimilar atitudes negativas por influência de outras fontes. Tudo o que você pode fazer é
proporcionar conhecimentos positivos e mostrar que existem outras atitudes. Lembre-se: a criança que possui uma
auto-estima elevada tem menos probabilidade de absorver essas atitudes negativas.

Sexo e identificação do seu papel

Nada é mais devastador para a criança do que a crença de que tem o sexo errado. Achar que o seu sexo não é o
melhor destrói o auto-respeito, já que a criança nada pode fazer para modificá-lo. E isso pode interferir na identificação
positiva com o seu papel sexual.

O sr. G. estava certo de que seu primeiro filho seria um homem; planejou todo tipo de atividades que os dois fariam
juntos. Quando o menino tão desejado acabou sendo uma menina, ele ficou arrasado. Embora ela tivesse recebido o
nome de Elaine, o sr.

223

G. chamava-a de "Bud" e a apresentava, por brincadeira, como "seu filho". Elaine nunca se sentiu segura de si. A
solução que encontrou foi tornar-se uma menina masculinizada. Sua baixa auto-estima, a falta de identificação feminina
e a raiva contra a rejeição disfarçada pelo pai afetaram, de maneira clara, sua adaptação total ao casamento.

Se você está desapontado com o sexo de seu filho, examine-se interiormente para encontrar a razão disso. Você
deve tomar medidas ativas para corrigir tal rejeição, pois do contrário seu filho se sentirá inaceito num nível muito
básico. Parte da auto-estima elevada de qualquer menino ou menina é o sentimento de "Estou contente de ser
menino", ou "Estou contente de ser menina". E seu filho não poderá estar contente se você também não estiver.

O sexo e o relacionamento com os pais

113
A atitude de toda menina em relação aos meninos é condicionada pela sua relação com o pai. E a maneira como o
menino vê as meninas é afetada pelo relacionamento que ele tem com a mãe.

Dominado pela mãe, Henry evitava cair nas garras de outra mulher, pois para ele as mulheres significavam,
necessariamente, a dominação. Nunca se casou; considerava o sexo como um meio de controlar as mulheres em sua
interminável tentativa de vingar-se da mãe.

O ódio que Gertrude tinha do pai generalizou-se numa aversão a todos os homens. Embora tivesse se casado, tornou
a vida do marido um inferno. Seu casamento só não se dissolveu porque ela escolheu um homem que tinha profunda
necessidade de ser punido.

Os sentimentos cordiais entre filho e o progenitor do sexo oposto contribuem para o ajustamento da criança às
relações com o outro sexo, e para seu futuro ajustamento sexual.

224

Sexo e tarefas do desenvolvimento

Adultos emocionalmente imaturos não lidam com seus sentimentos de maneira amadurecida. E os sentimentos
sexuais não constituem exceção. Todas as vezes que seu filho conclui uma das tarefas da individualidade, ele avança no
sentido da maturidade emocional. Ajudá-lo nas fases normais do crescimento constitui uma educação sexual positiva.
Uma tarefa não-concluída ou realizada num clima de culpa contribui para a imaturidade e para um funcionamento
sexual menos adequado. Toda pessoa participa com todo o seu ser da comunicação íntima contida na sexualidade
adulta. E isso condiciona o nosso comportamento.

Sexo e disciplina

Como a disciplina se ocupa do relacionamento mútuo dos membros da família no que se refere à satisfação de suas
necessidades, o tipo de disciplina a que as crianças estão sujeitas afetará suas reações às necessidades – inclusive às
sexuais – dos outros e de si mesmas. Um jovem dominado pode usar o sexo como instrumento de controle; as relações
sexuais se assemelharão mais a um estupro inconsciente do que a um contato mutuamente agradável. Ou, se o jovem
for oprimido pelo autoritarismo, poderá tornar-se um capacho sexual.

A tolerância excessiva fez com que Larry só pensasse em suas próprias necessidades. Ele não mantinha um
relacionamento constante com ninguém. Não era culpa sua se as moças interpretavam como amor a sua necessidade
de auto-satisfação. Finalmente, quando se casou, sua mulher passou a tolerar o egoísmo dele mas vingava-se com
truques desonestos. O leito matrimonial tornou-se uma arena de manobras e contramanobras, vitórias egoístas e
derrotas dolorosas.

225

A disciplina democrática dá aos jovens um padrão de respeito mútuo, que é transferido para sua vida sexual. Essa
disciplina estimula a dedicação e o envolvimento que se transformam num modo total de vida. Torna-se, portanto, uma
força poderosa a favor da educação sexual.

Sexo e auto-imagem

Como já vimos, a imagem que a criança faz de si mesma influi no seu comportamento, inclusive na maneira de se
comportar sexualmente.

Les sentia-se profundamente inadequado como homem. Suas atividades de Don Juan eram uma tentativa de provar
a sua virilidade para si mesmo e para os outros. Seu principal interesse, ao namorar uma moça, era levá-la para a cama
para verificar as suas proezas sexuais. Como homem casado, não conseguia ser fiel porque tinha de recolher,
continuamente, evidências novas de que era bastante másculo.

114
A inadequação de Tom estendeu-se à sua vida sexual. Para manter a coerência interna, ele tinha que se comportar
como um incompetente sexual.

Nancy era muito atraente e inteligente, mas achava que tinha pouca coisa a oferecer. Aos 16 anos já tivera uma série
de casos. Numa sessão de orientação em grupo ela falou de sua promiscuidade. "Tudo o que tenho a oferecer a um
rapaz é o meu corpo. O sexo é um seguro para se ter um namorado; significa que eu não ficarei de fora." Não
acreditando que a sua pessoa era digna de respeito, ela não acreditava que seu corpo também o merecesse.

A franqueza de Nancy estimulou outra moça do grupo a ser sincera. Margaret disse: "Eu não faço parte de coisa
alguma. Durante toda a minha vida sempre quis participar. O sexo é o meu bilhete de entrada. Quem se importa com a
reputação? Afinal ela não nos faz companhia se ficamos de lado!”

226

"Sei que ando com um grupo que não é bom, mas pelo menos eles são como eu", reconhecia June. "Somos todos
rejeitados e temos isso em comum. É claro que eu gostaria de entrar em contato com outro tipo de jovens, mas quando
o faço não sei nem mesmo como falar. Eles são tão seguros de si. Sinto-me mais arrasada do que nunca. Eu jamais

conseguiria me enquadrar em seus círculos, por isso para que tentar?" A falta de respeito próprio de June refletia-se
nas suas companhias e em seu comportamento.

"Acho que a minha razão para dormir com todo rapaz com quem saio nada tem a ver com sexo ou namoro, ou
desejo de fazer parte de um grupo", disse Bonnie. "Acho que faço isso para me vingar de minha mãe. Ela me controlou
com muito rigor desde que eu era pequena. Não gosto tanto assim de sexo. Mas essa é uma área que ela não pode
controlar. Além disso, francamente, é engraçado excitar um rapaz. Dá uma sensação de poder, e isso me agrada."

Sexo imediato e indiscriminado leva a relações superficiais, reafirma a não-participação e a alienação.

O sexo indiscriminado é o desejo de prazer sem a pressão do compromisso ou dos conflitos. A pessoa que quer
apenas a satisfação própria, mas nenhuma responsabilidade, se aproximará de outras com os mesmos interesses. A
pessoa emocionalmente madura não busca um relacionamento superficial. Na verdade, quem procura estabelecer
relações responsáveis está dizendo: "Tenho alguma coisa a oferecer e posso enfrentar uma ligação a longo prazo."

O sexo indiscriminado é uma tentativa de evitar a maturidade. É a maneira óbvia de fugir das tensões inerentes a
todo compromisso. A responsabilidade para com o outro é que distingue o homem do animal no sexo maduro. Quem
procura apenas a si mesmo não pode chegar a uma auto-realização.

Os jovens sexualmente promíscuos procuram, com isso, resolver problemas fundamentais que não têm relação
direta com o

227

sexo. Sua vida raramente leva às satisfações plenas que buscam. Pateticamente, seus sintomas os levam a becos sem
saída que invariavelmente criam novos e complicados problemas.

A promiscuidade, portanto, pode ter várias causas: necessidades emocionais, reações negativas contra os valores dos
pais, controle excessivo ou muita tolerância. É claro que pode resultar também do exemplo dos pais.

A promiscuidade nos rapazes é, em geral, aprovada pela sociedade. "Rapazes são rapazes", é o que se diz.

Nossa cultura tem a convicção de que os rapazes têm direito a alguns excessos. Muitos pais se orgulham,
secretamente, das explorações sexuais de seu filho, acreditando que elas são produto da sua própria virilidade. Mas a
promiscuidade masculina nada tem a ver com a masculinidade; na verdade, ela pode significar exatamente o contrário.
O Don Juan tem de concentrar-se nas conquistas para afugentar as dúvidas sobre sua capacidade sexual.

115
Com exceção dos fatores psicológicos (necessidades emocionais não-satisfeitas), a promiscuidade masculina em
adolescentes é, provavelmente, uma função da intensidade do impulso sexual masculino, juntamente com as pressões
culturais que retardam a idade do casamento. Nas moças, é mais um fator de necessidades psicológicas (não sexuais)
insatisfeitas.

A realidade do forte impulso sexual nos rapazes contribuiu muito para a aceitação geral, pela sociedade, de um
comportamento sexual duplo. As pílulas anticoncepcionais, os antibióticos e a revolução na moral levaram alguns pais a
aceitar esse padrão para suas

filhas. Outros sentiram-se desorientados sobre a margem de atividade sexual antes do casamento que devem
permitir.

O casamento precoce pode parecer uma solução para o problema. Mas as estatísticas mostram uma elevada
incidência de divórcios entre casais adolescentes. Sem dúvida alguns divórcios são motivados pelo fato de que o
casamento foi feito apenas para dar uma situação legal a um filho já concebido. Mas muitos outros casamentos de
jovens falham por outras causas.

228

Provavelmente uma das principais causas do divórcio é o tato de o adolescente estar ainda desenvolvendo seu
potencial e estabelecendo seu senso de identidade. A companheira que parece adequada a um jovem, aos 17 anos,
pode ser totalmente insatisfatória quando ele chega à maturidade plena. Portanto, os casamentos precoces não
constituem a solução simples que aparentam à primeira vista.

A idéia de que os impulsos sexuais não podem ser controlados ou liberados por meio de uma participação ativa e
vigorosa nos esportes e outras atividades não é correta. A atividade sexual indiscriminada não é a única solução para os
jovens.

As evidências mostram que a melhor proteção contra o comportamento sexual indiscriminado, quando o instinto
animal se faz sentir vigoroso no adolescente – quando os impulsos sexuais são intensos –, é um elevado grau de valor
pessoal.

O sentimento do próprio valor protege o adolescente contra a tentação de vender-se barato e diminui o interesse
pelo comportamento sexual irresponsável. O jovem que gosta de si mesmo busca relações totais que alimentem sua
auto-estima, em lugar das relações sem significação, que são prejudiciais. A fé em si mesmo deixa o jovem menos
temeroso de assumir um compromisso – ele sabe que pode lidar com isso. E tem maior liberdade de adotar uma
posição firme em relação às questões morais. E, como já vimos, seu auto-respeito leva-o a buscar outras pessoas que
adotem as mesmas posições.

O jovem com uma auto-estima insuficiente teve experiências negativas com o amor e, tendo sofrido, prefere agora
ligações passageiras que não representem compromisso, responsabilidade e participação. Esse jovem pode vir a casar-
se, mas em geral escolhe uma pessoa que também evita a intimidade psicológica. Ele não pode crescer e florescer,
evidentemente, sem uma intimidade

229

autêntica, mas prefere a insatisfação ao perigo, já constatado, que a proximidade representa.

A criação da auto-estima é fundamental para um programa positivo de educação sexual, pois o auto-respeito é a
base do casamento saudável e estimulante.

O que eles devem saber

116
Juntamente com a aceitação de si mesmo e de seus sentimentos, todo jovem precisa de informações específicas
sobre o processo de reprodução. Quase todas as bibliotecas têm livros próprios para determinados níveis de idade que
apresentam os fatos da reprodução.

Examinando-os você terá uma idéia de como e do que dizer a uma criança. Os fatos específicos, porém, devem ser
apresentados quando as perguntas específicas forem feitas.

Evite dar mais informações do que a solicitada pela criança. Detalhes excessivos, em idade imprópria, apenas
confundem e podem ser absorvidos de maneira incorreta.

Antes da adolescência, toda criança deve conhecer o que é a reprodução e a parte que nela desempenham o homem
e a mulher. Ela deve saber como são originadas as crianças (concepção), como crescem durante a gravidez (gestação) e
como nascem (parto). Deve compreender os fatos básicos da hereditariedade, menstruação e polução noturna.

As crianças devem aprender que o parto é perfeitamente normal. Muitos jovens, em particular as moças, têm muito
medo dessa função humana normal por terem ouvido histórias exageradas, ou lido relatos dramáticos, de partos difíceis
e dolorosos.

"Minha mãe me disse que ter um filho foi a pior experiência de sua vida", declarou Beth. Tais afirmações podem
fazer com que as Beths (há muitas) se sintam culpadas ou se considerem más pelo sofrimento que causaram às suas
mães, e que, por sua vez, tenham receio de se tornarem mães.

230

As mães que tiveram problemas com o parto devem informar às suas filhas que isso constitui a exceção, e não a
regra. Os rapazes também precisam dessa informação, para que não transmitam receios exagerados nas suas relações
com as suas mulheres, ou se preocupem com a dor que possam vir a causar-lhes.

Ao falar de sexo com os jovens, diga-lhes que os sentimentos sexuais provavelmente serão fortes. Os jovens
precisam de preparo antecipado. Devem saber que a expressão sexual madura significa a responsabilidade pessoal para
com a integridade da outra pessoa. Precisam saber que só assim o sexo pode ser realmente estimulante. O sexo
ocasional causa sofrimento a alguém, porque quase sempre um dos dois se envolve emocionalmente. Os encontros
destituídos de significação raramente são construtivos.

Ouvir as idéias e observar as atitudes do jovem, antes de apresentar-lhe os fatos, ajuda a esclarecer concepções
errôneas aprendidas com os outros, ou produzidas pela sua própria imaginação.

Mostre a diferença entre as necessidades sexuais do homem e as da mulher. Ambos os sexos devem compreender
que o homem se excita muito mais depressa do que a mulher, e que seus sentimentos não estão necessariamente
relacionados com o amor. Como os desejos sexuais de uma moça estão mais freqüentemente associados ao amor
romântico, ela pode interpretar as propostas recebidas nesse sentido como manifestação de amor. O que para Harry
pode ser uma aventura de uma só noite, para Marge pode representar um compromisso sério. O coração de muitas
jovens foi partido porque elas não tinham conhecimento dessa diferença fundamental entre os sexos.

As moças devem saber que os rapazes recebem estímulo sexual pelo que vêem; portanto, elas precisam evitar o uso
de roupas provocativas, poses sedutoras e atitudes encorajadoras para chamar a atenção dos rapazes que estão
tentando lidar com os seus sentimentos de maneira responsável. Por outro lado, as meninas devem compreender que
não constitui um insulto levar uma

231

"cantada" e, pelas mesmas razões, não será um insulto para o rapaz se elas recusarem.

117
"Bem", comentou Ginny, "eu disse 'não' e Greg nunca mais me convidou para sair." Ginny deve pensar que, se Greg a
convidou para sair apenas para ter uma satisfação sexual, provavelmente não voltaria a convidá-la depois de atingidos
os seus objetivos.

As moças devem saber que muitos rapazes não estão interessados em ter relações duradouras com garotas
promíscuas. Os compromissos sérios e profundos baseiam-se na confiança, e a promiscuidade destrói essa confiança. O
rapaz que está apaixonado de fato não rejeita uma moça simplesmente porque ela se recusa a manter com ele relações
sexuais. Se ele for sério, continuará com o namoro até que ambos estejam preparados para assumir a responsabilidade
do casamento. Se a moça permanecer firme nos seus padrões, terá maior respeito de seu namorado, que a verá como
uma pessoa com coragem para defender suas convicções. Poucos rapazes mantêm um interesse permanente por uma
conquista fácil.

Nossa sociedade defende a filosofia de "levar agora e pagar depois". Como pai você deve procurar neutralizar essa
atitude através do ensino e do exemplo. Os jovens precisam compreender que o pagamento posterior é quase sempre
muito pesado.

Em algumas ocasiões o jovem deve tomar uma posição quanto ao controle de seus sentimentos sexuais. Você
precisa deixar claro ao seu filho que ele tem o poder de escolher para onde quer ir e como quer viver a sua vida. A
decisão final está nas mãos dele.

Os jovens precisam pensar antecipadamente nas conseqüências de seus atos, tanto com relação a si próprios como
para com os outros. A previsão sobre como enfrentar situações difíceis prepara os jovens de modo que não sejam pegos
de surpresa, ou pelo calor da emoção.

A maneira como você administra a sua vida – se tem um comportamento responsável e vive de acordo com um
código moral –

232

influencia seus filhos. Quando você sabe claramente o que quer e age de acordo com as suas convicções, está
oferecendo aos seus filhos modelos convincentes. Os adolescentes, como já vimos, estão particularmente interessados
em estabelecer um sistema de valores significativo e precisam de adultos fortes e dedicados. Eles percebem
rapidamente a hipocrisia. Todo adolescente precisa de uma filosofia positiva para lidar com o sexo de maneira
adequada. Os fortes laços afetivos entre pais e filhos dão a estes últimos a segurança necessária para serem fiéis aos
seus ideais.

Como apresentar os fatos

O ideal seria que as crianças fossem informadas dos fatos sobre a reprodução por pais que encaram o sexo de forma
natural. Do ponto de vista prático, porém, muitas pessoas se sentem ainda um pouco constrangidas em falar no
assunto. O importante não é se você se sente à vontade ou não, mas se você pode ser franco sobre o que sente.

As crianças percebem rapidamente as atitudes. "Minha mãe me contou tudo sobre os fatos da vida", disse Cindy, de
12 anos. "Ela falou de todos os detalhes sem piscar, mas eu percebi que não estava sendo fácil para ela! Ficava corada
com certas palavras e parecia estar engolindo um purgante."

Lembre-se: a confiança é vital; portanto, ponha as cartas na mesa, francamente. Diga: "Gostaria de responder às suas
perguntas sobre sexo sem ficar confuso, mas francamente, não posso. Quando eu era jovem não se podia tocar nesse
assunto, e não me sinto à vontade

com ele. Responderei às perguntas que puder, mesmo com dificuldade, e lhe darei livros que explicam outros
detalhes. Espero que você possa falar mais naturalmente sobre esse assunto com seus filhos, quando for pai".

118
A sinceridade sobre as dificuldades de falar a respeito de sexo – se houver – deixa claro que o assunto é legítimo,
mas que a

233

formação que você teve é responsável pelo seu constrangimento. Essa atitude representa um ponto importante
numa educação sexual positiva.

Você pode reduzir o seu desconforto pessoal ao adotar um vocabulário funcional e adequado. A familiaridade com
os termos relacionados com a reprodução torna mais fácil a discussão. Se certas palavras estiverem carregadas de
emoção repita-as muitas vezes. Você ficará surpreso ao ver quanto isso ajuda.

A leitura de uns quatro ou cinco livros sobre educação sexual para crianças da idade de seu filho poderá ajudá-lo a
expor melhor o assunto. Melhor ainda será ler esses livros em voz alta para você mesmo. Seus ouvidos podem habituar-
se a essas palavras e idéias "difíceis".

Apresente os fatos de maneira precisa. Você não pode iniciar o assunto com contos de fada ou com meias palavras,
quando seu filho tem quatro anos, e depois dar-lhe uma exposição completa quando ele tiver 13 anos. Assim você
destrói a confiança, e a curiosidade não espera a sua conveniência. Você tem que decidir quem deve ser o professor de
seu filho: você mesmo ou outra criança.

Algumas pessoas podem achar que, por mais que leiam ou pratiquem, jamais conseguirão falar naturalmente sobre
sexo. Diga então: "Gostaria de falar sobre esse assunto com você, mas devido à minha formação isso não me é possível.
Mas você pode falar com..." E marque uma entrevista para seu filho com um médico, enfermeira, orientador
educacional, sacerdote ou amigo. Uma palavra de advertência: não suponha que a profissão torna mais fácil a uma
pessoa falar tranqüilamente sobre sexo. Nenhuma profissão assegura atitudes calmas e positivas em relação ao assunto.
Fale com essa pessoa e sinta, pessoalmente, o seu "quociente de facilidade" no assunto.

Aos três ou quatro anos, a maioria das crianças pergunta de onde vêm os bebês. Se não tiverem feito essa pergunta,
levante a questão quando tiverem no máximo cinco anos, num momento

234

oportuno: comentando o nascimento de um bebê nas vizinhanças, contando uma história, explicando uma cena
apresentada na televisão, ou comentando como um animal doméstico deu cria. Pergunte: "Você sabe como os bebês
nascem?" Ou traga para casa um livro sobre sexo destinado a crianças em idade pré-escolar, tal como traz livros sobre
outros assuntos, para serem lidos em voz alta. Reserve bastante tempo para perguntas e discussões. Adquira o hábito
de deixar os livros sobre educação sexual ao alcance de seu filho durante toda a infância, embora você possa preferir
fazer pessoalmente a primeira exposição sobre o assunto.

O apoio necessário

A criança, precoce ou não, aproveitará o apoio e a conversa franca sobre o seu crescimento. A pressão das
observações das outras crianças diminuirá se seu filho souber que as pessoas sofrem grandes variações nas fases de
crescimento. As crianças que se desenvolvem mais devagar irão se beneficiar muito com o desenvolvimento de
habilidades específicas. A competência compensa o "fracasso" de um corpo franzino, ou de crescimento lento.

Apesar da consciência e das habilidades, a criança poderá se lamentar sobre seu desenvolvimento se este estiver
visivelmente em desacordo com o de seus companheiros. Se você ouvir seu filho de maneira ativa, empática, poderá
ajudá-lo a aceitar uma situação que ele não pode mudar. Evite a lógica e os discursos como alternativa. As divergências
no desenvolvimento ocorrem habitualmente na época em que a criança precisa sentir-se igual às outras. Saber que você
compreende o seu sofrimento é o maior apoio que ela poderá ter no mundo.

119
Os adolescentes precisam de oportunidades para falar de seus sentimentos – inclusive de suas atitudes e receios
sobre o sexo – com outros adolescentes. Essas conversas, porém, não serão francas (e portanto menos produtivas) se
não estiverem presentes os

235

sete ingredientes do encontro verdadeiro. Os adolescentes precisam do apoio do grupo; usar as conversas sobre
esse assunto para poder compartilhar com outros os sentimentos sexuais é mais saudável do que se preocupar com eles
sozinho. Os adolescentes têm mais liberdade de expressar seus verdadeiros sentimentos se o líder adulto não for seu
pai ou sua mãe, e se tiver habilidade em facilitar a comunicação franca e sincera.

A esta altura, você já poderá avaliar a enorme variedade de fatores que afetam a maneira como o jovem lida com a
sua sexualidade. Cada um desses fatores desempenha um papel importante na educação sexual que ele recebe. Todos
os aspectos da vida da criança determinam as possibilidades futuras de unir, de forma responsável e dedicada, o sexo
com o amor, em suas atitudes e comportamento.

19 CONCLUSÃO

Esperamos que a essa altura você já tenha uma nova apreciação da natureza humana e da importância da auto-
estima na vida de toda criança. Essa consciência, porém, poderá criar-lhe um sentimento de culpa. Se assim for,
continue a ler esta conclusão.

Lembre-se: os seres humanos adaptam-se e ajustam-se até mesmo aos ambientes psicológicos mais desfavoráveis. A
tendência para um desenvolvimento sadio floresce até mesmo nas pessoas que tiveram poucos estímulos psicológicos e
que já estão em idade avançada.

Tudo o que você fez até agora provavelmente foi baseado nas intenções sinceras de proporcionar bem-estar aos
seus filhos. Qualquer falha no desempenho de sua função de pai, ou de mãe, é resultante da falta de treinamento e de
informação a que não teve acesso. Culpar a si próprio, a seu marido ou à sua mulher, a seus pais, ou às circunstâncias da
vida, só serve para dificultar o seu progresso. Você pode considerar as suas deficiências como oportunidades para
superá-las, ou limitar-se a bater no peito com remorsos. Minha esperança é que você se sinta como um ser humano que
ainda está no processo de desenvolver o seu potencial inexplorado. Você pode começar hoje e retificar as deficiências
que existem. Se a tarefa lhe parece grande demais, busque assistência especializada.

O processo de desenvolvimento deve ser iniciado dentro de você mesmo. Todos os passos dados no sentido de
atender às suas

238

próprias necessidades e aceitar a você mesmo representam um investimento no bem-estar de sua família. Na parte
final deste livro você encontrará uma lista que reúne todas as idéias básicas expostas. Consulte-a freqüentemente, para
reforçar os aspectos essenciais que devem sempre estar em mente.

Lembre-se: você não tem que ser perfeito. Como disse Lincoln, "Procure o que está errado, e certamente você o
encontrará". Possivelmente você cometeu alguns erros na educação de seus filhos, mas pode indicar um pai que não o
tenha feito? Se você acha que conhece algum pai que nunca errou é porque não está a par de todos os fatos
relacionados com ele. Qualquer um de nós pode dar o melhor de si a cada dia, mas "o melhor" nunca será perfeito. E as
crianças se dão muito bem com pais que são plenamente humanos e que falham aqui e ali.

Examine o clima em que seus filhos vivem agora. Esqueça o passado e ocupe-se do presente, no ponto em que você
e seus filhos se encontram no momento. Se você tiver dúvidas quanto aos efeitos de suas atitudes, suas conversas, ou
suas expectativas sobre o auto-respeito de seus filhos, coloque-se no lugar deles. Terá, então, uma indicação sobre a

120
qualidade de espelho que você é. Lembre-se: nenhuma criança precisa de espelhos positivos em todos os momentos de
sua vida.

Seus filhos terão mais probabilidade de efetuar o que prometem num clima que lhes permita crescer no momento
adequado, à sua própria maneira. Seu filho precisa de compreensão ativa quando atravessa o difícil caminho da
dependência para a independência. Se lhe forem dados os elementos necessários, ele só terá como alternativa gostar
de si próprio.

Lembre-se: a criança saudável é verdadeira consigo mesma, o que lhe assegura a integridade pessoal. Ela faz o que
pode com o que tem, e isso lhe dá uma paz interior. A criança doentia vive segundo padrões emprestados. Em choque
consigo mesma, ela disfarça suas partes inaceitáveis e julga a si própria e aos outros de acordo com isso. Todos nós
damos respostas diárias à pergunta:

239

"Posso deixar que meu filho seja sincero consigo mesmo?" Há uma canção popular norte-americana que diz: "Eu não
posso estar bem com alguém se não estou bem comigo mesmo." Isso é uma versão moderna do que disse Shakespeare:
"Acima de tudo, seja sincero consigo mesmo e, tão certo como a noite sucede o dia, não poderá ser falso com
ninguém."

Aristóteles conhecia a verdade que a psicologia confirma hoje. Há mais de dois mil anos, ele disse:

"Felicidade é Auto-satisfação”

Viver com seu filho, de modo que ele se sinta profunda e tranqüilamente satisfeito de ser quem é, significa dar a ele
um legado sem preço: a força para enfrentar as tensões, a

coragem para tornar-se uma pessoa dedicada, responsável, produtiva e criativa - alguém plenamente humano. E
então o investimento pessoal que você aplicou em amor, tempo, energia e dinheiro frutificará interminavelmente no
tempo. Ajudar seu filho a gostar de si mesmo é o maior presente que você pode lhe dar. É manifestar A-M-O-R da
maneira mais profunda.

Se você precisa de um programa prático para aumentar a sua auto-estima, leia Celebrate Your Self, de Dorothy
Corkille Briggs, Doubleday, 1977.

RELAÇÃO DAS IDÉIAS BÁSICAS

Apresentamos aqui a essência das idéias mencionadas neste livro. Esta relação tem sido útil para os pais, em minhas
aulas, servindo como uma rápida revisão dos ensinamentos ministrados. Você também pode utilizá-la como guia para
aumentar a sua eficiência.

A base da saúde emocional

1. O que o seu filho sente em relação a si mesmo afeta seu modo de viver.

2. Uma auto-estima elevada baseia-se na convicção que seu filho tem de ser amado e valorizado.

3. Seu filho precisa saber que ele é importante justamente porque existe.

4. Ele precisa sentir-se competente para lidar consigo mesmo e com o ambiente que o cerca. Precisa sentir que tem
alguma coisa para oferecer aos outros.

5. Uma auto-estima elevada não é pretensão; é a tranqüila aceitação de seu filho em ser quem é.

Os espelhos criam auto-imagens

121
1. Toda criança tem o potencial de gostar de si mesma.

242

2. Seu filho aprende a ver a si mesmo tal qual as pessoas importantes que o cercam o vêem.

3. Ele constrói a sua auto-imagem a partir das palavras, da linguagem corporal, das atitudes e dos julgamentos dos
outros.

4. Ele julga a si mesmo de acordo com as observações que faz de si, em comparação com os outros, e das reações
dos outros para com ele.

5. Uma auto-estima elevada resulta de experiências positivas com a vida e com o amor.

A influência dos espelhos no comportamento

1. O comportamento de seu filho corresponde à sua auto-imagem.

2. Ele pode sentir-se confiante numa área e não em outras; a maneira como ele age dá a você as indicações sobre
como ele se sente: se forte (auto-afirmações positivas) ou fraco (auto-afirmações negativas).

3. Caso seu filho se considere inadequado, esperará sempre o fracasso e agirá de acordo com essa expectativa. A
segurança pessoal, porém, lhe dá a coragem e a energia para enfrentar as dificuldades. Ela lhe concede a esperança de
vencer, e ele passa a agir de acordo com essa esperança.

4. A fé em si mesmo faz com que seu filho se relacione melhor com os outros. Terá, nesse caso, maior probabilidade
de ser feliz.

O preço dos espelhos deformados

1. Seu filho busca o auto-respeito.

2. Se ele se sentir inadequado poderá se submeter a uma vida apagada e retraída, ou erguer várias defesas para
manter sua auto-estima.

243

3. As defesas neuróticas são construídas em torno da convicção de que "Eu não sou amado e não tenho valor".

4. Quando as defesas afastam os outros, a criança anula a sua necessidade de reflexos positivos.

5. Os reflexos positivos que você emite fazem com que o seu filho evite caminhos que o afastam da plenitude da
vida.

A armadilha dos reflexos negativos

1. Em geral, a imagem que seu filho tem de si mesmo muda constantemente.

2. Se ele acreditar que não vale nada, recusará admitir as mensagens positivas sobre a sua competência para manter
a sua coerência interior.

3. Uma auto-estima insuficiente e rígida resulta de muitos fatores negativos que imperam durante um longo período.

4. As atitudes negativas podem ser modificadas e transformadas numa auto-estima elevada, se você der a seu filho
um clima estimulante de aceitação e experiências de êxito.

Polimento dos espelhos dos pais

122
1. Todos nós vemos nossos filhos através dos filtros da inexperiência, de padrões emprestados, de tarefas não-
concluídas, de necessidades não-satisfeitas e de valores culturais.

2. Os filtros transformam-se nas expectativas pelas quais você mede seu filho; e influenciam a sua maneira de tratá-
lo.

3. Se as suas expectativas não se ajustam ao seu filho durante a fase de crescimento você provavelmente se
decepcionará com ele.

4. Se seu filho sentir que quase sempre não corresponde aos padrões que você aprova, perderá o respeito por si
mesmo.

244

5. As expectativas que você tem em relação ao seu filho provavelmente serão mais justas se forem baseadas no real
desenvolvimento dele, na observação atenta e na sensibilidade quanto às pressões sofridas no passado e no presente.

6. Verifique constantemente as suas expectativas; elas podem escapar facilmente ao seu controle.

7. Quanto mais realizado você for como pessoa, menores pressões pouco realistas fará sobre seu filho.

8. O que você faz consigo mesmo fará também com seu filho. Portanto, o aumento da sua auto-aceitação lhe
permitirá aceitar mais o seu filho.

O encontro autêntico

1. Toda criança precisa de atenção concentrada – de encontro autêntico – para se sentir amada.

2. O amor não é transmitido, necessariamente, pela afeição física, pela constante negação das necessidades dos pais,
pela proteção excessiva, ou por expectativas elevadas, tempo e presente.

3. Seu filho poderá ver o seu distanciamento constante – preocupação com o passado, o futuro, as previsões e as
tarefas – como falta de amor. Ele só poderá se sentir merecedor de amor se você reservar tempo para estar plenamente
com ele.

4. Adquira o hábito de ser aberto para a maravilha que é seu filho, aqui e agora. Examine freqüentemente o nível da
atenção concentrada que você lhe dedica.

A segurança da confiança

1. A confiança é o ingrediente mais importante de um clima psicologicamente seguro.

245

2. Seu filho deve ser capaz de contar com você para ajudá-lo amigavelmente na satisfação de suas necessidades.

3. As palavras que você disser devem corresponder à sua linguagem corporal para que seu filho tenha confiança em
você.

4. Ele precisa que você se abra com ele sobre os seus sentimentos, suas reservas e suas ambivalências.

5. Seu filho precisa ver você como um ser humano; seja verdadeiro com ele. Isso o ajudará a aceitar sua própria
humanidade, dando-lhe um modelo que lhe permitirá assimilar todas as partes de si mesmo. E então ele não se alienará
dos outros ou de si mesmo.

A segurança do não-julgamento

123
1. O segundo ingrediente da segurança é a ausência de julgamentos.

2. Dirija as suas "reações-eu" para o comportamento; não atribua os julgamentos do "tipo-você" à pessoa de seu
filho.

3. Quando seu filho vê a si mesmo como um ser à parte de seus atos, tem mais condições de criar um auto-respeito
sólido.

A segurança de ser amado

1. Amar o que seu filho tem de especial, embora seu comportamento possa não ser aceitável, é o terceiro
ingrediente da segurança psicológica.

2. Recuse-se a ver apenas a singularidade de seu filho; trate-o com o mesmo respeito que você deseja para si;
focalize as suas qualidades positivas; evite identificá-lo com os seus atos; e procure valorizar a você mesmo. Desse
modo o seu amor se revelará.

246

3. Quando seu filho se sente amado, ele busca metas mais realistas, aceita os outros tal como são, aprende com
maior eficiência, usa sua criatividade e gosta de si mesmo.

A segurança de possuir sentimentos

1. O quarto ingrediente da segurança psicológica consiste em permitir que a criança seja "dona" de seus
sentimentos, sem que você deixe de aceitá-la por isso.

2. Você respeita a individualidade quando evita pedir ao seu filho que tenha as mesmas reações e sentimentos que
você.

3. Ofereça muitas experiências aos seus filhos, mas trate com respeito as suas reações. Evite impor as lições que não
são apreciadas por eles.

4. Planeje ativamente as diferenças entre seus filhos, tanto nas expectativas quanto nas atividades familiares.

5. O respeito às suas diferenças e à sua singularidade estimula a auto-estima de seu filho.

A segurança da empatia

1. A empatia é o entendimento do ponto de vista de seu filho, sem julgamento, concordância ou discordância. Esteja
atento à linguagem corporal, pois é mais sincera do que as palavras.

2. A empatia, para ser autêntica, tem que vir do coração.

3. Quando seu filho se mostra preocupado, deseja secretamente a compreensão empática; ele precisa mais dela do
que de explicações, argumentação ou garantias.

4. Se você vê o seu papel de progenitor como o de um educador, se você respeita a integridade de seu filho, se você
está em contato com os seus próprios sentimentos e sente-se bem com eles, a empatia virá facilmente.

247

5. A empatia evita a alienação; é uma poderosa prova de amor. E estimula ativamente o amor que seu filho tem por
você.

A segurança do crescimento individual

124
1. O sexto ingrediente da segurança psicológica é a liberdade de crescer de forma única.

2. O crescimento se faz em etapas e sofre, às vezes, regressões e paralisações.

3. Cada criança tem seu próprio ritmo de crescimento.

4. Quando seu filho se sente seguro para recuar, está livre para crescer.

5. Os sete ingredientes do encontro autêntico se interligam para formar o clima do amor. Eles asseguram que a
criança sentirá o interesse dos pais por ela; e então desenvolverá um auto-respeito sincero em todas as direções.

Como tratar os sentimentos das crianças

1. Em geral, não tratamos os sentimentos das crianças da mesma maneira como gostaríamos que os nossos fossem
tratados.

2 As crianças possuem todos os tipos de sentimentos com os quais a tradição nos ensinou a não entrar em contato
diretamente.

3. Tentar superar os sentimentos negativos através da argumentação, julgamento, negação, conselho, reafirmação
ou diversão afasta-nos da criança. Essas atitudes obrigam-na a pensar menos em si mesma e a reprimir ou disfarçar suas
verdadeiras emoções.

4. Os sentimentos reprimidos não desaparecem; eles agem contra a saúde física, emocional e intelectual.

248

5. O poder dos sentimentos se evapora quando as emoções são aceitas com entendimento e canalizadas para
escoadouros aceitáveis.

6. Seu filho precisa que você o ouça ativamente e não passivamente.

7. Para livrar-se das ações negativas, livre-se dos sentimentos negativos primeiro; eles são a causa.

8. Talvez seja necessário limitar as ações, mas a expressão dos sentimentos só deve ser limitada em termos de quem,
quando e onde são realizadas.

Como decifrar o código da raiva

1. Os sentimentos normais de raiva mascaram um sentimento anterior.

2. Quando você aceita a raiva ouvindo ativamente, seu filho acaba lhe revelando as emoções subjacentes. Canalize
seus sentimentos para saídas seguras.

3. Os momentos de raiva podem ser reduzidos, mas não totalmente eliminados. Se seu filho se irrita
freqüentemente, verifique se as suas necessidades físicas e emocionais estão sendo satisfeitas; se ele está enfrentando
frustrações demais; se faz exercícios suficientes. Verifique as expectativas que você mantém, o tipo de disciplina,
competição, comparações e tensões familiares. Observe também se você está proporcionando a seu filho doses
suficientes de encontros autênticos.

4. Se você enfrentar as suas próprias hostilidades, poderá ajudar seu filho a enfrentar as dele.

5. Transmita os seus primeiros sentimentos como "reações-do-tipo-eu".

6. A maior parte dos acessos de raiva são um sinal de perda de controle e frustração extrema, e não um
comportamento infantil.

125
249

7. Os sinais indiretos de raiva são a implicância constante, a maledicência, o sarcasmo, a agressão disfarçada, os
ataques aos valores adultos, os acidentes constantes, os temores pouco realistas, o comportamento-modelo, a
depressão e os sintomas psicossomáticos.

8. A aceitação da raiva que seu filho manifesta evita que ele use válvulas de escape indiretas ou a repressão.
Permite-lhe aceitar a sua humanidade total.

Como desmascarar o ciúme

1. O ciúme é um sentimento normal nas famílias, principalmente porque toda criança deseja ser a favorita.

2. O ciúme mascara o sentimento real ou imaginário que seu filho tem de estar em desvantagem.

3. As pressões interiores ou exteriores podem diminuir o sentimento de adequação de seu filho; ele poderá, então,
sentir ciúme.

4. Com uma auto-estima elevada seu filho terá maior segurança interior que o protegerá contra o ciúme intenso e
freqüente.

5. O ciúme surge quando há favoritismo, comparações ou falta de respeito pela individualidade. Evite usar a criança
para satisfazer as necessidades insatisfeitas que você tem. Uma atmosfera familiar tranqüila, baseada na cooperação e
na disciplina democrática, reduz a freqüência do ciúme.

6. Os sinais indiretos de ciúme são: um súbito aumento de dependência, regressão, exigências de coisas materiais e
intensificação do mau comportamento.

7. Quando há ciúme, ajude seu filho a expressá-lo ouvindo-o ativamente. O sentimento que ele experimenta é real,
mesmo que os fatos não o justifiquem.

8. Ajude seu filho a sentir-se compreendido, incluído e importante; dessa forma ele não se sentirá enganado.

250

Motivação, inteligência e criatividade

1. Seu filho nasce curioso e com a tendência a confiar em si mesmo.

2. Apóie as suas explorações, curiosidades e tentativas de autoconfiança, se quiser que ele seja intelectualmente
estimulado, e deixe que ele use sua criatividade. Ele deve saber que tem direito a indagar e a descobrir.

3. Você estimula a inteligência de seu filho proporcionando-lhe: experiências ricas e de primeira mão, amplos
contatos lingüísticos, experiências bem-sucedidas na solução de problemas, e exemplos familiares e atitudes que
valorizam o aprendizado e a independência.

4. O crescimento intelectual de seu filho é afetado por: deficiências físicas, necessidades emocionais insatisfeitas,
sentimentos reprimidos, pressão indevida em favor de metas pouco realistas, disciplina não-democrática, linhas de
comunicação obstruídas, salas de aula superlotadas, professores inadequados e técnicas de ensino deficientes.

5. Um clima de encontros autênticos motiva seu filho a aprender e a capitalizar as suas particularidades inatas. Há
uma relação direta entre a criatividade livre e a auto-estima elevada.

O casamento do sexo com o amor

126
1. A educação sexual significa muito mais do que apenas o ensino dos fatos da reprodução. Ela compreende o
estímulo a atitudes saudáveis em relação ao corpo, aos sentimentos, aos papéis sexuais e ao eu.

2. As atitudes para com o sexo são influenciadas pelos modos de afagar, alimentar, vestir, banhar e ensinar a usar o
banheiro; pelos progressos nas tarefas de desenvolvimento; pela maneira de lidar com os sentimentos negativos; pelos
tipos

251

de modelos oferecidos; pelos valores que as crianças vêem adotados; pelo tipo de disciplina usado; bem como pelas
influências vindas de fora.

3. As suas atitudes em relação ao sexo são contagiosas. Seja franco sobre qualquer constrangimento que tenha.
Coloque a responsabilidade no devido lugar: na educação que você recebeu e não no assunto.

4. Apresente os fatos da reprodução quando seu filho fizer perguntas. Se ele não as fizer, aborde você mesmo o
assunto. As primeiras informações devem ser dadas, no máximo, até os cinco anos. Deixe ao alcance de seu filho livros
de educação sexual apropriados a cada fase de seu desenvolvimento.

5. O ajustamento sexual positivo é mais fácil se seu filho for emocionalmente amadurecido.

6. A auto-estima afeta diretamente o comportamento sexual. Um respeito próprio sólido permite ao seu filho
realizar um casamento enriquecedor, responsável, dedicado, com uma pessoa que tenha o mesmo respeito próprio. Um
casal assim terá mais condições de alimentar a autoconfiança em seus próprios filhos.

Como você demonstra amor aos seus filhos? Se eles vivem com expectativas realistas, encontros autênticos,
cooperação nas tarefas da individualidade, aceitação compreensiva de todos os sentimentos mesmo quando você limita
os atos, e disciplina democrática, eles se sentirão amados. E esse sentimento é a base de uma auto-estima elevada. Com
essa sólida base interior, o potencial se expandirá, seus filhos serão motivados, criativos e terão um objetivo na vida.
Eles se relacionarão bem com os outros, terão paz interior, resistência às tensões e maior oportunidade de realizar um
casamento feliz. Eles próprios serão pais estimulantes.

Esperamos, a esta altura, que você esteja convencido da importância de saber tudo o que for possível sobre a tarefa
mais importante do mundo – a parentalidade.

127