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A PROFECIA VERDADEIRA

JONATHAN R. CASH
DanPrewan Editora
2010

Dedicatória

Dedico este livro à minha querida esposa, Tina.


Agradeço pelo apoio necessário para vencer a maior
barreira que já tive de transpor: escrever um livro
desta profundidade e magnitude. Quero incentivar a
todos que já tiveram o sonho de ter o seu lugar ao sol
para que metam mãos à obra! Envolvam-se com
pessoas que digam "sim" em vez de envolverem-se
com aquelas que dizem "não"! Também quero
agradecer a Deus por nos deixar Sua Palavra, a Bíblia.
Sem ela, eu seria como um navio sem leme ou um
carro sem estrada.
Agradecimentos
Muitos agradecimentos especiais ao nosso fiel Senhor.
A nossos pais, Bob e Terry Cash, Gloria Tuccille e
Bob Tuccille, recém-falecido; à vovó Geneva Price; à
tia Lillie BeBe Woodhouse; à família da igreja e à
equipe da Atlantic Shores e a todos os amigos e
familiares que nos ajudaram neste empreendimento
difícil, porém emocionante.
Agradecimentos especiais a Gini Ward por sua
assistência editorial, a seu marido, Craig, por sua
paciência e oração, e a Suzie Hardy e Bridget Shaffer
que nos ajudaram imensamente.
Agradecimentos a Craig Minton pela foto de
Jon.

O LIVRO DO APOCALIPSE sempre foi motivo de


curiosidade e temor para as pessoas, porém de
fé e esperança para os cristãos — que nele encontram
a declaração da vitória final de Cristo sobre o mal.
Se, por um lado, temos certeza de que o registro do
Apocalipse é fidedigno, há uma pergunta: como,
porém, aqueles fatos pré-anunciados ocorrerão? E im-
possível responder a isso com certeza, mas pode-se
imaginar. Porém, nada do que se imagina certamente
chegará próximo da realidade... quando chegar o
momento.
Neste segundo volume da série, o caos econômico e
social se instala em todas as nações a partir da in-
compreensível queda das bolsas de valores, que inicia
um desastroso efeito cascata na economia mundial.
Ao mesmo tempo, o Anticristo finalmente mostra sua
face à humanidade. O mais assustador, porém, é que
ninguém desconfia de nada e todos o recebem,
erroneamente, como um homem de Deus — que ele,
infelizmente, na verdade não é.

A coleção é composta por 5 volumes: O Despertar da


Escuridão, A Profecia Verdadeira, O Mergulho no
Abismo, As armas do Anticristo, O Juízo Final.

SUMÁRIO

Capítulo Um
O grande mistério

Capítulo Dois
O grande sumiço

Capítulo Três
Paciência inexplicável

Capítulo Quatro
Paz passageira

CAPÍTULO UM

O GRANDE MISTÉRIO

SATANÁS ESTAVA EM PÉ no Monte Sião e olhava para a


cidade de pedra abaixo. Sua visão de raio-x
perscrutava Jerusalém. Ergueu os olhos para o céu e
observou suas tropas demoníacas travarem guerra ao
redor da cidade. De repente, ocorreu-lhe a idéia de
modificar seu plano. Seria esplêndido. Ele seria
adorado ali como o era o Deus Todo-Poderoso;
reedificaria o templo e iria dedicá-lo a si mesmo.
Ele sabia que a hora não era oportuna. Seu maior
espinho eram os cristãos. Ao longo de toda a história,
o poder das orações dos cristãos havia destruído seus
planos de uma nova ordem mundial. Nabucodonozor,
César, Napoleão, Hitler e Stalin foram homens
segundo seu próprio coração. Infelizmente, esses
homens importantes conseguiram fisgar apenas parte
do mundo. Satanás era insaciável: queria o mundo
inteiro.
O Diabo examinou a visão que tinha. Conhecia muito
bem a região e cobiçava esta cidade e seus cidadãos
que de nada desconfiavam.
— Lúcifer, Príncipe das Trevas — ressoou uma voz.
Satanás quase caiu duro. Ninguém chegava por trás
dele e sobrevivia para contar a história. Virou seu
corpo devagar para, no final, dar de frente com o
arcanjo Miguel. Surpreendeu-se ao ver que a espada
do arcanjo estava guardada firme na aljava.
— Seu covarde! — praguejou Lúcifer. — O que você
quer?
Miguel ignorou-o. Seu trabalho não era julgar o
pecado, mas entregar uma mensagem de seu Mestre,
o Deus Jeová.
— Nosso Pai do céu...
Lúcifer abruptamente o interrompeu.
— Ele pode ser seu Pai, mas não o meu! Nunca! Os
olhos de Satanás chamejavam ódio.
— Deus Jeová quer que você se arrependa de sua
iniquidade — disse Miguel.
O Diabo sorriu, sádico.
— Arrepender-me? Do quê? O bem é mau e o mal é
bom! Ele é quem precisa se arrepender! É Aquele que
não consegue administrar Seu reino. Olhe à sua volta.
A terra está caindo pelas tabelas. Seu modo de agir
não está funcionando!
Assim que Satanás deu um passo à frente, Miguel
sacou sua espada. Satanás parou e deu risadinhas.
— Tenho muito mais o que fazer do que brincar de
gato e rato com você — escarneceu Satanás.
Lúcifer foi planando para perto do arcanjo. Uma
lágrima escorreu pelo rosto de Miguel enquanto
observava seu adversário.
— Lúcifer, você terá as chaves de toda a terra. Esta
oportunidade será um testemunho contra você de que
o mal não irá prosperar para todo o sempre. Quando
falhar, o calabouço será seu destino. Prepare-se para
enfrentar sua sentença e seu Criador!
Satanás não disse uma palavra. Aquelas eram palavras
poderosas, mesmo vindas de um arcanjo, mas ele não
guardou nenhuma delas em seu coração. Olhou para
Miguel e examinou todos os seus movimentos. O
arcanjo nunca mentira, o que era uma fraqueza,
pensava Lúcifer.
— Você está me dizendo que vou governar a terra?
— perguntou Satanás, enquanto a saliva quente
pingava de seus lábios ressecados.
— A Palavra de Deus profetizou isso há uns dois mil
anos — respondeu Miguel. — Você deve instruir seu
coração negro a crer na Bíblia. Seu principal
assistente, General Blasfêmia, lê a Bíblia todos os dias,
e contra as suas ordens. O conhecimento dele excede
o seu, mas não se preocupe porque o mesmo nunca
acontecerá pela sua arrogância.
Satanás sibilava como uma serpente tentando
intimidar sua presa.
— Também tenho de acreditar que os cristãos serão
arrebatados da terra? — perguntou Satanás.
— Se Deus assim o disse, então, você pode contar
com isso! — respondeu Miguel.
Como de praxe, Lúcifer seguiu para as estrelas
erguendo seu corpo envelhecido, porém ágil.
— Então o seu Deus determinou seu destino para
toda a eternidade. Com as orações dos cristãos
exterminadas e o poder do Espírito Santo destruído,
nada e ninguém poderá me impedir de governar todo
o universo — não apenas por sete anos, mas para todo
o sempre!
O tripúdio do Diabo desaparecia na noite à medida
que ele corria em direção ao norte. Sua obra havia
acabado de começar.

— Essas foram as notícias desta noite — disse Ken


Action, enquanto o programa chegava ao fim.
— Voltaremos amanhã com mais notícias que afetam
você e sua família — acrescentou Sally Winter.
Os âncoras sorriram na deixa, olharam para baixo e
começaram a juntar as folhas que imitavam o script.
Continuaram a encenação até a luz vermelha se
apagar.
— Bom programa — disse o diretor de palco. Sally
voltou aos princípios da ética profissional com um
toque maior de sinceridade.
— Obrigado, rapazes. Divirtam-se.
Ken ignorou as brincadeiras que o pessoal sempre
fazia.
Com uma raiva contida, correu para o camarim para
tirar a maquiagem do rosto. Sally vinha logo atrás
dele, abatida, confusa, mas preparada para a briga.
Esperava que ninguém tivesse notado a tensão que
havia entre eles. Assim que ela entrou na sala, Ken a
ignorou. Ela lutava para controlar suas emoções.
— Ken, você pelo menos notou minha presença?
Ele cuidadosamente retocava o cabelo. Sally bateu a
porta com força. Sem dizer uma palavra, trancou-a e
foi até o balcão onde Ken se maquiava.
— Você tem exatos dois segundos para me dizer por
que está me tratando como um cachorro que acabou
de fazer pipi dentro do seu Corvette novo! — gritou
ela.
Ken estava atordoado. Era esperto o bastante para
saber que o silêncio era a pior forma de tratamento.
Tentou conversar, mas acabou balbuciando umas
palavras.
— Não há nada de errado. Quero dizer, eu estou
bem. Simplesmente não consigo entender — suspirou
ele. — É inútil.
O humor de Sally mudou.
— O que é inútil? Tudo acabará bem se você
simplesmente me disser o que está corroendo você.
Ken balançou a cabeça, desesperado.
— Ouça, Sally. Às vezes não consigo entender de
onde você vem. Parece que você é de outra galáxia.
Tenho planos de me casar com você no ano que vem,
e veja o que acontece. Você vai e se torna uma
fanática nascida de novo! Sally respondeu de modo
suave e amável.
— Eu acho que você sabe que não sou uma fanática.
Nem todos os cristãos são assim. Eu sei de seu
profundo ódio por religião. E por que não? Seu pai
bebia e costumava soltar blasfêmias os seis dias da
semana e brincar de ir à igreja no sétimo dia. Eu sei
que ele batia em sua mãe quando ela não concordava
com ele. Mas seu problema deve ser com ele, não com
Deus.
Ken virou-se para o espelho e olhou na direção de
Sally.
Seu orgulho o impedia de olhá-la nos olhos. Era óbvio
que as palavras dela o haviam acertado em cheio.
— Olha, se você quiser ser cristã, ótimo. Isso é
conveniente para você; conseqüentemente terá mais
influência. Só me prometa uma coisa.
— Prometer o quê?
— Prometa que nunca tentará me forçar a engolir
esse papo de religião.
Sally deu-lhe um abraço bem apertado.
— Alguma vez tentei mudar você ou algum de seus
muitos defeitos?
— Muitos defeitos? — replicou Ken.
— Quer uma lista? — respondeu Sally com um
sorriso.
— Vá plantar batatas. Esse papo não vai chegar a
lugar nenhum.

***
Roma estava agitada com suas atividades. Era início
da tarde de domingo. As famílias voltavam da igreja e
os turistas se empurravam esperando conseguir
aquela fotografia perfeita.
Immanuel sentava-se numa cadeira do século V.
Havia passado os meses anteriores encantando
parceiros políticos por todo o mundo. As fronteiras
entre as nações foram desfeitas por um simples traço
de caneta, embora ainda existissem obstáculos. Os
Estados Unidos da Europa precisavam de uma
cirurgia plástica.
— Ele nunca demonstrará simpatia por esta idéia —
dizia Dominic Rosario, cardeal superior do Papa.
— Uma causa nobre como esta, sem dúvida, receberá
endosso do Vaticano. A paz deve ser nossa principal
meta na terra — advertiu Immanuel.
As palavras de Immanuel fascinavam o cardeal que,
de uma hora para outra, viu-se sem força de vontade
e sem fé. Sua determinação se esvaía quando estava
perto de Immanuel.
— Alguns podem concordar com essa declaração,
mas muitos diriam que as leis conservadoras de Deus
são nosso dever mais sagrado — admitiu Dominic,
começando a gaguejar, o que não era do feitio do
agradável cardeal.
— Eu, eu pessoalmente detesto aquela atitude do
tipo "somos mais santos do que vocês". Acredito que a
Bíblia é interpretada de diferentes formas de geração
a geração, e a idéia de uma verdade absoluta já não
existe mais desde a Idade da Pedra. Entretanto, o
Papa irá brigar com você porque a doutrina dele não
pode ser afetada pelo que é conveniente em termos
políticos.
Dominic era um hippie que se tornou sacerdote e
esperava ser promovido um dia. Suas maiores
aspirações não eram motivadas pelo patriotismo, pelo
dever ou pela honra. Queria reconhecimento. Deus
derramara muitas lágrimas vendo este homem, que
venceu na vida por esforço próprio, passar de
sacerdote a bispo, a arcebispo e, por fim, a cardeal.
Aparentemente, ele era profundamente religioso,
amoroso, caridoso e parte integral da hierarquia do
Vaticano. Interiormente, diferente do Papa, era um
lobo. Dominic queria tornar-se o Papa da Igreja
Católica, independente do que isso lhe custasse. Suas
palavras astutas aliviavam a mente de Immanuel.
— Com certeza, gostaria de acompanhar sua nobre
causa pela paz sobre a terra acima de qualquer
doutrina religiosa.
Immanuel pôs as mãos fechadas sobre a mesa de
marfim.
— Eu sei que seu coração aspira à liderança da Igreja
Católica disse Immanuel. — Suas aspirações são
nobres, mas não perspicazes.
Suas palavras astuciosas deixaram Dominic nervoso,
porém curioso.
— Eis uma declaração interessante. Como alguém
com sua capacidade intelectual sugere que não tenho
visão? — perguntou.
— Minhas idéias e meus sonhos estão em um nível
completamente diferente. Sua meta se concentra
apenas no topo do iceberg.
Os olhos de Immanuel chamejavam raiva.
— Como você quer governar o mundo?

A certa distância, eles pareciam um enxame de


gafanhotos.
Eram pretos, assustadores e estavam prontos para
destruir o que vissem pela frente. Sua fome insaciável
não se concentrava na vida vegetal, mas na vida
humana, na alma da humanidade. Milhares de
demônios pertencentes às principais categorias
dançavam ao som dos rufos que vinham das tribos.
Blasfêmia, que era perigoso como um leão,
inspecionava suas tropas. Em sua mente pervertida,
estava determinado a fazer com que seus demônios
olhassem para ele com respeito. Jamais esqueceria a
situação humilhante a que foi exposto por Lúcifer, em
que teve de ficar de quatro em frente de seu exército.
Seus oficiais vestiam seus melhores uniformes. Um
general após o outro passava pela plataforma. Faziam
continência para seu chefe e se curvavam, mas
blasfemavam em voz baixa. A distância, uma mancha
negra apontou no sol reluzente, e a cada segundo que
passava, assumia proporções cada vez maiores.
Blasfêmia tomou nota do fenômeno inédito.
— Objeto se aproximando — advertiu um vigia, que
tomara cuidado para não interromper o desfile a
menos que fosse extremamente necessário.
Blasfêmia levantou a mão no ar denso da manhã. Os
demônios rapidamente pararam.
A mão de Blasfêmia continuou suspensa. Era seu
símbolo de autoridade, semelhante à continência dos
nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.
Acompanhou o objeto com os olhos, que enxergavam
longe. Ficou cada vez mais enfurecido à medida que o
objeto começava a ser identificado. De repente,
abaixou o braço, aborrecido. Um general que estava
perto da plataforma se manifestou.
— Tropas inimigas, senhor?
— Não! — berrou Blasfêmia. — É um demônio, um
dos nossos! Ele está com um tremendo problema.
Evitou ordens e perturbou meu desfile.
Blasfêmia não se importava com o desfile. Apenas
queria seu momento de fama e glória. O demônio
aproximou-se.
— O que você está fazendo? Você acabou com o
clima de festa! — bradou Blasfêmia.
As ondas de choque que vinham de seu bramido
quase fizeram o demônio ter um ataque de nervos.
Ele se esforçou para retomar a compostura à medida
que se aproximava do espaço aéreo restrito de
Blasfêmia.
— Mestre, notícias urgentes! — anunciou o demônio
sem fôlego.
— Uma delas é: você está morto! — vociferou o
general.
Avançou no pescoço do jovem demônio, que se
esquivou no momento certo.
— Senhor, o medo que tenho de Satanás, Rei da
Potestade do Ar, deve ser maior do que o medo que
sinto do senhor e de suas ordens — replicou o
mensageiro.
Blasfêmia espantou-se.
— O que Satanás tem a ver com isto? — perguntou o
estúpido demônio de Lúcifer.
— Ele quer vê-lo imediatamente. Disse para largar
tudo o que está fazendo e apresentar-se em seu
quartel.
— Bom trabalho, recruta — elogiou Blasfêmia,
voltando-se para a multidão.
— Voltem aos seus postos, companheiros. Estarei de
volta antes de o sol se pôr no céu.
Disparou em direção ao ar segundos depois. Seu
destino era Israel. Consultando seu relógio, percebeu
que levaria trinta e cinco segundos para percorrer
uma distância de quase mil quilômetros. Era tempo
suficiente para formular um plano. Fez força para
projetar novamente seus processos mentais. Não
havia espaço para o ego; o plano envolvia humildade.
Assim que chegou à fronteira de Israel, começou a
descer na terra seca do Mar Morto. No passado,
nunca havia entendido por que Satanás escolhera este
lugar para chamar de lar. Mais recentemente, sua
leitura da Bíblia havia apresentado algumas pos-
sibilidades. Imaginou que a ojeriza de Satanás à água
pudesse partir do princípio de que a Palavra de Deus
sempre foi simbolizada por ela. Satanás odiava Deus e
Sua Palavra. Conseqüentemente, detestava água.
Nesse caso, é claro que alguém se sentiria mais à
vontade onde não existisse o menor vestígio de água e
onde seus efeitos de nada valessem. O deserto da
Judeia era o "lar, doce lar" de Satanás. Sua caverna
dava vistas para o Mar Morto.
Enquanto descia no buraco subterrâneo de Satanás, a
mente de Blasfêmia divagava. Sonhava com o dia em
que seria adorado como Deus. Imaginara o Deus
Jeová. E por que não? Ele havia decorado a Bíblia do
começo ao fim. Além disso, estava começando a
entender o mecanismo interno e os pontos fracos de
seu líder, Lúcifer. Sua decisão de destruir Satanás
ganhava força a cada dia.
Blasfêmia encontrou a caverna e seguiu por ela até
chegar ao centro da terra. Era tão ágil quanto um
morcego. Seu corpo espiritual resistia ao intenso calor
e à pressão do centro do planeta. O ar quente das
entranhas da terra era-lhe agradável. A caverna
parecia uma cidade. Tinha aproximadamente dez
metros de altura, de comprimento e de largura.
Moldado em forma de uma bola de cristal, o centro
da câmara tinha uma montanha de cristal que
chegava a mais de dois mil metros de altura e ficava
em cima de um rio de lava, que fluía ao redor da base
desta superestrutura. A montanha mágica parecia um
castelo medieval adornado de ouro e prata.
Blasfêmia reduziu a velocidade ao se aproximar da
sala do trono de Satanás. O trono estava localizado no
centro geográfico da terra. Blasfêmia havia estado no
calabouço do Diabo apenas em outra ocasião.
Lembrou-se nitidamente dos detalhes daquele dia,
que estavam gravados em sua mente como uma
marca. O incidente ocorrera há quase dois mil anos
— no dia em que Jesus Cristo foi pregado na cruz. O
que pensaram ser o maior plano de guerra que
Satanás já havia maquinado foi aniquilado sem
nenhum esforço de guerra. Durante o terceiro dia da
suposta vitória dos demônios, o inferno em peso ficou
de pernas para o ar. Jesus havia ressuscitado dos
mortos. Ele havia vencido a morte! Sem dúvida,
Satanás havia mentido sobre isso para as tropas
ignorantes que estavam sob seu comando, mas
Blasfêmia e muitos de seus amigos mais próximos
sabiam a verdade. No entanto, essas lembranças
foram desaparecendo à medida que ele se aproximava
do trono de Lúcifer.
O Mestre do Mal estava grudado à cadeira de
mármore negro, analisando seus planos de guerra
para a conquista do universo. Sua cabeça estava
mergulhada na papelada e apenas seus chifres podiam
ser vistos. Seus olhos deixaram a parte inferior das
informações do seu serviço de inteligência e se
ergueram.
— Blasfêmia, onde você estava? — repreendeu
Satanás. — Você sabe o que faço com recrutas que me
deixam esperando!
Blasfêmia permaneceu calmo assim que pousou. No
mesmo instante, caiu de joelhos e curvou-se. O
general com cinco insígnias pensou que seria melhor
arrancar os próprios olhos do que perfazer essa rotina
de infâmia.
— Mil perdões, grande sábio — alcovitou Blasfêmia.
Satanás nem ligou para o gesto de seu subordinado.
Ficou mais irado.
— Não me venha com essa droga de humildade! Eu
sei que você odeia minha coragem tanto quanto,
senão mais, do que odeia Deus Jeová!
O general não recuou, enquanto o Diabo apontava
seu dedão esquelético para ele.
— Apenas lembre-se de quem é seu chefe. Tenho
poder para destruir sua alma!
Blasfêmia permaneceu de joelhos. Lembrou-se das
inúmeras vezes que Satanás ameaçara a ele e a outros
com seu poder de reduzi-los a átomos. Ninguém no
inferno já tinha colocado à prova sua decisão de usar
seu misterioso poder. Seria um genocídio.
— No que posso lhe ser útil? — sorriu Blasfêmia.
— Você pode começar limpando esse sorriso
estúpido da cara — gritou Lúcifer.
O sorriso se foi no mesmo instante.
— Chega de encenação! Há muito trabalho a ser
feito. Não sei quanto tempo temos antes de o campo
de batalha estar pronto, mas é provável que não
demore muito.

Satanás atirou alguns mapas do Oriente Médio e da


nova Europa para Blasfêmia.
— Precisamos intensificar as tropas seis vezes mais
nessas áreas. — Satanás ficou perturbado com o fato
de Blasfêmia não mostrar reação alguma para com os
mapas diante dele.
— Tire seu nariz do chão e olhe para esses mapas,
seu idiota!
Blasfêmia obedeceu sem dizer uma palavra.
— Convoque mais demônios da América do Norte e
do Sul, da Ásia Oriental e da África, caso seja
necessário.
Fez um círculo ao redor da Europa com uma caneta
cheia de sangue.
— Esta área deve estar sob nosso controle primeiro.
Os demais países virão em fila assim que os idiotas
comprarem meu plano.
Satanás observava seu reflexo no chão de cristal. O
orgulho de seu coração o fazia bater disparado. Ele
adorava ficar contemplando a si mesmo.
— A que ideia o senhor está se referindo, mestre? —
perguntou Blasfêmia.
Satanás voltou-se para o planejamento que tinha em
mãos. — Meu plano na terra pode ser efetuado
apenas por um escolhido. Nossos agentes devem
trabalhar de comum acordo com ele e com seu mestre
espiritual.
— Acredito que esteja se referindo a Immanuel. Mas
quem será este homem religioso?
Satanás recebeu com alegria a pergunta.
— Sim, Immanuel cuidará da fraude política. Um
homem chamado Dominic Rosario cuidará da parte
religiosa. Você irá encontrá-lo no Vaticano.
— No Vaticano! — exclamou Blasfêmia. — Que
plano genial! Eles têm a infra-estrutura de que
precisamos para capturar o planeta!
Os dedos mutáveis de Satanás batiam no trono sólido
acompanhando uma melodia diabólica. Seus olhos
estavam perturbados, expressando um entusiasmo
corrompido.
— Temos de casar os dois — proclamou Lúcifer.
As palavras foram direto para a mente de Blasfêmia,
que fez uma pausa para pensar na idéia, tentando
juntar as palavras com cuidado.
— Não consegui acompanhar sua analogia, grande
mestre.
Saliva quente pingava das presas de Satanás.
— É claro que você não consegue acompanhar
minha analogia. Desde o dia em que o contratei para
liderar minha ação, você não tem me seguido em seu
coração. Você é um estúpido, obstinado, um sujeito
que serve a si mesmo e está esperando o momento
propício. Você é tão cego quanto aqueles homens
vazios que adoram o Deus Jeová!
Lúcifer levantou-se.
— Sem mim, você nunca herdará a terra! Sem mim,
você rastejaria como um verme em seu próprio
excremento. Você não tem capacidade para governar
reino algum, exceto aquele que está em seu mundo da
fantasia!
Quando terminou de liberar sua ansiedade contida, o
Diabo caiu estatelado em seu trono e relaxou. Gostava
de ver Blasfêmia se contorcendo.
— Blasfêmia, seu trabalho consistirá em combinar a
fraude política e a religiosa em um belo homem de
aceitação mundial que será o Anticristo. A
humanidade com morte cerebral não seguirá um
político partidário do internacionalismo sem uma
base de valor que induza seu coração e sua mente.
Meu profeta e meu rei devem trabalhar em conjunto.
Satanás riu.
— Você vai garantir meu sucesso plantando
sementes de euforia. Quero que tudo o que cheira a
Deus Jeová seja arrancado e queimado. Seduza-os
com visões de alegria, engane-os com promessas de
paz e vença-os pela mão de ferro da crise econômica.
Blasfêmia estava espantado. Tudo acontecia como
prenunciava um trecho da Bíblia. Satanás teria lido a
Palavra de Deus? Será que o Deus Jeová tinha mesmo
o poder de prever o futuro?
— Vou cumprir todos os seus caprichos com
diligência e escravidão — confortou Blasfêmia.
Toda palavra que deslizava pela língua de Blasfêmia
penetrava em Satanás.
— Saia já do meu castelo, seu impostor! Volte com a
vitória ou vou buscar sua cabeça!
Será que ele deveria mencionar a arca e Bin
mingham? "Não!" — raciocinou Blasfêmia. "Lúcifer
acabaria colocando tudo a perder."
Blasfêmia curvou-se. Seu rosto desapareceu sob seu
corpo oleoso.
Dominic queria saber se estava sonhando. Governar o
mundo? Como? O mundo era um lugar tão grande e
diversificado. Será que ele não passava de um louco
extremamente ambicioso? A vida passava-lhe diante
dos olhos enquanto conversava com Immanuel.
— Os únicos homens que tentaram uma coisa dessas
estão mortos, são decadentes ou são considerados uns
patifes pelo planeta Terra. Usaram todos os artifícios
macabros para cumprir seu programa de destruição.
Sou um clérigo, um homem de Deus!
Immanuel soprou uma nuvem de fumaça de seu
cigarro, para humilhação de Dominic.
— Não me venha com essa de religioso da boca para
fora. Acabe com essa fachada. Essa droga de Deus não
vai levá-lo a lugar nenhum comigo! Você sabe tão
bem quanto eu que Deus é impessoal e habita dentro
de cada um de nós. O Deus dos cristãos foi o
responsável por mais guerra e pobreza do que todos
os pagãos juntos! Precisamos de algo novo, diferente e
forte!
O entusiasmo de Immanuel espalhava-se rapidamente
pela alma de Dominic, mas ele continuou a fazer o
jogo de um inocente observador que estava curioso.
— É claro que você conhece a teologia da Igreja
Católica. Deus, o Pai; Jesus, o Filho e o Espírito Santo.
E não esqueçamos a importância de Maria.
Immanuel foi cuidadoso para confundir, porém, sem
provocar o orgulho de Dominic.
— Não me venha com esse papo furado, cara!
Procurei você para que mudasse a Igreja Católica e
construísse um império de uma religião universal.
Uma expressão de confusão e vidência ofuscou o
rosto de Dominic.
— Aqueles que tentaram governar o mundo
encontraram um abismo intransponível pela frente
— disse Immanuel. — A igreja não estava atrás deles,
nem poderia. As igrejas no mundo nunca tiveram o
poder de controlar o pensamento nem o
comportamento moral do planeta. Sua base de poder
sempre se dividiu em denominações. Protestantes,
católicos, muçulmanos, hindus, judeus e budistas
nunca se viram olho no olho. Sem o endosso deles, a
única coisa que conseguiremos será outra guerra
mundial!
Dominic estava fascinado.
— Os ditadores nos livros de história conseguiram
prender o coração e a mente de uma, ou talvez duas
dessas crenças, mas nunca todas elas. Em vez de
destruir ou subjugar a igreja, devemos transformá-la
em um império mundial!

O coração desprezível de Immanuel batia acelerado.


As veias de sua cabeça pulsavam. Nenhum deles disse
uma palavra. Eles olhavam um para o outro, como
lutadores em um campeonato. O magnetismo que
emanava da sala desconcertava o ritmo natural do
mundo.
— Você está falando de um Papa para o mundo
inteiro? — concluiu Dominic.
— Sim e não — resmungou Immanuel. — Pensando
em mundo, sim. Papa, não!
— Então, por que você está me pedindo para usar
minha influência? — perguntou Dominic, agora
extremamente enérgico.
Immanuel sorriu malicioso, deixando Dominic
irritado.
— Quero que você seja líder de uma religião
universal que combine todas as principais religiões
mundiais em uma poderosa máquina evangelística e
política.
Dominic parecia mais perplexo do que nunca.
— Parece uma ótima idéia, e estou certo de que
parece boa no papel, mas, afinal de contas, como
iremos convencer aqueles fanáticos religiosos a
embarcar nessa? Eu teria de ser deus para conseguir
isso!
Immanuel bateu de leve no joelho.
— Sim, teria.
— Quero proteger Sally. Ela é tão meiga e amável, e
tão diferente daquele bruto do Ken — lamentava
Daniel.
Timothy tentou ignorar a choradeira de seu aluno.
Daniel não se intimidou com o silêncio do mestre.
Era um rapazinho que, de vez em quando, soltava as
suas e procurava conseguir a atenção total de seu
mestre. Daniel continuou a voar ao redor de
Timothy, que estava sentado em um supercom-
putador da sala de redação. Timothy teve vontade de
dar uns tapas no anjo, mas resistiu à tentação.
Continuou a analisar os planos que lhe haviam sido
submetidos pelo alto comando de Missouri.
— Meu coração simplesmente não está nesse
negócio. O próprio Ken faz parte de um covil de
cobras — precipitou Daniel.
Timothy colocou a caneta sobre a mesa.
— Se ama o Senhor, e Sally, você irá responder às
orações dela. Ela vem orando incessantemente,
pedindo proteção e luz para Ken. Seu dever é
obedecer a Deus e entregar esta oração.
Daniel levantou a cabeça. Mais uma vez sentiu
vergonha de si mesmo.
— Vou lhe dizer o que fazer — convenceu-se
Daniel. — Vou guardar os dois. Preciso dessa ex-
periência, e você, de umas férias. Você trabalha
demais, dia e noite.
Timothy olhou para o jovem companheiro. Não era
necessário dizer uma palavra. Daniel entendeu
claramente a mensagem.
— Vou guardar Ken — suspirou o anjo imaturo.
— Isso é bom — disse Timothy. — Eu sabia que você
veria isso da perspectiva de Deus. Faça o possível para
manter aquelas pestes de demônios longe da mente
dele. Sem você, eles infestariam todas as células
cerebrais daquela cabecinha imunda.

— Alguns chamariam isso de blasfêmia — respondeu


Dominic. Immanuel estava preparado para rebater a
linha de pensamento previsível de Dominic.
— Deixe-me lhe fazer uma pergunta. Jesus Cristo foi
Deus ou homem?
Dominic demorou a responder. Ponderou sua
resposta, preocupando-se mais em ser político do que
dizer a verdade.
— Os estudiosos da Bíblia vêm divergindo sobre esta
controvérsia há séculos. Agora, a posição oficial da
Igreja Católica foi estabelecida há 15 anos. Jesus era
homem e Deus.
— No que você acredita? — aliciou Immanuel.
O cardeal freneticamente observou a linguagem
corporal de Immanuel. Precisava dizer-lhe o que ele
queria ouvir.
— A resposta é clara para aqueles de nós que têm
sido iluminados. Ele foi homem, com potencial
divino. Ele não foi Deus, mas exerceu com perfeição
sua natureza divina.
Com esta resposta, ele conseguiu prender a atenção
de Immanuel e não estava a fim de desviá-la.
— Todos nós temos o potencial para exercer a
natureza divina, contanto que estejamos ligados à
Mãe de toda a criação, que é a terra. Além disso,
temos de manter contato com nosso ser interior,
permitindo que as energias espirituais e de cura
permeiem nosso espírito e nossa alma. Jesus sabia
essas verdades ocultas e as utilizou ao máximo para
declarar sua natureza divina. Immanuel estava
satisfeito.
— Esta não é a teologia padrão pregada pelo
Vaticano, Dominic.
O corrupto cardeal diria qualquer coisa que fosse
necessária para alcançar seus objetivos de poder e
prestígio.
— Recebi meu grau de mestre na Índia. Podemos
aprender muito sobre Deus com o sistema religioso
hindu. Chegar aos poderes divinos por meio da
meditação é mais aceitável do que adorar a Deus por
meio de uma morte sangrenta.
Immanuel levantou-se, indicando que estava de saída.
— O plano está fechado. Você será meu braço
direito.
As sobrancelhas de Dominic soçobraram.
— Plano? Que plano?
Immanuel dirigiu-se à porta.
— Meu parceiro entrará em contato.
— Quando? — gritou o cardeal, confuso.
— Hoje à noite, mas não espere acordado — riu
Immanuel em silêncio.

Para Sally, olhar-se no espelho era um martírio. Ela


só podia enxergar uma coisa: Ken Action. O príncipe
encantado estava se transformando rapidamente na
encarnação do próprio Diabo. A fé cristã e Ken
Action não combinavam.
A porta do camarim escancarou-se. Em um estado de
total frenesi, Ken entrou às pressas para preparar-se
para seus 30 minutos de glória. Foi como se houvesse
uma pessoa completamente estranha na sala. Ele
simplesmente a ignorou. As palavras não servem para
nada quando o coração é inflexível. Sally prometeu a
si mesma que não daria o primeiro passo e orou para
que Ken tivesse caráter para desculpar-se por ser um
completo idiota. Sua tentativa de nada adiantou. Nada
se tornou realidade, exceto alguns resfolegos de vez
em quando. Não conseguiu suportar mais o silêncio.
— Ken, como você está se sentindo?
Daniel e Timothy flutuavam pela sala como um casal
apaixonado e livre.
— Não posso acreditar — suspirou Timothy.
—Não vi sequer a sombra de um demônio hoje.
— Acho que eles têm coisas melhores para fazer —
lamentou Daniel, deslizando na direção de Ken e
observando sua reação à pergunta de Sally.
— Diga alguma coisa boa, seu brutamontes —
sussurrou Daniel.
— Eu me sinto melhor — obedeceu Ken.
O tom de sua fala colocou um sorriso no rosto de
Sally. Daniel aspirou o ar. Cheirava a enxofre.
Inesperadamente, seu pensamento foi interrompido
por uma chuva de demônios, tantos que era
impossível contar. Antes mesmo de erguerem a es-
pada, os anjos viraram uma panqueca. Perderam a
consciência sem saber o que os havia atingido.
— Vamos conversar sobre a noite passada —
instigou Sally.
— É mais fácil o inferno se transformar em uma
geladeira do que eu cair nesse papo furado! — gritou
Ken, completamente alterado de uma hora para
outra.
Sua resposta repulsiva foi como uma faca apu-
nhalando a alma de Sally.
Um assistente de produção colocou a cabeça na sala
sem perceber a reação de Sally.
— Cinco minutos para entrar no ar.
— Tudo bem — disfarçou Sally.
As lágrimas haviam borrado sua maquiagem. Sally
orou ao Senhor pedindo paz. Milagrosamente, o
choro cessou. Ela rapidamente consertou o estrago do
rosto e seguiu para o estúdio.
Dominic relaxava em seu confortável apartamento no
Vaticano. Descansava confortavelmente em sua
poltrona enquanto alternava entre os canais de seu
sistema internacional a cabo. Os olhos cansados
passavam de relance, pela milésima vez, no relógio de
cristal que estava sobre a cômoda. Eram 23 horas, e
nenhum convidado especial aparecera. Dominic
esfregou os olhos inchados, apertou o botão do
controle remoto para desligar a televisão e preparou-
se para dormir.
O arcanjo Miguel andava pelo chão dourado do lado
de fora da sala do trono de Deus. Minutos antes,
recebera ordens do próprio Cristo. Aguardavam
instruções para se reunirem às 23h55, no horário de
Jerusalém, do lado de fora da sala onde estava
guardada a trombeta.
Instantes depois, a luz da sala do trono inundou o
ambiente de forma quase ofuscante. Jesus se
aproximava. O arcanjo, seguindo seus instintos, caiu
de joelhos em sinal de humilde obediência.
O Rei dos Reis e Senhor dos Senhores entrou no
corredor.
Seus olhos brilhavam como fogo, embora mostrassem
ternura e bondade. Ele parecia um homem, mas
estava tomado pela presença do Deus Todo-Poderoso.
Não era necessário soar a trombeta, estender o tapete
vermelho ou contar com a ajuda de guarda-costas
robustos. Cristo não precisava de nenhum sinal
humano de divindade para provar Sua natureza
divina. Ele era quem era.
— Miguel, meu amigo. É bom vê-lo. Venho
acompanhando você com cuidado no decorrer dos
séculos. Você tem servido a Meu Pai e a Mim da
forma mais admirável possível. Bom trabalho, servo
bom e fiel!
As palavras de Jesus consolaram Miguel.
— Eu Lhe agradeço, do fundo do meu coração, por
permitir que eu Lhe sirva.
Miguel continuou de joelhos.
— Por favor, levante-se, Miguel.
O pedido de Jesus foi uma ordem para o arcanjo, que
deu um salto e se pôs em pé. Jesus sorriu, fazendo
com isso que lágrimas escorressem pelo rosto de
Miguel.
— Chegou a hora — ordenou Jesus. Pegue a
trombeta de ouro reservada para esta ocasião e siga-
me pelos céus.
Miguel correu até a sala bem decorada em que se
encontrava a trombeta, pegou o instrumento
perfeitamente afinado com as duas mãos e seguiu
Jesus.
— Miguel, assim que o relógio celestial bater meia-
noite, toque a trombeta. Vou receber Meu rebanho,
enquanto Minhas ovelhas Me seguem para o lar.
O arcanjo sorriu, apreensivo. A história estava prestes
a ser concluída e a profecia da Palavra de Deus,
cumprida.

Dominic se contorcia debaixo dos lençóis aquecidos


pelo seu corpo, sem conseguir dormir. Sua mente
estava irrequieta, contudo, ele era orgulhoso demais
para orar a Deus pedindo paz. Em vez de contar
carneirinhos, ele contava rostos, rostos de pessoas que
vinham até ele em busca de orientação, libertação e
até de salvação. Não demorou muito, passou-se uma
hora. A mente de Dominic apagou na escuridão da
noite.
— Dominic — ressoou uma voz estranha.
— Dominic, responda, homem sobrenatural!
A voz era forte e impetuosa, mas deliciosamente
convidativa. Dominic entrou em pânico quando
percebeu que não estava sonhando. Pulou da cama e
caiu no chão duro de madeira.
Um vulto de cerca de dois metros e oitenta de altura
encarava o simples mortal que tremia dos pés à
cabeça, com os olhos fixos na criatura. Uma luz
parecia irradiar da região central da figura
fantasmagórica, que permanecia imóvel e em silêncio,
tendo como único sinal de vida os olhos assustadores
e vagos.
— Quem... quem é você? — murmurou o sacerdote
aturdido. A figura parecia não estar disposta a
responder. O silêncio deixava Dominic ainda mais
nervoso.
— Por que... por que você veio aqui? — gaguejou o
cardeal. Parecia ter-se passado uma eternidade antes
de o espírito romper o indiferente silêncio.
— Sou Jesus, a quem você ora vez por outra — fingiu
Blasfêmia. A mão de Dominic procurou, sem sorte,
pelos óculos de leitura. Dominic deixou cair a garrafa
de vodca que estava perto da cabeceira. Esfregou os
olhos vermelhos.
— Venho observando você lá do céu — inventou o
confidente de Satanás. — Estou satisfeito em ver sua
devoção a si mesmo, à religião, à paz e à igualdade.
Blasfêmia precisou ter muita força de vontade para
não rir.
Tentou manter o equilíbrio.
— Como vou saber se você é mesmo o Cristo? —
perguntou o cardeal contorcendo-se.
Blasfêmia estava totalmente preparado para lidar com
a incredulidade racional de Dominic.
— Eu e o Pai somos um — mentiu Blasfêmia.
— Você foi escolhido porque tem os talentos para
trazer o mundo inteiro para o nosso reino de luz.
Preciso que você tome agora o próximo passo da
evolução espiritual. Você, com nossa ajuda, conduzirá
a Mãe Terra em uma jornada espiritual de proporções
épicas! Preciso que você governe o mundo comigo.
Preciso de seus talentos para liderar a maior
revolução religiosa que o mundo já viu! — declarou o
demônio.
Dominic ergueu a mão gelada.
— Diga, meu grande amigo — falou o espírito.
— Como serei capaz de realizar tudo isso? Você fala
como Immanuel. Existem diversas culturas, muitas
religiões, várias divisões. Todos têm sua opinião
formada, mas ninguém pode provar nada. As pessoas
precisam ser capazes de sentir, e mesmo tocar Deus
para que mudem radicalmente seu modo obstinado
de crer. Como eu...
Blasfêmia deu um passo inesperado na direção de
Dominic.
— As respostas para todas as suas perguntas estão
comigo — respondeu o enganador. — Ponha sua mão
nos buracos de minhas mãos.
Dominic fingiu ter coragem enquanto ia ao encontro
de Blasfêmia no meio do quarto. Antes mesmo de ter
a chance de mudar de idéia, Dominic colocou as mãos
trêmulas nas cicatrizes que imitavam as marcas dos
cravos na cruz. Nada sentiu, senão ar. Não havia
carne, nem sangue. O outro havia-lhe prometido o
mundo, e outras coisas mais. O cristianismo não se
comparava a esta experiência de vida.
— Eu creio — sussurrou Dominic.
Seus olhos ardiam de emoção. Estar em pé diante
daquele que ele julgava ser o mestre do universo
passava uma borracha sobre toda a incredulidade.
Blasfêmia ergueu a mão direita e a colocou na testa de
Dominic. A esquerda apertava a mão do cardeal.
— Você será abençoado com os mesmos poderes
miraculosos que Jesus — ele rapidamente limpou a
garganta e mudou o texto —, que eu possuía quando
passei pela terra há dois mil anos. Você usará esses
milagres como um sinal para as nações que não
crerem que a consciência de Cristo habita em você.
Use esse poder de acordo com a minha, eu repito, a
minha orientação.
Blasfêmia fechou os olhos e começou a entoar uma
melodia em uma língua estranha. A música emitia
ondas de choque espinha abaixo de Dominic.
— Feche os olhos e repita o que eu disser — ordenou
o demônio. — Com isto, eu entrego meu coração,
minha alma e meu espírito ao príncipe da potestade
do ar, àquele que deseja paz às nações, ao único que é
mestre de seu próprio destino.
Dominic, de coração sincero, repetiu os votos de
obediência ao seu novo mestre. Sua consciência não
funcionava.
Blasfêmia estava contente por ter capturado mais uma
alma.
Dominic seria o catalisador que faria com que todos
os seus sonhos se tornassem realidade.
— Continue repetindo: "Farei o que estiver ao meu
alcance para promover os objetivos de meu mestre.
Obedecerei às suas ordens, preceitos e desejos que
provêm de sua boca santa. Com isso, reconheço o fato
intransferível de que sou um simples humano e que
ele é deus. Se for preciso, defenderei seu reino até à
morte. Prometo cumprir todas as suas ordens
oniscientes, não importa o quanto possam parecer
incompatíveis com as normas. Concordo de coração
em deixar de lado minhas crenças pessoais e segui-lo,
por isso, ajuda-me deus!".
Disfarçada de anjo de luz, a serpente, que bebia a
alma de suas presas, acabara de destilar seu veneno.
Dominic fizera o maldito juramento.

Sally colocou a cabeça na sala de redação. — Quanto


tempo resta? — perguntou ela.
— Menos de trinta segundos — respondeu agitado o
gerente de produção. — Quantas vezes será preciso
para que vocês, âncoras, aprendam que levamos
tempo para ajustar esse cenário?
Vocês devem estar aqui cinco minutos antes da
abertura!
— Sinto muito. Não acontecerá de novo — suspirou
ela.
— Dez segundos — gritou o câmara.
Sally colocou às pressas seu ponto no ouvido e o
microfone na blusa bege. Não teve tempo nem para
perceber que Ken estava perto dela, rindo
maliciosamente de toda aquela situação ridícula.
— De olho na câmara dois.
— A seguir, no seu noticiário das seis — anunciou
Ken Action, reservado e elegante —, uma tendência
universal que dispensa o saque ou uso de dinheiro.
Veremos os pontos altos e baixos desse projeto em
instantes.
— Iremos levado a uma igreja local que foi forçada a
fechar as portas. Justiça ou correção política? Teremos
as duas versões desse drama em instantes.
Sally voltou-se para Ken.
— Também teremos o que há de mais novo sobre a
nova classe de supercomputadores. É moral a fusão
entre homem e máquina?
Ken fez uma pausa e voltou-se para Sally.
— Tudo isso, além da seção de esportes e me-
teorologia, em instantes.
A luz da câmara apagou milissegundos antes de
ambos desfazerem o sorriso.
— Tudo bem, pessoal. Dois minutos para a abertura
do bloco de notícias — disse o gerente de produção.
Sally olhou de relance na direção de Ken. Queria
dizer tanta coisa, mas logo a sombra escura da
realidade apareceu. O coração de Ken estava tão duro
quanto uma pedra.
— Ainda vamos jantar juntos esta noite? —
sussurrou Sally. Ken preferiu deixá-la ansiosa.
— Vou pensar no caso — brincou ele, sorrindo entre
os sentimentos de raiva retida que o estavam
consumindo.
— Sally, lembre-se de levar uma muda de roupa para
nosso passeio ao rio neste domingo de manhã.
— Ken, você se importa se formos à tarde? Quero ir
à igreja de manhã — disse ela, pensando que, se ele
realmente a amasse, iria compreender.
O sorriso malicioso e indiferente estampado no rosto
de Ken deixou transparecer muita coisa sobre o
futuro dos dois. Ele agia como um imbecil. Recusava-
se a agradá-la, preferindo revisar seu script para o
programa a ser apresentado.
— Trinta segundos — anunciou um câmara. Sally
desistiu de tentar romper a parede de
pedra que se interpunha entre os dois.
Já eram 18h07. O artigo de Sally sobre religião era o
próximo assunto da pauta. Como não estava no foco
da câmara, ela retocava o batom que acabara de passar
nos lábios ressecados. Um cameraman sugeriu que se
preparasse.
— A liberdade religiosa tem sido o ponto crucial da
valiosa Declaração de Direitos dos Estados Unidos.
Desde o nascimento desta grande nação, nosso país
tem se exposto às intempéries de guerras
internacionais, guerras civis e grandes crises
econômicas. Hoje, a maré parece estar tomando outro
rumo. As igrejas espalhadas por todo este campo
frutífero estão lutando pela própria sobrevivência
como...
Ken estava com a cabeça enterrada em seu script de
reportagens, mal percebendo que Sally não havia
completado sua frase.
— Oh, meu Deus! — gritou um câmara.
Ken não podia acreditar no que acabara de ouvir.
Como o cameraman teve coragem de gritar com toda
a força de seus pulmões enquanto o noticiário ainda
estava no ar? Tirou às pressas a cabeça da cópia das
notícias. Seu coração batia forte. Saiu em disparada da
cadeira em estado de choque. Sally se fora, evaporou-
se, desaparecera. Sua blusa, calças, sapatos e jóias
ainda continuavam na cadeira. Parecia que seu corpo
havia passado cuidadosamente pelas suas roupas e
desaparecido.
O diretor, de pensamento rápido, encerrou aquele
programa de televisão que ficaria na história.
Ninguém disse uma palavra. O estúdio estava abalado.
Todos os olhos estavam grudados na cadeira. O
pânico tomou conta de Ken, que não conseguia
encontrar uma explicação racional. Em desespero,
tentou controlar sua respiração.
— Para onde ela foi? Isso é algum tipo de brincadeira
de mau gosto? Quero respostas, agora!
O acesso de raiva de Ken misturou-se com o total
silêncio que se instalou no estúdio.
— Vejam! Stephen e Ben se foram também! Tenho
certeza de que os vi ali, no escritório, há alguns
segundos! — gritou Cammy, desesperada.
A produtora estava tremendo. Sua mão tremia muito
enquanto apontava para o que era evidente.
— Vejam as roupas deles ali!
Ken tentou controlar aquela situação maluca. Gritou
com um produtor que estava por perto.
— Vá até as redes de notícias e veja o que estão
dizendo!
Olhou ao redor da sala de redação. Todos olhavam
para ele. Era sua hora de bancar o herói.
— Vamos voltar ao trabalho agora mesmo!
Ken alisou as rugas de seu terno italiano, sentou-se à
mesa dos âncoras, resistindo à tentação de olhar para
o que sobrara de sua noiva. Com um toque de mestre,
ele conseguiu acalmar suas emoções.
— Podemos recomeçar em trinta segundos? —
perguntou Ken para o grupo de assistentes de palco,
que se olhavam entre si completamente desnorteados.
Todos queriam saber como ele conseguia abrir e
fechar seu coração como se fosse uma torneira. Após
uma rápida conversa com o produtor, eles fizeram um
sinal de aprovação com o polegar voltado para cima
na direção de Ken. Ele endireitou a gravata, esfregou
os dentes com o polegar e limpou a garganta.
Inesperadamente, um som estrondoso de arrebentar
os ouvidos fez o chão e seus nervos tremerem.
— Que droga de barulho é esse? — praguejou o
âncora irritado. Os membros da equipe da sala de
redação abandonaram suas posições e correram para
as janelas. O pânico e o medo tomaram conta deles.
A alguns quarteirões dali, perto do barzinho predileto
que frequentavam depois do expediente, tudo estava
destruído. Seus olhos acompanhavam uma chama de
fogo de sessenta metros de altura que dançava
atravessando as ruas repletas de sangue, que
perigosamente ficavam perto do estúdio.
— M... meu Deus, o que aconteceu? — disse
gaguejando um produtor.
Ken examinou os escombros. Era impossível
compreender o que havia acontecido. Tirou os olhos
das chamas. A uns quatro metros de distância, viu um
pedaço de metal preso entre as ferragens de uma
construção. Notou a inscrição "797".
— Era um jato! — disse Ken.
Sua voz foi firme, mas estranhamente desprovida de
qualquer sentimento humano. Deu as costas para a
terrível cena, caminhou até a mesa de notícias, depois
deu meia-volta.
— Voltem para seus lugares! Este evento é a
reportagem do século para essa região. Temos de
colocar isso no ar agora mesmo!
Ken estava gritando com toda a força de seus
pulmões.
— Charlie e Doug, peguem seu equipamento de
filmagem e corram para a cidade. Quero fotos,
reações, pessoas!
A ordem de Ken Action foi ignorada ou nunca foi
ouvida. Todos estavam com os olhos fixos na tragédia
da humanidade.
— Charlie, Doug, vocês estão me ouvindo?
— O que você disse? — perguntou Charlie.
Charlie estava nitidamente irritado com o tom de
Ken.
Sempre odiara sua personalidade egoísta e sentia
inveja do dinheiro que ele ganhara.
— Nunca mais me mande de lá para cá, seu egoísta
que não consegue tirar os olhos do próprio umbigo.
Você não é e nunca será meu chefe!
Ken espantou-se com o ataque emocional de seu
colaborador. Ainda assim, continuava desinteressado
pelo cenário de destruição.
— Você disse que quer fotos de pessoas? Não restou
ninguém! — bradou Charlie.
Ken evitou a confrontação fixando os olhos no grupo.
— Ouçam, pessoal. O produtor executivo e o diretor
do noticiário se foram. Só Deus sabe para onde. De
acordo com nosso regimento interno, eu assumo a
direção, pelo menos sob as atuais circunstâncias.
Precisamos...
O discurso de Ken foi interrompido por uma série de
fortes explosões. As ondas sônicas de choque
estilhaçaram as janelas. As luzes tremeram e se
apagaram. Segundos depois, voltaram a acender assim
que o gerador secundário esforçava-se por funcionar.
Ken continuou.
— Precisamos nos concentrar. Temos de colocar esta
catástrofe no ar assim que...
Charlie pulou em Ken. Ele tinha 36 quilos a mais e
era uns 15 centímetros mais alto que Ken. O câmara
colocou o dedo quase na cara de Ken e o agarrou pelo
colarinho.
— Ouça aqui, engraçadinho! Aquelas pessoas lá fora
precisam de ajuda, e é isso que eu pretendo fazer por
elas agora. Para o inferno os índices de audiência!
Para o inferno você também!
Charlie olhou para seu amigo Doug e disse:
— Reúna um grupo e veja se consegue todos os
extintores e kits de primeiros socorros no prédio.
Coloque algumas pessoas na cobertura e em frente ao
prédio para protegê-lo do fogo. Esse vento pode
trazer aquelas chamas para cá a qualquer momento!
Em seguida, soltou Ken. Vendo que ninguém seguia
suas ordens, Ken desistiu da idéia de assumir o
controle da situação.
— Você está certo. Precisamos impedir que o prédio
pegue fogo para que possamos levar esta notícia ao ar!
Alguém chame os bombeiros!

Timothy e seu assistente, Daniel, pairavam sobre os


destroços chamuscados do Boeing 797. Suas antenas
espirituais procuravam algum sinal de oração.
Infelizmente estava claro que não havia
sobreviventes. Era impossível identificar o sangue e
os restos mortais. Os dois choraram pela miséria que
enchia seus olhos.
— Não posso acreditar que esses curiosos não
estejam fazendo orações ao nosso Pai celestial —
comentou Daniel.
Timothy balançou a cabeça. — É isto! — exclamou
ele.
— Isto o quê? — perguntou Daniel.
— O arrebatamento da igreja, a noiva de Cristo —
explicou Timothy. — Há alguns minutos, vimos
diante de nossos olhos inúmeros espíritos
desencarnando. Lembra-se de ter visto Sally, Ben e
Stephen passando direto pelo telhado? Eles flutuavam
direto para os céus! Você pensou que fosse alguma
falcatrua de Satanás. Não era! Lembra-se do toque da
trombeta? Era o arcanjo. Era Cristo chamando Seus
discípulos, os cristãos da terra! Você não vê que
estamos no início dos sete anos da Grande
Tribulação?!
O entusiasmo de Daniel desapareceu no mesmo
instante em que viu os prédios incendiando e as
pessoas chorando. Virou-se para seu mestre e disse:
— O que significa tudo isso?
Timothy colocou o braço ao redor de seu
inexperiente recruta.
— Significa que os cristãos que estavam na terra
agora estão no céu. Esta é a boa notícia.
A má notícia é que eles levaram consigo suas orações.
— Isso quer dizer que não temos trabalho? —
interpretou Daniel.
— Sem as orações deles, não temos força para
trabalhar!
Não podemos intervir sem os pedidos de nossos
santos!
Timothy sorriu para Daniel.
— O Deus Jeová previu tudo isso. Deixe-me mostrar-
lhe. Pegou sua Bíblia, que estava sob suas vestes, e
abriu-a em 2 Tessalonicenses 2.7, 8.
— "Com efeito, o mistério da iniquidade já opera e
aguarda somente que seja afastado aquele que agora o
detém; então, será, de fato, revelado o iníquo, a quem
o Senhor Jesus matará com o sopro de Sua boca e o
destruirá pela manifestação de Sua vinda".
Fechou a Bíblia e a colocou de volta no lugar onde
estava. — Percebe agora? Cristo veio para levar os
cristãos para seu lar com Ele. O "iníquo" é o próprio
Satanás. "Aquele que agora O detém", ou seja, aquele
que agora detém Satanás é o Espírito Santo, por meio
das orações da igreja de Cristo. Com eles se foram
suas orações, e também o poder para deter o mal!
Daniel parecia estupefato com a explicação técnica de
Timothy. E saiu arrastando os pés pelo telhado em
cascalhos.
— Então, o que vamos fazer nos próximos sete anos?
Girar os polegares por não ter o que fazer?
Timothy balançou a cabeça.
— Não, não, não! Nenhum anjo ficará sem ter o que
fazer sob o comando do Deus Jeová, fomos criados
para um propósito, que é servir ao Criador do
universo. Ouça, quem somos nós para questionar
Deus? Quem é você para sugerir que Deus não está no
controle desta situação? Quem é você para ficar
cabisbaixo em sua posição? Deus tem você bem no
lugar onde Ele lhe quer.
Daniel endireitou a coluna enquanto prestava
atenção.
— Jesus é o Cabeça do nosso governo — con-tinuou
Timothy —, se é que se pode chamá-lo de governo.
Nenhuma imperfeição cairá sobre nós. O pecado é
um fenômeno humano e demoníaco. Desemprego é
produto de uma sociedade pecaminosa. Nossos
trabalhos apenas serão mudados.
Daniel parecia ter-se convencido com a explicação de
Timothy, cujo desejo era que o aluno estivesse tão
certo quanto parecia estar.
— Então, qual será nosso próximo passo? —
perguntou Daniel. Timothy fez seu irmão angelical se
aproximar e colocou as duas mãos sobre seus ombros.
— Precisamos esperar no Senhor!
Naquele mesmo instante, uma trombeta soou lá do
alto dos céus. O som encheu o ar de uma eletricidade
espiritual que deixou os cabelos dos anjos em pé.
Todos os anjos espalhados pela terra ouviram o som
alto da trombeta.
— Estamos sendo chamados para a sala do trono de
Deus.
Algo muito grande está para ser anunciado.
Timothy acenou para seu companheiro.
— Vamos! Quero pegar um lugar bom para esta
ocasião! — gritou Timothy.

Ken estava sentado à sua mesa com as mãos fechadas,


em profunda reflexão. Sua mente revolvia o trágico
evento que sucedera há algumas horas. Em um
minuto, Sally estava lendo as notícias, no minuto
seguinte, ela se fora! Para onde? Como? Por quê? Ele
estava disposto a vender sua alma para qualquer
pessoa que pudesse explicar o que acontecera. Como
gostaria de tê-la tratado melhor. Olhava ao redor da
sala de redação, na esperança de vê-la entrar e lhe dar
um daqueles deliciosos abraços.
Todo o pessoal havia deixado a sala de redação para
oferecer ajuda às pessoas do avião acidentado. As
redes de notícias estavam estranhamente em silêncio,
embora estivessem funcionando bem. Ele as verificara
uma hora atrás. Esta era a parte misteriosa do enigma.
Ken telefonara para a Imprensa Associada para tentar
descobrir o que havia acontecido, mas o telefone
estava fora do gancho, o que também normalmente
não acontecia. Eles não estavam enviando notícias,
mas havia notícias, e das grandes.
— Hei, Sr. Hollywood, você ficará contente em saber
que salvamos pelo menos 12 pessoas — disse Charlie,
de modo sarcástico, quando reapareceu vindo lá de
fora.
Os outros rapidamente vinham atrás dele. Alguns
estavam manchados de sangue, outros estavam
cobertos da cabeça aos pés de óleo.
Uma produtora aproximou-se de Ken. Seus olhos
estavam vermelhos por causa da fumaça.
— Eu sei o quanto isso é difícil para você —
consolou Cammy.
— Todos nós amávamos Sally também. Mesmo sem
você nunca demonstrar isso, eu sei o quanto a amava.
Ken ignorou o ato de compaixão de Cammy. Sua
mente estava concentrada na lembrança de Sally
brincando com o cachorrinho dele, Rambo. Cammy
tentou encará-lo nos olhos, mas foi inútil. Desistiu e
deixou para trás a estátua humana. Ela entendia
perfeitamente a reação de Ken.
De repente, Ken acordou de seu transe que lhe partia
o coração. Vida corria novamente em suas veias.
— Vamos levar essa matéria ao ar — disse o âncora.
Os colegas trocaram sinais de aprovação entre si
erguendo o polegar. Seguiram para mais uma batalha
entre emissoras. O momento de lamentação de Ken se
fora.
— Um minuto para entrar no ar — anunciou um
membro da equipe de palco.
Ken balançou a cabeça. Um som forte e familiar
voltou a soar na sala de redação. Era o barulho das
impressoras espirrando as notícias. Cammy correu até
as impressoras, esperando recuperar outras
informações sobre a tragédia local.
— Passe-me qualquer novidade e ponha no ar —
mandou Ken.
— Trinta segundos, Ken — disse o gerente de palco.
Ken olhou para Cammy com a testa franzida,
mostrando irritação.
— Você não pode me trazer alguma coisa, qualquer
coisa, daquela droga de rede de notícias antes de eu
entrar no ar?
Cammy olhou para o material impresso, e depois para
Ken.
Puxou lentamente o papel da impressora. Suas mãos
tremiam como se tivesse acabado de ver um fantasma.
— Pronto. No ar — acenou o câmara. Ken balançou
a cabeça para o câmara.
— Boa noite, senhoras e senhores.
Ken estava em total equilíbrio, e seu modo de falar
era suave e controlado. Quase chegava a ser o
desempenho de um homem que acabara de perder o
amor de sua vida. Ele olhava para a mesa. Não havia
script.
— Gostaria que fosse uma noite agradável em St.
Louis — disse Ken, fazendo uma pausa para procurar
por Sally. — Vejam, há algumas horas, muitos de
vocês testemunharam o desaparecimento de Sally
Winter. — Ele se remexia na cadeira. Para mim, ela
era minha noiva, minha amiga. — Uma lágrima
escorreu por seu rosto, surpreendendo a todos,
inclusive a ele mesmo. — Quero ser sincero com
vocês — disse o âncora — algo muito estranho
aconteceu. Um artigo apareceu na mesa.
— Acabamos de receber esta notícia. Repórteres do
país todo, e de todas as partes do mundo, estão
testemunhando enormes incêndios que atingem
cidades inteiras, desaparecimentos misteriosos de
pessoas, às vezes de famílias inteiras. (Centenas, senão
milhares, de aviões caíram. Rodovias do mundo
inteiro foram bombardeadas de acidentes com carros,
caminhões e motocicletas. Ao que parece, muitos dos
motoristas deixaram o local da cena sem explicação
de onde foram parar. — Os olhos de Ken voltaram a
brilhar. Ele vivia para contar matérias como esta. —
Muitas pessoas perturbadas declaram ter visto o rosto
de Deus nas nuvens. Segundo notícias, um clima
eletrizante toma conta de mais de 50% dos
americanos.
Ken não tinha mais o que ler.
Após um embaraçoso silêncio, ele continuou.
— Como muitos de vocês testemunharam, minha
noiva, Sally Winter, desapareceu diante de nossos
olhos — gritou Ken, pegando suas roupas que ainda
estavam sobre a cadeira ao lado dele.
— Por que outros seis da equipe de televisão
evaporaram da mesma forma? Suas roupas, jóias e
todos os seus bens materiais ficaram para trás. Apenas
seus corpos desapareceram! Isto não pode ser uma
brincadeira. Eu vi com meus próprios olhos!
Ken cuidadosamente colocou as roupas de Sally na
mesa de reportagem. Mesmo quando ela estava viva,
ele nunca a havia tratado tão docilmente como estava
tratando suas roupas naquele momento. Outras
notícias atualizadas foram lançadas à sua frente.
— Esta notícia acabou de chegar. O Departamento
de Polícia de St. Louis está informando que a maioria
das estradas que ficam dentro e fora da cidade está
intransitável. Segundo estimativas de um porta-voz,
ocorreram mais de dez mil acidentes. Muitos curiosos
informaram que carros espalhados por toda a cidade
de repente perderam o controle sem razão explicável.
Muitos desses veículos foram encontrados vazios, sem
vestígios de passageiros. Um curioso emocionalmente
abalado disse as seguintes palavras: "Meu Deus, eu
fiquei! O inferno está logo ali na esquina!" É claro que
este comentário é de um jovem profundamente
perturbado.
Ken tentou conter sua respiração. Pôs as mãos sob a
mesa e estalou os dedos.
— O diabo está às soltas pelas ruas. Cidadãos correm
para cima e para baixo pelas ruas da vizinhança,
gritando ansiosamente por seus entes queridos.
Repórteres continuam correndo de lá para cá com
notícias de fogos incontroláveis se espalhando pelas
subdivisões. Solicita-se que os moradores
permaneçam calmos.
Ken colocou a cópia das notícias na mesa e olhou
seriamente para a câmara.
— Eu seguramente acredito que descobriremos a
razão que está por trás do desaparecimento de tantas
pessoas em St. Louis e no mundo.
O diretor começou a rodar o vídeo do acidente de um
avião.
— Este é o cenário que temos a alguns quarteirões de
nossa torre de notícias.
Ken folheou uma pilha de papéis acumulados sobre
sua mesa. Desabotoou o colarinho, afrouxou a gravata
e dobrou as mangas. O calor das luzes fazia seu rosto
suar. O olho humano não podia — e nem gostaria —
de ver a criatura que pairava sobre Ken. O assistente
diabólico de Blasfêmia, Judas, havia entrado na
estação de notícias e começado a fazer uma lavagem
cerebral em Ken, levando-o a crer na versão satânica
da história. Judas estava determinado a distorcer toda
e qualquer idéia cristã que pudesse começar a sair da
boca de Ken, que passava a ideia pervertida das
notícias para seu público.

CAPÍTULO DOIS

O GRANDE SUMIÇO

O HORIZONTE EM FRANKFURT, na Alemanha,


reluzia enquanto o sol se punha lentamente nas
colinas arborizadas da cidade. A manhã se fora.
Grande parte da população mundial se sentia
ameaçada pelo número assustador de pessoas que
haviam desaparecido sobrenaturalmente em razão do
arrebatamento da Igreja. A Alemanha foi levemente
atingida pela tempestade que varreu a civilização.
O país continuava lentamente seu caminho rumo à
recessão.
Era mais difícil encontrar um emprego do que um
diamante em uma mina de carvão. Os alemães
acusavam os Estados Unidos, o Japão, a Rússia e os
fundamentalistas islâmicos pela invasão ilegal de suas
fronteiras em números surpreendentes.
Immanuel Bernstate era uma figura desconhecida
para a média dos alemães. Era o gigante que estava
por trás dos bastidores apenas da elite política. O
homem ou a mulher comum acreditava que o
chanceler recém-eleito tinha o poder de mudar a
Alemanha, contudo, os esclarecidos conheciam o
quadro realista e crítico do país. O poder que os
políticos cobiçavam sempre tinha suas raízes no
dinheiro.
Immanuel deu uma passada no escritório de Helmut
Blitzkrieg. O novo chanceler tinha a inteligência
política de uma serpente e a personalidade de um
touro. No entanto, por trás de sua imagem de
buldogue, estava um homem de 49 anos que bajularia
até um porco se nele visse dinheiro para bancar seus
fundos de campanha. Immanuel era a rainha das
porcas, e Helmut era seu porquinho mais fiel.
Helmut havia chegado a um cargo público nas costas
de um pânico econômico. Os menos favorecidos da
sociedade já estavam tão fartos do estado atual que
teriam eleito o próprio Satanás para acabar com a lei
da ganância e das mentiras. Com a ajuda não
notificada da rede secreta de Immanuel, formada por
banqueiros tratantes, Helmut recebeu 72% dos votos
da população.
A secretária particular do SI. Blitzkrieg cum-
primentou Immanuel.
— Olá, Sr. Bernstate — disse Helen Stawlinski, quase
letárgica, cuidadosamente folheando a agenda do
chefe... e amante. Olhou a programação do dia. Uma
mão passava pelos eventos programados para o dia,
enquanto a outra segurava firme os óculos para
leitura. Immanuel olhava fixamente para as grandes
sombras que balançavam com as árvores pela enorme
janela oval da recepção.
Nervosa, Helen se remexia em seu assento. Foi
preciso usar toda a sua energia para olhar na direção
de Immanuel. Teve receio de olhar em seus olhos.
— Sr. Bernstate, não consigo encontrar o horário
marcado pelo senhor na agenda do Sr. Blitzkrieg.
Tenho certeza de que se trata de um simples equí-
voco... um... uh... erro na hora de marcar a hora.
O tom de Immanuel fez o mundo de Helen
desmoronar.
— Ele irá me ver agora mesmo. Diga a ele que
cheguei e que quero uma reunião frente a frente
imediatamente!
— Sim, senhor, agora mesmo — recuou Helen, que
pegou o telefone e discou o ramal do chefe. Ela não
tinha alternativa.
Helmut atendeu ao telefone.
— Eu disse à senhora para não me incomodar
quando estivesse com alguém aqui, principalmente
quando esse alguém fosse Lorde Birmingham. Faça
isso de novo e farei com que passe a trabalhar na
linha de montagem!
Helmut Blitzkrieg bateu o telefone, em parte porque
era repugnante e, em parte, porque queria dar seu
show.
— Você nunca se dará bem com ela tratando-a como
um cachorro — observou Lorde Birmingham.
Helen tentou falar. Immanuel despreocupadamente
ergueu o dedo e balançou a cabeça.
— Não se preocupe em dar explicações que
justifiquem a arrogância de seu amante. Se fosse você,
encontraria um homem com um pouco de firmeza de
caráter.
Immanuel arrumou a gravata enquanto se dirigia à
porta fechada da sala de Helmut. Passou pela porta
fazendo muito barulho. Helmut, que estava inclinado
para trás em sua poltrona executiva, quase caiu de
costas. Immanuel desfez o sorriso malicioso e sádico
que trazia no rosto.
— Olá, meu amigo — disse Immanuel, usando o
melhor tom de arrogância que conhecia. Olhou para
Helmut como se ele fosse algo descartável. Lorde
Birmingham estava de costas para ele. Immanuel
assumiu um comportamento mais elegante e de um
homem de negócios.
— É bom vê-lo, Lorde Birmingham. Quanto tempo!
Acabo de matar dois coelhos com uma cajadada.
Ambos se levantaram para cumprimentar Immanuel.
— É bom ver que você ainda está por perto — sorriu
Lorde Birmingham dando tapinhas nas costas de
Immanuel. — Pensei que tivesse desaparecido com os
outros rebeldes do mundo.
Immanuel simplesmente sorriu e ponderou a próxima
resposta. Seria prudente contar-lhes a verdade sobre o
desaparecimento de toda aquela gente ou sua versão
dessa verdade? Examinou os dois simples mortais.
Decidiu esperar e deixar que ouvissem a notícia no
noticiário da noite. Por enquanto, sua mente estava
no dinheiro.
— Para alegria dos senhores, estou vivo e muito
bem! — cantou de galo Immanuel.
Lorde Birmingham sentia aversão à atitude de poder
de Immanuel, mas não tanto quanto aos seus poderes
psicocinéticos. Uma demonstração era suficiente para
a vida toda.
— Sim, estamos emocionados em tê-lo na nossa
equipe — alcovitou Lorde Birmingham.
Helmut correu para o outro lado do escritório para
buscar uma cadeira, uma peça da mobília que seu avô
havia usado para entreter a realeza.
— Sente-se — adulou Helmut, colocando a relíquia
bem atrás de Immanuel.
Os três se sentaram, contudo, apenas Immanuel
relaxou.
— O que podemos fazer por você nesta bela manhã?
— perguntou Helmut.
Immanuel gostou do tratamento real.
— É hora de colocar meus planos em prática —
afirmou Immanuel sem rodeios.
Estava nítido para os dois senhores que ele não estava
pedindo apoio, ele estava exigindo que o apoiassem.
Immanuel abriu sua pasta de couro.
— Que planos são estes? — arriscou o chanceler.
Immanuel fingiu estar surpreso.
— Oh, eu não lhe contei? — fingiu. Lorde
Birmingham decidiu entrar no jogo.
— Não, você não contou nada — disse Lorde
Birmingham. Mas tenho certeza de que, inde-
pendente do que seja, será algo brilhante.
Embora não pudesse ler a mente de uma pessoa sem a
ajuda de Blasfêmia, Immanuel ainda era mestre em
discernir os verdadeiros motivos.
— Você está certo — afirmou Immanuel, que se
levantou e começou a andar ao redor da sala com as
mãos para trás.
— Meu plano chama-se Operação Arranca Dinheiro.
— Lorde Birmingham aguçou os ouvidos. As mãos de
Helmut suavam.
— Vejam, vejam! Um assunto que sempre conforta
minha alma — casquinou Helmut.
Immanuel tirou um documento da pasta e o colocou
bem no meio da mesa de Helmut. Depois puxou uma
caneta da camisa, inclinou-se sobre a escrivaninha e
começou a escrever no contrato.
— Este é o plano, senhores — mostrou Immanuel —
Lorde Birmingham, oriente seus amigos para que
tirem todas as suas fortunas da bolsa de valores e dos
títulos do governo e as apliquem em ouro, prata e
platina.
Lorde Birmingham levantou-se às pressas da cadeira
sem medir as consequências.
— Meu Deus, Immanuel! Você tem idéia do que isso
poderia causar na economia mundial?
Sendo o político que era, Helmut tomava partido de
quem quer que fosse.
— O que isso vai significar para a situação política na
Alemanha e no mundo todo? — perguntou Helmut.
Immanuel esperava e admirava a colocação
egocêntrica de Helmut, sabendo que seu plano seria
sinônimo de desastre para qualquer político que
ocupasse um cargo público. Quando a base da
economia mundial caísse, os políticos seriam
responsabilizados por todos.
Helmut Blitzkrieg era apenas um idiota que fazia
parte do jogo. Sabia que seria acusado por um desastre
econômico, mesmo que os controles estivessem nas
mãos dos banqueiros.
— Como este plano afetaria minha estabilidade no
emprego e minha base de poder? — intrigou Helmut.
Immanuel deu as costas para Lorde Birmingham e
voltou-se para Helmut.
— Seu emprego está em minhas mãos. Se cooperar
comigo em tudo, irei garantir-lhe um poder que vai
além de seus maiores sonhos. — Immanuel tirou os
olhos de Helmut, preferindo olhar fixo pela janela. —
Do contrário — prometeu Immanuel —, minha
fórmula para controlar a moeda do mundo
prosseguirá sem você.
Helmut sabia quem estava com a maior vantagem,
mas temia que o plano de Immanuel pudesse falhar.
— Eu compreendo — esforçou-se Helmut. - Sou
qualquer coisa, menos um gênio em finanças, e não
entendo todas as implicações de um passo desses, por
isso, confio que você fará a coisa certa.
Immanuel estava satisfeito.
— No entanto, conheço muito bem este assunto. Os
outros nove líderes políticos que fazem parte desses
dez países confederados serão muito mais difíceis de
convencer do que a mim!
Immanuel esfregou os lábios. Tentou ser autoritário,
porém político. Tinha o poder para destruir esses
homens, mas preferiu que eles embarcassem nessa. As
coisas avançariam mais rápido e mais fácil com eles
sob seu controle.
— Deixe que eu tomo conta disso! Se fosse você, eu
me concentraria em Helmut, e apenas nele.
O líder alemão lançou a sorte.
— Estou nessa — anunciou Helmut, indiferente.
Immanuel voltou sua atenção para o adversário mais
temível. O lorde estava sentado com as pernas
cruzadas e os punhos cerrados sobre seu colo.
— Lorde Birmingham, compreendo perfeitamente e
posso me sensibilizar com seu encargo pelo futuro da
humanidade — considerou Immanuel. — Deixe-me
explicar na íntegra o meu plano para o sucesso.
O bilionário fez um gesto indicando seu
consentimento.
Um observador o teria visto ranger os dentes.
— O mundo deve tornar-se um só em pensamento,
em feito e em ação. Desde o início da história, o
homem tem se esforçado para acolher seus irmãos sob
o mesmo guarda-chuva. Repetidas vezes, ele não
conseguiu realizar essa proeza. As pessoas certas não
tentaram fazê-lo até aqui. Muitos líderes deixaram
que o poder chegasse à cabeça. Tornaram-se
irracionais, deixando que as emoções controlassem
sua mente. Não tolerarei esse tipo de fraqueza.
Emoção é sinal de fracasso!
Immanuel conseguira a atenção nítida de ambos.
— Preciso de uma moeda universal, um governo
universal e um sistema moral universal de leis e
valores. Para alcançar este objetivo, uma moeda
universal deve ser estabelecida. A tecnologia para se
obter esta transformação já está aí há anos. No
entanto, a tecnologia sempre esteve à frente do
intelecto e da vontade humana. Isso, meus amigos,
mudará. Os países ricos têm resistido a essa idéia
porque ela naturalmente iria forçá-los a descer em
seu estilo de vida para acomodar os países do Terceiro
Mundo. Uma moeda universal literalmente escoaria o
dinheiro dos países ricos para os pobres. Então, a
pergunta é: como convencer esses países ricos a
participar de nossa equipe? Quem estaria disposto a
abrir mão desse poder unilateral? Nenhum país em sã
consciência faria uma coisa dessas.
Fez uma pausa.
— É fácil. Fazemos com que esses países fiquem
pobres.
— Você tem um pingo de decência humana nessas
suas veias? — atacou Birmingham.

O sorriso moldado de Immanuel se transformou em


uma carranca sádica. A hipocrisia de Lorde
Birmingham teria causado inveja nos fariseus da
época de Jesus. Ele venderia a alma de sua mãe para
conseguir mais um ou dois conglomerados
internacionais.
— Ê claro que tenho. No entanto, é uma decência de
longo prazo. Qualquer desconforto de curto prazo
para nossos companheiros cidadãos pode ser tolerado
quando pensamos no bem deles à longo prazo.
Estava claro para Immanuel que esses homens não se
importavam com os pobres, a menos, é claro, que, de
repente, se tornassem um deles. Eis o ponto em que
ele deveria oferecer segurança. Precisavam saber que
na tempestade que viria pela frente, eles
continuariam com sua confortável posição de riqueza
e poder.
— Meu plano é simples e provocará apenas uma
interrupção pequena e momentânea. Eu garanto que
vocês nem mesmo irão senti-la. — disse, percebendo
o medo dos dois.
— Cada um de vocês deve pegar o dinheiro que tem
e comprar uma grande quantidade de barras de ouro.
Todos que estão no nosso círculo interno farão o
mesmo. As bolsas de valores no mundo todo entrarão
em pânico assim que perceberem esta enorme
liquidação. As operações cambiais cairão desde
Tóquio até Wall Street. A reação psicológica se
desencadeará assim que os investidores virem no ouro
e na prata o lugar certo para fazer seus investimentos.
Uma vez provocada uma crise no fornecimento desses
recursos financeiros, a demanda aumenta. As pessoas,
com medo de perder a roupa do próprio corpo, irão
retirar suas ações das bolsas e acabar com os metais
preciosos. Vocês farão uma fortuna, tudo dentro da
lei! Assim que as taxas de juros subirem, os governos
do mundo todo perceberão que não têm dinheiro
suficiente para financiar seus débitos. Eles irão im-
primir dinheiro, desvalorizá-lo e lançar a si mesmos
em uma crise econômica mundial. Immanuel sorriu e
sentou-se.
— Percebem? O trabalho dura um dia. Um piscar de
olhos e... puf! Como um passe de mágica. É a
hiperinflação. A economia mundial está destruída, e
as nações ricas e resistentes se calam.
Embora Helmut parecesse estupefato com a
avalanche de informações, sua mente agarrou-se a
algo. Quando as economias fossem reduzidas a pó, o
marco alemão seria enterrado sob os escombros.
— O dólar americano morrerá, o marco alemão será
pisoteado e o iene japonês afundará no mar — previu
Immanuel.
— Você devia ter sido poeta — gracejou Lorde
Birmingham. Immanuel ignorou a espetadinha.
Estava concentrado no líder alemão, que parecia ter
todo o sangue do corpo tirado.
— Não, não, não — murmurou Helmut, assim que o
choque deu lugar à raiva.
— Helmut, ouça-me! — advertiu Immanuel com
uma cara feia. — O marco alemão deve cair.
A única maneira possível de capturar o mercado
mundial é por meio deste plano. Meus mestres
espirituais me ajudaram a maquinar este esquema, e
eu prometo a vocês que ele não falhará!
— O que acontecerá após a crise? — gritou Helmut.
— Fome? Confusão? Terceira Guerra Mundial?
Immanuel foi ágil em enrolar Helmut. Era preciso
fazer algo rápido. Tinha outras nove reuniões
marcadas com os líderes de estado europeus. Helmut
era moleza. Eram necessários reforços, sem tempo a
perder.
Ken Action estava de ressaca na cama. Ora assistia à
televisão, ora observava um mosquito no teto. Queria
examinar os noticiários da manhã na esperança de
encontrar algumas respostas.
Sally se fora, provavelmente para sempre. A atuação
de Ken na noite anterior começara brilhante, mas
teve um final sinistro.
Ken começou a alternar entre os noticiários nacionais
e internacionais. A RNP, Rede de Notícias Planetária,
era indiscutivelmente sua favorita. Oitenta por cento
dos âncoras de programas de notícias eram mulheres.
Oitenta e cinco por cento delas eram deslumbrantes.
Para Ken, a forma mais fácil de esquecer uma mulher
era substituí-la. As belas âncoras lhe fariam
companhia, pensou Ken, voltando sua atenção para
uma mulher que apresentava as notícias.

— Os Estados Unidos, grande parte da América do


Sul e da Coréia do Sul estão registrando os maiores
índices de desaparecidos desde o incidente histórico
ocorrido na noite de ontem. Já se passaram dezesseis
horas desde aquela "terrível hora", e pessoas de todas
as partes do mundo continuam a resmungar e a fazer
as mesmas perguntas. Para onde eles foram? Por que
tantas pessoas, tanto jovens como idosos? Como eles
simplesmente desapareceram da face da terra? Por
que isto aconteceu? Se houver um, quem é o
responsável?
Ken levantou-se da cama e sentou-se com as costas
apoiadas nos travesseiros, aumentando o volume da
televisão.
— Em pé aqui do meu lado estão três pessoas que
dizem poder explicar este mistério. Antes de
apresentarmos nossos convidados, gostaríamos de
lembrar nossos telespectadores que nós, aqui da RNP,
não defendemos qualquer ponto de vista apresentado
neste bloco.
— Nosso primeiro convidado é o Dr. Herbert Stain,
atualmente um dos principais cientistas biológicos do
mundo. Doutor, gostaríamos de começar com o
senhor.
Nervoso, o cientista com cara de idiota sorria
enquanto a câmara vinha em sua direção. Herbert
Stain era um homem calmo e franzino que usava
lentes bifocais grossas que escondiam seus olhos ágeis
e acinzentados. Usava uma gravata marrom com poás
laranja-claro, que era irregularmente pequena e
estava torta como a torre inclinada de Pisa.
A âncora de vez em quando olhava para o papel que
imitava a folha de notícias, procurando as perguntas
que seu produtor havia redigido para ela.
— Sr. Stain, o senhor acredita que exista uma
explicação científica razoável para o que aconteceu?
O câmera fechou a imagem no especialista que se
autodenominava como tal. A imagem estava tão
aproximada que se podia ver os pelos do nariz que
apontavam de suas narinas.
— Sim, senhora, há uma justificativa científica
perfeitamente plausível para os eventos que
aconteceram ontem. Creio que tenho a resposta.
Permita-me elaborá-la.
A âncora simplesmente olhou para ele. Tinha
dificuldades para conversar com pessoas lerdas.
— Tenho certeza de que a senhora ficou sabendo da
combustão espontânea. É o princípio que descreve
uma pessoa que literalmente vira uma bola de cinzas.
Tudo acontece em questão de segundos. Após intensa
pesquisa e testes frequentes, descobri o catalisador
que provocou essa reação espontânea.
A âncora do programa de notícias tentou não rir.
— Sr. Stain, estou um pouco confusa. O que isto tem
a ver com o desaparecimento dessas vítimas?
O especialista continuou seu discurso arranjado como
se a âncora nada tivesse dito.
— Estou certo de que os mecanismos para a
ocorrência desta combustão espontânea em seres
bumanos são únicos e os mesmos que chamarei de
"desaparecimento espontâneo". Embora muitos
possam mencionar a falta de restos de cinzas no local
do desastre como prova contrária, minhas teorias
foram além. A estrutura atômica poderia ser
representada, a ionização negativa da força da vida
poderia ser uma chave ou até a intensa deterioração
isotérmica poderia nos dar algumas pistas. Inúmeros
teoremas plausíveis estão disponíveis para a pesquisa,
e posso acrescentar que estarei trabalhando dia e
noite para encontrar a resposta para a confusão deste
mistério.
Como o cientista continuou a falar sem parar, a
âncora discretamente encerrou o que considerava ser
outra tortura para seus telespectadores.
— Bem, obrigada pelo senhor comparecer em nosso
programa esta manhã. Vamos deixá-lo ir para que
possa voltar a desenvolver suas teorias.
Encerrada a entrevista que colocava os dois em foco,
a âncora reapareceu. Mais uma vez, fez uma pausa
para juntar outros dados ao seu script.
Ken Action limpou os olhos e passou os dedos nos
cabelos.
Esperava agora por algumas notícias mais realistas.
— Neste momento estamos com o Reverendo
Horrace Darden. Ele é pastor da Igreja da Inglaterra.
Seja bem-vindo, Rev. Darden.
A camera aproximou-se de um homem obeso e de
aparência alegre que vestia um terno preto
tradicional. Parecia ter quase 60 anos de idade, e
trazia uma enorme cruz em volta do pescoço. Ele
piscava descontroladamente.
— Obrigado por me dar esta oportunidade de
compartilhar minhas crenças com vocês nesta manhã
sobre o trágico incidente de ontem — discursou o
Rev. Darden.
Sua figura parecia deixar a âncora à vontade.
— Entendo que o senhor acredita que este
acontecimento, na verdade, estava previsto há uns
dois mil anos. O senhor poderia explicar esse ponto
de vista para nossos milhões de telespectadores? É
bastante interessante, a julgar pelo que entendo.
— Jesus Cristo profetizou no Novo Testamento que
chegaria o tempo em que algumas pessoas seriam
"arrebatadas", ou seja, levadas para as alturas com
nosso Senhor. Elas deixariam esta terra de repente e
de uma vez, assim como aconteceu ontem. Na
verdade, a Bíblia diz que duas pessoas estariam
trabalhando no campo; uma seria levada por nosso
Senhor e a outra, deixada.
Os olhos vermelhos do reverendo começaram a se
encher de lágrimas.
— Reverendo, acredito que todos podem ver que isto
está causando uma reação profundamente emotiva no
senhor. Por quê?
— Por causa do significado desses versículos que
acabei de citar para você. A Bíblia é indiscutível.
Quando compartilhar a Palavra de Deus da forma que
tem de ser, algo que nunca fiz, você logo descobrirá a
verdade. As pessoas que deixaram a terra eram os
verdadeiros filhos do Deus Altíssimo. O mesmo não
podemos dizer das pessoas que foram deixadas.
Ela rapidamente interveio. Parecia-lhe que ele havia
acabado de condenar todas as pessoas que assistiam ao
programa, o que não a agradou porque ela era uma
delas.
— Se isso é verdade, reverendo, então, como é que o
senhor está aqui falando sobre esse assunto? O senhor
não deveria ter ido com eles também? — escarneceu
a âncora.
Suas palavras foram como uma espada de dois gumes
a atravessar o íntimo do reverendo.
— Senhorita, este é o motivo de eu estar tão
perturbado. Eu vinha vivendo uma mentira! Fingi ser
cristão, um filho de Deus, um salvo, por 40 anos. Eu
nunca entreguei de verdade o meu coração, ou a
minha vida, ao Senhor do universo, Jesus Cristo.
Ken pegou os dois travesseiros e os apertou contra os
ouvidos para tentar não ouvir as palavras do
reverendo.
— Vejam, eu estava brincando de religioso em vez
de viver uma vida transformada.
A âncora não acreditava que seu público estava
interessado nas confissões de um laranja. Uma voz
baixinha na sua consciência insistia que ela
encerrasse a entrevista o mais rápido possível.
— Meus sentimentos, reverendo. Deixaremos que o
senhor se recomponha enquanto continuamos com o
próximo convidado.
Desesperado, o reverendo Darden tentou dar uma
palavra final.
— Por favor, por favor, se você ainda não entregou
seu coração para Jesus Cristo, o Filho de Deus, o
Salvador do mundo, faça isso agora antes que seja
tarde demais! A Bíblia diz que...
Seus lábios continuaram a se mexer, mas o som foi
abruptamente cortado. A rede desligara seu
microfone, e acabara com sua chance de compartilhar
a verdade. Em um piscar de olhos, o câmera estava
voltado novamente para a âncora.
— Obrigada, reverendo Darden, por participar do
nosso programa. — Os olhos da âncora brilharam
assim que leu o nome do próximo convidado. —
Nosso último convidado é um professor de História
da Universidade de Harvard, em Boston,
Massachusetts. Seu nome é Dr. Thomas Hurley.
Obrigada por reservar um tempo para estar aqui
conosco.
— É um prazer estar aqui, principalmente após o
episódio cataclísmico das últimas 24 horas. Estar vivo
e seguro no planeta Terra é uma bênção que talvez
nunca mais recebamos de novo!
O doutor exibia uma barba elegante. Um topete
postiço escondia sua calvície. Ninguém tinha coragem
de lhe dizer que parecia haver um rato morto em
cima de sua cabeça. O doutor era da opinião de que
não havia absolutos neste mundo em constante
transformação. Pessoas igualmente perspicazes
podiam fazer uma leitura de quase todos os períodos
da História e chegar a opiniões diversas.
— Dr. Hurley, como professor de História em uma
das universidades mais respeitadas do mundo,
reconheço que algumas de suas opiniões não são nada
convencionais.
O doutor riu à socapa. Ken bocejou.
— Desde o início dos tempos, o homem tem sido
obcecado pela ideia da vastidão do espaço e por quem
pode ocupá-lo. Estou aqui para dizer-lhe hoje que há
vida em outros planetas, que tenho provas secretas do
que estou falando e que esta é uma peça do quebra-
cabeça que estava faltando na nossa busca da verdade.
Vejam, eles vêm visitando nosso planeta desde o
início de tudo. Eles ficaram fora de cena até agora. No
entanto, eles não podem e não irão recuar e assistir à
nossa própria destruição!
— A guerra nuclear é um botão longe de atomizar
nossa existência! Já fomos testemunhas, com horror,
do que diversas bombas nucleares podem fazer. Vocês
sabem que uma gota de certos produtos químicos
altamente tóxicos pode poluir nosso fornecimento de
água e matar milhões, tudo isso em questão de horas?
Vejam a situação difícil da nossa superpopulação. Ela
ameaça matar de fome grande parte do Terceiro
Mundo. Acreditem em mim, a civilização ocidental
não ficará atrás. Os alienígenas reconhecem nosso
dilema e estão dispostos a ajudar. Lembrem-se, eles
são pensadores extremamente avançados. Conhecem
as respostas para os nossos problemas.
Ken estava com os olhos fixos na televisão. Estava
fascinado e acreditava em todas as palavras que ouvia.
— Estou aqui para lhes dizer que eles já nos
ajudaram, e nós nem nos damos conta disso.
— Como eles nos ajudaram? — perguntou a
repórter.
O doutor sorriu maliciosamente assim que se
imaginou sendo aplaudido pela descoberta da grande
revelação.
— Esses alienígenas são responsáveis pelos
desaparecimentos. Eles estão tentando criar uma Mãe
Terra segura e habitável da qual todos nós possamos
desfrutar — sem medo. Centenas de milhões, talvez
um bilhão ou mais, se foram, livrando nosso planeta
de suas condições de superlotação.
A repórter adorou a ideia de alienígenas pacíficos e
amorosos.
— É isso. Parece lógico, mas que evidência sólida o
senhor tem disso?
Ken não havia arredado o pé por mais de três
minutos.
Estava louco à procura do significado da vida.
O doutor mostrou uma coleção de fotos secretas da
NASA. Ele as havia conseguido com um amigo de um
amigo de outro amigo.
— Aqui está sua prova! — esnobou o professor,
colocando a primeira foto em pé na mesa da
entrevistadora.
— A primeira imagem que vocês veem é uma vista
aérea de um objeto no fundo do Oceano Atlântico.
Agora temos recursos para tirar uma foto meio clara
pelas águas do oceano e visualizar o fundo do mar.
Seus telespectadores podem nitidamente ver um
OVNI de verdade. — disse o professor, usando um
lápis para mostrar os contornos. — Na verdade, a
aeronave deste alienígena tem forma esférica. Aqui
estão o que parecem ser cinco ou provavelmente seis
motores localizados na parte inferior das laterais da
nave espacial. A nave parece ser feita de algum tipo
de liga metal inidentificável, resistente aos efeitos
corrosivos da água do mar. Certamente, não foi feita
por homens!
Ken aproximou-se da televisão.
— A foto parece desfocada — disse a âncora
enquanto dava uma olhada. — Estou curiosa: o que
são esses objetos ao redor do disco?
Dr. Hurley mostrou entusiasmo.
— Parecem ser partes da nave. È provável que a
enorme pressão que exista a oito mil metros abaixo do
nível do mar tenha feito com que elas implodissem,
formando bolas de metal — disse, tirando a foto de
foco e substituindo-a pela foto de outro satélite em
um deserto.
— Agora, prossigo com alguma evidência histórica
de sequestros realizados por alienígenas desde a
grande dinastia egípcia. Observe esta linha larga nas
dunas entre essas duas montanhas.
Ele indicava cada umas das características como se
estivesse liderando uma discussão em sala de aula.
— Minha estimativa mais próxima é a de que esta
linha tenha aproximadamente 24 quilômetros de
extensão e um quilômetro e meio de largura. A
natureza jamais teria traçado estes pontos detalhados.
A âncora curvou-se para frente para ver mais de
perto.
— O que o senhor sugere? — perguntou ela.
— Bem, eu sei que isto pode parecer absurdo, mas
acredito que seja uma pista de pouso e decolagem
para aeronaves de alienígenas. Deixe-me mostrar-lhe
como cheguei a esta conclusão.
Mostrou a próxima foto para a câmera.
— Esta é uma visão bem mais ampliada da mesma
pista de pouso e decolagem. Como vocês podem ver,
o olho nu não pode ver nitidamente este aeroporto de
alienígenas vindo do espaço cósmico. Este é o lugar
ideal para se fazer uma aterrissagem se você quiser se
esconder da humanidade. Fica no meio do nada.
— Tenho de confessar que sempre fui fascinada pela
ideia de vida em outros planetas — confessou a
âncora que, silenciosamente, batia os dedos de uma
mão contra os da outra. — Mas que prova decisiva o
senhor tem de que o incidente de ontem tenha sido
um autêntico sequestro realizado por alienígenas?
O doutor parecia perturbado com a incredulidade da
âncora. Pegou com cuidado uma foto e a ergueu bem
alto.
— Anda logo com isso! — gritou Ken, enquanto o
doutor virava lentamente a foto para a luz.
— Esta obra-prima da tecnologia moderna foi
concluída em meu computador há alguns dias.
O câmera aproximou-se do trabalho do doutor.
Parecia um mapa digitalizado da Terra feito do
espaço. Pontos vermelhos em movimento cobriam a
atmosfera ao redor da Terra.
— O satélite da NASA tirou esta foto espetacular do
nosso planeta. Esta é a principal informação secreta,
que eu não deveria estar lhe mostrando; no entanto,
momentos de desespero merecem avaliações
precipitadas. Tenho conexões de alto nível com
aquela agência espacial que concordou em rastrear
atividades de meteoritos para mim nos últimos anos.
Eu disse a eles que precisava saber quantas daquelas
pedras estavam impactando nossa atmosfera em uma
base diária.
— No entanto, menti para eles. Tinha outra coisa em
mente. Vejam, o equipamento no satélite tem a
capacidade de distinguir a composição desses
escombros espaciais. Contudo, sua capacidade nunca
foi utilizada ao máximo. Sempre admitiram que
estavam à procura de meteoritos, mas esses objetos
eram muito planos para ser meteoros. Eram OVNIS!
O doutor continuou sua colocação antes mesmo de a
âncora ter chance de contestar.
— Ao longo dos últimos meses, essas assim chamadas
pedras espaciais aumentaram em número. Na
verdade, as descobertas tiveram um aumento
exponencial. De fato, este foi um grande
acontecimento!
A âncora não tinha palavras. Dias antes, este homem
teria sido rotulado de cachola, maluco e sonhador,
mas os tempos haviam mudado.
— Os pequenos pontos vermelhos nessa foto são
realmente uma aeronave de alienígenas? —
perguntou a repórter desconfiada.
— Eu convido qualquer cientista respeitável para
analisar os dados — desafiou o doutor. Não tinha
ideia do impacto que estava causando no futuro da
civilização humana. Logo em seguida, mostrou uma
sequência em animação recebida da câmera espacial.
— Este mapa é de janeiro passado. Aproxima-
damente 30 objetos não identificados como mete-
oritos, ou talvez frutos de descobertas de OVNIS,
aparecem aqui. Após aquela primeira descoberta,
percebi que um número cada vez maior estava
aparecendo, quase que diariamente.
Ele sacudiu as fotos.
— Este mapa foi compilado um pouco antes do
incidente de ontem. O tempo total para expiração
desses dados é de apenas uma semana. Vejam,
centenas de pontos vermelhos em movimento estão
passando pelas nossas lentes e em nossa atmosfera.
Todos os pontos que ficam por último apresentaram
os mesmos.

CAPÍTULO TRÊS

PACIÊNCIA INEXPLICÁVEL

O MESTRE DO MAL passou como um meteoro pelo


céu azul-claro. No seu rastro estavam seus
amigos mais íntimos e maiores inimigos.
Satanás, também conhecido como Lúcifer, o Diabo, o
Príncipe das Trevas e o grande dragão, estava em uma
missão autodesignada vinda do inferno. Seu coração,
que era extremamente perverso, ansiava por riqueza e
poder. Grande parte desse sonho ambicioso ele já
havia conquistado; contudo, queria mais. Dinheiro,
prestígio e influência apenas aguçavam sua sede
insaciável por pensamentos e alegrias. Em sua mente
pervertida, seu mais novo plano, o plano, finalmente
lhe daria o que sempre havia desejado e merecido.
Queria ser adorado como o Deus Todo-Poderoso por
todos os homens, mulheres e crianças da face da
terra.
Fitou os olhos na terra abaixo, procurando a cidade
onde estabeleceria seu império religioso.
— Nosso destino está bem à frente — gritou Satanás
para seus conspiradores de alto nível que partilhavam
de suas idéias.
O Rei do Engano olhou por sobre os ombros e
encarou um de seus generais que estava a resmungar.
— Não tolerarei qualquer ato de insubmis-são às
minhas ordens! Entendeu? — advertiu Satanás.
O imprudente general arrependeu-se. A fila de
demônios seguiu o Diabo até uma colina rochosa que
ficava no centro de Roma, Itália, no local das antigas
ruínas romanas.
Satanás mergulhou de cabeça para o topo do templo
religioso parcialmente em pedaços, onde a deusa
Diana havia sido adorada. Esta seria a reunião mais
importante de sua vida.
Em sequência, cada um dos demônios desceu,
curvou-se diante de seu mestre, fechou as asas negras
e fez sentido. Satanás examinou as tropas. A medida
que se sentavam, os demônios formavam um Círculo
perfeito ao redor de seu líder.
Satanás não perdeu tempo com suas encenações
comuns de domínio e grandeza.
— Companheiros, o relógio está rodando agora.
Descobri uma forma de acabar de vez com o inimigo.
Não seremos derrotados!
Ergueu suas garras recém-afiadas para o céu escuro
que indicava ser meia-noite.
— Cada um de vocês será renomeado para um posto
de comando estratégico. Os deveres de cada um serão
consideravelmente reformulados para a grande
maioria. O Oriente Médio e os Estados Unidos da
Europa agora são nossos principais alvos para a
enxurrada de propagandas demoníacas do tipo mais
perverso que houver. Satanás sibilou.
— Reforçarei nossas tropas três vezes mais nessas
áreas. Vocês devem confiar em mim ou correr o risco
de morrer. Decidi concentrar-me em três frentes.
Primeiro, no movimento religioso universal que irá
espalhar o paganismo pelo mundo. Segundo, o
movimento pela paz mundial deve ser impulsionado
para o centro do palco. E, por último, quero que os
veículos de comunicação estejam repletos de
partidários do globalismo. Acabem com as pessoas
que acreditam que sua nação deve ser amada mais do
que o mundo. Quero que todos os homens que se
recusarem a seguir nossa visão sejam rotulados como
rebeldes antipatriotas.
De repente, um pensamento divergente passou pelas
frestas ocas de sua cabeça.
— Milhões de pessoas farão oposição aos nossos
esforços, mesmo sem a presença do Deus Jeová. O
mundo não aceitará a morte dessas pessoas, por isso,
quero que elas sejam secretamente eliminadas da
maneira mais cruel e desumana possível!
Os demônios saltaram de alegria.
— Nosso amigo Adolf Hitler realizou um trabalho
magnífico ao ocultar mortes secretas da vista do
mundo. Quero que os mesmos três generais que
formularam o plano do político alemão
supervisionem essa campanha de terror.
Lúcifer apegou-se às suas ordens e fez sinal para que
suas tropas as aceitassem da forma servil de sempre.
Como no movimento de um relógio, cada oficial
lentamente veio planando aos pés de Satanás,
rastejando de quatro até um determinado ponto ao pé
de seu líder e se curvando até cobrir o rosto de lama.
A alma de Satanás se deleitava nesses momentos. A
cerimônia durou trinta minutos.
— Suas ordens foram claras. Qualquer um que for
pego questionando ou desobedecendo a qualquer uma
dessas diretrizes será severamente repreendido.
O Príncipe das Trevas saiu planando em direção ao
céu.
— Adiante, soldados de Satanás!
Como um enxame de gafanhotos sequiosos por um
campo repleto de brotinhos, as tropas das trevas
desenfreadamente marcharam em direção a seus
postos com idéias de total destruição na mente.

— "Depois destas coisas, olhei, e eis não somente uma


porta aberta no céu, como também a primeira voz
que ouvi, como de trombeta ao falar comigo, dizendo:
Sobe para aqui, e te mostrarei o que deve acontecer
depois destas coisas. Imediatamente, eu me achei em
espírito, e eis armado no céu um trono, e, no trono,
alguém sentado; e esse que se acha assentado é
semelhante, no aspecto, a pedra de jaspe e de
sardônio, e, ao redor, do trono, há um arco-íris
semelhante, no aspecto, a esmeralda. Ao redor do
trono, há também 24 tronos, e assentados neles, 24
anciãos vestidos de branco, em cujas cabeças estão
coroas de ouro. Do trono saem relâmpagos, vozes e
trovões, e, diante do trono, ardem sete tochas de fogo,
que são os sete espíritos de Deus. Há diante do trono
um como que mar de vidro, semelhante ao cristal, e
também, no meio do trono e à volta do trono, quatro
seres viventes cheios de olhos por diante e por
detrás".
Pôde-se ouvir Timothy engolir a saliva quando
fechou sua Bíblia. Seu coração crepitava à vista da
hoste celestial que cercava Daniel e a ele mesmo.
Estava extasiado com as palavras que acabara de ler
em Apocalipse 4, o último livro da Bíblia. As
profecias bíblicas estavam-se cumprindo bem ali
diante de seus olhos. Daniel estava com muito temor.
— Onde estamos na Bíblia neste exato momento? —
perguntou Daniel curioso.
— Bem, devemos estar em algum lugar bem aqui
entre os capítulos 4 e 5 de Apocalipse — deduziu
Timothy, apontando para os quatro seres viventes
que estavam em volta de Deus. Então, Timothy
orientou Daniel para que lançasse os olhos nos 24
anciãos assentados ao redor do trono de Deus. Os dois
estavam tendo dificuldade para ver o que se passava.
Milhões de milhões de anjos, muitos mais altos do
que eles, se amontoavam ao redor do trono.
— A Bíblia diz que esses quatro seres sempre
estiveram ao lado do Deus Todo-Poderoso, pro-
clamando Sua santidade — explicou Timothy.
O tamanho de Daniel estava começando a perturbá-
lo. Ele não queria perder nada do que estava
acontecendo. O anjo mais velho estava contente em
ver o entusiasmo de Daniel. Pegou o jovem anjo e o
colocou sobre os ombros, instruindo-o a olhar na
direção dos anciãos que representavam a Igreja cristã.
— Eis a prova de que estamos entre os capítulos 4 e
5. Os anciãos do céu não aparecem antes do capítulo
4 de Apocalipse. Devemos estar no começo do
capítulo 5, porque ali fala do Cordeiro de Deus! O
Cordeiro é Jesus Cristo — sussurrou Timothy.
Exatamente como profetizara a Bíblia, Jesus Cristo
aproximou-se do Pai da Criação, o Deus Jeová. Bem
no meio do clímax da cerimônia celestial, o choro de
um homem desviou a atenção dos anjos. A enorme
multidão distraiu-se com o pranto. Deus Jeová fez um
sinal para um de seus anciãos para que acalmasse os
temores do homem.
— O que um homem está fazendo aqui? — rogou
Daniel. Timothy abriu sua Bíblia em Apocalipse 5.4 e
a colocou nas mãos do companheiro.
— É o apóstolo João, autor do livro de Apocalipse.
Deus, de forma sobrenatural, o transportou pelo
tempo para que ele pudesse escrever o livro a partir
de sua própria experiência — respondeu Timothy.
Daniel balançou a cabeça, mantendo os olhos fixos no
ancião que estava conversando com o apóstolo João.
O pranto cessou no mesmo instante.
Timothy colocou o dedo no versículo seguinte do
livro que contava a História das histórias.
— Leio o próximo versículo.
— Oh! Ele está perturbado com o fato de ninguém
ser digno de abrir o livro de Deus — percebeu Daniel,
que olhava de soslaio. — O que há de tão importante
nesse livro? — perguntou ele. Timothy tirou o anjo
de seus ombros.
—- O livro é o juízo de Deus sobre a terra. Jesus
Cristo é o único Homem que sempre viveu uma vida
perfeita e sem pecado. Portanto, Ele é o Único que
legitimamente pode abrir o livro do juízo e
pronunciar a sentença para Seus súditos. Ele ganhou
o direito de condenar as pessoas da terra e os anjos
pelo mal que praticaram e pela falta de
arrependimento.
O vislumbre dos tesouros do céu era um sonho
realizado.
O mal e o pecado jamais poderiam participar desta
celebração espetacular de poder e majestade. O mar
de cristal cobria os quatro cantos do céu. As cores
brilhantes do arco-íris de Deus emitiam ondas de
temor para todos os seres humanos.
Os olhos de todos os anjos assistiam aos movimentos
de Jesus Cristo. O Filho de Deus começou a
aproximar-se do Deus Todo-Poderoso. A paz que
excede todo entendimento resplandecia no rosto do
Deus Jeová e de Jesus. Deus Pai segurava o livro com
as duas mãos, enquanto, gentilmente, o passava para
as mãos de Jesus. Embora cada um tivesse Seu próprio
corpo, estava claro que os dois eram um na mente,
nas emoções, na alma e no espírito. As únicas
imperfeições que podiam ser distinguidas eram os
furos nas mãos e nos pés de Jesus, as marcas dos
cravos na Sua crucificação há dois mil anos.
Jesus estendeu as mãos e tomou o livro das mãos do
Deus Todo-Poderoso. Outro qualquer que fizesse isso
seria reduzido a cinzas no mesmo instante por causa
da santidade de Deus. Em um piscar de olhos, os
quatro seres deixaram de olhar para o Deus Pai e
voltaram sua atenção para o Deus Filho.
Os 24 tronos que cercavam o trono de Deus ficaram
vazios uma vez que os anciãos se reuniram em torno
de Jesus. Cada ancião tinha uma harpa de ouro. Em
perfeita harmonia, todos caíram de joelhos para
prestar homenagem ao seu Criador e Salvador. A
pureza da melodia e do cântico era extraordinária.
Timothy e Daniel estavam fascinados.
O coro celestial podia ser ouvido por todo o universo.
Ninguém percebeu uma minúscula mancha negra que
emergia da superfície da terra. Satanás havia acabado
de concluir sua sessão de estratégias e estava a
caminho do sol, seu lugar favorito na galáxia. Os
louvores a Deus e à seu Filho atravessaram o coração
negro de Satanás. O terrível Príncipe do Mundo
sufocava seu ódio à medida que voava rumo ao sol.

Enquanto Dominic estava sendo apresentado para a


multidão, as palavras de sabedoria de sua mãe
ressoavam em sua mente: "Você não servirá a
ninguém, a não ser a si mesmo, na estrada da vida.
Escreva o seu próprio destino. Se suas intenções
forem boas, então os fins sempre justificarão os
meios", instruíra sua mãe.
O som dos aplausos o fascinava. Percebeu que os
remanescentes da congregação, que não haviam sido
arrebatados, estavam em pé em sinal de tributo à sua
vida no ministério. Era sua vez de brilhar.
Pôs-se em pé e subiu humildemente ao púlpito, com
as mãos juntas como se estivesse segurando uma bola.
Assim que contemplou a multidão, percebeu que seus
olhos se encheram de lágrimas. Aquelas pessoas
estavam colocando suas esperanças e sonhos em suas
mãos. Olhavam para ele como se fosse o salvador da
pátria.
— Meus amigos de Roma e do mundo todo —
começou Dominic.
A cerimônia contava com a presença de centenas de
câmeras de televisão do mundo todo. Dominic
Rosario estava sereno e era confiável.
— Meu desejo mais sincero é ver nosso mundo em
paz.
Era difícil dizer se a multidão estava saltando de
alegria ou chorando de tristeza.
— Queremos uma paz que seja firme, ardente, e que
esteja edificada na rocha inabalável. Ela deve ter
raízes! A paz é a única solução para nossa incessante
existência!
Dominic teve de sobrelevar a voz para vencer a
multidão.
— Ou vamos morrer em guerras sem fim ou assumir
um compromisso com a paz! Quero um mundo que
trabalhe em união, sim, em união, para que você
alcance seus sonhos e todos os homens, mulheres e
crianças por toda a Mãe Terra alcancem os seus.
Quero um mundo onde você possa se voltar para seu
próximo e pedir ajuda sem receber um olhar frio de
indiferença ou ódio!
As palavras de Dominic penetravam no coração da
multidão. Ele fazia um esforço conjunto para
concentrar-se nas câmeras. Immanuel havia-lhe dado
dicas sobre os principais pontos de intimidade com a
televisão. Tratar a câmera como se ela fosse seu aliado
mais próximo, ensinara Immanuel.
— Nesse dia, lamentamos aqueles que se foram,
desde o próprio Papa, em toda a sua glória, até ao
menino que participava do coro da igreja. Quero dar
os pêsames e oferecer meus sentimentos mais sinceros
a todos os familiares e amigos. Uma lágrima escorreu
pelo seu rosto.
— A esta altura, gostaria de aproveitar esta
oportunidade para fazer um minuto de silêncio.
Quero que nos lembremos de nossos entes queridos
que se foram, e sonhemos com um mundo novo sem
guerras, crimes e miséria.
O novo sucessor baixou a cabeça e a multidão fez o
mesmo.
Um silêncio intenso se estendeu por toda a multidão.
Como uma aranha descendo de sua teia, Blasfêmia
desceu devagarzinho do teto.
Dominic sentiu sua presença. Anos de resistência ao
verdadeiro Espírito de santidade proveniente do Deus
Jeová deixara sua alma nas cinzas. Ele era capaz de
responder a um único tipo de espírito, que não era o
Espírito Santo.
— Deixe que minhas palavras cheguem ao profundo
de seu ser — arrulhou Blasfêmia.
Dominic respondeu em espírito. Não era necessário
dizer palavras com os lábios.
— Fale comigo, senhor. Use-me para expansão de
seu reino na terra — orou o Falso Profeta.
Blasfêmia ficou a alguns metros acima da cabeça de
Dominic.
Um sorriso malicioso atravessava seu rosto enquanto
alisava as unhas de dez centímetros de comprimento.
Ele as esfregava no rosto à medida que se deliciava
com seu próprio toque. Ergueu as garras para o alto e
as cravou na cabeça do Falso Profeta. Blasfêmia
massageava as pontas de suas antenas espirituais,
certificando-se de que seu espírito estava ligado à
mente de Dominic. Colocou a boca bem perto dos
ouvidos de sua presa.
— Immanuel é Deus — disse Blasfêmia.
— Immanuel é Deus — repetiu Dominic, erguendo a
cabeça.
Sentia uma nova forma de energia passando pelas
veias. Sua mente estava cheia de incríveis doses de
conhecimento e sabedoria.
— As guerras têm sido uma forma de vida para a raça
humana — disse ele à multidão. — A história nos
ensina que milhares de guerras foram travadas desde
o início da modernidade, que resultaram no massacre
desnecessário e desumano de milhões e milhões de
inocentes, tudo em nome da liberdade. Não podemos
mais nos calar e permitir que isso continue. A Igreja
deve permanecer firme. Temos de resgatar o mundo!
Todos ficaram em pé de uma só vez, mostrando que
apoiavam as palavras de Dominic. Era hora de as
pessoas boas e dignas fazerem a diferença. Os
aplausos seguiam enquanto as sementes de mentira
lançadas por ele caíam no coração do povo.
A multidão de demônios invadiu o salão. Havia seis
demônios para cada pessoa, como ordenara o alto
comando de Satanás em Roma. Cada um dos espíritos
se posicionava ao redor de pessoas que haviam sido
escolhidas de antemão. Todos foram orientados a
capturar e destruir qualquer pensamento que não
servisse aos objetivos de Satanás. A escuridão
espiritual recaiu sobre a multidão. Os aplausos
sumiram, e apenas os ecos de um estado de fascinação
continuavam a ser ouvidos. Blasfêmia estava ao
volante de um rolo compressor, operando a máquina
sem piedade. Dominic estava literalmente possuído
por um demônio.
— A religião oferece ao mundo a esperança de que
ele precisa para sair bem do leito da morte da
insensatez e do egoísmo — exclamou Dominic,
erguendo a mão para o céu. — A política é o veículo
de que precisamos para chegar à terra prometida.
Com isso, proponho que o mundo deixe de lado suas
diferenças religiosas, que tão facilmente nos
confundem. A natureza de dissensão de diversas
religiões produz os frutos mais amargos do ódio, da
violência e das guerras! Uma religião mundial
solidificada nas crenças comuns a todas as grandes
religiões do mundo pode nos levar a uma nova ordem
mundial. Pode ser um novo milênio do céu na terra!
Uma febre utópica apoderava-se da multidão à
medida que o sermão de Dominic enfeitiçava o
pensamento do povo. Ele era a faísca que colocaria
fogo no mundo.
— Uma árvore não cresce da noite para o dia; um
arranha-céu não pode ser levantado em uma semana.
Nem nosso sonho será realidade amanhã. Vocês
podem fazer a diferença na luta entre o bem e o mal.
Não importa se moram em Hong Kong, Bangladesh,
Tóquio, Berlim, Londres, Los Angeles, Montreal ou
na Cidade do México. Vocês têm poder para mudar o
mundo.
Blasfêmia fez um sinal, e os demônios designados
para cuidar dos câmeras se colocaram em ação.
Começaram a falar em seus ouvidos que
aproximassem o zoom do líder religioso. As televisões
do mundo inteiro podiam literalmente ver o vapor
que saía das narinas de Dominic.
— O que tenho a dizer não é apenas para os
presentes neste salão medieval. Minha visão de uma
nova ordem mundial pode afetar de forma positiva
todos os seres humanos que me ouvem!
Blasfêmia orgulhou-se de sua mais nova criação. A
sinceridade de Dominic era incontestável, ainda que
o ateu ou nacionalista mais convicto quisesse colocá-
la à prova.
— O objeto da crença de vocês afeta seu modo de
agir, e afeta o modo de agir do governo de seu país.
Por favor, comecem a pensar no mundo como um
todo e a agir no bairro em que moram. Sei que vocês
têm ouvido falar desses temas divinos há anos, mas
desta vez quero que coloquem em prática o que
ouviram! Pressionem os representantes de seu
governo para que reformulem os princípios morais
nas legislaturas, nos tribunais, nas igrejas e nas ruas
assoladas.
O Falso Profeta olhou de relance para suas anotações,
mordeu a pele seca dos lábios, fechou os olhos e
respirou fundo.
Blasfêmia quase chorou quando viu o projeto da
fraude aberto bem embaixo das mãos de Dominic. O
líder dos demônios havia cultivado um campo de
medo na cabeça de seu possuído. Com isso, ele era
capaz de plantar a pior das sementes. Conseguiu
plantar as sementes do seu lema "o bem é mau, e o
mal é bom".
Dominic pegou as anotações, controlando sua raiva, e
as levantou para o alto. A multidão, iludida, começou
a murmurar. Estava acostumada a ter líderes mais
reservados e devotos.
— Meus amigos, estou em uma terrível luta com
meu espírito. Deus me ungiu, mas estou com medo!
Vejam, recebi uma mensagem do Deus Todo-
Poderoso, mas não entendo suas implicações!
Suor pingava de sua testa. A multidão pedia-lhe para
compartilhar sua revelação.
— Fale, iluminado! — gritava a congregação.
— Meu coração está pesaroso porque conheço a
verdade! — exclamou Dominic.
Olhou ao redor do santuário na esperança de ver se a
multidão iria morder a isca.
— Diga a verdade! — gritou um homem que estava
em pé no fundo do salão.
— Nós confiamos no senhor — gritou outro.
Dominic levantou um pouco a mão e inclinou a
cabeça levemente para frente. Sua postura agora era a
de um homem religioso, embora sua mente estivesse
possuída por um demônio.
— Será difícil acreditar na verdade sem questionada.
Na realidade, eu mesmo estou tendo dificuldade para
lidar com essa revelação. Ela toca tão profundo na
ferida que é capaz de acabar com todos nós.
Dominic não tinha ideia do poder que tinha em mãos.
— O êxodo em massa de nossos amigos e familiares
ontem foi determinado, ordenado e realizado por
Deus!
A multidão ficou em silêncio. Era um tipo de silêncio
que faz qualquer pessoa pensar e ter medo. Seu
comentário arrepiou os pelos e levantou perguntas na
mente dos ouvintes. Por que Deus arrebataria tantas
pessoas, jovens e idosos, entre eles o Papa? Por que
ele permitiria que milhões de famílias gritassem por
seus entes queridos?
Dominic parecia confiante, inspirado e, sobretudo,
confiável. — Meus companheiros, cidadãos do
mundo, Deus tem um propósito divino nesse grande
arrebatamento que arrancou as pessoas da terra. Ele
tem duas razões, mas um propósito central — disse
ele, inclinando-se contra o púlpito.
— Ele deseja, mais do que qualquer coisa, ver nosso
mundo em paz; afinal, Ele é o Deus de paz. Segundo o
Seu juízo, os desaparecidos não mereciam continuar a
viver. Ele os criou e tem todo o direito de se livrar
deles! É claro que nosso querido Papa não era um
deles. Deus também quis chamar alguns de seus
patriotas para o lar. Quanto aos outros, eles usavam
Deus como uma arma de guerra. Deus assistia do Céu
e chorava por causa da sua arrogância e da sua atitude
judiciosa. Eles pregavam um Deus pobre de espírito e
um Deus que pune as pessoas por pensarem de forma
errada. Se você não concordasse com um deles, então,
recebia pedradas e era considerado um humanista
mundano ou um seguidor do Diabo!
A nuvem negra de demônios impedia completamente
a entrada da luz espiritual de Deus.
— Eles eram separatistas, que resistiram até a morte
à verdade de um mundo unido em busca de paz. Eles
se opunham a tudo que o nosso Deus representa
porque seu mestre era o Pai da Mentira, o próprio
Satanás. Condenavam todas as outras grandes
religiões mundiais com uma atitude judiciosa que era
uma verdadeira blasfêmia.
Blasfêmia ficou arrebatado ao ouvir seu nome.
— Nós sabemos que religiões incríveis, como o
budismo, o hinduísmo, o islamismo, seguem o mesmo
Deus que seguimos, só que de maneira diferente.
Contudo, os fanáticos dessas religiões eram
semeadores de discórdia que sustentavam uma
interpretação rígida da Bíblia, enquanto destruíam a
fé do próximo. Não percebiam que para amar o
próximo era necessário abrir mão de alguns princípios
de suas crenças para o bem de toda a humanidade.
Eram exibicionistas hipócritas que tinham esperança
de fazer uma lavagem cerebral em vocês e em seus
filhos.
Dominic tomou um gole de água. Sem a ajuda de seu
guia, suas forças teriam se acabado.
— Eles assassinaram médicos que cometiam abortos
em nome da vida! Existem mais de seis bilhões de
pessoas na face da terra. Milhões estão morrendo de
fome nesse momento, e eles se sentiam heróis por
salvarem um feto em vez de uma criança desnutrida
na África ou na Índia. Eram cegos, não só por causa
da ignorância, mas por causa de um orgulho
obstinado. A maioria era formada por capitalistas que
queriam proteger os ricos às custas dos pobres. Como
alguém poderia suportar os gananciosos em vez dos
desamparados? Será que Deus representa isso?
A multidão bramiu em uma só voz:
— Não!
— Eles acreditavam na conversão das pessoas à sua
ideologia mediante o uso da intimidação, do medo e
da culpa sem piedade. Nós não precisamos nos
"salvar" de nós mesmos, mas sim nos "salvar" deles!
Agradeço ao meu Deus por Ele ter feito isso. Eles
eram seguidores psicóticos de uma religião sangrenta,
violenta e antagônica que não tem lugar no reino de
Deus. Eles brincavam com palavras, e eu agradeço a
Deus que seus dias de brincadeira com o mundo
acabaram!
Mais gritos de júbilo se ouviram. A rede de demônios
espalhada pelo mundo todo estava fazendo todo o
esforço para trazer o maior número possível de
pessoas para a frente da televisão. Por todo o mundo,
o exército de Satanás tinha total domínio para
enganar as pessoas ingênuas da terra. Multidões de
demônios atormentadores, centenas de milhões deles,
batizavam todos os cantos da terra. Com todos os
anjos e cristãos diante do trono de Deus no céu
prestando reverência a Ele, os demônios podiam
facilmente atacar e fazer uma lavagem cerebral nas
pessoas da terra. Satanás estava determinado a tirar o
melhor proveito desta oportunidade.
O tumulto na antiga catedral lembrava um show de
rock.
Ninguém estava sentado. A balbúrdia dominava o
ambiente à medida que o entusiasmo religioso e
político levava o povo a um turbulento clímax. Toda
alma perdida no santuário convenceu-se da
veracidade do sermão de Dominic, que discutia temas
como justiça social e paz mundial.
As empresas que mediam o ibope dos programas de
televisão do mundo todo estavam registrando índices
astronômicos. Quase metade do planeta estava
assistindo ao evento ensaiado. Blasfêmia estava
satisfeito.
— Dominic Rosario para presidente! — gritava o
público fascinado.
O líder religioso recém-ordenado sentia-se
lisonjeado, porém receoso. Sabia que Immanuel
estava na disputa pela posição de líder mundial. A
tentação era atraente, mas as consequências seriam
fatais. Ele jamais se esqueceria do que Immanuel
havia-lhe revelado na reunião particular que haviam
feito há alguns dias, a qual mudou sua vida para
sempre. Ele temia mais Immanuel do que a própria
morte.
Dominic tentou reconquistar a atenção da multidão,
colocando a boca bem próxima ao microfone.
— Posso falar? — perguntou ele de forma amável.
A agitação cessou. Dominic aproveitou a
oportunidade.
— Isso é importante, meus amigos — gritou
Dominic. Não se ouviu um ruído.
— A mensagem final que Deus me revelou fez meu
coração saltar de alegria. A Bíblia sempre profetizou
que o Salvador do mundo viria à Mãe Terra e salvaria
o planeta. Deus confirmou que esse evento profético
logo se cumprirá. Ele não revelou a hora nem o dia
exato em que ele aparecerá, mas me disse que será em
breve, muito em breve!

CAPÍTULO QUATRO

PAZ PASSAGEIRA

U m jatinho particular de cor branca passou


deslizando em direção à pista de pouso que
ficava em uma pequena faixa no deserto do
continente africano. O sol acabara de nascer há uma
hora, contudo, os termômetros já marcavam 53°C.
Assim que as rodas do avião encostaram no chão,
pôde-se ouvir o ranger dos pneus de borracha na pista
seca. A bordo do impecável avião estava Immanuel,
dormindo na suíte principal. O interior do jato
lembrava um apartamento luxuoso de Manhattan,
com acomodações de vários níveis, três quartos de
luxo, cozinha e dois chefes que trabalhavam em
período integral: um oriental e um ocidental. Os
engenheiros particulares, que desenvolveram o
projeto original do avião exclusivamente para
Immanuel, recusaram-se a mexer no princípio
aerodinâmico; assim, ele não poderia ter toneladas de
ouro e marfim adornando sua sala de estar. Immanuel
demitiu esses engenheiros. Depois, encontrou
cientistas apropriados que projetaram e construíram
sua fortaleza no céu. Ouro, prata, marfim, couro e
pedras preciosas abarrotavam os alojamentos. O valor
das mobílias excedia o custo do avião de vários
milhões de dólares.
Uma sirene acordou o gigante adormecido. Os olhos
de Immanuel abriram-se no mesmo instante. Não
havia tempo para sonecas nem café. Immanuel
suspirou. Pela primeira vez na vida, teve de lidar com
o fato de que não estava mais no comando geral.
Blasfêmia, seu mestre espiritual, o estava lembrando
disso. Uma reunião importante, na qual Immanuel
planejara encontrar-se com os líderes de estado da
Europa, havia sido abruptamente cancelada na última
hora. Blasfêmia levara Immanuel a este buraco de
areia, poeira, guerra entre tribos e pobreza. A
confiança que o bilionário tinha no demônio
minguava aos poucos. Ele sabia que a próxima jogada
a ser feita no tabuleiro de xadrez da vida dependia da
instrução de Blasfêmia. A voz do piloto soou no
sistema de comunicação interno.
— A limusine que o senhor solicitou já chegou. O
motorista me disse que a viagem durará exatas duas
horas e meia, sem levar em conta as tempestades de
areia e os percursos feitos a camelo. Ah, a propósito, o
senhor gostaria de tomar o café da manhã?
— Não — disse Immanuel, sem parar de pensar na
situação desagradável em que se encontrava. Não se
lembrava de ter embarcado no avião nem tinha a
menor idéia de onde estava ou para onde estava indo.
Immanuel notou que suas mãos tremiam enquanto
ajeitava o nó de sua gravata de seda árabe. Será que
seu guia espiritual o havia traído? Fechou os olhos e
tentou recompor sua compostura. Logo, abriu a porta
do quarto e dirigiu-se para a saída.
Ao pé das escadas aquecidas pelo sol, um re-
cepcionista do avião ofereceu-lhe um turbante. Era
necessário cobrir a cabeça naquele deserto escaldante.
Immanuel ignorou o homem e entrou na limusine.
Preencheria seu tempo concentrando suas energias na
fase dois do plano. No exato momento em que fez um
sinal para seu guia espiritual, Blasfêmia apareceu
cruzando o chão do deserto. O extravagante general
trazia um documento na mão. Assim que entrou no
veículo, o coração de Immanuel começou a disparar.
O magnata fechou os olhos e ergueu as mãos para o
alto. Era sua forma de adorar seu pastor. Blasfêmia
mostrava os dentes enquanto sorria da submissão de
Immanuel.
— Você passou no seu primeiro teste de fé, meu
amigo — cumprimentou-o o demônio. Sua voz
tornou-se áspera. — No entanto, seu coração está
profundamente dividido. Ouvi você questionar nosso
relacionamento. Lembre-se, homem, posso ler todos
os seus pensamentos e sentir suas emoções vazias —
desdenhou Blasfêmia. — Tenho a capacidade de
transcender no tempo, estar em todos os lugares ao
mesmo tempo — blasfemou ele. — Para fazer de você
um grande líder, o mais forte e mais corajoso que o
mundo já viu e verá, exijo firme devoção. Você tem
um longo caminho pela frente antes de passar em
meus outros testes!
Em uma atitude de servidão inesperada, Immanuel
implorou por uma chance.
— Dê-me o privilégio de ser testado novamente.
Encha-me de sua sabedoria eterna, de seu
conhecimento onisciente e de sua percepção
onipotente. Use-me, mestre.
O motorista tinha dificuldades para manobrar a
limusine no deserto. Ficou com cara de tacho ao ver
Immanuel adorando o teto. "Quanto mais ricos, mais
loucos eles ficam", pensou ele.
Após 26 anos sem derramar uma lágrima, Immanuel
começou a chorar. Como uma criança que acabara de
ter seu doce arrancado, ele estava determinado a ter
tudo ou a não ter nada. O poder parcial já o havia
corrompido. Era o que qualquer um supunha que o
poder absoluto poderia fazer. Immanuel nada temia,
exceto o fracasso de não conseguir alcançar seu sonho
de conquistar o mundo.
— Preciso de mais. Por favor! Meu apetite é
insaciável — suplicou Immanuel.
O banqueiro não estava acostumado a rastejar; ele só
o fazia em circunstâncias extremas.
Blasfêmia alisava a pele do queixo alongado. Uma
atitude de submissão lhe agradava mais do que travar
uma boa batalha com um dos anjos do Deus Jeová.
— Muito bem, seu status será mantido, por
enquanto. Considere isso que você submeteu à minha
autoridade ou irei esmagado como se fosse uma barata
surpreendida pela luz! — ameaçou o espírito.
— Seu desejo é uma ordem — disse Immanuel.
— Ótimo. Hoje, você irá se encontrar com o homem
que dará um empurrão em sua imagem na mídia.
Venho bajulando esse homem para que seja seu
porta-voz. Ele tem as ligações dentro da mídia
necessárias para torná-lo famoso.
Blasfêmia colocou o documento que trazia no colo de
Immanuel. Os olhos de Immanuel ainda estavam
fechados quando ele sentiu o odor repugnante do
demônio, que cheirava a pele queimada e peixe
podre. O mau cheiro fez Immanuel abrir rapidamente
os olhos. Sua reação natural foi observar o que
acontecia do lado de fora do carro. Assim que
contorceu o corpo para ver a estrada, sentiu algo em
seu colo. Immanuel olhou ao redor e encontrou um
documento antigo. Ficou hipnotizado ao ver que o
documento havia aparecido de forma sobrenatural.
Blasfêmia divertia-se. Era-lhe gratificante ver os
homens sentirem por experiência própria o poder que
ele possuía. Isso era apenas o começo. O demônio
pegou o documento, que parecia levitar sem ajuda
humana. Immanuel era esperto o bastante para saber
que Blasfêmia estava por trás daquilo.
— Meu poder é tão imenso quanto a energia do sol
— iludia Blasfêmia. — Este documento é meu plano
para atrair o mundo para que siga o verdadeiro
provedor de riquezas, sabedoria e armistício.
Consuma a sabedoria contida nele. Obedeça-me e
viva!
— Tenho algumas idéias sobre nossa nova ordem
mundial — propôs Immanuel, impaciente.
Blasfêmia não estava interessado na contribuição de
Immanuel.
— Não perca seu tempo nem me faça perder o meu
com seus próprios planos. Quero que você passe todos
os minutos do dia tentando influenciar e,
conseqüentemente, mudar o coração das pessoas que
têm posição e poder para nos ajudar em nossa busca
da recompensa. Vá atrás dos ricos e poderosos.
Encontre essas pessoas que irão nos ajudar a alcançar
a terra prometida nos quatro cantos da terra. Confie
em mim. Estarei por perto para protegê-lo de
qualquer um que tente impedir nossa missão.
O motorista da limusine estava extasiado com o
documento que não parava de voar. Infelizmente, não
soube ver o que era prioritário, porque não percebeu
o carro que se aproximava rapidamente, vindo do
leste.

Satanás espreguiçava-se em seu trono, usando um


palito para remover dos horripilantes caninos pedaços
de alma dos homens. Roubara quase dez mil homens
de Deus na última hora, devorando a alma deles e
cuspindo partes dela para dentro do abismo de
horrores. O aguilhão da morte era doce para Satanás.
Seu gosto por doces era insaciável. Ele tinha uma das
chaves da morte, e tinha sede por outra. O Deus Jeová
havia-lhe passado a perna há uns dois mil anos com a
morte e a ressurreição de Jesus. Satanás jamais
perdoaria Deus por isso. Estava determinado a
destruir tudo o que Deus amava, principalmente a
humanidade.
Seu sonho foi abruptamente interrompido por uns
intrusos indesejáveis. Os arcanjos Miguel e Gabriel já
estavam bem à sua frente antes mesmo de ele ter
tempo para ajustar o foco dos olhos.
Suas espadas estavam desembainhadas, em posição de
defesa.
— Lúcifer! O Deus Todo-Poderoso quer que você
desista dos terríveis planos para assumir o controle da
terra! — repetiu Miguel.
Satanás não conseguiu evitar as gargalhadas, embora
não tivesse tentado.
Os arcanjos estavam acostumados com o
comportamento irreverente do demônio. Olharam
um para o outro com um olhar de piedade.
O dragão sentou-se em seu trono na tentativa de
parecer-se mais com um rei.
— Deixe-me ver se entendi bem. O Deus Jeová quer
que eu interrompa meus planos antes de Ele ser
derrotado? Ele quer que eu me renda e volte para casa
com Ele, como aconteceu naquela repugnante
história do filho pródigo? Ele não é um homem de
palavra? Vocês, companheiros, são tremendos
guerreiros que devotam lealdade à pessoa errada.
Tenho belas lembranças de brigas com vocês. Por que
vocês não renunciam a sua aliança com Jeová, ou,
melhor ainda: por que não se tornam espiões do lado
onde está a força e o vigor?
Os anjos mostraram uma ira justificada, contudo,
lembraram-se de deixar o julgamento para o Senhor.
— Não vou perder meu tempo respondendo suas
perguntas — continuou Miguel. — O relógio está
rodando; o estopim já foi aceso. Você tem menos de
sete anos para ser julgado. Tenho certeza de que se
lembra do momento em que Jesus declarou você e um
terço dos anjos culpados por alta traição há dois mil
anos. Vocês zombaram Dele porque nesciamente
pensaram que Ele não tinha coragem ou poder para
colocar em prática o que havia dito.
Satanás interrompeu o arcanjo de Deus.
— O Deus Jeová é um racista e um tirano. Ele não
acredita na igualdade nem nas conquistas. Pensa que
todos nós devemos ficar felizes por adorá-Lo aos pés,
dizendo: "Obrigado, Nossa Santidade; bendito seja,
Nossa Majestade; nós O adoramos, nosso Criador;
honra e poder e blá-blá-blá" — escarneceu Lúcifer.
Miguel e Gabriel sempre se surpreendiam com a
atitude pervertida de Satanás. Queriam saber como
uma das criações de Deus ficara tão amarga.
— Nosso objetivo é advertido sobre o juízo que está
por vir. Abaixe suas armas de guerra, ou o Deus Jeová
e Seus anjos de justiça irão fazê-lo por você! Isto não é
uma ameaça: é uma promessa!
Satanás olhou com desdém ao desembainhar sua
espada. Os arcanjos reposicionaram suas armas. Elas
seriam usadas apenas se fosse necessário. Cada um dos
poderosos anjos de Deus esperou que Lúcifer
recuasse. No entanto, ele preferiu desistir. Miguel
resumiu a mensagem de Deus.
— No livro de Apocalipse, Deus destacou a Sua
estratégia, as Suas razões e a Sua sentença final nos
próximos anos. Se você tivesse a humildade para ler o
livro e crer... — exortou o anjo.
Eles lentamente foram se distanciando do líder dos
demônios, examinando todos os seus movimentos
com cautela. Quando já estavam seguros a certa
distância, eles se viraram de frente para o buraco de
saída dos vermes. Satanás era do tipo que dava a
última palavra, independente da circunstância.
— Quando eu tiver terminado, não haverá mais uma
Bíblia impressa nesse planeta. Eu mesmo vou me
certificar disso! — gritou Satanás.

Os olhos do motorista quase saltaram para fora


quando ele percebeu que estava na pista errada e que
outro carro se vinha aproximando. Os veículos
estavam a menos de trinta metros de distância
quando Blasfêmia ergueu os olhos e segurou a roda.
Seu plano não incluía a morte de suas duas principais
estrelas na jogada do milênio. Blasfêmia deu um
supetão no motorista inconsciente e jogou a roda para
a esquerda. Assim que pisou nos freios, a limusine
começou a derrapar fazendo um som estridente. Ele
saiu voando para o outro carro, deu um soco no
estômago do motorista e parou o carro alugado
apenas a alguns metros de distância da limusine.
Immanuel praguejou ao bater a cabeça. Abriu o vidro
que o separava do motorista, que estava desacordado.
Blasfêmia observava com cuidado as ondas de
pensamento de Immanuel, cujo coração provava ser
leal ao demônio. Pensar que Blasfêmia havia tramado
esse fiasco nunca passou pela mente de Immanuel.
Ele estava mais preocupado com o caminho de volta
para o avião.
Immanuel saiu de seu ninho confortável para
examinar o estrago. Pela primeira vez em vários anos,
ele mesmo abriu a porta do carro. No mesmo instante
sofreu um golpe de ar quente insuportável. Arrancou
a jaqueta e a gravata, e as jogou dentro do carro. Sua
camisa de algodão exorbitantemente cara, que
ostentava a capacidade de transpiração em climas
extremamente quentes, oferecia pouca resistência ao
calor do deserto africano. Immanuel foi até a parte da
frente da limusine e, despreocupadamente, notou o
outro veículo, ignorando o ocupante. Estava
preocupado com a habilidade do motorista que
deveria atender às suas necessidades. Abriu
lentamente a porta do lado do motorista.
— Esqueça esse perdedor — dizia Blasfêmia. —
Quero que você se encontre com uma pessoa.
Immanuel batia de leve no rosto do motorista,
esperando uma resposta. Rapidamente procurou
verificar a pulsação no pescoço.
— Deixe esse ingrato para lá! — gritou Blasfêmia
com toda a força de seus pulmões. — Há algo à sua
espera no outro carro. Vá até lá, agora!
— Mensagem recebida — suspirou Immanuel, que
atravessou correndo a estrada e bateu no vidro
colorido do carro.
— Você está ferido? — perguntou Immanuel.
Não teve resposta, embora pudesse ver algum
movimento no interior do carro. Bateu no vidro
novamente. Gotas de suor escorriam-lhe pelo rosto
chegando aos lábios. De repente, a trava da porta do
sedã azul fez um estalido deixando a porta meio
aberta. Immanuel pôde ouvir um gemido que vinha lá
de dentro. Sua adrenalina aumentou ao abrir
suavemente a porta.
— Este homem será seu cachorrinho na mídia —
revelou Blasfêmia.
Assim que abriu a porta, percebeu que o rosto
daquele homem lhe parecia vagamente familiar.
— Com licença, você está bem? — perguntou
Immanuel.
— É, acho que sim — disse o homem, saindo devagar
do carro.
— Ken Action, de St. Louis, Missouri — apresentou-
se o repórter enquanto apertava a mão do gigante no
ramo bancário.
— Immanuel Bernstate. Prazer em conhecê-lo.
Blasfêmia voou até o carro alugado e começou a
mexer no motor. Ken voltou para dentro do carro.
— Por que você não se senta um pouquinho comigo
na limusine? Tenho uma história que pode fazer sua
carreira decolar — tentou Immanuel.
Ken ficou assustado com a declaração. Apesar de
sentir-se atraído pela oferta, este estranho o estava
deixando pouco à vontade.
— Não, obrigado. Já consegui uma história que vale
por uma vida toda. Não consigo trabalhar com mais
de uma, pelo menos não nesta semana! — disse Ken,
nervoso.
Fechou a porta e girou a chave na ignição. Nada
aconteceu. Immanuel sorria para o entusiástico
repórter enquanto lhe abria a porta.
— Acho que sua história vai ter de esperar, não? Por
que você não espera na limusine, que tem ar
condicionado, enquanto vejo como está o meu
motorista.
Por alguma razão, Ken percebeu que não tinha
escolha. Sem contestar, entrou na limusine de
Immanuel, que seguiu na lateral do carro e encontrou
seu motorista bem aturdido.
— Você pode nos levar de volta? — perguntou
Immanuel.
— Sim, senhor, mas acho que vou precisar de uns
minutos.
Immanuel sorria com elegância enquanto fechava a
porta do motorista.
Foi para a parte de trás da limusine, esperando
receber uma irradiação de Blasfêmia para obter
sabedoria e orientação.
— Ofereça-lhe um emprego com um salário
irresistível. A única coisa que ele ama na vida, além
de si mesmo, é dinheiro! — sussurrou o demônio.
Immanuel abriu a porta do carro e sentiu uma
corrente agradável de ar frio.
-— O motorista estará pronto em alguns minutos. Ele
ficou um pouco enjoado com esse transtorno todo —
disse Immanuel.
Ken parecia mais relaxado. Se soubesse quem o estava
cortejando, Ken Action cairia de joelhos, pensou
Immanuel.
— Estou muito interessado em ouvir sua história do
século — começou Immanuel. — É por isso que está
no meio do deserto?
Ken não queria conversar.
— Pode confiar em Immanuel — repetiu diversas
vezes Blasfêmia. — Ele comprará seu passe para a
fama — disse o demônio, fazendo uma lavagem
cerebral no repórter.
Ken normalmente não se abria para estranhos,
principalmente no que dizia respeito a segredos que
poderiam render milhões.
— Conte tudo — cantarolava o demônio. Ken
obedeceu.
— Você pode achar difícil acreditar nisso —
preparou-o Ken —, mas tenho provas concretas de
que seres alienígenas estão visitando este planeta e
têm planos de colonizá-lo!
Immanuel aparentemente permaneceu calmo, mas,
por dentro, perguntava-se como este homem lhe
poderia ser útil.
— Confie em mim, Immanuel. Não deixe escapar
essa bola das mãos. Vou guiá-lo — concitava
Blasfêmia.
— Que prova você tem do que acabou de dizer? —
investigou Immanuel.
— Está a 24 minutos daqui — disse o repórter.

Em Wall Street, uma enorme quantia de dinheiro


invadia o mercado. Ninguém tinha a menor ideia de
sua procedência e, na verdade, ninguém estava nem
um pouco preocupado com isso. O mercado subia
como um foguete que parecia ter uma quantidade
ilimitada de combustível. No início da tarde, o valor
do índice Dow Jones foi lançado à órbita. Os aliados
mais próximos de Immanuel haviam comprado quase
todas as ações imagináveis na abertura do dia de
negociações. Menos de cinco horas depois, o preço
dessas empresas havia aumentado quase 50%.
Lorde Birmingham estava pronto para vender suas
ações.
O mercado se comportava como um jato comercial
alcançando sua altitude máxima com apenas algumas
gotas de combustível no tanque. Ao mesmo tempo,
tragando um charuto cubano e bebendo um Martini,
Birmingham parecia e se sentia sob controle. Ele
estava no topo do mundo. Séculos de trabalho e suor
estavam prestes a fazê-lo colher sua merecida
recompensa. O banqueiro solitário reclinava-se
confortavelmente em sua cadeira de couro preta. Seu
escritório elegante estava repleto de telas de televisão
e computadores, e tinha um capacho de pele de urso
que cumprimentava os visitantes mostrando os
dentes. Doze monitores de televisão estavam
dispostos em semicírculo à frente de sua mesa. Cada
monitor estava conectado a um de seus conselheiros
de operações bancárias, que aparecia nas telas
encarando o líder com inveja.
Uma tela de computador maior exibia o rali contínuo
do mercado que estremecia os Estados Unidos.
Despreocupado, Lorde Birmingham acomodou-se em
sua cadeira e deu uma última olhada nos resultados
que ajudara a criar. O aumento de 50% mantinha-se
firme naquele índice. O banqueiro deu um último
trago no charuto e depois o apertou no cinzeiro.
— Senhores, creio que este é nosso momento de
glória!
Algum dissidente? — perguntou Lorde Birmingham,
enquanto a fumaça do charuto saía de suas narinas.
Esticou a mão até o painel de controle do telefone e
colocou o dedo no sensor, dando uma última olhada
para seus velhos amigos nos monitores de televisão,
que trocavam entre si olhares referentes às ordens
dadas antes de partirem para a guerra.
Lorde Birmingham aproximou os olhos do telefone e
apertou o botão.
— Venda! — ordenou o perito em finanças.
— Quanto, senhor? — perguntou a voz nervosa do
outro lado da linha.
— Tudo! — ordenou o chefe, examinando com
cuidado as reações de seus amigos. Cada um deles
reagiu da mesma forma demonstrando sua avareza em
um olhar furioso e impassível. Lorde Birmingham
esperava uma resposta de seu corretor particular.
— Ouvi o senhor dizer "tudo"? — perguntou curioso
o assistente com uma voz de espanto.
Lorde Birmingham não estava acostumado com os
gestos de desobediência de seus cães, nem mesmo
com um deles questionando suas ordens.
— Você tem alguma coisa a ver com isso? — gritou o
conspirador.
— Bem, não, senhor. Mas acho que o senhor não
deveria apostar todas as suas fichas nesse negócio. É
sempre inteligente apostar na diversidade de opções.
O mercado vem-se desvalorizando há anos por causa
daquela mórbida guerra civil. Mas se o senhor vender
todas as ações do seu e dos portfólios de seus sócios,
isso poderá arruinar o mercado! Estamos falando de
dezenas de trilhões de dólares! Onde o senhor
depositaria os lucros, e até onde isso seria bom antes
de sofrer uma queda junto com os de outra pessoa?
Lorde Birmingham inclinou-se para frente, colocou
uma porção de caviar na boca e começou a rir. Era
um tipo de risada que deixaria uma pessoa educada
pouco à vontade.
— Eu estou me lixando para a opinião de um rato
imbecil sobre o mercado. Tem vezes que o dinheiro
não é meu principal objetivo! Afinal de contas,
acabamos de ganhar quase quatro trilhões de dólares
em menos de cinco horas! — bufou o lorde, enquanto
tornava grave e erguia a voz. — Venda tudo! Compre
ouro, prata e platina. Em alguns dias, nós
praticamente seremos donos do mundo! — berrou
um homem que não estava a fim de ser contrariado.
Lorde Birmingham estalou os dedos. Logo em
seguida, um criado de meia-idade vestindo smoking
aproximou-se com outra obra-prima cubana.
— Posso cortá-lo e acendê-lo para o senhor? —
perguntou delicadamente o homem contratado.
O nobre banqueiro balançou a cabeça num "sim".
Lorde Birmingham voltou a atenção para seus
cúmplices. — Os senhores sabem que tenho
minhas restrições, profundas restrições, com relação
ao nosso amigo, Immanuel.
Os gangsteres modernos riram em voz baixa.
— Devo dizer, no entanto, que o plano dele é nos
deixar mais ricos do que jamais pudemos imaginar.
Suas ideias são brilhantes — disse, erguendo o copo
de cristal esculpido à mão para as imagens que
vinham da televisão.
— Um brinde ao homem que nos ensinou como
ganhar dinheiro fácil.
Todos compartilharam de sua alegria. Era uma
experiência profundamente comovente para os
bruxos de Wall Street.

Assim que pressionou a tecla enter de seu com-


putador, o corretor do grupo sentiu um nó na
garganta do tamanho de uma rã. A transferência
eletrônica fora mais rápida do que um piscar de olhos.
A ordem de venda nada mais era do que um simples
ponto em linguagem de computador. Era incapaz de
fazer o bem ou o mal, mas estava destinada a fazer
com que homens e mulheres saltassem de prédios
altos por todo o país.
No andar da Bolsa de Valores de Nova Iorque, um
corretor estava até o pescoço executando ordens
comerciais. Era o dia mais hilariante de sua vida
profissional. Ele estava ocupado cumprindo ordens
quando, de repente, um alarme soou do terminal de
seu computador. Uma queda de 50 pontos foi exibida
rapidamente pela máquina. "Simples rendimentos",
pensou o corretor. De repente, horrorizado, ele caiu
sentado e assistiu o mercado tendo uma queda súbita
das taxas cambiais em questão de segundos. Como
cada segundo era precioso, outros dez pontos já se ti-
nham ido. A Dow Jones estava mergulhando em um
grande abismo como um paraquedista sem
paraquedas. O ganho de 50% tinha desaparecido no
vento. Em menos de uma hora, a riqueza inventada
havia se transformado em um embuste cruel, uma
miragem no deserto.
A ordem de venda de Lorde Birmingham fez o
mercado entrar em parafuso. Era simplesmente a lei
da oferta e da procura. A oferta das ações aumentou
assim que ele as vendeu, fazendo a procura cair.
Quando a procura de um produto é pequena, o preço
cai.
Levou menos de dez minutos para o mercado
americano perder um adicional de 6% de seu valor. O
relógio parou às 14h06. As negociações do dia
estavam encerradas.
Os noticiários chamavam as negociações da Bolsa de
Valores de "a montanha-russa de Wall Street". A
mídia informou que o encerramento antecipado se
dera em razão de um problema no sistema de
computadores. A maioria dos investidores engoliu a
mentira — alguns com suas economias —; no
entanto, os mais astutos sabiam que os computadores
das operações cambiais haviam sido atualizados
mediante o uso da mais avançada tecnologia. A
informação que o mundo recebera era a de que os
computadores não conseguiam manipular dezenas de
bilhões de ações que estavam sendo negociadas.
Muitos principiantes no mercado financeiro haviam
confiado seu dinheiro aos gerentes. Agora a notícia da
crise pegou todos de surpresa. Comprar fazia sentido,
mesmo se os investidores tivessem de fazer um
empréstimo.
Havia outras más notícias. Os títulos que os governos
vendiam para financiar sua irresponsável dívida não
foram vendidos. Com a expansão dessa dívida por
Lorde Birmingham logo cedo e a aglomeração das
pessoas nas bolsas de valores, os oficiais do tesouro do
mundo todo estavam ficando nervosos e preocupados
em ter de elevar as taxas de juros para atrair
investidores. A queda do mercado no fim do dia de
negociações fez com que eles se sentissem melhor. A
regra era simples. Se todos estavam aplicando seu
dinheiro nas bolsas, não havia dinheiro suficiente
para comprar títulos. As dívidas do país poderiam ex-
plodir se as taxas de juros subissem demais. Uma
fusão financeira de âmbito mundial assombrava a
mente deles.
Immanuel olhou para o relógio e franziu a testa.
— Qual é a sua dúvida? — analisou Immanuel.
— Alienígenas na terra é uma matéria esmagadora,
você não acha? — perguntou Ken em contrapartida.
Immanuel não estava convencido.
— Não é um assunto relevante. Os governos vêm
encobrindo esses fatos há anos.
Os olhos de Immanuel pareciam fazer um raio-x da
alma de Ken.
— O que mais passa pela sua mente? — forçou
Immanuel. Ken tentou enrolar a pergunta.
— Por que você acha que alguma coisa está me
incomodando? Essa descoberta levanta uma série de
sinais de perigo. De onde eles vêm?, por que estão
aqui?, são amigos?, eles querem jantar com a gente?
— Ken estava à beira do ridículo, um sinal nítido de
que Immanuel havia tocado na ferida.
— O que mais passa pela sua mente? — repetiu
Immanuel. Ken ficou pálido.
— Talvez eu não tenha mais um emprego quando
voltar para os Estados Unidos. Se eu for demitido pela
gerência de minha estação, ninguém nas redes irá se
impressionar com a minha história. Eles não me
levarão a sério e chegarão à conclusão de que estou
inventando essa história para conseguir outro
emprego — desabafou Ken, desanimado.
Immanuel sentia-se pouco à vontade em ser o ombro
amigo em que alguém podia encostar e chorar.
— Por que você não trouxe equipamento de
filmagem na viagem? Com certeza, você esperava
deparar com um grande acontecimento — perguntou
Immanuel, sem tom de ameaça.
Um sorriso nervoso formou-se no rosto de Ken.
— Eu trouxe! Ninguém teve o trabalho de me avisar
que o circuito de minha câmera não aguentaria esse
calor. — Ken fez uma pausa para engolir um nó na
garganta. — Veja bem, fiz uma parada para colocar
gasolina no carro e fazer um lanche. Deixei os vidros
fechados e me ausentei por cinco minutos, mas
quando voltei, dentro do carro parecia chegar aos
65°C. Era como se estivesse dentro de um forno!
Mesmo assim, nem me lembrei da câmera. Estava
preocupado comigo. Não pensei muito nela até a hora
em que tentei ligá-la.
— Não se preocupe. Irei ajudá-lo. Tenho ligações.
— O que você quer dizer com isso? — disse Ken de
modo abrupto, pois tinha sido ameaçado por pessoas
que traziam presentes que não tinha merecido. Isso
fez com que se lembrasse de Sally entregando sua
vida para Cristo. Ela havia dito que o presente da vida
eterna era para todos, independente do passado dessas
pessoas, e que ninguém a merecia. "Presentes sem
nada em troca são para aqueles que acreditam em
Papai Noel", pensou Ken.
Immanuel pôde contornar aquela situação delicada
com facilidade.
— Preciso de um jornalista jovem e de boa aparência
que esteja à par das coisas, que possa controlar as feras
da mídia — deu as cartas Immanuel.
— Você está me fazendo uma proposta de trabalho?
— brincou Ken.
— Se o que você diz é verdade, sim, eu estou —
afirmou Immanuel.
— Você pode cobrir meu salário de trezentos mil
dólares em St. Louis? — blefou Ken.
— Um milhão de dólares como salário inicial, com
exceção de benefícios ou bonificações mensais —
replicou Immanuel.
A generosidade de Immanuel surpreendeu o repórter,
acostumado a brigas violentas durante as negociações
contratuais. A oferta de Immanuel era um ponto de
partida agradável.
— Sua oferta é mais do que tentadora — começou
Ken, tendo dificuldade para encarar o repulsivo
bilionário nos olhos. — Acho difícil acreditar que
você ofereceria um emprego com uma cifra de sete
algarismos para alguém que acabou de conhecer!
Ken deu uma olhada ao redor da cabina assim que seu
coração começou a palpitar.
—Tenho orgulho em me envolver com pessoas que
me ajudarão a construir meu império. Apenas
candidatos motivados, extremamente intelectuais e
muito qualificados são levados em conta.
A língua de Immanuel era afiada como uma navalha.
— Você me mostrou que é capaz de enfrentar tudo
que atravessar o seu caminho para alcançar seus
sonhos. Suas fitas demo chegaram ao meu escritório
várias vezes.
— Eu nunca lhe enviei uma fita como currículo —
corrigiu Ken.
Um sorriso malicioso atravessou a expressão
inanimada de Immanuel.
— Meu pessoal grava os noticiários dos principais 25
mercados televisivos dos Estados Unidos e do mundo.
Eles vêm realizando uma busca exaustiva, que já dura
seis meses, para encontrar o porta-voz perfeito para
minha causa. Seu nome esteve quase em primeiro
lugar em todas as listas que eles me apresentaram.
As objeções de Ken pareciam restolhos para as
chamas. Ele estendeu a mão para fechar o negócio.
— Você me fez uma oferta que, em sã consciência, é
irrecusável — sorriu Ken.
Immanuel estava satisfeito. O dinheiro era o óleo que
fazia sua máquina política funcionar.
— Foi a decisão mais acertada que você já fez, Sr.
Action. Minha equipe sempre aparece em primeiro
lugar!
Ambos olharam ao redor para a paisagem estéril que
rapidamente ficava para trás. De repente, Ken
reconheceu um ponto de referência. Uma palmeira
solitária marcava a entrada de uma estrada de terra
batida.
— Dê uma olhava naquela árvore — mostrou Ken.
Sua atenção logo se voltou para seu novo chefe.
— Bem ali naquela duna — apontou Ken — está o
ponto onde vi tudo acontecer.
O comportamento apreensivo de Ken era
compensado pelo estado de relaxamento de
Immanuel.
— Ken, o que você acha de um governo mundial? —
investigou Immanuel.

O recém-eleito primeiro-ministro de Israel estava


com a cabeça enterrada entre as mãos trêmulas. De
nada serviam as lágrimas, o medo se espalhava pela
terra e a guerra estava prestes a acontecer. O político
profundamente religioso era uma espécie rara de líder
em Israel. Uma longa estirpe de primeiros-ministros
tentara evitar o casamento da política com o judaísmo
desde que o país recuperara a vida após a Segunda
Guerra Mundial. David Hoffman havia
tranquilamente usado a fricção crescente entre a
florescente religião judaica e o movimento socialista
politicamente correto para abocanhar um cargo
público. Promoveu-se como um homem de princípios
que estava doente e cansado do compromisso político
com os árabes e as Nações Unidas. Sabia que os árabes
não parariam de fazer pressões para conquistar a terra
até que conseguissem Jerusalém. "A quantidade de
sangue derramado alcançará as rédeas dos cavalos
antes que isso ocorresse", pensou David, lembrando-
se da profecia bíblica.
Não era fácil influenciar David. Usava primeiro a
cabeça, depois o coração. Seguiu um curso restrito
que levara à abolição da reforma social, financeira e
política. Era conhecido entre os judeus e desprezado
entre os árabes. Tinha a capacidade singular de
espantar os árabes com algumas formas de submissão.
Não hesitou em ameaçar os
países do Oriente Médio com repercussões mili' tares
rápidas e prejudiciais, caso avançassem um
centímetro em seu território. O terrorismo
patrocinado pelo estado fora rapidamente extinto em
seu governo. Nenhum grupo do Oriente Médio tinha
determinação para reivindicar responsabilidade pelas
ações de seus mortos. Carros-bomba eram comuns,
mas não uma reivindicação arrogante de posse. Eles
sinceramente acreditavam que o primeiro-ministro
Hoffman tinha um dedo no gatilho e uma mente
perspicaz. Era o tipo de líder que colocava obstáculos
semelhantes a uma fortaleza no caminho dos
partidários do globalismo que sonhavam com um
governo mundial e um vazio mundial causado pela
guerra.
Hoffman era descendente da tribo de Judá e parente
distante do próprio rei Davi. O povo havia votado
nele porque abraçava a fantasia de que ele era o rei
Davi em uma versão moderna. Espantosamente, tinha
l,90m de altura. Seu físico era firme, porém,
envelhecido.
Sua filosofia de vida estava centrada no Antigo
Testamento: tratar as pessoas como se gostaria de ser
tratado, disciplinar com amor e sorrir sempre.
Seus índices na pesquisa estavam na casa dos 85% —
seu maior índice de aprovação. Algumas bombas
estrategicamente colocadas em países vizinhos
haviam dado um empurrão em sua popularidade. O
homem tinha um punho de ferro, mas poucas vezes o
usava.
— O que seu relatório diz hoje? — perguntou David
ao seu conselheiro. — Algum outro sinal de
movimento de tropas?
O conselheiro fincou os olhos em suas anotações. A
notícia, sem dúvida, era importuna.
— Os russos reuniram quase cem mil homens,
juntamente com centenas de tanques e o mais recente
armamento antiaéreo, em suas fronteiras mais ao sul.
Tenho razões para crer que o Irã, o Iraque, a Jordânia
e a Síria talvez cooperem.
O conselheiro militar enfiou o nariz na papelada.
David sabia que ele não estava lendo, mas se
escondendo.
— E as Nações Unidas? — disse David.
Seu conselheiro não moveu um músculo, exceto a
parte superior dos lábios, que costumava contrair em
situações de estresse.
— Dizem ser observadores neutros e pacíficos que
querem paz a todo custo. Mas é claro que essa
conversa não condiz com sua conduta. Nada novo por
lá — concluiu o estrategista.
— Pode-se pensar que eles esconderiam melhor suas
mentiras — desabafou o primeiro-ministro.
Seu conselheiro riu.
— Quando se fica ouvindo as mentiras que eles
dizem por muito tempo, começa-se a acreditar nelas
— observou ele.
— No que aqueles globalistas estão envolvidos? —
perguntou David.
— Meus informantes dizem que eles estão tentando
desbloquear nossas fronteiras ao norte e ao leste.
Querem nos ver afundar!
David colocou uma das pontas do aro dos óculos na
boca e começou a mordê-la.
— Que recursos temos? — examinou David,
infelizmente já sabendo a resposta. Orava à procura
de alguma revelação milagrosa vinda dos céus, na
esperança de que seu conselheiro fosse o profeta.
— Estamos encurralados, senhor. Nossa única defesa
é partir para um forte ataque. Temos de atacar pesado
e não afrouxar até que recuem!
O presidente Colt bateu a mão na mesa oval. Sentado
à sua frente estava seu velho amigo de escola, Patrick
Bonney, o Secretário do Tesouro. O tesoureiro dos
Estados Unidos parecia um homem morto esperando
pelo sepultamento.
— O senhor não entende, presidente. Oitenta por
cento de nossos títulos a curto prazo foram vendidos
a preço de banana. Não me resta dúvida alguma de
que teremos de oferecer índices astronomicamente
altos de compensação para atrair investidores.
O argumento bastante emotivo, porém inteligente,
entrou por um ouvido e saiu pelo outro. O presidente
parecia totalmente desinteressado no jogo de
números.
— Então, o quê? Vamos oferecer um índice alto para
que as pessoas possam ganhar algum dinheiro. Temos
programas sociais para todos. Por que não ajudar
aqueles que abriram falência em Wall Street? —
devolveu o testa de ferro.
— Senhor, com todo o respeito que lhe é devido, isso
faria com que nossas dívidas aumentassem em um
desenfreado efeito espiral. Em menos de um ano,
estaremos em um caos financeiro e provavelmente
social — anunciou seu amigo.
O presidente encolheu-se.
— Somos donos das máquinas de impressão. Vamos
simplesmente imprimir o dinheiro de que
precisamos.
— Imprimir dinheiro será um tipo diferente de
morte. O índice de inflação irá disparar como um
foguete, o que chamamos de hiperinflação!
O presidente Colt pegou uma caneta e a lançou na
direção de seu chefe.
— Eu sei o que é hiperinflação, seu idiota!
— Desculpe-me, senhor — sujeitou-se Patrick. —
Amo meu país e quero o melhor para ele. Se
chegarmos a ter uma hiperinflação, as pessoas verão
que o valor do dólar será cada vez menor. A mídia irá
fuçar em toda a história como urubus na carniça.
Nossa administração será essa carniça. As pessoas
acreditarão nela! Percepção é tudo na frente
econômica!
O presidente Colt levantou-se devagar com uma pose
de presidente. Seu sorriso amarelo deixou o amigo
pouco à vontade.
— Quero que você imprima apenas um pouco de
dinheiro, algo em torno de um trilhão.
Tente esconder isso do mercado de qualquer maneira
possível. Quando, enfim, essa medida for descoberta,
inicie uma campanha de relações públicas. Convença
o mercado de que a impressão deste dinheiro foi o
melhor passo a longo prazo que podíamos ter tomado.
Pinte o quadro de estabilidade e deixe os furacões
para aqueles constitucionalistas.
O Secretário do Tesouro olhava espantado. O
presidente estava passivamente esperando por uma
resposta. Patrick Bonney rapidamente se levantou e
fitou os olhos no velho amigo como se ele fosse um
estranho.
— Não o conheço mais! — começou Patrick.
O presidente Colt estava perplexo.
— Você não quis dizer isso, Patrick.
O principal oficial do tesouro estava chocado com a
mudança de caráter que havia ocorrido em seu amigo.
— Você só pensa em si mesmo e em como pode ficar
no topo da pirâmide. Suas prioridades estão confusas!
Você não se lembra daquelas longas noites na casa de
fraternidade em que falou em mudar o mundo? Você
disse que se colocaria à frente de um canhão se isso
ajudasse este país.
— Isso ainda é verdade — insistiu o presidente.
— Gostaria que fosse! Você está mais preocupado em
juntar este país, que outrora foi grande, às Nações
Unidas. Todos em Capitol Hill sabem que você está
andando às cegas. Talvez você se torne o primeiro
Presidente do Mundo sob o disfarce da democracia
das Nações Unidas, mas terá de destruir este país para
conseguir isso. Sei que nunca entraremos em um
consenso quanto ao verdadeiro intento da proposta
de um governo mundial, e que minha opinião faz
parte da minoria dentro do Círculo, mas serei fiel à
minha convicção de que as Nações Unidas não são a
resposta!
O Secretário do Tesouro dirigiu-se à porta sem pedir
para ser dispensado.
— Eu me recuso a vender minha alma cm troca de
poder. Acho lamentável você oprimir seus
compatriotas em busca de uma utopia que está
destinada ao fracasso!
O presidente Colt estava fervendo de raiva. Amigo ou
não, ele não tinha o direito de falar naquele tom ou
daquela maneira com o presidente dos Estados
Unidos. O problema era que o presidente Colt sabia
que seu amigo estava certo. Ele o admirava por ter
peito para lhe dizer isso na cara.
— Não consigo acreditar que você ficaria assistindo
de camarote uma tempestade nos engolir e chamaria
isso de bonança! — bateu de frente Patrick. —
Quando nossa moeda virar pó e meu país morrer,
pelo menos poderei me colocar diante de Deus e dizer
que me recusei a fazer parte disso. Com isso, eu me
demito de meu cargo como Secretário do Tesouro!
Patrick Bonney abriu a porta. O presidente Colt
correu para seu assento. Ele estava soltando fogo pelas
ventas.
— Você está cometendo um grande erro, Patrick.
Ninguém cruza o meu caminho!
Immanuel e Ken estavam em pé ao lado da limu-sine.
Suor descia sem parar pelo corpo dos dois. Ambos
estavam cuidadosamente observando a miragem,
curiosos para saber se ela era real.
— Você vê aquela água ou miragem naquele vale
entre aquelas duas grandes colinas? Foi ali que vi as
naves pousando — lembrou Ken.
Immanuel queria acreditar em seu novo funcionário.
Afinal de contas, quem gostaria de ter uma pessoa
desequilibrada trabalhando para apresentar sua
imagem às grandes massas?
Como uma pulga em um cachorro, Blasfêmia estava
grudado em Immanuel. Sabia que era hora de
começar os fogos de artifícios. Meteu a mão em uma
bolsa escura. Uma caixa vazia do tamanho de um
aparelho receptor e portátil usado por crianças
apareceu do nada. Blasfêmia bateu no dispositivo seis
vezes. A caixa vazia ficou cheia de rostos distorcidos.
Os rostos pareciam meio humanos e meio
extraterrestres. Como que em um milagre, eles
pareciam um cruzamento entre um mortal e o típico
"ET".
Blasfêmia sempre se comunicava com alguns dos
principais produtores de Hollywood. Ele lhes
fornecia informações sobre seus agentes especiais.
Na realidade, as supostas criaturas vindas de outros
mundos eram simplesmente demônios com o poder
de se materializar em um espectro visível. Contudo, o
plano do general andava como o mecanismo de um
relógio. As pessoas haviam se acostumado com a ideia
de alienígenas engraçadinhos e carinhosos, que eram
espertos o bastante para nos levar para uma nova era
de paz, amor e harmonia.
— O que exatamente você viu aqui? — perguntou
Immanuel. Ken Action apontou na direção do vale.
— Bem, eles eram redondos e feitos de um tipo
estranho de metal que nunca vi antes. Eles não
giravam; apenas pairavam no ar! E não faziam
nenhum barulho. Eram do tipo misterioso. Uh, eles,
uh, eram do tipo, bem... quero dizer, era como se eles
apenas... e, quando pousaram, eu vi essas coisas, você
sabe, uh, como...
Ken estava apontando para todos os lados, tentando
desenhar uma imagem.
Blasfêmia examinou seu relógio atômico de cristal,
fechou os olhos, dobrou os dedos e pronunciou um
feitiço. Energia eletrostática saía da ponta de seus
dedos e ia para a cápsula quadrada e depois para o
horizonte no oriente. A transferência de íons levou
alguns segundos.
De repente, seis naves apareceram no horizonte. Ken
Action foi o primeiro a localizar as cápsulas.
— Olhe, bem ali, à sua esquerda! — arquejou Ken.
A nave rapidamente aproximou-se dos dois. Ken
Action sentiu-se justificado, embora um pouco
ameaçado. Immanuel agarrou o braço de Ken.
— Bem, Ken, pensei que você tivesse um parafuso
solto!
Ken não ouviu uma palavra que ele disse.
— O que faremos agora: — disse Immanuel.
Ken começou a atravessar a areia funda e ríspida. Os
objetos arredondados pousaram a cerca de 180 metros
de distância. Immanuel seguiu Ken, mantendo uma
boa distância do corajoso âncora.
As seis naves eram exatamente como Ken as
descrevera.
Eles não podiam ouvi-las, cheirá-las, experimentá-las,
nem senti-las, mas podiam vê-las. O padrão de pouso
dos OVNIs parecia estar em um Círculo desigual. Não
havia sinal de vida.
Sem pensar, Ken começou a correr a toda velocidade.
Immanuel seguia seus passos, mas não tão rápido. Ken
diminuiu os passos assim que se aproximou de uma
das naves. Esticou a mão trêmula na direção do
gigante de metal. Quando estava para fazer um
contato, Blasfêmia gritou em sua direção e o lançou
uns seis metros para trás. Ken saiu voando pelo ar e
foi parar de costas bem em frente de Immanuel. A
areia amorteceu sua queda, mas não seus nervos.
Immanuel franziu a testa. Ken pôs-se em pé,
ofegante. Não parecia estar seriamente machucado,
apenas abalado.
— Não acho que vou tentar fazer isso! — observou
Immanuel, pouco emocionado.
O obstinado âncora recuperou as forças e bateu a
areia quente de sua camisa.
— Acho que deve haver algum tipo de campo de
força que os protege de ataques externos — presumiu
Ken.
O demônio grandalhão dava risadinhas. Blasfêmia
sabia que as naves eram simplesmente projeções
espirituais sem massa. Jamais poderiam ser tocadas.
Os objetos voadores não identificados apareciam no
radar, mas só porque os espíritos de Satanás podiam
alterar os códigos dos computadores. Eram apenas
uma miragem, fruto da habilidade de um demônio.
Milhares de pessoas haviam testemunhado esse
fenômeno, contudo, ninguém conhecia a verdadeira
origem ou objetivo que estava por trás disso. Satanás
havia designado um pequeno grupo de demônios,
liderados por Blasfêmia, para familiarizar o mundo
com criaturas vindas de outros planetas.
A porta da nave que estava mais próxima deles
começou a descer em silêncio. O coração de Ken batia
forte contra o peito. — A porta está se abrindo! —
titubeou Ken.
Immanuel queria saber como tudo isso se encaixaria.
Não era sua hora de morrer. Ele não havia dominado
o mundo ainda. Suas metas ainda não tinham sido
alcançadas. Balançou a cabeça e se concentrou na
aeronave.
Blasfêmia saiu do OVNI. Quando ele reapareceu, Ken
e Immanuel deram dois passos rápidos para trás.
Blasfêmia estava mancando de uma perna como se
estivesse ferido. No entanto, o que Ken e Immanuel
viam não era Blasfêmia, mas um alienígena. O
alienígena começou a pairar sobre a cabina de sua
máquina das estrelas.
Ken e Immanuel caíram de joelhos. O holograma
parecia real. Eles olhavam um para o outro como dois
meninos que estavam prestes a entrar em uma casa
mal-assombrada. A tentativa de Immanuel de ficar
em pé foi frustrada. Um dos amigos de Blasfêmia
pulava em seus ombros como se ele fosse um
trampolim. O extraterrestre começou a planar na
direção dos dois.
A criatura parecia ter um semblante de paz.
Immanuel nunca tinha visto tamanho contenta-
mento. Parecia insensível às condições desagradáveis
do deserto. O desempenho de Blasfêmia na arte de
enganar era espetacular.
Nem Immanuel nem Ken ousaram dizer uma palavra
ou mesmo mover um músculo. Seus lábios estavam
cerrados de medo. Enquanto Blasfêmia se aproximava
dos dois, seus olhos do tamanho de uma bola de
beisebol emitiam uma mensagem espiritual.
— Não temam. Vim trazer boas notícias para a terra.
Seus desejos foram ouvidos e atendidos. Meu povo me
enviou para prenunciar um novo mundo, livre de
guerras.
Seu sinal transcendental ficava registrado no coração
dos dois.
Immanuel deu um passo à frente.
— Eu represento as Nações Unidas do mundo. Como
posso ajudá-lo?
A criatura examinou Immanuel. Parecia estar
processando alguma forma de informação. Immanuel
esperava que esse incidente não fosse fruto de seus
pensamentos. O insensível banqueiro tentou devolver
a intimidação, mas sem sucesso. Não tinha idéia de
que Blasfêmia estava pregando mais uma de suas
peças.
— Eu represento os Mundos Unidos do universo.
Seu planeta está à beira de um colapso e eu vim para
ajudar — afirmou o demônio recatado e astuto.
Os olhos de Ken se arregalaram assim que ele
começou a pensar na vida saudável do espaço
cósmico.
— Como você pretende nos ajudar? — sondou
Immanuel.
— Os terráqueos são pessoas obstinadas!
O disfarce de Blasfêmia fazia com que os dois
palhaços se mostrassem submissos.
— As pessoas da Mãe Terra devem se unir como uma
família. Todo homem, toda mulher, toda criança e
todo animal deve olhar para o seu próximo como se
ambos tivessem o mesmo corpo. Afinal, a terra é uma
só. Todos nós estamos ligados a um espírito universal
de bondade e paz.
O alienígena fez uma pausa, como se estive captando
um sinal. Immanuel observava todos os movimentos
da criatura em busca de pontos fracos.
— Seu líder, Lorde Birmingham, tem um presente
dos deuses cujo dono deve ser você. Você é o único
que tem o intelecto para saber o que fazer com ele.
Ken parecia confuso, mas Immanuel estava curioso.
— Seu guia espiritual lhe dirá o que fazer. Não
cometa erros! — advertiu o alienígena impostor.
Blasfêmia, no mesmo instante, percebeu a cara de
interrogação de Immanuel.
— Somos uma espécie extremamente evoluída.
Grande parte do universo está anos-luz à frente da
Terra em seu caminho de evolução rumo à divindade.
A terra é o câncer que precisa ser curado ou
exterminado. As pessoas do planeta terra são
empecilhos para os restantes à herança do universo.
Blasfêmia pairava perigosamente próximo aos
mortais. Ken logo saiu rastejando para longe do
extraterrestre. OVNIs, guias espirituais e o caráter
deste tal de Immanuel eram mais do que ele podia
suportar. Immanuel mantinha firme sua posição,
desafiando a criatura a ajustar sua atitude. Blasfêmia
já estava farto da ostentação de Immanuel. Pegou um
cristal que trazia consigo para momentos como este.
O globalista piscava, na esperança de dar uma boa
olhada na pedra misteriosa. A criatura colocou-a
entre os dois dedos. Esmagou o cristal na areia e
lançou as partículas na direção de Immanuel. Cada
partícula tinha uma lembrança própria. Elas
rapidamente entraram no sistema de Immanuel pelo
nariz, ouvidos, boca e olhos.
Levou menos de seis segundos para Immanuel
começar a ter alucinações. Ele estava na boca do
inferno. Era realmente o lugar que Deus havia re-
velado para todos os anjos, bons ou maus. Ken assistia
apavorado enquanto Immanuel rangia os dentes,
arranhava o rosto e gania como um lobo furioso.
Assim que surtiram o efeito desejado, os cristais
saíram. Após juntarem-se novamente na palma da
mão do alienígena, eles desapareceram.
— Para aqueles que confiam nos meus sábios
caminhos, eu sou um amigo. Para aqueles que se
opõem às minhas soluções para a enfermidade do
mundo, sou um inimigo — assustava o espírito,
enquanto se aproximava de Immanuel.
Ken estava derretendo de calor, e Blasfêmia
enternecia seus desejos.
— Vocês vão aparecer para o povo deste mundo? —
inseriu Ken. O alienígena, que não tinha emoção,
voltou-se para o repórter.
— Nós iremos nos revelar se — e quando —
julgarmos necessário. Até lá, espero a colaboração
total das Nações Unidas!
Immanuel levantou a mão, não para contestar, mas
para pedir permissão para falar. O espírito fez um
sinal de aprovação.
— Estou ansioso para trabalhar com você em um
futuro próximo — bajulou Immanuel.
Blasfêmia ignorou seu alcoviteiro, enquanto planava
de volta à nave.
— Soltem os prisioneiros — ordenou Blasfêmia em
espírito. Os demônios obedeceram, contudo, estavam
extremamente desapontados por não poderem usar
seus fantoches para praticar tiro ao alvo.
Immanuel tomou a iniciativa e se levantou. Ken
Action rapidamente fez o mesmo.
Blasfêmia chegou à nave e virou-se para encarar seus
servos.
— Lembrem-se: vocês são simples parasitas na escada
da evolução do universo. Vocês devem aprender qual
é o seu lugar no corpo antes de servirem para alguma
coisa. Nunca usamos a força, a menos que tenhamos
de disciplinar. Guerra gera guerra! Aquele que é
contra nós, na verdade, é contra si mesmo e não
reconhece isso porque é espiritualmente cego para a
verdade. A ignorância das leis naturais dos céus
provoca o desespero e a destruição!
Suas palavras comoveram a alma dos dois. Sua
mensagem continuaria na mente desses homens por
anos e anos, destilando seu veneno repetidas vezes.
— Já dura dois dias o "massacre da bolsa de valores"
ou a "fusão do dinheiro", como chamam alguns —
informou a bela âncora da Rede de Notícias Globais.
Os termos fusão e massacre faziam parte de uma
decisão editorial para dissimular a notícia. Esta
decisão premeditada fez um número maior de pessoas
assistirem ao programa, o que levou os anunciantes a
comprar pontos comerciais, sinônimo de mais
dinheiro para as novas equipes de trabalho. A
disseminação exata das informações raramente ficava
no caminho de novas investidas.
O mercado americano havia perdido menos de 10%
de seu valor, longe de uma "fusão" ou um "massacre".
As chocarrices vindas da mídia de língua inglesa
traduziam o evento para uma profecia de tristeza e
destruição que se cumpria por si só. A distorção era
vista como verdade, o que levou à ação baseada na
falsidade que, por sua vez, fez da mentira uma
realidade.
— As bolsas de valores do mundo todo estão
registrando um segundo dia de transações recordes e
quedas horrendas. A Bolsa de Valores de Nova York
caiu outros 8% antes de ser forçada a encerrar o dia
seis horas mais cedo. A percepção pública do
fechamento antecipado do mercado está pesando
sobre os investidores e o governo dos Estados Unidos.
Mercados do mundo inteiro estão respondendo à
crise mediante a venda de dólares em quantidades
recordes.
Lorde Birmingham ria em silêncio como um lince
pronto para devorar um coelho indefeso. A má
notícia sobre a economia mundial era boa para ele.
Enquanto bebia um Bloody Mary, ele
lançava os olhos para o relógio. Em seguida, fez uma
carranca.
— Bem, senhores, nosso amigo Immanuel Bernstate
parece estar correndo contra o tempo. Tenho certeza
de que qualquer que seja o motivo de seu atraso, deve
ser algo de extrema importância. Antes de começar
oficialmente nossa reunião, estou curioso para saber
se alguém pensou em uma forma de juntarmos os po-
líticos europeus? Sem dúvida, esta questão será
estritamente confidencial — anunciou Lorde
Birmingham.
Os onze figurões do ramo bancário ponderaram a
pergunta do lorde. Douglas McSwath, diretor-
executivo das monstruosas empresas de investimentos
da Inglaterra, limpou a garganta.
— Lorde Birmingham, nosso plano está correndo
bem. Não vejo necessidade de se preocupar com esses
cães desgarrados. Advertimos esses políticos que o fim
do papel-moeda estava bem próximo. È hora de
depenar e fritar o frango! Esses políticos precisam
aprender uma boa lição sobre quem controla suas
economias. Tudo de que precisamos é tempo. Ou eles
se juntam ao time ou pulam fora do campo de jogo!
— O tempo pode amadurecer seis, talvez sete, dos
dez — previu o lorde. — Inglaterra, Suíça, França e
Alemanha estão resmungando interrogações a esta
altura. Minha intuição é a seguinte: esses homens irão
para a sepultura antes de renunciar ao poder em
nosso favor. Sua soberania é mais importante para
eles do que comida e água.
— Talvez essa não seja uma má idéia — considerou
McSwath.
— Podemos facilmente organizar algum tipo de
revolução econômica nesses regimes dissidentes.
Durante as revoluções, nós simplesmente arrancamos
esses tumores. Tenho uma lista de matadores
profissionais que poderiam fazer o trabalho de forma
impecável, sem deixar pistas.
Os homens estavam espantados com sua franqueza.
Todos eles já haviam cometido assassinatos em nome
da iniciativa privada, mas nunca falaram disso em
termos tão desumanos. Para eles, era a lei do "bem
maior para o maior número possível", um conceito do
qual Lenin havia-se apoderado sob o sistema
comunista. Ele assassinou dezenas de milhões para
que centenas de milhões pudessem supostamente
estar em situação melhor. Nunca falar em assassinatos
era uma lei fundada nos costumes; apenas cometa e
varra a sujeira para debaixo do tapete.
— Ouçam. Nós colocamos a culpa em alguns
fanáticos da direita. Promovemos lutas entre as
classes, enchemos os meios de comunicação com
nossa versão da verdade e apresentamos o salvador
em uma bandeja de ouro.
McSwath examinou a atitude dos homens na sala.
Talvez tivessem extrapolado em termos de
sinceridade e ido longe e depressa demais. Decidiu
proteger-se.
— Devo dizer-lhes que esta idéia não é minha —
mentiu McSwath.
— E daí?! Gostei! Faz sentido! — declarou Lorde
Birmingham.
— Devemos andar logo com isso, a menos que
Immanuel encontre algum defeito em nossa lógica.
McSwath prendeu a respiração e começou a bater de
leve o nó dos dedos lisos e grosseiros na mesa.
— Immanuel certamente gostará disso, uma vez que
a ideia partiu dele! — admitiu McSwath. — Estou
apenas passando adiante sua ideia porque ele não está
aqui ainda.
Uma explosão de risos ouvia-se de todos os lados do
escritório. — Essa foi ótima. Immanuel
provavelmente mandaria cair um raio na cabeça de
vocês se soubesse que deram crédito a uma de suas
idéias.
McSwath forçou um sorriso largo.
Uma luz piscava silenciosamente no telefone
particular de Lorde Birmingham. Ele passou a ligação
para o viva-voz.
— Birmingham, é Immanuel.
A expressão de Lorde Birmingham tornou-se abatida
e turva.
— Estamos prontos para começar a reunião —
comentou o magnata.
— Ouça, tive de fazer uma pequena mudança em
minha agenda que me impedirá de comparecer à
reunião.
Todos fizeram uma expressão de alívio. Immanuel
tinha um jeito de intimidar esses grandes enrolões.
— Acabei de contratar nosso novo porta-voz da
mídia, que será responsável por nossa imagem
pública. Na semana que vem, o mundo estará na
ruína fiscal! Você sabe que alguns direitistas da mídia
estarão reunidos de dois em dois. Será um verdadeiro
circo. Não precisamos desse escrutínio para
continuarmos sem disputa. Este homem tem o tipo de
talento de que precisamos para a situação.
O anúncio do líder diminuiu alguns de seus temores.
— Onde podemos encontrá-lo se acontecer alguma
situação imprevista? — perguntou Lorde
Birmingham.
— Estarei em Israel. Entre em contato com o
escritório do primeiro-ministro se deparar-se com
algo que exija minha atenção imediata.
A linha telefônica foi abruptamente interrompida.
Immanuel não era um homem de etiquetas.
Immanuel apertou o sensor de seu telefone
novamente. Uma voz baixa respondeu do outro lado
da linha.
— Sim.
Immanuel mordeu os lábios.
— Tenho um trabalho para você.
— Ótimo — disse o americano.
— Você precisará de muitos homens.
— Quantos?
— No mínimo cinquenta — disse Immanuel.
— Sem problema.
— Pessoas vão morrer — previu o Anticristo.
— Legal! — resmungou o homem.

A ajudante excepcionalmente atraente observava


todos os detalhes com um cuidado minucioso. Tudo
tinha de estar impecável. Estendeu as mãos longas e
delicadas para endireitar a gravata, movendo-a um
centímetro para a esquerda.
— Assim está melhor, Sr. Presidente. O senhor está
muito elegante — seduziu a mulher.
O presidente Colt tentava concentrar-se em seu
discurso, em vez de dar atenção a sua prostituta
particular.
— Trinta segundos para entrar no ar — gritou uma
voz que vinha detrás da câmera.
O presidente constantemente limpava a garganta.
— Dez segundos e pronto.
O presidente Colt endireitou a postura. Parecia um
ilustre, porém medíocre, americano. A luz vermelha
em cima da câmera começou a piscar.
— Boa noite, companheiros americanos. Solicitei
esta coletiva especial por duas razões muito
importantes. Meu objetivo esta noite é dirimir
algumas dúvidas sobre alguns eventos em curso. A
primeira questão é a instabilidade financeira que tem
surgido nos últimos dias. Quero aplaudir aqueles que
depositaram suas economias em nossas fortes bolsas
de valores e em nossos títulos do tesouro. Os Estados
Unidos da América é um navio que tem resistido a
muitas tempestades. Sempre vimos à tona mais fortes
e mais seguros. Às vezes alguém tem de passar por
provações para que sua força e agilidade sejam
testadas.
O presidente inclinou-se na direção da câmera.
— Vocês sabem que se uma árvore em crescimento
nunca se deparar com uma rajada de vento ou uma
tempestade, no primeiro temporal, ela irá ao chão. No
entanto, deixem uma árvore desenvolvida passar por
tempestades constantes e seus galhos se curvarem e
balançarem com as correntes. Ela permanecerá firme
quando o furacão arrasador passar! Ela foi testada e
aprovada. Nós estamos sendo testados como essa
árvore! A vida de nossa história está repleta de
tempestades, e este grande país sempre resistiu a elas
— disse ele, ajeitando-se na cadeira.
— Nosso país está tão firme hoje quanto o estava na
semana passada. Na verdade, creio que seu alicerce
está mais forte! Nada mudou para fazer com que
nossos mercados reagissem como se o mundo
estivesse por acabar. O que mudou é nossa percepção,
nossa crença. Se todos quiserem que nosso sistema
financeiro entre em colapso, então, infelizmente, ele
entrará. Sim, vocês me ouviram bem. Se os Estados
Unidos querem a autodestruição, ela virá! Mas por
que alguém em sã consciência iria querer ver uma
coisa dessas acontecer à maior nação que já agraciou
este planeta?
As lições dramatizadas do presidente estavam
rendendo enormes dividendos. Ele olhava para suas
anotações, visivelmente abalado com a ideia.
Centenas de milhões de pessoas assistiam à coletiva
enquanto o presidente resistia às lágrimas ensaiadas.
— Tudo de que precisamos para voltar ao caminho é
confiança! Precisamos da fé que pode mover
montanhas! Creio que todos os americanos não
entrarão em pânico e farão a coisa certa — disse ele,
apontando o dedo para a câmera, sem tom de ameaça.
A corja da imprensa furiosamente escrevia em seus
blocos de anotações.
— Justamente hoje demiti meu Secretário do
Tesouro. Creio que suas políticas são parcialmente
responsáveis pelo fiasco no qual nos encontramos.
Não me levem a mal. Não sou do tipo que joga a culpa
no outro. Não sou um covarde. Sou comandante
supremo e assumo total responsabilidade pelas ações
de minha equipe. Creio que as semanas seguintes
oferecem esperança e encorajamento para nosso
sistema monetário e nosso modo de vida.
Ele olhou para suas anotações.
— Segundo, tenho orgulho em anunciar que os
Estados Unidos concordaram em enviar 200 mil
tropas para ajudar a pôr um fim em nosso conflito
civil. Entendo perfeitamente por que muitos de
nossos bravos homens e mulheres do Exército se
recusam a disparar fogo em seus compatriotas. Eles
não terão de fazê-lo agora. Deixe-me conscientizá-los
dos constitucionalistas que se recusam a baixar suas
armas: os Estados Unidos não terão piedade de seu
entusiasmo nacionalista inadequado! Desistam agora
mesmo! Dentro de semanas, creio que nosso conflito
terá ficado para a história. Nossos mercados mais uma
vez serão prósperos, e nosso coração estará em paz!
Mantenham a fé, e que Deus abençoe os Estados
Unidos!
Algumas horas depois, Immanuel encontrava-se do
lado de fora do escritório do primeiro-ministro, no
centro de Jerusalém.
A cidade de pedra estava dividida por religiões e
épocas. O antigo centro da cidade, destruído pelos
romanos durante os tempos bíblicos, dava
testemunho do espírito inflexível do povo judeu. A
Jerusalém dos tempos modernos era uma cidade
agitada de meio milhão de habitantes. Por anos
seguidos, os judeus e muçulmanos profundamente
religiosos haviam desesperadamente tentado viver em
harmonia. Com o passar do tempo, as tensões
continuaram. Os dois grupos declaravam direitos
exclusivos sobre esta cidade histórica como um
centro de adoração. Muitos estavam dispostos a
morrer por este minúsculo pedaço de terra. Era sua
fortaleza religiosa, seu céu na terra. Na mente deles, o
compromisso era para covardes. Era um milagre a
guerra não ter ainda destruído este país.
Este ano, o clima de harmonia estava mudando.
Todas as semanas, milhares de judeus deixavam a
terra cada vez mais totalitária da Rússia para buscar
refúgio em Israel. Muitos eram judeus ortodoxos
dedicados ao seu Deus, e recusavam a ideia da riqueza
material como um caminho para alcançar a
felicidade. Eram sinceros em acreditar que a
mentalidade secular era a razão pela qual os profetas
dos tempos antigos condenaram os judeus de seu
tempo. Os judeus seculares viam os judeus ortodoxos
como uma bomba com estopim curto. Eles os
consideravam retrógrados e simples.
Enquanto isso, os muçulmanos estavam cada vez mais
agitados com as políticas governamentais de Israel,
que favoreciam os cidadãos judeus em seu lugar,
dando tratamento preferencial a esses colonizadores.
A terra dos muçulmanos estava sendo confiscada por
uma fração de seu valor e entregue aos imigrantes.
Como espinhos crepitando em um incêndio aberto,
em apenas uma questão de tempo a nação explodiria,
lançando cardos de violência que se espalhariam por
toda a terra.
Immanuel estava meditando com Blasfêmia quando o
primeiro-ministro David Hoffman o cumprimentou
com um forte aperto de mão.
— Sr. Immanuel Bernstate, é um prazer conhecê-lo
— mentiu o político instruído.
Immanuel percebeu o fingimento, contudo, preferiu
fazer o jogo.
— Sou um profundo admirador de sua incomparável
ascensão ao poder. De fato, bastante impressionante!
— prosseguiu Immanuel.
O líder de Israel empurrou o representante das
Nações Unidas para dentro de seu escritório. Não
queria ser visto tolerando o inimigo em solo
israelense.
— Sente-se, por favor, Sr. Bernstate — pediu David.
Immanuel concordou sem dizer uma palavra.
David olhou para o relógio, o que Immanuel tomou
como um insulto.
— Eu sei que seu tempo é importante, Sr. primeiro-
ministro. Creio que faz parte de seus melhores
interesses para o país não levar em conta o que tenho
a dizer de forma inconsequente — advertiu o chefe
político.
David balançou a cabeça, não para concordar, mas
para reconhecer que ele havia ouvido o globalista.
Permaneceu em silêncio, pouco à vontade.
Immanuel abriu sua pasta de couro preto, tirou um
contrato e o entregou para o líder de Israel.
— Sr. Hoffman, este é um tratado de paz que as
Nações Unidas estão graciosamente oferecendo ao seu
povo.
David nem se deu ao luxo de olhar para o contrato
antes de lançá-lo ao colo de Immanuel.
— Esse documento não me serve para nada. É
necessário guerrear antes de firmar um tratado de
paz.
A calma de Immanuel estava a ponto de vir abaixo. O
menor tremor poderia levar o vulcão inativo à
erupção.
— Meu país é uma nação soberana governada por
Deus. Vocês, das Nações Unidas, se contentam em
brincar de Deus com países pequenos. Vocês,
burocratas, são simples brigões tentando atormentar
os aparentemente fracos e indefesos. Nós não somos
nada disso.
David bateu a mão na mesa.
— Deixe-me assegurar-lhe que estamos de-
terminados a lutar com o mundo todo, se preciso for,
para ficar com a terra que nos foi dada por Deus. Cada
metro quadrado de nossa pátria, desde o Mar Morto
até Tel Aviv, é zona proibida para você e seus
capangas! — David fez uma pausa enquanto media
Immanuel. — Eu sei que você deu sinal verde à
Rússia para cuidar deste espinho em sua carne!
Immanuel interrompeu o primeiro-ministro.
— Este tratado de paz garante proteção das Nações
Unidas contra todos, estrangeiros e nativos — repetiu
o internacionalista, delicado. — Isso inclui os
muçulmanos!
O primeiro-ministro continuou a franzir a testa, sem
se intimidar com o discurso de Immanuel.
— A única forma de ter paz nesta região é desarmar
os cidadãos, armar as Nações Unidas e reconstruir o
templo de Davi! — revelou Immanuel.
David Hoffman não podia acreditar no que ouvia.
Esta oferta significava a perda dos muçulmanos de um
de seus templos sagrados, o Domo da Rocha.
— Isso é loucura! Os muçulmanos lutariam até a
morte antes de permitirem uma coisa dessas!
Immanuel não pareceu se intimidar com a lógica do
líder.
— Sr. Hoffman, as Nações Unidas já apresentaram
uma proposta de paz ao povo islâmico. Temos
negociado a escritura do Domo da Rocha por algo
ainda mais valioso para eles. Posso lhe assegurar que
eles não ficarão em nosso caminho! — conversava
Immanuel com o líder israelita como se ele fosse um
irmão. — As Nações Unidas fornecerão os fundos —
por baixo do pano, é claro — para a reconstrução do
templo que seu povo tanto anseia. Queremos ver o
povo judeu adorando o seu Deus com alegria!
O primeiro-ministro olhava como um falcão para
aquele que parecia ser um pacificador. Com certeza
estava desconfiado.
— Estou curioso — começou David, enquanto
mudava de posição na cadeira. — Por que você e as
Nações Unidas estão preocupados com os judeus?
Pelo que conheço de sua história, somos um estorvo
para que alcancem seus objetivos — cutucou David.
Immanuel não hesitou em dar a resposta. Esperava
por uma barragem de dúvidas.
— Nós odiamos a guerra! É degradante para o
espirito humano. As Nações Unidas querem trazer
uma nova era de paz para este frágil planeta —
posicionou-se o globalista.
— Não me venha com esse lixo! Conheço sua
agenda! Qualquer idiota por aí conhece seu jogo.
Todos nós queremos paz, mas a pergunta é: a que
preço? Minha intuição me diz que você tem um
enorme desejo por poder, não por paz!
— É claro que o senhor é o único que quer o conflito
respondeu Immanuel. — Tentei de boa fé lhe
oferecer um presente sem restrições.
O primeiro-ministro ria em silêncio da tentativa de
Immanuel de distorcer a verdade.
— Serei honesto com o senhor. — exclamou
Immanuel — Nós temos um motivo mais profundo!
Muitos países estão barrando nosso plano de alcançar
a paz mundial. Todos eles parecem acreditar que não
somos capazes de gerar uma paz permanente no
mundo. Eu não os censuro! Precisamos de um local
para realizar o teste. O Oriente Médio tem sido um
berço de hostilidade por quase dois mil anos. Se
pudermos fazê-lo aqui, então, poderemos fazê-lo em
qualquer lugar do mundo!
O tom de Immanuel passou do de um diplomata para
o de um amigo íntimo.
— A paz mundial só será atingida se, e somente se, o
conflito entre israelenses e árabes for amenizado.
Resumindo, a paz mundial está sobre nós. Se
pudermos convencê-los a resolver suas diferenças,
uma paz infinita poderá, então, ser alcançada!
A franqueza do banqueiro não combina-va muito
com o primeiro-ministro. Faltava alguma coisa, como
a verdade. Ele fazia o jogo, na esperança de descobrir
o que estava nas entrelinhas.
— Então, você está disposto a derrubar o Domo da
Rocha e reconstruir nosso templo ali? E você pode
garantir que não haverá sangue?
Immanuel parecia ter mais cuidado com as palavras.
— Não posso lhe garantir que alguns fanáticos
religiosos isolados não causarão algum tumulto, mas
posso dar minha palavra em nome dos governos
muçulmanos. Eles estão com a situação garantida.
Immanuel não teve ousadia de conversar sobre a arca
ou os Dez Mandamentos com o primeiro-ministro,
que daria seu braço direito pelos tesouros religiosos. E
continuou a falar:
— Eles irão controlar seus membros da melhor
forma possível. Lembre-se, Sr. Hoffman, de que eles
usam métodos de tortura contra qualquer um que
discorde deles, até contra seus membros errantes!
O primeiro-ministro ainda não confiava em
Immanuel, embora suas palavras fossem sugestivas.
David achou engraçado o fato de Immanuel pensar
que poderia fazê-lo acreditar que poderia controlar os
governos árabes.
Immanuel lançou o tratado de paz no rosto de David.
— Assinar esse documento garante um futuro
próspero para seu país e para sua carreira! Ele
também é o catalisador para a paz mundial que,
segundo o que sei, é o desejo do seu Deus para o povo
Dele!
David colocou-o de volta na pasta de Immanuel, sem
assiná-lo.
— Minha opinião à seu respeito e a respeito de sua
confusa organização não pode ser mudada da noite
para o dia! — irritou-se David Hoffman.
Immanuel não se intimidou.
— Você acredita em Deus? — sondou Immanuel.
David olhou para ele.
— Uma pergunta como esta dispensa meus
comentários! — tornou a irritar-se o homem de Deus.
Immanuel pegou a pasta com uma cara extremamente
séria.
— Prepare-se para encontrar-se com o seu Criador
hoje à meia-noite — disse Immanuel, sereno.
A língua do primeiro-ministro deu um estalo.
— Como ousa a ameaçar de morte um líder de
estado? — irritou-se David.
Immanuel abriu a porta.
— Não foi uma ameaça!

***
Satanás planava no horizonte vindo do sul, com o
fedor da morte no seu rastro. Já estava quase na hora
de colher os frutos de seus planos para uma nova
ordem mundial, embora algumas partes deles
estivessem apodrecendo na vinha.
Ele havia acabado de dar as caras nas Nações Unidas,
onde havia plantado sementes espirituais de sedução.
Seus olhos escarlates examinavam os buracos de areia,
à procura de Blasfêmia na paisagem suíça abaixo.
Lúcifer deixou escapar um grito tão forte que os
pássaros chegaram a perder penas a uns 160
quilômetros de distância.
Blasfêmia, que estava se espreguiçando no teto de
uma igreja da Nova Era, quase caiu duro. Sabia que
estava com problemas. O Senhor das Trevas localizara
seu vice-comandante a 30 quilômetros de distância.
— Blasfêmia, o que você está fazendo? — lançou o
dragão.
Satanás mergulhou de nariz na direção do lânguido
general.
O oficial com cinco insígnias não teve tempo para
pensar. Em vez de cair de joelhos e implorar por
misericórdia, ele disparou para o planeta mais
próximo. Seu corpo estalou assim que decolou em
linha reta da viga da igreja. Satanás voou a todo vapor
e cravou suas garras venenosas nos cabelos
chamuscados de Blasfêmia. O demônio traidor gritou.
O punho de Satanás prendia-se ainda mais aos seus
cabelos. Ele aproveitou a outra mão, que estava livre,
e a passou em volta do pescoço contorcido de
Blasfêmia. Misericórdia era uma palavra cujo
significado o Diabo não entendia. Sua força esmagava
o pescoço de Blasfêmia.
— Eu lhe dei ordens expressas para proteger
Immanuel. Por causa de sua insubordinação, aquele
israelense cabeçudo desprezou nosso contrato de paz!
Satanás continuou a solapar o espírito de Blasfêmia.
As palavras atrasadas do general reduziram-se a um
alto e esquisito suspiro.
— Não pensei que ele...
O Maligno o esmurrou como se ele fosse um saco de
pancadas. — Isso mesmo! Você não pensou! Tenho
menos de sete anos para me defender do nosso
mordaz Criador, e você nos faz retroceder meses ou
até anos!
Blasfêmia sabiamente caiu de joelhos em sinal de
submissão. Satanás recusou-se a se abaixar com ele.
Isso deixou o demônio dependurado no ar. Ele estava
quase perdendo a consciência.
— O Deus Jeová sempre protegeu o Sr. Hoffman com
o arcanjo Miguel — conjeturou Satanás. — Será
melhor para você se eu conseguir acabar com as
linhas do inimigo e chegar a ele antes que seja tarde
demais!
O grande dragão deixou Blasfêmia cair como se fosse
um saco de lixo. Em seguida, saiu voando com uma
terrível raiva, indo direto para Jerusalém.

O relógio na parede da Bolsa de Valores de Nova


York marcava 9h21. No início do terceiro dia do
"grande acerto de contas", o mercado chocou analistas
por lançar um adicional de 12% em apenas 21
minutos. A campainha tocou em sinal de
desaprovação uma vez que as negociações estavam
antecipadamente encerradas pelo terceiro dia
consecutivo. A história estava sendo formada. Os
corretores de Wall Street estavam sendo perseguidos
pelos especuladores e recebendo cartão vermelho. Na
realidade, eram os corretores que tinham os
especuladores pendurados em suas paredes, cheios de
seu próprio orgulho.
Grande parte do dinheiro que deixava o mercado era
destinado a fundos de metais preciosos,
principalmente de ouro. Aquele teste de desempenho
de sistema havia acabado de chegar à marca de mil
dólares em Nova Iorque. Os investidores faziam fila
para comprar ouro, e Birmingham e seus agentes
detinham quase 95% dele. O valor da liga pura estava
impressionando o mundo. Os banqueiros europeus
tinham cinco ases guardados no punho.
Lorde Birmingham olhava fixo para a tela do
computador.
Analisava os números. Tudo, desde fundos mútuos de
investimentos a ações, títulos, dividendos e cifras de
metais preciosos aparecia na tela simplesmente
apertando um botão.
— Quando os senhores acreditarem que o mundo
estará espalhando que eles estão imprimindo
dinheiro, não haverá amanhã.
Birmingham fez uma pausa para observar as reações
de seus desprezíveis consumidores de dinheiro, seus
cúmplices por toda a vida. O diretor do maior banco
da Alemanha começou a falar.
— Eu dou duas semanas! Não vai demorar muito
para que alguns dos cães mais aguçados por aí
encontrem um rato. Daí então, umas poucas gramas
de ouro deverão ser vendidas a cinco mil dólares!
Uma vez que a verdade sobre aquelas máquinas de
impressão hiperativas venha à tona, a maioria das
pessoas terá seu portfólio total em ouro. Elas irão
seguir o plano até à beira do desfiladeiro, sem
perguntas! Calculo que os títulos do governo terão de
triplicar da noite para o dia, fazendo com que um
monte de idiotas invista em papel sem valor. A
hiperinflação deverá esmagar a maioria deles. O
sistema mundial deverá entrar em colapso, assim
como o da Alemanha nos anos de 1920! Minha única
preocupação é: o que faremos com todo esse ouro?
Será que fortaleceremos a moeda comum européia
com ele?
O alemão olhou para Lorde Birmingham a fim de
receber orientação. O lorde balançou os ombros.
— Não sei ao certo como Immanuel prevê o uso de
todo esse dinheiro e poder — recuou Lorde
Birmingham. — Eu, por minha parte, preferiria não
lhe dar uma segunda chance.
***
David Hoffman olhava para o teto, com visões de
uma aniquilação nuclear atacando sua mente. Estava
encolhido em sua cama tamanho gigante, coberto
com um acolchoado. Coberta e ressonando ao seu
lado estava sua querida esposa de 35 anos. Em vez de
contar carneirinhos, ele contava tanques de inimigos
na fronteira do Irã.
De repente, uma imagem fantasmagórica
materializou-se no teto bem acima dele. David
pensou que estivesse tendo um pesadelo. Ele be-
liscou-se, mas de nada adiantou.
O relógio de seu avô no corredor começou abater. Era
meia-noite, e a hora mágica era oportuna. A sombra
vaga transformou-se em um anjo de luz. Parecia o
patriarca Moisés, de barba, cajado e sandálias.
— Quando tirei seus antepassados do Egito, eu o fiz
em paz. Eu, Moisés, lhe peço para buscar o caminho
da paz! Vim para mostrar-lhe que o caminho do bem
abre as portas do céu. Immanuel mostrou-lhe o
caminho para a paz, mas você o desprezou. Ao
repreendê-lo, você repreende nosso Pai do Céu.
Satanás exagerava. David Hoffman esfregou os olhos,
dando a entender que estava incrédulo. Olhou para
sua esposa, que estava em profundo sono.
— Immanuel é um demônio. Ele deve ser executado
— dramatizou o primeiro-ministro.
A imagem de Moisés ergueu o cajado para o alto.
— Você é igual à seus pais! Seu desejo é matar os
profetas que vêm trazer a verdade. Ela consome a sua
alma porque seu pai é Satanás!
A consciência outrora receptiva de David ficou
estática.
O espírito estava certo. Muitos dos profetas haviam
sido executados por seus compatriotas por
proclamarem a vontade de Deus. Eles foram mal
interpretados pelo povo da época, de modo que não se
arrependeram. Será que ele poderia estar tão
enganado?
— Se o que você diz é verdade, como Immanuel
poderia estar envolvido com uma organização tão
pecaminosa? — perguntou o primeiro-ministro.
Um brilho vermelho brotou nos olhos de Moisés. A
dor esquentou o sistema nervoso de David como
línguas de fogo.
— A Palavra de Deus diz que um Ungido viria trazer
a paz. O leão e o cordeiro brincarão juntos. Por que
você acha que Immanuel está se oferecendo para
reconstruir o templo de Davi? Confie nele, e tudo
ficará bem!
A teologia pervertida do dragão estava colando como
uma cola poderosa. David sempre quis seguir Deus de
todo o seu coração. O Príncipe das Trevas percebeu a
dúvida de David.
Um tornado negro com as vozes de uns mil demônios
baixou na sala. Dentro do redemoinho apareceram
amigos e familiares falecidos, implorando que ele
desse ouvidos. Seus rostos desconjuntados e
queimados apareceram de uma vez. Sua aparição
selou o destino de David. Ele fechou os olhos e
chorou amargamente. O dardo de Satanás havia
perfurado seu coração.
— Tudo bem! Chega! Farei! Eu irei assinar o maldito
tratado de paz!
Lúcifer desapareceu sem deixar rastro ou um
obrigado. A visão que David tinha de Deus e de
Immanuel nunca seria a mesma novamente.

Continua no volume 3: O Mergulho no


Abismo

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