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Maracanan

Nº 18
Janeiro 2018
UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS
INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA

Reitor
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Coordenadora geral do Programa de Pós-graduação em História


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Coordenadora adjunta do Programa de Pós-graduação em História


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Coordenadora do Mestrado
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Coordenadora do Doutorado
Ricardo Antônio Souza Mendes

Revista Maracanan / Universidade do Estado do Rio de Janeiro


Programa de Pós-Graduação em História. - nº 18, 2018
Rio de Janeiro: UERJ, 2018 – Semestral
ISSN-e: 2359-0092
História - Periódicos
1. Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Programa de Pós-
graduação em História.
2. CDU: 93(05)
Maracanan
Nº 18
Janeiro 2018

UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO


CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS
INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA
Expediente

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Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro (Brasil)

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Correspondência
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Revista Maracanan – Programa de Pós Graduação em História (PPGH-UERJ)
Rua São Francisco Xavier, 524, 9º andar, sala 9037, bloco F, Maracanã
Rio de Janeiro – RJ – Brasil. CEP 20550-013
+(55) (21) 2334-0678
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Todos os textos são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a posição da
editoria ou da instituição responsável por esta publicação.
Sumário

Apresentação
Crise: a exceção que se tornou regra 7-12
Beatriz Vieira, Eduardo Ferraz Felippe, Thiago Lima Nicodemo

Seção Especial
A necessária clareza de Antonio Candido 13-17
Pedro Meira Monteiro

Dossiê
Muito além das virtudes epistêmicas. O historiador público em um mundo não 18-34
linear
Fernando Nicolazzi
Indisciplinando a historiografia: do passado histórico ao passado prático, da crise à 35-
crítica 49
Arthur Lima de Avila
A crise da história e a onda pós-estruturalista 50-65
Carlos Alvarez Maia
Temporalidade e crise: sobre a (im)possibilidade do futuro e da política no Brasil e 66-82
no mundo contemporâneo
Thamara de Oliveira Rodrigues & Marcelo de Mello Rangel
Junho de 2013: crítica e abertura da crise da democracia representativa brasileira 83-110
Daniel Pinha Silva
A República de Weimar, suas crises e o Nazismo como alternativa 111-133
Luís Edmundo de Souza Moraes
A Pandorga e a Lei: passado-presente-futuro 134-156
Joana D'Arc Fernandes Ferraz
Entre as crises e o colapso: cinco notas sobre a falência estrutural do capitalismo 157-180
Maurílio Lima Botelho
Um museu de grandes novidades: capital fictício, fundo público e a economia 181-197
política da catástrofe
Javier Blank
Dimensão temporal da(s) crise(s) 198-217
Dilma Andrade de Paula

Notas de Pesquisa
Crise do capital e crise da gestão estatal: a socialdemocracia e o Brasil Potência 218-238
Ana Elisa Cruz Corrêa
Crise: entre o comum, o sentido, o governo, o motim e a comuna 239-255
Frederico Lyra de Carvalho

Entrevistas
Escrever a crise: Entrevista com Marcos Siscar 256-267
Beatriz Vieira, Eduardo Ferraz Felippe & Thiago Lima Nicodemo
A crítica da economia política da barbárie: Entrevista com Marildo Menegat 268-276
Beatriz Vieira, Eduardo Ferraz Felippe, Thiago Lima Nicodemo

Resenhas
Testemunhos de um mundo partilhado 277-280
Alfredo Bronzato da Costa Cruz
n. 18, p. 07-12, jan./jun. 2018
ISSN-e: 2359-0092
DOI: 10.12957/revmar.2018.32264

REVISTAMARACANAN
Apresentação

Crise: a exceção que se tornou regra

Crisis: the exception that has become a rule

O dossiê “Crise na e da História: desafio à escrita e à reflexão crítica” foi concebido no


contexto de crise sem precedentes vivenciada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro
(UERJ), que vem se tornando alarmante desde, pelo menos, 2015. A situação de crise aguda
inclui não só atrasos sistemáticos nos pagamentos de trabalhadores terceirizados, servidores,
bolsistas, alunos cotistas, mas também a falta de verba de custeio para o funcionamento
básico da universidade. Entendemos que propor uma reflexão sobre o conceito de “crise”
representa não só uma forma de resistência ao lastimável momento atual da universidade,
mas sobretudo uma abertura, uma provocação à reflexão. A crise da UERJ ganha então um
sentido de metonímia, ou de um exemplo mais extremo dos dilemas atuais da universidade
pública no Brasil. A crise da universidade pública, por sua vez, se articula com um cenário de
crise nas ciências humanas.
Os artigos aqui apresentados são propostos como diferentes formas de tratar o conceito
de “crise”, observando a sua amplitude semântica, e também almejam instigar a reflexão
histórica, teórica e multidisciplinar. Deste modo, a temática central acolhe escritos relativos a
historicidades diversas, abrangendo diferentes marcos espaço-temporais e abordagens
interdisciplinares. Nessa pluralidade, os textos tratam de temas relativos à crise do
capitalismo, crise na política, crise da universidade, crise das humanidades – compreendido o
termo como formas variadas de conhecimento do mundo social –; sempre levando em
consideração a crise enquanto problema histórico, empírico e teórico.
Para além da realidade da universidade no Brasil, não há dúvidas de que a crise está
presente enquanto experiência, como uma vivência que se desdobra em sensações de
insegurança, insatisfação e espanto diante da vida cotidiana, quando não de horror. A
experiência do caráter movediço do presente alimenta atos vigorosos de repulsa aos poderes
instituídos e às formas convencionais da política, da economia, do pensamento e das
manifestações culturais. Se este parece inicialmente um cenário nacional ou latino-americano,
os meios de comunicação, oficiais ou alternativos, mostram se tratar também de uma questão
mundial. Por sua vez, os ensaios e textos acadêmicos revelam que essa vivência da crise ou
seu conceito recorrente atingem todo o âmbito das humanidades, seja no que se refere aos
Apresentação
Crise: a exceção que virou regra

objetos de conhecimento das diversas áreas, seja no que tange à própria fragilização dos
arcabouços teóricos que as sustentavam, sendo estas duas dimensões de um só horizonte.
Articular presente, futuro e indagações acerca do passado é uma das facetas deste
dossiê. O vocabulário da crise e sua relação com a crítica, como sublinhado por Reinhardt
Koselleck, entre outros autores, não se restringe apenas a um diagnóstico do presente, mas
remete a um sentido projetivo marcado pelo futuro, quer como esperança, expectativa, utopia
ou distopia. Pensar sentidos para a(s) crise(s) não significa, então, tratar somente de
decadência, decomposição ou fim, pois crise impulsiona reelaboração. A etimologia mesma da
palavra, em grego ou latim, remete ao ato de separar, discernir e, portanto, à decisão,
julgamento, evento ou momento decisivo. Ao mesmo tempo, é evidente que não vivemos mais
na mesma ambiência otimista da modernidade: a contemporaneidade, independentemente da
alcunha que receba (pós-modernidade, modernidade tardia, quarta cascata da modernização,
regime de historicidade presentista, entre outras), suscita respostas, para novas e velhas
questões. Sendo assim, o dossiê publicado agora pela Revista Maracanan busca tratar dessa
perspectiva plural envolta no conceito de crise e por isso a sua estrutura visa oferecer uma
resposta também múltipla por meio de entrevistas, ensaios, artigos analíticos e notas de
pesquisa destinadas a tal indagação. Nos itens que se seguem, procuramos apresentar os
artigos aqui reunidos, organizando-os em alguns blocos temáticos para os quais os assuntos
tratados nos textos confluem.

Crise nas humanidades e crise na/da história disciplinar

O amplo espectro de contribuições presente no dossiê conflui para um questionamento


da própria natureza da ideia de “crise”. Alguns artigos correlacionaram certo esgotamento das
premissas epistêmicas que orientam a historiografia, associando-as à necessária
ressignificação do papel do historiador. Esse é o tema presente em “Muito além das virtudes
epistêmicas. O historiador público em um mundo não linear”, de Fernando Nicolazzi, que
explora, por meio da análise da atuação do historiador Leandro Karnal, a zona de interseção
entre a dimensão ética e a dimensão política do historiador. Esta mesma zona fronteiriça entre
ética e política é abordada por Arthur Lima de Avila, no texto “Indisciplinando a
historiografia: do passado histórico ao passado prático, da crise à crítica”, em que investiga o
conceito de “passado prático” proposto pelo historiador Hayden White, questionando seus usos
e limites diante dos impasses da historiografia contemporânea. Por sua vez, o artigo de Carlos
Maia, “A crise da história e a onda pós-estruturalista” expõe uma argumentação que associa a
crise da história às reflexões pós-estruturalistas, atento à categoria “narrativa histórica”, e
defensor da tese de que a “crise da história” é uma crise dos historiadores motivados por uma
ontologia alheia aos valores históricos e que reagem negativamente à perda de seus referentes
realistas.

8 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 07-12, jan./jun. 2018


Apresentação
Crise: a exceção que virou regra

Também cabe destacar a contribuição de Thamara de Oliveira Rodrigues e Marcelo


de Mello Rangel, “Temporalidade e crise: sobre a (im)possibilidade do futuro e da política no
Brasil e no mundo contemporâneo”, que procura, a partir de um quadro teórico que considera
o problema da temporalidade tal qual pensado por autores como Hans Ulrich Gumbrecht e
Reinhard Koselleck, compreender as implicações da presença ubíqua da noção de crise em
nossa sociedade.

Crise e democracia

Com balizas cronológicas distintas, mas analisando acontecimentos históricos concretos,


os artigos de Daniel Pinha e de Luis Edmundo da Souza Moraes trabalham de forma geral
com os impasses históricos da democracia representativa, seja, no caso de Moraes, ao procura
estudar o peso da crise generalizada que atinge a Alemanha, a partir do inverno de 1929-
1930, como fator explicativo para a derrota do projeto republicano liberal e para a emergência
do nazismo; seja, no caso de Pinha, ao procurar compreender a centralidade das
Manifestações de Junho de 2013 como um ponto de inflexão para a abertura da crise do
modelo democrático-representativo experimentada ainda hoje no Brasil. A contribuição de Ana
Elisa Cruz Corrêa, na Nota de Pesquisa intitulada “Crise do capital e crise da gestão estatal: a
social democracia e o Brasil Potência” também se articula com esse contexto, posto que
investiga particularidades da inserção da política econômica do Partido dos Trabalhadores na
década de 2000 no sistema capitalista mundial. De um prisma diferente, o artigo “A Pandorga
e a Lei: passado-presente-futuro”, de Joana D’Arc Fernandes Ferraz procura compreender
como certas marcas do passado condicionam os impasses do presente no que diz respeito à
questão da resistência e da memória da Ditadura Militar no Brasil, a partir do estudo sobre a
peça A Pandorga e a Lei (1983-1984), de João das Neves.

Crise político-econômica

Na perspectiva da crítica à economia política, o conceito de crise sempre ocupou um


papel estratégico, sendo destacada agora a rotinização de seu uso como uma espécie de
metáfora do capitalismo atual. Nesse sentido, os artigos de Maurílio Lima Botelho, “Entre as
crises e o colapso: cinco notas sobre a falência estrutural do capitalismo”; de Javier Blank,
“Um museu de grandes novidades: capital fictício, fundo público e a economia política da
catástrofe”; e de Dilma Andrade de Paula, “Dimensão temporal da(s) crise(s)”, demostram
desde prismas distintos como o sistema capitalista atual naturalizou a “crise”, não mais como
um momento de exceção, mas como regra, que reequilibra – num modus operandi que se
poderia talvez chamar de ficticionalização – o funcionamento de um sistema financista que se
expande exponencialmente sem necessário lastro real. Tais artigos sugerem que a
9 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 07-12, jan./jun. 2018
Apresentação
Crise: a exceção que virou regra

naturalização da noção de crise em nosso vocabulário social e político gera um efeito nefasto,
pois permite que se atribua uma sensação de normalidade a alguns dos aspectos mais
desiguais, injustos e desumanos do sistema capitalista. Como nos explica Botelho, “uma mera
repetição do nexo interno das categorias é incapaz de enxergar a processualidade histórica,
tornando-se a crise um fenômeno sempre igual num tempo abstrato vazio”. Essa problemática
também é aprofundada em uma das contribuições da seção Notas de Pesquisa. O texto de
autoria de Frederico Lyra de Carvalho, “Crise: entre o comum, o sentido, o governo, o
motim e a comuna”, discute o conceito de crise nas obras de Myriam Revault d’Allonnes (La
crise sans fin); Pierre Dardot e Christian Laval (Ce cauche marqui n’en finit pas) e Joshua
Clover (Riot, strike, riot), e mostra o processo de transformação desse conceito em signo
fundamental da fase atual do capitalismo.

Nossas entrevistas, resenha e seção especial

No que tange às entrevistas, este dossiê foi agraciado com duas incursões de fôlego. A
primeira foi elaborada junto ao poeta, crítico literário e professor Marcos Siscar, com o título
“Escrever a crise”, na qual as perguntas são apenas estopim para o mergulho em um longo e
consistente trabalho teórico e prático sobre poesia e crise executado há décadas pelo autor.
Recuperando o argumento de seu último livro, De volta ao fim: o ‘fim das vanguardas’ como
questão da poesia contemporânea (ed. 7Letras, 2016) e de seu Poesia e Crise (Ed. Unicamp,
2010), Siscar indaga como a ideia de uma crise nas vanguardas consistiu fundamentalmente
numa operação discursiva, de caráter performativo (e não necessariamente a uma verdade
factual). Esta hipótese pode ajudar a compreender melhor como as imagens variantes da
noção de fim, incluindo a crise, oferecem um ponto de partida para aquilo que está em jogo no
contemporâneo.
Por sua vez, a entrevista concedida à Revista Maracanan pelo filósofo e professor
Marildo Menegat, intitulada “A crítica da economia política da barbárie”, volta-se a indagar os
múltiplos sentidos da crise, sua relação com a história do capitalismo e seus efeitos
degradantes sobre as relações sociais. Pautado em seu denso trabalho sobre movimentos
sociais, militarização do cotidiano e crítica da cultura afiada na dialética negativa, Menegat
compara as “teorias da crise” de viés marxista e liberal para desdobrar sua análise acerca da
experiência mundial contemporânea e, especificamente, da situação do Brasil hoje, tanto do
prisma econômico quanto político e cultural.
Ainda compõe esta edição a resenha “Testemunhos de um mundo partilhado” de autoria
de Alfredo Bronzato da Costa Cruz, a respeito da obra When christians first met muslims: a
sourcebook of the earliest syriac writings on Islam, de Michael Philip Penn (Univ. of California
Press, 2015).
Finalmente, como texto de abertura deste dossiê, o ensaio de Pedro Meira Monteiro
sobre Antonio Candido busca encarar impasses da civilização no contexto do imediato pós
10 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 07-12, jan./jun. 2018
Apresentação
Crise: a exceção que virou regra

Segunda Guerra Mundial, recorrendo intertextualmente ao seu diálogo com Sergio Buarque de
Holanda e ao repertório de Nietzsche mobilizado por Candido em “O portador” (originalmente
publicado no Diário de São Paulo em 1946). Em um gesto de homenagem a Antonio Candido,
falecido em 2017, os editores deste dossiê convidaram Pedro Monteiro a publicar seu texto
nesta Seção Especial.

Crise para quê e para quem?

De um modo geral, todas as contribuições deste dossiê ajudam a compreender melhor


a nossa atual situação já que apontam para a construção histórica e discursiva do conceito de
crise. Contudo, no presente contexto de crise da UERJ, consideramos ser necessária uma nota
conclusiva acerca deste problema que nos atinge diretamente agora e surge como horizonte
para outras universidades públicas brasileiras, estaduais e federais. Acreditamos que as
universidades, especialmente aquelas em processo acelerado de desmonte, como a UERJ,
encontram-se diante de desafios nunca antes experimentados. De fato, algumas premissas do
conhecimento disciplinar, especialmente na área de história, devem ser revistos; a demanda
por uma maior abertura aos diversos públicos é hoje um truísmo, dentre outros problemas
estruturais. Todavia, dizer que a universidade brasileira está em crise, sem qualquer tipo de
adjetivação ou explicação, significaria ocultar uma motivação central na crise por ela
vivenciada: os ataques aos diversos sentidos do que é público pelo governo federal dos últimos
dois anos no Brasil. A legitimação aos ataques criminosos feitos pelo governo estadual às
universidades de seu âmbito e a busca, no nível federal, da diminuição dos sentidos do que é
público são cara e coroa de uma mesma moeda voltada a sustentar um projeto retrógrado
para o país.
Cabe, à guisa de conclusão, um agradecimento a todos os colegas e alunos/as da
comunidade UERJ que mesmo nas circunstâncias desfavoráveis já mencionadas contribuíram
para que o dossiê aqui apresentado tomasse forma: ao Programa de Pós-graduação em
História (PPGH-UERJ), ao Laboratório Redes de Poder e Relações Culturais, à COMUM -
Comunidade de Estudos de Teoria da História da UERJ, bem como devemos reiterar o
agradecimento ao apoio fundamental do corpo técnico da Revista Maracanan, incluindo os
editores executivos e o secretariado, Claudio Correa e Magide Vieira.

Beatriz Vieira
Eduardo Ferraz Felippe
Thiago Lima Nicodemo.

Beatriz de Moraes Vieira: Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-


11 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 07-12, jan./jun. 2018
Apresentação
Crise: a exceção que virou regra

graduação em História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Atualmente,


realiza estágio pós-doutoral na Cornell University. Possui graduação em História pela
Universidade Federal Fluminense (UFF); mestrado em Letras; doutorado em História Social por
esta mesma instituição. É pesquisador associado à COMUM – Comunidade de Estudos de
Teoria da História da UERJ. Seus temas de pesquisa voltam-se para: relação entre história e
literatura/poesia; história e cultura contemporânea no Brasil e América Latina; experiência
histórica dolorosa; memória social traumática.

Eduardo Ferraz Felippe: Professor do Departamento de História da Universidade do Estado


do Rio de Janeiro (UERJ). Possui doutorado em História Social pela Universidade de São Paulo
(USP); mestrado em História Social da Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de
Janeiro (PUC-Rio); graduação em História pela UERJ; além de ter realizado estágio pós-
doutoral na USP. Seus interesses de pesquisa estão voltados para a questão da ética e da
narrativa histórica, a relação arte-educação e as estratégias discursivas e formas de
popularização do passado, com ênfase entre Memória e História das ditaduras, em prosa em
fins do século XX e início do XXI.

Thiago Lima Nicodemo: Professor do Departamento de História e do Programa de Pós-


graduação em História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Atualmente,
realiza pesquisa na Freie Universität Berlin como fellow da fundação Alexander von Humboldt,
categoria pesquisador experiente. Possui graduação em História pela Universidade de São
Paulo (USP) e em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP);
mestrado e doutorado em História Social pela USP; além de ter realizado estágio pós-doutoral
no Instituto de Estudos Brasileiros desta mesma instituição. É pesquisador associado à COMUM
– Comunidade de Estudos de Teoria da História da UERJ. De sua autoria são Urdidura do
Vivido (EDUSP, 2008) e Alegoria Moderna (UNIFESP, 2014), livros concentradas na obra de
Sérgio Buarque de Holanda.

12 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 07-12, jan./jun. 2018


n. 18, p. 13-17, jan./jun. 2018
ISSN-e: 2359-0092
DOI: 10.12957/revmar.2018.31299

REVISTAMARACANAN
Seção Especial

1
A necessária clareza de Antonio Candido

The necessary clarity of Antonio Candido

Pedro Meira Monteiro


Princeton University
pmeira@princeton.edu

Devo esclarecer que não fui discípulo de Antonio Candido, embora os textos dele
tenham me marcado profundamente. Mas, tive o privilégio de encontrá-lo algumas vezes, e
esses encontros se guiavam sempre por uma paixão comum: Sérgio Buarque de Holanda.
A relação entre Antonio Candido e Sérgio Buarque de Holanda é profunda não apenas
no plano da amizade, mas também no que se refere às ideias. Os flertes com o vocabulário
orgânico, a literatura como organizadora da sensibilidade e como elemento de civilização,
assim como as perguntas sobre a organização social e a potência dissolvente da vida, são
temas que os aproximavam.
Sérgio Buarque acertou quando dedicou a Candido um ensaio intitulado “Gosto
arcádico”, em que avalia a revolta dos árcades contra “a linguagem alambicada e retorcida da
era barroca”. Em Candido, há uma busca perene de clareza, com a consequente valorização do
estilo simples. Abusando das metáforas, tratava-se de abrir clareiras onde tudo parecia
“escuro” e “cerrado”.2 Perdia o cultismo, “o barroco ficava suspenso”, e abriam-se, digamos
assim, as picadas luminosas do entendimento. Mas, foi Candido um iluminista?
A pergunta é artificial, mas pode ajudar a compreender a limpidez do seu pensamento,
de que não se separa, para quem teve o prazer de conversar com ele, da clareza da prosa
falada, que Candido admirou nos caipiras da região de Botucatu que estudou em seu
doutorado, e que era igualmente uma característica sua.3 A memória prodigiosa encontrava,

1
Com poucas alterações, trata-se de texto lido no Teatro Odylo Costa Filho, na mesa “Antonio Candido,
uma homenagem”, durante o XV Congresso Internacional da Associação Brasileira de Literatura
Comparada - ABRALIC, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 8 de agosto de
2017.
2
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Tentativas de mitologia. São Paulo: Perspectiva, 1979, p. 241-271.
3
Refiro-me ao trabalho de pesquisa que resultaria em seu livro Os parceiros do Rio Bonito, de 1964. Na
dedicatória de Candido ao compadre, no exemplar da segunda edição do livro, hoje pertencente à coleção
Sérgio Buarque de Holanda, na Unicamp, lê-se: “Caro Sergio: relendo êste livro para correção de provas,
A necessária clareza de Antonio Candido
nele, um contador perfeito de causos. Para quem o ouviu no âmbito privado, as palavras se
encaixavam como que num perfeito equilíbrio, sem nenhuma afetação. Numa feliz coincidência
vocabular, o contador de causos é o grande causeur da crítica literária brasileira. O francês
causer [conversar] nos lembra que a expressão vem do latim causari, que tem a ver com
causa, isto é, a defesa da razão diante da dúvida.
Insisto nessa trinca – clareza, razão e fala –, por tratar-se de uma das maiores
contribuições à crítica literária brasileira, latino-americana e diríamos mundial, não tivesse
Candido escrito na língua daquelas musas tímidas, arbustos de segunda ordem a partir dos
quais, no entanto, são desfechados alguns dos mais agudos olhares sobre o jardim frondoso
da literatura ocidental.4 E Candido não é, afinal, o nosso Auerbach? Com ele, a compreensão
da forma literária não ganhou uma profundidade insuspeitada, bafejada por uma cultura de
leitor onívoro e clássico, apaixonado e disciplinado?
A comparação não é casual. Auerbach espiou o grande edifício das letras a partir dos
escombros da Segunda Guerra Mundial.5
Pensando nos escombros e nessa mesma Guerra, gostaria de comentar brevemente um
texto de Antonio Candido: sua corajosa defesa de Nietzsche em 1946 no Diário de São Paulo,
depois publicada em O observador literário, de 1959.
Em seu ensaio, intitulado “O portador”, Candido defende o filósofo no momento em que
ele era visto como precursor do nazismo. Mas não se tratava de simples esforço genealógico
para livrar Nietzsche das malhas da desconfiança. A causa era outra: tratava-se de provar que
a propedêutica nietzschiana levava à justiça e à bondade. Para o jovem crítico, “justiça e
bondade repousam sobre a energia com que superamos as injunções, as normas cristalizadas,
tudo enfim que tende a imobilizar o ser em posições já atingidas e esvaziadas de conteúdo
vivo”.6
Era o velho embate entre a forma e a vida, a letra e o espírito, que aumentava de
volume diante da civilização aos frangalhos do pós-guerra. Mas, a liberação das energias vitais
não havia sido o principal clamor dos totalitarismos? A propulsão absoluta do ser não era a
marca da experiência que levara à barbárie da Segunda Guerra?
Entretanto, essas forças interiores, que Nitezsche queria liberar, encontram, como que
formando um escudo civilizacional, forças contrárias que as amoldam e as contêm. Dessa
dialética entre explosão propulsiva e contenção apaziguadora viveria o espírito, no seu embate
com os poderes e os chamados do corpo. Para além da metáfora que provém da análise da
tragédia clássica, disputada pelos espíritos de Apolo e Dionísio, ergue-se a questão, tão aguda
no pós-guerra, da canalização das energias. Sondá-las, a essas forças irrefreáveis, seria tarefa

fiquei impressionado ao ver quanto êle é influenciado pela sua obra, sobretudo ‘Bandeirantes e
Mamelucos’ e ‘Monções’. Eu já sabia disto, é claro, e o digo no prefácio; mas a impregnação é maior do
que eu pensava. A culpa não é sua. Mas o que ele tiver de aproveitável será devido a isto. Esta a razão
de empurrar uma simples reedição, que vai melhorada (para mim) pela capa de Ana Luisa. Afetuoso
abraço etc.” A capa é da designer Ana Luísa Escorel, filha de Antonio Candido.
4
São metáforas utilizadas na célebre abertura de sua Formação da literatura brasileira: momentos
decisivos, de 1956.
5
Ver: AUERBACH, Friedrich. Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental. São Paulo:
Perspectiva, 2013.
6
SOUZA, Antonio Candido de Mello e. O observador literário. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2004,
p.79.
14 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 13-17, jan./jun. 2018
A necessária clareza de Antonio Candido
não de especialistas, mas de poetas e escritores. Não à toa, dirá Candido, Freud foi uma
“espécie de ponte entre o mundo da arte e o da ciência; entre os processos positivos de
análise e a intuição estética”.7
Então, quem é esse iluminista que, vendo ao longe os escombros da civilização
europeia, dá voz àquele que propõe a retomada da energia contra as contenções artificiais do
comportamento e do hábito? Quem é esse Candido que, dotado da mais serena postura crítica,
dá atenção às forças obscuras da alma, como que advogando uma causa perdida naquele
momento?
Nietzsche, no entender de Candido, escrevera em “aforismos e cânticos, a fim de que
tudo o que borbulha não fosse canalizado pelo desenho geométrico dos tratados; e para que a
filosofia não renunciasse ao privilégio da permanente aventura, a troco da estabilidade que se
obtém fechando os olhos ante a fuga vertiginosa das coisas”. 8
Candido lembra então o elogio de Nietzsche ao Peregrino, o viajante que não para e
“nunca vende a alma ao estável”. Cita o Humano, demasiado humano, ali onde se anunciam os
filósofos “aventureiros”, que buscam uma espécie de conhecimento auroral, que levaria menos
à revelação e mais àquela luz incerta que surge nas primeiras horas da manhã. O filósofo, já
aqui inseparável do poeta, mergulha numa paradoxal afirmação da inconstância, como se a
promessa teleológica da metafísica entrasse em colapso. É conhecida a anedota, reproduzida
por Candido, de que Nietzsche trocaria toda a metafísica por um simples aforismo de Pascal.
Após sua citação do Humano, demasiado humano, Candido avisa que a graça do estilo
nos foi roubada pela tradução ao português, a qual retira, segundo ele, o “aspecto por assim
dizer miraculoso” da prosa de Nietzsche. 9 Mas, que milagre é esse, afiançado pelo original
alemão, que o crítico vê tão claramente? Talvez a resposta esteja no “misterioso pacto com a
dança” que fazia do pensamento de Nietzsche um baile constante. O inventor do Zaratustra,
dirá o crítico brasileiro, é um portador de “valores radioativos” (insisto no peso da metáfora,
porque estamos em 1946, um ano após Hiroshima). Pelas mãos do portador, vemos de relance
a luz, para em seguida calar.
Mas que iluminista é esse, que cede diante do poder das coisas que nos escapam, como
que num elogio da meia-luz?
Candido tende à limpidez e à clareza. Sua atenção leva à concentração, não à
dispersão. O seu é menos o Peregrino de Nietzsche e mais o poeta exilado de Cláudio Manoel
da Costa, “na própria terra peregrino”, segundo aquele verso brilhante que, aliás, fornece o
mote ao amigo Sérgio Buarque de Holanda, revelando quão longe leva o tópos do estrangeiro
em sua própria terra.10
Como elogiar o pensamento erradio e vagabundo, capaz das mais vigorosas
iluminações, bem quando a escuridão ameaça tomar conta de tudo? Nietzsche, dizia Antonio

7
SOUZA, Antonio Candido de Mello e. O observador literário. Op. cit., p.82.
8
Idem.
9
Ibidem, p.85.
10
Estudei a relação entre Antonio Candido e Sérgio Buarque de Holanda em meu livro: Signo e desterro:
Sérgio Buarque de Holanda e o Brasil. São Paulo: Hucitec; E-galáxia, 2015.
15 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 13-17, jan./jun. 2018
A necessária clareza de Antonio Candido
Candido em 1946, era um “dos maiores portadores do nosso tempo”, capaz de responder ao
desafio de “reorganizar o mundo sem apelo ao divino”.11

***

Ficam no ar algumas perguntas. A “reorganização do mundo” não é exatamente o apelo


da arte, para Candido? A reconstrução da civilização, a visão encantada da formação, a aurora
em que o espírito brilha, tímido mas promissor, não compõem o núcleo de sua empresa
crítica?
Antonio Candido, lembrou Sérgio Alcides, “morreu num tempo de refluxo, com a
emergência de fundamentalismos antimodernos”.12 O nosso tempo, portanto.
Talvez pudéssemos dizer que morreu o último crítico de sua estatura capaz de aspirar à
construção, à reorganização do mundo em bases mais justas, assentadas no solo em que o
humano viceja, equilibrado pelo lastro da literatura, que para Candido era a única forma de
fugir ao “bárbaro destino” e à “fortuna inconstante”, para jogar ainda uma vez com os versos
árcades que ele amava.13
No seu elogio a Nietzsche, vejo o esforço surpreendente por recuperar uma força
anárquica que corre em paralelo ao grande veio apaziguador da literatura. Candido seguiria
buscando uma possível resposta à anomia, como que afugentando o fantasma da
desarticulação social. A linguagem era empenhada contra o enfeitiçamento da própria
linguagem, segundo a melhor lição da filosofia.14
Para terminar, recordo Tese e Antítese, livro publicado em 1963, que reúne ensaios
sobre o dilaceramento do ser em Alexandre Dumas, Eça de Queirós, Joseph Conrad, Graciliano
Ramos e Guimarães Rosa. No fim, há um apêndice em que se comentam os gostos musicais
de Stendhal. O ensaio final, diz Candido em sua Introdução, poderia ser lido como
“contraveneno” ao resto do livro, por tratar da busca da felicidade. Mas se em seus romances
Stendhal “procurou construir um universo de inteireza”, Candido lembraria, agonicamente, que
“sob a força de vontade e a firmeza de intuito, surdiam [nos personagens de Stendhal] minas
estranhas, que baralhavam tudo, desviavam a sua virtude da linha reta e o seu ser da
inteireza”.15
É esse desvio que a literatura ensina tanto a sondar quanto a evitar. Em “O direito à
literatura”, de 1988, escrito no ímpeto de uma abertura democrática que hoje parece querer

11
SOUZA, Antonio Candido de Mello e. O observador literário. Op. cit., p.87.
12
ALCIDES, Sérgio. O Brasil no meio do caminho. Quatro Cinco Um, São Paulo, n. 2, 2017.
13
Versos de Cláudio Manoel da Costa: “A vós, Pastor distante,/ Bem que presente sempre na
lembrança,/ Saúde envia Alcino, que a vingança/ Da fortuna inconstante,/ Do bárbaro destino, Chora na
própria terra peregrino”. Epístola I (Alcino a Fileno). In: A poesia dos inconfidentes. Rio de Janeiro: Nova
Aguilar, 2002, p. 245.
14
Investigações filosóficas, 109: “A filosofia é uma luta contra o enfeitiçamento do nosso entendimento
pelos meios da nossa linguagem”. In: Wittgenstein. Trad. José Carlos Bruni. São Paulo: Abril Cultural,
1975, p. 58.
15
SOUZA, Antonio Candido de Mello e. Tese e antítese. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, p. 12.
16 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 13-17, jan./jun. 2018
A necessária clareza de Antonio Candido
encerrar-se, Candido chamava a literatura de “sonho acordado das civilizações”, fiel de uma
balança que mantinha a sociedade em precário, mas necessário equilíbrio. 16
Antonio Candido talvez seja um portador de outra ordem, menos visceral e conturbada,
tendente à suave compreensão e à inclusão do Outro na fruição dos bens do espírito e da
matéria. É tão sintomático quanto triste que ele tenha morrido no nosso presente esvaziado
dessa chance, agora que o autoritarismo vai ganhando novas caras, e a democracia é
ameaçada de novo, em plano mundial.
Em 1946, o remate de seu texto era um imperativo contundente: “Recuperemos
Nietzsche”.
Mais de setenta anos depois, talvez caiba apenas juntar o que nos resta de convicção e
dizer, com alguma veneração, “recuperemos Candido”.

Pedro Meira Monteiro: Professor na Princeton University, nos Estados Unidos, onde ocupa a
cátedra Arthur W. Marks ‘19 Professor of Spanish and Portuguese, dirige o Departamento de
Espanhol e Português e oferece cursos na área de estudos latino-americanos, com ênfase em
literatura e cultura brasileiras. Graduou-se em Ciências Sociais pela Universidade de Campinas
(Unicamp); possui um D.E.A. em História Sócio-Cultural pela Université de Versailles Saint-
Quentin-en-Yvelines; mestrado em Sociologia e doutorado em Teoria e História Literária pela
Unicamp; além de ter realizado estágio pós-doutoral na Faculdade de Educação desta mesma
instituição.

16
SOUZA, Antonio Candido de Mello e. Vários escritos. São Paulo; Rio de Janeiro: Duas Cidades; Ouro
sobre Azul, 2004, p. 169-191.
17 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 13-17, jan./jun. 2018
n. 18, p. 18-34, jan./jun. 2018
ISSN-e: 2359-0092
DOI: 10.12957/revmar.2018.31121

REVISTAMARACANAN
Dossiê

Muito além das virtudes epistêmicas. O historiador público


em um mundo não linear 1

Beyond the epistemic virtues. The public historian in a non-linear world

Fernando Nicolazzi
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
fernando.nicolazzi@ufrgs.br

Resumo: Este artigo tem por objetivo oferecer uma reflexão sobre as formas de atuação pública de
historiadores e historiadoras no mundo contemporâneo, considerando a importância de se atentar para
as demandas e expectativas que os diferentes públicos colocam sobre elas. A partir da análise de duas
situações específicas envolvendo o historiador Leandro Karnal, o artigo argumenta que toda a reflexão
que diz respeito à relação entre historiador e público é atravessada por uma dimensão ética que
transcende os princípios puramente epistemológicos da disciplina e, por situar publicamente a atuação
intelectual do historiador, assume ela própria uma dimensão política.

Palavras-chave: Historiador público; Públicos da história; Leandro Karnal.

Abstract: This article offers a reflection on the forms of historians public performance in the
contemporary world, considering the importance of being attentive to the demands and expectations the
different audiences have regarding this performance. From the analysis of two specific situations
involving the historian Leandro Karnal, the article argues that all reflection on the relation between
historian and his/her audience is crossed by an ethical dimension that transcends the purely
epistemological principles of the discipline and, by publicly situating the historian’s intellectual
performance, it also takes on a political dimension.

Keywords: Public historian; Audiences of history; Leandro Karnal.

Recebido: Novembro 2017


Aprovado: Dezembro 2017

1
Este artigo contou com financiamento do CNPq. Este ensaio é uma versão desenvolvida da conferência
que proferi no âmbito dos Diálogos Contemporâneos do XXIX Simpósio Nacional de História, ocorrido em
julho de 2017 em Brasília. Na ocasião, dividi a mesa sobre “Ética profissional e orientação política” com
Arthur Assis e Sérgio da Mata, a quem agradeço pelo ótimo debate. Aquela versão foi igualmente
apresentada no I Congresso de Ensino, Pesquisa e Extensão em História, em outubro do mesmo, no
Departamento de História da Universidade Federal de Santa Maria. Agradeço à professora Beatriz Weber
e aos demais organizadores do evento pela ótima acolhida e pela oportunidade de debater e lapidar
melhor os argumentos aqui desenvolvidos.
Muito além das virtudes epistêmicas. O historiador público em um mundo não linear

A que identidade, a que utilidade, a qual magistério


pode pretender um ofício que se pensa tão técnico
como os outros, tendo construído lentamente sua ética,
suas regras e seu savoir-faire, mas que toda e qualquer
pessoa, sob diferentes modalidades, parece poder
praticá-lo?

Nicolas Offenstadt.2

I.

Parte considerável dos atuais debates em torno da prática historiográfica e da reflexão


teórica sobre ela indicam uma “complexa conjunção entre epistemologia, ética profissional e
política”, situando o trabalho de historiadores e historiadoras diante de um contexto de crise
que acaba por incidir diretamente sobre seu ambiente de atuação profissional.3 Porém, se tais
debates emergem hoje como um convite irrecusável à reflexão, também carregam em si
alguns riscos eminentes. O primeiro deles é o da referida reflexão se tornar, ao final, a
imposição de um dogma. Em outras palavras, trata-se do perigo de se confundir aquilo que se
apresenta como possibilidade de ser pensado na forma de um diálogo, com aquilo que acaba
se transformando em uma estreita prescrição de trabalho, que normalmente se manifesta na
forma de imperativos que procuram determinar o que é e como deve ser praticado o trabalho
historiográfico. O sentido deste artigo ao enfrentar a mencionada conjunção será, portanto, o
de tentar contornar o risco de fazer destas palavras uma proposição dogmática.
O segundo risco que se quer aqui evitar de forma mais enfática é o de transformar a
reflexão sobre a conjunção entre ética profissional e orientação política, pensada a partir da
relação entre os historiadores e seus públicos, em uma espécie de discurso esotérico a respeito
de valores exclusivamente universais, ou seja, fundamentada em certos pressupostos que, em
tese, valeriam para todo e qualquer indivíduo, independente das condições sociais, das

2
OFFENSTADT, Nicolas. Histoires et historiens dans l’espace publique. In: GRANGER, Christophe (dir.). À
quoi pensent les historiens? Faire de l’histoire au XXIe siècle. Paris: Éditions Autrement, 2013, p. 80.
3
Eis a formulação da proposta de um recente diálogo contemporâneo ocorrido no Simpósio Nacional de
História da ANPUH, em julho de 2017: “conjunturas politicamente tensionadas são um constante desafio
à noção algo ingênua de que, em história, a verdade só pode ser obtida quando buscada de maneira
desinteressada e desapaixonada, sine ira et studio. A rejeição do ideal empirista de um cordão sanitário
entre historiografia e política, e o concomitante rebaixamento das verdades históricas à condição de (no
melhor dos casos) ‘verdades situadas’ abalaram fortemente o conceito tradicional de objetividade
histórica. Curiosamente, entretanto, essa desvalorização dos potenciais cognitivos da historiografia não
se estendeu aos padrões tradicionais de integridade intelectual. Muito pelo contrário, o que se verifica
nos últimos anos é precisamente uma crescente sensibilização para as múltiplas interfaces entre história
e ética. Além disso, o dever de dizer a verdade permanece sendo o imperativo ético fundamental da
historiografia acadêmica, seja esta explicitamente engajada ou não. A proposta desta mesa é refletir
sobre essa complexa conjunção entre epistemologia, ética profissional e política. Tensões e arranjos
entre objetividade, integridade e engajamento serão abordados tanto de uma perspectiva teórica geral
quanto por meio de estudos de casos recentes e pretéritos”. O título dado à mesa foi “Ética profissional e
orientação política na historiografia”. Disponível em:
<http://www.snh2017.anpuh.org/conteudo/view?ID_CONTEUDO=2308>. Acesso em: 29 out. 2017.

19 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 18-34, jan./jun. 2018


Muito além das virtudes epistêmicas. O historiador público em um mundo não linear

definições espaciais e das situações temporais em que se encontra. Por essa mesma razão,
não há neste texto a pretensão de amparar as considerações que serão feitas nas bases,
talvez mais ilusórias que efetivas, de um consenso disciplinar, como se a disciplina da história
pudesse existir apesar ou mesmo à revelia daqueles e daquelas que a praticam e, inclusive,
das tensões e diferenças que os movem. Valendo-me livremente das proposições oferecidas
por Pedro Telles da Silveira, trata-se de valorizar o dissenso como procedimento constitutivo
do debate público no qual se pretende situar o conhecimento histórico, e não da defesa
acirrada de seus postulados disciplinares como discurso de autoridade. 4
Considerando, então, os dois riscos mencionados, proponho uma forma de abordagem
das relações entre ética e engajamento político no campo da historiografia, particularmente
em uma situação de crise social, a partir de um duplo encaminhamento: em primeiro lugar,
considero a noção de ética profissional como uma categoria menos substantiva do que
processual, ou seja, não como algo que se possui (segundo a expressão comumente usada de
“ter ética”) e sim como o exercício constante de “constituição de si” realizado pelo historiador
enquanto historiador, remetendo às práticas de subjetivação que Michel Foucault estudou nos
últimos anos de sua vida. Essa consideração inicial, embora mantenha uma forma de
abordagem distinta, vem ao encontro das recentes propostas feitas por João Ohara para o
estudo dos modos disciplinados de ser historiador no Brasil, pensadas a partir dos trabalhos de
Herman Paul sobre as virtudes epistêmicas que caracterizam e definem a persona acadêmica
(scholarly persona) dos praticantes do ofício.5
Isso significa compreender que a definição do que é ser historiador (ou historiadora)
depende de um conjunto bastante complexo e variado de fatores que podem se referir tanto à
fabricação de algo, naquele sentido indagado por Michel de Certeau ao se perguntar o que
fabrica o historiador quando faz história,6 quanto aos processos de legitimação que
frequentemente são assumidos pelos pares acadêmicos, de que a banca de tese ou o parecer
técnico são das formas mais evidentes. Junto a esses dois fatores, é possível considerar ainda,
como faz Ohara, que tal definição é igualmente dependente de um processo de construção
subjetiva que implica na prática de algumas virtudes epistêmicas, morais e sociais. Para
falarmos da modalidade disciplinada de historiador (ao que normalmente se atribui a qualidade
de “historiador profissional”), é preciso considerar, então, que além dos diplomas e
mecanismos disciplinares de reconhecimento, do domínio das técnicas metodológicas e dos
protocolos teóricos que conformam a disciplina, são realizadas também algumas “técnicas de
si” (utilizando o vocabulário foucaultiano) que não se justapõem necessariamente aos
requisitos epistemológicos demandados pelas normas “internas” do ofício. Em outras palavras,

4
SILVEIRA, Pedro Telles da. Para além do consenso historiográfico: o giro ético-político e o dissenso na
historiografia contemporânea. Texto não publicado, gentilmente cedido pelo autor, a quem agradeço.
5
OHARA, João Rodolfo Munhoz. The disciplined historian: “epistemic virtue”, “scholarly persona”, and
practices of subjectivation. A proposal for the study of Brazilian professional historiography. In: Práticas
da História. Journal on Theory, Historiography, and uses of the past, v. 1, n. 2, p. 39-56, 2016. Para a
abordagem de Herman Paul, ver: PAUL, Herman. What is a scholarly persona? Ten theses on virtues,
skills, and desires. In: History and Theory, n. 53, p. 348-371, 2014.
6
CERTEAU, Michel de. L’écriture de l’histoire. Paris: Gallimard, 1975.

20 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 18-34, jan./jun. 2018


Muito além das virtudes epistêmicas. O historiador público em um mundo não linear

falar em ética profissional equivale aqui a situar o discurso em um plano mais amplo do que o
simples cumprimento das regras da disciplina, buscando compreender igualmente as
demandas que são colocadas no âmbito dos diferentes espaços públicos da sociedade e as
formas com que historiadores e historiadoras lidam com elas.
Disso resulta o segundo encaminhamento proposto: considero a noção de orientação
política a partir dos modos de intervenção pública dos historiadores e historiadoras em um
espaço que transcende os limites, por vezes demasiadamente restritos, da esfera acadêmico-
disciplinar. Embora mantenha alguns pontos de contato, essa ideia não se justapõe
plenamente à prática da chamada História Pública, campo bastante amplo e variado que tem
contribuído de modo considerável para repensar os contornos de nosso ofício e sua
legitimidade social.7 Minha proposta é, portanto, tentar refletir sobre a conjunção daquela
construção ética realizada pelos historiadores no seu exercício profissional, pensada enquanto
técnica de elaboração de uma persona acadêmica (e social), com as formas pelas quais tal
construção se manifesta publicamente e responde a demandas públicas que nem sempre se
esgotam em exigências puramente epistemológicas ou disciplinares. Em outras palavras, trata-
se de pensar a dimensão performativa da atuação historiográfica para além da história
disciplinada, percebendo a atuação do seu praticante como, de fato, um historiador público.
Esta reflexão se insere, assim, dentro de um quadro mais vasto no qual se encontra em
primeiro plano a preocupação em articular a percepção da crise política e cultural
contemporânea com os possíveis caminhos que se abrem para a transformação dos espaços de
saber no Brasil, sobretudo aqueles situados no âmbito da universidade pública. Dentro deste
quadro, o repensar as condições para se (re)politizar a prática historiográfica assume aqui uma
posição privilegiada. A hipótese que se levanta, dessa maneira, é a de que não basta que a
reflexão epistemológica sobre o fazer histórico se concentre única e exclusivamente em seus
postulados de produção, isto é, nos modos e princípios que orientam a construção do saber
historiográfico. Creio que, sem desconsiderar estes postulados, a atenção deve igualmente ser
voltada para os planos da circulação e da recepção do conhecimento produzido, pensando as
formas de atuação social e intervenção pública de historiadores e historiadoras em nossa
sociedade. Nesse sentido, a atenção à audiência merece um lugar particular no âmbito das
discussões historiográficas, notadamente em um momento em que outras tantas narrativas
disputam, algumas de forma claramente desonesta (porque pautadas por um ataque direto
aos professores de história), uma posição no jogo enunciativo sobre o passado e também,
principalmente, sobre o presente. Além disso, considerando que a realidade universitária
brasileira se alterou substancialmente a partir de uma série de medidas que procuraram
garantir um acesso relativamente mais democratizado às universidades, outras tantas
demandas e expectativas em relação à história foram criadas e colocadas diante de seus

7
Para uma visão abrangente deste campo no Brasil, ver: SANTHIAGO, Ricardo. Duas palavras, muitos
significados: alguns comentários sobre a história pública no Brasil. In: MAUAD, Ana Maria; ALMEIDA,
Juniele Rabêlo de; SANTHIAGO, Ricardo (orgs.). História pública no Brasil. Sentidos e itinerários. São
Paulo: Letra e Voz, 2016.

21 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 18-34, jan./jun. 2018


Muito além das virtudes epistêmicas. O historiador público em um mundo não linear

praticantes, fazendo com que a consideração delas seja hoje parte fundamental e eticamente
constituinte do próprio fazer historiográfico.

II.

Com o intuito de desenvolver essa proposta, vou me valer de um exemplo empírico que
se concretiza a partir de duas situações singulares. A primeira situação ocorreu no Rio de
Janeiro, em um domingo de maio de 2017. O imenso auditório contava com mais de 25 mil
pessoas dispostas em cadeiras organizadas em inúmeras e longas fileiras. No centro do
auditório, com imagem privilegiada para o palco, uma espécie de zona vip foi delimitada. Ali
foram colocados sofás brancos e garçons servindo os convidados que, em elegantes trajes de
festa, acompanhavam com mais ou menos interesse o evento que se passava diante deles,
entre um e outro sorriso para as câmeras que filmavam tudo ali. Os autofalantes anunciaram,
então, a principal atração da tarde, informando se tratar do “palestrante mais requisitado do
Brasil, historiador e professor da Unicamp, [que] participa em programas de rádio e televisão
nas principais emissoras do país” e, no exato momento em que o locutor proferia o costumeiro
“com vocês agora...”, entrava, em meio a um show de luzes e música tecno, com sonoros e
efusivos aplausos do público, caminhando compassadamente no extenso palco montado para a
celebração, o colega de métier Leandro Karnal.8
Era, sem dúvida, um dos momentos mais importantes da Hinode Rio Fest, evento que,
se acreditarmos na proposta dos organizadores, ofereceu “dois dias de motivação,
lançamentos de produtos, premiação de líderes, reconhecimentos e muito mais. Tudo para
você aprender e se emocionar”.9 O Grupo Hinode foi criado em 1988 por um casal de
empreendedores de Barueri como empresa de vendas de produtos cosméticos. Tem nome
inspirado na cultura japonesa, significando “o primeiro raio do sol nascente no primeiro dia do
ano”, e seu lema, “vencer é contagiante”, parece inspirar verdadeiramente milhares de
pessoas pelo mundo afora. Hoje, com fábrica própria e mais de 400 franquias espalhadas em
diversos lugares, o grupo trabalha com o sistema de “marketing multinível”, por meio do qual
seus melhores consultores são premiados conforme a categoria de rendimento que atingem: a
Diamante propicia um cruzeiro marítimo pela costa brasileira; a Imperial Two Stars oferece
como recompensa uma viagem pelo Tahiti, um relógio Rolex e uma joia Tiffany; por fim, para
aqueles mais bem-sucedidos que atingiram o nível Imperial Three Stars, um carro de luxo é
dado como prêmio. As Hinode Fests são, portanto, momentos privilegiados onde tudo isso é
evidenciado para aqueles e aquelas que fazem parte do grupo, transformando as vitórias
pessoais em grandes conquistas coletivas.

8
O vídeo com a íntegra da palestra está disponível na página de You Tube Território Conhecimento.
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=55GXRWQI8ds&t=2090s>. Acesso em: 29 out.
2017.
9
Informações sobre a edição de 2017 e de anos anteriores estão disponíveis em:
<http://hinodefest.grupohinode.com.br/>. Acesso em: 29 out. 2017.

22 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 18-34, jan./jun. 2018


Muito além das virtudes epistêmicas. O historiador público em um mundo não linear

Foi, então, para uma plateia de consultores do Grupo Hinode que Karnal, o “historiador
mais pop do país” segundo o ranking de historiadores da Revista Veja e que é acompanhado
predominantemente por “eleitores de esquerda”,10 ofereceu uma cuidadosa fala de exatamente
uma hora, misturando, como tem sido sua consciente e declarada estratégia, piadas e citações
eruditas para atrair o público para obras e autores “relevantes”. 11 O tema da palestra, que
citava entre outros autores Jean-Paul Sartre, Epicuro e Gandhi, era uma “pergunta incômoda”:
“eu sou feliz?”, e a pretensão do historiador foi, em suas próprias palavras, “transformar a
vida” daqueles que ali o ouviam. Tratava-se, para não haver dúvidas, da fala de um professor
universitário que se dedica há mais de 30 anos ao estudo de assuntos que estão “nos livros e
na vida”; portanto, seguindo as considerações feitas anteriormente, tratava-se da intervenção
pública de um historiador disciplinado e é dessa maneira que esta fala será aqui analisada.
Não há dúvidas: Karnal é realmente brilhante no que faz. Para uma plateia que estima
os padrões de sucesso representados pela categoria Imperial Three Stars, que acompanha
curiosa os movimentos daqueles distintos colegas que, por conta da sua conquistada distinção,
podem adentrar o setor reservado de sofás brancos e bandejas fartas no centro do auditório, o
orador oferece a motivação necessária e o entusiasmo requerido para atingir as três estrelas
da categoria. Lembra, inclusive, para uma audiência predominantemente cristã, que a própria
etimologia da palavra entusiasmo garante que o entusiasta é aquele que está “cheio de deus”
(aplausos da plateia). Obviamente, não vem ao caso discutir as minúcias sobre a qual ou a
quais deuses aquela etimologia grega (e pagã) se refere: o momento, evidentemente, não
pede chatices eruditas. Por outro lado, as formas de motivação propícias para a ocasião
requerem do palestrante que assuma igualmente, como ele mesmo adverte, “a função chata
do filósofo”: assim, situando-se em um contexto de crise social, considerado por ele como um
dos momentos mais difíceis da história do Brasil procede com a crítica ao individualismo
crescente. O que chama a atenção, contudo, é que correlato a tal crítica não parece haver o
direcionamento da atenção da plateia para a instância social, mas sim tão somente o elogio da
dimensão coletiva da empresa. Afinal, é só caminhando juntos e em sintonia que consultor e
empresa podem crescer e gozar da emoção contagiante da vitória. Por isso o historiador se faz
conselheiro moral, enfatizando a importância de se prestar atenção no outro, dando a este
outro um nome singular: “olhem para o rosto das pessoas – diz Karnal enfaticamente – olhem
para o rosto dos clientes, o rosto de quem está comprando”. Num passe retórico, então, a
alteridade se converte em simples relação comercial: a empatia solidária se transforma, assim,
em estratégia de venda.
Contra o individualismo, portanto, não é requerido um cuidado social, mas sim uma
atenção primordialmente mercantil. E se, como garante aquele homem sábio e cativante
andando de um lado para o outro do palco, “o rosto humano é um livro poderoso”, certamente
seu poder reside no fato dele revelar quais os desejos de consumo que se escondem por
detrás daqueles olhos, daquele nariz, daquelas bochechas dos clientes que devem ser

10
Entrevista com Leandro Karnal. Revista Veja, 05 abr. 2017, p. 15.
11
Idem.

23 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 18-34, jan./jun. 2018


Muito além das virtudes epistêmicas. O historiador público em um mundo não linear

cuidadosamente olhados, analisados, desvendados em seus mais íntimos desejos de consumo.


Por isso, o sucesso depende desse olhar cuidadoso, mas também de certo controle do tempo:
um dos principais erros das pessoas, segundo o historiador, é se preocupar em demasia “com
o momento seguinte”. O consultor bem-sucedido será aquele que melhor aproveitar (melhor
controlar, portanto) o seu próprio presente: “ao tentar uma venda, ao ler um livro, ao
namorar, ao conversar com seu filho, ao fazer qualquer coisa importante na sua vida [...] não
fique pensando no que vem depois [...] entreguem-se, entreguem-se a isso” (aplausos da
plateia). É possível notar que a ordem das atividades não é ali feita por mero acaso; ela está
de acordo com a ocasião: para aquela plateia específica, em primeiro lugar está a venda,
depois podem vir o livro, o namoro, o filho ou qualquer outra coisa tão importante quanto a
venda.
Não há como deixar de perceber que, junto à crítica ao individualismo, há um princípio
meritocrático nestes conselhos que, ao fim e ao cabo, transformam-se pela habilidade retórica
do orador na própria valorização do indivíduo, pelo menos daquele que, segundo ele, tem
méritos. Sua própria conduta serve como exemplo e parâmetro para isso. Karnal narra para
sua audiência todo o esforço pessoal que realizou ao longo dos anos para chegar onde se
encontra. Durante seus estudos, diz ter evitado excesso de festas, recusado maconha e que,
por isso, “não pegava ninguém” (risos da plateia). Além disso, sempre mirou alto em seus
próprios valores e objetivos, que significavam tornar-se um “profissional de excelência”: queria
ser Alexandre, o Grande, não o médio, tampouco o pequeno, brinca o historiador cativando o
auditório (mais risos da plateia). O esforço próprio, a despeito das condições sociais, é o que
conta em última instância. Obviamente, outras minúcias como o fato dele ter se tornado
doutor em uma universidade pública, com bolsa de uma agência pública de financiamento não
são relevantes para manter a coerência do relato, pelo menos para aquela plateia em
particular. Não há sorte no mundo, diz ele, ela é “o nome que o vagabundo dá ao esforço que
ele não fez”. Por outro lado, aquele que, como o orador, “sócio majoritário” da sua própria
existência, acorda sempre às 4 horas da manhã e que tem claro quais os valores e metas a
perseguir, certamente trilhará de modo seguro o caminho para o sucesso e, portanto, para a
felicidade, não deixando margem para o destino ou para o azar. Os obstáculos, quando se
impõem, como a atual crise social mencionada, não são outra coisa se não o excesso de
perspectivas abertas diante de si. Eis a “pista histórica” dada pelo historiador-conselheiro a
partir de seu próprio campo de saber: a experiência de crise descortina novas e empolgantes
expectativas. É a crise, por fim, o que separa “quem é bom de quem é ruim, o amador do
profissional, quem veio ao mundo a trabalho ou a passeio”. Não há como deixar de lembrar da
frase mobilizada em maio de 2016 por Michel Temer, ainda como presidente interino, sobre a
situação social no Brasil: “não fale em crise, trabalhe!”.12
Toda a performance é permeada pelo tom imperativo da fala suave e serena do orador:
façam!, evitem!, vejam!, queiram!, conheçam!. Além disso, frases de efeito produzem a

12
Ver: <http://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/05/1771899-empresario-espalha-frase-citada-por-
temer-em-outdoors-de-ms.shtml>. Acesso em: 29 out. 2017.

24 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 18-34, jan./jun. 2018


Muito além das virtudes epistêmicas. O historiador público em um mundo não linear

motivação desejada: “eu sou a transformação que eu quero ver no mundo”, “o tempo é hoje, é
agora”. Em uma hora exata de palestra, ricos ensinamentos morais são acompanhados por
momentos de prazer, com a intenção de comover e mover para a ação. Vemos e ouvimos,
portanto, o uso habilidoso e eficaz dos três princípios retóricos clássicos: docere, delectare,
movere.13 Ao final da fala, o fechamento impecável um pouco antes da selfie sobre o palco:
“agora vai começar o primeiro dia do resto da vida de vocês” (aplausos e gritos efusivos da
plateia). Fim da primeira situação.
A segunda situação, que será mais brevemente mencionada, servirá apenas para
colocar em perspectiva a primeira. Ela ocorreu dois anos antes, em maio de 2015, em um
ambiente diferente, num outro contexto e com plateia distinta. Foi uma aula inaugural
proferida em uma universidade pública, para o Programa de Pós-Graduação em História da
Universidade Federal de Uberlândia. Ou seja, Karnal estava diante dos seus pares acadêmicos,
e suas preocupações não eram as condições da felicidade humana, mas sim as perspectivas
mais prosaicas para o ser historiador no mundo contemporâneo. De todo modo, tratava-se
igualmente da atuação de um historiador disciplinado.14
Como a ocasião e o ambiente fazem o orador, a primeira frase citada para seus
próprios colegas vem de ninguém menos que Karl Marx, tirada do manifesto escrito em 1848 e
que serviu para Marshall Berman dar título ao seu conhecido livro Tudo que é sólido
desmancha no ar. Em seguida, o ponto de ligação com a obra de Zygmunt Bauman sobre a
liquidez do mundo contemporâneo é estabelecido. Karnal aproveita a oportunidade para
ressaltar a importância de se ler obras que são incontornáveis para a historiografia, como o
próprio Manifesto comunista, sem o conhecimento das quais, segundo ele, enfático e decisivo,
não se pode ser historiador. Estamos, portanto, dentro de limites disciplinares bem definidos e
compartilhados entre orador e auditório, os quais estabelecem certas práticas como
fundamentais para sua plena realização, a leitura do cânone sendo uma delas. Como aconselha
o historiador, “quem não tem compulsão pela leitura está na carreira errada. Vá vender
Amway, Avon, Jequiti [...] porque dá dinheiro, é simpático e não precisa ler nada além de
catálogo” (risos da plateia). Cabe indicar que Amway, Avon e Jequiti são empresas com formas
de atuação muito similares as do Grupo Hinode: vendem produtos cosméticos por meio de
estratégias motivacionais voltadas para seus consultores, os mesmos para quem, dali a dois
anos, Karnal estará oferecendo seus conselhos de vida, sem obviamente sugerir sua suposta
inaptidão para a leitura que agora lhe serve como recurso humorístico.
Momentos depois, na mesma aula sobre ser historiador no século XXI, oferece alguns
comentários sobre o que chama das três grandes teologias do século XX: a primeira delas, o
“empreendedorismo” (teologia que, não custa lembrar, levou uma ex-costureira e um ex-
metalúrgico a criarem o Grupo Hinode), definido por ele como “a fórmula mágica mais imbecil
já criada por um capitalismo que já teve dias melhores”; a segunda é a “teologia da

13
Sobre isso, remeto à: TEIXEIRA, Felipe Charbel. Uma construção de fatos e palavras: Cícero e a
concepção retórica da história. Varia História, v. 24, n. 40, p. 551-568, 2008.
14
A aula intitulada “Tempo, historiografia e mundo líquido”, está disponível em:
<https://www.youtube.com/watch?v=cqYpFwki1CA>. Acesso em: 29 out. 2017.

25 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 18-34, jan./jun. 2018


Muito além das virtudes epistêmicas. O historiador público em um mundo não linear

prosperidade”, ou seja, aquilo pelo quê 25 mil pessoas o ouvirão dois anos depois; por fim, a
terceira, também vinculada às duas anteriores, é a “autoajuda”, isto é, o discurso de
motivação pessoal para se encontrar a felicidade no mundo ou, em outras palavras, o discurso
que procura responder à singela pergunta: “eu sou feliz?”. Para fundamentar seus
argumentos, Karnal cita o livro O segredo, de Rhonda Byrne, como exemplo da última destas
teologias, criticando o mote da autora segundo o qual tudo aquilo que você pensa se torna
realidade. Para o historiador, que hoje motiva as pessoas assegurando serem elas mesmas “a
transformação que querem ver no mundo”, trata-se, naquele momento, de uma construção
própria de crianças em fase pré-cognitiva e de esquizofrênicos (risos contidos na plateia).
Mas o tema geral da aula não foi esquecido e Karnal trata dele nos momentos finais de
sua fala. Seu enfoque destaca a importância do historiador contemporâneo pensar no “grande
público”, assim como Marc Bloch defendia a dimensão lúdica da história. Ressalta a
importância comercial de Laurentino Gomes e condena o oportunismo desonesto de Leandro
Narloch. Estabelece uma dicotomia entre as obras, como a de Laurentino, que oferecem uma
linguagem mais acessível e, para ele, esteticamente mais cuidadosa, e um debate
especializado em algum simpósio da ANPUH onde, por exemplo, apenas “oito especialistas”
tratam da historiografia da escravidão, falando apenas para eles mesmos e valendo-se, nas
suas palavras, da “feiura da linguagem acadêmica”.15 Ser historiador no século XXI significa,
portanto, atentar seriamente para sua relação com o público e tentar, sempre que possível,
valer-se de uma forma de linguagem que cause beleza e provoque prazer, atraindo com isso
um número cada vez maior de leitores. Para ele, esta é uma exigência natural do mercado de
livros, embora “nós”, historiadores, “não podemos estar inseridos na lógica do mercado”. A
aula é, então, encerrada com um elenco de exemplos de historiadores que, para o gosto de
Karnal, escreveram de forma esteticamente mais aceitável.16 Fim da segunda situação.

III.

Em um primeiro momento, o que chama a atenção nestas duas situações é a notável


capacidade de adaptação que Leandro Karnal possui diante de auditórios tão variados. Se a
atuação em ambas parece obedecer ao mesmo princípio, ou seja, o do historiador como bom
conselheiro (mostrando os caminhos da felicidade em um caso e, no outro, os dilemas da
prática historiográfica e como enfrentá-los), os procedimentos utilizados são sensivelmente
distintos. Embora todo o gestual seja muito próximo, os termos usados e a atitude assumida
se diferenciam. Em 2015, a evidente auto-ironia em relação a si mesmo, no caso de um

15
Não custa atentar para um fato importante: em junho de 2017, João José Reis, historiador da
escravidão, foi agraciado com o prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras pelo conjunto
de sua obra.
16
O elenco passa por Michel de Certeau, Carl Schorske, Natalie Zemon Davis, Edward Palmer Thompson,
Cristopher Hill. Entre os brasileiros, é significativo que a única menção feita seja a Evaldo Cabral de Mello
que, a rigor, não é historiador de formação universitária.

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Muito além das virtudes epistêmicas. O historiador público em um mundo não linear

praticante da historiografia disciplinada (interesse supostamente de apenas 8 especialistas),


cede lugar em 2017 para o elogio do esforço pessoal (daquele que acorda às 4 horas da
manhã para perseguir suas metas). Aquele que buscava exemplos de conduta discursiva (a
lista dos historiadores que bem escrevem), converte-se ele mesmo no próprio exemplo de
conduta moral (o homem bem-sucedido). Além disso, o que antes era motivo do comentário
jocoso, dois anos depois se tornará o objeto principal da sua fala e, inclusive, o responsável
financeiro por ela.
Obviamente, não seria o caso de cobrar de Karnal que apresentasse para os
vendedores do Grupo Hinode, a obra daquele que teorizou sobre o fetichismo da mercadoria
ou que assegurou haver um espectro comunista rondando a Europa. Afinal, o intuito era
produzir motivação e não gerar pânico em 25 mil pessoas num auditório lotado. Da mesma
forma, seria tarefa talvez inócua oferecer estratégias de venda e de sucesso comercial, ou
mesmo o segredo da felicidade, para estudantes da área de humanas que, ou querem destruir
a exploração capitalista mundial, ou já leram muita literatura para acreditar que basta
perseguir metas individuais para ser feliz em uma sociedade. Cabe, porém, atentar para o
fato: nos dois casos, o auditório fez o orador.
O que gostaria de destacar com isso é o fato de que, no processo consciente e
complexo da construção deste modelo multifacetado de persona acadêmica, estamos em um
plano muito além das virtudes puramente epistêmicas, um plano que, inclusive, embaralha um
pouco as sugestões feitas por Herman Paul em suas teses sobre virtudes, habilidades e
desejos acadêmicos.17 Pois se a persona do historiador, entendida pelo autor holandês como
“modelos de individualidade acadêmica” (models of scholarly selfhood), não se confunde com
máscaras que são vestidas conforme a ocasião, mas, pelo contrário, se constitui a partir de
certas disposições que nunca são desvinculadas do indivíduo, como compreender tamanha
flexibilidade de posicionamento de Karnal nas duas situações descritas? Qual deles deve ser
levado em consideração: aquele que subestima a capacidade de leitura de vendedores de
cosméticos ou aquele que tenta ensiná-los o caminho de sucesso para as vendas e, com isso,
para a felicidade?
Creio que para se pensar as modalidades de intervenção pública dos historiadores,
então, há de se considerar igualmente as formas pelas quais se dá a intervenção do público
sobre os historiadores. Ou seja, há uma dimensão da legitimidade do trabalho intelectual,
constitutiva da persona acadêmica, que, pelo menos nos casos aqui tratados, independe
apenas das virtudes epistêmicas daquele que o realiza e está amparada predominantemente
nas virtudes que o auditório parece estabelecer como demanda. Assim, este argumento traz
para o primeiro plano o papel dos públicos na conformação da ética profissional e também dos
modos de orientação política assumidos e praticados por historiadores e historiadoras. Em
alguns casos, o bom intelectual é aquele que desempenha uma função pública mais reativa, ou
seja, é aquele que simplesmente reage a um ambiente e se apresenta como garantidor das

17
PAUL, Herman. What is a schlarly… Op. cit.

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Muito além das virtudes epistêmicas. O historiador público em um mundo não linear

certezas preestabelecidas; a palestra motivacional organizada pelo Grupo Hinode me parece


um exemplo disso: não há qualquer questionamento em relação a nada do que estava ali em
jogo, sobretudo, em relação à justaposição fácil entre sucesso de vendas e felicidade pessoal.
Era exatamente isso o que aquela audiência parecia querer e esperava ouvir. Em outros casos,
todavia, ele pode assumir o papel de quem incita a dúvida, suspende as familiaridades e
desconstrói o que aparece como evidência; a fala questionadora da disciplina para um
programa de pós-graduação ilustra essa perspectiva: seus ouvintes são levados a
problematizar sua própria prática, buscando outros caminhos para praticá-la. Em certa
medida, a expectativa do público foi igualmente atendida.
Não estou com isso estabelecendo um juízo de valor sobre um ou outro caso, como se
houvesse uma escala de qualidade moral entre eles, mas sim sugerindo que correlata à
pergunta sempre constante sobre a função social do historiador está a indagação sobre para
que público ele está falando ou escrevendo, ou seja, sobre a demanda social pelo historiador.
Dito de outro modo, isso significa considerar que as duas perguntas sobre o que historiadores
têm para oferecer para a sociedade e sobre o que a sociedade produz de expectativa em
relação a eles andam juntas, mesmo que nem sempre sejam coincidentes. É justamente neste
espaço performático entre a produção e a recepção do conhecimento, entre a escrita e a
leitura (ou entre a fala e a audiência), que a dimensão ética transparece na atuação pública
dos historiadores. Caso, como normalmente se sugere, o dever de “dizer a verdade”
permaneça sendo o imperativo ético fundamental da historiografia acadêmica, creio ser
igualmente fundamental considerar não apenas quem diz tal verdade e como o faz, mas
também para quem ela é dita, o que se faz com ela e como ela funciona em determinado
contexto social.
Em outras palavras, é possível considerar a dimensão da ética profissional na
historiografia como uma qualidade performativa que articula os historiadores e historiadoras
com suas diferentes audiências, constituindo seu modo de atuação e intervenção no espaço
público e, por isso mesmo, assumindo uma dimensão eminentemente política. No caso aqui
mencionado, as duas situações mostram com nitidez a complexidade envolvida no trato destas
questões. Por um lado, a fala elaborada em 2015 para o auditório de um programa de pós-
graduação incentiva a busca por uma nova modalidade de escrita historiográfica e, dessa
maneira, incita o constante pensar sobre a prática disciplinar da história, trazendo em seu bojo
a reflexão sobre o próprio lugar onde é praticada, isto é, a universidade pública. Insere-se,
obviamente, dentro dos modos de exercício de um poder disciplinar que produz, nesse sentido,
sujeitos disciplinados, mas a partir de um viés que permite nele mesmo o questionamento de
um modelo de disciplina supostamente fechada em si mesma, criando brechas para sua
transformação e abertura para públicos mais amplos. Todas estas questões conformam, dessa
maneira, o próprio ethos do historiador contemporâneo apresentado nesta oportunidade.
Como sugere João Ohara, “pela produção de subjetividades, os praticantes de certas
disciplinas acadêmicas são disciplinados. Eles aprendem conceitos e leem certos textos
considerados importantes pelo seu campo, mas aprendem também a ser historiadores [...] Daí

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Muito além das virtudes epistêmicas. O historiador público em um mundo não linear

em diante, não apenas têm adquirido habilidades cognitivas específicas, mas também
referências não-epistêmicas em relação às quais eles se posicionam como historiadores –
política, ética e esteticamente”.18
Por outro lado, a palestra motivacional oferecida aos consultores de venda do Grupo
Hinode em 2017 se insere em outra lógica e pode ser ligada, inclusive, a uma forma de
racionalidade mais ampla que é ela própria amparada em outras formas de relação de poder.
Aqui, a equação entre sucesso de vendas e mérito individual é colocada como condição
imprescindível para se chegar à felicidade que, mesmo sem ser plenamente enunciado como
tal, é o objeto desejado por aquela audiência específica. Como afirmam Pierre Dardot e
Christian Laval, “a vontade de realização pessoal, o projeto que se quer leva a cabo, a
motivação que anima o ‘colaborador’ da empresa, enfim, o desejo com todos os nomes que se
queira dar a ele é o alvo do novo poder”. Por conta disso, prosseguem os autores, “o ser
desejante não é apenas o ponto de aplicação desse poder; ele é o substituto dos dispositivos
de direção das condutas. Porque o efeito procurado pelas novas práticas de fabricação e
gestão do novo sujeito é fazer com que o indivíduo trabalhe para a empresa como se
trabalhasse para si mesmo e, assim, eliminar qualquer sentimento de alienação e até mesmo
qualquer distância entre o indivíduo e a empresa que o emprega”. 19
Tem-se, portanto, duas formas de relação díspares que, à primeira vista, parecem
contraditórias entre si: no primeiro caso, a relação entre estudantes de história e universidade
pública mediada pela reflexão sobre o estatuto da historiografia enquanto disciplina
acadêmica; no segundo, a relação entre consultores e a empresa onde atuam mediada pelo
incentivo à venda e ao mérito individual. Porém, é viável colocar ainda outra pergunta talvez
mais constrangedora: em um mundo de relações sociais e de construções individuais flexíveis,
seria tal disparidade realmente uma contradição ou, pelo contrário, seria ela a própria
racionalidade que move este mundo? Em outras palavras, a atuação deste mesmo historiador
público nos dois ambientes, por mais que motivada por intenções tão visivelmente distintas,
não parece sugerir uma proximidade de fundo entre um e outro espaço, ou seja, entre a
universidade e a empresa?

IV.

Não são poucas as intervenções, desde abordagens mais fundamentadas até


comentários rápidos em redes sociais, que vêm apontando para o processo acelerado de
transformações que aproximam a universidade da empresa, seja no plano do gerenciamento
institucional, seja no âmbito das formas de avaliação acadêmica. 20 Todavia, como este assunto

18
OHARA, João Rodolfo Munhoz. The disciplined historian... Op. cit., p. 49-50.
19
DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo. Ensaio sobre a sociedade neoliberal. São
Paulo: Boitempo, p. 327.
20
Para alguns poucos exemplos, ver: LEHER, Roberto; VITTORIA, Paolo; MOTTA, Vânia. Educação e
mercantilização em meio à tormenta político-econômica do Brasil. In: Germinal. Marxismo e educação em

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Muito além das virtudes epistêmicas. O historiador público em um mundo não linear

demanda mais espaço e tempo do que me é aqui possível, o foco das considerações feitas será
voltado especificamente para a forma de atuação de Leandro Karnal nos dois casos relatados.
Assim, creio não ser de todo equivocado situar a construção da persona acadêmica deste
historiador público no plano daquilo que Dardot e Laval chamaram de “nova razão do mundo”,
ou seja, o quadro mais amplo de racionalidade que fundamenta a sociedade neoliberal
contemporânea.21
Retomando a proposta de João Ohara, segundo a qual a formação da identidade
intelectual daquele ou daquela que pratica história é feita a partir de um “maquinário de
subjetivação” (machinery of subjectivation), é possível considerar com ele ainda que “o lugar
social da história é, então, o ponto por meio do qual é possível abarcar este maquinário em
ação – onde se tenta moldar o seu eu acadêmico (scholarly self) por meio da referência a um
repertório de personas acadêmicas que lhe estão disponíveis em dada situação histórica”. 22 O
que Dardot e Laval oferecem, nesse sentido, é uma perspectiva plausível para pensarmos o
que a atual situação histórica oferece como disponibilidade para a construção de si daquele
historiador em particular. Assim, considero fundamental para este argumento a colocação feita
pelos autores franceses de que a dimensão normativa da razão neoliberal “muda até o
indivíduo, que é instado a conceber a si mesmo e a comportar-se como uma empresa”.23 Em
outras palavras, o neoliberalismo se estabelece como uma “norma” a partir da qual a produção
de sujeitos tem lugar, colocando o mercado como espaço privilegiado para isso e a
concorrência como modus operandi principal.
Assim, o sujeito neoliberal é também um sujeito instado a todo momento a criar formas
de atuação, ou de “governo de si” (como preferem os autores a partir de uma chave de leitura
foucaultiana), que transformam cada indivíduo em um possível empreendedor: este “é um ser
dotado de espírito comercial, à procura de qualquer oportunidade de lucro que se apresente e
ele possa aproveitar, graças às informações que ele tem e os outros não”. Com isso, concluem
de forma enfática: “o mercado é um processo de formação de si”.24 Considerando, então, que
todo este processo de subjetivação se dá através de uma lógica concorrencial que parece
valorizar antes os méritos próprios da concorrência (e dos concorrentes) em detrimento das
condições sociais na qual ela se dá, todo participante desta lógica é convocado a valorizar-se a
si mesmo como um capital passível de rendimento: o indivíduo se torna, então, um “capital
humano”.

debate, v. 9, n. 1, p. 14-24, 2017; ARAUJO, Valdei Lopes de. O regime de autonomia avaliativo no
Sistema Nacional de Pós-Graduação e o futuro das relações entre historiografia, ensino e experiência da
história. Anos 90, v. 23, n. 44, p. 85-110, 2016; LAVAL, Christian. Les nouvelles usines du savoir du
capitalisme universitaire. Revue du MAUSS, n. 33, p. 173-184, 2009/1; LORENZ, Chris. Sobre el
economicismo y el canibalismo académico. Disponível em:
<https://www.academia.edu/15488434/Sobre_el_economicismo_y_el_canibalismo_acad%C3%A9mico>.
Acesso em: 29 out. 2017.
21
DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo... Op. cit.
22
OHARA, João Rodolfo Munhoz. The disciplined historian… Op. cit., p. 50.
23
Op. cit., p. 16.
24
Ibidem, p. 145.

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Muito além das virtudes epistêmicas. O historiador público em um mundo não linear

O historiador público, enquanto conselheiro (disciplinar ou motivacional), está não


apenas oferecendo sábios conselhos, mas também entregando um produto (seja ele
remunerado ou não). Além disso, está entregando-se ele mesmo como um produto que pode
servir de modelo de conduta para aqueles que o ouvem com atenção ou simplesmente
consomem o que tem a dizer. No site de internet Kratos Klio, usado como instrumento de
divulgação dos serviços oferecidos por Leandro Karnal como palestrante, o tema da “difusão
do conhecimento” no mundo contemporâneo é colocado em primeiro plano, encarado antes
como caminho para se atingir uma meta do que a própria meta em si. 25 E ali é elencado todo
um rol de possibilidades de conteúdo aos interessados que quiserem ou puderem contratar
seus serviços: ética, corrupção, empreendedorismo, liderança, o mal, o ódio, planejamento
estratégico, protagonismo, gestão de mudanças, relação entre magistrados e servidores, vida
bem-sucedida, vaidade, conhecimento, mundo líquido e outros temas aparecem como
possibilidades de atuação do historiador-palestrante.
O que me parece interessante constatar é a aparente desconexão entre o campo
propriamente disciplinar da história e o mundo dos serviços motivacionais oferecidos. Entre os
temas elencados não estavam (pelo menos no momento em que foi consultado) aqueles que
poderíamos considerar como próprios da especialização historiográfica do palestrante.
Cronistas coloniais, representações religiosas no século XVI, fontes historiográficas, ensino da
história, por exemplo, não aparecem listados. Possivelmente, um limite ético foi ali
estabelecido: tais temas não são conteúdos oferecidos nas formas de serviços remunerados,
sobretudo se considerarmos que são temas que interessam notadamente o público
universitário. Mas é possível que haja ainda uma justificável razão comercial nisso, afinal,
mesmo sem ter dados disponíveis para afirmar com mais fundamento, dificilmente uma
empresa gostaria de motivar seus funcionários com histórias sobre cronistas do século XVII.
De todo modo, a referida desconexão de campos não implica por parte de Karnal em uma
recusa ou negação do seu estatuto social enquanto historiador acadêmico: a descrição do seu
currículo constante no site demonstra isso. Afinal, mesmo que sem grande apelo para o
mercado, o ser professor universitário ainda lhe oferece um capital simbólico considerável
dentro de nosso sistema intelectual. Resta saber até quando isso continuará sendo necessário
para os fins propostos.
Por isso penso ser fundamental analisar suas formas de atuação em conjunto e de
modo comparativo, pois elas são antes complementares que excludentes. A fala de 2015 está
em plena sintonia com a fala de 2017, embora o conteúdo da primeira possa contradizer o da
segunda. Entre uma e outra, vemos o profissionalismo de um ator social que deve se fazer
cada vez mais flexível num mercado de trabalho que é, em sua dinâmica própria, um espaço
de competição e de concorrência onde (supostamente) apenas os mais aptos têm condições
(ou méritos) de ser bem-sucedidos. E uma das estratégias fundamentais para se jogar este
jogo é estar atento às demandas que os diferentes públicos colocam para seu jogador,

25
Ver: http://www.kratosklio.com.br/. A consulta foi realizada em outubro de 2017. O site passou
recentemente por uma considerável reforma, cujas alterações me escapam.

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Muito além das virtudes epistêmicas. O historiador público em um mundo não linear

tornando, neste caso, o historiador um sujeito plenamente adaptado e adaptável aos variados
ambientes em que atua. No fundo, não se trata apenas da capacidade de se fazer ouvir por
diferentes auditórios (a busca por aquela linguagem mais “bonita” ou “acessível” da aula de
2015), mas, no limite, trata-se da disponibilidade de dizer a tais auditórios o que eles querem
escutar ou pagam para ouvir, mesmo que a risada de uma determinada plateia tenha que ser
conquistada às custas daquilo que outra plateia representa. Afinal, o velho (e discutível) mote
do mercado ainda parece ser um princípio pertinente nestes casos: o cliente tem sempre
razão.

V.

O exemplo de atuação do historiador público aqui analisado coloca para a reflexão sobre
o estatuto social da historiografia, considerado a partir das suas variadas formas de produção,
circulação e recepção, uma série de questionamentos que atravessam não apenas o campo
disciplinar da história, mas avançam em temas que dizem respeito à ética e à dimensão
política dos saberes socialmente constituídos. Creio que se tornam particularmente sensíveis
justamente em um momento em que as relações entre historiadores, historiadoras e seus
públicos são situadas diante de um contexto de crise que põe em risco os princípios mais
básicos para a existência de formas de educação democráticas e plurais: a liberdade de
ensinar e as condições materiais para isso. Os impasses resultantes dessa crise já foram
oportunamente destacados por Francisco Gouvêa de Sousa, Géssica Guimarães Gaio e Thiago
Lima Nicodemo, num artigo em que é problematizada a abertura do saber histórico para
auditórios mais amplos, a partir da ideia de democratização dos discursos em que o falar para
certas plateias cede espaço ao falar com determinados públicos. E os autores têm plena razão
ao colocar isso dentro de uma realidade universitária popular e marcada por demandas e
expectativas extremamente variadas.26
Diante disso, a posição de Leandro Karnal da forma como foi aqui analisada tensiona a
reflexão, tornando mais complexo, pertinente e urgente o pensamento proposto por Francisco,
Géssica e Thiago. Pois se uma das condições para o enfrentamento e para a resistência em
relação à crise atual passa pela atenção efetiva aos diferentes auditórios dos historiadores e
historiadoras, quais os limites ou precauções podem ou devem ser colocados para isso? Em
outras palavras, como realizar o gesto de abertura do saber histórico, vinculando-o ao
processo de democratização dos seus espaços de produção e circulação (a universidade pública
sendo um deles), a partir de uma “nova razão do mundo” que tende justamente, por um lado,
a atacar frontalmente a existência de tais espaços (a universidade pública é tornada um fardo
econômico diante de exigências neoliberais de eficácia empresarial) e, por outro, a anular os

26
SOUSA, Francisco Gouvêa de; GAIO, Géssica Guimarães; NICODEMO, Thiago Lima. Uma lágrima sobre
a cicatriz: o desmonte da universidade pública como desafio à reflexão histórica (#UERJResiste). Revista
Maracanan, Rio de Janeiro, n. 17, p. 71-87, jul./dez. 2017.

32 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 18-34, jan./jun. 2018


Muito além das virtudes epistêmicas. O historiador público em um mundo não linear

efeitos políticos das práticas democráticas almejadas (a despolitização da política realizada


pelo neoliberalismo conduz à “desdemocratização” da democracia 27)?
Os limites deste artigo e os objetivos aqui propostos não permitem avançar mais nestas
questões, que envolveriam também analisar onde e de que maneira a lógica neoliberal incide
sobre as práticas cotidianas dos historiadores e historiadoras, particularmente aqueles que
atuam em ambientes universitários, com suas lógicas próprias de gerenciamento de “recursos
humanos” e recursos financeiros, seus métodos de arregimentação profissional e seus
processos avaliativos de desempenho. Creio, contudo, que o argumento sobre as
possibilidades de atuação do historiador público no mundo contemporâneo já está colocado,
com todos os impasses e desafios que isso impõe à própria reflexão, salientando a importância
de se acrescentar aos tópicos desta reflexão o lugar e o papel dos públicos da historiografia na
definição dos seus critérios de legitimidade social e, em alguns casos, disciplinar, incidindo
notadamente nas relações entre ética profissional e orientação política.
Para finalizar, gostaria de lembrar que, há já algum tempo, quando nem disciplina
historiográfica existia ainda, um jovem grego ouvia atenta e emocionadamente as narrativas
daquele que posteriormente Cícero nomeou como o “pai da história”. Isso fez o jovem tornar-
se igualmente um historiador e, quem sabe, o inaugurador da prole daquele pai, quando
resolveu oferecer ao mundo o seu próprio relato sobre os feitos e fatos da guerra do
Peloponeso. Como se sabe, Tucídides, no que talvez tenha sido o primeiro conflito de gerações
de que se tem conhecimento na historiografia ocidental, criticou a figura paterna e todos
aqueles que, como Heródoto, “compuseram visando ao que é mais atraente para o auditório
de preferência ao que é verdadeiro”. 28 Com isso, iniciou toda uma fortuna crítica que jogou
figura de Heródoto, durante séculos, para um campo marginal ao saber histórico e à própria
relação mantida com a verdade, além de ter estabelecido uma discutível dicotomia entre o
prazer da narrativa e a utilidade do saber narrado.29 Hoje certamente a relação entre a atração
do público e a enunciação das verdades se coloca de forma distinta, tornando legitimamente
viável que os historiadores se abram para auditórios cada vez mais amplos e impondo outros
desafios para a reflexão em um mundo que, mesmo assumindo uma nova (des)razão, não é
linear.

27
“Se, ao contrário, sustentarmos que a democracia repousa sobre a soberania de um povo, o que
aparece então é que, enquanto doutrina, o neoliberalismo é, não acidentalmente, mas essencialmente,
um antidemocratismo”. DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo... Op. cit., p. 384.
28
TUCÍDIDES. Guerra do Peloponeso, I, XXI. Utilizo a edição estabelecida por Jacqueline de Romilly e
traduzida para o português por Anna Lia Amaral de Almeida Prado. História da Guerra do Peloponeso.
Livro I. São Paulo: Martins Fontes, 1999, p. 29.
29
Sobre a relação dos historiadores antigos com seus públicos, ver: MOMIGLIANO, Arnaldo. Les
historiens du monde classique et leurs publics: quelques suggestions. In: Problèmes d’historiographie
ancienne et moderne. Paris: Gallimard, 1983. Para considerações rápidas sobre a fortuna crítica a
respeito de Heródoto, ver: HARTOG, François. O nome de Heródoto. In: O espelho de Heródoto. Ensaio
sobre a representação do outro. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1999.

33 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 18-34, jan./jun. 2018


Muito além das virtudes epistêmicas. O historiador público em um mundo não linear

Fernando Nicolazzi: Professor do Departamento de História e do Programa de Pós-graduação


em História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e do Mestrado Profissional
em Ensino de História – PROFHISTORIA. Possui graduação em História pela Universidade
Federal do Paraná (UFPR); mestrado e doutorado em História pela UFRGS. É pesquisador do
Laboratório de Estudos sobre os Usos Políticos do Passado (LUPPA-UFRGS) e pesquisador-
colaborador do Núcleo de Estudos em História da Historiografia e Modernidade (NEHM-UFOP).
Seus principais temas de pesquisa são: Teoria da História; Historiografia moderna;
Historiografia brasileira.

34 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 18-34, jan./jun. 2018


n. 18, p. 35-49, jan./jun. 2018
ISSN-e: 2359-0092
DOI: 10.12957/revmar.2018.31185

REVISTAMARACANAN
Dossiê

Indisciplinando a historiografia: do passado histórico ao


passado prático, da crise à crítica 1

Indisciplining historiography: from the historical past to the practical past,


from crisis to critique

Arthur Lima de Avila


Universidade Federal do Rio Grande do Sul
arthurlavila@gmail.com

Resumo: O objetivo deste texto é tentar provocar algumas reflexões sobre e para a historiografia
contemporânea, a partir da ideia de “passado prático” de Hayden White e suas críticas ao “passado
histórico” e disciplinado. Através disto, pondero sobre algumas das possibilidades e consequências
teóricas e políticas para uma historiografia ancorada em uma visão prática do passado e francamente
crítica de algumas tradições e injunções disciplinares muitas vezes naturalizadas pelos historiadores e
historiadoras, especialmente em um contexto em que elas parecem ter entrado em crise, dadas as
mudanças na conjuntura que as possibilitaram em primeiro lugar.

Palavras-chave: Passado prático; Passado histórico; Historiografia; Disciplina.

Abstract: This text’s aim is to try to provoke some reflections about and for contemporary historiography
from the standpoint of Hayden White’s idea of the “practical past” and his criticism of the disciplined
“historical past”. Through this, I ponder about some of the theoretical and political possibilities and
consequences for a historiography anchored in a practical vision of the past and openly critical of some of
the disciplinary traditions and injunctions often naturalized by historians, especially in a context where
they seemingly seem to be in crisis, given the changes in the conjuncture that made them possible in the
first place.

Keywords: Practical past; Historical past; Historiography; Discipline.

Recebido: Novembro 2017


Aprovado: Janeiro 2018

1
Versões preliminares deste texto foram apresentadas no I Encontro de História (In)Disciplinada,
realizado na UFRGS em outubro de 2015, e em uma reunião do Fórum de Teoria da História e
Historiografia no Rio de Janeiro, ocorrido na UFRRJ em novembro do mesmo ano. Gostaria de agradecer
a todos/as os/as participantes destes encontros, pelos debates proporcionados, e especificamente aos/às
colegas André de Lemos Freixo, Rodrigo Turin, Felipe Charbel, Gloria de Oliveira, Rebeca Gontijo,
Francisco Sousa, Fernando Nicolazzi e Temístocles Cezar pelas leituras detalhadas e colocações
extremamente pertinentes, que ajudaram a moldar a sua versão definitiva.
Indisciplinando a historiografia: do passado histórico ao passado prático, da crise à crítica

¿Como podemos vivir así, sin saber en qué tiempo


estamos?’, insistió Tolosa. ‘Si, que sabemos’, dijo
Gorostiaga. ‘Es la tardecita. Viene la noche’.2

Atrincherarse en lo empírico no aumenta el


conocimiento, sino la ignorancia.3

Vivemos em tempos sombrios. Ou, melhor, continuamos vivendo em tempos sombrios.


O infeliz século XX, assim o nomeado por Imre Kertesz, 4 pode ter ficado para trás, mas sua
cria, a vigésima-primeira centúria, já nasceu em meio a sangue, fogo e gritos - não teria sido
seu batismo o atentado contra o World Trade Center e a subsequente “guerra ao terror”, cujos
horrores estão tão prenhes de significados? O fim da história, professado por Francis
Fukuyama e alardeado por um sem número de apologistas da globalização neoliberal, não
passou de mera ilusão – ou falácia. O pesadelo do qual Stephen Dedalus tentou escapar
continua assombrando nossas noites. Como dar conta dele? Como nós, historiadoras e
historiadores, supostamente habilitados a dar sentido a esta aflição, podemos responder a ele
– se é que podemos?
Esta indagação, claro, não é nova. Como sabemos, ela tem sido recorrente entre
aquelas e aqueles interessados não só em teoria da história, mas nas funções sociais e
políticas mais amplas da historiografia. A partir dela, outras antigas, mas ainda bastante
necessárias, perguntas reemergem: qual deveria ser a serventia do passado para o presente?
Aliás, deveria ter o passado alguma utilidade para o presente? Poderia a disciplina histórica,
ela própria fruto de contingências históricas específicas, ser naturalizada como a fiadora desta
serventia? Afinal de contas, e encerrando estas indagações preliminares, qual seria a
justificativa para se submeter o passado à guarda de uma imaginação disciplinada? Em uma
conjuntura caracterizada por um suposto sentimento de crise nas oficinas de Clio, estes
questionamentos não se tornam um mero exercício metateórico, apartado da prática
historiográfica cotidiana: se levados a sério, podem abrir possibilidades interessantes para
repensarmos alguns dos postulados mais amplos de nossa disciplina.
Tendo em vista estas inquirições, o objetivo deste texto é tentar provocar algumas
reflexões sobre e para a historiografia contemporânea, a partir da ideia de “passado prático”
de Hayden White e suas críticas ao “passado histórico” e disciplinado.5 Desta forma, o texto
está dividido em duas partes, além de um breve epílogo: na primeira, a partir dos postulados
não só de White, mas também de outros autores e autoras, tento pensar sobre o que
significou e significa o disciplinamento do passado pela historiografia; já na segunda,
apresento algumas das possibilidades abertas à historiografia a partir da noção de “passado

2
KOHAN, Martin. Los Cautivos. Buenos Aires: Debolsillo, 2010, p. 15.
3
SAER, Juan José. El Rio sin Orillas. Buenos Aires: Seix Barral, 2012, p. 32.
4
KERTESZ, Imre. A língua exilada. Cia. das Letras: São Paulo, 2004, p. 23.
5
WHITE, Hayden. The Practical Past. Evanston: Northwestern University Press, 2014, p. 3-24.

36 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 35-49, jan./jun. 2018


Indisciplinando a historiografia: do passado histórico ao passado prático, da crise à crítica

prático”, especialmente diante de um presente que parece ter perdido a capacidade de


produzir sua própria crítica e de uma disciplina que continua acreditando demasiadamente em
seus postulados.

Disciplinando o passando, gestando a história

Num texto célebre, originalmente publicado em 1982 e mais tarde replicado no


fundamental “The Content of the Form”, Hayden White demonstrou como a transformação da
historiografia em uma disciplina pretensamente científica acarretou na domesticação da
imaginação não só sobre o passado, mas também sobre o presente e o futuro. Este processo,
em sua apreciação, cumpriu uma dupla função: desarmar as filosofias da história que
imaginavam o pretérito a partir do presente (caso do marxismo, por exemplo) e, através desta
mesma neutralização, condenar como “irrealista” toda e qualquer forma de pensamento
utópico ou de transformação social mais radical. Burguesa por excelência e guiada pelos
valores normativos da “objetividade” e da “neutralidade”, a historiografia profissional tornou-
se, no decorrer dos anos, um repositório de interpretações “realistas” que, durante muito
tempo, serviram às necessidades e demandas do status quo, talvez menos por militância ativa
do que por um silêncio cúmplice.6
Do mesmo modo, de acordo com a já clássica análise de Michel de Certeau, a
historiografia disciplinada normatizou uma relação de cesura entre o passado e o presente,
fazendo com que este fosse apenas o ponto de chegada daquele e não ele próprio um objeto
de análise e/ou crítica dos historiadores.7 O presente afirmava-se, portanto, como o “não-dito”
da escrita da história disciplinada. Para usar a formulação de Chris Lorenz, os historiadores
profissionais pressupunham o “esfriamento” do pretérito à medida em que as décadas iam se
sucedendo, não tendo ele nenhuma outra relação com o presente salvo a de tê-lo precedido
temporalmente.8 Consequentemente, a disciplina histórica afirmava (afirma?) que as fronteiras
temporais entre o passado e o presente eram bastante precisas, com os vivos habitando este e
os mortos residindo nos “gélidos domínios” daquele: “portanto, o passado como um objeto da
história enquanto disciplina só pode existir na medida em que é ‘disciplinado’ – e,
consequentemente, conquanto os mortos se abstenham de assombrar os vivos”. 9 Daí,
portanto, a codificação deste processo em lugares comuns disciplinares, ainda bastante
recorrentes, sobre o passado ser “um país estranho” (as pessoas fazem coisas diferentes por
lá!) e/ou a necessidade de se “respeitar” a sua “integridade” através da condenação do
“anacronismo” – a manutenção desta distância transformada em diferença - como a mais

6
WHITE, Hayden. The Content of the Form: narrative discourse and historical representation. Baltimore:
The Johns Hopkins University Press, 1987, p. 58-82.
7
DE CERTEAU, Michel. A Escrita da História. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002, p. 14-18.
8
LORENZ, Chris. Blurred Lines: history, memory and the experience of time. International Journal for
History, Culture and Modernity, v. 2, n. 1, 2014b, p. 43-62.
9
LORENZ, Chris. It Takes Three to Tango: history between the “practical” and the “historical” past. Storia
della Storiografia, v. 65, n. 1. 2014a, p. 29-46.

37 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 35-49, jan./jun. 2018


Indisciplinando a historiografia: do passado histórico ao passado prático, da crise à crítica

grave ofensa possível contra a “boa” historiografia.10 Jörn Rüsen, não supreendentemente, nos
oferece uma boa descrição desta injunção enquanto método:

Empiria é o passado objetificado. Dito de maneira drástica, o passado vivo nas


circunstâncias da vida presente teria de ser morto metodicamente, para poder
ser visto enquanto passado. Só assim o passado aparece, tanto em sua
diferença temporal quanto na especificidade e diferenciação em relação ao
presente. Heuristicamente, o passado vira “coisa”, conteúdo material da
manifestação empírica da vida humana passada.11

Não há nenhum assombro, aqui: os mortos precisam ser coisificados e devidamente


afastados do presente para que a historiografia “metodicamente controlada” possa emergir
como “ciência”.
Esse disciplinamento da “imaginação histórica”, para citarmos outra obra clássica de
12
White, conformou uma série de suposições e atitudes da historiografia profissional em
relação ao passado e à sua função social, mais tarde naturalizadas e transformadas em pilares
de sua ideologia disciplinar. Em seu magistral estudo sobre a ideia de objetividade na
historiografia norte-americana, Peter Novick descreveu muito bem tais fundamentos:

Compromisso com a realidade do passado e com a verdade como


correspondência a esta realidade; uma separação clara entre sujeito e objeto,
fatos e valores; e, principalmente, entre “história” e “ficção”. Os fatos históricos
são tomados como anteriores e independentes à sua interpretação. [...].
Quaisquer padrões que existam na história, eles são “encontrados”, não
“criados”; [...] o significado dos eventos, apesar das mudanças de perspectivas
dos próprios historiadores, é, assim, tomado como imutável.13

“Objetificação”, na colocação de Ethan Kleinberg, significa, aqui, “colocar as coisas em


seus devidos lugares” – a famosa “contextualização” – a partir da utilização do “método
correto”.14 Independente das inúmeras discussões disciplinares sobre “metodologias
históricas”, a questão recorrente, quando não dominante, nelas é a de se “prezar” pelo
passado, impedindo ou minimizando as “invasões” e “abusos” do presente em relação a ele. 15

10
Sobre isso, ver: PHILLIPS, Mark Salber. On Historical Distance. New Haven: Yale University Press,
2013; FASOLT, Constantin. The Limits of History. Chicago: The University of Chicago Press, 2004. Sobre
o anacronismo, ver: RANCIERE, Jacques. O conceito de anacronismo e a verdade do historiador. In:
SALOMON, Marlon (org.). História, Verdade e Tempo. Chapecó, SC: Argos, 2011, p. 21-50.
11
RÜSEN, Jörn. Teoria da História: uma teoria da história como ciência. Curitiba: Ed. UFPR, 2015, p. 175.
12
WHITE, Hayden. Metahistory: the historical imagination in 19th century Europe. Baltimore: The Johns
Hopkins University Press, 1973.
13
NOVICK, Peter. That Noble Dream: the “Objectivity Question” and the American historical profession.
Cambridge: Harvard University Press, 1988, p. 1-2.
14
KLEINBERG, Ethan. Haunting History: for a deconstructive approach to the past. Stanford: Stanford
University Press, 2017, p. 1-12.
15
Não é de se espantar que, nesta lógica, a objetividade seja alçada à condição de virtude essencial à
“boa” historiografia, com a implicação lógica, mesmo que não exposta nestes termos, de que aqueles que
a dispensam como horizonte normativo não são historiadores ou historiadoras virtuosas. Mais do que
uma simples questão “científica”, adentramos aqui no campo da moral – o que me parece uma seara
demasiadamente perigosa para se discutir a disciplina. Ver: ASSIS, Arthur Alfaix. Objectivity and the first
law of historical writing. Journal of Philosophy of History, 2016, p. 1-23. Do mesmo modo, é importante
lembrar que é esta moralização do ideal objetivista que embasa a “crítica” de Ginzburg à White e, por
extensão, àqueles que ele chama “relativistas céticos”. Ver: GINZBURG, Carlo. O extermínio dos judeus e
o princípio da realidade. In: MALERBA, Jurandir. A História Escrita. São Paulo: Contexto, 2006, p. 211-
232.

38 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 35-49, jan./jun. 2018


Indisciplinando a historiografia: do passado histórico ao passado prático, da crise à crítica

Este passado disciplinado, portanto, corresponde àquilo que, mais recentemente, White
vem chamando de “passado histórico”, isto é, aquele criado pela historiografia profissional e
cuja finalidade mais imediata seria o estabelecimento de “verdades factuais” empiricamente
verificáveis sobre o que aconteceu no tempo antes de agora. 16 O passado histórico se
constituiu, assim, através do recalque da questão “o que devemos fazer” em prol da
interrogação “isso é verdadeiro?” e, com isso, minimizou indagações mais amplas sobre os
aspectos práticos que poderiam ser derivados do conhecimento histórico. Pouco importa, aqui
ao menos, que historiadores e historiadoras de todas as ideologias tenham alugado ou vendido
suas penas a senhoras diversas ou que a história dita científica tenha sido usada das mais
diferentes formas; para a doxa, ao menos retoricamente, o passado histórico deveria ser
produzido de forma desinteressada, objetiva e sem nenhuma outra motivação mais importante
do que o estabelecimento de uma verdade factual e empírica comprovável sobre eventos,
acontecimentos e processos idos. Basta lembrar, por exemplo, das diversas acusações ou
ataques à “politização” do passado como sendo um lugar-comum da retórica de deslegitimação
usada nas diversas contendas historiográficas das últimas décadas. Não foi essa, como expôs
Joan Scott há alguns anos, a objeção levantada por historiadores disciplinados à suas
teorizações sobre a história das mulheres, em que questionavam a legitimidade destas
reflexões nestes termos?17 Não foi, igualmente, essa a interdição feita à história social, quando
de sua consolidação, e que ela mesma replicaria contra as “novas histórias” de fins do século
XX?18 Pode-se afirmar, assim, que, por definição, o “passado histórico” mantém uma relação
de repressão com seus próprios impulsos práticos: ainda que existam, devem ser tratados
como sendo algo secundário à atuação profissional.19
Por uma questão de tempo e de espaço, não entrarei nos bastante conhecidos detalhes
do desenvolvimento da disciplina no Ocidente, assim como suas críticas e resistências
diversas.20 No entanto, é preciso apontar para os limites que o projeto disciplinar moderno
encontrou nos últimos cinquenta anos, com a profunda transformação da realidade social que

16
WHITE, Hayden. The Practical Past. Op. cit., p. 9-10.
17
Ver: SCOTT, Joan W. História das mulheres. In: BURKE, Peter. A Escrita da História: novas
perspectivas. São Paulo: Ed. Unesp, 1992, p. 63-96.
18
Ver, por exemplo, as famosas objeções de Eric Hobsbawm às “histórias identitárias” típicas, segundo
ele, do “pós-modernismo”, repetidas à exaustão nos cursos de graduação Brasil afora. Da mesma
maneira, ver as reflexões de Gerard Noiriel sobre a “crise” da história, pensada por ele como causada por
um ataque de “campos estrangeiros”, identificados, como não poderia deixar de ser, com o mesmo pós-
modernismo temido por Hobsbawm, aos domínios de Clio. HOBSBAWM, HOBSBAWM, Eric. Sobre História.
São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 281-292; NOIRIEL, Gerárd. Sur la “crise de l'histoire”. Paris:
Gallimard, 1996.
19
Se expandirmos a argumentação de White neste ponto, podemos concluir que estas exceções dizem
respeito àqueles historiadores que tenham operado a partir de filosofias da história explícitas, caso, por
exemplo, dos marxistas britânicos, ainda que nomes como Eric Hobsbawm e Edward Thompson tenham
sucumbido em diversos momentos à empiria de senso comum e à ideia de objetividade dominantes na
historiografia convencional. Podemos citar igualmente o norte-americano Frederick Jackson Turner, ele
próprio um “presentista” assumido, e sua busca por um “passado útil” para os Estados Unidos– noção,
contudo, perdida nos turnerianos mais convencionais, interessados apenas no estabelecimento de
“verdades factuais” sobre a história estadunidense. Finalmente, a título de hipótese, podemos pensar que
a separação entre os grandes historiadores e o senso comum disciplinar, assim, parece estar justamente
na sua capacidade de transcender, em certos momentos, ao menos, as injunções disciplinares e o
controle estrito de seus lugares de produção.
20
Ver: WOOLF, Daniel. Uma História Global da História. São Paulo: Vozes, 2014.

39 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 35-49, jan./jun. 2018


Indisciplinando a historiografia: do passado histórico ao passado prático, da crise à crítica

o possibilitou e legitimou. Dentre outras coisas, a crise do estado-nação, menos como entidade
política do que como comunidade imaginada,21 e a enormidade das catástrofes do século XX
colocaram em questão vários dos pressupostos disciplinares e políticos, da historiografia
disciplinada. A ideia mesma de que ela teria alguma utilidade intrínseca acabou, para Andreas
Huyssen, sendo “violentamente” refutada pelos acontecimentos dos últimos dois séculos. 22 E
como poderia ser de outro modo, se boa parte dos horrores modernos foram, em última
instância, cometidos em nome da história e/ou sancionados pela própria historiografia? Como
defender a legitimidade de um conhecimento que, a despeito de suas grandiosas afirmações
sobre “lembrar para não repetir”, não fez nada para impedir a queda da modernidade no
abismo por ela mesma criado?
Em suma, os eventos modernistas, como os chama White,23 do século XX, com toda a
sua ainda inigualada carga de destruição e terror, assim como outros acontecimentos
traumáticos de séculos anteriores, nos legaram aquilo que Lorenz chamou de “história quente”
ou, nas palavras do genial William Faulkner, “o passado que nem mesmo é passado”. 24 Mais do
que a “fragmentação” ou a “superespecialização” disciplinares, tão lamentadas por várias
historiadoras e historiadores, não seria o esgotamento da realidade social que lhe deu origem
o verdadeiro motivo das inúmeras crises que a história parece continuamente enfrentar (aliás,
não seria a “crise contínua” um dos signos recorrentes, ao menos retóricos, da historiografia
contemporânea?)?25
Diante do escopo destas transformações e das fraturas que causaram naquele “tempo
vazio e homogêneo” da modernidade, parecemos viver, agora, em um “presentismo
catastrófico”, para usar a apta expressão de Lorenz, ou seja, um presente que, acossado pelos
legados de traumas diversos, não consegue mais escapar de si mesmo. 26 Sem conseguir
elaborar devidamente as heranças de passados que não passam, este presente perde
gradualmente a capacidade de imaginar futuros que não sejam simples extensões de si
mesmo. Nesse contexto, esta “qualidade de clausura”, nos termos de Wendy Brown, acaba lhe
conferindo a qualidade sombria da qual falei em minhas linhas iniciais:

21
Ver: MUDROVCIC, Maria Inés. Time, history, and philosophy of history. Journal of the Philosophy of
History, n. 8, 2014a, p. 1-26; MUDROVCIC, Maria Ines. About lost futures or the political heart of history.
Historein, v. 14, n. 1, 2014b, p. 7-21.
22
HUYSSEN, Andreas. Present Pasts: urban palimpsests and the politics of memory. Stanford: Stanford
University Press, 2003, p. 5.
23
WHITE, Hayden. Figural Realism: studies in the mimesis effect. Baltimore: The Johns Hopkins
University, 1999, p. 66-86; WHITE, Hayden. The Practical Past. Op. cit., p. 41-62.
24
LORENZ, Chris. Blurred lines... Op. cit., p. 30.
25
Maria Inés Mudrovcic recentemente argumentou, de forma instigante e provocadora, que, com a
superação da realidade social que lhe deu origem, a disciplina histórica estaria fadada ao
desaparecimento, principalmente pela possibilidade de emergência de novos estilos de vida coletivos que
não necessariamente precisem ser legitimados pela historiografia disciplinada. Não é de se espantar,
assim, a tenacidade com que determinados historiadores e historiadoras defendem a disciplina; não seria
esta virulência não só uma tentativa de des-historicizá-la, como de garantir sua existência ad aeternum?
Ver: MUDROVCIC, Maria Ines. About lost futures... Op. cit.
26
LORENZ, Chris. Unstuck in Time. Or: the sudden presence of the past. In: TILMANS, Karin; VREE,
Frank van; WINTER, Jay (orgs.). Performing the Past: memory, history, and identity in Modern Europe.
Amsterdam: Amsterdam University Press, 2010, p. 67-102.

40 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 35-49, jan./jun. 2018


Indisciplinando a historiografia: do passado histórico ao passado prático, da crise à crítica

Esta qualidade de encerramento, este aprisionamento no presente, é parte


significativa daquilo que torna nossos tempos obscuros hoje - na verdade, é isso
que faz com que tempo e mundo se colapsem em um, porque o tempo, apesar
de toda sua velocidade, parece ter parado de ir para frente ou de nos levar a
qualquer lugar.27

Este presentismo, nas análises de François Hartog e Manuel Cruz, impõe uma relação
bastante paradoxal do presente com o passado: se, por um lado, vivemos imersos em uma
“cultura de memória” que faz do passado um imenso repositório de imagens, dados e fatos
passíveis das mais diversas apropriações, por outro, esse mesmo passado se torna bastante
opaco, quando não desprovido de qualquer sentido ou utilidade mais ampla para o presente. 28
Como afirmou acidamente Manuel Cruz, “um presente incompreensível, uma realidade
inconcebível, um mundo naturalizado só aceitam viajar ao passado de visita”.29 Dito de outro
modo, este presentismo parece tornar a história impotente: os historiadoras e historiadores
continuam compondo suas linhas sem que, contudo, pareça existir uma crença mais ampla
naquilo que escrevemos. “Arcano, provisório e técnico”, para citar White, 30 o passado histórico
transformou-se não só em apenas mais um dos vários modos de se lidar com o pretérito,
como em um com cada vez menos capacidade de intervir nas grandes questões do nosso
tempo, em que pese nossa contínua fé na pretensa autoridade indisputável da “ciência
histórica”. Diante deste quadro, digamos, não muito alentador, cabe voltarmos àquela velha
indagação kantiana (ou leninista...): o que fazer? Continuar insistindo na suposta maior
autoridade moral da disciplina histórica em lidar com o passado diante de todas as outras
formas? Persistir na defesa de ideais disciplinares que a todo o momento parecem dar claro
sinal de esgotamento? Recolher-nos à torre de marfim da “ciência” e ter somente nossos pares
como interlocutores? Ou, pelo contrário, buscar, mesmo que sem certeza de sucesso, alguma
outra forma de devolver à história aquela dignidade que ela (talvez) mereça?

Passado prático, história crítica

Parece-me que uma das possibilidades para tanto, e aqui a intenção é justamente abrir
um espaço para uma necessária reflexão teórica e política maior, está na discussão crítica
daquilo que White, como já foi dito, recentemente chamou de “passado prático”. Segundo o
historiador norte-americano, a ideia de um passado prático envolve a ação ativa de um
presente que busca não a simples atestação empírica do “que realmente aconteceu”, mas
encontrar no passado um significado que lhe dê “razões para ações a serem tomadas no

27
BROWN, Wendy. Edgeworks: critical essays on knowledge and politics. Princeton: Princeton University
Press, 2005, p. 30.
28
CRUZ, Manuel. Adiós, História, Adiós: el abandono del pasado en el mundo actual. Buenos Aires: Fondo
de Cultura Economica, 2014; HARTOG, François. Regímenes de Historicidad. Mexico: Universidad
Iberoamericana, 2007; HARTOG, François. Creer en la Historia. Santiago de Chile: Universidad Finis
Terrae, 2014.
29
CRUZ, Manuel. Adiós, Historia, Adiós… Op. cit., p. 223.
30
WHITE, Hayden. Politics, history and… Op. cit., p. 128.

41 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 35-49, jan./jun. 2018


Indisciplinando a historiografia: do passado histórico ao passado prático, da crise à crítica

presente em nome de um futuro melhor do que aquilo que atualmente existe”. 31 Guiadas pelo
que ele chamou de um impulso ético, estas noções do passado representam, assim, aquelas
pelas quais:

Baseamo-nos, de maneira espontânea e da melhor forma que pudermos, para


informação, ideais, modelos e estratégias para a resolução de todos os
problemas práticos - de assuntos pessoais a programas políticos grandiosos -
dentro do que pensamos ser nossa situação atual. Este é o passado de memória,
sonho e desejo, tanto quanto é da solução de problemas, estratégia e táticas de
vida, tanto pessoal como comunitária.32

Desta forma, a noção de um passado prático acarreta a tomada de decisões sobre como
uma comunidade deseja viver e sobre qual passado deseja para tanto (um topos, aliás,
recorrente na obra de White), ou, no entendimento de Herman Paul, “um modo de
‘recomeçar’, não se livrando ingenuamente do fardo do passado, mas através de sua
transformação de modo a estimular a ação criativa ao invés da mera contemplação ativa”.33
Esta noção altera, assim, a relação entre passado e presente que tradicionalmente se impunha
na e pela historiografia disciplinada. Antes de ser um “fim em si mesmo”, com a meta de
estipular a “diferença de circunstâncias”, segundo Hobsbawm, 34 entre passado e presente, um
engajamento prático com o passado implica em estudá-lo não para revelar sua verdade
empírica ou para providenciar uma “legitimidade” ao presente, mas para “descobrir o que é
necessário para encararmos um futuro que gostaríamos de herdar ao invés daquele que fomos
forçados a aguentar”.35
Se, como vimos acima, um dos efeitos do presentismo, na análise de Fredric Jameson,
é uma espécie de recalque da historicidade, uma das formas de crítica a ele está justamente
em um “redespertar da historicidade” que permita abri-lo de seu próprio encerramento.36 Este
“redespertar da historicidade” permitiria, assim, o reconhecimento, nas palavras de Brown, do
“presente como história”, ou seja, tanto daquilo que pode ser estabelecido empiricamente
sobre o passado quanto o que “sobrevive do passado, o que é conjurado por ele, como
gerações e eventos passados ocupam os campos de força do presente, como eles nos
reivindicam e como eles assombram, acometem e inspiram nossas imaginações e visões para
o futuro”.37
Ao considerarmos o presente como o entrecruzamento de processos e temporalidades
diversos em disputa e não acabados, poderemos, assim, tentar sensibilizar os seres humanos
para os elementos dinâmicos ali existentes e, com isso, ajudar no processo de elaboração e, se
possível, de libertação dos “fardos do passado”. Sem a afirmação acrítica de continuidades ou

31
WHITE, Hayden. The Practical Past. Op. cit., p. 9-10.
32
Ibidem, p. 10.
33
PAUL, Herman. Hayden White: the historical imagination. Cambridge: Polity, 2011, p. 143.
34
HOBSBAWM, Eric. Sobre História. Op. cit., p. 34.
35
WHITE, Hayden; DOMANSKA, Ewa. A conversation with Hayden White. Rethinking History, v. 12, n. 1,
March 2009, p. 3-21.
36
JAMESON, Fredric. Utopia as Method, or the Uses of the Future. In: GORDIN, Michael D.; TILLEY,
Helen; PRAKASH, Gyan (orgs.). Utopia/Dystopia: Conditions of Historical Possibility. Princeton: Princeton
University Press, 2010, p. 21-44.
37
BROWN, Wendy. Politics out of History. Princeton: Princeton University Press, 2001, p. 137.

42 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 35-49, jan./jun. 2018


Indisciplinando a historiografia: do passado histórico ao passado prático, da crise à crítica

rupturas temporais especiosas, podemos como foi dito acima, escolher os passados de acordo
com nossas demandas presentes e com os futuros que desejamos ver realizados, pois, como
escreveu Brown, o complexo problema político da relação entre o passado e o presente não
pode ser resolvido somente com a remissão aos “fatos históricos” e sua “verdade empírica”.
Não basta simplesmente “itemizar as devastações” ocorridas no século XX, por exemplo, ou
atestar factualmente sua existência – coisas que, bem sabemos, não são nada difíceis de
serem feitas.38 É preciso ir além.
Antes, contudo, um breve comentário. Se White, de forma polêmica e compreensível,
busca contrapor dicotomicamente este “passado prático” ao “passado histórico” da
historiografia profissional, não é essa minha intenção. Embora ele postule, na maior parte das
vezes, uma diferenciação absoluta entre ambas as noções, acredito que a relação entre elas é
muito mais de tensão do que de oposição. 39 De acordo com a análise precisa de Lorenz, parece
existir um caráter relativo a essa distinção mais do que necessariamente uma separação
ontológica.40 Desta forma, podemos tratar do “passado histórico” e do “passado prático”, ao
menos para os fins que movem esse texto, como dois diferentes modos de se representar,
enfrentar e teorizar sobre o passado. Se em algumas importantes searas da disciplina ainda
parece perdurar uma ideia de que o estudo do passado é, em última instância, um fim em si
mesmo (mesmo que os antigos valores de “objetividade” e “neutralidade” sejam minimamente
colocados em questão),41 em outras, principalmente naquelas às margens do establishment
disciplinar, uma apreciação “prática” do passado, em termos similares àqueles postulados por
White, parecem vir ocorrendo há algum tempo. 42

38
. BROWN, Wendy. Politics out of... Op. cit., p. 138.
39
Lorenz aponta para a tensão que existe na argumentação do próprio White sobre o que definiria o
“passado prático”. Se em alguns momentos, White parece conceitualizar o “passado prático” e o “passado
histórico” como sendo mutuamente excludentes, criando uma oposição acentuada entre a historiografia
profissional e outras representações do passado, em outros ele inclui certas áreas da disciplina, como a
historiografia sobre o Holocausto ou a história das religiões, por exemplo, no âmbito do passado prático.
No entanto, ao contrário do que afirma Lorenz, não penso que estas indefinições comprometam o
argumento geral de White; pelo contrário, elas demonstram que há muito terreno a ser explorado sobre
as relações entre estas duas formas de se pensar e representar o passado. Ver: LORENZ, Chris. It takes
three... Op. cit.
40
Idem.
41
Recentemente, por exemplo, Giovanni Levi, por exemplo, definiu o trabalho do historiador em três
aspectos somente: pesquisar, resumir e comunicar. Com isso, Levi resume a operação historiográfica
principalmente à sua esfera investigativa, considerando a escrita como um mero exercício de
comunicação sobre os achados nos arquivos e resumindo o papel da imaginação histórica ao ato de
preencher as lacunas das fontes – ou seja, exatamente aquilo que modelo disciplinar consolidado no
século XIX defendia. Ver: LEVI, Giovanni. O trabalho do historiador: pesquisar, resumir, comunicar.
Revista Tempo, Niterói (RJ), v. 20, 2014, p. 1-20.
42
De certa forma, as ponderações de White sobre o “passado prático” e sua crítica contundente à
historiografia disciplinada devem ser entendidas sob o prisma de seu notório descontentamento, para
dizer o mínimo, com as ambições políticas e éticas limitadas de boa parte dos historiadores profissionais.
Mesmo discordando de algumas das críticas pontuais de White à historiografia ou de sua tendência a criar
uma profissão mais monolítica do que ela de fato é, e concordando com Lorenz sobre a necessidade de
refinamento da ideia mesma de “passado prático”, penso ser tal polêmica fundamental para que se
desnudem alguns dos pressupostos disciplinares herdados do século XIX e que, de todo modo, continuam
dando sustentação a uma ideia de disciplina histórica que me parece não ser mais factível para nosso
mundo pós-fundacional. Dados o notório comportamento dos historiadores em continuar com seu
business as usual diante de debates teóricos mais contundentes, seu desdém pela teoria da história e a
tendência profissional a esvaziar e/ou encerrar discussões fundamentais para sua própria sobrevivência,
me parece que o tom controverso de White não é somente desejável: é necessário.

43 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 35-49, jan./jun. 2018


Indisciplinando a historiografia: do passado histórico ao passado prático, da crise à crítica

Sendo assim, e tomando livre inspiração nas reflexões mais amplas de Hayden White e
Wendy Brown, gostaria de elencar algumas possibilidades e consequências para uma
historiografia ancorada em uma visão prática do passado. Em primeiro lugar, isto significa
levar a sério os efeitos políticos e éticos de determinadas interpretações historiográficas e seu
papel performativo na construção do tempo histórico. Em outras palavras, é preciso relativizar
qualquer ideia pré-concebida de que o passado se separa do presente de forma natural.
Quando um notório historiador brasileiro, por exemplo, afirma que “a escravidão no Brasil está
superada e não tem nada a dizer para o presente”, ele está ativamente construindo uma
cesura entre dois tempos históricos e operando dentro de certa tradição disciplinar:
estabelecendo uma óbvia verdade factual (o fim da escravidão legal) e desprovendo-a de
qualquer sentido maior para o presente. Num país em que 77% dos jovens assassinados são
negros (um índice absolutamente aterrador e considerado pela própria Anistia Internacional
como indicando algo próximo a um genocídio) e em que os afro-brasileiros compõem a maioria
da população pobre e indigente, 43 tal posição, mesmo que sancionada pelos padrões da
disciplina, não parece contribuir para uma inteligência crítica de nosso presente. 44 De modo
similar, quando Niall Ferguson, um afamado historiador e economista do Reino Unido, declara
que o Império Britânico fora, em última instância, um “agente de civilização”, apesar de alguns
pequenos erros, ele está, por sua vez, juntando-se ao “cortejo triunfal de vencedores” 45 que,
mesmo após o término do império em que o sol nunca se punha, continuam mostrando o
mesmo descaso, quando não desprezo, pelas vítimas, inúmeras, deste “processo
46 47
civilizatório”. Em ambos os exemplos, e poderia ter citado alguns outros, temos posturas
que ou negam qualquer tipo de relação imediata entre passado e presente ou naturalizam,
talvez de forma irrefletida, as atuais condições nacionais e globais de dominação econômica e
social como “inevitáveis” ou mesmo “aceitáveis”.
Em segundo lugar, implica em reconhecer que, enquanto historiadores e historiadoras,
não somos os “proprietários” do passado e que a história, como já colocara Certeau há três
décadas, é um discurso construído e contestado coletivamente. 48 Atirados à arena pública,

43
CERQUEIRA, Daneil R. C.; MOURA, Rodrigo Leandro de (orgs.). Vidas perdidas e racismo no Brasil.
Nota Ténica, Brasília, IPEA, n. 10, nov. 2013. Publicada em: 19 nov. 2013. Disponível em:
<http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/nota_tecnica/131119_notatecnicadiest10.pdf>.
Acesso em: 09 set. 2014. Sobre a campanha da Anistia Internacional, ver:
<https://anistia.org.br/campanhas/jovemnegrovivo/>. Acesso em: 10 nov. 2014.
44
Entrevista concedida pelo historiador Manolo Florentino à Revista de História. [s.n.t.]. Disponível em:
<http://www.revistadehistoria.com.br/secao/entrevista/manolo-florentino>. Acesso em: 09 set. 2014.
45
A expressão é de Walter Benjamin. BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história. In: Obras
Escolhidas. Vol. I: Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. São
Paulo: Brasiliense, 2012, p. 244.
46
FERGUSON, Niall. Diga-me onde eu estou errado. London Review of Books. (site). Publicado em:
London Review of Books, Londres, v. 27, n. 10, seção Letters, maio 2005. Disponível em:
<http://www.lrb.co.uk/v27/n10/letters#letter1>. Acesso em: 09 set. 2014.
47
Ver as recentes injunções, extremamente pertinentes, de Walter Johnson à toda uma tradição
historiográfica que buscou apartar capitalismo e escravidão, como se esta fosse algo estranho àquele e,
portanto, a própria modernidade. Ver: JOHNSON, Walter. Possible pasts: some speculations on time,
temporality and the history of Atlantic slavery. Amerikastudien / American Studies, v. 45, n. 4, 2000, p.
485-499.
48
CERTEAU, Michel de. Heterologies: discourse on the Other. Minneapolis: University of Minnesota Press,
1987, p. 205.

44 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 35-49, jan./jun. 2018


Indisciplinando a historiografia: do passado histórico ao passado prático, da crise à crítica

podemos agir não somente como os fornecedores de certas verdades empíricas ou os


provedores de um sem-número de dados e fatos sobre o passado, mas como aqueles e
aquelas que, para usar as palavras de Joan Scott iluminam os pontos cegos que mantém os
atuais sistemas sociais intactos e inviabilizam como “irreais” as alternativas a eles.49 A
desestabilização das premissas fundacionais em que descansam algumas de nossas
inquestionadas ou naturalizadas “verdades” políticas e sociais seria, assim, uma das metas de
uma historiográfica efetivamente crítica.50 Podemos tomar como exemplos desta
“desestabilização” as postulações de algumas áreas não necessariamente conectadas ao
mainstream historiográfico, como os estudos pós-coloniais e os feministas, que, para além das
platitudes sobre “distância” e “objetividade”, se engajam praticamente com o passado com o
intuito de, para citar Paul Gilroy em seu belíssimo “O Atlântico Negro”, ir contra as “clausuras
das categorias com as quais conduzimos nossas vidas políticas”. 51
Em terceiro lugar, e isto é extremamente caro a um pensador como White, refletir
sobre o passado prático envolve uma reflexão sobre o conteúdo da forma da escrita da
história, principalmente no que se refere à narrativização de certos eventos históricos, ou seja,
“a imposição de uma forma de estória em uma série de eventos reais” que, de um modo ou
outro, lhes dá uma coerência e uma completude que são essencialmente imaginárias. 52 Dito de
outro modo, certas narrativizações do passado tentam criar uma ilusão de linearidade, de
continuidade e de estabilidade como elementos fundamentais da “realidade” – mesmo que
estas características sejam uma imposição ao caos do processo histórico e não sua condição
inerente. Uma narrativização da realidade passada é essencialmente, nas palavras de White,
um processo de moralização desta mesma realidade, com todas suas consequências estéticas
e políticas.53 Antes de ser um simples problema de como “comunicar” as “descobertas” do
arquivo à audiência, o “enredamento” é uma condição intrínseca à escrita da história.
Portanto, se conteúdo e forma são inseparáveis sob ponto de vista teórico, isto se constitui
como um problema essencial para uma escrita da história que busque ir além dos postulados
disciplinares dominantes.
Tomemos como exemplo disto a refiguração do passado do Sudoeste norte-americano
efetuada pela escritora mexicano-americana Gloria Anzaldúa, em que forma e conteúdo são
claramente indissociáveis um do outro. Em seu famoso trabalho sobre as borderlands entre o
México e os Estados Unidos, a intelectual chicana, cuja escrita era movida por uma

49
SCOTT, Joan W. History-writing as critique. In: JENKINS, Keith; MORGAN, Sue; MUNSLOW, Alun
(orgs.). Manifestos for History. London: Routledge, 2007, p. 35.
50
Ibidem, p. 26.
51
GILROY, Paul. O Atlântico Negro: modernidade e dupla consciência. São Paulo: Editora 34, 2001, p.
30. Este impulso prático parece também estar por trás de historiografias sobre grupos e temas até
recentemente ignorados pelo mainstream acadêmico, como os estudos feministas (que, através de
figuras como Gayatri Spivak, tem um profícuo diálogo com os estudos pós-coloniais/descoloniais, além de
serem críticos mordazes da historiografia convencional) e os estudos sobre escravidão e diáspora
africana, que buscam tanto o estabelecimento de “verdades” factuais sobre estas ocorrências, quanto o
estabelecimento de um sentido para elas – como atestam não só os trabalhos de Paul Gilroy, mas
também as obras pioneiras de Franz Fanon e Stuart Hall, assim como o exemplo mais recente de
Eduardo Grüner.
52
WHITE, Hayden. The Practical Past. Op. cit., p. 94.
53
WHITE, Hayden. The Content of the Form… Op. cit., p. 1-25.

45 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 35-49, jan./jun. 2018


Indisciplinando a historiografia: do passado histórico ao passado prático, da crise à crítica

necessidade ética e política de dar voz aos hispano-americanos pobres, às mulheres mestiças,
aos indígenas e àqueles cujas feridas históricas continuavam operando no presente, funde
línguas, passando do inglês ao espanhol e do espanhol ao nahuatl no mesmo parágrafo;
combina prosa e poesia, de modo que a segunda desestabilize a primeira; mistura
temporalidades diversas, passando dos anos da brutalidade da Conquista espanhola à violência
racista dos Texas Rangers do século XX numa única página, rompendo, assim, a linearidade do
tempo histórico; mescla “fatos” e “ficção”, sem demarcar uma fronteira nítida entre ambos; e
medita poética e politicamente sobre o significado da história das borderlands não só para o
seu país natal, mas para a própria modernidade.54
Do mesmo modo, Saul Friedländer, um dos mais brilhantes historiadores de nosso
tempo, propositalmente construiu sua magnum opus sobre a história do Holocausto com o
intuito de impedir o que ele mesmo chamou de domesticação do passado através de
“explicações impecavelmente coerentes e interpretações padronizadas”. 55 A forma da obra,
portanto, é fundamental para a constituição de um sentimento de incredulidade, do absurdo e
do grotesco similar, segundo ele, à percepção das “infelizes vítimas do regime” diante de uma
realidade demasiadamente terrível para ser crida de forma clara. 56 Desta maneira, ele nos
oferece uma historicização da Shoah que rejeita, como bem colocou White, sua simples
narrativização em um enredo com começo, meio e fim facilmente discerníveis e, do mesmo
modo, não separa o genocídio do nosso próprio presente; 57 pelo contrário, ele é apresentado,
através de uma forma que justapõe, sob a forma de montagem ou de “constelações”, “níveis
inteiramente diferentes de realidade” e que não pressupõe que tal passado esteja, para
recuperarmos o vocabulário de Lorenz, encerrado. O que emerge, finalmente, não é somente o
Holocausto como um determinado evento ocorrido em um dado momento, capaz de ser
contextualizado pelo “método correto”, mas como uma possibilidade ainda latente nos dias de
hoje.
Por fim, uma apreciação prática do passado implica tanto a adoção de certo ceticismo
linguístico quanto o abandono de pretensões universalizantes que buscam enquadrar todo e
qualquer evento histórico numa ordem pré-determinada tomada como “natural”.58 Dito de
outro modo, ela reconhece que não há escapatória ao pluralismo historiográfico e que a tão
lamentada fragmentação de temas, objetos e narrativas dos dias de hoje é condição sine qua
non para uma historiografia que se pretende crítica. Ao contrário de assumir posições
dogmatizantes e que buscam antes encerrar certas perguntas do que abrir novas imaginações,

54
ANZALDÚA, Gloria. Borderlands/La Frontera: the new mestiza. San Francisco: Aunt Lute Books, 1987.
55
FRIEDLÄNDER, Saul. A Alemanha Nazista e os Judeus. Vol. 1: Os anos da perseguição, 1933-1939.
São Paulo: Perspectiva, 2012, p. 27-33.
56
FRIEDLÄNDER, Saul. A Alemanha Nazista e os Judeus. Vol. 2: Os anos de extermínio, 1939-1945. São
Paulo: Perspectiva, 2012, p. 15-28.
57
WHITE, Hayden. The Practical Past. Op. cit., p. 75-96.
58
É evidente que isto não significa um chamado ao abandono de perspectivas de longa duração ou da
deslegitimação de trabalhos deste tipo, ancorados ou não em alguma filosofia da história mais ampla (o
marxismo, por exemplo). Significa apenas que estas “grandes narrativas” devem ser vistas como apenas
mais uma dentre as várias opções estéticas, éticas e cognitivas disponíveis para o enredamento de
determinados processos e eventos.

46 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 35-49, jan./jun. 2018


Indisciplinando a historiografia: do passado histórico ao passado prático, da crise à crítica

os historiadores e historiadoras precisam trabalhar para permitir mais e mais indagações em


relação ao passado, especialmente em uma conjuntura de emergência de projetos que buscam
censurá-las ou limitá-las (caso, aqui no Brasil, do infame “Escola sem Partido”, com sua
postura francamente autoritária e antidemocrática). Para a ortodoxia, contudo, isso traz a
ameaça daquele espectro chamado “relativismo”, ou seja, a suposta licença para que qualquer
coisa possa ser dita sobre qualquer evento passado – uma falta supostamente tão grave
quanto a do anacronismo.
Este temor, bastante injustificado, se manifesta de diversas maneiras, especialmente
em ocasiões de congraçamento disciplinar. Rodrigo Patto Sá Motta, por exemplo, em discurso
de abertura no Congresso Nacional da Associação Nacional de História, mesmo não nomeando
seus interlocutores, afirmou ser “ingênuo” o “relativismo cético”, imputando-lhe uma pretensa
disposição a aceitar qualquer representação do passado como tendo o mesmo valor cognitivo e
a ignorar a empiria como algo fundamental à prática dos historiadores e historiadoras. Do
mesmo modo, Motta pareceu sugerir que a simples adição de fatos às disputas públicas sobre
o passado pode servir como antídoto a negacionismos, más-fés e falseamentos de toda a
ordem. No entanto, longe de afirmar que o “passado é um texto”, a desídia negacionista opera
a partir da mesma retórica objetivista e empirista da disciplina histórica, buscando justamente
o respeito que tais noções conferem a discursos pretensamente realistas. Por isso, penso ser
uma distorção tremenda afirmar que historiadores que defendem posturas abertamente céticas
advogam que “discursos com pretensão à verdade devem ser desprezados como puro
resquício do positivismo”.59 Neste caso, ninguém “despreza” a verdade factual, pois, como dito
acima, a atestação do que ocorreu no passado não é nada difícil. O que está em questão é
justamente aquele “realismo crítico”, tão defendido pelo ex-presidente da ANPUH em sua fala,
que nega a performatividade do texto historiográfico; que opera a partir de uma antiquada
noção de “distância histórica”; que continua sustentando uma cientificidade dúbia e
aparentemente incapaz de autocrítica; que persiste acreditando que os “fatos históricos”
possuem sentidos em si mesmo; que sujeita a resposta às questões fundamentais de nosso
tempo à mera busca por “conhecimento”, como se isso, por si só, pudesse nos dizer alguma
coisa sobre o significado de certos passados para o presente; e que se coloca como o árbitro
moral definitivo das representações do passado que não atendem aos seus questionáveis
critérios sobre a “correspondência da verdade” àquilo que tomam como o “mundo real”.
Portanto, as posições defendidas neste texto de modo algum sancionam a mentira, a
enganação para fins espúrios e a má-fé como prática historiográfica, pois afirmar que um dado
evento pode ter múltiplos significados, todos possivelmente plausíveis, não é a mesma coisa
que dizer que ele nunca ocorreu, por exemplo, ou afirmar que toda e qualquer representação
do passado tem o mesmo valor cognitivo. Como o próprio White afirmou, portanto:

59
SÁ MOTTA, Rodrigo Patto. Os lugares dos historiadores e da história na sociedade brasileira:
Conferência de abertura do XXVIII Simpósio Nacional de História, Florianópolis. História da Historiografia,
v. 22, p. 321-335, 2016.

47 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 35-49, jan./jun. 2018


Indisciplinando a historiografia: do passado histórico ao passado prático, da crise à crítica

Quando se trata de comparar interpretações distintas de um mesmo conjunto de


fenômenos históricos numa tentativa de estabelecer qual é o melhor ou mais
convincente, muitas vezes somos levados a confusão ou a ambiguidade. Isso
não significa que não podemos distinguir entre a boa ou a má historiografia, de
vez que, para definir essa questão, podemos recorrer a critérios como
responsabilidade perante as regras da evidência, a relativa inteireza do
pormenor narrativo, a consistência lógica e assim por diante”.60

Uma mentira continua sendo uma mentira não importa quantos cidadãos de bem
acreditem nela. Sendo assim, a adoção de uma perspectiva cética e, usemos a tão temida
palavra, relativista, implica no reconhecimento de que qualquer interpretação do passado é
limitada, provisória e falha em suas intenções de significar algum evento histórico, qualquer
que seja ele. Ademais, isto também acarreta no reconhecimento de que existem
incontornáveis barreiras à representação do pretérito e que o silêncio é constituinte da escrita
da história pois, na tocante expressão de Herta Müller, “não é verdade que há palavras para
tudo”.61 Finalmente, uma postura cética permitiria um constante exercício de “deslealdade” por
parte dos historiadores e historiadoras em relação às verdades sancionadas pela disciplina e
pela comunidade imaginada em que vivem; os historiadores e historiadores poderiam, assim,
para usar os termos de Scott, escrever o “tipo de história que pode servir como uma
‘alavanca’, desenterrando as premissas fundacionais de nossas ‘verdades’ sociais e políticas’ e,
com isso, abrir o espaço para novas histórias – cuja direção não pode, e nem deve, ser
determinada e cujo fim nunca virá”.62 Se não queremos nos tornar, se é que já não o somos,
nas belas palavras de Cruz, “fragmentos inertes de matéria incorporados ao real que apenas
conservam a forma humana”,63 tal operação me parece, assim, fundamental para abrir novas
imaginações sobre o que ocorreu, o que ocorre e o que pode, enfim, ocorrer.

Epílogo?

Num mundo em que a falta de imaginação ameaça a própria existência da democracia,


sequestrada por oligarquias plutocráticas e transformada num mero exercício formal de
eleições periódicas; numa era em que o estado de exceção parece ter se tornado a realidade
de boa parte dos habitantes do globo, seja sob a forma de terror de Estado ou econômico;
num momento em que os fantasmas de fundamentalismos diversos proclamam únicas e
assassinas verdades; numa conjuntura em que o neoliberalismo global em sua voracidade e
rapacidade cada vez maiores põe em questão a existência mesma do planeta; num contexto
em que nossos horizontes de expectativa diminuem constante e rapidamente e em que o
próprio tempo aparentemente não leva-nos a lugar algum, salvo a um “aqui e agora” cada vez
mais onipresente e opressor; enfim, num presente que, para parafrasear o gaucho Gorostiaga

60
WHITE, Hayden. Trópicos do Discurso: ensaios sobre a crítica da cultura. São Paulo: Edusp, 1994, p.
114. Grifo meu.
61
MÜLLER, Herta. O Rei se Inclina e Mata. São Paulo: Globo, 2013, p. 16.
62
SCOTT, Joan W. History-writing as critique… Op. cit., p. 26.
63
CRUZ, Manuel. Adiós, Historia, Adiós... Op. cit., p. 224.

48 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 35-49, jan./jun. 2018


Indisciplinando a historiografia: do passado histórico ao passado prático, da crise à crítica

em sua charla com Tolosa, seu companheiro de lide, parecemos estar testemunhando o fim da
tarde, não poderia a historiografia nos ajudar, mesmo que minimamente, a tolerar a noite a
cair?
Talvez - se, contudo, não tiver ela própria medo da história.

Arthur Lima de Avila: Professor do Departamento de História da Universidade Federal do Rio


Grande do Sul (UFRGS). Possui graduação, mestrado e doutorado em História pela UFRGS,
este último com bolsa do CNPq e cuja tese Território Contestado: a reescrita da história do
Oeste norte-americano (c. 1985-1995) recebeu o Prêmio CAPES 2011 em História. Seus
principais temas de pesquisa são: Teoria da História; História intelectual; Usos do passado;
Políticas do tempo; Guerras de história; Historiografia norte-americana; História dos Estados
Unidos.

49 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 35-49, jan./jun. 2018


n. 18, p. 50-65, jan./jun. 2018
ISSN-e: 2359-0092
DOI: 10.12957/revmar.2018.31057

REVISTAMARACANAN
Dossiê

A crise da história e a onda pós-estruturalista

The Crisis of History and the Poststructuralist Wave

Carlos Alvarez Maia


Universidade do Estado do Rio de Janeiro
alvarez@iis.com.br

Resumo: O pós-estruturalismo produziu uma valorização da narrativa no discurso histórico que gerou
diversas dificuldades para o historiador. Aqui, neste artigo, avalia-se o impacto de uma onda pós-
estruturalista sobre a disciplina história e sobre as perspectivas metafísicas dos historiadores. A chamada
“crise da história” daí decorrente é analisada como uma crise dos historiadores que, motivados por uma
ontologia alheia aos valores históricos, reagem negativamente à perda de seus referentes realistas.

Palavras-chave: Crise da História; Pós-estruturalismo; Narrativa Histórica; Metafísica.

Abstract: Poststructuralism produced a valorization of the narrative in the historical discourse that
generated several difficulties for the historian. In this paper, the impact of a poststructuralist wave on the
discipline of history and on the metaphysical perspectives of historians is evaluated. The so-called "crisis
of history" is analyzed as a crisis of historians who, motivated by an ontology alien to historical values,
react negatively to the loss of their realistic referents.

Keywords: Crisis of History; Poststructuralism; Historical narrative; Metaphysics.

Recebido: Outubro 2017


Aprovado: Dezembro 2017
A crise da história e a onda pós-estruturalista

a narração dos acontecimentos passados, geralmente


submetida, na nossa cultura, desde os gregos, à sanção
da “ciência” histórica, colocada sob a caução imperiosa
do “real”, justificada por princípios de exposição
“radical”, essa narração diferirá realmente, por algum
traço específico, por uma pertinência indubitável, da
narração imaginária, tal como a podemos encontrar na
epopeia, no romance, no drama?

Roland Barthes.1

A chamada “crise da história” já produziu muitas reflexões e ainda parecem


insuficientes. Há sempre aspectos que solicitam novos esclarecimentos. Eu próprio já tratei
dessa “crise” e, naquele momento, centrei meus esforços de entendimento dessa questão
através da substituição da crise da história pela crise dos historiadores, uma questão mais
produtiva e mais segura.2 Em princípio, parece-me um contrassenso falar de crise da história
se a disciplina continua a sua marcha acompanhando as mudanças societárias. A disciplina
sofre transformações ao longo da temporalidade e o rumo do seu devir não está condicionado
a uma dada direção a priori. Não há por que falar em crise se o destino e o ritmo de adaptação
disciplinar persiste em sua meta de evidenciar a aventura da sociedade humana, esta, sim, em
contínua mudança processual.
Como disciplina profissionalmente constituída, a história tem uma história recente. Ela
inicia seu roteiro no século XIX e se fez arrolando diversas certezas, seja de método, seja de
objetos. Várias dessas certezas tornaram-se incertas no século XX. Novos modos de fazer a
história pelos historiadores foram incorporados e, outros, foram descartados. Houve o grande
sucesso trazido pela escola dos Annales, mas essa não foi uma solução definitiva para a
maneira de historiar. O próprio evolver disciplinar se encarrega de evidenciar esse caráter
provisório. Novos tempos, novas preocupações e, certamente, novas interpretações. Essa é a
nossa rotina, a dinâmica da vida de qualquer historiador.
Aqui, neste texto, insisto no deslocamento da questão de crise da história para crise dos
historiadores, mas quero apontar os elementos motivadores dos problemas que surgiram com
as novas interpretações historiográficas. Muito já foi dito que a “crise” ocorreu por a história
ter sido equiparada com a ficção literária, que ocorrera um linguistic turn, constrangendo as
pretensões realistas da história. Há também algum consenso em apontar o crítico Hayden
White como o principal agente dessa “sugestão”. História e literatura se encontrariam na
iminência de uma síntese e a aspiração da história de narrar acontecimentos verdadeiros, ou
no mínimo, plausíveis, estaria se transformando em uma quimera.
Esse é o meu alvo, nessas reflexões. Minha narrativa vai acompanhar alguns passos de
uma corrente de pensamento que foi fortalecida pelo vínculo entre a linguística e a etnologia,
entre Saussure e Lévi-Strauss. Quero tratar aqui, não do estruturalismo antropológico que

1
O discurso da história. 1967.
2
MAIA, Carlos Alvarez. História, ciência e linguagem. Rio de Janeiro: Mauad X, 2015.

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A crise da história e a onda pós-estruturalista

contaminou bastante o pensamento histórico, mas de um subproduto seu: o pós-


estruturalismo.
O pós-estruturalismo germina no interior do estruturalismo, é sua derradeira
consequência, sua metamorfose. Há continuidade entre eles e há ruptura. Os autores situados,
por alguns analistas, em um lado da fronteira são, por outros, contrabandeados para o lado
oposto, não há clareza dos seus limites nem de suas filiações. Esse é o caso especialmente de
Roland Barthes, Michel Foucault, Jacques Derrida e Jacques Lacan. As ocorrências comuns às
duas “escolas” interpretativas da cultura no século XX dá-se pela ênfase no combate ao
racionalismo iluminista. Se o estruturalismo de Lévi-Strauss foi hábil na demolição das
certezas logocêntricas do homem como sujeito autor consciente de seus atos, já o pós-
estruturalismo aprofunda essas críticas e faz emergir o texto como o ator no proscênio dos
dramas existenciais e culturais inconscientes e reafirma o mote estruturalista de morte do
sujeito-autor. Em ambas as perspectivas o papel reservado para a palavra, para a linguagem,
amplia-se gradativamente.
Se, bem anteriormente a essas duas correntes, a função predominante da linguagem
deveria ser sua invisibilidade, agora, o texto ilumina-se e mostra-se protagonista. Dizia
Barthes, em 1967: “Para a ciência, a linguagem não é senão um instrumento, que há interesse
em tornar tão transparente, tão neutro quanto possível.” 3 Assim, o texto que servia
simplesmente como transporte invisível das ideias racionalistas, sem interferir no conteúdo
transportado, torna-se visível e contamina o pensamento, dito objetivo, do suposto autor. As
palavras revelam os bastidores desse pensamento, revelam suas inconsistências e
contradições. Aquilo que é dito expõe o não-dito presente no ato de dizer. As estruturas
pulsionais inconscientes elevam-se ao controle de uma consciência racionalista que,
inesperadamente, expõe sua outra natureza, verbaliza e escreve pensamentos ocultos pela
penumbra da razão. O pós-estruturalismo define novos tempos que exigem novas estratégias
interpretativas, criam-se novos objetos de investigação. A análise textual torna-se o
instrumento preferencial para desvendar diversas motivações, até então, silenciadas, que
norteiam a escrita. Assim, a onda pós-estruturalista produziu turbulências interpretativas e, ao
revolver as profundezas dos discursos, lançou em variados litorais acadêmicos um inesperado
e bem problemático objeto: a narrativa.

A ofensa ao real e as narrativas

Para a história, essa onda produziu algumas perturbações na rotina da pesquisa e


trouxe uma inquietude ante resultados e conceitos já bem consolidados. Tornou-se
perturbadora a visibilidade dada à narrativa como foco de novos e até sérios problemas. Até
então, a história privilegiava os fatos narrados, sim, narrados, mas a narrativa deveria ser a

3
BARTHES, Roland. Da ciência à literatura. In: O rumor da língua. Lisboa: Edições 70, 1987, p. 14, 13-
18.

52 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 50-65, jan./jun. 2018


A crise da história e a onda pós-estruturalista

mais clara, neutra e objetiva possível para não ofuscar o objeto, para não danificar o fato. Ou
seja, ante o fato narrado, a narrativa deveria permanecer invisível, ela deveria simplesmente
expor o nexo entre fatos e eventos. O que interessava era o nexo exposto em uma relação
preferencialmente causal. O estilo da narrativa, sua forma, era desimportante. É certo que a
elegância textual imponha suas normas, mas o maior valor de um texto histórico seria o seu
valor realista, valor de verdade. Mas Barthes já sinalizara seu caráter ilusório com uma
recomendação:

Resta pois ao estruturalista transformar-se em “escritor”, de modo algum para


professar ou praticar o “belo estilo”, mas para redescobrir os problemas
escaldantes de toda enunciação, a partir do momento em que ela deixa de estar
envolta na nuvem benfazeja das ilusões propriamente realistas, que fazem da
linguagem o simples médium do pensamento.4

E prossegue apontando as dificuldades em perceber com clareza as relações entre


subjetividade e objetividade no texto histórico, aparentemente descritivo e realista, que simula
o lugar de um sujeito neutro no discurso. Há uma espécie de “truque de prestidigitação”, diz
Barthes, pois em toda enunciação há um suposto sujeito que pode estar encoberto ou
dissimulado por expressões gramaticais que criam ilusões de objetividade ocultando o autor
subjetivo.

Dessas formas, a mais capciosa é a forma privativa, precisamente aquela que é


geralmente praticada no discurso científico, de que o cientista se exclui por
preocupação de objetividade; o que é excluído nunca é senão a “pessoa”
(psicológica, passional, biográfica), de modo algum o sujeito; mais do que isso,
esse sujeito é preenchido, se assim podemos dizer, por toda a exclusão que
impõe espetacularmente à sua pessoa, de modo que a objetividade, ao nível do
discurso – nível fatal, é preciso não o esquecer –, é um imaginário como
qualquer outro.5

Na perspectiva de um olhar realista, a narrativa estaria refletindo algo extraído do


mundo concreto, entretanto, o que se verifica em uma análise textual crítica é que as
proposições narrativas não passam de meras interpretações proferidas por algum sujeito, são
agenciamentos de algum autor. Mesmo que a subjetividade desse autor esteja mascarada, seu
vestígio semiológico a revela. As narrativas explicitadas como interpretações evidenciam o
quanto tais interpretações são subjetivas.
Há duas classes de interferências da onda pós-estruturalista na disciplina história ao dar
realce à narrativa. A primeira ofende a compreensão realista da história que a diferenciava das
narrativas estritamente literárias que se apóiam na ficcionalidade e nas qualidades eruditas e
estilísticas da escrita. Entram em jogo aqui diversos fatores, além de certo esgotamento com a
ilusão realista que já vinha sendo denunciada pela análise crítica da linguagem e pela
semiologia, mas não só. Da área dos estudos históricos das ciências, um autor já produziu um
abalo nas certezas do “realismo dos fatos inquestionáveis”. Em um texto, hoje notável, Gênese
e desenvolvimento de um fato científico, Ludwik Fleck examina em uma das áreas “duras” da
ciência como a pretensa autonomia dos “fatos” que revelava as verdades da ciência seriam

4
BARTHES, Roland. Da ciência à literatura. Op. cit., p. 16.
5
Idem.

53 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 50-65, jan./jun. 2018


A crise da história e a onda pós-estruturalista

produtos de extensas e complexas negociações entre os cientistas que pesquisavam, tateando


no escuro, em busca de uma solução consensual para um dado problema cuja solução,
inicialmente, era uma incógnita.6 Ele mostra como o fato científico é construído e em nada se
parece com o mito da descoberta de uma “verdade da natureza”. Os fatos, verídicos e
definitivos, mesmo os da ciência, estão bem mais próximos da invenção do que da descoberta.
Após sua construção, o tal fato reveste-se de certeza absoluta e torna-se incontestável, ele
servirá de alicerce para outras construções mais elaboradas que realimentam esse caráter
verídico e acrescentam, cada vez, mais veracidade ao fato. O limite desse processo transforma
aquilo que já fora uma simples possibilidade explicativa em algo fixo e absoluto,
inquestionável: o fato. A história do pensamento está recheada de exemplos dessa rotina no
evolver do conhecimento. A “terra plana e imóvel” já fora uma verdade que perdurou milhares
de anos e seu descrédito somente se deu através de uma luta, social, política e religiosa, que
construiu outros fatos, então, em franca oposição àquele originário. É bem conhecido o esforço
de Galileu em construir o fato, hoje banal, do “movimento do planeta Terra”. Foi uma luta de
convencimento que deslocou o entendimento de algo considerado absurdo para o cenário das
evidências claras e nítidas. Esse é um movimento histórico típico das áreas cognitivas. A
posteriori, pode-se até dizer que tal fato foi “descoberto”, que “sempre esteve lá”, e a luta
travada por sua construção termina por permanecer oculta.
Já a segunda classe de interferências da onda pós-estruturalista na história,
inicialmente mais sutil que a primeira, reavalia uma rotina do pensamento histórico que
seleciona e coleciona “fatos” e os dispõe encadeados em uma temporalidade. Graças a essa
interferência, a ambição da história por temas grandiosos e eventos marcantes torna-se bem
mais modesta. Além de observar a construção dos “fatos” pelas narrativas, mostrando o
quanto eles podem ser questionáveis, essa segunda interferência elege a narrativa como um
objeto a ser valorizado, em si. Emergem novos temas e objetos ocupando o interesse dos
pesquisadores. O que está sendo revelado nessa vertente nada mais é do que o movimento
natural da história que continuamente se desloca de uma visão de mundo, de uma
compreensão, à outra. O próprio estruturalismo já havia produzido obstáculos ao modelo
compreensivo iluminista e fazia sua crítica ao homem racionalista. Inclusive já declarara sua
morte. O que ocorre na onda pós-estruturalista é a continuidade dessa crítica. Os
entendimentos do mundo centrados na racionalidade e coerência das ações humanas, ainda
que tenham obtido grande sucesso em outro momento, começam a esbarrar nas evidências
contrárias ao se observar a vida cotidiana. Na prática humana rotineira, o modelo iluminista do
homo sapiens enfrenta suas pulsões e contradições. Antes de ser movido por interesses
racionais e atitudes bem refletidas, o homem parece mais conduzido por desejos e impulsos
emocionais. Essa alteração na percepção das características humanas coloca em desequilíbrio
as formas estabilizadas do pensamento apoiadas na noção de estruturas sociais racionalizadas.
A orientação crítica dos Annales, de Lucién Febvre a Fernand Braudel, em apoio à história

6
FLECK, Ludwik. Gênese e desenvolvimento de um fato científico. Belo Horizonte: Fabrefactum, 2010.

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A crise da história e a onda pós-estruturalista

estrutural contra a histoire évènementielle, refletiu um deslocamento de uma história mais


descritiva e factual para outra mais conceitual, com maiores ambições explicativas e teóricas.
Entretanto, apesar de seu inegável sucesso, essa perspectiva mostrava-se insuficiente para
dar conta da realidade social humana; a rotina de vida dos indivíduos e suas demandas
existenciais não eram atendidas, ou seja, a “banalidade” das vidas das pessoas comuns ficava
sem assistência. A renovação trazida pelo pós-estruturalismo fomenta uma reorientação no
olhar do historiador. As grandes estruturas sociais e cognitivas que garantiram um enorme
sucesso para os Annales perdiam a marca da exclusividade e importância na compreensão
histórica do mundo societário. Havia a necessidade de atender outros temas, o cotidiano com
seus dramas centrados nas pessoas comuns vivendo em sociedade. Assim, surgem novas
formas de abordagem, de novos temas e novos objetos, como a micro-narrativa da micro-
história. Foi esse novo horizonte de visibilidade que produziu O retorno de Martin Guerre, em
1973, de Natalie Z. Davis ou O palácio da memória de Matteo Ricci, em 1985, de Jonathan
Spence. Seguem ainda: O queijo e os vermes, em 1976, de Carlo Guinzburg; Os bandidos de
Eric Hobsbawm, em 1969; Senhores e caçadores, em 1975, de Edward Thompson; a narrativa
antropológica de Marshall Sahlins, Ilhas de história, 1985; História do casamento e do amor,
1986, de Alan Macfarlane; História do pudor, 1986, de Jean-Claude Bologne; A história do
medo de Jean Delumeau, 1979; Religião e o declínio da magia, 1975, de Keith Thomas;
História das lágrimas, 1986, de Anne Vincent-Buffault; Saberes e odores, 1982, de Alain
Corbin; História da família, 1989, de James Casey.
Essa segunda face da onda pós-estruturalista avança por objetos bem mais banais que
a monumental obra braudeliana. Criam-se termos para caracterizar essa nova tendência
demolidora dos grandes relatos de outrora. Fala-se em mentalidades, micro-narrativas,
histórias do cotidiano. E as críticas advindas dos historiadores alinhados com a perspectiva
anterior foram bem duras. A nova tendência parecia pertencer a um modismo de uma nova
era, a era pós-1968. Logo, logo, uma denominação mais catastrófica se impôs, e essa vertente
da onda pós-estruturalista ganhou o reforço de mais adeptos vindos de outras latitudes do
pensamento engrossando a crítica da racionalidade: pós-modernidade. O pós-moderno torna-
se a sensação do momento na mídia cultural. O ápice revolucionário das grandes narrativas
utópicas, cujo clímax deu-se em 1968, declina e entramos em um quadro em que as tintas
ganham agora um tom pastel. Ou melhor, há uma pasteurização das rebeldias e das
contestações.
Somente os eventos produzidos por essa frente da onda pós-estruturalista já
justificariam o termo “crise da história”. Mas esse era somente um dos aspectos, e talvez nem
fosse o mais contundente das renovações ocorridas. O mundo era novo a cada dia, sem
rebeldes ou revolucionários, mas era reconstruído continuamente, com doses de conformismo
e alguma resignação. Antes do fim do século XX, ainda ocorreriam transformações que
sepultariam grande parte das utopias advindas do século XIX.
Retornando à primeira frente da onda pós-estruturalista, aquela que fazia a crítica ao
real – desejado e utópico – que a história descrevia dando-lhe uma possibilidade documental

55 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 50-65, jan./jun. 2018


A crise da história e a onda pós-estruturalista

e, assim, insistia em sua mitificação. Após o enfrentamento com a onda pós-estruturalista,


aquele antigo mundo “real”, de certezas grandiloquentes, parecia uma ficção. Curiosa
armadilha verbal, justamente esse termo – “ficção” – será utilizado pelos arautos do desastre
que se aproxima ao se verem sem as clássicas certezas realistas que a história sempre
perseguiu. Ao reagirem à crítica pós-estruturalista, os antigos historiadores bradavam seu
descontentamento anunciando uma “crise da história” que estaria defendendo o absurdo de
identificar a narrativa realista da história com a narrativa ficcional da literatura. De um lado,
uma acusação, um incômodo para os historiadores anteriores: a história estava sendo
comparada à ficção. De outro lado, para os adeptos do pós-estruturalismo, uma constatação
inequívoca: o mundo anterior a essa renovação é que seria uma ficção. Esse é um dos
aspectos do dilema que envolve as análises, como identificar o que é a tal de crise da história?
Mas, a situação que estamos avaliando ainda vai ganhar maior complexidade. Vamos
agregar à nossa discussão um autor de peso que vai trazer um novo fluxo de questões. Trata-
se de Jacques Derrida e de seu confronto com o logocentrismo. As demolidoras críticas de
Derrida ganham nomenclatura própria: desconstrução. O logocentrismo, um conceito de fácil
assimilação, converge com tudo aquilo que o pós-estruturalismo criticou na racionalidade
iluminista: a centralidade dada à razão no pensamento ocidental, o logos, na compreensão das
coisas humanas. Trata-se de uma crítica sempre baseada nas armadilhas da linguagem. Em
última instância, é uma crítica à metafísica e que merece maior detalhamento adiante. Já o
conceito de desconstrução, mais elaborado, não designa uma destruição, mas se aproxima
mais de um desmascaramento dos conceitos, de evidenciar algo não aparente, porém
determinante. Derrida está interessado em se desfazer da ilusão de uma presença que
conceitos já consolidados trazem, em si. Ele fala de desconstruir a presença da metafísica. O
conceito de desconstrução não tem uma compreensão imediata, perseguir clareza em Derrida
é uma tarefa inóspita, ele é conhecido por ser um filósofo obscuro. O que, sem dúvida, é bem
nítido no seu confronto com o logocentrismo é a sua rejeição às proposições metafísicas
centradas no hipotético sujeito racional. E a matéria orgânica da qual Derrida se alimenta é a
linguagem, especialmente a gráfica, que ele designa como “escritura”, forjada por “inscrições”.
“Escritura” e “inscrição” formam a base originária de toda linguagem. É uma formulação
ousada, pois traz uma anterioridade para as características da escrita que se antecipa à
linguagem oral. Ele inverte a equação da origem e constituição da linguagem: o oral é
consequência do que é inscrito. As inscrições, sejam gráficas ou sonoras, já são uma
linguagem e produzem sentidos. Dessa forma, o ato simplesmente oral, o falar, já conteria em
si as marcas de uma “escrita” anterior, a escritura. A inscrição posta em objetos materiais ou
coisas abstratas é que seria o evento fundador da linguagem. Essa maneira de pensar a
linguagem corresponde à formulação de uma linguagem “mais que literal”. 7 Como diz Barthes:
“os próprios objetos poderão transformar-se em fala se significarem alguma coisa”.8 Derrida
ratifica essa compreensão mais que literal ao designar o termo “escritura” como algo que

7
MAIA, Carlos Alvarez. História, ciência e linguagem. Op. cit., p. 20.
8
BARTHES, Roland. Mitologias. 8 ed. Rio de Janeiro: Bertrand, 1989, p. 133.

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A crise da história e a onda pós-estruturalista

excede e compreende a linguagem literal e que envolve “tudo o que pode dar lugar a uma
inscrição em geral, literal ou não.”9 Tais significações colocadas nas inscrições derridianas são
sentidos, semiológicos.

O pensamento francês invade os EUA

Em 1966 há um evento que se tornou marcante no desenvolvimento dessa trama. Esse


evento marca o início mais efetivo da difusão desse pensamento crítico das ciências humanas
europeias para os Estados Unidos. Já no entorno da II Guerra, a atividade econômica e
técnico-industrial deslocou seu pólo irradiador da Europa para os EUA, fato que foi seguido
pela travessia do Atlântico da ciência europeia e com ela ocorreu também a constituição de
uma nova historiografia dessas ciências em solo norte-americano. O grande marco dessa
transferência encontra-se na Estrutura das revoluções científicas de Thomas Kuhn, editado em
1962 – que já alcançou até hoje cerca de um milhão de exemplares, sendo o livro acadêmico
mais difundido em todo mundo. 10 Seguindo esse itinerário, o Johns Hopkins Humanities Center
promoveu em outubro de 1966 um simpósio com mais de cem cientistas sociais de mais de
oito países. “O simpósio inaugurou um programa de dois anos de seminários e colóquios, que
buscavam explorar o impacto de pensamento ‘estruturalista’ contemporâneo sobre métodos
críticos em estudos humanísticos e sociais”.11 Participavam dele Jacques Lacan, Tzvetan
Todorov, Lucien Goldman, Roland Barthes, Jean Hyppolite, Jacques Derrida e outros. O
simpósio denominado “Les languages critiques et les sciences de l’Homme” teve o predomínio
do francês como idioma corrente. Um jornalista descreveu o encontro como um duelo francês
(“ninety-six-gun dispute”).12
Derrida teve um desempenho marcante nesse evento ao discorrer sobre suas
investigações. Seu texto centra-se em Lévi-Strauss e na análise da dicotomia natureza-cultura.
Ele explicitou as ideias contidas em De la grammatologie que será editada no ano seguinte. O
impacto de sua apresentação é notável. Em 1986 passou a ser professor de Humanidades da
Universidade da Califórnia e, assim, consolidou sua influência na crítica em solo dos EUA.
Seja como consequência direta ou indireta desse simpósio e de seu subsequente
programa de colóquios, o fato é que a cena internacional eleva os EUA como novo protagonista
engajado na onda pós-estruturalista. Em 1978, a mesma The Johns Hopkins University Press
edita uma coleção de artigos que vai impactar fortemente os historiadores em geral. Trata-se

9
DERRIDA, Jacques. Gramatologia. 2 ed. São Paulo: Perspectiva, 1999, p. 10, 11.
10
MAIA, Carlos Alvarez. História das ciências: uma história de historiadores ausentes. Rio de Janeiro: Ed.
UERJ, 2013, p. 239.
11
Cf.: MACKSEY, Richard; DONATO, Eugenio (eds.). The Structuralist Controversy. The languages of
criticism and the sciences of man. Baltimore: The Johns Hopkins University Press, 1972, p XV.
12
Ibidem, p. XVII.

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A crise da história e a onda pós-estruturalista

de Trópicos do discurso de Hayden White, que resgata as inquietações de Roland Barthes. 13


Entretanto, White é bem mais severo em suas avaliações do modelo conceitual, visto como
anacrônico, que alimenta a muitos historiadores: “quando os historiadores asseveram que a
história é uma combinação de ciência e arte, em geral estão querendo dizer que ela é uma
combinação da ciência social do fim do século XIX e da arte de meados do século XIX.” 14 Na
linha barthesiana de crítica ao realismo ingênuo subjacente, ele dispara:

Muitos historiadores continuam a tratar os seus “fatos” como se fossem “dados”


e se recusam a reconhecer, diferentemente da maioria dos cientistas, que os
fatos, mais do que descobertos, são elaborados pelo tipo de pergunta que o
pesquisador faz acerca do fenômeno que tem diante de si.15

Desde então, Hayden White ocupa o centro das preocupações defensivas de


historiadores que se sentiram atingidos pelos seus textos. Até a nomenclatura sofreu
alterações, passou-se a dizer de uma crise da história promovida pelo linguistic turn, a virada
linguística. O desconforto de se verem comparados à ficção literária criou um clima de
combate. Curioso que a expressão “linguistic turn” foi introduzida por Richard Rorty ao editar
uma antologia em 1967 – The Linguistic Turn. Essays in Philosophical Method – que se referia
a um evento do início do século XX, do qual Frege, Wittgenstein e Saussure participavam. A
invenção de substantivos com sentido adequado ao momento cultural costuma ser um sucesso
para expressar algo que não era o seu referente originário. Doravante, o assunto que estamos
tratando será indexado assim, a virada linguística. O algoz dos historiadores, Hayden White,
sem haver maiores referências à onda pós-estruturalista que invadia as praias da história há
tempos. Parecia que tudo começara nos EUA, muito pouco se menciona que ocorria uma
retomada da orientação já explicitada por Roland Barthes.

Mas de um modo geral houve uma relutância em considerar as narrativas


históricas como aquilo que elas manifestadamente são: ficções verbais cujos
conteúdos são tanto inventados quanto descobertos e cujas formas têm mais
em comum com os seus equivalentes na literatura do que com os seus
correspondentes nas ciências.16

Talvez o mais combativo opositor de White tenha sido Roger Chartier em debate que se
tornou memorável.17 Nos argumentos de Chartier não parece que ele tenha levado em conta a
sutileza e a profundidade das ilações sofisticadas de White, já examinei isso em História,
ciência e linguagem.18

A crítica mais frequente dirigida a Hayden White deve-se à sua recusa de


atribuir à história o estatuto de um conhecimento que seria de uma outra
natureza que aquela trazida pela ficção. [...] Hayden White faz-se o arauto de

13
Em 1973 já fora publicado pela mesma editora Metahistory. São importantes para esta discussão duas
obras de: WHITE, Hayden. Meta-história: a imaginação histórica do século XIX. São Paulo: Edusp, 1992;
e, Trópicos do discurso: ensaios sobre a crítica da cultura. São Paulo: Edusp, 2001.
14
Ibidem, p. 56.
15
Idem.
16
Ibidem, p. 98.
17
Ver: CHARTIER, Roger. À beira da falésia: a história entre incertezas e inquietudes. Porto Alegre: Editora
Universidade; UFRGS, 2002.
18
MAIA, Carlos Alvarez. Op. cit.

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A crise da história e a onda pós-estruturalista

um relativismo absoluto (e muito perigoso) que denega toda possibilidade de


estabelecer um saber “científico” sobre o passado. Assim desarmada, a história
perde toda capacidade para escolher entre o verdadeiro e o falso, para dizer o
que foi, para denunciar as falsificações e os falsários.19
Hayden White responde a seus adversários – os quais denunciam o relativismo de suas
propostas como uma destruição de todo saber – que “considerar a história como uma ficção,
como compartilhando com a literatura as mesmas estratégias e procedimentos, não significa
retirar-lhe todo valor de conhecimento, mas simplesmente considerar que ela não tem regime
de verdade própria”.20 Mas, como qualquer debate típico, o que ocorre se assemelha mais a
dois monólogos do que a um diálogo e a contenda não chega a uma síntese produtiva entre os
litigantes.
O resultado do imbróglio da onda pós-estruturalista é bem positivo para a história.
Enriquece e amplia o espectro de objetos administrados pela disciplina história. O pensamento
histórico ganha maior potência explicativa com a inclusão dos elementos da narrativa como
valor para os historiadores. Não haveria motivo para preocupações com a perda do real para a
história, afinal, era um real ficcional. Mostrava-se, sim, como a realidade concreta era forjada
não só por objetos e eventos considerados objetivos. E esse alerta já ressoa em Hayden White,
reportando-se ao As palavras e as coisas de Foucault:

Dessa forma, Foucault vê o movimento estruturalista ironicamente, como a


última fase de um desenvolvimento nas ciências humanas que principiou no
século XVI, quando o pensamento ocidental foi presa da ilusão de que “a ordem
das coisas” poderia ser representada de maneira adequada numa “ordem de
palavras”, se se pudesse achar a ordem correta das palavras. A ilusão em que
todas as ciências modernas se basearam é a de que as palavras gozam de uma
condição privilegiada na ordem das coisas, como ícones transparentes, como
instrumentos de representação de valor neutro. A atribuição às palavras de uma
condição ontologicamente privilegiada como essa na ordem das coisas é um erro
que a moderna teoria linguística permitiu por fim identificar. O que a moderna
teoria linguística demonstra é que as palavras não passam de coisas entre
outras coisas no mundo.21

Por um lado, essas palavras de Hayden White revelam a forma e a intensidade pela
qual o linguistic turn abalou o universo de certezas dos historiadores com um incômodo teórico
que os obrigava a rever seus princípios e modelos compreensivos; no entanto, por outro lado,
esse mesmo transtorno trouxe para o horizonte da disciplina história um aumento da
população que habita o seu continente, ampliando o seu campo de visão para novos objetos
que migravam das áreas estritas da filosofia mentalista da linguagem para o devir histórico. A
linguagem agora como objeto e agente da história. Trata-se de uma crise para muitos
historiadores, porém um momento de próspera inflexão para a história.
Penso a história, o devir societário humano, como algo em movimento contínuo, tal
como o próprio pensamento histórico produzido por esses sujeitos. O pensamento sobre a
história persegue esse movimento e atua através de interpretações. O historiador não é o
fotógrafo do passado, ele não consegue capturar o fato em si. Ele se faz intérprete, somente

19
CHARTIER, Roger. À beira da falésia... Op. cit., p. 110-111.
20
Apud: Ibidem, p. 111.
21
WHITE, Hayden. Trópicos do discurso... Op. cit., p. 255.

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A crise da história e a onda pós-estruturalista

produz interpretações. Mas ele supõe que o fato está lá, ele só pode retratar seus indícios e
possíveis articulações com outros fatos hipotéticos. Ele jamais está ante o Real, mas imagina
que pode vislumbrar as sombras ontológicas desse Real. Esse é um dilema insolúvel
promovido pelas crenças metafísicas que se infiltram na história como em todo e qualquer
conhecimento sobre o mundo. É um obstáculo metafísico, o pensamento de qualquer
investigador pode ser contaminado pela metafísica. E isso gera conflitos, “crises”. Assim,
quando uma nova interpretação surge, naturalmente, há um desapontamento com a perda de
uma certeza anterior que foi construída justamente por sua metafísica embutida. Não deveria
ocorrer desapontamento em cada nova interpretação, se tal ocorre é devido a uma crença no
valor metafísico da interpretação mais antiga. Essa crença fornecia um valor absoluto para a
interpretação anterior, dava-lhe o sentido de uma verdade. Penso que o léxico do historiador
deveria banir todas as palavras que remetem a condições absolutas: “verdade” é uma das
mais danosas. Aprendemos com Barthes como as palavras nos dão a ilusão do real, as
palavras permitem que uma ontologia dos fatos se infiltre no pensamento histórico.
Em nosso momento compreensivo em história deveria haver mais cuidado com essa
infiltração da metafísica que sugere que descobrimos fatos e suas conexões igualmente
fácticas. Ela fornece uma ilusão do real. Permitir que a metafísica assuma o controle de nossas
interpretações pode gerar dificuldades posteriores. Quando falamos em “crise da história” ante
uma nova interpretação, na realidade, estamos falando do desapontamento dos adeptos da
interpretação anterior. Pela simples razão de que esses adeptos supõem que perderam “sua
verdade”. Uma verdade que nunca a possuíram. Afinal, não descobrimos verdades como
também não as inventamos. História não é ficção. Nós interpretamos e reinterpretamos.

22
A ressaca da onda pós-estruturalista colide com a metafísica

Sem desmerecer a importância e necessidade da compreensão ontológica do


mundo, para o fazer histórico as proposições metafísicas do ser são bastante
problemáticas. Pois, a metafísica pode nos conduzir ao pensamento do ser em si,
apagando as suas condições de possibilidade histórica. Exatamente essa noção alimenta a
pretensão de considerar a linguagem como uma espécie de tradutora de algo no mundo
real, a linguagem como transmissora inerte e invisível entre a realidade concreta e o
pensamento do sujeito. Nessa acepção, comparam-se duas entidades como se fossem
autônomas: a linguagem e o mundo, dito, real. Mas, a existência da linguagem depende
dos humanos, e não só, depende também do mundo e das suas interações com ele.23

22
Agradeço à professora Francine Iegelski, do Departamento de História da Universidade Federal
Fluminense, sua indicação que me serviu de alerta para a complexidade da relação entre a história e a
metafísica. A discussão com a professora Iegelski produziu o pretexto para a escrita deste artigo.
23
MAIA, Carlos Alvarez. História, ciência e linguagem. Op. cit.

60 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 50-65, jan./jun. 2018


A crise da história e a onda pós-estruturalista

a linguagem não pode ser considerada como um simples instrumento, utilitário


ou decorativo, do pensamento. O homem não preexiste à linguagem, nem
filogenética nem ontogeneticamente. Não atingimos nunca um estado em que o
homem estivesse separado da linguagem, que em seguida elaboraria para
“exprimir” o que se passasse em si: é a linguagem que ensina a definição de
homem, não o contrário.24

E não é só a linguagem que é indissociável da definição de homem. A vida prática e a


especulativa também partilham a definição do humano. Ciência, magia e religião encontram-se
na mesma relação. Mais ainda, a estética, a ética, a lógica e, dou-lhe ênfase, a metafísica. E
ainda mais, a história. O pensamento histórico é totalmente inerente ao ser humano. Mas o
pensamento dos historiadores não deveria se submeter às orientações metafísicas. Aqui vemos
uma aparente contradição. Mas, é só aparente. Que o pensamento histórico deva levar
necessariamente em consideração o fato de que as coisas humanas estejam contaminadas
pela metafísica, é um dado. Entretanto, que o historiador ao analisar a história não deva ser
conduzido por suas inclinações metafísicas, é outro dado completamente diferente. É certo que
não temos mais a credulidade na objetividade que nos alimentou em outros tempos. Mas uma
censura mínima contra a euforia descontrolada das subjetividades é necessária. Já
conhecemos os danos que advém dessa atitude descuidada. A “crise da história” transfigurada
em “crise dos historiadores” nos revela justamente isso, historiadores que viram ruir “sua”
metafísica da verdade em história. Se para o ser humano, a compreensão metafísica de sua
existência e do mundo parece ser algo essencial, já para o pensamento de um historiador, o
contrário é desejável. O homem vive com suas utopias, suas ideologias, suas crenças, seus
fetiches, etc. e esse conjunto com bases metafísicas faz parte da história, necessariamente.
Mas, o historiador deve guardar alguma distância. Eis o conflito história e metafísica. Esse
pode ser o sumo mais representativo do pensamento pós-estruturalista. Quando a onda pós-
estruturalista, após surpreender a história, atinge a metafísica, ela se transforma em uma
violenta ressaca.
Vejo a metafísica como uma ilusão idealista ante a história. Pelo viés metafísico, as
entidades parecem ter vida própria, gozando de autonomia. Parecem ganhar existência
concreta e independente, como entes isolados. Criam-se substantivos sorrateiros que
ganham realidade ontológica, se transformam em seres em si. Tal como ocorre com a
lógica, a razão, a linguagem, a causalidade, a ciência... e, nesses casos, costumam até
serem grafadas em maiúscula: a Ciência, a Nação, a Verdade, etc. Estamos, como
historiadores, na contramão dessa orientação.
Esse pensamento é bem problemático: supor um Real além da realidade
experimentada na vida sensível, um Real somente alcançado pela reflexão, pelo uso da
Razão, com o objetivo de desvendar a natureza primacial e transcendente do Ser que
fundamentaria o mundo. Esta é uma frase totalmente alienígena ao território frequentado
por um historiador. Estamos ante um empobrecimento intelectual ao deixar-nos

24
BARTHES, Roland. Escrever, verbo intransitivo. In: O rumor da língua. Lisboa: Edições 70, 1987, p. 19-
26, 20. Note que este é o texto de Barthes apresentado no simpósio na universidade Johns Hopkins, em
1966.

61 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 50-65, jan./jun. 2018


A crise da história e a onda pós-estruturalista

influenciar pela metafísica. O ato de “metafisicar” discursos, criando entes, é uma


violência contra o pensamento histórico. As coisas, como entes históricos , possuem um
processo de produção que lhes é inerente. Nada nasce do nada ou situa-se no vácuo das
condições sócio-materiais da existência.
Há uma controvérsia com a denominação “metafísica” significando algo que
transcende o saber físico. É interessante notar que Aristóteles ao denominá-la “filosofia
primeira” não parecia ter uma ideia definida de todas as implicações da metafísica
considerando-a como a investigação dos primeiros princípios e das causas mais elevadas.
Essa “filosofia primeira” apresenta dois focos. O primeiro, mais dedicado ao estudo formal
do ser, “do que é”, e na ordem de seu conhecimento que seriam as suas formalidades.
Nesse caso, a metafísica poderia ser chamada de ontologia. No segundo, teríamos a
“filosofia teológica” dedicada ao “ser supremo”, o que configura um estudo sobre a
divindade transcendental, sua natureza e atributos: a teologia. 25
É certo que a metafísica manteve os dois sentidos, o de ser post physica e o de
trans physica, sobrenatural, dito de outro modo, post naturalia e super naturalia. Mas,
“não se perdeu nunca no termo ‘metafísica’ o sentido de uma investigação formal,
estreitamente relacionada com a lógica (ainda que não identificável com ela), de temas
como o ser,” ou os transcendentais, a substancia, os modos, a essência, a existência
etc.26 Essa associação da metafísica com a forma lógica do discurso merece atenção, pois
ela estabelece os contornos que definem as qualidades e pertinências da filosofia
ocidental. Tudo parece indicar que o estudo da lógica aristotélica – sua Analitica – foi
uma preparação necessária para a elaboração de sua metafísica, a “filosofia primeira”. O
instrumento lógico rigoroso é uma precondição para o ataque às questões ontológicas e
teológicas da metafísica. É a maneira de investigar e comprovar questões usando tão
somente o raciocínio lógico, sem um teste ou averiguação factual. História e metafísica
situam-se assim em pólos opostos na investigação cognitiva. Para nós, historiadores, a
questão mais divergente entre a metafísica e a história é a referente aos seus respectivos
objetos de estudo. A metafísica se aplica à transcendência e às causas primeiras,
afastadas da empiria dos fatos rotineiros da vida. Ao contrario da história, ela busca a
realidade subjacente à realidade dos fenômenos, o Real.
Até aí, tudo bem com a história, mas Aristóteles amplia seu detalhamento podendo
entrar em grave divergência com a história ao esclarecer o que são “coisas anteriores e
mais cognoscíveis”.

Por anterior e mais cognoscível em relação a nós quero dizer aquilo que
está mais próximo de nossa percepção; por anterior mais cognoscível no
sentido absoluto quero dizer aquilo que está mais distante da percepção.
Os conceitos mais universais são os mais distantes de nossa percepção,
enquanto os particulares são os mais próximos dela. 27

25
MORA, José Ferrater. Diccionario de filosofía. vol. 4. 3 ed. Madri: Alianza, 1981. p. 2197.
26
Idem.
27
ARISTÓTELES. Órganon. São Paulo: Edipro, 2016, p. 270.

62 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 50-65, jan./jun. 2018


A crise da história e a onda pós-estruturalista

Essa proposição ilustra bem uma orientação que pode ter um sentido estritamente
epistemológico. Galileo e toda a ciência moderna apoiariam esse cuidado em ir além das
aparências dos fenômenos. 28 Mas, se nos afastarmos da recomendação puramente
epistêmica e entrarmos no terreno da “filosofia primeira” a questão se complica do ponto
de vista dos historiadores. Ao privilegiar o “sentido absoluto do cognoscível” contra a
percepção dos indivíduos, Aristóteles transita na contramão da história. Como identifica
Ferrater Mora: “As causas mais universais são as mais afastadas dos sentidos, ainda que
sejam as mais fundamentais na ordem real.”29 Há uma oposição entre o que é primeiro
para os sentidos e o que é primeiro por natureza, ele acrescenta. Essa a razão de
Aristóteles designar a metafísica como “filosofia primeira”, sim, primeira por natureza e
que é universal, contrária aos sentidos. O universal versus o particular, sendo universal
aquilo que é contrário ao testemunho dos indivíduos. Assim, parece que Aristóteles
estabelece o lugar da Razão para atingir esse absoluto. 30 Entretanto, abandonar as
percepções humanas retidas do mundo, excluir as opiniões fundadas na atividade
sensorial dos indivíduos em favor de um saber transcendente, é um duro golpe contra a
história. É certo que o julgamento pessoal não seja garantia de verdade, mas quem a
tem? A Razão universal?

Últimas palavras

Este texto se submete a um pretexto que o motiva: entender melhor a relação entre a
história e a metafísica. Não é uma relação de afinidade, elas possuem naturezas diferentes,
mas não chegam a produzir uma repulsão radical entre si. Porém, há certa “alergia
epistemológica” entre elas, parecem imiscíveis. É certo que a metafísica não frutifica bem no
solo da história, e a história realiza podas na metafísica que tendem a descaracterizar a sua
essência. A essência da metafísica são as essências. A metafísica, um monumento frondoso,
sente-se segura em seu chão filosófico bem consolidado há milênios, habita o reino dos
absolutos, dos primeiros princípios, das causas primevas, das certezas plenas e da verdade.
Passam-se as eras e a metafísica sobrevive, e bem, às intempéries críticas – sobrevive a
Nietzsche e ao positivismo antigo e ao novo. Ela espalha seus ramos e invade domínios
inesperados, tem seu início no pensamento mítico e no mágico, em seguida centra-se nas
religiões, avança pelas artes e atinge até a ciência. Sim, até a ciência. Já a história, ainda que
seja registrada há milênios, também, está em um contínuo renascimento. Omitindo a

28
Basta recordar que o obstáculo para a aceitação do sistema heliocêntrico foi devido às percepções que
as pessoas tinham, e têm até hoje, da imobilidade da Terra e do movimento solar e das estrelas. Assim,
a ciência moderna se fez “contra” as aparências sensórias sem, entretanto, fazer qualquer menção à
transcendência.
29
MORA, José Ferrater. Diccionario de filosofía. Op. cit., p. 2196-2197.
30
Segundo o Órganon “é impossível obter conhecimento científico via percepção sensorial”, pois o
conhecimento é sobre universais e não sobre particulares. ARISTÓTELES. Op. cit., p. 324,

63 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 50-65, jan./jun. 2018


A crise da história e a onda pós-estruturalista

Antiguidade, talvez o século XIX seja o seu momento mais glorioso, porém o século XX veio
mostrar seus equívocos e, ainda há pouco, chega até anunciar sua crise.
Ainda assim, o que é mais determinante na relação história-metafísica é algo inusitado
para duas entidades que possuem algum conflito e a tal “alergia” intrínseca: é a relação de
inclusão que a história exerce sobre a metafísica. E, aqui, vou insistir sobre algo que já
mencionei ao anunciar a “colisão da onda pós-estruturalista com a metafísica”. Essa insistência
é necessária para marcar fortemente minha posição ante a contestação recíproca entre a
metafísica e a história.31 A história possui um encantamento fulcral pelas coisas humanas,
nada do humano lhe é estranho ou indiferente. Tudo o que é do homem interessa ao
pensamento histórico. E, o humano é um grande e permanente mistério, parece conter de
tudo um pouco. Ainda que o Iluminismo o tenha filtrado e reduzido ao mito do homo sapiens,
de uma divinizada racionalidade, ele dança e enlouquece em todos os ritmos: do irracional ao
pulsional, do místico ao fanático, do sábio à besta brutal... Há sempre um tipo de humano para
satisfazer a qualquer situação. Por mais incrível e absurdo que possa parecer, há humanos,
hoje, no Brasil, tentando acabar com nossa universidade. Essa é a nossa “crise” mais doentia
que a história uerjiana registra.
Assim, a história que persegue todo e qualquer vestígio de humanidade desse humano
se desdobra em incorporar em si todas as preocupações e motivações que movimentam a vida
de tal humano. Por essa razão, a história pode e deve ter entre seus objetos um pouco de tudo
que aflige os humanos. Religião, magia, ciência, artes, política, sexualidade, lágrimas,
torturas, genocídios variados... (uma lista exaustiva sempre será incompleta) e a metafísica. A
história está aberta a todo e qualquer vestígio de humanidade. E, por isso, ela não pode se
omitir, tem que aceitar entre suas atribuições a análise histórica das infiltrações metafísicas no
homo sapiens. Mas, por outro lado, o historiador que está sujeito às orientações metafísicas –
como qualquer outro ser humano –, deve ter cautela metodológica sobre essa sujeição. O risco
de seu alinhamento com alguma proposição alienígena à natureza histórica está no contágio
que o pensamento dos historiadores possa sofrer em ser submisso à metafísica. E, isso já
aconteceu, diversas vezes, e não só com a história, e nem sempre com prejuízo imediato. Vou
tratar de um exemplo envolvendo a ciência, essa “neutra” atividade humana. Basta recordar
as motivações da Revolução Científica do século XVII. A credulidade generalizada dos
“revolucionários da ciência” na existência de “leis da natureza” é resultado de um valor
ontológico que governaria o mundo natural. Haveria um legislador universal organizando o
cosmos e do qual emanariam as leis naturais que os cientistas deveriam descobri-las. Graças a
esse dogma de raiz metafísica, a atividade científica conheceu um grande desenvolvimento nos
séculos seguintes. Até hoje, o mito das “leis da natureza” continua agindo na consciência de
muitos trabalhadores da ciência.

31
Apesar de seu estado alérgico, a história não pode seguir os passos do neopositivismo do Círculo de
Viena que baniu para alhures as orientações metafísicas. A história deve incluí-las, mas não pode deixar-
se incluir na metafísica.

64 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 50-65, jan./jun. 2018


A crise da história e a onda pós-estruturalista

Para não cair na armadilha de uma contaminação metafísica, o historiador deveria


experimentar um remédio caseiro, simples e eficiente. Deixar-se contagiar pelo antídoto a toda
metafísica, uma postura pragmática. O sujeito pragmático, ao montar o seu quebra-cabeça
existencial, somente deseja encontrar a peça faltante que se ajusta bem aos seus interesses.
Encontrando-a, ele não tem dúvidas, não tergiversa, ele a usa. O uso, essa é a sua prioridade
e a essência de sua busca. A postura pragmática só se interessa pelo uso da coisa encontrada,
não lhe importa “raça, gênero nem religião”, nem até mesmo se a coisa for uma filha
bastarda: se funciona está bem, diria o pragmatista. Assim, minha proposta é: “a relação
história-metafísica deveria ser perturbada pelo contínuo flerte da história com a pragmática”.
E isso é tudo que eu teria a dizer sobre a crise da história promovida pela onda pós-
estruturalista, indicando que a crise deve-se à infiltração de uma ontologia no pensamento do
historiador.

Carlos Alvarez Maia: Professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro


(UERJ). Possui doutorado em História Social pela Universidade de São Paulo (USP); graduação
em Física pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio); além de ter
realizado estágio pós-doutoral na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Seus
principais temas de pesquisa são: História das Ciências; Teoria da História e Linguagem;
Semiologia dos Saberes; Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia.

65 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 50-65, jan./jun. 2018


n. 18, p. 66-82, jan./jun. 2018
ISSN-e: 2359-0092
DOI: 10.12957/revmar.2018.31309

REVISTAMARACANAN
Dossiê

Temporalidade e crise: sobre a (im)possibilidade do futuro e


da política no Brasil e no mundo contemporâneo

Temporality and crisis: on one (im)possibility of future and politic in Brazil


and in the contemporary world

Thamara de Oliveira Rodrigues


Universidade Federal de Ouro Preto
thamara_rodrigues@yahoo.com.br

Marcelo de Mello Rangel


Universidade Federal de Ouro Preto
mmellorangel@yahoo.com.br

Resumo: Neste artigo abordamos alguns aspectos da crise política contemporânea e brasileira a partir
da sua relação com a temporalidade. Argumentamos que certa dificuldade no que diz respeito ao
surgimento de propostas intelectuais e políticas para o seu enfrentamento pode ser atribuída, entre
outros fatores, à insistência numa percepção do futuro determinada pela expectativa de
perfeição/perfectibilidade e progresso. Discute-se, também, a sensação de um possível aprisionamento
na crise tendo em vista uma determinada forma de tematização a partir das mídias e redes sociais. Ao
final, recorre-se a perspectivas que procuram ir além das categorias de pessimismo e otimismo tendo em
vista que a insistência na classificação de diagnósticos intelectuais ou de ações políticas a partir delas
estabelece uma dependência em relação a uma expectativa de futuro ideal.

Palavras-chave: Temporalidade; Crise; Presente Amplo; Otimismo; Pessimismo.

Abstract: This article discusses some aspects of the contemporary crisis based on its relationship with
temporality. We argue that a certain difficulty in the emergence of intellectual and political proposals for
its confrontation can be attributed, among other factors, to a form of experimentation of the future,
which is not fully determined by the expectation of perfection, perfectibility and progress. It also
discusses the sensation of a possible imprisonment in the crisis in view of a certain form of its
confrontation from the media and social networks. In the end, we approach perspectives that seek to go
beyond the categories of pessimism and optimism. The insistence on the classification of intellectual
diagnoses or political actions from them establishes a dependence on an expectation of the ideal future.

Keywords: Temporality; Crisis; Broad present; Optimism; Pessimism.

Recebido: Outubro 2017


Aprovado: Dezembro 2017
Temporalidade e crise: sobre a (im)possibilidade do futuro e da política no Brasil e no mundo
contemporâneo

Neste artigo de caráter mais ensaístico procura-se tematizar alguns aspectos da crise
política contemporânea, especialmente a partir do Brasil, tendo em vista a sua relação com a
temporalidade. Na primeira seção, a partir das contribuições de Hans Ulrich Gumbrecht,
discute-se a sensação de “estagnação” a partir de seu diagnóstico sobre o “presente amplo”. A
dificuldade de propostas intelectuais e políticas para o enfrentamento da crise pode ser
atribuída, entre outros fatores, à forma contemporânea de experimentação e de percepção do
futuro, a qual não pode ser determinada pela expectativa de perfeição, perfectibilidade e
progresso. Em seguida, discute-se a sensação de um possível aprisionamento na crise tendo
em vista uma determinada forma de enfrentamento a partir das mídias e redes sociais. Na
terceira seção, tematizamos como a relação com um futuro mais fechado tem dificultado o
surgimento de novos projetos e lideranças. Por fim, abordam-se perspectivas que procuram ir
além das categorias de pessimismo e otimismo frente à crise, tendo em vista que a insistência
na classificação de diagnósticos intelectuais e de ações políticas a partir delas estabelece uma
dependência em relação a uma expectativa de futuro ideal.

Sobre o nosso “amplo presente”

A maior parte das vezes, para escapar ao sofrimento


refugiamo-nos no futuro. Julgamos que a pista do
tempo tem uma linha marcada para lá da qual o
sofrimento presente há de cessar. Mas Tereza não
conseguia ver essa linha à sua frente. Só olhando para
trás descobria alguma consolação.

Milan Kundera. A insustentável leveza do ser.

Nesta seção apresentaremos as principais características da temporalidade própria ao


mundo contemporâneo a partir das contribuições de Hans U. Gumbrecht. Antes, contudo,
retomaremos resumidamente o diagnóstico de Koselleck sobre a constituição do tempo
histórico moderno para identificarmos as diferenças fundamentais da nossa temporalidade em
relação à modernidade. Recorrer à teoria da modernidade de Koselleck em apenas algumas
linhas, claro, nos coloca diante do risco de algumas simplificações. Nosso objetivo, porém, é o
de reunir algumas determinações do tempo histórico moderno naquilo que é fundamental para
compreendermos melhor o diagnóstico de Gumbrecht da nossa temporalidade.
Segundo Koselleck, especialmente a partir da segunda metade do século XVIII: 1-
passou-se a ter uma sensação mais geral de que a história se constituiria a partir de um
percurso linear, no interior do qual todas as coisas se transformavam necessariamente. 2-
Desta forma, o tempo acaba se tornando um agente absoluto e radical de mudanças. 3- Como

67 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 66-82, jan./jun. 2018


Temporalidade e crise: sobre a (im)possibilidade do futuro e da política no Brasil e no mundo
contemporâneo

todas as coisas estariam sujeitas à mudança (e efetivamente se diferenciavam), o passado foi


perdendo seu poder de orientação e foi sendo deixado para trás como fonte objetiva de
organização da vida político-social. 4- O futuro, por sua vez, apresentou-se como horizonte de
várias expectativas positivantes e tornou-se o lugar decisivo para a realização dos projetos
humanos. 5- O presente se estreitou devido à sensação de aceleração e ineditismo dos
eventos históricos, sendo considerado sempre um momento breve e passageiro a ser
“explicado” pela posteridade. E, 6- Embora um lugar de transição, o presente se constituiu
como o abrigo epistemológico do sujeito cartesiano, no qual ele refletiria e tomaria as decisões
adequadas para uma consecução menos traumática desse futuro ideal ou perfectível. 1
O mundo contemporâneo teria como diferença fundamental em relação à modernidade
a sensação de que já não se pode escolher as opções oferecidas pelo futuro. Isto é,
diferentemente da modernidade, não nos comportaríamos mais (ao menos não de forma mais
geral) a partir da expectativa constante de uma transformação progressiva e ideal (ou
perfectível) da história. O passado, por sua vez, não estaria tão distante do presente. Ele nos
inundaria a partir da acumulação de memórias e de experiências e reivindicaria uma maior
atenção. Ou ainda, o que está em questão aqui é que na medida em que o futuro não é mais
uma condição suficiente à nossa mobilização existencial, tem-se tendido à retomada por um
desejo de segurança de experiências que de alguma forma já vivemos, e isto para que seja
possível a atualização do que Gumbrecht chama de “fascínio”, ou, em outras palavras, da
própria experiência da felicidade em termos fenomenológicos.
O presente não é mais um lugar de transição próprio a uma reflexão meticulosa (nos
moldes do subjetivismo moderno) e nem um espaço rapidamente superável por experiências
inéditas. Ele se expande a partir do acúmulo de passados ao passo que não avança para novos
futuros possíveis. Esta é uma descrição sintética do diagnóstico do “amplo presente” (broad
present) proposto por Gumbrecht, o qual caracterizaria a nossa temporalidade. Neste presente
tem-se a sensação de “estagnação”, e a expectativa de experimentarmos contextos incomuns
é expressivamente menor quando comparada ao tempo histórico moderno. 2
Um dos fatores importantes para a diferenciação de nossa temporalidade em relação à
modernidade é a experiência e a sensação de uma aceleração da história (própria à
modernidade). A aceleração do tempo, segundo Koselleck, é um fenômeno que corresponde à
desnaturalização da experiência “pré-moderna” de tempo. Há diferentes possibilidades para
abordá-la como, por exemplo, a partir da crise política, econômica ou da aceleração resultante
do progresso tecnológico-industrial. Em termos gerais, trata-se de um fenômeno moderno que
remete a uma mudança na experiência, na sensação e na consciência do tempo. Trata-se de
uma mudança que requisita uma nova experiência temporal. Na aceleração tudo muda mais

1
KOSELLECK, Reinhart. Futuro Passado – contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro.
PUC-Rio, 2006; KOSELLECK, Reinhart. A temporalização da utopia. In: Estrados de tempo. Estudos sobre
a história. Rio de Janeiro: Contraponto; PUC-Rio, 2014, p. 121-138; GUMBRECHT, Hans Ulrich.
Modernização dos Sentidos. São Paulo: Editora 34, 1998.
2
GUMBRECHT, Hans Ulrich. Nosso amplo presente - o tempo e a cultura contemporânea. São Paulo:
Unesp, 2015.
68 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 66-82, jan./jun. 2018
Temporalidade e crise: sobre a (im)possibilidade do futuro e da política no Brasil e no mundo
contemporâneo

rapidamente do que foi experimentado ou imaginado anteriormente. Os ritmos temporais se


tornam curtos e constantemente interrompidos por novas experiências igualmente percebidas
como inéditas. Este tipo de aceleração incorporou uma experiência linear e progressiva da
história, concebida como um movimento que se supera e se abre recorrentemente para o novo
(o qual seria melhor que o anterior). Em resumo, a aceleração temporal da modernidade se
refere à perda de familiaridade em relação às experiências anteriores, e a expectações que se
constituem a partir destas conjunturas que vão se diferenciando incessantemente do passado.3
Atualmente, a aceleração do tempo tal como explicitada por Koselleck parece menos
comum do que uma sensação de lentidão ou de “estagnação” da história. 4 Isso não significa
dizer que no nosso tempo não haja a sensação de mudança ou o aparecimento de novos
eventos e fenômenos (sobretudo se tomamos como referência o desenvolvimento da técnica).
A sensação de “estagnação” não diz respeito à ausência de novos fatos ou experiências, pois
eles continuam aparecendo e são próprios a qualquer temporalidade. A estagnação que hoje
contrasta com a aceleração do tempo moderna diz respeito ao enfraquecimento da expectativa
de que esses fatos possam abrir uma transformação efetiva e progressiva da história.
Como exemplo, Gumbrecht observou que tanto o socialismo quanto as humanidades
teriam vivido simultaneamente uma sensação de “estagnação”, ou seja, passaram a se
determinar por uma grande dificuldade de articulação e elaboração de novos futuros. A
“estagnação” simultânea das humanidades e do socialismo não seria uma coincidência. Ambos
teriam uma fonte de energia comum atualmente enfraquecida ou mesmo esgotada: o
subjetivismo cartesiano, o qual, diante da “crise da representação” (nada no mundo poderia
ser estável e idêntico a si mesmo), se reconstitui no século XIX a partir da narrativização e da
historicização da realidade.5
Em outras palavras, a narrativização e a historicização da realidade foram mecanismos
a partir dos quais a história e a filosofia, por exemplo, procuraram dar conta da multiplicidade
de representações e interpretações na busca daquela que seria a mais coerente para a
explicação (e reorganização) de um mundo que se afastava de suas orientações fundamentais.
Esta crise chamada de crise da representação, temporalização das perspectivas ou nascimento
do observador de segunda ordem ocorreu no momento em que o homem adquiriu consciência
de que o mundo exercia uma influência decisiva no que diz respeito à constituição dos
enunciados em geral.6 Ou seja, passou-se a ter consciência da relação de intimidade entre o
sujeito do conhecimento e o seu corpo, mundo. Isto resultou no entendimento de que: 1- as

3
KOSELLECK, Reinhart. Is There an Acceleration of History? In: ROSA, Hartmut; SCHEUERMAN, William
E. (ed.). High-speed society: social acceleration, power, and modernity. State College: Penn State
University Press, 2009, p. 113-134.
4
GUMBRECHT, Hans Ulrich. Nosso amplo presente... Op. cit., p. 59-76.
5
Idem.
6
Sobre “crise da representação”, “crise das perspectivas” ou “nascimento do observador de segunda
ordem”, consultar: FOUCAULT, Michel. As Palavras e as Coisas. Uma arqueologia das ciências humanas.
São Paulo: Martins Fontes, 2000; KOSELLECK, Reinhart. Ponto de vista, perspectiva e temporalidade -
contribuição à apreensão historiográfica da história. Futuro Passado – contribuição à semântica dos
tempos históricos. Rio de Janeiro. PUC-Rio, 2006, p. 161-188; GUMBRECHT, Hans Ulrich. Modernização
dos Sentidos. São Paulo: Editora 34, 1998.
69 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 66-82, jan./jun. 2018
Temporalidade e crise: sobre a (im)possibilidade do futuro e da política no Brasil e no mundo
contemporâneo

nossas experiências de mundo seriam decisivas para a constituição de enunciados, 2- que


experiências diversas (e mesmo contrárias e contraditórias) seriam possíveis, de modo que 3-
tornou-se possível a generalização da pergunta: de qual ponto de vista seria plausível garantir
a correspondência entre o conhecimento, ou as “palavras” e as “coisas” mais propriamente? As
respostas para esta pergunta foram dadas através da narrativização e da historicização da
realidade que se tornaram a fonte de energia das humanidades e das teorias modernas que
nasciam deste questionamento, como a história e o socialismo, por exemplo. Nesta
conjuntura, desenvolvia-se a impressão de que a história seria organizada por um télos, o qual
poderia ser identificado e até mesmo intensificado através do estudo da história e de seus
princípios possíveis. Havia, desta forma, uma disposição para o futuro e sua
instrumentalização (ou antecipação) constante através da explicitação metodológica dos
sentidos que seriam próprios (e ideais) à história.
Contudo, as experiências traumáticas e totalitárias do século XX fizeram cessar essa
fonte de energia (a qual ainda se nutria, de alguma forma, do gesto cartesiano). Isto porque
os imperialismos, os fascismos, o uso da ciência e da tecnologia para o extermínio em massa
colocaram esta percepção em questão, tornando possível a desconfiança radical em relação à
interpretação de que a história teria um télos ideal (que se realizaria progressivamente), o
qual poderia ser explicitado e intensificado a partir de uma análise metodologicamente
orientada. Diante da insegurança e instabilidade produzidas neste contexto, as humanidades
se dedicaram à compreensão desses fenômenos históricos, o que intensificou a crítica às
macronarrativas constituídas até então, ou seja, as narrativas institucionais e predominantes
que ao longo do século XIX e início do XX tomaram para si o papel de explicar o que seria e
como caminharia a história. Desta forma, se a narrativização e a historicização ainda se
mobilizavam a partir da energia liberada pelo sujeito cartesiano, apontando para um futuro
aberto capaz de realizar/organizar as expectativas geradas pela aceleração do tempo,
assistimos, na segunda metade do século XX, a um enfraquecimento significativo desta
disposição.7 Enfim, a sensação que o século XX compartilhou e generalizou foi a de que as
metanarrativas próprias à modernidade (mesmo pós-crise da representação: narrativização e
historicização) transformaram o futuro naquilo mesmo que queriam evitar: violência e terror.
Podemos acrescentar aqui nos termos de Achille Mbembe que esse processo sinaliza a
experiência fundamental de nossa época que é o fato da Europa ter deixado de ser o “centro
da gravidade do mundo”.8 Este processo gerou inúmeras consequências entre as quais
podemos mencionar o enfraquecimento do projeto epistemológico moderno, que se
determinava, entre outros fatores, justo pela tentativa de controle do futuro e realização da
história a partir de um sentido ideal.
Ao propor que nossa temporalidade se caracteriza por uma dificuldade de articulação de
novos futuros e de produção de narrativas que deem sentido à história, Gumbrecht não quer
dizer que não haja mais futuros ou narrativas que organizem nossas experiências, pois isto

7
GUMBRECHT, Hans Ulrich. Nosso amplo presente... Op. cit., p. 59-76.
8
MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra. Lisboa: Antígona, 2014.
70 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 66-82, jan./jun. 2018
Temporalidade e crise: sobre a (im)possibilidade do futuro e da política no Brasil e no mundo
contemporâneo

seria antropologicamente impossível. O homem sempre se movimenta na articulação,


afastamento/proximidade, entre o “espaço de experiência” e o “horizonte de expectativa”. O
que ocorreria na nossa temporalidade é que nossa vida já não se determinaria
satisfatoriamente pela sensação de afastamento progressivo e ideal ou perfectível entre
passado e futuro.

Sobre crise e as mídias sociais

Há muitas dimensões possíveis a partir das quais se pode tematizar a crise brasileira
atual. Gostaria aqui de destacar a relação estabelecida com as tecnologias digitais de
comunicação. Segundo Gumbrecht: “o princípio democraticamente escravagista de
disponibilidade universal [dado através da tecnologia] necessitou da redução da existência
humana através da tela do computador”. 9 Achille Mbembe em posição crítica também ao que
chama de “era computacional” argumentou que as redes sociais se transformaram em “novas
estruturas do inconsciente” produzindo um deslocamento da linguagem.10
Para Gumbrecht, reduzir a existência humana à tela do computador significou a perda
da capacidade de sermos um corpo, isto é, perde-se a capacidade de deixar o corpo ser uma
dimensão ampliadora da nossa existência. A “hipercomunicação” – a disponibilidade infinita de
comunicação garantida pela tecnologia – traz a sensação de um triunfo do homem e da razão
sobre o corpo e sobre a sua finitude/fragilidade. Com isso, o autor observou que atualmente
estamos na frente do computador para trabalhar, nos comunicar e até mesmo “resolver”
nossos momentos de solidão.11
Sem correr muito o risco de errarmos pode-se afirmar que o modo predominante de
tematizar a crise no Brasil hoje é através das redes sociais e das mídias em geral. A crítica da
crise, isto é, as narrativas predominantes que procuram explicá-la, se constituem, na maior
parte das vezes, nas redes sociais e mídias em geral onde são amplamente reproduzidas e
disputadas. Isso tem levado à determinação de um comportamento político a partir do qual as
ferramentas tecnológicas de comunicação produzem certa (in)disposição para a mobilização
das pessoas em direção à ocupação do espaço público (e/ou para o seu esvaziamento). Não
ignoramos que a participação na esfera pública a partir da presença física também se relaciona
com diferentes fatores históricos, especialmente como compreendemos e como construímos no
Brasil meios para a mobilização pública. De modo que não pode ser ignorada, por exemplo, a
violência com a qual o Estado através da polícia responde às mobilizações populares:
fraturando rostos de estudantes, lançando bombas em professores, ceifando mão de
trabalhador, cegando aposentados, forjando flagrantes contra moradores negros da periferia…

9
GUMBRECHT, Hans Ulrich. Nosso amplo presente... Op. cit., p. 128.
10
MBEMBE, Achille. A era do humanismo está terminando. Revista do Instituto Humanitas - Unisinos,
Publicado em: 24 jan. 2017 (online). Disponível em: <http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/564255-
achille-mbembe-a-era-do-humanismo-esta-terminando>. Acesso em: 20 out. 2017.
11
Op. cit., p. 113-129.
71 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 66-82, jan./jun. 2018
Temporalidade e crise: sobre a (im)possibilidade do futuro e da política no Brasil e no mundo
contemporâneo

Esse cenário não deixa de ser uma explicação possível e aceitável acerca das razões pelas
quais as redes sociais se tornam alternativas para a disputa e realização do espaço
democrático. De modo que qualquer âmbito político que desconsidere as redes sociais perderá
condições significativas de diálogo com a população. As pautas e a organização das
mobilizações próprias aos movimentos sociais e aos partidos políticos têm se dado a partir das
redes. Há vários benefícios neste processo (tomando a democracia/democratização como
medida) como a produção de narrativas e notícias que contrapõem as versões das grandes
corporações midiáticas muitas vezes comprometidas com os agenciadores da própria crise.
Contudo, apesar de fatores considerados positivos, observa-se que as redes sociais
junto aos meios de comunicação tradicionais têm determinado a produção da nossa energia
(ou a consumido) no que tange às nossas possibilidades (e ritmos) existenciais de
respondermos à crise, bem como influenciam exaustivamente nossa leitura sobre ela. Isto é,
as mídias em geral colocam a crise política tão disponível para nós que se torna difícil
experimentá-la no nosso cotidiano observando as consequências para (e a partir da) a nossa
vida diária. Elas produzem um aprisionamento através de um jogo de oscilação que estimula e
consome energia através da facilidade com que permite a exposição (e reprodução) a/de
sentimentos de raiva, frustração, ódio, ansiedade, euforia, depressão. Uma espécie de
aprisionamento (ou suspensão) que também se dá através da própria disponibilidade
incessante de enunciados e narrativas que acabam nos encaminhando previamente e,
portanto, dificultando a constituição de compreensões que tenham a sua origem numa
experimentação mais efetiva da realidade (Wirklichkeit) e da crise: em nossas casas, nas ruas,
escolas, universidades, supermercados...
Achille Mbembe argumentou que as redes sociais estimulam o crescimento de uma
posição anti-humanista (na qual predomina uma ausência de cuidado em relação ao outro),
pois permite que os indivíduos expressem seu ódio e raiva com mais facilidade (e mais
automaticamente) o que tem resultado também num aumento do desprezo pela democracia
uma vez que os interesses individuais se sobrepõem, cada vez mais, aos interesses coletivos.
Para Mbembe, o confronto entre o neoliberalismo e a democracia liberal (que coloca a última
em risco) não pode ser desconectado de uma nova forma de existência construída, entre
outros elementos, pela “era computacional”.12 Há vários exemplos hoje no Brasil que poderiam
ser mencionados acerca de indivíduos e grupos que através da internet expõe seu ódio contra
toda e qualquer diferença. Essa negação à diferença não se limita à internet, mas encontra
nela um espaço que a alimenta significativamente. A análise destes fenômenos já não pode ser
feita sem a atenção cuidadosa ao papel que a mídia desempenha neste processo. Não nos
referimos ao seu papel cultural e político somente (e já amplamente estudado), mas à
transformação existencial e performática que desempenha sobre nossos corpos e sobre a
nossa energia mais propriamente.

12
MBEMBE, Achille. A era do humanismo… Op. cit.
72 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 66-82, jan./jun. 2018
Temporalidade e crise: sobre a (im)possibilidade do futuro e da política no Brasil e no mundo
contemporâneo

Gumbrecht, desta maneira, argumentou no Nosso amplo presente que embora não
possamos fugir dos ritmos e dos elementos impostos pelo mundo globalizado, “é importante
agarramo-nos firme à possibilidade de o conseguir, na medida em que isso nos dá uma
alternativa àquilo que aceitamos demasiado rapidamente como normal” 13. Este movimento
seria um exemplo do que o autor considerou uma obrigação e privilégio dos humanistas, o
“pensamento de risco” – atuação que busca ir para além da subordinação a “esquemas
racionais de prova e aos constrangimentos do sistema”. Em Gumbrecht, o pensamento de
risco está relacionado à categoria de presença. A presença que, para além de uma dimensão
ontológica da existência, corresponde ao desejo pela possibilidade de “reencontrar o corpo e
abrir-se à sua plenitude”.14
O desejo-de-presença enquanto uma resistência ao “abandono” do corpo no “mundo da
técnica” seria uma das dimensões de risco próprias ao pensamento do autor. 15 Diante da
“fusão da consciência com o software” que significa o deslocamento do corpo para um segundo
plano (processo que dificilmente poderá ser superado), o desejo-de-presença atua como um
instrumento crítico a esta realidade sem desejar posicioná-la ou direcioná-la. Neste sentido, a
razão pela qual abordamos, neste artigo, as mídias e redes sociais como algo a ser observado
quando se trata da crise brasileira não é para apresentar uma posição nostálgica contra a
tecnologia. Trata-se da reivindicação de uma vigília crítica sob as formas de rendição do nosso
corpo e da nossa energia ao que nos é imposto violenta e arbitrariamente. Trata-se, talvez, da
possibilidade de sentirmos, experimentarmos e pensarmos junto à internet, claro, mas
também a partir de certa distância de segurança que permitiria ao pensamento se constituir a
partir de outros âmbitos e relações possíveis.

Sobre futuro e política

Não acredito que o ser humano possa ir para frente se


não tiver esperança de que amanhã as coisas serão
melhores do que hoje. É esse tipo de vida que
queremos construir e continuo andando pelo País para
vender esperança e sonhos. E tentar mostrar para as
pessoas que é possível sonhar à noite, levantar pela
manhã e realizar esse sonho.

Lula.

A tentativa de eliminação da experiência do espaço mais propriamente (de seus ritmos,


resistências, corpos) através dos processos de comunicação das redes sociais e da tecnologia
produz um aumento da velocidade na produção de reflexões e compreensões. Porém, diante

13
GUMBRECHT, Hans Ulrich. Nosso amplo presente... Op. cit., p. 12.
14
Ibidem, p 141.
15
Ibidem, p. 131-141.
73 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 66-82, jan./jun. 2018
Temporalidade e crise: sobre a (im)possibilidade do futuro e da política no Brasil e no mundo
contemporâneo

da dificuldade em direcionar essas reflexões para o futuro de modo pragmático, essas


compreensões acabam muito rapidamente abandonadas (consumidas), ou seja, dificilmente
ganham poder de orientação e de explicação mais geral.16
As proposições esboçadas diariamente para a crise brasileira no seu nível político,
econômico ou social não conseguem se consolidar pragmaticamente. Os acontecimentos
diários que acentuam a crise, isto é, os escândalos políticos, os cortes financeiros das
universidades, os cortes dos programas sociais, as reformas e as medidas de austeridade que
retiram direitos dos trabalhadores e a abordagem desses temas de modo parcial (faccioso)
pela mídia produzem uma tematização da crise a partir da própria crise (sem qualquer
distância plausível). Isto porque são raras as perspectivas que tomam certo distanciamento e
se dedicam à análise da relação da crise, por exemplo, com estruturas históricas, bem como
com o contexto internacional. Um olhar que se mantém dentro (colado ao) do turbilhão diário
de acontecimentos acaba produzindo o seu próprio obscurecimento, uma redução significativa
da nossa energia e apostando, ao fim, em proposições para o futuro com pouca densidade
analítica, o que pode resultar em um otimismo ingênuo ou num pessimismo radical que não
consegue se materializar em ações políticas pragmáticas e efetivas. Como exemplo, a maior
parte das saídas possíveis para a crise remete às eleições de 2018, isto é, parte significativa
da população e das lideranças políticas aposta num futuro que mesmo tão “próximo” possui
definitivamente um caráter de imponderabilidade. Se, por um lado, esta postura é coerente
porque parte do princípio constitucional que assegura o direito à eleição através da qual um
projeto para o país é escolhido, por outro lado, ela também ignora as constantes ameaças que
o sistema democrático brasileiro tem sofrido historicamente e mais recentemente desde as
eleições de 2014. No limite, ignora o risco constante ao qual a democracia brasileira está
sendo exposta e as suas fragilidades históricas.
A dificuldade no que diz respeito ao surgimento de novas lideranças quer por parte dos
setores conservadores quer pelos progressistas também é um exemplo da “estagnação” a que
nos referimos no início do texto, um índice da dificuldade que temos encontrado em discutir
para além desta produção incessante de “fatos”, “explicações” e atmosferas (Stimmungen)
determinadas por sentimentos que ao invés de provocar certa reorientação em direção à
realidade (e a outros ritmos), tem provocado ou bem uma hipermobilização ou bem o que
podemos chamar de passividade.
De modo geral, os setores conservadores brasileiros articulam seus discursos em torno
das noções de ordem e estabilidade balizadas historicamente (o que não é nenhuma surpresa),
pois o conservadorismo se articula a partir de uma relação de continuidade – e mesmo de
“repetição” – em relação a certos passados sedimentados. Contudo, a partir de uma
hipermobilização em direção a isto que seria a “repetição” do passado (versus as diferenças
que vêm despontando), esses setores acabaram produzindo lideranças e dando poder a novos
grupos e partidos que defendem a violência como um valor e disseminam ódio em relação às

16
GUMBRECHT, Hans Ulrich. Nosso amplo presente... Op. cit., p. 93-111.
74 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 66-82, jan./jun. 2018
Temporalidade e crise: sobre a (im)possibilidade do futuro e da política no Brasil e no mundo
contemporâneo

minorias. Isto é, houve um desdobramento mais radical – reacionário - do conservadorismo


brasileiro que tem ganhado adesão popular e não pode ser ignorado. Além de direcionarem o
ódio às minorias e a toda e qualquer diferença, esses setores têm canalizado (hipocritamente)
este ódio em direção à política (e, no limite, à democracia). Eles argumentam que não seriam
políticos tradicionais e se apresentam como políticos do futuro, ou seja, os não-políticos, os
gestores privados que teriam mais do que quaisquer outros a condição para administrar o que
é público; e divulgam o preceito de que o indivíduo não é necessariamente parte de um corpo
social, mas que seria um investimento, uma empresa destinada a lucrar e a traçar metas
(individuais) e a alcançá-las pelo mérito. A ligação cada vez mais íntima desse projeto com o
fundamentalismo neopentecostal acelera e agrava o problema. Através da crítica à corrupção e
à ausência de controle da violência por parte do Estado, os setores políticos conservadores e
reacionários brasileiros adotam um discurso moralista, resgatam “valores” e projetos passados
que são redirecionados para o futuro. Não poderia haver exemplo melhor do que a escolha do
slogan do governo de Michel Temer: “ordem e progresso”.
Os setores progressistas, por sua vez, também possuem dificuldade para criar novas
lideranças, bem como para construir uma agenda política ampla. Em artigo para a sua coluna
da Folha de São Paulo, intitulado “Onde está a imaginação política da esquerda?” Pablo
Ortellado argumentou que “as forças dominantes da esquerda brasileira deixaram de sonhar e
deixaram de inspirar. Elas não têm mais um discurso de futuro, mas de completar o que
tentaram no passado”.17 Apesar de concordar com o diagnóstico, acreditamos que temos que
nos perguntar pelas suas condições de possibilidade.
No que tange aos setores progressistas críticos ao Partido dos Trabalhadores, as suas
agendas trazem novas propostas referentes à política antidrogas, defendem a legalização do
aborto, os direitos LGBT e o avanço dos programas sociais. Contudo, possuem grande
dificuldade de apresentar uma agenda econômica para além da repetição dos discursos dos
anos 80 e 90. Embora alguns desses setores recebam certa acolhida acadêmica, gozam de
baixa adesão popular. Entre seus desafios parece estar o fato destes partidos precisarem
desenvolver estratégias para “encontrar” o povo, permitindo que esses e outros projetos
nasçam mais diretamente junto a ele.
O Partido dos Trabalhadores, por sua vez, enfrenta graves dificuldades em razão das
acusações de corrupção, resultado de uma política em que a governabilidade é dada pela
necessidade de coalizão entre muitos partidos, de modo que vem gastando parte significativa
de sua energia na tentativa de se defender. Como proposta de solução para a crise, o Partido
reforça a continuidade de suas políticas sociais anteriores sem muita clareza de como isso
seria retomado (especialmente tendo em vista, especialmente, a conjuntura conservadora e os
retrocessos atuais). Mesmo nesta conjuntura, o ex-presidente Lula ainda é um dos poucos a
ter certo acolhimento e confiança da maioria da população para o enfrentamento da crise no

17
ORTELLADO, Pablo. Onde está a imaginação política da esquerda? Folha de São Paulo, 05 set. 2017.
Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/colunas/pablo-ortellado/2017/09/1915919-onde-esta-a-
imaginacao-politica-da-esquerda.shtml>. Acesso em: 20 out. 2017.
75 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 66-82, jan./jun. 2018
Temporalidade e crise: sobre a (im)possibilidade do futuro e da política no Brasil e no mundo
contemporâneo

Brasil segundo as recentes pesquisas de opinião. Seus governos anteriores podem estar entre
as principais razões para a produção desta confiança. Gostaríamos de mencionar, porém, outro
elemento que pode ser fundamental à compreensão deste acolhimento e confiança, o qual nos
parece estar mais propriamente relacionado com a temporalidade contemporânea, com o
encurtamento do futuro que temos experimentado e que tematizamos mais acima: a forma
pragmática como Lula fala sobre o futuro mesmo diante dos riscos de não poder se eleger, ou
em suas próprias palavras, sua capacidade de “vender sonhos e esperanças” em uma
conjuntura na qual o futuro não parece tão aberto à possibilidade do sonho, sobretudo dos
sonhos construídos coletivamente.
Acompanhemos o exemplo a seguir. Nas eleições de 2014, Pernambuco era um dos
principais estados no que tange à possibilidade de definição do quadro eleitoral. No segundo
turno isso se tornou ainda mais intenso tendo em vista que Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves
(PSDB) disputariam os 48,05% dos votos que os pernambucanos conferiram à Marina Silva no
primeiro turno. Ambos os partidos disputaram numa campanha intensa os votos destinados à
então candidata do PSB e a internet foi um espaço igualmente decisivo. Uma parte do comício
do PT realizado em Recife no dia 4 de setembro de 2014 foi largamente divulgado nas redes
sociais nos dias que antecederam ao segundo turno. Trata-se de uma fala de menos de dois
minutos do ex-presidente Lula expondo algumas das marcas sob as quais o projeto político do
PT se fundamentava:

Tem gente que quer acabar com o pré-sal. Se for necessário, querida [se
referindo a Dilma Rousseff], me chame! Eu vou mergulhar e vou lá no fundo
buscar petróleo. Porque é este petróleo que vai dar à nossa juventude a
oportunidade de estudar que eu não tive. Eu quero que cada filho de cada
trabalhador tenha o direito de fazer a universidade, de ser chamado de doutor,
de ser respeitado neste país inteiro. É por isso que nós temos que ter orgulho
quando nós aprovamos no Congresso Nacional [...] a lei dos royalties que
destina 75% para a educação e 25% para a saúde. Quem sabe este seja o
passaporte para o futuro. Enquanto alguns falam do futuro de forma
abstrata, para nós o futuro não é amanhã. É hoje. O futuro é agora. E o
futuro chama-se Dilma Rousseff para presidenta da República.18

Embora Marina Silva tenha declarado apoio ao candidato Aécio Neves, 70,20% dos
pernambucanos votaram em Dilma Rousseff garantindo-lhe a reeleição. Existem muitos
elementos a se considerar em um processo eleitoral e não temos o objetivo de explorá-los, um
a um, pormenorizadamente. A menção a este discurso se deve ao fato dele ter sido uma das
principais forças do PT nas redes sociais no momento final da eleição. Este discurso também
permite acesso à ênfase na instrumentalização do futuro pelo ex-presidente. Os setores
progressistas têm como uma de suas responsabilidades e agendas programáticas a elaboração
e projeção de novos futuros e isso porque a relação das esquerdas com a temporalidade se dá
(e é preciso que se dê) a partir de uma aposta na possibilidade de transformação da história.
Poucos líderes progressistas o fizeram tão precisamente como o ex-presidente. Os governos do

18
SILVA, Luiz Inácio Lula da. Comício do PT em Recife. Recife, 04 set. 2014. Disponível
em:<https://www.youtube.com/watch?v=TJHBkh4RV94>. Acesso em: 30 out. 2017. Grifos nossos.
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Temporalidade e crise: sobre a (im)possibilidade do futuro e da política no Brasil e no mundo
contemporâneo

PT, especialmente os do ex-presidente, permitiram e repercutiram certa rearticulação da


história do Brasil através do investimento em programas sociais, das universidades públicas,
além da atenção econômica e social à região nordeste, mas, claro, ainda é necessário tempo e
estudo para que possamos compreender o nível de efetividade estrutural desta mobilização.
Fato é que essa rearticulação envolve certa aceleração da própria história do Brasil, elemento
que se tornou uma marca discursiva de Lula e de seu partido – “fizemos em 14 anos o que
eles [os conservadores] não fizeram em quinhentos”.
Contudo, o discurso do ex-presidente tem encontrado limites no interior da nossa
realidade atual. O cenário projetado – no qual nossas instituições funcionavam e a educação e
a saúde se tornariam finalmente prioridades nacionais – perdeu credibilidade. Aqueles que
preferiam privatizar o pré-sal a garantir investimentos em educação e saúde o fizeram. Dilma
Rousseff, tendo em vista seu processo de impedimento (o qual possui críticas jurídicas e
políticas significativas), já foi remetida ao passado. A instrumentalização do futuro, isto é, a
disposição para “vender sonhos e esperanças” do ex-presidente Lula tem tido dificuldades
significativas para resistir ao esforço conservador e conservantista atual de “repetição” de
passados sedimentados e, também, ao ódio e ressentimento que ele tem provocado. Os
setores conservadores e reacionários emergiram com uma força que muitos pensavam
impossível e os quinhentos anos de uma história patriarcal, latifundiária e escravagista
irromperam com força expressiva.
A dificuldade atual em projetar o futuro (ou mesmo em oferecer futuro) em termos
práticos traz, como uma de suas consequências, certa nostalgia em relação à orientação (a
uma orientação fácil), pela ordem e violência, pelo “carisma”. A partir disso, podemos
entender o crescimento de um conservadorismo autoritário que ganha cada vez mais adesão
popular. Achille Mbembe alertou que o neoliberalismo tem deixado tantos sujeitos destruídos
que cada vez mais estão convencidos de que o “futuro imediato será uma exposição contínua à
violência e à ameaça existencial”.19 Há um desejo forte de “retorno” (nostálgico e idealizado)
para certa atmosfera de segurança e ordem que, na dificuldade de ser projetada para o futuro,
tem sido buscada nisto que poderíamos chamar de “tradição” e na religião (no caso do Brasil,
sobretudo, nas igrejas neopentecostais e em discursos que pedem o retorno da ditadura civil-
militar). Diante dessas condições, “o futuro da política de massas de esquerda, progressista e
orientada para o futuro, é muito incerto”,20 pois ela tem encontrado resistência em figuras
autoritárias que captam o ódio daqueles que se sentem e estão à margem.
Embora o ex-presidente Lula preencha certo vácuo político no que diz respeito a ser
uma das poucas lideranças (com forte apelo popular) no âmbito da política progressista, a
dificuldade de projeção/imaginação de um governo de esquerda para além da figura de Lula
não deixa de ser preocupante. Para além dos fatores políticos, essa centralidade em torno do
ex-presidente associa-se ao estreitamente de futuro que experimentamos. Neste sentido, a
política, especialmente a progressista, precisará produzir mais do que sonhos e esperanças

19
MBEMBE, Achille. A era do humanismo... Op. cit., 2017, s/p.
20
Idem.
77 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 66-82, jan./jun. 2018
Temporalidade e crise: sobre a (im)possibilidade do futuro e da política no Brasil e no mundo
contemporâneo

para alcançar, efetivamente, posições a partir das quais possa combater a desigualdade
econômica e o conservantismo. Embora o sonho e a esperança possam ser categorias centrais
da existência humana, o que temos experimentado é a constituição de um espaço determinado
pela violência, pelo ódio (racismo, homofobia, fanatismo religioso...) e pelo avanço e
sedimentação do neoliberalismo (fim da CLT, privatizações...), de modo que talvez estejamos
presenciando uma efetiva redução das condições de possibilidade para uma rearticulação da
história do Brasil, a qual, apesar de estar relacionada à nossa capacidade se sonhar (e à
própria mobilização dessa capacidade neste espaço que é o do político), envolve também
outras dimensões igualmente importantes como a da vigília e mobilização constantes e a da
responsabilidade em relação a isto que é o espaço público e o que é da ordem do coletivo e de
toda e qualquer diferença.

Para além do pessimismo e do otimismo

Não posso ser um pessimista porque eu estou vivo. Ser


pessimista significa que você concordou que a vida
humana é uma questão acadêmica, então eu sou
forçado a ser um otimista. Eu sou forçado a acreditar
que podemos sobreviver ao que devemos sobreviver.

James Baldwin.21

Quando falamos em “fechamento de futuro” isso pode ser associado a uma visão
pessimista da história. Contudo, o que significa em termos pragmáticos o posicionamento
diante disto que é o pessimismo e o otimismo? Abordamos, nesta seção, perspectivas que
procuram ir para além das categorias de pessimismo e otimismo tendo em vista que a
insistência na classificação de diagnósticos intelectuais ou de ações políticas a partir delas
estabelece uma relação de extrema dependência em relação a um futuro aberto que já não é
mais adequado à nossa temporalidade. Esta insistência também provoca a dependência em
relação a uma expectativa de futuro ideal ou perfectível, inapropriada à dinâmica que é a da
história (mobilidade, possibilidade, imprevisibilidade, risco).
Diante daquilo que potencialmente ameaça nossa existência ou tira nossa tranquilidade,
a tentativa de superar nossos desafios a partir de uma orientação utópica de caráter universal
bem como de uma distopia provinda de um pessimismo radical encontra posições resistentes
no pensamento contemporâneo. Há uma postura de distanciamento em relação às noções de
otimismo e pessimismo em direção a uma descrição mais modesta das aporias e tensões

21
Tradução livre. No original: “I can’t be a pessimist, because I’m alive. To be a pessimist means you
have agreed that human life is an academic matter, so I’m forced to be an optimist. I’m forced to believe
that we can survive whatever we must survive.” BALDWIN, James. I am not your negro. Compiled and
edited by Raoul Peck. New York: Vintage International, 2017, p. 108.
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Temporalidade e crise: sobre a (im)possibilidade do futuro e da política no Brasil e no mundo
contemporâneo

próprias à contemporaneidade. Este processo faz parte de uma resistência crítica ao fato de
que ao apontar soluções para os desafios da realidade, o pensamento, especialmente durante
o século XIX e início do XX, teria obscurecido o caráter de possibilidade e de diferenciação da
história através da ideologia do progresso que funcionava como uma tentativa de
determinação e controle da realidade.
A modernidade projetou suas expectativas para “além” das tradições mais
sedimentadas, tentando se distanciar delas. O futuro ofereceria a compensação das misérias
sociais, políticas, morais, culturais... através de uma interpretação progressiva de elementos
escatológicos (o constante adiamento da catástrofe, da ruína). Ele realizaria, através da
distância temporal, as expectativas que nasciam da quebra de um mundo determinado pela
religiosidade e, posteriormente, pelo Estado “Absolutista”. A utopia na modernidade se
relaciona com este gesto, pois as condições de possibilidade para o futuro seriam aquelas
criadas pelo espírito (1). Este futuro deveria ser diferente do presente (e, consequentemente,
do passado) (2). Este futuro não seria mais um destino divino, ou, ao menos, abriu-se espaço
para a ação dos homens em geral (secularização) (3). Isso teria obrigado os homens à
elaboração de projetos políticos e pragmáticos (4). A partir de então deu-se a dissolução da
ordem estamental, a formação de clubes (maçonaria) e de partidos políticos, o progresso
técnico, a história da ciência... elementos próprios a este caráter político e pragmático, pois se
relacionariam às novas formas de organização social.22 Desta forma, o planejamento do futuro
na modernidade foi mais do que um desejo utópico no sentido de algo irrealizável, ele
“arrastró como un remolino a las personas, que se vieron obligadas a pensar y actuar también
programáticamente”.23 O futuro na modernidade, caracterizado pela temporalização da utopia,
teve sua força impulsionada pela moderna filosofia da consciência, aquela que ao mesmo
tempo buscaria identificar e realizar a história (ou acelerar a concretização do seu télos),
especialmente a partir da historicização e narrativização da realidade.24
Embora Koselleck não tenha propriamente desenvolvido uma reflexão sobre a
temporalidade contemporânea explicitando as diferenças fundamentais da modernidade em
relação à temporalidade que emergiu a partir da segunda metade do século XX, seu
diagnóstico acompanha uma crítica ao projeto iluminista – e à utopia - que não pode ser
ignorada. Koselleck sublinhou a crítica à tentativa de realização das utopias universais. A
ideologia do progresso teria obscurecido o alto índice de contingência da história. Ela (a
história) se mobilizaria de forma diferente daquilo que retrospectivamente e antecipadamente
“somos forçados a interpretar. A história real é, ao mesmo tempo, sempre mais e menos” do
que prevê a consciência.25 Para Koselleck, a tentativa de explicação e controle da história
durante a modernidade, se por um lado era a energia que fundamentava as humanidades e as

22
KOSELLECK, Reinhart. Sobre la historia conceptual de la utopía temporal. In: Historias de conceptos –
estudios sobre semántica y pragmática del lenguaje político y social. Madrid: Editorial Trotta, 2012, p.
171-187.
23
Ibidem, p. 179.
24
KOSELLECK, Reinhart. A temporalização da utopia. In: Estrados de tempo. Estudos sobre a história.
Rio de Janeiro: Contraponto/PUC-Rio, 2014, p. 121-138.
25
KOSELLECK, Reinhart. A temporalização da utopia. Op. cit., p. 138.
79 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 66-82, jan./jun. 2018
Temporalidade e crise: sobre a (im)possibilidade do futuro e da política no Brasil e no mundo
contemporâneo

teorias políticas e que tornava possível o enfrentamento das crises e a provocação de novos
futuros, por outro, foi responsável por continuar, de alguma forma, a “ruína” que pretendiam
evitar através da emergência dos autoritarismos em geral. O processo da incessante
substituição de “futuros passados” por “futuros utópicos”, nos quais há um intenso desejo de
ultrapassar (e determinar) a experiência coletiva, parte do fato de que apesar da modernidade
ter inaugurado novas possibilidades para a história humana, levando os homens à construção
de projetos políticos e sociais inéditos, provocou projetos ético-políticos com forte teor
autoritário profundamente determinados pela tentativa de “controle” (desencantamento) da
realidade.
A crítica de Koselleck a este projeto utópico direciona-se à promessa de uma felicidade
a ser alcançada no futuro. Para o autor, a promessa da felicidade não justificaria a propagação
de uma utopia (ingênua e autoritária) e a legitimação de determinados modos de
comportamentos políticos. Koselleck critica a postura política e intelectual herdeira desta
perspectiva moderna na qual o futuro é pautado por um otimismo utópico de caráter
universalista, ou ainda, por outro lado, por uma perspectiva amplamente distópica da história,
na qual o pessimismo pode igualmente levar a uma tentativa (desesperada e também
autoritária) de determinação e controle da realidade. 26
Diante da crítica a estas compreensões ou versões da utopia e da distopia, o historiador
alemão argumentou em defesa de que os projetos políticos fossem acompanhados de análises
empírico-políticas cuidadosas. Trata-se da elaboração de prognósticos que combinariam
perspectivas de futuro com base na análise radical de experiências. O fundamental do
“prognóstico” seria a proposta de um projeto de ação no mundo, mantendo sempre no
horizonte a dúvida constante sob o seu caráter de realização e de possibilidade, sem
necessariamente propor o seu controle.27 A crítica do historiador sublinha os limites das
categorias de “pessimismo” e “otimismo” na construção de qualquer projeto filosófico-político.
O que significa ser otimista ou pessimista frente, por exemplo, à ameaça atômica ou à crise
ecológica? – perguntou. Otimismo e pessimismo não podem ser plenamente traduzidos para a
ação política.
Neste sentido, Koselleck se aproxima de Hannah Arendt na medida em que ela explicita
que “os eventos fundamentais do nosso tempo preocupam do mesmo modo os que acreditam
na ruína final e os que se entregam ao otimismo temerário”, 28 ou ainda, quando ela argumenta
que a ciência realizou e afirmou aquilo que os homens teriam antecipado em sonho: a
técnica.29 Para Koselleck, diante de uma crise ecológica ou ameaça atômica, por exemplo,
seria irrelevante em termos práticos posicionar-se com otimismo ou pessimismo. Discutir
alternativas capazes de serem traduzidas em ações políticas seria mais relevante, mantendo,

26
KOSELLECK, Reinhart. Sobre la historia… Op. cit. p.171-187 e “A temporalização da utopia” Op. cit, p.
121-138.
27
KOSELLECK, Reinhart. Sobre la historia… Op. cit., p.183-185.
28
ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. Anti-semitismo, imperialismo, totalitarismo. São Paulo:
Companhia das letras, 1990, p. 11.
29
ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2014.
80 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 66-82, jan./jun. 2018
Temporalidade e crise: sobre a (im)possibilidade do futuro e da política no Brasil e no mundo
contemporâneo

porém, atenção às consequências dessas projeções e ao caráter de imponderabilidade da


história. Isso significa estar atento às condições de possibilidade para que um evento se dê,
mas não se orientar por um desejo de controle do fenômeno. 30
Rory Rowan em texto no qual aborda o futuro da esquerda e sua relação com o
otimismo argumentou que da mesma forma que o otimismo cego pode enevoar nossa visão no
que tange ao enfrentamento dos problemas políticos e das relações de poder, um pessimismo,
igualmente cego, pode produzir um congelamento de ações coletivas ideais à resistência. Para
Rowan, certo otimismo pode atuar como um “recurso afetivo” fundamental para estimular as
lutas políticas, cruciais para assegurar futuros geo-sociais mais justos e ecologicamente
sustentáveis. Neste sentido, a radicalização do pessimismo e a identificação imediata do
otimismo à utopia universalista (moderna) seria resultado de uma naturalização do
catastrofismo. Essa perspectiva de uma catástrofe universal obscurece as capacidades
coletivas que podem desafiar e surpreender nossa realidade, isto é, em termos de ações
políticas-pragmáticas, quer o pessimismo quer o otimismo utópico universalista podem
denegar as possibilidades de transformação da história. Se trata de um otimismo, nos termos
de Rowan, que significa uma resistência à escatologia secularizada do catastrofismo, mas não
a interpretação de que tudo ficará bem. Trata-se do cultivo de um “afeto político” que reflete e
que se atenta ao estado ambíguo dos futuros geo-sociais.31
Walter Benjamin, em sua crítica à temporalidade moderna, se dedicou, especialmente a
partir das teses Sobre o conceito de história, à evidenciação e descrição do traço próprio da
história – seu caráter de possibilidade, de transformação – procurando resguardá-lo e atualizá-
lo. Trata-se da premissa de que a história seria caracterizada pela lógica da possibilidade, e
que o homem seria uma estrutura privilegiada no que diz respeito à sua atualização. Contudo,
a atividade crítica e propositiva de Benjamin não ignorou uma desconfiança própria ao seu
tempo: a de que a modernidade através da ideologia do progresso teria obscurecido o caráter
de possibilidade da história. Há, em Benjamin, uma postura “melancólica”, uma desconfiança
radical no que diz respeito à probabilidade da história se diferenciar novamente a partir da
modernidade, a qual não resultou, no entanto, numa ausência de crítica e atenção em relação
ao seu mundo. Mesmo desesperançado em relação às condições de uma possível rearticulação
do horizonte histórico, houve um esforço de evidenciação dos seus problemas mais
significativos, e, mesmo, das possibilidades e estratégias específicas para o seu
32
enfrentamento.
Esta melancolia (crítica) benjaminiana pode apontar para um sentimento próprio à
contemporaneidade, o qual se dá em resposta à modernidade, ao encurtamento do futuro e ao
obscurecimento do caráter de possibilidade da história. Neste sentido, a melancolia também

30
KOSELLECK, Reinhart. Sobre la historia… Op cit., p.186-187.
31
ROWAN, Rory. Extinction as usual?: Geo-social futures and left optimism. E-Flux Journal (online).
Publicado em: 2015. Disponível em: <http://supercommunity.e-flux.com/texts/extinction-as-usual-geo-
social-futures-and-left-optimism/>. Acesso em: 20 out. 2017.
32
RANGEL, Marcelo de Mello. Melancolia e história em Walter Benjamin. Ensaios Filosóficos, Rio de
Janeiro v. XIV, p. 126-137 dez. 2016.
81 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 66-82, jan./jun. 2018
Temporalidade e crise: sobre a (im)possibilidade do futuro e da política no Brasil e no mundo
contemporâneo

pode corresponder a um comportamento crítico à sensação de fechamento do futuro, e seria,


portanto, uma suspensão das noções de pessimismo e otimismo para a leitura e atuação na
história. As ações políticas e intelectuais que dependem da expectativa de uma transformação
necessariamente positiva da história se tornam autoritárias, pois elas pressupõem (e se
dedicam desde então a) uma razão ideal para agir, e ainda se transformam facilmente em
pessimismo e passividade, tendo em vista que como o próprio Benjamin explicita, a luta no
sentido de uma reorganização efetiva da história é dificílima, praticamente impossível.
Propomos, assim, que a crítica do mundo contemporâneo se constitua mais a partir de uma
(simples) responsabilidade em relação a isto que é o coletivo e as diferenças.
Neste sentido, o enfrentamento da crise no Brasil a partir de uma tentativa de controlá-
la, de certa nostalgia pela ordem ou ainda pela aposta ingênua num futuro necessariamente
melhor, repete um gesto próprio à modernidade, o qual teve consequências negativas –
autoritarismo e/ou passividade – para a história da humanidade. Entre as responsabilidades
que envolvem a atividade intelectual e política em geral, gostaríamos de destacar o exercício
de compreender, e aqui definimos o ato de compreender a partir de Hannah Arendt: “examinar
e suportar conscientemente o fardo que o nosso século colocou sobre nós – sem negar sua
existência, nem vergar humildemente ao seu peso”. 33 Isto significa entender as condições de
possibilidade a partir das quais determinadas situações emergem, mas não a partir de uma
ótica plenamente historicista. Para a filósofa alemã, compreender é uma atividade de
resistência que visa mostrar que “todos os esforços de escapar do horror do presente,
refugiando-se na nostalgia por um passado ainda eventualmente intacto ou no antecipado
oblívio de um futuro melhor, são vãos”. 34

Thamara de Oliveira Rodrigues: Doutoranda em História pela Universidade Federal de Ouro


Preto (UFOP) com estágio sanduíche na Stanford University. Mestre e Licenciada, igualmente,
pela UFOP. É pesquisadora integrante do Núcleo de Estudos em História da Historiografia e
Modernidade (NEHM-UFOP) e do Laboratório e Grupo de Estudos de História Política e das
Ideias (LEHPI-UFES).

Marcelo de Mello Rangel: Professor do Departamento de História e do Programa de Pós-


graduação em História da Universidade Federal de Ouro Preto. Graduado em História pela
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e em Filosofia pela Universidade Federal do
Rio de Janeiro (UFRJ); Mestre e Doutor em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio
de Janeiro (PUC-Rio) e Doutor em Filosofia pela UFRJ.

33
ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo... Op. cit., p. 12.
34
Ibidem, p.13.
82 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 66-82, jan./jun. 2018
n. 18, p. 83-110, jan./jun. 2018
ISSN-e: 2359-0092
DOI: 10.12957/revmar.2018.31322

REVISTAMARACANAN
Dossiê

Junho de 2013: crítica e abertura da crise da democracia


representativa brasileira

June 2013: criticism and opening of the crisis of representative Brazilian


democracy

Daniel Pinha Silva


Universidade do Estado do Rio de Janeiro
danielpinha@yahoo.com.br

Resumo: O presente artigo reconhece a centralidade das Manifestações de Junho de 2013 como um
ponto de inflexão para a abertura da crise do modelo democrático-representativo experimentada ainda
hoje. Defende que se forma a partir daquele mês de junho um ambiente social crítico a este sistema
político, apontando para a necessidade de reajuste das práticas políticas dos representantes e do efetivo
cumprimento do pacto constitucional de 1988. Após explorar a historicidade e o potencial semântico do
conceito de democracia – em seu caráter inconcluso e suscetível à crítica permanente da sociedade civil –
e caracterizar o modelo democrático brasileiro pós-88, o artigo avança nas ambivalências de junho a
partir do exame dos discursos políticos dos atores à época, distinguindo dois tempos: o primeiro
canalizado pelo Movimento Passe Livre, centrado no debate sobre o direito ao transporte público e à
tarifa zero e, de modo mais amplo, no direito à cidade; o segundo, sem um centro organizador tão
evidente, mas com clara tentativa de apropriação por parte da grande imprensa, que disparava
reivindicações múltiplas associadas ao combate à corrupção. Na soma não excludente dos dois tempos
está a formação de um grande ambiente de crítica ao modelo democrático representativo vigente e a
suas práticas.

Palavras-chave: História do Brasil Recente; Democracia; Manifestações de Junho de 2013.

Abstract: This article recognizes the centrality of the June 2013 Manifestations as a turning point for the
opening of the crisis of the democratic-representative model still experienced today. It argues that from
that month of June a critical social environment was created for this political system, pointing to the need
to readjust the political practices of the representatives and the effective fulfillment of the constitutional
pact of 1988. After exploring the historicity and the semantic potential of the concept of democracy - in
its unfinished and susceptible character to the permanent critique of civil society - and to characterize the
Brazilian democratic model after 88, the article advances in the ambivalences of June examinating the
political discourses of the actors in that time, distinguishing two moments: first channeled by the Free
Pass Movement, centered on the debate on the right to public transport and, more broadly, on the right
to the city; the second, without such an specific organizing center, but with a clear attempt by control the
mainstream press, triggered multiple demands associated with the fight against corruption. The non-
excluding sum of the two moments happen the formation of a environment of criticism to the
representative democratic model still in force and its practices.

Keywords: History of Recent Brazil; Democracy; Demonstrations of Manifestations 2013.

Recebido: Novembro 2017


Aprovado: Janeiro 2017
Junho de 2013: crítica e abertura da crise da democracia representativa brasileira

Introdução1

Nove de março de 2017: os principais jornais brasileiros repercutem a entrevista


concedida por Michel Temer à Revista Inglesa The Economist, destacando a passagem em que
ele diz: “Prefiro ser impopular a ser populista”, ao ser questionado pelas baixas taxas de
popularidade de que desfrutava naquele momento. Em complemento, dizia Temer, “o governo
tem uma base parlamentar extremamente sólida”, como se tal base compensasse a
impopularidade.2 Ou seja, nesta linha de raciocínio, o requisito fundamental para a atuação do
governante seria a sua responsabilidade e competência administrativa para gerir os negócios
públicos, sem que possíveis furores “populistas” viessem a atrapalhar aquela gestão – é clara a
preocupação em diferenciar-se do governo petista que lhe antecedeu, taxado de imaturo,
inconseqüente, irresponsável, demagógico, em suma, “populista”.3
De acordo com a reportagem, Temer assumira o poder em 2016 quando a então
Presidenta Dilma Rousseff fora condenada pelo Congresso por manipular as contas
4
governamentais – promovendo as chamadas pedaladas fiscais – em seu primeiro governo,
embora o motivo principal para o impedimento de seu mandato fossem os escândalos de
corrupção que atingiam o Partido dos Trabalhadores, ainda que não pairasse sobre ela,
especificamente, nenhuma acusação formal de prática de corrupção. Temer, no entanto, não
representava para a população uma imagem antagônica à Dilma, isto é, a de um governante
com virtudes morais inquestionáveis, capaz de erradicar a corrupção da presidência; ao
contrário, ele era visto como golpista e corrupto por boa parte dos brasileiros, como destaca a
reportagem do periódico.
Àquela altura, Temer ainda não tinha alcançado o seu pior patamar de popularidade –
em outubro de 2017, segundo pesquisa do Instituto Datafolha, ele contava com 5% de
aprovação, a maior rejeição a um presidente da República desde a redemocratização –
tampouco havia enfrentado a pior das crises de seu governo. 5 Em maio do mesmo ano de
2017, Temer envolveu-se diretamente em um escândalo de corrupção, quando o país inteiro
acompanhou a divulgação de uma conversa privada sua com o multi-empresário Joesley
Baptista, em que ele dava indícios de pedido de propina e, consentia, claramente, com práticas

1
Agradeço especialmente à parceria intelectual de Henrique Gaio, Cairo Barbosa, Gabriel Felipe Mello,
Camille Cristina, Jefferson Augusto, Yan Fonseca, Fred Zgur, Fabio Rodrigues e David Gomes,
companheiros de jornadas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro e de ótimos debates no grupo
virtual “Debates políticos contemporâneos”, importantíssimos interlocutores das linhas que se seguem.
2
“Prefiro ser impopular a ser populista”, diz Temer a Revista Inglesa. Folha de São Paulo (online).
Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/03/1865048-prefiro-ser-impopular-a-ser-
populista-diz-temer-a-revista-inglesa.shtml>. Acesso em: em 01 out. 2017.
3
Sobre o conceito de populismo ver: GOMES, Ângela de Castro. O populismo e as ciências sociais no
Brasil: notas sobre a trajetória de um conceito. Tempo, Niterói (RJ), v. 1, n. 2, 1996, p. 31-58.
4
Em linhas gerais, pedalada fiscal é a prática do Tesouro Nacional de atrasar intencionalmente o repasse
de dinheiro para bancos (públicos e privados) e autarquias, com o objetivo de mostrar para o mercado
que as contas públicas estão em dia.
5
Considerando-se como referência o mês de janeiro de 2017, momento de publicação do presente artigo.
84 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 83-110, jan./jun. 2018
Junho de 2013: crítica e abertura da crise da democracia representativa brasileira

corruptas anunciadas pelo empresário. Para se manter no governo, após responder por duas
acusações encaminhadas contra ele pela Procuradoria Geral da República à Câmara dos
Deputados – dentre outras, acusações de pertencimento a organização criminosa, prática de
obstrução à justiça, todas elas remetendo ao conteúdo da gravação – Michel Temer lançou
mão, mais uma vez, “de sua base parlamentar forte”, aquela mesma que o colocara no poder
um ano antes no controverso processo de impeachment, para que tivesse, agora, seu processo
arquivado antes de ser submetido à apreciação do Supremo Tribunal Federal. Deste modo, ele
deixava claro para brasileiros e observadores internacionais que, para ser Presidente do Brasil,
mais importante do que possuir alguma base de sustentação popular, o fundamental era
contar com o apoio dos parlamentares – e que os parlamentares, em sua maioria, prezavam
mais pela condução “não-populista” do governo do que por possíveis práticas corruptas que
viessem a ser cometidas pelo Presidente. Como desdobramento, a Congresso consolidou sua
força como fiel da balança e poder todo poderoso da República brasileira dos últimos três anos,
destituindo uma Presidenta eleita e referendando, duas vezes, o seu substituto.
O presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia, ainda em maio de 2017, declarou
com clareza qual deveria ser a agenda para o país nos próximos anos e quais deveriam ser os
interlocutores privilegiados do Congresso e da Presidência: “A agenda da Câmara, em sintonia
com a do Presidente Michel Temer, tem como foco o mercado, o setor privado”; “A Câmara vai
manter a defesa da agenda do mercado”, afirmou, em reunião com empresários no Fórum de
Investimentos Brasil 2017 em São Paulo, 6 em uma plateia que contava com a presença do
próprio Temer e do Ministro da Fazenda Henrique Meirelles. Para ele a legislação trabalhista e
as regras da Previdência Social seriam entraves para o desenvolvimento nacional, justamente
por limitar as ações do mercado e do poder privado: “Em pouco tempo teremos nova
legislação trabalhista e novo sistema de previdência para dar tranquilidade a quem quer
investir no Brasil". Em seguida, garantiu apoio ao Presidente Temer para que as reformas
pudessem avançar, a despeito do momento de crise política mais aguda enfrentada por ele,
devido às denúncias da Procuradoria Geral da República. Em dezembro de 2016, com a
aprovação da Proposta de Emenda Constitucional 55 – a chamada PEC do Teto dos Gastos
Públicos – o Congresso já apresentara sinais claros da prioridade que daria à “tranqüilidade
dos investidores”. Segundo o texto aprovado pela PEC, os gastos públicos estariam congelados
por vinte anos e os investimentos em saúde e educação indexados à taxa de inflação
correspondente ao ano – sem considerar a possibilidade de ampliação de investimentos ou, ao
menos, que o aumento da demanda por parte da população geraria maiores encargos,
independentemente do índice de inflação do ano. 7 Em outras palavras, a agenda Rodrigo Maia,
afinada à proposta impopular e não populista de Temer, defende a combinação necessária
entre um desenvolvimento nacional voltado para os interesses do mercado e a diminuição do

6
AGOSTINE, C.; MENDONÇA, R. Agenda da Câmara é a do mercado, sustenta Rodrigo Maia. Valor
Econômico (Online). Disponível em: <http://www.valor.com.br/politica/4985710/agenda-da-camara-e-
do-mercado-sustenta-rodrigo-maia>. Acesso em: 01 out. 2017.
7
O texto completo da PEC 55 está disponível em:
<https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/127337>. Acesso em: 01 out. 2017.
85 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 83-110, jan./jun. 2018
Junho de 2013: crítica e abertura da crise da democracia representativa brasileira

papel do Estado Brasileiro enquanto provedor de direitos sociais mínimos garantidos pela
Constituição de 1988. Àquela altura – diferente do ano anterior quando do processo e
condenação de Dilma Rousseff – o combate às práticas de corrupção parecia um mal menor,
insignificante.
Impermeável aos apelos populares, abarrotado de acusações de corrupção e defensor
de um Estado diminuto de responsabilidades e direitos sociais, Temer personifica a imagem do
representante político que atua em sentido diametralmente inverso ao desejo de mudança
expresso nas ruas durante as Manifestações de 2013. Em junho daquele ano milhares de
pessoas foram às ruas de capitais e grandes cidades brasileiras e instauraram um clima de
crítica ao funcionamento do modelo democrático representativo brasileiro, entoando diversas
bandeiras de luta, dentre as quais: a diminuição das tarifas e melhoria nas condições dos
transportes públicos, a ampliação e melhoria de direitos sociais – em especial saúde e
educação –, a denúncia do mau emprego do dinheiro público para a realização de grandes
eventos esportivos, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas – cabe ressaltar que as revoltas
ocorreram durante a realização da Copa das Confederações de Futebol da FIFA, prévia dos
eventos posteriores – a luta contra a corrupção e indistinção público/privado, a democratização
dos meios de comunicação, novos meios de acesso à informação, a denúncia da repressão e
violência policial, a radicalização da luta contra o modelo capitalista, dentre outras. Por meio
das Manifestações, a população buscava ampliar os canais de participação e interlocução entre
governantes e governados para além do contexto eleitoral, expondo os limites impostos pelo
modelo democrático-representativo brasileiro instituído desde 1988 e a má condução dos
negócios públicos por parte dos representantes em suas práticas políticas.
A chegada e permanência de Temer no poder como uma espécie de Super
Representante que se dirige de maneira horizontal em relação ao mercado, interesses do
capital e ao Parlamento e de maneira vertical em relação ao conjunto da sociedade civil,
aumenta o desafio de pensar a singularidade da experiência de junho de 2013. Não se trata,
obviamente, de isolar esta experiência dos desdobramentos que levaram à deposição de Dilma
e ao fortalecimento do próprio modelo tão questionado desde então. As Jornadas de Junho de
2013 canalizaram a crítica do conjunto da sociedade em relação às práticas políticas do modelo
representativo, abrindo caminho para uma crise cujos desdobramentos ainda não são
inteiramente conhecidos e cujos significados estão em disputa – e a multiplicidade de pautas
favoreceu as disputas pela narrativa mais apropriada capaz de dar conta daqueles
acontecimentos. Como um tribunal crítico, expôs o problema e abriu caminho para múltiplos
desdobramentos e apropriações políticas, sem oferecer uma direção futura unívoca. Considero,
portanto, que os acontecimentos posteriores a 2013 não caminharam na direção exclusiva do
governo Temer que, desde 2016, se ampara justamente em valores contrários aos
manifestados em 2013; no entanto, devo admitir, há uma vivência da crise política no tempo
presente que assombra esta análise.
O presente artigo reconhece a centralidade das Manifestações de Junho de 2013 como
um ponto de inflexão para a abertura da crise do modelo democrático-representativo

86 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 83-110, jan./jun. 2018


Junho de 2013: crítica e abertura da crise da democracia representativa brasileira

experimentada ainda hoje. Não se trata de propor uma análise que busque fechar todas as
fendas abertas por 2013, o que demandaria muito mais linhas do que disponho aqui. Há muito
a avançar em temas como: a disponibilização de um aparato policial repressivo a
manifestações políticas de natureza contestadora desde 2013; as diferentes formas de atuação
dos movimentos considerando a dinâmica política de cada cidade; as imagens produzidas pela
grande imprensa; o papel da internet e das redes sociais; a relação com o contexto
internacional e a comparação com cidades que viveram situações semelhantes, isto é,
anteriores a grandes eventos esportivos; dentre outras. 8 O caso aqui é voltar a 2013 para
compreender o ambiente e o vocabulário político de formação daquele arsenal crítico,
constituído por disputas e apropriações políticas sobre os sentidos de democracia e democracia
representativa.
Neste sentido, inicialmente, analiso a historicidade do conceito de democracia e o seu
caráter instável e inconcluso ante as circunstâncias históricas de ressignificação para, em
seguida, examinar os dilemas e desafios da representação política, acreditando que tanto um
(instabilidade/inconclusão) quanto o outro (dilemas/desafios) estão em evidência na crítica
produzida por junho de 2013 ao modelo democrático-representativo instituído desde 1988.
Levando em conta a expressão nacional que tiveram no mês de junho e tomando São Paulo
como epicentro, buscando identificar uma unidade em um conjunto tão diverso, argumento
que o que estava em jogo nas Manifestações não era a revisão do pacto constitucional de 88,
mas sim a necessidade de mudanças dentro deste mesmo modelo, por meio de um necessário
reajuste das práticas políticas dos representantes e do alargamento da dimensão participativa
que compõe o modelo democrático vigente. Isso fica expresso nas bandeiras que atravessaram
o movimento, isto é, a melhoria dos direitos sociais – notadamente saúde e educação –,
entendidas como responsabilidade do Estado, e o ataque ao funcionamento da política nos
termos da dinâmica representativa e de suas assimetrias. Um segundo passo argumentativo
do artigo, empreendido a partir do exame dos discursos políticos dos atores à época, considera
que só é possível compreender junho por meio de suas ambivalências e da distinção de dois
tempos: o primeiro canalizado pelo Movimento Passe Livre, centrado no debate sobre o direito
ao transporte público e à tarifa zero e, de modo mais amplo, no direito à cidade, mas não
somente neles, ou seja, abrindo caminho para uma crítica mais ampla aos rumos do modelo
representativo; o segundo, sem um centro organizador tão evidente, disparava reivindicações
múltiplas associadas ao combate à corrupção, mas também tematizava a melhoria de direitos
sociais como saúde e educação, em claro contraponto aos altos investimentos destinados pelo

8
Dentre o material acadêmico disponível sobre o tema é possível destacar: NOBRE, Marcos. Choque de
Democracia: razões da revolta. São Paulo: Companhia das Letras, 2013; SINGER, André. Brasil, junho de
2013: classes e ideologias cruzadas. Novos estud. CEBRAP, São Paulo, n. 97, nov. 2013; MARICATO,
Ermínia; et al. Cidades Rebeldes: passe livre as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. São Paulo:
Boitempo; Carta Maior, 2013; BUCCI, Eugenia. A forma bruta dos protestos: Das manifestações de 2013
à queda de Dilma Rousseff em 2016. São Paulo: Companhia das Letras, 2016; GOHN, Maria da Glória.
Manifestações de Junho de 2013 no Brasil e Praças dos Indignados no Mundo. Petrópolis: Vozes, 2014;
RICCI, Rudá; ARLEY, Patrick. Nas ruas: a outra política que emergiu em junho de 2013. Belo Horizonte:
Letramento, 2014. Sobre o tema, recomendo os filmes: A partir de agora, de Carlos Pronzato e Junho - O
Mês que Abalou o Brasil, de João Wainer, ambos disponíveis no website Youtube.
87 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 83-110, jan./jun. 2018
Junho de 2013: crítica e abertura da crise da democracia representativa brasileira

Estado aos grandes eventos esportivos – Copa das Confederações e Copa do Mundo de
Futebol. Partindo da multiplicidade deste segundo tempo, a grande imprensa tentou desfazer
tais ambivalências, oferecendo uma direção narrativa para aquela diversidade, adotando a
bandeira do combate à corrupção como a voz das ruas, transformando-o em causa e problema
urgente a ser solucionado pela democracia brasileira.

1. Democracia como aspiração incompleta, os dilemas da representação e o


caso brasileiro

Quanto mais gerais os conceitos, mais partidos podem servir-se deles. São
transformados em slogans. Considerada como privilégio, a liberdade pertence
àquele que a possui, mas sobre a liberdade em geral qualquer um pode apoiar-
se. Surge assim um litígio em torno da verdadeira interpretação política, e mais
ainda em torno do correto emprego dos conceitos. A expressão democracia
transformou-se em conceito universal de organização, que todas as correntes
reivindicam para si de diferentes maneiras.9

Para o historiador alemão Reinhart Koselleck, especialista e propagador de uma


abordagem histórica dos conceitos políticos, o termo democracia alcançou, desde que adquiriu
a sua concepção moderna, tal grau de elasticidade que se tornou objeto de disputas políticas
das mais diversas matrizes ideológicas – seja no campo das esquerdas, com a associação da
democracia a um regime capaz de garantir a igualdade a partir da equivalência entre produção
e distribuição da riqueza, seja no campo das direitas, em que o regime democrático passou a
significar a garantia das liberdades individuais, inclusive a de produzir acumulação e multiplicar
a propriedade. Democracia pôde ser mobilizada não apenas como regime político, mas
também como um adjetivo, na medida em que o democrático ganhou a conotação do defensor
da autonomia, da pluralidade, da liberdade enfim, o status de “conceito universal de
organização” reivindicado pelas mais diversas correntes de pensamento – afinal, quem se
disporia a construir um modelo de organização social pautado, como princípio, na supressão
das liberdades?
É o próprio Koselleck que nos explica que tal abrangência e elasticidade, própria ao
conceito de democracia, advém de uma forma moderna de apreender os conceitos políticos.
Uma forma temporalizada, na medida em que perfurada pelas circunstâncias histórico-sociais
de produção, balizada por um tempo presente e que aponta para um devir, isto é, para a
possibilidade de mudança no futuro. Deste modo, conceitos temporalizados apostam numa
circunscrição temporal presente, mas baseiam-se “apenas parcialmente na experiência”, já
que “a expectativa que depositam no tempo que está por vir está em proporção inversa à
experiência que lhes falta”.10 Koselleck nos explica, ainda, que essa mudança é sintoma de
uma abrangência maior no uso dos conceitos políticos para além do círculo da nobreza, dos

9
KOSELLECK, Reinhart. Futuro Passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro:
Contraponto; Ed. PUC Rio, 2006, p. 301.
10
Ibidem, p. 297.
88 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 83-110, jan./jun. 2018
Junho de 2013: crítica e abertura da crise da democracia representativa brasileira

eruditos, que conformava a sociedade estamental pré-moderna em uma estrutura linguística


hierarquizada. Ou seja, o vocabulário político moderno baseado na Filosofia Política Iluminista
e em experiências fundamentais como a Independência dos Estados Unidos e a Revolução
Francesa, tornou mais abrangente a disseminação daquele novo vocabulário político,
incorporando o cidadão comum como interlocutor e potencial enunciador e disseminador de
tais valores, fazendo com que as práticas políticas estivessem à disposição de grupos cada vez
mais heterogêneos e plurais, logo, capazes de produzir distorções de sentido – distorções não
no sentido negativo do termo. “Produziu-se – na França revolucionária isso foi muito rápida –
uma batalha em torno dos conceitos; o controle da linguagem se tornou tanto mais urgente
quanto maior o número de pessoas precisava ser atingido”; 11 “A temporalização, que de início
se inscrevia na teoria histórica, a partir de então penetrou fundo na vida quotidiana”. 12 Em
suma, a política e a utilização dos conceitos virou território de atuação do homem comum,
incorporando, inclusive, suas aspirações de futuro.
Pertencendo ao imaginário político do homem comum e em uma perspectiva
temporalizada, o conceito de democracia se torna não só um potencial aglutinador de sonhos
de uma vida pública mais justa – dotada de maior liberdade e/ou igualdade – mas assume um
caráter essencialmente aberto, vacilante e fadado à indeterminação. As formulações de Pierre
Rosanvallon a esse respeito merecem ser mobilizadas.

Com efeito, em função das tensões e das incertezas a ela subjacentes, a


democracia constitui o político num campo amplamente aberto. Se há mais de
dois séculos ela aparece como princípio organizador incontornável de toda
ordem política moderna, o imperativo que traduz esta evidência tem sido
sempre tão intenso quanto impreciso. Por ser fundadora de uma experiência de
liberdade, a democracia nunca deixa de constituir uma solução problemática
para instituir uma polis de homens livres. Nela se unem há muito tempo o sonho
do bem e a realidade da indeterminação. O que há de particular a essa
coexistência, é que não se trata de um ideal longínquo sobre o qual todos
estariam de acordo; as divergências acerca de sua definição remetem aos meios
empregados para realizá-la.13

Para ele, as definições de democracia em termos modernos se mantêm vinculadas a um


estado permanente de vir a ser, de um modo que os limites do democrático nunca estão
claramente definidos a priori, abrindo margem para a crítica e a complementação dos
cidadãos. Daí é que se relaciona a ela um caráter vacilante, instável, pois, nas sociedades
democráticas as condições da vida comum nunca estão definidas por uma tradição ou impostas
por uma autoridade. A democracia se apresenta, neste sentido, como uma espécie de solução
incompleta e problemática para a vida comum, o que leva à produção de certo mal-estar
subjacente a sua história, sem jamais “resistir a uma categorização livre de discussões”. 14 Tal
característica enseja a uma história de desencantamento e indeterminação fundada nos
princípios democráticos: “Tal vacilação constitui o impulso de uma busca e de uma insatisfação
que se esforçam simultaneamente por se explicitar. É necessário partir daí para compreender a

11
KOSELLECK, Reinhart. Futuro Passado... Op. cit., p. 300.
12
Ibidem, p. 301.
13
ROSANVALLON. Pierre. Por uma história do político. São Paulo: Alameda, 2010, p. 74. Grifo meu.
14
Idem.
89 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 83-110, jan./jun. 2018
Junho de 2013: crítica e abertura da crise da democracia representativa brasileira

democracia: nela se entrelaçam a história de um desencantamento e a história de uma


indeterminação”.15 Em outras palavras, trata-se de um regime político que reúne as aspirações
de participação social do homem comum na vida política, fadada às vacilações e aos desejos
de progresso que este homem pode vir a buscar, causando sempre certa sensação de
insatisfação que o impulsiona para uma busca de aperfeiçoamento, mas que, de tão infinita,
tende a causar frustração.
Rosanvallon nos apresenta ainda dois problemas centrais que constituem a definição de
democracia. O primeiro, envolve a ampliação do escopo de compreensão do democrático,
espécie de vetor dos interesses sociais, incluindo não só a dimensão política, mas também a
econômica. Afinal, o ideal de bem comum, definido por homens comuns, não poderia
prescindir de valores associados às praticas do contrato social, de um acordo mínimo sobre
mecanismos de distribuição de renda, envolvendo os problemas de solidariedade em geral. Um
regime que reivindica um sentido de liberdade e um ideal comum não poderia prescindir de
questões mais amplas que envolvam a “igualdade, justiça, da identidade e da diferença, da
cidadania e da civilidade; em suma, de tudo aquilo que se constitui a pólis para além do campo
imediato da competição partidária pelo exercício do poder, da ação governamental cotidiana e
da vida ordinária das instituições.”16 O segundo, relacionado à definição desta entidade
abstrata chamada povo.17 Afinal, como definir um “nós” que abarque uma unidade que admita
a pluralidade e o conflito? O sufrágio universal seria uma solução imediata para este impasse,
ainda que sem resolvê-lo de todo: através dele poderia ser exercitado um ideal universal de
igualdade política que contemplasse dimensões objetiva, racional e despersonalizada. 18 No
entanto, ele traria a necessidade da representação. Afinal, como é possível a um conjunto de
representantes traduzir em uma unidade comum interesses tão diversos presentes na
sociedade? Afinal, como este homem comum, agente da política, poderia dedicar um espaço
de tempo de sua vida privada ao exercício de uma vida política direta e sem mediações? Outro
problema é em relação a grandes extensões territoriais: como reunir em um mesmo espaço a
manifestação das diferenças e antagonismos, próprias à configuração dessa entidade abstrata
chamada povo? Diante de Estados cada vez mais populosos, extensos territorialmente, como
imaginar um diálogo direto que incorpore os interesses conflituosos de todos os cidadãos?
A solução moderna a todos estes dilemas está na adoção do modelo representativo,
incorporando todas as contradições e desafios que ele carrega. Luis Felipe Miguel enumera
pelo menos cinco desses desafios.

1. separação entre governantes e governados, isto é, a constatação de que as


decisões políticas são tomadas de fato por um grupo pequeno e não pela massa
das pessoas que serão submetidas por ela;
2. a formação de uma elite política distanciada da massa da população, como
consequência da especialização funcional acima mencionada, sem o principio da

15
ROSANVALLON. Pierre. Por uma história... Op. cit., p. 75.
16
Ibidem, p. 73.
17
Ibidem, p. 75.
18
Idem.
90 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 83-110, jan./jun. 2018
Junho de 2013: crítica e abertura da crise da democracia representativa brasileira

rotação (governar e ser governado), de modo que o cidadão comum possa


ocupar cargos públicos;
3. a ruptura entre a vontade dos governados e a vontade dos representados,
que se deve tanto ao fato de que os governantes tendem a possuir
características sociais distintas dos governados quanto a mecanismos intrínsecos
à diferenciação funcional;
4. no caso da representação de tipo eleitoral, há a distancia entre o momento
em que se firmam os compromissos com os constituintes (a campanha eleitoral)
e o momento do exercício do poder (o exercício do mandato)
5. As conjunturas políticas são cambiantes e, portanto, os compromissos
assumidos hoje podem não ser validos amanhã, mesmo na ausência de qualquer
intenção de manipulação. [...] Verdade, correção e sinceridade não são
facilmente avaliáveis quando quem fala se coloca na posição de porta-voz de
outros e encontra um mundo diferente sobre o qual deve agir.19

Atravessando todos estes dilemas da representação está aquele que, de certo modo,
condiciona o próprio funcionamento da democracia e do modelo democrático-representativo: o
funcionamento da democracia nos termos do modelo capitalista e nos diversos tipos de
desigualdade que ele acarreta. Afinal, como equacionar a defesa da igualdade de direitos civis
e políticos a um contexto social extramente desigual e estratificado? Isto porque, o modelo
representativo e a separação entre governantes e governados incorpora no seio da própria
representação a reprodução das assimetrias sociais, principalmente, mas não exclusivamente,
aquelas relacionadas à razão de classe, baseada no critério pobreza/riqueza – as questões de
gênero e raça são também condicionantes que levam às condições assimétricas na sociedade,
notadamente em uma sociedade como a brasileira, marcada pelas heranças da escravidão
negra e de um sistema patriarcal. Neste sentido, para Miguel:

Há um ciclo de realimentação, em que os prejudicados pelos padrões de


desigualdade têm maior dificuldade de se fazer representar (nos espaços
formais e informais de deliberação) e, ao mesmo tempo, sua ausência nos
processos decisórios contribui para a reprodução desses padrões. Elementos
materiais e simbólicos se combinam para reduzir as possibilidades de ação
política dos indivíduos de grupos prejudicados pelas desigualdades.20

O processo eleitoral, de algum modo, equilibra essas diferenças e amplia o conjunto de


interlocutores a partir do qual o representante deve se dirigir, obrigando o candidato a expor
publicamente seu programa e pactuar com o eleitor comum uma agenda de compromissos.
Mesmo em processos eleitorais como o brasileiro, em que o peso dos financiamentos privados
a campanhas seja decisivo na disponibilização pública de projetos e no resultado final.
Podemos citar como exemplo um caso brasileiro recente, relacionado às eleições de 2014 e
seus desdobramentos. Ao debater seu projeto com a sociedade durante as eleições, Dilma
Rousseff apresentou um programa de orientação econômica social-desenvolvimentista, com
fortalecimento do papel dirigista do Estado na economia e fortalecimento dos bancos públicos.
Após a vitória, em seu primeiro dia de mandato, Rousseff nomeia como Ministro da Fazendo
Joaquim Levy, representante do modelo econômico inteiramente contrário ao programa
disponibilizado pela candidata durante as eleições. Foi o processo eleitoral e o debate público

19
MIGUEL, Luís Felipe. Democracia e representação: territórios em disputa. São Paulo: Ed. Unesp, 2014,
p. 15-17.
20
Ibidem, p. 301.
91 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 83-110, jan./jun. 2018
Junho de 2013: crítica e abertura da crise da democracia representativa brasileira

permitido por ele que abriu a possibilidade de que a Presidenta fosse acusada de incoerência,
demagogia, traição, dentre outros – ainda que o mandato para o qual ela fora eleita, de quatro
anos, permitisse uma estratégia de ajuste e contenção nos primeiros anos e retomada do
crescimento econômico nos anos seguintes – como prometido no programa eleitoral. O
contrário acontece com Temer que além de ter sido conduzido ao cargo pela força do
Parlamento, governa sem qualquer compromisso de coerência com algum programa eleitoral
disputado na sociedade.
No entanto, o processo eleitoral também não está imune às assimetrias de classe,
gênero e raça que compõem a natureza desequilibrada do modelo capitalista – o que fica
evidente na participação diminuta de mulheres, negros e trabalhadores em cargos
representativos, tanto no Executivo quanto no Legislativo.21 Como nos lembra Miguel “Os
tomadores de decisões políticas tem necessidade de introjetar os interesses do capital,
garantindo uma situação que incentive a manutenção de taxas elevadas de crescimento
econômico”22 e, em momentos como o do Brasil atual pós 2016, o peso do capital e de sua
reprodução canaliza os interesses do Estado de tal maneira que permite ao Presidente da
Câmara dos Deputados pronunciar claramente que a agenda do Congresso é a agenda do
mercado – conforme destaquei na introdução deste texto.
O caso brasileiro convive intensamente com todas essas contradições. A aposta na
democracia, conforme estabelecida pelo pacto constitucional de 1988, não está dissociada de
uma agenda de manutenção e avanço do modelo capitalista combinada a instituições
democrático-representativas fortes, como os partidos políticos, as eleições, o Parlamento e a
própria Constituição – instituições extremamente fragilizadas durante o período da Ditadura
Militar, espécie de contraponto a partir do qual se fez possível a defesa de um novo regime
democrático em 1988. Um texto constitucional que previa a manutenção do direito de
propriedade como cláusula pétrea, mas também a manutenção das conquistas dos
trabalhadores durante o Varguismo – Consolidação das Leis Trabalhistas, justiça do trabalho e
direito previdenciário – e o lugar do Estado como provedor dos direitos sociais, como a saúde e

21
São significativos, neste sentido, os dados sobre mulheres e negros em cargos representativos. De um
total de mais de 142 milhões de eleitores, 52,13% pertencem ao sexo feminino e 47,79% ao sexo
masculino, segundo o Tribunal Superior Eleitoral. De acordo com levantamento da Secretaria de Política
para Mulheres, as 7.782 vereadoras brasileiras, contabilizadas recentemente nas eleições de 2016,
representam 13,5% do total dos cargos correspondentes nas câmaras municipais. No Congresso
Nacional, a representação feminina é aproximadamente a mesma: no Senado, 12 senadoras entre os 81
(14,81%); na Câmara dos Deputados, 50 cadeiras em um universo de 512 parlamentares (9,76%). No
Executivo o quadro é ainda pior: apenas 1 governadora entre os 27 estados da federação (3,70%),
incluindo o Distrito Federal; enquanto que apenas 11,6% ocupam o cargo de Prefeita.
Entre os negros, a situação não é diferente. Mais da metade da população brasileira (54%), segundo
dados do último censo do IBGE é composta por pessoas que se autodeclaram negras – grupo que,
segundo o Instituto, reúne pretos e pardos. Na Câmara dos Deputados da atual legislatura, que tomou
posse em 2014, negros autodeclarados são só 20%; entre os Senadores, 18,5%. No Executivo a situação
é a mesma: 6 pardos, em um universo de 27 (22,20%), entre os Governadores de Estado. Os dados
disponíveis sobre a representação negra no Congresso estão disponíveis em: MAGALHAES, João C.,
TALENTO, Aguirre; REVERBEL, Paula. Negros autodeclarados são só 20% dos 513 deputados federais
eleitos. Folha de São Paulo (Online). Disponível em:
<http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/10/1530993-negros-autodeclarados-sao-so-20-dos-513-
deputados-federais-eleitos.shtml>. Acesso em: 08 out. 2017.
22
MIGUEL, Luis Felipe. Democracia e representação... Op. cit., p. 302.
92 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 83-110, jan./jun. 2018
Junho de 2013: crítica e abertura da crise da democracia representativa brasileira

a educação, além de promotor de políticas de redução das desigualdades sociais. Uma


Constituição que fortaleceu o Parlamento como ponto de estabilidade representativa e
funcionamento do princípio de que “ninguém governa sozinho”, como se o Legislativo
representasse um ponto de equilíbrio democrático, espaço onde seria possível fiscalizar a
atuação do Executivo, associando a presença do povo – através das eleições e de mecanismos
de participação direta como projetos de lei populares, realização de plebiscitos e referendos –
e o fortalecimento da representação, garantindo o convívio, em um mesmo espaço, da
diversidade regional e da pluralidade de tendências partidárias, capazes de garantir uma
ordem representativa efetivamente diversa. 23 Em suma, estamos tratando de um modelo,
cujas práticas políticas tanto estiveram sob a mira da crítica social nas Manifestações de 2013,
gestado sob a égide da combinação de valores que, a princípio, seriam incompatíveis, tais
como a democracia representativa e a igualdade civil, sob a vigência de um modelo capitalista,
fundado no aprofundamento e radicalização de diferenças e assimetrias, baseada em critérios
de classe, mas também associados às heranças escravistas e patriarcais da história brasileira.
Estamos tratando de um modelo democrático com forte presença das heranças
autoritárias da Ditadura Militar de 1964 e, igualmente, de um modelo de Estado capitalista
fortalecido durante este período. Merece ser mobilizada, neste sentido, a pergunta sobre “o
que resta da Ditadura”, fio condutor da coletânea organizada por Edson Telles e Vladimir
Safatle,24 e não apenas para lembrar a redemocratização como um processo de “reconciliação
extorquida”, nos termos de Jeanne Marie Gagnebin,25 assegurada pela desequilibrada Lei de
Anistia de 1979, mas, sobretudo, retomar o mote de Paulo Arantes acerca de “1964: o ano
que não terminou”. No que se refere às cláusulas sobre as Forças Armadas, policiais militares e
segurança pública, a Constituição de 1988 manteve inalteradas as bases da Carta de 1967 –
emendada em 69 – elaborada sob a vigência do regime de exceção,26 ou seja, nas palavras de
Arantes, “desde 1988 estava consagrada a militarização da segurança pública”. 27 Com isso, o
Estado mantinha-se habilitado a lançar mão de prerrogativas de exceção – um Estado de
emergência permanente – para garantia da ordem pública e manutenção do seu monopólio da
violência – abrigando “uma tipologia indefinidamente elástica de urgências pedindo
intervenções ditas ‘cirúrgicas’ regidas pela lógica do excesso”. 28 Ao mesmo tempo, destaca
Arantes, a Lei de Responsabilidade Fiscal – sancionada no ano 2000 por Fernando Henrique
Cardoso – a serviço do pagamento da dívida pública e do cumprimento de um programa de

23
A esse respeito ver: PINHA, Daniel. Projetos de democracia em dissolução no Brasil desde 2016. In:
GUIMARÃES, Géssica (org.). Conversas sobre o Brasil: ensaios de crítica histórica. Rio de Janeiro:
Autografia, 2017, p. 217-248.
24
TELLES, Edson; SAFATLE, Vladimir (orgs.). O que resta da ditadura: a exceção brasileira. São Paulo:
Boitempo, 2010.
25
A esse respeito ver: GAGNEBIN, Jeanne M. O preço de uma reconciliação extorquida. In: TELLES,
Edson; SAFATLE, Vladimir (orgs.). O que resta da ditadura: a exceção brasileira. São Paulo: Boitempo,
2010, p. 177-186.
26
ARANTES, Paulo. 1964, o ano que não terminou. In: TELLES, Edson; SAFATLE, Vladimir (orgs.). O que
resta da ditadura: a exceção brasileira. São Paulo: Boitempo, 2010, p. 212.
27
Ibidem, p. 213.
28
Ibidem, p. 225.
93 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 83-110, jan./jun. 2018
Junho de 2013: crítica e abertura da crise da democracia representativa brasileira

ortodoxia econômica – que “arremata um processo iniciado pela Ditadura nos anos 1970” 29 –
faz do Estado sócio e fiador das grandes empresas privadas, pronto a socorrer o capital em
seus momentos de crise e em suas contingências, por meio da aprovação de pacotes
econômicos e emendas constitucionais de emergência voltados aos interesses dos entes
privados. Visto por este prisma, o regime democrático-representativo fundado a partir de 88, e
reconfigurado ao longo da década de 1990, assegura a cristalização de um “Estado Oligárquico
de Direito”, forte no exercício da violência contra os pobres e nas garantias civis às “classes
confortáveis” e fraco diante do poder do grande capital:

Olhando, todavia, a um só tempo, para a base e o vértice da pirâmide, seria


mais apropriado registrar a cristalização de um Estado oligárquico de Direito.
Porém, assim especificando: um regime jurídico-político caracterizado pela
ampla latitude liberal-constitucional em que se movem as classes confortáveis,
por um lado, enquanto sua face voltada para a ralé, que o recuo da maré
ditatorial deixou na praia da ordem econômica que ela destravou de vez, se
distingue pela intensificação de um tratamento paternalista-punitivo.30

Estamos falando também de um modelo democrático-representativo cujas práticas


políticas estão assentadas no peemedebismo e na blindagem do sistema político brasileiro a
partir do qual ele se construiu – e aqui a referência direta é aos trabalhos de Marcos Nobre. 31
Nos termos de Nobre, esta blindagem se inicia ainda na década de 1980, em meio ao processo
de redemocratização brasileira, quando o PMDB liderou uma coalizão de partidos e forças
antiditatoriais, mantendo sob o seu controle a transição, de modo que a passagem da Ditadura
para a Democracia não ocorresse fora dos domínios desses grupos. Isto é, que não se
extrapolasse o sentido democrático do novo regime na direção de reformas sociais mais
amplas – tais como a reforma agrária, urbana, tributária, dentre outras – que pudessem
alargar, ainda na década de 80, o potencial transformador da democracia, mantendo
inalteradas as estruturas do regime capitalista, e sem que houvesse uma efetiva ruptura em
relação às heranças da Ditadura Militar – por exemplo, de modo que não houvesse, já em
1988, a revisão da Lei de Anistia. O peemedebismo se empenhou em abafar, por exemplo, os
anseios populares de mudanças mais profundas durante as “Diretas Já” em 84 – que pediam
mais do que as eleições diretas para presidente da República – e que ansiavam por maior
participação na Constituinte de 1987 – contrários aos apelos por uma Assembleia Constituinte
exclusiva.32 Na década de 1990 o processo de impeachment de Fernando Collor acabou por
fortalecer o peemedebismo e a blindagem do sistema político pois, a despeito das
manifestações populares pelo Fora Collor em 1992, a queda do presidente foi atribuída ao seu
isolamento e à ausência de uma base sólida de sustentação no Parlamento. A entrada de Lula
na presidência, em 2003, significaria, a princípio, um passo para o enfraquecimento deste
sistema, levando em conta a posição do Partido dos Trabalhadores enquanto opositor e

29
ARANTES, Paulo. 1964, o ano... Op. cit., p. 221.
30
Ibidem, p. 216.
31
Especialmente em: NOBRE, Marcos. Choque de Democracia: razões da revolta. São Paulo: Companhia
das Letras, 2013; NOBRE, Marcos. Imobilismo em movimento: Da abertura democrática ao governo
Dilma. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
32
Ibidem, p. 11.
94 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 83-110, jan./jun. 2018
Junho de 2013: crítica e abertura da crise da democracia representativa brasileira

denunciante do peemedebismo enquanto atuava como partido da oposição. No entanto, no


governo e tendo em vista a necessidade de construir grandes maiorias parlamentares para a
consecução de seu programa de reformas, o governo Lula aderiu e fortaleceu este modelo,
principalmente após o ano de 2005, quando teve de conviver com o escândalo do mensalão
que tanto desgastou o seu governo. A este caminho traçado por Nobre, acrescento: a chegada
de Michel Temer na presidência é a chegada do peemdebismo ao controle do Poder Executivo,
ampliando a sua esfera de atuação para além do Legislativo e das câmaras municipais, os
mecanismos da blindagem representativa.
As Manifestações de 2013, vistas em conjunto, trouxeram à tona a crítica da sociedade
civil às práticas políticas que conformaram esse modelo, que gradativamente vinha dilatando
as atribuições da representação política, a ponto de constituir uma blindagem que beirava à
autonomização do sistema político. Expressaram o descontentamento e a insatisfação da
sociedade civil ante aos rumos tomados pelo modelo brasileiro, trazendo à tona o grau instável
e vacilante próprio ao conceito moderno de democracia e em sua historicidade – atualizada e
circunscrita antes às condições históricas do tempo presente e aberta à possibilidade de
disparar novos futuros. Revelam a necessidade do cidadão comum em intervir diretamente nos
rumos da política, empregando conceitos e valores associados ao que entendem por uma
verdadeira ordem democrática, a partir dos dilemas que afetam a este homem comum,
especialmente ao habitante da cidade – transporte público, direito à cidade, violência policial,
necessidade de melhoria e ampliação dos direitos sociais. Ao mesmo tempo, as Manifestações
expuseram os dilemas do programa de 1988, configurado a partir de heranças autoritárias da
Ditadura Militar de 64 – a repressão e violência policial às manifestações é sintomática neste
sentido – e fundado na combinação entre desigualdade estrutural do capitalismo (e suas
assimetrias) e conformação de um Estado aspirante a provedor de direitos sociais e de
políticas de redução da desigualdade. Ou seja, neste sentido, o desejo de aprofundamento da
democracia, evidenciado em 2013, parte dessas lacunas e daquilo que o projeto democrático
havia prometido enquanto expectativa desde a redemocratização.

2. As ambivalências de junho de 2013 e a conformação de um ambiente de


crítica

2.1 Primeiro tempo: o papel catalizador do Movimento Passe Livre

O Movimento Passe Livre (MPL) foi às ruas contra o aumento da tarifa. A


manifestação de hoje faz parte dessa luta: além da comemoração da vitória
popular da revogação, reafirmamos que lutar não é crime e demonstramos
apoio às mobilizações de outras cidades. Contudo, no ato de hoje presenciamos
episódios isolados e lamentáveis de violência contra a participação de diversos
grupos.
O MPL luta por um transporte verdadeiramente público, que sirva às
necessidades da população e não ao lucro dos empresários. Assim, nos

95 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 83-110, jan./jun. 2018


Junho de 2013: crítica e abertura da crise da democracia representativa brasileira

colocamos ao lado de todos que lutam por um mundo para os debaixo e não
para o lucro dos poucos que estão em cima. Essa é uma defesa histórica das
organizações de esquerda, e é dessa história que o MPL faz parte e é fruto.
O MPL é um movimento social apartidário, mas não antipartidário. Repudiamos
os atos de violência direcionados a essas organizações durante a manifestação
de hoje, da mesma maneira que repudiamos a violência policial. Desde os
primeiros protestos, essas organizações tomaram parte na mobilização.
Oportunismo é tentar excluí-las da luta que construímos juntos.
Toda força para quem luta por uma vida sem catracas.33

O texto acima foi divulgado nos principais meios de comunicação do Brasil, reproduzido
em telejornais, rádios, jornais e websites de todo o país logo após a passeata do dia 20 de
junho de 2013. Trata-se de uma nota pública do Movimento Passe Livre, movimento social que
desde o dia 2 daquele mês organizava passeatas por grandes cidades, reivindicando a
suspensão do aumento das tarifas de ônibus e levando a frente uma proposta de tarifa zero
para o transporte público urbano. No dia 21 de junho, Douglas Beloni, militante da
organização, afirmou em entrevista à rádio CBN: “O MPL não vai convocar novas
manifestações. Houve uma hostilidade com relação a outros partidos por parte de
manifestantes, e esses outros partidos estavam desde o início compondo a luta contra o
aumento e pela revogação".34 O ato do dia 20 representa um ponto de inflexão na onda de
mobilizações que tomou conta do país em junho. Neste dia, em Brasília, 35 mil pessoas
ocuparam a Esplanada dos Ministérios,35 no Rio de Janeiro 300 mil pessoas foram às ruas, em
Vitória, São Paulo e Manaus, 100 mil.36 A nota do MPL é clara quanto ao receio de que a
multiplicação das pautas tivesse se modificado a ponto de produzir resultados políticos
diversos daqueles que haviam sido planejados pelo movimento, como, por exemplo, o ataque
a causas e partidos políticos de esquerda. Afinal, o MPL não era novo na rua; a novidade era a
quantidade de gente que ele conseguia reunir naquele mês de junho.
O lema “por uma vida sem catacras” sintetizava o sentido da atuação política do MPL.
Salvador, em 2003, com a chamada Revolta do Buzu, e Florianópolis em 2004, com a Revolta
da Catraca, já haviam recebido protestos e manifestações por redução da tarifa e passe livre
de transportes públicos.37 No ano seguinte, o MPL foi criado durante Fórum Social Mundial de
Porto Alegre, formado por uma rede federativa de coletivos locais. Na carta de princípios do
MPL, revisada em 2013, o movimento se define como “horizontal, autônomo, independente,
não partidário, mas não antipartidos” – pontos que retornam na nota pública do dia 20 de

33
A nota foi postada na página oficial da organização no Facebook à época e reproduzida na íntegra na
reportagem: MPL diz que não convocará novos protestos em São Paulo. O Globo (Online). Disponível em:
<http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2013/06/mpl-diz-que-nao-convocara-novos-protestos-em-sao-
paulo.html>. Acesso em: 8 out. 2017.
34
Movimento passe livre diz que não fará mais atos. Carta Capital (Online). Disponível em:
<https://www.cartacapital.com.br/sociedade/movimento-passe-livre-diz-que-nao-fara-mais-atos-
1244.html>. Acesso em: 12 out. 2017.
35
PASSARINHO, Nathalia. Manifestação em Brasília tem 3 presos e mais de 120 feridos. Portal G1
(Online). Disponível em: <http://g1.globo.com/distrito-federal/noticia/2013/06/manifestacao-em-
brasilia-tem-3-presos-e-mais-de-120-feridos.html>. Acesso em: 12 out. 2017.
36
Mapa dos protestos – Infográfico. Portal G1 (Online). Disponível em:
<http://g1.globo.com/brasil/protestos-2013/infografico/platb/>. Acesso em: 12 out. 2017.
37
MARICATO, E. É a questão urbana, estúpido. In: MARICATO, Ermínia; et al. Cidades Rebeldes: passe
livre as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. São Paulo: Boitempo; Carta Maior, 2013, p. 14-
15.
96 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 83-110, jan./jun. 2018
Junho de 2013: crítica e abertura da crise da democracia representativa brasileira

junho. A diferença entre “não partidário” e “antipartidário” define uma identidade que não se
coloca de maneira avessa a toda e qualquer forma de fazer política praticada por partidos e
movimentos sociais até então – mesmo porque partidos políticos com ideologia e projetos
políticos comuns ao MPL engrossavam e eram bem-vindos às manifestações do movimento.
Ainda assim, eles propunham uma inovação em relação às praticas políticas representativas
mais tradicionais, defendendo a horizontalidade na tomada de decisões, afastando-se das
estruturas políticas com caráter centralizador e hierarquizado. De acordo com Michel Lowi, o
perfil político dos militantes do MPL era bem variado: “De sensibilidade anticapitalista
libertária, os ativistas têm diferentes origens políticas: trotskistas, anarquistas,
altermundialistas, neozapatistas; com uma pontinha de humor, alguns se definem como
“anarcomarxistas punks”.38
Na carta de princípios da organização, ficava claro que a luta pelo transporte público
não teria um fim em si mesma, mas era o caminho para a construção de uma outra sociedade
– avessa ao capitalismo, mas sem reivindicar as heranças de experiências socialistas da União
Soviética, China ou de países da América Latina. Ao mesmo tempo, buscavam pautar suas
ações em agendas que mobilizassem questões concretas ao habitante da cidade, revelando
claro propósito em expandir aqueles valores ao homem comum, ou seja, aquele que convive
cotidianamente com a exploração e as contradições do modelo capitalista. Como
desdobramento, a organização defendia um modelo horizontal e descentralizado nas decisões.
Ou seja, no cerne da carta de princípios do MPL está a defesa de uma alternativa não só ao
modelo capitalista, mas à própria ordem democrático-representativa instituída nos Partidos, no
Parlamento e, também, em Sindicatos e movimentos sociais que operassem por esta lógica.
São sintomáticos, neste sentido, os trechos extraídos da carta de princípios do MPL:

por um transporte coletivo fora da iniciativa privada, sob o controle público (dos
trabalhadores e usuários); deve-se construir o MPL com reivindicações que
ultrapassem os limites do capitalismo, vindo a se somar a movimentos
revolucionários que contestam a ordem vigente; A via parlamentar não deve ser
o sustentáculo do MPL, ao contrário, a força deve vir das ruas; deve-se
participar de espaços que possibilitem a articulação com outros movimentos,
sempre analisando o que é possível fazer de acordo com a conjuntura local; O
MPL se constitui através de um pacto federativo, isto é, [...] nas cidades
mantêm a sua autonomia diante do movimento em nível federal, ou seja, um
pacto no qual é respeitada a autonomia local de organização.39

Em suma, as diretrizes do MPL combinavam a defesa da superação estrutural do


modelo capitalista, a mobilização em torno do transporte público como mote para mobilização
de trabalhadores e alcance de conquistas concretas e imediatas, e um modelo de atuação que
privilegiasse o trabalho de base em associações de bairros, comunidades das periferias,
favelas e afins. Isto é, considera-se a cidade não só o locus das contradições mais evidentes

38
LOWI, Michel. O movimento passe Livre. Blog da Boitempo (Online). Disponível em:
<https://blogdaboitempo.com.br/2014/01/23/o-movimento-passe-livre/>. Acesso em: 30 out. 2017.
39
Carta de princípios do Movimento Passe Livre. Disponível em: <http://www.forumjustica.com.br/wp-
content/uploads/2013/02/carta-de-princ--pios-do-movimento-passe-livre.pdf>. Acesso em: 30 out.
2017.
97 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 83-110, jan./jun. 2018
Junho de 2013: crítica e abertura da crise da democracia representativa brasileira

do sistema, mas o local privilegiado de atuação na vida pública, onde os sujeitos pudessem
exercitar a sua vida política a partir da mobilização em favor de causas materiais imediatas.
Ainda que, por princípio, o horizonte da luta política do MPL almejasse um objetivo
maior do que a redução do preço das passagens, o modo como a organização respondeu ao
crescimento das mobilizações de junho foi no sentido de limitar as ações do movimento,
circunscrevendo o seu espaço de atuação ao problema imediato da tarifa. Havia o receio de
que os atos, inicialmente convocados pelo MPL, fossem apropriados, naquele momento, por
grupos políticos com orientação ideológica avessa às suas. Entrevistados na edição de 17 de
junho do programa Roda Viva da TV Cultura40 – portanto, antes da nota pública que anunciava
a retirada do Movimento da organização de novos atos – Nina Copelo e Lucas de Oliveira,
representantes do MPL, se pronunciavam nessa direção, isto é, buscando circunscrever os
limites da atuação e da tática da negociação com os governantes, visando a um objetivo bem
claro. Em um dado momento da entrevista, o jornalista Mário Sergio Conte inicia uma
pergunta fazendo um panorama do movimento até então: “Centenas de manifestações,
centenas de milhares de manifestantes, só hoje foram manifestações em 40 cidades, 11
capitais, tentativa de invasão da Assembleia Legislativa do Rio, do Congresso Nacional,
movimento crescendo. O que acontece agora? O que vocês vão fazer?” A resposta de Nina
Copelo não poderia ser mais precisa: “A reivindicação era bem clara, estamos na rua pedindo a
revogação do aumento, o próximo passo cabe à Prefeitura dar, que é revogar esse aumento e
voltar o valor da tarifa para 3 reais.” Em seguida, ela sentencia: “quem decide pela
continuidade da manifestação é o governo. Vamos permanecer na rua caso ele não revogue.
Depende do governo do Estado e da Prefeitura, eles decidem se a manifestação continua ou
não”, afirma Copelo, como se estivesse em meio à negociação de uma atividade grevista com
uma agenda de reivindicações bem delimitada.
Movidos pela necessidade de mostrar para a sociedade a viabilidade de seu programa
de tarifa zero para as cidades, os representantes do MPL mobilizavam um vocabulário político
que incluía a adoção de conceitos que dialogavam com as referências do pacto constitucional
de 1988, balizado pela noção de direitos, cidadania e democracia. A tarifa zero era
apresentada como uma questão necessária, viável e urgente. Neste sentido, não se tratava de
esperar a eclosão de um movimento revolucionário à esquerda capaz de concretizar a
realização do passe livre; há condições concretas dele acontecer imediatamente, dependendo,
sobretudo, da vontade política dos governantes para inversão de prioridades no orçamento dos
municípios. A linha argumentativa de Lucas Oliveira, ainda na entrevista ao programa Roda
Viva, avança por este caminho: “de modo mais amplo, uma vez que o transporte é essencial
para garantir outros direitos, para as pessoas se apropriarem da cidade, ele não deveria ser
pago mediante tarifa; “É uma decisão política aumentar a tarifa, como é uma decisão política a
existência dela.” Ele embasa sua proposição em pesquisa do IPEA, apontando que os governos
já investem doze vezes mais em transporte privado que em transporte público. Em seguida,

40
Entrevista no programa Roda Viva da TV Cultura está disponível no website Youtube, na íntegra, em:
<https://www.youtube.com/watch?v=8FacFeGixxY&t=1976s>. Acesso em: 10 nov. 2017.
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Junho de 2013: crítica e abertura da crise da democracia representativa brasileira

sustenta que o direito ao transporte é tão necessário quanto o direito social à saúde –
destacando o quanto o passe livre traria benefícios diretos à economia das cidades, ampliando
o PIB e aumentando a arrecadação por meio da melhoria da mobilidade urbana. Ou seja, ele
se vale de instrumentos já existentes e previstos na Constituição para provar que sua proposta
se sustenta.
Na seção da Câmara dos Deputados de 9 de julho de 2013, já após o grande ciclo de
mobilizações de junho, o MPL foi convidado a participar de um debate sobre o transporte
público. O discurso proferido por Lucas de Oliveira manteve a mesma tônica de aparições
anteriores: defesa da ampliação do debate sobre a redução da tarifa e do transporte público
como pauta necessária, viável e urgente, que levaria à transformação material imediata da
vida dos trabalhadores da cidade, ponto de partida para ampliar a mobilização sobre o direito à
cidade e a participação direta dos cidadãos na gestão pública das cidades.

Que cidade a gente quer construir? Que transporte a gente quer gerir? Como a
gente quer que essa cidade seja organizada? Essa é a discussão que está sendo
organizada e não outra. É isso que clamam as vozes das ruas. É isso que está
sendo discutido por todo o Brasil. Foi um momento em que a população
interferiu diretamente nessa gestão política dos transportes.41

Nos termos de Lucas, a tarifa zero é o primeiro passo para que o trabalhador tenha
acesso à riqueza que produz, garantindo o deslocamento e o acesso aos mais diversos direitos.
Considerando que “o poder público precisa entender o transporte como direito social”, o
representante do MPL combina essa agenda à ampliação da participação e da democracia
direta, sem, contudo, sugerir a explosão completa dos mecanismos formais de representação
política. A estratégia discursiva, portanto, abrange o alargamento da compreensão de
cidadania e democracia, nos termos da inclusão decisiva da dinâmica participativa, ao alcance
de qualquer um, do homem comum que vive a experiência urbana e a exploração do capital.
Em junho, o tom foi pragmático e contido às circunstâncias, considerando o risco da
despolitização ou de uma guinada em favor de propósitos inversos à luta ideológica contrária
ao capitalismo.

2.2 Segundo tempo: a inflexão do dia 20 e a multiplicação das pautas

Os atos de 20 de junho configuram, de fato, uma mudança de rumos nas Manifestações


– e a nota pública do Movimento Passe Livre é a maior evidência disso. Isso não significa dizer
que até então as ruas já não estivessem repletas de manifestantes com pautas, objetivos e
matizes ideológicos diversos. Três dias antes, no dia 17, em ato ainda convocado pelo MPL,
que reuniu aproximadamente 65 mil pessoas, o Instituto Datafolha realizou pesquisa em São
Paulo que apresentou os seguintes resultados: 71% dos entrevistados declarou que participava
pela primeira vez da onda de protestos de junho; dentre os motivos que os levaram ao
protesto, 56% disseram que era pela queda da tarifa, 40% declarou que estava no evento

41
Discurso na Câmara dos Deputados disponível, na íntegra, no website Youtube, em:
<https://www.youtube.com/watch?v=Zbwgkjxyrk4>. Acesso em: 20 nov. 2017.
99 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 83-110, jan./jun. 2018
Junho de 2013: crítica e abertura da crise da democracia representativa brasileira

para protestar contra a corrupção, 31% contra a repressão policial e 27% pela melhoria na
qualidade dos transportes públicos – nesta pesquisa os entrevistados podiam mencionar mais
de um motivo. Destaca-se também os meios de divulgação a partir dos quais os manifestantes
obtiveram informações sobre a Manifestações: 93% responderam que foram as redes sociais
e, dentre eles, 81% atribuíram ao Facebook como principal meio de divulgação e reunião de
informações sobre o evento.42
Entretanto, depois do dia 20, sem que o MPL realizasse a convocação e apontasse uma
linha de atuação mínima, a agenda cresceu na mesma proporção em que cresceram a
quantidade de manifestantes. De milhares, as contas de gente na rua passaram a centenas de
milhares, nos termos de Lincoln Secco: “Concomitantemente à mudança ideológica e a
fragmentação da pauta de reivindicações, ocorreu uma interiorização dos protestos, seguida
pelo seu espalhamento”.43 De acordo com o levantamento do autor, em 20 de junho o
movimento alcançou 140 cidades, 90 no dia 21 e 100 em 22 de junho. 44 Decerto que a
abertura de um evento internacional – 15 de junho – que demandava tanta atenção das
autoridades e gastos públicos, caso da Copa das Confederações de futebol da FIFA, evento
preparatório para a Copa do Mundo a ser realizada no ano seguinte, impulsionava uma
indignação coletiva: “não é só pelos 20 centavos”, “queremos escolas e hospitais no padrão
FIFA” diziam os cartazes de manifestantes, registrados por câmeras da grande imprensa e da
mídia alternativa, assim como a violência cometida contra jornalistas que cobriam as
passeatas.45 A repressão policial fez crescer, ao longo dos atos, a sensação de que o direito à
livre manifestação política precisava ser garantido, tornando-se ele mesmo uma bandeira.
Depois do dia 20, havia a ausência de um interlocutor claro, como era o MPL, e de uma
agenda concreta que canalizasse as insatisfações, caso do transporte público, mas não se pode
dizer que faltassem pautas de reivindicações, ainda que os meios e as estratégias para alcance
desses objetivos não tivessem a mesma clareza e a mesma organização expressa pelo
Movimento Passe Livre. André Singer destaca que o movimento se fragmentara de tal maneira
que passeatas no dia 22 ocorreram concomitantemente em cidades diferentes e com objetivos
diferentes – em São Paulo, contra o Projeto de Emenda Constitucional 37, que limitava o poder
de atuação do Ministério Público Federal, e em Belo Horizonte, no mesmo horário, contra os
altos gastos para a Copa do Mundo, durante o jogo entre Japão e México. 46 Em geral, as
reivindicações eram por ajustes no modelo democrático representativo e mudanças nas
práticas políticas dos governantes, seja pela melhor gestão dos recursos públicos e na
qualidade dos serviços oferecidos à população seja no combate à corrupção. Pautas que, ao

42
Pesquisa do Instituto Datafolha. Disponível em:
<http://datafolha.folha.uol.com.br/opiniaopublica/2013/06/1297654-largo-da-batata-reuniu-75-mil-a-
maioria-novatos-na-onda-de-protestos.shtml>. Acesso em: 21 nov. 2017.
43
SECCO, Lincoln. As jornadas de junho. In: MARICATO, Ermínia; et al. Cidades Rebeldes: passe livre as
manifestações que tomaram as ruas do Brasil. São Paulo: Boitempo; Carta Maior, 2013, p. 76.
44
Ibidem, p. 77.
45
Não são só vinte centavos, dizem manifestantes na Avenida Paulista. Folha de São Paulo (online).
Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2013/06/1297985-nao-sao-so-20-centavos-
dizem-manifestantes-na-avenida-paulista.shtml>. Acesso em: 20 nov. 2017.
46
SINGER, André. Brasil, junho de... Op. cit., p. 26.
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Junho de 2013: crítica e abertura da crise da democracia representativa brasileira

fim e ao cabo, convidavam os representantes políticos de todas as instâncias governamentais


a cumprirem o pacto constitucional de 1988.
Uma pesquisa realizada pelo Ibope durante as passeatas de 20 de junho, em sete
estados (SP, RJ, MG, RS, PE, CE, BA) e em Brasília,47 indagou aos manifestantes sobre os
motivos que os levaram às ruas, e eles responderam da seguinte maneira, quando tiveram
que apresentar apenas uma opção que designasse o motivo principal: 37,6 % pelo transporte
público, sendo que destes, 27,8% mencionaram a queda da tarifa como motivo principal,
deixando em segundo plano pontos como a melhoria do sistema, aumento da frota, o passe
livre estudantil dentre outros; 29,9 % responderam que estavam ali para protestar contra o
ambiente político como um todo, sendo que destes, 24,2% contra a corrupção/desvios de
dinheiro público, considerando secundários motivos como a necessidade de mudança ou a
insatisfação com algum político especificamente. Cabe ressaltar que o nome do Senador Renan
Calheiros, presidente do Senado, foi mencionado na entrevista e citado por apenas 0,1%
destes manifestantes. Por melhorias no sistema de saúde responderam 12,1% do total; 5,5%,
contra a PEC 37; 5,3% por educação; e pelos gastos da Copa do Mundo/Copa das
Confederações responderam 4,5%. Ao serem perguntados por três razões que os levaram aos
protestos, o resultado foi diferente: 65% mencionaram o ambiente político como um todo,
destes, 49% contra a corrupção/desvios de dinheiro público – apenas 0,8% apontaram a
queda de Renan Calheiros; 53,7% pelo transporte público, destes, 40,5% contra o aumento/a
favor da redução da tarifa; 36,7 % por melhorias no sistema de saúde; 30,9% contra os
gastos com a Copa do Mundo/Copa das Confederações; 11,9% contra a PEC 37. Esta pesquisa
revela a força da mobilização do Movimento Passe Livre, ainda no dia 20, capaz de trazer para
primeiro plano o debate sobre transporte público/ redução da tarifa. Ao mesmo tempo, nos
apresenta a multiplicação das pautas em outras direções, por questões que não alçariam
ganhos concretos e imediatos em um curto espaço de tempo. A mudança generalizada do
ambiente político não aparece como motivo principal, mas quando a pergunta se abre para a
menção a três fatores de mobilização, ela ganha força e assume a liderança, demonstrando
que essa era uma causa que afetava a maioria dos manifestantes. Contudo, eles não
identificavam ainda na derrubada da PEC37, que diminuía os poderes do Ministério Público
para a investigação de crimes contra a corrupção, como uma medida capaz de canalizar a
insatisfação e alcançar algum ganho concreto e imediato.
Ainda na mesma pesquisa Ibope, cabe ressaltar, não havia direcionamento específico a
nenhum político ou partido: Renan Calheiros conseguiu, de algum modo, personificar uma
imagem antagônica à PEC 37, mas mesmo assim foi citado por apenas 0,8% quando os
manifestantes podiam apresentar três causas para os protestos; Marco Feliciano, Deputado
Federal de uma ala conservadora favorável a projetos como a “Cura Gay”, teve números um
pouco maiores, apontado por 0,4% (causa principal) e 1,8% (possibilidade de apontar três

47
Veja pesquisa completa do Ibope sobre manifestantes. Portal G1 (online). Disponível em:
<http://g1.globo.com/brasil/noticia/2013/06/veja-integra-da-pesquisa-do-ibope-sobre-os-
manifestantes.html>. Acesso em: 25 nov. 2017.
101 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 83-110, jan./jun. 2018
Junho de 2013: crítica e abertura da crise da democracia representativa brasileira

causas). No caso específico da Presidenta Dilma Rousseff, ainda que a onda de manifestações
do mês de junho tivesse causado uma diminuição da popularidade em 27 pontos, 48 a sua
queda não aparecia como uma possibilidade concreta no horizonte dos manifestantes, ainda
que ela fosse a Chefe do Estado e pudesse responder como a representante máxima daquele
sistema político. De acordo com a pesquisa Datafolha, divulgada em 29 de junho: 30% dos
brasileiros avaliavam a gestão Dilma como boa/ótima, 43% como regular e 25% como ruim ou
péssimo e 2% não opinaram – ou seja, 75% dos entrevistados não reprovavam
deliberadamente o governo Dilma, mesmo depois de toda a onda de manifestações de junho.
Este é um dado importante de ser destacado no sentido de compreender uma diferença central
entre as Manifestações de Junho de 2013 e os Atos pelo “Fora Dilma” que se organizaram nos
anos de 2015 e 2016, criando um ambiente inteiramente favorável para a sua queda.
O efeito provocado pelas convocações do MPL às ruas tornou-se maior pelas
circunstâncias em que ele foi gerado, em um momento de abertura de expectativas construída
em torno de grandes eventos esportivos de expressão nacional e, ao mesmo tempo, frustração
coletiva ante os rumos do modelo democrático representativo e das práticas dos políticos
profissionais na condução dos negócios públicos. Se a agenda do Movimento Passe Livre já
estava nas ruas desde antes daquele mês de junho, encontrando ali um momento de ápice, a
relação do cidadão comum – não organizado em partidos políticos e/ou movimentos sociais –
com os caminhos da representação também já acumulara longo desgaste. 49

2.3 A grande imprensa e a imposição de uma narrativa aos acontecimentos

Sem a existência de uma organização capaz não só de convocar, mas também de


orientar as ações e oferecer um quadro de referências adequado às múltiplas pautas e
aspirações, a grande imprensa tentou, ela mesma, oferecer uma narrativa para os
acontecimentos e, por conseqüência, se apropriar deles e conformar seus rumos. Como propõe
Lincoln Secco:

Apesar de a maioria dos jovens manifestantes usar a internet para combinar os


protestos, os temas continuam sendo produzidos pelos monopólios de
comunicação. A internet é também um espaço de interação entre indivíduos
mediada pelo mercado de consumo e vigiada pela inteligência dos governos.50

Ainda que o uso do espaço virtual tenha crescido potencialmente como espaço de
organização, disseminação dos atos e elaboração de narrativas sobre os acontecimentos, fosse
por meio de redes sociais como o Facebook ou sites/ blogs de mídia alternativa – como a Mídia
Ninja que, in loco, cobria os acontecimentos com câmeras de celulares nas mãos e fazendo
transmissões ao vivo pela internet – a intervenção e adesão dos grupos corporativos que

48
Popularidade de Dilma cai 27 pontos após protestos. Folha de São Paulo (online). Disponível em:
<http://www1.folha.uol.com.br/poder/2013/06/1303541-popularidade-de-dilma-cai-27-pontos-apos-
protestos.shtml>. Acesso em: 26 nov. 2017.
49
A esse respeito ver NOBRE, Marcos. Op. Cit., 2013.
50
SECCO, Lincoln. Op. Cit., p. 72-73.
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Junho de 2013: crítica e abertura da crise da democracia representativa brasileira

controlam os grandes meios de comunicação de massa foi determinante, não só para a


construção de uma narrativa unificada como para o próprio rumo dos acontecimentos,
especialmente nisto que podemos chamar de segundo tempo de junho. Sem um movimento
social capaz de canalizar as múltiplas aspirações – espaço ocupado pelo MPL no primeiro
tempo das manifestações – impulsionando uma ação viável, urgente e necessária – caso dos
transportes – o tribunal crítico tornou-se mais amplo, contudo, sob o risco de pulverização e
múltiplas formas de apropriação. Provida de meios mais potentes de multiplicação das ideias, a
grande mídia construiu uma narrativa própria tentando determinar um sentido e uma direção
para os acontecimentos.
A análise do vocabulário mobilizado na grande imprensa e suas formas de dar sentido
aos acontecimentos de junho nos abre um importante caminho para compreender o que estou
chamando de dimensão crítica aberta por 2013. Vale a pena, neste sentido, realizar uma breve
análise da cobertura de jornais de grande circulação em meio impresso e digital, com impacto
regional e nacional, casos da Folha de São Paulo e d´ O Globo. Ainda que as passeatas tenham
se iniciado no dia 6, somente em 12 de junho, um dia após a terceira grande manifestação em
São Paulo, a Folha51 dedicou o espaço principal da primeira página à cobertura do evento e o
conteúdo da manchete não poderia ser mais claro: “Contra tarifa, manifestantes vandalizam
Centro e Paulista”. Nos dias seguintes seguia-se o mesmo roteiro: 13 de junho, “Governo de
São Paulo diz que será mais duro contra o vandalismo”; 14 de junho, “Polícia reage com
violência a protesto e São Paulo vive noite de caos”; 15 de junho, “Alckmin defende PM e diz
que protesto tem um viés político”, até que, no dia 16, dia seguinte à estréia da seleção
brasileira na Copa das Confederações, há a associação das marchas com a competição
esportiva, ampliando a narrativa para uma dimensão nacional: “Estréia do Brasil tem vaia a
Dilma, feridos e presos”. Há clara opção pela estigmatização do manifestante como vândalo e
criminoso, colocando-o contra os interesses mais amplos da sociedade. Não por caso, intitula-
se “Guerra da Tarifa – São Paulo vive cenário de guerra durante protestos contra o aumento
da passagem de ônibus” a série de reportagens organizada pelo jornal na edição do domingo.
Por outro lado, a polícia aparece em posição reativa, agindo com violência para a garantia da
ordem, e nisto o jornal é afinado ao que defende o Governador Geraldo Alckmin.
Na semana seguinte, iniciada em 17 de junho, fica clara a mudança de tom, associada à
mudança no perfil do manifestante, a nacionalização do movimento e a ampliação das
reivindicações, para além da redução das tarifas: 18 de junho, manchete de capa, “Milhares
vão às ruas ‘contra tudo’: grupos atingem palácios”; 20 de junho “Protestos de rua derrubam
tarifas”. Em 19 o jornal pede maior repressão policial contra os manifestantes: “Ato em São
Paulo tem ataque à prefeitura, saque e vandalismo; PM tarda a reagir”, enquanto que no dia
21 o destaque ainda é a violência, mas sem atribuí-la aos manifestantes: “Protestos violentos
se espalham pelo país e Dilma chama reunião”. Na edição de domingo, dia 23, quando o
periódico traz um balanço da semana, já é possível identificar uma narrativa mais complacente

51
Todas as reportagens citadas aqui estão disponíveis em Folha de São Paulo (Online).
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Junho de 2013: crítica e abertura da crise da democracia representativa brasileira

em relação aos manifestantes, não só levando em conta a inflexão do dia 20, mas
repercutindo a pesquisa realizada pelo instituto Datafolha: “Maioria dos paulistanos defende
mais atos nas ruas”. Decerto que manter a linha editorial de criminalização dos manifestantes
poderia ser uma má estratégia, quando a maioria dos paulistanos se diz a favor do
movimento; é o próprio leitor do jornal que pode estar sendo atingido.
Na terceira semana, a partir do dia 24, o foco se modifica, das manifestações nas ruas
para a respostas do mundo político, em um momento em que os atos alcançam uma agenda
nacional – segundo tempo das manifestações – pondo em voga o combate à corrupção,
destinação de recursos à saúde e educação e as reformas no sistema político: 24 de junho,
“Dilma inicia pela saúde plano para estancar atos”; 25 de junho, “Dilma sugere plebiscito para
reformar a política”; 26 de junho, “Câmara derruba PEC 37 e destina royalties para educação e
saúde”; 27 de junho, “STF manda prender deputado, e Senado endurece pena de corrupto”;
28 de junho, “Planalto defende plebiscito conciso sobre reforma”. Nos três dias seguintes, a
Folha divulga pesquisas de opinião que mostram a queda da popularidade de governantes do
Partido dos Trabalhadores, no caso, a Presidenta e o Prefeito: 29 de junho, “Aprovação a
Dilma despenca de 57% a 30% em 3 semanas”; 30 de junho, “Dilma não venceria no primeiro
turno; Marina e Barbosa sobem”; e 1 de julho, “Popularidade de Haddad cai; 40% rejeitam
Haddad”. A menção ao nome do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa,
como presidenciável, ainda que não tivesse cargo eletivo ou sequer tenha concorrido a um, é
reveladora da força que a pauta da corrupção adquire para a imprensa neste segundo tempo
de junho – basta lembrarmos que Barbosa representa a imagem do combate à corrupção, por
ser o juiz que comandou o julgamento do processo do chamado “mensalão”, condenando uma
série de políticos.
No jornal O Globo,52 com ampla circulação impressa principalmente no Rio de Janeiro e
alcance nacional por meio digital, a narrativa é bem parecida com a apresentada pela Folha.
Em 12 de junho, a edição ainda não dedica o espaço da capa do jornal, mas lança reportagens
no corpo do periódico a partir das manchetes: “A marcha da insensatez” e “Vandalismo sem
causa” – Manifestantes atiram pedras em igrejas e no CCBB durante ato contra aumento de
passagens”, ou seja, estigmatizando a prática da manifestação como gesto de violência.
Somente na edição de 14 de junho, as revoltas ocupam a manchete principal da capa,
evidenciando, ainda, a dimensão regional dos protestos: “Confronto se agrava em São Paulo,
com mais prisões e feridos”; “No Rio de Janeiro, protesto no centro começou pacífico, mas
terminou com violência; estudantes picharam muros de prédios tombados, atearam fogo em
latas de lixo e quebraram vidros de agências bancárias”. No dia seguinte, o jornal dedica
grande espaço à violência cometida contra jornalistas que cobriam as manifestações, em
reportagens como “Associações de jornalistas condenam atuação da PM”, “Fotógrafo baleado
no olho por policial pode perder a visão”, “Nas redes, os flagrantes da violência policial em São
Paulo”.

52
Todas as reportagens citadas aqui estão disponíveis em O Globo (online).
104 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 83-110, jan./jun. 2018
Junho de 2013: crítica e abertura da crise da democracia representativa brasileira

No entanto, a verdadeira virada na cobertura jornalística do O Globo se inicia em 18 de


junho, quando a capa estampa a manchete principal: “O Brasil nas ruas”. Se antes a série
jornalista que cobria dia a dia das manifestações era chamada de “Tensão urbana”, passa,
desde o dia 18, a receber o nome de “Um país que se mexe”. No corpo da edição de 18 de
junho, a adesão do jornal às manifestações fica ainda mais clara: “Multidões em marcha”,
“Primavera carioca leva multidão de manifestantes ao Centro”, “Violência no fim de um
protesto pacífico”, “Protestar, ato que reúne diferentes tribos”, dentre outras. Em 19, o jornal
deixa ainda mais claro a dicotomia que distingue a ação de manifestantes, entre aqueles que
defendiam causas justas (de maneira pacífica) e outros que agiam como vândalos: “Em mais
um dia de protestos, São Paulo se divide entre paz e atos de vandalismo”. Na semana
seguinte, o jornal carioca cumpriu o mesmo programa da Folha, destacando as reações do
mundo político e a dimensão nacional das manifestações: 22 de junho, “Dilma propõe pacto
político e chama líderes de protestos”, 25 de junho, “Dilma propõe Constituinte e cria polêmica
com Congresso e STF” são alguns dos exemplos.
Por meio da tentativa de direcionamento das pautas, da distinção qualificada do
comportamento dos manifestantes, da valoração aos sentidos das reivindicações manifestadas
nas ruas, estes veículos de imprensa apresentaram-se, mais uma vez, como atores políticos
capazes de interferir diretamente no processo político, pressionando os representantes a
atenderem o que eles definem como justo, prioritário e apropriado para o desenvolvimento
regional e nacional. A denúncia da exploração capitalista na cidade e das assimetrias do
modelo representativo, por exemplo, fortes na pauta do MPL, voltam a ser naturalizadas e o
problema da corrupção, tratado como problema de conduta individual à espera de punições
mais severas, se mostra de forma descolada das assimetrias do capital impactadas no modelo
representativo. A pauta mais forte gerada nessa segunda onda de manifestações é a do
combate à corrupção e a grande imprensa tornou-se porta voz e protagonista desta pauta.
Uma questão que remete a longa e recorrente trajetória na cultura política brasileira e que se
acomodou às circunstâncias históricas daquele contexto de 2013, como demonstrou Rodrigo
Perez em ensaio recente53. Nos termos do autor, uma cultura política liberal conservadora
presente no imaginário político brasileiro desde os anos 1940, caracterizada pelo
enfraquecimento estatal/fortalecimento da iniciativa privada, atribuindo ao Estado o papel de
agente da corrupção por meio da fórmula “limitação do Estado”/ “combate à corrupção”.54
Como resultado, tal como expresso na narrativa de jornais da grande imprensa como a
Folha e O Globo a reação imediata dos governantes foi dar respostas, ponto a ponto, a cada
uma das reivindicações das ruas: além da queda da tarifa ocorrida no primeiro tempo, a
derrubada da PEC 37, endurecimento de pena de crimes por corrupção, a destinação dos
royalties do petróleo a investimentos de saúde e educação, o Executivo encaminha uma
proposta de construir uma Reforma Política e com participação popular, por meio de um

53
OLIVEIRA, Rodrigo Perez. A cultura política da crise brasileira: um ensaio de síntese histórica. In:
GUIMARÃES, Géssica (org.). Conversas sobre o Brasil: ensaios de crítica histórica. Rio de Janeiro:
Autografia, 2017.
54
Ibidem, p. 281.
105 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 83-110, jan./jun. 2018
Junho de 2013: crítica e abertura da crise da democracia representativa brasileira

plebiscito.55 Neste sentido, de maneira estrita e imediata, o segundo tempo das Manifestações,
obteve respostas positivas do mundo político – ainda que a Reforma Política não tenha sido
levada à frente pelo Congresso. No entanto, diante da multiplicidade de pautas estruturais cuja
resolução não seria possível de ser alcançada em curto espaço de tempo, a sensação geral era
de que havia algo de insuficiente ali e de que aquela série de atos teria apenas iniciado um
clima de crítica generalizada ao modelo democrático representativo, aberta a todo tipo de
reação e apropriação posteriores.
Inclusive o fortalecimento da endogenia do próprio sistema político, personificada na
figura de Michel Temer, tal como temos observado no Brasil desde 2016.

3. Conclusão de um problema aberto: Manifestações de 2013, entre a


fraqueza e a força do lulismo

Vistas em conjunto, as Manifestações de Junho de 2013 não podem ser compreendidas


fora de uma ambivalência definidora de dois tempos. O primeiro, mediado pela atuação do
Movimento Passe Livre, movimento que, de algum modo, conseguiu sintetizar na pauta da
redução da tarifa/ tarifa zero do transporte público um arco mais amplo de questões que
incluem o direito à cidade e o confronto com o modelo excludente de cidade capitalista. Deste
modo, as Manifestações avançaram na crítica à blindagem/autonomização do modelo
democrático-representativo, defendendo um modelo participativo de horizontalidade e ação
direta, por meio de uma pauta concreta e aglutinadora dos interesses do homem urbano
comum. Em face do crescimento das passeatas, muitas vezes em direção a pautas avessas às
suas – como a lógica “desideologizada” do combate a qualquer partido político – a tática do
MPL tornou-se a contenção e circunscrição das ações de junho à redução das tarifas sem,
contudo, abrir mão da abertura de um horizonte mais amplo de crítica, não só ao modus
operandi da democracia representativa, mas também à dimensão capitalista e suas
assimetrias, contidas no pacto constitucional de 1988. O segundo tempo tendeu a naturalizar
estas questões, atacando diretamente ao problema da corrupção e da má gestão dos recursos
públicos, como se pudessem ser vistos de maneira descolada das contradições e assimetrias
do capital e da representação. Agendas que se ainda não tinham, em 2013, um centro difusor
claramente reconhecido – ainda que fossem apropriadas e impulsionadas pela grande
imprensa – possuíam alcance universal a ponto de mobilizar o homem urbano comum, isto é,
aquele que não tem uma identidade política e ideológica claramente definida. Na soma não

55
Dilma Rousseff sugeriu que o plebiscito sobre a reforma política abordasse pelo menos cinco temas:
financiamento público ou privado de campanha, sistema eleitoral (voto proporcional ou distrital),
continuidade ou não da suplência para senador, fim ou não do voto secreto em deliberações do
Congresso e continuidade ou não de coligações partidárias proporcionais. Para mais detalhes ver: Entenda
5 temas sugeridos por Dilma para plebiscito sobre reforma política. Portal G1 (online). Disponível em:
<http://g1.globo.com/politica/noticia/2013/07/entenda-5-temas-sugeridos-por-dilma-para-plebiscito-
sobre-reforma-politica.html>. Acesso em: 26 nov. 2017.
106 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 83-110, jan./jun. 2018
Junho de 2013: crítica e abertura da crise da democracia representativa brasileira

excludente dos dois tempos está a formação de um grande ambiente de crítica ao modelo
democrático representativo vigente e a suas práticas.
A formação deste ambiente de crítica e da crise em aberto instaurada por ele ganha em
complexidade quando entendemos o estado da arte a partir do qual esta crítica busca se
deslocar. Daí a importância de examinar, inicialmente, o potencial semântico do conceito de
democracia em seu caráter instável e inconcluso, aberto às circunstâncias históricas mutáveis
e à crítica permanente da sociedade civil. Em seguida, as especificidades do caso brasileiro, a
partir da inauguração do horizonte democrático pós-redemocratização. Marcado por enormes
indicadores de desigualdade social e por heranças do regime militar ditatorial, o modelo
democrático brasileiro pactuado a partir de 1988 desenvolveu-se a partir de práticas políticas
assentadas numa lógica representativa que, a despeito da realização de consultas eleitorais
periódicas, incorpora em seu seio tanto as desigualdades quanto os resquícios autoritários.
Uma questão que tem mobilizado o debate sobre o lugar das Manifestações de 2013 em
meio à crise política é sobre o papel que elas tiveram na queda do governo petista de Dilma
Rousseff em 2016. Trata-se de tema que, certamente, mereceria mais linhas do que disponho
aqui e é provável que eu volte a este assunto em outro ensaio. É possível identificar pelo
menos duas grandes linhas interpretativas que vêm tentando dar conta desta explicação,
mostrando o quanto o quadro crítico instaurado em 2013 é aberto e suscetível às mais
diversas apropriações. Ambas fazem sentido e estão amparadas por dados da realidade, em
função da posição política de seus intérpretes em relação aos governos petistas.
Na primeira linha, encampada por analistas que enfatizam a insuficiência dos governos
Lula/Dilma no sentido de cumprir um programa de maiores transformações à esquerda, as
Manifestações de 2013 seriam as manifestações do precariado, para usar o termo de Ruy
Braga:

a massa formada por trabalhadores desqualificados e semiqualificados que


entram e saem rapidamente do mercado de trabalho, por jovens a procura do
primeiro emprego, por trabalhadores-recém saídos da informalidade e por
trabalhadores sub-remunerados – está nas ruas manifestando sua insatisfação
com o atual modelo de desenvolvimento.56

Lançando mão de uma pesquisa realizada pela empresa de consultoria Plus Marketing
na passeata de 20 de junho de 2013, que traça o perfil sócio-econômico do manifestante –
apontando que 70,4% dos manifestantes estavam empregados, dos quais 34,3% recebiam até
um salário mínimo e 30,3% ganhavam entre dois e três salários mínimos 57 – o autor afirma
que os atos de junho são reveladores do descontentamento de trabalhadores inseridos no
mercado de trabalho enquanto mão de obra precarizada, desprovidos de direitos e garantias
sociais de qualidade oferecidos pelo Estado. A despeito do aumento nos gastos sociais, afirma
Braga, os governos petistas não foram capazes de criar novos direitos sociais e maiores

56
BRAGA, Ruy. Sob a sombra do precariado. In MARICATO, Ermínia; et al. Cidades Rebeldes: passe livre
as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. São Paulo: Boitempo; Carta Maior, 2013, p. 82.
57
Idem.
107 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 83-110, jan./jun. 2018
Junho de 2013: crítica e abertura da crise da democracia representativa brasileira

investimentos em saúde e educação: 58 “Estamos diante de um autêntico processo de


mobilização do proletariado precarizado em defesa tanto de seus direitos à saúde e à educação
públicas e a de qualidade quanto pela ampliação do direito à cidade”.59 Marcelo Badaró de
Mattos, na mesma linha argumentativa,60 considera que apesar da heterogeneidade de
manifestantes e pautas, e certo viés reacionário em meio a elas, as “jornadas de Junho de
2013 possuíram um sentido de classe, em seu eixo central e nos seus desdobramentos”, 61 em
defesa dos direitos sociais.62 As massas nas ruas teriam aberto uma dúvida entre as classes
dominantes, se valeria a pena manter o apoio aos governos petistas ou era a hora da
retomada de métodos tradicionais de atuação, pautados em uma maior polarização de classe 63
- as eleições de 2014, altamente polarizadas, foram uma resposta a isso. Além disso, o autor
chama a atenção para o fato de que a rejeição a bandeiras vermelhas nas manifestações de
junho revelava o desgaste causado pelos governos PT, “que desmoralizou a esquerda ao
governar para a classe dominante”,64 como se o gesto mais amplo de ataque às estruturas
representativas, indiscriminado a diferentes matizes ideológicos, fosse direcionado ao campo
da esquerda, em função da moderação e política de conciliação dos governos petistas. Em
suma, do ponto de vista destes autores, as Manifestações expuseram o frágil equilíbrio de
forças e o colapso do modelo montado pela política de conciliação de classes imposta pelos
governos petistas.
Jessé de Souza, em sentido contrário ao proposto por Braga e Mattos, considera as
Manifestações de 2013 o “ovo da serpente do Golpe de 2016”, o momento de construção da
base popular do Golpe.

Existe uma linha clara de continuidade entre as glorificadas e midiaticamente


manipuladas manifestações de junho de 2013, as assim chamadas jornadas de
junho, e o golpe de abril de 2016. As manifestações de junho de 2013 marcam o
ponto de virada da hegemonia ideológica até então dominante e das altas taxas
de aprovação dos governos petistas. Na verdade, representam o início do cerco
ideológico até hoje mal compreendido pela enorme maioria da população
brasileira 65

Ainda que demarcasse a diferença entre um primeiro momento de protestos localizados


com foco em políticas municipais e um segundo, quando há a federalização dos protestos,
Jessé Souza, ocupado em entender o processo de desgaste da popularidade do governo
Rousseff que culminou com o golpe de 16, atribui um peso muito maior ao segundo do que ao
primeiro tempo das manifestações. Observando o problema em conjunto, é como se o segundo

58
BRAGA, Ruy. Sob a sombra... Op. cit., p. 81.
59
Ibidem, p. 82.
60
Segue a mesma linha interpretativa o trabalho: DEMIER, Felipe. Depois do Golpe: a dialética da
democracia blindada no Brasil. Rio de Janeiro: Mauad X, 2017.
61
MATTOS, Marcelo Badaró. De junho de 2013 a junho de 2015: elementos para uma análise da (crítica)
conjuntura brasileira. In: A onda conservadora: ensaios sobre os atuais tempos sombrios no Brasil. Rio
de Janeiro: Mauad X, 2016, p. 95.
6262
Ibidem, p. 98.
63
Ibidem, p. 105.
64
Ibidem, p. 106.
65
SOUZA, Jessé de. A radiografia do golpe: entenda como e por que você foi enganado. Rio de Janeiro:
Leya, 2016, p. 87.
108 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 83-110, jan./jun. 2018
Junho de 2013: crítica e abertura da crise da democracia representativa brasileira

abrisse caminho e fosse o “ovo da serpente” para as Manifestações pelo Fora Dilma que se
seguiram em 2015 e 2016.
Ao fim e ao cabo tanto a chave de análise de Braga e Mattos quanto à de Jessé Souza
enfatizam dimensões diferentes de 2013, tendo em vista seus propósitos explicativos mais
amplos e exteriores ao evento: para os primeiros, o peso maior está no que estou chamado de
primeiro tempo das manifestações, em função da compreensão dos equívocos do lulismo
gerados por sua política de conciliação de classes que, ao fim, se direcionava aos interesses do
capital; para Souza, priorizando o segundo tempo, o cerne do problema está no processo de
desestabilização encadeado a partir de 2013, tendo em vista a força que adquiriu a bandeira
do combate à corrupção nos movimentos do Fora Dilma, de 2015 e 2016. Deste modo, a
despeito da qualidade argumentativa e bem fundamentada apresentada nas análises, em um e
outro observamos a tentativa de desfazer a ambivalência entre os dois tempos, central para a
compreensão do argumento desenvolvido aqui.
Instauradas sob a vigência do lulopetismo no comando do Executivo – entendendo, em
linhas gerais, o governo Rousseff como continuação daquela formula – caracterizado pela
associação entre pacto conservador com as elites político-econômicas e um “reformismo fraco”
em âmbito social, tal como proposto por André Singer, 66 as Manifestações de 2013 revelam a
força e a fraqueza do lulopetismo. Fraqueza, na medida em que as críticas ao modus operandi
do modelo representativo atingiriam em cheio, naturalmente, à Presidência da República,
resultado e expressão daquele modelo. No entanto, cabe ressaltar, havia naquele momento
todas as condições para que as revoltas encontrassem em Dilma Rousseff um alvo mais direto
e imediato, especialmente no segundo tempo de Junho, quando a grande imprensa passou a
aderir às manifestações – cabe destacar que nunca foi amistosa a relação da grande imprensa
com Dilma. A queda da presidenta por meio de impeachment não era uma bandeira
consistente entoada nas ruas em 2013; em meio a uma plêiade de reivindicações, esta não
ganhou força. Um dado óbvio, mas que merece ser lembrado, é que a mesma Dilma Rousseff,
profundamente desgastada em 13, é candidata à reeleição presidencial um ano depois e sai
vencedora do pleito. No entanto, a força do lulopetismo não se revela somente nestes dois
aspectos mais imediatos, mas sim no modo como as Manifestações, como conjunto,
expressaram um desejo de ajuste e aprofundamento da democracia nos termos do pacto
Constitucional de 1988, executado em sua plenitude pelos governos petistas. Ou seja, as
garantias sociais mínimas produzidas nos termos do reformismo petista – capazes de
promover investimentos em programas sociais que atacavam o problema urgente da fome e
da miséria, além de garantir avanços em relação a governos anteriores em todos os
indicadores sociais e materiais, promovendo políticas de contenção da inflação combinada ao
crescimento real do salário mínimo e, sobretudo, crescimento do emprego, componentes que
criavam condições mínimas para ascensão social – somente aquele estado de coisas permitia

66
SINGER, André. Os sentidos do lulismo: reforma gradual e pacto conservador. Rio de Janeiro:
Companhia das Letras, 2012.
109 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 83-110, jan./jun. 2018
Junho de 2013: crítica e abertura da crise da democracia representativa brasileira

um horizonte que clamasse por aprofundamentos no potencial democrático nos termos de


2013.
Uma abertura de futuro que o governo Temer parece não permitir.

Daniel Pinha Silva: Professor da área de História do Brasil do Departamento de História da


Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e do Mestrado Profissional em Ensino de
História - PROFHISTORIA. Possui graduação em História pela UERJ e mestrado e doutorado em
História Social da Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). É
pesquisador associada à COMUM – Comunidade de Teoria de História da UERJ. Seus principais
temas de pesquisa são: História do Brasil Império; Literatura e História; História intelectual do
Brasil oitocentista; Ensino de História; História local.

110 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 83-110, jan./jun. 2018


n. 18, p. 111-133, jan./jun. 2018
ISSN-e: 2359-0092
DOI: 10.12957/revmar.2018.31432

REVISTAMARACANAN
Dossiê

República de Weimar, suas crises e o Nazismo como


alternativa

The Weimar Republic, its crises and the emergence of Nazism as an


alternative

Luís Edmundo de Souza Moraes


Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro
luisedmundomoraes@gmail.com

Resumo: O propósito deste artigo é o de refletir sobre as variáveis que permitem pensar sobre o fim da
República de Weimar e sobre o crescimento do Partido Nazista na Alemanha de princípios da década de
1930. A expectativa é a de, por meio da sistematização de conhecimentos consolidados na literatura
especializada, considerar o peso da crise generalizada que atinge a Alemanha a partir do inverno de
1929-1930 como fator explicativo para a derrota do projeto republicano liberal e para a emergência do
nazismo como alternativa política naquele contexto específico.

Palavras-Chave: Alemanha; República de Weimar; Nazismo; Crise.

Abstract: The purpose of this article is to consider the variables that allow us to assess the end of the
Weimar Republic and the growth of the Nazi Party in Germany in the early 1930s. It is expected that,
through the systematization of consolidated knowledge on the subject, we are able to consider the role
played by the generalized crisis that reaches Germany in the winter of 1929-1930 as an explanatory
factor for the defeat of the liberal republican project and for the emergence of Nazism as a political
alternative in that specific context.

Keywords: Germany; Weimar Republic; Nazism; Crisis.

Recebido: Novembro 2017


Aprovado: Dezembro 2017
República de Weimar, suas crises e o Nazismo como alternativa

Introdução

O colapso da República de Weimar está entre os fenômenos políticos do século XX que


mais intensamente mobilizou cientistas sociais. Não há dúvida de que parte deste apelo tem
relação com o fato de que essa primeira experiência democrático-liberal na Alemanha foi
sucedida pela ditadura nazista.
E em função de seu futuro, a República de Weimar chamou a atenção de muitos que se
confrontaram com a tarefa de dar algum sentido para a chegada de Hitler ao cargo de
primeiro-ministro da Alemanha em 30 de janeiro de 1933.
Do ponto de vista da história escrita pelos nazistas, essa conquista foi exclusivamente o
resultado da luta travada por Hitler e por seu movimento para alcançar este objetivo. Esta
ideia, presente em toda a historiografia nazista, foi expressa de modo paradigmático no título
do filme dirigido por Leni Riefenstahl: “O Triunfo da Vontade”. 1
Ironicamente, o sociólogo Paul Massing, escrevendo sob o pseudônimo de Karl Billinger,
comenta:

Os historiadores nazistas têm tido uma vida fácil. Eles não têm mais problemas
para resolver. [...] Eles têm que apresentar a história alemã como a história dos
grandes alemães apenas. O maior alemão chegou ao poder pelo próprio fato de
que ele é maior, mais enérgico e mais perspicaz do que qualquer um de seus
oponentes, porque ele lutou com as armas certas e porque ele seguiu com a
segurança de um sonâmbulo a estrada que a providência indicou para ele.2

Ainda assim, este foi um motivo que, mesmo que apresentado de forma não tão
caricata, teve vida relativamente longa no pós-guerra: Hitler deveria ser pensado como a
chave para a compreensão do fenômeno, de seus caminhos e descaminhos.
Distanciando-se dessa perspectiva, os anos trinta e quarenta veem emergir uma tese
que toma o nazismo como uma emanação da “alma” alemã ou, na melhor das hipóteses, das
profundezas da história alemã. Esta tese adquiriu diversas faces, algumas mais outras menos
sofisticadas, mas todas remetendo a uma essência dos alemães que os conduziu ao nazismo. 3.
Um conjunto grande de trabalhos, reagindo tanto ao essencialismo desta última, quanto
ao personalismo da primeira, chamou a atenção para variáveis de uma conjuntura muito
particular: os nazistas chegaram ao poder no contexto de uma longa crise econômica que foi

1
Para exemplos de como a historiografia nazista lida com o tema, Cf.: SUCHENWIRTH, Richard.
Deutsche Geschichte. Leipzig: Verlag von Gerorg Dollheimer, 1935; e, BOUHLER, Philipp. Adolf Hitler:
Das Werden einer Volksbewegung. Lübeck: Verlag von Charles Coleman, 1941.
2
BILLINGER, Karl. Hitler is no Fool: The menace of the man and his program. Nova York: Modern Age
Books, 1939, p. 88.
3
Um dos primeiros trabalhos que expressam esta virada de ênfase no olhar foi o livro de Gerhart Eisler,
Albert Norden e Albert Schreiner (The Lesson of Germany: a Guide her History. New York: International
Publishers, 1945), que volta ao movimento de reforma religiosa de Martinho Lutero para explicar o
nazismo. Variações deste mesmo motivo se encontram, entre outros em SHIRER, William L. Ascensão e
Queda do Terceiro Reich. Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, 1964. 4 vols. cf., em especial, vol.
1, cap. 4.

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República de Weimar, suas crises e o Nazismo como alternativa

agudizada pela quebra da bolsa de Nova York em Outubro de 1929.


Alguns trabalhos radicalizaram esta atenção para o contexto de depressão econômica e
acabaram por associar, de forma direta, a crise econômica e social e o crescimento do
nazismo. E os dados parecem sugerir exatamente isto:

4
Tabela 1 – Relação entre Taxa de Desemprego e votação no NSDAP (em %)

Taxa de Desemprego Votos no NSDAP

Set. 1930 18,3 14,1


Jul. 1932 29.7 37,3
Nov. 1932 28,3 33,1
Mar. 1933 34.3 43,9

A relação parece, de fato, ser direta: o movimento dos votos no NSDAP acompanha o
crescimento e o decréscimo da taxa de desemprego na Alemanha, fazendo com que as
consequências da crise tenham sido consideradas como suficientes para explicar o voto no
NSDAP e a sua chegada ao poder na Alemanha em 1933. 5
Comum a essas abordagens é a percepção de que se pode dar conta do fim da
República de Weimar e do estabelecimento da ditadura nazista por meio de explicações
fundadas em uma única variável.
Em contraposição a isto, progressivamente se afirmou a ideia de que estes fenômenos
não se permitiam ser tão facilmente explicados. Nem mesmo a correspondência,
aparentemente direta e inequívoca entre o crescimento do desemprego e o crescimento do
voto nos nazistas se mostrou tão simples depois de análises mais sofisticadas sobre
comportamento eleitoral e a variação regional de votos para os diversos partidos que
disputavam a preferência do eleitorado. 6
Com isto, especificamente em relação ao problema da crise como fator explicativo para
esses fenômenos, na historiografia se afirmou com sucesso a posição que considera que, se
não há dúvida de que a crise de 1929 teve um papel importante como impulsionadora do
aumento do apelo popular do nazismo, ela está longe de ser suficiente para explicar o fim da
República de Weimar e o estabelecimento da ditadura nazista.

4
Tabela composta a partir dos dados apresentados por: FREY, Bruno S. Economics As a Science of
Human Behaviour Towards a New Social Science Paradigm. New York: Springer Science & Business
Media, 1992, p. 54.
5
Para matizes distintos desta posição, cf.: KALTEFLEITER, Werner. Wirtschaft und Politik in Deutschland
Konjunktur als Bestimmungsfaktor des Parteiensystems. Wiesbaden: Springer Fachmedien, 1968 –
especialmente o cap. 2: Wirtschaft und Politik in der Weimarer Republik –; BORCHARDT, Knut.
Perspectives on modern German economic history and policy. Cambridge: Cambridge University Press,
1991 – especialmente o cap. 10: Economic causes of the collapse of the Weimar Republic –; e, FREY,
Bruno S. Economics As a… Op. cit. – especialmente o cap. 4: Politics: Unemployment and National
Socialism.
6
Cf., por exemplo: FALTER, Jürgen. Unemployment and the Radicalisation of the German Electorate
1928-1933: An Aggregate Data Analysis with Special Emphasis on the Rise of National Socialism. In:
STACHURA, Peter D. (org.). Unemployment and the Great Depression in Weimar Germany. New York:
Palgrave, 2001.

113 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 111-133, jan./jun. 2018


República de Weimar, suas crises e o Nazismo como alternativa

Ao refletir sobre o impacto da crise de princípios da década de 1930 na ascensão do


nazismo, este artigo se propõe apresentar estas variáveis que se afirmaram na historiografia
como ponto de partida largamente partilhado para refletir sobre o fim da república de Weimar
e o estabelecimento da ditadura nazista. O que segue, assim, busca sistematizar o
conhecimento disponível sobre as variáveis que permitem avaliar o peso da crise generalizada
para entender tanto a derrota do projeto republicano liberal quanto o fato de que ele foi
substituído pelos nazistas e não por algum outro grupo político.

1. Um voo sobre a República de Weimar

1.1 Partidos, Eleições e Governos

A República de Weimar é considerada como o período da história alemã que se segue à


queda da monarquia e à proclamação da República pelo social-democrata Philipp Scheideman
(09/11/1918) e que antecede a chegada de Hitler à função de primeiro-ministro (Chanceler)
da Alemanha (30/01/1933). Ela foi uma república democrática liberal, fundada em um sistema
parlamentarista, com representação proporcional e sem cláusula de barreira.
Os governos (Gabinetes) eram formados ou por meio de maiorias parlamentares
fundadas em alianças partidárias (governo de maioria) ou, caso uma maioria parlamentar não
pudesse ser constituída, pela “tolerância” da maioria dos parlamentares, significando isto a
concordância da maioria de não recusar o governo indicado ou mesmo de votar por sua
dissolução.
Uma variável importante do parlamentarismo de Weimar diz respeito ao lugar do
Presidente da República nesse sistema: era dele a iniciativa de indicar a formação de um
governo e de apontar o primeiro-ministro e ele tinha a possibilidade de dissolver o parlamento
e convocar novas eleições. Em situações de emergência, o presidente poderia ainda suspender
temporariamente direitos civis e governar por decreto, fator decisivo para a dissolução da
república.
Em seus processos eleitorais tomavam parte partidos nacionais, partidos locais, ou
listas eleitorais formadas por grupos de interesse, não raro, formadas para disputar uma única
eleição e com existência efêmera.
Os grandes partidos ou aqueles de representação mais estável no parlamento foram o
Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD, socialista), o Partido Comunista da Alemanha
(KPD), o Partido do Centro (Zentrumspartei ou simplesmente Zentrum, um partido católico) e
seu correspondente na Baviera, o Partido Popular Bávaro (BVP), o liberal Partido Democrático
Alemão (DDP, renomeado em 1930 para Deutsche Staatspartei – DStP), o Partido Popular
(DVP, nacionalista) e o conservador Partido Popular Nacional-Alemão (DNVP, Nacional-

114 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 111-133, jan./jun. 2018


República de Weimar, suas crises e o Nazismo como alternativa

alemão)7.
Estes partidos têm sido classificados e agrupados de formas diferentes pela literatura
sobre o tema. É frequente o seu ordenamento considerando a adesão programática de
membros e eleitores, fazendo com que eles conformem três grupos: a esquerda (social-
democratas e comunistas de matizes distintos), o campo Católico (o Zentrum e o Partido
Popular Bávaro) e o campo Burguês-Protestante (na realidade um classificador negativo por
que reunia todos os partidos que não eram de esquerda ou católicos). 8
Mas, ao considerarmos a relação dos partidos com a República de Weimar, podemos
fazer um ordenamento distinto dos partidos:
Por um lado, o campo republicano é formado em torno dos três partidos que dão
sustentação ao projeto weimariano: o Partido Social-Democrata Alemão, fundador e único
defensor permanente do projeto de uma república parlamentar liberal-democrática, o Partido
do Centro e o Partido Democrático Alemão (DDP), chamados por seus inimigos da república de
Sistemparteien, partidos do sistema de Weimar.
Por outro lado, o antirrepublicanismo se fazia representar institucionalmente, à
esquerda, por grupos comunistas de pouca expressividade e, à direita, por organizações que
iam de partidos marcadamente identificados com a monarquia como Partido Popular Nacional-
Alemão, a grupos militarizados de extrema direita como a influente organização de ex-
combatentes Stahlhelm (os capacetes de aço), e um leque grande de partidos de extrema
direita como o Partido da Liberdade Völkisch-Alemã (Deutschvölkische Freiheitspartei – DVFP)
e o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (Nationalsozialistische Deutsche
Arbeiterpartei – NSDAP), o partido nazista. A boa parte dos grupos e partidos völkisch são
absorvidos pelo NSDAP até 1933.
Além disso, esta linha de demarcação atravessa também partidos de esquerda e de
direita, nos quais tanto defensores quanto detratores da república encontram abrigo. Neste
caso, estão o Partido Comunista Alemão e Partido Popular Alemão. O KPD, apesar da linha
majoritária de luta contra a social-democracia e o projeto weimariano, possuía defensores de
uma aliança de esquerda na defesa da república contra a extrema direita. Esta posição se
consolida em um grupo de oposição denominado Kommunistische Partei-Opposition – KPO que
rompe com o KPD em 1929. Da mesma forma, o DVP votara contra a constituição aprovada
em 1919, mas participa das coalizões republicanas entre 1920 e 1931. O partido, mesmo
tendo sido um dos mais importantes sustentáculos da república, possui em suas fileiras
adversários declarados do projeto weimariano como o grande industrial Hugo Stinnes, defensor
da aproximação do DVP com o partido nazista. No final da república parte de seus quadros

7
É importante notar que o termo Nacional-Alemão está em itálico por se tratar de um campo político
chamado Deutschnationale, que é uma tendência política nacionalista ultraconservadora e de extrema
direita do cenário político alemão que possui expressão institucional em diversas associações e partidos
dentre os quais na Liga Pan-Germânica e no Deutschnationale Volkspartei (DNVP).
8
A este respeito, cf.: FALTER, Jürgen W. Wahlen und Wählerverhalten unter besondeer Berucksichtingue
des Aufstiegs der NSDAP nach 1928. In: BRACHER, Karl Dietrich; FUNKE, Manfred & JACOBSEN, Hans
Adolf (orgs.). Die Weimarer Republik, 1918-1933: Politik, Wirtschaft, Gesellschaft. Düsseldorf: Droste,
1987, p. 484-485.

115 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 111-133, jan./jun. 2018


República de Weimar, suas crises e o Nazismo como alternativa

migra para o NSDAP.9


Indo da esquerda à direita, as forças políticas representadas no parlamento são
partidos programáticos e possuem feições relativamente estáveis, mantendo identidade
programática, ainda que, em função do jogo parlamentar, existam momentos em que partidos
ou blocos de partidos reforçam uma tendência mais à esquerda ou mais à direita, alterando as
configurações de alianças e de constituição de blocos.
O movimento eleitoral ao longo dos 14 anos indica uma grande estabilidade do
percentual de votos (e de mandatos) nos campos da esquerda e dos partidos católicos e uma
variação grande no campo burguês-protestante. Para este último, a história da república foi
uma história de queda progressiva e estável de eleitores de partidos liberais, de crescimento
do conservadorismo político e, mais marcadamente, de mudança de perfil das bancadas
conservadoras, que no final da república eram claramente de extrema direita.

1.2 A paisagem política

Mas a política na República de Weimar em muito supera o terreno próprio a partidos,


eleições, parlamentos e ao Estado.
Por maiores as mudanças, um dos elementos relativamente estável nos 14 anos de
existência da República de Weimar é a configuração de campos políticos nos quais se articulam
grupos maiores ou menores, institucionalizados ou não, que disputavam projetos de futuro
para a Alemanha.
A primeira dessas divisões de campos é a que separa direita e esquerda, colocando de
um lado do espectro político agrupamentos ou partidos socialistas, comunistas e anarquistas e,
de outro, organizações Völkisch10, Monarquistas, Nacionais-alemães e conservadores. A
eficácia social desta fronteira é inegável: por ela são constituídos ambientes sociais, redes de
solidariedade e vínculos políticos entre grupos, partidos e indivíduos que se reconhecem como
parte de um ou de outro destes campos e que são mais ou menos estáveis ao longo da história
da república.
Os campos Völkish e Nacional-Alemão possuíam interseções diversas, em especial em
organizações formalmente suprapartidárias como Vereine für das Deutschtum im Ausland (VDA
– Sociedade para [o apoio aos] Alemães no Exterior). A VDA foi uma das mais importantes
organizações de massa da República de Weimar, reunindo mais de 2 milhões de membros em
milhares de grupos locais espalhados por toda a Alemanha e no Exterior e com uma agenda

9
Sobre os comunistas, cf.: FLECHTHEIM, Ossip K. Die KPD in der Weimarer Republik. Hamburg: Junius
Verlag, 1986. Sobre o DNVP e o DVP, cf.: FEUCHTWANGER, E.J. From Weimar to Hitler: Germany, 1918-
1933. London: Macmillan, 1995.
10
O adjetivo völkisch é uma palavra cujas traduções mais frequentes em geral a esvaziam de seu
sentido. Normalmente traduzida por “popular” (em casos extremos até mesmo “populista”!) o termo
refere-se, antes, a um tipo de projeto político nacionalista de extrema direita assentado sobre o
pensamento racista. Não é raro que quando se opta por não utilizar o original em alemão, o termo seja
traduzido por “racista” em outras línguas europeias.

116 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 111-133, jan./jun. 2018


República de Weimar, suas crises e o Nazismo como alternativa

política adequada ao nacionalismo excludente e racista.11


Ainda assim, não se pode deixar de enfatizar que estes “campos” não são em nada
homogêneos, existindo fronteiras internas separando em vários momentos decisivos socialistas
e comunistas pela esquerda, ou nacionalistas Völkish e conservadores e monarquistas, pela
direita.
Para além desta dimensão, um outro elemento da paisagem política da republica de
Weimar são as formações militares ou paramilitares de esquerda e de direita e que são
responsáveis pela militarização crescente da vida pública: Na extrema direita, que sempre
combateu tanto a república como a democracia liberal, estão os grupos que começaram a ser
formados ainda em 1918 por militares desmobilizados, os Corpos Francos (Freikorps), as
associações nacionais de ex-combatentes, associações de exercício militar. De destaque no
período foi o Stahlhelm, Bund der Frontsoldaten (Liga de Combatentes), organização
paramilitar que foi fundada como uma organização de ex-combatentes sem vinculação
partidária, ainda que se aproximasse do perfil de organizações da direita nacional-alemã e
völkish, pelo tipo de nacionalismo excludente e por seu antissemitismo (ex-combatentes
judeus, a partir de 1924, não foram mais aceitos como membros). Ao longo dos anos 20 o
Stahlhelm se torna um dos bastiões da agitação antirrepublicana e antidemocrática na
Alemanha e estende muito seu campo de atuações e sua composição. Em concordância com o
exército, o Stahlhelm passou a oferecer treinamento militar para jovens adultos e a atuar em
aliança com partidos do campo Nacional-Alemão e Völkish, tendo estado envolvido em
campanhas antirrepublicanas e passou a compor uma frente política com os nazistas e o DNVP
em 1931. Em 1932, com apoio do DNVP, apresentou-se com candidato próprio à Presidência
da República (Theodor Duesterberg) Em princípios da década de 1930, contava com 500.000
pessoas organizadas em suas fileiras.12
Compõe este universo, ainda, os muitos clubes-de-tiro espalhados pelo país, cujos
membros tinham um perfil político próximo aos campos Nacional-Alemão e Völkisch e
somavam cerca de 40.000 pessoas em meados da década de 1920. Além destes, existem
ainda as milícias partidárias, como a Tropas de Assalto (Sturmabteilung – SA) do Partido
Nazista, a organização do SPD chamada “Bandeira Preta-Vermelha-Dourada” (Reichsbanner
Schwarz-Rot-Gold), e a “Liga Vermelha de Combatentes” (Rote Frontkämpferbund), do Partido
Comunista Alemão.13
Ao lado das organizações paramilitares, a paisagem política da República de Weimar ,
um conjunto de instituições que fogem a um enquadramento partidário imediato, envolvendo
pelo menos 530 jornais e perto de 550 associações, clubes políticos e grupos de pressão
espalhados pelo país, além de intelectuais e personalidades que compõe a assim chamada
“Revolução Conservadora de Weimar”, a denominação dada um campo político de extrema

11
Sobre a VDA, cf.: VON GOLDENDACH, Walter & MINOW, Hans-Rüdiger. Deutschtum Erwache: aus dem
Innenleben des staatlichen Pangermanismus. Berlim: Dietz Verlag, 1994, cap. 2.
12
Sobre o Stahlhelm, cf.: FEUCHTWANGER, E. J. From Weimar to Hitler… Op. cit., p. 198-200.
13
Cf.: RICHARD, Lionel. A República de Weimar. São Paulo: Companhia das Letras, 1988, p. 131-142.

117 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 111-133, jan./jun. 2018


República de Weimar, suas crises e o Nazismo como alternativa

direita que sem qualquer unidade institucional, partilhavam de ideias e programas comuns. 14
Isto sugere que a abordagem do ambiente político no qual o partido nazista se afirma
não deva se limitar à dimensão institucional da política. A penetração social de elementos
programáticos da extrema direita no tecido social alemão não é, de fato, mensurável
exclusivamente pelo desempenho eleitoral dos partidos de extrema direita. Decisivo aqui
parece ser o fato de que elementos centrais da visão de mundo e do programa nazista
circulam cotidianamente no espaço público por serem partilhadas por outras forças políticas e
estão diariamente presentes em espaços sociais supostamente não políticos. Na realidade,
temas caros à extrema direita como o antissemitismo, o nacionalismo exclusivista e racista e o
anticomunismo foram fincando raízes para além das fronteiras políticas e sociais da extrema
direita e tiveram uma abrangência muito maior do que o desempenho em disputas eleitorais
faz crer.
Dessa forma, pensar no acolhimento eleitoral do Partido Nazista implica em não perder
de vista que o ambiente político e ideológico da República de Weimar fez dos nazistas porta-
vozes de ideias, valores e projetos políticos socialmente disseminados e que foram se
consolidando (por que circulavam já há muito tempo) e se tornando socialmente legítimos por
meio de grupos mais ou menos organizados e por instituições que não eram imediatamente
reconhecidas como instituições do mundo da política, como os partidos o são. Espaços
culturais, religiosos, esportivos também meios sociais onde essas ideias e valores eram
reproduzidos e incorporados por um número de atores e de instituições que em muito
superava o número de militantes organizados no partido nazista. 15

2. A República de Weimar e suas Crises

2.1 O Nascimento em meio a crise

A República de Weimar é em geral periodizada tendo por base o par crise-estabilidade.


Assim, ela é dividida em dois períodos de crise (1919-1924 e 1929-1933) e um período
intermediário de estabilidade (1924-1929).
O primeiro período é marcado pelo estabelecimento de uma república democrático-
liberal em meio a uma Guerra Civil e pelos efeitos do Tratado de Paz de Versailles para a
Alemanha.
A “negociação da paz” foi um processo do qual os derrotados não puderam participar. O
tratado que se propunha a construir uma paz definitiva para a Europa, foi estabelecido pelos

14
A este respeito, cf.: o estudo já clássico de SONTHEIMER, Kurt. Antidemokratisches Denken in der
Weimarer Republik. Munique: Nymphenburger Verlag, 1968; WOODS, Roger. The Conservative
Revolution in the Weimar Republic. London: Palgrave Macmillan, 1996; e, HERF, Jeffrey. O Modernismo
Reacionário: Tecnologia, cultura e política na Republica de Weimar e no Terceiro Reich. São Paulo:
Ensaio; Campinas: Ed. da Unicamp, 1993.
15
A este respeito, cf.: PEUKERT, Detlev. The Weimar Republic: The crisis of classical modernity. London:
Penguin Books, 1991, cap. 7.

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República de Weimar, suas crises e o Nazismo como alternativa

aliados na conferência de Versailles reunida a partir de 18 de Janeiro de 1919 sem a presença


da delegação alemã. Apesar da possibilidade formal de os alemães apresentarem emendas,
quase todas as propostas alternativas e mediadoras foram recusadas. Na prática isto
representou que o documento final, recebido pela delegação alemã em 16 de Junho, deveria
ser aceito ou recusado em sua integralidade, sem qualquer possibilidade de negociação. Para
aumentar a pressão, tropas francesas são deslocadas para a fronteira com a Alemanha, que
seria invadida em caso de recusa.
A marca mais profunda deixada por Versailles foi gerada por aquilo que ficou conhecido
como “a questão da culpa” (Die Schuldfrage). Por meio do artigo 231 os aliados declaram e
obrigam a Alemanha a reconhecer que recaía exclusivamente sobre ela a responsabilidade pelo
conflito e pela destruição e perda de vidas por ela provocadas.
O tratado faria a Alemanha perder um sétimo de seu território (70.579 km²), 10% de
sua população (em torno de 6,5 Milhões de habitantes), metade do minério de ferro, um
quarto do carvão mineral além de áreas importantes de produção agrícola. Além disso, a
Alemanha perdia todas as colônias no ultramar, deveria entregar parte de seus navios e
locomotivas e ainda se obrigava a pagar 132 bilhões de marcos-ouro (pouco mais de dois
bilhões anuais, mais juros e amortizações) e entregar anualmente doze por cento do valor das
exportações. O tratado estabelecia ainda zonas desmilitarizadas ao longo das fronteiras
(interferindo no princípio de soberania).16
Contra estas condições, protestos em massa têm lugar na Alemanha, onde é unânime a
percepção de que o país está sujeito à arbitrariedade dos vencedores. Tão logo foi assinado,
sua revisão se tornou o primeiro objetivo da política externa da República de Weimar durante
toda a sua existência. Paralelamente, o Tratado se torna uma arma eficaz no processo de
deslegitimação progressiva do regime republicano e das forças políticas que o sustentavam.
Ele se torna, assim, combustível para a agitação antidemocrática e um elemento decisivo no
processo de deslegitimação da República e da social-democracia, associada ao longo dos 14
anos da república à ideia de traição à nação pela assinatura do Diktat e por ter sido
responsável pela derrota dos exércitos alemães na Guerra. 17
Além de ser um peso político de grande alcance, o Tratado de Versailles provocou de
forma direta uma aguda crise econômica. O pagamento das reparações e a fragilização da

16
A respeito do Tradado e da questão das reparações, cf.: HAFFNER, Sebastian et al. Der Vertrag Von
Versailles. Frankfurt a.M./Berlim: Ullstein, 1988.
17
Trata-se aqui do chamado “Mito da Punhalada pelas Costas” (die Dolchstosslegende). Este é um tema
político de grande alcance quando se tem em vista o processo de deslegitimação das forças que
sustentam a primeira república alemã. Trata-se de uma teoria conspiratória elaborada e propagada
inicialmente pelo próprio Alto Comando do Exército Responsável direto pela construção e propagação do
mito antirrepublicano foi o ex-chefe do Estado Maior do Comando Geral do Exército, o General Erich
Ludendorf, que até meados dos anos 20 seria a pessoa de maior proeminência da extrema direita na
Alemanha, curiosamente um dos envolvidos no esforço de persuadir o Imperador a buscar o armistício
em função de derrotas decisivas sofridas pelo exército na frente de batalha. Segundo este mito, a
Alemanha não havia sido derrotada no campo de batalha e os militares teriam tido todas as condições de
levar o país à vitória não fosse pela traição de setores civis da política alemã, nomeadamente a social-
democracia, a esquerda liberal e os judeus, que não teriam dado ao exército as condições de continuar a
luta até a vitória, fazendo uma revolução doméstica contra a nação e o império e abrindo um período de
caos político e social.

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República de Weimar, suas crises e o Nazismo como alternativa

economia alemã daí decorrente fez com que a inflação, constante na república, tenha dado
sinais de descontrole, com uma drástica desvalorização do Marco.
Em 11 de Janeiro de 1923, tropas franco-belgas ocuparam a Renânia e o Ruhr, regiões
industriais e de produção de carbono, depois do governo francês ter acusado a Alemanha de,
propositalmente, não pagar as indenizações. Ante a essa situação, o Governo do primeiro-
ministro Wilhelm Cuno interrompe todos os pagamentos a franceses e belgas e dá início à
chamada resistência passiva: de Berlim veio a diretiva para que os funcionários não
obedecessem as ordens das forças de ocupação e é declarada uma greve geral na região.
Grupos militarizados de extrema direita se organizam e praticam atos de sabotagem.
A ocupação da região do Ruhr produz uma queda significativa da receita do estado ao
lado do aumento significativo de gastos para a sustentação da “resistência passiva”, que
chegou a custar algo como 30 milhões de marcos-ouro por dia. A desvalorização da moeda é
tão rápida e tão grande que o câmbio pula de quase 18.000 marcos por dólar, em janeiro de
1923 para a impressionante cifra de mais de 4 trilhões de marcos por dólar em novembro.
Por outro lado, a invasão franco-belga e a política de resistência passiva produzem um
grau de unidade ainda inédito na Alemanha do pós-guerra, reunindo em um mesmo esforço
desde a extrema esquerda a grupos de extrema direita. 18 Contudo, mesmo com este
reposicionamento conjuntural das forças políticas em apoio ao governo republicano em função
da ocupação do Ruhr, a crise econômica e social vai se tornar uma marca negativa perene na
imagem da república, mantendo-se mesmo depois da recuperação econômica e de uma
relativa estabilidade política que começa a desenhar-se em finais de 1923.

2.2 A Estabilidade Ilusória

As medidas iniciais para reverter o quadro de crise aguda e hiperinflação incluíram uma
reforma monetária e a negociação, em agosto de 1924, de um plano que permitisse que a
Alemanha pagasse as reparações e recuperasse suas finanças e sua economia. O Plano Dawes
teve o objetivo de reabilitar a moeda, reaquecer a economia e garantir o pagamento das
reparações por meio de empréstimos externos (de curto prazo e vindos fundamentalmente dos
Estados Unidos). Além disso, revendo parcialmente determinações do Tratado de Versailles, o
pagamento de reparações foi submetido à capacidade econômica da Alemanha.19
Os efeitos econômicos e políticos dessas iniciativas, tanto no cenário internacional,
quanto no doméstico, foram positivos e em um prazo curto, a economia dava sinais de
recuperação e as tensões sociais diminuíam. As reações negativas ao Plano Dawes foram

18
Os nazistas, ao que parece de forma isolada, assumiram posição contrária à ("desonrosa" e
"vergonhosa") resistência passiva, que consideraram mais um ato de traição à nação por parte da
coalizão de Weimar e fizeram um chamamento a uma “resistência ativa” de um outro tipo: “A palavra de
ordem, disse Hitler em um discurso em princípios do ano, não deve ser ‘abaixo a França’, mas abaixo os
traidores da pátria, abaixo os criminosos de novembro.” Citado de acordo com: MASER, Werner. Der
Sturm auf die Republik: Frügeschichte der NSDAP. Frankfurt/M. E Berlim: Ullstein, 1981, p. 368.
19
Sobre o plano Dawes, cf.: MOMMSEN, Hans. The Rise and Fall of Weimar Democracy. Chapel Hill e
Londres: The University of North Carolina Press, 1996, esp. cap. 6.

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República de Weimar, suas crises e o Nazismo como alternativa

bastante reduzidas e limitadas aos comunistas e à extrema direita völkisch. Até mesmo a
direita antirrepublicana freiou seus ataques à coalizão.
Ainda assim, foi pequeno o impacto da já sensível estabilização do país nas duas
eleições de 1924 (maio e dezembro). Em maio, somente o Zentrum não experimentou perdas
significativas. Em Dezembro o quadro se altera um pouco, com um crescimento pequeno do
DDP e do DVP, e uma retomada mais significativa do SPD, mas que não encobriu o avanço do
KPD, que quadruplicou sua representação, e de forças antirrepublicanas de direita: o DNVP
com 95 cadeiras em maio e 103 em Dezembro e uma coalizão de grupos völkisch, no qual
estava o NSDAP, com 32 cadeiras em maio e 14 em Dezembro.
Essa tendência se mostra ainda mais visível em 1925 nas eleições para Presidente da
República, convocadas devido à morte do Social-Democrata, Friedrich Ebert. Três candidatos
foram para um segundo turno: Wilhelm Marx, candidato da Coalizão de Weimar (SPD, DDP,
Zentrum) Paul von Hindenburg, general, último chefe do comando supremo do exército,
monarquista e candidato do campo antirrepublicano, e Ernst Thälmann, do Partido Comunista
Alemão. Hindenburg, com 48,5% dos votos, foi vitorioso, seguido por Marx (45,2%) e
Thälmann (6,3%).
A eleição de um presidente antirrepublicano coincide com a radicalização de uma
tendência à direita dos partidos liberal e de centro-direita (DDP, Zentrum, DVP), e à extrema
direita völkisch do partido Nacional-Alemão (DNVP), todos eles cada vez menos dispostos a
compor maioria parlamentar com o partido social democrata.
As eleições de 1928 pareceram fazer um freio a esta tendência. Foram justamente estes
partidos os que sofreram as maiores perdas nestas eleições: das 264 cadeiras conquistadas
em 1924, estes partidos só conquistaram 179 mandatos em 1928. A derrota do Bloco Burguês
viu o crescimento dos social-democratas e dos comunistas (que pularam de 176 para 207
cadeiras em conjunto), fazendo com que a social-democracia, com seus 153 mandatos
conquistados voltasse a entrar no cálculo político destes e fosse praticamente incontornável
para a composição de um governo. Daí derivou a “Grande Coalizão” tendo à frente o social-
democrata Hermann Müller, que governaria a República até 1930, quando foi dissolvida pelo
presidente.
Mas, talvez, o fenômeno que particulariza esta eleição foi a distribuição de mais de 20%
de votos a um número grande de partidos que eram em geral contabilizados como sonstige
(“outros”), nas estatísticas eleitorais. Partidos pequenos ou minúsculos, muitos dos quais eram
os chamados “Partidos de Grupos de Interesse” (Interessenparteien), quase todos sem
representação parlamentar anterior e cada um deles tendo obtido menos que 5% do total de
votos, como o Partido Alemão-Hanoveriano, a Liga Eleitoral de Braunschweig, o Partido
Camponês e o Partido da Classe Média Alemã (Reichspartei des deutschen Mittelstandes).20
Traço comum a quase todos estes partidos é o seu perfil claramente nacionalista,

20
Os resultados detalhados das eleições ao longo da República estão disponíveis em: <www.wahlen-in-
deutschland.de>. Acesso em: 25 nov. 2017. Sobre o perfil dos Interessenparteien, cf.: CHILDERS,
Thomas. The Nazi voter: The Social foundations of Fascism in Germany, 1919-1933. Chapel Hill: The
University of North Carolina Press, 1983, p. 42-43.

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República de Weimar, suas crises e o Nazismo como alternativa

antissocialista e sua distância do campo republicano. Neste sentido, a fragmentação dos votos,
sinal de problemas de legitimidade de partidos majoritários, foi acompanhada de um sinal
adicional: a queda na legitimidade da república como projeto.
A república chega em princípios dos anos 30, assim, deslegitimada socialmente. E é no
início dos anos 30 que ela seria atingida em um de seus pilares fundamentais: o Parlamento.
Isto porque um projeto gestado no âmbito da presidência da república e colocado em prática a
partir de maio de 1929 teve o objetivo de “retirar poder do parlamento e excluir os social-
democratas da política de forma a transformar a democracia parlamentar em um estado
autoritário governado pela direita”.21 E estes movimentos contaram com a anuência de
partidos e personalidades que davam formalmente sustentação ao governo da “Grande
Coalizão”.
O presidente depõe o primeiro-ministro do SPD e coloca em seu lugar o conservador
Heinrich Brünig (Zentrum). Este foi o momento em que, progressivamente, os decretos
presidenciais (Artigo 48) tenderam a substituir o parlamento na atividade legislativa,
solapando aos poucos o sistema político democrático-liberal da república e estabelecendo
aquilo que fico conhecido como Gabinetes Presidenciais (Presidialkabinette), uma forma de
exercício do poder fundado no autoritarismo das decisões monocráticas do presidente
antirrepublicano Paul von Hindenburg. Este procedimento expandiu, contrariando o espírito da
constituição, os poderes da presidência em detrimento do parlamento. Isto levou historiadores
a dizer que, com a normalização dos gabinetes presidenciais, a república de Weimar começou
a se dissolver.
É também neste tempo de estabilidade que se amplia o espaço do nacionalismo
exclusivista e o vigor público e a capacidade de disseminação de ideias e de valores de
organizações de extrema direita, dentre os quais o NSDAP.
É justamente neste tempo de estabilidade que o partido altera de forma decisiva sua
forma de se organizar e de se apresentar publicamente, produzindo impacto em eleições
regionais neste período, mas, acima de tudo, em 1930.

3. O NSDAP na República de Weimar: do golpismo ao gigantismo

O Partido Nazista é fundado em 1919 em Munique, Capital da Baviera, como Deutsche


Arbeitpartei e muda de nome em 1921, quando passa a se chamar Nationalsozialistische
Deutsche Arbeiterpartei (NSDAP). Hitler, que se aproxima do partido ainda em 1919, se
projeta como propagandista em função de sua capacidade de oratória e isto lhe dá destaque
no partido e no campo da extrema direita em Munique. Até novembro de 1923, quando ganha
projeção nacional por conta de uma tentativa frustrada de golpe de Estado, Hitler e o NSDAP
se movimentam no interior do campo político Völkisch mais amplo, do qual Erich Ludendorff,

21
KOLB, Eberhadt. The Weimar Republic. New York: Routledge, 2004, p. 116.

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República de Weimar, suas crises e o Nazismo como alternativa

general e membro de destaque do último Comando Supremo do Exército durante a Primeira


Guerra Mundial, é a figura de maior proeminência.
Conhecido como o “Golpe da Cervejaria” foi uma tentativa de derrubar o governo da
república levada a cabo pela Associação Kampfbund (literalmente “Liga de Combate”), como
era conhecida a Arbeitsgemeinschaft der Vaterländischen Kampfverbände, (Grupo de Trabalho
das Associações Patrióticas de Combate), uma organização “guarda-chuva” de grupos
paramilitares e organizações völkisch, dentre as quais se destacava o partido nazista.22
O golpe, aproveitando uma reunião convocada pelo Governo bávaro na
Bürgerbräukeller, uma das maiores cervejarias de Munique, teve início na noite de 8 de
Novembro. Interrompendo teatralmente a reunião, Hitler declara depostos os governos de
Munique e de Berlim. Sem o apoio esperado, na madrugada do dia 9, os golpistas organizam
uma marcha com o objetivo de conquistar apoio da população e de algumas unidades
militares. Porém, isolado, o movimento encerra-se, numa barricada da polícia no centro da
cidade. O tiroteio deixa um saldo de 14 golpistas e três policiais mortos e com a prisão da
maioria das lideranças.
A prisão e o julgamento de Hitler o projetam como figura nacional com uma intensidade
inédita. Apesar de haver cometido o crime de alta-traição, uma corte altamente leniente o
condena a somente nove meses de prisão na fortaleza de Landsberg, tendo cumprido somente
seis antes de ser colocado em liberdade condicional.
No momento em que foi proibido, o partido conta com um jornal nacional (o Völkischer
Beobachter – “O Observador Völkisch”) e um pouco mais de 55.000 membros, organizados de
forma fluida em aproximadamente uma centena de “organizações afiliadas” fora de Munique,
mas que eram pouco controladas pelo comitê executivo do partido. 23
Depois da tentativa frustrada de golpe, o jornal do partido é proibido, boa parte de seus
membros são absorvidos por outras organizações do movimento Völkisch e o "centro" em
Munique perde, em alguns casos, parcial, em outros totalmente, o pouco do contato que
conseguia ter com os grupos organizados em torno do agora ilegal NSDAP.
A secundarização da construção de uma estrutura formal de partido está
profundamente relacionada com as dimensões de seu projeto estratégico perseguido até esse
momento. Tal como boa parte do movimento Völkisch, o NSDAP definia como seu objetivo final
a derrubada da República de Weimar. Não é, portanto, sem razão que Hitler rejeita a
participação do partido em quaisquer disputas eleitorais e opta pelo caminho do golpe político-
militar.
Em 1925, logo após ter sido "re-legalizado", o partido conta com aproximadamente

22
Sobre o Golpe, cf.: EVANS, Richard. A Chegada do Terceiro Reich. São Paulo: Planeta, 2010, p. 230 ss.
23
No interior deste campo político Völkisch não é incomum que os partidos sejam bastante
regionalizados, muitas vezes fortes e bem organizados em uma só cidade, e que recebam a filiação de
organizações, também regionais e locais, que lhes sirvam de “correias de transmissão” em lugares que,
de outro modo, não poderiam ser alcançados por sua propaganda ou por sua organização. Para uma
história do NSDAP até o Golpe de 1923, cf.: MASER, Werner. Der Sturm auf die... Op. cit.,. Para uma
discussão sobre a composição social e as dimensões do partido e sua composição social até este
momento, cf.: KATER, Michael H. Zur Soziographie der frühen NSDAP. In. Vierteljahrshefte für
Zeitgeschichte. Nr. 19, 1971(2), p. 124ss.

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República de Weimar, suas crises e o Nazismo como alternativa

20.000 membros e passa por uma grande reformulação da estrutura organizativa. Um duplo
aspecto envolve esta questão. Por um lado, a tática golpista que levara ao Putsch de Munique
é reavaliada e por outro há uma definição mais precisa tanto do projeto estratégico quanto do
papel da estrutura partidária na consecução desse projeto.
Ao longo de 1924, algumas das alterações nas diretrizes políticas do partido já vinham
sendo elaboradas por Hitler. “Quando eu retomar minhas atividades”, ele teria declarado ainda
na prisão a Kurt Ludecke, comerciante ligado ao Partido, “será necessário perseguir uma nova
política. No lugar de buscar conquistar o poder por meio de uma conspiração armada,
deveremos nos concentrar em entrar no Reichstag contra os católicos e os marxistas. Se
ganhar deles no voto não leva mais tempo do que ganhar deles na bala, pelo menos os
resultados vão ser garantidos por sua própria constituição”. 24 A “Revolução Legal” foi como o
partido denominou esta nova estratégia.
Quando sai de Landsberg, Hitler e sua "facção" propõem condicionantes para a
reorganização do partido. Estas condições dizem respeito ao controle da direção partidária por
este grupo. Desta forma, o que se observa é a verticalização e a monolitização do partido em
torno de Hitler, com o seu centro dirigente, a partir daí, desarticulando as facções pelo
princípio da "submissão ou exclusão".
A autoridade de Hitler no partido por meios administrativos se fez acompanhar da
opção consciente de afirmá-la simbolicamente por meio do “culto ao Führer”. A saudação
nazista, talvez a forma mais imediatamente visível da idolatria a Hitler, foi tornada compulsória
em 1926 e foi acompanhada da institucionalização da construção de Hitler como uma
“liderança heróica”.25
A partir de 1926, a opção pela chamada “Revolução Legal” deu nova importância à
participação em processos eleitorais locais, regionais e nacionais, que passou a direcionar a
reorganização bem como todas as atividades partidárias.26
Com este propósito, o partido, sob o comando do secretário nacional de organização,
Gregor Strasser, redesenha sua estrutura organizativa (chamada simplesmente de Organização
Política – P.O.), redefine a sua distribuição regional de forma a adaptar as suas Gaue (regiões
administrativas do partido) às vinte seis grandes regiões eleitorais da Alemanha, cada uma das
quais dirigidas por um Gauleiter (chefe regional). Subordinados às Gaue estavam os círculos
(Kreis), que correspondem a grupos organizados em cidades ou distritos (maiores ou
menores), dirigidos por um Kreisleiter, chefe distrital. Abaixo dos Kreise encontram-se os
Orstgruppen, grupos locais, dirigidos por um Orstgruppenleiter. O espaço de ação dos grupos
locais foi definido como aquele de uma comunidade com algo em torno de 1500 famílias.
Diretamente subordinados aos Orstgruppen estavam as organizações de base

24
NOAKES, Jeremy & PRIDHAM, Geoffrey. Nazism 1919-1945: A Documentary Reader. Exeter: University
of Exeter Press, 1991, vol. I, p. 37.
25
Sobre este processo, cf.: KERSHAW, Ian. Hitler. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, cap. 7:
Domínio do Movimento, especialmente p. 217ss.
26
Sobre as mudanças na organização partidária, cf.: BRACHER, Karl Dietrich. Die Deutsche Diktatur.
Berlin. Ullstein, 1997, cap. 3; e, EVANS, Richard. A Chegada do Terceiro... Op. cit., p. 265-275.

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República de Weimar, suas crises e o Nazismo como alternativa

propriamente ditas: as Zellen (células) responsáveis por uma área que incluía entre 160 e 480
famílias; e o Block, submetido às Zellen e responsável por uma área que consistia de 40 a 60
grupos familiares.
A outra mudança decisiva na estrutura partidária dizia respeito a seus departamentos
como finanças, propaganda etc. A organização da propaganda partidária dá um exemplo
importante dessas transformações.
Até a proibição das atividades do partido em 1923, a propaganda política resumia-se
quase que exclusivamente aos comícios e à atividade militante da SA. Existiam responsáveis
nas regiões (Gaue), mas que eram subordinados às direções regionais, o que faz com que o
controle central das atividades locais seja bastante precário ou inexistente, visto que as
próprias divisões internas e as lutas pelo controle do aparelho enfraquecem esta pretensa
homogeneidade e centralização.
A partir de 1925, após iniciado o processo de "reconstrução", a estrutura da
propaganda partidária ganha novos contornos. O controle da propaganda segue a lógica da
centralização do partido em torno de Hitler e de seu "grupo". Enquanto a estrutura local era
ainda a responsável pela seleção e formação de seus "oradores" e pela forma como eram
conduzidas campanhas eleitorais ou pela organização da imprensa partidária, as variações de
abordagem das "grandes questões" tendem a deixar de existir com a diluição das divisões
internas.
Com a redefinição tática e estrutural do partido, o NSDAP passa a contar com um
departamento responsável somente pela propaganda partidária. Esta passa a ser
absolutamente verticalizada e "paralela" à própria estrutura formal do partido: todas as
instâncias partidárias passam a ter um responsável pela propaganda, submetido diretamente
ao seu superior departamental. Duas prioridades quanto à organização do trabalho de
propaganda são definidas: recrutar "formadores de opinião" em todas as categorias ou
segmentos correspondentes aos "departamentos" e "formar quadros" de maneira centralizada
objetivando não só a capacitação para as atividades de propaganda propriamente ditas bem
como a própria preparação de quadros para assumir funções dirigentes no partido ou no
estado.27 Além disso, definiu-se uma estrutura interna de assessoria aos "oradores" enviados a
cada região cujo papel era amparar a atividade com o máximo de informação possível sobre
política e economia locais etc. Inicialmente Heinrich Himmler e, a partir de 1929, Joseph
Goebbels dirigiram a secretaria nacional de propaganda e passaram a controlar todos os
aspectos da atividade de propaganda do partido, incluindo parte importante de seus rituais.28
Além disso, na segunda metade da década de 20, ao lado da Organização Política
(P.O.), são constituídas organizações capilares como a Juventude Hitlerista (Hitlerjugend – HJ),

27
Nesta época, o partido passou a contar com cursos de treinamento mais ágeis "enviados" às diversas
regiões, outros por correspondência, e foi construída uma escola do NSDAP para oradores, estabelecida
em 1929.
28
Sobre a propaganda, cf.: BRACHER, Karl Dietrich. Die Deutsche Diktatur. Op. cit, p. 214ss; e, OHR,
Dieter. NS Propaganda und Weimarer Wahlen: Empirische Analysen zur Wirkung von NSDAP-
Versammlungen. Wiesbaden: Springer Fachmedien, 1997.

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República de Weimar, suas crises e o Nazismo como alternativa

a Organização Nacional Socialista de Mulheres (Nationalsozialistische Frauenschaft – NSF) e


organizações por ramo de atividades como a dos estudantes universitários, de professores
escolares, de advogados, de operários fabris, agricultores etc., que, podiam ser representadas
em todas as instâncias do partido, dos núcleos até o topo. A partir de 1928 verifica-se,
progressivamente, uma mudança operacional destas organizações: estes departamentos
tornam-se também verticalizados e "paralelos" à Organização Política (P.O.). Esta alteração
objetivava intensificar o trabalho de propaganda militante junto aos segmentos
correspondentes em função de suas especificidades.
Com este amplo processo de reestruturação, pereniza-se o trabalho organizativo e
propagandístico do partido fazendo com que ainda no final da década de vinte o NSDAP ganhe
proporções de um partido de massas voltado para a conquista de espaços institucionais na
política alemã. O crescimento anual das tiragens médias do jornal Völkischer Beobachter dão
um sinal deste crescimento: de 1926 a 1927 o crescimento foi de pouco mais de 26%, de
1927 para 1928 de pouco mais de 21%, de 1928 a 1929 foi de em torno de 60% e de 1929
para 1930 de pouco mais de 200%. A partir daí o crescimento das vendas cai
proporcionalmente e entre 1930 e 1931 chega a 28% e de 1931 a 1932 foi pouco mais de
16%.
O crescimento do número de membros do partido também é um bom índice da
ampliação da influência do partido nos anos acompanha esta tendência.
Tendo em torno de 27.000 membros em 1925, o partido encerra o ano de 1928
contando 100.000 membros. Um ano depois já contabiliza 178.000 e em março de 1930 já são
210.000. No final de 1932 os membros do partido somavam cerca de 1.000.000. 29

Paralelamente, o partido, em sua apresentação pública, ameniza seu ímpeto


anticapitalista para tornar-se palatável a setores mais amplos do eleitorado. Contudo, ele é
ainda tomado como um partido inexpressivo em função de sua representação no Reichstag:
somente 2,8% de votos obtidos nas eleições de 1928. Porém, estes ajustes de rota bem como
seu processo de reestruturação mostraram seus primeiros frutos em eleições regionais em
1929, com índices de crescimento surpreendentes: na Saxônia: de 1,6 (10/1926) para 5%
(05/1929); em Baden: de 1,2 (10/1925) para 7% (10/1929); em Berlin: de 1,5 (10/1925)
para 5,8% (12/1929) e na Turíngia: de 3,5% (01/1927) para 11,8% (10/1929). As eleições na
Turíngia levaram o partido a, pela primeira vez, compor uma coalizão governamental. Wilhelm
Frick passou a ocupar a pasta do Interior e da Educação. Todos estes avanços foram sentidos
antes mesmo que os efeitos da crise que teve início com a quebra da bolsa de Nova York
fossem sentidos de forma plena na Alemanha.30

4. Os nazistas tornam-se alternativa

29
Ibidem, p. 229-239.
30
Dados extraídos de: FEUCHTWANGER, E. J. From Weimar to Hitler... Op. cit., p. 215.

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República de Weimar, suas crises e o Nazismo como alternativa

Ainda no ano de 1929, duas oportunidades oferecidas pela conjuntura permitiram ao


NSDAP ampliar sua exposição pública e alterar a sua posição: por um lado, a ampliação dos
vínculos do NSDAP com os conservadores e, por outro, a conjuntura de crise econômica
mundial.
A primeira oportunidade foi aberta pela adoção pela Alemanha do Plano Young em
junho de 1929. Trata-se de um novo acordo sobre o pagamento das reparações previstas pelo
Tratado de Versailles, resultado do esforço do Ministro das Relações Exteriores Gustav
Stresemann para rever as condições de pagamento de reparações estabelecidas pelo Plano
Dawes.31
O plano abre para a oposição de direita e de extrema esquerda, a possibilidade, mais
uma vez, para desgastar a república por meio do Tratado de Versailles. As reações a este
segundo plano começaram tímidas, tendo a frente o KPD e o DNVP. Mas, para os nazistas, a
luta contra o plano traz benefícios de longo alcance. Graças ao novo líder antirrepublicano dos
nacional-alemães, Alfred Hugenberg, os nazistas são "convidados" a cooperar com uma
campanha nacional contra o plano, que reuniria o nacionalismo ultraconservador, monarquistas
e figuras proeminentes da burguesia industrial.
Esta campanha coincidiu com a depressão econômica mundial advinda da quebra da
bolsa de valores de Nova York, que em pouco tempo produz efeitos devastadores na
Alemanha. Porém, tão importante quanto a coincidência com a crise, foi a coincidência com os
processos eleitorais regionais. Com a chance inédita de contar com os fundos e o espaço de
propaganda fornecido pelo império de Hugenberg (que incluía inúmeros jornais diários por
toda a Alemanha), os nazistas aproveitaram de imediato a oportunidade, demandando, porém,
completa independência propagandística e uma "boa parte dos fundos ofertados". Além disso,
a campanha contra o Plano Young e a aproximação com os nacional-alemães representou, para
os nazistas, a saída de um gueto político relativamente estreito do campo völkisch e a
possibilidade de atingir setores médios e de elite até então receosos da radicalidade do
partido.
Ao lado disso, a crise aberta pela quebra da bolsa de Nova York em 1929 atinge a
Alemanha entre fins de 1929 e princípios de 1930. A crise representou para a Alemanha não
somente a interrupção abrupta da entrada, mas também a retirada dos capitais que
possibilitaram a relativa estabilidade econômica do país. Com ela vieram uma recessão
econômica aguda e uma crise social sem paralelo.
Até setembro de 1930 o número de desempregados saltou de 1,3 para 3 milhões. Um
ano mais tarde eram 5,1 milhões e em princípios de 1933 a fronteira dos seis milhões de
desempregados foi ultrapassada.

31
O Plano Young dizia respeito, basicamente, à reprogramação dos pagamentos (redução das anuidades)
e a um empréstimo a ser feito à Alemanha. O peso do plano se encontra, porém no fato de haver
confirmado o artigo 231 de Versailles (que tratava da culpa da Alemanha pela guerra) e de a
renegociação projetar os pagamentos até 1988. Sobre a renegociação dos pagamentos e o plano Young,
cf.: MOMMSEN, Hans. The Rise and Fall… Op. cit., p. 288-275.

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República de Weimar, suas crises e o Nazismo como alternativa

Ao lado disso, aquela que é a instituição por excelência do parlamentarismo


democrático-liberal começou a ser desmontada por uma ação iniciada em meados de 1929
pela presidência da república, mas levada a efeito em comum acordo com um parlamento cada
vez mais conservador.
O propósito seria o de isolar a social-democracia e construir uma alternativa autoritária
para a Alemanha, dissolvendo, por meio de uma aliança de partidos e grupos conservadores,
as instituições do sistema político de Weimar. Os golpes sequenciais e decisivos contra as
instituições republicanas foram corrosivos para o sistema de Weimar.
A partir de 1930, governos sucessivos dispensaram as maiorias parlamentares e,
deformando os pilares da constituição, transformaram o sistema político em um sistema
autoritário, cada vez mais marcadamente de direita. Os governos de minoria se ancoravam nos
decretos presidenciais permitidos pelo artigo 48 para situações de emergência e de risco das
instituições. Com os primeiros-ministros conservadores Heinrich Brüning (março de 1930 a
maio de 1932), Franz von Papen (junho a dezembro de 1932) e general Kurt von Schleicher
(Dezembro de 1932 e Janeiro de 1933), que não escondiam seus desejos de desativar o
sistema parlamentar, este recurso serviu de instrumento para tirar, em termos práticos, o
parlamento do jogo político.
No quadro partidário, a conjuntura de crise e radicalização fez com que, até mesmo nos
partidos que davam sustentação à república, tendências políticas mais conservadoras ou de
direita saíssem vitoriosas, representando a retomada de uma linha política de enfrentamento
radical com o projeto republicano.
O outro espaço de onde se evidencia a polarização política são as ruas. Ao mesmo
tempo em que este momento vê um processo de ascensão de grupos e partidos da extrema
esquerda e da extrema direita, as milícias partidárias ganham um novo ímpeto, em suas
disputas por espaço e em seus confrontos geravam um clima de agitação e caos social.
A conjuntura marcada pelo clima de crise social e de rearranjos na paisagem político-
partidária e a ajuda de Hugenberg em projetar publicamente o partido, foram bem
aproveitadas pelo NSDAP no sentido de confirmar a tendência de crescimento eleitoral. As
eleições de setembro de 1930, de fato, representam uma ruptura histórica para o partido
nazista e um abalo profundo no movimento eleitoral relativamente estável da Alemanha. Em
dois anos o NSDAP saiu de 2,8% para 18,3% de votos para o parlamento nacional, o que
representou em termos absolutos sair de 812 mil para 6,4 milhões de votos.
Com isto o partido não somente ganha projeção inédita no cenário político alemão como
também reforça a tendência do conservadorismo antirrepublicano de se aproximarem do
partido. E a aproximação com o DNVP de Hugenberg se transforma em condição de
possibilidade para o NSDAP se tornar mais palatável para a elite alemã. Isto ganha
materialidade prática em 1931 com a constituição da Frente de Harzburg, que foi formada pelo
esforço de Hugenberg de reunir a chamada “oposição nacional” (ultraconservadora) em um
bloco político. O bloco se concretiza em um grande comício na cidade de Bad Harzburg, no
qual estiveram presentes membros de setores distintos das elites alemães: agraristas,

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República de Weimar, suas crises e o Nazismo como alternativa

industriais, militares, aristocratas, e lideranças pan-germanistas. A frente teve curta duração,


mas representou a ampliação dos contatos do partido nazista com as elites alemãs e
possibilidades até então inéditas de financiamento.
A combinação de crescimento eleitoral e de número de membros do partido e de
estreitamento das relações com parte da elite alemã torna o nacional socialismo desejado por
setores conservadores antirrepublicanos, que dominavam a cena política desse momento.
A candidatura de Hitler á presidência da república, na qual conquista nos dois turnos
30,1 e 36,8 dos votos (março e abril de 1932) e o desempenho do partido nas eleições de
julho de 1932, quando conquistou 37,3% dos votos, transformam-no em uma aposta da
direita alemã para uma coalizão de direita que buscaria solucionar a crise política na qual a
Alemanha havia mergulhado.
Na primeira tentativa, Hindenburg se recusa a aceitar a exigência de Hitler para compor
um governo: ser Primeiro-Ministro. Depois desta recusa dos nazistas, registra-se o primeiro e
mais grave revés eleitoral do partido. Nas novas eleições para o Reichstag em novembro, o
NSDAP perde algo em torno de dois milhões de votos, reduzindo sua participação a 33,1% e,
como saldo, experimenta também uma crise interna.
Em seu diário, Joseph Goebbels, líder proeminente do partido, registra o abatimento
que parece ter tomado conta do partido após as eleições de novembro de 1932:

6.11.1932 – “Nós tomamos uma pancada. [...]”


10.11.1932 – “Novamente em Berlim. O clima no partido, que no começo era
muito positivo, degringolou em depressão. Por toda a parte só se vê
aborrecimento, brigas e desentendimentos.”
24.12.1932 - O ano de 1932 foi uma eterna maré de azar. [...] Lá fora a paz do
Natal está nas ruas. Estou sentado sozinho em casa, pensando sobre muitas
coisas. O passado foi duro, e o futuro é escuro e opaco; todas as perspectivas e
esperanças desapareceram por completo.32

Esta avaliação feita por Goebbels foi partilhada por muitos outros membros da própria
direção do Partido Nazista.. E de fato a situação do partido era, hoje sabemos, muito delicada.
Ao lado de dívidas, a queda nas assinaturas do jornal Völkischer Beobachter, o
desmoronamento de uma direção coesa, fator preponderante de sua intervenção no espaço
público desde a reorganização, indicavam problemas à frente. Além disso, nas eleições
regionais e locais na Turíngia, que tiveram lugar em Dezembro, o partido amargou perdas de
mais de 40% dos votos obtidos nas últimas eleições para o parlamento nacional, o cenário
parecia ser, de fato, sombrio.33
O crescimento do partido e os votos conquistados não só não eram vistos pelos
contemporâneos como um sinal inequívoco de que a vitória política, representada pela
nomeação de Hitler à chancelaria do Reich, estaria assegurada, mas muitos deles avaliaram
que o melhor momento para os Nazistas havia passado.

REUTH, Ralf Georg (ed.). Joseph Goebbels Tagebücher. München: Piper, 1999, vol. 2, p. 714, 717,
32

740.
33
Cf.: FLECHTHEIM, Ossip K. Die KPD in… Op. cit., p. 225-227. Sobre a crise no partido derivada desta
conjuntura, cf.: MOMMSEN, Hans. The Rise and Fall… Op. cit., p. 504 ss.

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República de Weimar, suas crises e o Nazismo como alternativa

Entre novembro de 1932 e janeiro de 1933, mesmo tendo recentemente nomeado


Schleicher como primeiro-ministro de mais um gabinete presidencial, pressões vindas de
grupos de interesse que insistiram com o presidente Hindenburg para que a Chancelaria fosse
entregue a Hitler.
A primeira petição foi enviada ainda em novembro por um grupo pouco representativo
de banqueiros, industriais, ainda que com apoio firme dos grandes proprietários de terras. A
ela se seguiu outra que, em janeiro, ampliou um pouco o número de signatários, ainda que
sem incorporar representantes de associações da grande indústria.
A aposta, articulada pelo ex-primeiro-ministro Franz von Papen era de que os nazistas
formassem uma coalizão com outros partidos de direita. A expectativa era de que, com seu
suporte de massas, seria possível formar um gabinete presidencial que, definitivamente,
pudesse realizar o projeto substituir a república liberal-democrática por um regime autoritário,
ainda que diferente daquele pretendido e realizado posteriormente pelos nazistas.
De fato, mesmo considerando a capacidade de mobilização do NSDAP e seu
surpreendente crescimento eleitoral, Hitler e o NSDAP foram “salvos” devido a um jogo de
pressões feitas ao presidente Hindenburg por representantes das antigas elites.
As pressões passam a ser exercidas diretamente por von Papen, por Otto Meissner,
secretário de Estado e conselheiro próximo de Hindenburg, e por Otto von Hindenbrg, filho do
presidente. Eles finalmente convencem o relutante von Hindenburg a convidar, em 30 de
janeiro de 1933, Hitler para ocupar o posto de primeiro-ministro da república a compor um
novo governo. Este último governo da República de Weimar foi composto somente por
antirrepublicanos convictos e militantes. Seis meses depois, todas as instituições republicanas,
partidos políticos e associações da sociedade civil estavam destruídas. 34

Considerações finais

Ao longo da história dos estudos sobre o fim da primeira experiência republicana na


Alemanha e de sua sucessão pela ditadura nazista, progressivamente se assenta a percepção
de que este fenômeno resiste a explicações monocausais.
Para a chegada de Hitler ao cargo de primeiro-ministro em Janeiro de 1933,
concorreram variáveis muito diversas em sua eficácia. Quatro delas, que foram indicadas ao
longo do artigo, me parecem incontornáveis: a progressiva perda de legitimidade do projeto
republicano democrático-liberal, tanto em função de desgastes diversos verificados ao longo
dos anos 20 quanto dos ataques constantes de seus inimigos; a aguda crise econômica e social
de princípios dos anos de 1930 que encontra uma configuração social e um ambiente político e
cultural propenso (ou pelo menos, que não se opunham) a soluções autoritárias; as iniciativas
do próprio partido nazista, que se reestruturou para conquistar legitimidade pública; e, o apoio

34
A respeito deste processo, cf.: BRACHER, Karl Dietrich. Die Deutsche Diktatur. Op. cit., cap. 4 e 5; e,
MOMMSEN, Hans. The Rise and Fall… Op. cit., p. 504ss.

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República de Weimar, suas crises e o Nazismo como alternativa

das elites alemãs (e suas pressões neste sentido junto a Hindenburg) para que aos nazistas
fosse “dada uma chance”.
Uma república com uma imagem fragilizada por um longo processo de desgaste político
e por uma conjuntura de crise econômica e social aguda termina nas mãos de grupos e de
indivíduos que não têm interesse em defendê-la.
A República de Weimar enfrentou crises conjunturais que, isoladamente, são momentos
de instabilidade aguda, mas que, se tomadas em conjunto, foram momentos do
enfraquecimento progressivo das forças políticas que davam sustentação ao projeto
republicano democrático-liberal, implantado como nova forma de ordenamento social, jurídico
e político para a Alemanha pós-imperial. E para isto contribuíram de forma decisiva o desgaste
que a república sofreu tanto da esquerda quanto da direita, para quem a constituição de
Weimar era um inimigo comum.
Mas a deslegitimação social da república e a derrota do projeto weimariano não
necessariamente levariam os nazistas ao poder. A afirmação do partido como alternativa de
poder na Alemanha ao longo da segunda metade dos anos 20 é outra variável decisiva neste
complexo desenvolvimento.
Com um programa político e com palavras de ordem socialmente disseminados pela
direita e já amplamente difundidos no momento em que o NSDAP ocupa o espaço público, o
partido, em torno da liderança carismática de Hitler, se afirma no espaço público alemão por
suas opções de construção. Estas opções, ligadas a sua estratégia de enfrentamento com a
república, dão a ele instrumentos políticos e organizativos que o destacavam do restante da
extrema direita völkisch e dos partidos de direita tradicionais.
Contudo, a sedução das massas e a conquista bem-sucedida de votos ainda é
insuficiente para dar conta do “30 de Janeiro de 1933”, que se dá exatamente dois meses
depois de o NSDAP ter visto seu crescimento eleitoral interrompido com uma perda de votos
significativa e que foi considerada, então, como derrota decisiva.
As opções e avaliações políticas dos atores em jogo, que imaginaram poder usar “as
massas” de Hitler como fator de estabilidade política, controlando os ímpetos radicais do líder
nazista em direção a um regime autoritário, foram também decisivas. Aqueles que intervieram
no conturbado cenário dos últimos meses de 1932 e princípios de 1933 para derrotar
definitivamente o projeto weimariano apoiando-se no sucesso dos nazistas foram componentes
vitais para que um líder de um partido radical de massas se tornasse um líder de um governo
controlado pelos conservadores.
Todas estas variáveis são colocadas em movimento pela percepção de que, ainda que
se combinem em uma mesma conjuntura, estamos lidando com fenômenos que devem ser
considerados, em termos analíticos, separadamente: os elementos que permitem entender a
fragilização do projeto republicano democrático-liberal na Alemanha do pós-guerra, o processo
de construção e de afirmação do partido nazista no espaço público alemão e as variáveis da
conjuntura que fizeram com que ele fosse considerado por muitos, naquele momento, uma
alternativa de poder na Alemanha. Eles se entrecruzam em um momento em que a crise teve

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República de Weimar, suas crises e o Nazismo como alternativa

papel destacado em provocar expectativas de mudança e uma busca por soluções radicais por
parte do eleitorado. Contudo não é possível desconsiderar nem a configuração específica da
sociedade alemã do pós-guerra e a sua sensibilidade para acolher uma ou outra opção política
apresentada (em grande medida, o resultado de uma conformação de mais longo prazo) e
nem o fato de que forças políticas diversas se movimentaram nesta conjuntura, fazendo uso
distinto dos recursos políticos e sociais de que dispunham. Neste sentido, agentes sociais,
individuais e coletivos, fazendo escolhas de que caminho seguir e de como interagir com os
elementos da conjuntura, tiveram também papel destacado, consciente ou inconscientemente,
para produzir o fim da primeira experiência republicana na Alemanha e para que os nazistas
tivessem chegado ao poder.

Luís Edmundo de Souza Moraes: Professor Associado de História Contemporânea do


Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade
Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Graduado em História pela Universidade Federal do
Rio de Janeiro (UFRJ), mestre em Antropologia Social pelo Museu Nacional da UFRJ e Doutor
em História pelo Centro de Pesquisas Sobre o Antissemitismo da Technische Universität Berlin.
Coordenador do Núcleo de Estudos da Política da UFRRJ (NUEP-UFRRJ).

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República de Weimar, suas crises e o Nazismo como alternativa

133 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 111-133, jan./jun. 2018


n. 18, p. 134-156, jan./jun. 2018
ISSN-e: 2359-0092
DOI: 10.12957/revmar.2018.31248

REVISTAMARACANAN
Dossiê

A Pandorga e a Lei: passado-presente-futuro

The Pandorga and the Law: past-present-future

Joana D'Arc Fernandes Ferraz


Universidade Federal Fluminense
joanadferraz@gmail.com

Resumo: Percorrendo os diferentes tempos provocados pela peça A Pandorga e a Lei (1983-1984), de
João das Neves, este artigo pretende pensar as relações entre memória e crise no Brasil contemporâneo,
a partir do conceito de duração e dos seus desdobramentos, inaugurado por Henri Bergson. Foi feita a
leitura pública desta peça, pela primeira vez, no I Seminário do Grupo Tortura Nunca Mais - RJ, ocorrido
nos dias 28, 29, 30, 31 outubro e 1º de novembro de 1985, na Universidade Cândido Mendes. Este
Seminário formalizou a fundação do GTNM-RJ. Nossas reflexões têm como ponto de partida a ditadura
empresarial-militar brasileira. Mais do que um tempo linear, cronológico e quantitativo, o tempo da
duração é múltiplo e qualitativo. Nele, passado, presente e futuro interagem incessantemente, suscitam
problemas, reativam feridas, cicatrizes e abrem brechas. Atravessar as fronteiras do tempo, olhar para os
horrores do passado, perceber o que tem deste passado no presente e atentar para o que ele pode nos
acenar para o futuro impõe-se como desafio à compreensão do panorama contemporâneo brasileiro.

Palavras-chave: Ditadura Empresarial-militar Brasileira; Crise; Memória; Duração; Teatro.

Abstract: Going through the different times provoked by the theatre play The Pandorga and the Law
(1983-1984), by João das Neves, this article intends to think the relations between memory and crisis in
contemporary Brazil, starting from the concept of duration and its ramifications, inaugurated by Henri
Bergson. This play was read for the first time in the 1st Seminary of the Grupo Tortura Nunca Mais - RJ
(GTNM-RJ), held on October 28, 29, 30, 31 and November 1, 1985, at Cândido Mendes University. This
Seminar formalized the foundation of the GTNM-RJ. Our reflections are based on the Brazilian business-
military dictatorship. The duration time is multiple and qualitative more than a linear chronological and
quantitative time. Which past, present and future incessantly interact, raising problems, reviving wounds,
scars and opening gaps. Beyond the borders of time to look at the horrors of the past, to understand
what remains of past in the present, and to consider what it can beckon us to the future, imposes itself
as a challenge to the understanding of the contemporary Brazilian panorama.

Keywords: Brazilian business-military dictatorship; Crisis; Memory; Duration; Theater.

Recebido: Novembro 2017


Aprovado: Dezembro 2017
A Pandorga e a Lei: passado-presente-futuro

João das Neves: Eu não teria muito a falar. Acho que,


eu e os atores, tentamos mostrar alguma coisa através
da peça. [...] Precisamos, com mais clareza ainda,
perceber que a violência que existiu nos últimos vinte
anos existiu sempre na história do Brasil. Foi
institucionalizada nesse período, mas sempre existiu.
Ela é um de nossos “patrimônios históricos” mais caros.
Esse, sim, precisa ser derrubado. […] A nossa vida está
impregnada dela.1

A verdade é que, se uma percepção evoca uma


lembrança, é para que as circunstâncias que
precederam, acompanharam e sucederam a situação
passada lancem alguma luz sobre a situação atual e
mostrem por onde sair dela. […] a lembrança que tende
a reaparecer é a que se parece com a percepção num
certo aspecto particular, aquele que pode aclarar e
dirigir o ato em preparação. Quanto mais a consciência
se desenvolve, mais ela aclara a operação da memória
e também mais deixa transparecer a associação por
semelhança – que é o meio – por trás da associação
por contiguidade – que é o objetivo.
2
Henri Bergson.

Introdução

O tempo, enquanto uma medida e não mais como experiência, aumentou o controle dos
homens sobre a natureza, afastou-os de uma relação dependente com ela e suavizou o perigo
dos agentes externos. Diminuiu o perigo que a imaginação poderia nos causar, mas nos
aterrou de tal forma ao mundo real que deixamos de nos sentir como parte da natureza. Além
disso, “aumentou o perigo que os homens representam uns para os outros”. 3 Sem se dar
conta, os homens estão tão fragilizados quanto estavam quando eram totalmente
subordinados aos desígnios da natureza. “O capital define-se por uma crueldade sem igual
quando comparada com o sistema primitivo da crueldade, define-se por um terror sem igual
quando comparado com o regime despótico do terror.” 4
Este tema também pode ser visto por Walter Benjamin, em seu questionamento sobre a
condição do homem contemporâneo. Um homem “nu, deitado como um recém-nascido nas
fraldas sujas de nossa época”.5 O que o homem contemporâneo ganhou em capacidade de
dominar a natureza, em capacidade de controlar o tempo, perdeu em vestígio, perdeu em

1
ELOYSA, Branca (org.). I Seminário do Grupo Tortura Nunca Mais. Petrópolis: Vozes, 1987, p. 124-125.
2
BERGSON, Henri. A Energia Espiritual. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009, p. 143-144.
33
ELIAS, Norbert. Sobre o Tempo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, p. 142.
4
DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Félix. O Anti-Édipo. Capitalismo e Esquizofrenia. São Paulo: Ed. 34, 2010,
p. 495.
5
BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, Arte e Política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. Obras
Escolhidas. Vol. 1. São Paulo: Brasiliense, 1994, p. 116.

135 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 134-156, jan./jun. 2018


A Pandorga e a Lei: passado-presente-futuro

rastro, perdeu em experiência. “Ficamos pobres. Abandonamos uma depois da outra todas as
peças do patrimônio humano, tivemos que empenhá-las muitas vezes a um centésimo do seu
valor para recebermos em troca a moeda útil do ‘atual’. 6
Enterrados em um tempo cronológico, no tempo da vida útil – tempo das nossas
obrigações diárias –, perdemos o sentido do tempo enquanto duração, como diferença,
virtualidade e possibilidade. O tempo, no sentido da duração, é indivisível e se atualiza sem
cessar. O retorno a esta experiência da duração e a compreensão do seu conteúdo ético-
político são fundamentais para a nossa reflexão sobre a relação entre a memória e a crise do
Brasil contemporâneo.
No prefácio do livro Afogados e Sobreviventes, Primo Levi ressalta que o objetivo mais
ambicioso deste livro não é contribuir para o esclarecimento sobre a experiência do campo de
concentração – embora não descarte este objetivo –, mas buscar responder o que permanece
desta herança em nós e na sociedade. “Em que medida o mundo concentracionário morreu e
não retornará mais, como a escravidão e o código dos duelos? Em que medida retornou ou
está retornando?” 7
Interessa-nos neste artigo, a partir da obra A Pandorga e a Lei (1983/1984), de João
das Neves, por meio do conceito de duração e de seus entrelaçamentos (multiplicidade e
diferença), pensar a relação entre memória e crise. As memórias da repressão e das políticas
de enfrentamento, empreendidas por diversos setores da sociedade, à ditadura empresarial-
militar brasileira serão nosso ponto de partida.
Há na duração algo muito maior que a sua suposta neutralidade. Se tomarmos como
referência a experiência que a modernidade nos trouxe, talvez fique visível a possibilidade de
incluirmos dentro do sentido da duração a percepção de crise. Duração e crise se cruzam a
todo momento e sinalizam não somente aquilo que estava previsto, mas instauram também o
tempo do Acontecimento, do Aion, que aponta para as singularidades. “Articular
historicamente o passado não significa conhecê-lo ‘como ele de fato foi’. Significa apropriar-se
de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo.”8
Quando falamos da existência de uma crise, em termos gerais, estamos falando da
nossa condição humana. Sobre esta condição estamos invariavelmente vulneráveis, posto que
a todo instante somos ameaçados. A sociedade mesma é um perigo para todos nós. Olhando
mais de perto, a crise que estamos ocupados em discutir neste artigo é a crise de um modo
específico de formação social, que nos lança a uma subjetividade produzida pela máquina
capitalista e que se consolidou, no Brasil, com o golpe empresarial-militar.
Os relatos dos sobreviventes da ditadura empresarial-militar brasileira, apresentados na
peça A Pandorga e a Lei, por meio dos seus testemunhos e dos seus familiares, incluindo os
seus danos transgeracionais, a humilhação sofrida, a violência a que foram submetidos,
trazem para o presente muito mais do que a memória de um passado de horror e sinalizam

6
BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica... Op. cit.
7
LEVI, Primo. Os Afogados e os Sobreviventes. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990, p. 7.
8
Op. cit., p. 224. Grifo meu.

136 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 134-156, jan./jun. 2018


A Pandorga e a Lei: passado-presente-futuro

questões importantes em relação ao futuro. Pretendo neste artigo olhar um pouco mais
atentamente para essas permanências que o passado tem nos imposto. Tocar um pouco mais
nessas perenidades. O olhar para o passado, no entanto, é insuficiente, uma vez que nós
jamais somos de novo. O passado permite recobrar em nós uma reflexão atenta sobre o
futuro. O que vem à tona do passado não é algo espontâneo e sem sentido. É o que nos faz
nos preservar rumo ao futuro. O espírito, ou seja, a consciência “é memória – conservação e
acumulação do passado no presente” 9 A função principal da consciência [memória] é antecipar
o futuro. Se nos preocupamos com o que existe é porque estamos visando principalmente o
futuro, uma vez que o tempo todo estamos atentos à vida. “O futuro está ali; ele nos chama,
ou melhor, nos puxa para si: essa tração ininterrupta, que nos faz avançar no caminho do
tempo, é também a causa de agirmos continuamente. Toda ação é uma invasão ao futuro.”10
O conceito de diferença e de multiplicidade, expressos na obra do sociólogo Gabriel
Tarde,11 que foi trazida por Deleuze depois de um longo esquecimento na Academia, 12 nos
auxilia na compreensão do sentido de duração que trabalharemos neste artigo. As diferentes
dimensões do tempo, em seus múltiplos acontecimentos, apontam para um número infindável
de possíveis, esses possíveis também será objeto de nossa investigação:

Sempre que uma realidade morre, ela sepulta consigo seu cortejo de possíveis;
mas, também, sempre que uma realidade nasce, ela faz avançar em um grau
seu cortejo de possíveis. Como não se pode conceber uma realidade sem
virtualidade, isto é, sem um certo excesso da potência sobre o ato, a realização
de todos os possíveis implica contradição.13

Denominaremos de “golpe empresarial-militar” ao terror do Estado, iniciado em 1º de


abril de 1964, no Brasil, e estendido até 1985, com a saída dos militares do comando
executivo do Estado, passando o poder para o civil José Sarney, eleito indiretamente pelo
Colégio Eleitoral,14 em 1984. A nossa escolha em relação a esta definição foi delineada a partir
dos argumentos de René Dreifuss de que houve toda uma articulação silenciosa para tomar o
poder, entre 1962 e 1964, dentro do Instituto de pesquisas e Estudos Sociais (IPES), seguindo
passos bem articulados, “quando a estratégia se converteu em política e atividades político-
partidárias finalmente se transformaram em ação militar”. 15
O IPES canalizava interesses da burguesia, em conformidade com o projeto de
acumulação capitalista, promovido pelos Estados Unidos, juntamente com os militares das
Forças Armadas dos dois países. Dreiffus destaca que não foram a “crise político-econômica do
período e o imediato colapso do regime” que engendraram o golpe. Este já vinha sendo

9
BERGSON, Henri. A Energia Espiritual. Op. cit., p. 5.
10
Idem.
11
TARDE, Gabriel. Monadologia e sociologia e outros ensaios. Org.: Eduardo Viana Vargas. São Paulo:
Cosac Naify, 2007.
12
Passim.
13
Op. cit., p. 214. Grifos do autor.
14
O Colégio eleitoral, instaurado em 1984, foi composto por Senadores eleitos indiretamente (Senadores
biônicos), Senadores, deputados federais e representantes do partido majoritário de cada Assembléia
Legislativa.
15
DREIFUSS, René Armand. 1964: A Conquista do Estado. Ação política, poder e golpe de classe.
Petrópolis, RJ: Vozes, 1987, p. 289.

137 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 134-156, jan./jun. 2018


A Pandorga e a Lei: passado-presente-futuro

articulado pelo IPES, em nível político e ideológico, desde a sua formação, em 1962. O IPES
não foi uma política local. Em toda a América Latina havia instituições deste perfil. Sem deixar
rastros, agindo silenciosamente, sua influência era fortalecida por instituições criadas em seu
interior.

Os órgãos que apareciam publicamente ou se responsabilizariam pelo


desenvolvimento da campanha da elite orgânica seriam, naturalmente, a
ADEP,16 o IBAD,17 a ADP,18 a Promotion S.A.19 e o SEI, entre as mais
significativas agências civis e civil-militares! Bem como os conhecidos órgãos
políticos que operavam lado a lado com o IPES, como a Associação dos
Dirigentes Cristãos de Empresa - ADCE. Além disso, a ação do IPES não se
restringiria a organizações de classe e grupos políticos de ação, mas, ao
contrário, alcançaria todo segmento organizado da sociedade. Suas táticas
serviriam de modelo para os acontecimentos de quase dez anos depois no
Chile.20

A despeito de toda repressão ocorrida, desde 1º de abril de 1964, devido ao golpe


empresarial-militar brasileiro (1964-1985), as manifestações de forças insurgentes sempre
existiram no Brasil. Protagonizadas, inicialmente, em sua maioria, por esposas, noivas, mães e
atingidas/os diretamente pela repressão. Pessoas de diferentes classes sociais inauguram lutas
históricas pela busca dos seus familiares, pela elucidação da causa das mortes, pela anistia e
pelo retorno dos exilados. Movimentos que ultrapassaram as fronteiras nacionais perturbaram
e afrontaram a repressão.
No campo da cultura, inúmeros projetos contra-hegemônicos, desde a década de 1960,
assinalam e denunciam o terror do Estado. Na música, no teatro, nas artes plásticas, enfim, a
repressão foi criticada, denunciada e ridicularizada. Foi neste contexto da repressão e dos
movimentos oposicionistas à ditadura que, desde a década de 1960, João das Neves escreveu
inúmeras peças de teatro, dentre elas, O Último Carro, escrita entre os anos de 1964 e 1965, 21
O quintal (1978); Café da manhã (1980); Cadernos de Acontecimentos (1987), Tributo a Chico
Mendes (1988) e Yuraiá: o rio do nosso corpo (1992), Primeiras estórias (1992 e 1995) Pedro
Páramo, Troços e destroços (1998), O homem da cabeça de papelão (2001) e Cassandra
(2002). É autor do livro A análise do texto teatral. Rio de Janeiro: Editora Europa, 1997. A
Pandorga e a Lei, objeto de nossa reflexão, foi escrita entre 1983 e1984.

16
Ação Democrática Popular (ADEP).
17
Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD).
18
Ação Democrática Parlamentar (ADP).
19
Agência de propaganda.
20
DREIFUSS, René Armand. 1964... Op. cit., p. 231.
21
“João Pereira das Neves Filho (Rio de Janeiro, RJ, 1934). Diretor, escritor, ator, iluminador, cenógrafo
e produtor cultural. Fundador do Grupo Opinião e diretor do CPC da UNE no início da década de 1960. O
Último Carro, encenado em 1976. Escrito entre 1964 e 1965 e vencedor de prêmio concedido em 1966,
durante o Seminário de Dramaturgia Carioca, a montagem é o grande sucesso da temporada de 1976.
Ainda na década de 70, João das Neves coloca em cena a questão feminina na montagem Mural Mulher
(1979), com seu texto e direção. A peça é construída através de um mosaico de cenas com pautas
feministas e encenada apenas por mulheres. A peça torna-se importante pelo fato de já indicar a
multiplicidade de lutas sociais que se expandiram nos anos finais da ditadura, tais como o feminismo, a
questão LGBT, os movimentos de anistia e outros”. João das Neves. (Verbete). In: ENCICLOPÉDIA Itaú
Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em:
<http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa20122/joao-das-neves>. Acesso em: 05 out. 2017.

138 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 134-156, jan./jun. 2018


A Pandorga e a Lei: passado-presente-futuro

Esta peça foi lida no Seminário que formalizou a fundação do Grupo Tortura Nunca Mais
- RJ (GTNM-RJ), ocorrido nos dias 28, 29, 30, 31 outubro e 1º de novembro de 1985, na
Universidade Cândido Mendes. O Grupo Tortura Nunca Mais - RJ é um movimento social, que
surgiu no Rio de Janeiro, em 1985, no calor das discussões e das lutas sobre os processos de
anistia, desaparecimentos, clandestinidade, luta armada, prisões e torturas produzidos pela
ditadura empresarial-militar brasileira. Dentre seus fundadores, muitos haviam sido presos,
torturados, exilados e viveram anos na clandestinidade. Destacam-se, também, como
fundadores os familiares de mortos, desaparecidos, exilados e ex-presos.
Participaram deste evento de fundação do GTNM-RJ, além dos seus integrantes e
militantes, intelectuais, juristas e religiosos. Um dos convidados foi o teatrólogo João das
Neves. Neste evento, ele foi convidado a encenar a sua peça A Pandorga e a Lei. No entanto, a
censura proibiu a encenação da peça, inclusive a sua leitura pública, sob o argumento de que
esta peça atentava contra a Lei de Segurança Nacional (1983). A despeito desta censura, a
peça foi lida. Todo o registro deste evento foi transcrito na íntegra e transformou-se em um
livro, organizado por Branca Eloysa. 22
Os tempos se entrecruzam na peça e nos lançam à reflexão sobre os múltiplos tempos
da memória, que são constantemente reeditados em direções múltiplas, inclusive ao seu
esquecimento. A relação que temos com o tempo da memória, com a duração, não é linear,
organizada, medida e quantificada. A referência ao passado, às torturas, às dores, à morte, ao
desaparecimento, às sedições, à Lei de Segurança Nacional não traduzem somente o tempo
que foi. Não se referem apenas ao momento em que essa peça foi escrita (1983/1984), nem
somente ao momento em que foi lida pela primeira vez – no I Seminário de fundação do Grupo
Tortura Nunca Mais-RJ (1985) –, mas, atualiza-se como um fio pujante que une toda essa
massa de horrores ao momento em que estamos vivendo. Em outra direção, pode também, a
partir dessa massa de horrores, construir outros modos de existir, afirmando o seu devir, que
nos impele incessantemente a nos recriar.
Em A Pandorga e a Lei esta multiplicidade de tempos se expressa nas cenas, na relação
do público com os personagens, na apresentação trágico-cômica do horror, no espaço de
encenação em que se misturam os atores e o público, sentados lado a lado. Os diferentes
momentos da ditadura, abrangendo três décadas: 1960, 1970 e 1980, são contemplados sem
a precisão cronológica. O diálogo que une os personagens é a situação de embate às
opressões da ditadura. Cada personagem sofre, mas resiste. Cada um ao seu modo, como
veremos.
Esta peça, bem como toda a obra de João das Neves, discorre sobre os inúmeros
problemas sociais. Ela denuncia os horrores que sofreram os atingidos pela ditadura
empresarial-militar brasileira e o perigo do retorno desse passado, com a reedição da Lei de

22
ELOYSA, Branca (org.). I Seminário do... Op. cit.

139 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 134-156, jan./jun. 2018


A Pandorga e a Lei: passado-presente-futuro

Segurança Nacional (Lei 7.170, de 14 de dezembro de 1983). No momento em que ele


escreveu esta peça esta lei estava sendo reeditada pela sexta vez, em 1983.23
A exibição pública desta peça está disponível no site do Ciclo de leituras do Sindicato dos
Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado do Rio de Janeiro (SATED), sob a
direção de João Procópio, publicado em 18 de março de 2016. Foi esta a fonte utilizada para
este artigo. Os trechos citados foram transcritos pela autora. 24 Não se pretende aqui descrever
toda a peça e sequer trabalhar na mesma sequência em que esta foi escrita. As cenas serão
selecionadas de acordo com os temas discutidos. Muitos personagens desta peça/denúncia não
são ficção, até mesmo alguns dos seus nomes são reais. As suas falas são testemunhos. São
eles:
1) Emílio Bonfante;
2) Camponeses de Cachoeiras de Macacu: Manuel Ferreira, Generino e Zé Curinga;
3) Três moças seviciadas: Martha, Marcia e Marciane;
4) Tânia;
5) Frei Tito;
6) Fátima;
7) Mãe de Hamilton;
8) Onofre e
9) Maria Auxiliadora Lara Barcelos.
Na primeira parte deste artigo, discutiremos as relações entre Lei e obediência e o
modo como a subjetividade capitalista atravessa toda a formação social, infiltrando-se como
uma água que não cessa de pingar, construindo desejos, vontades, amores, afetos, num
universo de culpabilidade e de dívida infinita. Na segunda parte, serão destacados alguns
personagens que foram excluídos da memória do Estado e da memória de muitos militantes,
bem como as suas possibilidades de constituírem modos de contra-efetuação à política de
terror imposta. Na terceira parte, nos dedicaremos às formas como o Estado tem administrado
o seu aparato repressivo até hoje. Em via oposta, veremos na terceira parte, as possibilidades
que o grotesco pode construir fluxos diferenciados que não operam na lógica de ampliação do
capital. A análise da peça A Pandorga e a Lei nos permitiu perceber a forma como o Estado
atua em sua política de preservação do passado de horror. Não poderíamos supor que fosse
diferente, uma vez que atua sempre para a ampliação da acumulação capitalista. Porém,
também vimos o tempo da duração, das rotas de fuga, daquilo que extrapola. O tempo do

23
A primeira lei contra crimes de ordem política e social data de 1935 (Lei 38, de 4 de abril de 1935); a
segunda lei amplia a repressão incluindo novos crimes relacionados à ordem política e social (Lei 1.802,
de 5 de janeiro de 1953); a terceira lei, criada na ditadura, foi estabelecida por um decreto (Decreto-Lei
314, de 13 de março de 1967). Esta lei foi a primeira Lei de Segurança Nacional brasileira, “elaborada
pela Escola Superior de Guerra, sob inspiração norte-americana” (Disponível em:
<http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-tematico/lei-de-seguranca-nacional>. Acesso em:
26 set. 2017), baseada na Doutrina de Segurança Nacional. Pela primeira vez na história do Brasil,
constituiu-se uma “nova concepção de guerra, contra um ‘inimigo interno’”, conforme assinala Cecilia
Coimbra. (Psicologia em Estudo, Maringá (PR), DPI/CCH/UEM, v. 5, n. 2, 2000, p. 10) a segunda Lei de
Segurança Nacional (Decreto-Lei 898, de 29 de setembro de 1969) foi mais severa que a anterior. A
terceira Lei de Segurança Nacional foi a Lei 6.620, de 17 de dezembro de 1978; a quarta Lei de
Segurança Nacional está em vigor ainda hoje (Lei 7.170, de 14 de dezembro de 1983).
24
A Pandorga e a Lei. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=7ZZJlBA0bgA>. Acesso em:
01 out. 2017.

140 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 134-156, jan./jun. 2018


A Pandorga e a Lei: passado-presente-futuro

fora-dentro, que contém e está contido de infinitas possibilidades, produzindo abortos, como
Tarde nos diz.25

1. A Lei e a obediência

O golpe empresarial-militar (1964-1985) foi o resultado de uma combinação de fatores


internos e externos que marcaram o fortalecimento do capitalismo no Brasil. Internamente,
havia uma elite empresarial sedenta de relações mais sofisticadas com o capital internacional,
especificamente com os EUA. Havia, também, uma aproximação estreita das Forças Armadas
com o poderoso aparato militar estadunidense. Esses interesses foram tramados dentro do
Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), desde 1961, quando este foi criado. Neste
contexto,

O "pacto populista" entre o governo de João Goulart e os setores populares


começava a se tomar perigoso para a expansão do capital estrangeiro. A
situação crítica da economia brasileira, com inflação galopante, crises de
recessão e o fantasma da comunização propiciavam a propaganda, junto às
classes médias, da necessidade de um governo forte. Neste quadro deu-se o
golpe militar de 1964, quando as forças armadas ocuparam o Estado, para
servirem aos interesses dos capitais estrangeiros.26

Em 1964, imediatamente após o golpe, com a chegada as tropas de Mourão filho ao Rio
de Janeiro – comandante da 4ª Região Militar e da 4ª Divisão de Infantaria do I Exército,
sediados em Juiz de Fora (MG) –, a extrema violência tomou de assalto diferentes setores da
sociedade brasileira. Essa repressão foi generalizada, espalhando-se para todo o Brasil.
Invadiram vários sindicatos e empresas – como o Sindicato dos Operários Navais, em Niterói;
Fábrica Nacional de Motores (FNM), em Duque de Caxias; Sindicato dos Metalúrgicos, Sindicato
dos Bancários, no Rio de Janeiro, dentre outros –, prendendo as lideranças, torturando e
matando, inclusive dentro dos seus locais de trabalho. Seis lideranças dos operários navais,
entrevistados pela autora, em 2015, denunciaram que foram presos nos estaleiros em que
trabalhavam e, ali mesmo, já começaram as torturas. Em seguida, alguns operários foram
para navios, prisões civis e militares. Depois de abarrotados estes espaços, muitas pessoas
foram presas no Estádio Caio Martins, em Niterói. Segundo o relato dos operários navais, mais
de quinhentas pessoas foram presas no Estádio Caio Martins. Esses operários relatam que lá
no Caio Martins tiveram contato com camponeses de Cachoeiras de Macacu. Outros foram para
este estádio, depois de passarem por uma triagem (torturas) nos órgãos de repressão. Lá,
essas pessoas permaneceram incomunicáveis, ficaram dias sem comer, sem beber, com
dificuldades até para fazer as suas necessidades básicas. Em meio a tudo isso, as torturas não
cessaram. Os operários que conseguiram escapar da prisão tiveram que viver na
clandestinidade.

25
TARDE, Gabriel. Monadologia e Sociologia... Op. cit.
26
COIMBRA, Cecília Maria Bouças. Doutrinas de Segurança Nacional: banalizando a violência. Psicologia
em Estudo, Maringá (PR), DPI/CCH/UEM, v. 5, n. 2, p. 1-22, 2000, p. 5.

141 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 134-156, jan./jun. 2018


A Pandorga e a Lei: passado-presente-futuro

No dia 1º de abril, a UNE e estudantes das universidades públicas cariocas também


foram severamente reprimidos. Neste dia, a sede da UNE foi metralhada e incendiada. Na
educação, o desmonte começou nos primeiros dias do golpe, em 14 de abril, por meio de um
Decreto, que acabou com o Programa Nacional de Alfabetização, idealizado por Paulo Freire,
que parte para o exílio e volta somente com a anistia, em 1979. Desde os primeiros dias de
abril de 1964, várias pessoas foram indiciadas no Inquérito Policial Militar (IPMs). Feito estes
desmontes, a repressão seguiu anos a fio. Os enfrentamentos também foram significativos.
Em 1968, uma nova onda de extrema repressão invade os movimentos estudantil, operário e
camponês, já sob o domínio do AI-05 (1968), extinto em 1978. Durante todo o período de
vigência do AI-05, todos os direitos foram suspensos. O terror instaurou-se na sociedade
brasileira. A peça A Pandorga e a Lei relata estes acontecimentos e faz um apelo à memória:

Não se calem as vozes, não se deixem calar. Não se perca a esperança. Não se
deixem perder. Não se perca a lembrança, não se deixe perder. Se perder a
memória vai tudo morrer. Não se esqueçam dos mortos, não se deixem
esquecer. Que olvidar nossos mortos é deixar de viver.27

Em seguida, um locutor relata a cena inicial da peça: “A pipa subindo. O homem e o


menino se unem na mesma alegria. Quando está bem alta, no entanto, o fio se parte. A
pandorga estava ruída no céu, pairando sobre as casinhas suburbanas.” Relato de Emilio
Bonfante, marinheiro, operário naval e líder sindical:

- meu nome é Emílio, fui preso logo depois de 1º de abril de 1964. Fui preso no
estádio Caio Martins (Niterói). As prisões, os quartéis já estavam cheios. E eu,
como inúmeros outros companheiros fui levado para o estádio. O que houve lá,
não quero falar agora. O que passou, passou, mas pode voltar. Por isso é
preciso que a gente não esqueça, nunca. Mas, no momento, está tudo bem.
Naquela tarde eu estava na casa de um casal de companheiros, fazendo e
empinando uma pandorga com o seu filho.28

A pipa solta-se da linha e imediatamente os militares chegam. Em seguida, a Lei de


Segurança Nacional (1983) é lida. Artigo por artigo. Esta Lei foi baseada na Doutrina de
Segurança Nacional.

O ponto de partida da Doutrina de Segurança Nacional foi a revisão do conceito


de "defesa nacional". Concebido tradicionalmente como proteção de fronteiras
contra eventuais ataques externos, este conceito, ao final dos anos 50, mudou
para uma nova doutrina: a luta contra o inimigo principal, as "forças internas de
agitação". Esta revisão apoiava-se na bipolarização do mundo advinda com a
chamada "guerra fria". [...] A primeira Lei de Segurança Nacional foi editada em
fevereiro de 1967, quando dos primeiros avanços da "linha dura" em nosso país.
Prevaleceu sobre todas as leis e mesmo sobre a Carta Magna, propugnando que
todos os "antagonismos" deveriam ser puníveis como crimes contra a segurança
do Estado.29

Na peça, a leitura imponente da Lei de Segurança Nacional transmite ao público uma


sensação de que somente o desejo do Estado é o desejo legítimo. Para Deleuze e Guattari, não
é a lei que limita o desejo. Ela cria um desejo e o reprime pela lei. “A lei nos diz: não

27
A Pandorga e a Lei. Op. cit.
28
Idem.
29
COIMBRA, Cecília Maria Bouças. Doutrinas de Segurança... Op. cit., p. 10-14.

142 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 134-156, jan./jun. 2018


A Pandorga e a Lei: passado-presente-futuro

esposarás tua mãe e não matarás teu pai. E nós, sujeitos dóceis nos dizemos: então é isso que
eu queria!”.30 Ao construir em nós um desejo, um afeto, uma sensação, a lei nos captura de
modos diferenciados, ampliando o controle da máquina do Estado e do capitalismo.
A obediência à lei está diretamente ligada à sua capacidade de reprimir. Há um amparo
legal que institucionaliza a ausência de direitos, ou seja, “o direito tenta incluir em si sua
própria ausência e apropriar-se do estado de exceção ou, no mínimo, assegurar-se uma
relação com ele”.31 Assim, a Lei de Segurança Nacional institui um Estado que torna legal o
emprego da violência contra diversos modos de “subversão” à dita soberania nacional. O
direito, então, obriga-nos a obedecer à ordem, não importa se esta é justa ou não. O direito
não está preocupado com a justiça, mas com a obediência ao Estado. Esta é a pedagogia que
o Estado nos inflige: ou obedece ou morre!
A Pandorga e a Lei nos desafia a conhecer a lei e a nos reconhecermos nas diferentes
formas de terror vividas pelos personagens, sob o poder do Estado. Cláudio Ulpiano, em sua
aula intitulada “Produzir Impossibilidades é o que precisamos”, demarca o limite entre o
pensamento e a obediência, nos diz:

A nossa universidade não é uma universidade para produzir pensamento. A


única coisa que se produz na universidade é obediência. Se ensina o estudante a
obedecer. Tanto que eu luto com muitos de meus alunos quando eles começam
a dizer para mim: “eu não suporto mais". Eu digo: “Aguenta a barra. Aguenta a
barra e pega esse diploma. É um instrumento de guerra”. Porque a universidade
só passa isso para nós. Quando você começa a verificar aulas em que a questão
passa a ser o pensamento o estudante fica inteiramente surpreendido. Ele não
está habituado, não está formado para isso. Porque desde os 3 anos de idade
ele não para de receber essas forças constituintes de marcas e sinais. E em
linguagem literária o que se produz é um homem dos hábitos. Um homem que
tem um conjunto de hábitos e julga que aquele conjunto de hábitos que ele tem
é a natureza dele. Então é preciso passar uma força, - sobretudo a literatura é
muito bonita para isso - de estranhamento. Abrir uma espécie de buraco, onde
você começa a verificar que sua natureza não é o seu conjunto de hábitos.32

Talvez, a Universidade precise produzir abortos, construir o tempo da possibilidade.


Digamos que a Universidade precise se desmolecular, produzir pensamento, deixar de
obedecer. Não são somente os estudantes que obedecem. Todo o corpo docente vive para
obedecer. Os órgãos de vigilância da dita produção docente e de fomento exigem obediência.
Precisamos fazer uma “infinidade de abortos inevitáveis, de abortos de outrem e de abortos de
si. […] Só há mudança porque há aborto”.33
A propósito da nossa obediência à ordem instituída pelo Estado, alguns personagens
relatam na peça sobre o vazio que sentiam, em alguns momentos, ao terem que obedecer a
um comando abusivo de militares que, meticulosamente, articularam o golpe de estado. Sai da
cela, entra na cela, hora de comer, de tomar banho, de dormir…toda a rotina na prisão era
uma vida capturada para a obediência. Os sinais das chaves balançando. A certeza de que

30
DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Félix. O Anti-Édipo... Op. cit., p. 156.
31
AGAMBEN, Giorgio. Estado de Exceção. São Paulo: Boitempo, 2004, p. 80.
32
ULPIANO, Claudio. Pensamento e Liberdade em Spinoza. Aula gravada em 1988, no Planetário da
Gávea, Rio de Janeiro-RJ. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=zZqszKmZqhA>. Acesso
em: 1 set. 2017.
33
TARDE, Gabriel. Monadologia e sociologia... Op. cit., p. 27.

143 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 134-156, jan./jun. 2018


A Pandorga e a Lei: passado-presente-futuro

alguém seria torturado. As formas inusitadas de sevícias: jacarés, cobras… A obediência


acontecia em função do medo. Seja de morrer, seja de presenciar um parente ou amigo sendo
torturado. O controle sobre o corpo, sobre a dor do outro, manifesta-se na biopolítica, ou seja,

O poder tomou de assalto a vida. Isto é, o poder penetrou em todas as esferas


da existência, e as mobilizou inteiramente, e as pôs para trabalhar. Desde os
genes, o corpo, a afetividade, o psiquismo, até a inteligência, a imaginação, a
criatividade. Tudo isso foi violado, invadido, colonizado; quando não diretamente
expropriado pelos poderes.34

Atualmente, esta mesma Lei de Segurança Nacional, promulgada pelo ditador João
Baptista de Figueiredo (1979-1985), depois de vários anos sem ser acionada, foi utilizada pela
ex-presa-militante da luta contra a ditadura, então presidente da República brasileira, Dilma
Rousseff (2011-2016), para processar os manifestantes nas jornadas de 2013. Também serviu
para prender e enquadrar na Lei de Segurança Nacional Humberto Caporalli, 24 anos, e Luana
Bernardo Lopes, 19, após participarem do protesto em São Paulo, em apoio à greve de
professores no Rio de Janeiro, em 07 de outubro de 2013. 35 A política de esquecimento
operada pelo Estado construiu uma narrativa que mantém intactos os acordos no período da
dita abertura. O discurso da política do possível prevaleceu na ação do Estado, fortemente
apoiado por muitos grupos sociais.
Mais uma forma de obediência ressaltada na peça é a obediência dos militares ao
Estado. Do alto ao baixo escalão, as Forças Armadas obedecem sem questionar absolutamente
nada. Na peça, os opressores subalternos aparecem como incapazes fazer uma reflexão mais
apurada da realidade. Só obedecem! O ato de subordinação à hierarquia é imposto
severamente aos militares das Forças Armadas e das polícias militares, por meio de torturas e
mortes, desde o curso de formação. Inúmeros casos de mortes de jovens estudantes nestas
escolas de formação de oficiais são denunciados. O caso de Márcio Lapoente da Silveira
(falecido em 09/10/1990), cujos pais Cármen Lúcia Lapoente da Silveira e Sebastião Alves da
Silveira são membros da diretoria do Grupo Tortura Nunca Mais - RJ, já dura vinte e sete anos,
sem que os familiares consigam provar que Márcio faleceu sob tortura. Com o falecimento do
esposo, em 2009, Cármen segue na luta.

O cadete Márcio Lapoente da Silveira, 18 anos, morreu em treinamento


comandado pelo tenente De Pessoa, na Academia Militar das Agulhas Negras,
em Resende/RJ. Na autópsia, que foi assinada por Rubens Pedro Macuco Janini –
cujo registro profissional foi cassado pelo Cremerj, em 15 de setembro de 2000,
por assinar laudos falsos durante o período da ditadura militar
coincidentemente, informa que Márcio também sofreu exaustão por choque
térmico. Como o laudo é somente opinativo, não sendo conclusivo, até hoje a
causa mortis continua sendo ignorada.36

34
PELBART, Peter Pál. Biopolítica. Sala Preta, São Paulo, v. 7, p. 57-65, nov. 2007, p. 57.
35
Aplicação de Lei de Segurança Nacional em protestos é anacrônica, afirma ONG. Gazeta do Povo
(online), Curitiba, 8 out. 2013. Disponível em: <http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-
cidadania/aplicacao-de-lei-de-seguranca-nacional-em-protestos-e-anacronica-afirma-ong-
3sndy0nbhcfs7fbqdoo37o21a>. Acesso em: 25 set. 2017
36
Tortura, Morte e Corrupção: Atuação das Forças Armadas. Grupo Tortura Nunca Mais – RJ (site).
Disponível em: <http://www.torturanuncamais-rj.org.br/tortura-morte-e-corrupcao-atuacao-das-forcas-
armadas>. Acesso em: 10 out. 2017.

144 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 134-156, jan./jun. 2018


A Pandorga e a Lei: passado-presente-futuro

No entanto, outras falas insurgentes também estão presentes neste cenário, produzindo
outros modos de sociabilidade. O que retemos do presente já não pertence mais ao presente,
mas ao passado e ao futuro, simultaneamente.

O instante é o limite puramente teórico que separa o passado do futuro; pode-


se, a rigor, ser concebido, mas nunca será percebido; quando julgamos
surpreendê-lo, já está longe de nós. O que realmente percebemos é certa
espessura de duração que se compõe de duas partes: nosso passado
imediato e nosso futuro iminente. Sobre esse passado estamos
apoiados, sobre esse futuro estamos debruçados; [...] Portanto, a
consciência [memória] é um traço de união entre o foi e o que será, uma ponte
lançada entre o passado e o futuro.37

A arte engajada de João das Neves dialoga intimamente com a classe operária. O
Teatro de Arena (1953), o Centro Popular de Cultura (CPC) da UNE (1962) e o Grupo Opinião
(1962), dentre outros espaços de criação, desde a década de 1960, promoveram o encontro
da crítica social com o operariado. O golpe empresarial-militar, por meio da violência, gerou o
desmonte desta política. Personagens esquecidos da memória dita oficial e da memória dos
militantes da classe média são trazidos nesta peça. Diferente de uma memória que esquece ou
silencia os operários e as classes populares, a peça ressalta as opressões sofridas pelo operário
naval Emilio Bonfante e pelos camponeses de Cachoeiras de Macacu, presos no Estádio Caio
Martins, em Niterói, nos primeiros dias de abril de 1964. A mãe de Hamilton (estudante pobre)
também é personagem da peça. A mãe de Hamilton vem do interior do Paraná para encontrar-
se com o filho e pagar a sua dívida com o advogado, Dr. Modesto da Silveira.

2. Personagens Esquecidos

A simplicidade dos camponeses de Cachoeiras da Macacu, misturada à ingenuidade da


mãe de Hamilton, parecem nos mergulhar em um tempo que nos tem sido constantemente
roubado. A doçura destes personagens e a forma truculenta com que o Estado assolou as suas
vidas nos mostram uma insuportável relação com o nosso passado mais longínquo, nosso
passado da escravidão, nosso passado da ditadura Vargas, nosso passado de Canudos e tantos
outros. E nos mostram, também, tal como um espelho refletido, as atrocidades que as classes
populares sofrem hoje no Brasil. A realidade do encarceramento de negros pobres, a violência
nas prisões, nas favelas, o descaso dos governantes com as escolas, a saúde e as
universidades, bem como todos os serviços públicos direcionados à população, são expressões
da mesma violência.
Manuel Ferreira, Generino e Zé Curinga, camponeses de Cachoeiras de Macacu,
personagens/testemunhos da peça, acusados de traidores da pátria por portarem pá, foice e
martelo também podem ser revistos, no espelho refletido, na figura de Rafael Braga, jovem,
negro, morador de rua no Rio de Janeiro, que responde a um processo na dita justiça por

37
BERGSON, Henri. A Energia Espiritual. Op. cit., p. 5-6. Grifo meu.

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A Pandorga e a Lei: passado-presente-futuro

portar um desinfetante, nas jornadas de junho de 2013. Morador de rua, Rafael Braga
conseguiu a liberdade provisória, porque contraiu tuberculose na prisão, depois de anos
lutando na justiça, devendo aguardar o seu julgamento em casa. Ironicamente, a um morador
de rua, a lei determina que pode ficar em casa, provisoriamente, até o seu julgamento. A Lei
de Segurança Nacional atravessa o tempo. A mesma lei condena os operários, os pobres, os
pretos e a muitos outros “inimigos internos”, desde 1983, em sua sexta edição, está até hoje
em vigor.
Na peça, a mãe de Hamilton, apesar de questionar sobre os anos de vida que o filho
perdeu na prisão, mostra-se satisfeita por ter sido provada a sua inocência. E, como
pagamento pela sua libertação, entrega ao advogado do filho, Dr. Modesto, um dinheiro que já
saiu de circulação. O personagem, Dr. Modesto da Silveira, dá o seu testemunho sobre este
ato:

Mas ela não se deu conta de que era uma nota velha, dessas que o governo já
tinha tirado de circulação. Tinha vindo do Paraná até aqui, guardando aquela
nota para me ajudar, para me agradecer. Eu guardo aquela nota até hoje. E
hoje, que estamos todos aqui contra a lei de Segurança Nacional, eu não posso
me esquecer da mãe do Hamilton, mãe de todos os Hamiltons. Que retirou uma
semente e deu início a esta campanha.38

Em entrevista, realizada pela autora, em 06/10/2017, Dona V. (preferimos resguardar


seu nome), esposa de um operário naval do estaleiro Costeria, preso no dia 06 de abril de
1964, revela que quando soube da prisão do seu noivo, ela e a mãe dele saíram em sua busca.
Ficaram dias o procurando. Ninguém sabia ou informava onde ele estava. Foram para
diferentes delegacias, foram ao sindicato, na casa de amigos e acabaram sabendo que o
operário naval estava detido no Centro de Armamento da Marinha (CAM). Depois de muita
insistência, os militares deixaram que ela visse o noivo. De longe, ela o avistou numa cela.
Estava careca, tinham raspado a cabeça dele. O militar olhou para ela, que tinha apenas 19
anos, e falou para ela arranjar outro noivo porque ele não sairia vivo dali. Em sua segunda
prisão, em 1968, eles já estavam casados há três anos. Mais uma vez, depois de percorrer
inúmeros centros de tortura, a esposa conseguiu ver o operário naval, de longe, muito abatido.
Novamente ela encontra o mesmo militar torturador. Ela sabia que não podia falar nada sobre
sua revolta, mas olha para ele e aponta o dedo da aliança, agora na mão esquerda. Mostrou
para ele que estava casada. Esta senhora contou-nos essa memória dos seus enfrentamentos
à ditadura com uma imensa satisfação.
Zuzu Angel, famosa estilista brasileira, se encontrou,

nos Estados Unidos com o senador Edward Kennedy; furou o cerco da segurança
norte-americana e conversou com o então secretário de Estado Henry Kissinger,
em visita ao Brasil; prestou detalhado depoimento ao historiador Hélio Silva; e
escreveu ao presidente Ernesto Geisel, ao ministro do Exército, Sylvio Frota, ao

38
A Pandorga e a Lei. Op. cit.

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A Pandorga e a Lei: passado-presente-futuro

cardeal de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, e à Anistia Internacional. Em um


de seus desfiles, estampou os figurinos com tanques de guerra e anjos.39

A esposa do desaparecido Amarildo, Elizabeth, moradora da favela da Rocinha, Zona


Zul do Rio de Janeiro, foi a primeira a denunciar o seu desaparecimento, em 14 de julho de
2013.

O marido saiu de casa para comprar limão e alho para preparar o peixe. Quando
não pescava sábado, pescava domingo. Naquele fim de semana, a pescaria fora
no domingo e o pedreiro Amarildo de Souza, seu parceiro dos últimos 27 anos,
voltara com dez peixes graúdos.
Amarildo limpou os peixes na escada de entrada do barraco de um cômodo que
dividia com a mulher e os seis filhos na Rocinha. Guardou-os na geladeira e
saiu.
Chegando à birosca onde compraria o alho e o limão, Amarildo foi levado por
policiais da Unidade de Polícia Pacificadora da Rocinha "para verificação".
Elizabete o viu pela última vez entrando numa viatura policial. Mais tarde, a UPP
informou que Amarildo já tinha sido liberado e estaria voltando para casa.
Mas Amarildo nunca apareceu e a família não teve estômago para comer os
peixes que ele pescara. Deu para os vizinhos.40

Esta prática tornou-se corriqueira no período da ditadura empresarial-militar brasileira.


O governo de Emilio Garrastazu Médici (1969-1974) foi marcado pela legalização e ampliação
da prática do terror do Estado, a partir do estabelecimento de duas severas leis que
legitimavam todas as mortes e atrocidades. Médici foi responsável pela nova edição da Lei de
Segurança Nacional (1969), e foi responsável por manter o Ato Institucional Nº 5, em
13/12/1968, criado pelo governo anterior, do ditador Costa e Silva (1967- 1969). Depois do
terrível período do governo Médici, Ernesto Geisel (1974-1979) toma posse, com o discurso de
que o seu governo daria início uma política de distensão rumo à democracia. As mortes,
torturas, prisões, os desaparecimentos permaneceram.
Este período é marcado por uma profunda mobilização social. Das formas mais sutis de
enfrentamento às mais emblemáticas, incansavelmente, a sociedade lutou contra as
arbitrariedades da repressão. A mãe de Hamilton, personagem/testemunho da peça,
enfrentando a ditadura, protagoniza a luta de muitas mulheres. Foi neste cenário que surgiu o
Movimento Feminino Pela Anistia e Liberdades Democráticas, fundado em São Paulo, por
Terezinha Zerbini, em 1975. Rapidamente, este movimento se espalha pelas capitais
brasileiras, ganha fôlego e amplia-se com a criação dos Comitês Brasileiros pela Anistia
(CBAs), enfrentando o terror do Estado.

3. A morte do futuro e o grotesco como Acontecimento

39
MERLINO, Tatiana & OJEDA, Igor (orgs). Direito à memória e à verdade: Luta, substantivo feminino.
São Paulo: Caros Amigos, 2010, p. 171.
40
CARNEIRO, Julia Dias. Caso Amarildo: Dois meses depois, 'ninguém sabe, ninguém viu', diz esposa.
BBC Brasil (site). Disponível em
<http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2013/09/130914_amarildo_2meses_jd_dg>. Acesso em: 29
set. 2017.

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A Pandorga e a Lei: passado-presente-futuro

A pandorga que solta de linha é uma metáfora da vida roubada, da liberdade perdida. O
outro impacto que essa peça sugere fala sobre nós. Sobre o nosso medo, que atravessa os
tempos. Nos relatos presentes na peça, a fala testemunhal, na primeira pessoa do singular,
nos dá um sentimento de pertencimento, de experimentar a situação de horror, de termos a
nossa vida sequestrada pelo Estado.
A crueldade e a insanidade do torturador extrapolam todos os atos de compreensão
possível. Na peça, quando Tânia vai visitar o seu irmão, é surpreendida com um ato de total
sadismo. O torturador de seu irmão e de seus companheiros, “um homem aparentemente tão
agradável” [relato de Tânia], em seu desejo de torturar, torturar e torturar, compra galinhas
vivas e sai pelas ruas, depenando-as ainda vivas. Com a roupa, o corpo e as mãos
completamente sujos de sangue e de penas, o torturador ri para Tânia, com total naturalidade.
A saga de Maria Auxiliadora Lara Barcelos, Dorinha, Dora, Dodora, Doralice, que depois
de resistir a todas as formas de opressão, depois de ter passado pelo exílio no Chile, no México
e de ter sido extraditada para Berlim, não resiste, ou melhor, resiste e, em 1978, atira-se na
frente de um trem em Berlim Oriental. Esses fatos mostram-nos o sem-limite da nossa
capacidade humana de suportar o horror.
Os relatos das torturas das três moças (Martha, Márcia e Marciane) é outro momento
muito dolorido nesta peça. Assombra a sensação de ter os seios arrancados com alicate. Uma
espécie de impotência nos corrói. Um sentimento de horror nos irrompe.

[Locutor] Em cena, três moças diante de carrascos, encapuzadas. As moças


estão com as mãos e os pés abertos, presas por correntes. Uma figuração de
tortura medieval. Puxando o cabelo de uma delas, o torturador grita:
- Diz o nome dele, sua puta!
- [torturada] Vá a merda!
Na frente do público encena-se o estupro!
Segunda moça:
O torturador grita: - Sua profissão?
- [torturada grita] Revolucionária!
- Puta!!!!O que você é? É puta de… sua escrota... Fala, senão eu te corto o bico
do teu seio.
- Eu não tenho nada a dizer.
- Cortem o seio dessa putinha!

A cena seguinte passa para o tribunal [militar]. As três moças estão no banco
dos réus.
- foi assim Sr. Presidente. [falam as moças]
- As senhoritas estão cientes de que podem ser processadas por falso
testemunho? [fala o presidente]
- falso testemunho? Olhe isso aqui, Excelência! [Mostra os seios mutilados.]
Em seguida, em um coro, as moças falam:
- Eis as provas das torturas. Não voltem os olhos. Aqui estão, neste seio
mutilado, há outras mutilações. E às matas rebaixadas, antigas rebaixações. A
sina da morte das crianças, um pouco da morte das mães. E da morte do futuro.
Prenúncio de furacões.
Depois de decretada a prisão das moças. Canta-se o hino Nacional. Ouviram do
Ipiranga…41

O que significa decretar a morte do futuro? Entrar nas vísceras da memória é sentir os
sabores amargo-doce-salgado-azedo do futuro. Os diferentes sentidos do passado têm uma

41
A Pandorga e a Lei. Op. cit.

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A Pandorga e a Lei: passado-presente-futuro

função primordial para a memória. O passado não está no passado. Nem o futuro é algo que
ainda virá. O tempo, no sentido da duração, é múltiplo e indivisível. O ontem e o agora se
unem ao amanhã em movimentos inesperados, que afirmam a possibilidade do Acontecimento.

Enquanto Cronos era inseparável dos corpos que o preenchiam como causas e
matérias, Aion é povoado de efeitos que o habitam sem nunca preenchê-lo.
Enquanto Cronos era limitado e infinito, Aion é ilimitado como o futuro e o
passado, mas finito como o instante.42

A violência policial nas favelas, na Baixada Fluminense, nos lugares em que o poder
público entra somente para mostrar a sua face violenta, é banalizada pela mídia burguesa e
obscurecida por uma parcela da sociedade brasileira. As ações dos policiais e das milícias
nesses lugares não diferem em nada das ações violentas do Estado na ditadura. Tiros, invasão
das residências das classes populares, torturas, desaparecimento e mortes são comuns nestas
localidades. Há uma estreita similitude entre as violências do passado e as do presente. Os
“inimigos internos do regime, [...] passam a ser os segmentos mais pauperizados e não mais
somente os opositores políticos. São todos aqueles que os ‘mantenedores da ordem’
consideram ‘suspeitos’ e que devem, portanto, ser vigiados e, se necessário, eliminados.” 43
Há uma defesa dessas ações repressoras nos meios de comunicação burgueses, que as
legitimam, apoiadas por diferentes grupos sociais, que as consideram “necessárias” para a
manutenção da dita ordem. A metáfora da guerra ao tráfico justifica toda a violência sobre
estes territórios. Não somos ingênuos de esperar do Estado outra ação sobre as classes
populares e sobre todos os que ousam desafiá-lo. O genocídio a essa população é
invisibilizado, afinal, o alvo principal são jovens pretos e pobres. Excluídos da lógica do capital,
essa população tem pouca ou quase nenhuma esperança em relação ao futuro. A exclusão
diária, aliada à violência sem limites, instaura um clima de medo e de terror. Crianças, jovens,
adultos e idosos igualmente sentem uma grande dúvida sobre o amanhã. No entanto, mesmo
sob este terror extremo, esses atingidos e familiares têm se organizado, não se resignam e
ainda persistem na luta. Inúmeros familiares e representantes de movimentos sociais como
Mães da Candelária, familiares da Chacina de Vigário Geral, as Mães de Maio, a Rede de
Movimentos Contra a Violência e muitos outros, não somente no Rio de Janeiro, falariam
também, como na peça: “- A morte das crianças é a morte das mães! A morte do futuro!”
No entanto, há uma gota de esperança que sempre nos impede de sucumbir
completamente. Mães, cujos filhos morreram nas mãos do Estado, ainda encontram em seu
íntimo a capacidade de agir. Querem ser exemplo para outras mães. Atuam diretamente
dentro das favelas, enfrentam policiais. Muitas encaram os mesmos policiais que ceifaram a
vida dos seus filhos para defender os filhos de outras mães. Algumas ainda conseguem sentar
nos bancos escolares e fazer uma faculdade, quase sempre de Direito, quase sempre em
instituições privadas. Querem conhecer a lei para que possam usar a seu favor e a favor dos
que precisam. São referências para outras mães. Nos tribunais, elas conhecem como qualquer

42
DELEUZE, Gilles. Lógica do Sentido. São Paulo: Perspectiva, 2007, p. 170.
43
COIMBRA, Cecília. Doutrinas de segurança... Op. cit., p.16.

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A Pandorga e a Lei: passado-presente-futuro

advogado os trâmites da lei. Elas dão aulas de Direito, de processo penal, de comportamento
no tribunal. Em meio ao caos, esses parentes constroem muitos caminhos de enfrentamentos
e de solidariedade.
Entender o passado, as dores e até mesmo os traumas como possibilidades de ação é
um grande desafio. Construir essa “força plástica” e não permitir ser “coveiro do presente”,
interceder sobre o passado a fim de construir um caminho de afirmação da vida, como
Nietzsche sugere, é um tremendo desafio contra o opressor. Construir uma força
transformadora, que cresce e nos transforma por dentro, que incorpora o que é “estranho e
passado, curando feridas, restabelecendo o perdido, reconstituindo por si mesma as formas
partidas. […] Usar o que passou em prol da vida e de fazer história uma vez mais a partir do
que aconteceu, [só assim] o homem se torna homem.”44 Isso vale tanto para o homem, como
para o povo e para a cultura, segundo Nietzsche.
Este autor disserta sobre duas atitudes frente ao conhecimento histórico, definidas em
duas palavras: sabedoria ou vida. Há homens que querem conhecer a história porque ela os
ensina como foi o passado. Ao se enterrarem no passado, asfixiam-se no orgulho que esta
sabedoria produz. Esta forma de fazer a história faz do historiador “um passeante mimado no
jardim do saber”. A crítica de Nietzsche ao historicismo do século XIX – que “padece de uma
febre histórica” – repousa exatamente no fato de que esta história que nasce dele é “supérflua
e luxo do conhecimento”, e o “supérfluo é inimigo do necessário”. Então, a história deve nos
servir para algo. “Somente na medida em que a história serve à vida queremos servi-la”. Fazer
história para afirmar a vida!45
Assim, a história é necessária e importante. Esquecer e lembrar são fundamentais, no
tempo certo. Nietzsche nos convida a pressentir, por meio do nosso instinto, “quando é
necessário sentir de modo histórico, quando de modo a-histórico”. “O histórico e o a-histórico
são na mesma medida necessários para a saúde de um indivíduo, um povo e uma cultura”. 46
Elaborar o passado para subtrair dele o necessário para a afirmação da vida é o desafio que
Nietzsche nos propõe.
Seu contemporâneo, Bergson, também nos indica que consciência é memória e
antecipação, é escolha. Os momentos de crise são aqueles em que a “consciência alcança mais
vivacidade”, uma vez que nestes momentos, pelas nossas escolhas, assumimos maior
responsabilidade sobre o nosso futuro. 47 “O ser vivo escolhe ou tende a escolher. Seu papel é
criar. Num mundo onde todo o restante é determinado, tem a seu redor uma zona de
indeterminação.”48 É nesta zona que podemos encontrar a força libertadora. Só assim
podemos nos elevar acima de nós mesmos. Esta força, designada por Bergson de força
espiritual, se realiza na criação.

44
NIETZSCHE, Friedrich. Segunda Consideração Intempestiva: Da utilidade e desvantagem da história
para a vida. Rio de Janeiro: Relumé Dumará, 2003, p. 10-12.
45
Ibidem, p. 3.
46
Ibidem, p. 11. Grifo do autor.
47
BERGSON, Henri. A Energia Espiritual. Op. cit., p. 11.
48
Ibidem, p. 12.

150 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 134-156, jan./jun. 2018


A Pandorga e a Lei: passado-presente-futuro

Para criar o futuro é preciso preparar algo dele no presente, como a preparação
do que virá só pode ser feita utilizando o que foi, a vida empenha-se desde o
início em conservar o passado e antecipar o futuro numa duração em que
passado, presente e futuro se encavalam e formam uma continuidade indivisa:
essa memória e essa antecipação são, como já vimos, a própria consciência.”49

Para Deleuze, esta força libertadora é produzida pela lógica da “contra-efetuação”,


“tornar-se o comediante de seus próprios acontecimentos!” 50 O momento do acontecimento é
o da “efetuação”. É preciso encarnar a ferida, produzir na efetuação a contra-efetuação. Nisso
há um chamado à vida. Inferindo sobre Joe Bousquet, Deleuze nos convida ao Acontecimento.
“O acontecimento não é o que acontece (acidente), ele é no que acontece o puro expresso que
nos dá sinal e nos espera.”51 Deleuze nos convida não a sair do presente, mas produzir no
presente aquilo que nele se distingue dele, o fora deste, neste, operar a transmutação.
“Tornar-se digno daquilo que nos ocorre, por conseguinte, querer e capturar o acontecimento,
tornar-se o filho de seus próprios acontecimentos e por aí renascer, refazer para si mesmo um
nascimento. Romper com o seu nascimento de carne.” 52
Em algumas cenas da peça diferentes histórias/não ficção relatam o luto, a denúncia e
o Acontecimento. O personagem/testemunho Frei Beto fala sobre o luto a Frei Tito: “– O
torturador o perseguiu implacavelmente, dia após dia, a cada segundo, onde quer que
estivesse, ele foi perseguido. Até o instante final, o suicídio.” E pede um minuto de silêncio
pela morte de Frei Tito. Denuncia a sua tortura, executada pelo delegado Fleury.
Na cena seguinte: Fátima, no limiar entre sucumbir ou resistir à tortura, inventa um
lugar onde poderiam estar os seus amigos: “- Eu conto, levo vocês até onde eles estão. Eu não
sei dizer o endereço, mas sei ir lá. É nas Laranjeiras”. Em seguida, Fátima dá o seu
testemunho:

- Eu tinha dezoito anos quando fui sequestrada e torturada. Eles queriam que eu
dissesse tudo. Tudo o quê? Só eles sabiam. Eu não sabia nada. E se soubesse
não diria. Não é heroísmo. É nojo mesmo. O nojo nos faz muito mais forte do
que poderíamos imaginar... Eles me ameaçaram de morte. Eu inventei um lugar.
Eu ia morrer, sim. Mas queria de algum modo tornar pública a minha morte.
Talvez pudesse salvar algumas vidas.53

Ela chega até o local. Havia uma festa! Ela convence os militares a entrarem na festa.
Os militares invadem a festa, diante de estranhos, Fátima grita/denuncia: “Meu nome é Fátima
de Oliveira. Eu estou sendo torturada. Há alguns dias eles me sequestraram e vão me matar.”
O dono da casa grita: “- O que é isso? Que abuso é esse? Eu sou um general, irmão do I
comandante do Exército. Quem são vocês?”
Novo testemunho de Fátima:

- Não, eu não me livrei das torturas. Talvez tenha sofrido mais, muito mais
depois disso. Mas a minha prisão teve que ser oficializada. E com isso todos
ficaram sabendo, inclusive meus companheiros… Mas isso não acontece mais no

49
BERGSON, Henri. A Energia Espiritual. Op. cit., p. 11
50
DELEUZE, Gilles. Lógica do Sentido. Op. cit., p. 153.
51
Ibidem, p. 152.
52
Ibidem, p. 153.
53
A Pandorga e a Lei. Op. cit.

151 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 134-156, jan./jun. 2018


A Pandorga e a Lei: passado-presente-futuro

Brasil. É o que muita gente boa diz, não é? Afinal, já tivemos abertura política. O
último exilado virou maquiado em programa de televisão. Houve anistia, eleição
direta para governador, etc, etc. É preciso não esquecermos que isso pode
voltar acontecer a qualquer momento. E amparado legalmente. A Lei de
Segurança Nacional criou entre outras coisas, esse absurdo jurídico que é a
incomunicabilidade longa. Tão longa, mas tão longa, que atingiu dez dias. E que
é apenas o prazo necessário para que se apaguem os principais vestígios das
torturas. Essa maquiagem de torturada, que tanto deve ter chocado alguns
vocês na platéia do teatro, essas marcas que aqui diante de vocês
desapareceram em alguns minutos, na vida real, desapareceriam em dez dias e
se precisassem de mais, mais tempo teriam. Dez dias era apenas o prazo legal,
não o real. A Lei de Segurança Nacional, apesar de ser amenizada, após uma
rigorosa campanha de opinião pública visando a sua abolição, continua em
vigor. E nela estão sendo enquadradas e processadas inúmeras pessoas, ainda
hoje.

A fala de Fátima ainda é atual. Nestes mais de cinquenta anos, desde o golpe
empresarial-militar brasileiro, a Lei de Anistia (Lei n.º 6.683 de 1979), continua sendo
interpretada pelo STF igualando a ação do Estado à ação dos opositores da ditadura, sob
argumento de que estas ações são conexas. Segundo Fábio Konder Comparato e outros
juristas,54 há um absurdo nesta interpretação, uma vez que essas ações partem de duas
naturezas distintas. Uma ação parte da sociedade e outra ação parte do Estado, por isso a
interpretação de conexidade é completamente sem base jurídica. A Lei de Anistia deixou de
contemplar inúmeros militantes, dentre eles, o que entraram para a luta armada
(denominados terroristas), os que cometeram assalto, sequestro e atentado pessoal à vida dos
outros. Comparato salienta que após a Lei de Anistia os militares continuaram a sua marcha de
terror:

Em 1980, registraram-se no país 23 (vinte e três) atentados a bomba, entre os


quais o que vitimou, na sede do Conselho Federal da OAB, a secretária da
presidência, Dª Lyda Monteiro da Silva. Em 1981, houve mais 10 (dez)
atentados, notadamente o do Riocentro, cujos responsáveis, ambos oficiais do
Exército, foram considerados, no inquérito policial militar aberto em
consequência, vítimas e não autores!55

Mesmo tendo sido condenado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA,
em 2010, em uma ação iniciada em 07 de agosto de 1995, pelo Centro pela Justiça e o Direito
Internacional (CEJIL), o Grupo Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro (GTNM-RJ) e a Comissão
de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos de São Paulo (CFMDP-SP), o Estado
brasileiro manteve-se firme na convicção de que “os acordos mantidos no processo de
transição democrática serão respeitados” afirmou a então presidente da República, e ex-presa
por lutar contra a ditadura, Dilma Rousseff (2011-2016).
A sentença da Corte, além de condenar a precária Lei de Anistia que foi feita no Brasil,
ainda determina que o Estado brasileiro investigue, processe, sancione, esclareça e
responsabilize seus agentes que participaram da Guerrilha do Araguaia. A sentença também
determina que o Estado brasileiro tem a “obrigação de produzir e conservar a informação, o

54
COMPARATO, Fábio Konder. A Balança e a Espada. OAB SP (site). Publicado em: 27 ago. 2010.
Disponível em: <http://www.oabsp.org.br/noticias/2010/08/27/6376>. Acesso em: 23 ago. 2017.
55
Idem.

152 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 134-156, jan./jun. 2018


A Pandorga e a Lei: passado-presente-futuro

que os obriga a buscá-la e implementar medidas que permitam a custódia, o manejo e o


acesso aos arquivos”.56
Poderíamos supor que há nisso tudo algo de muito grotesco. Os arquivos ainda
permanecem fechados, os corpos dos desaparecidos do Araguaia e de muitos outros lugares
permanecem sem localização, a Lei de Anistia permanece intacta. No entanto, o que se pode
esperar do Estado e o que se pode esperar do capitalismo? Grotesco seria supor que esses
atos fossem uma exceção, não há nenhuma incoerência. Todos os dias milhares de pessoas
são torturadas no Brasil. Outros milhares morrem nas mãos do Estado. Tantos outros
desaparecem. A política econômica deixa milhões de famílias na miséria.
Na arte, o grotesco carrega sentido diferente de bizarro. Vinicius Pereira, inferindo
sobre o conceito de grotesco, tal como Guillermo Cacace (pesquisador e diretor argentino
contemporâneo) o define, está localizado no desnível, no desconexo, naquilo que o ator
experimenta, que transborda no e do personagem. Está neste entre-lugar interpretativo. “O
grotesco não é portador de sentido, não remete a nada, é uma encarnação do sentido. Não
admite máscaras porque é justamente sua desconstrução ou bem, a potência que habita
detrás da máscara emergindo por suas gretas”.57
Na peça A Pandorga e a Lei, algumas cenas nos remetem a este sentido do grotesco. A
tortura com jacaré sobre Tânia, que deu errado, e os militares prisioneiros na casa de Onofre,
ao tentar capturá-lo, tornaram-se reféns do militante. O grotesco na peça apresenta-se no
transbordo dos sentidos, que acolhem as brechas como possibilidade. O “emergir sobre as
gretas”,58 mostrar o ridículo, o Estado como bufão e a ação fortalecida dos oprimidos ante a
ação insana do Estado – que perdeu o seu controle e se enfraqueceu – são ações que
constroem possibilidades sobre os destroços do Estado.
Na peça, os soldados são obrigados a pegar o jacaré e os deixam na cela de Tânia. Eles
têm medo do jacaré. Estão apavorados, mas precisam cumprir ordem, precisam obedecer.
Jogam o jacaré na cela para torturar a moça presa. Tentativa frustrada. A presa canta, “dorme
nenê… - Veio fazer companhia para a Taninha, meu amor!” O jacaré, dócil, é recolhido. Tânia
não tem medo do jacaré e entrega-o nas mãos do tenente. Testemunho de Tânia: “- Baratas,
cobras, jacarés toda espécie de animal eram jogados nas celas. Mas nem sempre era possível
suportar”. Mas a Tânia desmoralizou o jacaré do tenente e acabou com a tortura no DOI-
CODI.” [Fala o locutor].
Em outra cena, o estudante Onofre prende em seu apartamento o tenente que foi
prendê-lo. Seu apartamento é invadido por um tenente e dois soldados. De repente, bate à
porta. Onofre atende, é uma senhora que vem recolher a sua roupa suja, a lavadeira. Onofre

56
CORTE Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA). Sentença
de 24 de novembro de 2010. Caso Gomes Lund e Outros (“Guerrilha do Araguaia”) vs. Brasil. 2010.
Disponível em: <http://www.corteidh.or.cr/docs/casos/articulos/seriec_219_por.pdf>. Acesso em: 20
set. 2017.
57
PEREIRA, Vinicius. Uma reflexão sobre a experiência da interpretação a partir de estados emocionais.
In: CARREIRA, André (org.). Teatro e Experiências do Real (Quatro Estudos). Buenos Aires; Los Angeles:
Argus-a Artes y Humanidades, 2016, p. 159. (Citação de: CACACE, Guillermo. Grotesco y Dramaturgia.
[não publicado], p. 02.).
58
Idem.

153 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 134-156, jan./jun. 2018


A Pandorga e a Lei: passado-presente-futuro

abre a porta, a mulher entra e Onofre foge. Liberto, Onofre liga para o tenente e o ameaça.
Quem está preso agora é o tenente. Inverteu-se a situação. O tenente, oprimido, aceita o
acordo. Vai embora e deixa tudo arrumadinho.
A pandorga, na primeira cena, é uma metáfora da vida roubada, da liberdade perdida,
subsumida pela Lei, pelo Estado e pela acumulação capitalista. Na última cena, a pandorga
retorna apontando outra possibilidade, a possibilidade do Acontecimento, do Aion. Locutor:

- Eu me despeço de vocês meus amigos. Mas antes eu quero dizer que agora
estou aprendendo a andar com pipas. Pipa para todas as crianças do mundo.
Pandorgas que não vão mais arrebentar. O mesmo, em mim… Nas ruas desata a
flor do amanhã. Nas casas o medo. Nas carnes a dor. Nos mares a morte dos
feixes de luz. Nos rostos silêncio, nas veias temor. Nos olhos a brasa do escuro
se faz. Memórias de ontem, em nome da flor.59

A Vida é uma série ininterrupta de abortos ou diferenciações. Se tem aborto é porque


nada é utilizado por inteiro. Há sempre um lugar que ainda não foi habitado. Há sempre um
tempo que ainda não foi sentido. A sempre uma ação a ser tomada. Há sempre a
indeterminação, as pandorgas que não mais se arrebentarão, estão em nós, nos nossos
abortos, nos possíveis...

Não fazemos um movimento, seja corporal, seja mental, sem esmagar milhares
de germes, sejam seres vivos, sejam ideias, sem aniquilar mundos possíveis.
Com efeito, os possíveis não realizados desempenham, em relação às
realidades, o papel dos vazios do espaço em relação aos corpos. Eles são
necessários às mudanças e aos progressos das coisas, assim como os vazios não
preenchidos são necessários aos movimentos e às combinações delas.60

Considerações finais

A peça A Pandorga e a Lei nos possibilitou revisitar a memória da ditadura militar-


empresarial brasileira, observando as permanências e apontando as diversas possibilidades de
enfrentamento aos modos de capturas operados pelo aparelho de Estado. O capitalismo tem
de singular a sua incessante investidura nos desejos, cujos fluxos são continuamente
descodificados e desterritorializados, recodificados e reterritorializados, como nos afirmam
Deleuze e Guattari.61 Não há limite para a sua potencialidade. Quase tudo é reconfigurado no
capitalismo e capturado pelo aparelho estatal.
Assim, os aparelhos do Estado operam na política de permanência do capitalismo,
incessantemente renovado e reinventado. A forma como o Estado investiu nas políticas de
memória da ditadura empresarial-militar brasileira seguiu esta mesma lógica, reatualizando,
reproblematizando, expandindo os seus limites, construídos sobre uma formação societária
reacionária, paranóica e fascista, mantendo intacta a universalidade do capitalismo.

59
A Pandorga e a Lei. Op. cit.
60
TARDE, Gabriel. Monadologia e sociologia... Op. cit., p. 216 e p. 224, respectivamente.
61
DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Félix. O Anti-Édipo... Op. cit.

154 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 134-156, jan./jun. 2018


A Pandorga e a Lei: passado-presente-futuro

O Estado brasileiro pós-ditadura, governado por presidentes que foram atingidos pela
ditadura, trouxe para o centro da discussão um falso problema: falta justiça, falta memória e
falta verdade. Memória, Verdade e JUSTIÇA, esbravejam muitos movimentos sociais, muitos
intelectuais, muitos defensores de direitos humanos e muitos funcionários da máquina
capitalista! “Nenhuma sociedade pode suportar uma posição de desejo verdadeiro sem que
suas estruturas de exploração, de sujeição e de hierarquia sejam comprometidas.” 62
Este Estado constrói uma memória que revisita a dor e mantém intacta uma questão
fulcral: a dor se renova diariamente, em cada pessoa presa, torturada, estuprada,
desaparecida, rastejada, desempregada, rastreada por serem consideradas “classes
63
perigosas”. Retornemos à indagação de Primo Levi: “Em que medida o mundo
concentracionário morreu e não retornará mais, como a escravidão e o código dos duelos? Em
que medida retornou ou está retornando?”64
Ao construir uma memória que olha somente para o passado, o Estado está plenamente
em conjunção com a máquina capitalista, por isso, o tempo passado tem primazia sobre todos
os outros, sobre todas as multiplicidades construídas pela duração. Esta memória jamais criará
algo diferente do ressentimento, ainda que estejam amparados em serviços de atendimento
clínico. Revisitar o passado, olhando somente a possibilidade que ele um dia desejou, é uma
característica da própria máquina capitalista operada em conjunção com os Aparelhos de
Estado. O desejo de desejar e o desejar do desejo são produzidos incessantemente e
modificados pelos múltiplos axiomas que a máquina capitalista captura, para todos os lados,
em todas as direções, portador de todos os sentidos. Nas intuições, nas sensações e nas
percepções, a fim de expandir infinitamente o seu poder. “O capitalismo e seu corte não se
definem apenas pelos seus fluxos descodificados, mas pela descodificação generalizada dos
fluxos… pela conjunção dos fluxos desterritorializados. Foi a singularidade dessa conjunção que
fez a universalidade do capitalismo.”65
Como o anjo de Klee que se recusa a percorrer passado-presente-futuro,66 para o
Estado, o passado e o futuro não trazem surpresa alguma, não podem produzir nenhum
Acontecimento. Apenas a possibilidade de revisitá-lo já é considerado um progresso. Façamos
as mudanças para que nada mude.
A Comissão Nacional da Verdade, a despeito de todo o investimento do Estado em
logística, funcionários, viagens, pouco avançou na direção de uma consciência maior sobre as
responsabilidades dos atos cometidos pelo Estado durante o período da ditadura empresarial-
militar; também quase nada avançou na reflexão sobre as continuidades entre o passado da
ditadura e hoje. Quase nada avançou em direção à ampliação da informação sobre este
período. Os principais arquivos da ditadura permanecem fechados, são eles: Polícia
Investigativa (P2), Marinha, Exército e Aeronáutica. Os arquivos do DOPS-RJ, que se

62
DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Félix. O Anti-Édipo... Op. cit., p. 158.
63
COIMBRA, Cecília. O Mito das Classes... Op. cit.
64
LEVI, Primo. Os Afogados e os Sobreviventes. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990, p. 7.
65
DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Félix. Op. cit., p.298.
66
BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica... Op. cit., p. 226.

155 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 134-156, jan./jun. 2018


A Pandorga e a Lei: passado-presente-futuro

encontram abertos, precisam de um tratamento especial, pois estão completamente


desorganizados, tornando difícil a sua pesquisa.
Sequer a condenação do Estado Brasileiro na Corte Interamericana de Direitos
Humanos abalou a marcha da memória conciliatória que o Estado realizou. A Lei de Anistia
permanece intacta, apesar das inúmeras discussões públicas e das ações jurídicas. O
retrocesso que estamos vivendo não iniciou com uma política conciliadora, nem iniciou com a
saída de parte da Coligação petista do poder, mas se fortaleceu pela racionalidade de sua
loucura. A máquina capitalista é demente, ela é completamente louca, “e é disto que sai a sua
racionalidade”.67
O Estado sempre cresce em direção à concretização ao desejo da força dominante.
Tomado pelo próprio movimento do desejo, penetrando profundamente, territorializando-se e
desterritorializando-se em todas as modalidades possíveis. “O desejo é determinado a desejar
a sua própria repressão (imperialismo).”68
Não há dúvida de que a liberdade que o capitalismo produz, irrestrita, cotidianamente
reinventada, abra brechas para a criação de práticas que permitem as linhas de fuga. É
mesmo dentro da máquina capitalista que se abrem gretas onde a arte do grotesco flui - as
cenas de Fátima que abraçou o jacaré, do sequestro do tenente e da galinha depenada viva
são fatos reais, não são ficção, apenas os nomes dos personagens foram outros – são nessas
linhas de fuga, nestes atravessamentos abortivos, esquizofrênicos, ilimitados, desregrados e
múltiplos pode ser possível um devir revolucionário.
Pensar em termos de duração enseja olhar as inúmeras possibilidades que a relação
passado-presente-futuro pode nos auxiliar para construirmos múltiplos encontros com outros
modos de existir. Outros fluxos, outros desejos que mobilizam a criação de um fora,
distinguindo-se da lógica produzida pela máquina capitalista são possibilidades construídas
nesta peça. Depois de percorrido todos os horrores, a pandorga ressurge “em nome da flor”,
como uma metáfora da liberdade plenamente realizada. “Nas mãos de todas as crianças,
pandorgas que nunca mais se arrebentarão!”

Joana D'Arc Fernandes Ferraz: Professora do Departamento de Sociologia e Metodologia da


Pesquisa da Universidade Federal Fluminense (UFF). Realizou estágio pós-doutoral pelo
Programa de pós-graduação em Memória Social da Universidade Federal do Estado do Rio de
Janeiro (UNIRIO), linha Memória e Patrimônio; doutorado em Ciências Sociais pela
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ); mestrado em Ciência Política pela UFF; e,
Graduação em História pela UERJ. Suas Pesquisas estão vinculadas aos seguintes temas:
Memória da Ditadura Brasileira; Violência do Estado; Direitos Humanos; Memória e Patrimônio.

67
DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Félix. O Anti-Édipo... Op. cit., p. 495.
68
Ibidem, p. 493.

156 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 134-156, jan./jun. 2018


n. 18, p. 157-180, jan./jun. 2018
ISSN-e: 2359-0092
DOI: 10.12957/revmar.2018.31274

REVISTAMARACANAN
Dossiê

Entre as crises e o colapso: cinco notas sobre a falência


estrutural do capitalismo

Between crises and collapse: five notes on the structural bankruptcy of


capitalism

Maurílio Lima Botelho


Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro
maurilio_botelho@oi.com.br

Resumo: O objetivo do texto é apontar que as frequentes crises na economia mundial, desde a década
de 1970, não são expressões corriqueiras de uma instabilidade capitalista, mas sinal de um colapso da
própria formação social burguesa. A usual afirmação de que “capital é crise” torna a reflexão sobre a sua
história vazia. Por outro lado, não basta se prender à descrição meramente factual para mostrar as
novidades nos eventos de crise. Somente enfrentando categoricamente a processualidade histórica do
capital é que se torna possível determinar o colapso. Para isso desenvolvemos teoricamente cinco
processos que explicam a originalidade de falência estrutural responsáveis pelas crises contemporâneas.

Palavras-chave: Capital; Crise do Trabalho; Crise do Estado; Globalização.

Abstract: The aim of the text is to point in the frequent crises in the world economy since the 1970s are
not ordinary expressions of capitalist instability but a sign of a collapse of bourgeois social formation. The
usual assertion that "capital is crisis" makes the empty reflection about its history. It is not enough to
stick to the merely factual description to show the news in crisis events. Only by facing categorically the
historical process of capital is it possible to determine the collapse. We theoretically develop five
processes that explain the originality of structural crash responsible for contemporary crises.

Keywords: Capital; Labor Crisis; Crisis of State; Globalization.

Recebido: Novembro 2017


Aprovado: Dezembro 2017
Entre as crises e o colapso: cinco notas sobre a falência estrutural do capitalismo

Entre as crises e o colapso

Já não é mais possível negar que a avalanche desencadeada pelas hipotecas subprime
nos EUA, em 2007/2008, provocou a maior crise financeira da história. No primeiro momento
identificado pelos números da quebradeira, desvalorização e resgate como a maior tempestade
econômica desde 1929, agora se tem clareza, passada uma década, de que se trata do mais
impressionante fenômeno histórico de deflação de ativos financeiros, liquidação hipotecária e
despejos imobiliários, déficit fiscal e amplitude de “contágio”.
Em 1929, uma fração do mundo manteve-se à parte ou foi pouco afetada pelos efeitos
catastróficos do crack — seja pela rudimentar integração ao mercado mundial (colônias e
países recém-independentes com pouca atividade financeira), seja pela exclusão (países
socialistas). Nunca uma crise envolveu tanto o globo como o debacle imobiliário nos EUA a
partir de 2007: globalização e integração financeira mundial levaram os efeitos destrutivos
para todos os países do mundo.
Também é difícil encontrar um momento na história mundial em que tantos Estados– e
os mais importantes no espectro político e econômico – atravessaram tensões decorrentes de
sua insustentável situação financeira. Na virada para a segunda década do século XXI, boa
parte da Europa enfrentava os problemas decorrentes do refinanciamento de suas dívidas
públicas — agravadas depois da crise imobiliária — que em média superavam o PIB de seus
países. As garantias estatais e os salvamentos de instituições financeiras pelo “emprestador de
última instância” levaram ao agravamento da crise da dívida. Se é verdade que na era do
absolutismo e da formação dos Estados Nações muitos países contraíam dívidas geométricas,1
nada se compara ao fenômeno mundial conjunto e sistemático de endividamento público e
privado de nossa época.
Nada semelhante também ao processo ocorrido no centro do capitalismo mundial de
liquidação em massa e despejos de milhões de famílias. Nos EUA, desde 2006 até o final de
2016, ocorreram mais de 24 milhões de encerramentos hipotecários (foreclosure) decorrentes
de inadimplência. Deste número, um total de cerca de 6 milhões e 700 mil chegaram ao fim do
processo com a retomada dos imóveis, significando em boa parte o despejo das famílias
residentes.2 Esse é um resultado socialmente trágico, pois representa a desapropriação da
casa para dezenas de milhões de indivíduos. Algo sequer equiparável em termos históricos ao
cercamento dos campos (enclosures), que deu origem ao capitalismo, porque condensado e
acelerado ao ritmo de uma década. No centro da economia mundial, pelo menos 20 milhões de
pessoas perderam suas residências em decorrência de mecanismos financeiros que entraram
em curto-circuito, demonstrando que por mais que se queira dissociar a “especulação

1
FERGUSON, Niall. A lógica do dinheiro: riqueza e poder no mundo moderno (1700-2000). Rio de
Janeiro: Record, 2007, p. 137-226.
2
Disponível em: <http://www.statisticbrain.com/home-foreclosure-statistics>. Acesso em: 03 out. 2017.

158 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 157-180, jan./jun. 2018


Entre as crises e o colapso: cinco notas sobre a falência estrutural do capitalismo

financeira” da “economia real”, seus efeitos concretos são catastróficos. Um dos maiores
investidores do mundo, Warren Buffet, denominou com razão os derivativos financeiros de
“armas de destruição em massa”.
O volume de desvalorização de ativos financeiros também foi inédito com a irrupção da
crise do subprime. Por todos os lados, títulos lastreados em hipoteca contraíram os preços
abruptamente, as ações de instituições que os negociavam ou concentravam viraram pó,
grandes fundos de investimento calcularam as perdas bilionárias em obrigações que nunca
seriam resgatadas e o efeito refluiu sobre as bolsas de valores mundiais, levando à contração
generalizada dos papéis de empresas dos “setores produtivos”. Em 2007, por exemplo, a
capitalização do mercado de ações em todo o mundo chegava ao volume de 60,2 trilhões de
dólares (superior ao PIB mundial). Em 2009, em decorrência da quebra financeira, temos uma
queda para 27,6 trilhões de dólares (inferior ao PIB mundial).3 Se podemos dizer que boa
parte desse volume desintegrado era mera riqueza fictícia, o efeito social da desvalorização
financeira, principalmente ao acionar os “pacotes de salvamento” dos bancos centrais, não
deixa dúvida da gravidade do problema. Até 2013 e desde o início da quebra do mercado
imobiliário, o Federal Reserve havia injetado 2,3 trilhões dólares na economia, principalmente
na forma de compra de “ativos tóxicos” e participação acionária. 4 Embora o montante
mobilizado fosse assustador por qualquer padrão econômico – equivalente ao PIB brasileiro
naquele ano —, isso foi apenas uma gota num oceano de alavancagem financeira: os
derivativos como um todo ultrapassam a ordem anual do quatrilhão de dólares.
A profundidade e amplitude inédita dessa crise, no entanto, ainda não são suficientes
para termos a dimensão da catástrofe econômica em curso na história contemporânea. Antes e
depois do subprime, uma séria de irrupções atingiram mercados de todos os tipos, o que
mostra que a crise imobiliária nos EUA foi apenas um rolamento empenado numa engrenagem
defeituosa por inteiro. A queda de 2007/2008 foi a sequência lógica de uma inflação de ativos
imobiliários acompanhada, no mercado mundial, por uma alta nos preços das commodities. A
partir de 2013, a quebra desta tendência de alta foi seguida por uma contração econômica
violenta em países como China, Brasil, África do Sul, Rússia etc. Em ordem histórica inversa,
poderíamos apontar ainda uma série de outros crashes além da crise imobiliária e das
commodities: a crise da “nova economia”, depois de uma bolha nas ações de empresas de
internet e tecnologia (2000); a crise asiática, provocada pelo endividamento acelerado de
vários países daquele continente (1997), que foi seguida pela crise da dívida russa (1998); a
crise do México, derivada de déficits em conta corrente (1994); o ingresso da economia
japonesa num longo período de recessão, chamado de “década perdida do Japão” (1991); a
outra “década perdida” que afetou boa parte da América Latina superendividada (anos 1980);
os choques do petróleo na década de 1970; o fim do regime de câmbio fixo e o rompimento do
lastro em ouro pelos Estados Unidos (1971).

3
Disponível em: <https://seekingalpha.com/article/2142523-global-stock-rally-world-market-cap-
reached-record-high-in-march>. Acesso em: 03 out. 2017.
4
Disponível em: <https://achadoseconomicos.blogosfera.uol.com.br/2013/10/04/eua-emitem-us-23-
trilhoes-desde-2008-mas-bancos-retem-85/#>. Acesso em: 03 out. 2017.

159 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 157-180, jan./jun. 2018


Entre as crises e o colapso: cinco notas sobre a falência estrutural do capitalismo

Enfim, é possível verificar, desde a década de 1970, o encadeamento sistemático de


crises de todos os tipos, com catalisadores que surgem em mercados específicos (imóveis,
ações, títulos soberanos, commodities), mas cuja apreensão integrada permite enxergar um
panorama inédito de instabilidade duradoura e progressiva. Esses sucessivos rompimentos
críticos não podem ser reduzidos a choques isolados, meros eventos submetidos a lógicas
locais. A teoria econômica e as análises jornalísticas achatam os processos mais profundos da
economia capitalista a uma dependência factual simplista, passando ao largo da reflexão sobre
os seus motores mais profundos. Ao seguir percursos idênticos (inflação de preços, excesso de
crédito, euforia, endividamento, pânico e crash), movimentos de quebra econômica
sistemática surgidos em segmentos distintos do mercado apontam para a origem comum dos
problemas (capitalização, superprodução, excesso de capacidade, queda dos lucros), que
precisam ser alcançados através das categorias básicas da economia capitalista (mercadoria,
moeda, crédito, preço, valor). É verdade que essa exigência de uma compreensão teórica das
crises pode não significar nada de novo do ponto de vista histórico. Afinal, crises de
superprodução, capitalização excessiva, queda de lucros etc. são comuns à história do
capitalismo.
Mesmo a teoria econômica burguesa que não confia na autorregulação do mercado
enfatiza a vinculação permanente da economia capitalista com a crise. Nouriel Roubini,
economista que foi alçado às primeiras páginas dos jornais por ter previsto a crise do
subprime, argumentou que “crises – booms econômicos insustentáveis, seguidos de recessões
calamitosas – sempre estiveram conosco, e permanecerão para sempre [...], as crises estão
fortemente ligadas ao genoma capitalista”.5 Joseph Stiglitz também ressaltou que o
“capitalismo, desde o início, tem sido marcado por crises” e conclui que “a economia sempre
se recupera, mas cada crise carrega as próprias lições”. 6
Essa crença de que o capitalismo é uma estrutura sempre renascida das cinzas da
desvalorização – mais forte e preparada para novos obstáculos – não é uma compreensão
somente da teoria econômica burguesa. Entre os marxistas não faltam demonstrações de que
a economia de mercado é uma fênix: “as crises funcionam como atos brutais de purificação. A
destruição executada pelas crises remove impedimentos anteriores à acumulação e liberta
novas possibilidades para o desenvolvimento capitalista”, atesta Michael Heinrich, um dos
autores da chamada “Nova Leitura de Marx”.7 O economista marxista paquistanês Anwar
Shaikh foi além e, pressupondo a crise como inerente ao capital, inverteu a pergunta teórica
básica para tratar da “viabilidade” do capitalismo: “a questão verdadeiramente difícil sobre tal
sociedade não é porque ela falha constantemente, mas porque continua funcionando”. 8

5
ROUBINI, Nouriel; MIHM, Stephen. A economia das crises: um curso-relâmpago sobre o futuro do
sistema financeiro internacional. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2010, p. 12.
6
STIGLITZ, Joseph. Dez anos depois da crise asiática, ainda não saímos da floresta. In: LEWIS, Michael
(org.). Pânico: a história da insanidade financeira. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010, p. 127.
7
HEINRICH, Michael. A actual crise financeira e o futuro do capitalismo global. Disponível em:
<https://resistir.info/crise/heinrich_09jun08.html>. Acesso em: 03 out. 2017.
8
SHAIKH, Anwar. Uma introdução à história das teorias de crise. In: Ensaios FEE, Porto Alegre, 4 (1),
1983, p. 6.

160 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 157-180, jan./jun. 2018


Entre as crises e o colapso: cinco notas sobre a falência estrutural do capitalismo

Aqui é preciso refletir sobre o significado do deslocamento, operado pelo “marxismo


dogmático”, do problema do processo para o da estrutura.9 Ao tratar as crises como um
aspecto meramente inevitável do desenvolvimento capitalista, que deve acompanhá-lo
sempre, perde-se a processualidade histórica dessa forma social. A engrenagem capitalista não
é constantemente “corrigida” por processos críticos (mesmo que violentos). Isso projeta sobre
a lógica econômica uma racionalidade inexistente nos mecanismos inconscientes e automáticos
do mercado. Pelo contrário: a complexidade dessa estrutura social, que se movimenta com as
partes em constante fricção, leva periodicamente às crises como formas de solução
catastrófica das tensões acumuladas durante à sua reprodução. Isso significa que, em virtude
do seu movimento ampliado, as catástrofes devem necessariamente se ampliar e se amplificar.
A fuga para a frente de uma sociedade inerentemente problemática deságua periodicamente
em crises cada vez mais destrutivas. Ao invés de uma estrutura permanente baseada na
produção de mercadorias e ampliação de lucros, constantemente lubrificada por crises, o que
temos é um processo de produção ampliada de mercadorias e tentativa de expansão dos
lucros, desdobrado no tempo, que é interrompido periódica e radicalmente por crises. É devido
ao desenrolar histórico desse processo que as suas categorias básicas precisam ser
constantemente confrontadas com o estágio de ampliação alcançado pela produção, para se
entender a magnitude a profundidade da interrupção crítica. Uma mera repetição do nexo
interno das categorias é incapaz de enxergar a processualidade histórica, tornando-se a crise
um fenômeno sempre igual num tempo abstrato vazio.
O estágio atual do desenvolvimento da economia de mercado, contraposto à análise da
natureza das crises atuais, revela a originalidade de nossa época – o que se trata é do próprio
esgotamento do ciclo de ascensão história do capitalismo. Ao invés de meras crises periódicas,
o que temos hoje é um processo longo de declínio histórico, em que “desmorona a produção
baseada no valor”.10
Para a demonstração desta tese de uma mudança de época em direção ao “limite
interno absoluto do capitalismo”,11 não basta empilhar as estatísticas econômicas
comprovando a magnitude inédita das últimas crises. Seria preciso, em primeiro lugar, indicar
que, ao invés de uma mera sucessão de crises como em qualquer momento do passado, o que
temos é um processo continuado de falência econômica. A sucessão de irrupções em diversos
mercados, apontada anteriormente, é apenas a mais visível expressão dessa debilidade
sistemática. Um relatório do FMI concluiu que no período de 1970 até 2007, ocorreram 124
crises bancárias, 208 crises cambiais e 63 crises da dívida soberana em todo o mundo,

9
“O capitalismo subsiste e subsistirá enquanto subsistir. Quando tiver desaparecido, terá desaparecido.
Não há nenhuma mudança, visto que nada muda no seio do “modo de produção”, que, nessa qualidade,
é imutável; nada muda, a não ser os pormenores da acomodação. Não muda à exceção do seguinte: a
noção de ‘processo’ (histórica na origem, econômica depois) é substituída pela de estrutura”. LEFEBVRE,
Henri. Estrutura social: a reprodução das relações sociais. In: MARTINS, José de Souza & FORACCHI,
Marialice Mencarini. Sociologia e sociedade (Leituras de Introdução à sociologia). Rio de Janeiro: LTC,
1978, p. 233.
10
MARX, Karl. Grundrisse. São Paulo: Boitempo, 2011, p.588.
11
KURZ, Robert. Crise e crítica: O limite interno do capital e as fases do definhamento do marxismo.
Disponível em: <http://www.obeco-online.org/rkurz410.htm>. Acesso em: 03 out. 2017.

161 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 157-180, jan./jun. 2018


Entre as crises e o colapso: cinco notas sobre a falência estrutural do capitalismo

mostrando que a função de “purificação” não tem mais sentido algum, dado que nenhum ciclo
de médio ou longo prazo de expansão se seguiu às “purgas” operadas nesses diversos
mercados.12
Mas isso também não é suficiente, pois a superficialidade monetária desses eventos
pode levar à prisão conceitual de atribuir as constantes tensões à “hipertrofia financeira” –
todos os males da instabilidade crônica do capitalismo, nos últimos 40 anos, seriam nada mais
do que resultados da libertação insensata dos mecanismos financeiros.
O único modo de determinar o limite histórico do desenvolvimento capitalista é
argumentando teoricamente, explicitando categorialmente os diversos processos subjacentes à
superfície econômica cada vez mais problemática. Às crises nos mercados é preciso
desenvolver e contrapor teoricamente o colapso da produção de capital. Nosso argumento é de
que cinco processos, substanciais alterações na forma social, todos relacionados, atuam
desmantelando as condições de reprodução da sociedade baseada no trabalho, no valor, na
mercadoria, no dinheiro, no capital e no Estado. Estas categorias básicas da formação social
capitalista estão sendo liquefeitas por um conjunto articulado de transtornos irreversíveis,
evidentes desde a década de 1970. Nosso objetivo a seguir é apresentar esses processos,
através de breves notas teóricas — devido aos limites aqui impostos – e apontar como a
articulação entre eles, que podem ser denominados isoladamente como crises categoriais,
levam ao colapso da sociedade capitalista.

A crise do trabalho

A consequência social imediata mais visível das crises é a ampliação das taxas de
desemprego e a expulsão em massa de trabalhadores das atividades produtivas. Entretanto,
isto só é um efeito da crise se se considera a origem desta em fenômenos superficiais e
isolados da estrutura econômica. As crises financeiras, surgidas em mercados específicos –
imobiliários, de ações, de dívida pública etc. – são na verdade fenômenos que indicam um
problema estrutural cuja origem está na própria produção do desemprego. Assim, o boom
imobiliário norte-americano, na primeira década do século XXI, por exemplo, tem uma de suas
bases nos baixos salários e na própria taxa elevada de desemprego apresentada pela
economia, pois se tornou uma oportunidade para milhões de americanos a transformação de
suas casas em ativos financeiros e em verdadeiros “caixas automáticos” para compensar a
queda ou a inexistência de seus rendimentos. 13 Levar em consideração o desemprego elevado
é a única maneira possível de entender o maior boom imobiliário da história, sem o qual a
valorização imobiliária teria sido restrita a investidores ou consumidores de elite (algo que
parece estar sendo produzido atualmente nos EUA, isto é, a repetição de uma bolha imobiliária

12
LAEVEN, Luc & VALENCIA, Fabian. Systemic Banking Crises: A New Database. International Monetary
Fund Work Paper: 2008, p. 124. Disponível em:
<https://www.imf.org/external/pubs/ft/wp/2008/wp08224.pdf>. Acesso em: 03 out. 2017.
13
ROUBINI, Nouriel & MIHM, Stephen. A economia das crises... Op. cit., p. 26.

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Entre as crises e o colapso: cinco notas sobre a falência estrutural do capitalismo

mas restrita a imóveis de luxo).14 Desemprego elevado que desde a década de 1970 tem
produzido um rebaixamento salarial nos EUA e também em grande parte do mundo.
O próprio desemprego, visto como “questão social”, é resultado de um problema
estrutural mais profundo: a incapacidade de tornar vendável a mercadoria força de trabalho.
Esta é sem dúvida uma condição social típica das últimas quatro décadas da sociedade mundial
– a exclusão crescente de massas do mercado de trabalho. Enquanto no pós-guerra as taxas
de desemprego foram todas reduzidas a um nível mínimo – “era do pleno emprego” —, a partir
da década de 1970 os índices começam a se multiplicar.
No período de 1960-1973, a Alemanha apresentou uma taxa de desemprego de 0,8 %,
no período de 1974-1982 o índice era de 3,54. A França apresentava, no período de 1960-
1973, um índice de 1 %, passando em 1974-1982 para 5,47 %. A Inglaterra, para os mesmos
períodos, apresentará, respectivamente, 2,4 % e 5,29 %. Os EUA, que sempre apresentaram
uma taxa de desemprego mais elevada do que a maior parte dos países centrais, possuía no
primeiro momento, 4,8 % de sua população economicamente ativa desempregada, já no
momento seguinte serão 7,22 %. Em termos gerais, enquanto os Estados Unidos, durante a
década de 1960, apresentaram taxas de desemprego em torno de 4 e 5 %, a Europa
apresentou índices gerais em torno de 2 %. Já no início da década de 1980, tanto norte-
americanos quanto europeus vão enfrentar taxas de desemprego que ultrapassam 8 pontos
percentuais. A explosão do desemprego mundial continuará para as décadas seguintes,
ampliando para uma média de 10 % na Europa já na virada para o século XXI. 15 Apesar do
subterfúgio de alteração progressiva dos métodos de inferência da desocupação, que
subestimam cada vez mais o problema da falta de trabalho, o número de desempregados em
todo o mundo sai de 45 milhões em 1979, chega a 140 milhões em 1993, passa para 191
milhões em 2005 e ultrapassaria 201 milhões em 2017, segundo dados da Organização
Internacional do Trabalho (OIT).16 Em países como os EUA ou o Brasil, as taxas de
desocupação podem dobrar se comparadas a estatísticas que abarcam aqueles que deixaram
de procurar emprego (desalento).
Aqui soa a velha discussão, iniciada no fim dos anos de 1970, sobre a “crise da
sociedade do trabalho” — a incapacidade do assalariamento continuar como um meio de
inserção social, econômica e definir trajetórias pessoais. A origem desse problema está na
própria capacidade produtiva crescentemente ampliada da produção capitalista. Não se trata

14
A bolha imobiliária não foi um fenômeno restrito aos EUA, por isso a imagem do “contágio” não é
precisa, pois indica uma doença atingindo organismos saudáveis a partir de um ponto inicial de
contaminação. Os imóveis tiveram alta surpreendente no mesmo período em Dubai, Austrália, Irlanda,
Nova Zelândia, Espanha, Islândia, Vietnã, Estônia, Lituânia, Tailândia, China, Letônia, África do Sul e
Cingapura, numa expansão de 40 trilhões de dólares (ROUBINI, Nouriel & MIHM, Stephen. A economia
das crises... Op. cit., p. 143). No Brasil, a bolha imobiliária surgiu depois de 2008, a partir dos estímulos
gerados pelo governo no setor de construção numa tentativa de política anticíclica.
15
BOTELHO, Maurilio Lima Botelho. Crise da sociedade do trabalho: teorias em conflito. 2009. 380 f.
Tese (Doutorado em Ciências Sociais), Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, p.
88.
16
Os dados foram obtidos nos relatórios anuais da Organização Internacional do Trabalho sobre as
tendências do emprego no mundo. Disponível em: <http://www.ilo.org/global/research/global-
reports/weso/2017/WCMS_541211/lang—en/index.htm>. Acesso em: 03 out. 2017.

163 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 157-180, jan./jun. 2018


Entre as crises e o colapso: cinco notas sobre a falência estrutural do capitalismo

apenas de um aumento da produtividade do trabalho com o capitalismo avançado: o que se vê


na estrutura produtiva mundial, a partir da década de 1970, é a racionalização progressiva da
produção, através das novas tecnologias microeletrônicas, que levam a uma expulsão massiva
de trabalhadores. A introdução do computador, da informática e da telemática na produção de
mercadorias leva a uma revolução permanente dos métodos produtivos, a ponto da
racionalização da produção, que dispensa força de trabalho, ser mais veloz que a expansão
dos mercados criados por essas novas técnicas, que poderia compensar esse desemprego. 17
No passado, a introdução de novos métodos de produção, com a inovação tecnológica,
também gerava imediatamente a economia de trabalho. Entretanto, a criação de novas
necessidades, novas cadeias de produção ligadas àquela técnica inovadora, logo recriava
empregos e compensava a expulsão de trabalhadores do processo produtivo. O deslocamento
secular da força de trabalho da produção (primário e secundário) para os serviços e o comércio
(terciário) representa em termos setoriais esse mecanismo de compensação. Com o uso
generalizado da microeletrônica, a inovação tecnológica acelera de tal maneira a produtividade
que a racionalização não é seguida de compensação. Pelo contrário, dada a flexibilidade de
adaptação e uso da microeletrônica, os computadores são hoje introduzidos não apenas nos
setores de produção (por exemplo, colheitadeiras automáticas guiadas por satélite, robôs na
produção industrial) como também nas atividades de serviços (caixas eletrônicos, lavadoras
automáticas de automóveis) e mesmo no comércio (máquinas de café, livros, autopagamento
etc.). Os exemplos aqui poderiam ser multiplicados ad infinitum, mas o importante é registrar
que a transformação tecnológica da chamada Terceira Revolução Industrial cria um efeito
destrutivo na economia diante do qual não se pode contar com a compensação de empregos. A
emergência de uma Quarta Revolução Industrial, com o uso convergente de nanotecnologia,
tecnologias digitais, robótica e inteligência artificial (deep learning) pode levar essa
assustadora destruição de empregos a níveis nunca vistos. Em várias partes do mundo são
experimentados serviços de transporte pessoal sem motorista (Uber da Pensilvânia), entrega
de produtos sem automóveis (uso de drones para serviços postais no Japão) e unidades de
estocagem totalmente automatizadas (centros de distribuição da Amazon na Califórnia). Até
mesmo o emprego que é um típico símbolo da “hipertrofia financeira”, os traders das bolsa de
valores, tem sua oferta contraída pelos “operadores de alta velocidade”, robôs que já dominam
amplamente os investimentos.18
A capacidade destrutiva dessas novas tecnologias em termos de emprego é gigantesca,
por isso, a expansão da produção não é acompanhada de uma expansão dos mercados, o que
levou ao fenômeno absolutamente novo, nas últimas décadas do século XX, do crescimento

17
“O que parece ser o cerne da crise é, no mais amplo sentido, a racionalização. Dela faz parte a
automatização de processos de produção, redução de linhas organizacionais, portanto, aquela
racionalização organizacional pela qual se racionaliza e elimina tão fortemente a força de trabalho em
todo o território; isto causa um aumento de produtividade em tal medida que ultrapassa a capacidade de
absorção de trabalho vivo pelo capital em sua valorização, nos processos de produção empresariais”.
KURZ, Robert. Com todo vapor ao colapso. Disponível em: <http://www.obeco-online.org/rkurz91.htm>.
Acesso em: 03 out. 2017.
18
BOTELHO, Maurilio Lima. Crise do trabalho hoje: desenvolvimento tecnológico, instabilidade do
emprego e crise do capitalismo. Revista Acesso Livre, Rio de Janeiro, n. 5, jan./jun. 2016, p. 13-14.

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Entre as crises e o colapso: cinco notas sobre a falência estrutural do capitalismo

sem emprego (jobless growth). Embora a economia pareça funcionar, do ponto de vista
estatístico elementar da ampliação da produção, os empregos estão em contração, o que é um
paradoxo típico de nossa época. Agora, após a crise de 2007/2008, por exemplo, já se começa
a falar em recuperação sem emprego (jobless recovery).19
Os efeitos do desemprego sobre a economia são óbvios: embora em termos imediatos
isso represente o corte de custos para a produção, as consequências logo aparecem sob a
forma de ampliação de subemprego, marginalização, redução salarial (oferta ampla que
rebaixa os rendimentos dos trabalhadores ainda empregados) e, por fim, contração no
consumo. Entretanto, esses são efeitos apenas “superficiais” do ponto de vista da circulação
monetária e do mercado. O mais grave é a relação basilar existente entre trabalho e valor – a
retirada de um exército crescente de força de trabalho da produção significa o esvaziamento
da substância que dá vida à economia capitalista, valor. A incapacidade crescente de venda da
força de trabalho, com sua contração significativa (desemprego) ou sua utilização precária
(subemprego), significa uma queda da produção de valor, forma social básica que dá
significado às mercadorias.
Como se sabe, a força de trabalho é uma mercadoria especial, única capaz de produzir valor.
Com a automatização dos processos produtivos, a queda no volume geral de valor leva à
redução dos lucros, pois o funcionamento desse sistema produtor de mercadorias baseia-se na
valorização de valor, criação de valor maior do que o valor investido inicialmente pelo capital –
mais-valor e lucro. O fundamento básico da crise econômica atual é, portanto, a queda da taxa
de lucro, que não pode ser demonstrada por este ou aquele capital em particular, mas
somente pela média global do lucro das empresas produtivas.
O problema é que, com a queda da taxa de lucro, capital excedente fica disponível no
mercado sem destinação rentável. A superacumulação torna-se uma tendência inevitável do
desenvolvimento da produção com a substituição de força de trabalho pelas máquinas, isto é,
“não há, de modo algum, nenhuma contradição no fato de que excesso de capital esteja ligado
com crescente excesso de população”. 20 Com a disponibilidade de recursos monetários sem
destinação lucrativa, aumenta a necessidade de sua mobilização nas estruturas financeiras do
mercado, o que leva à crescente substituição da “valorização de valor” (geração de lucro) por
“capitalização”, isto é, mera multiplicação monetária (geração de juros). Uma condição
histórica em que o excesso de capital combina com excesso de força de trabalho torna-se
crônico, deixando de ser meramente cíclico: desemprego e “hipertrofia financeira” são marcas
inseparáveis na sociedade mundial há quatro décadas.
A formação de capital fictício (capitalização) torna-se um processo comum à dinâmica
econômica, com o que se confunde, mesmo em “empresas produtivas”, os ganhos
operacionais da produção com os rendimentos não-operacionais no mercado financeiro.21 A

19
BOTELHO, Maurilio Lima. Crise do trabalho... Op. cit., p. 17.
20
MARX, Karl. O Capital – crítica da economia política. Livro III – O processo global da produção
capitalista, tomo 1. São Paulo: Nova Cultural, 1986, p. 185.
21
BRAGA, José Carlos de Souza. A financeirização da riqueza. Revista do Instituto de Economia da
Unicamp, Campinas, n. 2, p. 25-55, ago. 1993.

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Entre as crises e o colapso: cinco notas sobre a falência estrutural do capitalismo

confusão entre juros e lucros se estabelece, uma mescla indissociável de capital produtivo e
capital financeiro, o que impede qualquer comprovação estatística de uma queda da taxa de
lucro. Superacumulação de capital, portanto, é a forma geral da crise estrutural do
capitalismo, que pode se manifestar, nos segmentos do mercado, sob a forma de excesso de
liquidez (crédito barato), excesso da mercadoria força de trabalho (desemprego), excesso de
mercadoria meios de produção (capacidade ociosa) e excesso de mercadorias em geral
(superprodução). Em nossa época, a superacumulação se tornou crônica e aqui se encontra a
principal raiz da aparente “hipertrofia financeira”.

A crise do valor

A expulsão progressiva de trabalhadores dos processos produtivos é uma das causas do


colapso da sociedade cuja lógica é voltada à geração de lucro. Ao dispensar a única mercadoria
capaz de produzir valor, o tanque de combustível dessa sociedade não é mais preenchido.
Entretanto, a carência de reposição não é a única causa da falta de energia– há também um
furo no tanque provocando o escoamento de valor. Trata-se do processo de substituição
acelerada de trabalho produtivo por trabalho improdutivo, isto é, transferência irreversível de
trabalhadores dos setores produtores de valor para setores econômicos que são por natureza
improdutivos.
Como se sabe, na lógica interna da produção capitalista, só as atividades assalariadas
no âmbito do capital produtor de mercadorias são capazes de gerar valor. Não importa a
natureza material (alimentos, roupas, automóveis) ou imaterial da mercadoria (conhecimento,
serviço pessoal, entretenimento), o que importa é que nova riqueza seja adicionada ao
sistema produtor de mercadorias na forma de ampliação da massa de valor existente. Novas
mercadorias, produzidas pelo trabalho humano, alargam a base de riqueza do sistema.
Serviços pessoais, educação e indústria cultural ampliam a base de riqueza por meio da
valorização da mercadoria força de trabalho.
Por outro lado, todas as atividades realizadas no âmbito da circulação das mercadorias
(comércio) ou do dinheiro (finanças) são por natureza improdutivas. A mera prática de
comprar e vender mercadorias não acrescenta nenhuma gota de valor à estrutura econômica,
pois aqui se trata de mera alteração na propriedade de mercadorias já produzidas. Também a
circulação de dinheiro não representa nenhuma ampliação da riqueza existente, mas simples
operação de circulação da mercadoria monetária. Este último caso é bastante óbvio para a
consciência contemporânea, já que todos sabem que dinheiro não pode multiplicar a si mesmo
de modo efetivo (a não ser através de expedientes fictícios). A remuneração dos operadores
do dinheiro é feita por meio de juros, dedução dos lucros da produção. O mesmo ocorre com
as atividades comerciais, cujo “lucro” comercial é mera divisão do lucro do capital responsável
pela produção das mercadorias comercializadas. Capital mercadoria e capital monetário
adicionam ao sistema uma série de “falsos custos” que precisam ser financiados pelo capital

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Entre as crises e o colapso: cinco notas sobre a falência estrutural do capitalismo

produtivo.22 Isso significa que o trabalho realizado no âmbito do comércio e das finanças são,
não importa o grau de exploração física ou mental de seus assalariados, improdutivos. São
atividades cujos salários são deduzidos do resultado da produção de trabalhadores produtivos.
Parte do valor adicionado pela força de trabalho ainda produtiva, em todo ciclo de produção, é
extinto, via consumo improdutivo, ao manter funcionando as atividades da circulação de
mercadoria e dinheiro.
Isso significa que uma segunda fonte de redução da massa de valor no sistema
capitalista, além da própria expulsão progressiva de força de trabalho, é a transferência de
assalariados do capital produtivo por assalariados do capital comercial e financeiro. A crise do
valor decorre não apenas de uma crise do trabalho — exclusão deste dos processos de
produção —, mas também da remoção da força de trabalho para setores improdutivos. A
tendência secular de deslocamento dos trabalhadores para o comércio, finanças e, em parte,
serviços (muitos deles também atividades da circulação, como publicidade, turismo,
administração pública e privada etc.) representa uma conversão das massas assalariadas em
trabalhadores improdutivos.
Portanto, a terciarização crescente da sociedade se junta à exclusão do trabalho como
integrante da crise do valor: a dinâmica histórica do desenvolvimento produtivo leva a uma
transformação estrutural da economia capitalista. A origem dos dois processos é única: a
automatização crescente dispensa o trabalho da produção de mercadorias, o que significa que,
enquanto uma parte deste será atirada na exclusão econômica (desemprego), outra será
lançada às atividades da circulação. A empresa global capitalista está cada vez mais
demitindo, assim como concentrando sua força de trabalho restante na mera administração,
estocagem e venda das mercadorias provenientes de sua grande unidade de produção quase
automatizada. A fábrica global está se convertendo num shopping global.
Em 2007, a população economicamente ativa mundial estava distribuída já em 36,4 %
para o setor primário, 22,2 % no setor secundário e 41,4 % no setor terciário. Em 2012, a
União Europeia apresentava 71,8 % de sua população ativa no setor terciário. Os EUA, 79,1 %
e o Brasil, 71 %. Até mesmo a China, considerada a fábrica mundial, em 2012 já apresentava
a maior parte de sua população ativa no setor terciário: 35,7 %, contra 34,8 % no primário e
29,5 % no secundário.23
Se na base da intensa capacidade de produção alcançada por um capitalismo
superavançado está a inutilização (desemprego) e improdutividade (terciarização) crescente
do trabalho, na outra ponta da tentativa de inserção social, os dois processos se encontram
novamente. Os excluídos do mercado de trabalho — cada vez menos presentes nas estatísticas

22
“A existência do capital em sua forma de capital-mercadoria, e portanto como estoque de mercadorias,
ocasiona pois, custos que, não pertencendo à esfera da produção, contam-se entre os custos de
circulação [...]. os capitais aqui aplicados, inclusive a força de trabalho como elemento do capital,
precisam ser repostos por parte do produto social. Por isso, seu desembolso atua como diminuição da
força de produção do trabalho, de modo que maior quantum de capital e de trabalho é exigido para
alcançar determinado efeito útil. São falsos custos”. MARX, Karl. O Capital – crítica da economia política.
Livro II – O processo da circulação do capital. São Paulo: Nova Cultural, 1985, p.101.
23
Os índices foram compilados na base de dados eletrônica da CIA — The World Factbook. Disponível
em: <https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/>. Acesso em: 30 maio 2013.

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Entre as crises e o colapso: cinco notas sobre a falência estrutural do capitalismo

pela desistência em procurar emprego — viram “empresários de si mesmos”, autônomos das


atividades terciárias e, principalmente, vendedores ambulantes. Que as grandes cidades do
mundo estejam se transformando em “cidades-bazar” devido à informalidade gigantesca de
sua população, vivendo da venda de frutas, bugigangas e gadgets, só demonstra que a
solução individualizada ao desemprego tem sido a própria terciarização.24 Ou seja, do ponto de
vista da criação global de riqueza, não importa que os governos cada vez mais anunciem o
empreendedorismo individual e o “trabalho por conta própria” como “geração de emprego”,
dado que suas políticas cada vez mais estimulam a “flexibilidade do trabalho”. Mesmo que
todo desemprego mundial fosse solucionado por meio do “emprego” por conta própria,
continuaríamos sem a contribuição do trabalho produtivo para a criação de riqueza efetiva
para o sistema. A “solução” para o desemprego é mera salvação pessoal precária e isolada que
é incapaz de salvar a economia mundial: o desemprego combinado à informalização e à
precarização crescente reduz a demanda por mercadorias, o que agrava o problema da
superprodução. A transformação produtiva do capitalismo, que acelera a racionalização dos
processos de produção sem a expansão correspondente dos mercados, achata ainda mais o
horizonte consumidor com a improdutividade crescente da força de trabalho, precarizada nos
setores da circulação de mercadoria e dinheiro. Crise da produção de valor (desemprego) e
crise de valorização (improdutividade do trabalho) geram uma crise de consumo.25 As extensas
e áridas polêmicas da história teórica entre os defensores da crise de superprodução e os
adeptos do subconsumo tornam-se sem sentido: o colapso do capitalismo é simultaneamente
uma crise de superprodução e uma crise de subconsumo.

Crise do dinheiro

Não é possível demonstrar empiricamente a queda da taxa de lucro em função do


embaralhamento, na contabilidade das unidades empresariais, entre rendimentos financeiros e
lucros da produção. As estatísticas nacionais registram o ganho individualizado, mesmo que
sob a forma de juros, como ganho econômico real. Assim, apenas teoricamente pode ser
deduzida a queda dos lucros.26 A queda dos lucros, como visto, promove o desvio de capital

24
“Ruggiero e South (1997) propõem chamar de ‘bazar’ esse fenômeno recente, em que a cidade
ocidental adquire as feições de um enorme mercado oriental, com sua multiplicidade de tendas e
‘pontos’, com sua barganha incessante ruidosa, suas dimensões tácitas e suas manobras ardilosas e
habilidades específicas. Uma ‘feira pós-moderna’, que ultrapassa todas as regulamentações
convencionais. Para esses autores, é própria à cidade moderna-tardia, que as fronteiras morais entre
legalidade e ilegalidade se atenuem ou sejam constantemente negociadas. Como suas referências são as
grandes cidades europeias e norte-americanas, a diferença com a cidade moderna clássica fabril, fordista
e organizada”. MISSE, Michel. O Rio como um bazar. Revista Insight Inteligência, Rio de Janeiro, ano 5,
n. 18, jul./set. 2002, p. 71-72.
25
“A falta de procura como falta de poder de compra na forma do dinheiro não é outra coisa senão o
reverso de uma falta de substância do valor dos próprios produtos enquanto mercadorias, ou seja, de
uma falta geral de produção de valor”. KURZ, Robert. Dinheiro sem valor – linhas gerais para uma
transformação da crítica da economia política. Lisboa: Antígona, 2014, p. 234.
26
“A relação entre a estatística e o movimento real de valorização é indireta, não podendo em caso
algum ser expressa em dados empíricos, mas apenas tornada acessível por indícios”. Ibidem, p. 183.

168 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 157-180, jan./jun. 2018


Entre as crises e o colapso: cinco notas sobre a falência estrutural do capitalismo

excedente, que não encontra mais destino lucrativo na produção, para os mecanismos de
circulação monetária, para a “esfera financeira”. A superacumulação de capital é a origem mais
profunda do fenômeno da “hipertrofia financeira”: o capital precisa substituir sua ânsia de
ampliação por meio de lucros por uma multiplicação por meio de juros. A economia capitalista
em crise leva necessariamente à ficcionalização da riqueza, pois a riqueza real na forma de
valor não é mais produzida ou não é suficiente. Assim, “um momento na acumulação do
capital monetário (...) é essencialmente diferente da acumulação real do capital industrial”. 27
Evidentemente, essa multiplicação de riqueza por meios monetários sempre teve um
limite muito óbvio: a própria natureza de mercadoria do dinheiro. Enquanto o dinheiro nada
mais era do que uma mercadoria que funcionava como equivalente geral e reserva de valor
(mercadoria-dinheiro), os limites da ficcionalização de riqueza estavam dados pela relação
entre moedas de crédito e o próprio dinheiro que podia saldá-las como meio de pagamento.
Notas promissórias, letras de câmbio, títulos de dívida e diversas formas de crédito poderiam
ser utilizadas como meios monetários, formas temporárias de dinheiro e, portanto, circular
(dinheiro-mercadoria). Essas formas monetárias funcionavam como moedas de crédito, acima
do dinheiro real, que permanecia por sua vez respaldado em uma mercadoria (moeda com
lastro).
Com a acumulação excessiva de capital sem destinação lucrativa, uma imensa massa
de capital monetário passou a circular pela estrutura global capitalista sem passar pela esfera
da produção. Essa riqueza monetária gigantesca não podia ser reinvestida, dado o problema
crônico do excesso de capacidade ociosa. Essa riqueza monetária gigantesca – representada
na década de 1970 como uma avalanche de dólares no mundo, principalmente sob a forma de
eurodólares e petrodólares – estava sob risco de desvalorização e a inflação tornava-se um
problema mundial comum. Havia o iminente perigo de uma corrida à conversão do papel-
moeda em ouro, seu lastro. O governo americano, num ato que entrou para história, rompeu
unilateralmente com o sistema de Bretton Woods ao anunciar o fim da conversibilidade do
dólar em ouro. Assim, a relação essencial entre dinheiro (dólar) e mercadoria (ouro) foi
rompida. Aquilo que havia sido típico somente em momentos de guerra e derrocadas
econômicas tornou-se uma condição permanente da sociedade capitalista – desde então a
moeda mundial deixou de ser uma representação de riqueza real (mercadoria) e passou a ser
arbitrariamente definida pelo governo norte-americano. As moedas de crédito, agora, não
circulam mais acima do dinheiro, mas ao seu lado: o próprio dinheiro, desprovido de lastro,
sem respaldo em uma mercadoria, torna-se ele próprio uma forma de moeda de crédito.
Não é um paradoxo que o dinheiro, ao se libertar de sua base metálica e circular
mundialmente sem conversão, entre em crise. Ao romper a vinculação entre dinheiro e
mercadoria perde-se também a substância real por trás da unidade básica de riqueza empírica.
Assim como ocorre com as mercadorias produzidas em regimes automatizados, onde a
quantidade de valor presente é mínima ou inexistente, o dinheiro passa a ser produzido sem

27
MARX, Karl. O Capital... Op. cit., p. 41.

169 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 157-180, jan./jun. 2018


Entre as crises e o colapso: cinco notas sobre a falência estrutural do capitalismo

substância de valor. O rompimento da relação entre dinheiro e valor, a crise do dinheiro, é


resultado da própria crise do valor. Essa separação da base “material” significa não apenas sua
libertação mas também sua morte: o “dinheiro subiu aos céus”, na expressão de Robert
Kurz.28
Sem lastro, o dinheiro passou a multiplicar a si mesmo, numa velocidade e magnitude inédita
na história – passamos a ter um “mundo transbordando em dinheiro”.29 E foi isso exatamente
o que ocorreu nos anos e décadas seguintes ao fim de Bretton Woods. Rapidamente foi criado
o mercado futuro de moeda, negociado pela primeira vez na bolsa de Chicago em 1972
(inspirada numa sugestão de Milton Friedman).30 O mercado futuro de bens, principalmente de
recursos naturais, matéria-prima, alimentos e fontes de energia já era uma realidade desde
pelo menos o século XIX. A sua função era basicamente garantir estabilidade de preços e
possibilidade de planejamento dos exercícios econômicos futuros para comerciantes e
empresários que negociavam grandes quantidades de mercadorias. Agora, a maior bolsa de
mercadorias do mundo lançava a possibilidade de apostar no preço futuro do dinheiro – como
o dólar tornou-se flutuante, seguradoras passaram a oferecer a garantia de negociação futura
de moeda a preço fixo. Isso abriu uma variedade infinita de formas de investimentos,
principalmente com derivativos de moeda. Não apenas era possível apostar na alta ou baixa do
dólar, como em qualquer outra moeda do mundo e, mais ainda, em combinações de moedas
(dólar contra iene, iene contra libra, libra contra franco etc.). Se a improdutividade crescente
do trabalho transformava a fábrica global em shopping global, a crise do dinheiro transformava
a economia capitalista num cassino global.
E o processo de libertação do dinheiro permitia ainda formas mais criativas de
multiplicação monetária – entre elas o endividamento crescente de todo tipo de agente social:
famílias, empresas e Estados.31 O excedente monetário global, circulando pelos mercados
financeiros, podia ser utilizado para financiar os crescentes déficits fiscais, assim como
permitia a compensação dos lucros decrescentes ao financiar progressivamente as empresas.
Também a tendência de queda no consumo, decorrente do rebaixamento salarial e
concentração de riquezas podia ser compensada pelo endividamento privado: famílias
passaram a gastar muito mais do que suas remunerações, tornando negativas as poupanças
das principais economias do mundo.
Aqui aparece o sentido mais amplo da bolha imobiliária norte-americana: famílias
usavam suas casas como meio de multiplicação de riqueza monetária via endividamento –

28
KURZ, Robert. A ascensão do dinheiro aos céus: Os limites estruturais da valorização do capital, o
capitalismo de cassino e a crise financeira global. Disponível em: <http://www.obeco-
online.org/rkurz101.htm>. Acesso em: 03 out. 2017.
29
ROUBINI, Nouriel & MIHM, Stephen. A economia das crises... Op. cit., p. 93.
30
FOX, Justin. O mito dos mercados racionais. Uma história de risco, recompensa e decepção em Wall
Street. Rio de Janeiro: BestSeller, 2010, p. 182.
31
Em 1981, a dívida pública norte-americana girava em torno de 30 % do PIB, em 2008 já ultrapassava
70%. A dívida corporativa cresceu no mesmo período de 53 % para 76 %, aparentemente mais
prudente. Mas a dívida familiar pulou de 48 % do PIB para 100 %. A dívida do setor financeiro, esse que
envolve os demais em empréstimos e concentra a liquidez do sistema, passou para uma relação com o
PIB dos EUA de 22 %, em 1981, para 117 %, em 2008, um aumento de mais de cinco vezes. No total do
setor privado, a dívida saltou nesse período de 123 % do PIB para 290 %! (Op. cit., p. 96).

170 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 157-180, jan./jun. 2018


Entre as crises e o colapso: cinco notas sobre a falência estrutural do capitalismo

enquanto o preço dos imóveis crescia a cada ano, novas hipotecas poderiam ser contraídas,
pois o dinheiro desembolsado no ano seguinte poderia pagar a hipoteca anterior e ainda restar
um saldo para ser usado em consumo.32 Por isso o estopim da crise no subprime, ou seja, na
hipoteca de risco: o excesso de liquidez era tão gigantesco que grupos sociais tradicionalmente
sem acesso à crédito bancário — e muito menos financiamento imobiliário de longo prazo —,
tornaram-se clientes do sistema financeiro. Ficaram famosos os empréstimos ninja na
economia norte-americana, concedidos a indivíduos sem renda (no income), sem emprego (no
job) e sem nenhum ativo (no assets). Evidentemente, não se pode culpar o consumidor final
de empréstimos e imóveis, os mutuários de hipotecas, pelo desastre que se seguiu. Toda a
estrutura econômica, e não apenas financeira, estava comprometida com o excesso de capital,
o que levou às inovações financeiras mais criativas de todos os tempos, quando as instituições
do mercado de capital inventaram todos os tipos possíveis de mecanismos para poder rolar a
liquidez disponível.
É evidente que uma ciranda financeira generalizada dessas não pode perdurar muito,
por isso a realidade do capitalismo em declínio, em que o dinheiro entrou em crise e perdeu
sua substância real, é a de sucessivos booms financeiros seguidos rapidamente de crashs
estrondosos. Entretanto, a ficcionalização de riqueza por meios monetários pode até mesmo
repercutir na produção propriamente dita, pois a alavancagem do setor imobiliário, por
exemplo, significou o aquecimento do setor de construção e a entrada em operação da
capacidade produtiva até então ociosa. A ficcionalização, por isso, é uma espécie de adrenalina
que provoca espasmos num organismo em falência, isto é, simula normalidade numa
economia que já não funciona mais. Ao forçar o consumo pelo endividamento, reduzir
estoques acumulados e baixar a capacidade ociosa com a euforia, até o desemprego estrutural
pode ser aliviado temporariamente, embora retorne quase sempre piorado depois da explosão
da bolha.33 A ficcionalização de riqueza cria uma breve e aparente normalidade que depende
de febres especulativas para se movimentar.
Se os juros substituem os lucros, e o dinheiro-mercadoria substitui a mercadoria-dinheiro, o
endividamento produz temporariamente um mercado consumidor onde os rendimentos
regulares (salários) já não o fazem mais. Aqui a natureza da simulação torna-se óbvia: o

32
Além da conversão dos imóveis em fonte de renda num mercado imobiliário com inflação de preços,
outra possibilidade de usar o imóvel como fonte de recursos era por meio de renúncia fiscal. Políticas
sociais da década de 1970, voltadas à moradia, garantiam isenção de impostos com as hipotecas. “Esses
subsídios incluíam a possibilidade de deduzir do imposto de renda os pagamentos e os juros de suas
hipotecas, assim como o imposto sobre a propriedade. Da mesma forma, parte dos ganhos de capital
obtidos com a venda da residência principal não é tributada”. ROUBINI, Nouriel & MIHM, Stephen. A
economia das crises... Op. cit., p. 88-89.
33
O exemplo atual do Brasil, pós-explosão da bolha de commodities é muito expressivo de desemprego
inédito que superou os piores momentos anteriores. No início da década de 2000, quando ocorreu a
explosão da bolha acionária das empresas de internet, nos EUA, a recuperação das taxas de desemprego
foi ainda mais veloz: “Apenas no breve período entre o final de 2000 e meados de 2002, mais de 60
companhias faliram e a indústria de telecomunicações demitiu mais de 500 mil trabalhadores, 50 por
cento a mais do que tinha contratado durante a espetacular expansão do período entre 1996 e 2000.
Fazendo uma comparação, a indústria automobilística tinha levado quase duas décadas para cortar 732
mil empregos”. BRENNER, Robert. O boom e a bolha: os Estados Unidos na economia mundial. Rio de
Janeiro: Record, 2003, p. 26.

171 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 157-180, jan./jun. 2018


Entre as crises e o colapso: cinco notas sobre a falência estrutural do capitalismo

endividamento progressivo alavanca a economia real, pois graças ao mecanismo de


ficcionalização de riqueza, “até uma acumulação de dívidas pode aparecer como acumulação
de capital”.34 Entretanto, uma economia arrastada por dívidas não pode ser considerada uma
economia saudável por nenhum critério.

Crise do capital global

Crise do valor e do dinheiro são imediatamente crise do capital. A substituição de lucros


por juros, em virtude da redução de produção de valor e, portanto, do combustível necessário
para a valorização do capital, leva à capitalização, formação de capital fictício, multiplicação
monetária sem respaldo econômico efetivo.
Entretanto, há um ponto que parece frágil nessa avaliação da crise do trabalho e do
valor. A incorporação de novos mercados à estrutura mundial capitalista poderia compensar a
expulsão de trabalhadores promovida pelas revoluções tecnológicas recentes. A deslocalização
geográfica das indústrias para a periferia do capitalismo, principalmente em países de grande
população (China, Índia, Indonésia, Tailândia etc.), absorveu força de trabalho em escala
inédita, o que poderia equilibrar a balança da produção de valor e explicar a ampliação de
desemprego nos países industriais do centro.
Aqui é preciso enxergar que, além de uma mera expansão geográfica absoluta, isto é,
um crescimento econômico linear em que novos mercados são constantemente incorporados
para manter a reprodução ampliada, simultaneamente o capitalismo apresentou em seu
desenvolvimento uma expansão geográfica relativa. Os centros industriais tradicionais são
varridos constantemente por reestruturações que modificam a sua escala de produção e
reduzem o uso da força de trabalho a novos patamares de racionalização. O capitalismo se
desenvolve não apenas “para fora”, mas sempre também “para dentro” de si mesmo,
provocando “destruições criativas” em suas unidades produtivas tradicionais. Os pólos da
economia mundial se deslocaram ao longo da história pois as diversas revoluções industriais
surgiram em pontos distintos da geografia global capitalista, renovando as estruturas de
produção. Ao lançar-se para novos mercados, não apenas força de trabalho nova foi absorvida
para a fornalha capitalista já existente, mas também novos mercados foram abertos para o
capital, meios de produção e mercadorias em geral. Entretanto, essa não é uma regra mais
válida e a história da expansão capitalista encontra limites novos.
Há uma característica inédita no deslocamento produtivo capitalista com a expansão
geográfica das últimas quatro décadas rumo ao Sudeste Asiático (Tigres Asiáticos e China,
respectivamente). Em outros momentos da história do mercado mundial, expansão geográfica
sempre representou ganhos para os mercados centrais (inclusive para a força de trabalho),
pois os custos sociais, econômicos e mesmo ecológicos da produção podiam ser externalizados

34
MARX, Karl. O Capital... Op. cit., p. 19.

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Entre as crises e o colapso: cinco notas sobre a falência estrutural do capitalismo

para as colônias ou países periféricos. Isso ocorreu nos primórdios do capitalismo, ainda em
sua “fase mercantilista”, com as Grandes Navegações. Ficou mais óbvio no período clássico do
imperialismo, quando capital excedente da grande crise de 1874-1890 pôde ser exportado
para novas terras, assim como a força de trabalho excedente desempregada (grandes
migrações) e o excesso de mercadorias. Ali estava a origem da “integração proletária”, com o
surgimento da chamada aristocracia operária.
A atual expansão geográfica da indústria ocorre num período em que as inovações
produtivas ultrapassam a capacidade de absorção dos mercados, por isso a dilatação
geográfica da indústria (que, a rigor, torna-se global) não vem acompanhada de uma
expansão capitalista, mas de seu declínio. Ao contrário da integração da China, Índia e outros
países asiáticos significar um sinal de maturidade capitalista – como é comumente aceito —,
representa mais adequadamente o seu envelhecimento.
Esses países não estavam de fora do mercado mundial, pois já eram integrados a
circuitos de exportação de capitais desde o final do século XIX. A atual etapa de integração é
uma conexão produtiva, uma expansão industrial, que, ao contrário de ampliar as
oportunidades econômicas e os ganhos, vem seguido exatamente de uma queda de lucros,
endividamento crescente e desemprego. A integração asiática adicionou capacidade produtiva,
mercadorias e força de trabalho a um sistema já atravessado pelo problema de
superacumulação. A oportunidade de absorver força de trabalho barata das zonas econômicas
especiais asiáticas não é um sinal de ampliação da massa de lucros, mas exatamente de
encolhimento desta devido aos efeitos regressivos sobre o consumo. Mas o problema não é
apenas o da realização de lucros — também a produção de valor é colocada em xeque aqui,
pois o que muitas vezes é apresentado como ampliação da massa empregada não passa de
substituição de empregos de custos elevados no centro por empregos baratos na periferia.
Por sua vez, essa permuta de trabalho com a periferia mundial tem sido realizada
paralelamente à introdução de inovações tecnológicas e ampliação de trabalhadores
improdutivos. A China não é apenas o país que mais usa robôs em termos absolutos (ainda
abaixo do índices relativos de robotização da Coréia do Sul e Japão), como também já
apresenta a maior parte de sua população economicamente ativa empregada em setores
comerciais, financeiros e serviços. Por fim, uma realidade também dramática se apresenta por
trás dos números oficiais: sabe-se por diversas fontes que o índice de desemprego efetivo na
economia chinesa ultrapassa os 20 %. Desemprego tecnologicamente produzido tem sido uma
marca tanto do centro do capitalismo quanto da periferia.
O que está em foco aqui é exatamente a crise do capital global. Não é possível
compreender o capital em termos isolados por unidades produtivas, com o risco do
individualismo metodológico.35 Com a total integração produtiva mundial, só é possível
enxergar os processos de produção e circulação de capital em escala global. O capital global,
isto é, sua totalidade lógica, só agora pode ser apreendido em plenitude, pois também em

35
Sobre o “individualismo metodológico a respeito do conceito de capital”, ver KURZ, Robert. Dinheiro
sem valor... Op. cit.

173 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 157-180, jan./jun. 2018


Entre as crises e o colapso: cinco notas sobre a falência estrutural do capitalismo

termos produtivos o mundo foi integrado a esta forma social. “O processo global da produção
capitalista” (Marx) só faz sentido pleno quando efetivamente surge um capital global em
termos geográficos. Dado que esta lógica de reprodução ampliada produz tensões que só
podem ser administradas se empurradas à frente e deslocadas geograficamente, quando o
processo da produção capitalista torna-se efetivamente global, em temos geográficos,
contraditoriamente chegamos ao limite de sua expansão. Tanto no desenvolvimento lógico
interno (reestruturação dos mercados gerando desemprego crescente) quanto no
desenvolvimento lógico externo (integração produtiva mundial) chegamos ao limite de
expansão capitalista. Quando o capital torna-se global, já há mais pra onde fugir – Rosa
Luxemburgo estava em parte correta. A fuga para a frente torna-se impossível num mundo
onde não há mais externalidades para recorrer.36
O quarto processo em curso que define teoricamente a originalidade do colapso
econômico mundial é, portanto, a globalização. Sob esta capa muito alardeada se esconde
esse conteúdo pouco compreendido de uma crise de dimensões históricas e geográficas
inéditas.
Globalização não significa a oportunidade de se consumir produtos de qualquer parte do
mundo, isto é, a intensificação do comércio mundial. Embora os níveis mundiais alcançados
pela troca de mercadorias sejam inéditos e avassaladores, aqui trata-se apenas de uma
radicalização de um tendência histórica que poderia ter suas origens apontadas nas Grandes
Navegações ou no mercantilismo. Especiarias da Índia e seda da China nos mercados de
Lisboa, desse ponto de vista, se diferenciam muito pouco de TVs de LCD sul-coreanas ou
sandálias brasileiras nas lojas de Nova York.
Também globalização não se refere ao movimento de capitais pelos mercados mundiais,
sua facilidade de escoamento ou os investimentos diretos realizados por nações europeias em
zonas econômicas do Sudeste Asiático. Embora aqui estejamos numa escala, velocidade e
facilidade inédita para a história moderna de movimentação de capitais, a configuração de um
mercado global de empréstimos e investimentos remete ao século XIX e é uma das definições
econômicas do imperialismo clássico — a exportação de capitais. A troca e os investimentos
entre Estados distintos é uma constante e ao mesmo tempo um pressuposto do próprio
capitalismo como sistema mundial – na definição clássica de Wallerstein, “o capitalismo pôde
florescer precisamente porque a economia mundial teve dentro de seus limites, não um, mas
uma multiplicidade de sistemas políticos”. 37

36
“O pós-modernismo é o que se tem quando o processo de modernização está completo e a natureza se
foi para sempre. É um mundo mais completamente humano do que o anterior, mas é um mundo no qual
a ‘cultura’ se tornou uma verdadeira ‘segunda natureza’”. (JAMESON, Fredric. Pós-modernismo: a lógica
cultural do capitalismo tardio. São Paulo: Ática, 1996, p. 13). Aqui seria preciso levar a sério também o
sentido mais radical dessa incorporação dos processos naturais à produção capitalista. A “natureza” não é
mais algo “externo”, mas ambiente físico interno à forma social globalizada, e por isso “já não é mais
possível externalizar os efeitos colaterais e os perigos das sociedades industriais desenvolvidas”. BECK,
Ulrich. O que é globalização? Equívocos do globalismo. Respostas à globalização. São Paulo: Paz e Terra,
1999, p. 78. Grifo nosso – MLB. Uma outra nota a acrescentar a nossa discussão seria a de “crise da
natureza”.
37
Citado em ARRIGHI, Giovanni. O longo século XX: dinheiro, poder e as origens de nosso tempo. Rio de
Janeiro: Contraponto; Unesp, 1996, p. 32.

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Entre as crises e o colapso: cinco notas sobre a falência estrutural do capitalismo

O significado mais profundo da globalização é a simultânea dispersão geográfica e


integração econômica das cadeias produtivas. A formação do capital global, a atuação mundial
tanto no mercado de capitais, de mercadorias e de força de trabalho permite que um
determinado produto, antes de chegar ao consumidor final, tenha cada uma de suas partes
produzida em condições econômicas de custos mais reduzidos, não importando a localização
da fábrica responsável por cada componente. Com a facilidade de deslocamento monetário, a
redução gigantesca dos custos de circulação e as oportunidades abertas pelas cadeias
produtivas que atravessam fronteiras nacionais, qualquer ameaça isolada na fabricação de
alguma parte do produto final soa o alarme da transferência de capital. O mundo entrou numa
concorrência desenfreada por oportunidades de produção e captação de investimentos, de
modo que as condições sociais, políticas e ambientais podem ser reduzidas ao mínimo para se
alcançar uma vitória na “guerra fiscal” ou na “guerra dos lugares”.
Conforme atestou Ulrich Beck, efetivamente esta é a vitória do capital sobre o trabalho
e o Estado.38 Mas isso implica também em sua derrota, pois custos reduzidos ao máximo no
processo de produção implicam em redução global da massa de valor, pois pressupõem o uso
mínimo do trabalho vivo, assim como o dumping social entre os Estados tem reduzido o poder
de compra global. Atuação global do capital leva à redução de valor e dos lucros. Daí que a
expansão industrial para novas sociedades apareça hoje como um empobrecimento do centro
do capitalismo, sem que novos mercados consumidores sejam capazes de substituir os
mercados do centro.39
E se a redução global de salários pode induzir ao uso massivo de força de trabalho
barata em unidades produtivas precárias, esse uso só pode ser isolado e temporário. Os
mecanismos de concorrência agora não respeitam mais as fronteiras nacionais — o
protecionismo ou vira peça de museu ou transforma os países que o adotam em museus à céu
aberto. Mais cedo ou mais tarde, a produtividade elevada em condições de uso mínimo de
força de trabalho – com os efeitos do barateamento de custos, produção em escala superior
etc. – derrota as sweatshops espalhadas pelo mundo, pois a objetividade do valor ainda
prevalece mesmo quando sua lógica míngua: mercadorias produzidas com um mínimo de
trabalho têm valor mais baixo que aquelas com uso extensivo de trabalho. 40 Vale para a

38
“A economia de atuação global enterra os fundamentos do Estado e da economia nacional. E assim
entra em curso uma subpolitização de dimensões impensadas e consequências imprevisíveis. Trata-se de
um novo round para se derrubar elegantemente o velho adversário ‘trabalho’; mas ao mesmo tempo
trata-se principalmente da demissão do ‘capitalismo ideal e completo’, como Marx chamava o Estado; ou
seja, trata-se da libertação das amarras do trabalho e do Estado, tais como estes surgiram nos séculos
XIX e XX”. BECK, Ulrich. O que é globalização... Op. cit., p. 15.
39
Aqui temos outra característica inédita que não leva a um “século do Pacífico”. Nos deslocamentos
geográficos do passado, quando um novo centro surgia, as inovações produtivas eram acompanhadas de
uma ampliação absoluta do mercado consumidor (o grande mercado inglês em comparação ao holandês
e o gigantesco mercado americano comparado ao primeiro). A transformação da China em grande fábrica
mundial só se explica em função de sua dependência do mercado consumidor yankee: todas as medidas
para ampliar o peso do mercado doméstico chinês e reduzir essa dependência externa têm sido um
fiasco.
40
O exemplo das maquiladoras mexicanas é um marco pela velocidade em que o processo ocorreu.
Destino de muitos investimentos dos EUA nos anos 1980 e substituto de muitas de suas indústrias
fechadas até o fim do século XX, o México, num ritmo vertiginoso, perdeu para a Ásia essas fábricas com
muita força de trabalho, atividades relativamente simples e desqualificas (têxteis, peças mecânicas e

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Entre as crises e o colapso: cinco notas sobre a falência estrutural do capitalismo

relação entre swetshops e a indústria avançada a mesma relação entre o emprego precarizado
e o desemprego: uma forma não é a negação da outra, ambas andam juntas no declínio do
capital.

Crise do Estado

A partir do momento em que é possível determinar categorialmente a crise do trabalho


e a crise do capital, em virtude da globalização, a falência estrutural da sociedade burguesa se
manifesta também na forma de uma crise do Estado.
Não nos interessa nesse momento a crise de legitimação do Estado, que também está
articulada à sua crise estrutural – as exigências desmedidas da democratização do pós-guerra
impõem demandas ao Estado muito acima das suas capacidades, desfazendo
progressivamente a legitimidade social de sua ação entre os grupos sociais preteridos.
Aqui nos importa o vínculo estreito do Estado moderno com a estrutura capitalista,
tomando como prioridade de sua ação, desde o seu nascimento, o enquadramento social às
exigências do trabalho e do mercado. O Estado teve a obrigação de produzir a força de
trabalho assalariada necessária à produção capitalista e a função de zelar, jurídica e
politicamente, pela manutenção das condições sociais e econômicas das relações de mercado.
Isso significa que só “existe uma e somente uma estratégia geral de ação do Estado. Ela
consiste em criar as condições segundo as quais cada cidadão é incluído nas relações de
troca”.41 Essa estratégia geral muda seu conteúdo e significado com as transformações
históricas, assim como novas determinações são acrescentadas a essa função geral. Contudo,
pressuposta a “relação funcional entre as instituições da política social e o problema da
socialização através do trabalho assalariado”,42 cabe ao Estado zelar pela forma mercadoria,
tanto no mercado de trabalho (política social) quanto nos mercados consumidores (garantia da
propriedade privada).
Ora, quando gigantescas massas são expulsas do mercado de trabalho, isso não apenas
abala a estrutura social pela qual o Estado deve zelar, provocando fissuras em suas próprias
bases institucionais, como provoca o aumento vertiginoso de exigências à sua atuação. O
Estado capitalista, após a década de 1970, tem de reformular a necessidade estrutural de
converter crescentes populações excluídas em mercadoria e ainda proteger o mercado dessa
situação de exclusão. Que tenhamos cada vez mais políticas de reinserção social caminhando
ao lado da repressão direta é um desdobramento lógico da crise da sociedade repercutindo

montagem): “nos últimos dois anos, cerca de 280 mil postos de trabalho desapareceram com o
fechamento de mais de 350 maquiladoras, as fábricas de montagem estrangeiras que fabricam para
exportação, desde jeans azuis até liquidificadores, de televisores a brinquedos”. Disponível em:
<http://www.nytimes.com/2002/06/29/world/mexico-is-attracting-a-better-class-of-factory-in-its-
south.html?mcubz=0>. Acesso em: 03 out. 2017.
41
OFFE, Claus. Problemas estruturais do Estado capitalista. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984, p.
125.
42
Ibidem, p. 31.

176 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 157-180, jan./jun. 2018


Entre as crises e o colapso: cinco notas sobre a falência estrutural do capitalismo

sobre as estruturas estatais. Evidentemente, a política social muda de natureza – não se trata
mais de garantir as condições de reprodução de trabalhadores, mas de garantir a
sobrevivência de crescentes massas de não-trabalhadores. Como se sabe que uma parte
considerável dos excluídos não retornarão ao mercado, eles se tornam disfuncionais e uma
ameaça (aparente ou real) à propriedade. O assistencialismo direto substitui cada vez mais as
políticas de bem-estar, ou o seu esboço na periferia, assim como a guerra aos pobres assume
o lugar do Estado de direito. A socialização pelo trabalho entrou em falência e o Estado, que
durante o ciclo de ascensão histórica do mercado teve a função de desenraizar as populações
para torná-las mercadorias, agora só pode operar como o mercado, que em momentos de
excesso de oferta, destrói seus estoques invendáveis.
Se as funções regulares do Estado se ampliaram com a expansão do mercado, somam-
se novas exigências agora com essa dupla função assistencial-repressiva – e a dificuldade de
financiamento estatal torna-se crônico. Além disso, uma função se volta contra a outra: o
discurso conservador contra os gastos da assistência direta torna-se cada vez mais raivoso
com o encolhimento do mercado de trabalho – é avaliada como “fundo perdido”, um cruel
parâmetro para a vida imposto pela forma mercadoria.
Além disso, o problema do financiamento estatal é agravado também pela crise do
capital global. Se o desemprego e a assistência direta ampliados significam redução de
arrecadação acompanhada de gastos crescentes, a fluidez do capital num mundo com
fronteiras econômicas porosas reduz ainda mais a capacidade de angariar recursos. Com a
concorrência global de custos, a guerra fiscal torna-se uma norma: investimentos são atraídos
por localidades se suas instituições políticas garantem não apenas redução de impostos como
também financiamento subsidiado. A mobilidade do capital torna-se um elemento de
fragilização do financiamento estatal e uma ameaça ao Estado.

[Primeiro, as empresas transnacionais] podem exportar postos de trabalho que


têm os menores custos e os menores impostos possíveis para a utilização de
mão-de-obra; segundo, elas estão capacitadas (em função do amplo alcance dos
meios técnicos de informação) para distribuir produtos e serviços nos mais
diversos lugares, bem como para reparti-los nos mais diversos pontos do
mundo, de tal maneira que as etiquetas das firmas e as das nações acabam
sempre por ser enganosas; terceiro, suas posições lhes permite criar confrontos
entre Estados nacionais ou locais de produção e com isto realizar “pactos
globais”, tendo para si os menores impostos e as melhores condições de
infraestrutura; podem ainda “punir” os Estados nacionais sempre que estes se
tornarem “caros” ou “poucos propícios para investimentos”; e quarto, por fim,
podem escolher de modo autônomo seus locais de investimento, produção,
recolhimento de impostos e de sede na selva da produção global e confrontá-las
uma a uma. Deste modo, os dirigentes podem viver e morar nos lugares mais
belos e pagar impostos nos mais baratos.43

Por quase todos os lados, nas últimas décadas, a tendência tem sido uma constante
redução de impostos dos setores empresarias sob a promessa nunca realizada de que seria
compensada pela geração de empregos. A participação corporativa na arrecadação de
impostos tem progressivamente declinado, nos países centrais e países industrializados

43
BECK, Ulrich. O que é globalização?... Op. cit., p. 17. Grifos no original.

177 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 157-180, jan./jun. 2018


Entre as crises e o colapso: cinco notas sobre a falência estrutural do capitalismo

periféricos, em função da miragem de um retorno à condição anterior do assalariamento


massivo no setores produtivos.
Se a base de arrecadação torna-se frágil com o desemprego e assistência social
crescente, assim como a globalização do capital afugenta a capacidade de arrecadação sobre
os setores produtivos, então como pode o Estado continuar atuando diante de exigências cada
vez mais amplas?
A resposta está no endividamento público. Assim com as famílias substituem
rendimentos por endividamento e as empresas substituem lucros por juros, o Estado cada vez
mais cobre o déficit de arrecadação com empréstimos, emissão de títulos de dívida pública.
Aquilo que havia sido utilizado como uma espécie de motor de arranque da sociedade
burguesa ou como medidas temporárias — o endividamento público absolutista e o déficit
spending keynesiano —, agora se torna permanente com a incapacidade do Estado em garantir
os meios necessários à sua própria atuação. A crise fiscal do Estado tornou-se estrutural, uma
epidemia mundial sem exceção – somente a dívida pública em todo mundo alçou a soma de
42,4 trilhões em 2016.44
E para manter esse volume gigantesco, uma estrutura financeira foi montada ao lado
do endividamento estatal. Se desde o princípio da modernidade grandes bancos se ergueram
arrastados pelo crédito fornecido ao Estado, agora a “hipertrofia financeira” de uma economia
com dinheiro sem lastro e ficcionalização extrema adere ao endividamento público tal como
sanguessugas à carne. A capacidade do Estado de emitir dívida amparada na futura
arrecadação de impostos é uma fonte direta de capital fictício: a antecipação de rendas
futuras, na forma de títulos que podem circular como mercadoria ou dinheiro, torna-se uma
“base” que substitui o lastro real. Não é por acaso que os títulos da dívida pública dos EUA
tornaram-se uma espécie de lastro do mercado financeiro mundial ou que o “rentismo” adote a
dívida pública na periferia do capitalismo com uma fonte quase inesgotável de renda elevada.
Mas a fragilidade dessa sustentação é evidente: como o volume tende a se ampliar
progressivamente, dado que os juros tendem a alavancar o endividamento, a dívida pública
tem um limite que mais cedo ou mais tarde deve ser atingido. As diversas moratórias
recentes, desde os anos de 1970, com a crise da dívida na América Latina na década de 1980,
a moratória russa em 1998 e a crise argentina em 2001, entre outras, anunciam uma era de
incapacidade de sustentação estatal. O problema fiscal na zona do Euro e as recentes
paralisias do governo norte-americano, forçando a ampliação parlamentar do teto de
endividamento, mostram que o limite também chegará para o centro do capitalismo. A
atividade estatal de hoje é financiada pela arrecadação futura, que será insuficiente para
bancar a máquina pública — mesmo contidas suas funções pela ânsia neoliberal em reduzir o
Estado— e por isso deverá amanhã ser novamente respaldada em dívida.45 O megaempresário

44
Disponível em: <https://economia.uol.com.br/noticias/reuters/2016/03/01/divida-publica-global-
continuara-a-crescer-em-2016-diz-sp.htm>. Acesso em: 03 out. 2017.
4545
O “mais cedo ou mais tarde” embaralha-se, criando uma confusa experiência temporal onde o futuro
é consumido: em 2015, a Petrobrás, então a empresa mais endividada do mundo, lançou bônus de dívida
com vencimento em 100 anos. A Argentina de Macri fez o mesmo em 2017, lançando títulos de dívida

178 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 157-180, jan./jun. 2018


Entre as crises e o colapso: cinco notas sobre a falência estrutural do capitalismo

Bernard Madoff, preso em 2008 por ter construído um esquema Ponzi durante a euforia da
bolha imobiliária, teria deixado evidente a sua inspiração ao ser preso: “a dívida pública, no
fundo, tornou-se um esquema de pirâmide”.
Crise do Estado não apenas é resultado da crise do trabalho e do capital, como alimenta
a falência estrutural do capitalismo e amplifica a própria crise do dinheiro – o rompimento do
padrão dólar-ouro em 1971, pelos Estados Unidos, foi a elevação do dinheiro ao limbo da sua
própria arbitrariedade econômica, gesto necessário para cobrir a incapacidade estrutural de
financiamento da maior potência do mundo. A crise do Estado é também a demonstração de
que esta instituição, por mais “externa” que pareça ao mercado, é estruturalmente dependente
das categorias básicas de socialização capitalista. Portanto, a crença estatista num saída
política para a crise está condenada a agravá-la.

Considerações finais

A crença numa dinâmica sempre igual em que ciclos de prosperidade são interrompidos
por crises e tudo reinicia depois já não faz mais sentido. A impressão, de qualquer um que
tenha uma reflexão um pouco mais cuidadosa sobre os rumos da economia mundial, é que
vivemos uma era de crises sem fim, onde as bruscas precipitações econômicas de hoje são o
ensaio de uma tempestade ainda maior à frente. Autores diversos, mesmo sem assumir limites
de nossa época, compreendem uma mudança de era e compreendem as razões de uma
perspectiva cada vez mais achatada para a história econômica. Para alguns, ingressamos
numa era de baixo crescimento,46 outros definem nossa época como de uma regressão
econômica47 e os mais pessimistas falam de um longo declínio.48
Nossa interpretação vai além de uma abordagem econômica – a perspectiva que deve
ser assumida não é a de uma mera “história econômica” que toma os fatos do mercado como
se fossem parte integrante do cotidiano social. A história do mercado é uma história única e
exclusivamente moderna – apenas em nossa sociedade esta forma assumiu o centro da vida
social. É preciso ver como as categorias que criaram essa centralidade da vida baseada na
mercadoria já não funcionam segundo o seu conceito, isto é, as categorias econômicas
desfibraram e com isso criaram uma condição permanente de crise. A crise do trabalho, do
valor, do dinheiro, do capital e do Estado, tomadas em conjunto, indicam que vivemos um

pública para resgate em 100 anos. Outros países estudam a mesma medida e aqui o palavreado sobre
“desenvolvimento sustentável” se mostra sem significado algum, pois essas dívidas revelam de modo
cristalino a indiferença com a “capacidade das gerações futuras de satisfazerem suas necessidades”.
46
“... devemos insistir agora que o que está em jogo no século XXI é um possível retorno ao regime de
baixo crescimento”. PIKETTY, Thomas. O capital no século XXI. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014, p. 77.
47
“Na década de 1970, muitos falaram em crise. Na de 1980, a maioria falou em reestruturação e
reorganização. Na de 1990, já não temos certeza de que a crise dos anos 70 foi realmente solucionada, e
começou a se difundir a visão de que a história do capitalismo talvez esteja num momento decisivo”.
ARRIGHI, Giovanni. O longo século XX... Op. cit., p. 1.
48
“[...] há pouca evidência de que a economia mundial, ou a dos Estados Unidos, tenha conseguido
superar o longo declínio, isto é, o extenso período de crescimento lento que começou por volta de 1973”.
BRENNER, Robert. O boom e a bolha... Op. cit. p. 17.

179 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 157-180, jan./jun. 2018


Entre as crises e o colapso: cinco notas sobre a falência estrutural do capitalismo

colapso da sociedade de mercado. Essa conclusão só pode desencadear uma formulação


radical: para não correr o risco de destruição social com esse processo de desmoronamento, é
preciso romper definitivamente os vínculos com essas categorias. É preciso refundar a crítica
radical do Estado e do mercado.

Maurílio Lima Botelho: É professor dos cursos de graduação e mestrado em Geografia da


Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Campus Seropédica. Possui Licenciatura
em Geografia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e mestrado e doutorado
pelo Programa de Pós-graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e
Sociedade da UFRRJ (CPDA-UFRRJ). Seus principais temas de pesquisa são: Relação campo-
cidade; Urbanização; Teoria da crise; Crítica da economia política; Teoria do valor; Sociologia
do Trabalho.

180 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 157-180, jan./jun. 2018


n. 18, p. 181-197, jan./jun. 2018
ISSN-e: 2359-0092
DOI: 10.12957/revmar.2018.31321

REVISTAMARACANAN
Dossiê

Um museu de grandes novidades: capital fictício, fundo


público e a economia política da catástrofe

A museum of great news: fictitious capital, public fund and the political
economy of the catastrophe

Javier Blank
Universidade Federal Fluminense
javier.blank@gmail.com

Resumo: Neste artigo afirma-se a urgência de superar o senso comum que interpreta fenômenos novos
a partir de análises anacrônicas. Recupera-se a noção de capital fictício de Marx e afirma-se o seu papel
predominante na dinâmica atual de acumulação de capital. Por meio da ficcionalização da riqueza, a
riqueza futura potencial antecipa-se como riqueza atual. Isso produz uma nova relação do presente com
o futuro. Os efeitos catastróficos que essa lógica produzirá no futuro acabam se internalizando como base
da própria produção da riqueza. A partir disso, formula-se a ideia de uma economia política da catástrofe.
Considerando a participação da ficcionalização da riqueza na formação do fundo público, questiona-se a
compreensão frequente que interpreta o fundo público como sendo exclusivamente formado por mais-
valia previamente produzida e apropriada pelo Estado. Finalmente, extraem-se algumas considerações
sobre o horizonte das lutas sociais a partir da compreensão dessas profundas novidades que apresenta
atualmente o capitalismo, que é aqui considerado livremente um museu, que tenta ao mesmo tempo
manter uma forma fixa e cada vez mais anacrônica.

Palavras-chave: Capital fictício; Fundo público; Crise do capital; Economia política da catástrofe.

Abstract: This article affirms the urgency of overcoming the common sense that interprets new
phenomena from anachronistic analyzes. Marx's notion of fictitious capital is recovered and its
predominant role in the current dynamics of capital accumulation is affirmed. Through the fictionalization
of wealth, potential future wealth is anticipated as current wealth. This produces a new relationship of the
present with the future. The catastrophic effects that this logic will produce in the future end up
internalizing as the basis of the production of wealth itself. From this, the idea of a political economy of
catastrophe is formulated. Considering the participation of the fictionalization of wealth in the formation
of the public fund, we question the frequent understanding that interprets the public fund as exclusively
formed by surplus value previously produced and appropriated by the State. Finally, some considerations
about the horizon of social struggles are drawn from an understanding of these profound new
developments that capitalism is currently presenting, which is here freely considered a museum, that
tries at the same time to maintain a fixed and increasingly anachronistic form.

Keywords: Fictitious capital; Public fund; Capital crisis; Political economy of catastrophe.

Recebido: Novembro 2017


Aprovado: Janeiro 2018
Um museu de grandes novidades: capital fictício, fundo público e a economia política da catástrofe

Vejo um museu de grandes novidades


O tempo não para

Cazuza.

Introdução: Um museu de grandes novidades

Na frente das letras gigantes que anunciam orgulhosas “Rio Cidade Olímpica”, na
renovada Praça Mauá, professores e alunos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro
espalham sacos de lixo recolhidos na própria Universidade e transportados de metrô.
Denunciam o descaso do poder público que atrasa salários de professores e funcionários,
bolsas de estudantes e que não repassa as verbas para as empresas terceirizadas
responsáveis pela limpeza, segurança, alimentação, etc. Muito simbolicamente isso acontece
do lado de fora do novíssimo Museu do Amanhã. Sem educação não há amanhã, reclamam
diante das portas do museu, ele mesmo uma cifra da problemática condensação atual de
passado, presente e futuro.1
No hall do museu, os visitantes fazem um círculo para observar os movimentos de
uma mulher sentada no chão. É uma mulher negra com cabelo cacheado que não para de
esfregar no seu cabelo utensílios de cozinha. Fica difícil determinar inicialmente se o objetivo
da ação é o polimento dos garfos, copos e demais objetos ou o alisamento do seu cabelo. Ou
ambos os atos ao mesmo tempo. No Museu do Amanhã, no século XXI, uma mulher negra
sentada desconfortavelmente no chão protesta contra a objetualização que sofre toda vez que
seu cabelo, e o de qualquer negro ou negra, é chamado de Bombril. O olhar dela fica perdido
num horizonte imaginário, muito além das pessoas que a rodeiam. De vez em quando ela fita
alguém transitoriamente. Cada encontro de olhares produz uma tensão diferente. O que estará
passando pela cabeça daquela mulher de cabelo naturalmente loiro e liso quando olhada tão
fixamente pela negra no chão? E daquela outra, também negra, mas que faz anos alisa o
cabelo? A repetição incessante do ato do polimento joga na cara dos visitantes a reprodução
incessante da discriminação dos negros e negras desde o seu violento translado a estas terras.
Um menino loiro sente-se atraído pela cena. Para o pai é suficiente com um minuto para
começar a arrastar o filho para fora da roda. Talvez o pai já entendeu de que se trata e
descobriu que dali em diante tudo será uma mera repetição. Mas a repetição vai produzindo
uma variedade de sentidos novos nesses 15 minutos infinitos até a mulher negra acabar de
polir todos os utensílios. O cansaço, a dormência nas pernas pela posição desconfortável no
chão, a tensão provocada pelo olhar ora perdido ora sutilmente provocador da mulher negra, o
nojo de aceitar passivamente uma situação desconfortável para todo mundo e que já devia ter
acabado minutos (séculos) atrás… a tensão crescente se transforma numa usina de imagens e

1
Um vídeo da performance “Universidade Pública, lixo olímpico” está disponível em:
<https://www.youtube.com/watch?v=oD8Xf0VezPY>. Acesso em: 30 out. 2017.

182 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 181-197, jan./jun. 2018


Um museu de grandes novidades: capital fictício, fundo público e a economia política da catástrofe

ideias para aqueles que ficam. Essa mulher vai provocando dor, pena, solidariedade, até raiva
com seus atos repetitivos e incessantes. Não vai parar nunca? É ela que nos segura aqui,
nessa posição desconfortável. A situação se torna cada vez mais insuportável. Quem fica até o
fim experimenta que cada repetição do mesmo ato não é o mesmo ato. 2
Os sensos comuns, inclusive o senso comum acadêmico e o senso comum de
esquerda, parecem estar adormecidos diante das novidades da nossa época. De diferentes
maneiras se postula ou sugere um eterno retorno do mesmo. Aplicam-se ao presente uma
série de enunciados com suposta validade eterna, transistórica, e outros com suposta
pertinência idêntica em qualquer ponto na história interna do capitalismo. Exemplificando.
Cidades têm falido, e depois têm se recuperado. Sempre o capital atravessou crises. As crises
têm sempre uma função de limpeza e renovação do próprio capital. Quem ganha nas crises
são os ricos. Quem paga nas crises são os trabalhadores e os pobres. A financeirização é
simplesmente um mecanismo de apropriação parasitária de riqueza produzida por outros, ou
seja, de redistribuição regressiva da riqueza. Ainda, volta e meia aparece a pergunta: qual
crise, se os bancos estão com lucros exorbitantes e as empresas se beneficiam de isenções
fiscais? Existência de lucro parece ser uma evidência eterna da saúde econômica dos
capitalistas e do conjunto do sistema.
Algumas dessas afirmações tiveram validade histórica relativa. Outras, nem isso. A
história não se repete, pois há uma linearidade interna no desenvolvimento do capitalismo. 3
Uma das novidades produzidas nesse movimento de desenvolvimento e contradição é que a
ficcionalização da riqueza, para alem de um mecanismo que contribui à redistribuição (ou
pilhagem, rapina) da riqueza social previamente produzida, tornou-se no capitalismo
contemporâneo um mecanismo fundamental da produção de riqueza capitalista.
A compreensão teórica dessa novidade permite: mostrar a coexistência de lucros de
capitalistas (i.e. os bancos comerciais) com uma profunda crise do sistema capitalista num
todo; mostrar o caráter inédito da crise atual; mostrar que as crises cíclicas já não conseguem
produzir a renovação do capitalismo, mas aproximam o sistema do seu limite absoluto; que o
excesso de liquidez atual não é mais super-acumulação de mais-valia produzida sem campos
de investimento mas já em grande medida uma produção de riqueza capitalista que não foi
produzida pela exploração da força de trabalho.
Essa conceituação deve contribuir à problematização das limitadas compreensões
frequentes sobre o fundo público e as disputas políticas em torno dele.

2
Um pequeno fragmento da performance de Priscila Rezende no Museu do Amanhã está disponível em:
<https://www.youtube.com/watch?v=asp43D_xMpo>. Acesso em: 30 out. 2017.
3
“nem inversamente é permitido que a determinação categorial da crise ou do seu mecanismo se
compreenda e represente de um modo inteiramente separado do desenvolvimento interno histórico real
do capital […] [dessa maneira] a sua história interna apenas aparenta ser uma sequência de
acontecimentos fortuitos ou, na melhor das hipóteses, uma eterna oscilação de conjunturas e rupturas
estruturais assentes em algo que é sempre igual a si próprio, mas que não teriam por base nenhuma
lógica ascendente, de certo modo teleológica, de desenvolvimento e contradição” (KURZ, Robert.
Dinheiro sem valor. Lisboa: Antígona, 2014, p. 215).

183 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 181-197, jan./jun. 2018


Um museu de grandes novidades: capital fictício, fundo público e a economia política da catástrofe

A ficcionalização como mecanismo fundamental da produção de riqueza no


capitalismo contemporâneo

Para compreendermos a ficcionalização como mecanismo fundamental da produção de


riqueza no capitalismo contemporâneo devemos enfrentar inicialmente duas dificuldades. A
primeira é distinguir o mecanismo do capital fictício de outras formas de capital que são de
fato, a despeito de sua aparência, formas de redistribuição de riqueza previamente produzida,
como o caso do capital portador de juros. A segunda é distinguir o papel específico que a
ficcionalização da riqueza adquiriu no capitalismo contemporâneo e que introduz uma
reviravolta na história interna desse modo de produção.
Na análise de Marx,4 a mercadoria assume para si propriedades das relações sociais e
apresenta-se como se aquelas fossem propriedades naturais suas. O valor aparece como uma
propriedade natural inerente da mercadoria, quando na verdade é o resultado necessário de
uma sociedade organizada a partir de produtores que produzem para o mercado e na qual o
trabalho tem a função de mediação social. É o que Marx chama de fetichismo da mercadoria.
De maneira semelhante, o “capital portador de juros” se apresenta como tendo a
capacidade natural inerente de multiplicar o seu valor, quando este surge na verdade a partir
dessa relação social muito especial entre o comprador e o vendedor da força de trabalho.
Assim como no fetichismo da mercadoria, nesse fetichismo do capital portador de juros
esconde-se também a “marca de origem”. O juro não é mais do que uma dedução de parte do
lucro produzido pela exploração da força de trabalho, mas a dinâmica da sua produção gera a
aparência dele ser o resultado da auto-reprodução do próprio dinheiro.5
Ao limitarmos nosso olhar a esse tipo de funcionamento do dinheiro convertido em
capital temos que supor que todo rendimento financeiro provém de uma produção de valor
anterior.6 Mas no caso do capital fictício acontece uma multiplicação do capital sem referência
direta ao processo de valorização real. Ao tratar das “partes constitutivas do capital bancário”,
Marx aponta que a “capitalização” de títulos e ações não tem a ver com uma aplicação e
rendimento real do capital produtivo: “A formação do capital fictício chama-se capitalização.
Cada receita que se repete regularmente é capitalizada em se a calculando na base da taxa

4
Cf.: Seção 4 do cap. 1 de: MARX, Karl. O Capital. Vol. I. Tomo 1. São Paulo: Nova Cultural, 1996.
5
“Na forma do capital portador de juros, portanto, esse fetiche automático está elaborado em sua
pureza, valor que valoriza a si mesmo, dinheiro que gera dinheiro, e ele não traz nenhuma marca de seu
nascimento. A relação social está consumada como relação de uma coisa, do dinheiro, consigo mesmo
[…] Torna-se assim propriedade do dinheiro criar valor, proporcionar juros, assim como a de uma pereira
é dar peras. E como tal coisa prestadora de juros, o prestamista de dinheiro vende seu dinheiro” (MARX,
Karl. O Capital. Vol. III. Tomo 1. São Paulo: Nova Cultural, 1986a, p. 294). “O capital portador de juros
só se afirma como tal na medida que o dinheiro emprestado é realmente transformado em capital e se
produz um excedente, do qual o juro é uma parte” (Ibidem, p. 285).
6
Temos em Altvater um exemplo, dentre muitos outros, dessa obstinação: “a ideia frequente de um
desacoplamento entre a economia monetária e a economia real é uma grande ilusão, resultado do brilho
ofuscante do fetichismo do dinheiro e do crédito – como se os altos rendimentos das relações financeiras
viessem de si mesmas, como se pudessem ser recolhidos dos cofres dos Bancos, e não devessem ser
produzidos na economia real” (Apud: LOHOFF, Ernst. Kapitalakkumulation ohne Wertakkumulation. (p.
42). Publicado em: 2014. Disponível em: <http://www.krisis.org/wp-content/data/ernst-lohoff-
kapitalakkumulation-ohne-wertakkumulation-2014-1.pdf>. Acesso em: 30 out. 2017).

184 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 181-197, jan./jun. 2018


Um museu de grandes novidades: capital fictício, fundo público e a economia política da catástrofe

média de juros, como importância que um capital, emprestado a essa taxa de juros,
proporcionaria”.7 Embora Marx já tenha apontado para essa forma de existência do capital e
faça uma distinção clara entre ela e o capital portador de juros, ele não chegou a desenvolver
sistematicamente a noção de capital fictício (em parte porque o seu desenvolvimento objetivo
ainda não tinha chegado ao ponto em que o encontramos hoje). Marx abre a possibilidade de
compreender essa riqueza enquanto riqueza capitalista real mas em algumas passagens acaba
tratando-a como mera aparência. Assim, ele afirma que no capital fictício “toda a conexão com
o processo real de valorização do capital se perde assim até o último vestígio, e a concepção
do capital como autômato que se valoriza por si mesmo se consolida”. 8 Ou ainda, “por mais
que essas transações se multipliquem, o capital da dívida pública permanece puramente
fictício, e a partir do momento em que os títulos de dívida se tornam invendáveis, desaparece
a aparência desse capital”.9 A atribuição a esse tipo de riqueza de um caráter aparente
vincula-se com a localização teórica desse capital na esfera da circulação. Mollo, por exemplo,
afirma: “O capital fictício é, pois, uma categoria da circulação, um caso claro de autonomia da
circulação em que seu valor aparece, cresce ou cai conforme oferta e demanda, sem relação
direta com a produção cujos valores-trabalho são gerados”.10
Assim concebido, o capital fictício não passaria de uma nova forma de manifestação
do fetiche do dinheiro enquanto aparência de uma capacidade inerente de produção de um
valor que teria sido produzido na verdade anteriormente e por outra dinâmica. No entanto,
para termos alguma chance de compreender o capitalismo contemporâneo é preciso
determinar esse movimento próprio do capital fictício como produção de riqueza capitalista
real. Isso significa continuar o caminho aberto por Marx com a noção de capital fictício,
limpando-o de ambiguidades teóricas e concretizando-o historicamente.11
Para isso é crucial observar que as mercadorias dos mercados de capitais tem uma
natureza diferente das mercadorias negociadas nos mercados de bens. Para distingui-las, Ernst
Lohoff as chama de “mercadorias de segunda ordem”. Enquanto as mercadorias dos mercados
de bens têm valores de uso muito variados e portanto prometem satisfazer necessidades
também muito diferentes, as mercadorias de segunda ordem tem um único e exclusivo valor
de uso: “sua aquisição promete aos compradores a transformação do dinheiro em mais
dinheiro”.12 Enquanto as mercadorias dos mercados de bens têm no mercado somente a sua
instância de realização, para as mercadorias de segunda ordem o mercado é a sua esfera de

7
MARX, Karl. O Capital. Vol. III. Tomo 2. São Paulo: Nova Cultural, 1986b, p.11.
8
Idem.
9
Ibidem, p.10. Grifo meu.
10
MOLLO, Maria de Lourdes Rollemberg. Crédito, capital fictício, fragilidade financeira e crises:
discussões teóricas, origens e formas de enfrentamento da crise atual. Economia e Sociedade, Campinas,
v. 20, n. 3 (43), p. 449-474, dez. 2011, p.453.
11
Eu dialogo aqui com as formulações de Ernst Lohoff por considerar que ele é quem mais vem
contribuindo para isso ao desenvolver e concretizar a ideia já antiga no campo teórico da crítica do valor
segundo a qual o capital, uma vez atingido o limite de valorização, sobrevive pelo expediente da
antecipação de riqueza futura.
12
LOHOFF, Ernst. Kapitalakkumulation ohne Wertakkumulation. Op. cit., p. 39.

185 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 181-197, jan./jun. 2018


Um museu de grandes novidades: capital fictício, fundo público e a economia política da catástrofe

produção.13 Quando os títulos ou ações emitidos podem ser eles mesmos utilizados nos
mercados de capitais, essas mercadorias representam a promessa de riqueza monetária futura
sob uma forma negociável. “O dinheiro devém capital monetário ao comprar essas estranhas
mercadorias de segunda ordem”.14 Acontece aqui uma duplicação do capital inicial. O título de
propriedade gerado, que representa a esperança em um valor futuro, adquire existência social
objetiva sob a forma de valor mobiliário. É a reivindicação de valor futuro que representa
riqueza capitalista atual, pelo prazo de validade do título.
Se o nome fictício sugere um caráter irreal ou artificial, é melhor entendermos fictício
como baseado numa ficção, ilusão ou promessa. Mas a promessa produz riqueza capitalista
real. A potencial desvalorização dessa riqueza significa a destruição da riqueza capitalista real
criada por esse mecanismo fictício e não a demonstração da falsidade de uma riqueza
aparente. Capital fictício é, portanto, uma categoria da produção, e qualquer atribuição de
irrealidade a essa produção de riqueza bloqueia o entendimento da sua capacidade de
alimentar e dar uma sobrevida à dinâmica do capital, mesmo que de maneira transitória e
instável.15
Uma vez que identificamos essa forma de capital que se produz na relação entre
emissores e compradores de mercadorias de segunda ordem, sem passar pelo processo de
valorização, devemos enfrentar uma segunda questão. A produção de acumulação de capital
sem acumulação de valor não é novidade. Marx observou como a dívida pública foi uma
poderosa alavanca da “assim chamada acumulação primitiva”. A dívida pública multiplica o
dinheiro “sem que tenha necessidade para tanto de se expor ao esforço e perigo inseparáveis
da aplicação industrial e mesmo usurária”.16 Na descrição feita por Marx do vínculo entre o

13
“Cada dia são vendidas milhões e milhões de mercadorias no mercado de bens. Mas o encontro entre
comprador e vendedor nesses mercados nunca forneceu um novo habitante ao mundo das mercadorias.
No caso dos mercados de dinheiro e capital, ao contrário, trata-se de mercados geradores de
mercadorias. Para a mercadoria capital monetário, o mercado é portanto não só a instância de realização,
mas ao mesmo tempo sua esfera de produção” (LOHOFF, Ernst. Kapitalakkumulation ohne
Wertakkumulation. Op. cit., p. 33).
14
LOHOFF, Ernst; TRENKLE, Norbert. Die große Entwertung: Warum Spekulation und Staatsverschuldung
nicht die Ursache der Krise sind. Münster: Unrast-Verlag, 2012, p. 125.
15
Essa conceituação nos exige abandonar o axioma da identificação entre acumulação de capital e
acumulação de valor já produzido: “A relação social entre o emissor e o vendedor de uma mercadoria de
segunda ordem, nessa sua exclusiva maneira louca, acaba sendo também criadora de capital. Com a
proliferação dessas mercadorias de segunda ordem, o capital criou para si uma fonte de acumulação de
capital independente de uma anterior valorização do valor, não só do ponto de vista do capital individual
mas também considerada a totalidade social. Assim, o fetiche específico das mercadorias de segunda
ordem torna o fetiche do capital uma força material tangível, com amplas consequências teóricas: a
aparição desse novo tipo de mercadorias faz explodir a correspondência entre a acumulação de valor e a
acumulação de capital! […] Com a colocação bem-sucedida de uma mercadoria de segunda ordem no
mercado de capitais, o valor futuro apresenta-se já hoje enquanto capital, considerada a totalidade
social. Trabalho produtivo ainda não efetuado de maneira alguma, e que possivelmente nunca o será,
assume a forma de capital. A formação de capital não se baseia aqui portanto na produção de valor mas
é resultado da antecipação de valor”. (LOHOFF, Ernst. Kapitalakkumulation ohne Wertakkumulation. Op.
cit., p. 41-42).
16
“A dívida pública torna-se uma das mais enérgicas alavancas da acumulação primitiva. Tal como o
toque de uma varinha mágica, ela dota o dinheiro improdutivo de força criadora e o transforma, desse
modo, em capital, sem que tenha necessidade para tanto de se expor ao esforço e perigo inseparáveis da
aplicação industrial e mesmo usurária. Os credores do Estado, na realidade, não dão nada, pois a soma
emprestada é convertida em títulos da dívida, facilmente transferíveis, que continuam a funcionar em
suas mãos como se fossem a mesma quantidade de dinheiro sonante […] O Banco da Inglaterra começou

186 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 181-197, jan./jun. 2018


Um museu de grandes novidades: capital fictício, fundo público e a economia política da catástrofe

Banco de Inglaterra o Estado inglês encontramos de maneira clara o mecanismo de duplicação


de capital já referido.
Mas o fato de aparecerem mecanismos de produção de capital fictício na origem mesmo
do capitalismo e no decurso do seu desenvolvimento não deve levar-nos a enxergar na sua
manifestação atual um eterno retorno do mesmo. Na história interna do capital houve um salto
qualitativo na função do capital fictício.
Até faz algumas décadas, as bolhas financeiras consistiam fundamentalmente na
utilização de capital excedente resultante de uma super-acumulação que já não encontrava
oportunidades rentáveis de aplicação na produção. Elas eram resultado do fim de uma onda de
expansão capitalista no seu movimento cíclico. E sumiam quando o capital entrava numa nova
onda expansiva criada sobre novas bases. 17 No entanto, desde os anos 1970 a expansão dos
mercados financeiros pela mágica de fazer aparecer no presente um valor potencial futuro
tornou-se uma fonte imprescindível e permanente de riqueza para evitar o colapso derivado da
crise estrutural na produção de valor. A liberalização dos mercados financeiros, o aumento da
dívida pública, a privatização do setor público, foram todos expedientes pelos quais a dinâmica
econômica se deslocou para a “indústria financeira”, adiando o estouro da crise para as
próximas décadas.18 O capital fictício tornou-se um mecanismo fundamental e permanente de
criação de nova riqueza capitalista real e o vínculo tradicional entre capital fictício e capital
funcionante se inverteu: “Nesse ‘capitalismo invertido’, a expansão a longo prazo do capital
fictício não mais reflete o desenvolvimento do capital funcionante, ao contrário, o crescimento
do capital funcionante inverteu-se numa variável dependente do crescimento do capital
fictício”.19
Afirmar que a acumulação de capital pode agora acontecer por antecipação de
valorização futura e que essa riqueza é tão real em termos capitalistas quanto qualquer outra
não implica desconhecer a diferença que existe entre ela e acumulação capitalista resultado do
processo de produção de valor precedente. É sua maneira específica de ser riqueza capitalista
real que permite compreender o desenvolvimento histórico das últimas décadas. A
predominância da produção desse tipo de riqueza abstrata deve nos ajudar a compreender
uma novidade fundamental da nossa época, uma nova maneira sistêmica de se estabelecer o
vínculo entre o presente e o futuro. Acontece que as expectativas de futuro se tornam
fundamentais como base desse tipo de riqueza. Ainda que o futuro possa parecer o novo de
ponto de referência da acumulação, a rigor parece ser melhor afirmar que a referência dessa

emprestando seu dinheiro ao governo a 8%; ao mesmo tempo foi autorizado pelo Parlamento a cunhar
dinheiro do mesmo capital, emprestando-o ao público outra vez sob a forma de notas bancárias. Com
essas notas, ele podia descontar letras, conceber empréstimos sobre mercadorias e comprar metais
nobres. Não demorou muito para que esse dinheiro de crédito, por ele mesmo fabricado, se tornasse a
moeda, com a qual o Banco da Inglaterra fazia empréstimos ao Estado e, por conta do Estado, pagava os
juros da dívida pública” (MARX, Karl. O capital. 1996. Op. cit., p. 374-375.)
17
Cf.: LOHOFF, Ernst. Fugas para frente. Publicado em: 2000. Disponível em:
<http://www.krisis.org/2015/fugas-para-frente/>. Acesso em: 30 out. 2017; LOHOFF, Ernst; TRENKLE,
Norbert. Die große Entwertung... Op. cit.
18
É importante frisar que a liberalização não implica a omissão ou inação do Estado, pois ela deve ser
regulamentada (vide a necessidade atual de legislação para segurança dos derivativos).
19
Ibidem, p. 211.

187 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 181-197, jan./jun. 2018


Um museu de grandes novidades: capital fictício, fundo público e a economia política da catástrofe

acumulação de capital continua sendo o presente. Mas já não o presente enquanto existência
efetiva de uma valorização anterior acumulada que permite uma nova rodada de valorização,
mas o presente enquanto expectativa de valorização futura. Por isso a questão da confiança
dos mercados, tal como aparece na superfície da economia, se torna fundamental. 20 A punção
de valor futuro só pode funcionar se o título proposto se refere a um setor da economia real
que promete ganhos futuros. Assim, na história interna do “capitalismo invertido” podemos
apanhar o sucessivo surgimento, sucesso transitório e fracasso dos diversos “portadores de
esperança na economia real”.21
É particularmente interessante o lugar das tecnologias de informação nesse processo. Por um
lado, elas provocaram a racionalização do processo de trabalho que levou à queda da produção
de valor e obrigou o sistema capitalista a se orientar para a ficcionalização da riqueza. Por
outro, as próprias empresas produtoras de tecnologia da informação cumpriram durante um
certo tempo o papel de “portadores de esperança na economia real”, na chamada new
economy. E finalmente, essas mesmas tecnologias que fornecem a infra-estrutura necessária
para a explosão da “indústria financeira”, provocam a racionalização do processo de trabalho
também nesse âmbito.22

20
“Enquanto a promessa de pagamento se mantiver válida e credível, ela é um capital adicional ao lado
do capital do qual se originou” (LOHOFF, Ernst; TRENKLE, Norbert. Da enorme descarga de capital
fictício. Publicado em: 2014. Disponível em: <https://eleuterioprado.files.wordpress.com/2014/12/da-
imensa-descarga-de-capital-fictc3adcio.pdf>. Acesso em: 30 out. 2017). “A maré crescente dos títulos de
propriedade só pode encontrar mercado se de alguma forma parecer plausível que a promessa de
pagamento e a perspectiva de lucros de parte dos tomadores de empréstimo e de outros vendedores de
títulos de propriedade possam ser cumpridas.” (LOHOFF, Ernst; TRENKLE, Norbert. Crise mundial e
limites do capital. Entrevista a Reinhard Jellen. Revista Sinal de Menos, ano 5, n. 9, p. 9-23, 2013, p.16).
“O valor de mercado desses papéis é em parte especulativo, pois não é determinado apenas pela receita
real, mas também pela esperada, calculada por antecipação.” (MARX, Karl. O capital. 1986b. Op. cit., p.
12). Levar em consideração o papel fundamental das expectativas de ganhos futuros como base dessa
produção de riqueza não me parece implicar numa “fuga para um conceito subjetivista de crise”, como
propõe Bernd Czorny (CZORNY, Bernd. Ernst Lohoff e o individualismo metodológico. Publicado em:
2014. Disponível em: <http://www.obeco-online.org/bernd_czorny.htm>. Acesso em: 30 out. 2017).
21
“A dependência da formação de capital fictício em relação com os portadores de esperança na
economia real é, portanto, de um lado, responsável pelo sucesso do capitalismo invertido, mas, ao
mesmo tempo, a confrontação com a economia real representa o calcanhar de Aquiles do sistema
fundado sobre a dinâmica da criação de capital fictício. A capacidade de expansão do capital fictício nasce
e morre finalmente com as perspectivas dos portadores de esperança na economia real. Portanto, a
criação de capital fictício está vinculado a um recurso que não pode emergir ele mesmo do seno da
indústria financeira: os portadores de esperança da economia real. Essa dependência representa o ponto
fraco do capitalismo invertido.” (LOHOFF, Ernst; TRENKLE, Norbert. Die große Entwertung... Op. cit., p.
258).
22
“Nasce aí o Algorithmic Trading ou AlgoTrading (AT), a negociação automatizada por computador, que
executa estratégias matematicamente orientadas de movimentos de compra e/ou venda para obtenção
de ganhos financeiros nos mercados. O High Frquency Trading (HFT), desdobramento direto desse
avanço técnico, nada mais é do que uma forma de Algorithmic Trading que executa as ordens de sua
estratégia em altíssima velocidade, graças ao auxílio de tecnologias informacionais de ponta em múltiplas
dimensões”. Dentre os princípios gerais da adoção desse modelo de negociação se encontra a “economia
de trabalho e diminuição de riscos do ‘fator humano’ (emoções, subjetividade) via automação” (PARANÁ,
Edemilson. A finança digitalizada: capitalismo financeiro e revolução informacional. Florianópolis: Insular,
2016, p. 118). “No Brasil, dados da BM&FBovespa indicam que, em 2013, os HFTs já eram responsáveis
por 15,6% de todo o volume financeiro com ações. Em 2010, esse percentual não passava de 5%. Se
contabilizados os demais AlgoTradings (ATs) […] cerca de 40% do total de negócios em bolsa são
realizados por robós, em estratégias automatizadas” (idem, p.134). Se “uma piscada de olho dura, em
média, algo próximo a 0,5 segundo; por sua vez, uma operação realizada por uma dessas máquinas
chega a 7 milésimos de segundo” (Ibidem, p. 15).

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Um museu de grandes novidades: capital fictício, fundo público e a economia política da catástrofe

Chegamos a uma formulação central no nosso argumento: a ficcionalização, e a


generalização da especulação financeira que dela resulta, não são as causas mas a
manifestação da crise, ao mesmo tempo que um mecanismo para tentar adiá-la. Nessa
tentativa de adiamento do estouro da crise, o crescimento dos títulos deve ser exponencial.23
O aumento exorbitante dessa forma de riqueza é uma necessidade sistêmica objetiva e não é,
portanto, um mero desvio ou uma ação imoral e gananciosa de certo tipo de capitalistas,
embora alguns deles possam se beneficiar transitoriamente no decurso desse processo.
Se a chamada “economia real” não tivesse o grau de dependência atual com o mundo
das finanças, uma crise financeira deveria afetar tão somente os possuidores ou credores dos
títulos desvalorizados. Mas a economia num todo depende hoje dessa forma de riqueza. Como
resultado da crise financeira desenvolve-se um processo de decomposição que evidencia que
até então a reprodução social dependia daquele processo especulativo. A riqueza das nações e
empresas depende de maneira fundamental da emissão e capitalização de títulos e ações; e o
estouro de bolhas no mundo das finanças repercutem em forma de recessão, desemprego,
empreendimentos deixados pela metade. 24
Nesse processo, o Estado foi ganhando um papel não só fundamental mas também
protagônico na dinâmica de produção de capital fictício. Diante do sucessivo fracasso dos
diversos portadores de esperança na economia real, a emissão de títulos públicos tornou-se
uma peça chave na produção de capital fictício. O Estado ainda se apoia no seu status de
suposto pagador infalível (ou pelo menos mais confiável que os bancos comerciais). Ao mesmo
tempo, desde o estouro da crise em 2008, os Bancos Centrais assumiram cada vez mais o
papel de comprar ativos tóxicos, aqueles cuja garantia de retorno está fragilizada e que,
portanto, se tornaram desinteressantes para os bancos comerciais. Também compraram títulos
de empréstimo de seus próprios Estados para refinanciar o poder público. A compra de títulos
degradados por parte dos Bancos Centrais estabiliza transitoriamente a situação econômica
geral e as finanças dos Estados, ainda que prometa estouros catastróficos para o futuro
próximo.25

23
“Para que a produção desses novos títulos possa desempenhar o papel de motor, relançando assim
toda a operação capitalista, a sua taxa de emissão deve crescer muito mais rapidamente do que a taxa
de crescimento da produção em sectores-chave da economia real, nos períodos anteriores. Está
submetido à obrigação de crescer de modo exponencial, porque deve constantemente transformar em
capital um novo montante de valor futuro, buscando, sem descanso, um substituto para as antecipações
de valor precedentes que chegaram ao vencimento” (LOHOFF, Ernst; TRENKLE, Norbert. Da enorme
descarga de... Op. cit.).
24
Pela importância e o papel desse tipo de riqueza para a dinâmica capitalista atual, já não vale a
seguinte afirmação de Marx: “Na medida em que a desvalorização ou valorização desses títulos é
independente do movimento de valor do capital real que eles representam, a riqueza de uma nação é
exatamente do mesmo tamanho tanto antes quanto depois da desvalorização ou valorização […] Na
medida em que sua desvalorização não exprimia uma paralisação real da produção e do tráfego em
ferrovias e canais ou o abandono de empreendimentos iniciados ou o desperdício de capital em empresas
positivamente sem valor, a nação não empobreceu nem de um centavo pelo estouro dessas bolhas de
sabão do capital monetário nominal” (MARX, Karl. O capital. 1986b. Op. cit., p. 12-13). Por isso, talvez
sem entender muito do que ali se passa, qualquer cidadão hoje teme que do movimento das ações, dos
juros, das notas das agências de classificação depende não só o lucro dos banqueiros como também a
possibilidade de manter o seu emprego, ou de que a escola do bairro seja finalizada.
25
Cf. LOHOFF, Ernst. Incêndio no carro de bombeiros. Publicado em: 2011. Disponível em:
<http://www.krisis.org/2015/incndio-no-carro-de-bombeiros/>. Acesso em: 30 out. 2017; Crise mundial

189 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 181-197, jan./jun. 2018


Um museu de grandes novidades: capital fictício, fundo público e a economia política da catástrofe

Ora, se os Estados estão organicamente envolvidos na produção e reprodução do


capital fictício, então a natureza do fundo público deve ser radicalmente problematizada.

Fundo público, capital fictício e a “ponte para o futuro”

Nada se edifica sobre la piedra, todo sobre la arena,


pero nuestro deber es edificar como si fuera piedra la
arena.

Jorge Luis Borges.26

A obstinada evocação da seriedade da acumulação


mundial do capital monstra quando muito que a
consciência do marxismo do movimento operário
depende ela mesma dessa seriedade para se aferrar à
compreensão que tem de si mesma.

Robert Kurz.27

No debate mais frequente, o vínculo entre fundo público e mundo das finanças
apresenta-se de maneira unilateral, na sucção que os rentistas tentam fazer dos fundos do
Estado para garantir os seus rendimentos.28 O fundo público é conceituado como a parcela
apropriada pelo Estado, fundamentalmente por meio de impostos, da mais-valia produzida
socialmente por meio da exploração da força de trabalho na produção de mercadorias. O
debate político orienta-se, como decorrência dessa conceituação, pela disputa por uma
distribuição mais justa e socialmente sensível dos recursos estatais, considerados uma
apropriação de valor previamente produzido pelos próprios trabalhadores.
Nessa concepção apaga-se a participação da produção de capital fictício na própria
formação do fundo público. O fundo público virou não só um lugar fundamental de rapina e
pilhagem da riqueza apropriada pelo Estado, mas um locus de produção de nova riqueza

e... Op. cit.; Da enorme descarga de... Op. cit.; O depósito de lixo do capital fictício. Publicado em:
2012b. Disponível em: <http://www.krisis.org/2015/o-depsito-de-lixo-do-capital-fictcio/>. Acesso em:
30 out. 2017.
26
BORGES, Jorge Luis. Fragmentos de un evangelio apócrifo. In: Obras Completas: 1923-1972. Buenos
Aires: Emece, 1974, p. 1012.
27
KURZ, Robert. A ascensão do dinheiro aos céus. Publicado em: 1995. Disponível em:
<http://www.obeco-online.org/rkurz101.htm>. Acesso em: 30 out. 2017.
28
Por exemplo: “Com a financeirização da riqueza, os mercados financeiros passam a disputar cada vez
mais recursos do fundo público, pressionando pelo aumento das despesas financeiras do orçamento
estatal, o que passa pela remuneração dos títulos públicos emitidos pelas autoridades monetárias e
negociados no mercado financeiro, os quais se constituem importante fonte de rendimentos para os
investidores institucionais. Com isso, ocorre um aumento da transferência de recursos do orçamento
público para o pagamento de juros da dívida pública, que é o combustível alimentador dos rendimentos
dos rentistas. Nesse bojo, também se encontram generosos incentivos fiscais e isenção de tributos para o
mercado financeiro à custa do fundo público” (SALVADOR, Evilásio. Fundo público e políticas sociais na
crise do capitalismo. Serviço Social e Sociedade, São Paulo, n. 104, p. 605-631, out./dez. 2010, p. 606).

190 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 181-197, jan./jun. 2018


Um museu de grandes novidades: capital fictício, fundo público e a economia política da catástrofe

capitalista. Numa análise da totalidade do sistema mundial, fica evidente a dependência do


desenvolvimento da acumulação capitalista dos países ditos emergentes em relação à
expansão do crédito e da especulação dos países centrais,29 e também dos fundos públicos
desses países, que dependem dessa dinâmica da acumulação.
Isso se traduz em contradições e limites estruturais para a tentativa de avanço das
lutas progressistas. Mas, ao se desconhecer o terreno atual dessas lutas, a análise dos seus
obstáculos se reduz frequentemente a uma crítica personificadora. 30 Constatar que o fundo
público é alimentado estruturalmente pelo capital fictício torna pantanoso um terreno que se
supõe sólido e conhecido. E põe em questão a atualidade das formas de luta herdadas do
século passado. Pensa-se que a especulação gera uma riqueza falsa, e, no entanto, ela é
riqueza capitalista real. Pensa-se que o fundo público é todo ele riqueza real produzida pelos
trabalhadores e sugada pelos rentistas, e, no entanto, esse próprio fundo público está
atravessado por aquela riqueza à qual se atribui o caráter de falsidade. Nessa confusão
conceitual acaba-se acreditando que o fundo público é mais sólido do que se pensa, e que
pode se dispor dele à vontade. Pelo seu específico caráter de realidade, vinculado à produção
de capital fictício, ele desmancha no ar. O fundo público tem hoje, entre outras funções, o
papel fundamental de reproduzir as bases para a produção de capital fictício, que por sua vez
alimenta a totalidade economia.
Como vimos, na lógica do capital fictício a referência às expectativas de ganhos futuros
se torna a forma atual de capital, na emissão de títulos e ações. A necessidade da construção
permanente da imagem de pagador infalível por parte dos Estados, ou seja, sua afirmação
como portador de esperança da economia real, permite explicar o seu acionar na tarefa de
manutenção dessa forma de vida irracional em decomposição. A despeito dos discursos de
equilíbrio fiscal, “uma paradoxal politica de austeridade e endividamento” faz parte da
dinâmica atual dos Estados, presos na dependência estrutural atual do capital fictício. Mais do
que realmente acertar as contas entre renda e gasto, o que o Estado faz hoje é “simular
capacidade de pagamento” para continuar (ou voltar) a se envolver na dinâmica de produção
de riqueza que representa a emissão de títulos.31

29
Cf. LOHOFF, Ernst; TRENKLE, Norbert. Die große Entwertung... Op. cit., p. 104.
30
Essa crítica limitada já foi questionada por Marx: “Não pinto, de modo algum, as figuras do capitalista
e do proprietário fundiário com cores róseas. Mas aqui só se trata de pessoas à medida que são
personificações de categorias econômicas, portadoras de determinadas relações de classe e interesses.
Menos do que qualquer outro, o meu ponto de vista, que enfoca o desenvolvimento da formação
econômica da sociedade como um processo histórico-natural, pode tornar o indivíduo responsável por
relações das quais ele é, socialmente, uma criatura, por mais que ele queira colocar-se subjetivamente
acima delas” (MARX, Karl. O capital. 1996. Op. cit., p. 131-132).
31
LOHOFF, Ernst; TRENKLE, Norbert. O depósito de lixo... Op. cit.; Cf., também: LOHOFF, Ernst;
TRENKLE, Norbert. Crise mundial e... Op. cit., p. 16-17. Por outro lado, isso é reconhecido de uma ou
outra maneira nas reportagens econômicas. “Com um deficit previsto de R$ 139 bilhões e um Estado caro
para manter, o setor público precisa emitir títulos, ou seja, se endividar. Apesar disso, o Brasil ainda
corre o risco de ser rebaixado novamente pelas agências de risco internacionais nos próximos meses,
selando o papel de não pagador das dívidas. O patamar pode chegar ao de altíssimo risco, afugentando
investidores no país”. (FERRARI, Hamilton. Emissão de títulos é principal fator para a alta das dívidas do
governo. Correio Brasiliense, Brasília, 25 jul. 2017. Disponível em:
<http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2017/07/25/internas_polbraeco,612193/emis
sao-de-titulos-e-principal-fator-para-a-alta-das-dividas-do-govern.shtml>. Acesso em: 30 out. 2017).

191 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 181-197, jan./jun. 2018


Um museu de grandes novidades: capital fictício, fundo público e a economia política da catástrofe

No caso do Brasil atual, podemos afirmar que a “ponte para o futuro” 32 que estaria
orientando a política brasileira não é senão uma maneira cínica de se referir a uma “ponte para
o abismo”. Podemos, assim, aludir aos efeitos catastróficos desse conjunto de reformas. Mas
isso não contribui à compreensão da economia política que as fundamenta. Resulta mais
fecundo levar a sério a ideia de que está sendo criada uma ponte para o futuro, embora
transformando o sentido atribuído pelos formuladores dessa ideia. As políticas em andamento,
mais do que conduzir o Brasil endividado e supostamente atrasado do presente, pela via de
certas reformas e do desenvolvimento desencadeado por elas, ao Brasil do futuro, tentam
construir uma ponte para trazer o futuro do Brasil ao presente, isto é, para tornar o Brasil
futuro pré-capitalizável.
Diante uma dívida pública brasileira que se situava em torno de 67% do PIB, o PMDB,
na sua proposta programática de “uma ponte para o futuro”, de 29 de Outubro de 2015,
propunha “interromper o crescimento da dívida pública, num primeiro momento, para, em
seguida, iniciar o processo de sua redução como porcentagem do PIB”.33 Em mais de um ano
com Michel Temer na presidência da República não houve redução da dívida pública nem em
termos absolutos nem em relação ao PIB. Ao contrário, o Estado brasileiro atingiu a marca da
maior dívida da sua história.34 Enquanto isso, ao aprovar a Proposta de Emenda Constitucional
241 (PEC 241), o Senado brasileiro tomou uma medida inédita a nível mundial: fixar o teto dos
gastos sociais para os próximos vinte anos. Isso significa “a liquidação total, de antemão, das
garantias sociais da futura geração”.35
Do outro lado da fronteira, desde a chegada de Mauricio Macri à presidência, a
Argentina se tornou o maior emissor de títulos públicos entre os ditos países emergentes. 36
Ambos os governos aliam práticas orientadas pelo discurso do ajuste fiscal, ao mesmo
tempo que desenvolvem tendências ao endividamento. Ainda que possam justificar as
heranças das políticas dos governos anteriores como as provocadoras das necessidades de
endividamento atual, o certo é que na busca de equilíbrio fiscal (se levarmos a sério essa

“Eighteen months have passed since Argentina shed its status as an international pariah mired in bond
default litigation. There was the elimination of currency controls, the stabilization of the peso, the revival
of the mortgage market, the reduction of the budget deficit. Sure, investors have given some measure of
respect to the government—after all, they were willing to fork over $2.75 billion in a sale of 100-year
bonds with a 7.1 percent coupon in June—but the yields they demand remain high, the credit rating is
low, and the country’s stock market is still in the same class as far-flung places such as Mauritius,
Tunisia, and Bangladesh. […] investors have much more immediate concerns, such as the sluggish pace
of the economic recovery, the stubborn nature of double-digit inflation, and a budget deficit that, while
shrinking, is still large” (RUSSO, Camila. No. 1 Bond Salesman in Emerging Markets Wants a Tad More
Respect. Bloomberg Markets, New York City, 02 out. 2017. Disponível em:
<https://www.bloomberg.com/news/features/2017-10-02/would-you-buy-7-percent-bonds-from-this-
guy>. Acesso em: 30 out. 2017).
32
PMDB. Uma ponte para o futuro. Disponível em: <http://pmdb.org.br/wp-
content/uploads/2015/10/RELEASE-TEMER_A4-28.10.15-Online.pdf>. Acesso em: 30 out. 2017.
33
Ibidem, p.13.
34
FERRARI, Hamilton. Emissão de títulos... Op. cit.
35
BOTELHO, Maurílio. A aprovação do fim do mundo. Blog da Boitempo (site). Publicado em: 17 out.
2016. Disponível em: <https://blogdaboitempo.com.br/2016/10/17/a-aprovacao-do-fim-do-mundo/>.
Acesso em: 15 nov. 2017.
36
RUSSO, Camila. No. 1 Bond... Op. cit.

192 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 181-197, jan./jun. 2018


Um museu de grandes novidades: capital fictício, fundo público e a economia política da catástrofe

pretensão) as contas não fecham pois o endividamento representará no futuro um peso maior
do que as reduções feitas nos ajustes atuais.
No caso do Estado do Rio de Janeiro, as tentativas de antecipação de riqueza futura
com consequências desastrosas são evidentes. A Lei 2.666/2013, aprovada pela Assembléia
Legislativa do Estado do Rio de Janeiro em 18/12/2013, possibilitou ao RioPrevidência captar
cerca de R$ 4,8 bilhões no mercado doméstico ou internacional com a antecipação dos
royalties do petróleo. Posteriormente, a RioPrevidência criou a sociedade Rio Oil Finance Trust,
nos EUA, para realizar a emissão dos títulos. A garantia desses títulos seriam os royalties
futuros do petróleo. Com a queda da previsão de receitas do fundo, pela queda de 50% do
preço do petróleo e a redução na produção da Petrobras, os credores poderiam exigir o
vencimento antecipado do valor integral dos títulos. Depois desse processo, “o Tribunal de
Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ) constatou uma dívida de R$ 18,5 bilhões no
Fundo Único de Previdência Social do Estado do Rio de Janeiro (RioPrevidência) referente a
operações financeiras realizadas no Brasil e no exterior para antecipação de receitas”.37
Agora o Estado do Rio pretende arrecadar R$ 6,5 bilhões com a securitização de
receitas futuras de royalties de petróleo por meio de empréstimos lastreados pela venda da
CEDAE (Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro).38
Enquanto isso, o Governo do Estado do Rio está estudando a proposta de um “novo
mecanismo de renúncia fiscal para reforçar os recursos para a Segurança Pública”. 39 O Estado
não só precisa se mostrar como um potencial bom pagador. A miragem do equilíbrio fiscal
deve ir junto com a do equilíbrio (ou controle) social. Essa “criação de uma imagem de futuro
seguro” se torna também uma peça chave na possibilidade de antecipar riqueza. Por isso a
questão da Segurança Pública também deve ser analisada desde a lógica da produção do
capital fictício. Assim como a “simulação de capacidade de pagamento”, a “simulação de um
ambiente seguro” é uma condição de possibilidade da produção desse tipo de riqueza.
Podemos afirmar que, ironicamente, com essa medida de isenção fiscal para o investimento

37
Disponível em: <https://blogdopedlowski.com/2017/02/11/rioprevidencia-r-185-bilhoes-e-o-tamanho-
do-rombo-causado-pela-operacao-delaware/>. Acesso em: 15 nov. 2017. Mais detalhes de toda essa
operação podem ser consultados no Blog de Marcos Pedlowski. Disponível
em:<https://blogdopedlowski.com/tag/operacao-delaware/>; Cf., também: SETTI, Renan.
Rioprevidência: credores aceitam propostsa, evitando antecipação de títulos. O Globo, Rio de Janeiro, 06
nov. 2015. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/economia/negocios/rioprevidencia-credores-
aceitam-proposta-evitando-antecipacao-de-titulos-17983192>. Acesso em: 15 nov. 2017.
38
Entrevista à CBN do Secretário de Fazenda do Estado do Rio de Janeiro 06/09/2017. Áudio disponível
em: <http://m.cbn.globoradio.globo.com/media/audio/118247/rio-vai-pretende-arrecadar-r-65-bilhoes-
com-securi.htm>. Acesso em: 15 nov. 2017. Transcrição da entrevista disponível em:
<https://blogdopedlowski.com/2017/09/06/escandalo-a-vista-des-governo-pezao-prepara-reprise-da-
operacao-delaware-para-entregar-o-que-ainda-sobrou-da-receita-futura-dos-royalties-do-petroleo/>
Acesso em: 15 nov. 2017.
39
“O secretário estadual da Casa Civil, Christino Áureo, disse neste domingo que o governo do Estado
estuda a criação de um novo mecanismo de renúncia fiscal para reforçar os recursos para a Segurança
Pública. A proposta, que dependeria de ser aprovada pela Assembleia Legislativa (Alerj), prevê um
regime especial de tributação pelo qual as empresas interessadas investiriam parte do ICMS que teriam
que recolher para programas de segurança, em um modelo semelhante ao que financia projetos apoiados
pela Secretaria estadual de Cultura, por exemplo”. MAGALHÃES, Luiz Ernesto. Pezão estuda novo modelo
de renúncia fiscal para empresa que investir em segurança. O Globo, Rio de Janeiro, 24 set. 2017.
Disponível em: <https://oglobo.globo.com/rio/pezao-estuda-novo-modelo-de-renuncia-fiscal-para-
empresa-que-investir-em-seguranca-21865120>. Acesso em: 30 out. 2017.

193 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 181-197, jan./jun. 2018


Um museu de grandes novidades: capital fictício, fundo público e a economia política da catástrofe

em Segurança Pública, o Estado hoje “terceiriza” aquele “esforço de guerra” feito pelos
Estados ao longo do século XX; só que agora contra o inimigo interno, e como base para um
novo tipo de acumulação de capital.40

A economia política da catástrofe

Franco Berardi sugere que o capitalismo financeiro está sendo conduzido por um
“niilismo aniquilador”.41 A sua expressão mais clara e extrema seria a lógica dos títulos
chamados credit default swap (CDS),42 nos quais o dinheiro investido “aumenta o seu valor
enquanto as coisas são aniquiladas (fábricas são desmanteladas, empregos são destruídos,
pessoas morrem, cidades se desagregam, e assim por diante)”. Portanto, “esse tipo de lucro
financeiro é construído essencialmente sobre a aposta na degradação do mundo”. 43 Mas essa
lógica destrutiva não se reduz aos credit default swap. Como vimos, o capitalismo atual num
todo, na sua necessidade estrutural de antecipação de riqueza futura, reside na aposta na
degradação do mundo, baseia-se em uma economia política da catástrofe.
A catástrofe social não é mais um efeito secundário, não visado e exterior ao próprio
processo de produção capitalista. Transformou-se em um mecanismo interno, estrutural, da
tentativa cada vez mais frágil de reproduzir a base necessária para esse novo tipo de riqueza
que é a pre-capitalização de valor potencial futuro.
Também é possível encontrar essa lógica, que internaliza economicamente a
catástrofe como base da criação de riqueza, na relação atual com os recursos naturais. Para
Luis Marques, nas suas reflexões sobre capitalismo e colapso ambiental, não parece haver um
limite interno da lógica do capital. É a finitude do mundo natural que representaria o limite
externo que acaba interrompendo o desenvolvimento dessa lógica. “A degradação ambiental
está se tornando, em suma, a componente estrutural da crise do capitalismo global”. 44 A
dinâmica capitalista, necessariamente expansiva, não pode freiar esse processo pois o custo
ambiental não é passível de ser “precificado”, ou seja internalizado nos custos das empresas,

40
Desde inícios do século XX, muitos teóricos têm falado da economia política da guerra e do papel da
indústria bélica como alavanca fundamental do desenvolvimento capitalista. Foi preciso criar guerras para
justificar o investimento estatal requerido para a corrida armamentista que faria girar a máquina da
acumulação. Nos anos 1990, pós-Guerra Fria, surgiu a pergunta sobre a possibilidade da conversão da
tecnologia e economia baseada na guerra em tecnologia e economia para a paz. Já se temia que o
conflito Este-Leste fosse substituído pelo chamado conflito Norte-Sul, ou seja, as guerras anti-terroristas,
anti-revolucionárias, anti-nacionalistas (Cf.: AGUIRRE, Mariano; MALGESINI, Graciela (comp.). Misiles o
microchips: la conversión de la industria militar a civil. Barcelona: Icaria/FUHEM, D. L., 1991).
41
BERARDI, Franco. Heroes: Mass Murder and Suicide. London: Verso, 2015, p. 88-89.
42
“O credit default swap (CDS) é o melhor exemplo dessa transformação da vida, recursos e linguagem
em nihil. O CDS é um contrato no qual o comprador do CDS faz uma série de pagamentos ao vendedor e,
em troca, recebe um pagamento de volta se um instrumento – tipicamente um título ou empréstimo –
entra em default (falha o seu pagamento). Menos frequentemente, o evento de crédito que dispara o
pagamento pode ser a reestruturação ou falência de uma empresa, ou até o simples rebaixamento da
sua classificação de crédito” (Idem).
43
Idem.
44
Marques, Luiz. Capitalismo e colapso ambiental. 2 ed. (revista e ampliada). Campinas, SP: Editora da
Unicamp, 2016, p. 51.

194 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 181-197, jan./jun. 2018


Um museu de grandes novidades: capital fictício, fundo público e a economia política da catástrofe

pois tornaria a atividade econômica não rentável.45 As crises capitalistas não teriam deixado de
ser cíclicas, mas se encontrariam agora com o limite do colapso ambiental que impacta no
próprio desenvolvimento econômico. 46 Pois “a escassez e/ou poluição dos recursos naturais, as
mudanças climáticas e demais desequilíbrios ambientais serão doravante cada vez mais as
variáveis decisivas na determinação da taxa de lucro do capital”.47
E verdade que quando a previsão de escassez se efetivar, isso afetará sem dúvida a
taxa do lucro do capital individual que precise adquirir esses recursos naturais como matérias-
primas para a sua produção. Mas, enquanto isso, a perspectiva de escassez futura se
“precifica” não no sentido de evitar a destruição da natureza, mas de criar capital fictício: pré-
capitaliza-se a escassez futura, efetivando-se como riqueza capitalista atual, na forma de
aumento dos preços dos recursos naturais ameaçados. 48 Também a destruição da natureza
deixou de ser um mero efeito secundário e não visado para se tornar parte do mecanismo
interno de produção de riqueza abstrata.

O nosso horizonte histórico

Como se sabe, o capital tendeu desde a sua origem a universalizar a mercantilização de


bens e relações sociais. A partir do deslocamento aqui referido, bens e relações sociais tendem
a se converter agora numa mercadoria muito específica, um ativo financeiro: 49 aposentadorias,
serviços públicos, jogadores de futebol, eventos esportivos, até as hipotecas e dívidas!50
O expediente da acumulação de capital por antecipação de valor futuro, que está no
cerne dessa transformação de tudo em ativo financeiro, pode gerar importantes problemas de
legitimação. Pois esse processo conduzido por uma verdadeira economia política da catástrofe

45
Marques, Luiz. Capitalismo e colapso ambiental. Op. cit., p. 536, 542.
46
Ibidem, p. 49, 53-54.
47
Ibidem, p. 54.
48
“Entre todos os processos da economia real desponta mais provavelmente a capitalização dos recursos
naturais, que desperta expectativas de lucro altíssimas. Um exemplo disso são as patentes genéticas. A
transformação dos direitos de uso de partes da herança coletiva natural da humanidade em propriedade
particular representa um duplo rendimento para o sistema de produção de riqueza abstrata. Por um lado,
transforma um bem livre ‘sem valor’ em capital e, por outro lado, ao emitir ações de empresas de
biotecnologia ou pegar crédito, torna-se novamente para esse capital um ponto de referência para a
criação de capital fictício […] A iminente escassez de recursos chave transforma terras anteriormente
quase sem valor em cobiçado capital futuro. E porque é previsível que essa fúria homicida contra os
fundamentos naturais da vida fará disparar os preços do que resta, quem assegurar primeiro o poder de
disposição produz riqueza capitalista” (LOHOFF, Ernst. Quando riqueza destrói riqueza: o capitalismo
invertido e seus limites. Publicado em: 2015. Disponível em: <http://www.krisis.org/2015/quando-
riqueza-destri-riqueza/>. Acesso em: 30 out. 2017).
49
“Protegidos até aqui em nome do interesse geral, os serviços do Estado, das comunidades e das
universidades deveram se submeter às lógicas da financeirização e à transformação de atividades
econômicas em ativos financeiros” (DE LA CASINIÈRE, Nicolas. Service publics à crédit. Paris: Libertalia,
2015, p.12).
50
“A securitização, na França aprovada em 1988, impulsionada pelos socialistas, torna possível a
transformação de uma dívida em título trocável nos mercados financeiros […] A securitização consiste
classicamente em transferir a investidores ativos financeiros tais como dívidas (faturas emitidas não
pagas, empréstimos em andamento), transformar as dívidas, pela passagem por uma sociedade ad hoc,
em títulos financeiros emitidos no mercado de capitais” (LAZZARATO, Maurizio. La fabrique de l'homme
endetté. Paris: Ed. Amsterdam, 2011, p. 23).

195 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 181-197, jan./jun. 2018


Um museu de grandes novidades: capital fictício, fundo público e a economia política da catástrofe

tende a destruir as bases sociais e naturais da vida e a impedir a reprodução social de


camadas cada vez mais vastas da população mundial.
Ao mesmo tempo, esse expediente de sobrevida do capital é ele mesmo muito instável.
E a manifestação dos limites desse mecanismo não pode senão agravar a legitimação do
sistema. Pois, ao chegar o próprio mecanismo de sobrevida no seu limite, o processo de
colapso social se acelera.
Assim, por exemplo, a dupla política de austeridade e endividamento pode esbarrar nos
seus próprios limites.51 Por outro lado, se transitoriamente a compra de títulos degradados
pelos bancos centrais estabiliza a situação econômica geral e as finanças dos Estados, as
reservas monetárias correm o risco de se deteriorar levando a uma cadeia de falências
estatais. Esse mesmo mecanismo desloca a potencialidade da crise para a estabilidade da
própria mediação monetária.52 Como resultado, o lugar sagrado do Estado enquanto devedor
infalível é posto objetivamente em questão. Na ótima metáfora de Lohoff, vemos iniciar o
“incêndio no carro de bombeiros”: a absorção pelos bancos centrais de títulos podres fará
rebaixar as notas de solvabilidade dos Estados. O remédio aplicado transforma-se rapidamente
em um mecanismo potenciador da crise: “nunca tão rápido o extintor virou combustível”. 53
Vai se criando, para Estados, empresas, indivíduos, a figura universal do “endividado”.
A dívida não é só uma relação econômica, mas também uma relação moral que assujeita os
indivíduos e tende a fechar o futuro. 54
É evidente o mal-estar social generalizado, às vezes transformado em protestos ou
ações de formas variadas. Isso não significa que as saídas ou propostas das populações
precarizadas e enraivecidas sejam necessariamente emancipatórias.55
Presos na lógica do capital fictício, estabelecemos com o futuro um duplo vínculo: o
convocamos como base da acumulação de capital atual, e pré-determinamos
catastroficamente o seu percurso social e natural.

51
“a política de austeridade está atingindo um ponto onde ela está se tornando contraprodutiva mesmo
para o objetivo estreito de acumular capital fictício. Onde ela é levada ao extremo, como agora na Grécia
e na Espanha, ela está conduzindo diretamente à depressão econômica – e isto também afeta o sistema
bancário e financeiro” (LOHOFF, Ernst; TRENKLE, Norbert. Crise mundial e... Op. cit., p. 17.)
52
Cf. LOHOFF, Ernst. Die allgemeine Ware und ihre Mysterien: Zur Bedeutung des Geldes in der Kritik
der Politischen Ökonomie. (No prelo).
53
LOHOFF, Ernst. Incêndio no carro... Op. cit.
54
“Adestrando os governados a 'prometer' (a honrar suas dívidas), o capitalismo 'dispõe
antecipadamente do futuro' pois as obrigações da dívida permitem prever, calcular, medir, estabelecer
equivalências entre os comportamentos atuais e os comportamentos próximos. São os efeitos de poder
da dívida sobre a subjetividade (culpabilidade e responsabilidade) que permitem ao capitalismo construir
uma ponte entre o presente e o futuro […] O que importa é a pretensão da finança de querer reduzir o
que será ao que é, ou seja, reduzir o futuro e suas possibilidades às relações de poder atuais”
(LAZZARATO, Maurizio. La fabrique de l'homme... Op. cit., p.39).
55
“O resultado previsível [da era do capital fictício] foi uma agudização da concorrência geral e uma
progressiva atomização dos vínculos sociais. Não por acaso, tudo isso andou de mãos dadas com a
revitalização geral de um nacionalismo que parecia satisfazer o desejo regressivo de pertencimento a
uma coletividade aparentemente capaz de oferecer proteção, associando-se a ideologias racistas e social-
darwinistas com base na exclusão ou a enfurecidos separatismos regionalistas em parte belicosos e
sangrentos, em parte no plano da ação política” (TRENKLE, Norbert. Gesellschaftliche Emanzipation in
Zeiten der Krise. Publicado em: 2015. Disponível em: <http://www.krisis.org/2015/gesellschaftliche-
emanzipation-in-zeiten-der-krise/>. Acesso em: 30 out. 2017).

196 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 181-197, jan./jun. 2018


Um museu de grandes novidades: capital fictício, fundo público e a economia política da catástrofe

A compreensão do caráter real e ao mesmo tempo muito frágil da acumulação


capitalista atual, e do seu vínculo orgânico com a catástrofe social e natural em curso, deveria
nos levar a agir de uma outra maneira. E também deveria nos conduzir a perder a esperança
histórica na construção de Estados de Bem-estar, mesmo como processo de transição a outra
forma de vida, pois essas experiências estão vinculadas necessariamente com uma fase
expansiva do capitalismo. A sobrevida desse modo de produção em si é que deve ser cada vez
mais urgentemente questionada, tanto em termos teóricos quanto em termos práticos.
A repetição de um ato não é o mesmo ato. Atentar para as novidades fundamentais
desse museu que é o modo de produção capitalista (museu pela sua tentativa de preservar
uma forma fixa cada vez mais anacrônica em face da preservação das bases sociais e naturais
da vida) pode, talvez, contribuir a lidar com o presente na sua terrível atualidade para abrir o
futuro na sua potência de liberdade.

Javier Blank: Professor da Escola de Serviço Social da Universidade Federal Fluminense


(UFF). Possui doutorado e mestrado em Serviço Social pela Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRJ) e graduação em Comunicação Social (com especialização em Pesquisa em
Comunicação Social) pela Escuela de Ciencias de la Información de la Universidad Nacional de
Córdoba, Argentina.

197 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 181-197, jan./jun. 2018


n. 18, p. 198-217, jan./jun. 2018
ISSN-e: 2359-0092
DOI: 10.12957/revmar.2018.31088

REVISTAMARACANAN
Dossiê

1
Dimensão temporal da(s) crise(s)

Temporal Dimension of Crisis

Dilma Andrade de Paula


Universidade Federal de Uberlândia
dilma.paula@ufu.br

Resumo: O presente estudo visa a refletir sobre uma das dimensões da crise que é a questão temporal,
cara à História e fundamental à sociedade humana, envolvendo aspectos mais profundos, relativos ao
presente, ao passado, às heranças e memórias, mas também aos projetos de futuro. Por meio de aporte
bibliográfico far-se-ão alguns apontamentos sobre a relação entre tempo e desenvolvimento capitalista,
em geral, e como essa relação se manifesta atualmente, no Brasil. Como o epicentro da presente crise
encontra-se na sociedade política, serão realizadas previamente algumas considerações de caráter
teórico e histórico, recorrendo a autores e obras que ajudam a elaborar alguns fios explicativos e a
encontrar significados em um aparente “caos” de “verdades” naturalizadas.

Palavras-chave: Crise; Brasil Contemporâneo; Desenvolvimento.

Abstract: The current study aims to reflect on one of the dimensions of crisis that is a temporal issue,
expensive to history and fundamental to human society, involving deeper aspects, related to present,
past, to inheritance and memories , but also to the projects of the future. By means of bibliographical
contribution, some notes about the relation between time and capitalist development will be made, and in
general, how this relation in currently manifested in Brazil.As the epicenter of current crisis lies in the
political society, some considerations of a theoretical and historical nature will be made beforehand ,
using authors and works that help to elaborate some explanatory threads and to find meanings in an
apparent "chaos" of naturalized "truths".

Keywords: Crisis; Contemporary; Brazil; Development.

Recebido: Novembro 2017


Aprovado: Dezembro 2017

1
No que se refere às reflexões sobre tempo, tecnologia e políticas de desenvolvimento no Brasil, esse
trabalho contém reflexões desenvolvidas em projetos de pesquisas financiados pela Fundação de Amparo
à Pesquisa de Minas Gerais, destacando-se o mais recente: “A Comissão do Vale do São Francisco e a
ampliação do Estado brasileiro: formas de atuação e avaliações (1948-1960)”. Agradeço as sugestões
dos professores Leandro José Nunes e Elder Andrade de Paula, aos quais dedico esse trabalho. Agradeço
também aos editores da Revista Maracanan e aos pareceristas, pela leitura crítica. As sugestões foram
parcialmente incorporadas ao artigo.
Dimensão temporal da(s) crise(s)

Estamos chegando das novas favelas,


Das margens do mundo nós somos,
Viemos dançar.
Estamos chegando do ventre das minas,
Estamos chegando dos tristes mocambos,
Dos gritos calados nós somos,
Viemos cobrar.
Milton Nascimento, Pedro Casaldáligae

Pedro Tierra.2

Sobre crises, decadências, ruínas...

Em missão oficial ao Brasil, em 1924, o então ministro da Educação Pública do México,


José Vasconcelos (1882-1952), autor da polêmica obra La raza cósmica (1948), percorreu
várias regiões, ouviu pessoas geralmente ligadas ao mundo governamental e diplomático e
deixou alguns interessantes apontamentos de viagem. A partir da então Capital Federal, Rio de
Janeiro, seguiu para Santos, Belo Horizonte, Ouro Preto e Juiz de Fora. Observador arguto,
notou a profunda diversidade regional do país. Comparou os estados de Minas Gerais e São
Paulo que, sob seu ponto de vista, eram as duas províncias mais tradicionais e mais
importantes: Minas Gerais tinha um passado significativo, porém não podia competir em
opulência com seu “rival” contemporâneo. Havia ainda em Minas riquezas em ouro, prata,
ferro e diamantes, suficientes para surtir o mundo, porém, apesar disso, a região conservava
um aspecto um pouco desolado de todos os locais minerais, quando passa a bonança: “el
mineral no funda país, hace colônia”.3
Vasconcelos não passava ileso pelos conceitos de “decadência” e de “crise” que
justificaram tantos planos governamentais brasileiros, em níveis estaduais e federais. 4 Para
ele, em terras minerais se extrai o metal e as pessoas emigram, porém sempre há um período
de fausto e de esbanjamento em que a vida se transborda. Geralmente nessa época se fazem
grandes construções, edificações simbolizando essa grandeza, mas que, em pouco tempo, se
transformam em ruínas. Aspectos de uma vida efêmera e heroica.
Vasconcelos comparou a importante cidade mexicana de Guanajuato com a antiga
capital mineira, Ouro Preto. O minério esgota o veio e se vai. Nada pode retê-lo em uma terra
geralmente estéril, pedregosa e seca. Para ele, as regiões agrícolas não conheciam essa
grandeza desventurosa da conquista do metal, desenvolviam uma cultura mais permanente.

2
NASCIMENTO, M.; CASALDÁLIGA, P., TIERRA, P. A. de Ó. Estamos chegando. In: NASCIMENTO, Milton.
Missa dos Quilombos. Rio de Janeiro: Ariola, 1982. Disco. Lado 1, faixa 1 (3min. 34s.).
3
VASCONCELOS, José. La raza cósmica. México, DF: Porrúa, 2007, p. 76.
4
Segundo Alfredo Wagner B. Almeida, os burocratas elaboram os documentos com uma unidade
discursiva específica, que, com frequência, é absorvido como verdade: "a monotonia dos textos oficiais,
fruto deste consenso, é coextensiva ao próprio significado da decadência suspendendo, pela repetição
infinita, a possibilidade da dúvida e do dissentimento”. ALMEIDA, Alfredo Wagner Berno de. A ideologia
da decadência. Leitura antropológica a uma história da agricultura do Maranhão. São Luís: IPES, 1983.
(Estudos Monográficos, 08), p. 79.

199 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 198-217, jan./jun. 2018


Dimensão temporal da(s) crise(s)

Onde, no mundo, tenha havido uma planície fértil e um rio, a vida social se arraigou sem
interrupções. Havia um quê de permanente nessas regiões, como em regiões da Índia, às
margens do Eufrates, no rio da Prata e no que, para ele, aconteceria no Mississipi (EUA).
Nas zonas mineiras do México, nas montanhas da Califórnia, de Minas Gerais e do Peru,
hoje “são” e amanhã “não mais...” Embora Vasconcelos atribuísse características mais
permanentes à agricultura, vemos, com a história, que embora um pouco mais duradoura, ela
é também migrante e pode ser, também, destrutiva, de acordo com a própria marcha do
capitalismo, com o esgotamento de solos, migrações, etc. Todavia, é ainda possível uma
recuperação, inserção de novos cultivos, adubação, etc., o que não acontece em áreas
mineradoras, nas quais, após o esgotamento dos veios, mais parecem paisagens lunares e
estéreis.5
Após sua passagem por Ouro Preto, cidade, para ele, de “nome misterioso”, evocador
de sonhos, Vasconcelos afirmava: quiçá seja Ouro Preto a única cidade do Brasil que recorda o
passado. Em todas as demais, como em suas matas e céus, o Brasil é futuro: país do futuro. 6
Essa imagem do futuro, sempre presente no universo ideológico brasileiro, sobretudo para
justificar novos projetos – tão bem apropriada décadas depois –, conjugada com o termo
“decadência”, também não passava despercebida a viajantes, como Vasconcelos.
Tal sensibilidade para detectar o “outro dia” de regiões mineradoras e monocultoras foi
também apanágio de muitos escritores brasileiros, no ramo da literatura e nos anos 1930-50,
para contemplarmos um período mais próximo dessa visita de Vasconcelos. Destacaremos
alguns exemplos, como o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), radicado
no Rio de Janeiro, sobre a sua terra natal, Itabira, “noventa por cento de ferro nas calçadas,/
oitenta por cento de ferro nas almas./ E esse alheamento do que na vida é porosidade e
comunicação. [...] Tive ouro, tive gado, tive fazendas./ Hoje sou funcionário público./ Itabira é
apenas uma fotografia na parede./ Mas como dói!”7
No estado “rival” de Minas Gerais – para utilizar a terminologia de Vasconcelos –, outro
contemporâneo, Monteiro Lobato (1882-1948), escreveu suas impressões sobre a não tão
imaginária Oblivion (a começar pelo próprio termo, que significa “esquecimento”, em inglês),
já nas primeiras décadas do século XX. Nesse caso, Oblivion condensava as imagens das
demais “viúvas” da monocultura do ouro negro, o café,

a cidadezinha onde moro lembra soldado que fraqueasse a marcha e, não


podendo acompanhar o batalhão, à beira do caminho se deixasse ficar, exausto
e só, com os olhos saudosos, pousados na nuvem de poeira erguida além.
Desviou-se dela a civilização. O telégrafo não a põe à fala com o resto do
mundo, nem as estradas de ferro se lembram de uni-la à rede por intermédio de
humilde ramalzinho.

5
Quando, não acontece, como em Mariana-MG, em novembro de 2015, o rompimento da barragem de
rejeitos, da Companhia Vale do Rio Doce, destruindo vilas e vidas inteiras por um mar de lama e
inviabilizando cultivos.
6 6
VASCONCELOS, José. La raza cósmica. Op. cit., p. 83.
7
ANDRADE, Carlos Drummond. Confidência de um Itabirano. Obra completa. São Paulo: Aguillar, 1967,
p. 101-102. (Biblioteca Luso-brasileira. Série Brasileira).

200 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 198-217, jan./jun. 2018


Dimensão temporal da(s) crise(s)

O mundo esqueceu Oblivion, que já foi rica e lépida, como os homens esquecem
a atriz famosa que se lhe desbota a mocidade.8

Para esse autor, a enigmática Oblivion e tantas outras cidades esquecidas, eram
"cidades mortas", onde "tudo foi, nada é. Não se conjugam verbos no presente. Tudo é
pretérito".9
A região Nordeste é pródiga em grandes obras literárias que refletem a imagem do
fluxo do tempo, do auge e da decadência econômico-social. Sobre outra monocultura,
lembramos o chamado “ciclo da cana de açúcar” do escritor paraibano José Lins do Rêgo
(1901-1957), dentre elas, destaca-se Fogo morto (1943), ambientado no clima social da
decadência dos engenhos de açúcar: “E assim corriam os anos no Santa Fé. Safras pequenas.
Não havia feitor que parasse, o eito minguado, mas a vida da casa grande sempre como fora.
Tudo por lá corria como dantes, com a mesma monotonia.” 10
Outra obra também significativa sobre o universo rural e decadências é São Bernardo
(1934), do alagoano Graciliano Ramos (1892-1953). Personagem símbolo do ethos capitalista,
Paulo Honório narra seu passado e trajetória inescrupulosos, amealhando gado e terras,
encontrando-se só, no fim da vida, marcado por um desventurado amor.
João Cabral de Melo Neto, pernambucano, publicou o poema Morte e vida Severina,
Auto de Natal pernambucano, em 1954-55, em que constrói a saga do emigrante Severino:
“somos muitos Severinos/ iguais em tudo e na sina:/ a de abrandar estas pedras/suando-se
muito em cima,/ a de tentar despertar/ terra sempre mais extinta,/ a de querer arrancar/
algum roçado da cinza.”11
Imagens do confronto moderno-arcaico, focalizando a dificuldade do viver no sertão, no
campo, na floresta, nas regiões mineiras, os auges e decadências (econômicas, políticas,
sociais) se multiplicaram, sobretudo em obras do chamado romance regionalista emergente
nos anos 1930-50, ramificando-se em anos posteriores, adquirindo outros contornos
temporais. Esses temas foram trabalhados também em outros registros artísticos, como nas
artes plásticas e visuais, oriundas do movimento modernista de 1922. Regionalismo ou
universalismo? Veremos que tais preocupações, presentes nessas obras, apontam dilemas
universais na relação sociedade-natureza, na (sobre)vivência aos ciclos econômicos, no
estranhamento decorrente de modernizações econômicas, nas perdas, nos “desarraigos” e nos
recorrentes “cien años de soledad”. São, afinal, temas que envolvem vidas e trajetórias
humanas e que são expressos em obras diversas.
Toda essa produção artística perpassou a crise econômica mundial dos anos 1929, o
golpe de estado getulista em 1930, a ditadura subsequente e o aprofundamento da
industrialização e urbanização, que encontra na Era Juscelino Kubitschek sua expressão
máxima. A vulnerabilidade da economia monocultora cafeeira expôs o país à crise mundial e

8
LOBATO, Monteiro. Cidades mortas. São Paulo: Brasiliense, 1995, p. 25.
9
Ibidem, p. 21. Grifos meus.
10
REGO, José Lins do. Fogo morto. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974, p. 175. (Coleção Sagarana).
11
MELLO NETO, João Cabral de. Obra completa. Organização: Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova
Aguillar, 1994, p. 172.

201 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 198-217, jan./jun. 2018


Dimensão temporal da(s) crise(s)

agravou o quadro político. A “modernização” econômica no pós-30, associada com o


conservadorismo político e social que, de alguma forma, marcaram a trajetória brasileira,
inspiraram tanto os contemporâneos quanto nos fornecem elementos para refletirmos sobre as
“crises” em perspectiva histórica. A existência de ciclos de crescimento, esperança e
abundância e outros de depressão, desesperança e retrocessos, o que indicam? No mínimo,
que nada é para sempre e que a ação humana move a história. Tais ciclos têm uma função no
sistema capitalista, provocando e alimentando crises econômicas e políticas para alavancar
novas fases de acumulação.12
E, assim, o progresso “Severino” chega e rapidamente deixa ruínas, crises e, às vezes,
expectativas de novos projetos, indicando os interesses que se metamorfoseiam e traduzem o
tempo do capitalismo, “em que as forças produtivas se renovam no interior das relações de
produção inalteráveis".13 Muda-se a forma, mas o conteúdo permanece.
O objetivo desse artigo é refletir sobre uma das dimensões da crise, em seu mais largo
prazo e modo sistêmico, que é a questão temporal, cara à história e fundamental aos seres
humanos, pois envolve aspectos mais profundos, relativos ao presente, ao passado, às
heranças e memórias, mas também aos projetos de futuro. Por meio de aporte bibliográfico
faremos alguns apontamentos sobre a relação entre tempo e desenvolvimento capitalista, em
geral e como essa relação se manifesta atualmente, no Brasil. Como o epicentro da presente
crise encontra-se na sociedade política faremos, antes, algumas considerações sobre o atual
momento, recorrendo a autores e obras que ajudam a elaborar alguns fios explicativos e a
encontrar significados em um aparente “caos”.

Crise e “pequena política”

A presente crise política (sobretudo) indica o encerramento do período da “hegemonia


às avessas”, de Lula da Silva a Dilma Roussef (2003-2016), termo provocativo utilizado por
Francisco de Oliveira, em obra tão bem apresentada por Ruy Braga, nos idos de 2010:

A “hegemonia às avessas” não estaria preparando igualmente uma nação sem


qualquer sofisticação política, como diria Weber sobre Bismarck, totalmente
subsumida à hegemonia da pequena política, como bem nos lembra Carlos
Nelson Coutinho? Afinal, se, como diz Chico [de Oliveira], parece que
atualmente os dominados dominam, os sindicalistas se transformaram em
capitalistas, os petistas controlam o parlamento, a economia está
definitivamente blindada contra a crise mundial, trata-se, antes de mais nada,
de um conjunto de aparências “necessárias”, pois, para o marxismo crítico, a

12
Sobre os ciclos de acumulação capitalista, tema que não será possível aprofundar nesse trabalho, ver
duas grandes obras com perspectivas distintas, sobre o século XX: HOBSBAWM, Eric J. Era dos
Extremos: o breve século XX, 1914-1991. São Paulo: Companhia da Letras, 1995; ARRIGHI, Giovanni. O
longo século XX. São Paulo: Unesp, 1994.
13
ROUANET, Sergio Paulo. Por que o moderno envelhece tão rápido? Revista USP, São Paulo, n. 15 -
dossiê “Walter Benjamim”, set./nov. 1992, p. 111. Grifos meus.

202 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 198-217, jan./jun. 2018


Dimensão temporal da(s) crise(s)

aparência não é simplesmente a face espúria da essência, seu “outro” fictício e


enganoso – existe sempre uma relação dialética entre aparência e essência.14

Tal “previsão” se confirmou e a “aparência” se revelou, pois, após o golpe/impeachment


que depôs Dilma Roussef, de dezembro de 2015 a maio de 2016, conjugado com efeitos
“espetaculares” da operação “Lava Jato”, comandada pelo Ministério Público Federal e pela
Polícia Federal (desde 2014), emergiram as contradições do período anterior e, com violência
explícita, em uma “nação sem qualquer sofisticação”, com parcela majoritária da esquerda
institucionalizada ora amordaçada, ora desmobilizada, ora com representantes presos e
desmoralizados, impõem-se “reformas” em meio a uma ampliada “crise”. 15
A vivência da crise evoca sentidos diferentes para cada pessoa, grupo, classe ou fração
de classe por ela afetada, dependendo do grau de vulnerabilidade ou de oportunidade em que
se encontram diante do processo histórico. Para Carlo Bordoni,

Crise econômica é, segundo os dicionários, uma fase de recessão caracterizada


por falta de investimentos, diminuição da produção, aumento do desemprego,
um termo que tem significado geral de circunstâncias desfavoráveis com
frequência ligadas à economia.
Qualquer acontecimento adverso, em especial os concernentes ao setor
econômico, é “culpa da crise”. Trata-se de uma atribuição de responsabilidade
absolutamente despersonalizada, a qual liberta indivíduos de todo e qualquer
envolvimento e faz alusão a uma entidade abstrata, o que soa vagamente
sinistro. Isso acontece porque algum tempo atrás a palavra “crise” perdeu seu
significado original e assumiu uma conotação apenas econômica. Ela substituiu
outras palavras que foram historicamente desvirtuadas, como “conjuntura”,
usada com frequência nos anos 1960 e 1970, quando a situação econômica
geral era mais otimista, abrindo caminho a temporadas nas quais o consumismo
de massa reinou imperturbado.16

Há períodos, como o presente, no Brasil, em que se conjugam, nitidamente, crise


governamental, institucional, do sistema político e econômico, conjugada com uma crise
internacional também de amplo espectro e duração.17
Em conjunturas assim, o presente se turva, se contrai e emergem medidas que se
aproveitam, então, do “choque”18 para impor reduções políticas drásticas no campo social e

14
BRAGA, Ruy. Apresentação. In: OLIVEIRA, Francisco de; RIZEK, Cibele (orgs.). Hegemonia às avessas.
Economia, Política e Cultura na era da servidão financeira. São Paulo: Boitempo, 2010, p. 9-10.
15
Eurelino Coelho, em sua tese, publicada como livro em 2012, apontava o transformismo de intelectuais
de esquerda, abandonando o marxismo, migrando do compromisso com classes subalternas para a
esfera de hegemonia da classe dominante, dotando o capital de uma ala esquerda, sendo que “de
intelectuais orgânicos e pretendentes à condição de vanguarda comunista, eles passaram à negação da
revolução e à produção da desorganização política da classe trabalhadora”. In: COELHO, E. Uma
esquerda para o capital. O transformismo dos grupos dirigentes do PT (1979-1998). Feira de Santana:
UEFS, 2012. Embora tal compromisso tenha se esfacelado, pois a ala “esquerda” tornou-se desnecessária
para o capital, isso explica, em parte, a desmobilização política atual para enfrentar os fortes ataques às
conquistas sociais das últimas décadas. Todavia, não nos cabe aprofundar essa análise, que desvirtuaria
os objetivos desse artigo.
16
BORDONI, C. Uma definição de crise. In: BAUMAN, Z.; BORDONI, C. Estado de crise. Rio de Janeiro:
Zahar, 2016, posição 45. (E-Book).
17
Sobre o termo “crise” e seus significados, ver: PASQUINO, G. Crise. In: BOBBIO, N. et al. (orgs.).
Dicionário de Política. Brasília: EdUNB, 1993, p. 303-306. E também sobre a definição de crise,
entendendo que “a crise enfrentada pelo mundo ocidental não é temporária, mas sinal de uma mudança
profunda que envolve todo o sistema social e econômico e que terá efeitos de longa duração”, ver:
BAUMAN, Z.; BORDONI, C. Estado de crise. Op. cit., posição 24.

203 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 198-217, jan./jun. 2018


Dimensão temporal da(s) crise(s)

econômico, regressivas em todos os âmbitos da vida, mas divulgadas pelo governo e pelas
grandes empresas midiáticas como “reformas”,19 tais como extinção de direitos trabalhistas,
redução drástica do escopo da previdência social, na educação (“escola sem partido”, reforma
do ensino médio, etc.), nos desincentivos e cortes à agricultura familiar, “ajuste” fiscal,
ameaças sobre terras indígenas, ameaça à estabilidade do funcionalismo público, dentre outras
que ainda virão, como respostas às crises. São verdadeiros “atos terroristas”, mas que,
edulcorados por argumentos de “interesse nacional” e repetidos ad nauseam (pelos próprios
órgãos governamentais, grande mídia e diversos outros aparelhos privados de hegemonia 20),
são naturalizados e, em boa medida, aceitos acriticamente por vastas parcelas da população,
que se resigna. E, quando são propostas saídas para a crise, elas tocam apenas a superfície do
problema, como mecanismos de combate à corrupção, mudança no financiamento de
campanhas políticas, dentre outras.
Quando tais atos não encontram possibilidades de reação social à altura, levam a um
descrédito social generalizado para com políticos, instituições, etc., que é extremamente
perigoso, permitindo um caldo de cultura que anseia pela brevidade das soluções, pela
finalização imediata, calcada ora em líderes salvadores, autoritários, demagógicos, populistas,
ora propugnando intervenções militares, clássicas na América Latina. Tempos da “pequena
política”, no dizer de Gramsci, expressão apropriada por Carlos Nelson Coutinho para analisar
a política nas últimas décadas neoliberais, que significa o consenso passivo, a aceitação
naturalizada do existente, “a concepção da política como disputa de elites e não como ação de
maiorias” e: “hegemonia da pequena política existe, portanto, quando se torna senso comum a
ideia de que a política não passa da disputa pelo poder entre suas diferentes elites, que
convergem na aceitação do existente como ‘algo natural’”. 21
Em muitas supostas “reformas” e “ajustes” esconde-se uma poderosa alavanca para o
aprofundamento da concentração de renda, temperada por justificativas que, no auge da crise,
são verdadeiros escárnios emitidos por representantes da sociedade política (e também
sociedade civil) em todos os níveis, ao impor retirada de direitos como se fosse solução,
invocando supostos interesses gerais e nacionais. A tradição do diálogo, que não chegou a ser
efetivamente construída no Brasil, encontra-se ainda mais dificultada e truncada. O
autoritarismo campeia, em práticas estatais, parlamentares e nos comportamentos sociais
cotidianos. E, de novo, ficamos cara a cara com o passado colonial, escravista e autoritário. Ele

18
Sobre o poder do choque (em várias dimensões, inclusive econômica e social) e sua utilização pelas
forças do “livre mercado”, ver: KLEIN, Naomi. A doutrina do choque. A ascensão do capitalismo de
desastre. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2018.
19
Para Carlos Nelson Coutinho (1943-2012), o termo “reforma” envolve uma aura de simpatia, pois
sempre foi uma ideia vinculada às lutas dos subalternos para transformar a sociedade, mas que adquiriu,
em tempos neoliberais, outros significados: cortes, supressões de direitos e restrições de todo tipo. É
uma operação de mistificação ideológica, para o autor. Cf: A hegemonia da pequena política. In:
OLIVEIRA, Francisco de; RIZEK, Cibele (orgs.). Hegemonia às avessas. Economia, Política e Cultura na
era da servidão financeira. São Paulo: Boitempo, 2010, p. 35.
20
Segundo A. Gramsci, o lugar da dominação não se encontra somente na sociedade política
propriamente dita, mas na própria sociedade civil, locus de atuação dos aparelhos “privados” (por adesão
voluntária) de hegemonia e de seus intelectuais orgânicos. Cf. GRAMSCI, A. Cadernos do Cárcere, v.2.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, p. 20-21.
21
Ibidem, p. 31.

204 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 198-217, jan./jun. 2018


Dimensão temporal da(s) crise(s)

se atualiza e se metamorfoseia. Em tempos de crescimento econômico e limitadas políticas


sociais, tudo se abranda, mas com um novo ciclo de crise e com retração econômica, as
contradições emergem e a realidade torna-se crua. Reina a “pequena política”.
São elementos, atualmente, ao que tudo indica, também de uma crise de hegemonia,
que parece se aprofundar em crise orgânica, nos termos de Antônio Gramsci, período em que
a classe dominante, por motivos vários, perdeu o consenso, não é mais capaz de se manter
como dirigente, mas unicamente como dominante, valendo-se da coerção em larga escala e,
acrescentamos, de políticas de “choque”, nos termos de Naomi Klein.22 Para Gramsci,“ao
mesmo tempo, a classe dominada adquire certa cota de consenso, mas não possui a
autoridade pela qual seria já dirigente”.23 No caso do Brasil, no presente, 2016/2017 o
dissenso é generalizado, já que setores da classe dominada foram desmobilizados, em grande
parte, pelos seus próprios representantes, em mais de uma década de governos do Partido dos
Trabalhadores, conforme análise de Ruy Braga, apresentada anteriormente, dentre outros
fatores mais significativos.24 Nesse caso, tal como percebia Gramsci nos anos 1920/30, “a crise
se apresenta, praticamente, na dificuldade cada vez maior para formar os governos e na
instabilidade cada vez maior dos próprios governos: ela tem sua origem imediata na
multiplicação dos partidos parlamentares e nas crises internas permanentes de cada um destes
partidos.”25
Quando não há alternativa visível no horizonte político, crescem, então, as propostas e
encaminhamentos que buscam um atalho. Soluções abreviadas, em tempo reduzido, têm seus
perigos latentes. A crise tem outras dimensões ainda mais profundas, se pensarmos na
involução de formas de convivência social e no crescimento de práticas de tons
autoritários/fascistas. E, nesse caso, impõe-se a reflexão sobre o tempo histórico e social, já
que, para Marc Bloch, em reflexão clássica, a história é a “ciência dos homens, no tempo”. E,
prossegue: “realidade concreta e viva, submetida à irreversibilidade de seu impulso, o tempo
da história, ao contrário é o próprio plasma em que se engastam os fenômenos e como o lugar
de sua inteligibilidade”.26 Mas, como pensar o tempo (histórico) no devir do sistema
capitalista?

O tempo do capital

O sistema capitalista vale-se da otimização do tempo para funcionar a contento,


produzindo mais valia e gerando mais capital, mantendo inalteradas as relações de produção,

22
KLEIN, Naomi. A doutrina do choque. Op. cit.
23
LA PORTA, Lelio. Crise orgânica. In: LIGUORI, Guido; VOZA, Pasquale (orgs.). Dicionário gramsciano.
[s.n.t.], p. 163.
24
A ideologia do “desenvolvimento sustentável” a serviço do “capitalismo verde” tem tido uma função
apassivadora (nos termos de Antônio Gramsci) sobre movimentos rurais, sobretudo. Sobre esse processo
na Amazônia Ocidental, ver: PAULA, Elder A. Capitalismo Verde e transgressões: Amazônia no espelho de
Caliban. Dourados, MS: Ed. UFGD, 2013.
25
GRAMSCI, A. Apud: LA PORTA, Lelio. Crise orgânica. Op. cit., p. 163.
26
BLOCH, Marc. Apologia da história, ou, O ofício do historiador. Rio de Janeiro: Zahar, 2001, p. 55.

205 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 198-217, jan./jun. 2018


Dimensão temporal da(s) crise(s)

conforme Rouanet, já mencionado. São imperativos para o funcionamento do sistema, tendo


que acumular constantemente, expandir-se para novos mercados, territórios, esferas de vida,
27
envolvendo seres humanos e o meio ambiente, nos termos de Ellen Wood. Essa ordem
social, segundo István Mészáros, (1930-2017) “degrada o fardo inescapável do tempo histórico
significativo – o tempo de vida tanto dos indivíduos como da humanidade – à tirania do
imperativo do tempo reificado do capital, sem levar em conta as consequências.”28 E, mais,
para este autor,

O modo historicamente único de reprodução sociometabólica do capital degrada


o tempo porque a determinação objetiva mais fundamental de sua forma própria
de intercâmbio humano é a condução irreprimível à contínua auto-expansão,
definida pelas características intrínsecas a esse modo de intercâmbio societário
como a necessária expansão do capital, alcançada na sociedade de troca apenas
por meio da exploração do tempo de trabalho. O capital, portanto, deve tornar-
se cego com relação a todas as dimensões do tempo diversas da dimensão
relativa ao trabalho excedente explorado ao máximo e o correspondente tempo
de trabalho.29

Os termos utilizados pelo autor são suficientemente significativos ao referir-se ao tempo


do capital: cegueira, imperativo, tirania, que se chocam contra o tempo humano, tanto o dos
indivíduos quanto o da humanidade. O capitalismo, na sua base e formação, operou com a
separação do trabalhador de seus meios de produção e com a intensificação da jornada de
trabalho. Essa intensificação extrapolou o mundo fabril e invadiu a vida como um todo. A
impressão, no senso comum, é que o tempo passa rápido, ao passo que, na verdade, a
intensificação do trabalho, das comunicações, das exigências, do consumo e até do que fazer
em horas de lazer, etc. é que subordinam a vida dos indivíduos a essa tirania desse tempo
reificado do capital, segundo Mészáros.
A progressiva aceleração do tempo, conjugada com a moral baseada no trabalho,
embora tenham encontrado resistências, sobretudo no início, na chamada transição do
feudalismo ao capitalismo, marcou e marca a trajetória do sistema capitalista. Segundo E. P.
Thompson, “por meio de tudo isso – pela divisão do trabalho, supervisão do trabalho, multas,
sinos, relógios, incentivos em dinheiro, pregações e ensino, supressão das feiras e dos
esportes – formaram-se novos hábitos de trabalho e impôs-se uma nova disciplina de
tempo”.30 Característica essa que não passou ilesa, antes, às observações de Karl Marx, no
alvorecer da industrialização, no século XIX, na Inglaterra:

Não basta que haja, de um lado, condições de trabalho sob a forma de capital e,
de outro, seres humanos que nada têm para vender além de sua força de
trabalho. Tampouco basta forçá-los a venderem livremente. Ao progredir a
produção capitalista, desenvolve-se uma classe trabalhadora que por educação,

27
Cf.: WOOD, Ellen M. A origem do capitalismo. Rio de Janeiro: Zahar, 2001, p.78-79.
28
MÉSZÁROS, István. O desafio e o fardo do tempo histórico: o socialismo no século XXI. São Paulo:
Boitempo, 2007, p. 33. Grifos do autor.
29
Ibidem, p.33. Grifos do autor.
30
THOMPSON, E. P. Tempo, disciplina de trabalho e capitalismo industrial. In: Costumes em comum.
Estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 297.

206 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 198-217, jan./jun. 2018


Dimensão temporal da(s) crise(s)

tradição e costume aceita as exigências daquele modo de produção como leis


naturais evidentes.31

Criou-se, com o passar das gerações, uma civilização capitalista, da qual participamos,
imersa nesse tempo social acelerado, multiplicador de tarefas e de “necessidades” de
consumo, como lógica dominante, evidentemente não exclusiva. Talvez o processo em curso
seja parte da expropriação de nosso próprio tempo, individual e humano, dominando também
as subjetividades. Jorge Riechmann, em obra que inspirou o presente trabalho, afirma, sobre
tempos contemporâneos:

Una tecnociencia fetichizada, en rapidisímo desarrollo, pasa a percibirse como el


auténtico sujeto de la historia, mientras que los seres humanos rebajados a
objetos impotentes sufren el impacto de procesos que no controlan. Sin una
ralentización del desarrollo tecnológico parece imposible que comunidades
democráticas y reflexivas se reapropien de la tecnociencia – hoy,
crecientemente, sierva del gran capital – para reinsertala dentro de un orden
social propiamente humano.32

A tecnociência, a vida cotidiana bombardeada de informações (e pouco conhecimento)


24 horas ao dia, reforçam a sensação de impotência e dificultam a formação de uma
consciência crítica e até de projetos sociais mais duradouros e disruptivos em relação à atual
tirania do capital e das relações capitalistas. E há uma relação intrínseca entre práxis humana
e tempo: “la práxis presupone capacidad de elección, para ejercer la cual se precisa un
abanico de posibilidades. Para aprovechar estas posibilidades hace falta tiempo: el tiempo
peculiar de la deliberación y de la decisión.”33 Veremos, a seguir, alguns apontamentos sobre a
relação entre tempo e desenvolvimento capitalista, a partir do século XX, breve ou longo, de
acordo, respectivamente, com Hobsbawm e Arrighi.

A escalada da impotência social

Cada período histórico produziu suas justificativas para as “necessidades” do


crescimento econômico, notadamente após o século XIX, com a difusão da industrialização
pelo mundo, impulsionadas pelas políticas estatais. Após a Segunda Guerra Mundial, ganha
corpo a difusão do ideário planejador, racional, em parte derivado da inspiração do sucesso
dos planos quinquenais na antiga URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), outra
parte derivada da própria crise capitalista e dos remédios econômicos recomendados por
Keynes (inspirado, em parte, na própria política da URSS), e ainda outra vertente, derivada do
fordismo/taylorismo em crescimento nos EUA, propagando o ideário tecnicista, envolto em
moral conservadora. É quando entra em cena o “Terceiro Mundo”, após os anos 1950/60.

31
MARX, Karl. A chamada acumulação primitiva. O Capital. Crítica da economia política. Livro I, v. II. São
Paulo: Difel, 1985, p. 854. Grifos meus.
32
RIECHMANN, Jorge. Tiempo para la vida. La crisis ecológica en su dimensión temporal. Málaga:
Imprenta Montes, 2003, p. 34. Grifos do autor.
33
Ibidem, p. 35.

207 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 198-217, jan./jun. 2018


Dimensão temporal da(s) crise(s)

O termo “Terceiro Mundo” foi criado pelo economista francês Alfred Sauvy em 1952 e
rapidamente ganhou a preferência nos meios de comunicação. Servia para designar os países
subdesenvolvidos da África, Ásia e América Latina e que se declaravam neutros nas disputas
da Guerra Fria. Faz parte da chamada Teoria dos Mundos, surgida a partir do fim da Segunda
Guerra e início da Guerra Fria, que dividia os países de acordo com sua grandeza econômica. O
termo foi problematizado, dentre outros, pelo colombiano Arturo Escobar. Segundo a síntese
do autor, inspirado em Michel Foucault e inserido no campo de estudos denominados pós-
coloniais:

me propongo hablar del desarrollo como una experiencia históricamente


singular, como la creación de un dominio del pensamiento y de la acción,
analizando las características e interrelaciones de los tres ejes que lo definen:
las formas de conocimiento que a él se refieren, a través de las cuales llega a
existir y es elaborado en objetos, conceptos y teorías; el sistema de poder que
regula su práctica y las formas de subjetividad fomentadas por este discurso,
aquellas por cuyo intermedio las personas llegan a reconocerse a sí mismas
como “desarrolladas” o “subdesarrolladas”. El conjunto de formas que se hallan
a lo largo de estos ejes constituye el desarrollo como formación discursiva,
dando origen a un aparato eficiente que relaciona sistemáticamente las formas
de conocimiento con las técnicas de poder. 34

Tal período fora conhecido como a Era de Ouro dos países capitalistas desenvolvidos,
mas que também plasmava um fenômeno mundial, “embora a riqueza geral jamais chegasse à
vista da maioria da população do mundo”, segundo Eric Hobsbawm. 35 Era uma nova aposta
dos países hegemônicos que seriam os condutores dos demais aos degraus sequenciais do
“desenvolvimento”. Cada Estado-nação deveria elaborar, com a “ajuda” de comissões
estrangeiras, seus planos de desenvolvimento, pois,

todas as economias teriam que forçosamente encontrar determinados níveis de


crescimento. E ainda que, para ultrapassar esses estágios inevitáveis, a
sociedade teria que reestruturar sua cultura, desfazer-se de partes retrógradas e
cultivar elementos culturais mais compatíveis com as necessidades de uma
nação moderna.36

Ashis Nandy complementa que, diante das complexas realidades e diversidade cultural
de todos os hemisférios do “Terceiro Mundo”, esses planos foram relativamente contrariados,
pois esbarraram em resistências de populações. Nos seus termos, houve um fracasso das
sociedades do Terceiro Mundo nessa caminhada rumo ao “progresso”. O Estado que se
fortaleceu nessas regiões,

se assemelha mais a um aparato coercivo especializado ou a um tipo de


empreendimento privado.Em segundo, a cultura nessas sociedades demonstrou
ser bem mais resistente do que esperavam doutos e sábios. O que se viu é que,
quando as culturas entram em confronto com as necessidades e razões do
Estado, é normalmente o Estado que recua para dar lugar à cultura. Essa
resistência por parte da cultura, que se expressa também no vigoroso

34
ESCOBAR, A. La invención del Tercer Mundo. Construcción y deconstrucción del desarrollo. Caracas:
Fundación Editorial El Perro y la Rana, 2007, p. 30. Disponível em: <www.pt.scribd.com>. Acesso em 31 jul.
2011.
35
HOBSBAWM, Eric J. Era dos Extremos... Op. cit., p. 255.
36
NANDY, Ashis. Estado. In: SACHS, W. (org.) Dicionário do Desenvolvimento. Guia para o conhecimento
como poder. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000, p. 84.

208 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 198-217, jan./jun. 2018


Dimensão temporal da(s) crise(s)

ressurgimento de uma autoconsciência étnica em muitas das sociedades do


Terceiro Mundo, parece mostrar que a destruição de culturas, algo que era
possível no passado, quando pequenas tribos e minorias eram completamente
exterminadas pela modernização, hoje, com entidades culturais muito maiores,
não se faz sem despertar forte resistência. Cada vez mais, as culturas se
recusam a simplesmente cantar suas canções do cisne e sair com mil
reverências do palco do mundo para entrar nos manuais da história. Ao
contrário, como o inconsciente de Freud, começam hoje a ressurgir do mundo
37
dos mortos para assombrar o sistema moderno de Estados-nação.

Nessa acepção, Estado e sociedade/cultura parecem se opor. O primeiro detém o


monopólio da violência e a segunda a resistência. Embora tal dicotomia seja questionável, o
argumento da resistência cultural é pertinente, embora, também, saibamos que a pressão pela
uniformização cultural venha acontecendo de uma forma cada vez mais massiva. Mas, as
resistências são latentes. Às vezes emergem das “margens do mundo”, arrancam conquistas
governamentais a “fórceps”, mas se não forem articuladas com outros movimentos de maior
amplitude, que coloquem em xeque os próprios mecanismos reprodutivos do sistema
capitalista, elas tendem a ser engolfadas novamente, entrando em período de crise, cooptação
ou de desaparecimento.
Para Arturo Escobar, em linha teórica semelhante à de Nandy,

Devido aos imperativos de uma “sociedade moderna”, planejar significava


sobrepor-se às “tradições”, “obstáculos” e “irracionalidades” ou erradicá-los
completamente, isto é, uma transformação total das estruturas humanas e
sociais existentes, para substituí-las por outras consideradas racionais.38

As pressões e contrapressões do crescimento e do desenvolvimento econômico,


coroando o ser “moderno”, também aconteceram nos próprios países centrais. Marshall
Berman (1940-2013) publicou, em 1982, a obra Tudo que é sólido desmancha no ar,
investigando as dimensões de sentido da modernidade: “ser moderno é viver uma vida de
paradoxo e contradição.”39 Além do Manifesto Comunista, que inspirou o título e o conjunto da
obra, também utiliza-se de referências literárias, as trajetórias de cidades e de bairros
novaiorquinos servindo-lhe de mote para investigar tais paradoxos e contradições, bem como
suas expressões culturais. A obra Fausto, de Goethe, foi analisada para que ele tratasse,
criativamente, sobre a “tragédia do desenvolvimento” e seu moto contínuo, tudo que outrora
fora inovador, no momento seguinte torna-se obsoleto, “se pararem para descansar, para ser
o que são, serão descartados”40. Berman, assim afirmava,

Na última geração, apesar do declínio econômico dos anos 70, o processo de


desenvolvimento espalhou-se, quase sempre em ritmo frenético, pelos mais
remotos, isolados e atrasados setores das sociedades avançadas. Transformou
inúmeros pastos e campos de milho em usinas químicas, quartéis generais de
corporações, shopping centers suburbanos. Quantas laranjeiras foram
preservadas em Orange County*, na Califórnia? Transformou milhares de
bairros urbanos em entroncamentos de auto-estradas e estacionamentos, ou em

37
NANDY, Ashis. Estado. Op. cit., p. 84-85.
38
ESCOBAR, A. Planejamento. In: SACHS, W. (org.). Dicionário do Desenvolvimento... Op. cit., p. 215.
39
BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar. A aventura da modernidade. São Paulo:
Companhia das Letras, 1986, p. 13.
40
Ibidem, p. 77.

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Dimensão temporal da(s) crise(s)

centros de comércio mundial e Peachtree Plazas**, ou em vastidões


abandonadas, esturricadas – onde ironicamente a grama volta a crescer em
meio ao entulho, enquanto pequenos bandos de bravos pioneiros fixam novas
fronteiras –, ou, na história bem sucedida dos padrões urbanos dos anos 70, em
armações escovadas e brilhantes, com imitação de nódoas antigas; paródias das
41
velhas selvas.

Esse desenvolvimento (um quase sujeito, com vida própria, a arrebatar pessoas e
mundo) encontrava, na crise dos anos 1970, o encerramento de um ciclo que se iniciou no
pós-guerra (a construção do Welfare State), com a hegemonia estadunidense e a construção e
exportação desse ideário e de suas práticas para o mundo chamado subdesenvolvido, o
Terceiro Mundo.42 Portanto, tudo indicava a agonia do mundo “moderno”, emergindo o “pós-
moderno”. Doravante, o sistema capitalista receberia sopro alentador com o fim da Guerra
Fria, com a crise dos países socialistas, com a acumulação flexível, que tem no pós-
modernismo seu lastro teórico, conforme a análise de David Harvey.
Os sistemas de comunicação e de transporte foram turbinados, em um fluxo contínuo
de informações e deslocamentos. Segundo Harvey, em obra publicada originalmente em 1989,
o pós-modernismo era, mais do que um conjunto de ideias e noções conflitantes, uma
verdadeira condição histórica que requeria elucidação. Tal condição, mais do que jogos de
linguagem e desconstrucionismos de variadas espécies, 43 indicava que os significados do
espaço e do tempo mudaram com a transição do fordismo para a acumulação flexível,
notadamente após 1972, havendo uma maior “compressão espaço-temporal”, apequenando-se
espaços e acelerando o giro do tempo. Tal compressão, segundo sua tese, “tem tido um
impacto desorientado e disruptivo sobre as práticas político-econômicas, sobre o equilíbrio do
poder de classe, bem como sobre a vida cultural e social”.44 Acentuam-se a volatilidade,
fragmentações, incertezas, nota-se a efemeridade de modas, técnicas, processos de trabalho,
em “bombardeios de estímulos”, “a reversão a imagens de um passado perdido (daí
decorrendo a importância de memoriais, museus e ruínas)”. 45 A volatilidade tornaria
“extremamente difícil qualquer planejamento de longo prazo”. 46

4141
BERMAN, Marshall. Tudo que é... Op. cit., p.77. Os asteriscos são indicações dos tradutores: o
primeiro significa “Condado da Laranja” e o segundo, “Praças ou mercados de Pessegueiro”, nome de
famoso centro de compras.
42
HOBSBAWM, Eric J. Era dos Extremos... Op. cit.
43
O livro do filósofo francês Jean François Lyotard (1924-1998), A condição pós-moderna, havia sido
publicado em 1979. A publicação de Harvey pode ser vista como um elemento de contraponto a esse
manifesto pós-moderno.
44
HARVEY, David. A condição pós-moderna. Uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. São
Paulo: Loyola, 1992, p. 257.
45
Ibidem, p. 259.
46
Ibidem, p.259. Wood discordou tanto de Berman, quanto de Harvey, para ela, considerar
“modernidade” e “pós-modernidade” significa jogar por terra o legado do “projeto iluminista” e seu
compromisso com a emancipação humana, no sentido universal. A grande questão, para Wood, não seria
se considerar modernismo ou pós, mas a própria condição do capitalismo e de sua trajetória, que é
histórica e não natural. (A origem do capitalismo. Op. cit., p. 117-122). Entendendo os objetivos da
autora e seu cuidado em não naturalizar o capitalismo, acreditamos, todavia, que os trabalhos
mencionados foram e são importantes para evidenciar tanto traços culturais, quanto o próprio registro do
estranhamento causado pela aceleração do capitalismo, ou seja, de que forma as relações sociais são
impactadas.

210 Revista Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 198-217, jan./jun. 2018


Dimensão temporal da(s) crise(s)

Desde os anos 1970, a ambiência de várias crises, econômica, financeira, política,


social, ambiental, etc., fornece elementos para se refletir que os ideários de desenvolvimento,
planejamento e racionalidade econômica nunca responderam aos interesses da maioria das
pessoas do planeta, sendo potencialmente destrutivos e provocadores de guerras (por
recursos, por combustíveis, por zonas militares de influência, etc). Para alguns, poucos, esses
ideários têm sido projetos, mas para a maioria, significam desarraigos na significativa
expressão de J