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Viviane Mosé

Desafios da Educação: Prof. Rui Camaro, os desafios não estão somente na escola, mas
se desloca para escola. Vivemos um intenso desenvolvimento tecnológico, que
“retrocedeu” a imaturidade política e social. Isso é uma consequência social.

A consequência no modelo escolar

Até a década de 50 - estrutura reflexão, pensamento; formação ampla, questionadora


e reflexiva; voltada para a classe elitista, para poucos; escola dedicada a formar
lideranças.

Tinha admissão na 1ª, 2ª e 3ª série, já na 4ª tinha que fazer um vestibular. Só os


melhores entravam no ensino médio e os melhores ainda nas universidades.
Mecanismo de exclusão, mecanismo de educação de favorecimento a uma classe ou
intelectualidade selecionada.

Industrialização: objetivo na época era ampliar a mão-de-obra, pessoas precisavam


ler, escrever, pensar para atender a demanda industrial que surgia no país. Nasce a
escola em massa, escola para todos. Constrói rapidamente muitas escolas.

Modelo da escola: fábrica de pessoas para o mercado. Comparada a uma escola


fábrica, porque produz com rapidez o conhecimento, como uma linha de montagem.

Caracteriza a segmentação e a fragmentação, falta de noção do todo.

 Escola seriada, produto em série.


 Conteúdos-disciplinas.
 50 minutos de aula.
 Sinal sonoro (semelhante ao das fábricas)
 Escola segmenta o saber. Característico da linha de montagem.

Uma segunda característica – escola como reformatório, prisão. Traz características do


Regime militar. Escola como prisão.

O currículo chama-se grade curricular, atrás delas temos as disciplinas, a avaliação é


chamada de prova. Tipo: Você é um condenado, se você não provar.

Aluno chega à avaliação como um condenado, você tem que provar que é inocente. Ai
você passa e é absolvido.

A necessidade de construir uma escola desse jeito diz respeito a outra necessidade. A
necessidade do desejo dessa sociedade que era produzir passividade, disciplina,
ausência de questionamentos e criticas, repetição e não criação de conteúdos. Onde
os arquitetos estão repensando na estrutura arquitetônica, como corredores imensos,
salas pequenas e isoladas, pátios são vigiados.
Convivência das crianças no pátio como um lugar apertado. Escolas não têm espaços
amplos, não tem arejamento entre os processos.

Perdemos a noção de conjunto, unidade, participação e relacionamento. Levou além


da passividade da repetição, a escola se tornou um espaço isolado.

Principal característica da escola como prisão, reformatório, colocar as crianças na


escola se tornou afastá-las da rua. Porque a rua é violenta, para não se envolverem
com drogas.

A droga é um problema da escola também? A escola é culpada por tudo? É na escola


que vamos resolver o problema das drogas?

E cada pensamento a discussão, a produção de conhecimento que podemos gerar. É


quase uma penalidade para a criança estar na escola. Além de serem tratados como
penalidades, como as crianças ficar mais tempo (tempo integral) – fácil dizer.

Mas se a escola é um espaço fragmentado, isolado, voltado para disciplina com uma
hierarquia absurda, onde o aluno deve respeitar o professor e o professor não tem
responsabilidade de respeitar o aluno. Como que esse aluno vai aprender cidadania e
ética? Cidadania não exige que as pessoas vivam em cidades?

A escola não vai a cidade. Escolas não frequentam os museus, os parques. Todas as
escolas deveriam ter um ônibus para levar as crianças para a rua, não precisa ser
museu, parques, estações ecológicas. Levar as crianças para conversar com Sr. Manoel
da padaria ao lado, para ver como é pão, como faz, como vende.

Não é possível que a gente possa aprender a formar um ser humano se ele é isolado
em quatro pare desde uma escola que é fragmentada e passiva.

Onde o conhecimento encontra com a vida?

Detalhe que influencia não é a escola brasileira, mas a marca a produção idealismo
platônico: Quanto mais o conhecimento é abstrato, quanto mais ele é distante do
movimento da vida, dos corpos e processos maior ele é.

Exemplo: Um professor de escola do interior, rodeados por uma natureza exuberante,


dando aulas de botânica, desenhando no quadro a planta. Ele jamais abre a janela para
mostrar a planta. Preferem o quadro, o desenho do que a manifestação pura do que
esta acontecendo. Só que as capacitações ensinam os professores a irem para a rua,
mostrar a planta. Só que elas não desfazem o problema em si, não é apenas mostrar a
planta. O professor não mostra a planta para desenvolver o pensamento abstrato, ele
tem que entender que ele tem que inverter um conceito, é importante o
acontecimento e a vida.
Conhecer profundamente uma coisa é possível? E se não for possível conhecer tão
profundamente mas sim superficialmente? Será que abstração é um grau muito
elevado de pensamento? O professor tem que entender porque ele vai para rua e
porque ele não foi antes.

Pela valorização da ideia e não da vida, isso caracteriza a não abstração do


pensamento.

Exemplo: Meio ambiente, todas as escolas falam do meio ambiente, da ética. Ai o


professor escreve Ethos no quadro com TH e começa a falar sobre isso. Isso esta no
domínio do idealismo platônico, domínio da representação. Esse processo de
abstração do pensamento na escola que privilegia a palavra se unido a uma escola
fragmentada, segmentada e isolada da sociedade privilegia a passividade, ao acumulo
de conhecimentos (escola conteudista). Você tem o cidadão que temos hoje.

Como você vai pedir que uma pessoa perceba que ela jogando papel na rua, no chão,
esse papel vai entupir o esgoto, e a água da chuva vai subir e entrar na casa dela. Que
ela poluindo a água, ela vai interferir na vida dos peixes e vai produzir a miséria dos
pescadores. Ela não vai entender isso. Isso é um processo de complexidade. Porque
ninguém na hora de jogar o papel vai pensar nisso, impossível. Então, é preciso que
sejamos capazes de perceber o todo para falar de meio ambiente, se não, é um
discurso vazio.

Decorar a importância de jogar papel no lixo torna as crianças excessivamente


paranoicas. As crianças tem pavor de certas atitudes. Por exemplo, o filho diz que
nunca mais quer usar canudos porque...

Vira um discurso racional, de crianças lineares, mas essa criança que não quer jogar o
canudo no lixo continua pensando segmentando, continua acreditando que ela é um
ser isolado.

A ética não pode ser pensada como vou ser boa para a sociedade. Não vou maltratar
porque sou ético, cuido do outro. Não é isso que é ser ético. Ser ético é cuidar de si
mesmo, o outro é si mesmo.

Nós percebemos coisas isoladas porque é característica do ser humano de associar


coisas, juntar o que é semelhante. A gente da uma síntese processo cognitivo do ser
humano, mas as coisas em si estão conectadas.

Ético é o ser humano que entende que cada gesto dele tem um desdobramento
infinito e que esse desdobramento vai em algum momento recair sobre ele; é o ser
humano que entende que não há nada isolado e por isso prestar atenção nas
pequenas coisas.
A escola hoje é uma linha de produção. Todos os conceitos, vai levando o aluno a
alienação. Aluno exercitar sem pensar.

Alienação é uma palavra, conceito interessante, é quando você produz alguma coisa
que esta desvinculada ao seu processo de vida. Por exemplo:

A segmentação do saber é um processo de alienação. A escola é um espaço de


alienação. Porque existe o mundo como concretude, como a água, o rio, a roupa... Eu
transformo esse mundo móvel, intenso, constante em traços e riscos. Quando começo
a colocar esses riscos no quadro eu peço ao aluno que esqueça de onde esses riscos
vieram.

Trabalho metodológico dos professores que fazem sem saber é quanto mais abstrato
mais grandioso o saber.

Exemplo: A criança no ensino infantil diretamente ligada a chuva, agua, brincam, se


molham. Quando ela entra no ensino fundamental, com 6 anos, e perde tudo isso. Um
ano ela brinca e no outro ela senta na cadeira, fica sentada 2h,sai para o intervalo,
volta e fica 2h. Isso é uma disciplina do corpo, inacreditável, de passividade física. De
não saber andando, não aprender se movendo e sim aprender parado.

Primeira coisa que a escola faz é o trabalho com o corpo. Essa coisa militar, depois
afastando a vida daquilo que esta no quadro. O que se produz no final, uma pessoa
alienada, distante dos processos sociais, incapaz de interferir na sociedade. Um
problema é mais fundo no que diz respeito a nossa humanidade, o problema não diz
respeito a escola e não tem politica do governo que vá resolver se nós não
entendermos que a humanidade tem que sair da sua eterna adolescência . Vamos
aprender a perder, sofrer, lidar com as perdas, com as contradições.

Que eu uso a escola porque eu sinto que a escola é centro onde essa inversão pode se
dá, ela é o problema e ela é a solução. Mas a grande questão é conceito que o ser
humano tem de si mesmo e do mundo. O mundo não é um lugar onde a gente veio
para se dar bem. Tem que compartilhar a alegria, alegria é compartilhar. Porque o
isolamento é essa segmentação.

Como pensar o todo numa escola fragmentada? Impossível

Edgar Morin 1921, o saber que a escola nos dá fragmentado que fica o corpo, na
percepção no modo dever e de viver encontra hoje realidade, problemas e questões
transversais, planetárias e globais. Questão mundial hoje é o aquecimento global.
Questão que trouxe de volta ao mundo. Talvez se não existisse essa questão nós
teríamos perdido completamente a noção do planeta, das galáxias e da totalidade e
cada um viveria vinculado ao seu umbigo e deprimido.
Porque a depressão é a falta de vida, intensidade, diminuição da força, paralisação
‘quase do movimento. Mas se uma pessoa vier deslocada da totalidade, relações
porque ela acredita que ela é um fragmento e ela depende desse fragmento, onde se
da a retroalimentação se uma pessoa não entende que ela pode lidar com os conflitos
e com as contradições porque a nossa linguagem, nosso pensamento não deixa, como
essa pessoa vai se relacionar com o mundo. Enfim, a questão ambiental veio com a
dimensão planetária, falando do modelo cognitivo. Agora nesse modelo tem o planeta
o tempo todo.

Hoje temos também a internet, que esta discutindo esse encontro. Facebook
relacionando o contato com as pessoas do mundo inteiro.

Violência. A violência que existia como guerra no território, em um campo onde


ocorria a guerra e depois os vencedores iam para a cidade para ocupar a área que
ganhou. Hoje existe um espaço físico onde a população se encontrava e faziam a
guerra. Hoje a nossa guerra é a guerra do terrorismo. Significa uma situação pontual,
em qualquer lugar, em qualquer situação, no imprevisto que acontece os ataques que
é exatamente onde ninguém imaginava que iria acontecer. Isso criou também uma
sensação de totalidade que é: ninguém esta seguro em lugar nenhum. A sensação de
território foi desaparecendo. Então este tipo de processo gerou instabilidade do
mundo, questões universais e globais, instabilidade geral e nossa incapacidade de
resolver. Então se o problema é universal e eu vou fragmentada, como eu vou lidar
com esse problema?

Eu não vou lidar.

Primeira característica desse processo é a nossa sensação de impotência, sentimos


extremamente impotente, onde não deveria acontecer. Vivemos um momento
extremamente favorável,

Exemplo: aquecimento global nos direciona para uma encruzilhada, ou vamos


construir novas possibilidades de vida e sociedade ou não existira sociedade. Essa
encruzilhada é favorável, mas é difícil, conflitante, gera problemas se nos perdemos o
fragmento que é. Todo mundo pensa fragmentado.

Exemplo: Meu filho não pode sair de casa porque é violento, todos acham um horror o
que esta acontecendo pensando somente em si, porque individualmente é muito ruim.
Pensar globalmente, temos crianças pensando no meio ambiente, o mundo esta
caminhando para um processo de consciência que nunca existiu. Hoje temos a internet
que democratizou o pensamento, ela gera uma crise na escola.

Mas porque sofremos e não conseguimos da conta?


Estamos passivos demais, a passividade em que vivemos é a inconsequência de uma
ausência de atitudes.

Atitude é ser uma pessoas mas será que somo umas pessoa ou pedaços colados?

Talvez eu seja, matemática, português, química, historia... mas quando me deparo com
um problema não sei a que pedaço recorrer. Querem vai pensar é minha cabeça, meus
olhos, boca. A gente não tem como ter uma atitude.

Essa escola foi baseada na linha de montagem na disciplina e na ausência de vida tinha
uma função preparar pessoas para o mercado, não podemos preparar para o mercado,
temos que preparar para a vida e para o mercado também. Vivemos para a sociedade
que produz, compra e vende. Claro o mercado existe.

Alguém hoje esta preparado para o mercado? Não. A nossa escola não prepara para o
mercado. Nós vivemos uma crise de liderança, pessoas que sabem fazer o trabalho
mandado. Mas não temos pessoas que saibam liderar. Liderar não é oprimir, diminuir,
liderar é liderar um processo que pode ser ético e respeitoso. Mas não temos essa
categoria, no sentido das empresas. Existe essa carência. Então, a nossa escola não
esta preparando o ser para a sociedade, para os desafios que ela vive, somos imaturos
sociais. A escola não esta preparando para o afeto, para viver individualmente por
causa do fenômeno da depressão, existencialmente a nossa escola nunca fala de
morte, de alegria, de perda, de vida. Afeto não é razão é muito racionalismo, afeto
você cuida na igreja ou em casa. A escola não prepara para o mercado. Então, a escola
nos desprepara. Escola é responsável por essa coisa fraca que nos ornamos, coisa
débil.

O que nós somos? Somos medrosos, angustiados, medo de sofrer, odiamos obstáculos,
odiamos pensar. Gostamos do que vem pronto, do que vem mastigado, não sabemos
nos relacionar, perdemos a noção do corpo (não temos capacidade do toque).de visão,
de audição, perdemos a noção de solidão (essencial para a vida), capacidade de existir
como pessoa, dignidade (que perde o sentido) perdermos a noção de que você nasce e
tem processo de vida. A escola veio como desculpa, ela já passa por transformação,
precisamos de uma mudança conceitual, precisamos reaprender a ver, ouvir e pensar.
Porque o pensamento fragmentado afasta o ser humano da única coisa que existe que
é a vida.

Edgar Morin trata a educação como formação do novo cidadão, politica, atuação na
sociedade. Educação para atuar na sociedade. Temos que aprender a aprender.
Inverter uma logica o que faz a escola? E o aluno aprende. Ele diz não. A escola tem
que aprender, o professor tem que aprender e a escola não pode mais ensinar a
palavra ensinar, ela pode sair do nosso vocabulário por várias razões, o professor não
é aquele que ensina, o professor é aquele que estimula a aprendizagem. Ninguém
ensina, o que o outro de algum modo não perceba, não intua, seja estimulado porque
ele pode decorar mas aprender a gente só aprende aquilo que nos toca, afetivamente,
humanamente, o que nos move.

Então ninguém ensina o que o outro já esteja de algum modo pronto para saber, o que
saber, ou tem interesse em saber.

Segundo: quando o professor ensina ele é o centro da questão, poder hierárquico que
atrapalha a relação de conhecimento. Abismo ente prof. e aluno.

Terceiro: com as mudanças tecnológicas os conhecimentos mudam todos os dias. Um


prof. não tem condições de saber mais do que os alunos em todas as series.

Um aluno sabe mais que o prof. desde alunos de sei anos.

Exemplo: entrou um bicho na sala e a prof. foi conversar sobre o bicho só que ela não
sabia direito. Ai um aluno começou a falar do bicho libélula e por ai vai. Criança de seis
anos. Temos que parar de ser prof. e ser educadores.

Papel do prof. é aquele que estimula o aprendizado, prof. não é aquele que sabe tudo
mas tem interesse por tudo, esse é educador.

O que alivia como prof. É não ter obrigação de dar conta do conteúdo. Ninguém tem.
Porque principio de instabilidade: todo saber é provisório.

A internet acabou com o gueto do conhecimento e quem vai estar no gueto é aquele
que busca, pesquisa

Quem acumula conteúdo não pensa. Pensar exige o vazio e não saber. Se eu sei, eu
não aprendo, estou cheia. Escola tem que ter princípio de estabilidade, aprender a
aprender, retomar a reflexão e o vazio, construí um ambiente democrático.

Professor, alunos, funcionários, todos tem que ser respeitados.

Coisa mais importante da escola é construir daquele lugar um espaço democrático de


convívio ético antes de pensamento e conhecimento. Sem isso não existe possibilidade
de construção de conhecimento.

Conexão – ambiente interno da escola deve ser democrático e respeitoso e a


preocupação com isso é constante. A escola tem que abrir para seu entorno, para
comunidade, vizinhos. Se a escola esta do lado de uma favela que é muito violenta,
levar o assunto violência para ser discutido normalmente, cotidianamente. Pois se
você entende o processo de exclusão social você se defende dele, caso contrário, se
torna vitima. Crianças tem que entender que exclusão é muito maior do que ter cabelo
crespo ou ser pobre. Processo que esta além dela. Ela não pode se sentir culpada ou
inferior por essa exclusão e muito menos revoltada. Ela tem que descobrir modos de
ação social por isso politica é um assunto de escola. Ter coragem de discutir as
questões que nos atinge diretamente. Tipo eu não tenho conhecimento de politica
então traga um debate sobre o assunto. Pensar não é dar resposta a criança sobre
aquilo, é trazer autores, tema e questões.

Politica na escola e prof. tem dificuldades, discutir a morte na escola, ex uma criança
morreu assunto no jornal, mostrando o obvio. Como falar da morte? Traz um poema,
traz a questão.

Pessoas sensíveis esteticamente são mais ética sensível ao sofrimento também é uma
pessoa respeitosa. Escola não é problema da escola ou criamos uma cidade educativa
ou nos não teremos nem cidade, nem sociedade, nem ser humano.