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O Direito e outras Ordens Sociais

Na máxima latina “ubi jus, ibi societas” ou “ubi societas ibi jus” que significa: não há direito
sem sociedade, nem sociedade sem direito, (ou tão simplesmente, “onde há direito, há
sociedade ou onde há sociedade, há direito”), podemos extrapolar algumas conclusões: O
Direito é um conjunto de regras que regem uma sociedade ou que regulam a conduta dos
homens numa sociedade.

O Direito é, portanto, uma ordem social. Há, portanto, na sociedade outras ordens sociais e
nem por isso têm menos importância. São a “Ordem Moral”, “Ordem Religiosa” e “Ordem de
Trato Social”. Alias, na perspectiva de cada um, actor, protagonista ou defensor de cada uma
das regras, é possível considerar-se que uma das outras é mais importante que o Direito.

Qualquer delas, assim como o Direito, faz parte da ordem social no seu todo, na medida em
que, na sua essência, o Homem é um ser social e orienta-se por todas essas normas. E essa
sociabilidade implica uma regulação, uma ordem, sem a qual a subsistência do Homem seria
impossível. Daí a tal máxima da primeira frase sobre a fatalidade de coexistência do Direito e
a sociedade.

Portanto, temos em qualquer sociedade humana, esse emaranhado de normatividade. E como


já afirmei, para além da obrigatoriedade e coercibilidade que é a força jurídica, não dissociável
do chamado “império da lei”, que arrasta consigo o princípio da legalidade e “dura lex sed
lex”, a ordem jurídica é aquela cuja regra todos somos obrigados a cumprir.

Normas morais se são forem cumpridas acarretarão para o violador uma censura e reprovação
social, que na consciência ou interioridade de cada um pode até ser mais importante. O mesmo
se passa com normas religiosas para aqueles que seguem determinadas religião.

Embora as normas religiosas tenham ou possam ter determinada sanção, a medida e a maneira
de cada religião, com o peso que tem na consciência de cada fiel, nunca poderá ser usada a
força por sua violação ou incumprimento, porque ela é do domínio e monopólio do Estado.

Embora possa ser discutível e até nem fazer parte do tema em análise, entendo que o Direito
Natural tem uma importância transcendental na moldagem da conduta humana, por ter também
grande reflexo na sua vida. O direito natural é pouco invocado na sociedade por força do
domínio do positivismo; e este é a concepção ou filosofia que dá primazia às regras adoptadas
pelo Estado.

Não se trata de Direito Divino, porque este corresponde aos mandamentos de Deus e
perspectiva a realização do Homem segundo a sua vontade.

O Direito Natural é inerente ao Homem e a sua natureza. E o Direito natural é o conjunto de


regras que ultrapassam a vontade dos homens, são transcendentais, e inerentes à natureza
humana. Por exemplo, o direito à vida, direito à liberdade, direito à honra, direito integridade
física, direito à intimidade e privacidade das pessoas, embora estejam positivados pelo Estado
nas suas leis, são direitos que pertencem às pessoas, independentemente da vontade do próprio
Estado. O Estado não os dá, reconhece-os; obviamente, para melhor segurança e certeza
jurídicas que se fundam na objectividade dos instrumentos ou suportes em que esses direitos
vêm consagrados (leis etc.), tendo também em conta a complexidade da vida social.
Comparando o Direito, enquanto instrumento que o Estado utiliza para a concretização das
suas nobres funções, nomeadamente, o bem estar e a segurança, verificamos que ele diferencia-
se das outras normas sociais. Desde logo, porque são regras geralmente escritas. Por outro lado,
as normas do Direito são chamadas normas jurídicas porque elas estão revestidas de
coercibilidade, o que quer dizer que a violação de uma norma do Direito implica para o violador
uma sanção que é coerciva. Melhor dizendo, quem as violar sujeita-se à força das autoridades
que, ou obrigarão o seu cumprimento, ou sancionarão a sua violação.

Enquanto que as normas da Moral, Religião e Trato Social, as suas violações implicam uma
censurabilidade social, uma reprovação social, o que na consciência de cada um pode até ser
mais importante, se se tiver em conta que a nossa conduta na sociedade, sobretudo moral e
ética (religiosa para os religiosos) é algo sublime.

Daí que se pode dizer que entre o Direito e a Moral há um factor importantíssimo a registar: é
que as normas jurídicas (normas ou leis do Estado) só têm dignidade de existir para o Homem
se elas contiverem também alguma moralidade. Uma norma imoral não inspira o seu
cumprimento. É até desprezado. É por isso que se diz que as normas jurídicas devem ter um
mínimo ético.

De todas essas ordens sociais as de Trato Social são muito importantes, “mas não são
necessárias à subsistência da vida em sociedade”. “Porque as regras de trato social destinam-
se a permitir uma convivência mais agradável entre as pessoas…” Correspondem as boas
maneiras de os homens se relacionarem na sociedade. É a beleza na existência humana.

Há normas de trato social especificas dirigidas a cada circunstância da vida: temos por exemplo
as “regras do comportamento em eventos sociais” que são “regras de etiqueta e boas maneiras,
regras de cortesia e normas de urbanidade, regras quanto à forma de vestir (moda), quanto
às práticas típicas de uma profissão (deontologia), quanto aos hábitos de determinadas região
(usos e costumes), entre outros”.

Permito-me destacar aqui que normas deontológicas não têm força jurídica como muitos
pensam. São normas importantíssimas para o exercício correcto de uma profissão, mas a sua
violação não consta sequer do elenco de normas cuja violação implica processo disciplinar para
um profissional. Elas visam um bom e correcto uso da profissão para com ela se atingir
melhores resultados.

Exemplo de “regras de boas maneiras” que retirei de um dos livros que me serviram de
inspiração para este tema que é o livro de Direito usado no IDF (Instituto Diocesano para 12.º
ano: Um homem, perante uma senhora que se aproxima, agarra numa cadeira disponível e num
gesto de quem lha entrega, diz-lhe: “Faça o favor de se sentar?”. “Oh! mas … quanta
gentileza!” retorquiu ela.

Hilário Garrido / Juiz de Direito