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LITERATURA E NOVAS TECNOLOGIAS1

Mariana Alice de Souza Miranda2

Neste texto, pretendemos refletir acerca da ligação da Literatura com as novas


tecnologias, compreendendo que os dois âmbitos são bastante abrangentes, limitamo-nos ao
que compete à narratividade literária e seus possíveis correspondentes na narrativa
cinematográfica. De início, cabe demonstrar que o domínio da Literatura recai sobre a técnica
que se complementa ao da tecnologia, mas ambos não se confundem como é o caso do
Cinema. Leonardo Kussler (2015, p. 189) explana a etimologia do termo técnica: “[…] se
formos um pouco mais a fundo, encontramos téchnē, ou seja, a técnica no sentido de arte”. A
téchnē é o ato criativo ou o meio pelo qual se consegue atingir determinada forma.
Depreende-se que a tecnologia seria o desdobramento da técnica, “novamente,
etimologicamente falando, technología é o próprio dizer da técnica, ou seja, o modo como ela
é organizada, elencada, sistematizada e pensada” (KUSSLER, 2015, p. 189).

Em 1933, Walter Benjamin, pensador distinto dos demais frankfurtianos, observou em


seu conhecido ensaio “A obra de arte na época da possibilidade de sua reprodução técnica”,
que o Cinema, suporte massificado por excelência, ao incorporar as técnicas da Literatura, das
Artes Plásticas e da Música, estaria “desauratizando” as obras, já que não mais teriam o
caráter de culto ou admiração, como é o caso dos objetos artísticos dispostos nos museus ou
os concertos que acontecem em tempo real. Objetos estes que encontram admiradores
justamente pela primazia da técnica; seu caráter de exclusividade prestigiava seus criadores já
que em parte alguma do mundo existiria alguém com a mesma capacidade. Diferentemente do
que viria a acontecer com a tecnologia cinematográfica, que justamente por se tratar de
tecnologia desenvolveu formas sistematizadas de deslocar a técnica “do saber fazer”, como é
o caso dos escritores, para “o saber manejar equipamentos”.

Dito isso, o que se pretende não é a polarização das duas expressões artísticas, ou
ainda a pretensa superioridade de uma das duas, muito pelo contrário, pretendemos
demonstrar como as condições materiais e históricas contribuíram para a Literatura a adaptar-
se ao Cinema de maneira que se originaram gêneros híbridos, como é o caso do nouveau
roman de Marguerite Duras, mescla de romanesco com técnicas de roteiro. E, ainda como
afirma Erick Felinto sobre as mudanças ocorridas tanto pelo Cinema quanto pela Literatura:

1
Trabalho elaborado para a disciplina de Literatura e Novas Tecnologias, ministrada pelo Prof. Dr. Marcelo
Bueno de Paula, no ano letivo de 2018.
2
Graduanda do 3º ano do curso de Bacharelado em Letras, da UEMS – UUCG.
No campo da literatura, sua maior contribuição foi uma vasta reelaboração do
próprio conceito de literariedade, na qual passa a adquirir importância central
precisamente o problema dos suportes materiais das narrativas literárias. A literatura
deixa de se caracterizar única e exclusivamente como uma arte do texto impresso e
passa a ser pensada como prática cultural e estética ligadas às suas diversas
materialidades históricas (o pergaminho, o livro, o hipertexto computadorizado etc)
(p. 414).

As literaturas de modo geral sofreram drásticas transformações na medida em que os


suportes midiáticos foram sendo sofisticados, atraindo o grande público. Seu conceito de
literariedade teve que ser repensado, e, posteriormente, o próprio Cinema foi coagido a
repensar sua poética. Se de início as narrativas fílmicas tiveram que recorrer a motivos
literários clássicos, posteriormente são as literaturas que passam a buscar as novas tecnologias
já exploradas em experimentos cinematográficos. Basta pensarmos no surgimento das sagas,
nos anos 1970, e suas respectivas adaptações em filmes ou seriados televisivos. O ritmo
acelerado das novas tecnologias originou um novo olhar do público para com as obras, um
olhar que talvez não consiga mais distinguir uma mídia da outra. Resgatando novamente a
reflexão de Walter Benjamin, as obras de arte não podem ser apenas reprodutibilidade técnica
uma da outra, ou simplesmente se apresentarem sob a égide de um novo vazio, pois a
reprodução convence, mas o verdadeiramente contemporâneo permanece.

REERÊNCIAS BILIOGRÁFICAS

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na época da possibilidade de sua reprodução técnica. In:
Estética e sociologia da arte. Trad. João Barrento. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2017.
(Filô/Benjamin).
FELINO, Erick. Cinema e tecnologia digitais. In:
KUSSLER, Leonardo Marques. Técnica, tecnologia e tecnociência: da filosofia antiga à
filosofia contemporânea. Kínesis, São Paulo, v. 7, n. 15, dez. 2015, p. 187 – 202.