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JORNALISMO E CONHECIMENTO

Elementos para a crítica do jornalismo moderno:


Conhecimento comum e indústria cultural

RESUMO
O texto esboça as linhas gerais ou bases teóricas de uma atitude crítica e reflexiva em relação
ao jornalismo moderno. O primeiro lance ressalta o caráter contraditório do processo de
surgimento do conhecimento comum nos tempos modernos. O seguinte examina a maneira
como esse processo foi mediado pelo desenvolvimento do jornalismo e revela as reflexões a que
ele deu origem. O terceiro momento relativiza crítica e dialeticamente essas teorias, pregando a
necessidade de entender o assunto no contexto mais amplo de conversão da indústria cultural
em sistema, verificado no século XX.

PALAVRAS-CHAVE
Jornalismo moderno
Conhecimento comum
Indústria cultural

ABSTRACT
This article outlines the theoretical ground from which we may develop a critical and reflexive
attitude in front of modern journalism. In the first step, we highlight the antagonistic character
of the common knowledge arisen in modern times. In the second, we examine the way this
process was mediated by the press and the theoretical reflections about it this process gave
place. Finally, we think critical and dialectically these theories, arguing that modern journalism
must be understood in the broader context of conversion of culture industry in system, verified
in 20th Century.

KEY WORDS
Modern journalism
Common knowledge
Culture industry

Francisco Rüdiger
Professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da PUCRS/RS/BR.
frudiger@pucrs.br

216 Revista FAMECOS • Porto Alegre • v. 17 • n. 3 • p. 216-227 • setembro/dezembro • 2010


Elementos para a crítica do jornalismo moderno

Provém da Escola de Frankfurt a proposição um momento de barbárie, tanto quanto um


segundo a qual as comunicações modernas se eventual momento de emancipação em relação
desenvolvem no marco de uma dialética: elas ao sistema social estabelecido. O ponto só pode
conscientizam tanto quanto reificam os seres ser decidido por pesquisa e julgamento, não há
humanos, visto serem expressão do enredamento como resolvê-lo por princípio. O esclarecimento
de sua história entre os pólos do progresso e da não teria se propagado sem o desenvolvimento
barbárie1. As comunicações se transformaram das comunicações. A reprodução dos ideais
em veículo das principais relações de poder na iluministas por parte delas, todavia, não pode ser
sociedade contemporânea, mas também contêm, separada de sua crescente reificação mercantil,
por isso mesmo, forças e pontos de apoio capazes de sua subordinação aos esquemas da indústria
de nutrirem a criação de processos de vida cultural.
alternativos e inovadores em relação ao sistema Desde o final do século XIX, o capitalismo
dominante. se imiscui de forma direta no campo da cultura,
fundindo todos os seus elementos em um só
movimento. O resultado é a transformação da
A reflexão crítica sobre os fenômenos de indústria cultural, prática bem mais antiga, em
comunicação constitui em si mesma um sistema cada vez mais enraizado e abrangente.
fragmento de práxis transformadora que, com A democratização da cultura ensejada pela eco-
isso, colabora com os esforços no sentido de nomia de mercado foi redirecionada pela atitude
empresarial, e a contrapartida de sua difusão
desenvolver a dimensão iluminista da mídia, em massa é a perda de seu conteúdo formativo
por maiores que sejam os obstáculos e sentido emancipatório, conforme se pode ver
examinando a fortuna do conhecimento comum,
Diante das mesmas, comporta-se como crítico, ordinário, na contemporaneidade.
portanto, aquele que desenvolve uma análise
das contradições de seu processo de posição A Dialética da informação
no mundo histórico, em vez de buscar sua Para Adorno, o esclarecimento “se encontra
purificação ou sustentar a nostalgia do retorno mais difundido hoje do que em tempos passados,
a algum estado idílico passado. A reflexão crítica e isto significa que na atualidade camadas da
sobre os fenômenos de comunicação constitui em população que em outra época não tinham acesso
si mesma um fragmento de práxis transformadora à cultura e ao saber estão em contato com as artes
que, com isso, colabora com os esforços no sentido e as ciências graças aos meios de comunicação”.
de desenvolver a dimensão iluminista da mídia, Em contrapartida, verifica-se através deles uma
por maiores que sejam os obstáculos2. tendência à redução estrutural na consciência
No capitalismo, a criação cultural serve ao esclarecida, cujo principal aspecto – no plano
espírito de utopia ao mesmo tempo em que o cognitivo – é a perda ou falta do elemento de
põe a serviço do mercado. Nenhuma ação está síntese que poderia torná-la produtiva entre as
completamente isenta da atitude mercadológica massas, em virtude do seu aprisionamento às
da indústria cultural. Por isso, a crítica é uma formas mercantis mais massificadas.
atividade que, embora sujeita a seu feitiço, se A contradição entre a emancipação do espírito
dirige tanto contra aqueles que defendem a pureza crítico e seu concomitante enredamento em
e integridade das formas superiores dos bens esquemas que o anulam é característica de nossa
culturais, quanto contra aqueles que defendem era, na medida em que, nela, a mercantilização
os benefícios de seus vários subprodutos mer- das relações que possibilita o aparecimento do
cadológicos. Atualmente, a contestação do kitsch primeiro acaba por se imiscuir em sua própria
popularesco não é mais importante do que a esfera e, assim, a fazer com que o consumo tome
denúncia das pretensões fraudulentas tantas o lugar da criatividade, com que “a informação
vezes presentes no vanguardismo. O consumo tenda a substituir a penetração e a reflexão
de um e de outro cada vez menos se distingue intelectuais”3.
totalmente dos prazeres do consumo de qualquer Conforme foi dito, a formação das redes de
outro bem disponível no mercado. comunicação e a expansão dos meios de saber
Quando bem pensada, verifica-se que a é um produto do progresso, que desperta e
cultura, elevada ou não, em geral, sempre contém idiotiza as pessoas ao mesmo tempo. A avaliação

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do processo não pode ser abstrata. A verdade a acionado e reativado periodicamente por insti-
seu respeito não reside apenas em seu núcleo tuições especializadas, cujo coletivo acabou sen-
racional: a propagação do conhecimento. As do chamado de imprensa e, mais recentemente,
conexões objetivas em que aquele processo se de mídia. A expansão da economia de mercado,
enreda realidade histórica também precisam sem primeiro, criou as condições para a diferenciação
levadas em conta. do saber, ao mesmo tempo em que começou a
Nesse sentido, as referidas redes podem ser submeter sua difusão a um protocolo mercado-
vistas, por um lado, como fator que colaboram lógico. O passo seguinte foi minar as bases que
decisivamente para tornar o homem adulto, asseguravam o consenso coletivo, oportunizando
fazendo-o mais racional, lúcido, informado e o surgimento de situações vinculadas a diversos
habilidoso. As pessoas de nosso tempo tendem pontos de vista ou opiniões e em que aquele só
a aceitar o que tem de ser aceito, rejeitando o por exceção é alcançado.
que não pode ser provado como superstição. Por Embora não limitado a ele, o processo é, como
outro lado, porém, elas se sujeitam, assim, a uma dito, ininteligível, sem a consideração do papel
indústria da cultura, no contexto da qual essas que nele desempenha a publicação de impressos
redes servem de meio para distraí-los da própria mas, sobretudo, o desenvolvimento do jornalismo
vida, afastando da mente de muitos, talvez da desde o final do século XIX. Origina-se dos
maioria, as mudanças que teriam de fazer em seu pioneiros do estudo do jornalismo a conclusão,
mundo e seu modo de ser, para viver de acordo relativamente consensual ainda hoje, de que este
com suas inclinações mais individuais. é uma criação da era burguesa. O aparecimento
As comunicações, sim, ajudaram o indivíduo da atividade está ligado à transformação
a conquistar liberdade de opinião significativa e dos impressos em material de leitura e bem
servem de veículo de uma opinião pública que, de consumo desse grupo social. A formação
apesar de tudo, várias vezes, mas nem sempre, intelectual e os projetos de ascensão política em
ajuda evitar o pior, conservando de algum modo meio às quais surgiu exigiram o seu contínuo
suas funções emancipatórias. O progresso das desenvolvimento. O público leitor surgido com
mesmas é algo que se liga a um processo ainda sua era está dialeticamente ligado à expansão
mais amplo, que é o do desenvolvimento das da atividade editorial, à crescente publicação de
estruturas cognitivas e dos estoques de saber livros e periódicos, à formação de um mercado
socialmente compartilhadas. de bens culturais.
Visando entender melhor esse processo, é Na Europa, havia impressos circulando
preciso relacioná-lo com o fato de que, com a era publicamente desde o final do século XV: livros,
moderna, o conhecimento comum se tornou objeto volantes, editais, revistas, almanaques, mas só
de renovação constante e de alcance cada vez mais dois séculos mais tarde o recurso técnico que os
amplo, via o desenvolvimento de sucessivos meios criou, o prelo manual, começaria a dar lugar ao
de comunicação mas, sobretudo, da expansão que entendemos por jornalismo. No começo do
das práticas jornalísticas. O conhecimento século XVIII, efetivamente aparecem as primeiras
comum, cotidiano, lembremos, é elaborado em redações e se começa a publicar folhas diariamente
meio à prática coletiva como apropriação das de modo regular. A sociedade burguesa se
conexões em que se articula o mundo social e expande e em seu meio vai surgindo uma esfera
histórico4. A figura, todavia, tem baixo índice de pública, que se articula para discutir os fatos
especialização, enquanto as estruturas que lhe políticos e seus próprios interesses através, entre
subjazem conservam um caráter comunitário, outros meios, dos impressos. O conteúdo desses
de modo que, nessa situação, o movimento é variado e não perde de vista as conexões com o
de formação da opinião e consciência comum mercado, mas sua a forma de expressão é literária
tende a ter um cunho imediato e monolítico, e o sentido, predominante político.
a não se expressar como opinião elaborada ou A paulatina desterritorialização da consciên-
saber individualizado, mas antes como consenso cia promovida pela expansão das atividades
coletivo imposto tradicionalmente. mercantis é intermediada pelo aparecimento
Os tempos modernos importam, por razões de veículos de comunicação que a socializam,
que não é possível explicitar aqui, numa ruptu- engendrando um circuito permanente e cada
ra com esse registro do saber ordinário, na sua vez mais amplo de renovação e reestruturação
passagem para o plano de um conhecimento da experiência em diferentes níveis. A expansão,

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Elementos para a crítica do jornalismo moderno

primeiro e, em seguida, a especialização em vários por veículos de publicidade para expandir os


segmentos desses veículos está embutida em negócios conduziram à mercantilização da
todo esse desenvolvimento, conforme ele assume imprensa, o principal fator responsável por
feições duradouras na época em consideração sua crescente concentração nas mãos de umas
(século XVIII). poucas empresas e conglomerados no período
Nesse período inicial, a prática do jornalismo, seguinte. Os empreendimentos jornalísticos
todavia, era predominantemente política e foram historicamente, portanto, os primeiros a
estava submetida à ação propagandística. A explorar o mercado dos bens simbólicos como
expansão do capitalismo se deu em tensão com indústrias organizadas, mas isso, vale lembrar, é
a concentração do poder político no aparelho de um desenvolvimento mais recente em relação às
estado. A propaganda governamental e o debate suas origens remotas.
de ideias pautavam a conduta dos publicistas. Conforme nota Habermas, os primeiros
Os periódicos eram veículos de propaganda e jornais merecedores do conceito “resguardavam
embates doutrinários; seus responsáveis, homens para as suas redações aquela espécie de liberdade
que aspiravam ou pertenciam à classe política. A que era, de um modo geral, característica para
sociedade civil burguesa se constitui em meio a a comunicação das pessoas privadas enquanto
esse confronto e é em meio à agitação publicística público [na era burguesa]”5. As preocupações
que se desmorona o absolutismo e o Antigo políticas preponderavam sobre as perspectivas
Regime. de tirar vantagens econômicas com o negócio
Depois de lutar contra os privilégios monár- editorial. Para fazer frente à crescente concorrência,
quicos e vencer a censura estatal, as reivindica- os veículos jornalísticos, contudo, tiveram de
ções burguesas de liberdade intelectual, cuja ori- começar a se organizar como empresas. Depois,
gem era, aliás, religiosa, entrementes foram se o tempo foi o que bastou para os empresários do
consolidando em um aparato constitucional. O setor descobrirem nas experiências de jornalismo
estado liberal burguês, aos poucos, firmou suas popular que haviam se posto em marcha algumas
instituições e, com elas, o direito à liberdade de décadas antes um modelo de expansão para seus
expressão. As estruturas cognitivas do público negócios.
sintonizado com essas mudanças avançaram com No final do século XIX, esse processo de todo
a nova situação. Desde o século das Luzes, com modo parece concluído, conforme indicam os vas-
efeito, verificou-se uma formidável expansão do tos mercados consumidores de impressos surgi-
conhecimento público. O crescimento em varie- dos na Europa e Estados Unidos. As publicações
dade e a difusão em maior número de material políticas e partidárias entraram em declínio, para
impresso forneceram as condições para uma depois vir a desaparecer. As empresas que não
rearticulação da consciência burguesa. O princi- criaram veículos populares para atender os mer-
pal e distintivo, porém, é o aparecimento de um cados de massas, surgidos com as reformas traba-
espírito crítico de caráter público, o crescimento lhistas e a escolarização obrigatória, pelo menos
da discussão e o estímulo à formação de opinião seguiram a tendência no sentido de abandonar a
sobre os acontecimentos que afetam os destinos linguagem literária. O positivismo tecnocrata em
da vida em sociedade. voga nesse novo contexto ensejou o aparecimento
No final do XIX, o panorama mais amplo, do estilo propriamente jornalístico, que acabaria
todavia, já mudara e, entrando no século seguinte, por se impor após a I Guerra Mundial.
houve rápidas e profundas transformações, que Nessa época, o jornalismo, por outro lado,
fizeram a vida social transitar do regime burguês concluiu também seu processo de profissionali-
para o tecnocrático. Elas acabaram com a ordem zação. As críticas a seu emprego propagandísti-
liberal e nos jogaram no mundo democrático de co durante o conflito6, mas também nos conflitos
massas. Conforme o saber e as opiniões iam se entre capital e trabalho, provocaram seus sujeitos
convertendo em mercado explorado por empresas a elaborar e adotar um sucedâneo da doutrina
jornalísticas, o conhecimento público mais e mais positivista do conhecimento. A preocupação em
se foi tornando prisioneiro dos seus fetiches, parte cínica, em parte ideológica em preservar o
conforme já se tinha claros sinais a respeito no negócio, levou ao surgimento de um código de-
tempo de Balzac. ontológico próprio, cujo cerne era o compromis-
Durante o século XIX, a possibilidade de tratar so de bem informar a sociedade. O empirismo
o público como clientela consumidora e a demanda espontâneo que se impusera no período anterior,

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a crença ingênua de que o periódico se resume principal função não é fiscalizar o poder de estado
em reportar os fatos para os seus auditórios, foi e assegurar que seus atos expressem a opinião
reformada em bases doutrinárias. pública.
Destarte, triunfou o formato noticioso, sugeri- Os jornais são empresas controladas pelos
do pelo crescente emprego do telégrafo, desde o setores sociais e econômicos mais fortes, que
final do século XIX. Os princípios fordistas esta- deles se servem para sustentar as coalizões
vam se transplantando para o campo jornalístico. políticas de seu endosso e conduzir os processos
A espontaneidade passou a ser mais reprimida. A de formação da vontade e expressão ideológica
reportagem foi caindo para um segundo plano. de acordo com seus interesses. Subjacente nos
As redações passaram para um novo patamar de escritos dos clássicos da social democracia, a
sociabilidade. O regramento da atividade se enri- tese aparentemente começou a ser explorada de
jeceu, com o surgimento dos manuais de redação, maneira mais sistemática por Heinrich Wuttke,
a formação especializada e outras exigências de Karl Kraus, Upton Sinclair e George Seldes,
profissionalização que não tiveram outro sentido para ser elaborada teoricamente nos escritos de
senão se acentuar mais tarde, quando o jornalis- Norman Angell e Antonio Gramsci.
mo passou a ser praticado nas empresas de rádio, Para o primeiro autor, os jornais são “meios
revista e televisão. públicos de informação, de seleção e apresentação
dos fatos que chegam às pessoas, de provimento
Poder à forma de saber do conhecimento que determinará sua opinião
Quando se busca entender como esse e atitude política”, cujo controle e emprego,
processo se estruturou teoricamente, construir entendido em termos de “instrumento”, está
os conceitos que permitam esquematizá-lo em “nas mãos de uma pequena claque de grandes
termos mais abstratos, a pesquisa via de regra capitalistas, estreitamente ligada em interesses
se depara com uma ou outra versão ou teoria (via a publicidade) aos demais grupos de
do que chamaremos de paradigma do 4º. Poder. capitalistas”. Afinal, remata o segundo,
Oriundo talvez de Burke (1787) e popularizado
por Carlyle (1841), o termo surgiu com sentido O exercício normal da hegemonia [de uma
ambíguo entre os intelectuais conservadores, para classe social], no terreno clássico do regime
indicar a influência da imprensa no processo de parlamentar, caracteriza-se pela combinação
da força e do consenso, que se equilibram
formação da opinião pública e na condução dos variadamente, sem que a força suplante o
negócios políticos de nosso tempo. A consagração consenso, ou melhor, procurando obter que a
do princípio, contudo, foi obra dos pensadores força pareça apoiada no consenso da maioria,
liberais. expresso pelos chamados órgãos da opinião
Para eles, os periódicos populares, sempre que pública – os jornais e as associações8.
não são controlados pelo estado, cumprem um
papel vital para a sociedade, que é o de fiscalizar Deixando de lado a tarefa que seria recons-
as ações dos governantes. Através da imprensa, truir a trajetória desse entendimento conjunto
a sociedade as traz à luz, mantém sob controle e durante o último século, verifica-se que sua raiz
faz saber aos seus agentes seu pensamento sobre comum, qualquer que seja a versão, é a atribui-
os assuntos de interesse público. “Tornou-se uma ção à imprensa de um poder mediador sobre a
trivialidade política afirmar que quem governa o condução dos assuntos políticos da sociedade.
mundo é a opinião pública” e que esta é formada Entre os pensadores liberais, os periódicos seriam
“por homens que estão mais ou menos à altura expressão do poder da sociedade civil sobre o es-
dos demais e que se dirigem a esses últimos por tado, enquanto seus antípodas socialistas argúem
meio dos jornais”, dizia Stuart Mill, em 18597. que eles antes expressam o poder dos grupos do-
Quando a era liberal entrou em colapso, na minantes, senão sobre o estado, pelo menos sobre
virada para o século XX, o entendimento do poder a maioria da sociedade.
que a imprensa representava, entretanto, passou O problema com essa visão é, em primeiro,
a ter mais um sentido: os periódicos começaram a sua relatividade histórica e, em segundo, sua falta
ser visto como meios de sustentar uma política de de especificidade conceitual. O jornalismo, nin-
estado, aquela defendida por seus proprietários. guém negará, se desenvolveu a reboque do curso
Para as forças sociais emergentes, os periódicos seguido pela vida política. As folhas de vários
são, sim, expressão da sociedade civil, mas sua tipos foram por muito tempo órgãos de partidos.

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Elementos para a crítica do jornalismo moderno

O panorama, contudo, começou a mudar, há mais processo social de elaboração coletiva do conhe-
ou menos um século, e chegou ao ponto de hoje cimento comum dos agrupamentos humanos e,
não mais conhecer a figura do jornalismo político- avançando um pouco mais, da própria constru-
partidário. ção de seu mundo histórico. O jornalismo é uma
A sociedade capitalista transitou, com o tem- forma social de conhecimento que ultrapassa a
po, para uma nova etapa, em que consciência ci- base social imediata que o promoveu, isto é: o
vil e ação política, categorias fundadoras da era capitalismo, porque corresponde a necessidades
burguesa, parecem estar se tornando anacrôni- sociais mais profundas e “que, teoricamente, in-
cas. O jornalismo, sem dúvida, segue agencian- dependem das relações mercantis e capitalistas,
do processos de poder e estes se consubstanciam embora tenham sido nascidas de tais relações e
na ficção eficaz que é a opinião pública. O fato, por elas [foram] determinadas” 12.
porém, é que esta opinião, passando a ser elabo- A perspectiva, sem dúvida, representa um
rada a partir da circulação de material noticioso, avanço na reflexão sobre o jornalismo, ao lembrar,
não mais surge da forma que era o caso quando a seu modo, que este, antes de ser uma agência
o centro das atividades jornalísticas era o texto de poder político, é uma mediação da consciência
doutrinário9. cotidiana. A abordagem também possui o mérito
Dentro do novo contexto e contrapondo-se a de ser afinada em termos de consciência histórica,
essa visão, predominante do ponto de vista do salientando o fato de que esse entendimento se
conjunto das reflexões sobre o assunto, surgiu aplica, sobretudo, para as formas de jornalismo
com o tempo um outro paradigma de entendi- contemporâneo. O enfoque só se aplica com pre-
mento do jornalismo. A revolução empresarial juízo ao jornalismo clássico, em que predomina o
que o subordinou à racionalidade mercadológica, discurso literário, o texto de opinião e a perspecti-
consagrando o estilo noticioso, impactou também va doutrinária. O compromisso com a elaboração
em suas formas de reflexão. Desde sua consoli- do conhecimento comum que nele se apresenta é
dação, o jornalismo fora visto em seu significado próprio de sua etapa avançada, do momento em
coletivo, sobretudo, sob a ótica da filosofia políti- que ele se organiza como empresa e se insere no
ca e, assim, como prática inserida no campo das âmbito do capitalismo massificado.
relações de poder entre estado e sociedade. Cou- O problema com essa visão, contudo, se apre-
be a Adelmo Genro Filho, entre outros, talvez, senta e, em nosso entendimento, consiste em seu
sistematizar uma mudança de perspectiva para o déficit de reflexão crítica sobre o estatuto da ativi-
campo do saber e, assim, subordiná-lo a ótica da dade jornalística neste contexto. O reconhecimen-
sociologia do conhecimento. to da função cognitiva exercida pelo jornalismo
Explorando as pistas deixadas por Robert em nosso meio precisa ser considerado critica-
Park10, o autor propõe que vejamos o jornalismo mente, sem ilusões, mantido a certa distância. À
moderno, sobretudo, como uma forma de conhe- sociologia do conhecimento que lhe subjaz cabe-
cimento da realidade. O conhecimento especiali- ria reconhecer que o saber, tanto quanto o poder
zado oriundo das ciências e que permanece em agenciado pelo jornalismo é, agora, articulado
boa parte esotérico tem contrapartida no conhe- socialmente por meio do mercado.
cimento ordinário mais ou menos livre, aberto Afinal, as comunicações, é certo, contêm um
e universal proporcionado pelas atividades jor- momento de liberdade, permitindo ao indivíduo
nalísticas. Os profissionais de imprensa ainda elaborar seu próprio conhecimento, pensar suas
hoje professam a filosofia espontânea de que seu próprias idéias, não professar o credo dominante
trabalho consiste apenas no registro imediato mas, por outro lado, são expressão de relações
dos fatos e em seu relato empírico para o público objetivas, que modelam sua existência e pensa-
supostamente interessado, conforme certos prin- mento, antes mesmo dessas idéias chegarem à
cípios, que seriam, em resumo, a objetividade, a sua consciência, sendo parte ou momento daquilo
imparcialidade e o equilíbrio de pontos de vis- que, recorrendo à linguagem conceitual, estamos
ta11. chamando de sistema da indústria cultural.
O jornalismo, porém, chama à atenção esta Adelmo Genro teve o mérito de recuperar
escola, é bem mais que isso, se levarmos em conta o caráter e explorar com seriedade o aspecto
seu modo de inserção na estrutura social mais cognitivo contido na atividade jornalística. Para
abrangente. A consideração do assunto desde este ele e seus seguidores, o jornalismo é uma forma
ponto de vista o converte em uma mediação do de produção de conhecimento, tanto quanto

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uma mercadoria explorada empresarialmente. Jornalismo e indústria cultural


Porém, falta, em nosso juízo, a percepção de que Desde o século XIX, o jornalismo, com efeito,
se, por um lado, o jornalismo não é sinônimo de foi se convertendo em importante fonte de
manipulação13, embora isso possa ocorrer por conhecimento público sobre os fatos que ocorrem
meio dele, nem se reduza a um negócio, porque no mundo, mas ao mesmo tempo o saber assim
veicula um saber, esse saber não é puro e simples mediado foi passando mais e mais a cair na órbita
conhecimento. do fetichismo da mercadoria. O título pelo qual
O conhecimento puro e simples é uma abstra- esse conhecimento atende passou a se chamar,
ção: efetivamente, ele é tão histórico quanto todo por essa época, de notícia e, mais tarde, de
o resto que nos é próprio14 e, no caso em foco, informação. A notícia ou informação é o resultado
não apenas porque o conhecimento ensejado pelo do processamento dos fatos relevantes para um
jornalismo seja o do singular, factual, mas antes ou mais grupos sociais, de acordo com uma
porque se trata de um conhecimento essencial- técnica que visa colocá-lo no mercado. A empresa
mente determinado pelo desenvolvimento do comprometida com a exploração dessa atividade
capitalismo. como negócio se tornou o que hoje chamamos de
O serviço público que, segundo seus porta- jornalismo.
vozes, o jornalismo presta é ideologia, quando Destarte, acontece desde então, porém, um
não falsa consciência esclarecida15, porque o processo no sentido das matérias redacionais
jornalismo de fato engendra e veicula um saber, de relevância pública, colonizadas pelo valor de
mas esse não é um saber objetivo e imparcial, nos troca no mercado, estarem recuando diante das
termos pretendidos por sua doutrina profissional de interesse humano. Noutros termos, verifica-se,
e positivista. O conhecimento jornalístico é tal inclusive nos meios jornalísticos, “o surgimento
apenas do ponto de vista do mundo capitalista: de um entretenimento ao mesmo tempo agradável
efetivamente, e por mais contradições que e facilmente digerível, que tende a substituir a
contenha16, ele é engendrado de acordo com a captação do real por aquilo que está pronto para
racionalidade mercadológica, e não em resposta o consumo e que mais desvia para o consumo
a uma pretensa necessidade antropológica, como de estímulos destinados a distrair do que leva
sugere Genro. para o uso público da razão” (Habermas, op. cit.,
Do ponto de vista da história do conhecimento p. 198-202).
comum, o fundamental é reconhecer, portanto, Com isso, o jornalismo se tornou um dos
que, se o jornalismo se tornou uma de suas eixos de sustentação da indústria cultural. O
principais mediações, não a única por certo, público leitor foi se convertendo em mercado de
é por seu intermédio que aquele se tornou consumidor de informação sobre atualidades.
cada vez mais prisioneiro da forma merca- A formação da opinião passou da condição de
doria. processo político vivido como idéia e ideologia
O jornalismo precisa ser visto como uma por intermédio da imprensa à função dos
atividade intelectual que, em termos cognitivos, processos de consumo visando orientação prática
constitui a mediação de dois processos. O pri- ou funcional em meio a um vasto e abrangente
meiro é a ampliação, via o saber, do círculo sistema de comunicações ordenado como
social ou mundo histórico em que vive o sujeito. indústria cultural.
O segundo é a diferenciação dos graus de ela- Como escreve Ciro Marcondes Filho, “o jor-
boração do conhecimento desse processo. A ati- nalismo que se fazia antes disso era de pequeno
vidade jornalística tem a ver com a imposição porte, com centenas de títulos diferentes, e fun-
de novos fatos à consciência tanto quanto cionava como uma espécie de produto informa-
com a necessidade de conhecimento a seu res- tivo num grande mercado de opiniões”. A varie-
peito. dade de opiniões permitia que se agisse sobre o
A síntese disso é a criação de um desejo ge- processo político, as pessoas alimentassem boatos
ral de saber, que, conforme avança o capitalismo, e, mal ou bem, se articulasse uma opinião pú-
todavia, passou a ser agenciado de forma profis- blica.
sional e mercantil por empresas especializadas e O esclarecimento produzido pela imprensa
assim, embora agencie processos de conhecimen- era na maior parte retórico, porque nem antes
to, o faz submetido ao fetiche da forma merca- nem agora a informação deixou de ser usada
doria. com objetivos espúrios, mas havia, sobretudo

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Elementos para a crítica do jornalismo moderno

pela via dos veículos sérios. A notícia, em algum uma categoria abstrata e sem sentido histórico
grau, impunha-se politicamente e, mais tarde, determinado. O fenômeno, noutros termos, não
como instrumento de acesso mais pluralista ao pode, no caso, ser entendido fora da tendência “às
conhecimento sobre o que acontecia à socie- informações se converterem em bens de consumo,
dade. produzirem um certo prazer, ou melhor: um
Conforme o capitalismo foi se expandindo prazer substitutivo, entre aqueles para as quais
quando da virada para o século XX, radicalizando estão destinadas”20.
a competição e formando mercados massivos, isso Durante muito tempo criticou-se o jornalismo
se alterou, de modo que, atualmente, sua situação por certas características que, na verdade, lhe
tende, em vez disso, a fazer do jornalismo “um são intrínsecas, enquanto for jornalismo e, assim,
meio de regulação e integração sistêmica à categoria da era capitalista. A fragmentação,
sociedade”. Os processos de formação da opinião efemeridade, superficialidade, imprecisão, per-
e síntese do conhecimento ordinário não somem sonalismo, estereotipia, seletividade da notícia,
de vista, mas retiram-se para os bastidores e já para ilustrar, não são expedientes para manter a
não refletem uma opinião formada em condições alienação da consciência. A notícia é uma forma
de baixa pressão. de informação mas, antes disso, é uma categoria
Atualmente, eles estão subordinados à pu- oriunda da economia de mercado e que se ela-
blicidade de opiniões ou opinião publicada dos bora de acordo com a dinâmica do capitalismo.
grupos de pressão mais organizados. As políticas A cobertura e a reportagem jornalísticas, sem-
editoriais são cada vez mais influenciadas não pre que não se resumem a amontoados de
apenas pelos resultados e análises das pesquisas notícias, preservando a profundidade e/ou a
de mercado, mas pelos conceitos e práticas merca- espontaneidade, provavelmente transcendem esse
dológicas, a ponto de a habilidade em saber fazer registro, mas ainda hoje são formas possuidoras
negócios ter se tornado um elemento altamente de menor ressonância no ambiente espiritual de
valorizado neste mercado profissional17. nosso tempo.
O jornalismo, ninguém discute, continua Da categoria, portanto, não se deve esperar
sendo uma prática formadora de conhecimento mais do que ela pode oferecer: pretender que
comum em escala de massas e, portanto, um fator ela passe sem as feições acima citadas seria o
de esclarecimento. O conceito de informação com mesmo que pedir pelo seu desaparecimento. A
que ele passou a operar no século passado é algo reivindicação, é claro, pode ser feita e defendida:
que não se esgota no plano dos fatos, sempre o jornalismo não necessariamente morreria
que o sujeito não perde o poder de reflexão com seu atendimento, mas não é isso o que
sobre a matéria. O relato noticioso sobre os fatos está em questão neste artigo. O principal aqui
é um produto cultural que, contrariamente ao é sublinhar que o problema do jornalismo não é
pretendido às vezes, “certamente possibilita um a particularidade do saber que ele difunde, mas
melhor juízo a seu respeito do que quaisquer antes a forma como ele a elabora, dependente,
longos discursos [doutrinários]”18. em última instância, do movimento da indústria
cultural.
Desde o affaire Dreyfus até o escândalo Conforme o capitalismo avança e se enraíza
Watergate, embora esporádico não deixa de na vida humana, tudo isso, aliás, não faz senão
ser notável o influente papel dos meios de se aprofundar, e prova disso são não apenas a
informação no controle da administração
crescente abstração do processo de elaboração
dos assuntos públicos. Quem não é capaz de
compreender isso, precisa saber que isso se desse saber quanto à própria vinculação desse
acha em profundo conflito com os estereótipos saber aos esquemas mais artificiosos com
ingênuos que julgam os meios de informação que a sua prática articula o mundo para a
como simples agências de reprodução do consciência. A reflexão crítica em jornalismo
sistema de dominação estabelecido19. começa pelo reconhecimento de suas categorias
fundamentais, listadas mais acima, e se prolonga
Contudo, isso não pode ser entendido de com o estudo e análise de suas excrescências
maneira abstrata. O conhecimento público e passíveis de alguma problematização prática,
imediato que as atividades jornalísticas nos como o são o sensacionalismo, o partidarismo, a
proporciona precisa ser situado em seus diversos espetacularização, o oficialismo, o vedetismo e a
contextos de intervenção, abstraído dos quais é artificialização (criação de factóides)21.

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Francisco Rüdiger

O problema, para ela, portanto, não é o pre- Quando alguém diante de uma ocorrência
sente declínio dos jornais impressos, porque fala: “chamem a imprensa”, como se diz, isso
não é o veículo que define uma prática, e sim o significa: o ocorrido, no limite, deve ser conhecido
contrário. O jornalismo é função de determinadas por toda a sociedade mas, mais especificamente,
relações sociais, cujos suportes acompanham o a sociedade capitalista. A expressão, na realidade,
seu progresso tecnológico, tanto quanto os demais significa: a sociedade capitalista ou setores dela
eixos. A linha de força que as puxa, contudo, não desejam que as ocorrências em questão sejam
é sem sentido objetivo: ela é, no caso, a linha de conhecidas. As regras, o alcance e o sentido
força da indústria cultural, cujos efeitos nesse dessa profissão, no entanto, variam conforme as
campo, na atualidade, vão além da diluição relações sociais, sob o impacto do contexto mais
generalizada, embora não total, da distinção entre abrangente, se desenvolvem.
jornalismo sério e leve (sensacionalista) que se Agora, verificamos, acontece, cada vez mais,
origina do século XIX. de os sujeitos começarem eles todos, sempre que
Neste novo momento, virtualmente pós- possível, a se conduzir de modo a serem notícia
moderno22, acontece de o jornalismo redirecionar ou tentarem criar, via os esquemas da indústria
seu foco e se reestruturar em valores, passando cultural, fatos jornalísticos. O fetichismo da
a mesclar-se com a publicidade e a se orientar mercadoria se amplia e toma conta de sua ação
no sentido do entretenimento. Os veículos que de uma forma mais criativa: os fatos “são cada
não se sabe mais se praticam o jornalismo ou vez mais ou provocados pela própria imprensa
o show de variedade se projetam numa nova ou construídos para que a imprensa os utilize”25.
esfera, que a falta de conceito melhor, se chama Os princípios do marketing se transladam para o
de infoentretenimento23. plano individual, retirando a prática da publicity
Neste âmbito, as categorias pelos quais se do segundo plano a que lhe havia relegado o
orientava (sério e leve), tomadas isoladamente, desenvolvimento das relações públicas oriundas
caducam. As empresas passam a ir para além do das organizações.
mero empacotamento de notícias para colocação A convergência dos meios de comunicação e
no mercado. A possibilidade de interferir na o seu reprocessamento ou apropriação em bases
realidade e fabricar deliberadamente certos fatos, cada vez mais moleculares observados atualmente
entrevista tantas vezes no passado24, deslancha. via as redes sociais da internet não são, por isso,
O jornalismo se deixa envolver pelo movimento senão a base de amparo e socialização da chegada
mercadológico mais amplo de criação e difusão à maturidade da cultura de consumo e do saber
de factóides que toma conta da sociedade e se mercadológico, do império da indústria cultural
manifesta em todos os campos, mas, sobretudo, e do triunfo do sistema capitalista.
no noticiário sobre as chamadas celebri- Nesse contexto, o conhecimento público se
dades. esvai de conteúdo conscientizador em termos
Dizendo isso, ninguém aqui está pensando políticos, econômicos e intelectuais e, no limite,
que os jornais, em algum momento, limitaram-se se reduz em sentido à diversão, passando a
a reproduzir fatos, porque fatos (jornalísticos) só girar em torno de referências fantasmagóricas,
há a partir do momento em que o processo social cujo único ou principal meio de contato com a
se imobiliza (parcialmente) pela ação da notícia, experiência cotidiana tende a ser o do consumo
da reportagem, da cobertura jornalística. Os mercantilizado. Porém, não é só: esse fenômeno
acontecimentos (jornalísticos) são tais porque o se explica e complementa pelo fato de, agora,
jornalismo assim os construiu para a consciência o problema enfrentado pelo indivíduo não
social: eles não são o real mas, antes, uma ser mais a falta, mas antes o excesso de infor-
realidade jornalística. Ainda com isso em mente, mação.
convém pesquisar e distinguir analiticamente, A crescente capilarização das fontes de in-
porém, os casos em que eles se originam da formação, exponenciada sempre mais pela in-
realidade (natural, histórica) e os casos em que ternet, é o indicador mais notável de um pro-
eles se originam imanentemente apenas das cesso cujo efeito principal, do ponto de vista
necessidades da indústria jornalística, senão das geral, talvez seja a paralisação de sua apropria-
estratégias com que os setores mais poderosos ou ção criativa e concreta, o bloqueio da elaboração
bem aparelhados a instrumentalizam, via os seus produtiva do conhecimento por parte do indi-
serviços e assessorias de comunicação. víduo26.

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Elementos para a crítica do jornalismo moderno

Considerações finais monopólio a que apenas a atividade teórica


Quem considera o conhecimento público ou pode reclamar, oriunda, como é, de um processo
saber cotidiano, precisa notar, de todo modo, histórico que não cessa de opor seus sujeitos uns
que ele varia conforme a história e que hoje aos outros27. A força que ela for capaz de exercer
ele não se baseia mais na tradição religiosa, na reflexão será sempre uma função mediadora da
na formação cultural, no movimento cívico ou forma como ela é acionada na práxis, não sendo
mesmo na pura e simples informação jornalística exceção o campo do jornalismo. A profundidade
sobre a realidade histórica. Os novos saberes e o resultado poderão ser questionados, mas
ordinários, com exceção da informação sobre ninguém negará que hoje, como antes, embora
os negócios, separam-se da hipoteca burguesa e de modo distinto e alcance variável, o pluralismo
são, agora, sobretudo os agenciados pelo sistema opiniático segue encontrando na variedade de
da indústria cultural: a psicologia de vendas, as seus veículos uma agência para, expressando-
relações públicas, a estética aplicada, as finanças se em dobra, renovar o cunho constitutivamente
individuais, a saúde mercantil, a automobilística, conflitivo, senão explosivo do cosmo capitalista
a gastronomia, o turismo, a moda... – enfim: tudo e, dessa forma, realimentar as fontes da atividade
para o que, em conjunto, os americanos cunharam crítica em meio ao modo de vida moderno.
os termos marketing e, em reação, consumerismo, Como diz Adorno, “sempre que um fenômeno
entre os anos 1930 e o final dos anos 1960. é criticado, não importa o quanto é particular”,
insurgimo-nos contra a renúncia a uma
Quem considera o conhecimento público ou capacidade moral e intelectual cuja falta “obstrui
a transição da sociedade para um estágio mais
saber cotidiano, precisa notar, de todo modo, avançado”28. De resto, o fato é que o processo
que ele varia conforme a história e que hoje vital e a espontaneidade criadora (às vezes
ele não se baseia mais na tradição religiosa, destrutiva) continuam com forças para rasgar
na formação cultural, no movimento cívico ou o tecido cerrado em que se vai convertendo o
mundo e fazer irromper a vida e a história nas
mesmo na pura e simples informação agências de formatação da consciência social
jornalística sobre a realidade histórica. em que se converteram os veículos e empresas
jornalísticas. Os sinais de utopia que todo esse
O jornalismo, vimos, se sujeitou à prática da noticiário medíocre sobre, por exemplo, a vida
indústria cultural e, por essa via, converteu-se em das celebridades representa têm de enfrentar
empresa que, mesmo quando não faltam os fatos diariamente não apenas a irrupção da fatalidade
ou estes não são reclamados, acostumou-se a criá- individual, igualmente festejada por ele, mas
los para o mercado, interferindo notavelmente a invasão da realidade histórica e natural mais
em todo esse movimento. As empresas, agora, abrangente, que devolve a essa prática da indústria
têm de fabricar fatos jornalísticos, fornecendo cultural, por mais artificializada que esteja, o
ou não à vida um pretexto imediato para tanto, contato bruto com o mundo da vida cotidiana
visto que serem negócio que não pode parar, em toda a sua complicação e inusitado.
para aguardar a natureza ou a história. O Lady Diana e Ayrton Senna movimentam o
conhecimento comum está se tornando oriundo negócio dos factóides até que lhe sobrevêm o
de um processo cada vez menos espontâneo e acidente fatal, objeto de noticiário não menos
mais artificioso, provindo de um movimento em sensacional. As pessoas acompanham fascinadas
que a curiosidade é indissociável da ambição a cobertura da vida dos famosos ou as peripécias
mercantil e os chamados “fatos brutos” vão da repórter que se aventura no fundo do mar.
ficando sempre menos presentes. Nenhuma delas deveria pensar, porém, que
Diante disso e para concluir, convém notar, está a salvo da catástrofe natural, do colapso
por um lado, que o principal, nisso tudo, não econômico ou do atentado terrorista, apenas
deveria ser visto pela ótima da manipulação, pois porque consome o mundo como espetáculo,
antes expressa uma vontade de saber e os desejos como insinua a recepção distanciada promovida
de poder da coletividade a ele subordinada. De por sua dependência ao movimento da indústria
outro, observaríamos que essa vontade coletiva, cultural.
subjacente ou oculta nesse processo, não é mais Adorno referiu-se várias vezes à presença
forte do que suas contradições. A crítica não é de um olhar micrológico que, enigmaticamente,

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Francisco Rüdiger

escapa ao sistema e revela-nos um mundo tal KRAUS, Karl. En esta gran época. Buenos Aires: Zorzal, 2008.
como ele não deseja ser visto e vivenciado29. A LIPPMANN, Walter. Public Opinion. New York: Harcourt,
prática da indústria cultural não está isenta de Brace, 1922.
sua manifestação, e o espaço privilegiado em que MARCONDES, Ciro. Jornalismo fin-de-siècle. São Paulo:
Scritta, 1993.
isso intervém e é elaborado, junto do que deriva
MARSHALL, Leandro. O jornalismo na era da publicidade. São
dos conflitos históricos, parece-nos ser o que hoje Paulo: Summus, 2003.
se conserva como sendo o próprio da atividade MCMANNUS, James. Market-driven journalism. Thousand
jornalística espontânea e criadora. Oaks (CA): Sage, 1994.
A circunstância de seu exercício estar cada vez MEDITSCH, Eduardo. O conhecimento do jornalismo. Floria-
mais fundido com aquela prática não a blinda aos nópolis: Editora da Ufsc, 1992.
acidentes naturais e aos antagonismos humanos MILL, Stuart. Sobre la libertad. Buenos Aires: Aguilar, 1954.
– por isso, sempre que possuir um elemento PARK, Robert. A notícia como forma de conhecimento
espontâneo, o jornalismo poderá ensejar um [1940]. In: Charles Steinberg (Org.) Meios de comunicação de
massa. São Paulo: Cultrix, 1972.
conhecimento potencialmente emancipatório para
o indivíduo numa sociedade prisioneira do fetiche RIBEIRO, Jorge. Sempre alerta. São Paulo: Brasiliense, 1995.
da mercadoria, sobretudo se encontrar elaboração RÜDIGER, Francisco. Crítica. In: Ciro Marcondes Filho
(Org.). Dicionário da Comunicação. São Paulo: Paulus, 2009,
epistêmica e, portanto, esclarecimento sensível p. 83-84.
e intelectual em uma ação séria e responsável, SCHUDSON, Michael. Discovering the news. Nova York: Basic
necessariamente auxiliada por alguma mediação Books, 1978.
jornalística. SELDES, George: Lords of the Press. Nova York: Blue Ribbon,
1938.
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media criticism. Dallas: Black Rose, 2006. Rio de Janeiro: Zahar, 1985, p. 15.
2 O criticismo proposto nestas páginas é o de uma reflexão
BOURDIEU, Pierre. Sobre a televisão. Rio de Janeiro: Zahar,
1997. imanente à situação histórica, a nossa, e não o de uma
BURKE,Peter. Uma história social do conhecimento. Rio de atitude abstrata e propositiva em relação ao jornalismo. A
Janeiro: Zahar, 2003. crítica é uma atividade que costuma ser vista em termos
de confronto com seu objeto, senão de oposição a ele, em
DRÖGE, Franz. Wissen ohne Bewusstsein. Frankfurt: Fisher, nome de certos ideais. O problema é que tal atitude caduca
1972. totalmente a partir do momento em que não há ponto de
GENRO, Adelmo Filho. O segredo da pirâmide. Porto Alegre: apoio alternativo para ela fora do que está na consciência
Tchê, 1987. reflexiva de uma minoria pensadora da cultura e da
GOULDNER, Alvin. La dialéctica de la ideología y la tecnología. história, como é o caso quando a prática da indústria
Madri: Alianza, 1978. cultural se converte em sistema.
3 Adorno, T. Bajo el signo de los astros. Barcelona, Laia, 1986,
GRAMSCI, Antonio. Maquiavel, a política e o estado moderno.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980. p. 120-121. Cf. Franz Dröge: Wissen ohne Bewusstsein.
Frankfurt: Fisher, 1972. Marino Livolsi elabora o ponto
HABERMAS, Jürgen. Mudança estrutural da esfera pública. Rio com base em uma abordagem sociológica formal em
de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984. Manuale di sociologia della comunicazione. Bari: Laterza,
HARTLEY, John. Popular reality: journalism and popular 2000.
culture. Londres: Arnold, 1996. 4 Por conhecimento não é entendida aqui a síntese ou resul-

KARAM, Francisco. A ética jornalística e o interesse público. São tado especializado da relação sujeito e objeto, conforme
Paulo: Summus, 2004. estabelece a gnosiologia tradicional. A expressão refere-se,

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Elementos para a crítica do jornalismo moderno

antes de tudo, à consciência imediata de compartilhamen- intelectual, ainda que mórbida, despertada por um fato
to de um mundo: ao conjunto de referências práticas e enigmático passível de agenciamento narrativo (ainda
intelectuais que estrutura e orienta, só ás vezes inovado- que fragmentariamente). Atualmente, “quase tudo está
ramente, a conduta e o pensamento cotidianos de uma a serviço da informação” (Benjamin), mas ainda resta,
coletividade em um dado momento histórico. mesmo em meio a tanto, “algo a serviço da narrativa” (cf.
5
Habermas, Jürgen. Mudança estrutural da esfera pública. Hartley, John. Popular reality: journalism and popular culture.
Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984, p. 215. A obra é Londres: Arnold, 1996).
objeto de várias discussões em Craig Calhoum (Org.) 13 A consciência crítica não nega que se formem grupos de

Habermas and the public sphere. Cambridge (MA): MIT interesses e que esses, possuindo ou não seus próprios
Press, 1992. meios, eventualmente os usem para tentar manipular a
6
Cf. Schudson, Michael. Discovering the news. Nova York: visão do público – mas daí não tira a conclusão de que esse
Basic Books, 1978. emprego costuma ser bem sucedido e que, na hipótese
7 Mill, Stuart. Sobre la libertad. Buenos Aires: Aguilar, 1954, de ser o caso, o resultado é puro e simples efeito daquela
p. 136. manipulação.
14 Cf. Peter Burke: Uma história social do conhecimento. Rio de
8
Angel, Norman. The press and the organisation of society.
Londres: Labour Press, 1922, p. 12. Gramsci, Antonio. Janeiro: Zahar, 2003.
Maquiavel, a política e o estado moderno. Rio de Janeiro: 15
Cf. Peter Sloterdijk: Critique of cynical reason. Londres:
Civilização Brasileira, 1980, p. 116. Cf. Heinrich Wuttke: Verso, 1988.
Die Deutschen Zeitschriften und die Entestehung der 16 Ribeiro, J. Sempre alerta. São Paulo: Brasiliense, 1995.

Öffentlichen Meinung, 1866 – trad. francesa: Le fond des 17


Marcondes, C. Jornalismo fin-de-siècle. São Paulo: Scritta,
reptiles. Paris: Decaux et Dreyfous, 1877. Upton Sinclair: 1993, p. 123-144. Cf. James McMannus: Market-driven
The brass check. Pasadena (CA): Edição do Autor, 1920. journalism. Thousand Oaks (CA): Sage, 1994. Leandro
George Seldes: Lords of the Press. Nova York: Blue Ribbon, Marshall: O jornalismo na era da publicidade. São Paulo:
1938. Karl Kraus: En esta gran época. Buenos Aires: Summus, 2003.
Zorzal, 2008. Sobre Kraus, ver o artigo de John Theobald, 18 Adorno, T. Educação e emancipação. São Paulo: Paz e Terra,
em Berry, D. & Theobald, J. (Orgs.): Radical mass media 1988, p. 79.
criticism. Dallas: Black Rose, 2006. 19 Gouldner, A. La dialéctica de la ideología y la tecnología.
9
Levando em conta esse aspecto, torna-se mais fácil Madri: Alianza, 1978, p. 207.
entender porque o principal elemento inovador da 20
Adorno, T. Introducción a la sociología, p. 69. Em resumo,
pesquisa posterior sobre o jornalismo, inclusive dentro importante “não é o fato dos cidadãos terem a informação
do paradigma dominante, foi a revelação e análise das adequada (nem a existência de alguma forma de comuni-
estruturas e mecanismos que agenciam seu pretendido cação não distorcida), mas nossa habilidade em trabalhar
poder no interior do campo jornalístico (cf. Wolf, Mauro. com o mundo e, ao mesmo tempo, apropriarmo-nos dele
As teorias da comunicação. Lisboa: Presença, 1987, p. 157- individualmente”. Para Adorno, isso era algo que, “embo-
225. Pierre Bourdieu empregou variante do enfoque em ra ainda possa ser alcançado mesmo no capitalismo”, pode
Sobre a televisão. Rio de Janeiro: Zahar, 1997). Os estudos “não ter sua sobrevivência continuada” (Heinz Steinert:
de newsmaking, referimo-nos a eles,merecem atenção Culture Industry. Oxford: Blackwell, 2003, p. 24-25).
sobretudo pela explicação do contexto mais imediato de 21 Pioneiros no exame dessa última categoria, sabe-se, foram
criação do material jornalístico, mas isso não deveria nos
Walter Lippman (Public opinion, 1922) e Daniel Boorstin
fazer perder de vista seu caráter de mediação de processos
(The image, 1962).
sociais e históricos mais abrangentes. Para nós, entendido 22 A contraposição entre jornalismo moderno e pós-mo-
por nós como sendo o da indústria cultural, é capaz
de explicar sua inserção e sentido no processo social e derno poderia tomar como ponto de partida as concepções
histórico mais abrangente. de relato que lhe subjazem: lá focado no objeto, no
10 Park, Robert. A notícia como forma de conhecimento relato do vivido pelo sujeito, aqui focado no sujeito,
no relato do que é por ele vivenciado (o repórter como
[1940]. In: Charles Steinberg (Org.) Meios de comunicação
protagonista dos fatos ou ações em foco na notícia ou ma-
de massa. São Paulo: Cultrix, 1972.
11 Cf. Adelmo Genro Filho: O segredo da pirâmide. Porto
téria).
23 Albertos, J. El ocaso del periodismo. Barcelona: CIMS,
Alegre: Tchê, 1987. Eduardo Meditsch: O conhecimento do 1997. José Arbex: Showrnalismo. São Paulo: Casa Amarela,
jornalismo. Florianópolis: Editora da Ufsc, 1992. Francisco 2001.
Karam: A ética jornalística e o interesse público. São Paulo: 24 A Guerra Hispano-Americana de 1898, supostamente
Summus, 2004.
12 Genro, A., op. cit, p. 172. As práticas jornalísticas
detonada pelos jornais de William Randolph Hearst, é,
sem dúvida, um ponto de partida desse movimento.
funcionam como mediação estruturadora da consciência 25 Marcondes Filho, op. cit., p. 129.
social, mas por outro lado não se deve esquecer que elas 26 Cf. Dominique Wolton: Penser la communication. Paris:
são, por sua vez, mediadas por várias estruturas sociais
históricas. O presente ensaio sublinha sua subsunção Flammarion, 1998, p. 189-233. Leão Serva: Jornalismo e
à racionalidade mercantil e, mais recentemente, desinformação. São Paulo: Senac, 2001.
27 Cf. Rüdiger, F. Crítica. In: Ciro Marcondes Filho (Org.).
mercadológica, mas mesmo esse processo precisa ser
visto sem reducionismo, como nos alerta, ainda que Dicionário da Comunicação. São Paulo: Paulus, 2009,
equivocadamente, em nosso ver, Adelmo Genro. A p. 83-84.
28 Adorno, T. Critical models. Nova York: Columbia University
cobertura de inúmeros acontecimentos, sobretudo
políticos e criminais, revela, por exemplo, que esse Press, 1998, p. 287.
29 Cf. Theodor Adorno: History and freedom. Oxford: Polity
racionalismo ainda hoje explora estruturas e atitudes
bem arcaicas como o é, para citar um caso, a curiosidade Press, 2006.

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