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Essa tentativa de separação e purificação entre o humano e as coisas é característica

das ciências da modernidade (LATOUR, 1994),

Além disso, designa dois conjuntos de práticas


distintas, onde a primeira cria misturas de gêneros, ou seja, híbridos de natureza e
cultura. A
segunda gera, por “purificação”, segundo as palavras de Latour (1994), duas zonas
ontológicas inteiramente distintas, a dos humanos, de um lado, e a dos não-humanos, de
outro. Afirma que jamais fomos modernos, justamente por este caráter purificador
assumido
pelas ciências, por meio dessa constante separação entre o social e as coisas.

Por isso, Latour (2005) não define o social como um


domínio específico, ou como um tipo particular de elemento, mas como um movimento
de
associações e de reunião dos elementos. O social é, assim, “o nome do tipo de
associação
momentânea, caracterizada pela maneira como se reúnem as novas formas” (LATOUR,
2005,
p.65). Indo mais além, o autor explica que pelo caráter heterogêneo das relações, dada a
presença e a ação de humanos e não-humanos, ele propõe que a palavra social seja
substituída
pela palavra “coletivo”. O coletivo explica melhor o projeto de reunir esses novos
elementos,
antes não considerados como sociais (LATOUR, 2005).

Suas ações possuem sempre um


resultado inesperado e sua natureza é complexa

Uma câmara tem autoridade e não a palavra, a outra tem a palavra e não a autoridade.
Entre as
duas câmaras existe um pequeno número de pessoas, tais como alguns experts e sábios,
eleitos e capazes
de fazer a ligação entre elas e de converter a autoridade de uma sobre a outra e vice-
versa. Para o autor,
“esses poucos eleitos poderiam ver-se dotados da mais fabulosa capacidade política
jamais inventada:
fazer falar o mundo mudo, dizer a verdade sem ser discutida, pôr fim aos debates
intermináveis por uma
forma indiscutível de autoridade, que se limitaria às próprias coisas” (p. 34).

Em terceiro lugar, este "objeto sem risco" acarretava


certas consequencias esperadas ou inesperadas, mas sempre
pensadas sob a forma de urn impacto sobre urn universo diferente,
composto de entidades menos faceis de delimitar, e que se de signavam
com nomes vagos como "fatores sociais", "dimensoes
politicas'~ "aspectos irracionais". Conforme 0 mito da Caverna, 0
objeto sem risco da antiga ordem constitucional dava a impressao
de cair como urn meteoro, bombardeando do exterior urn
mlllldo social que the servia de alvo; Enfim, alguns destes obje tos
podiam, talvez anos mais tarde, acarretar riscos insensatos, a
exemplo dos cataclismas. Entretanto, as consequencias, como
. estas catastrofes, nao repercutiam jamais sobre a defini~o primeira
do objeto, sobre seus contornos, sobre sua essencia, pois
elas pertenciam sempre a urn munclo sem medida comum com
aquele mundo dos objetos: 0 mundo da hist6ria imprevisivel, do
caos, da desordem politica e social, da baderna

A maquina de produzir "os' tempos modernos" repousa


sobre uma naturalizaçao sempre maior, isto é, nós 0 demonstramos
bastante, sobre uma fuga sempre mais rapida dos processos
legitimos pelos quais se devem instituir as essencias*.
Urn bombardeamento de objetos; vindos de nenhum lugar e
não feitos por maos de homens, repelem as representa'r0es sempre
mais longe, no arcaismo.

Se for preciso menos Ciencia*,


sera precise contar muito mais com as ciencias*; se for precise
menos fatos indiscutiveis) sera preciso muito mais pesquisa; se
for precisa menas qualidades primeiras*, sera precisa muita
mais experimenta<;ao coletiva* sobre 0 essencial e 0 acess6rio.

Mas, no fundo,
naa e a que as sabias sempre quiseram defender tao apaixanadamente?
Terem a garantia absaluta de que as fatas naa sao
construidas pelas simples paix6es humanas. Eles acreditaram,
bem depressa, alcan~ar este fim pela atalha das matters offad,
calacadas de imediata fora de qualquer discussaa publica.

a sociedade* ocupa no
discurso .critico a mesma funyao que a natureza no discurso dos
naturalizadores. Societas sive natura. Afirmar que sob as re1ayoes
legitimas existem foryas invisiveis aos atores, que nao poderiam
ser distinguidas senao pe10s especialistas,das ciencias sociais, significa
uti!izar para a Caverna 0 mesmo mecanismo que para a
metafisica da natureza*: existiriam qualidades primeiras - a sociedade
e suas re1ayoes de foryas - que formariam a decorayao
essencial do mundo social, e das qualidades segundas tao intensamente
vividas quanta ,mentirosas, que cobririam com seu
manto estas fonras invisiveis que nao se saberia ver sem pei-der
interesse.
As ciencias sociais, economia, sociologia, antropologia,
hist6ria, geografia, tern urn papel muito mais uti! que 0 de definir,
em lugar dos atores e muitas vezes contra e1es, as foryas que
os manipulam sem seu conhecimento. Os atores nao sabem 0
que fazem, os soci610gos menos ainda. 0 que manipula !'S atores
e desconhecido de todos, inclusive dos pesquisadores em ciencias
sociais.

Somos emedados por vinculos de risco, cujas


cau~as e conseqiiencias provis6rias devem ser objeto de uma
constante re-apresentayao.

Mas para indagar sobre 0 que nos une, podemos contar com as
ciencias humanas oferecendo aos atores versoes mUltiplas e rapidamente
revistas, que nos permitam compreender a experiencia
coletiva para a qual somos todos arrastados. Todas as -Iogias, .
-grafias, -nomias, tornam-se entao indispensaveis"prestam-se a
propor constantemente ao coletivo novas versoes do que pode- ria
ser, guardando-se 0 trayo das singularidades. Com as ciencias
sociais 0 coletivo pode, enfim, recuperar-se.

Consulta: uma das duas fun¢es essenciais do poder de


considera~ao*: responde a questao de saber quais sao as provas

aplicaveis ao julg"';'ento da exist~ncia, da importancia; da vontade


de uma proposi<;ao*; se aplica bern aos nao-humanos como
aos humanos; nao tern 0 sentido usual de resposta a uma questao
ja formulada, mas de participa<;ao na reformula<;ao do problema
por pesquisas de testemunhos confiaveis*.

Objetos sem risco (ou modernos) por oposi¢o a vinculos


de risco (ou desordenados): expressao inventada para recordar
que as crises ecol6gicas nao sao sobre urn tipo de seres (por
exemplo a natureza, os ecossistemas) mas sobre 0 modo de fabricar
todos os seres: as conseqiiencias inesperadas, como tambern
0 modo de produ~ao e os fubricantes permanecem ligados
aos apegos arriscados, no momento em que eles aparecem destacados
dos objetos*, propriamente ditos.

Perplexidade: uma das sete tarefus pela qual 0 coletivo se


faz atento e sensivel it presen~a, fora dele, das varias proposi~oes
que podem querer fazer parte do mesmo mundo comum*.