Você está na página 1de 3

Universidade Católica de Brasília

Disciplina: Ciências da Religião


Professor: Paulo
Semestre/Ano: 2º/2004
Aluna: Meg Gomes Martins

Resenha crítica do livro O que é Religião? Do autor Rubem Alves

No livro O que é religião?, o autor Rubem Alves apresenta uma visão científica do
fenômeno religioso englobando em sua análise fatos sociológicos que vão desde a Idade Média até
os dias atuais. O livro apresentou-me uma visão totalmente atualizada e muito coerente da postura
do homem moderno, especialmente de nós cientistas, perante o comportamento religioso das
pessoas. Confesso que muitos paradigmas foram repensados e o livro é muito marcante por fazer
repensar nossas práticas religiosas e científicas.
Como bem frisado por Rubem Alves, na ciência não vemos alguns objetos
específicos de estudos, mas cremos neles e trabalhamos por muitos anos pesquisando aquilo que
não pode ser visto, como por exemplo os átomos, a mente humana, o inconsciente. Por que não
adotar essa postura perante a religião? Aponto que um dos problemas é confundir religiosidade com
espiritualidade. O fenômeno religioso deve ser visto separadamente do fenômeno espiritual. O
cientista - ou o homem - pode vivenciar a sua espiritualidade, sem ter nenhuma religião. A religião
é um instituição criada como forma de controle, poder e dominação e que surgiu quando nossos
ancestrais já vivenciavam e acreditavam em transcendências. Não se pode negar o transcendente,
pois ele sempre fez parte da cultura humana desde a antigüidade. Um fenômeno que persiste desde
tempos remotos deve ser analisado de forma funcional e não excluído do campo do saber científico,
como fizeram os sociólogos Émile Durkeim e Karl Marx.
Homem e religião estão interligados. O fenômeno da religião deve ser incluído nas
análises científicas da mesma forma que o fenômeno humano. Quando Marx afirmou ser a religião
o ópio do povo, ele demonstrou claramente o quanto temos relações estreitas entre ambos os
fenômenos. É claro que o inconcebível é utilizar a religião como uma forma de alienação, uma
forma de justificativa para o não agir ou o agir incorretamente, tanto por parte de alienados (quando
não reagem a opressão), quanto por parte dos opressores (quando oprimem em nome de um Deus).
É importante perceber como a religião, que outrora dominava os conhecimentos
científicos, ficou por longos anos excluída deste campo, mas hoje ocorre uma retomada da busca
pela religião, ou melhor pela espiritualidade. Por isso, é importante frisar, como aprendizagem
abstraída do livro, que o rigor científico, historicamente tendo a sua estrutura influenciado pelo
positivismo, hoje cede espaço para explicações e aceitações da religião como fator importante na
vida do ser humano por discriminar que o fenômeno religioso faz parte do cotidiano das pessoas e
têm uma função de nele existir.
Resumo2

Houve um tempo em que os descrentes, sem amor a Deus e sem religião, eram raros. Todos eram
educados para ver e ouvir as coisas do mundo religioso e a conversa cotidiana confirmava que este
é um universo encantado que esconde e revela um poder espiritual. A exigência de um sentido para
a vida trazia às religiões uma certa identidade e lhes dava vida.
Apesar do encanto ter sido quebrado, a religião não desapareceu. Mudou de foco e de moradia.
Enquanto no mundo sagrado, a experiência religiosa era parte integrante de cada um, no mundo das
ciências fora colocada para fora. No entanto, ela resistiu, surge forte quando se esgotam os recursos
diante de um coração arrasado pela dor e insegurança.
A religião surge na vida humana como tentativa de transubstanciar a natureza e dar espaço aos seus
desejos em busca dos horizontes. Enquanto o animal é o seu corpo, sempre produzindo a mesma
coisa, os homens se recusaram a ser aquilo que o passado lhes propunha. Na sua inquietação e
busca, produziram cultura e educaram. Criaram mundos imaginários e passaram de geração em
geração através da cultura que se estruturou a partir de seu desejo.
Sendo o desejo sintoma de privação, a cultura cria exatamente o objeto desejado na busca de um
mundo que possa ser amado. No entanto, a cultura não é garantia de que o desejo foi alcançado,
mas é externalização do desejo em meio à sua ausência. Enquanto o desejo não se realiza, resta
cantá-lo, dizê-lo, celebrá-lo.
Nascem então os símbolos, testemunha das coisas ainda ausentes, saudade de coisas que não
nasceram, no ponto em que a cultura fracassou, como horizontes direcionadores. Nenhum fato,
coisa, ou gesto, entretanto, é encontrado já com as marcas do sagrado. Eles se tornam religiosos
quando os homens os batizam como tais. A religião nasce quando os homens dão nomes às coisas,
atribuindo-lhes valores e dependurando neles o seu destino. Ela não está preocupada com os fatos,
mas com os objetos que a imaginação pode construir em busca do esperado. As entidades religiosas
se identificam com as imaginárias que tornam o mundo humano uma realidade.
A natureza não depende da vontade humana para existir. Mas a cultura é diferente. Tudo que surgiu
com a atividade humana (adornos, linguagem, etc) quando o homem desaparecer desaparecerá. As
coisas culturais foram inventadas, no entanto, aparecem aos nossos olhos como se fossem naturais
pelo processo de reificação, ou, como prefere Rubem Alves, coisificação.
Isso se aplica de maneira peculiar aos símbolos. De tanto serem repetidos e compartilhados com
sucesso nós os reificamos, passamos a tratá-los como se fossem coisas. Os símbolos que se mantêm
vitoriosos recebem o nome de verdade, enquanto os derrotados são ridicularizados como
superstições ou perseguidos como heresias.
O universo religioso encantado não poderia ser manipulado ou controlado pela burguesia que
encontrou na previsibilidade da matemática, instrumento ideal para a construção de um mundo
vazio de mistérios e dominado pela razão. O mundo religioso e seus símbolos foram lançados nas
chamas.
Alinhada aos interesses da burguesia, a ciência se apresenta vitoriosa. Determina que o
conhecimento só pode ser alcançado através do método científico. E o discurso religioso? Só pode
ser classificado como engodo consciente. Estabeleceu-se um quadro simbólico no qual não havia
lugar para a religião. Deusficou confinado aos céus, dividindo-se áreas de influência: aos
comerciantes e políticos foram entregues a terra, os mares, as fábricas e até os corpos das pessoas.
A religião foi aquinhoada com a administração do mundo invisível, o cuidado da salvação, a cura
das almas aflitas.
No entanto, os julgamentos de verdade e de falsidade não podem ser aplicados à religião, pois no
mundo dos homens podem ser encontrados dois tipos de coisas: as coisas/símbolo, aquelas que
significam outras e as coisas que são elas mesmas, não significam outras. Enquanto os símbolos
carecem que comprovação as coisas são elas mesmas e não precisam passar pelo crivo de falso ou
verdadeiro. A religião se apresenta como coisa e sua realidade não pode ser negada.
As religiões se estabelecem e subsistem a partir da divisão bipartida do universo entre o sagrado e o
profano. Sagrado e profano não são propriedades das coisas. Eles se estabelecem pelas atitudes dos
homens perante coisas, espaços, tempos, pessoas, ações. Enquanto o mundo profano se resume ao
círculo do utilitário, o sagrado avança para o ideal. Se o homem é senhor do mundo utilitário, no
sagrado ele é servo. O sagrado é apresentado como centro do mundo, a origem da ordem, a fonte
das normas, a garantia da harmonia que se manifesta na e pela sociedade.
A religião como fato social não está completamente à mercê da análise sociológica, pois os
sentimentos religiosos se encontram numa esfera de experiência indiferente à análise sociológica,
por ser íntima, subjetiva e existencial.
A religião é o clamor daqueles que sofrem e sonham para acalentar a alma, definindo o mundo
sagrado como um grito que ecoa a essência humana.
A religião tem um caráter ambivalente: ela pode prestar a objetivos opostos, tudo dependendo
daqueles que manipulam os símbolos sagrados. Ela pode ser usada para iluminar ou para cegar.
Mas, na figura dos mártires tem sido expressão das dores e das esperanças dos que não têm poder,
apresenta um Deus que é o protesto e o poder dos oprimidos dando o toque e o sentido para a vida,
declarando que vale a pena viver.