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UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO

CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS


DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA
PROFESSOR: Daniel Schiochett
DISCIPLINA: Introdução à Filosofia do Direito
ESTUDANTES: Larine Mariano e Matheus de Assis
DATA: 27/06/19

A partir do texto Homo Sacer, desenvolva uma dissertação (uma a duas páginas) explicando em
que se funda o poder soberano para Agamben. Os seguintes conceitos/nomes devem aparecer
(em qualquer ordem) em sua dissertação:

Biopolítica – vida nua – paradoxo –


campo de concentração – exceção – Hobbes

Nos limiares da Idade Moderna, a vida, em seu sentido biológico, começa a fazer parte do
interesse estatal, que assume e integra às suas responsabilidades o dever de gerir a vida natural dos
indivíduos. Percebe-se, então, a politização da vida nua enquanto tal, aquilo que Foucault denomina
de biopolítica. O que funda o Estado, portanto, agora pauta-se na noção de biopoder, isto é, no
domínio sobre o corpo do outro, munindo-se de dispositivos biopolíticos como estratégia de
submissão, e não mais na noção de contrato e decisão individual, como na teoria da soberania clássica
de Hobbes; enquanto na teoria deste, o soberano era a síntese dos corpos dos súditos, hoje são os
corpos matáveis e insacrificáveis do homo sacer que constituem o novo corpo político contemporâneo.
Desse modo, há uma sujeição de nossos códigos biológicos a estrutura pré-determinadas,
podendo citar, então, as campanhas de vacinação, a formulação de políticas relacionadas à natalidade,
longevidade, o enriquecimento de alimentos com as mais diversas substâncias químicas, entre outras,
como medidas em que há uma nítida subjugação do corpo, onde o poder nele se inscreve, na medida
em que somos vistos sob um prisma estritamente fisiológico. Aqui cabe muito bem mencionar a
máxima de Foucault, de que “saber é poder”, pois nota-se cada vez mais que há uma relação intrínseca
entre a aquisição de conhecimentos acerca do funcionamento do corpo e a manutenção do poder
estatal, que vale-se de tais conhecimentos para subjugação dos indivíduos.
Assim, ressalta-se a existência do Paradoxo da Soberania. Nele é abordado uma problemática
contradição à luz da teoria clássica do poder. O soberano, seja lá nas figuras de legislador ou
assembleia, situa-se dentro e fora da lei simultaneamente. Ou seja, ao mesmo tempo que pode-se agir
em nome da constituição, pode também suspendê-la sem que haja a perda de poder.
O problema de tal configuração é que nela o soberano, aquele que detém o poder de decisão
no estado de exceção segundo a concepção schimittiana, tem tal poder estendido para além deste
estado, podendo decidir o momento em que determinada vida cessa de ter valor jurídico e pode ser
morta sem que, no entanto, cometa-se homicídio, o que impede que haja punição.
Tal vida, representada pela alegoria romana do homo sacer, é aquela indigna de ser vivida,
que deixou de apresentar relevância para o Estado, aquela que pode ser aniquilada sem que seu algoz
seja sancionado e finda com sua entrega à natureza, desprovido de qualquer vestimenta jurídica social,
apartando-se legalmente da comunidade. Pode-se observá-la rememorando os campos de
concentração descritos por Hannah Arendt, onde a vida “humana” não representou qualquer tipo de
humanidade. Mas pode-se constatar a vida nua em situações mais recentes (e por que não dizer
presentes?) de nossa sociedade: os refugiados em campos de assistência “humanitária”, os moradores
de periferias, aqueles desprovidos de sanidade que enchem os manicômios, os detentos do complexo
penitenciário de Pedrinhas. Todos estes, situados em um período histórico tão longínquo da Segunda
Guerra, guardam em comum com os presos nos campos de concentração nazistas o fato serem sujeitos
reduzidos à mera existência biológica, de encontrarem-se totalmente à mercê do poder soberano, de
serem todos contingentes humanos desprovidos de qualquer tipo de humanidade e vestimenta jurídica
e social, de serem, portanto, meras vidas nuas.
Tais grupos encontram-se numa situação paradoxal, na medida em que suas vidas foram
excluídas por sua inclusão: é justamente devido ao fato de conviverem constantemente com a
possibilidade de terem suas vidas aniquiladas que estes encontram-se em íntima relação com o poder
que os excluiu, estes são os seres mais políticos que existem. Aí reside o paradoxo: nesta exclusão
que inclui, tendo em vista que a figura do homo sacer (materializada pelos exemplos acima
mencionados) participa da esfera política através de sua existência, isto é, acha-se dentro ainda que,
na verdade, viva uma situação de extrema marginalização, ainda que pertença a tal sociedade e possua
seus valores.