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Outubro de 2009

Autoridade autoritária
Telma Pileggi Vinha (novaescola@atleitor.com.br), professora do Departamento de Psicologia Educacional da
Faculdade de Educação da Unicamp

Ao entrar em sala após o intervalo, para dar aula no 8º ano, o professor depara-se com
brincadeiras comuns entre os adolescentes. Alguns imitam os outros e remedam gestos e falas.
Borrachinhas e papéis voam na busca de alvos móveis que tentam se defender com cadernos e
livros. Outros três jogam uma bolsa para lá e para cá, entre eles, enquanto uma garota tenta
pegá-la, pedindo em vão para que a devolvam e parem com aquela “brincadeira idiota”. Assim,
entre risadas e protestos, o professor dá um grito exigindo que parem, manda devolver a bolsa
para a aluna, ameaça colocar um ou dois para fora da sala e rapidamente os estudantes se
sentam e fazem silêncio.

Pouco depois, no decorrer da explicação, um celular toca e o professor ordena que o aparelho
seja entregue. O dono diz que tinha se esquecido de acionar o modo silencioso, que “foi mal” e
que não iria entregá-lo. O professor insiste, dizendo que eram as regras da escola, ameaçando
enviar um bilhete aos pais e encaminhar o garoto à direção. O aluno responde que ele não tem
esse direito e, exaltado, insulta-o. Diante disso o professor expulsa o garoto da sala, que se retira
dizendo um palavrão entre os dentes. Disfarçadamente, alguns colegas conferem se os celulares
estão devidamente silenciados.

A reação
Diversos estudos nacionais e internacionais indicam que essa forma de lidar com os conflitos
contribuem, em longo prazo, para formar jovens com baixo índice de habilidade social,
apresentando dificuldades para emitir opiniões, argumentar, ouvir perspectivas diferentes sem
que se sintam ameaçados, tomar decisões, expor e discutir sentimentos e coordenar perspectivas
em ações efetivas. Na resolução de seus próprios conflitos, empregam mecanismos ainda
primitivos, entre eles, as reações impulsivas, submissas ou agressivas, a não interação, as
soluções unilaterais, a mentira...

Em uma investigação com estudantes brasileiros de 2ª à 7ª séries do Ensino Fundamental


encontrou-se a predominância de tendências submissas de resolução de conflitos, seguidas de
agressivas. As tendências assertivas apareceram somente em terceiro lugar. Esses resultados são
coerentes com os encontrados em uma pesquisa com mais de cinco mil jovens em que cerca de
90% deles disseram que os conflitos de hoje são resolvidos mais com agressão do que com
diálogo.

Adolescentes aparentemente afáveis agem de forma impulsiva e violenta longe dos olhos dos
adultos. Outros empregam formas submissas para resolver seus problemas, curvando-se à
vontade de um terceiro, desconsiderando os próprios sentimentos, valores e perspectivas.
Muitos utilizam os meios de comunicação eletrônica para insultar, vingar-se ou intimidar os
colegas. Pesquisas internacionais recentes indicam que por volta de 23% dos alunos de 11 a 19
anos já foram intimidados ou ameaçados pela internet (em 2000, eram apenas 6%).

É isso que queremos para nossa sociedade? Até quando vamos adotar esse modelo de Educação
que em nada contribui para que nossos jovens aprendam a se relacionar de forma mais
respeitosa e satisfatória? Até quando vamos abrir mão de ajudá-los a desenvolver a capacidade
de expressar perspectivas sem causar dano aos outros e de buscar soluções não violentas e
cooperativas para seus conflitos?

Diante da notícia recente de duas adolescentes que se agrediram fisicamente tendo o incentivo
da mãe de uma delas, muitas pessoas ficaram perplexas e espantadas... As questões que
apareceram nas reportagens demonstravam preocupação com a forma como nossos jovens estão
resolvendo conflitos. Por que parecem utilizar cada vez mais estratégias violentas para lidar com
as desavenças? O que está acontecendo com as famílias? Como uma mãe pode estimular sua
filha a bater diante de um conflito? Deve-se retirar a guarda da mãe?

Esse tipo de questão reflete um paradigma ainda bastante presente entre os profissionais de
Educação, de que a escola é vítima de uma sociedade violenta, de famílias permissivas ou
negligentes... Então a escola se isenta de responsabilidade sentindo-se impotente para lidar com
tais problemas, ainda mais quando ocorrem “fora dos muros da instituição”. Como colocamos
anteriormente, apesar de contribuir expressivamente com tais situações, a escola não se dá
conta desse fato, impossibilitando-a, devido à força dessa crença, de realizar uma séria revisão
interna, de transformar-se.

Anos de estudo sobre conflitos interpessoais indicam que o desenvolvimento de estratégias de


negociação mais cooperativas, respeitosas, justas e eficazes não são ensinadas por meio de
mecanismos punitivos ou por transmissão direta, discursos, palestras, campanhas ou cartilhas
bem intencionadas. Por outro lado, a criança ou o jovem não irá aprender por si mesmo algo que
é muito complexo e para o qual não foram previstas boas intervenções e oferecidas situações que
o auxiliam nessa aprendizagem.
É preciso que a criança possa ter experiências de vida social para aprender a viver em grupo. A
escola é um local muito apropriado para isso. Esses meninos e meninas não têm oportunidade
de discutir seus problemas, de compreender a necessidade das regras para o bem estar de todos,
como algo que organiza as relações e auxilia a convivência. Infelizmente, os esforços da escola
na área ainda parecem estar mais voltados para conseguir um bom comportamento do aluno e
uma fugaz e artificial harmonia nas relações. Lamentavelmente, é essa mensagem que estamos
passando aos nossos jovens: a de que os conflitos são desviantes e que devem, portanto, ser
disfarçados, evitados, contidos, ignorados...
BIBLIOGRAFIA
Crise de Valores ou Valores em Crise?, Yves de La Taille e Maria Suzana de Stefano Menin, 198 págs., Ed.,
Artmed, tel. 0800-7033-444, 38 reais
E Quando Chega a Adolescência - Uma Reflexão Sobre o Papel do Educador na Resolução de Conflitos
entre Adolescentes, Vanessa Vicentin, 128 págs., Ed. Mercado de Letras, tel. (19) 3241-7514, 32 reais
Falemos de Sentimentos – A Afetividade como um Tema Transversal, Montserrat Moreno, Genoveva
Sastre, Aurora Leal, Maria Dolors Busquets, 144 págs., Ed. Moderna, tel. 0800-172-002, 38,50 reais
Formação Ética – Do Tédio ao Respeito de Si, Yves de La Taille, 316 págs., Ed. Artmed, 54 reais
Indisciplina na Escola – Alternativas e Práticas, Julio Groppa Aquino (org.), 152 págs., Ed. Summus, tel. (11)
3872-3322, 33,90 reais
Limites: Três Dimensões Educacionais, Yves de La Taille, 152 págs., Ed. Ática, tel. 0800-115-152, 36,90 reais

O resgate da autoridade em educação, Gérard Guillot, 192 págs., Ed. Artmed, 44 reais
Quando a Escola é Democrática – Um Olhar Sobre a Prática das Regras e Assembleias na Escola, Luciene
Regina Paulino Tognetta e Telma Pileggi Vinha, 144 págs., Ed. Mercado de Letras, 32 reais
Relação Pedagógica Disciplina E Indisciplina na Aula, Maria Teresa Estrela, 128 págs., Ed. Porto,
www.portoeditora.pt, 53,17 reais (à venda na Livraria Cultura)
Resolução de Conflitos e Aprendizagem Emocional, Genoveva Sastre e Montserrat Moreno, 296 págs., Ed.
Moderna, 44 reais

Internet
A Qualidade da Educação sob Olhar dos Professores, da Fundação SM e da Organização dos Estados Ibero-
americanos (OEI)
Tese de doutorado O Processo de Resolução de Conflitos entre Pré-Adolescentes: O Olhar do Professor, de
Sandra Cristina Carina
Tese de doutorado Os Conflitos Interpessoais na Relação Educativa, de Telma Vinha
Dissertação de mestrado A Construção da Solidariedade em Ambientes Escolares, de Luciene Tognetta
Anais do I Congresso de Pesquisas em Psicologia e Educação Moral
Texto A Dimensão Ética na Obra de Jean Piaget, de Yves de La Taille
Texto Moralidade e Violência: A Questão da Legitimação de Atos Violentos, de Yves de La Taille
Pesquisa Valores dos Jovens de São Paulo, da Fundação SM

Edição 226 | Outubro 2009 | Título original: Repensar a indisciplina

Projeto institucional:
Repensar a indisciplina
Saiba como estimular a equipe a refletir sobre a própria postura e orientá-la
para atuar frente a situações de conflito na escola.

Mais sobre indisciplina


Reportagens
← O que é indisciplina
← Como se resolve a indisciplina
← "A indisciplina como aliada"
← À beira do caos
← Disciplina é um conteúdo como qualquer outro
← "Nossos alunos precisam de princípios, e não só de regras"
← "O clima emocional é essencial para haver aprendizagem"
Introdução
Para mudar a perspectiva em relação à indisciplina, é imprescindível que a escola se
responsabilize cotidianamente por garantir um ambiente de cooperação, em que o valor
humano, o respeito, a dignidade e a integridade marquem as relações. Essa conquista pode se
dar por meio de um percurso de formação continuada para toda a equipe. Ao mesmo tempo, é
preciso ter em mente que conflitos sempre vão ocorrer e não é possível esperar o fim da
formação para resolvê-los. Lembre-se de que o mais importante é lidar com a causa do conflito e
não apenas atribuir culpa e impor punições. Pouco importa quem começou uma discussão. O
fundamental é analisar o que levou as pessoas a ter dificuldade de negociar soluções justas e
respeitosas. Para ajudar nesse momento intermediário, apresentamos quatro estratégias.

1. Demonstrar que a honestidade será sempre considerada importante. Os alunos devem


aprender que o que têm a dizer pode, sim, irritar o professor. Mas, em qualquer circunstância,
em vez ser de punido por ter sido autêntico, ele deve ser orientado a perceber que o sentimento
de bem-estar por ter seguido o valor da verdade é o que mais conta.

2. Não agir de improviso. Manter-se calmo e controlar suas reações. Os problemas não precisam
ter uma resposta imediata por parte da equipe escolar. Agir de improviso pode levar a atitudes
pouco adequadas.

3. Reconhecer sentimentos e orientar comportamentos. Ficar bravo e com raiva é uma reação
natural de qualquer ser humano. Dizer ao aluno "você não pode se sentir assim" ou "você não
pode ficar com raiva do seu amigo" é, portanto, inadequado. Oriente-o dizendo algo do tipo:
"Você deve mesmo ter ficado muito bravo, mas bater no colega resolveu o problema?"

4. Acreditar que o conflito pertence aos envolvidos. Isso não significa aceitar qualquer
alternativa de resolução ou se alienar do problema. Você deve ser um mediador, ajudando-os a
descrever o problema, incentivar que falem sobre os sentimentos e as ações e busquem soluções,
sempre incidindo sobre a causa e respeitando princípios. Acompanhe, a seguir, uma proposta de
formação para a equipe, fundamentada na bibliografia indicada em cada etapa.

Objetivos
- Promover uma mudança de olhar em relação à indisciplina, estudando conceitos de
desenvolvimento moral e ético e adotando-os como conhecimento necessário ao processo
educacional
- Estimular a equipe a refletir sobrea própria postura.
- Conhecer os princípios de um ambiente de cooperação.
- Analisar o regimento da escola.
- Orientar a atuação da equipe frente a situações de conflito.

Conteúdos
- Desenvolvimento moral.
- Ética.
- Valores humanos.

Tempo estimado
No mínimo um ano, com reuniões semanais no horário de trabalho coletivo. Os problemas não
acabam depois desse período. O objetivo é que todos aprendam a lidar com eles.

Desenvolvimento
1ª etapa
Para começar, levante com a equipe quais as principais situações de indisciplina na visão deles.
Organize o grupo em duplas. Cada uma deverá classificar as situações em categorias e
apresentá-las. Anote os resultados e guarde-os para retomá-los no fim da formação. O próximo
passo é aproximá-los do significado de indisciplina. O que a distingue da violência, por
exemplo? Para isso, além de consultar a bibliografia, use o mapa conceitual disponível no site
para orientar a discussão dos seguintes pontos:
- A indisciplina escolar é um sintoma de que algo não vai bem. Se há conflitos, a falha está na
relação e não nas pessoas.
- O comportamento indisciplinado é algo a ser alterado, mas isso só vai acontecer se as
responsabilidades forem divididas entre todos. Não é mais possível dizer que "aqueles alunos do
professor X são bagunceiros". Os alunos são de todos e deve haver parceria para transformar a
situação.
Bibliografia O Mapa do Problema Escolar: Quando a Cidadania Parece Não Ser Possível
(Anais do XXII Encontro Nacional de Professores do Proepre - Educação e Cidadania),
Luciene Tognetta

2ª etapa
O foco da discussão se desloca para a origem da indisciplina. A ideia é discutir a prática da
equipe escolar, as propostas didáticas, o domínio do professor sobre o conteúdo, sua postura
frente ao aluno e sua ação em situações de conflito (como citado na introdução).
Bibliografia Estratégias de Intervenção nos Processos de Desenvolvimento Profissional e
Pessoal Docentes (II Congresso Internacional do CIDInE: Novos Contextos de Formação,
Pesquisa e Mediação), Ana Aragão e Idália Sá-Chaves

3ª etapa
Realize o acompanhamento direto do trabalho docente em sala de aula, com gravação em vídeo
ou observação e registro realizado pelo coordenador durante as aulas, momentos de recreio,
entrada e saída, dependendo de onde o problema se localiza. Em seguida, o grupo deverá
discutir a postura do professor e dos alunos com base nos conceitos estudados. Aqui, é
obrigatório que o observado consinta em ser objeto de análise e discussão.
Bibliografia Autoscopia: Um Procedimento de Pesquisa e de Formação (Educação e
Pesquisa, São Paulo, v. 30, n. 3, p. 419-433), Ana Aragãoe Priscila Larocca

4ª etapa
Para seguir uma regra, é preciso entender sua razão de ser. Se não houver explicação que a
justifique, a restrição pode e deve ser questionada. A ideia, nessa etapa, é analisar o regimento
da escola. Os problemas têm mais a ver com as regras morais ou com as convencionais? Os
princípios que fundamentam o projeto pedagógico devem ser discutidos. Como sugestão, tome
como base a Declaração Universal dos Direitos do Homem.
Bibliografia Viajantes Destemidos sem Mapas Precisos: Professores-Formadores
(Professor Formador: Histórias Contadas e Cotidianos Vividos, Ed. Mercado de Letras),
Vera Lucia Sabongi de Rossi

Avaliação
Por meio de questionários, peça aos alunos, funcionários e pais que analisem se houve avanços.
Resgate a listagem feita no começo do projeto e peça que a equipe docente altere o que achar
necessário, revendo as categorias definidas anteriormente.

Criança e Adolescente
Comportamento

Janeiro 2002

A indisciplina como aliada


Ela atrapalha e incomoda, mas se for trabalhada de forma adequada pode
ajudá-lo a conquistar a turma neste novo ano

Paola Gentile (pagentile@abril.com.br)

Ana Paula, da Vianna Moog,


em São Paulo: o "aluno-
problema" se tornou um
dos mais interessados
com uma dose extra de
atenção e pedidos de ajuda
na organização da sala.
Foto: Masao Goto Filho

Ano novo, novos desafios. O maior deles, provavelmente, é conquistar a turma, fazê-la produzir
mais do que o esperado, criar condições para que todos aprendam. Por isso, preparamos duas
reportagens para começar as aulas com o pé direito. Veja aqui sugestões para transformar o
pátio num verdadeiro ambiente educativo, capaz de reduzir a agressividade dos estudantes e
ajudá-los a se tornar mais participativos e menos indisciplinados, o tema desta página.

Como lidar com os grupinhos que não param de conversar e não participam das atividades? E
com os que, semana após semana, deixam de fazer a lição? Sem falar nos problemas mais
graves, como a falta de respeito dentro da classe, os xingamentos e, o pior, as agressões verbais e
físicas. Pesquisa realizada no ano passado pelo Observatório do Universo Escolar, em parceria
com o Ministério da Educação, constatou que a indisciplina é uma das causas mais apontadas
pelos professores para o fracasso do planejamento inicial.

"A família não impõe limites!" "É a televisão que educa as crianças." "Eles não estão a fim de
nada, não têm jeito!" Quantas vezes você já não ouviu (ou proferiu) essas frases? Não há dúvidas
de que boa parte do problema passa mesmo pela família, ausente e desestruturada, pelos
programas de TV, cada vez mais violentos, e pelo próprio jovem, cujo caráter ainda está em
formação. Mas saber disso não resolve o problema. Nesta reportagem, são apontados três
caminhos para compreender e resolver a questão: a diferença entre autoridade e autoritarismo,
a importância de compreender a necessidade que o jovem tem de se expressar e as vantagens de
construir pactos com a garotada (tema também da coluna de estréia de Julio Groppa Aquino).
Tudo para transformar a indisciplina em aliada.

Autoridade se constrói

É impossível falar de indisciplina sem pensar em autoridade. E é impossível falar de autoridade


sem fazer uma ressalva: ela não é dada de mão beijada, mas é algo que se constrói. Ou seja, ter
autoridade é muito diferente de ser autoritário (leia o quadro abaixo). Dizer "não faça isso",
ameaçar e castigar são atitudes inúteis. O estudante precisa aprender a noção de limite e isso só
ocorre quando ele percebe que há direitos e deveres para todos, sem exceção.

Um professor autoritário... Um professor com autoridade...


...conquista a participação com atividades
...exige silêncio para ser ouvido;
pertinentes;
...pede tarefas descontextualizadas; ...mostra os objetivos dos exercícios sugeridos;
...ameaça e pune; ...escuta e dialoga;
...quer que a classe aprenda do jeito que ele ...procura adequar os métodos às
sabe ensinar; necessidades da turma;
...não tem certeza da importância do que está ...valoriza o conteúdo de sua disciplina na
ensinando; construção do conhecimento;
...adapta os conteúdos aos objetivos da
...quer apenas passar conteúdos;
educação e à realidade do aluno;
...vê o aluno como um a mais. ...vê o aluno como um ser humano.

Ana Kennya Félix, que leciona Língua Portuguesa na Escola Crescimento, em São Luís, dá uma
boa amostra de como fazer isso. Certo dia, ela encontrou sua classe de 7ª série em pé de guerra
por causa de uma discussão entre os meninos. Um deles desafiou-a a "botar moral".
Calmamente, ela pediu que todos se sentassem e deu início a uma conversa sobre o sentido de
"moral" (no caso, ordem). "Eles não esperavam esse encaminhamento e o debate serviu para a
gente pensar sobre os limites de nossos atos", constata a professora.

Um dos obstáculos mais frequentes na hora de usar o mau comportamento a favor da


aprendizagem é uma atitude comum a muitos professores: encarar a indisciplina como agressão
pessoal. "Não podemos nos colocar na mesma posição do jovem", adverte Julio Aquino,
professor de Psicologia da Educação na Universidade de São Paulo (USP). Quando a desordem
se instala, diz ele, é fundamental agir com firmeza. Como fazer isso? Não há fórmulas prontas,
mas um bom caminho é discutir o caso com os envolvidos e aplicar sanções relacionadas ao ato
em questão.

Maria Isabel, do Albert Sabin, em São Paulo: as


aulas expositivas deram lugar a peças de teatro
e a turma que gostava de bagunça logo começou
a participar mais. Foto: Rogério Albuquerque

O professor precisa desempenhar seu papel o que inclui disposição para dialogar sobre objetivos
e limitações e para mostrar ao aluno o que a escola (e a sociedade) esperam dele. Só quem tem
certeza da importância do que está ensinando e domina várias metodologias consegue desatar
esses nós. Maria Isabel Fragoso, professora de História do Colégio Albert Sabin, em São Paulo,
sabe que sua disciplina requer muitas aulas expositivas. Mas ela notou que não conseguia
atenção suficiente ao falar diante do quadro-negro. A saída foi propor à garotada a criação de
encenações sobre alguns períodos históricos. Resultado: o desinteresse e a bagunça logo se
transformaram em mais concentração.

Bagunça ou inquietação?

Cintia Copit Freller, professora de Psicologia Escolar do Instituto de Psicologia da USP, nos
ajuda a compreender essa pergunta. "A indisciplina é uma das maneiras que as crianças e os
adolescentes têm de comunicar que algo não vai bem". Por trás de uma guerra de papel podem
estar problemas psíquicos ou familiares. Ou um aviso de que o estudante não está integrado ao
processo de ensino e aprendizagem. Cerca de 95% dos casos atendidos pelo Serviço de
Orientação à Queixa Escolar, coordenado por Cintia, são resolvidos na própria classe. O truque é
transformar a contestação em aliada, dando atenção ao jovem e ajudando-o a entender o que o
incomoda.

De maneira geral, as escolas consideram rebeldia as transgressões às regras de convivência ou a


não adequação a um modelo ideal seja em relação ao ritmo de aprendizagem (bom é quem
aprende rápido) seja em relação ao comportamento (só queremos os obedientes). O primeiro
passo é tomar consciência de que a inquietação é inerente à idade e faz parte do processo de
desenvolvimento e de busca do conhecimento. O segundo, aceitar as diferenças. "A adolescência,
em especial, é a fase de descobrir e de testar limites", diz o psicólogo português Daniel Sampaio,
autor de Indisciplina: Um Signo Geracional.

Ok, a contestação é natural em crianças e jovens, mas como lidar com ela? Ana Paula Gama,
regente de uma turma de 4ª série da Escola Municipal de Ensino Fundamental Vianna Moog,
em São Paulo, conta o que fez para "domar" um garoto tido como o terror em pessoa. "Augusto*,
então com 12 anos, era conhecido desde a 1ª série como agressivo e desinteressado. A mãe
freqüentemente assistia às aulas a seu lado e ajudava nas lições de casa. Tudo em vão", lembra a
professora.

Ana Paula começou a pedir ajuda na arrumação da sala e na distribuição e recolhimento de


material. Em pouco tempo, ele tomou a iniciativa de abandonar as carteiras do fundão e a
sentar-se na frente. Passou a prestar atenção, a freqüentar as classes de reforço e a oferecer-se
para executar as mais variadas tarefas. "Ela incentivou o lado bom do estudante, mostrou que
ele pode ser útil", analisa Cintia Freller. Só com carinho e atenção, Ana Paula fez com que
Augusto superasse o estigma de aluno-problema.

Cely, da Ciro Pimenta, em Belém:


achar o foco de interesse do
aluno foi a chave para integrá-lo.
Foto: Carlos Silva

"Quando há relacionamento afetuoso, qualquer caso pode ser revertido em pouco tempo",
afirma Tânia Zagury, psicóloga e pesquisadora em educação. Ana Cely Monteiro da Silva, da
Escola Municipal Ciro Pimenta, em Belém, precisou de apenas três meses para incluir Márcio*
na turma de 2ª série. Com 13 anos, ele não tinha amigos, ameaçava os colegas e se dizia "do
mal". Faltava muito e, quando aparecia, contestava tudo.

Cely sabia que o problema estava em casa. Por ocasião do Dia dos Pais, ela decidiu trabalhar um
texto sobre relacionamento familiar. Na hora do debate, Márcio expôs o próprio drama: pai
desempregado, alcoólatra e violento. "Ele tinha bom vocabulário e gostava de expor suas idéias",
lembra a professora. O passo seguinte foi elogiar as colocações do menino e propor discussões
sobre outros temas. Ao ver seus interesses contemplados na classe, o jovem se tornou assíduo e
participativo. "Aliar as necessidades de ensino-aprendizagem às preferências da turma é uma
estratégia que sempre dá certo", garante Nívea Maria de Carvalho Fabrício, presidente da
Associação Brasileira de Psicopedagogia.

Contrato pedagógico

Finalmente, chegamos ao contrato pedagógico. Como todos os acordos que celebramos na vida
(aluguel, casamento etc.), este também é um pacto com aspirações e obrigações. Como escreve
Julio Aquino, não se trata de definir o que não é permitido fazer na sala de aula e na escola, mas
de abrir um diálogo entre professor e alunos para estabelecer o que é bom para todos e aqui, o
exemplo de uma escola talvez não sirva para outra.

Anna, da Crescimento, em São Luís: o diálogo como


forma de mostrar autoridade e discutir valores e ética.
Foto: Meireles Júnior

"É nossa função dizer à turma tudo o que cabe a ela para facilitar o ensino", diz. "Em
contrapartida, devemos mostrar empenho em fazer todos aprenderem. Só assim os jovens
encontram sentido nos conteúdos e participam mais."

Com responsabilidade, todos devem dizer o que querem e o que não querem que aconteça neste
ano letivo que se inicia. Vale a pena redigir essa carta de intenções. Pode chamar de contrato
mesmo, ou de combinado. As regras podem valer para o ano todo ou para uma atividade
específica. Como em todo diálogo, esse também pressupõe a possibilidade de rever posições, se
necessário. Assim, todos vão incorporar e cumprir as normas de conduta. E a indisciplina, que
antes incomodava, se transforma numa grande aliada.
Os especialistas e o nó da disciplina

"A escola precisa quebrar o círculo vicioso e instalar o benigno,


ressaltando as qualidades do jovem e mostrando que ele pode ter
liderança positiva"
Cintia Copit Freller, do Serviço de Queixa Escolar da USP

"Encontrar o centro de interesse da turma como um todo é uma


excelente estratégia para integrar os jovens no processo de
aprendizagem"
Nívea Maria Fabrício, da Associação Brasileira de Psicopedagogia

"Quando há relacionamento de afeto e um professor atencioso,


qualquer caso pode ser revertido em pouco tempo"
Tânia Zagury, psicóloga e pesquisadora em Educação

Como enfrentar os "rebeldes"


Esqueça a imagem do aluno "ideal"; Procure criar situações, com histórias ou
Observe a criança e o grupo com atenção; brincadeiras, que levem a turma a refletir
sobre o comportamento de um ou mais
colegas, sem expô-los;
Converse com os que atrapalham a aula, ouvindo Não abra mão do objeto de seu trabalho,
suas razões; que é o conhecimento;
Não rotule o aluno, em hipótese alguma; Diferencie as aulas, evitando rotinas;
Esclareça as conseqüências para a aprendizagem Lembre-se de que os conteúdos podem
das atitudes consideradas inadequadas; ser atitudinais, e não apenas factuais e
conceituais.

Quer saber mais?

Serviço de Orientação à Queixa Escolar do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, Av.
Prof. Lúcio Martins Rodrigues, bl. D, CEP 05508-900, São Paulo, SP, tel. (11) 3818-4172

BIBLIOGRAFIA
Adolescência na Escola, Margarete Parreira Miranda, 223 págs., Formato Editorial, tel. (31) 3413-1720, 14,90
reais
Histórias da Indisciplina Escolar, Cintia Copit Freller, 251 págs., Casa do Psicólogo Editora, tel. (11) 3062-
4633, 30 reais
Indisciplina na Escola Alternativas Teóricas e Práticas, Julio Groppa Aquino (org.), 148 págs., Summus
Editorial, tel. (11) 3872-3322, 21,30 reais
(In)Disciplina, Escola e Contemporaneidade, Maria Lúcia M. Carvalho Vasconcelos (org.), 259 págs., Ed.
Mackenzie, tel. (11) 3236-8666, 15 reais
Indisciplina: Um Signo Geracional, Daniel Sampaio, publicação do Instituto de Inovação Educacional do
Ministério da Educação de Portugal, disponível no site www.iie.min-edu.pt/biblioteca/ccoge06/

ALBERTO GIMENEZ NETO


INDISCIPLINA ESCOLAR:
SUAS RAZÕES E COMO PREVINÍ-LA DENTRO DO CONTEXTO ESCOLAR
Curitiba
2008
2
AGRADECIMENTOS
Sei que a vitória não foi só minha, porque ao meu lado caminhavam
pessoas que acreditaram em mim e no meu sucesso... A vocês, que muito amo e
que compartilharam meus ideais, me compreenderam e incentivou, mesmo que no
silêncio e na distância, aqueles que, sem saber, ajudaram a formar experiências e
adquirir conhecimentos... Aqueles que sempre se farão presentes neste longo
caminho que está por começar... Por vocês, fui capaz de chegar até aqui.
A Deus e a todos vocês, alunos, mestres, amigos, familiares, meus
agradecimentos e meu amor.
“E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar não tem tempo, nem
piedade, nem tem hora de chegar sem pedir licença muda a nossa vida e depois
convida a rir ou chorar, nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá o
fim dela ninguém sabe bem ao certo onde vai dar” (Toquinho).
RESUMO
3
Entramos no século XXI com muitas mudanças na educação. A facilidade
de acesso de nossos educadores às idéias e teorias desenvolvidas por
pesquisadores e escritores muito tem contribuído para o desenvolvimento da
qualidade da educação no Brasil. Mas, ao mesmo tempo em que a escola
desenvolve-se, ela, juntamente com a família parece perder o poder e o espaço
que outrora tiveram na formação do indivíduo, pois as crianças começaram a
entrar mais cedo na escola, fato que pode favorecê-las (quando a criança é bem
acompanhada pelos pais) ou prejudicá-las (quando os pais por deixá-la durante
muito tempo na escola geram nas mesmas, um sentimento de descaso em
relação ao seu desenvolvimento). Defende-se nesse trabalho, como resultado
duma pesquisa bibliográfica a influência da indisciplina na escola no
comportamento de crianças e adolescentes, pois não existe aprendizagem de
qualidade em um ambiente de indisciplina e agressividade. É necessário buscar
novos caminhos que levem a família, a escola e a comunidade a assumirem o seu
verdadeiro papel neste processo. Neste sentido, Içami Tiba e Julio Aquino,
afirmam que a ausência de limites, instituídas na educação familiar por pais
demasiadamente tolerantes, fecunda conseqüências desastrosas, produzindo
crianças indisciplinadas, agressivas, insolentes e que vivem conflitos internos
demonstrando insegurança em tudo o que realizam. A indisciplina e a
agressividade constituem um desafio para os docentes, representam um dos
principais obstáculos ao trabalho pedagógico demonstrando a ausência de regras
e limites por parte da criança. Necessitamos de uma postura compartilhada em
relação à disciplina, investindo na prevenção. Pretende-se que a escola funcione
através de espaços e tempos, geridos com critérios adequados à participação e ao
diálogo entre os alunos e destes com os professores, onde o problema deve ser
contextualizado, analisando as suas causas profundas e favorecendo a
mobilização de ações alternativas.
Palavras-chave: Agressividade; Escola; Indisciplina.
SUMÁRIO
4
INTRODUÇÃO ------------------------------------------------------------------------------------- 05
I A INDISCIPLINA NO CONTEXTO FAMILIAR E ESCOLAR ------------------------ 08
1.1 Características da indisciplina e da agressividade -----------------------------------09
1.2 Razões da indisciplina ---------------------------------------------------------------------- 12
1.3 Bulling ------------------------------------------------------------------------------------------- 15
1.4 Evidências da indisciplina na família ---------------------------------------------------- 16
1.5 Evidências da indisciplina na escola ---------------------------------------------------- 18
II AÇÃO DOCENTE FRENTE AO ALUNO INDISCIPLINADO ----------------------- 20
2.1 Preparo do professor para lidar com alunos-problemas --------------------------- 21
2.2 Atitudes docentes para melhoria comportamental dos alunos ------------------- 25
III AÇÕES PREVENTIVAS CONTRA A INDISCIPLINA ------------------------------- 28
3.1 Abordagens dos temas transversais ---------------------------------------------------- 32
CONSIDERAÇÕES FINAIS -------------------------------------------------------------------- 35
REFERÊNCIAS ------------------------------------------------------------------------------------ 36
INTRODUÇÃO
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Ser professor nunca foi uma tarefa simples. Hoje, porém, novos elementos
vieram tornar o trabalho docente ainda mais difícil. A disciplina parece ter se
tornado particularmente problemática.
Analisar as causas do problema é preocupação sobre a qual, hoje, se
debruçam todos os que estão envolvidos com educação, que desejam uma escola
de qualidade. È claro que são inúmeros, não apenas um, os elementos que
concorrem para a atual situação educacional brasileira.
Desde alguns anos atrás, vai instalando-se em nossas sociedades, e de
maneira especial em nossas escolas, a convicção de que os estudantes vão
sendo cada vez mais indisciplinados e mal-educados, mostrando comportamentos
que interrompem o clima acadêmico da escola, quando não protagonizam
agressões verbais e físicas, furtos e destruição do mobiliário, etc.
É necessário e essencial à educação saber estabelecer limites e valorizar a
disciplina, e para isso é necessária à presença de uma autoridade saudável. O
segredo que difere autoritarismo do comportamento de autoridade adotado para
que outra pessoa torne-se mais educada ou disciplinada está no respeito à autoestima.
As instituições de ensino, cuja tarefa é introduzir as crianças nas normas da
sociedade, muitas vezes se omitem. O estudo é essencial, portanto os filhos têm
obrigação de estudar. Caso não o façam, terão sempre que arcar com as
conseqüências de sua indisciplina.
Temos que trazer e despertar o interesse de pais e educadores os limites
da disciplina numa maneira bem-humorada e realista, mostrando que pai ou
professor, é o educador, e não pode se esquivar da tarefa de apontar na medida
certa os limites para que os jovens se desenvolvam bem e consigam viver bem em
harmonia.
As crianças aprendem a comportar-se em sociedade ao conviver com
outras pessoas, principalmente com os próprios pais. A maioria dos
comportamentos infantis é aprendida por meio da imitação, da experimentação e
da invenção.
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Objetiva-se neste trabalho: Refletir sobre os fatores contribuintes para
crianças indisciplinadas e/ou agressivas; Mencionar atitudes dos professores que
contribuam para a melhoria da relação professor-aluno; Analisar o papel da escola
frente aos problemas de convivência dos alunos no âmbito escolar.
Visando a consecução dos objetivos citados este artigo reporta-se as
seguintes questões norteadoras:
Que fatores podem contribuir para uma criança tornar-se indisciplinada e/ou
agressiva?
Que atitudes docentes poderiam contribuir para a melhoria da relação
professor-aluno?
O que é necessário para que as escolas enfrentem os problemas de
convivência cumprindo seu papel de educar sem discriminar o aluno-problema?
É preciso lembrar que uma criança, quando faz algo pela primeira vez,
sempre olha em volta para ver se agradou alguém. Se agradar, repete o
comportamento, pois entende que agrado é aprovação, e ela ainda não tem
condições de avaliar a adequação do seu gesto.
A força dos pais está em transmitir aos filhos a diferença entre o que é
aceitável ou não, supérfluo, e assim por diante. O professor também perdeu a
autoridade inerente à sua função.
É preciso continuar investindo na melhoria da qualidade do ensino em
nossas escolas, para isso é fundamental o maior interesse das políticas públicas
na educação, incentivando a formação e aperfeiçoamento do quadro docente,
realizando melhorias do espaço físico das escolas, além de contar com a
participação efetiva da família e da comunidade.
Quando o limite é apresentado com afeto, a criança o aceita mais
facilmente. Sem dúvida, não é um trabalho fácil, mas geralmente funciona. Além
da família, cabe à escola este papel. Afinal, os educadores continuam a deter
parte considerável da responsabilidade pela formação da criança.
Para fundamentação teórica deste trabalho, foram lidos livros que
contextualizam o tema monográfico de autores renomados como, Içami Tiba,
Paulo Freire, Rogers e Gadotti.
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Este trabalho encontra-se organizado em três capítulos: No primeiro
capítulo abordaremos; A indisciplina e agressividade no contexto familiar e
escolar; No segundo capítulo trabalharemos: Ação docente frente ao aluno
indisciplinado e agressivo; no terceiro capítulo trabalharemos: Ações preventivas
da indisciplina e agressividade através de temas transversais.
1. A INDISCIPLINA NO CONTEXTO FAMILIAR E ESCOLAR
8
Nos tempos atuais, família e escola parecem perder o poder e o espaço
que tiveram outrora no sentido da formação do individuo. As crianças começaram
a entrar mais cedo na escola, fato que pode favorecê-las ou desfavorecê-las,
dependendo do acompanhamento escolar e familiar realizado. Caso a criança seja
bem acompanhada, esse ingresso prematuro na instituição pode ajudá-la a se
desenvolver melhor em todos os aspectos: sociais, cognitivos, etc. Porém, se a
família coloca-a na escola, mas não acompanha pode gerar na criança um
sentimento de descaso em relação ao seu desenvolvimento.
Em outras ocasiões pode-se criar uma criança autoritária e desobediente
por culpa dos próprios pais que por trabalharem demais e estarem ausentes da
rotina do filho permitem, por um sentimento de culpa, que a criança faça tudo que
desejar. Tal comportamento dos pais é prejudicial à própria criança, que fora do
ambiente familiar não encontrará tamanha facilidade. A escola por sua vez,
também procura subterfúgios para “escapar” da culpa pelos possíveis fracassos
escolares de seus alunos, entre as desculpas mais freqüentes esta a de culpar os
pais pela falta de tempo no convívio com os filhos. Fato que acaba gerando alunos
com problemas de aprendizagem, relacionamento, etc.
Cabe a sociedade, não só aos setores ligados à educação, através de
pequenas ações o cotidiano da escola e da família, para que esta compreenda a
importância dos objetivos traçados pela escola, que deve tornar possível ao aluno
aquisição de conteúdos de forma mais atraente. A renovação de conteúdos de
forma suscita a renovação dos métodos e das relações entre professores e
alunos, das obrigações e da disciplina. Com a inovação dos métodos, os
conteúdos não podem se tornar inconscientes, pois, devem proporcionar
condições de conduzir a satisfação. A escola, enquanto instituição, já traz
embutido o conceito de ordem, a necessidade de disciplina, utilizando-se de certas
punições a fim de manter a ordem já estabelecida e tornar o aluno obediente e
passivo como forma de dominação, nesse sentido, a escola acaba reduzindo a
indisciplina e a agressividade do aluno.
Partimos do princípio de que nenhuma criança nasce agressiva, ela tornase
de acordo com o meio, pois limite e disciplina transitam no caminho do afeto e
9
da liberdade, e isso se reflete nos locais onde ela se insere. Segundo Içami Tiba:
“o maior estímulo para ter disciplina é o desejo de atingir um objetivo”. (1996,
p.173).
Em termos operativos e sociais, o comportamento de qualquer cidadão
deve estar baseado pelo menos em cinco princípios: Gratidão, Disciplina,
Religiosidade, Cidadania e Ética. Estes valores devem estar presentes nos
processos educativos familiares e escolares.
O desenvolvimento da indisciplina corresponde ao surgimento de um
controle interno, uma obediência às regras que não dependa mais exclusivamente
do controle dos pais ou de outras pessoas. Isso implica a assimilação racional das
regras, o que faz surgir à reciprocidade, o respeito mútuo que vem a ser a
capacidade de respeitar o outro e por ele ser respeitado.
1.1 Características da indisciplina
O comportamento de uma pessoa obedece a atitudes e valores mais ou
menos internalizados. Os problemas de disciplina, que também podem ser
chamados “de convivência”, nas escolas, são reflexos de uma crise de valores que
está se produzindo em nossa sociedade em geral, e claro, na escola como
subconjunto institucional criado por esta sociedade. Em um mundo cada vez mais
globalizado, a informação chega diariamente aos lares, mostrando uma infinidade
de cenários de violência. Ao mesmo tempo, a família como instituição esta
demonstrando fortes mudanças com a incorporação da mulher ao trabalho e a
cada vez mais freqüente separação dos casais, transformando-se em mono
parentais, no próprio lar, muitas crianças aprendem sobre a violência e os maus
tratos, a falta de respeito com os mais velhos etc. Na rua, a aprendizagem do
darwinismo social, a assunção de determinismos e contra-valores para a
sobrevivência e a estima no bairro e no grupo.
Neste contexto, a criança chega a uma escola que pretende ignorar toda a
bagagem de valores trazida por esta criança, e que se centra unicamente nas
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aprendizagens acadêmicas, por tudo isso exposta de maneira compartilhada,
fracionando a realidade e impedindo o desenvolvimento de um sentido global e do
complexo. Uma escola que pretende ignorar os interesses e vivências reais dos
estudantes e impõe uma ordem hierárquica e normas de comportamentos sobre a
base de um principio de autoridade. E não se deve perder de vista, para os
estudantes de hoje a escola não tem o mesmo significado de algumas décadas
atrás, pois boa parte já assumiu o seu meio de visão que não será assegurado
mediante os estudos, e que aqueles que têm expectativas de estudos superiores
advertem as dificuldades existentes hoje para encontrar emprego dentro de sua
qualificação. Não nos surpreende que o estudante mais afetado por estes
cenários, e ainda mais se, como já ocorre em muitos países, à escolaridade
fundamental é obrigatória para toda a população, eventualmente mostre conatos
de comportamento indisciplinado, violento, desrespeitoso e de ruptura. A escola
não pode por si só modificar as causas que originam este problema, mas pode
fazer o possível para não contribuir para isto e, pelo contrario, apresentar um
quadro amigável, dialogador, pacifista, democrático e um currículo integrado,
baseado em seus interesses e suas vivencias. De acordo com Içami Tiba (1996, p.
165) O aluno que não respeita os outros precisa ser educado ou ser tratado.
Isto nos leva a considerar que os problemas “de convivência” irão aparecer
sempre, porém o importante não é só evitá-los, mas manejá-los de maneira
educativa. Assim, em uma análise das características de indisciplina e
agressividade mais freqüentes entre os estudantes, aparecem às seguintes:
a) Incompetência emocional, grande parte dos problemas de violência
provém de uma falta de controle das emoções;
b) Aumento do individualismo, do egocentrismo, impedindo o aluno de ver o
outro como um mediador na busca do conhecimento escolar, seja o outro
professor ou o colega nas trocas indispensáveis nos trabalhos em grupo.
Tentativas constantes de fazer a aula girar em torno de seus interesses e idéias;
c) Desapego da escola, as mesmas atitudes individualistas e a falta de
sentido de cooperação levam a um desapego do aluno a respeito da instituição
escolar como micro sociedade na qual convive em grande parte do tempo;
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d) Condutas violentas, a aprendizagem da violência, em um contexto no
qual esta aparece como única forma de solução dos conflitos leva a atitudes e
comportamentos violentos, o que freqüentemente é potencializado pela
incompetência emocional anteriormente assinalada;
e) Ausência de limites sociais gerando interrupções inoportunas, confusões,
conflitos em sala de aula que perturbam o ambiente externo adequado a uma boa
aprendizagem;
f) Desvalorização, desqualificação do professor, da situação escolar, dos
conhecimentos escolares;
g) Tendência à intolerância, os contra-valores mencionados, de
individualismo, competitividade, falta de solidariedade, etc., freqüentemente levam
também a uma intolerância com o diferente;
h) Tensões, grande ansiedade junto com a conduta indisciplinada causando
alterações no foco de atenção, atrapalhando a memória imediata e do meio prazo
em testes e provas, perturbando as construções de relações lógicas apoiadas nas
informações do momento e nas anteriores;
i) Atenção dispersa, dividida, voltada para as brigas, trapaças, roubos, etc.,
em que esteja envolvido direta ou indiretamente, ou seja, simples “torcedor” na
sala de aula ou fora dela;
j) Perda de aulas por atraso ou retirada de sala por indisciplina ou ainda
suspensões disciplinares, gerando descontinuidade na construção de
determinados conhecimentos;
k) Não cumprimento de tarefas escolares fora do horário regulamentar que
auxiliariam na desejada fixação e ampliação de conteúdos programáticos que
seriam suportes para novos conhecimentos posteriores;
1.2 Razões da indisciplina
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Desde alguns anos atrás, vai instalando-se em nossas sociedades, e de
maneira especial em nossas escolas, a convicção de que os estudantes vão
sendo cada vez mais indisciplinados e mal-ducados, mostrando comportamentos
que interrompem o clima acadêmico da escola, quando não protagonizam
agressões verbais e físicas, furtos, destruição do mobiliário, etc. O fato de que na
escola surjam problemas de convivência não é nada novo. Sempre tem
acontecido, se bem que o seu tratamento tem estado muito centrado nos aspectos
punitivos e na seleção.
Pressupõe uma visão pobre ou psicologista das causas de problema,
atribuindo-se à falta de interesse do aluno, à sua escassa capacidade, sua
preguiça, ou inclusive, ao seu “caráter violento” etc., ou então se explica pela sua
origem (classe social, raça, etc.), assumindo-se que os problemas sempre
surgirão a partir destas classes sociais porque carecem de uma adequada
educação, não tem expectativas de estudos posteriores, etc. No entanto, estes
problemas são multicausais e têm sua raiz não apenas no ambiente social e nas
mudanças socioeconômicas que vão se produzindo, diante dos quais as crianças
são mais vulneráveis do que os outros, quanto as suas expectativas de futuro.
Segundo Içami Tiba (1996, p.79) A educação escapou ao controle da família
porque, desde pequena a criança já recebe influências da escola, dos amigos, da
televisão e da internet.
A agressividade aqui colocada está focalizada como uma das
manifestações da indisciplina e apresenta as seguintes razões:
a) Excesso de repressão, professor autoritário em classe, regras rígidas na
escola, intolerância, etc. Podem provocar uma natural onda de revolta
principalmente naqueles que não sejam passivamente submissos e queiram
saudavelmente participar das atividades. Assim a indisciplina pode surgir como
não aceitação do absolutismo e autoritarismo excludente. A repressão não educa;
b) Excesso de liberdade, professor e família permissivo em classe, escola
sem direção, ausência de regras também na escola, etc. Quando os alunos ficam
entregues aos próprios critérios de convivência os mais abusados podem não
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respeitar as autoridades naturais inerente aos educadores nem poupam os
próprios colegas. Ausência de limites também não educa;
c) Problemas funcionais da escola, coordenador (ou diretor) desautoriza o
seu próprio professor, funcionários que desacatam ou transgridem normas
existentes na escola, etc. Quando os alunos percebem que podem jogar uma
autoridade contra outra sejam quais forem os seus níveis hierárquico, o fazem
para tirar beneficio próprio em detrimento da sua formação e capacitação, pelo
prazer imediato de não ter que cumprir algo que deveria. Numa desavença entre
professor e aluno, este pode desautorizá-lo já sabendo que o diretor, ou a Escola
adota a filosofia do “aluno tem sempre razão”;
d) “Avental comportamental” ausente no professor, à sua função
pedagógica, o professor tem que ter consciência de ser um representante da
Escola. Quando um aluno o desrespeita em classe é a Escola que está sendo
atingida através do professor, e não somente ele propriamente dito. Quando cada
professor toma como um problema pessoal, cria na Escola um clima de anarquia,
visto os professores serem diferentes entre si. Da anarquia nasce a indisciplina. O
“avental comportamental” do professor representa o comportamento padrão dos
representantes da Escola em relação às indisciplinas mais comuns. Este padrão é
estabelecido no começo do ano letivo com todo o corpo docente presente que
após mapear quais as indisciplinas mais comuns que ocorre na Escola votam
quais os procedimentos que todos os professores devem tomar. A indisciplina do
aluno deixa de ser somente um problema contra um determinado professor e
passa a ser entendido como um desacato à Escola;
e) “Coerência, Constância e conseqüência, são um princípio presentes nos
educadores nos seus próprios comportamentos e ações educativas em relação
aos educandos. No lugar de castigos que pouco educam, o importante é que os
educandos assumam as conseqüências de suas transgressões e indisciplinas. A
diferença entre castigo e conseqüência é que este busca o educando aprender
com o erro. O educando aprende com o custo da conseqüência e não com a pena
do castigo;
14
f) “Decoreba” como indigestão do aprendizado, o aluno seria o equivalente
a um empregado que trabalha somente no dia do pagamento, passando o resto do
mês “sem ter o que fazer”, portanto, propenso à indisciplina. Decoreba é o método
usado pelos alunos, e aceito pelos professores, deles “engolirem um livro na
véspera da prova”. Vão cheios de rituais na prova porque não sabem a matéria,
pois quem sabe não precisam de rituais. O material “engolido” é perecível (dura
somente ate a hora da prova) e descartável (usou uma vez já não se lembra
mais). Usa somente como entrou porque não faz parte do corpo de conhecimento
do aluno;
g) “Estrupador Mental” é o professor maquina de dar aula que não prepara
o aluno para receber a sua aula. Como qualquer boa refeição que requer uns
aperitivos, para uma boa aula o professor precisa aquecer os cérebros dos alunos
presentes para recebê-la;
h) Professor “decoreba” é o professor que “decorou” a aula que vai dar e a
repete todos os anos iguaizinhos à do ano anterior, talvez por mais de 20 anos. È
um professor retrógrado que estimula o decoreba. A sua sala parou no tempo e
ficou totalmente fora do contexto atual, isto é, muito distante do cotidiano do aluno,
gerando seu desinteresse. Isso gera indisciplina;
i) Pais desinteressados no aprendizado, mas querem aprovação, são pais
retrógrados que mandam os filhos para a escola para serem aprovados e não
aprenderem a ampliar o seu mundo e crescer. O que lhes interessa é o diploma. O
que faltar futuramente aos filhos os pais está disposto a supri-los. Assim os filhos
estudam o suficiente para passar de ano. Então eles sendo preparado para o
futuro trabalharem o suficiente para não serem despedidos quando empregados
e/ou pagarem o mínimo necessário para seus empregados não os abandonarem,
caso sejam empregadores;
j) Pais que terceirizam para Escola a educação dos seus filhos, hoje há pais
que por perderem suas referencias educativas delegam à escola a
responsabilidade de educar os seus filhos. Para a escola, os alunos são meros
“transeuntes curriculares” isto é, mudam de escola num piscar de olhos por
qualquer motivo e saem da escola quando terminam o curso. Mais para os pais,
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os filhos são para sempre. Filhos são como navios. Os pais são os estaleiros que
fabricam os navios e a escola vai capacitá-los através de instrumentos que vão
auxiliá-los a navegar pelos mares muitas vezes desconhecidos dos seus próprios
pais. Portanto escola e pais têm funções diferentes, mas complementares. Os pais
não devem jamais abrir mão de educar seus filhos. Como ninguém consegue dar
o que não tem, é importante que os pais sejam progressivos e se preparem para
poder dar uma boa educação aos seus filhos. São retrógados os pais que por
encontrarem dificuldades abandonam suas funções e passa a ser muito cômodo
poder cobrar dos outros as suas próprias falhas, estas falhas vão gerar
indisciplina;
k) Drogas, um grande problema que infelizmente esta aumentando, sejam
elas licitas ou ilícitas, elas prejudicam o desempenho escolar e relacional dos
alunos. O usuário fica à mercê dos seus defeitos químicos e sua vontade já não
esta mais sob o seu controle. Assim ele passa a fazer o que a droga lhe permite.
Uma das primeiras estruturas a serem tiradas de função é o superego. È ele que
nos torna adequado a diversos meios que freqüentando e consigamos ter força de
vontade e produtividade.
Na ausência, o usuário fica mais a disposição dos seus instintos e vontades
que não combinam com o assistir aulas, fazer provas, respeitar outras pessoas
como professores, colegas, etc. è importante que os educadores estejam
preparados, no mínimo informados, para lidar bem com seus usuários;
1.3 Bulling
É uma agressividade crônica, destrutiva, normalmente aceita pelos
circundantes como brincadeira, mesma que seja de mau gosto, que acaba com a
auto-estima de sua vítima, através da intimidação, do aterrorizar, e atormentar,
colocando apelidos, cutucando ou mesmo ofendendo com palavras e atos
incluindo destruir também seus pertences como material escolar, roupas, etc. A
vítima se sente perseguida, humilhada e acaba se isolando como se o problema
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fosse dele. Fica mais quieto, seu rendimento escolar e relacional cai, perde
interesse em sair de casa, muito menos ir ao local onde acontece o “bulling”. A
vítima é uma pessoa que já pode estar sofrendo de algum complexo de
inferioridade por ser diferente, ter nariz grande, baixa ou alta estatura, problemas
de pele, espinhas, etc.
Quando sobre este quadro íntimo, os colegas ainda reforçam seus
problemas, a relação da vítima consigo própria e com o mundo que a cerca piora
muito. Esse sofrimento todo pode provocar uma reação violenta atingindo seus
colegas e também a si mesmo. Existem relatos de alunos, vítimas do bulling, que
matam seus colegas e depois se suicidam. Para evitar complicações do bulling é
preciso que toda a escola seja mobilizada para identificar onde ele esteja
acontecendo e interferir severamente para que seja interrompido. A própria vítima
não tem forças para se defender. Assim que souber que seja o primeiro a delatar o
bulling e impedir o seu crescimento. Quem se cala é conivente ao bulling.
1.4 Evidências da indisciplina na família
Ninguém desconhece que a falta do amparo familiar, mais precisamente a
carência afetiva durante a infância, pode conduzir a uma deterioração integral da
personalidade, e consequentemente do comportamento. Segundo ensinam os
psicólogos, os comportamentos de cuidado maternos são tão indispensáveis para
o futuro da criança que, na sua falta, se encontram as raízes fundamentais do
desajuste infantil, que acaba no adulto desajustado. Quando o relacionamento
familiar é precário, certamente irá influenciar nos relacionamentos sociais de seus
membros, principalmente dos filhos.
Alguns pais não têm noção do mal que causam aos seus filhos quando não
estabelecem limites para eles, atendendo todos os seus desejos sem questionálos,
crianças que não sabem controlar suas vontades, provavelmente não saberão
lidar com problemas corriqueiros do seu dia-a-dia.
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Segundo Içami Tiba (195, p. 43) Quando falha o grande controlador, que é
a família, representada na figura dos pais, os abusos começam a acontecer. E,
quando um abuso é bem sucedido, ele se estende para social, na delinqüência, na
compulsão pelas drogas. Quando a família deixa o filho fazer sempre suas
vontades, este com certeza criará problemas futuros, essa forma de educar os
filhos, baseado no amor incondicional sem estabelecer as devidas restrições,
dizendo com firmeza não e sim na hora certa, com explicações moderadas e
objetivas estão levando as crianças a se tornarem jovens automaticamente
dependentes, sem autocontrole e inseguros, incapazes de solucionar problemas
que surgem na dinâmica de sua própria vida, sem perspectiva de uma vida futura
progressiva, sem realizações enriquecedoras e positivas. Tendo em vista que o
ser humano é por excelência insaciável, seus instintos de necessidades infinitas
não são trabalhados e contidos por regras e pulso firme de seus pais, quando
adultos, estarão sempre insatisfeitos com sua própria vida e com o mundo.
A ausência de limites, instituídas na educação familiar por pais
demasiadamente tolerantes, fecunda conseqüências desastrosas, produzindo
crianças indisciplinadas, extremamente agressivas, insolentes, rebeldes, por
conseguinte vivem sempre em conflitos internos, demonstram insegurança em
tudo realizam, crescem ampliando paralelamente sentimentos nada plausíveis,
como o egoísmo e a intolerância, pois estão sempre convictos de que as pessoas
que os rodeiam, que matem contato independente de que seja sua mãe ou não,
estarão a sua disposição para satisfazer suas necessidades. (santos, 2002, p. 46)
Geralmente, pais que satisfazem todos os desejos instintivos de seus filhos,
superprotegendo, afirmam que fazem tudo para vê-los alegres, com efeito, ao
verem que as ações de seus filhos são antagônicas as suas expectativas,
cometem atitudes irresponsáveis, não respeitam os outros provocam brigas em
qualquer ambiente ao mesmo tempo em que não desempenham com dignidade e
de forma espontânea as atividades escolares e extra-escolares. Içami Tiba (1995),
comenta que a disciplina é algo vivo, que confere satisfação nos próprios atos de
se organizar, de realizar e do colher. Cada etapa precisa ter a própria satisfação
para animar a pessoa a seguir em frente.
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Souza (2001), diz que é impossível a permanência de coesão familiar sem
alguém que exerça com segurança e continuidade o princípio aglutinador da
autoridade respeitosa, e estimulando as dimensões das possibilidades se as
crianças são capazes de realizar, seus potenciais que estão escondidos e que
com esforço desabrocharão, tornando-se um ser maduro e fortificador. A
satisfação consigo mesmo, depende em última instância do bom uso da liberdade
aprendia desde a infância.
Pelo exposto, pode-se compreender que, a firmeza dos pais, sendo
proteção contra o domínio do capricho e fonte de bem estar, tendo em vista que
irá permitir quando jovens a conscientizar-se de suas tendências, de conhecer a si
mesmo e dos outros, o progresso intelectual e equilíbrio emocional consciente, o
significado da responsabilidade.
A interiorização das boas condutas não acontece por si só, exige de pais a
autoridade equilibrada dizer sim e não nos momentos apropriados em função da
firmeza, do bom senso e da integridade no caminho da vida, baseando nesses
preceitos, vale ressaltar que é conveniente dar oportunidade nas circunstâncias
oportunas de os filhos expressarem seus aborrecimentos contra eventuais
injustiças e incompreensões do dia-a-dia.
1.5 Evidências da indisciplina na escola
A indisciplina e a agressividade em meio escolar é uma temática
claramente inscrita na ordem do dia e um fator de preocupação para muitos pais,
sendo que a forma como muitas vezes é abordada, desligada dos fatos concretos
e dos contextos reais em que ocorrem, pode tender a dar das nossas escolas uma
imagem pouco realista, acentuado, em muito, problemas que efetivamente
existem, mas que, na maior parte dos casos não serão particularmente graves.
Em muitos discursos sobre esta temática, é também relativamente
freqüente a procura dos culpados, para poder responsabilizar ou mesmo punir,
sejam eles os jovens que “não tem regras”, os pais que “não os sabem educar”, ou
19
os professores que “não sabem impor a disciplina”. Parece-me, no entanto, bem
mais importante procurar perceber as causas de certos comportamentos e
atitudes, que são certamente muitas e variadas, exteriores e interiores à escola, o
sentido de nelas intervir, prevenindo os fenômenos de indisciplina e da
agressividade.
A indisciplina e a agressividade manifestam-se de diversas formas na vida
de um estudante, e apesar da bagunça e do barulho não serem as únicas formas,
são elas as formas que mais se destacam na sala de aula. Pois quase sempre a
indisciplina passa a ser vista como um problema quando a sala começa “a pegar
fogo”, ou seja, quando sofrem influência no comportamento dos alunos e é
percebida na “bagunça”, no “barulho”, na “falta de atenção” e de forma mais
agravante na agressividade. Nessas horas, é que realmente a preocupação do
professor cresce e o faz pensar sobre a indisciplina do aluno.
Ações indisciplinadas na escola são traduzidas em comportamentos como:
empurrar e bater nos colegas, destruir ou pegar seus materiais e trabalhos, sair
dos seus lugares e da sala de aula com freqüência e sem permissão, pedir para ir
toda hora ao banheiro, conversar muito durante as explicações do professor,
dispersão ou negação em participar das atividades. Tais atitudes acima citadas
não violam as normas legais da sociedade, caracterizam-se por atos que afetam a
vida das escolas, mas estão longe de serem consideradas ações delinqüentes
e/ou patológicas. De acordo com Içami Tiba (1996, p.178) O exemplo é muito
importante na educação. Quem sabe fazer, aprendeu fazendo.
Na verdade, a indisciplina poderia ser percebida muito antes de tornar-se
um problema de comportamento como a bagunça ou a agressividade, que são
formas de expressão da total falta de respeito com os estudos. O não
acompanhamento das aulas já é um forte indício de indisciplina. Se os professores
partirem do princípio que todo aprendiz quer aprender (mesmo quando esta
vontade está escondida no consciente), então, pode concluir que o mínimo de
organização e disciplina o aluno apresente para alcançar o aprendizado. A
ausência de disciplina e a falta de organização nos estudos começam a aparecer
quando o aluno começa a perder essa vontade intrínseca de querer aprender, e
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com o passar do tempo tornar-se um enfado, ou seja, deixa de ser vontade e
passa a se quase um sacrifício.
Um mesmo ato indisciplinado acaba tendo a mesma conseqüência para
alguém que agiu pela primeira vez e para o reincidente. Apenas com o
desenvolvimento da capacidade cognitiva e com a experiência no grupo social é
que o adolescente começará a ser capaz de julgar o certo e o errado,
considerando as circunstâncias. Tudo isso para demonstrar que a caminho,
sedimentado com coerência, consistência e a intervenção sistemática da escola,
família e sociedade. Por isso a influencia da agressividade e da indisciplina no
processo de ensino-aprendizagem será mais bem trabalhada e superada com a
união de todos os responsáveis neste processo, tendo como objetivo principal a
formação integral do indivíduo.
2. AÇÃO DOCENTE FRENTE AO ALUNO INDISCIPLINADO
Atualmente começam a adquirir maior importância os problemas de
disciplina e convivência nos centros educativos, especialmente no período das
séries superiores do ensino fundamental. Sem perder de vista que esta
problemática faz parte de um momento de crise que invade nossas sociedades e
afetando instituições educadoras tradicionais como a família, e igreja e a escola,
entendemos a tal problemática pode ter um tratamento curricular indo além do
simples agravamento das medidas regulamentares punitivas. Como diz Içami Tiba
(1996, p.179) Um desrespeito aos pais pode ser relevado, aos professores já
implica em advertência, e às autoridades sociais, há punição.
A indisciplina e a agressividade constituem-se em um desafio para os
docentes, representa um dos principais obstáculos ao trabalho pedagógico,
demonstra a ausência de regras e limites por parte da criança. Necessitamos de
uma postura compartilhada em relação à indisciplina, investindo na prevenção. A
escola deve funcionar através de espaços e tempos geridos com critérios
adequados à participação e ao diálogo entre os alunos e destes com os
21
professores, onde o problema deve ser contextualizado, analisando as suas
causas profundas e favorecendo a mobilização de ações alternativas.
2.1 Preparo do professor para lidar com alunos-problemas
Estamos vivendo um momento de desafio em nossas escolas, assistimos
um aumento considerável da indisciplina e atos violentos, bem como as
preocupações de professores e pais em relação ao comportamento escolar dos
alunos, precisando ser mais bem refletido e enfrentado.
O problema é complexo e muitas vezes os professores buscam "receitas
prontas" que se revelam ineficazes quando aplicadas à situação concreta. Um dos
maiores problemas que o professor pouco experiente enfrenta é a criação de um
clima favorável à aprendizagem na sala de aula, onde se integra à análise de
situações indesejáveis e a gestão do comportamento do professor.
A disciplina escolar não consiste em um receituário de propostas para
enfrentar os problemas de comportamentos dos alunos, mas em um enfoque
global da organização e a dinâmica do comportamento na escola e na sala de
aula, coerente com os propósitos de ensino. [...] Para isso é preciso, sempre que
possível, antecipar-se ao aparecimento de problemas e só em último caso reparar
os que inevitavelmente tiverem surgido, seja por causa da própria situação de
ensino seja por fatores alheio à dinâmica escolar. (Gotzens, 2003, p. 22)
Precisamos incentivar comportamentos de trocas, diálogos, estimulando a
análise, criticando os alunos sobre situações variadas. Podemos evitar,
desencadeando situações de indisciplina. Para isso precisamos gerir
adequadamente a turma, levando em consideração que muitos vivem em
contextos familiares desestruturados. É, portanto, necessário incentivar as famílias
a acompanhar a educação de seus filhos.
Os professores não têm recebido formação inicial que lhes permita gerir de
forma eficiente os conflitos, torna-se necessário que a formação contínua
desenvolvida nas escolas proporcione uma reflexão pautada em subsídios
22
teóricos e autores recentes na área da educação, que possibilite uma intervenção
esclarecida. Cabe à escola impor regras de maneira coerente, prevenindo
tratamento desigual e trabalhando os conflitos emergentes. Precisamos entender
que a construção de uma nova disciplina é tarefa de todos, pais, alunos,
professores e comunidade, por meio de um planejamento participativo, que tenha
a ação de todos, de forma ética, lembrando que é um processo que vai se
construindo de forma gradativa e necessita de acompanhamento.
Segundo Juan Carlos Tedesco (Revista Nova Escola, edição nº156, out/02) É a
escola que deve ser autônoma, não a sala de aula. Isso faz com que a
responsabilidade diante dos resultados seja mais coletiva.
O professor precisa desempenhar seu papel, o que inclui disposição para
dialogar sobre objetivos e limitações e para mostrar ao aluno o que a escola (e a
sociedade) espera dele. Só quem tem certeza da importância do que está
ensinando e domina várias metodologias consegue desatar esses nós. De acordo
com a psicóloga e pesquisadora em educação Tânia Zagury (Revista Nova
Escola, edição nº149, jan./fev.02) Quando há relacionamento de afeto e um
professor atencioso, qualquer caso pode ser revertido em pouco tempo.
Acreditamos que esses alunos-problemas têm um por que e um para quê e
nós precisamos nos ajudar, porque sozinhos não conseguiremos ser uma escola
de fato. Uma escola que pensa na vida, partindo da vida das pessoas... Está na
hora de repensarmos o processo, a teoria que nos embasa, o currículo, a gestão e
o conselho escolar; de repensarmos se estamos apenas brincando de
democracia. Ser professor nunca foi uma tarefa simples. Hoje, porém, novos
elementos vieram tornar o trabalho docente ainda mais difícil. A disciplina parece
ter-se tornado particularmente problemática. Na escola são vistas como alunos
problemas, em casa como bagunceiras ou, dependendo do caso, distraídas. Essa
é a realidade de crianças com sintomas de inquietação, baixo rendimento escolar,
dificuldade nos relacionamentos, ansiedade, agressividade e resistência a receber
ordens.
Segundo Gadotti (1995), são necessárias algumas diretrizes básicas,
dentre as quais estão: a autonomia da escola, incluindo uma gestão democrática,
23
a valorização dos profissionais de educação e de suas iniciativas pessoais.
Oportunizar uma escola de tempo integral para os alunos, bem equipada, capaz
de lhe cultivar a curiosidade e a paixão pelos estudos, a curiosidade e a paixão
pelos estudos, a valorização de sua cultura, propondo-lhes a espontaneidade e o
inconformismo. Inconformismo traduzido no sentimento de perseverança nas
utopias, nos projetos e nos valores, elementos fundadores da idéia de educação e
eficazes na batalha contra o pessimismo, a estagnação e o individualismo.
O preparo e bom senso do professor é o elemento chave para que essas
questões possam ser melhores abordadas. A problemática varia de acordo com
cada etapa da escolarização e, principalmente, de acordo com os traços pessoais
de personalidade de cada aluno. De um modo geral, há momentos mais
estressantes na vida de qualquer criança, como por exemplo, as mudanças, as
novidades, as exigências adaptativas, uma nova escola ou, simplesmente, a
adaptação à adolescência. As crianças e adolescentes como ocorrem em
qualquer outra faixa etária, reagem diferentemente diante das adversidades e
necessidades adaptativas, são diferentes na maneira de lidar com as tensões da
vida. É exatamente nessas fases de provação afetiva e emocional que vêem à
tona as características da personalidade de cada um, as fragilidades e
dificuldades adaptativas.
Erram alguns professores menos avisados, ao considerar que todas as
crianças devessem sentir e reagir da mesma maneira aos estímulos e às
situações ou, o que é pior, acreditar que submetendo indistintamente todas as
alunas às mais diversas situações, quaisquer dificuldades adaptativas,
sensibilidades afetivas, traços de retraimento e introversão se corrigiriam diante
desses “desafios” ou diante da possibilidade do ridículo. Na realidade podem
piorar muito o sentimento de inferioridade, a ponto da criança não mais querer
freqüentar aquela classe ou, em casos mais graves, não querer mais ir à escola.
Rumo ao 3º milênio é imprescindível que vivenciemos o paradigma da inclusão
social, que objetiva uma sociedade para todos, incluindo a inserção escolar de
pessoas com diversos tipos de deficiências em todos os níveis de ensino. A escola
precisa se reestruturar para atender às necessidades de seus alunos, respeitando
24
e acolhendo todo aspecto da diversidade humana. Reconhecemos que é um
desafio. Um desafio necessário para o reconhecimento do aluno em potencial, que
exige uma nova postura pedagógica frente à relação desenvolvimento
aprendizagem. A partir de uma visão sócio-histórica que compreenda as
diferenças enquanto construções culturais, percebendo como lidar com o indivíduo
que se relaciona e expressa o movimento da sociedade em que vive.
Com algum preparo e sensibilidade o professor estaria mais apetrechado
do que os próprios pediatras, dispondo de maior oportunidade para detectar
problemas cruciais na vida e no desenvolvimento das crianças. Dentro da sala de
aula há situações psíquicas significativas, nas quais os professores podem atuar
tanto beneficamente quanto, consciente ou inconscientemente, agravando
condições emocionais problemáticas dos alunos. Os alunos podem trazer consigo
um conjunto de situações emocionais intrínsecas ou extrínsecas, ou seja, podem
trazer para escola alguns problemas de sua própria constituição emocional (ou
personalidade) e, extrinsecamente, podem apresentar as conseqüências
emocionais de suas vivências sociais e familiares. Como se sabe, a escola é um
universo de circunstâncias pessoais e existenciais que requerem do educador, ao
menos uma boa dose de bom senso, quando não, uma abordagem direta com
alunos que acabam demandando uma atuação muito além do posicionamento
pedagógico e metodológico da prática escolar. O tão mal afamado "alunoproblema",
pode ser reflexo de algum transtorno emocional, muitas vezes advindo
de relações familiares conturbadas, de situações trágicas ou transtornos do
desenvolvimento, e esse tipo de estigmatização docente passa a ser um fardo a
mais, mais um dilema e aflição emocional agravante. Para esses casos, o
conhecimento e sensibilidade dos professores podem se constituir em um
bálsamo para corações e mentes conturbados, essas crianças geralmente são
incompreendidas tanto em casa como na escola. Também costumam ser
marginalizadas e isoladas pelos colegas. Nesse caso, é importante que a escola
ofereça atendimento e acompanhamento personalizado, para estimular o
crescimento pessoal e social dessas crianças, educação deve ser uma parceria,
senão não funciona.
25
2.2 - Atitudes docentes para melhoria comportamental dos alunos
Quando imaginamos uma sala de aula, pensamos em um lugar onde os
alunos estejam em silêncio, prestando atenção ao professor, que está dando aula,
onde os alunos, quando querem perguntar, levantam a mão e só podem falar após
autorização do professor. Nessa relação valorizam-se mais o professor, como se o
ensino-aprendizagem partisse do mais sábio para o menos sábio, do mais
experiente para o menos experiente... E como vimos na relação na sala de aula
todos aprendem. E o professor deve principalmente aprender como se relacionar
melhor com seus alunos e desenvolver sua aprendizagem. Este desnível
provocado pela idéia de que o professor sempre sabe mais sobre tudo pode dar
maior poder ao professor. Esse poder, muitas vezes, gera alunos passivos, e
obedientes, mas pouco envolvidos no processo ensino-aprendizagem.
Sobre isso os conhecimentos da área de psicologia nos ensinam que:
É importante, na sala de aula, estabelecer uma relação que favoreça a
construção conjunta do conhecimento;
O professor é mediador no processo de aprendizagem e responsável pelas
condições para que ela ocorra;
O conhecimento prévio, trazido pelo aluno, deve ser valorizado e uti1izado
na construção do conhecimento.
O que notamos na relação professor-aluno é uma diversidade muito grande,
própria das diferenças existentes entre os sujeitos.
Mas, você pode perguntar: o que seria de uma sala de aula onde não
houvesse diferenças, onde todos pensassem iguais?
Provavelmente estaria comprometida a interação social responsável pelo
alargamento do conhecimento, pelo processo de ensino-aprendizagem.
A riqueza da aprendizagem está no fato de poder contar com cada aluno,
com colegas partilhando de experiências, de iniciativas, de potencialidades, onde
cada um atua com elemento formador do outro.
Um aluno que tenha uma auto-imagem negativa, que se considera um
fracassado, mesmo reconhecendo a sua dificuldade, provavelmente vai buscar
26
nas outras pessoas que estão ao seu redor responsabilidade pelo seu fracasso?
Dirá que o professor é chato, ou que a matéria não serve para nada ou mesmo
que os colegas é que são ruins. Esse aluno acaba por desenvolver
comportamentos problemáticos na sala de aula, ou torna-se indisciplinado.
Para lidar com a indisciplina, em primeiro lugar, é importante que o
professor garanta em sua relação com os alunos condições igualitárias de
participação, proporcionando diferentes contribuições para o processo de
aprendizagem. Na verdade, a questão da indisciplina ou da disciplina tem sido
muitas vezes utilizada para justificar práticas autoritárias por um lado e, de outro,
estimular uma espécie de domínio por parte os aluno, o que prejudica o projeto
pedagógico da escola.
Em segundo lugar, fazer da inquietação, da agitação e da movimentação
elementos que possibilitem o ato de conhecer. Transformar o que aparentemente
denominamos indisciplina em disciplina poderá estar construindo, na interação da
sala de aula, o surgimento da criatividade e o nascimento do novo.
Você pode observar que tanto o aluno “problema” como o aluno “excelente”
possuem uma característica comum, que é o querer se mostrar, ou tornar-se
visível. Eles se tornam visíveis, nos fazendo felizes ou nos fazendo sofrer. É
importante notar que, enquanto esses tipos de aluno aparecem mais, os outros
considerados “normais”, correm o risco de cair em uma zona sombria, do
esquecimento. Não podemos nos esquecer de que cada aluno é singular, único,
diferente do outro.
O fato de dar importância apenas aos aspectos considerados negativos ou
positivos do comportamento de um aluno pode fazer com que não prestemos
atenção na relação que estamos construindo com ele dia-a-dia. Essa postura
provavelmente fará com que evidenciamos uma prática muito comum, que é a
superficialidade com que a escola ou cada um de nós se relaciona com os outros,
com o saber e com a própria vida. Dessa maneira, aquilo que consideramos
problema, na nossa relação com os alunos, deve ser transformado em um
momento de reflexão sobre nossa prática, sobre as dúvidas que aqueles alunosproblema
fazem nascer em nós a respeito de nosso papel de professores27
educadores. Cabe então, ao professor, enquanto educador, participar da formação
de seus alunos, garantindo uma relação que evite que uns se calem, outros
apenas obedeçam e outros dominem, estabelecendo condições para a
colaboração, a compreensão mútua e uma boa comunicação.
A intervenção do professor é fundamental para que as interações sociais
que acontecem na sala de aula façam parte da formação de todos os que dela
participam. É importante fornecer aos alunos referencias que possibilitem uma
relação de confiança e respeito mútuo para que as questões afetivas, emocionais,
presentes no processo de aprendizagem, possam ser discutidas e ressignificadas.
O papel do professor é desafiador: estimular e mediar o conhecimento com
seus alunos. Para exercer esse papel, é necessário:
Que sejam criadas atividades que promovam reflexão coletiva
Que a relação professor-aluno seja parte do conhecimento a ser construído
na sala de aula,
Que sejam utilizados os recursos existentes em sua região, no
desenvolvimento de atividades pedagógicas que promovam a disciplina
necessária ao processo de aprendizagem.
O professor não pode esquecer que, antes de qualquer coisa é um agente
cultural, um pesquisador e um contínuo aprendiz. Como disse Guimarães Rosa:
“Professor é quem, de repente, aprende”, e em sua prática escolar ficam alguns
desafios, tais como:
Transformar os problemas identificados nas relações com seus alunos em
condições para se trabalhar a formação da cidadania.
Sair do lugar de autoridade detentora do saber e do poder, e aprender a
lidar com as indisciplinas presentes na sala de aula.
Possibilitar que as relações professor-aluno e aluno-aluno sejam uma
relação de confiança que dê conta das questões afetivas que permeiam o
processo de ensino-aprendizagem.
Resgatar, juntamente com seus alunos, o papel de autores que elaboram
escreve e constrói a história.
28
Realizar intervenções que propiciem aos alunos saber respeitar as
diferenças, estabelecer vínculos de confiança e uma prática cooperativa e
solidária.
Concordamos com o Mestre Paulo Freire, quando ele diz que a educação
sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda.
3. AÇÕES PREVENTIVAS DA INDISCIPLINA ATRAVÉS DE TEMAS
TRANSVERSAIS
A indisciplina e a agressividade representam um dos principais fenômenos
que geram dificuldades no contexto escolar. Esse fato vem se agravando de tal
forma que nem a escola, nem a família conseguem solucionar o problema. Tal
fenômeno é caracterizado de diversas formas, porém, as idéias acerca desse
tema estão longe de serem consensuais. Procuramos discutir os sentidos
atribuídos por alunos do ensino fundamental ao fenômeno “indisciplina e
agressividade escolar”, as causas que são consideradas por eles como geradoras
desse fenômeno e a avaliação das medidas que estão sendo tomadas para
resolver ou amenizar o problema. Partimos do pressuposto que, se desejamos
intervir na realidade educacional, devemos conhecer, de antemão, a forma como
os sujeitos que estão envolvidos nessa realidade compreendem os dilemas que
vivenciam e as alternativas de modificação dessa situação. Piaget (1977, p. 435)
define as normas morais "como regras racionais de acordo mútuo”. Uma norma é
boa quando satisfaz as "leis da reciprocidade" e para reconhecer se uma norma é
boa, a criança "terá de colocar-se numa perspectiva que se harmonize com outras
perspectivas.”.
Os sentidos atribuídos pelos alunos ao fenômeno refletem uma pluralidade
de terminologias. Não é um problema que poderá ser resolvido de forma isolada,
somente abrangendo a esfera escolar. Faz-se necessário uma aproximação maior
entre a escola, a família e as esferas públicas, como o conselho tutelar, as
promotorias de infância e de adolescência, as universidades (professores e,
29
principalmente, os acadêmicos que estão em formação em diferentes áreas),
visando um trabalho integrado, não apenas discutindo as dificuldades existentes
no contexto escolar, mas com a inserção desses novos olhares possibilitarem uma
ressignificação das formas e modelos de intervenção nesse contexto.
A prevenção não depende só da inteligência ou da quantidade de
informação recebida, mas do crédito dado a essa informação. (Içami Tiba, 1996, p.
189)
Em nossas atividades preventivas junto aos professores e aos pais de
diversas escolas, temos notado diversas queixas e inabilidades no que tange a
temática da disciplina de alunos, principalmente crianças e pré-adolescentes,
Educadores em geral, tanto professores quanto coordenadores e diretores, têm se
queixado bastante em função de falta de disciplina e comportamentos
inadequados de alunos nas salas de aulas e nas demais atividades educativas
realizadas nas escolas.
Inicialmente, convém destacar que os seres humanos são bastantes diferentes
uns dos outros e muito complexos. Assim, uma criança ou um pré-adolescente
apresenta diferentes comportamentos conforme o ambiente e a situação em que
se encontra. Muitas vezes, o aluno "excessivamente agitado" não se apresenta
assim em todos os ambientes. É bastante comum que surjam queixas realizadas
por professores de uma escola e que não apresentam respaldo de todos os
educadores da entidade. Há alunos que são agitados e inconvenientes para uns
professores e apresentam-se de forma bastante distinta em outras aulas. Restanos
avaliar se o fator que faz com que a falta de atenção e o comportamento
inadequado do aluno não provém do próprio comportamento do professor. “A
escola deveria ser um local de alegria para os alunos e também para os
professores (Snyders, 1996, p. 33)”.
Há professores que por terem dificuldades de lidar com a disciplina ou por
cansaço e desesperança na profissão, acabam elegendo alguns alunos para
bodes expiatórios. Assim, a responsabilidade por todos os problemas que possam
ocorrer durante as aulas, são sempre dos mesmos alunos. Cria-se assim um
grupo de alunos que são considerados como "terrivelmente agressivos” em geral
30
liderados por um líder que é visto como "muito maléfico" (segundo as expressões
usadas por professores).
Convém analisarmos que os professores, muitas vezes, não se encontram
bem preparados para lidar com a indisciplina e com os conflitos que possam surgir
de disputa de poder com os alunos. Ressaltamos não ser um bom caminho entrar
em choque direto com os alunos e tentar impor-se, apenas, de forma ditatorial.
Nunca é demais lembrar: autoridade e autoritarismo são conceitos muito distintos.
Além disso, há muitos professores que fazem questão de passar uma
imagem muito negativa, de alguns alunos ou mesmo de uma sala inteira, aos seus
colegas de profissão. Todos nós sabemos a influência que um pré-conceito pode
gerar em novas situações. Desta maneira, os novos professores já vão àquela
sala esperando lidar com uns "delinqüentes mirins", não dando chances para que
as novas relações entre educadores e alunos possam ser estabelecidas de
maneira distinta. De quem é a responsabilidade então? Infelizmente, dos adultos,
professores que não conseguem lidar com as dificuldades docentes e que passam
a influenciar os colegas de profissão em sua "cruzada pelo bom comportamento",
contra as crianças.
Não estamos falando que os alunos em questão sejam fáceis ou anjinhos e
os professores os únicos culpados, muitas vezes, a proposta educacional, ou seja,
o plano pedagógico da escola não dá margem ao diálogo. Os alunos nunca têm
voz ativa e pouco participam de decisões. Assim, os alunos mais "sensíveis" (de
acordo com uma visão que tenta ser politicamente correta de alguns educadores,
mas que reforça o preconceito) reagem negativamente, causando boicotes e
tornando-se inadequados. Os educadores, por sua vez, não podem usar
criatividade e tentar incluir, da melhor maneira possível, os alunos tidos como
"problemáticos" em suas aulas.
Evidentemente, os alunos devem aprender desde a mais tenra infância a
abrir mão, em alguns momentos, da realização direta de seus desejos, para que
possam estar em grupo e viver numa comunidade (no caso as classes de aula).
Todavia, um dos papeis de educador não é exatamente o de possibilitar esse
31
crescimento e amadurecimento para as relações pessoais por parte dos alunos?
O que ocorre que impede essa realização?
Alguns dirão que a educação e os ensinamentos de limites são papeis das
famílias. Têm razão os que assim pensam. Acontece que as famílias têm tido
pouco tempo e não conseguem exercer o seu papel de educação das crianças.
Além disso, a televisão ainda exerce uma influência negativa no que tange à
aquisição de limites pelas crianças. Então, o "problema" estoura na escola, dentro
e fora das salas de aulas.
Indisciplina, agressividade, inquietação e mau-humor são sintomas que
podem indicar problemas psicológicos de crianças e adolescentes, como no caso
da hiperatividade e de outros transtornos psíquicos apresentados por alguns
alunos.
Entretanto, antes de mandarmos "todos os alunos de um determinado
grupinho" aos divãs de psicólogos, devemos analisar se os problemas não estão
mais relacionados aos adultos, à equipe de educadores das escolas, enfim, ao
plano pedagógico e às relações estabelecidas pelos adultos e os seus alunos.
"Devemos ser como os geógrafos, que sobem à montanha para conhecer a
planície e descem à planície para melhor ver a montanha” (Napoleão Bonaparte).
Sabemos a importância de uma análise da equipe e de qualificações
constantes para melhor desempenhar o papel de educadores. A reciclagem é uma
das principais ações que as escolas deveriam ofertar aos seus profissionais
(incluindo os funcionários que, diga-se de passagem, exercem importantes papeis
de educadores). Enfim, a questão da disciplina e dos relacionamentos entre
professores e alunos não deixa de ser um tema de Educação Preventiva. Assim,
deve estar em constante pauta de trabalho e aperfeiçoamento pelas equipes
docentes das entidades de ensino. “Lutar pela alegria na escola é uma forma de
lutar pela mudança no mundo” (Snyders, 1995, p.10).
32
3.1 Abordagens dos temas transversais
Entre as medidas que deveriam ser adotadas em uma escola para enfrentar
os problemas de convivência, sem renunciar por isto aos princípios de
compreensividade e de escola educadora, está à medida de dar maior ênfase aos
aspectos preventivos do que aos meramente punitivos. Entre as medidas
preventivas está a criação de um currículo que seja negociado com os interesses
dos alunos, para o qual uma via adequada e ao alcance dos nossos sistemas
educativos é a de trabalhar com os temas transversais, que se trata apenas de
desenvolver a declaração retórica de todos os sistemas educativos de perseguir
uma educação integral das pessoas, tais como:
a) Educação para a paz: como tema que promove o valor-meta
desenvolvendo o conhecimento, as atitudes e as destrezas para a solução
dialogada, não-violenta dos conflitos interpessoais, tão freqüentes em
coletividades onde convivem pessoas diferentes.
b) Educação emocional: um tema transversal visando uma questão que
está muito relacionada aos problemas de convivência, especialmente na
adolescência, como o controle das próprias emoções, o respeito e a atenção às
emoções dos outros.
c) Educação intercultural: perante o fato de que, de forma crescente,
nossas salas de aula vão se tornando cada vez mais multiculturais, às vezes
surgem conflitos derivados da falta de tolerância e de assunção de valores
xenófobos aprendidos fora da escola. Uma educação intercultural promoverá um
maior conhecimento e integração de outras culturas, promovendo a noção de
enriquecimento mútuo.
d) Educação democrática: devido a que grande parte da atitude violenta
ou indisciplinada de determinados alunos representa uma ponta de iceberg de
mal-estar, pela imposição autoritária de normas por parte da instituição escolar.
Diante disto, a educação democrática promoverá a participação a partir do
estabelecimento das próprias normas de convivência e seu controle, até o
33
planejamento do currículo no contexto de uma negociação que leve em
consideração as exigências da sociedade e seus próprios interesses.
e) Educação moral: como transversal de todos os temas, uma vez que
promove a reflexão e o julgamento moral em torno de determinadas situações
dilemáticas que estão presentes no desenvolvimento de todos os temas. Procura
melhorar o conhecimento dos valores-meta e o desenvolvimento de uma ética
pessoal para se movimentar em sociedade.
Assim através destes temas transversais, será mobilizada uma série de
estratégias-chave para a prevenção da disciplina nos centros comunitários e nas
escolas: o trabalho cooperativo, a participação, ações solidárias etc., tudo isso
dentro de um clima comunitário, no qual a ação da Coordenação será primordial.
Isto pressuporá tomar medidas em diferentes escalas. Se seguirmos uma ordem
dedutiva (desde o geral até o particular) devemos começar por entrar em
consenso em nível de comunidade educativa (conselho escolar) sobre os valores–
meta relacionados com a pacificação do centro (não-violência, democracia,
tolerância, controle, respeito etc.), transformando-os em finalidades educativas e
selecionar os temas transversais para que melhor sejam desenvolvidos. Também
devem ser tomadas decisões organizacionais que promovam um clima propício no
centro e nas salas de aula: diálogo, tolerância, igualdade, e principalmente,
participação. O Departamento de Orientação é adequado para coordenar pelo
menos dois destes temas transversais: a educação democrática e a educação
emocional. A primeira começará promovendo a compreensão e elaboração de
normas de convivência, através das Coordenações, criando comissões de
convivência para o controle democrático dos problemas de convivência,
dispositivos de participação (por exemplo, assembléias) etc. A educação
emocional, que requer uma formação psicológica mínima, deverá ser
impulsionada pelo orientador, porém suas estratégias devem ser desenvolvidas
por coordenadores e professores de turmas.
Há um ditado chinês que diz que, ‘se dois homens vêm andando por uma
estrada, cada um carregando um pão, e, ao se encontrarem, eles trocam os pães,
cada homem vai embora com um; porém, se dois homens vê andando por uma
34
estrada, cada um carregando uma idéia e, ao se encontrarem, eles trocam as
idéias, cada homem vai embora com duas’. Quem sabe é esse mesmo o sentido
do nosso fazer: repartir idéias, para todos terem pão... (Cortella, 1998, p. 159).
Os demais temas transversais poderão ser integrados em unidades
didáticas centradas em determinadas temáticas acordadas com os alunos e que
solicitem a contribuição de conhecimentos e destrezas das diferentes disciplinas.
Isto pode supor a reorganização dos horários tradicionais, para garantir blocos de
horários mais longos do que os módulos tradicionais, nos quais se pode trabalhar
um tema integrado de uma maneira mais continua. Esta proposição não
pressupõe eliminar as disciplinas acadêmicas, mas os seus conteúdos e destrezas
serão utilizados no momento em que sejam requeridos e não quando solicitado
pela estrutura e lógica disciplinar. Ao mesmo tempo, as disciplinas disporão de
alguns tempos exclusivos para abordar com maior dedicação àqueles temas que
não tenham sido abordados ou que solicitem uma abordagem mais detalhada
devido às suas complexidades. Trata-se, pois, de um currículo integrado em torno
de valores-meta e desenvolvido através de eixos transversais, sob o prisma da
educação integral.
O professor desempenha neste processo o papel de modelo, guia
referência (seja para ser seguido ou contestado); mas os alunos podem aprender
a lidar com o conhecimento também com os colegas. Uma coisa é o conhecimento
“pronto”, sistematizado, outro, bem diferente, é este conhecimento em movimento,
tencionado pelas questões da existência, sendo montado e desmontado
(engenharia conceitual). Aprende-se a pensar, ou, se quiserem, aprende-se a
aprender. (Vasconcellos, 2001, p.127)
35
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Escolhemos este tema para contribuir com uma aprendizagem de qualidade
partindo do pressuposto de que não existe qualidade em um ambiente de
indisciplina e agressividade. Faz-se necessário buscar novos caminhos que levem
a família, a equipe pedagógica, os professores e os alunos a assumirem o seu
verdadeiro papel neste processo.
O problema da indisciplina e agressividade tem constituído em um desafio
para a escola, pois muitos alunos não respeitam seus professores, e essa
indisciplina prejudica o ensino e a aprendizagem. Professores e orientadores têm
dificuldade em estabelecer limites na sala de aula e não sabem até que ponto
devem intervir em comportamentos inadequados que ocorrem nos pátios
escolares. È preciso recuperar a autoridade fisiológica, o que não significa ser
autoritário cheio de desmandos, injustiças e inadequações. As instituições de
ensino, cuja tarefa é introduzir as crianças nas normas da sociedade, muitas
vezes se omitem. O professor também perdeu a autoridade inerente a sua função.
Quanto maior a perda, mais anárquica torna-se a aula. É essencial aos agentes da
educação saber estabelecer limites e valorizar a disciplina, e para isso é
necessária à presença de uma autoridade saudável.
Tendo em vista as dificuldades de aprendizagem causadas pela indisciplina
e agressividade é que desenvolvemos nosso tema, visando entender qual a
relação entre aprendizagem e indisciplina em sala de aula, pois toda indisciplina é
gesto de desinteresse e todo desinteresse se encarcera quando não existe
significação da aula. E nenhuma aula é realmente significativa, quando não existe
busca para a consciência da aprendizagem. O grande desafio da sociedade
moderna é a educação.
36
REFERÊNCIAS
AQUINO, Julio. Groppa. (Org.), Indisciplina na escola: alternativas teóricas e
práticas. 3ª Edição, São Paulo, Editora Summus, 1996.
CORTELLA, Mario Sergio. A escola e o conhecimento: fundamentos
epistemológicos e políticos. São Paulo, Editora Cortez, 1998.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário Aurélio. Rio de Janeiro,
Editora Nova Fronteira, 1986.
FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. 4ª Edição, Rio de
Janeiro, Editora Paz e Terra, 1974.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Editora Paz e Terra 1970, 23ª Edição,
1996.
GADOTTI, Moacir. Pedagogia: diálogo e conflito. 4ª Edição, São Paulo, Editora
Cortez, 1995.
GOTIZENS, Concepcion. A disciplina escolar: prevenção e intervenções nos
problemas de comportamento. 2ª Edição, Porto Alegre, Editora Artmed, 2003.
PIAGET, Jean. O julgamento moral na criança. São Paulo, Editora Mestre Jou,
1977.
ROGERS, Carl Ransom. O tratamento da criança problema; [tradução Urias
Corrêa Arantes; revisão Laura Villares de Freitas]. – São Paulo, Martins Fontes,
1978.
37
SNYDERS, Georges. Alunos felizes: reflexão sobre a alegria na escola a partir
de textos literários, Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, 1996.
SNYDERS, Georges. Feliz na universidade: estudo a partir de algumas
biografias. Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, 1995.
TIBA, Içami. Disciplina, limite na medida certa. São Paulo, Editora Gente, 1996.
VASCONCELLOS, Celso dos Santos. Disciplina: construção da disciplina
consciente e interativa em sala de aula e na escola. São Paulo, Editora
Liberdade, 2000.
VASCONCELLOS, Maria Lúcia M. Carvalho (Org.). (In) Disciplina, Escola e
Contemporaneidade. São Paulo, Editora Mackenzie, 2001.
Sobre o Autor
Sou estudante do 2º ano de Pedagogia da Universidade Positivo, localizada na cidade de Curitiba. Gosto
muito de escrever sobre temas importantes na educação.

À beira do caos
Sabe aqueles momentos em que você acha que perdeu o controle sobre a
turma? Calma, todos já passaram por isso. E sempre tem uma solução

Daniela Almeida (Daniela Almeida)


Ilustração: Thais Beltrame

Tudo estava planejado: você iniciaria o dia com a roda de conversa e, depois, desenvolveria
atividades artísticas. Os pequenos fariam desenhos, sentados nas carteiras, até a hora do recreio.
De repente, um tumulto, uma agitação. Em segundos, eles corriam de um lado para o outro,
gritando, chorando, chamando por você. Que desespero! Você pede a atenção de todos, mas o
barulho é tamanho que ninguém escuta a sua voz pedindo silêncio. O que fazer? Gritar também?
Sair correndo? Sentar e chorar?

Nessas ocasiões, somente calma, jogo de cintura e conhecimento sobre as causas da desordem
ajudam a encontrar a melhor saída. NOVA ESCOLA ouviu cinco professoras que ficaram à beira
de um ataque de nervos. Especialistas comentam os episódios, explicando os motivos que
levaram à desordem, dão dicas de como agir e indicam a melhor maneira de evitar que episódios
desse tipo se repitam.

1 "Vou ficar sem chocolate"


Um caso de contágio emocional

- OS FATOS "Perdi o controle da classe em uma situação bastante inusitada. Uma garota foi
viajar com a família no período de aulas e prometeu aos colegas que traria chocolates para todos
na volta. A turma de 4 anos aguardou ansiosamente o retorno. No dia em que a viajante chegou,
estávamos sentados no chão, terminando uma roda de conversa. Ela apareceu na porta, com
uma enorme caixa enfeitada.

As crianças ficaram hipnotizadas. Peguei o pacote e comecei a distribuição, mas a garotada


avançou. 'Também quero!' 'Tem pra mim?' 'Eu vou ficar sem!' Coloquei a caixa em uma
prateleira e avisei que comeríamos chocolate apenas na hora do lanche. Tentei organizar a
classe, sugerindo que a menina contasse sobre a viagem. Foi tudo em vão. A euforia não acabou,
as crianças continuaram nervosas e não consegui fazer mais nada."
Marta Rosa, Escola Miguilim, São Paulo, SP

- O QUE ACONTECEU? Essa é uma manifestação característica de contágio emocional. Ela


ocorre quando um determinado fato desencadeia fortes emoções em um grupo. O filósofo e
médico Henri Wallon (1879-1962) atribui significativa importância à reação coletiva no âmbito
da Educação. Ele afirma que a emoção cria uma relação imediata entre os indivíduos, apontando
para a união e para a cooperação (nos casos positivos) e para o conflito (nos negativos). Lino de
Macedo, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), destaca que,
no caso de Marta, houve dissonância entre o critério da professora e o dos pequenos. A primeira,
como adulto que é, julgou o fato com racionalidade, levando em conta que existe hora certa para
comer chocolate, conversar e brincar. Já as crianças queriam atender a seus desejos e fazer o
que é mais agradável no momento.

- O QUE FAZER? Como é difícil para os pequenos controlar emoções e reações, a melhor
atitude é tentar conciliar os interesses do grupo. "A professora poderia ter distribuído a
guloseima ao mesmo tempo em que a garota contava sobre os lugares visitados", sugere Macedo.

- COMO EVITAR? Em casos de emoções descontroladas, a melhor solução é deixálas fluir, em


vez de tentar abafá-las com regras que ainda não foram discutidas pelos pequenos (portanto,
desconhecidas), e propor uma alternativa para que os desejos sejam atendidos.

2 "Ops... Caiu..."
Típico teste de limites

- OS FATOS "Eu já era professora há oito anos e, apesar disso, passei um sufoco danado
quando precisei lidar com um menino de 3 anos que me testava o tempo todo. Havia na sala
uma bancada repleta de brinquedos. No meio das atividades, ele se levantava, colocava a mão
sobre o móvel e me lançava um olhar desafiador, ameaçando derrubar tudo no chão. Não dava
outra: era só eu falar que não podia para ele colocar tudo abaixo. Eu ou a assistente
reorganizávamos o espaço. Uma vez, fiquei a seu lado até que ele mesmo arrumasse a bagunça.
Mas, quando estava quase terminando, o garoto derrubava tudo novamente. Nesse dia, não
demorou muito para as outras crianças se agitarem, falando alto, puxando e empurrando uns
aos outros. Percebi que elas também queriam a minha atenção. Pedi, então, para a auxiliar levá-
las ao parque até a hora da saída. Já o menino permaneceu meia hora a mais na sala, mas
colocou todos os brinquedos no lugar."
Thais Silva, Escola Baby Mel, Salvador, BA

- O QUE ACONTECEU? A criança estava claramente testando limites. A percepção do que


pode e do que não pode só é incorporada pelos pequenos aos poucos. Experimentar para saber
até onde chegar com suas atitudes é uma ferramenta natural de aprendizado. Por volta dos 3
anos, a criança inicia a descoberta do outro e, nessa fase, ela precisa também saber até onde
pode ir em relação a ele. Um caso como o descrito também pode ser interpretado como uma
maneira de disputar poder com o adulto. Mas existe outro aspecto a ser ressaltado: o valor
"ordem" está construído apenas na cabeça dos adultos. Na perspectiva da criança, a bagunça
significa uma possibilidade de exercer a criatividade. Quando ela desarruma a prateleira, tem a
possibilidade de descobrir diferentes formas e caminhos para organizar os brinquedos.
- O QUE FAZER? Quando os limites são colocados à prova, a criança não pode ganhar. Do
contrário, terá a certeza de que está comandando a situação. A sanção por reciprocidade (termo
usado por Jean Piaget [1896-1980] para caracterizar punições que têm por finalidade reparar o
dano causado) aplicada pela professora foi correta: desarrumou, tem de arrumar. É também
uma forma de a criança se redimir pelo que fez.

- COMO EVITAR? Sempre haverá crianças que necessitam de atenção mais individualizada em
alguns momentos. "Aliás, este conflito diário acontece em todas as escolas: como atender o todo
e cada um ao mesmo tempo?", reflete Lino de Macedo. Por isso, é importante ter sempre dois
educadores em sala para um dar cobertura ao outro.

3 "Eu também quero..."


O caso da classe (des)organizada

- OS FATOS "Durante a Semana do Livro na escola, uma das atividades programadas para a
minha turma era montar uma maquete do Sítio do Picapau Amarelo. Como nem todas as
crianças se interessaram, realizei o trabalho com apenas algumas. Às outras, sugeri que lessem
ou brincassem. Assim que abri o primeiro pote de tinta para pintar a base da estrutura, quem
havia ficado de fora foi se aproximando. O burburinho aumentou quando os personagens
começaram a surgir dos recortes no papel-cartão. Todos queriam participar, mas não havia
material. Parei tudo, coloquei a maquete no meio da sala e fui relembrando as histórias de
Monteiro Lobato. Só assim conseguimos terminar o projeto."
Rosiane Perovano, EMEI Teresita Borrini Farina, João Neiva, ES

- O QUE ACONTECEU? A classe foi dividida em dois grupos, porém os objetivos de um não
estavam relacionados à atividade principal, para a qual havia mais dedicação da professora.

- O QUE FAZER? Para Zilma de Oliveira, professora de pós-graduação da Faculdade de


Educação da USP, uma vez estabelecida a situação, impedir que parte da turma entre na
atividade significaria adotar uma postura autoritária e, novamente, excludente. "Nessas horas, é
preciso ter flexibilidade para acolher os que ficaram de fora e rapidamente reorganizar a classe,
como fez a professora."

- COMO EVITAR? A situação relatada poderia não ter ocorrido se tivessem sido adotados
critérios didáticos durante a organização da classe. A divisão das crianças em grupos para a
realização de diferentes tarefas não é um problema em si. Porém todas precisam estar
relacionadas ao mesmo objetivo. O psicólogo espanhol César Coll, professor da Universidade de
Barcelona, aponta que em atividades em grupos o professor precisa ficar atento às condições de
trabalho. Isso inclui cuidar da composição das equipes e da distribuição de tarefas, dar as
instruções iniciais, explicar o que será feito, construir possibilidades de interações entre os
grupos e, principalmente, fazer com que todos participem do resultado final coletivo.
4 "Foi ele quem começou!"
Briga entre os pequenos

- OS FATOS "Quando eu trabalhava com uma sala de 5 anos, costumava ter como primeira
atividade do dia uma roda de conversa. Às segundas-feiras, falávamos sobre o fim de semana.
Naquele dia, todos chegaram muito agitados e, nem bem iniciamos o bate-papo, duas crianças
começaram a se provocar. Achei que não ia dar em nada e continuei a ouvir os outros. Mas a
briga iniciou rapidamente e a turma se dividiu em duas torcidas. Eu e a outra professora
seguramos os 'brigões' e, quando tudo se acalmou, sugeri que fôssemos ao parque extravasar."
Maricélia Rocha, CEI Grão da Vida, São Paulo, SP

- O QUE ACONTECEU? As brigas nessa idade estão ligadas a padrões de sociabilidade. As


crianças observam que muitos adultos resolvem os conf litos usando a força física e acabam
adotando esse comportamento por observação.

- O QUE FAZER? Depois de separar os envolvidos na briga do resto do grupo, é importante


esperar que eles se acalmem para depois conversar individualmente, incentivando-os a expor os
próprios sentimentos e a ref letir sobre os dos outros. Na maioria dos casos, agressões físicas ou
verbais são algumas das maneiras que os pequenos têm para se expressar. Uma conversa com os
dois juntos é essencial, assim como a discussão posterior com a turma toda reunida, mostrando
que os conf litos acontecem (dentro ou fora da sala) e não devem ser encarados como algo
anormal. Existem, porém outra maneira de resolvê-los.

- COMO EVITAR? É preciso ficar atento a esse tipo de situação e isolar as crianças antes que o
conflito se espalhe para o resto da classe. Além disso, o episódio rende assunto para uma
próxima roda de conversa sobre, por exemplo, atitudes amistosas entre os colegas e dificuldades
no convívio. "Manter um bom relacionamento é difícil para todo mundo. Imagine, então, para
quem tem 5 anos", diz Zilma de Oliveira.

5 "O que eu faço agora?"


Quando o planejamento dá errado

- OS FATOS "Sou professora de uma turma de 4 anos e conto com a ajuda de uma auxiliar.
Certo dia, ela se ausentou para ir ao médico. Como ficaria sozinha durante um longo período
depois da hora do recreio, quando os pequenos voltam bem agitados, organizei uma atividade
que, na minha opinião, seria bem tranqüila: finalizar um trabalho de arte iniciado na semana
anterior. Quando as crianças já estavam de volta à sala, fui procurar os desenhos e não os
encontrei. Enquanto buscava desesperadamente o material, pedi que a turma pegasse os gibis e
livros que tínhamos espalhados pelos cantos, o que não estava programado. Os pequenos
ficaram muito confusos e em pouco tempo estavam em polvorosa. Bateu aquele desespero!
Coloquei-os em roda e sugeri cantar uma música mágica: a música do silêncio. Foi a salvação!"
Mariana Cardoso, Escola Espaço Nossa Casa, São Paulo, SP
- O QUE ACONTECEU? A falta de organização antecipada dos materiais e de um plano B
foram os motivos do tumulto. As crianças se sentiram desorientadas porque provavelmente não
tinham o hábito de usar livros e gibis em sala - a atividade que foi sugerida. A professora ainda
teve de lidar com o próprio emocional, que estava abalado: a inquietação dela certamente foi
percebida pela garotada, e um nervosismo alimentou o outro. Junte-se a isso os elementos de
frustração da professora, e está instalado o caos.

- O QUE FAZER? Apesar de não estar preparada para um contratempo, uma vez que o tumulto
foi instaurado, a professora conseguiu ref letir e agir corretamente. Ao propor uma atividade
envolvendo música e canto, ela começou a mudar a atmosfera emocional não apenas das
crianças, mas principalmente a dela, o que também ajudou a estabelecer novamente a calma e a
reorganizar tudo.

- COMO EVITAR Heloísa Dantas, professora da Faculdade de Educação da USP, alerta: estar
preparada para a sala de aula significa não só ter o planejamento em mãos, antecipando
possíveis contratempos, mas também ter o ambiente arrumado com antecedência. E nem tudo
precisa ser resolvido pelo professor. Uma possibilidade é familiarizar as crianças com um espaço
planejado para que elas tenham autonomia e atuem de maneira exploratória em qualquer
situação, mesmo as não previstas ou combinadas.