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Os Nomes do Compadre

A palavra pomba-gira pode ter sido uma corruptela de Exu.

Sete Encruzilhadas, Gira Mundo, Pinga Fogo, Pomba-gira, Tranca Rua. Na Umbanda, o
Orixá mensageiro recebeu diversos nomes. Nessa religião todos os Orixás tem uma
nomenclatura de direita e outra de esquerda, representadas pelos Exus. Quando um
médium se desenvolve, sempre se apresentam as duas linhas de cada vibração. E cada
uma delas recebe uma denominação.

Isso vai depender da linha que a Umbanda tem já que também temos a chamada linha
Oriental, onde existe um trabalho maior com o povo Cigano e que não trabalham com
Orixás como base e sim com as cores do arco-íris.

As pombas-gira, nesse caso, são os Exus ligados a Iemanjá. Assim só as recebe quem for
ligado à deusa do mar.

Isso não procede. Vários médiuns não ligados a Iemanjá têm perfeita incorporação com
Pomba-gira. Inclusive todos os médiuns têm pomba-giras, apenas algumas delas se
recusam a trabalhar incorporada em corpo de homens.

“Na linha ritual de alguns cultos, o nome de Exu é Bongbogirá”, diz Reginaldo Prandi da
USP. “Assim pomba-gira pode ter sido uma corruptela de Bongbogirá”.

Isso é provável, pois realmente os cultos bantos denominam o seu mensageiro de


Bongbogirá.

Conhecedor das Trevas


O Espírito do Orixá pode ser agradado com charutos e velas.

Enquanto no Candomblé Exu tem um papel de destaque, na Umbanda o deus de falo


ereto perdeu o posto de divindade.
“Exu continua sendo mensageiro, mas não é mais um Orixá. Ele assume a forma de uma
entidade, de um egun, de um espírito humano desencarnado”, diz Vera Franco, diretora
espiritual do Templo de Umbanda Fonte de Luz, em São Caetano do Sul.
Não que Exu não tenha importância, muito pelo contrário. Sua função é ajudar em tarefas
que não podem ser realizadas pelos deuses africanos. “É um profundo conhecedor dos
planos das sombras e das trevas, atuando nessa zona onde se agitam almas revoltas e
envolvidas ao mal”, afirma Vera. Quando há um problema muito grande e grave, é Exu
quem se apresenta para agir em esferas em que a energia dos Orixás não pode entrar,
mas sempre para o bem. Carinhosamente tratado como compadre, Exu é amigo intimo,
presente para proteger seu adorador. Mas que não se enganem, que a entidade tem lá
seus melindres. Para homenageá-lo na Umbanda, não podem faltar marafo, azeite de
dendê, velas, flores, charutos, fitas, cigarros e água.

Oferendas na Encruzilhada
Cada encontro de ruas pertence a uma entidade diferente.

Como senhor dos caminhos, todos os exus de umbanda são donos das encruzilhadas, local
em que as homenagens ao seu guardião devem ser depositadas.
“É o lugar onde os humanos se ligam à entidade”, diz Vera.
Dependendo da forma e da localização da encruzilhada, ele pode pertencer a um exu em
particular. Todas as encruzilhadas em forma de T são domínios das pomba-giras. Já as
encruzilhadas em T em que cada uma das ruas que a forma também nasce de caminhos
em T, é onde reina o maior dos Exus Femininos, chamado de Rainha.

Exus e Pomba-gira
O Orixá serviu de inspiração para batizar entidades da quimbanda.

A quimbanda é uma religião que surgiu de dentro da umbanda no fim do século 18.

A Umbanda nasceu no século 20, como a quimbanda poderia sair dela no século 18?
Improvável.

Adota como rituais o sacrifício de animais e a prática do vodu.

Mas enquanto na Umbanda os médiuns se conectam com caboclos e pretos-velhos, na


quimbanda se comunicam com exus e pomba-gira (exus femininos).

Toda a Umbanda trabalha com a linha de quimbanda, pois os Exus são desta linha.

Nesses terreiros, o Orixá serviu de inspiração para denominar entidades despudoradas e


agressivas, que falam palavrão e dão gargalhadas durante a possessão dos médiuns. De
moral duvidosa costumam chegar à meia-noite, os exus com as mãos em garra e gírias de
bandido, as pomba-giras com trajes vaporosos nas cores vermelho e preto, rosa vermelha
nos cabelos e trejeitos de prostituta.

Isso também existe em Umbandas menos cristianizadas e doutrinárias.

Para o historiador Mário Sá da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, o que se


busca na quimbanda é a solução de problemas mundanos. Pomba-giras e exus são
instituídos no terreiro para resolver questões como falta de apetite sexual, trapaças e
paixões proibidas, algo que nunca seria discutido com guias de moral, como os pretos-
velhos e caboclos de umbanda.

Texto Retirado da Coleção Divindades Afro-brasileiras – Revista Super Interessante


Observações de Racquell Narducci