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CHAUÍ, Marilena. Brasil: Mito fundador e sociedade autoritária.

São Paulo: Fundação


Perseu Abramo, 2000.

Chauí começa seu texto apontando situações de orgulho, nacionalismo e positividade que
emana do povo brasileiro quanto ao seu próprio país. A autora, posteriormente, denuncia que
tal representação é usada para maquiar a negatividade que assola o Brasil. Isso tudo,
segundo Chauí, acontece graças a um mito fundador que é criado.

São explorados os conceitos de semióforo ao longo da história até chegar a seu significado
atual — objeto provido de grande significação e valor simbólico, geralmente cultuado, um
signo direcionador — e é dito que, apesar do capitalismo que sufoca qualquer força subjetiva,
ainda existe por ser um meio de poder, prestígio, controle e manutenção das crenças,
convenções e instituições sociais. Entre os semióforos criados pelo poder religioso e
econômico, Chauí enfatiza aqueles produzidos pelo poder político. O principal desse é a
invenção da nação, que dá à divisão econômica, social e política o sentido de unidade, sem
divisão.

O histórico do termo começa a partir de 1830, com o princípio de nacionalidade, relacionado


ao território e língua. Seguia-se o processo em 1880, com o mote de ideia nacional, ligado à
raça, religião, cultura e espírito do povo, continuando pelo período de 1918 a 1960, que
ocorreu a questão nacional, referindo-se à consciência nacionalista — o sentimento de pátria
durante eventos esportivos como a Copa do Mundo e Olimpíada —. O nacionalismo, segundo
Chauí, ainda possui força porque ele é confundido com a classe social, apagando as
discussões sobre desigualdade econômica e social.

A filósofa, em certo momento, aponta que, com a criação da nação, houve a transição do
“caráter nacional” para a “identidade nacional”, isto é, da ideologia que parte do interno e
fatalista para uma ideologia que parte do externo, lacunar e que depende das diferenças, com
os dois extirpando a consciência de classe dos indivíduos. Após isso, conclui o capítulo
afirmando que “Brasil 500” é um semióforo historicamente produzido.
Em “O Verdeamarelismo”, Chauí foca no Brasil e define o verdeamarelismo como uma
ideologia que colocava o país como “essencialmente agrário”, com riquezas e bens naturais.
No entanto, o país se relacionava com uma vertente extremamente colonial capitalista, se
caracterizando como colônia de exploração e voltada para o mercado externo e propriedade
escravista. A classe dominante pregava que o progresso estava na exploração dos recursos
naturais, pois, assim, se geraria cada vez mais lucro. Esse era verdadeiro, mas não voltava a
ser investido no próprio país, mas sim colaborava para uma maior separação entre as classes
através do investimento no mercado imobiliário e consumo de bens de luxo por parte da
classe dominante.

Mesmo com a crítica dos modernistas e ISEB, que buscavam mudar a imagem de um país
agrário para um país industrializado, e dos adeptos ao Tropicalismo, que clareavam a luta de
classes, o verdeamarelismo se fez maciço frente a isso, pois a industrialização não prevalecia
no Brasil, além do Estado trabalhar o verde-amarelo pela “questão nacional”.

Chauí, em “DO IV ao V Centenário”, continua a dissertar sobre o mito fundador, porém agora
focando na obra “Porque me ufano do eu país”, de Afonso Celso, o qual confirma o mito
fundador, colocando a grandeza territorial, a beleza e riqueza natural, o esforço e trabalho do
brasileiro, a ausência de calamidades, o sentimento de independência, hospitalidade, a
tolerância ou ausência do racismo e um Brasil sem nenhuma derrota em guerras como
motivos para o ufanismo.

No capítulo “Mito Fundador”, é apontado que o Brasil e até a própria América, segundo a
escritora, são invenções históricas e culturais feitas a partir de uma “visão do paraíso”, de
uma história teológica e uma figura jurídico-teocêntrica da figura do governante. Chauí diz que
a imagem idealizada do Brasil como paradisíaco era usada como forma de ocultação da
escravidão, que era justificada por uma ordem natural vinda de Deus de que havia certa
hierarquia, sempre alguém sendo subordinado ao superior.

Quanto à história, ela possui duas versões: a providencial, pensada pela classe popular e na
qual a própria história já estaria escrita, esperando apenas por alguém ou algo concretizá-la,
e a profética e milenar que, produzida pelas classes dominantes, apresenta uma história
prometida que seria realizada pelos indivíduos justos e pelos santos. Nas duas, a vontade de
Deus prevalece, tornando a história totalmente teológica.

A autora finaliza o capítulo descrevendo o papel do governante, que é trazido para o tempo
contemporâneo, no qual o populismo se faz muito presente no Brasil. Assim como no
absolutismo, os que governam representam o Estado e não os governados, criando uma
relação entre os dois de favores. Assim, o populismo busca uma estreita relação de
governantes e governados através de tutela. Também há a ideia de que o governante é o
único, que possui conhecimento e poder, esse último sendo transcendental e também
inquestionável.

Em “Comemorar?”, a filósofa critica uma série de situações que são tomadas como inerentes
à sociedade, como o preconceito, desigualdade, divisão social, injustiça e o ganho de força do
Estado por parte do desconhecimento e medo da população. A autora finalmente se
aprofunda na mistura de uma economia capitalista e socialista, que, a priori, não possui
nenhuma consequência, mas que livra o Estado dos problemas de exclusão social e da
relação justiça social/igualdade socioeconômica, descartando a igualdade econômica e
cidadania democrática.