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Sumário

Apresentação
História
Aspectos Neurobiológicos
Características Clínicas e Diagnóstico
Segundo CID-10
Segundo DSM-V
Tratamento

1
Apresentação

O presente trabalho visa, de forma breve, apresentar o conceito, a


sintomatologia, os aspectos neurobiológicos e o tratamento do transtorno
esquizoafetivo (TEA). Para sua elaboração tomamos por base o Protocolos
Clínicos e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) do Ministério da Saúde, a
Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados
à Saúde (CID-10) e o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais
(DSM-V).
Segundo os estudiosos do tema, o transtorno esquizoafetivo é uma
categoria psiquiátrica controversa. Alguns pesquisadores contestam sua
existência, pois é um quadro pouco comum e de difícil diagnóstico. Entendem
que um paciente esquizoafetivo é aquele que não é esquizofrênico, embora
psicótico, com marcantes sinais de transtornos afetivos, ou seja, com evidentes
períodos em que se apresenta como deprimido ou maníaco e sem sintomas
psicóticos, e fases em que fica psicótico sem sintomas afetivos.
Os pesquisadores julgaram melhor criar um novo tipo de transtorno do
que afirmar que certos pacientes têm duas doenças mentais ao mesmo tempo,
surgindo então a categoria "transtorno esquizoafetivo". Por outro lado existe
também a psicose da fase maníaca, quando o paciente bipolar assemelha-se
mais ao esquizofrênico do que ao maníaco, sem deixar de ser maníaco; e
também a depressão esquizofrênica, em que o paciente não deixa de ter o
diagnóstico de esquizofrenia, mas acrescenta-se de forma transitória o de
depressão.
Na medida em que as diferenças de diagnóstico são pequenas, a
certeza diagnóstica enfraquece, o que leva a evitação da sua utilização por
muitos psiquiatras. Estima-se que esse transtorno existe em aproximadamente
0,3 a 5,7 pessoas por 100.000 habitantes1.

1
http://www.psicosite.com.br/cla/DSMIV.htm

2
História2

O termo “transtorno esquizoafetivo” (TEA) foi utilizado pela primeira vez


por Jacob Kasanin3 em 1933 para descrever um subgrupo de psicose
esquizofreniforme4, com bom prognóstico e sintomas esquizofrênicos e
afetivos, apesar de já não corresponder exatamente à descrição atualmente em
uso. Os anos seguintes foram seguidos de discussões sobre se o transtorno
esquizoafetivo pode ser simplesmente considerado uma forma de esquizofrenia
(ESQ) ou de transtorno afetivo ou de humor, se está situado em um continuum
entre os dois transtornos ou se se trata de uma entidade clínica distinta.
Durante os estágios iniciais do transtorno esquizoafetivo seu diagnóstico
diferencial com outras psicoses pode ser tarefa complexa. Um dos mais
importantes critérios para a validação do diagnóstico desta psicose é a sua
evolução, devendo-se considerar tanto a história quanto o seguimento. A
valorização excessiva dos sintomas aferidos em um corte transversal pode
facilmente conduzir a uma falha da identificação de psicoses afetivas, pois a
ocorrência de delírios e alucinações ocultaria sua ocorrência 5.
Alguns estudos têm sugerido que os pacientes portadores de transtorno
esquizoafetivo e esquizofrenia têm mais em comum com aqueles portadores de
esquizofrenia do que com pacientes com transtorno bipolar, principalmente nas
fases iniciais. Entretanto, distúrbios cognitivos e da percepção foram mais
pronunciados nos esquizofrênicos do que nos esquizoafetivos e bipolares.
Outros estudos, por outro lado, indicaram que o transtorno esquizoafetivo
deveria estar situado em uma categoria entre a esquizofrenia e os transtornos
afetivos. Estudos genéticos confirmam este posicionamento intermediário,
assim como aqueles que avaliaram o funcionamento no trabalho e a
autonomia.
Estudos recentes indicam que variáveis de evolução clínica dos três
grupos demonstram que o transtorno esquizoafetivo encontra-se mais próximo
do transtorno bipolar. Por outro lado, a sintomatologia psicótica aguda
encontra-se mais estreitamente relacionada à da esquizofrenia. A percentagem
de hospitalização foi semelhante nos três grupos.

2
https://www.researchgate.net/publication/240299363_Tratamento_do_transtorno_esquizoafetivo
3
http://www.scielo.br/pdf/rpc/v32s1/24417.pdf
4
Caracteriza-se por sintomas idênticos aos da esquizofrenia, mas dura ≥ 1 mês, porém < 6 meses.
5
https://www.researchgate.net/publication/240299363_Tratamento_do_transtorno_esquizoafetivo

3
Aspectos neurobiológicos6
Genética7

Embora não haja dados conclusivos no Transtorno Eszquizoafetivo


(TEA), a herdabilidade estimada para esquizofrenia (ESQ) é de 60 a 85% e
para o transtorno de humor bipolar (THB) é de 40 a 70%. A prevalência do TEA
(0,5-0,8%) mostra-se inferior às prevalências de ESQ e THB, ambas estimadas
em torno de 1%. É possível que a prevalência relativamente baixa do TEA
represente apenas uma menor proporção de casos com sobreposição de
sintomas psicóticos e afetivos.
O padrão de herdabilidade para condições específicas é uma importante
fonte de informação sobre a natureza da sobreposição clínica. Nesse sentido,
estudos com familiares de indivíduos portadores de THB ou ESQ revelam uma
predisposição genética em grande medida compartilhada. Recentemente,
pesquisadores suecos investigaram aproximadamente 2 milhões de famílias (9
milhões de indivíduos) quanto ao risco de esquizofrenia (36 mil probandos 8) e
transtorno bipolar (40 mil probandos). Trata-se do maior estudo familiar
envolvendo ESQ e THB já realizado. Os principais resultados do estudo: (1)
indistintamente, ESQ e THB foram encontrados em iguais proporções em
familiares de indivíduos afetados e (2) as herdabilidades estimadas para ESQ
(64%) e THB (59%) mostraram-se igualmente elevadas. Tais achados
demonstram que ESQ e THB compartilham de causas genéticas comuns.
Nas últimas décadas, inúmeras evidências convergem para a ideia de
que as psicoses endógenas constituem um modelo unitário em que participam
diversos genes com efeitos parciais que, quando somados, superam um limiar
além do qual tem-se então a manifestação clínica da psicose. Embora em
menor escala, o estudo demonstrou que os efeitos ambientais também se
fazem sentir, seja em ESQ (4,5%) ou THB (3,4%).

Endofenótipos9 neurocognitivos10

Uma área de crescente interesse na investigação dos mecanismos


biológicos associados com os transtornos psíquicos é o estudo do
funcionamento neurocognitivo, em grande medida em razão do fato de que,
dentre diversas outras variáveis clínicas, o desempenho cognitivo fornece
dados quantitativos objetivos e mais consistentes com diversos achados
neurobiológicos. Alguns pesquisadores recentemente concluíram que os
pacientes ESQ, apesar de terem deficiências semelhantes em alguns domínios
cognitivos (p. ex., função executiva e memória visual), apresentam prejuízos
cognitivos mais graves e estáveis; ao passo que pacientes com THB
apresentam melhor desempenho global e os déficits de atenção aparentemente
são as únicas alterações que permanecem estáveis nesses pacientes. Outros,
6
http://consultaps.dominiotemporario.com/material/S05C54_SALLET_CapituloLivroIPq2011.pdf
7
Idem
8
Probando é um termo usado em genética médica e noutros campos da medicina para designar um indivíduo
particular (pessoa ou animal) que estiver sendo estudado ou reportado na literatura científica .
9
Endofenótipos são fenótipos intermediários situados entre o nível etiológico (interação entre genes e a experiência) e
o nível fenotípico (manifestação visível ou detectável de um genótipo)
10
Idem

4
investigando o funcionamento cognitivo em ESQ, TEA e psicoses afetivas,
também demonstraram que em seis de doze domínios cognitivos os pacientes
com ESQ têm desempenho pior do que pacientes com TEA ou psicoses
afetivas. Contudo, a diferença entre os grupos é pequena e a distribuição do
tamanho do efeito mostra grande heterogeneidade. Consideraram que a
diferença entre os grupos em grande medida deveu-se à maior porcentagem
de homens, à gravidade de sintomas negativos e à menor idade de início da
doença no grupo de pacientes ESQ.
Os autores concluíram ainda que os dados neuropsicológicos não
fornecem evidência de distinção categorial entre ESQ e os outros grupos,
embora um subgrupo de pacientes ESQ com sintomatologia negativa grave
apresente maior prejuízo cognitivo do que pacientes com TEA e psicoses
afetivas. Os déficits cognitivos observados em ESQ parecem ocorrer tanto em
indivíduos afetados quanto, embora em menor proporção, em parentes em
primeiro grau não afetados. Especificamente, o prejuízo no desempenho
cognitivo verbal concomitante e pré-mórbido associado à ESQ (indivíduos
afetados e familiares) não é observado em pacientes com THB ou seus
parentes em primeiro grau.
Por outro lado, há evidências de que as alterações da memória estão
associadas tanto com ESQ como com THB, sugerindo que os déficits de
memória podem estar relacionados à predisposição para psicoses em geral.
Contudo, há pesquisas que sugerem que a memória executiva, o aprendizado
verbal e a memória declarativa constituem marcadores endofenotípicos mais
consistentes em THB. Déficits nesses domínios cognitivos parecem ser
hereditários, cossegregam nas famílias, estão relacionados à doença e
permanecem após a remissão dos sintomas.
Em estudo subsequente, observou-se que uma tarefa de fluência verbal,
associada com integridade funcional das regiões frontais e temporais, é capaz
de distinguir pacientes com THB de pacientes com ESQ. Há indícios de que
funções cognitivas mais dependentes de funcionamento temporal (p. ex.,
memória tardia) estejam mais comprometidas em pacientes com ESQ do que
em pacientes com TEA. Algumas outras funções cognitivas comumente
comprometidas em ESQ, como memória de trabalho verbal, podem estar
preservadas no TEA.

Endofenótipos11 neurofisiológicos12

Pacientes com ESQ apresentam prejuízo no desempenho de tarefas que


envolvem movimentos oculares antissacádicos, que são movimentos
voluntários executados na direção oposta à ação reflexa de olhar para o
estímulo apresentado. Há evidências de determinação genética dessa
disfunção em indivíduos com ESQ e seus familiares, de modo que quanto mais
próximo o parentesco tanto mais expressa é a alteração. Alguns estudos
demonstram alterações do movimento antissacádico também em indivíduos
com THB, embora a alteração comporte-se aqui mais como marcador do
estado do que como traço (manifesta-se durante a crise e extingue-se após
remissão clínica), diferentemente do que se observa na ESQ.

11
Endofenótipos são fenótipos intermediários situados entre o nível etiológico (interação entre genes e a experiência) e
o nível fenotípico (manifestação visível ou detectável de um genótipo)
12
http://consultaps.dominiotemporario.com/material/S05C54_SALLET_CapituloLivroIPq2011.pdf

5
Os déficits no desempenho antissacádico parecem estar associados
com a presença de características psicóticas tanto nos transtornos do espectro
esquizofrênico quanto nos transtornos afetivos. O córtex pré-frontal (PFC) é o
substrato anatomofisiológico mais intimamente relacionado com o desempenho
das tarefas antissacádicas, especialmente o PFC dorsolateral (dlPFC),
responsável pela supressão do reflexo sacádico e implementação voluntária do
movimento antissacádico.
Outra variável neurofisiológica utilizada na investigação de
endofenótipos das psicoses é a chamada inibição pré-pulso (IPP), fenômeno
neurológico em que um estímulo mais fraco (pré-pulso – geralmente acústico)
aplicado anteriormente inibe a reação do organismo a um estímulo mais forte
aplicado posteriormente (pulso). A redução da amplitude do sobressalto reflete
a capacidade adaptativa do SNC modular a resposta de sobressalto com base
no “aviso” propiciado pelo estímulo prévio mais fraco. Déficits na IPP revelam
comprometimento na capacidade de filtrar informações, o que remete a
alterações na sensibilidade sensomotora. Prejuízos na IPP parecem estar
associados com endofenótipos em ESQ e transtorno de personalidade
esquizotípica, embora não haja estudos que investiguem esse marcador nas
psicoses afetivas.

Neuroimagem13

Embora nas últimas décadas tenha havido progresso significativo na


detecção de alterações estruturais e funcionais no cérebro de indivíduos com
ESQ e THB, há relativamente poucos estudos de neuroimagem
especificamente dirigidos ao TEA. As evidências mais consistentes de
alteração na estrutura cerebral em ESQ referem-se ao alargamento dos
ventrículos laterais e terceiro, redução volumétrica de lobos temporais e
estruturas límbicas, e redução no volume de estruturas subcorticais, como
tálamo e caudado, em pacientes de primeiro episódio não medicados.
Com referência ao período em que ocorrem essas alterações, sabe-se
que o aumento ventricular e a redução de volume cortical já estão presentes
em pacientes de primeiro episódio.
Nos últimos 15 anos, a grande maioria dos estudos funcionais com ESQ
tem detectado alterações na resposta pré-frontal diante de uma variedade de
atividades cognitivas que envolvem a circuitaria frontal, especialmente memória
de trabalho. A região mais comumente implicada é o córtex pré-frontal
dorsolateral (dlPFC) e a anormalidade mais comumente relatada é a
hipoativação dessa região. Entretanto, alguns estudos com fMRI têm
demonstrado hiperatividade pré-frontal, originando a hipótese de que as
alterações possam se manifestar como recrutamento excessivo da circuitaria
pré-frontal durante tarefas cognitivas breves, com falha subsequente em
manter esse recrutamento durante períodos de tempo maiores.
Embora haja relativo consenso quanto aos déficits cognitivos em ESQ,
há controvérsias em torno do que causa o mau desempenho: se é devido ao
não engajamento nas atividades cognitivas propostas durante o escaneamento
(portanto, as regiões implicadas não são ativadas) ou se é devido à
fisiopatologia da doença em si. Revisões mais recentes convergem para a
13
http://consultaps.dominiotemporario.com/material/S05C54_SALLET_CapituloLivroIPq2011.pdf

6
hipótese de que haja alteração na fisiologia do córtex cingulado anterior, que se
mostra consistentemente hipoativo em tarefas cognitivas que envolvem conflito
e erro.
Conforme essa hipótese, a grande maioria dos estudos conclui pela
reduzida ativação do dlPFC nos déficits de processamento cognitivo. De modo
geral, as alterações na ativação cerebral observadas nos estudos funcionais
com pacientes ESQ e seus parentes biológicos corresponde ao grau de
comprometimento cognitivo e emocional verificado nos estudos
neuropsicológicos e às alterações estruturais descritas na literatura, achados
sugestivos de que a vulnerabilidade genética da esquizofrenia esteja associada
com alteração na circuitaria fronto-talâmico-cerebelar.
Com relação ao transtorno de humor bipolar (THB), as alterações mais
especificamente relacionadas são redução de substância cinzenta (SC) em
região frontal e córtex préfrontal subgenual e aumento no volume de córtex
cingulado anterior à direita, além de alterações no padrão de giros cerebrais.
Adolescentes com THB parecem apresentar aumento volumétrico de
amígdalas em comparação com pacientes adultos com THB.
Algumas alterações estruturais são comuns a ambas as condições, ESQ
e THB: alargamento ventricular, redução de substância branca (SB), assimetria
do complexo amígdala-hipocampo e aumento na densidade de receptores. Em
estudo volumétrico quantitativo comparando pacientes com TEA a pacientes
com THB e controles saudáveis observaram que TEA e THB apresentam
semelhantes alterações regionais de striatum. Sob o ponto de vista funcional,
os estudos com THB em geral demonstram hiperatividade na rede fronto-
tálamo-estriatal e hipoatividade da região anterior do giro do cíngulo durante
tarefas que envolvem função executiva.
De modo geral, os achados em ESQ e THB remetem a alterações na
ativação de diferentes redes neurais relacionadas com sintomas específicos
das respectivas condições, embora haja também alterações comuns a ambas.
Não há estudos que comparem ESQ com TEA, mas é possível que as
alterações em pacientes com TEA sejam menos pronunciadas do que as
observadas em ESQ.
Em nível de citoarquitetura14, o cérebro de pacientes com ESQ e TEA
apresenta neuropil reduzido no PFC e hipocampo, além de diminuição da
densidade neuronal na região anterior do cíngulo

Características Clínicas e Diagnóstico

14
Citoarquitetura é o estudo da composição celular dos tecidos do corpo sob o microscópio. Mais especificamente, na neurociência, se refere ao arranjo e a organização
característica do corpos celulares neuronais no cérebro e medula espinhal.

7
O diagnóstico clínico de TEA caracteriza-se pela apresentação
simultânea de sintomas psicóticos e afetivos. Os critérios do DSM-V e da CID-
10 incluem um período ininterrupto da doença durante o qual ocorre um
episódio de transtorno de humor (depressivo maior, maníaco ou misto)
concomitante com sintomas que preenchem o critério A para esquizofrenia.

É um diagnóstico difícil e complicado, pois, de acordo com a


Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados
à Saúde (CID-10), requer a presença de sintomas de psicose que preencham
os critérios de sintomas para esquizofrenia e, adicionalmente, sintomas de
humor (mania, depressão ou misto) com gravidade e tempo suficientes para o
diagnóstico de transtorno de humor, ambos evoluindo de forma episódica. Essa
definição contrasta com a do sistema de classificação descrito no Manual
Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (Diagnostic and Statistical
Manual of Mental Disorders – DSM), que o considera contínuo, com sintomas
tanto de esquizofrenia quanto de humor proeminentes dentro do mesmo
episódio da doença e com predomínio claro de sintomas psicóticos
semelhantes aos de esquizofrenia ao longo do curso da doença. Para ambas
as classificações, os episódios de humor e psicose não podem preencher os
critérios de episódio depressivo ou maníaco nem os de esquizofrenia.

Além de ser difícil sua formulação e requerer a exclusão de


esquizofrenia e transtorno bipolar, o diagnóstico de transtorno esquizoafetivo
apresenta pouca estabilidade, com mais da metade dos casos migrando para o
diagnóstico de esquizofrenia, quando acompanhados ao longo de vários anos.
Apesar de incômodo, representa uma realidade clínica, com uma parcela
importante de casos na clínica psiquiátrica apresentando simultaneamente
alterações relevantes de humor e de psicose que requerem uso combinado de
fármacos para esquizofrenia e transtorno afetivo bipolar para controle dos
sintomas.

Como categoria diagnóstica, segue sendo debatida quanto a ser um


subtipo de esquizofrenia ou um subgrupo dentro da grande categoria contínua
de doenças psicóticas, como atualmente é classificada pela Organização
Mundial de Saúde (OMS). Por tal motivo, a maioria dos estudos que aborda
tratamento medicamentoso para esquizofrenia também inclui, em sua amostra,
pacientes com transtorno esquizoafetivo, não sendo encontradas meta-análises
exclusivas de pacientes com este transtorno. Devido a essa complexidade e à
falta de estudos específicos em meta-análises que avaliem a resposta ao
tratamento apenas de pacientes com diagnóstico de transtorno esquizoafetivo,
no Brasil o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Ministério da Saúde
utiliza a literatura médica de esquizofrenia para a avaliação do tratamento de
pacientes com transtorno esquizoafetivo por apresentaram respostas clínicas
semelhantes.

As causas dos transtornos esquizofrênicos são ainda desconhecidas. O


modelo de doença de maior aceitação é o da “vulnerabilidade versus estresse”,
um conceito que propõe que a vulnerabilidade aumenta o risco para o
desenvolvimento de sintomas na presença de estressores ambientais e na
falha de mecanismos adaptativos para lidar com eles. Os fatores de

8
vulnerabilidade são baseados em um componente biológico que inclui
predisposição genética interagindo com fatores complexos físicos, ambientais e
psicológicos, ou seja, utiliza o CID-10.

Segundo o CID-10

Classificação:

• F25.0 Transtorno esquizoafetivo do tipo maníaco


• F25.1 Transtorno esquizoafetivo do tipo depressivo
• F25.2 Transtorno esquizoafetivo do tipo misto

Diagnóstico

O diagnóstico do transtorno esquizoafetivo é clínico e baseado nos critérios da


CID-10. Esse formato da classificação descreve critérios gerais (nomeados
com a letra G e numerados de G1 a G4), que precisam ser atendidos em todos
os casos. O primeiro deles é a presença de sintomas de humor; o segundo, a
presença de sintomas de psicose; o terceiro, a simultaneidade desses
sintomas; e o quarto, a exclusão de determinadas condições.

Diretrizes Operacionais CID-10 para Transtorno


Esquizoafetivo

O diagnóstico depende de uma criteriosa avaliação clínica que busque


identificar um equilíbrio aproximado entre o número, a gravidade e a duração
dos sintomas esquizofrênicos e afetivos. Quando um equilíbrio aproximado for
mantido, esse diagnóstico poderá ser estabelecido em mais de um grau de
gravidade, caso necessário. Recomenda-se que a história clínica seja obtida,
sempre que possível, de mais de uma fonte.

Critérios Gerais (todos devem ser atendidos):

G1: O transtorno satisfaz os critérios de um dos transtornos afetivos de grau


moderado ou grave, conforme especificado para cada subtipo de transtorno
esquizoafetivo na CID-10 (4).
G2: Os sintomas de pelo menos um dos grupos de sintomas listados a seguir
estão claramente presentes durante a maior parte do tempo por um período de
pelo menos 2 semanas (esses grupos e os da esquizofrenia são praticamente
os mesmos):
1) eco de pensamento, inserção ou retração de pensamento, irradiação de
pensamento;

9
2) delírios de controle, influência ou passividade claramente relacionados a
movimento de corpo ou membros ou pensamentos, ações ou sensações
específicas;
3) vozes alucinatórias que fazem comentários sobre o comportamento do
paciente ou discutem entre si; ou outros tipos de vozes alucinatórias advindas
de alguma parte do corpo;
4) delírios persistentes de outros tipos que são culturalmente inapropriados e
completamente impossíveis, porém não meramente megalomaníacos ou
persecutórios (por exemplo, visita a outros mundos, o poder de controlar as
nuvens inspirando e expirando, o poder de comunicar-se com animais ou
plantas sem falar, etc.);
5) fala totalmente irrelevante ou incoerente ou uso frequente de neologismos;
6) surgimento intermitente, porém frequente, de algumas formas de
comportamento catatônico, tais como postura inadequada, flexibilidade cérea e
negativismo.
G3: Os critérios G1 e G2 devem ser satisfeitos dentro do mesmo episódio do
transtorno e simultaneamente durante pelo menos algum tempo do episódio.
Sintomas tanto dos critérios G1 como dos G2 devem ser proeminentes no
quadro clínico.
G4: Os critérios de exclusão mais comumente utilizados consideram o fato de o
transtorno não ser atribuível a doença cerebral orgânica, intoxicação e
dependência ou abstinência relacionada a álcool ou drogas.

Segundo o DSM-V

Critérios:
A. Um período ininterrupto de doença durante o qual há um episódio
depressivo maior ou maníaco concomitante com o Critério A 15 da
esquizofrenia.
Nota: O episódio depressivo maior deve incluir o Critério A1: humor
deprimido.
B. Delírios ou alucinações por duas semanas ou mais na ausência de
episódio depressivo maior ou maníaco durante a duração da doença ao
longo da vida.
C. Os sintomas que satisfazem os critérios para um episódio de humor
estão presentes na maior parte da duração total das fases ativa e residual
da doença
D. A perturbação não pode ser atribuída aos efeitos de uma substância (p.
ex., droga de abuso, medicamento) ou a outra condição médica.
15
A. Dois (ou mais) dos itens a seguir, cada um presente por uma quantidade significativa de
tempo
durante um período de um mês (ou menos, se tratados com sucesso). Pelo menos um deles
deve ser (1), (2) ou (3):
1. Delírios.
2. Alucinações.
3. Discurso desorganizado.
4. Comportamento grosseiramente desorganizado ou catatônico.
5. Sintomas negativos (i.e., expressão emocional diminuída ou avolia).

10
Determinar o subtipo:
295.70 (F25.0) Tipo bipolar: Esse subtipo aplica-se se um episódio
maníaco fizer parte da apresentação. Podem também ocorrer episódios
depressivos maiores.
295.70 (F25.1) Tipo depressivo: Esse subtipo aplica-se se somente
episódios depressivos maiores fizerem parte da apresentação.

Especificar se: Com catatonia (consultar os critérios para catatonia


associada a outro transtorno metal, p. 119-120, para definição)
Nota para codificação: Usar o código adicional 293.89 (F06.1) de
catatonia associada com transtorno esquizoafetivo para indicar a presença
de catatonia comórbida.

Especificar se: Os especificadores de curso a seguir devem ser usados apenas


após duração de um ano do transtorno e se não estiverem em contradição com
os critérios diagnósticos do curso.
Primeiro episódio, atualmente em episódio agudo: A primeira
manifestação do transtorno atende aos sintomas diagnósticos definidos e
aos critérios de tempo. Um episódio agudo é um período de tempo em que
são atendidos os critérios dos sintomas.
Primeiro episódio, atualmente em remissão parcial: Remissão parcial é
um período de tempo durante o qual é mantida melhora após um episódio
anterior e em que os critérios definidores do transtorno são atendidos
apenas em parte.
Primeiro episódio, atualmente em remissão completa: Remissão
completa é um período de tempo após um episódio anterior durante o qual
não estão presentes sintomas específicos do transtorno.
Episódios múltiplos, atualmente em episódio agudo: Múltiplos
episódios podem ser determinados após um mínimo de dois episódios (i.e.,
após um primeiro episódio, uma remissão e pelo menos uma recaída).
Episódios múltiplos, atualmente em remissão parcial
Episódios múltiplos, atualmente em remissão completa
Contínuo: Os sintomas que atendem aos critérios diagnósticos do
transtorno permanecem durante a maior parte do curso da doença, com
períodos sintomáticos em nível subclínico muito breves em relação ao curso
geral. Não especificado

Especificar a gravidade atual: A gravidade é classificada por uma avaliação


quantitativa dos sintomas primários de psicose, o que inclui delírios,
alucinações, desorganização do discurso, comportamento psicomotor anormal
e sintomas negativos. Cada um desses sintomas pode ser classificado quanto
à gravidade atual (mais grave nos últimos sete dias) em uma escala com 5
pontos, variando de 0 (não presente) a 4 (presente e grave). (Ver Gravidade
das Dimensões de Sintomas de Psicose Avaliada pelo Clínico no capítulo
“Instrumentos de Avaliação”.) Nota: O diagnóstico de transtorno esquizoafetivo
pode ser feito sem a utilização desse especificador de gravidade.

11
Características Associadas que Apoiam o
Diagnóstico

O funcionamento profissional costuma estar prejudicado, mas não se


trata de um critério definidor (diferentemente do que ocorre na esquizofrenia).
Contato social restrito e dificuldades com o autocuidado estão associados ao
transtorno esquizoafetivo, mas os sintomas negativos podem ser menos
graves e menos persistentes do que os encontrados na esquizofrenia.
Anosognosia (i.e., insight prejudicado) também é comum no transtorno
esquizoafetivo, mas os déficits no insight podem ser menos graves e
generalizados do que os da esquizofrenia. Indivíduos com transtorno
esquizoafetivo podem ter risco aumentado de desenvolvimento posterior de
episódios de transtorno depressivo maior ou transtorno bipolar se os
sintomas de humor continuarem após a remissão dos sintomas que
satisfazem o Critério A para esquizofrenia.
Pode haver transtornos associados ao álcool ou relacionados a outras
substâncias. Não há testes ou medidas biológicas capazes de auxiliar no
diagnóstico de transtorno esquizoafetivo. Não está claro se esse transtorno
difere da esquizofrenia no que se refere a características associadas como
anormalidades cerebrais estruturais ou funcionais, déficits cognitivos ou
fatores de risco genéticos.
A distinção entre TEA, esquizofrenia e transtorno de humor com
características psicóticas não é uma tarefa simples. No TEA deve haver um
episódio de humor concomitante com os sintomas da fase ativa da
esquizofrenia, com os sintomas de humor presentes por uma substancial
porção do total de duração da doença, e os delírios ou alucinações devem
perdurar por pelo menos 2 semanas na ausência de sintomas de humor
proeminentes.
Comparativamente, sintomas de humor na esquizofrenia têm uma
duração breve relativa à duração total do transtorno, ocorrem durante as fases
prodrômica ou residual ou não preenchem completamente critérios para
transtorno de humor. Se os sintomas psicóticos ocorrerem exclusivamente
durante períodos de alteração do humor, o diagnóstico deve ser de “transtorno
de humor com características psicóticas”. No TEA os sintomas não devem ser
considerados como episódio de humor se resultarem claramente de sintomas
da esquizofrenia (p. ex., perda de peso porque a comida é considerada
envenenada, dificuldade para dormir por causa de alucinações auditivas e
dificuldade de concentração decorrente da desorganização psicótica). Perda de
interesse ou prazer é comum em transtornos psicóticos não afetivos e,
portanto, para satisfazer os critérios para TEA, o episódio depressivo maior
deve incluir depressão global do humor.

Tratamento

12
Tratamento farmacológico

O tratamento do transtorno esquizoafetivo deve ser estabelecido em função


do tipo que é registrado dessa patologia, assim como da sua gravidade e dos
sintomas que estão presentes. Geralmente, os pacientes costumam responder
bem à intervenção clínica se essa for combinada com a psicoterapia, utilizada
para ajudar a reduzir os sintomas. Com os dois tipos de tratamento, o paciente
pode conseguir controlar suas emoções, gerir positivamente seus
comportamentos sociais e se cuidar melhor.
Assim, no tratamento farmacológico do transtorno esquizoafetivo podem ser
receitados ao paciente com a doença:
 Antidepressivos: medicamentos que ajudam a pessoa com o
transtorno a lidar com a tristeza, a angústia, a insônia e as dificuldades
para se concentrar.
 Antipsicóticos: esses fármacos, como é o caso do antipsicótico atípico
paliperidona, modificam algumas substâncias naturais no cérebro e
permitem diminuir os sintomas da esquizofrenia.
 Estabilizadores de humor: remédios que ajudam a estabilizar, como o
próprio nome diz, o estado de ânimo e de humor do paciente e a reduzir
os episódios maníacos, eufóricos ou depressivos.

Tratamento psicológico

Para uma boa redução dos sintomas dessa patologia mental é necessário
combinar o tratamento farmacológico com a psicoterapia. No caso do
transtorno esquizoafetivo, o tratamento psicológico mais adequado e eficiente é
a terapia cognitivo-comportamental.

Os principais objetivos da mesma são:

 Ajudar a pessoa que sofre do transtorno a identificar todos os sintomas


depressivos e/ou maníacos para que estes possam ser melhor
trabalhados.
 Ajudar essa pessoa a esclarecer de que maneira a sua realidade é
construída e como ela dá significado as suas experiências a partir dos
erros cognitivos que comete e de sua história pessoal.
 Melhorar a comunicação e a interação social do paciente.
 Desenvolver novas habilidades pessoais e sociais.

Fontes:

http://www.saude.sp.gov.br/ses/perfil/gestor/assistencia-farmaceutica/medicamentos-
dos-componentes-da-assistencia-farmaceutica/medicamentos-do-componente-
especializado-da-assistencia-farmaceutica/protocolos-clinicos-e-diretrizes-terapeuticas-
do-ministerio-da-saude
http://conitec.gov.br/images/Protocolos/TranstornoEsquizoafetivo.pdf

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https://amenteemaravilhosa.com.br/transtorno-esquizoafetivo/

http://www.usp.br/rbtcc/index.php/RBTCC/article/view/659

https://psicoativo.com/2016/07/transtorno-esquizoafetivo-diagnostico-dsm-v.html
https://www.tdahmente.com/wp-content/uploads/2018/08/Manual-Diagn%C3%B3stico-
e-Estat%C3%ADstico-de-Transtornos-Mentais-DSM-5.pdf

https://br.psicologia-online.com/transtorno-esquizoafetivo-causas-sintomas-e-
tratamento-109.html
http://labs.icb.ufmg.br/lpf/mono3.pdf

https://www.researchgate.net/publication/240299363_Tratamento_do_transtorno_esquiz
oafetivo
http://consultaps.dominiotemporario.com/material/S05C54_SALLET_CapituloLivroIPq
2011.pdf

http://psicoativo.com/2016/07/transtorno-esquizoafetivo-causas-sintomas-tratamentos-
cura.html

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