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Prof.

Breno Brito

DINHEIRO
Do tostão ao milhão

Escolha o melhor
produto financeiro
para investir o seu
dinheiro e aumentar
sua rentabilidade!

E mais:

 Dicas
 Modelos
 Testes
 Exercícios

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O professor Breno
transmite, através
desse livro, sua
experiência prática,
conquistada,
principalmente,
através das
dificuldades
financeiras que viveu
como micro-
empresário, e
atualmente como
diretor financeiro de
uma média empresa,
além de investidor no
mercado financeiro, e
o conhecimento
acadêmico, adquirido
com a graduação em
administração,
especialização em
marketing e mestrado
em planejamento
estratégico,
exercendo a docência
em cursos de
administração,
marketing e finanças,
nos níveis graduação
e pós-graduação, na
Universidade Católica
de Goiás e na
Faculdade Cambury.

1
Supérfluo e Necessário

Uns queriam um emprego melhor;


outros, só um emprego.

Uns queriam uma refeição mais farta;


outros, só uma refeição.

Uns queriam uma vida mais amena;


outros, apenas viver.

Uns queriam pais mais esclarecidos;


outros, ter pais.

Uns queriam ter olhos claros;


outros, enxergar.

Uns queriam ter voz bonita;


outros, falar.

Uns queriam silêncio;


outros, ouvir.

Uns queriam sapato novo;


outros, ter pés.

Uns queriam um carro;


outros, andar.

Uns queriam o supérfluo;


outros, apenas o necessário.

Chico Xavier

2
Agradecimentos

À Universidade Católica de Goiás, por incentivar e proporcionar a oportunidade


de publicação da produção intelectual de seu corpo docente.

Ao Departamento de Administração da UCG, cujo convívio com colegas


competentes e dedicados têm contribuído para o meu crescimento pessoal e
profissional.

A Divisão de Recursos Humanos da UCG, por acreditar em meu potencial e


oferecer o curso de finanças pessoais, que deu origem a este trabalho, aos
funcionários da instituição.

A Editora da UCG, Prof. Gil Barreto, Lacy, Gabriela, Felix, e todos os demais
colaboradores que me ajudaram a publicar este trabalho.

A Tintas Leinertex, empresa administrada por pessoas sérias e visionárias, que


aprendi a respeitar em nossa convivência profissional.

A minha família, pais, filha, irmãos, namorada e amigos, que estimulam meu
trabalho e contribuem com a minha caminhada.

E, acima de tudo, a Deus, que abençoa cada dia de minha existência com sua
presença constante em meu coração.

3
Introdução

É interessante como as coisas acontecem em nossa vida. Nasci em uma


família de classe média, vivendo, mesmo assim, com certo conforto. Meu pai,
um micro-empresário do setor de prestação de serviços em transportes,
valorizava, acima de tudo, o estudo e o acúmulo de conhecimento como meio
de prosperidade. Sempre sublinhou, principalmente no horário das refeições,
que a única herança que nos deixaria seria a educação que, mesmo nos
momentos mais difíceis, fazia questão de nos proporcionar. Assim, eu e meus
irmãos freqüentamos uma escola particular de boa qualidade, enquanto
começávamos a trabalhar no negócio da família, e aprendemos como nossos
pais sacrificam a própria felicidade em função do futuro de seus filhos. Várias
vezes vi meu pai deixar de viajar, ou comprar alguma coisa que queria muito,
para poder pagar as mensalidades de nosso colégio.

Na década de 90, estava com vinte e poucos anos, e nosso pai resolveu se
afastar, aos poucos, do dia-a-dia da sua micro-empresa, confiando,
principalmente a mim, por ser o filho mais velho, a condução dos negócios,
pois ele já estava bastante cansado e pretendia se aposentar. Nada mais
natural, não é mesmo?

Começamos a viver, então, um período de expansão. Conseguimos novos e


importantes clientes, nossa renda aumentou consideravelmente, e nós
chegamos a pensar que iríamos ficar ricos. Possuíamos carro e moto
importados, jet-ski e algum dinheiro para gastar no que quiséssemos.

Até aquele momento, éramos simplesmente prestadores de serviço, ou seja,


não tínhamos nenhum veículo para transporte, fossem caminhões leves,
pesados ou camionetes, terceirizando o serviço através da contração de
motoristas autônomos. Mas nosso principal cliente anunciou a decisão de
privilegiar, a partir daquele momento, os transportadores com frota própria de
caminhões. Nós não possuíamos capital próprio suficiente para a aquisição de
veículos. Foi quando realizamos alguns cálculos, com cenários otimistas, e
fizemos vários financiamentos.

Nesse momento, cometemos alguns erros que, se não foram fatais,


contribuíram enormemente para os problemas que enfrentaríamos a seguir. Ao
invés de vendermos nossos carros, motos e jet-ski, que eram quitados, e
adquirir veículos um pouco mais velhos, até que conseguíssemos, através dos
lucros da empresa, adquirir carros novos, fizemos empréstimos, colocando-os
como garantia, e aumentamos as despesas da empresa, pois além das
prestações dos caminhões, que eram quatro, teríamos que pagar, também, as
parcelas mensais do empréstimo bancário. Com isso, conheci vários produtos
financeiros, como desconto de recebíveis (duplicatas, cheques ou
promissórias), conta garantida ou caucionada, crédito direto ao consumidor
(CDC), empréstimo pessoal, leasing, financiamento de veículos, títulos de
capitalização, previdência privada, diversas modalidades de seguro, ou seja,
todo o mix que é oferecido pelos funcionários de uma instituição financeira
sempre que precisamos de dinheiro emprestado, não é mesmo?

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Naquele instante fomos apresentados a Lei de Murphy, que nos diz: ¨Se
alguma coisa pode dar errado, com certeza ela dará errado!¨. Pode parecer
pensamento de gente pessimista, mas por incrível que pareça, aprendi que ela
realmente funciona. E vou lhe dizer porque.

O último caminhão que adquirimos, por um valor, em 1997, de


aproximadamente US$ 90.000,00 (noventa mil dólares), em torno de R$
200.000,00 (duzentos mil reais) em moeda corrente, sofreu um capotamento
com menos de duas semanas de uso. O motorista, com a carreta carregada de
produtos de limpeza, que havia saído de Goiânia com destino a Belém do Pará,
parou em uma cidade, no caminho, onde moravam alguns parentes, inclusive
um primo que também era caminhoneiro, para almoçar a matar a saudade dos
familiares. Após o almoço, o primo, vendo aquele veículo tão novo e bonito,
pediu para dar uma experimentada, com meu funcionário sentado ao lado. Pois
bem, o resultado foi um acidente, em que toda a carga foi saqueada, e
seguradora, tanto do caminhão, quanto da mercadoria, se negaram a pagar o
prejuízo, visto que o responsável pelo ocorrido não era funcionário da empresa.

Mas o problema não era somente esse, contávamos com o faturamento do


caminhão para o pagamento de sua prestação, que ficou parado por quase
dois meses. Sem contar que teríamos que pagar a mercadoria para nossos
clientes, pois a fábrica se isentou de qualquer responsabilidade. Fomos a
Belém e negociamos o ressarcimento através da prestação de serviço. O
prejuízo equivalia a dois meses de faturamento da empresa, ou mais de um
ano de lucro. Note que, em uma situação como esta, não há planejamento que
resista.

Deus nos ajudou, dando-nos força para seguir adiante, e decidimos que aquilo
não era motivo de desespero, pois o aperto financeiro seria momentâneo. O
caminhão ficou pronto e voltou a trabalhar, o problema foi que, uma semana
depois, outro veículo sofreu, também, um capotamento, próximo a cidade de
Araguaína, no estado do Tocantins, desta vez devido às más condições de
conservação da estrada. Neste caso, mesmo com o saque da mercadoria, a
seguradora pagou o conserto do caminhão e a mercadoria, cujo valor foi
repassado a nossos clientes.

Só que, mais uma vez, nosso veículo ficou parado durante dois meses, não
gerando o caixa para o pagamento de suas prestações. Pensamos que era o
fim, mas novamente tivemos forças para continuar. Refizemos o planejamento,
vários cálculos e cenários, e decidimos seguir em frente.

Como forma de contenção de custos, começamos a usar, como depósito de


mercadorias a serem transportadas, as instalações industriais de um amigo,
que possuíam um armazém e estava ocioso, e, além disso, não nos cobrava o
aluguel. Foi então que aconteceu o inimaginável. Durante uma chuva, que não
acontecia uma igual há mais de dez anos, houve a inundação do depósito,
fazendo que perdêssemos toda a mercadoria que estava ali guardada,
equivalente a três caminhões. Vendemos carro, moto, jet-ski e pegamos
dinheiro emprestado com amigos e agiotas, nossa única esperança era a de

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continuarmos trabalhando para pagar nossas dívidas. Para piorar, o principal
concorrente subornou a pessoa responsável pelo transporte em nosso melhor
cliente, diminuindo o volume de cargas transportadas. É claro que só ficamos
sabendo disso quando o funcionário foi demitido, mas aí já era tarde.

Você pode pensar: ¨Pôxa vida! Mas que pessoal azarado!¨ Mas esta é só mais
uma história, como tantas outras que já ouvimos por aí, e que, infelizmente,
ainda não acabou. Corria o ano de 1998, e o golpe de misericórdia viria no
início do próximo ano, quando nosso governo desvalorizou o real, fazendo que
as prestações de nossos caminhões, que eram corrigidas pela variação
cambial, dobrassem de valor em poucos dias. Acabou-se! Quebramos! Ou, se
preferir, falimos! Cheques devolvidos, títulos protestados, ameaças de morte,
ou seja, o pacote completo.

Aprendi, nesse período, que nada, ou que nenhuma palavra que se escreva,
seria capaz de descrever a situação que passamos. Entendi porque tantas
pessoas preferem a fuga, ou suicídio, do que encarar esse momento. Acho que
é uma daquelas experiências que somente quem as vive pode imaginar a dor,
a humilhação e o sentimento de impotência de uma pessoa com esse
problema, e que não desejo ao meu pior inimigo.

Tive que subornar, várias vezes, o funcionário da companhia elétrica e de


saneamento para não interromper o fornecimento de água e energia, pois não
conseguia efetuar o pagamento das contas no vencimento. Enfrentei, e ainda
enfrento, negociações duríssimas com cobradores, gerentes de banco,
fornecedores e advogados. Vi meu nome ir para o SPC, SERASA e todos os
outros serviços de proteção ao crédito. Passei diversos constrangimentos, em
estabelecimentos comerciais, para a aquisição de mercadorias, mesmo
pagando a vista. Não conseguia, nem mesmo, locar um carro, pois era
obrigatória a propriedade de um cartão de crédito. Em resumo, tornei-me um
pária!

Mas existe um ditado que diz, que aquilo que não nos mata, nos torna mais
fortes. Mudei meu estilo de vida e aprendi, na prática, a controlar meus
recursos, enxergando o quanto que o dinheiro, gasto no passado, estava me
fazendo falta naquele momento. Passei a comprar somente à vista, a negociar
descontos, a analisar qual era a real necessidade de cada produto que
adquiria. Cancelei TV a cabo, desliguei linha telefônica, vendi o celular, demiti
nossa empregada doméstica, racionei energia elétrica e, finalmente, arrumei
um emprego para gerar uma outra fonte de receita.

Sempre gostei de adquirir novos conhecimentos, e mesmo nos melhores


momentos financeiros, que coincidiu com minha graduação em administração
de empresas, continuei estudando, fazendo especialização em marketing.
Alguns amigos diziam: ¨Pra que estudar tanto? Vocês estão ficando ricos!
Curta mais a vida!¨ E, nesse momento, aprendi uma das lições mais
importantes de minha vida, que vou compartilhar agora com vocês. Você pode
perder todo o dinheiro que possui, mas o seu conhecimento, isso a gente
nunca perde. Porque ele é só seu, está dentro de sua cabeça, e ninguém pode
tomá-lo. E foi ele que me ajudou a me reerguer.

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Pelo meu histórico escolar na graduação, e na pós-graduação, já havia
recebido convites para lecionar em Universidades, mas nunca aceitei, até
mesmo porque não precisava, naquele momento. Mas agora a situação era
outra, e comecei com a disciplina de administração financeira e orçamentária.
Nesse momento descobri minha verdadeira vocação, que venho me dedicando
de corpo e alma, tentando ajudar, com os conhecimentos que adquiri, para que
meus alunos não cometam os erros que eu e meus irmãos cometemos. Minhas
recompensas tem sido enormes, pois já fui homenageado por diversas turmas
de formandos, inclusive nomeando uma delas.

Decidi, então, que o conhecimento prático, conquistado diante da vivência de


todos estes problemas, juntamente com a teórico, que adquiri com estudos e a
experiência de professor universitário, poderiam ser compartilhados com as
pessoas que vivem situações problemáticas diariamente na administração de
seus recursos, tanto para a geração de poupança, como em investimentos no
mercado financeiro, ou fora dele. Quero contribuir para o aumento de sua
qualidade de vida, através do conhecimento necessário para que você se torne
um milionário. Ou seja, não será por falta de dinheiro que se tornará uma
pessoa infeliz!

Mas decidi fazer isso de um modo diferente. Em todos os livros de finanças


pessoais que li, os autores apresentam alguns bordões, nos mostram o peixe,
mas não nos ensinam a pescar. Por isso, neste livro, para quase tudo que
afirmo, desenvolvo os cálculos para que você seja capaz de analisar e formar
uma opinião própria, concordando, ou discordando, daquilo que lhe é
apresentado. Acho que isso é uma situação muito mais difícil, pois, nesse
momento, corre-se o risco de uma séria de críticas a seu trabalho. Talvez seja
esse o maior medo de qualquer escritor. A crítica negativa!

Dediquei muitas horas na construção deste trabalho, principalmente nos fins-


de-semana. E então descobri uma coisa muito importante. Qualquer que seja a
crítica, ela nunca será melhor do que a minha satisfação de poder contribuir,
mesmo que um pouquinho, com o conhecimento das pessoas. Por isso, lhe
entrego, com muito carinho, o fruto do meu sacrifício. Espero que goste!

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SUMÁRIO

1. Dinheiro, finanças pessoais, poupança e juros ........................................... 9


1.1 Dinheiro .................................................................................................... 9
1.2 Finanças pessoais .................................................................................. 11
1.3 Poupança................................................................................................ 12
1.4 Juros ....................................................................................................... 15
2 Receita e despesas: fluxo de caixa pessoal .................................................. 17
2.1 Juros compostos e calculadora HP 12C ................................................. 22
3 Criação e destruição da riqueza: o poder dos juros compostos ................ 27
4 Capital de giro pessoal: conceito e importância ........................................ 34
5 Opções e riscos dos investimentos ........................................................... 48
5.1 Produtos disponíveis no mercado financeiro ..................................... 52
5.1.1 Caderneta de poupança ................................................................... 52
5.1.2 Títulos públicos federais................................................................... 55
5.1.3 Fundos de investimento ................................................................... 65
5.1.4 Certificado de Depósito Bancário (CDB) .......................................... 72
5.1.5 Previdência privada .......................................................................... 74
5.1.5 Títulos de capitalização .................................................................... 83
5.1.6 Consórcio ......................................................................................... 89
5.1.7 Ações ............................................................................................... 96
6.1.8 Seguro de bens, vida e saúde ........................................................ 116
6.1.9 Contratos de aquisição de animais ................................................ 122
6.1.10 Imóveis ......................................................................................... 130
6 Conclusão ............................................................................................... 141

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¨A falta de dinheiro entra pela porta, o amor sai pela janela.¨
Anônimo

1. Dinheiro, finanças pessoais, poupança e juros


Vamos começar trabalhando com conceitos básicos, pois este não é um livro
voltado para pessoas que já possuem conhecimentos aprofundados de
finanças, mas para aqueles que estão iniciando a jornada para a busca de uma
melhor qualidade de vida através da administração do seu dinheiro.

1.1 Dinheiro

Vários ditados populares associam a felicidade (sua existência ou falta) e a


posse de dinheiro. Longe de mim querer questionar a sabedoria popular, até
mesmo por gostar muito de citá-los e acreditar que, por detrás de uma simples
frase, existe um pensamento muito mais aprofundado do que aparenta. Entre
alguns dos meus preferidos podemos citar:

 ¨Dinheiro não traz felicidade¨: para as pessoas que utilizam esse ditado,
há mais coisas na vida além do dinheiro. Amor, família, saúde e paz são
valores essenciais que, independente da quantidade de dinheiro que
possuímos, são determinantes na felicidade pessoal. Podemos sintetizar
que felicidade não é ¨ter¨, mas ¨ser¨;
 ¨Dinheiro não é tudo mas é 100%.¨: esse dito popular reflete, para outras
pessoas, que o dinheiro é a ferramenta capaz de adquirir todas as
coisas necessárias para a satisfação humana e, conseqüentemente,
para a realização de sua felicidade. Temos aqui, o oposto do
pensamento anterior, vinculando-se a felicidade a ¨ter¨ e não a ¨ser¨;
 ¨Dinheiro na mão é vendaval.¨: esse pensamento reflete a instabilidade
da posse do dinheiro e nossa incapacidade de administrá-lo
adequadamente. Nossas necessidades infinitas em contraposição aos
recursos finitos transbordam em situações que, muitas vezes, poderiam
ser evitadas com um planejamento financeiro adequado.

Sendo assim, algumas pessoas defendem que a riqueza por si só não satisfaz
as necessidades humanas de carinho, amor, atenção e estima, enquanto
outros alegam que as necessidades de saúde, moradia, alimentação, vestuário
e entretenimento, quando não atendidas, contribuem para a infelicidade.
Verifica-se, então, um confronto sem fim que não chega a lugar algum, visto
existirem pessoas ricas e pobres felizes e infelizes. Então, acredito no
pressuposto de que o dinheiro não traz felicidade, mas contribui
consideravelmente para a qualidade de vida do cidadão, ao proporcionar
condições para a aquisição de diversos confortos da vida moderna, além da
segurança que o suporte financeiro proporciona em momentos inesperados de
doença, desemprego ou acidente, propiciando condições, ao menos materiais,
para uma vida mais feliz.

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Infelizmente, não somos educados adequadamente na gestão de nossos
recursos financeiros. Deveríamos começar, desde criança, a descobrir o valor
do dinheiro, das necessidades que ele ajuda a suprir, o funcionamento da
economia e outros princípios fundamentais, como renda, juros e poupança.

Para que isso aconteça, é preciso existir uma educação rígida no controle de
nossas receitas e despesas, bem como o entendimento dos significados de
cada palavra. Se não consigo essa compreensão, o processo de comunicação
é prejudicado, tornando-se um assunto chato e desgastante.

A maioria dos brasileiros conhece e associa diversos inventores a suas obras.


Santos Dumont e o avião, Thomas Edison e a lâmpada, Henry Ford e o
automóvel (apesar dele ter proposto um método revolucionário de produção, e
não inventado o carro). Mas não conseguimos identificar o inventor do dinheiro.
Por quê?

A resposta está no fato de que o dinheiro surge e evolui da necessidade


humana de determinar o valor das coisas e possibilitar a sua troca. Esse preço
é determinado de acordo com as características de cada produto,
principalmente sua rarabilidade e facilidade de reprodução, proporcionando a
condição básica para sua negociação.

Mesmo assim, a coisa não é simples. Antes da existência do papel moeda,


como o conhecemos, os negócios eram feitos através do escambo, ou seja, da
simples troca de mercadorias/produtos ou serviços. Assim, o soldado romano
recebia porções de sal para o pagamento de seus serviços, originando, daí, a
palavra salário, como sinônimo de remuneração.

Podemos pensar, neste momento, que os soldados romanos eram bobos, ao


aceitar o pagamento do seu suor com uma coisa tão barata, nos dias de hoje,
como o sal. Mas devemos entender o contexto histórico de cada momento,
visto que naquela época não existiam geladeiras ou freezeres, sendo que a
conservação dos alimentos era realizada com esse produto. Percebeu sua
importância?

Mas esse método apresenta dificuldades óbvias. Por exemplo: suponhamos


que eu tenha um boi, que vale duzentos peixes, mas eu só quero cem, como o
vendedor de peixes vai me voltar o troco? Ou será que tenho que partir o boi
ao meio e guardar a outra metade?

Problemas como esse contribuíram para o surgimento das primeiras moedas


metálicas, cunhadas pelos imperadores em metais preciosos, aceitas pelo seu
valor intrínseco, ou seja, o poder de compra do metal de que era feita, como
ouro, prata ou bronze.

O tempo continua passando, e podemos imaginar a dificuldade para se


carregar ou guardar grandes somas em moedas. Surge, então, na idade média,
a figura do ourives, precursor do banqueiro, ou seja, o cidadão em cuja
empresa você depositava uma quantia de moedas e recebia em troca um

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recibo, que passou a ser usado para pagamentos, dispensando o trabalho da
posse e locomoção do dinheiro.

Nasce, então, o papel moeda, cujo valor é extrínseco, ou seja, está escrito
determinado valor em sua face, garantido por alguém (atualmente o governo),
mas que no final das contas é somente um pedaço de papel com um número
impresso.

O problema é que esse simples pedaço de papel funciona como passaporte


para a aquisição de todas as maravilhas do mundo capitalista, sendo motivo de
brigas entre amigos, parentes, ou países. Duro de ganhar, difícil de manter ou,
trabalho de Hércules, de multiplicá-lo.

Assim, o dinheiro não nasceu da genialidade individual ou de um grupo de


pessoas, mas de necessidades diárias que se apresentam e que precisam de
solução. O desafio maior é o de como conseguir conciliar o dinheiro e a
riqueza, produção, trabalho, consumo, distribuição de renda e outras variáveis
econômicas, gerando uma melhor qualidade de vida para a população.

1.2 Finanças pessoais

Existe um ditado popular, muito famoso, que estabelece a seguinte condição:

 ¨O homem possui duas oportunidades de ficar rico na vida, quando


nasce e quando casa.¨

Esse pensamento reflete, com certeza, toda a dificuldade de acumularmos


dinheiro, ou riqueza, através do trabalho. Pela dificuldade que possuímos em
recebê-lo honestamente, podemos estabelecer sua importância em nossas
vidas, devendo estudar os meios de melhor aplicá-lo, para alcançar os
resultados esperados, ou seja, sua multiplicação. Entramos, então, no campo
das finanças pessoais, que tentarei definir da maneira mais simples possível,
como:

¨O conjunto de ferramentas utilizadas na administração dos recursos pessoais,


para obtenção dos retornos desejados e o aumento da qualidade de vida.¨

Na minha opinião, acredito que a posse, ou a ausência de dinheiro, não são


suficientes para garantir a qualidade de vida e a realização da felicidade que
buscamos. A vida é muito mais complexa do que qualquer abordagem seria
capaz de descrever, e o conceito de felicidade muito mais relativo do que
realmente aceitamos. Por isso, o equilíbrio é essencial para qualquer coisa que
desejamos realizar, viver ou alcançar.

As pessoas costumam associar a administração financeira às empresas,


esquecendo-se que elas são, na verdade, uma simples extensão de nossas
vidas. A diferença primordial da administração financeira tradicional e as
finanças pessoais estão em seu foco. Enquanto a obtenção da maximização da
riqueza dos acionistas da organização, ou seja, a realização do lucro, o

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aumento da participação de mercado, a valorização de suas marcas, é o
objetivo principal da administração financeira empresarial, nas finanças
pessoais o retorno financeiro deve estar aliado a qualidade de vida pessoal ou
familiar, pois a poupança que será investida será obtida a partir de sacrifícios,
ou seja, da não aquisição de produtos ou serviços desejados.

Às vezes, começo a imaginar o porque, devido a importância do dinheiro em


nossas vidas, de não sermos educados, desde cedo, a administrá-lo. Acredito
que seria bem mais fácil se lidássemos, desde crianças, com conceitos e jogos
que fossem capazes de estimular a busca do conhecimento para o
entendimento da economia e do mercado financeiro, para um melhor
gerenciamento, e investimento, dos nossos recursos.

Mas, o que não aprendemos em nossa infância, devemos aprender ao longo


de nossa vida. Devemos iniciar comparando nossos recebimentos e
pagamentos, a curto, médio e longo prazo, para podermos iniciar o
planejamento financeiro necessário para o alcance de qualquer objetivo que
seja proposto, inclusive tornando-nos milionários, através da poupança e de
investimentos programados. Este é um dos objetivos que estaremos buscando
ao longo desse livro.

1.3 Poupança

Alguns termos são comuns em nosso dia-a-dia. Poupar, com certeza, é um


deles. Seu sinônimo mais próximo é a palavra economizar, que significa
guardar alguma coisa no presente para utilização futura. Para mim, poupar tem
outro entendimento: sacrificar. Para que exista a poupança, é preciso abrir mão
da realização de meus desejos atuais, acreditando que isso será benéfico para
mim no futuro. Não é uma tarefa fácil, pois uma das características mais
comuns à vida é a incerteza.

Existe um ditado popular, que ajuda a entender a dificuldade de muitas


pessoas em poupar, que diz o seguinte:

 ¨Caixão não tem gaveta.¨: devo confessar que não é um dos meus
ditados populares prediletos. Simplificando, ele quer dizer o seguinte:
deixe-me gastar o que ganho agora, pois se ficar economizando, quando
partir dessa para a melhor, o resultado de todo meu sacrifício ficará para
outras pessoas desfrutarem. Não deixa de ter um certo sentido. Mas eu
descobri, da pior maneira possível, que as coisas não são bem assim.

Como falamos anteriormente, devemos tentar manter o equilíbrio em tudo que


realizamos. Se me torno um poupador paranóico, a angústia de economizar
contribuirá, com certeza, para a minha infelicidade. O verdadeiro investidor
conhece profundamente suas receitas e despesas, e consegue, através de
uma análise detalhada, desenvolver estratégias de poupança que lhe permitam
economizar sem o sacrifício de sua qualidade de vida.

12
Já falamos do dinheiro e das finanças pessoais. Vamos tratar, agora, do
conceito de poupança financeira, que é apresentado a seguir.

¨A poupança é a renda individual, ou familiar, que não é utilizada em despesas,


ou seja, é uma sobra, que deve ser aplicada em investimentos de interesse do
poupador.¨

Não devemos confundir poupança financeira com caderneta de poupança, que


é um produto oferecido pelas instituições financeiras para aplicação das
minhas reservas.

Daí começam a surgir alguns questionamentos. Para que poupar? Por que
sacrificar a realização de meus desejos? Afinal, é para isso que eu trabalho.
Podemos afirmar que são vários os motivos que levam as pessoas a poupar.
Dentre eles destacamos:

 a garantia de que, em um momento de necessidade, teremos uma


reserva de segurança para socorrer-nos;
 a certeza de que, poupando hoje, poderei consumir mais em breve;
 a consciência de que, com o tempo, não trabalharei como agora,
devendo criar um complemento para a minha renda na aposentadoria.

Assim, a poupança não é somente um volume de recursos financeiros


aplicados em alguma modalidade de investimento, mas uma espécie de
¨seguro¨, que me permitirá enfrentar, com mais tranqüilidade, as tempestades
que a vida me reservar. Desenvolva o exercício abaixo, extraído do Portal
Exame, marcando a resposta que mais se aproxima de seu comportamento,
mesmo que não reflita totalmente a realidade, e descubra sua capacidade de
poupança.

 De que jeito você faz compras?

a) Sai gastando sempre que está muito contente ou muito triste.


b) Às vezes se sente mal por não ter tudo o que seus amigos têm e gasta para
não ficar para trás.
c) Gasta em ciclos: faz dívidas no cartão e depois se esforça para pagar.
d) Às vezes faz alguma extravagância, mas em geral as compras estão
previstas no orçamento.

 Quanto da sua renda você consegue poupar? (Não considere planos de


previdência, poupança para a casa própria e reservas de emergência).

a) menos de 10%.
b) 10% ou mais.
c) Não sei.
d) Nada.

 Some todas as suas dívidas: financiamento imobiliário ou do carro,


cartão de crédito, cheque especial. Não inclua itens básicos como

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alimentos ou contas como telefone, luz e gás. Qual porcentagem da sua
renda mensal suas dívidas representam?

a) Até 35%.
b) 50%.
c) Não sei.
d) 40%.

 O que você faria se recebesse um aumento de salário hoje?

a) Nada.
b) Sairia para fazer compras.
c) Prometeria para si mesmo que desta vez vai fazer um orçamento.
d) Sairia para jantar ou compraria algo que estivesse querendo há muito tempo.
E poria o resto na poupança.

 Quando você reflete sobre sua situação financeira, você se sente:

a) Desanimado. Parece que a coisa está cada vez pior.


b) Otimista. Você tem gastado bastante, mas logo conseguirá se organizar.
c) Confiante. Você está alcançando os objetivos estabelecidos.
d) Você só pensa nisso quando não consegue dormir.

 Um amigo o convida para passar um fim de semana incrível na praia.


Supondo que não haja dinheiro para isso, você:

a) Recusa o convite e promete para si mesmo que vai começar a economizar


para viagens de fim de semana.
b) Dá uma olhada no extrato da sua conta corrente ou do cartão de crédito e vê
de onde pode sacar mais dinheiro.
c) Aceita correndo, mesmo sem saber quanto custará o passeio.
d) Pede dinheiro emprestado. Você precisa viajar!

 As férias chegaram.Você:

a) Jura que não vai cometer os mesmos excessos do ano passado.


b) Usa apenas o que já estava guardado para isso. E nada além disso.
c) Pede mais dois cartões de crédito.
d) Enche a cara. Você ainda está pagando as férias de 2000 e todos os seus
cartões estão com o limite estourado.

 Você acabou de conseguir o primeiro emprego. Você:

a) Faz um orçamento e pensa numa forma de poupar parte do seu salário.


b) Nem pensa em entrar no plano de previdência da sua empresa. Afinal, ainda
falta muito tempo para se aposentar.
c) Pega dinheiro emprestado dos seus pais para montar um guarda-roupa
impecável e comprar um carro novo.
d) Pede um empréstimo ao banco ou compra seu primeiro DVD no crediário.
Afinal, agora você tem um contracheque.

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 Seu primeiro filho está para chegar. Você:

a) Compra uma casa maior


b) Convida sua mulher (ou marido) para a última grande viagem a dois.
c) Fica deprimido, pois não está tranqüilo financeiramente para sustentar um
filho.
d) Planeja um novo orçamento. A vida vai mudar.

Terminou? Compare, agora, as respostas que você marcou com o quadro de


pontuação abaixo (figura ....), totalizando-as.

Questões
Opção 1 2 3 4 5 6 7 8 9
a 3 7 10 10 3 10 5 10 3
b 3 10 5 3 7 5 10 3 3
c 5 3 3 5 10 3 3 3 5
d 10 3 7 7 3 3 3 3 10
Figura ...: Quadro de pontuação do teste de capacidade de poupança

Confira, finalmente, o resultado:

 Até 39 pontos: você nem de longe está conseguindo controlar o seu


dinheiro. É bom tomar as rédeas da situação para não se afundar em
dívidas.
 De 40 a 69 pontos: a situação está sob controle. Você é um forte
candidato a ter suas finanças em ordem.
 De 70 a 90 pontos: parabéns! Com essa organização, muito
provavelmente você já está conseguindo fazer um bom pé-de-meia.

1.4 Juros

Ao deixar de adquirir coisas que queria, como sapatos, roupas ou


eletrodomésticos, para poupar dinheiro, eu me impus um sacrifício, ou seja,
deixei de realizar um desejo, que espero que seja recompensado. Só que, para
isso, é preciso que alguém necessite destes recursos, e me pague o aluguel da
utilização dos mesmos. Este aluguel é chamado de juro.

Normalmente, procuramos uma instituição financeira para aplicarmos nossas


reservas e, tradicionalmente, optamos pela caderneta de poupança, por
representar um investimento seguro e com pequeno ganho, sem nos
preocuparmos em analisar outras opções quase tão seguras e com
rentabilidade mais atraente. As características dos diferentes produtos
financeiros, seu risco e rentabilidade, serão abordadas nos próximos capítulos,
para que possamos entender seu funcionamento e adequá-los ao perfil de
cada investidor.

15
Mas como acontece a multiplicação do dinheiro? Os bancos podem imprimir
papel moeda? Eles utilizam esses recursos e pagam juros ao investidor? Na
verdade, a instituição empresta o capital dos poupadores para outras pessoas
e empresas, a uma taxa de juros maior, para que os ganhos obtidos sejam
suficientes para garantir o pagamento de seus custos, a geração de lucros e a
remuneração dos poupadores. E não, os bancos não podem imprimir dinheiro,
pois esta é uma atribuição exclusiva do Banco Central do Brasil, por
autorização do Governo da Republica Federativa do Brasil.

Vemos, então, que o primeiro grande desafio a ser vencido é um só: poupar. O
restante vem como conseqüência. Mas porque será que poupar é tão difícil.
Será que o apelo do lançamento de novos produtos através das propagandas
os torna irresistíveis? A necessidade de acompanhar as tendências da moda e
de destacar-mo-nos entre nossos amigos? O desejo de adquirirmos o último
modelo de celular, para poder estar na ¨crista da onda¨ tecnológica? De
mostrar-nos aos vizinhos nosso carro, moto ou qualquer brinquedo novo, que
representam nosso sucesso profissional? São perguntas difíceis, que devem
ser respondidas com sinceridade, para o início da transformação que é tornar-
se um poupador e, posteriormente, um investidor. Então eu te pergunto: já
respondeu?

16
¨O homem vale o que possui¨
Anônimo

2 Receita e despesas: fluxo de caixa pessoal


Depois de explicarmos os primeiros conceitos financeiros, começaremos,
agora, a aplicá-los em nossa realidade. Para isso, precisamos diferenciar
receita, despesas e investimento.

Consideramos como receitas todos os valores que recebemos, que significa a


posse, e que nos pertencem, que representa a propriedade. Fazemos esta
diferenciação para que um empréstimo, por exemplo, não seja considerado
uma receita, visto que deverá ser pago futuramente. Salários, bônus, aluguéis,
juros, participações, dividendos, heranças, mesadas, restituições do imposto de
renda, ou ganhos diversos, estão nesta categoria, e contribuem para o
aumento de nossa riqueza.

Por outro lado, as despesas constituem os gastos, ou desembolsos,


necessários para nossa manutenção, independente se voltadas para nossa
sobrevivência, ou conforto. Obrigações como faturas de água, energia,
telefone, impostos, condomínio, aluguel, combustíveis, juros, manutenção de
veículos, supermercado, escola, seguros, TV a cabo, pensão alimentícia, entre
outras, estão neste grupo, e diminuem nossos recursos.

Assim, leia com atenção o conceito que lhe apresento a seguir:

¨A operação de realizar a diferença, entre receitas e despesas pessoais, em


um determinado período, normalmente mensal, é chamado de fluxo de caixa
pessoal.¨

A beleza principal deste conceito está em sua simplicidade, ou seja, não existe
espaço para indagações ou suposições, o resultado é igual a receitas menos
despesas, e ele é determinante em sua vida. A poupança nasce a partir do
momento em que ele é positivo, ou que as receitas são maiores que as
despesas. As dores de cabeça começam no instante oposto, fácil assim.
Normalmente, a maioria das pessoas possui o hábito de conhecer
profundamente as suas receitas, principalmente para poder comprometê-las,
não dedicando a mesma preocupação com a análise detalhada de suas
despesas, até mesmo para não aborrecer-se com a antecipação de problemas.
Será que esta é a melhor atitude para quem pretende atingir uma tranqüilidade
financeira a médio e longo prazo? A resposta, com certeza, é não! Para que
possamos iniciar este capítulo plantando sementes que germinarão em bons
frutos, desenvolva o modelo de descrição de receitas e despesas apresentado
abaixo, considerando o mês atual, para que possamos ter a noção da
movimentação financeira deste período, e continuarmos com nosso
aprendizado de investidores.

17
Receita Despesas com transporte
Seu salário Combustível
Salário do seu cônjugue Manutenção/IPVA/Multas
Pró-labore Seguro do carro
Receitas de investimentos Financiamento de carro
Outras Estacionamento
Total de receitas(1) Táxi/ônibus/metrô
Despesas com moradia Outras
Condomínio Subtotal(D)
Aluguel Despesas com saúde
Prestaçao de financiamento Seguro de saúde
Água/Luz/Gás Médico particular
Telefone(fixo e celular) Exames laboratoriais
Empregada doméstica/faxineira Dentista
TV por assinatura Farmácia
Provedor de internet Academia de ginástica
Supermercado/Feira/Padaria Outras
Reparos/manutençao Subtotal(E)
Outras Despesas diversas
Subotal (A) Vestuário
Despesas com educação Presentes
Mensalidades escolares Cabelereiro/barbeiro
Cursos extra-curriculares Hobbies
Outros seguros(vida, residencial
Livros escolares etc)
Gastos com animais de
Seminários/Palestras estimação
Transporte escolar Doações

Lanche Anuidade de cartão de crédito


Outras Tarifas bancárias
Contribuição para plano de
Subtotal(B) previdência
Despesas com lazer Subtotal(F)
Cinema/teatro/show
Restaurantes Prestações de crediários

Viagens Juros de cartão de crédito


Discos/livros Juros de cheque especial
Jornais/revistas Outros financiamentos
Aluguel de filmes/jogos/DVDs Impostos
Mensalidade do clube Subtotal(G)
Total de despesas(2)
Outras (A+B+C+D+E+F+G)
Subtotal(C) Sobra/déficit mensal (1) - (2)

Figura ...: Receitas e despesas mensais

Isso que acabamos de fazer é um modelo de fluxo de caixa, e existem vários.


Normalmente, utilizamos planilhas eletrônicas, principalmente do aplicativo
Excel, da Microsoft, para efetuarmos os lançamentos relativos as receitas e
despesas em cada período. Atualmente, são disponibilizados diversos
softwares, como o Money, da mesma empresa, que permitem o
acompanhamento de toda movimentação financeira pessoal. Você pode
pensar: ¨Mas eu sou péssimo com computadores!¨, o que importa não é o

18
software, ou o hardware, mas o entendimento e a intenção de realizar o fluxo
de caixa, que, na pior das hipóteses, pode ser elaborado na folha de um
caderno antigo.

É claro que nenhum software, ou planilha, funciona sozinho. É necessário


disciplina para anotar e efetuar todos os desembolsos que realizamos em
nosso dia-a-dia. Desde a gorjeta ao garçom, o flanelinha que vigia o carro, ou
as doações às instituições de caridade. No fluxo de caixa, o que importa é a
saída dos recursos, para que possamos acompanhá-los de maneira correta.
Com o tempo, torna-se um hábito, como escovar os dentes, ou pentear os
cabelos.

Para que você não precise reinventar a roda, abaixo te apresento um modelo
simplificado (figura ...) de fluxo de caixa pessoal, que pode ser desenvolvido
em uma planilha eletrônica, um caderno de anotações ou até mesmo em um
pedaço de papel de pão usado.

COD RECEBIMENTOS último


1 Salário 0
2 Aluguéis 0
3 Juros 0
4 Empréstimos recebidos 0
5 Outras receitas 0
A TOTAL RECEITAS 0
A.A Receitas Acumuladas
Depósito FGTS

PAGAMENTOS
1 Compras residenciais 0
2 Medicamentos 0
3 Combustível 0
6 Energia 0
7 Água 0
8 Seguros 0
10 Telefone 0
11 Manutenções diversas 0
12 Mesada dos filhos 0
13 Financiamentos 0
14 Plano de saúde 0
15 Aquisição de bens 0
16 Outras despesas 0
B TOTAL DESPESAS 0
B.B Despesas Acumuladas

C FLUXO DE CAIXA (A-B) 0


Figura ....: Modelo de um fluxo de caixa pessoal

Observe que, nas primeiras linhas, são apresentadas as diversas modalidades


de receitas, que posso obter mensalmente, ou em qualquer outro período, e
que são consideradas como entradas. Posteriormente, a descrição analítica

19
das despesas comuns a maioria das pessoas, que devem ser somadas e,
posteriormente, deduzidos das receitas, quando obteremos o saldo do fluxo de
caixa.

Só posso começar a pensar em investimentos a partir do momento que possuo


resultados positivos em períodos, de preferência consecutivos, maiores que os
saldos negativos, pois em vários momentos do ano, principalmente no início
das aulas, férias e pagamento de impostos, por exemplo, as despesas
costumam ser maiores que as receitas.

Mas aí aparece mais um problema, pois, afinal, o que são investimentos?


Posso considerar que a aquisição de uma TV, um DVD, uma geladeira ou um
carro novo não são despesas, e sim investimentos? A resposta é não! E
vamos combinar, a partir de agora, o nosso conceito de investimento.

¨Investimento é qualquer desembolso efetuado com o objetivo de obter retorno,


ou ganho, financeiro ou não, em um determinado período de tempo.¨

E porque os bens acima não são investimentos? Porque são bens de consumo,
que se desgastam e desvalorizam com o tempo, diminuindo nossa riqueza e,
portanto, não podem ser considerados como investimento.

Tudo isso é meio óbvio, e, por isso mesmo, um pouco cansativo. Mas é
importantíssimo para a mudança de nosso comportamento financeiro.
Passaremos, agora, para exemplos práticos, de nosso dia-a-dia, que geram
desperdício de recursos, impedindo a geração da poupança necessária para a
realização de investimentos:

 Observe seus gastos com telefone, se em sua família existem pessoas


que se esquecem de que cada ligação é cobrada, instale um aparelho
codificador ou bloqueador, que tanto podem inibir, quanto controlar o
tempo das chamadas originadas. Em minha casa a conta de telefone
caiu de R$ 150,00 (cento e cinqüenta reais), para R$ 50,00 (cinqüenta
reais), ao mês. Economia de R$ 100,00 (cem reais).
 Se você mora sozinho, ou se a maioria das pessoas de sua família
possui telefone celular, verifique a conveniência de solicitar o
desligamento da linha telefônica convencional, pois a assinatura básica
custa R$ 33,00 (trinta e três reais) mensais. Outras saídas são a
instalação de uma linha fixa pré-paga (a cartão), ou o pagamento de
uma assinatura básica de R$ 12,00 (doze reais) para que a linha
somente receba ligações.
 Verifique o consumo de gasolina do seu carro. Se você roda em torno de
1000 quilômetros ao mês, e o desempenho do veículo é de 8
quilômetros por litro, e o litro de gasolina custa, em média, R$ 2,03 (dois
reais e três centavos), você desembolsará R$ 255,00 (duzentos e
cinqüenta e cinco reais) ao mês. Se adquirir um carro popular, com um
consumo de 12 quilômetros por litro, este gasto cairá para R$ 169,00
(cento e sessenta e nove reais), uma diferença de R$ 86,00 (sessenta e
seis reais) mensais.

20
 Abasteça sempre à vista. Procure postos de combustíveis confiáveis,
que ofereçam promoções para pagamento em dinheiro. Se você gasta
cinqüenta litros de combustível por semana, e consegue economizar R$
0,06 (seis centavos) por litro, pagará R$ 3,00 (três reais) a menos por
abastecimento, significando R$ 13,00 (treze reais) ao mês, ou R$ 146,00
(cento e quarenta e seis reais) anuais.
 Aproveite as promoções das oficinas e concessionárias para fazer a
manutenção preventiva de seu veículo, ou mesmo a troca de óleo e de
filtros.
 Você possui TV a cabo? Verifique quem e quais os canais mais
assistidos pelas pessoas de sua casa. Não pague um pacote completo
se ele não é utilizado. Se a maioria de seus familiares trabalha fora,
sobrando pouco tempo para assistir a televisão, veja a viabilidade de
cancelar o contrato, locando filmes, quando der vontade de assisti-los.
Normalmente, pagamos pelo serviço e ainda gastamos com locação e
cinema.
 Repense seus hábitos. Uma carteira de cigarro por dia representa R$
63,00 (sessenta e três reais) ao mês, sete cervejas por semana, ou uma
por dia, produzem um desembolso de R$ 81,00 (oitenta e um reais)
mensais, um refrigerante em lata por dia custa R$ 39,00 (trinta e nove
reais) no mesmo período.
 Agradeça o crédito oferecido por seus fornecedores, como lanchonetes,
padarias e pequenos supermercados, e não compre mais fiado.
Normalmente, por não ter que pagar no momento da aquisição, o
consumo é maior, aumentando as despesas mensais.
 Só compre a vista. Qualquer desconto que você negocie a vista será,
com certeza, maior que o rendimento obtido nas aplicações financeiras
tradicionais. Se você consome R$ 2.000,00 (dois mil reais) anuais com
roupas, sapatos, acessórios, ou quaisquer outros gastos pessoais, e
conseguir uma economia média de 5%, terá deixado de desembolsar R$
100,00 (cem reais), e, de prêmio, economizado no pagamento dos juros
das compras a prazo.
 Destrua quase todos os cartões de crédito e cancele suas contas
bancárias. Mantenha um de cada, para emergências, ou recebimentos e
aplicações. Se você possui dois, ou mais, cartões, seu gasto com
manutenção será de, no mínimo, R$ 40,00 (quarenta reais) anuais, mais
juros e multas em caso de atraso. Em contas correntes, o pacote mínimo
de serviços, oferecidos pelas instituições financeiras, custam,
normalmente, R$ 12,00 (doze reais) mensais. Logo, sua economia será
de R$ 144,00 (cento e quarenta e quatro reais) anuais.
 Se pretende viajar nas férias, aça uma poupança mensal que pague, à
vista, o pacote de viagens, os gastos no destino e os presentes para os
amigos. Você economizará dinheiro e ganhará qualidade de vida, pois
uma das piores coisas que existem é a dor de cabeça das dívidas
depois da alegria do passeio.
 Evite fazer grandes compras mensais (de produtos alimentícios e de
higiene e limpeza pessoais), e vá ao supermercado sempre munido de
lista de compras. Prefira os produtos em promoção. Uma economia de
10% em suas compras mensais fará uma grande diferença no final de
um ano. Experimente novas marcas, de produtos mais baratos, e

21
compare os preços com os produtos que usa tradicionalmente, só pague
mais se o produto realmente oferecer uma qualidade superior que valha
a diferença.
 Utilize, ao máximo, a iluminação natural. Substitua lâmpadas
incandescentes por fluorescentes, que consomem menos energia. Cores
escuras, em partes internas da casa, exigem lâmpadas mais fortes para
oferecer uma iluminação mais adequada, que consomem mais energia,
aumentando o valor da fatura no final do mês. Se possível, utilize cores
mais claras nas paredes.
 Evite guardar, na geladeira, alimentos ainda quentes, pois isso exige um
maior esforço do motor e maior gasto de energia, ou utilizar a parte
traseira para secar panos, roupas e sapatos. Verifique, ainda, a borracha
de vedação, se não estiver guardando o frio adequadamente, troque-a.
 Não durma com o televisor ligado e, se em sua residência tiver mais de
um, evite a sua utilização simultânea. Em último caso, programe a
função de desligamento automático (timer).
 Limite o tempo de banho, normalmente, oito minutos são suficientes.
Mantenha, sempre que possível, a chave do chuveiro na posição verão,
economizando 30% do consumo de energia.

Você deve estar pensando, como muitos amigos meus, que ¨esse cara é
louco!¨, ou, no mínimo, paranóico. Então, deixe-me apresentá-lo a verdadeira
mágica das finanças, uma coisa chamada juros compostos.

2.1 Juros compostos e calculadora HP 12C

Os juros compostos nada mais são do que o acúmulo, mês a mês, do capital
investido mais os juros gerados, fazendo que ele cresça a uma velocidade
maior do que se fosse remunerado somente o juro sobre o principal todos os
meses (chamado de juro simples).

Existe toda uma teoria, disponível em diversos livros de matemática financeira,


que utilizam vários cálculos matemáticos, para a apuração da rentabilidade de
investimentos através de diversos períodos, valores e taxas. Mas a tecnologia
está aí para colaborar com nossos problemas com cálculos, fornecendo uma
maravilha chamada calculadora financeira HP 12C (figura ...).

22
Figura .....: Calculadora financeira HP 12C

Não precisa pensar que a HP está me pagando comissão ou financiando nosso


livro. Ela é, simplesmente, a ferramenta de cálculo financeiro mais utilizado
pelos profissionais que atuam nessa área. Principalmente pela tradição e
reputação que conquistou no mercado. É interessante frisar que existem
produtos mais modernos e completos, mas nenhum conseguiu substituir esta
calculadora no coração dos financistas. Procurarei mostrar os passos básicos
em sua operacionalização, sempre que mostrar cálculos que foram realizados
através dela e, desde já, te aconselho a realizar um dos melhores
investimentos de sua vida. Invista em você mesmo, faça um curso de
matemática financeira básica e operação de HP 12C. Em sua cidade, procure
o SENAI, SESI, SESC, SEBRAE, universidades ou centros de capacitação que
o ofereçam, com duração, normalmente, de no máximo vinte horas e custos
que variam de R$ 50,00 (cinqüenta reais) a R$ 80,00 (oitenta reais).

Vamos exemplificar as diferenças entre juros simples e compostos para um


melhor entendimento. Suponha que investi, em 02/05/03, R$ 1000,00 em um
fundo de renda fixa, a uma taxa média de 1,5% ao mês, durante quatro meses,
vejamos qual seria o total da aplicação com a remuneração em juros simples e
compostos.

Juro simples
Data Capital Taxa Período Juros Montante
02/05 1000 1,5% 0 0 1000
02/06 1000 1,5% 1 15 1015
02/07 1000 1,5% 2 15 1030
02/08 1000 1,5% 3 15 1045
02/09 1000 1,5% 4 15 1060
Figura 01: cálculo de juros simples de uma aplicação

Veja que o rendimento obtido foi, ao final, de 6% do capital investido, que


correspondem a soma da taxa de juros mensal, de 1,5%, vezes o número de
meses em que os recursos foram aplicados. Observe, ainda, que somente o
valor principal é remunerado com juros, mesmo acumulando o valor do
rendimento mês a mês ao capital investido.

23
Observe, agora, o mesmo investimento remunerado com juros compostos.

Juros compostos
Data Capital Taxa Período Juros Montante
02/05 1000 1,5% 0 0 1000
02/06 1000 1,5% 1 15 1015
02/07 1015 1,5% 2 15 1030,22
02/08 1030,22 1,5% 3 15 1045,68
02/09 1045,68 1,5% 4 15 1061,36
Figura 02: cálculo de juros compostos de uma aplicação

Verifique que, no sistema de juros compostos, o rendimento foi maior em


aproximadamente 2,27% dos juros (a diferença entre os R$ 61,36 e R$ 60,00
obtidos com os juros simples), no mesmo período, pelo fato dos juros serem
incorporados ao capital e aumentarem os valores aplicados mensalmente. Para
fazer este processo na calculadora HP 12C, você deve seguir os seguintes
passos:

 Tecle CLX
 Tecle ¨f¨ e CLX
 Digite o valor do capital e tecle CHS e PV
 Digite o número de períodos e tecle ¨n¨
 Digite a taxa de juros e tecle ¨i¨
 Aperte FV e descubra o total no final do período

Novamente você pode estar pensando: ¨Pôxa, estou aqui estudando para
ganhar R$ 1,36 (um real e trinta e seis centavos) a mais, em quatro meses?¨.
Então, lhe mostrarei a diferença que estes valores podem fazer no longo prazo.

Lembra-se daqueles exemplos bobos que falei agora mesmo, do cigarro, da


cerveja ou da gasolina? Vamos fazer umas continhas básicas.

 Simulação do rendimento obtido através da poupança e investimento do


valor equivalente a 01 carteira de cigarro por dia, no valor de R$ 2,10
(dois reais e dez centavos), que representam um gasto de R$ 63,00
(sessenta e três reais) ao mês, à taxa de juros de 1,0% mensal (líquido
da inflação), durante os seguintes períodos:

 10 anos: R$ 14.637,36
 20 anos: R$ 62.946,32
 30 anos: R$222.384,57 (Duzentos e vinte e dois mil, trezentos e oitenta
e quatro reais e cinqüenta e sete centavos).

 Uma cerveja por dia (você pode dizer que não toma uma por dia, mas se
bebe sete no fim de semana, dá no mesmo), no valor de R$ 2,70 (dois
reais e setenta centavos), que representam R$ 81,00 (oitenta e um
reais) mensais, na mesma taxa de juros.

 10 anos: R$ 18.819,46

24
 20 anos: R$ 80.930,98
 30 anos:R$ 285.923,02 (duzentos e oitenta e cinco mil, novecentos e
vinte e três reais e dois centavos)

 Economia de R$ 140,00 ao mês, de combustível, telefone, água e


energia, em condições idênticas:

 10 anos: R$ 32.527,47
 20 anos: R$ 139.880,71
 30 anos: R$ 494.187,93 (quatrocentos e noventa e quatro reais, cento e
oitenta e sete reais e noventa e três centavos)

Novamente, para realizar esta modalidade de cálculo na HP 12C, siga os


seguintes passos:

 Digite o valor à vista;


 Aperte a tecla CHS;
 Tecle PV;
 Coloque o valor das prestações (digite somente uma) com a tecla PMT;
 Informe o número de prestações que serão pagas e tecle ¨n¨;
 Aperte a tecla ¨i¨.
 Aperte a tecla FV e observe o resultado

Vejamos os ganhos nos respectivos períodos:

10 anos 20 anos 30 anos


Cigarro 14.637,36 62.946,32 222.384,57
Cerveja 18.819,46 80.930,98 285.923,02
Outras economias 32.527,47 139.880,71 494.187,93

Total 65.984,29 283.758,01 1.002.495,52


Figura 03: cálculo dos benefícios obtidos a longo prazo de aplicações
financeiras

Surpreso? Pois é. Com essas medidas simples de economia te mostrei como


se tornar um milionário em 30 anos, e não cobrei nada mais por isso. Talvez
esteja se perguntando: ¨Onde obterei investimentos que me rendam 1% ao
mês acima da inflação?¨. Este assunto será tratado um pouco mais a frente.
Por enquanto, reflita sobre o que foi mostrado e me diga, sinceramente: Não
vale a pena repensar alguns hábitos? Para finalizar, faça o fluxo de caixa
abaixo, e verifique o comportamento de suas receitas e despesas nos últimos
três meses, complementando com a análise do início do capítulo, do mês atual,
esse conhecimento lhe será extremamente útil nos próximos assuntos que
iremos abordar.

25
COD RECEBIMENTOS antepenúltimo penúltimo último Total
1 Salário
2 Aluguéis
3 Juros
4 Empréstimos recebidos
5 Outras receitas
A TOTAL RECEITAS
A.A Receitas Acumuladas
Depósito FGTS

PAGAMENTOS
1 Compras residenciais
2 Veículos (manut., IPVA)
3 Salários e encargos
6 Energia
7 Água
8 Seguros
10 Telefone
11 Imposto de Renda
12 INSS
13 Financiamentos
14 Pensão Alimentícia
15 Aquisição de bens
16 Outras despesas
B TOTAL DESPESAS
B.B Despesas Acumuladas

C FLUXO DE CAIXA (A-B)


C.C Fluxo Caixa Acumulado

D SALDO CAIXA
E SALDO BANCOS
F SUBTOTAL (C+D+E+F)
G CONTRATAÇÃO EMP.
H MOV. APLICAÇÕES
I SALDO FINAL (F+G-H)

26
¨Os bancos são instituições que lhe
emprestam um guarda-chuva em um dia
de sol, para tomá-lo no dia de chuva.¨
Anônimo

3 Criação e destruição da riqueza: o poder dos juros


compostos
Eu te mostrei, simplificadamente, como ficar milionário em 30 anos, com
algumas economias em seu dia-a-dia. Comecei a me educar depois que passei
sérias dificuldades financeiras, que contribuíram ainda mais para meu
aprendizado. Às vezes, quando estou conversando com os amigos, colegas de
trabalho ou alunos, eles fazem brincadeiras com o meu comportamento, mas
no final acabam me dando razão. Um exemplo foi bastante engraçado, por isso
vou contá-lo agora a vocês.

Um colega de trabalho juntou, durante algum tempo, o dinheiro necessário para


realizar o sonho de adquirir um carro importado. Para isso vendeu o carro
antigo, complementou com a poupança e financiou o restante, conforme o
quadro abaixo:

Valores
Carro antigo 18.000,00
Poupança 18.000,00
Financiamento 16.000,00

Total 52.000,00
Figura 04: investimento necessário para compra de um carro importado

Fora isso, ainda adquiriu um seguro, para o carro novo, no valor de R$ 2.600,
(dois mil e seiscentos) reais, para pagamento em 10 vezes. O financiamento,
de R$ 16.000,00 (dezesseis mil reais), seria pago em 24 parcelas de R$ 894,60
(oitocentos e noventa e quatro reais e sessenta centavos), calculados a uma
taxa de juros de 2,5% ao mês.

Ele me contou essa história, pois estava extremamente feliz com a aquisição
do veículo, embora um pouco preocupado com o pagamento das prestações e
do seguro. Comecei, então, a fazer algumas contas comparativas do carro
antigo e o novo para ele, mostrando o impacto que a troca teria em suas
finanças pessoais. Veja que situação interessante:

27
Custo anual
Carro antigo Carro novo Diferença

Seguro (5%) 900,00 2.600,00 1.700,00


IPVA (± 4%) 720,00 2.080,00 1.360,00
Depreciação 900,00 5.200,00 4.300,00
Manutenção 500,00 1.000,00 500,00
Custo de oportunidade 2.160,00 6.240,00 4.080,00
Juros financiamento 0 1.735,20 1.735,20

Total 5.180,00 18.855,20 13.675,20


Figura 05: cálculo das diferenças de custo anual entre um carro antigo e um
carro novo

Ao adquirir um carro importado, ele aumentou todas as suas despesas


mensais, afinal, o valor do seguro e do imposto sobre propriedade de veículos
automotores (IPVA) são cobrados sobre o valor do veículo (sem contar que
carros importados contam com uma alíquota de imposto maior).

E a depreciação? O que é este conceito? Ela é a desvalorização que todos os


bens de consumo são submetidos pelo seu uso, sendo, normalmente, mais
acentuada em seus primeiros anos, principalmente em automóveis importados.
Eu possuía um Calibra, importado pela General Motors do Brasil, ano e modelo
1995, e desenvolvi uma análise comparativa de sua desvalorização, através
dos anos, com um veículo Gol 1.6, do mesmo ano. Observe na figura..... a
curva de depreciação dos dois veículos.

120%
100%
80%

60%
40%
20%
0%
1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003

calibra gol 1.6

Figura 06: Desvalorização comparativa de dois veículos em aproximadamente


sete anos

O veículo foi adquirido, em 1995, por aproximadamente R$ 60.000,00


(sessenta mil reais), perdendo, nos dois primeiros anos, aproximadamente 20%
de seu valor por ano. Do terceiro ano em diante, começou a desvalorizar-se a

28
um ritmo constante de 15% ao ano, sendo vendido, em 2003, por R$
(14.000,00 quatorze mil reais), ou seja, o automóvel perdeu quase 76,7% do
seu valor nesse período. Antes que algum vendedor de veículos reclame com
seus argumentos de venda, é bom sublinhar que o automóvel estava em
excelente estado de conservação.

Já o Gol, por se tratar de um veículo popular de grande aceitação e procura no


mercado, possui uma curva de desvalorização bem menos acentuada, tendo
sido adquirido por R$ 12.000,00 (doze mil reais) em 1995, e possuindo um
valor de revenda, em 2003, de aproximadamente, R$ 8.000,00 (oito mil reais),
com uma desvalorização de 50% de seu valor original.

O gasto com manutenção também aumentou, mesmo sendo um carro novo.


Afinal, a mão-de-obra para revisões, peças, pneus e serviços são sempre mais
caros quanto maior for o valor do veículo (afinal, carro importado é sinônimo
que de você ¨é rico¨, não é mesmo? E agüenta uma facadinha de vez em
quando).

Isto é um fator muito interessante. Já observei, empiricamente, que


normalmente as pessoas concedem descontos ou calculam o preço de seus
serviços de acordo com a aparência do consumidor ou do contratante. Se você
está em um carro de alto valor, seja ele nacional ou importado, ou muito bem
vestido, você precisa pagar pela ¨imagem¨, ou seja, a impressão que causa às
outras pessoas de seu sucesso financeiro, como se isso fosse culpa sua.

Outro fator a destacar é a reação quando, nesta situação, solicitamos um


desconto por aquilo que estamos adquirindo. Já escutei comentários irônicos, e
até mesmo mal-educados, onde é salientado que ¨quanto mais rico, mais pão-
duro¨, ¨quanto mais rico, mais chorão¨ ou, então, ¨é por isso que ficou rico,
explorando os outros¨. Se fosse outro cliente, de aparência mais humilde, o
pedido de desconto, ou o endurecimento na negociação, seria um fator normal,
mas nesses casos você tem que pagar o preço solicitado, afinal ¨você tem
muito¨, e já está bom demais.

Já o custo de oportunidade é a diferença de rendimentos entre duas, ou mais,


opções de investimento, que podem apresentar, às vezes, riscos diferentes.
Por exemplo, ao retirar minhas economias da caderneta de poupança, que
rendiam em torno de 0,80% ao mês, para investir em outra opção mais
arriscada, tenho que procurar uma remuneração maior que a recebida
anteriormente. No caso do automóvel, deixei de ganhar os juros de 12% ao ano
(incluindo a inflação), para comprar um carro, por isso, tenho que calcular
quanto estou deixando de ganhar. Interessante, não é mesmo?

Os juros, de R$ 1.735,20 (um mil, setecentos e trinta e cinco reais e vinte


centavos), foram calculados pelo Sistema Francês de Amortização, mais
conhecido como tabela Price, que será explicado em outro exemplo, nas
próximas páginas, sendo simplesmente a multiplicação do valor de cada
prestação, de R$ 894,60, pelo número de pagamentos que deverão ser
efetuados, totalizando R$ 21.470,40 (vinte e um mil, quatrocentos e setenta
reais e quarenta centavos), que diminuídos do valor que foi financiado, de R$

29
18.000,00 (dezoito mil reais), apresentam um resultado de R$ 3.470,40 (três
mil, quatrocentos e setenta reais e quarenta centavos), em dois anos, sendo,
então, o valor anual este número dividido por dois, já que se não houvesse o
empréstimo, não existiria o pagamento dos juros.

É isso aí! A simples aquisição de um carro novo, para a concretização de um


antigo sonho, custava a quantia de R$ 13.675,20 (treze mil, seiscentos e
setenta e cinco reais e vinte centavos) a mais por ano, ou R$ 1.139,60 (um mil,
cento e trinta e nove reais e sessenta centavos) ao mês.

Se o problema acabasse aí, estaria tudo bem, mas o raciocínio é um pouco


mais complexo. Imagine se, ao invés de comprar esse carro agora, e aumentar
todas essas despesas ao mês, meu amigo conseguisse economizar este
dinheiro, aplicando-o, durante alguns períodos, à taxa de 1,0% ao mês (sem
incluir a inflação).Veja o que aconteceria:

 2 anos: R$ 31.046,35
 3 anos: R$ 46.581,31
 4 anos: R$ 70.466,98 (setenta mil, quatrocentos e sessenta e seis reais
e noventa e oito centavos), e ainda sobrou o carro antigo.

Meu amigo estava perplexo! Se ele continuasse aplicando os R$ 18.000,00 de


sua poupança, em outros tipos de investimento, um pouco mais rentáveis, mais
o valor que custaria seu carro novo por mês, em 23 meses ele conseguiria
comprar o mesmo carro à vista (talvez até com algum desconto), e ainda
sobraria seu carro antigo. Fenomenal, não é mesmo? O problema é que ele só
descobriu isso depois que tinha feito o negócio (e ainda queria brigar comigo).
Vamos conferir as contas?

 Tecle 18000 (o dinheiro que já possuía) e aperte CHS e PV


 Insira 1139 (o custo mensal do carro importado) e aperte CHS e PMT
 Digite 52000 (o valor do veículo à vista) e tecle FV
 Aperte ¨n¨
 Resultado 23 meses

Neste momento seu cérebro pode estar dizendo a você: ¨Este tipo de problema
nunca me acontecerá, afinal, nunca tive vontade de ter um carro importado!¨
Você pode até se achar um espertinho, mas não desistirei de meu propósito de
te mostrar as armadilhas que o mercado cria para todos nós. Preste atenção
neste outro exemplo.

Estava em casa em um domingo (07/09/2003), lendo o jornal local


pacificamente, quando me deparei com um encarte das Casas Bahia,
anunciando diversas promoções, com pagamentos para todos os tipos de
gosto. Á vista, prazo no cartão, crediário com entrada e sem entrada. Aquele
anúncio me despertou a curiosidade para as taxas de juros que estavam sendo
cobradas, e comecei a procurar as famosas letrinhas pequenas, encontrando-
as no rodapé da última página (se você possuir algum problema visual, com
certeza não conseguirá lê-las). Transcrevo um pequeno trecho para a nossa
análise:

30
¨Formas de pagamento: à vista ou a prazo em até 10x sem juros (quando
assinalado nos produtos), com o 1º pagamento no ato da compra e os demais
de 30 em 30 dias, em até 10x sem entrada com juros de até 5,9% ao mês e
98,95% ao ano, com o 1º pagamento 30 dias após a compra e os demais de 30
em 30 dias, ou em 12x nos cartões de crédito... com juros de 2,9% ao mês e
40,92% ao ano...¨

Quero deixar claro, antes de fazermos as contas, que a prática de cobrança de


juros não é exclusividade das Casas Bahia, mas que estamos usando esse
exemplo por se tratar de um encarte público distribuído em um jornal de maior
circulação em Goiânia.

Pois bem, escolhi para ilustrar nossa análise o refrigerador Electrolux de 351
litros, com 100 peças de disponibilidade (até mesmo por que estou precisando
comprar uma geladeira nova para minha casa), e desenvolvi a análise que
descrevo abaixo. Veja as condições e os preços:

Condição de pagamento Prestações Valor Total

À vista 0 999,00 999,00


À prazo (cartão) 12 (sem entrada) 99,76 1.197,12
À prazo (crediário) 10 (sem entrada) 135,00 1.350,00
Figura 07: compra de uma geladeira em diversas formas de pagamento

Como para pagamento à vista, não incidem juros, passaremos a calcular


diretamente o exemplo de 12 pagamentos sem entrada. Observe que, do valor
à vista, para essa modalidade de compra, existe uma diferença de R$ 198,12
(cento e noventa e oito reais e vinte centavos), equivalentes a quase 20% do
valor da geladeira a vista, e a taxa de juros cobrada é de aproximadamente
3,47% ao mês. Se você optar pelo pagamento em 10 vezes sem entrada, terá
pago, no final, o valor de R$ 1.350,00 (um mil, trezentos e cinqüenta reais), ou
seja, R$ 351,00 (trezentos e cinqüenta e um reais) a mais que o valor a vista.
Isto corresponde a 35% do valor da geladeira, para pagamento no ato da
compra, e a taxa de juros sobe para 5,89% ao mês. Isso mesmo, quase 70% a
mais do que a taxa cobrada pelo cartão de crédito!

Novamente, lembro a vocês que o nosso objetivo não é fornecer um curso de


matemática financeira, ou de operação de HP-12C, a calculadora utilizada para
estes cálculos, mas, de qualquer maneira, estou passando o passo a passo de
como realizá-los nesta ferramenta.

Para descobrir a taxa de juros cobrada em compras, sem entrada (todas as


teclas de funções financeiras estão próximas ao visor da calculadora):

1) Digite o valor à vista;


2) Aperte a tecla CHS;
3) Tecle PV;
4) Coloque o valor das prestações (digite somente uma) com a tecla
PMT;

31
5) Informe o número de prestações que serão pagas e tecle ¨n¨;
6) Aperte a tecla ¨i¨.

No quadro abaixo (figura ...), apresento a demonstração das parcelas e dos


juros que estão inseridos no pagamento mensal:

Período Capital Prestação Juros Amortização Saldo


0 999,00 0,00 0,00 0,00 999,00
1 999,00 135,00 58,80 76,20 922,80
2 922,80 135,00 54,32 80,68 842,12
3 842,12 135,00 49,57 85,43 756,68
4 756,68 135,00 44,54 90,46 666,22
5 666,22 135,00 39,21 95,79 570,44
6 570,44 135,00 33,58 101,42 469,01
7 469,01 135,00 27,61 107,39 361,62
8 361,62 135,00 21,28 113,72 247,90
9 247,90 135,00 14,59 120,41 127,49
10 127,49 135,00 7,50 127,50 0,00
1350,00 351,00 999,00
Figura 08: Cálculo das prestações, juros e amortizações pelo sistema Price

O sistema financeiro atual é resultado de uma evolução nas técnicas de


cálculos de juros e formas de pagamento. O sistema acima, conhecido como
Sistema Francês de Amortização, ou simplesmente de tabela Price, é o mais
utilizado para cálculo de financiamentos. Observe que os juros são
decrescentes, enquanto as amortizações do saldo devedor são crescentes,
isso faz com que, se o cliente optar por antecipar os pagamentos futuros, os
descontos obtidos não sejam tão atraentes, pois os juros que serão pagos são
menores do que os desembolsados anteriormente. Interessante, não é mesmo
(principalmente para o credor)!

Mas o pior de tudo não é tomar conhecimento destes fatos corriqueiros de


nossa vida, mas analisarmos que, se tivéssemos investido o valor da prestação
em uma opção de investimento com rendimento mensal de 1,5% (isso mesmo,
quase quatro vezes menor do que a taxa de juros cobrada), em
aproximadamente sete meses teríamos o suficiente para comprar a geladeira à
vista, talvez negociando um desconto ainda maior. Acompanhe a metodologia
do cálculo:

1) Tecle ¨g¨ e posteriormente ¨beg¨ (está abaixo do número 7);


2) Digite o valor a vista do bem;
3) Aperte FV;
4) Informe o valor das prestações (somente o valor da primeira);
5) Prima PMT;
6) Tecle o valor da taxa de juros que será recebido mensalmente;
7) Aperte ¨i¨;
8) Finalmente, pergunte a calculadora o número de períodos
necessários para alcançar o valor pretendido apertando a tecla ¨n¨.

32
Verifique a demonstração do exemplo, citado anteriormente, na figura 09:

Período Aplicação Juros Saldo


1 135,00 2,03 137,03
2 135,00 4,08 276,11
3 135,00 6,17 417,27
4 135,00 8,28 560,56
5 135,00 10,43 705,99
6 135,00 12,61 853,60
7 135,00 14,83 1003,43
8 135,00 17,08 1155,51
9 135,00 19,36 1309,87
10 135,00 21,67 1466,54
1350,00 116,54
Figura 09: Calculo do período de aplicação necessária para obter os recursos
necessários para a compra de uma geladeira à vista

Observe que ao final de sete meses teremos acumulado R$ 1.003,43 (um mil,
três reais e quarenta e três centavos), que serão suficientes para o pagamento
da geladeira à vista, e ainda sobrará um troquinho para a cerveja
comemorativa.

Mas ainda não acabou! Note que, se você aplicar todas as parcelas, ao final
de dez meses terá R$ 1.466,54 (um mil, quatrocentos e sessenta e seis reais e
cinqüenta e quatro centavos), ou seja, R$ 467,54 (quatrocentos e sessenta e
sete reais e cinquenta e quatro centavos) além do valor à vista, ou 47% (quase
a metade), do valor da geladeira.

Você não fez dívidas, não pagou juros, não correu o risco de algum imprevisto
complicar sua vida financeira (pois se atrasar os pagamentos ainda terá que
honrar a multa e, se não pagar, terá o CPF inserido no cadastro do SPC,
Serasa, ou outras empresas de análise de crédito), gerou uma poupança (que
poderia ser utilizada para aquele imprevisto), ganhou juros e ficou muito mais
tranqüilo e satisfeito (apesar de ter usado a geladeira velha por mais dez
meses). Qual é o segredo? Deixar de trabalhar para ganhar dinheiro e comprar
produtos pagando juros, para colocar o dinheiro para trabalhar para você,
ganhar juros e realizar os seus desejos. Eu chamo isso de qualidade de vida!
Continua pensando que sou doido?

33
¨Quem poupa têm!¨
Anônimo

4 Capital de giro pessoal: conceito e importância


No segmento empresarial, o capital de giro corresponde aos recursos que são
utilizados pelas organizações no financiamento de suas atividades
operacionais, como caixa, bancos, duplicatas a receber, estoques e outros
bens e direitos que tornar-se-ão líquidos (dinheiro) em menos de um ano
(também chamado de ativo circulante).

Quando fazemos uma análise financeira de uma pessoa ou empresa,


normalmente o critério mais utilizado para a avaliação de sua situação é a de
solvência, ou seja, da sua capacidade de honrar obrigações assumidas.
Normalmente, essas dívidas podem ser pagas com recursos próprios ou de
terceiros (os chamados passivos), sendo importante a reflexão sobre o
percentual da quantidade de cada fonte que está sendo utilizada.

Uma empresa utiliza diversos recursos de terceiros. Fornecedores, governo


(impostos), funcionários (salários), bancos (empréstimos e financiamentos),
entre outros, que colaboram fornecendo recursos, onerosos (cobrando juros)
ou não, para o funcionamento da organização. O equilíbrio entre os ativos e os
passivos é fundamental para a sobrevivência e crescimento saudável das
companhias.

O funcionamento das finanças pessoais pode ser comparado e associado às


finanças empresariais, principalmente, em seus conceitos de ativo, passivo,
balanço patrimonial e capital de giro.

Não é nossa intenção fazer uma revisão de contabilidade e de seu


funcionamento. Queremos apenas apresentar alguns conceitos para tornar a
administração financeira pessoal mais fácil e com melhores resultados.

Pois bem. Do mesmo modo que as empresas, as pessoas também possuem


reservas em dinheiro (caixa, bancos e aplicações financeiras), contas a receber
(salários, aluguéis, mesadas, dividendos, empréstimos a parentes ou amigos)
e, até mesmo, estoque (produtos alimentícios, higiene e limpeza, peças para
carros), caracterizados como ativos circulantes.

Igualmente, temos obrigações mensais (passivos) como água, energia,


telefone, prestações de automóvel, seguro, geladeira, cartão de crédito,
empréstimos pessoais e cheque especial. Assim, o grande desafio é equilibrar
as receitas e os pagamentos mensais, de forma a conseguirmos o chamado
¨capital circulante líquido¨ positivo, que é a diferença entre o ativo circulante
(contas a receber) e o passivo circulante (contas a pagar).

Na contabilidade empresarial, existe a figura do balancete analítico, que pode


ser feito ininterruptamente, demonstrando a situação econômica e financeira da

34
empresa em cada operação realizada. Ao final do ano, o balancete é
transformado em um balanço patrimonial, como o retrato da empresa naquele
período.
Nas finanças pessoais, prefiro pensar sempre em forma de ciclo, ou seja, no
período de tempo necessário para que um processo comece, termine e
recomece novamente. Usando uma licença poética, podemos comparar com as
estações do ano, sempre acontecendo na mesma época, permitindo a
preparação para a sua chegada.

Então, o ciclo financeiro pessoal normalmente acontece no período de trinta


dias, que é o prazo necessário para o recebimento de salários, ou outras
rendas, e o pagamento de nossas obrigações. Sendo assim, pensaremos na
administração de nossos recursos e dívidas mensalmente, como primeiro
passo de nossa caminhada.

Posso, agora, apresentar minha definição de capital de giro pessoal, para sua
apreciação e aprovação.

¨Capital de giro pessoal são os recursos financeiros próprios, disponíveis e


gerados através da poupança que, somados aos recebimentos de determinado
período, serão utilizados para o pagamento das obrigações vincendas no
respectivo período, gerando um resultado positivo para a utilização posterior,
ou poupança.¨

A importância do entendimento deste conceito é fundamental para seu sucesso


como poupador e investidor. Se você já começa um período devendo,
provavelmente seus recebimentos serão insuficientes para terminá-lo sem
dívidas, em um círculo vicioso que consumirá sua capacidade de poupar e
possuir uma situação financeira estável (lembra-se dos exemplos do capítulo
anterior?). Assim, é aconselhável que toda pessoa possua uma reserva
financeira disponível (seja na carteira ou em conta-corrente, menos aplicação
financeira) suficiente para o pagamento de um mês de todas as suas
despesas, sem a necessidade dos recebimentos desse período.

Isso lhe trará uma tranqüilidade imensa! Poderá aproveitar todas as promoções
do supermercado, pois não precisará fazer as compras no começo do mês
(quando normalmente as mercadorias adquiridas no mês anterior estão
acabando), quitar pagamentos antecipados como água, luz e telefone,
abastecer à vista, enchendo o tanque, aproveitando preços mais baixos e
evitando ir várias vezes ao posto de gasolina, gastando menos combustível, e
negociar descontos para pagamentos antecipados de outras dívidas.

Uma situação financeira favorável não cai do céu. Ela é resultado de muito
esforço e sacrifício gastos na construção de uma poupança que garanta sua
segurança nos momentos de necessidade ou imprevistos. O capital de giro
pessoal é o primeiro passo, seguidos de informações dos produtos financeiros
disponíveis para o investidor, sua rentabilidade e riscos.

Comece a refletir sobre seus gastos. O ideal é que você consiga poupar de
25% a 30% de sua renda mensalmente, para que, em aproximadamente dois

35
anos, possua o equivalente a seis meses de remuneração investidos em
produtos financeiros de alta liquidez (fáceis de se transformar em dinheiro),
como caderneta de poupança, fundos de renda fixa, previdência privada, CDB
(certificado de depósito bancário) ou títulos da dívida pública. As ações de
empresas vendidas em bolsas de valores, apesar de algumas apresentarem
alta liquidez, não são consideradas nesta análise, pois dependem de diversos
fatores, como a decisão do momento ideal de negociação, e será tratado no
próximo capítulo.

Assim, quero te apresentar um novo tipo de fluxo de caixa, um pouquinho


diferente do mostrado no capítulo anterior. Enquanto o primeiro mostrava as
despesas e receitas efetivamente realizadas, este quer lhe convidar a fazer um
pequeno exercício de futurologia, ou seja, de planejar o seu amanhã financeiro.
Ele é chamado de fluxo de caixa projetado, e é elaborado a partir das
informações passadas, que servem de parâmetro para os acontecimentos
futuros.

É claro que imprevistos sempre podem acontecer (deve ser por isso que se
chamam imprevistos, não é mesmo?), e contribuir para que sua previsão não
se concretize. Mas o planejamento serve para que os objetivos que você
estabeleceu em sua vida sejam alcançados, e as informações que serão
fornecidas pelo fluxo de caixa projetado serão importantíssimas para isto.

Por exemplo. Suponha que você pretenda trocar de veículo ao final de certo
período, e que para isso seja necessário uma certa quantia em dinheiro. Será
que, se mantido meu fluxo de caixa atual, gerarei as reservas necessárias para
concretizar o negócio? Ao analisar as receitas e despesas futuras, poderei
imaginar soluções que me permitam realizar este desejo, caso a minha
situação atual seja desfavorável, poderei pensar em como buscar o aumento
de minhas receitas, seja através de ¨bicos¨ (aulas particulares, serviços nos
fins-de-semana, entre outros), ou da redução de despesas, com medidas de
economia.

De qualquer maneira, o quadro .... apresenta um modelo de fluxo de caixa


projetado. Note que sua estrutura é idêntica ao fluxo de caixa realizado, sendo
que a diferença primordial está nos valores, que só mudam quando tenho as
informações, hoje, do que acontecerá no futuro. Observe que isto poderia
acontecer nos recebimentos, caso no mês de julho fossem antecipadas as
férias ou a primeira parcela do décimo terceiro salário, mas não é o caso. Mas,
nas despesas, verifica-se a ocorrência de valores alterados na conta de
manutenção de veículos e IPVA, caracterizando o vencimento do imposto nos
meses de fevereiro e abril. Assim, o saldo do fluxo de caixa sofre alterações
nestes meses, tornando-se negativo.

Observe, ainda, que entre salários, aluguéis, juros e outras receitas (como
empréstimos recebidos ou resgate de previdência privada), a renda do exemplo
aproxima-se de 25 salários mínimos mensais (utilizando o valor de R$ 240,00),
ou seja, nada mal para os padrões brasileiros.

36
Quanto às despesas, são aquelas que afligem a qualquer cidadão normal, ou
seja, fornecedores de produtos e serviços como supermercado, padaria e
açougue, água, luz, telefone, empregados domésticos e seus encargos sociais,
INSS, imposto de renda e pensão alimentícia.

Você pode estar se perguntando: ¨Como alguém, de classe média alta,


consegue gastar somente duzentos e cinqüenta reais por mês com produtos de
supermercado, padaria e açougue?¨ Pois vou lhe responder. O fluxo de caixa
utilizado como exemplo é o que ajudei a um amigo divorciado a desenvolver.
Verifique que o item outras despesas é bastante significativo, pois são lá que
estão lançados despesas com a alimentação diária, toda feita em restaurantes,
entretenimento, ofertas a igreja, curso de inglês e outros pequenos gastos do
dia-a-dia.

COD RECEBIMENTOS Jan/04 Fev/04 Mar/04 Abr/04 Mai/04 Jun/04


1 Salário 4873,09 4873,09 4873,09 4873,09 4873,09 4873,09
2 Aluguéis 500 500 500 500 500 500
3 Juros 150 150 150 150 150 150
4 Empréstimos recebidos 0 0 0 0 0 0
5 Outras receitas 500 500 500 500 500 500
A TOTAL RECEITAS 6023,09 6023,09 6023,09 6023,09 6023,09 6023,09
A.A Receitas Acumuladas 6023,09 12046,18 18069,27 24092,36 30115,45 36138,54
Depósito FGTS 441,8472 441,8472 441,8472 441,8472 441,8472 441,8472

PAGAMENTOS
1 Compras residenciais 250 250 250 250 250 250
2 Veículos (manut.,IPVA) 200 800 200 750 200 200
3 Salários e encargos 600 600 600 600 600 600
6 Energia 150 150 150 150 150 150
7 Água 80 80 80 80 80 80
8 Seguros 200 200 200 200 200 200
10 Telefone 295 295 295 295 295 295
11 Imposto de Renda 450 450 450 450 450 450
12 INSS 205 205 205 205 205 205
13 Financiamentos 1020 1020 1020 1020 1020 1020
14 Pensão Alimentícia 480 480 480 480 480 480
15 Aquisição de bens 0 0 0 0 0 0
16 Outras despesas 1750 1750 1750 1750 1750 1750
B TOTAL DESPESAS 5680 6280 5680 6230 5680 5680
B.B Despesas Acumuladas 5680 11960 17640 23870 29550 35230

C FLUXO DE CAIXA (A-B) 343,09 -256,91 343,09 -206,91 343,09 343,09


C.C Fluxo Caixa Acumulado 343,09 86,18 429,27 222,36 565,45 908,54

D SALDO CAIXA 0 743,09 486,18 829,27 622,36 965,45


E SALDO BANCOS 400 0 0 0 0 0
F SUBTOTAL (C+D+E+F) 743,09 486,18 829,27 622,36 965,45 1308,54
G CONTRATAÇÃO EMP.
H MOV. APLICAÇÕES
I SALDO FINAL (F+G-H) 743,09 486,18 829,27 622,36 965,45 1308,54
Figura 10: Fluxo de caixa projetado pessoal

37
Imagine que meu amigo esteja pensando trocar de carro em seis meses,
necessitando, para isso, de uma reserva de R$ 10.000,00 (dez mil reais). Ele já
possui um imóvel, que aluga, além daquele em que mora, que lhe fornece uma
renda de R$ 500,00 (quinhentos reais) mensais. Tem, ainda, aproximadamente
R$ 10.000,00 (dez mil reais) aplicados em títulos do governo federal (LTN´s),
para uma eventualidade, que lhe rendem aproximadamente R$ 150,00 (cento e
cinqüenta reais) de juros, bem como o resgate de uma previdência privada , no
valor de R$ 500,00 (quinhentos reais), que resolveu deixar de contribuir e
resgatá-la mês-a-mês em seis parcelas iguais.

Vamos fazer um esclarecimento a respeito do resgate de sua previdência


privada. Ele iniciou este investimento como forma de utilizar o benefício fiscal
concedido pelo imposto de renda para esta modalidade de aplicação, sendo
que a estratégia adotada é a de fazer um aporte único ao ano, retirando-o
mensalmente no ano seguinte, em parcelas menores, justamente para evitar o
pagamento do imposto de renda na fonte. Para maiores informações, consulte
o próximo capítulo ou sua agência bancária e informe-se com um vendedor de
previdência privada.

No entanto, o que vale a pensa ressaltar é que, se não fosse esse resgate, o
fluxo de caixa projetado do meu amigo estaria negativo, pois se em seis meses
ele vai resgatar o valor total de R$ 3.000,00 (três mil reais), e o seu fluxo de
caixa acumulado, no mesmo período, é de R$ 908,54 (novecentos e oito reais
e cinqüenta e quatro centavos), verificamos que ele está destruindo sua
poupança, e não criando novas reservas financeiras. Ou seja, quando resgatar
todas as parcelas de sua previdência privada, sua renda não será suficiente
para pagar as despesas mensais, fazendo com que seja obrigado a optar entre
duas opções:

 Começar a utilizar recursos de terceiros, como cheque especial, cartão


de crédito ou compras a prazo, aumentando seu endividamento e as
despesas mensais, com o pagamento de juros, criando uma bola de
neve insustentável a médio prazo; ou
 Resgatar, mês-a-mês, um pouquinho dos seus investimentos, para
poder cobrir o saldo devedor que está sendo criado, fazendo com que
seus esforços anteriores de poupança sejam consumidos, além de
diminuir sua renda, pois à medida que dilapida o total investido também
cai o valor que recebe de juros mensalmente.

Então, você pode se perguntar: ¨E o carro que ele queria trocar?¨ E eu te


respondo que, se ele não abrir o olho, além de não trocar o carro (ou se teimar
e trocá-lo, aumentando, conseqüentemente, suas despesas), ainda se verá em
uma situação onde, dentro de algum tempo, olhará para suas finanças
pessoais e se perguntará: ¨Meu Deus! O que aconteceu? Há pouco tempo
atrás estava em uma situação financeira tão estável, e agora estou
endividado?¨

Esse é o motivo pelo qual existe o planejamento financeiro pessoal, que


definirei agora para podermos avançar em nossas análises:

38
¨Planejamento financeiro pessoal é o processo de analisar, no presente, os
acontecimentos futuros que poderão afetar meus recursos financeiros,
decidindo, neste momento, as estratégias que deverão ser adotadas para
alcançar meus objetivos, e evitando situações indesejadas.¨

Vamos entender este conceito. Planejar é tomar decisões, hoje, que afetarão a
meu futuro. Para isso, procuro me cercar de todas as informações possíveis, os
chamados parâmetros, que me ajudarão a criar cenários, ou seja, as situações
futuras que poderão acontecer em minha vida. Ao restringir essas decisões ao
aspecto que envolve apenas os recursos monetários, estou desenvolvendo um
planejamento financeiro pessoal.

Ele é um processo por que envolve um conjunto de atividades. Levantar,


detalhadamente, todos os meus gastos efetuados no passado e atualmente,
compará-lo com o histórico de recebimentos, e compreender como foram
construídos o patrimônio atual e as reservas financeiras que possuo.

Muitos acontecimentos futuros podem ser previstos com certa antecedência,


permitindo o planejamento financeiro para seu desembolso. Aniversários,
casamentos (seu ou de amigos), troca de carro, compra de imóvel, viagens de
férias ou aquisição de produtos pessoais, são exemplos de gastos que podem
ser analisados e planejados a partir de uma ótica presente.

O mesmo pode ser afirmado em relação às receitas e despesas mensais.


Afinal, se a pessoa é empregado ou proprietário de uma empresa, será
remunerado através de salário ou pró-labore, que permitirão o custeio, ou
pagamento, dos gastos normais necessários para nossa sobrevivência, de
preferência com um certo conforto que a vida moderna nos oferece. Agora, se
está desempregado, pode vivenciar duas situações:

 Estar procurando uma nova colocação, enquanto consome as reservas


financeiras que foram construídas com imenso sacrifício, preocupado, é
claro, pois os recursos não durarão para sempre; ou
 Continua tentando um novo emprego, o dinheiro acabou, já vendeu o
que podia ser vendido, usou o cheque especial e o cartão de crédito,
está devendo os parentes e amigos, ou seja, está em uma situação
desesperadora, parecendo, até mesmo, sem saída.

Estas são situações que classifico como imprevistos que podem ser previstos
e, portanto, amenizados com o planejamento financeiro pessoal. Veja que a
primeira situação, apesar de preocupante, a pessoa ainda consegue
administrar um pouco melhor suas decisões e o seu dia-a-dia. Possuindo,
ainda, um pouco de qualidade de vida. No segundo caso, a situação passou de
preocupante para desesperadora e, nestes momentos, nem mesmo o cérebro
funciona normalmente.

Pois bem, como o planejamento financeiro pessoal pode contribuir nestas duas
situações? Analisemos o primeiro caso. Mesmo que não aplicasse estes
conceitos, a pessoa conseguiu construir uma reserva financeira que a permite

39
sobreviver, por algum tempo, sem as receitas mensais que conseguia
trabalhando. Ao ficar desempregado, pode desenvolver um novo fluxo de caixa
projetado, verificando por quanto tempo suas reservas serão suficientes para
garantir o atual padrão de vida. Se ao elaborar o planejamento, verificar que o
tempo que passará procurando um novo emprego pode ser maior que o
previsto, precisará buscar novas fontes de receitas ou, imediatamente, diminuir
as despesas, para prolongar a duração das reservas, permitindo que suportem
um tempo maior que o inicialmente previsto.

No segundo caso a pessoa não se preocupou em poupar. Gastou o que


ganhava, comprou carro financiado, trocou os móveis da casa e viajou para
vários lugares. Como diz a música do Roberto Carlos: ¨o importante é que
emoções eu vivi...¨. Mas agora, a única emoção que sobrou é o desespero de
verificar, no dia-a-dia, a destruição do pouco que construiu, pois não se
preocupou em planejar e construir uma reserva financeira para uma situação
como essa, e a incerteza que o futuro parece reservar a sua vida.

Assim, vamos analisar cada conta do fluxo de caixa de meu amigo, analisando-
a, e propondo ajustes para um melhor funcionamento e, quem sabe, a
aquisição daquele carro que ele tanto almeja.

Vejamos os recebimentos. Ele possui um salário de R$ 4.873,09 (quatro mil,


oitocentos e setenta e três reais e nove centavos) que, para o Estado de Goiás,
não está nada mal. Devemos sempre analisar o contexto histórico, social e
geográfico em que estamos inseridos. Por exemplo, este salário em Brasília,
São Paulo ou Rio de Janeiro, não possui o mesmo poder de compra de
Goiânia, pois o custo de vida com transportes, moradia, alimentação e
vestuário são mais elevados, fazendo com que, comparativamente, o
empregado, mesmo ganhando o mesmo valor monetário, não consiga adquirir
as mesmas coisas. Estabelecer o poder de compra de moeda, em diversos
lugares ou países, têm sido um desafio para os economistas, visto as enormes
diferenças existentes em cada sociedade. Uma proposta que acho
interessante, apesar de pouco confiável, é o chamado ¨Índice Big Mac¨, que
apresenta o valor deste sanduíche, presente em vários países do mundo,
sempre elaborado com os mesmos ingredientes, e seu preço em cada local,
comparativamente com a quantidade de sanduíches que o salário médio do
trabalhador consegue adquirir, estabelecendo um parâmetro do poder de
compra de cada região.

Além disso, ainda recebe R$ 500,00 (quinhentos reais) de aluguel de um


imóvel, financiado, conforme veremos ao descrevermos suas despesas, R$
150,00 (cento e cinqüenta reais) de juros de suas aplicações financeiras e
outros R$ 500,00 (quinhentos reais) mensais, durante seis meses, do resgate
de sua aplicação em previdência privada.

Verificamos que, após seis meses, ele terá uma queda de R$ 500,00
(quinhentos reais) mensais em sua renda, pois, após esse prazo, já terá
recebido todas as parcelas de resgate de sua previdência, devendo planejar,
desde agora, um novo fluxo de caixa projetado, adaptado a essa nova
situação.

40
Façamos, agora, uma análise de suas despesas.

O primeiro campo são os fornecedores que de produtos consumidos no dia-a-


dia, como pão, leite, carne, hortifrutigranjeiros, arroz e outros produtos
alimentícios. Neste campo a redução é bastante difícil, mas não impossível.
Pesquise o preço em diversos supermercados antes de ir às compras, troque
marcas tradicionais, normalmente mais caras, por produtos de qualidade
semelhante, mas com preço inferior, principalmente em categorias de produtos
alimentícios, higiene pessoal, limpeza e bebidas.

Vou lhe dar um exemplo. Sempre que vou ao supermercado, me eduquei a não
adquirir logo marcas tradicionais que estão em promoção, longe de outras
marcas concorrentes. Uma estratégia utilizada pelas empresas é a de colocar
seus produtos em ¨ilhas promocionais¨, dificultando a comparação com
produtos de outros fornecedores. Observe também, a relação da quantidade
oferecida e preços dos produtos. É melhor comprar uma embalagem de iogurte
tipo queijo suíço (danoninho) de 520 gramas por R$ 4,20 (quatro reais e vinte
centavos), do que duas de 360 gramas a R$ 3,30 (três reais e trinta centavos)
cada, afinal, você está levando 45% a mais de iogurte por 27% de diferença no
preço, um bom negócio, não é mesmo?

Procure supermercados que valorizam o preço a vista, para que possa


negociar descontos, afinal, o pagamento com cartões de crédito diminuem as
margens das empresas, pois para cada operação efetuada, elas devem pagar
um valor para as instituições financeiras. Se meu amigo fizer isso, e conseguir
economizar 10% em suas compras, terá uma redução de R$ 25,00 mensais em
suas despesas.

Nas despesas com veículos, constatamos que meu amigo possui, além de um
automóvel, uma motocicleta de 500 cilindradas que, pela sua potência, possui
uma alíquota de IPVA maior do que outras de menor porte. Ele programou
gastos mensais médios de R$ 200,00 (duzentos reais) com a manutenção de
suas conduções. Novamente, cabe a ele negociar à vista a aquisição de peças
e serviços necessários para a conservação de seus veículos, fazendo pesquisa
de preços e solicitando orçamentos, sempre que levá-los a alguma oficina,
preferindo contratar serviços e compras de peças separadamente, a não ser
que o prestador cubra as propostas dos concorrentes. Novamente, se o
desconto médio atingir 10%, terá economizado mais R$ 20,00 (vinte reais)
mensais.

Aqui ainda cabe mais uma observação. Ele não utiliza a moto para o trabalho,
mas apenas como passatempo. Então, em um momento em que estamos
revendo sua situação financeira, com um planejamento a médio e longo prazo,
podemos considerar a opção de vendê-la, aplicando o valor obtido e
aumentando as receitas com juros, além de diminuir as despesas com
depreciação, manutenção e impostos deste veículo. No momento que ele
reequilibrar suas contas, pode ponderar a aquisição de uma nova motocicleta,
também à vista. Suponhamos que venda a moto pelo seu valor de mercado, de
aproximadamente R$ 10.000,00 (dez mil reais), pois já possui dois anos de

41
uso, e aplique-as em títulos públicos, conseguindo uma rentabilidade de 1,5%
ao mês. Constatamos que terá um incremento de R$ 150,00 (cento e cinqüenta
reais) em receitas com juros, uma diminuição mensal de R$ 50,00 (cinqüenta
reais) com manutenção e a economia de R$ 550,00 de IPVA.

Na conta de salários e encargos, ele contratou uma empregada doméstica para


cuidar da limpeza da casa, lavar e passar suas roupas, pagando dois salários
mínimos, R$ 480,00 (quatrocentos e oitenta reais) mensalmente. O restante,
para completar os R$ 600,00 (seiscentos reais), são despesas com encargos
sociais, como décimo-terceiro salário, férias remuneradas e FGTS.

Novamente, ele deve repensar estas despesas. Como sua situação financeira
está deteriorando-se, pode organizar-se para buscar os serviços de uma
diarista, que iria em residência duas vezes por semana, para uma faxina geral,
lavar e passar suas roupas, com um custo médio de R$ 40,00 (quarenta reais),
por visita. Assim, seus gastos mensais cairiam para R$ 360,00 (trezentos e
sessenta reais) mensais, com uma economia de R$ 240,00 (duzentos e
quarenta reais).

Quando vejo uma fatura de energia, sempre me lembro do racionamento


promovido pelo Governo Federal em 2001. Fomos obrigados a economizar
20% do consumo, em relação a uma média do que foi gasto nos três meses
anteriores a maio daquele ano, sob o risco de termos o fornecimento de
energia elétrico suspenso. Aquelas medidas me ensinaram que sempre é
possível gastar menos. Em minha casa trocamos lâmpadas incandescentes por
fluorescentes, colocamos a chave do chuveiro na posição verão, diminuímos o
tempo do banho e a utilização do forno de microondas, mas a economia mais
importante veio de um lugar que não esperávamos: do freezer.

Um dia, durante o racionamento, me deu uma curiosidade de olhar o que


estava guardado dentro daquele aparelho. Para meu espanto, estávamos
utilizando menos de um terço de sua capacidade de armazenamento, e o que
estava guardado me deixou até mesmo constrangido: jaboticaba (fruta típica
que só está disponível durante alguns meses do ano), pequi (idem), mandioca
(tem cabimento?), mocotó, massa de pão-de-queijo, garrafas plásticas com
gelo, ou seja, nada que faria falta, e que estava ali só para fazer número.
Perguntei a minha mãe da real necessidade de possuirmos um freezer, e ela
me respondeu que antigamente comprava-se carne para o mês inteiro, porque
o preço aumentava todos os dias, e era preciso estocar, e que na época do
Governo Sarney, durante algum tempo faltou carne, sendo que importamos o
produto da Europa e que, segundo a conversa do povo, era de Chernobyl (o
lugar do acidente nuclear russo, lembra-se?). Desliguei o aparelho, o que
prestava consumimos e o restante jogamos fora. Vendemos o freezer para um
dono de botequim, pois o aparelho era horizontal, e nunca fez falta. No final
das contas, conseguimos economizar mais de 40% no consumo mensal de
energia, quase ganhando aqueles bônus de desconto do governo.

A mesma coisa vale para o consumo de água e telefone. Eu possuía um


consumo de telefone celular próximo ao do meu amigo, de R$ 295,00
(duzentos e noventa e cinco reais), um dia resolvi fazer as contas, do mesmo

42
modo que mostrei a vocês algumas páginas atrás, e quase caí duro. Troquei
meu celular pós-pago por um pré-pago e me reeduquei em sua utilização.
Como? Repetia para mim toda hora que queria fazer uma ligação: ¨Você
precisa fazer esta ligação agora ou pode esperar até chegar a algum lugar com
linha convencional?¨, passei então a utilizar meu celular principalmente para
receber chamadas, planejando minhas ligações de telefones fixos em casa e
no trabalho, consegui reduzir meu gasto para R$ 50,00 (cinqüenta reais) ao
mês. Não é incrível?

Então, imagine se meu amigo conseguir economizar 20% do seu consumo de


água e energia, e pelo menos uns R$ 150,00 (cento e cinqüenta reais) de
telefone celular, ele totalizará, mensalmente, aproximadamente R$ 196,00
(cento e noventa e seis reais), que contribuirão para melhorar seu fluxo de
caixa.

O seguro já está feito, não tem como diminuir, não é mesmo? Errado. Você
pode tentar negociar um desconto para pagamento antecipado, diminuindo o
valor do seguro total. O maior cuidado, porém, deve ser na renovação.
Normalmente os corretores incluem na apólice, além do seguro contra acidente
e roubo, danos a terceiros, físicos e materiais, muitos superiores a real
necessidade do cliente, sendo que você paga por isso. Faça um exame de
consciência, se você for o tipo de motorista que às vezes é imprudente, faça
todo tipo de seguro, mas se é daqueles ¨caxias¨, que não fazem nada de
errado, então compre uma apólice somente para danos materiais e roubo do
seu veículo, e conseguirá economizar uma boa grana. Seguro residencial?
Somente se morar em área de risco, pois a probabilidade de alguma coisa
acontecer a sua casa é muito pequena, e é por isso que os seguros para o lar
são relativamente baratos.

Imposto de renda, INSS e pensão alimentícia não tem como correr, então tem
de continuar como está. O financiamento, no caso do apartamento que ele
aluga por R$ 500,00 (quinhentos reais), ainda é bastante longo, mas em muitos
casos é melhor fazer e contas e conferir se o número de prestações que faltam
para ser pagas não é superior ao valor de mercado do imóvel, sendo preferível
vender seu ágio e correr das parcelas com juros, coisas de Brasil, não é
mesmo?

Muitas pessoas que possuem imóveis financiados pela CEF (Caixa Econômica
Federal) encontram-se nessa situação. Isso ocorre porque as taxas de juros
cobradas superam a valorização do apartamento ao longo dos anos, fazendo
com que as prestações sejam incapazes de amortizar o saldo devedor, sendo
suficientes, quando muito, de pagar apenas os juros do montante. Faça as
contas, muitas vezes é melhor pagar de 0,6% a 0,8% do valor de um imóvel em
aluguel, e aplicar seu dinheiro em uma opção de investimento que lhe
remunere acima disso, do que ficar pagando juros superiores a 1,2% ao mês
na concretização do ¨sonho¨ da casa própria que, no final das contas, acaba se
transformando em um verdadeiro pesadelo. Fizemos uma avaliação do valor do
seu apartamento que, se estivesse quitado, seria de R$ 80.000,00 (oitenta mil
reais), e do ágio para a venda, de aproximadamente R$ 20.000,00 (vinte mil
reais), e projetamos o fluxo de caixa se esse negócio fosse efetuado.

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Chegamos, finalmente, ao último item das despesas do fluxo de caixa, as
famosas outras despesas, observe no quadro abaixo o valor e a descrição de
cada uma.

Outras despesas 1750


Alimentação 200
Combustíveis 400
Inglês 150
Ofertas a igreja 150
Roupas/Sapatos 200
Outras 50
Diversão 500
Internet rápida 50
TV a cabo 50
Figura 11: Descrição de outras despesas

No item alimentação, acho difícil economizar alguma coisa, afinal de contas,


passar fome é pior do que não economizar. Para os combustíveis, podemos
conseguir uma economia abastecendo em postos que ofereçam promoções
para pagamento a vista, sempre enchendo o tanque, diminuindo a freqüência
de visitas ao posto de gasolina. Nas contas de inglês, e nas ofertas a igreja,
também não acredito que se possa fazer alguma coisa, mas nas roupas e
sapatos é possível negociar bons descontos para pagamentos à vista, de
preferência em dinheiro vivo. Normalmente, o mínimo que aceito são 5% por
compra, ou então ameaço ir embora ou procurar outra loja.

Observe o valor gasto em diversão. Pedi a ele que me descrevesse melhor


esses gastos e fui informado de despesas com cerveja, cinema, pipoca, night
club, clube, shopping center, teatro, shows e pequenos passeios. Observei que
já o havia encontrado várias vezes no night club que também costumo
freqüentar, o Café Cancun, e perguntei se ele possuía o cartão VIP, obtendo
resposta negativa. Veja como o costume de fazer contas é uma coisa
interessante.

Esse espaço é considerado um dos points de minha cidade, costumando


apresentar filas quilométricas, com pessoas em pé durante horas e, muitas
vezes, não conseguindo entrar para se divertir. Eles lançaram um cartão VIP
que permite ao possuidor entrar por uma porta exclusiva, com um(a)
acompanhante, sem o pagamento da taxa de entrada ou qualquer tipo de
consumação. Um dia, cansado de ficar na fila, perguntei o preço do tal cartão,
e fui informado do valor de R$ 500,00 (quinhentos reais), divididos em duas
parcelas de R$ 250,00 (duzentos e cinquenta reais). Perguntei se teria
desconto para pagamento à vista, e me disseram que o preço seria reduzido
em 10%, ou seja, para R$ 450,00 (quatrocentos e cinquenta reais), sendo que,
no vencimento, que aconteceria em um ano, o desconto subiria para 20%.

Eu costumava ir, no mínimo, duas vezes por mês com a namorada neste lugar.
Cada vez que eu ia, além da raiva na fila, pagava R$ 25,00 (vinte e cinco reais)
por cada entrada, totalizando R$ 100,00 (cem reais) ao mês, verifiquei que,

44
mantida a minha freqüência, em quatro meses e meio meu cartão já teria se
pagado, sobrando sete meses e meio para freqüentar o lugar como uma forma
de ¨lucro¨, além do ¨status¨ de possuir um cartão VIP, das festas exclusivas
para os sócios, dos descontos na aquisição das bebidas e do tratamento
diferenciado dos funcionários, no final do período de um ano renovei meu
cartão por R$ 360,00 (trezentos e sessenta reais), e ainda continuo sócio do
night club até hoje. Meu amigo tornou-se sócio na outra semana!

Os próximos dois itens são, na minha opinião, totalmente desnecessários para


uma pessoa que trabalha o dia inteiro, faz curso de inglês e, além do mais, está
a caminho de uma situação financeira desequilibrada. Hoje, várias empresas
fornecem o serviço de Internet grátis, sendo desnecessário o pagamento de um
provedor para o acesso. Pela freqüência de utilização, devido ao pouco tempo
disponível, a TV a cabo também demonstra ser um desperdício, sendo mais
apropriado, e barato, a locação de filmes quando houver a disponibilidade de
tempo para assisti-los, até mesmo porque os lançamentos chegam primeiro
nas videolocadoras do que nos canais a cabo.

Se somarmos a economia com combustíveis, roupas e sapatos,


entretenimento, Internet e TV a cabo, conseguiremos uma redução de,
aproximadamente, R$ 250,00 (duzentos e cinqüenta reais) mensais, ou seja,
mais de 14% do total anterior.

Note que fizemos correções em todo seu fluxo de caixa projetado.


Reorganizamos os recebimentos, através da sugestão da venda da motocicleta
e do ágio de seu apartamento, aumentando sua disponibilidade para
investimentos de R$ 10.000,00 (dez mil reais) para R$ 40.000,00 (quarenta mil
reais), diminuindo sua renda com o recebimento de aluguéis mas
compensando, parcialmente, com o aumento das entradas com juros.

No campo das despesas, sugerimos negociações e mudanças de


comportamento nas compras, consumo de energia, água, combustíveis e
energia, no pagamento de salários e encargos sociais, bem como na extinção
da prestação de seu imóvel financiado, através da venda do seu ágio.
Recomendamos, ainda, o cancelamento da Internet rápida e da assinatura de
TV a cabo.

Vejamos agora, no quadro ...., como ficaria o novo fluxo de caixa projetado de
meu amigo, caso ele tomasse todas as medidas que sugerimos nesse período
de tempo.

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COD RECEBIMENTOS Jan/04 Fev/04 Mar/04 Abr/04 Mai/04 Jun/04
1 Salário 4873,09 4873,09 4873,09 4873,09 4873,09 4873,09
2 Aluguéis 0 0 0 0 0 0
3 Juros 600 600 600 600 600 600
4 Empréstimos recebidos 0 0 0 0 0 0
5 Outras receitas 500 500 500 500 500 500
A TOTAL RECEITAS 5973,09 5973,09 5973,09 5973,09 5973,09 5973,09
A.A Receitas Acumuladas 5973,09 11946,18 17919,27 23892,36 29865,45 35838,54
Depósito FGTS 437,8472 437,8472 437,8472 437,8472 437,8472 437,8472

PAGAMENTOS
1 Compras residenciais 225 225 225 225 225 225
2 Veículos (manut.ão,IPVA) 130 730 130 130 130 130
3 Salários e encargos 360 360 360 360 360 360
6 Energia 160 160 160 160 160 160
7 Água 40 40 40 40 40 40
8 Seguros 200 200 200 200 200 200
10 Telefone 145 145 145 145 145 145
11 Imposto de Renda 450 450 450 450 450 450
12 INSS 205 205 205 205 205 205
13 Financiamentos 0 0 0 0 0 0
14 Pensão Alimentícia 0 0 0 0 0 0
15 Aquisição de bens 0 0 0 0 0 0
16 Outras despesas 1500 1500 1500 1500 1500 1500
B TOTAL DESPESAS 3415 4015 3415 3415 3415 3415
B.B Despesas Acumuladas 3415 7430 10845 14260 17675 21090

C FLUXO DE CAIXA (A-B) 2558,09 1958,09 2558,09 2558,09 2558,09 2558,09


C.C Fluxo Caixa Acumulado 2558,09 4516,18 7074,27 9632,36 12190,45 14748,54

D SALDO CAIXA 0 2958,09 4916,18 7474,27 10032,36 12590,45


E SALDO BANCOS 400 0 0 0 0 0
F SUBTOTAL (C+D+E+F) 2958,09 4916,18 7474,27 10032,36 12590,45 15148,54
G CONTRATAÇÃO EMP.
H MOV. APLICAÇÕES
I SALDO FINAL (F+G-H) 2958,09 4916,18 7474,27 10032,36 12590,45 15148,54
Figura 12: Fluxo de caixa projetado com as alterações propostas

Veja o que nossas sugestões foram capazes de produzir. Enquanto no fluxo de


caixa projetado anterior, o fluxo de caixa acumulado era de R$ 908,54
(novecentos e cinqüenta e oito reais e cinqüenta e quatro centavos), inferior
aos resgates da previdência privada, agora elevou-se para R$ 14.748,54
(quatorze mil, setecentos e quarenta e oito reais e cinqüenta e quatro
centavos), um aumento superior a 1500%. O saldo do fluxo de caixa
acumulado permite trocar o carro e ainda sobra troco! Não é incrível?

Mas o melhor da história não é isso. Agora eu tenho certeza que lhe deixarei
verdadeiramente interessado em mudar seu comportamento em relação a
equação gastar versus economizar. Verifique que a geração de caixa média
mensal, ou seja, a diferença entre o total de receitas e despesas, dividido pelo
número de meses analisado, foi de R$ 2.458,09 (dois mil, quatrocentos e
cinqüenta e oito reais e nove centavos), aproximadamente 41% da receita total

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mensal. Lembram que eu havia recomendado um índice de poupança de 25%
a 30% no mesmo período?

Agora imagine que meu amigo desistiu de trocar seu carro por agora, e está
aplicando este saldo médio de caixa à taxa de 1,5% ao mês, durante 5 anos,
em títulos públicos federais, observe o que acontecerá, fazendo as contas na
HP 12C:

1) Tecle CLX
2) Tecle ¨f¨ e CLX
3) Digite 2.458,09 e tecle CHS e PMT
4) Digite 60 (o número de meses correspondente a 5 anos) e tecle ¨n¨
5) Digite 1,5 e tecle ¨i¨
6) Aperte FV e descubra o total no final do período

Achou o mesmo valor que eu? Está surpreso? Sim, é verdade, o total é
realmente esse mesmo. Mas esquecemos de um detalhe. Lembra que meu
amigo tinha R$ 10.000,00 (dez mil reais), vendeu a moto e o ágio do
apartamento por R$ 30.000,00 (trinta mil reais), alcançando a reserva
financeira de R$ 40.000,00 (quarenta mil reais)? Vamos descobrir quanto este
capital representará ao final de 5 anos, nas mesmas condições acima? Vamos
lá!

1) Tecle CLX
2) Tecle ¨f¨ e CLX
3) Digite 40.000 e tecle CHS e PV
4) Digite 60 e tecle ¨n¨
5) Digite 1,5 e tecle ¨i¨
6) Aperte FV e descubra (novamente) o total no final do período

Vamos conferir se os valores são os mesmos

Descrição Valor Prestações Principal Montante


Capital inicial 40.000,00 1 40.000,00 97.728,79
Prestações 2.458,09 60 147.485,40 236.504,27
Total 187.485,40 334.233,06
Figura 13: valor futuro da aplicação de reservas financeiras

Não é incrível? Ao final de cinco anos, meu amigo possuirá um montante de R$


334.233,06 (trezentos e trinta e quatro mil, duzentos e trinta e três reais e seis
centavos), valor suficiente para comprar o apartamento, o carro, a moto, o jet-
ski e os móveis de sua casa à vista, e ainda sobrará troco. Observe que,
somente de juros, ganhou R$ 146.747,66 (cento e quarenta e seis mil,
setecentos e quarenta e sete reais e sessenta e seis centavos),
aproximadamente 44% do montante no final do período. Ele poderia comprar
tudo que falei anteriormente, mas com certeza ele não fará isso neste
momento. Sabe por quê? Por que aprendeu o poder da poupança e dos juros
compostos na garantia de sua segurança e qualidade de vida. E você?

47
¨O maior problema de se ter dinheiro é que nunca se possui o bastante.¨
Anônimo

5 Opções e riscos dos investimentos


Fiz meu fluxo de caixa e analisei, cuidadosamente, as receitas e despesas
mensais. Apliquei, no meu dia-a-dia, as dicas para que o resultado ao final de
cada período fosse positivo. Parabéns, você já conseguiu cumprir a primeira
etapa do sucesso financeiro. Está cansado? Calma, porque a corrida está
apenas na metade.

De que adianta poupar e guardar o dinheiro embaixo do colchão? A inflação irá


corroer todo o poder de compra da moeda, e daqui a algum tempo seu dinheiro
não possuirá o mesmo valor. Para que isso não aconteça, é necessário buscar
opções de investimento que assegurem uma rentabilidade proporcional aos
riscos que você está disposto a correr, pois um dos princípios básicos do
capitalismo sugere que ¨quanto maior o risco, maior o retorno¨, ou seja, se não
quero correr riscos, devo procurar opções de baixa risco, mas com
probabilidade de ganhos pequenos. Por outro lado, se procuro maiores ganhos,
devo estar disposto a perder algum dinheiro, em troca da possibilidade de
maiores retornos.

Sempre aconselho, a qualquer tipo de investidor, que nunca aloque todos os


seus recursos em apenas um tipo de investimento. Diz um ditado popular que
¨não devemos colocar todos os ovos em uma mesma cesta¨, porque, se a
cesta cair, provavelmente todos os ovos irão se quebrar, e ficaremos sem
nada. Descubra seu perfil, através de testes de investidor, e monte um
portfólio, ou seja, um conjunto de investimentos, adequado às suas
características, mas sempre procurando colocar, mesmo em pequena
quantidade, produtos mais agressivos, para que possa conhecer, e
acompanhar, sua rentabilidade.

Considero um produto agressivo, para um investidor iniciante, fundos de


investimento de renda variável, compostos, em sua maior parte, por ações de
empresas listadas em bolsas de valores. A partir do momento que você adquirir
maiores conhecimentos, e desejar operar diretamente no mercado de capitais,
as opções crescem consideravelmente, e os riscos de cada operação, também,
são muito maiores. Falaremos, um pouco à frente, das características destes
mercados.

Para que você identifique seu perfil de investidor, as instituições financeiras


oferecem diversos testes, que o classificam, normalmente, em três categorias:
conservador, moderado e agressivo. Vejamos as características de cada um.

 Conservador: investidor cauteloso, avesso ao risco, não suporta a idéia


de perda ou diminuição dos seus recursos, sendo que qualquer ameaça
deste acontecimento é suficiente para que saia de qualquer modalidade
de investimento e corra para portos mais seguros. Por possuir estas
características, os investimentos mais recomendados são: caderneta de

48
poupança, fundos de investimento de renda fixa, títulos públicos federais
e imóveis.
 Moderado: também um investidor cauteloso, disposto a correr riscos, em
troca de uma rentabilidade maior, desde que eles sejam pequenos e
administráveis. Suporta a perda de pequenos valores em seus
investimentos, mas não se sente bem e, às vezes, se arrepende de ter
tentado. Sua carteira de investimentos financeiros ideal deve
contemplar, além dos produtos financeiros do investidor conservador,
uma pequena parcela de recursos em fundos de investimento de renda
variável, ações de empresas de primeira linha, como Petrobrás, Vale do
Rio Doce, Telemar e outras companhias líderes de mercado ou
monopolistas.
 Agressivo: investidor destemido, disposto a assumir grandes perdas
para obter ganhos maiores, de acordo com as variações econômicas e
do mercado financeiro. Aconselho, mesmo para o mais agressivo
investidor, que mantenha, pelo menos, metade de seus recursos
aplicados em produtos financeiros defensivos, como fundos de
investimento de renda fixa e títulos públicos federais, reservando o
restante para opções como ações, fundos de investimento de renda
variável ou moedas estrangeiras. Não é do perfil deste investidor a
aplicação de recursos em imóveis, por caracterizar-se como um
investimento de baixa liquidez, ou seja, com um grau maior de
dificuldade de se transformar em dinheiro, e rentabilidade.

O teste apresentado abaixo foi extraído de um material oferecido pelo Banco


HSBC aos seus correntistas, que desejam efetuar investimentos. Fiz algumas
adaptações, para que você possa descobrir o seu perfil de investidor. Vamos
lá?

I – Perfil do investidor:

1. Leia as frases abaixo e depois assinale a que melhor define as suas


preferências em relação a seus investimentos:

A – Investir em produtos de baixo risco, com poucas chances de perda,


para preservar meu capital.
B – Investir a maior parte em produtos de baixo risco, o restante em
produtos de maior risco, buscando o crescimento moderado do meu capital.
C – Investir partes iguais em produtos de baixo risco e produtos de maior
risco, que proporcionem o crescimento do meu capital.
D – Investir a maior parte em produtos de maior risco, o restante em
produtos de baixo risco, buscando grande crescimento do meu capital.

2. O que você faria se houvesse redução no valor de seu investimento?

1 – Sairia do investimento imediatamente.


2 – Tiraria apenas uma parte do investimento.
3 – Não sairia imediatamente Planejaria minha estratégia de investimentos.
4 – Não sairia e aceitaria perdas a curto prazo, com expectativa de ganhos
a longo prazo.

49
3. Qual o seu nível de conhecimento sobre produtos de investimentos
financeiros?

1 – Não me sinto seguro tomando decisões sozinho. Prefiro buscar


aconselhamento financeiro especializado.
2 – Tenho pesquisado vários tipos de investimentos, mas prefiro decidir
depois de um aconselhamento financeiro especializado.
3 – Entendo como os vários tipos de investimento funcionam, incluindo seus
riscos e rentabilidades. Sinto-me seguro para tomar decisões.
4 – Entendo como funciona o mercado financeiro. Portanto, não preciso de
aconselhamento de terceiros.

4. Investindo $ 10.000,00 por um ano, qual é a alternativa hipotética que


atenderia a sua expectativa de retorno:

1 – Situação favorável: ganhar 13%


Situação desfavorável: ganhar 13%
2 – Situação favorável: ganhar 18%
Situação desfavorável: manter o capital
3 – Situação favorável: ganhar 30%
Situação desfavorável: perder até 5% do capital
4 – Situação favorável: ganhar 45%
Situação desfavorável: perder até 15% do capital

5. Você tem atualmente:

1 – Mais de 65 anos
2 – Entre 56 e 65 anos
3 – Entre 36 e 55 anos
4 – Menos de 36 anos

Some os pontos e confira, no quadro abaixo (figura ...), qual é o seu perfil de
investidor e, posteriormente, observe a sensibilidade ao risco de cada um
(figura ...).

Somatório das questões 2 a 5


A 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16
Resposta
da B 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16
questão C 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16
1
D 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16
Figura ....: Perfil do investidor

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Defensivo Com risco muito baixo
Conservador Com risco baixo
Moderado Com risco médio
Equilibrado Com risco médio/alto
Arrojado Com risco alto
Agressivo Com risco muito alto
Figura ....: Subdivisão e sensibilidade ao risco dos investidores

Para que possamos ter uma idéia melhor do que é um portfólio de aplicações
financeiras, observe, na figura ...., a carteira de investimentos de um investidor
agressivo:

Investimentos pessoais

16% 15%
1%
4%
6%

15%
17%

5% 21%

Previdência Privada Dólares


Empréstimos pessoais Títulos públicos
Ações Telesp Ações Embraer
Ações Petrobrás Ações Telemar
Caderneta de poupança

Figura .....: Exemplo de carteira de um investidor agressivo

Verificamos que, do total dos investimentos, 49% estão concentrados em


empresas de primeira linha, como Telesp Celular (Vivo), Petrobrás, Embraer e
Telemar. Outros 46% em investimentos de renda fixa, como títulos públicos,
caderneta de poupança e previdência privada e, o restante, em dólares
(apenas 1%) e empréstimos pessoais, com 4%, totalizando 100%.

Mesmo que acontecimentos imprevistos sacudam a economia brasileira,


notamos que o investidor preocupou-se em aplicar quase a metade de seus
recursos em investimentos caracterizados como conservadores, buscando um
ganho superior na outra metade de seus investimentos.

51
5.1 Produtos disponíveis no mercado financeiro

As opções de investimento no mercado financeiro estão normalmente


distribuídas em duas modalidades: renda fixa e variável. A diferença básica
entre elas é a de que na renda fixa os índices que irão corrigir o investimento
são conhecidos previamente, com uma taxa de juros pré-fixada, ou mais uma
remuneração pós-fixada através de um índice de domínio público, tais como
TR (taxa referencial), IGP-M (índice geral de preços do mercado) ou IPCA
(índice de preços ao consumidor amplo), enquanto que, na renda variável, a
correção segue os preços de mercado em ativos como ações, ouro e dólar.

O mercado de renda fixa é o mais tradicional, sendo que sua remuneração


visa, basicamente:

 proteger o capital investido dos efeitos da inflação;


 proporcionar um pequeno ganho adicional.

Os principais produtos negociados neste mercado são: caderneta de


poupança, títulos públicos federais, quotas de fundos de investimento de renda
fixa, CDB (certificado de depósito bancário) e RDB (recibo de depósito
bancário), previdência privada e debêntures, podendo realizar expectativas de
investimento de curto, médio e longo prazos.

Além do mercado financeiro, o investidor encontra opções de investimentos


como consórcios, títulos de capitalização e imóveis, que serão abordados
adiante.

5.1.1 Caderneta de poupança

O produto de renda fixa mais procurado pelos investidores, juntamente com os


fundos de investimento de renda fixa, é a caderneta de poupança. Isso ocorre,
principalmente, pelo baixo risco que ela oferece, sendo garantido, a todos os
investidores, em caso de intervenção ou liquidação, pelo Banco Central, da
instituição financeira, o resgate de até R$ 20.000,00 (vinte mil reais) por
poupador, pois existe um instrumento de garantia chamado FGC, ou fundo
garantidor de crédito, que funciona como uma espécie de ¨seguro¨ para essa
modalidade de aplicação.

Mas você pode estar se perguntando: ¨E se eu possuir mais de vinte mil reais e
o banco quebrar?¨, aí, então, dificilmente você verá o resto de seu dinheiro
novamente, pois a venda dos ativos do banco serão, provavelmente,
insuficientes para pagar todos os seus credores.

Então aí vai a dica verdadeiramente importante, ou seja, como sair dessa


situação? Abrindo contas em diversos bancos, mantendo, sempre, valores
inferiores ao garantido pelo FGC, ou optando por bancos públicos federais, que
são administrados pelo Governo e, por isso, não quebram.

52
A caderneta de poupança foi instituída, pelo Governo, como um produto
destinado a captar recursos para serem investidos no SFH, sistema financeiro
de habitação, como forma de viabilizar o financiamento, com taxas mais
acessíveis, da aquisição do imóvel próprio pela população brasileira.

Não vou entrar em detalhes operacionais do funcionamento do SFH, mas


mostrarei, no item investimentos em imóveis, as vantagens e desvantagens da
aquisição destes ativos através de financiamentos e recursos próprios.

Como opção de investimento, ela se mostra uma verdadeira armadilha em


épocas de inflação alta, pois sua rentabilidade não acompanha a
desvalorização da moeda. Um exemplo disso eram as altas taxas de
remuneração pagas por esse investimento nos anos 80 e 90, superiores, às
vezes, a 50% ao mês. Pois vou lhe dar uma informação. Os juros da caderneta
de poupança, ou seja, a verdadeira remuneração do dinheiro investido, sempre
foi da ordem de 6% ao ano, ou 0,5% ao mês, o restante é produto de um
artifício, criado pelos economistas, chamado de ¨correção monetária¨ que,
como o próprio nome diz, é uma tentativa de fazer com que a moeda não perca
seu poder de compra por causa da inflação, mas que, na realidade, não
consegue protegê-lo.

Deixe-me explicar melhor. Atualmente, a rentabilidade da caderneta é


estipulada em 0,5% de juros ao mês, mais TR, ou taxa referencial, que tem a
função de proporcionar a ¨correção monetária¨, que é calculada pelo Banco
Central através de uma cesta média de remuneração obtida em investimentos
de renda fixa, menos o ganho de capital, ou seja, o lucro dos bancos.

Resumidamente, existe toda uma metodologia, bastante transparente, da


remuneração deste investimento. A única coisa que ninguém fala, talvez até
porque não perguntamos, é a de que esse investimento não protege,
verdadeiramente, dos efeitos da inflação, por causa da adoção deste índice de
correção. Todo índice de inflação é calculado com o mesmo objetivo: obter a
variação do poder de compra da moeda. Se no período pesquisado a moeda
se fortalece, acontece o fenômeno conhecido como deflação, se é o inverso, ou
seja, preciso de mais dinheiro para adquirir os mesmos produtos que comprava
antes com uma quantidade menor, temos a inflação.

Vários institutos de pesquisa calculam essa variação, com diferenças, às vezes


sutis, em seus métodos, mas com resultados, muitas vezes, bastante
diferentes. A Fundação Getúlio Vargas possui uma série de índices, como o
IGP-M (índice geral de preços de mercado), que é um dos mais afetados pela
variação cambial, ou seja, o impacto da relação do valor de nossa moeda
comparativamente a outras, principalmente, o dólar americano. A FIPE,
Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas da Universidade de São Paulo,
fornece o IPC, índice de preços ao consumidor, e o IBGE, Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística, calcula o IPCA, índice de preços ao consumidor amplo.

Como o Governo não é bobo, normalmente adota aquele índice que, pelas
características de sua metodologia de cálculo, oferece um dos menores
resultados no período pesquisado, chamado de ¨índice oficial¨ de inflação.

53
Atualmente, o escolhido é o IPCA. Vou lhe apresentar, na figura ..., as
variações destes índices em um período de doze meses.

IGP-M/ IPC/ IPCA/


ACUM. ACUM. ACUM. TR ACUM.
FGV FIPE IBGE
1 2.002 Abril 0,56% 0,56% 0,06% 0,06% 0,08% 0,08% 0,2357% 0,2357%
2 2.002 Maio 0,83% 1,39% 0,06% 0,12% 0,21% 0,29% 0,2101% 0,4463%
3 2.002 Junho 1,54% 2,96% 0,31% 0,43% 0,42% 0,71% 0,1582% 0,6052%
4 2.002 Julho 1,95% 4,96% 0,67% 1,10% 1,19% 1,91% 0,2656% 0,8724%
5 2.002 Agosto 2,32% 7,40% 1,01% 2,12% 0,65% 2,57% 0,2481% 1,1227%
6 2.002 Setembro 2,40% 9,98% 0,76% 2,90% 0,72% 3,31% 0,1955% 1,3204%
7 2.002 Outubro 3,87% 14,23% 1,28% 4,22% 1,31% 4,66% 0,2768% 1,6008%
8 2.002 Novembro 5,19% 20,16% 2,65% 6,98% 3,02% 7,83% 0,2644% 1,8695%
9 2.002 Dezembro 3,75% 24,67% 1,83% 8,94% 2,10% 10,09% 0,3609% 2,2371%
10 2.003 Janeiro 2,33% 27,57% 2,19% 11,32% 2,25% 12,57% 0,4878% 2,7358%
11 2.003 Fevereiro 2,28% 30,48% 1,61% 13,12% 1,57% 14,33% 0,4116% 3,1587%
12 2.003 Março 1,53% 32,48% 0,67% 13,87% 1,23% 15,74% 0,3782% 3,5488%
TOTAL 28,55% 13,10% 14,75% 3,49%
Figura ...: Comparação entre índices de inflação

O período escolhido foi, intencionalmente, de grande turbulência econômica,


devido, principalmente, as expectativas geradas pela eleição presidencial de
2002. Com o favoritismo, e posterior vitória, do candidato do Partido dos
Trabalhadores, Luis Inácio Lula da Silva, os mercados cambial e de capitais
foram fortemente afetados pelo receio de uma ruptura de contratos e
expectativa quanto a política econômica do novo governo, obrigando as
autoridades a adotarem medidas de política monetária, como aumento da taxa
básica de juros e do percentual do recolhimento compulsório dos depósitos à
vista, para contenção da inflação, que ameaçava um ressurgimento, diminuindo
o consumo e a produção, e aumentando o desemprego.

Não é nosso objetivo, neste trabalho, aprofundarmo-nos em conceitos de micro


e macroeconomia, caso tenha interesse em saber mais sobre esses assuntos e
como eles afetam nosso dia-a-dia, basta procurar um livro de introdução a
economia.

Observe que, dentre os três índices analisados, a TR é o que apresenta a


menor variação, e é, justamente, o utilizado para a correção monetária dos
depósitos da caderneta de poupança, sendo que, no período, acumulou uma
variação de 3,5488%, contra 15,74% do IPCA, 13,87% do IPC e espantosos
32,48% do IGP-M. Por isso, aqui vai outra dica: não contraia dívidas indexadas
a este índice, pois, normalmente, é o que sofre maior impacto com
desvalorizações da moeda nacional frente ao dólar.

Mas, o que quero realmente te mostrar, com toda esta análise, é o paradoxo do
baixo risco e rentabilidade deste produto financeiro. Lembra-se que esta é a
principal característica da caderneta de poupança? Mas se os juros, são de
0,5% ao mês, e capitalizados totalizam, aproximadamente, 6,l7% ao ano,
somados a correção monetária, representada pela taxa referencial do período,
constatamos que quem estava com seu dinheiro investido recebeu uma
remuneração total de 9,72% ao ano, inferior a todos os índices de inflação

54
mostrados anteriormente, ou seja, você não consegue comprar as mesmas
coisas que conseguia com o dinheiro investido, ou, resumindo, empobreceu.
Seu dinheiro não diminuiu, até mesmo aumentou em quantidade numérica,
mas perdeu o mais importante, o seu valor.

Percebeu a armadilha que entramos? Investimos em um produto para


obtermos uma alta segurança, dispostos, com isso, a abrirmos mão de uma
boa rentabilidade, mas empobrecemos no final do período. Por isso a inflação
precisa ser combatida, pois a correção monetária não acompanha a queda do
poder de compra da moeda, e os juros, neste momento, são insuficientes para
compensá-la, e ainda gerar um pequeno ganho de capital. Nestes casos,
devemos procurar outros produtos financeiros, como mostraremos a seguir.

5.1.2 Títulos públicos federais

Vamos imaginar uma situação hipotética. Durante alguns meses você gastou
mais do que ganhou, forçando-o a utilizar recursos financeiros de terceiros, ou
seja, endividar-se através de empréstimos.

Começou fazendo compras com o cartão de crédito, financiando-as no crédito


rotativo, ou utilizando o limite do cheque especial, aumentando, com o
pagamento de juros, as despesas mensais. Se não tomar nenhuma
providência, chegará um momento em que sua renda não será suficiente para
o pagamento das necessidades e das dívidas, e terá um grande problema para
ser resolvido.

Às vezes, posso pedir dinheiro emprestado para parentes ou amigos, e eles,


provavelmente, me solicitarão um documento de comprovação desta operação,
normalmente um cheque pré-datado ou uma promissória.

Com o governo acontece a mesma coisa. Ele possui receitas, representadas


pela arrecadação com impostos, taxas e contribuições, e despesas, com
manutenção, operacionais, de investimento e juros. Se no final do período,
mensal ou qualquer outro, seu ¨caixa¨, também chamado de Tesouro Nacional,
verificar que as despesas estão maiores que as receitas, será necessário a
captação de dinheiro emprestado junto a investidores. O nome técnico deste
buraco é ¨déficit público¨, e ele pode ser, no Brasil, de dois tipos:

 Déficit ou superávit primário: saldo das contas públicas, negativo ou


positivo, ao final de determinado período. Este valor é calculado através
da subtração das receitas e despesas, menos o pagamento dos juros,
ou seja, não é pelo fato do governo brasileiro afirmar que possui
superávit primário de 4,25% do PIB, produto interno bruto, a soma de
todas as riquezas produzidas no país durante um ano, que as contas no
final do mês estejam no azul e o endividamento diminuindo;
 Déficit ou superávit nominal: saldo final das contas do governo, ou seja,
a diferença entre o déficit ou superávit primário e as despesas com
juros. Se possuo superávit primário, mas ele é insuficiente para o
pagamento dos juros, o resultado será de déficit nominal. Traduzindo, o

55
governo terá que pegar mais dinheiro emprestado para pagar estes
juros. Ao fazer isso, aumentará sua dívida e, conseqüentemente, as
despesas com juros, fazendo que seja necessário uma arrecadação
cada vez maior para pagamento de seus credores, ou corte nas
despesas operacionais e nos investimentos públicos.

Neste momento, entra em cena um dos fatores mais importantes: o risco. Se a


dívida pública caminha para tornar-se impagável, os credores exigem uma
remuneração cada vez maior, porque, como diz um dos princípios do
capitalismo, ¨quanto maior o risco, maior o retorno¨, e o governo, por necessitar
destes recursos, submete-se aos desejos do mercado financeiro. Mas o pior é
que, se a situação continua a se deteriorar, em determinado momento, nem
pagando juros exorbitantes consegue-se captar mais recursos para o
pagamento das obrigações, neste momento o país torna-se ¨insolvente¨ e
declara a famosa moratória.

Se, por outro lado, conseguir estabilizar as contas públicas e retomar a sua
capacidade de pagamento, diminuindo sua necessidade de financiamento, fará
jus à captação de recursos com taxas de juros mais baratas, a famosa Selic,
diminuindo suas despesas com juros e seu endividamento.

Cabe ressaltar, ainda, que a maior parte dos recursos emprestados ao


governo, pelas instituições financeiras, inclusive os bancos, pertence a seus
correntistas e, em caso de um calote da dívida pública, os grandes
prejudicados serão os investidores. Vide o caso da nossa vizinha Argentina,
com o famoso ¨corralito¨.

Você pode estar se perguntando: ¨Mas o governo não precisa se preocupar,


porque ele é o dono da máquina de fazer dinheiro e, se gastar mais do que
arrecada, basta produzir um pouquinho de moeda e, voalá, problema resolvido,
não é mesmo?¨. Não, não está resolvido. Você já parou para pensar porque
pacotes de viagem são tão caros nos meses de férias? É porque nestes
períodos todo mundo quer viajar, e a lei do mercado é clara nesse sentido, se a
demanda é maior que a oferta, o preço sobe, e vice-versa.

Se o governo coloca dinheiro além do necessário para o funcionamento da


economia, propicia o surgimento de uma demanda maior que a capacidade de
oferta, desequilibrando-a, alimentando o aumento de preços e gerando
inflação. Este é um dos principais motivos da inflação monstruosa das décadas
passadas, apesar de não ser o único.

Estou lhe dando estas explicações, bastante simplificadas, para que você
possa entender um pouco a dinâmica das contas públicas e os riscos
envolvidos ao emprestar dinheiro para o governo, ou investir em produtos
financeiros cujo destino dos recursos captados é o mesmo, como fundos de
investimento de renda fixa e a maioria das aplicações dos fundos de
previdência privada.

Diferente de uma pessoa física, que ao solicitar um empréstimo assina um


contrato, uma promissória ou um cheque pré-datado, o governo emite um

56
documento chamado de título público, que representa uma obrigação do
devedor, no caso a República Federativa do Brasil, com os credores, também
chamados de investidores.

Até poucos anos atrás, somente os grandes investidores, através de


instituições financeiras, tinham acesso à aquisição destes títulos e ao ganho
que eles proporcionam. A partir de 2001, o governo brasileiro, através do
Tesouro Nacional, lançou um programa intitulado Tesouro Direto, uma
modalidade de venda de títulos públicos, pela Internet, a qualquer investidor
interessado em sua aquisição, como uma opção de investimento com
excelente nível de segurança, e rentabilidade superior a maioria dos produtos
de renda fixa disponíveis no mercado. Isso é possível porque os bancos
captam nosso dinheiro e emprestam para o governo, cobrando uma taxa de
administração, no caso de fundos de investimento de renda fixa, ou spread,
que é a diferença entre a taxa que a instituição remunera o investidor e
empresta para o tomador. Ao acessar o site do tesouro nacional e adquirir
títulos públicos você está, na verdade, eliminando um intermediário do
processo e diminuindo seus custos e riscos, pois se o administrador de seus
investimentos quebrar, não levará seu dinheiro para o buraco.

Atualmente, são oferecidos quatro tipos de títulos públicos aos investidores


através do tesouro direto, que possuem características de vencimento,
remuneração e riscos diferenciados, conforme veremos a seguir:

 LTN (letras do tesouro nacional): títulos emitidos com taxa de juros pré-
fixada, ou seja, na data de aquisição o investidor já conhece o
rendimento que será obtido com seus investimentos, bem como a data
de seu vencimento. Papel ideal para investidores conservadores e que
devem ser privilegiados em momentos de queda de juros, pois você
possuirá uma aplicação com rentabilidade constante a cada mês,
aumentando seus ganhos. O inverso também é válido, ou seja, deve ser
evitado em momentos de juros em alta, pois o investidor terá, em mãos,
títulos com rentabilidade menor do que os oferecidos ao mercado.
Normalmente, estes papéis são disponibilizados com prazos menores,
principalmente pela instabilidade dos juros no país nos últimos anos;
 LFT (letras financeiras do tesouro): são papéis pós-fixados,
remunerados pela famosa taxa Selic, definida em reuniões mensais do
COPOM, comitê de política monetária do Banco Central, de acordo com
o momento econômico do país, mais uma pequena taxa de juros anual.
Investimento adequado em momentos de instabilidade econômica ou
para longo prazo, quando a autoridade monetária, no caso o Banco
Central, deve aumentar a taxa de juros para captar recursos para o
Tesouro Nacional, permitindo maiores ganhos aos investidores. Em
momentos em que a tendência de juros é de queda, deve-se privilegiar
as LTN´s. As opções disponíveis em setembro de 2003 ofereciam
vencimentos até 2007, ou seja, aproximadamente quatro anos de
remuneração;
 NTN-C (notas do tesouro nacional tipo C): títulos pós-fixados,
remunerados pela variação do IGP-M (índice geral de preços do
mercado) da Fundação Getúlio Vargas, mais uma taxa de juros que, em

57
setembro de 2003, estava em aproximadamente 9,7% anuais. São os
melhores títulos em momentos de volatilidade cambial, pois é um índice
altamente afetado pela variação da cotação do dólar em relação ao real.
O IGP-M acumulou, de abril de 2002 a março de 2003,
aproximadamente 32,5% de variação que, somados à taxa de juros de
quase 10%, propiciou aos que investiram nesses papéis uma
rentabilidade bruta, ou seja, sem contar o imposto de renda de 20%,
próxima a 43% no período. Por isso repito: não contraia dívidas
corrigidas pelo IGP-M, mas não tenha dúvidas em investir em produtos
financeiros indexados a este índice, principalmente a médio e longo
prazo. Indicado para investidores com conhecimentos básicos em
economia e que procuram opções de investimento a longo ou
longuíssimo prazo, pois possui opções de títulos com vencimento até
2031;
 NTN-B (notas do tesouro nacional tipo B): a caçula dos títulos oferecidos
aos investidores. Também é um investimento pós-fixado, sendo que a
diferença básica está no índice utilizado em sua correção, que é o IPCA
(índice de preços ao consumidor amplo), calculado pelo Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística, e utilizado como índice oficial de
inflação pelo governo. Oferece uma taxa de juros um pouco maior que a
NTN-C, em setembro de 2003 de aproximadamente 10,15% anuais, ou
uma diferença de 0,45% ao ano, pelo fato de, normalmente, este
indicador ficar abaixo do IGP-M. Indicada em momentos de estabilidade
econômica e cambial, com inflação controlada e propiciando um
rendimento com juros 70% superior a caderneta de poupança, sem
contar que o índice de correção é muito mais confiável do que a taxa
referencial. Indicado para investidores altamente conservadores e que
buscam opções de longo prazo, pois possuem vencimentos até 2009.

Para comprar títulos públicos através do tesouro direto, é necessário cadastrar-


se em um dos agentes financeiros participantes do programa. Recomendo que
faça uma pesquisa das taxas que serão cobradas pelas instituições sobre cada
operação de compra e venda que forem realizadas pelo investidor. As
instituições mais tradicionais participantes são o Banco do Brasil e a Caixa
Econômica Federal.

A partir desse cadastro, será fornecida uma senha de acesso ao site do


Tesouro, permitindo visualizar as opções de investimento disponíveis naquela
data, sua remuneração e vencimento, conforme figura ....

58
Figura ....: títulos públicos disponíveis para compra em setembro de 2003

Os valores para investimento mensal variam de R$ 200,00 (duzentos reais), no


mínimo, a R$ 200.000,00 (duzentos mil reais) no máximo. Vale salientar que
não existem títulos com estes valores, sendo que, para pequenas compras,
serão adquiridos partes de títulos e, em grandes compras, a quantidade
necessária para totalizar o investimento desejado.

Caso você precise do dinheiro, e queira efetuar um resgate, o Tesouro


compromete-se a recomprar seus títulos todas as quartas-feiras, sendo que o
dinheiro estará disponível no primeiro dia útil posterior a operação, em sua
conta corrente, no agente financeiro escolhido como intermediário.

Neste aspecto, cabe uma observação. Existem agentes financeiros operando


pela Internet, como o Investshop, no endereço www.investshop.com.br, por
exemplo. Caso você adquira títulos públicos através dele, ele não será
responsável pela custódia, ou guarda, de seus ativos. Neste caso, a CBLC, ou
Câmara Brasileira de Liquidação e Custódia, é a instituição criada pela bolsa
de valores de São Paulo para a custódia de valores fungíveis, ou seja, para
guardar seus títulos enquanto você não os vende. Esta é uma informação
importantíssima, pois se qualquer agente financeiro sofrer intervenção ou
liquidação pelo Banco Central, ou quebrar, você não tem nada com isso, pois
seus títulos estão depositados na CBLC, mas se eles tiverem sido vendidos, e

59
você deixou seu dinheiro na conta-corrente, e acontecer uma dessas
catástrofes que citei, pode dizer adeus para seu investimento. Viu porque
aconselhei a utilizar o Banco do Brasil ou a Caixa Econômica Federal?

São várias as vantagens de se investir em títulos públicos, mas a maior delas


é, sem dúvida, a possibilidade de montar sua própria carteira de investimentos,
com baixíssimo risco e rentabilidade superior a oferecida pela maioria das
instituições financeiras. Dependendo do horizonte de prazo do investidor,
podem ser adquiridos títulos com quase 30 anos de juros garantidos, ideais
para sua aposentadoria, sem a necessidade de planos de previdência privada,
por exemplo.

Para que você possa analisar as vantagens de efetuar esse investimento,


verifique que a rentabilidade acumulada pelos títulos públicos foi superior a
todos os outros investimentos de renda fixa, oferecidos pelo mercado
financeiro, nos últimos anos. Observe na figura ....., os rendimentos
comparativos das principais oportunidades de renda fixa.

1
TABELA DE RENTABILIDADE EM PERCENTUAL

fev/02 2001 2000 1999


Títulos públicos
LTN (1) 2,87 20,81 18,25 22,0
LFT (2) 2,86 17,54 17,47 25,74
NTN-C (3) 2,02 21,87 22,48 35,12
Outros indicadores
CDI (4) 2,8 17,29 17,25 25,13
CDB (5) 2,68 16,51 16,4 24,03
Poupança 1,38 8,59 8,39 12,25
Selic 2,8 17,4 17,43 25,59
Dólar 1,8 18,67 8,57 48,12
IGP-M 0,42 10,38 9,95 20,64
Tabela 1: Rentabilidade comparada de investimentos de renda fixa
Fonte: www.tesouro.fazenda.gov.br
(1) Média das taxas de juros dos leilões de títulos com prazos de seis meses ocorridos ao
longo do período.
(2) Variação da taxa Selic, acrescida do ágio/deságio médio observado nas vendas de títulos
com prazos de 12 meses (1999) 36 meses (2000) e 60 meses (2001).
(3) Variação acumulada do IGP-M, somada à média das taxas de juros dos leilões dos títulos
com os seguintes datas de vencimento: para o ano de 1999, título com vencimento em
dezembro de 2002 e paras os anos de 2000 e 2001, título com vencimento em julho de 2005.
(4) Taxa acumulada calculada com base nas taxas diárias. (Banco Central)
(5) Taxa acumulada calculada com base nas taxas básicas financeiras - TBF do primeiro dia
útil de cada mês. (Banco Central)

Observe que a rentabilidade bruta dos títulos públicos, principalmente as


NTN´s, notas do tesouro nacional, sempre foram superiores às outras
modalidades de investimento de renda fixa. Ainda devemos considerar que, no
1
Rentabilidade bruta, ou seja, sem o imposto de renda de 20% sobre os juros.

60
caso dos títulos públicos, deverão ser pagos IR sobre os juros, e as taxas de
custódia, compra e venda, no caso de não se esperar o resgate no vencimento.
Mas mesmo assim, quando comparamos o ganho líquido de cada um, existe
uma vantagem clara para os títulos públicos, pois os outros investimentos
também possuem custos como IR, taxa de administração e IOF, imposto sobre
operações financeiras.

Proponho que façamos uma análise comparativa entre a média, obtida pela
soma dos índices no período, divididos pelo número de anos, das três
modalidades de títulos públicos, letras do tesouro nacional, letras financeira do
tesouro e notas do tesouro nacional, com a rentabilidade dos certificados de
depósito bancário, certificados de depósito interbancário, só disponíveis para
aplicação através de fundos de investimento de renda fixa DI, e a caderneta de
poupança. Vamos, primeiramente, analisar as taxas anuais e mensais de cada
opção de investimento, conforme figura .....

Rentabilidade média
Investimento Anual Mensal
LTN 20,35% ao ano 1,56% ao mês
LFT 20,25% ao ano 1,55% ao mês
NTN 26,49% ao ano 1,98% ao mês
CDI 19,89% ao ano 1,52% ao mês
CDB 18,98% ao ano 1,46% ao mês
Caderneta de poupança 9,74% ao ano 0,78% ao mês
Figura ...: Comparação entre a rentabilidade de investimentos em renda fixa

Note que, se você simplesmente somar, mês a mês, as taxas obtidas com a
LTN, por exemplo, obteremos o valor de 18,72% ao ano, enquanto a
rentabilidade anual é de 20,35%, uma diferença de 1,63% no período. Isso
ocorre por um fator chamado taxa de juros nominal e real. Enquanto a taxa de
juros nominal representa a rentabilidade no período, no caso de um ano, a taxa
de juros real é aquela que, aplicada mês a mês, no regime de juros compostos,
proporciona a rentabilidade anual da taxa nominal. Complicado? Vamos
exemplificar para ficar mais fácil. Imagine uma aplicação de R$ 1.000,00 (um
mil reais), no período de um ano, a taxa nominal de 20,35%. Você terá, ao final
do período, o valor de R$ 1.203,50 (um mil, duzentos e três reais e cinqüenta
centavos), obtidos através da multiplicação do investimento pela taxa de
retorno anual. Se dividirmos a taxa nominal de 20,35% ao ano, por doze
meses, obteremos o valor de 1,70% ao mês. Vamos conferir?

61
Data Aplicação Juros (1,7% ao mês) Saldo
1/1/2003 R$ 1.000,00 R$ 17,00 R$ 1.017,00
1/2/2003 R$ 1.017,00 R$ 17,29 R$ 1.034,29
1/3/2003 R$ 1.034,29 R$ 17,58 R$ 1.051,87
1/4/2003 R$ 1.051,87 R$ 17,88 R$ 1.069,75
1/5/2003 R$ 1.069,75 R$ 18,19 R$ 1.087,94
1/6/2003 R$ 1.087,94 R$ 18,49 R$ 1.106,43
1/7/2003 R$ 1.106,43 R$ 18,81 R$ 1.125,24
1/8/2003 R$ 1.125,24 R$ 19,13 R$ 1.144,37
1/9/2003 R$ 1.144,37 R$ 19,45 R$ 1.163,83
1/10/2003 R$ 1.163,83 R$ 19,79 R$ 1.183,61
1/11/2003 R$ 1.183,61 R$ 20,12 R$ 1.203,73
1/12/2003 R$ 1.203,73 R$ 20,46 R$ 1.224,20
Figura ...: Rentabilidade de um investimento durante um ano obtido com taxa
de juro nominal

Ao final de doze meses, o valor do montante é de R$ 1.224,20 (um mil,


duzentos e vinte e quatro reais e vinte centavos), equivalentes a uma taxa
nominal de 22,42% ao ano, superior em R$ 20,70 (vinte reais e setenta
centavos), ou 2,07%, ao que seria a uma taxa de 20,35% ao ano. Vamos
refazer as contas, utilizando a taxa de juros real mensal de 1,55%, observe a
figura ....

Data Aplicação Juros (1,55% ao mês) Saldo


1/1/2003 R$ 1.000,00 R$ 15,55 R$ 1.015,55
1/2/2003 R$ 1.015,55 R$ 15,79 R$ 1.031,34
1/3/2003 R$ 1.031,34 R$ 16,04 R$ 1.047,38
1/4/2003 R$ 1.047,38 R$ 16,29 R$ 1.063,67
1/5/2003 R$ 1.063,67 R$ 16,54 R$ 1.080,21
1/6/2003 R$ 1.080,21 R$ 16,80 R$ 1.097,00
1/7/2003 R$ 1.097,00 R$ 17,06 R$ 1.114,06
1/8/2003 R$ 1.114,06 R$ 17,32 R$ 1.131,39
1/9/2003 R$ 1.131,39 R$ 17,59 R$ 1.148,98
1/10/2003 R$ 1.148,98 R$ 17,87 R$ 1.166,84
1/11/2003 R$ 1.166,84 R$ 18,14 R$ 1.184,99
1/12/2003 R$ 1.184,99 R$ 18,43 R$ 1.203,42
Figura ....: Rentabilidade de um investimento durante um ano obtido com taxa
de juro real

Como podemos verificar, se compararmos o montante obtido com o


investimento de R$ 1.000,00 (um mil reais), durante um ano, à taxa nominal de
20,35%, prometidos pelo investimento, com a taxa de juros real de 1,55% ao
mês, alcançaremos valores muito próximos, com uma diferença de apenas R$
0,07 (sete centavos), que aconteceu por motivo de arredondamento das casas
decimais da taxa de juros.

62
São coisas como essa que, na minha opinião, desestimulam as pessoas a
buscarem maiores conhecimentos da área financeira, porque, na verdade, isso
é realmente uma chatice. Se você, por acaso, quiser saber mais
aprofundadamente como funciona a matemática financeira, e a utilização da
calculadora HP 12C, procure em sua cidade. Normalmente são oferecidos mini-
cursos, que variam de 08 a 20 horas, pelo Sebrae, Sesi, Senai e
Universidades, entre outros. E o investimento necessário não é alto,
comparativamente a importância deste conhecimento em nossa vida.

Mas, voltando ao assunto da rentabilidade dos investimentos, vamos agora


comparar uma aplicação de R$ 300,00 (trezentos reais) mensais, em cada uma
das modalidades, durante dez, vinte e trinta anos, conforme figura....

Modalidade Parcela juros 10 anos 20 anos 30 anos


LTN 300,00 1,56% 104.000,16 770.434,04 5.040.947,87
LFT 300,00 1,55% 103.214,23 756.842,62 4.896.098,11
NTN 300,00 1,98% 144.163,60 1.660.014,66 17.598.881,73
CDI 300,00 1,52% 100.897,44 717.596,46 4.486.945,40
CDB 300,00 1,46% 96.442,76 645.544,20 3.771.879,42
Caderneta de poupança 300,00 0,78% 59.250,74 209.778,38 592.196,74
Figura ....: Rendimento futuro de uma aplicação mensal em diversos
investimentos

Vou utilizar o exemplo da caderneta de poupança para ensiná-lo a realizar as


contas na calculadora HP 12C.

Digite a parcela (no caso R$ 300) e tecle CHS e PMT


Digite o número de períodos em meses (no caso 120 para 10 anos) e tecle ¨n¨
Digite a taxa de juros mensal (no caso 0,78)
Tecle FV e pronto! Temos o valor de R$ 59.250,74

Não! Você não está sonhando! As contas não estão erradas! A verdade pura e
cristalina finalmente aparece diante dos seus olhos! Acabei de lhe mostrar a
verdadeira fonte da riqueza, ou se preferir, o pote de ouro no fim do arco-íris.
Não existe mágica, companheiro! O que existe são somente duas coisas:
poupança e investimento. O resto é conversa para boi dormir.

Veja a espantosa diferença nos seus investimentos. Quanto mais dilatado o


período analisado, maior é o montante final. Observe que, nos primeiros dez
anos, se compararmos a opção menos atrativa, que é a caderneta de
poupança, com a mais rentável, as notas do tesouro nacional, a diferença é de
R$ 84.912,86 (oitenta e quatro mil, novecentos e doze reais e oitenta e seis
centavos), ou 143%, o suficiente para comprar um apartamento ou um carro
importado. Ao final de vinte anos, o valor sobe para R$ 1.450.236,28 (um
milhão, quatrocentos e cinqüenta mil, duzentos e trinta e seis reais e vinte e
oito centavos), ou 691%. Finalmente, em trinta anos, temos a módica quantia
de R$ 17.006.684,99 (dezessete milhões, seis mil e seiscentos e oitenta e
quatro reais e noventa e nove centavos), ou 2.872%, um monte de
apartamentos e carros importados. Como diz o rei Pelé: entende?

63
Podemos comparar, ainda, o título público com menor rentabilidade mensal, a
letra financeira do tesouro, que apresenta uma remuneração de 1,55% ao mês,
com o produto de renda fixa do mercado financeiro de maior rentabilidade, os
fundos de renda fixa DI, que procuram obter remuneração próxima ao CDI,
com taxa de juros de 1,52% ao mês. Novamente, você pode me dizer: ¨Como
você é chato, afinal, o que são míseros 0,03% ao mês?¨. Pois eu lhe respondo:
esta diferença tão pequena representa, ao final de 30 anos, a quantia de R$
409.152,71 (quatrocentos e nove mil, cento e cinqüenta e dois reais e setenta e
um centavos), obtidos através da subtração dos rendimentos obtidos com os
dois investimentos ao final do período. Agora te pergunto: Faz diferença para
você?

Se fizermos uma análise ainda mais detalhada, veremos que a diferença da


rentabilidade das letras financeiras do tesouro com as letras do tesouro
nacional, é de apenas 0,01% ao mês, que se transformam, em valores
monetários, ao final de 30 anos, em R$ 144.849,76 (cento e quarenta e quatro
mil, oitocentos e quarenta e nove reais e setenta e seis centavos), uma bela
quantia, não é mesmo?

Por isso eu volto a repetir: não existe mágica em investimentos. O montante


que você terá no futuro depende de escolhas feitas no presente, que sofrem
impactos significativos em diferenças que consideramos ¨ninharias¨, mas que,
a longo prazo, podem transformar totalmente o resultado obtido. Afinal, no
exemplo que lhe mostrei, foram feitas aplicações idênticas, mas o resultado
final das notas do tesouro nacional chega a ser constrangedor, ou seja, R$
17.598.881,73 (dezessete milhões, quinhentos e noventa e oito mil, oitocentos
e oitenta e um reais e setenta e três centavos) alivia a velhice de qualquer um,
concorda?

Vale lembrá-lo de que todo investimento possui riscos. No caso dos títulos
públicos, ele aumenta na medida que o governo gasta mais do que arrecada,
comprometendo sua capacidade de pagamento. Para sua segurança,
acompanhe, mesmo que semestralmente, um indicador chamado ¨taxa de
endividamento¨, que é fornecido dividindo-se a dívida pública pelo PIB, ou
produto interno bruto. Quanto maior este índice, pior a situação financeira do
país e, conseqüentemente, a possibilidade de problemas no resgate de seus
investimentos. Por outro lado, se este indicador está estável, ou até mesmo
diminuindo, demonstra a preocupação dos administradores com o equilíbrio
das contas públicas, diminuindo o risco do investimento, e a sua rentabilidade,
pois o governo conseguirá captar recursos pagando taxas de juros mais
baratas. Outra maneira, ainda mais fácil, é acompanhar os telejornais e,
ouvindo a notícia que os investidores estrangeiros estão saindo do país, com
medo de moratória, calote, ou qualquer palavra do gênero, venda seus títulos e
aplique em ativos fora do mercado financeiro, como imóveis, por exemplo.

É claro que será muito improvável que se consiga uma rentabilidade dessas
durante trinta anos, até mesmo porque, se isso acontecer, o governo acabará
quebrando de vez. Mas isso serve para ilustrar, principalmente, como a escolha
dos seus investimentos impacta o valor que você terá no futuro, devendo ser

64
feita um estudo cuidadoso na hora de realizá-los. Além do mais, várias
declarações, dos diversos presidentes do Banco Central, inclusive o atual,
classificam que a taxa real de juros que deverá ser paga pelo governo
brasileiro situa-se em torno de 9% a 10% anuais acima da inflação,
correspondendo a uma rentabilidade bruta, sem imposto de renda, um pouco
superior a 1% ao mês. Mesmo assim, para um investimento classificado como
muito seguro, não deixa de ser altamente atrativo. Então, o que está
esperando? Vamos as compras!

5.1.3 Fundos de investimento

Se você não tem paciência, ou vontade, de administrar pessoalmente seus


investimentos financeiros, mas deseja buscar alternativas que possam
proporcionar remuneração superior a caderneta de poupança, a melhor opção,
depois dos títulos públicos federais, são os fundos de investimento.

Esse produto foi criado há algumas décadas nos Estados Unidos, e consiste,
basicamente, na reunião de recursos de vários investidores, na forma de
condomínio, administrados por uma instituição financeira, buscando
oportunidades de ganhos no mercado financeiro. A variedade de fundos que
são oferecidos deriva das características particulares da composição de sua
carteira de investimentos, construídas com ativos financeiros para atender a
todos os tipos de clientes, desde conservadores até os mais agressivos.

Ao chegar em um banco, e solicitar ao gerente informações sobre as


alternativas de investimentos disponíveis, normalmente somos apresentados a
diversas opções. Caderneta de poupança, títulos de capitalização, fundos de
investimento, CDB e previdência privada são alguns exemplos. Então vamos
aprofundar um pouco nosso conhecimento sobre o funcionamento do sistema
financeiro para conhecermos as características particulares de cada produto
oferecido.

A instituição financeira mais tradicional e conhecida é o banco comercial.


Através dele possuímos conta-corrente, caderneta de poupança, empréstimos
e financiamentos pessoais e empresariais, por isso, estão sujeitos a uma
fiscalização rígida de suas operações pelo Banco Central do Brasil. Banco do
Brasil, Bradesco, Itaú e Unibanco, por exemplo, são alguns dos maiores
bancos brasileiros.

Ao abrir uma conta em qualquer uma destas instituições, você está se tornando
mais um participante do sistema financeiro nacional, que constitui-se,
basicamente, no conjunto de todas as instituições financeiras brasileiras que
fazem intermediação, aplicação ou custódia de recursos financeiros próprios ou
de terceiros. Seguradoras, corretoras e distribuidoras de títulos e valores
mobiliários, consórcios, sociedades de capitalização e de arrendamento
mercantil (leasing), cooperativas de crédito, caixas econômicas, bancos de
investimento e de desenvolvimento, são alguns de seus componentes.

65
Então, vamos supor uma situação: Você entrou em uma agência bancária
qualquer, e decidiu alocar um pouco dos seus recursos em outras opções de
investimento, além da caderneta de poupança, escolhendo, por exemplo, um
fundo de renda fixa, pelas suas características conservadoras. Afinal, se você
é correntista de um desses grandes bancos, o risco de perda de seus
investimentos deve ser menor, não é mesmo? Pois vou lhe contar uma coisa.
Quando você adquire um seguro, título de capitalização, cotas de fundo de
investimento ou previdência privada, não é o banco que está lhe vendendo
estes produtos, mas instituições financeiras, nas quais o banco é normalmente
acionista, e que usam as agências como ponto de venda e os correntistas
como clientes em potencial.

Assim, se alguma dessas instituições vier a sofrer algum revés financeiro,


devido a mudanças bruscas na economia, ou má gestão, podendo até mesmo
quebrar, o banco resguarda sua carteira comercial, e você fica a ver navios.

Quero que fique claro que não tenho nada contra os bancos, inclusive os
considero a ferramenta mais importante do sistema financeiro, mas devemos
conhecer devidamente o sistema e o seu funcionamento para podermos
realizar uma análise mais aprofundada dos riscos envolvidos em nossos
investimentos e na nossa relação com estas instituições.

Pois bem, ao investir seu dinheiro em um fundo de investimento, os recursos


são encaminhados a um gestor, como, por exemplo, o Santander Banespa
Asset Management, que é a instituição financeira responsável pela
administração dos recursos financeiros dos clientes dos Bancos Banespa e
Santander, pois ambos pertencem ao grupo espanhol Santander. Esse gestor
possui uma série de obrigações, estabelecidas em um regulamento, registrado
em cartório, sobre a administração dos recursos a ele entregues. Dentre estas
regras, podemos destacar:

 Identificação do administrador do fundo e suas responsabilidades: como


o próprio nome já diz, esta regra identifica a instituição financeira que
realizará a gestão dos recursos, bem como as responsabilidades
envolvidas nesta administração. Vou lhe dar um exemplo para facilitar o
entendimento. Nas propagandas dos fundos de investimentos,
normalmente panfletos disponíveis nas agências bancárias, existem
duas observações, em letras pequenas, que dizem o seguinte:
1. ¨Os recursos serão administrados pelo regime de melhores
esforços.¨ Ou seja, se por acaso, por alguma fatalidade do
mercado, seus investimentos forem por água abaixo, o gestor do
fundo fez de tudo a seu alcance para proteger sua aplicação, mas
não é responsável por suas perdas.
2. ¨Rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura.¨
Uma das minhas frases prediletas. Traduzindo, não é porque o
fundo apresentou uma performance superior a diversos
indicadores no passado que você não possa perder dinheiro de
agora em diante. Entendeu as responsabilidades do gestor?

66
 Política de investimentos: relata os mercados que serão utilizados para a
busca de opções de investimento para os recursos do fundo,
normalmente renda fixa e variável.
 Composição básica da carteira: detalha, especificadamente, onde
podem ser aplicados os recursos captados dos investidores. Os mais
utilizados são títulos públicos e privados, ações, opções de ações e
derivativos, que são contratos especulativos de ativos financeiros que
têm um mercado futuro devidamente regulamentado, como taxas de
juros, ações e câmbio. Informa, ainda, quais serão os limites para a
aplicação em determinados papéis, devido às suas características e
riscos.
 Forma de apuração do valor das cotas: ao investir em um fundo de
investimento, você deixa de possuir a quantidade nominal de dinheiro,
por exemplo, dez mil reais, para adquirir cotas deste fundo, que
valorizam, ou desvalorizam, de acordo com os ativos escolhidos pelo
gestor, que compõem suas aplicações, determinadas pelo seu valor de
mercado naquela data. Ou seja, as cotas são a representação do
patrimônio do fundo, e você passou a ser um sócio, de acordo com a
quantidade de suas cotas, que ganhará com seus lucros ou perderá com
seus prejuízos, participando de seus resultados. Para fazer esta
apuração, o regulamento apresenta todas as expressões matemáticas e
contábeis utilizadas.
 Prazos para resgates e aplicações: há algum tempo atrás, os fundos
apresentavam, como característica, prazos fixos para remuneração e
resgate. Por exemplo, 30, 60 ou 180 dias. Se o resgate fosse efetuado
antes desses prazos, a rentabilidade acumulada era perdida.
Atualmente, todos os fundos apresentam rentabilidade, aplicação e
resgate diários, com exceção de alguns fundos de ações, que só
disponibilizam os recursos de seus aplicadores em até quatro dias após
a solicitação do resgate do investimento.
 Periodicidade do crédito dos rendimentos aos investidores: como
descrito anteriormente, são as datas que serão disponibilizados os
ganhos obtidos com o investimento, como, por exemplo, de 30 em 30 ou
60 em 60 dias. Atualmente, de acordo com regulamentação do Banco
Central, todos os fundos tem rentabilidade calculada e creditada de
forma diária;
 A taxa de administração ou performance cobrada pelo administrador do
fundo por seus serviços: sabemos que instituições financeiras não fazem
nada de graça para ninguém, não é mesmo? Ou melhor, no sistema
capitalista, qual empresa o faz? Por isso, o regulamento do fundo
apresenta a remuneração do gestor. É interessante observar que as
taxas são aplicadas sobre o patrimônio do fundo, e não somente no
ganho financeiro, e o seu método de desconto é feito de maneira que
você não perceba o seu verdadeiro peso em suas aplicações, ou seja,
diariamente. Então, quando você olha o saldo de seus investimentos,
fica satisfeito ao ver que ganhou mais do que a caderneta de poupança,
por exemplo, e não se interessa em conferir quanto o administrador
ganhou para si com o seu dinheiro. Por isso, confira a taxa de
administração que a instituição cobra para gerir os fundos que participa,
pois esse valor representa um grande impacto em seus investimentos a

67
longo prazo, e nem sempre a instituição que cobra mais oferece a
melhor rentabilidade. Consulte o guia EXAME de melhores fundos de
investimento, que apresenta, todos os anos, os melhores fundos e
gestores do mercado financeiro. A taxa de performance, normalmente, é
utilizada em fundos de renda variável, classificados como agressivos, e
funciona como um prêmio que é dividido entre investidor e gestor, por
superar as metas de rentabilidade acordadas no início do investimento.
Nesse tipo de fundo é cobrada, também, a taxa de administração fixa,
semelhante aos fundos de renda fixa tradicionais.

Assim, existe um regulamento para cada fundo que a instituição oferece, que
apresenta todas as informações necessárias sobre o seu funcionamento. Mas
eu te faço um desafio: pergunte a todas as pessoas que você conhece, que
aplicam em fundos de investimento, se alguma delas, em qualquer momento,
leu algum desses regulamentos. Você sabe por que? Pois vou respondê-lo:
porque sua leitura é chata, difícil e cheia de termos técnicos, e nós preferimos
confiar na palavra e nos conhecimentos do gerente do banco, não é mesmo?

Por isso que, atualmente, existem tantas pessoas preocupadas em buscar


maiores informações sobre as características dos investimentos no mercado
financeiro, inclusive em bolsas de valores, para compreender melhor o que
acontece com o seu dinheiro, para não ter que dizer ¨amém¨ para tudo que
funcionários de instituições financeiras proclamam como verdade absoluta,
afinal, não existe ninguém melhor para tomar conta de seu dinheiro do que
você. Isso não quer dizer que não devemos confiar na experiência e no
conhecimento de pessoas que estudam e vivem o dia-a-dia do mercado
financeiro, mas sim que precisamos conhecê-lo, para poder avaliar melhor
suas oportunidades e riscos.

Nesse aspecto, os fundos são uma excelente oportunidade de investimento,


principalmente para quem, como disse no início, não tem tempo ou vontade de
se aprofundar no conhecimento da dinâmica do sistema financeiro, preferindo
sacrificar um pouco da sua rentabilidade. Acredito que a principal informação
que esse investidor precisa ter é sobre a composição da carteira do fundo de
investimento em que está aplicando seus recursos, pois é aí que descobrimos
o grau de risco que este produto apresenta. Em fundos de renda fixa, são
privilegiados títulos públicos federais e operações compromissadas, que são
empréstimos feitos entre instituições financeiras e garantidos, também, com
títulos públicos federais. Compõem ainda, sua carteira, em pequena
quantidade, certificados de depósitos bancários, ou CDB, emitidos pelo banco
proprietário do gestor do fundo, ou outras opções do mercado de renda fixa,
como contratos de energia elétrica e debêntures, que são títulos de
empréstimos de empresas consideradas de primeira linha. Confira na figura .....
o exemplo de uma carteira de investimentos de um fundo de renda fixa.

68
Fundo de renda fixa

5,8% 2,7%2,6%

46,8%

42,2%

Titulos públicos Operações compromissadas


CDB Cert. termo energia elétrica
Debêntures

Figura ....: Composição da carteira de um fundo de renda fixa

Já os fundos de renda variável, considerados agressivos, apresentam


oportunidades de ganhos superiores aos de renda fixa, mas também podem
gerar grandes riscos ao investidor, como, por exemplo, perder todo o dinheiro
investido e ainda ter que colocar mais para cobrir as perdas sofridas com
solavancos da economia mundial e brasileira. Isso acontece, principalmente,
porque o gestor do fundo, buscando aumentar seus ganhos, investe em
operações de mercado futuro, também chamados de derivativos, como índices
e taxas de juro, câmbio e ações. Qualquer pessoa sabe que a única certeza da
vida são a morte e os impostos e, ao aplicar em ativos que podem sofrer
grandes valorizações, o gestor do fundo incorre em riscos de obter perdas
incríveis, inclusive de todo o patrimônio investido. Privilegia, também, ações de
empresas negociadas em Bolsas de Valores, em nosso caso, na Bolsa de
Valores de São Paulo, Bovespa, que, dependendo do cenário, podem sofrer
grandes variações de valor em pequeno espaço de tempo. Alocam recursos,
ainda, em quotas de fundo de investimento financeiro, e uma pequena parte
em papéis de renda fixa, como títulos públicos federais e operações
compromissadas. Observe, na figura ...., a composição provável da carteira de
investimentos de um fundo de renda variável.

Fundo de renda variável

14% 8% 3%

35% 40%

Titulos públicos Operações compromissadas


Ações ibovespa Derivativos
Cotas FIF

Figura ....: Composição da carteira de um fundo de renda variável.

69
Por isso, procure se informar. As instituições financeiras oferecem panfletos
contendo as linhas gerais dos fundos de investimento disponibilizados para sua
clientela. Normalmente, essas informações são superficiais, tratando as linhas
gerais de cada fundo. Vá ao gerente, pergunte, esclareça suas dúvidas e bom
investimento. Ainda falarei, um pouco adiante, sobre os mercados de ações,
futuros e de opções, para que possa compreender, um pouco mais, os riscos e
as oportunidades de cada opção de investimento.

A figura ..., apresenta alguns produtos financeiros para investimento oferecidos


pelo HSBC a seus clientes, com as características descritas acima. Observe
que a segmentação obedece ao critério de perfil do investidor, classificados
como conservador, moderado ou agressivo. Note que cada grupo de produtos
oferece riscos diferenciados, culminando com o FIQ Ações Plus (que nome
bonito!), ou seja, um fundo de investimento em quotas, que privilegiará
operações em ações e derivativos, e que, ainda, pode pegar dinheiro
emprestado, dando como garantia o patrimônio do fundo, para explorar
oportunidades que o gestor identifique no mercado financeiro. É isso que
significa quando é dito, no item carteira, que o administrador poderá executar
operações de alavancagem do fundo.

Esses fundos são conhecidos, carinhosamente, por alguns investidores, por


fundos de investimento ¨tarja preta¨, em homenagem aos medicamentos
vendidos para quem tem disfunções mentais, ou, simplesmente, ¨Gardenal¨. E
o que isso quer dizer? Que os riscos destes fundos são extremamente altos, e
que, por isso, oferecem a possibilidade de grandes retornos, ou prejuízos.
Entende?

70
Quadro 4 – Exemplos de produtos e fundos de investimento e suas características
Conservador Moderado Agressivos
Produtos CDB FAQ R.F. FAQ Cambial Fundo Ações FIQ Ações Plus
Investidores que Investidores que
Investidores que
desejam aplicar aceitam as
aceitam variações
recursos em flutuações
Investidores que Investidores que muita elevadas
investimentos de (positivas/negativa
procuram buscam proteção (positivo/negativas
Renda Fixa com s) do mercado
negociar a contra variações ) em seus
Público-Alvo expectativa de acionário, em
rentabilidade e o da taxa de câmbio investimentos, em
risco e retorno busca de uma
prazo de suas (R$ contra US$ busca de uma
superiores aos rentabilidade
aplicações comercial) melhor
fundos DI, no próxima a do
rentabilidade a
médio e longo índice Bovespa
longo prazo
prazo Médio
Composta por Objetivo de
Qutoas de FIF
ações que potencializar a
que tenham
Quotas de FIF integram o índice rentabilidade,
carteira composta
que tenham Bovespa. Não investimento em
Títulos por títulos de
carteira composta será feito o uso de ações de
nominativos pré Renda Fixa com
por títulos ou mercados empresas com
ou pós-fixados de cláusula de
operações de derivativos como alto potencial de
Renda fixa de correção cambial
renda fixa, forma de proteção valorização e em
emissão do ou protegidos pelo
Carteira protegidas ou não das flutuações do operações no
HSBC, em que a uso de
de variação mercado, mercado futuro e
taxa e o prazo são derivativos. Pode
cambial. Pode podendo ser de opções de
negociados no apresentar
apresentar usado com o ações. O
momento da variações
variações objetivo de administrador
aplicação negativas em
negativas nas melhorar a poderá executar
função da taxa de
quotas. aderência em operações de
juros sobre o
relação a do alavancagem do
dólar.
índice Bovespa. fundo.
Mensal, com
Cálculo dos
crédito no Diário Diário Diário Diário
rendimentos
vencimento
prazo mínimo de
30 dias e prazo
Indicado para médio prazo médio prazo longo prazo longo prazo
máximo de 360
dias
Taxa de
não tem 3% ao ano. 3% ao ano. 4% ao ano 4% ao ano
administração
Imposto de Renda
(sobre o 20% 20% 20% 10% 10%
rendimento bruto)
Quando da Quando da
aplicação, o seu aplicação, o seu
Conversão em valor é valor é
não tem Idem Idem
cotas transformado em transformado pelo
quotas pelo valor valor da quota da
da quota da data. data.
Figura ...: Produtos financeiros oferecidos em um panfleto promocional

De acordo com a revista EXAME, em Os Melhores Fundos de Investimento de


1999, existiam, no Brasil, 2.667 fundos, cujo patrimônio atingia 175,9 bilhões de
reais, o equivalente a 19,5% do PIB. Em 2003, esse valor aproximava-se de
500 bilhões de reais. Por serem organizados como uma espécie de
condomínio, os fundos reúnem mais poder de fogo para atuar em nome dos
investidores no mercado.

A CVM regula a administração de carteiras e de fundos de ações, e, o Banco


Central, fiscaliza os fundos de renda fixa. As normas que são criadas, por estas
autoridades, visam que os administradores criem empresas totalmente
independentes para gerir os recursos da clientela, acabando com a relação
entre os gestores de fundos e as tesourarias dos bancos, melhorando a
transparência das relações entre as instituições financeiras e os investidores.

71
5.1.4 Certificado de Depósito Bancário (CDB)

Podemos repetir, aqui, a mesma história contada para os empréstimos ao


governo federal. Sempre que emprestamos nosso dinheiro a alguém,
solicitamos um documento que garanta nossos direitos para o recebimento do
que é devido. No caso do governo, são oferecidos títulos públicos, como LTN,
LFT, ou NTN, entre pessoas físicas são solicitadas promissórias, cheques pré-
datados ou a assinatura de contratos, e, para instituições financeiras, os
certificados de depósito bancário, letras de câmbio ou recibo de depósito
bancário.

Todos possuem a mesma função, pois são títulos de crédito emitidos para
garantir uma operação de captação de recursos junto a investidores. A
diferença, em seus nomes, é fruto das características particulares da
remuneração de cada um. Trataremos, aqui, da mais utilizada e
disponibilizada, dentre essas modalidades, pelas instituições financeiras, o
CDB.

Ao procurar uma instituição financeira para investir os seus recursos, o


investidor defrontará sempre com o paradoxo risco-retorno. Se por um lado, a
ambição por maiores ganhos pode estimular a procura por produtos mais
arriscados, o medo da perda de parte, ou totalidade, do capital, inibe, a maioria
das vezes, ousadias no que diz respeito a investimentos pessoais.

E como não existe mágica, se um produto é classificado como de baixo risco, o


seu retorno também será baixo. Esse é o caso dos certificados de depósito
bancário. Nós confiamos que, ao emprestar nosso dinheiro para um banco,
com toda a estabilidade e segurança que ele parece transmitir, contentamo-nos
em receber uma remuneração um pouco superior a caderneta de poupança,
sem nos importarmos com os riscos que o banco correrá em suas operações,
pois, afinal, isso é problema dele. Não é mesmo?

Só que, se o banco quebrar, ficaremos a ver navios, pois ele não possuirá, com
quase certeza, os recursos para saldar os empréstimos que fez junto aos
investidores, pois está insolvente. Portanto, surge mais uma regra das
finanças: não existe investimento sem risco.

Mas o CDB, apesar de não ser o melhor produto financeiro disponível no


mercado para investimento, ainda é superior a caderneta de poupança, e, em
alguns casos, até mesmo que muitos fundos de investimento, merecendo, por
isto, uma atenção especial. A sua diferenciação acontece, principalmente,
devido aos prazos e índices de correção que serão aplicados, variando desde
títulos pré-fixados a remuneração integral ou parcial do CDI. Dentre os diversos
tipos de certificados de depósito bancário disponíveis podemos destacar:

 CDB Prefixado: segue a estratégia da categoria mais conservadora


entre os CDBs. Com um prazo em torno de até um ano, a taxa de
rentabilidade já é conhecida pelo investidor na hora em que adquire o
CDB, tendo como referência a taxa básica de juros. Tem liquidez e
rendimento diários, mas sair antes do vencimento pode sujeitar o

72
investidor às taxas de mercado, ou seja, se a trajetória das taxas de
juros é ascendente, o valor do título é menor, pois o mercado oferece
papéis com rendimentos superiores, sendo vendido com deságio. A
grande oportunidade é para investidores que acreditam na redução dos
juros. Neste caso, eles manteriam a sua rentabilidade atrelada a juros
previamente estabelecidos.
 CDB Pós-Fixado TR: pode ser contratado por até cerca de dois anos e,
como o seu próprio nome já diz, é remunerado por uma taxa de juros e
ajustado pela Taxa Referencial (TR) do período. A TR é o mesmo índice
que corrige a poupança. Como é um pós-fixado, a rentabilidade só é
conhecida no final do contrato. Tem um período de carência de um mês,
ou seja, para o que for resgatado antes de 30 dias, o cliente só tem
direito ao principal investido sem remuneração.
 CDB Pós-Fixado IGP-M: tem prazo de cerca de 1080 dias (três anos) e
é remunerado por uma taxa de juros e ajustado pelo Índice Geral de
Preços do Mercado (IGP-M), da Fundação Getúlio Vargas, uma das
referências que compõem a inflação. Pode-se ganhar bastante num
período de alta de preços, mas é possível perder num caso de IGP-M
negativo no período, ou seja, o valor do IGP-M é multiplicado do saldo
acumulado e seu valor descontado. A carência é de um ano.
 CDB Flutuante: e uma boa opção para quem não quer depender de
prazos para resgatar sua aplicação. Com prazo em torno de três anos,
ele tem liquidez e rendimento diários, podendo ser resgatado a qualquer
momento, pois não tem período de carência. O CDB Flutuante é
ajustado diariamente pelo CDI. Mas isso não quer dizer que seja
remunerado integralmente por este índice. Por exemplo, o CDB pode ser
corrigido por 90% ou 95% do CDI (certificado de depósito interbancário).

Prazo mínimo e
Indexador Características
carência
As operações recompradas antes do vencimento
01 dia – sem
Pré-fixado nesta modalidade estão sujeitas às taxas de
carência
mercado.
Antes do prazo de carência o cliente só faz jus ao
01 mês – carência de
Pós-fixado TR principal. A remuneração somente ocorre após a
1 mês (data-a-data)
carência (Norma do BACEN).
Antes do prazo de carência o cliente só faz jus ao
Pós-fixado IGP-M 01 ano principal. A remuneração somente ocorre após a
carência (Norma do BACEN).
01 dia – sem Rendimento diário pelas taxas de mercado.
CDB Flutuante
carência

Existem, ainda, outras variáveis que precisam ser observadas. Por exemplo,
independente do prazo contratado, resgatar o CDB antes de completar 30 dias
significa prejuízo direto para a rentabilidade pois, segundo regra do Banco
Central, incide uma alíquota regressiva de IOF sobre os juros resgatados antes
de completar um mês de aplicação. Esse efeito é sentido nos CDBs que não
possuem carência. Assim, o imposto a ser pago é inversamente proporcional
ao prazo que faltar para completar o período de um mês.

73
Além disso, o investidor estará sujeito, ainda, à tributação de 20% de Imposto
de Renda sobre a rentabilidade acumulada até o resgate, e a CPMF (0,38%)
no momento da aplicação, ou reaplicação. Por isso, os prazos para aplicação
devem ser escolhidos antecipadamente, para evitar perdas e diminuição dos
rendimentos a cada reaplicação.

5.1.5 Previdência privada

Existe uma história, que já li algumas vezes, mas não me lembro aonde, que
atribui ao ex-presidente francês Charles de Gaulle uma frase que se tornou
célebre, que dizia mais ou menos assim: ¨o Brasil, este não é um país sério.¨.
Lógico que existe toda uma contestação sobre sua autoria, ou se teria mesmo
sido dita, mas uma análise de seu significado não deixa de ser interessante.

Vivemos em um país que prima pela descontinuidade, seja econômica, política


ou em qualquer área que se faça um estudo mais detalhado. Isso causa uma
profunda desconfiança em nossa população em relação a nossos governantes
e suas ações, aumentando nossa insegurança quanto ao futuro. Não possuo
pesquisas que possam comprovar estas afirmações, mas acredito que isso
pode ser classificado, na verdade, como senso comum.

Vou lhe dar o exemplo, de dois amigos, que ajudam a comprovar minhas
afirmações, principalmente quanto ao nosso sistema previdenciário. O primeiro
é funcionário público, que independente do tempo de serviço, aposentadoria
integral, benefícios, ou qualquer outra variável que possa ser contestada,
pensava que se aposentaria em determinado momento de sua vida,
planejando, antecipadamente, o que faria quando este momento acontecesse.
De repente, no governo Fernando Henrique, uma reforma na previdência social
adiou seus sonhos, aumentando a idade mínima para aposentadoria. Fazer o
quê, não é mesmo? Continuou trabalhando e recomeçou seu planejamento, de
acordo com as novas datas estipuladas, e aí veio o governo Lula, e nova
cacetada. Da última vez que o vi tive até medo de perguntar os efeitos que as
alterações provocariam em sua aposentadoria, para não contribuir com um
ataque cardíaco fulminante.

O outro caso envolve um colega de trabalho da iniciativa privada, que


contribuiu, durante mais de vinte anos, com o teto máximo de aposentadoria,
que era de vinte salários mínimos. De repente, uma mudança na legislação
determina um novo teto de dez salários mínimos, para não ¨quebrar¨ a
previdência social. Meu amigo atingiu a idade para a concessão do benefício,
aceitou receber o novo valor estabelecido, afinal de contas é melhor do que
nada, e entrou na justiça reclamando a diferença. Isso já têm quase dez anos.
Se ele for vitorioso em sua demanda, seus netos, bisnetos ou tataranetos
poderão desfrutar dos recursos que ele não pôde.

Não é meu objetivo propor um modelo de previdência social, contestar ou fazer


apologia de qualquer tipo. Tenho aquilo que considero um senso de justiça que
pode ser considerado simples, sem ser simplista, e que se baseia no seguinte
conceito: se paguei por um benefício, tenho direito a ele, se não paguei, o

74
direito não existe. Ou seja, não há mágica. Na medida que pessoas que não
contribuíram, ou o fizeram de modo insuficiente, para a formação do fundo que
será utilizado para o pagamento de seus rendimentos na aposentadoria,
recebem o benefício, a médio e longo prazo esse fundo será insuficiente para
honrar os recebimentos de todos que nele colocaram seus recursos, e terá que
ser coberto com dinheiro de toda a sociedade, através da cobrança de
impostos.

Nesse momento, aparece um monte de espertinhos dizendo que existem


diversas situações, que fulano trabalhou alguns anos na iniciativa privada e
depois no serviço público, que a contribuição era diferenciada, que existe o
¨direito adquirido¨, e por aí vai. Minha opinião, novamente, é simples. A
matemática existe para solucionar problemas como esse, ou seja, pagou,
levou.

Vou colocar outra informação para reflexão. Em toda discussão sobre a


previdência social, em algum momento foi informado quanto custa manter a
estrutura dos órgãos governamentais que cuidam desses recursos? São
apresentadas informações superficiais, por todos os interessados, para
manipular a opinião da sociedade e aprovar aquilo que não é o melhor para
todo mundo, mas para grupos com poder de pressão política. Nesse momento,
eu também pergunto: será que esse é um país realmente sério?

Você pode estar se indagando: ¨O que isso tem a ver com meus investimentos
financeiros?¨ Novamente, eu lhe afirmo, que minha única intenção é a de
demonstrar o funcionamento do sistema, de maneira simples, para que
possamos entender o problema e suas possíveis conseqüências em nossas
vidas. Se a previdência pública quebrar em nossa velhice, como vamos ficar?
Será que ela é a melhor opção para apostar minhas fichas e confiança no
futuro? Eu acho que não, por isso, coloco essas explicações e forneço opções
de investimentos a você.

Atualmente, a previdência pública funciona como um sistema contributivo, ou


seja, todos os trabalhadores contribuem, através de pagamentos mensais
descontados em sua folha de pagamento, ou através de um carnê, no caso dos
autônomos, para a formação de um fundo, que será utilizado no pagamento
dos benefícios dos trabalhadores aposentados. Teoricamente, se um fundo
inicia-se com poupadores, e nenhum beneficiado, ele gerará recursos
suficientes para que, no futuro, os contribuintes possam usufruir do resultado
de seus investimentos. Adicione-se a isso o fato de que novos componentes
estarão fazendo parte do fundo, e teríamos um modelo ideal de aposentadoria.

Infelizmente, a prática demonstrou que esse modelo não funcionou. Os


recursos poupados não são suficientes para o pagamento dos benefícios que
foram concedidos, pois os administradores esqueceram-se de uma regra
básica de gestão: não adianta querer agradar todo mundo, no mundo real o
que conta são receitas e despesas, ou se preferirem, o fluxo de caixa. Se
começo a conceder benefícios para diversas categorias, sem a devida
contrapartida financeira, alguém terá de pagar a conta. No nosso caso,
socializada através dos impostos que todos somos obrigados a pagar,

75
indiferente da classe social, no consumo, na renda, na produção, na
propriedade e, atualmente, até mesmo na movimentação financeira dos nossos
recursos.

Quero que fique claro que não sou contra a aposentadoria integral de juízes,
militares, fiscais ou qualquer outra categoria, ou qualquer outro benefício que
estes servidores possuam. Só estou dizendo que, se quero me aposentar com
meu salário integral, devo contribuir para a formação de um fundo que permita
a realização desse pagamento, para não punir toda a população de um país,
privilegiando uma pequena classe de funcionários públicos.

A previdência privada funciona em um modelo diferente, chamado sistema de


capitalização. Cada participante contribui para a formação de um fundo
individual, geridos em conjunto com as aplicações de todos os outros
beneficiários, onde os recursos serão aplicados em ativos financeiros por um
gestor, de acordo com o perfil do investidor, cobrando uma taxa de
administração pela prestação do serviço. É interessante frisar que, até nesta
data, não existiam planos de previdência privada que pudessem ser
classificados como agressivos, mas, somente, de ¨menos conservadores¨,
afinal, é um recurso destinado para a sua aposentadoria.

No momento em que o plano de previdência é contratado, normalmente o


beneficiário é indagado sobre o valor de retirada mensal que gostaria de
possuir na época de sua aposentadoria, para o cálculo do valor que será
necessário aplicar, durante o período, para se alcançar o objetivo estipulado.
Não existe uma garantia formal, ou por escrito, do valor que será pago, mas
somente projeções, de acordo com as possibilidades de rentabilidade dos
investimentos em que serão aplicados os recursos, procurando garantir a
formação de um fundo suficiente para os resgates futuros.

Não há diferença, em minha opinião, entre comprar um sapato e um plano de


previdência privada. Teoricamente, todos atendem uma necessidade, geram
lucro para a empresa e são oferecidos por um vendedor, normalmente
remunerado através de comissão, que fará de tudo para efetivar a venda. Isso
contribui para, muitas vezes, não serem devidamente sublinhados alguns
aspectos que poderiam inibir a venda, e sejam observadas algumas vantagens
que não resistem a uma análise mais apurada. Afinal de contas, alguém
realmente acredita que os produtos financeiros que as instituições oferecem
estão fundamentalmente preocupados com meu futuro ou com o lucro delas?
Ela é uma prestadora de serviço, que me vende a opção de administrar meu
dinheiro de acordo com os seus conhecimentos do mercado, buscando
alternativas de investimento que possam gerar um benefício futuro para os
aplicadores, enquanto ganha dinheiro com isso. Ou você acha que estou
errado?

Normalmente, são dois os argumentos de venda mais utilizados pelos planos


de previdência privada. O primeiro refere-se ao pequeno valor garantido pela
previdência pública, incapaz de custear as despesas de uma família de classe
média. O outro, caracteriza-se pelo benefício fiscal de aproveitar os depósitos

76
que são efetuados na previdência privada para diminuir o pagamento de
imposto de renda anual.

Quanto aos aspectos negativos da previdência pública, acho que já


comentamos o suficiente. Vamos começar a falar, então, da previdência
privada, começando do imposto de renda pessoa física. Depois detalharemos o
funcionamento dos saques, resgate integral do fundo e pagamento de
benefícios, entre outros.

O imposto de renda, como o próprio nome diz, é um tributo federal que o


governo aplica sobre os cidadãos que possuem uma remuneração superior a
determinado valor mensal, onde as alíquotas, ou seja, o percentual aplicado
sobre uma base de cálculo, ou valor tributável, são aumentadas à medida que
a renda cresce. É interessante frisar que o IR incide sobre qualquer tipo de
ganho, seja ele salário, aluguel, juros, prêmios, doações, herança, lucros ou
dividendos, por exemplo. Atualmente, existem somente duas alíquotas,
cobradas conforme a tabela ...

Imposto de renda - pessoa física


Tabela mensal do IR - 2003

Rendimento Alíquota Deduzir

Até R$ 1.058,00 isento


Acima de R$ 1.058,01 até R$ 2.115,00 15% R$ 158,70
Acima de R$ 2.115,00 27,50% R$ 423,08
Tabela : Alíquotas mensais do imposto de renda

Verifica-se, então, que as pessoas que possuem uma renda mensal de até R$
1.058,00 (um mil, cento e cinqüenta e oito reais) estão isentas do imposto de
renda. Desse valor até R$ 2.115,00 (dois mil, cento e quinze reais), a alíquota
aplicada é de 15%, e acima de R$ 2.115,00 (dois mil, cento e quinze reais),
sobe para o teto máximo de 27,5%. É importante frisar que qualquer cidadão
tem o direito de isenção até a renda mensal mínima, sendo que o imposto de
renda só começa a ser cobrado a partir do que ultrapassa esse valor, operação
que é chamada de dedução, conforme exemplo abaixo:

Renda mensal Aliquota IR Dedução IR a pagar


R$ 2.000,00 15% R$ 300,00 R$ (158,70) R$ 141,30
Figura ...: Cálculo do imposto de renda mensal

Observe que a alíquota incidente sobre a renda mensal de R$ 2000,00 (dois


mil reais) é de 15%, gerando um imposto de renda de R$ 300,00 (trezentos
reais). Se multiplicarmos o valor isento, que é de R$ 1.058,00 (um mil e
cinqüenta e oito reais) pelos mesmos 15%, obteremos o valor de R$ 158,70
(cento e cinqüenta e oito reais e setenta centavos), que corresponde a dedução
que deverá ser feita, gerando um imposto de renda a pagar de R$ 141,30
(cento e quarenta e um reais e trinta centavos). O mesmo raciocínio é válido
para a alíquota de 27,5%, quando for o caso.

77
Além disso, o governo, em sua incrível benevolência, permite aos cidadãos
alguns descontos em sua base de cálculo mensal, conforme abaixo:

 R$ 106,00 (cento e seis reais) por dependente (pai, mãe, cônjuge e


filhos);
 R$ 1.058,00 (um mil e cinqüenta e oito reais) por aposentadoria de
quem já completou 65 anos;
 Pensão alimentícia judicial;
 Valor da contribuição paga, no mês, a previdência social.

Mas não é só isso! Além dessas deduções mensais, podem ser aplicadas,
também, deduções anuais, que são:

 Despesas com educação, do contribuinte ou de seus dependentes, com


creches, primário, ginásio, colegial e superior, profissionalizantes ou de
especialização, até o valor de R$ 1.998,00 (um mil, novecentos e
noventa e oito reais) por dependente;
 Despesas médicas e hospitalares, sem limite de valores, porém sujeitas
a comprovação. Consideram-se despesas médicas e hospitalares os
pagamentos efetuados com: consultas médicas, internações,
tratamentos médicos, odontológicos, psicológicos, terapêuticos,
psiquiátricos, exames laboratoriais, fonoaudiológicos, entre outros.

Para a apuração do imposto de renda, podemos optar por dois modelos de


declaração: a completa e a simplificada. A declaração completa é aquela em
que podem ser utilizadas todas as deduções legais, sujeitas a comprovação, ou
seja, guarde as notas fiscais, pois, se cair na malha fina, precisará de todas
elas para não ser multado como sonegador. O segundo modelo permite a
aplicação de um desconto de 20% nos rendimentos tributáveis, limitado a R$
9.400,00 (nove mil e quatrocentos reais) anuais, que substitui todas as
deduções permitidas ao modelo completo, sem comprovação.

Mas o governo não aumenta o imposto de renda somente através da alteração,


para cima, do valor da alíquota. Há alguns anos atrás, o pagamento de imposto
de renda iniciava-se a partir de dez salários mínimos, que seriam, atualmente,
equivalentes a R$ 2.400,00 (dois mil e quatrocentos reais). A partir do
momento em que o salário mínimo aumentou, e a tabela de isenção continuou
a mesma, com um pequeno reajuste para R$ 1.058,00 (um mil e cinqüenta e
oito reais), expandiu-se a base de contribuintes do imposto de renda, além da
própria arrecadação, pois as despesas que podem ser deduzidas não sofreram
a correção da inflação do período, enquanto que, no mundo real, esses
pagamentos ultrapassam, muitas vezes, o valor autorizado pelo governo.

Sempre que estou em sala de aula, e começo a falar sobre estes temas, sofro
de um grande mal-estar com a falta de respeito com que nosso governo trata
seus cidadãos. Em minha opinião, sofremos do mal de governantes que acham
muito mais fácil sugar a massa produtiva da sociedade, sejam trabalhadores ou
empresários, ao invés de tomar decisões políticas impopulares para a
contenção de suas despesas. Acredito que, se alguém governa para agradar

78
todo mundo, acaba não satisfazendo a ninguém. Mas, acima de tudo, os
princípios da justiça e integridade devem reinar nas relações entre o governo e
a sociedade. Qual a moral de um governo em cobrar os impostos de seus
cidadãos, quando utiliza de artifícios para aumentar sua arrecadação e diminuir
a renda de sua população? Defendo a tese que o brasileiro tenta ser ¨esperto¨,
não por sua vontade, mas pela pura necessidade de sobreviver a seus
governantes.

Voltando ao que interessa, os investimentos em previdência privada oferecem


uma oportunidade para escaparmos, ao menos momentaneamente, da
voracidade representada pelo leão da Receita Federal. Mas somente para os
contribuintes que apresentam sua declaração no modelo completo. Quando
comprei minha previdência privada, o vendedor não me deu essa informação, e
quase perdi o benefício fiscal de 12% sobre a renda bruta anual.

Vale ressaltar que a previdência privada se classifica em dois modelos, e os


diversos produtos oferecidos se encaixam em uma dessas modalidades:

 PGBL ou plano gerador de benefícios livres: este plano oferece ao


possuidor a possibilidade de incentivo fiscal para a aplicação de até 12%
de sua renda bruta anual, que será abatida de sua base de cálculo,
diminuindo o imposto a pagar. Após o período de carência, ou seja, o
prazo mínimo para poder sacar seus recursos, você pode solicitar
resgates mensais, até o valor isento, no caso R$ 1.058,00 (um mil e
cinqüenta e oito reais), mais R$ 106,00 (cento e seis reais) por
dependente, caso os possua, ou retirar o valor integral, pagando a
alíquota de 27,5% sobre o saldo. Por exemplo, em uma aplicação de R$
10.000,00 (dez mil reais), você pagará R$ 2.750,00 (dois mil, setecentos
e cinqüenta reais) de imposto de renda na fonte. Se você opta por pagar
durante vários anos, e decide retirar o fundo de uma única vez, a
alíquota será aplicada sobre o saldo final;
 VGBL ou vida gerador de benefícios livres: modalidade de previdência
privada na qual não se usufrui de incentivos fiscais, em compensação o
imposto de renda só incide sobre os ganhos financeiros. Por exemplo:
você investiu os mesmos R$ 10.000,00 (dez mil reais), que após um ano
se tornaram R$ 11.000,00 (onze mil reais), e você decidiu sacar todo o
dinheiro, o imposto de renda de 27,5% incidirá sobre os R$ 1.000,00 (mil
reais), gerando um valor de R$ 275,00 (duzentos e setenta e cinco
reais). Neste caso, se você faz aportes durante vários anos, e decide
retirar o valor de uma única vez, ao invés de optar pelo recebimento
mensal do benefício, o imposto de renda será aplicado sobre o ganho de
capital obtido no período.

Tem um ditado popular que diz: ¨quando a esmola é demais, o santo


desconfia¨. Afinal, de onde vem tanta bondade de nossos governantes? Calma.
Vamos fazer algumas simulações com o cálculo do imposto de renda de uma
pessoa física, com e sem previdência privada, e apresentar outras informações
para uma análise mais completa. O quadro abaixo foi montado a partir de um
material promocional do Banco BCN, com o produto BCN PGBL proteção
familiar (viu que nome bonito?). Tomei a liberdade de atualizar a contribuição

79
ao INSS, Instituto Nacional de Serviço Nacional, ou seja, a previdência pública,
que era de R$ 158,18 (cento e cinqüenta e oito reais e dezoito centavos), para
R$ 205,62 (duzentos e cinco reais e sessenta e dois centavos), que é o valor
para o benefício máximo de dez salários mínimos mensais, e as deduções por
dependente, que de R$ 90,00 (noventa reais), aumentaram para R$ 106,00
(cento e seis reais) mensais. Reajustei, ainda, o valor da contribuição da
previdência privada, de R$ 12.000,00 (doze mil reais), para R$ 14.400,00
(quatorze mil e quatrocentos reais), de modo a obter o ganho máximo com o
incentivo fiscal, que é de 12% sobre a renda bruta anual. Finalmente, alterei a
dedução da alíquota de 27,5% de R$ 360,00 (trezentos e sessenta reais), para
os atuais R$ 423,08 (quatrocentos e vinte e três reais e oito centavos), para
que pudéssemos obter um valor atualizado do benefício auferido com a
aquisição de um plano de previdência privada do tipo PGBL, ou plano gerador
de benefícios livres. Observe os resultados.

Sem previdência privada Com previdência privada


Renda anual R$ 120.000,00 R$ 120.000,00
Contribuição ao INSS (205,62 x 12) R$ (2.467,44) R$ (2.467,44)
Dependentes (3 x 1.272,00) R$ (3.816,00) R$ (3.816,00)
Base de cálculo 1 R$ 113.716,56 R$ 113.716,56
Contribuição a previdência privada R$ - R$ (14.400,00)

Base de cálculo 2 R$ 113.716,56 R$ 99.316,56


Alíquota 27,5% 27,5%
Resultado R$ 31.272,05 R$ 27.312,05
Dedução (423,08 x 12) R$ (5.076,96) R$ (5.076,96)
Imposto a pagar R$ 26.195,09 R$ 22.235,09

Diferença R$ 3.960,00
Quadro ...: Cálculo do benefício fiscal com a aquisição de um plano PGBL

Ao ver um material promocional como esse imagino quantas pessoas no Brasil


possuem renda de R$ 10.000,00 (dez mil reais) mensais, mas deixa pra lá.
Observe que, a partir do momento que o investidor faz um aporte de R$
14.400,00 (quatorze mil e quatrocentos reais) anuais, ele consegue deixar de
pagar R$ 3.960,00 (três mil, novecentos e sessenta reais) de imposto de renda
por ano. O único problema, a meu ver, é que o valor que será aplicado
representa 12,7% de sua renda, e dificilmente conseguirá poupar esta quantia
no período de um ano somente para esse fim.

Diversas pessoas usam a estratégia de investir em previdência privada para


obter o benefício fiscal, sacando valores isentos durante os meses do ano
posterior, como modo de não pagar o imposto de renda na fonte. Vale ressaltar
que, mesmo não sendo pago na fonte, o resgate é caracterizado como renda,
que deve fazer parte da declaração anual, ou seja, você só está postergando o
pagamento do imposto. É claro que podemos, simplesmente, não declarar
estes resgates em nosso imposto de renda, o nome desse ato é ¨sonegação¨, e

80
é crime. Vamos mostrar, agora, como ficaria a aplicação, feita em 10/10/2002,
para aproveitar o benefício fiscal para a declaração do ano-base de 2002 e os
resgates mensais em 2003, conforme figura ...

Data Aplicação Taxas Juros (1% a.m) Resgate Saldo

10/10/02 R$ 14.400,00 R$ (720,00) R$ - R$ 13.680,00


10/12/02 R$ - R$ (5,23) R$ 273,60 R$ (1.376,00) R$ 12.572,37
10/01/03 R$ - R$ (5,23) R$ 125,72 R$ (1.376,00) R$ 11.316,87
10/02/03 R$ - R$ (5,23) R$ 113,17 R$ (1.376,00) R$ 10.048,81
10/03/03 R$ - R$ (5,23) R$ 100,49 R$ (1.376,00) R$ 8.768,07
10/04/03 R$ - R$ (5,23) R$ 87,68 R$ (1.376,00) R$ 7.474,52
10/05/03 R$ - R$ (5,23) R$ 74,75 R$ (1.376,00) R$ 6.168,03
10/06/03 R$ - R$ (5,23) R$ 61,68 R$ (1.376,00) R$ 4.848,48
10/07/03 R$ - R$ (5,23) R$ 48,48 R$ (1.376,00) R$ 3.515,74
10/08/03 R$ - R$ (5,23) R$ 35,16 R$ (1.376,00) R$ 2.169,67
10/09/03 R$ - R$ (5,23) R$ 21,70 R$ (1.376,00) R$ 810,14
10/10/03 R$ - R$ (3,11) R$ 8,10 R$ (815,13) R$ -

Totais R$ (775,40) R$ 950,53 R$ (14.575,13)


Figura ...: Simulação de uma aplicação em previdência privada para obtenção
de benefício fiscal

Observe que, no momento da aplicação, a instituição financeira cobra uma taxa


de carregamento, para custear as despesas de colocação, administração e
corretagem, no valor de 5% do investimento. Esses valores variam de acordo
com o montante que for acumulado, e também de uma instituição para outra. É
descontada, também, a taxa de saída, de 0,38%, sobre os resgates efetuados.
Apliquei, para efeito do cálculo, uma taxa de juros de 1% ao mês, e resgate de
R$ 1.376,00 (um mil, trezentos e setenta e seis reais), correspondentes ao
valor isento de R$ 1.058,00 (um mil e cinqüenta e oito reais) e mais três
dependentes, com dedução de R$ 106,00 (cento e seis reais) para cada um,
totalizando R$ 318,00 (trezentos e dezoito reais) mensais.
Verificamos que, de uma aplicação de R$ 14.400,00 (quatorze mil e
quatrocentos reais), efetuada em outubro de 2002, resgataremos um total de
R$ 14.575,13 (catorze mil, quinhentos e setenta e cinco reais e treze centavos),
após o período de dois meses de carência e somando as retiradas mensais, o
que equivale a um ganho de 1,22% no ano. Até a caderneta de poupança é
melhor. Vamos observar, agora, o impacto dessas retiradas no imposto de
renda, da mesma pessoa, do ano-base de 2003, elaborado em 2004.

81
Sem previdência privada Com previdência privada
Renda anual R$ 120.000,00 R$ 134.575,13
Contribuição ao INSS (205,62 x 12) R$ (2.467,44) R$ (2.467,44)
Dependentes (3 x 1.272,00) R$ (3.816,00) R$ (3.816,00)
Base de cálculo 1 R$ 113.716,56 R$ 128.291,69
Contribuição a previdência privada R$ - R$ (16.149,02)

Base de cálculo 2 R$ 113.716,56 R$ 112.142,67


Alíquota 27,5% 27,5%
Resultado R$ 31.272,05 R$ 30.839,24
Dedução (423,08 x 12) R$ (5.076,96) R$ (5.076,96)
Imposto a pagar R$ 26.195,09 R$ 25.762,28
Imposto a pagar (2002) R$ 26.195,09 R$ 22.235,09

Diferença (2003 - 2002) R$ - R$ 3.527,18


Figura: Cálculo do IR com as retiradas mensais dos valores aplicados

A renda bruta anterior era de R$ 120.000,00 (cento e vinte mil reais), que
continua sendo a mesma para o caso em que não há a aplicação em
previdência privada. Já para a situação em que este investimento existe, soma-
se R$ 14.575,13 (quatorze mil, quinhentos e setenta e cinco reais e treze
centavos) referentes aos resgates mensais, totalizando, então, R$ 134.575,13
(cento e trinta e quatro mil, quinhentos e setenta e cinco reais e treze
centavos). Verificamos que, para que a estratégia de benefício fiscal possa ser
feita novamente, torna-se necessário, agora, um investimento de R$ 16.149,02
(dezesseis mil, cento e quarenta e nove reais e dois centavos), maior em R$
1.749,02 (um mil, setecentos e quarenta e nove reais e dois centavos) aos R$
14.400,00 (quatorze mil e quatrocentos) do ano anterior. Ao final, têm-se um
imposto de renda a pagar, em 2003, de R$ 25.235,09 (vinte e cinco mil,
duzentos e trinta e cinco reais e nove centavos), superiores em R$ 3.527,18
(três mil, quinhentos e vinte e sete reais e dezoito centavos) ao do ano de
2002. O benefício fiscal em 2002 foi de R$ 3.960,00 (três mil, novecentos e
sessenta reais), o ganho com juros de R$ 175,13 (cento e setenta e cinco reais
e treze centavos), totalizando R$ 4.135,13 (quatro mil, cento e trinta e cinco
reais e treze centavos), diminuindo o aumento do imposto de renda em 2003,
no valor de R$ 3.527,18 (três mil, quinhentos e vinte e se reais e dezoito
centavos), obteve-se um ganho de R$ 607,95 (seiscentos e sete reais e
noventa e cinco centavos), ou 4,22% sobre os R$ 14.400,00 (quatorze mil e
quatrocentos reais). Se você tivesse investido esse valor em títulos públicos
federais, a taxa de 1% ao ano, durante doze meses, obteria um ganho de R$
1.826,28 (um mil, oitocentos e vinte e seis reais e vinte e oito centavos), ou três
vezes mais, sem nenhuma dor de cabeça ou acrobacias tributárias. Aí eu te
pergunto, vale a pena?

Há, eu já ia me esquecendo. Se você optar por não fazer um novo aporte no


ano de 2003, no valor de R$ 16.149,02 (dezesseis mil, cento e quarenta e nove
reais e dois centavos), a diferença do imposto de renda a pagar aumenta de R$
3.527,18 (três mil, quinhentos e vinte e sete reais e dezoito centavos) para R$

82
7.968,16 (sete mil, novecentos e sessenta e oito reais e dezesseis centavos),
ou 126% a mais. Você ainda acredita na bondade do governo? E nas
vantagens oferecidas pelas instituições financeiras?

Mas você pode usufruir do planejamento tributário, fazendo mais de um plano,


onde cada um lhe proporcionará uma renda de valor inferior ao mínimo
tributado, podendo fazer o pagamento do imposto de renda, se houver, na sua
declaração anual. Veja que não estou orientando-o a sonegar impostos, mas,
simplesmente, impedir que eles sejam descontados na fonte, evitando ficar na
dependência da boa vontade da Secretaria da Receita Federal com a
devolução do que foi pago a mais.

Mas não é só isso, lembra que eu te falei que iríamos nos aprofundar sobre
outros temas a respeito da previdência privada? Então vamos lá. Ao contratar o
plano, contribuir pelo tempo estipulado e começar a fruir o benefício, certifique-
se de que existem cláusulas que garantam que, em caso de morte do
beneficiário, outro membro de sua família continue recebendo o benefício
durante algum tempo. Já imaginou se você começa a receber a aposentadoria
em um mês, no outro acontece uma fatalidade e seu fundo ficar todo para a
instituição financeira? Dá vontade de morrer de novo! O nome dado a isso,
normalmente, é de renda vitalícia com prazo mínimo garantido. Além dessa
modalidade, existe também a renda vitalícia reversível ao beneficiário, em que
caso o participante embarque dessa para a melhor, o beneficiário, seu marido
ou esposa, por exemplo, passará a receber, vitaliciamente, a aposentadoria. É
claro que, quanto maior a probabilidade de tempo que a instituição tiver que
desembolsar os benefícios, mais ela irá te cobrar por isso, afinal, não existe
mágica, não é mesmo?

Assim, encerro os comentários a respeito de fundos de previdência privada


respondendo a pergunta que deve estar martelando a sua cabeça. Vamos ver
se eu adivinho: ¨Vale a pena possuir um plano de previdência privada?¨. Na
minha opinião, a resposta é sim, principalmente se você tem dificuldade para
poupar dinheiro para outros fins que não seja a sua aposentadoria, possui
alergia crônica ao mercado financeiro e seus produtos e não gosta de ficar
acompanhando seus investimentos o tempo todo. Mas vou responder a outra
pergunta: ¨Existem opções melhores?¨. A resposta, novamente, é sim. Acredito
que títulos públicos federais e fundos de investimento de renda fixa são mais
atraentes que os planos de previdência privada. E tenho dito!

5.1.5 Títulos de capitalização

É engraçado como as pessoas possuem hábitos difíceis de serem mudados.


Eu, por exemplo, me acostumei a chegar em instituições financeiras e,
enquanto aguardo para ser atendido, procurar o máximo de material
promocional a disposição dos clientes. Cartazes, folhetos, livretos ou qualquer
outra coisa que possa ler e passar o tempo. O fato de lecionar, em uma
Universidade, uma disciplina que necessita dessas informações também
contribui para essa curiosidade.

83
Além disso, vivemos na era do conhecimento, onde necessitamos de
atualização constante, visto a velocidade em que as mudanças estão
ocorrendo. Acredito que precisamos desenvolver o hábito da leitura, como
verdadeiro prazer, e não uma simples obrigação do dia-a-dia.

Digo isso pois, sempre que leio algum material sobre títulos de capitalização,
principalmente aqueles que o classificam como uma modalidade de
investimento, dá vontade de rasgar meu diploma e ir plantar mandioca na
fazenda do meu pai. Vou lhe explicar as razões para essa atitude.

Lembra-se, no começo do livro, quando lhe apresentei o conceito de


investimento? Para que você não precise voltar lá para procurar, vamos repeti-
lo:

¨Considera-se investimento de capital todo desembolso de recursos que tenha,


como objetivo principal, propiciar resultado positivo ao investidor, ou lucro,
buscando o ganho máximo de acordo com o risco de cada opção de
investimento.¨

Traduzindo: investimento é tudo aquilo que gera resultado positivo, ou aumenta


minha riqueza. Se coloco meu dinheiro em oportunidades de negócio que irão,
com certeza, diminuir minha riqueza, não posso considerá-lo como
investimento. Se existir a possibilidade, mesmo que remota, de ser premiado, o
nome correto é jogo, concurso, rifa, bingo, ou outro qualquer, e não
investimento.

Então, o que é um título de capitalização? É uma oportunidade de negócio,


como muitas outras disponíveis no mercado, em que você paga um valor, único
ou mensal, para ter a possibilidade de concorrer a uma premiação, em dinheiro
ou bens, e que, após algum tempo, restitui parte do valor desembolsado
corrigido. Seria como se a Caixa Econômica Federal lhe devolvesse, depois de
um prazo combinado, parte do valor que você pagou em um bilhete da mega-
sena. Você considera a mega-sena como um investimento?

Você já parou para imaginar por que todos os funcionários do banco ficam lhe
oferecendo este produto? Ou como o Sílvio Santos transformou um título de
capitalização, chamado tele-sena, em uma máquina de fazer dinheiro? Então
vamos lá.

Os recursos para o pagamento dos prêmios dos títulos de capitalização são


oriundos de um fundo, que é gerado por uma parte dos desembolsos que o
adquirente realiza, cabendo a instituição o papel de administradora dos
recursos e o pagamento dos premiados. Ou seja, não existe mágica!

Vamos exemplificar, através de um TC Cash SuperChance, um título de


capitalização, ou plano de capitalização, se você preferir, oferecido pelo HSBC
Financial Capitalização (Brasil) S/A., e normalmente vendidos aos
consumidores, principalmente correntistas, através das agências do Banco
HSBC, que possui, entre outras características, pagamentos efetuados
mensalmente que serão aplicados segundo as seguintes condições:

84
Mês Percentual para formação do capital
Do 1º. ao 3º. 10%
4º. 30%
Do 5º. ao 60º. 76,18%
Figura ...: percentual das parcelas pagas que formarão o capital

Observe que, nos primeiros três pagamentos, somente 10% do valor que você
realizar serão incorporados ao seu capital, no quarto mês este índice sofre um
aumento para 30%, e do quinto ao sexagésimo meses o percentual é de
76,18%. O índice de correção é o mesmo da caderneta de poupança, ou seja,
taxa referencial, ou TR, mais 6% ao ano. Proponho fazermos uma pequena
simulação, de um plano contratado em março de 2001, no valor de R$ 50,00
(cinqüenta reais) mensais, em que você já pagou 30 parcelas, para que
possamos fazer uma análise comparativa entre os desembolsos e sua
rentabilidade. Verifique o resultado na figura....:

Pagt. Ano Mês Valor Índice Sub-total TR Juros Saldo


1 2001 Março R$ 50,00 10% R$ 5,00 0,1724 R$ - R$ 5,00
2 2001 Abril R$ 50,00 10% R$ 5,00 0,1546 R$ 0,03 R$ 10,03
3 2001 Maio R$ 50,00 10% R$ 5,00 0,1827 R$ 0,07 R$ 15,10
4 2001 Junho R$ 50,00 30% R$ 15,00 0,1458 R$ 0,10 R$ 30,20
5 2001 Julho R$ 50,00 76,18% R$ 38,09 0,2441 R$ 0,22 R$ 68,51
6 2001 Agosto R$ 50,00 76,18% R$ 38,09 0,3436 R$ 0,58 R$ 107,18
7 2001 Setembro R$ 50,00 76,18% R$ 38,09 0,1627 R$ 0,71 R$ 145,98
8 2001 Outubro R$ 50,00 76,18% R$ 38,09 0,2913 R$ 1,16 R$ 185,23
9 2001 Novembro R$ 50,00 76,18% R$ 38,09 0,1928 R$ 1,28 R$ 224,60
10 2001 Dezembro R$ 50,00 76,18% R$ 38,09 0,1983 R$ 1,57 R$ 264,26
11 2002 Janeiro R$ 50,00 76,18% R$ 38,09 0,2591 R$ 2,01 R$ 304,35
12 2002 Fevereiro R$ 50,00 76,18% R$ 38,09 0,1171 R$ 1,88 R$ 344,32
13 2002 Março R$ 50,00 76,18% R$ 38,09 0,1758 R$ 2,33 R$ 384,74
14 2002 Abril R$ 50,00 76,18% R$ 38,09 0,2357 R$ 2,83 R$ 425,66
15 2002 Maio R$ 50,00 76,18% R$ 38,09 0,2102 R$ 3,02 R$ 466,77
16 2002 Junho R$ 50,00 76,18% R$ 38,09 0,1582 R$ 3,07 R$ 507,94
17 2002 Julho R$ 50,00 76,18% R$ 38,09 0,2656 R$ 3,89 R$ 549,91
18 2002 Agosto R$ 50,00 76,18% R$ 38,09 0,2481 R$ 4,11 R$ 592,12
19 2002 Setembro R$ 50,00 76,18% R$ 38,09 0,1955 R$ 4,12 R$ 634,33
20 2002 Outubro R$ 50,00 76,18% R$ 38,09 0,2768 R$ 4,93 R$ 677,34
21 2002 Novembro R$ 50,00 76,18% R$ 38,09 0,2644 R$ 5,18 R$ 720,61
22 2002 Dezembro R$ 50,00 76,18% R$ 38,09 0,3609 R$ 6,20 R$ 764,91
23 2003 Janeiro R$ 50,00 76,18% R$ 38,09 0,4878 R$ 7,56 R$ 810,55
24 2003 Fevereiro R$ 50,00 76,18% R$ 38,09 0,4116 R$ 7,39 R$ 856,03
25 2003 Março R$ 50,00 76,18% R$ 38,09 0,3782 R$ 7,52 R$ 901,64
26 2003 Abril R$ 50,00 76,18% R$ 38,09 0,4184 R$ 8,28 R$ 948,01
27 2003 Maio R$ 50,00 76,18% R$ 38,09 0,4650 R$ 9,15 R$ 995,25
28 2003 Junho R$ 50,00 76,18% R$ 38,09 0,4166 R$ 9,12 R$1.042,46
29 2003 Julho R$ 50,00 76,18% R$ 38,09 0,5465 R$ 10,91 R$1.091,46
30 2003 Agosto R$ 50,00 76,18% R$ 38,09 0,4038 R$ 9,86 R$1.139,41
Total R$1.500,00 R$1.020,34 R$119,07
Figura: Simulação de uma aplicação em um título de capitalização

85
Corrija-me, por favor, se eu estiver errado. Será que posso chamar de
investimento uma aplicação que, depois de trinta meses de depósitos
constantes, num total de R$ 1.500,00 (um mil e quinhentos reais), converteu-se
em um saldo de R$ 1.139,41 (um mil, cento e trinta e nove reais e quarenta e
um centavos), inclusive juros? Acho que não, por isso não concordo que títulos
de capitalização sejam classificados como opção de investimento.

Mas não é só isso. De repente aconteceu um imprevisto em sua vida, e você


verificou que a única opção de recursos que possui é o resgate antecipado do
seu título de capitalização, que ainda está na metade, pois o período
contratado é de 60 meses. Será que você irá receber R$ 1.139,41 (um mil,
cento e trinta e nove reais e quarenta e um centavos)? A resposta é não! Será
aplicado um fator de redução, ou percentual de resgate, sobre o capital, que
são disponibilizados em uma tabela, que no caso de 30 meses é de 72,97%.
Vale ressaltar que, algumas vezes, assinamos um contrato resumido, pois,
normalmente, o vendedor justifica que o contrato completo será enviado para
seu endereço de correspondência. O contrato assinado contém apenas as
principais cláusulas do plano, que impossibilitam a realização de toda a análise
financeira entre os desembolsos e o valor a ser resgatado. Confira o valor a ser
resgatado na figura .....

Pagt. efetuados % resgate Valor pago Capital Valor a resgatar


30 72,97% R$ 1.500,00 R$ 1.139,41 R$ 831,43
60 100% R$ 3.000,00 R$ 2.758,02 R$ 2.758,02
Figura: Cálculo do valor a ser resgatado com 30 pagamentos

Nada melhor do que fazer as contas, não é mesmo? Qual o outro modo de
descobrirmos a realidade dos produtos que as instituições financeiras nos
oferecem, senão desenvolvendo os cálculos apropriados? Você aplicou R$
1.500,00 (um mil e quinhentos reais) durante dois anos e meio, precisou do
dinheiro e irá resgatar R$ 831,43 (oitocentos e trinta e um reais e quarenta e
três centavos), ou 55,4% do total depositado. Você só consegue resgatar o
valor total do capital se aguardar o prazo de 60 meses, estipulados no contrato,
e, ainda assim, no final desse período, contando com uma média da TR, você
terá desembolsado R$ 3.000,00 (três mil reais), referentes a 60 parcelas de R$
50,00 (cinqüenta reais), e reembolsará R$ 2.758,02 (dois mil, setecentos e
cinqüenta e oito reais e dois centavos), ou seja, menos do que o valor
investido, fora a inflação. Mas resta um consolo, você estará concorrendo a
sorteios de prêmios semanais, que podem chegar, no caso de um plano de R$
50,00 (cinqüenta reais) por mês, a quantia de R$ 50.000,00 (cinquenta mil
reais). Não é maravilhoso? Você sabe quais são as probabilidades de você
ganhar esse valor? Então vamos aprofundar nossa análise.

Em cada série, são emitidos 100.000 (cem mil) títulos, numerados de 00.000 a
99.999. Ao adquirir um desses produtos, você tem um número, por exemplo,
34.910, que será sua seqüência da sorte. Toda a semana são premiados 100
títulos, com valores variados. E como acontece a apuração? Com os números
sorteados, do primeiro ao quinto prêmio, da loteria federal, extraindo-se o
último número para a formação do título premiado. Confira o exemplo na figura
....

86
Resultado da Loteria Federal
1º. Prêmio 21.451
2º. Prêmio 37.625
3º. Prêmio 16.975
4º. Prêmio 97.717
5º. Prêmio 84.254
Figura ....: Exemplo de um título sorteado

Chegamos, então, aos felizes ganhadores da semana. Observe, na figura ...., a


premiação de cada um.

Título contemplado Número Títulos premiados Valor


Dezena de milhar 47.551 1 R$ 50.000,00
Milhar 7.551 9 R$ 5.000,00
Centena 551 90 R$ 500,00
Figura ....: Quantidade de títulos sorteados semanalmente

Verificamos que, se todos os títulos de capitalização dessa série forem


vendidos, o ganhador do 1º. prêmio será o possuidor do número 47.551. No
seu caso, concorrendo com o título 34.910, terá que esperar outras
oportunidades. Observe que a probabilidade de ganhar um prêmio é de uma
em mil, que é o resultado do numero de títulos sorteados semanalmente
divididos pela quantidade emitida na série, mas o prêmio máximo é de uma em
cem mil. Quantas pessoas você conhece que já ganharam o valor máximo?

Além disso tudo, quero desenvolver mais um pequeno raciocínio com você. E
se ao invés de aplicar mensalmente em um título de capitalização, você tivesse
comprado títulos públicos, remunerados a uma taxa mensal de 1,5%, durante o
mesmo período, qual seria o valor atual do investimento? Confira na figura .....
o resultado.

87
Pagt. Ano Mês Valor Juros (1,5% a.m.) Saldo
1 2001 Março R$ 50,00 R$ - R$ 50,00
2 2001 Abril R$ 50,00 R$ 0,75 R$ 100,75
3 2001 Maio R$ 50,00 R$ 1,51 R$ 152,26
4 2001 Junho R$ 50,00 R$ 2,28 R$ 204,55
5 2001 Julho R$ 50,00 R$ 3,07 R$ 257,61
6 2001 Agosto R$ 50,00 R$ 3,86 R$ 311,48
7 2001 Setembro R$ 50,00 R$ 4,67 R$ 366,15
8 2001 Outubro R$ 50,00 R$ 5,49 R$ 421,64
9 2001 Novembro R$ 50,00 R$ 6,32 R$ 477,97
10 2001 Dezembro R$ 50,00 R$ 7,17 R$ 535,14
11 2002 Janeiro R$ 50,00 R$ 8,03 R$ 593,16
12 2002 Fevereiro R$ 50,00 R$ 8,90 R$ 652,06
13 2002 Março R$ 50,00 R$ 9,78 R$ 711,84
14 2002 Abril R$ 50,00 R$ 10,68 R$ 772,52
15 2002 Maio R$ 50,00 R$ 11,59 R$ 834,11
16 2002 Junho R$ 50,00 R$ 12,51 R$ 896,62
17 2002 Julho R$ 50,00 R$ 13,45 R$ 960,07
18 2002 Agosto R$ 50,00 R$ 14,40 R$ 1.024,47
19 2002 Setembro R$ 50,00 R$ 15,37 R$ 1.089,84
20 2002 Outubro R$ 50,00 R$ 16,35 R$ 1.156,18
21 2002 Novembro R$ 50,00 R$ 17,34 R$ 1.223,53
22 2002 Dezembro R$ 50,00 R$ 18,35 R$ 1.291,88
23 2003 Janeiro R$ 50,00 R$ 19,38 R$ 1.361,26
24 2003 Fevereiro R$ 50,00 R$ 20,42 R$ 1.431,68
25 2003 Março R$ 50,00 R$ 21,48 R$ 1.503,15
26 2003 Abril R$ 50,00 R$ 22,55 R$ 1.575,70
27 2003 Maio R$ 50,00 R$ 23,64 R$ 1.649,33
28 2003 Junho R$ 50,00 R$ 24,74 R$ 1.724,07
29 2003 Julho R$ 50,00 R$ 25,86 R$ 1.799,94
30 2003 Agosto R$ 50,00 R$ 27,00 R$ 1.876,93
Total R$ 1.500,00 R$ 376,93
Figura ....: Cálculo de um investimento mensal em títulos públicos federais

Ao final de trinta meses, o saldo acumulado seria de R$ 1.876,93 (um mil,


oitocentos e setenta e seis reais e noventa e três centavos), ou 125,7%
superior ao resgate obtido com o título de capitalização. Se você poupar por 60
meses, que é o prazo equivalente a este produto financeiro, o capital investido
chegará a R$ 3.000,00 (três mil reais), que proporcionará R$ 1.810,73 (um mil,
oitocentos e dez reais e setenta e três centavos) de juros, totalizando R$
4.810,73 (quatro mil, oitocentos e dez reais e setenta e três centavos) no final
do período, ou seja, quase o prêmio de 100 vezes do valor da parcela mensal.
Observe que este valor é, aproximadamente, 74,4% superior ao resgate do
título de capitalização ao final do contrato.

Eu usei este produto do HSBC como exemplo por ser cliente do banco, e já ter
adquirido títulos de capitalização de funcionários da instituição, mas o fato é de
existem outros bem piores no mercado. É interessante notar que não o utilizei
como opção de investimento, nem com a pretensão de ser sorteado
semanalmente, mas para contribuir com as metas estipuladas pela organização
aos seus colaboradores, afinal, quem nunca precisou do gerente de seu

88
banco? Para financiar um carro, casa ou um empréstimo pessoal. Mas as
instituições financeiras são como qualquer outra empresa, que precisam
oferecer produtos lucrativos para sua sobrevivência, dependendo,
basicamente, de sua base de clientes. Por isso recomendo, não adquira títulos
de capitalização como opção de investimento, mas como moeda de troca em
seu relacionamento com a instituição financeira.

5.1.6 Consórcio

Acho interessante a maneira como cada pessoa encara a vida e o mundo. Às


vezes debatemos, profundamente, assuntos como religião, política e futebol,
além de mulheres, é claro, mas raramente observamos uma conversa
envolvendo produtos financeiros e seus retornos. Nossos amigos nos mostram,
sempre, as aquisições que acabaram de fazer, seja de um carro, casa, jet-ski,
motocicleta ou uma lancha. Mas não é incrível como não nos preocupamos em
fazer as contas do quanto estas aquisições estão nos custando
verdadeiramente? Quanto de minha renda comprometerei ao aumentar meus
gastos com a manutenção de meus novos bens? Qual valor estou perdendo
pela sua depreciação? E, a melhor de todas, quanto estou deixando de ganhar
se aplicasse estes recursos em investimentos financeiros?

Quem nunca ouviu falar, conhece alguém que possui ou já comprou uma cota
de um consórcio? De eletrodomésticos, motocicletas, automóveis, imóveis, ou
qualquer outro bem. Até mesmo consórcio entre amigos, que formam um grupo
de poupadores mensais, normalmente para aquisição de algum produto, em
que o valor da parcela é o equivalente da divisão do valor do bem naquele mês
pelo número de participantes, e que é administrado por uma pessoa de
confiança de todos os componentes do grupo.

Já travei debates acalorados em sala de aula, principalmente quando algum


dos meus alunos atuavam em empresas de consórcios, ao demonstrar que
este produto financeiro não pode ser considerado um investimento, pois ele
não aumenta minha riqueza ou gera lucros, muito pelo contrário, ele me
devolve, seja em bens ou em dinheiro, representado por uma carta de crédito,
um valor inferior ao que foi desembolsado nas contraprestações.

Ao fazer as contas, e demonstrar meu raciocínio de financista, normalmente eu


ouvia um argumento típico de vendedor de consórcios: ¨Ora, a grande
vantagem do consórcio é a de que a pessoa adquire uma poupança forçada
que, em outras situações, ela acabaria não conseguindo realizar.¨ Pôxa vida!
Será que é melhor fazer um mau investimento do que aprender a poupar?
Infelizmente, possuo amigos que compartilham deste raciocínio, preferindo
adquirir produtos financeiros somente embasados na conversa dos agentes do
sistema financeiro, cujo maior interesse, algumas vezes, é simplesmente
vender.

Refleti sobre este tema durante algum tempo e cheguei a algumas conclusões.
Primeiramente, temos que ser realistas e admitir que acompanhar o mercado
financeiro, com seus termos e variações, não é a coisa mais emocionante do

89
mundo, a não ser para quem vive disso e, além do mais, fazer contas não é o
passatempo predileto, não só dos brasileiros, mas acredito que da maioria dos
povos do mundo. Então, se alguém, representando uma grande instituição
financeira, me apresenta uma oportunidade de investimento, que ofereça
prêmios, rentabilidade superior a caderneta de poupança, supostos benefícios
fiscais ou a probabilidade de grandes ganhos, nada mais natural que ouvirmos
o canto da sereia.

Assim, decidi escrever este livro, mostrando os principais produtos financeiros


e fazendo as contas de cada um, para que as pessoas que tenham interesse
sobre esse tema compreendam, em uma linguagem mais acessível, a
realidade de seus investimentos, pois os livros que existem, em sua maioria,
simplesmente apresentam os produtos e suas características, até mesmo te
recomendando a sua aquisição. Eles querem te entregar o peixe, eu quero te
ensinar a pescar.

Mas, afinal de contas, o que é um consórcio? Simples. É uma instituição


financeira, que tem seu funcionamento autorizado pelo Banco Central do Brasil,
que oferece a oportunidade, a seus participantes, da aquisição de bens sem o
pagamento de juros, ou pelo seu valor de mercado. Para isso, são constituídos
grupos, compostos por um número de cotistas que, ao somarmos o valor de
suas prestações mensais, garantem a aquisição de determinada quantidade de
bens que serão distribuídas através de lance, ou seja, uma quantidade de
contraprestações antecipadas pelo interessado, onde quem oferece o maior
número de parcelas é contemplado, ou sorteio, que garante a um, ou mais,
participantes, a oportunidade de desfrutar do bem antes da finalização do
grupo. E por quê estas instituições se dispõem a todo esse trabalho? Para
obter lucro, é claro, principalmente, mas não somente, da taxa de
administração do consórcio.

Eu, particularmente, não gosto de consórcio, pois todas as experiências que


tive, com este produto financeiro, foram negativas. Você não concorda com
minha opinião sobre consórcios? Então vamos fazer algumas contas, para
tentarmos chegar a um acordo.

Escolhi um consórcio oferecido por uma das maiores instituições financeiras do


país, consistindo em um plano dividido em 240 participantes, em 60 meses,
com a liberação de 04 automóveis mensais, sendo 02 por lance e outros 02 por
sorteio, com as seguintes características:

 Taxa de adesão: zero;


 Seguro de vida incluso: 0,047%;
 Taxa de administração do plano: 12%
 Taxa de administração mensal: 0,20%
 Fundo de reserva: 1% do valor do bem.

Vamos fazer uma análise para aquisição de um Toyota Corolla XLi Automático,
com 60 parcelas mensais de R$ 826,36 (oitocentos e vinte e seis reais e trinta
e seis centavos), reajustáveis de acordo com a tabela de preços do fabricante,

90
que proporcionará um crédito de R$ 42.674,00 (quarenta e dois mil, seiscentos
e setenta e quatro reais) para a compra do bem.

Para quem não gosta de muita complicação, podemos fazer uma conta
simples. Multiplique o valor da parcela, de R$ 826,36 (oitocentos e vinte e seis
reais e trinta e seis centavos), por 60, que é o número de pagamentos que
serão efetuados, e obteremos a quantia de R$ 49.581,60 (quarenta e nove mil,
quinhentos e oitenta e um reais e sessenta centavos), ou R$ 6.907,60 (seis mil,
novecentos e sete reais e sessenta centavos), aproximadamente 16,2% a mais
que o valor da carta de crédito que será obtida.

Podemos sublinhar, ainda, que se a empresa de consórcio entregar o carro, ele


será adquirido pelo preço de tabela, enquanto que, se aquisição for feita, à
vista, em uma revenda, conseguiremos negociar um desconto, aumentando,
ainda mais, a diferença entre o custo das parcelas pagas e o valor de compra
do bem.

Mas eu proponho outra análise. Quantas parcelas, do mesmo valor, seriam


necessárias para adquirir o mesmo carro, à vista, aplicadas a uma taxa de
1,3% ao mês, em títulos públicos federais? Vamos fazer as contas? Observe
na figura .....

91
Pagt. Valor Juros (1,3% a.m.) Saldo
1 R$ 826,36 R$ - R$ 826,36
2 R$ 826,36 R$ 10,74 R$ 1.663,46
3 R$ 826,36 R$ 21,63 R$ 2.511,45
4 R$ 826,36 R$ 32,65 R$ 3.370,46
5 R$ 826,36 R$ 43,82 R$ 4.240,63
6 R$ 826,36 R$ 55,13 R$ 5.122,12
7 R$ 826,36 R$ 66,59 R$ 6.015,07
8 R$ 826,36 R$ 78,20 R$ 6.919,62
9 R$ 826,36 R$ 89,96 R$ 7.835,94
10 R$ 826,36 R$ 101,87 R$ 8.764,17
11 R$ 826,36 R$ 113,93 R$ 9.704,46
12 R$ 826,36 R$ 126,16 R$ 10.656,98
13 R$ 826,36 R$ 138,54 R$ 11.621,88
14 R$ 826,36 R$ 151,08 R$ 12.599,32
15 R$ 826,36 R$ 163,79 R$ 13.589,47
16 R$ 826,36 R$ 176,66 R$ 14.592,50
17 R$ 826,36 R$ 189,70 R$ 15.608,56
18 R$ 826,36 R$ 202,91 R$ 16.637,83
19 R$ 826,36 R$ 216,29 R$ 17.680,48
20 R$ 826,36 R$ 229,85 R$ 18.736,69
21 R$ 826,36 R$ 243,58 R$ 19.806,63
22 R$ 826,36 R$ 257,49 R$ 20.890,47
23 R$ 826,36 R$ 271,58 R$ 21.988,41
24 R$ 826,36 R$ 285,85 R$ 23.100,62
25 R$ 826,36 R$ 300,31 R$ 24.227,29
26 R$ 826,36 R$ 314,95 R$ 25.368,60
27 R$ 826,36 R$ 329,79 R$ 26.524,75
28 R$ 826,36 R$ 344,82 R$ 27.695,93
29 R$ 826,36 R$ 360,05 R$ 28.882,34
30 R$ 826,36 R$ 375,47 R$ 30.084,17
31 R$ 826,36 R$ 391,09 R$ 31.301,63
32 R$ 826,36 R$ 406,92 R$ 32.534,91
33 R$ 826,36 R$ 422,95 R$ 33.784,22
34 R$ 826,36 R$ 439,19 R$ 35.049,78
35 R$ 826,36 R$ 455,65 R$ 36.331,78
36 R$ 826,36 R$ 472,31 R$ 37.630,46
37 R$ 826,36 R$ 489,20 R$ 38.946,01
38 R$ 826,36 R$ 506,30 R$ 40.278,67
39 R$ 826,36 R$ 523,62 R$ 41.628,65
40 R$ 826,36 R$ 541,17 R$ 42.996,19
R$ 33.054,40 R$ 9.941,79
Figura ....: Cálculo das prestações necessárias para aquisição de um carro

Eu quase sempre me surpreendo ao fazer os cálculos de qualquer negócio.


Observe que, depois de pouco mais de três anos, ou 40 meses, teremos
desembolsado a quantia de R$ 33.054,40 (trinta e três mil, cinqüenta e quatro
reais e quarenta centavos), e obtido R$ 9.941,79 (nove mil, novecentos e
quarenta e um reais e setenta e nove centavos) de juros, que totalizarão R$
42.996,19 (quarenta e dois mil, novecentos e noventa e seis reais e dezenove
centavos), valor superior a carta de crédito oferecido pelo consórcio.

92
Você pode alegar que, após três anos, o valor do automóvel terá sofrido alguns
reajustes, devido à inflação, e o valor que você juntou em seus investimentos
será insuficiente para adquirir o veículo. Você me pegou? Infelizmente não! No
caso de um consórcio, suas prestações sofreriam aumentos proporcionais,
elevando o valor final desembolsado. Ou seja, se você aplicar, mensalmente, o
valor atualizado do bem, dividido pelo número de prestações equivalentes ao
plano de consórcio que você gostaria de adquirir, o resultado será o mesmo, e
a aquisição do carro, à vista, em menos de três anos e meio.

Você pode me dizer que existem algumas situações que justificam a aquisição
de um consórcio, como, por exemplo, para a compra de veículos para o
trabalho, incluindo caminhões, ônibus, máquinas ou automóveis, em que a
contemplação, principalmente por sorteio, diminui o custo de compra do
veículo, quando comparado a um financiamento. Mas como eu faço essa
conta?

Vamos voltar ao exemplo anterior. Verifique que você irá pagar 60 prestações
de R$ 826,36 (oitocentos e vinte e seis reais e trinta e seis centavos), que
totalizarão R$ 49.581,60 (quarenta e nove mil, quinhentos e oitenta e um reais
e sessenta centavos). Com isso, obteremos uma carta de crédito, para
aquisição de um automóvel, no valor de R$ 42.674,00 (quarenta e dois mil,
seiscentos e setenta e quatro reais) que, se divididas por 60, resultarão em
uma parcela de R$ 711,23 (setecentos e onze reais e vinte e três centavos),
com uma diferença de R$ 115,13 (cento e quinze reais e treze centavos) de
custos que serão pagos para a administradora. Esse valor representa um
percentual de 16,20% em cada prestação, que devem ser comparados ao
custo financeiro do financiamento. Vamos dar um exemplo?

Suponha que você tenha sido sorteado no 15º. mês após a aquisição do
consórcio, restando, ainda, 45 parcelas de R$ 826,36 (oitocentos e vinte e seis
reais e trinta e seis centavos). Se, ao invés de adquirir o consórcio, você
tivesse investido essas prestações em títulos públicos, à taxa de 1,5% ao mês,
você teria R$ 13.785,45 (treze mil, setecentos e oitenta e cinco reais e
quarenta e cinco centavos) que, diminuídos do valor da carta de crédito,
corresponderiam a R$ 28.888,55 (vinte e oito mil, oitocentos e oitenta e oito
reais e cinqüenta e cinco centavos). Optando por um financiamento, desse
valor, à taxa de 2% ao mês, em 45 prestações, o valor a ser pago seria de R$
787,85 (setecentos e oitenta e sete reais e oitenta e cinco centavos), ou seja,
R$ 38,51 (trinta e oito reais e cinqüenta e um centavos) a menos em cada
parcela, totalizando, em 45 pagamentos, a quantia de R$ 1.732,98 (um mil,
setecentos e trinta e dois reais e noventa e oito centavos). Se brincar, dá para
pagar o seguro do automóvel, não é mesmo? Quer aprender a fazer estas
contas na calculadora HP 12C, então observe:

 Digite 826,36 (valor da parcela) e tecle CHS e PMT


 Digite 15 (número de parcelas) e tecle ¨n¨
 Digite 1,5 (taxa de juros) e tecle ¨i¨
 Tecle FV (valor futuro)
 Digite 42674 (valor da carta) e tecle ¨-¨
 Tecle PV (valor do financiamento)

93
 Digite 45 (parcelas que faltam) e tecle ¨n¨
 Digite 2 (taxa de juros) e tecle ¨i¨
 Tecle PMT

Vamos supor que, no cúmulo da sorte, você seja sorteado na primeira parcela.
Quanto seria a taxa de juros equivalente ao custo do consórcio? O resultado é
de 0,51% ao mês. Como cheguei a este valor? Veja os cálculos abaixo:

 Digite 42674 (valor da carta) e tecle CHS e PV


 Digite 60 (número de parcelas) e tecle ¨n¨
 Digite 826,36 (valor da parcela) e tecle PMT
 Tecle ¨i¨

Ou seja, a relação custo-benefício comparativa entre consórcio e financiamento


deve sempre ser efetuada levando em conta alguns fatores, como, por
exemplo, se pretendo dar algum lance, a taxa de juros de um financiamento, o
saldo devedor de um financiamento se o valor do lance fosse utilizado como
entrada, e o número de parcelas remanescentes. Nos últimos anos, temos
presenciado diversas montadoras ofereceram financiamentos com taxas
menores que a maioria das instituições financeiras, chegando, até mesmo, a
zero em alguns momentos. No caso acima, qualquer taxa de financiamento,
menor do que 0,51% ao mês, é melhor do que ser sorteado na primeira
parcela, pois proporciona um custo menor de aquisição do veículo.

À medida que o tempo vai passando, e você não é contemplado, e se


conseguir uma taxa de financiamento inferior a 2%, maior é a vantagem
comparativa entre o financiamento em relação ao consórcio. Por exemplo, se
você, ao invés de comprar o consórcio, aplicou quinze parcelas em títulos
públicos, à taxa de 1,5% ao mês, e conseguiu um financiamento, também a
1,5% ao mês, o valor das prestações será de R$ 670,75 (seiscentos e setenta
reais e setenta e cinco centavos), uma diferença de R$ 155,61 (cento e
cinqüenta e cinco reais e sessenta e um centavos) por mês, ou R$ 7.002,66
(sete mil, dois reais e sessenta e seis centavos) no final do contrato. Confira o
cálculo:

 Digite 826,36 (valor da parcela) e aperte CHS e PMT


 Tecle 1,5 (taxa de juros) e aperte ¨i¨
 Insira 15 (número de meses) e tecle ¨n¨
 Aperte FV
 Resultado 13785
 Tecle CHS e ENTER
 Digite 42674 (valor do carro a vista) e tecle ¨+¨
 Aperte CHS e PV
 Insira 45 (número de meses que faltam) e tecle ¨n¨
 Digite 1,5 (taxa de juros do empréstimo) e aperte ¨i¨
 Tecle PMT
 Resultado 670,75

Ou seja, se a taxa de mercado para financiamento de veículos é de 2% ao


mês, o consórcio torna-se vantajoso se a contemplação ocorrer antes do 14º.

94
mês. Quando as prestações do financiamento tornam-se, aproximadamente, do
mesmo valor as mensalidades do consórcio. Se você pretende dar um lance de
entrada, até o valor de 14 parcelas, ou não acredita que será contemplado
antes desse período, invista o dinheiro e faça um financiamento. Por outro lado,
se você é uma pessoa de fé, e acha que a contemplação acontecerá antes
disso, ou as taxas de juros são superiores a 2% ao mês, adquira o consórcio e
torça. Na pior das hipóteses, você conseguirá mais um passatempo.

Outro detalhe, bastante importante, que compromete a análise, é a taxa de


administração. Uma funcionária de uma das maiores e mais tradicionais
empresas de minha cidade, com negócios em áreas como concessionárias de
veículos novos, construtora, corretora e consórcios, me ofereceu uma cota de
consórcio imobiliário em 100 meses, com taxa de administração de 15%, sem
contar os outros encargos. Recusei educadamente, mas expressei minha
admiração do valor que a empresa estava cobrando. Ela não me justificou o
índice, com argumentos de que se era caro ou barato, simplesmente me disse
que, se fosse fazer um financiamento, o custo seria ainda maior. Ou seja, o
consórcio não é bom, ele é, apenas, menos ruim. Pelo menos foi isso que eu
entendi.

Mas existem outros aspectos que atrapalham o produto financeiro consórcio,


na minha opinião. Eu adquiri um consórcio de uma montadora de caminhões,
ou seja, direto da fábrica, em setembro de 1996, efetuando 12 pagamentos de
R$ 1.113,00 (um mil, cento e treze reais) mensais. Depois desse período, por
uma série de motivos, não consegui continuar com os desembolsos, e nem
vender o plano, pois as propostas que apareceram eram verdadeiramente
indecentes.

Contactei a administradora e informei a minha situação, e me disseram que o


valor desembolsado seria restituído no final do plano, de 100 meses, corrigido
pela selic, que é a taxa que o governo federal remunera grande parte de sua
dívida. Menos mal, eu pensei, pelo menos não é pela caderneta de poupança,
e no final do contrato terei um bom dinheiro para gastar. Só tinha um pequeno
problema. Eu sofreria um desconto de 25% no valor de meu saldo, referentes
às taxas cobradas, contratualmente, pela minha desistência do consórcio. Eu
desembolsei, em doze meses, o valor de R$ 13.356,00 (treze mil, trezentos e
cinqüenta e seis reais), e recebi, depois de seis anos, a quantia de R$
16.600,00 (dezesseis mil e seiscentos reais). Foi um bom negócio? Fazendo as
contas, descobrimos uma rentabilidade de 0,30% ao mês, menor que a
caderneta de poupança, e nem considerei os juros que teria ganho se tivesse
aplicado as doze parcelas em títulos públicos.

Para termos uma idéia de valores, na época, o dinheiro que investi era
suficiente para adquirir um gol 1.6 zero quilômetro, com ar-condicionado, vidros
elétricos e direção hidráulica. Quando recebi os meus recursos de volta, não
consegui comprar, ao menos, um gol básico. Mas o pior de tudo é pensar que,
se tivesse investido esses recursos em títulos públicos desde o começo, eu
teria a quantia de R$ 184.950,14 (cento e oitenta e quatro mil, novecentos e
cinqüenta reais e quatorze centavos), ou seja, o suficiente para comprar cinco
gols e ainda sobrava troco. Quer conferir as contas comigo? Vamos lá!

95
 Digite 1113 (valor da parcela) e tecle CHS e PMT
 Digite 12 (número de parcelas) e tecle ¨n¨
 Digite 1,5 (taxa de juros) e tecle ¨i¨
 Tecle FV (valor no final de doze meses)
 Tecle CHS e PV
 Digite 72 (número de meses depois que parei de pagar até receber o
dinheiro) e tecle ¨n¨
 Digite 1,5 (taxa de juros) e tecle ¨i¨
 Tecle FV (valor no final do período)

Está vendo porque eu não gosto de consórcio? E ainda tem vendedores que
me oferecem este produto. Tem que ter muita paciência, não é mesmo? E olha
que nós nem consideramos o risco da administradora quebrar, dar o cano em
todo mundo e a gente ficar a ver navios. Observamos, apenas, os aspectos
financeiros do negócio. Espero ter contribuído para, na próxima vez que você
imaginar em adquirir um consórcio, pense duas vezes antes de tomar esta
decisão.

5.1.7 Ações

Quando iniciei minha graduação, na Universidade Católica de Goiás, tive um


professor de filosofia que pediu que desenvolvêssemos um trabalho baseado
em um texto da defesa que Sócrates apresentou ao tribunal de Atenas, em seu
julgamento. Confesso que fiquei admirado com seus argumentos, mas não
deixei de pensar que, no final, mesmo com um desempenho tão bom, ele
acabou sendo condenado a morte. Isso me ensinou uma lição: às vezes não
basta ser o melhor, ou o mais inteligente, o que vale é o resultado.

Estou dizendo isso porque existem dois pensamentos, atribuídos a Sócrates,


que gosto muito de citar em minhas aulas. O primeiro diz que ¨o sábio é aquele
que sabe que nada sabe¨, ou seja, por mais que estude e aprenda, eu nunca
conseguirei adquirir a totalidade dos conhecimentos que quero, e necessito. O
segundo, ainda mais interessante, afirma que ¨eu só sei que nada sei¨,
confirmando a constatação de que, de todas as certezas que gostaria de
possuir, a única que tenho é a de que não sei nada. Diante disso, me consolo
das minhas próprias cobranças, fruto dos erros que às vezes cometo em
minhas análises.

Um filósofo poderia dizer: ¨Como esse cara é burro! Nenhuma dessas frases é
de Sócrates!¨. Mas eu te pergunto: Faz alguma diferença de quem elas sejam?
O que me importa é o seu conteúdo, ou seja, o que posso aprender através de
sua análise para aplicá-la em minha vida? Isso é chamado de pragmatismo.

Depois de muitas cabeçadas, pois errar é humano, cometer o mesmo erro duas
vezes que é burrice, e analisando os motivos que me levaram a realizá-las,
desenvolvi também uma filosofia de vida. Está surpreso? Posso ter muitos
defeitos, mas nenhum pensamento me irrita mais do que imaginar que sou
burro. Vou dividir minha análise com você, deixando-o livre para concordar,
discordar ou qualquer outra atitude que queira tomar.

96
Acredito que erramos, basicamente, por dois motivos principais. O primeiro é a
ignorância, pois se não conheço todas as variáveis envolvidas em minhas
decisões, nem possuo o entendimento necessário para avaliá-las, a
probabilidade de fazer uma burrada aumenta consideravelmente. O segundo
motivo, tão importante quanto o primeiro, é a arrogância. Ao imaginar que meu
conhecimento sobre o assunto é superior ao das outras pessoas, superestimo
minha própria inteligência e capacidade, levando-me a tomar decisões que, em
uma análise mais realista, normalmente não tomaria.

Poderia escrever um livro sobre este tema, mas para que complicar, se é mais
fácil simplificar? Na verdade, em nossa vida, muitas pessoas fazem o contrário.
E depois ficam procurando meios de descomplicar o que já deveria ter sido
simples desde o princípio.

Estou lhe dizendo tudo isso para que possamos conversar sobre investimentos
em ações. Pois a cada dia vejo que, por mais que estude, leia, converse ou
acompanhe o mercado, sempre tenho que aprender alguma coisa, e já tive a
oportunidade de acompanhar, nos últimos anos, os maiores investidores terem
prejuízos decorrentes de mudanças abruptas no mercado financeiro local e
mundial.

Sou um peixinho nesta modalidade de investimento, principalmente por dois


motivos: não tenho a agressividade, apesar de possuir a frieza, que o papel de
especulador exige, e o outro é que o dinheiro também é curto. Assim, contento-
me em acompanhar o mercado e investir em empresas sólidas, buscando a
formação de um patrimônio para o meu futuro. Mas já aprendi algumas coisas
e, apesar de ainda ter muito a caminhar, posso dividi-las com você.

Vamos começar definindo o que é uma ação. Ela é um pedacinho de um


empreendimento, cujo dono nos convida para sermos seus sócios, oferecendo
a oportunidade de compartilharmos dos lucros que ele possa auferir. E porque
ele faz isso? Pela sua preocupação em compartilhar com outras pessoas as
maravilhas de seus negócios? Para poder dividir os ganhos de sua empresa
com seus semelhantes? Quem dera! No melhor estilo capitalista, o
empreendedor busca formas de captar recursos mais baratos para seus
negócios, aumentando sua riqueza, através do valor de mercado de sua
empresa. Não entendeu? Então vamos explicar melhor.

Suponhamos que eu e você tenhamos desenvolvido um novo produto, que foi


devidamente patenteado para que possamos nos proteger dos piratas
modernos. Para produzi-lo, e oferecê-lo ao mercado, a legislação exige que
seja constituída uma empresa, ou uma pessoa jurídica, para este fim. Assim,
seremos sócios, e teremos que desembolsar recursos para que essa
organização funcione, ou seja, para a aquisição de máquinas, equipamentos,
imóveis, veículos, matérias-primas ou quaisquer outros insumos necessários
para a sua viabilidade. Esse desembolso inicial, realizado para começar o
negócio, é chamado de capital social, sendo dividido em partes, também
chamadas de ações, que representam a participação que cada um dos sócios
possui no negócio. Até aqui tudo bem? Então vamos em frente!

97
Nossa empresa cresceu solidamente, e o mercado ainda apresenta
possibilidades para um desenvolvimento ainda maior. O problema é que, para
explorá-las, precisamos de recursos que não possuímos, sendo necessário
captá-los no mercado financeiro, pagando juros e correndo o risco de, em uma
mudança econômica, comprometermos a sobrevivência da organização.

Depois de diversas análises, comparando o custo-benefício das possibilidades


de captação de recursos, decidimos que a melhor maneira de financiarmos a
expansão é o aumento do capital social, através da entrada de novos sócios no
negócio. Providenciamos a adaptação da empresa a legislação pertinente, que
é aplicada, no Brasil, pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), órgão que
fiscaliza e coordena o funcionamento do mercado de capitais, registramos a
organização na Bolsa de Valores de São Paulo e oferecemos aos investidores
a oportunidade de sociedade na empresa e participação em seus lucros,
através da compra de nossas ações, captando seus recursos e aplicando-os na
expansão dos negócios. Bom para todo mundo, não é mesmo?

Existem livros que são verdadeiros tratados sobre o funcionamento do mercado


de capitais. Novamente volto a te dizer, estou lhe apresentando, basicamente,
os motivos de sua existência e funcionamento, não é minha intenção, com este
livro, fornecer conhecimentos para torná-lo um expert nesse assunto.

As ações são, na verdade, títulos de crédito, que propiciam, a seu detentor,


direitos e deveres estabelecidos legalmente. No Brasil, as empresas
descobriram uma maneira de captar um volume maior de recursos dos
investidores, mantendo o controle da administração da organização, dividindo
as ações em ordinárias e preferenciais. Para equilibrar as relações no
mercado, a legislação determina que as ações ordinárias devem representar no
mínimo um terço do capital, sendo o restante de papéis preferenciais. A bolsa
de valores criou um programa, chamado ¨Governança corporativa¨, onde foram
estabelecidos os níveis 1, 2 e 3, que correspondem a uma séria de condições
que as empresas aceitam assumir em sua relação com os investidores,
principalmente minoritários, e, entre elas, um número mínimo de ações
ordinárias negociado no mercado de ações. Observe as principais diferenças
entre esses dois tipos de papéis:

 Ordinárias: são aquelas que, de ordinárias, só têm o nome, pois é


através delas, de acordo com a quantidade possuída, que seus
detentores têm o direito de opinar nas decisões da organização, ou seja,
a administração real da empresa, e suas responsabilidades são de
acordo com o montante, ou quantidade, de ações possuídas. Podem ser
nominativas, endossáveis e escriturais.
 Preferenciais: não dão direito a voto, mas tem prioridade no recebimento
de dividendos ou reembolso de capital, em caso de dissolução da
empresa. Ou seja, não permite a seus detentores, qualquer que seja a
quantidade, participar da administração da empresa. Sua maior
vantagem consiste que as organizações distribuem, às vezes, um maior
volume de dividendos para estes acionistas, como uma espécie de
prêmio. Podem ser nominativas e nominativas endossáveis.

98
A partir do momento que nossa empresa apresenta um desempenho positivo,
os acionistas ficam satisfeitos, despertando a cobiça de outras pessoas de
serem nossas sócias. Como a quantidade de ações é limitada, começa a
funcionar a mola-mestra do sistema capitalista, ou a mão invisível do mercado,
chamadas de oferta e procura. Se possuo alguma coisa que muitas pessoas
desejam adquirir, o seu preço aumenta, fazendo com que obtenha lucro com
sua venda, pois ela foi adquirida por um valor menor do que está sendo
negociado agora. Em caso de situação inversa, ou seja, se muitas pessoas
desejam vender as ações, e existem poucos compradores, ou interessados, o
seu valor tende a depreciar-se. A soma de todas as ações da empresa,
utilizando o preço que os investidores estão dispostos a pagar, é chamado de
¨valor de mercado¨ da organização. Esse valor é diferente de seu valor
patrimonial, que é o registrado no balanço, através do capital social
integralizado.

Mas não é só o desempenho operacional da empresa que determina seu valor.


Ou seja, o fato de gerar lucros, e distribuí-los a seus acionistas, ou prejuízos, é
fundamental para sua avaliação, mas variáveis como participação de mercado,
possibilidade de lucros futuros, fidelidade às suas marcas, desenvolvimento de
novos produtos, vantagens competitivas em relação a seus concorrentes, além
da quantidade de investidores e do volume dos negócios, influenciam, positiva
ou negativamente, o valor da empresa no mercado.

O que isso quer dizer? Que às vezes, a lógica do mercado é ilógica, ou seja,
mesmo que a empresa seja lucrativa e atraente, seu valor pode cair em
determinados períodos do tempo. Atualmente, podemos verificar isso da
melhor maneira possível. Com a possibilidade, e depois a concretização, da
eleição para presidente do candidato Luis Inácio Lula da Silva, os investidores
temeram pelos seus investimentos, principalmente os estrangeiros, vendendo
suas ações e procurando portos mais seguros. Com isso, papéis de empresas
como Petrobrás, Vale do Rio Doce, Telemar, entre outras, consideradas de
primeira linha, desvalorizaram-se acentuadamente, mesmo que alguma delas
tenha obtido lucros extraordinários no período.

Assim que o novo presidente garantiu que os contratos seriam respeitados, e


agiu conforme suas palavras, estabilizando a inflação e o câmbio, os
investidores voltaram ao mercado, propiciando valorizações recordes nas
ações comercializadas na Bolsa de Valores de São Paulo, tornando-a o
investimento mais rentável do ano de 2003. As ações preferenciais da
Petrobrás, identificadas na bolsa de valores com o código de PETR4, que
chegou a ser vendida por um valor próximo a R$ 37,00 (trinta e sete reais), em
outubro de 2002, saltou para R$ 67,00 (sessenta e sete reais), no mesmo mês
do ano seguinte, com uma oscilação de 81% no período, conforme figura ....

99
Figura ....: Variação no preço das ações preferenciais da Petrobrás

Observando o gráfico, verificamos que a tendência, desde outubro de 2002,


têm sido de alta, com oscilações mensais de acordo com a análise do mercado
sobre o desempenho da empresa e da economia. Note que, se você tivesse
investido R$ 10.000,00 (dez mil reais), nos momentos de cotação mínima de
fevereiro e março deste ano (2003), quando o papel estava sendo negociado
em, aproximadamente, R$ 40,00 (quarenta reais), teria comprado 250 ações,
que valeriam, em novembro, R$ 68,00 (sessenta e oito reais) cada, totalizando
R$ 17.000,00 (dezessete mil reais), um ganho de 70% em dez meses. Um
excelente negócio, não é mesmo?

Por outro lado, o mesmo investimento, efetuado em janeiro, com o preço da


ação a R$ 52,00 (cinqüenta e dois reais), teria proporcionado a compra de 192
ações, que se fossem vendidas um mês depois, em fevereiro, pelo valor de R$
40,00 (quarenta reais), proporcionariam um valor de R$ 7.680,00 (sete mil,
seiscentos e oitenta reais), ou uma perda de 23,2% em um mês. Qual a lição
que aprendemos? Que ninguém tem bola de cristal para prever o futuro e o
comportamento da economia e do desempenho das empresas, bem como a
ação dos especuladores. Se você pretende se aventurar no mercado acionário,
prepare-se pa conviver com a oscilação no valor de mercado das empresas
que investir.

Mas essa variação afeta o funcionamento real da empresa? Teoricamente,


não! Pois a organização captou os recursos e entregou as ações aos
investidores, sendo que não arrecada mais nada com os negócios posteriores.
Por outro lado, a pressão dos investidores por um melhor desempenho pode
derrubar toda a direção da organização, como acontece em diversas
empresas, principalmente nos Estados Unidos.

Por isso, se a organização valoriza-se no mercado, aumenta a riqueza dos


proprietários de suas ações, pois elas fazem parte do seu patrimônio. Por esse
motivo Bill Gates é o homem mais rico do mundo, pois ele é o maior acionista
individual da Microsoft. Então, quando falamos dos bilhões de dólares que ele

100
possui, esses recursos não estão disponíveis em dinheiro, mas representados
pelo valor que ele conseguiria levantar caso vendesse suas ações no mercado
de capitais, só que isso poderia proporcionar a desvalorização desses papéis,
pois um dos motivos do seu valor é a identificação da competência de Gates à
frente da Microsoft, e a sua capacidade de guiar a empresa em seus mercados
de atuação.

Todas essas operações movimentam bilhões de reais, e envolvem interesses


de milhares de pessoas, por isso, devem ser acompanhadas de perto. As
autoridades que fiscalizam esse mercado e as suas operações são, no Brasil, a
Comissão de Valores Mobiliários, ou CVM, e nos Estados Unidos, a Security
Exchange Comission, também conhecida como SEC, e preocupam-se,
principalmente, em criar um ambiente justo para os investidores, pois, nesse
negócio, a confiança é um dos pilares fundamentais para o seu funcionamento,
e qualquer deslize pode comprometer todo o sistema.

Nos Estados Unidos, investir em ações de empresas é uma das poucas


oportunidades de se melhorar a rentabilidade dos investimentos, pois as taxas
de juros oferecidas pelo mercado financeiro são baixas, principalmente se
comparadas às brasileiras. A busca por maiores lucros é um dos principais
motivos dos investidores estrangeiros colocarem recursos no Brasil, em títulos
públicos do Governo Federal, empréstimos para empresas ou operações em
bolsa de valores.

Uma das maiores preocupações das autoridades fiscalizadoras é quanto ao


uso, por parte dos administradores das empresas, de informações privilegiadas
para a realização de especulação no mercado financeiro. Assim, se um
investidor está de posse de informações privilegiadas da empresa, pode
adquirir ações da organização e antecipar-se ao movimento do mercado,
obtendo ganhos com a especulação financeira na compra e venda dos papéis
no curto prazo.

Imagine como é difícil, em um processo de fusão como o das cervejarias


Brahma e Antarctica, ou Varig e Tam, as pessoas controlarem sua ambição
diante da oportunidade de ganho proporcionado pela posse de informações
estratégicas dessas organizações. Normalmente, fatos relevantes são
comunicados pelas empresas aos órgãos fiscalizadores, informando sobre o
fechamento de novas vendas de aviões, o descobrimento ou a reavaliação de
jazidas de petróleo, contratos de exportação de minérios, captação ou
renegociação de empréstimos junto a instituições financeiras estrangeiras,
fusões e aquisições, ou qualquer situação que possa afetar o desempenho das
ações da empresa no mercado, para propiciar igualdade de condições na
análise, compra ou venda dos papéis pelos investidores.

Caso verifique-se uma oscilação anormal nas negociações com os papéis da


empresa, provocadas por movimentos especulativos de investidores que
possuem informações privilegiadas, podem ser abertos inquéritos criminais,
levando, até mesmo, a prisão dos envolvidos e a aplicação de multas.

101
Verificamos, então, que o mercado de capitais é uma opção de investimento
com inúmeras variáveis a influenciar seu desempenho. Então, porque correr o
risco de investir em ações? Acredito que, a partir do momento que nosso
governo conseguir realmente equilibrar as contas públicas, reduzindo as taxas
de juros pelas quais remunera os investidores em seus títulos, o caminho
natural para quem quiser uma rentabilidade maior para seus investimentos será
o mercado de capitais. Por isso devemos começar a preparação agora, para a
obtenção de um bom desempenho em nossas aplicações.

Vamos iniciar, então, por alguns princípios básicos, mas que a maioria das
pessoas esquece ou ignora. Primeiramente, devemos definir nosso objetivo
com os investimentos que faremos no mercado de capitais. Você busca
retornos de longo ou curto prazo? Se a sua resposta for a segunda opção,
então o adjetivo que melhor se aplica a você é o de ¨especulador¨, ou seja, a
pessoa que fica de olho nas oscilações do mercado, minuto a minuto,
garimpando oportunidades de acordo com os movimentos dos outros
investidores e especuladores.

Mas qual é a diferença básica entre um investidor e um especulador? Para


alguns autores, o investidor nada mais é que uma ¨versão¨ mais chique do
especulador, com vergonha de admitir seu comportamento. Mas a divisão
utilizada e a de que o investidor está interessado em oportunidades de
negócios que propiciem ganhos a médio e longo prazo, através da análise da
situação e do desempenho das organizações, e o especulador, como o próprio
nome já diz, procura identificar tendências na economia nacional e mundial, ou
até mesmo influenciar, com seus movimentos de compra e venda, os preços
dos ativos negociados no mercado financeiro no curtíssimo e curto prazos,
realizando, às vezes, várias operações chamadas de ¨intraday¨, ou no mesmo
dia, obtendo lucros ou prejuízos superiores aos investimentos classificados
como conservadores, porque os riscos, nesse caso, também são muito
maiores. Na verdade, o objetivo dos dois é um só: ganhar dinheiro, a diferença
está no desenvolvimento operacional das estratégias de cada um.

Para o investidor tradicional, o sobe e desce do mercado financeiro,


principalmente no curto prazo, costuma ser motivo de preocupação, por isso, te
apresento o segundo princípio para investimentos em ações. Nunca invista o
dinheiro de comprar o leite do café da manhã nesta aplicação! O que isso quer
dizer? Que você deve estar disposto a deixar seu dinheiro por algum tempo,
até mesmo anos, em busca de uma rentabilidade superior a outras
modalidades de aplicação financeira. Existe risco? É claro! Ele é alto? Sim!
Têm como administrá-lo? Depende das empresas selecionadas para a
aplicação dos recursos.

Em nossa vida, sempre passamos por bons e maus momentos. Com as


organizações acontece a mesma situação. A diferença principal é a de que,
dependendo das condições da empresa, ela pode vir a falir, e perdermos todo
o recurso investido. Aqui aparece mais um fundamento dos investimentos em
ações. Quanto maior o risco, maior o retorno.

102
Dentre os diversos negócios que já fiz em minha vida, fora do mercado
financeiro, lembro-me de um em especial. Eu adquiri um carro Puma, que era
um veículo cuja carroceria em fibra de vidro era montada em um chassi do
volkswagem fusca. Meus amigos me chamaram de doido, que eu havia
arrumado um casamento para toda a vida, pois seria impossível achar um
comprador para meu carro quando decidisse vendê-lo. De repente, conheci um
fabricante de caiaques, aqueles barquinhos de descer corredeiras de rios, que
me propôs adquirir o veículo, pagando em pouco em dinheiro e dois caiaques
de sua fabricação. Aceitei o negócio, pendurei os barcos na minha garagem e
comecei a procurar interessados em sua aquisição. Consegui colocá-los em
uma negociação envolvendo a compra de uma motocicleta, e ainda ganhei
dinheiro! Mas o melhor de tudo foi o aprendizado, que adquiri com a
experiência, que me ensinou que tudo pode ser vendido, desde que ao
comprador certo, com o preço justo e tempo para negociar.

Isso aparece nitidamente nas operações com ações. Existem enormes


diferenças entre as empresas negociadas no mercado. Na confiabilidade de
sua gestão, na competência de seus administradores, no momento que estão
vivendo no mercado, em sua situação econômica e financeira, no retorno de
seus investimentos, em seu porte e possibilidade de lucros futuros, nos
mercados onde atua, nas tendências dos consumidores, na imagem que possui
junto aos investidores, e tudo isso influencia profundamente no momento de
comprar e vender as suas ações. Quanto maiores as notas da organização
nesses itens que foram mostrados, mais fácil será vender as ações que você
possuir dessas empresas.

As organizações que se encaixam nesse perfil são apelidadas de ¨primeira


linha¨, ou ¨blue chips¨, que são as fichas azuis, as de valor mais alto, utilizadas
nos cassinos de Monte Carlo. Não é interessante? Pela confiança que os
investidores depositam nessas empresas, suas ações possuem menores
chances de sofrerem grandes variações no mercado financeiro, propiciando
grande liquidez, ou seja, facilidade de compra e venda, mesmo em momentos
de crise. No mercado brasileiro, as empresas do segmento de
telecomunicações, como Telesp, Brasil Telecom, Telemar e Vivo, de
mineração, no caso da Vale do Rio Doce, de energia elétrica, como Eletrobrás,
do sistema financeiro, o Banco do Brasil, de petróleo, a nossa Petrobrás, são
exemplos de empresas classificadas como primeira linha.

Pelo menos isso é o que dizem os especialistas financeiros. Quando


analisamos uma empresa como a Embraer, que é uma das prediletas dos
investidores estrangeiros, e verificamos seu desempenho em alguns
momentos, somos obrigados a nos render a uma verdade única. Não existe
uma regra que me propicie uma garantia de segurança nos investimentos em
ações. Em um instante a empresa vai muito bem, com produtos de alta
tecnologia, exportações em alta e grandes lucros, daqui a alguns minutos, um
atentado terrorista com aviões derruba prédios em Nova Iorque, fere de morte
as principais companhias aéreas do mundo, e leva junto as vendas da sua
empresa. Veja a flutuação com as ações preferenciais da Embraer no último
ano na figura .....

103
Figura ...: Variação na cotação das ações ordinárias da Embraer

Note que, em um período de dois meses, de dezembro de 2002, a fevereiro de


2003, o valor das ações ordinárias da Embraer oscilou de R$ 12,50 (doze reais
e cinqüenta centavos) a R$ 6,90 (seis reais e noventa centavos), ou seja, uma
queda de, aproximadamente, 45% no período. Depois de alcançar o valor
mínimo, em março de 2003, elas avançam para R$ 14,80 (quatorze reais e
oitenta centavos) em novembro, com uma variação de 114,5%. E olha que,
nesse período, só tivemos uma guerra no Iraque, vencida rapidamente pelos
americanos. Se isso é segurança, proporcionado por um papel de primeira
linha, eu não quero saber o que é risco!

Por que estou lhe dizendo isso? Para que você aprenda a desconfiar de todas
as informações que escutar de qualquer corretor, banco ou analista de
mercado. Lembre-se, sempre, de que eles são vendedores, vivem disso,
ganham comissão e participação nos resultados e, para isso, precisam do seu
dinheiro investido no mercado. Procure, sempre que possível, informações a
respeito do desempenho das empresas, das decisões políticas, da evolução da
economia nacional e mundial, do comportamento dos investidores, e
desenvolva sua estratégia de investimento, de acordo com os ganhos que
pretenda obter e os riscos que deseja correr.

Mas onde estão as possibilidades de maiores ganhos? Justamente nas


empresas que não possuem todas as características de blue chips, e, por
serem consideradas mais arriscadas e difíceis de negociar, possuem menor
liquidez, sendo chamadas de ações de segunda e terceira linha. Se existem
poucos investidores interessados em negociar com seus papéis, essas
empresas precisam desenvolver estratégias para atrair um maior volume de
negócios, para tentar aumentar o valor de mercado de suas ações. Uma
estratégia bastante utilizada é a de distribuírem um maior volume de lucros, na
forma de dividendos, para serem mais rentáveis aos investidores. O maior
problema é o de que, em um momento de volatilidade, você não encontre

104
compradores para os seus papéis, e, mesmo que consiga, seja obrigado a
negociá-los sofrendo uma grande perda.

Além disso, existem outros aspectos operacionais. A única maneira de adquirir


ações em bolsas de valores é através de corretoras ou distribuidoras de
valores mobiliários, que cobram uma taxa de corretagem, que varia de acordo
com o volume de seus investimentos, para a realização das ordens de compra
ou venda que você determinar. Alguns investidores confiam a essas
instituições um montante de seus recursos, para serem aplicados conforme as
oportunidades de mercado que os corretores identifiquem. Outra característica
é a de que você não recebe as ¨ações¨ da empresa, que ficam custodiadas na
Câmara Brasileira de Liquidação e Custódia, ou CBLC, mas simplesmente um
extrato de sua conta de custódia, contendo a quantidade e o valor dos seus
ativos na data de sua emissão.

Comecei a me interessar por investimentos em ações, principalmente, depois


de investir uma parcela de meu fundo de garantia por tempo de serviço, FGTS,
em um fundo mútuo de privatização, formado por papéis da Petrobrás. Ao
receber o extrato do desempenho do fundo, todos os meses, acompanhava a
variação da aplicação e comparava com a rentabilidade do FGTS, para saber
se havia feito um bom negócio, e constatei que, na verdade, era um ótimo
negócio.

Ao ser oferecida a oportunidade de um novo investimento de uma parcela do


FGTS, em fevereiro de 2002, em ações da Companhia Vale do Rio Doce, não
pensei duas vezes, e ainda adquiri mais um pouco com recursos próprios. A
aplicação foi feita em um momento muito feliz, pois o mercado ainda não havia
se recuperado das perdas sofridas com o racionamento de energia, quebra da
Argentina e atentados terroristas nos Estados Unidos, no ano de 2001, e vendi
as ações, aproximadamente um ano depois, realizando um lucro próximo a
100% do investimento. Desenvolvi, então, mais um pensamento: não basta ser
bom, tem que dar sorte!

Antes disso, eu só acompanhava o funcionamento e o desempenho do


mercado de capitais por necessidade de conhecimento, ou seja, pela minha
profissão de professor de finanças, não ousando colocar meu dinheiro nessa
oportunidade de investimento, principalmente pela percepção de alto risco que
possuía na época. A partir dos meus primeiros investimentos, comecei a
vivenciar o dia-a-dia do mercado financeiro, suas reações às tendências
políticas e econômicas nacionais e internacionais, bem como as oscilações que
ocorriam nos papéis negociados, e as recomendações das corretoras, em
relatórios normalmente bens elaborados e fundamentados. Descobri que não
existe um padrão, mas decisões baseadas em conhecimentos que podem te
ajudar a diminuir os seus riscos e aumentar os ganhos.

Confesso que, hoje, adquiri um conhecimento razoável da dinâmica do


mercado, principalmente porque consegui colocar em prática a minha formação
acadêmica, proporcionando, até aqui, bons investimentos e uma rentabilidade
bastante superior a outras modalidades de aplicação financeira. Mesmo assim,
não me sinto confortável para tentar vôos mais altos, como a negociação de

105
ações de segunda ou terceira linha, contratos futuros e de opções de ações,
por acreditar que minha profissão é, antes de tudo, professor, e não,
especulador, para ficar o dia inteiro em frente a um monitor, acompanhando o
sobe-e-desce do mercado para a realização de negócios. A minha estratégia
consiste, basicamente, na aquisição de ações de primeira linha, com um
objetivo de, no mínimo, dois anos. Isso não me impede de acompanhar o
movimento do mercado e, sempre que identifico um movimento de alta,
provocado pelas ações dos especuladores, vender meus papéis e esperar um
novo momento, desta vez de baixa, para voltar a comprar as ações das
empresas que confio.

É fácil? Não! Tem que ter sangue de barata? Tem! Existe mágica para saber o
melhor momento de comprar ou de vender? Não! O máximo que conseguimos
é desenvolver uma estratégia envolvendo o quanto queremos ganhar, em qual
prazo, e o risco a ser considerado. Na minha humilde opinião, o movimento de
alta constante do mercado, ocorrido em 2003, apesar de chamar a atenção e
atrair novos investidores para essa modalidade de investimento, aumenta o
risco dos negócios, quer saber porquê?

Existe uma música do Raul Seixas, que gosto muito, com a seguinte frase:
¨Quem não tem colírio, usa óculos escuros. Como Isaac Newton já dizia, se
subiu tem que descer!¨. Ou seja, se a euforia da economia contagia os
investidores, que começam a acreditar que o mercado de ações é a melhor
opção de investimento, alguns papéis tendem a disparar, gerando um
comportamento irracional, movido apenas pela ambição dos especuladores.
Esse movimento dura até o momento que alguém cai na real, e começa o
movimento inverso, de queda no mercado. Isso já aconteceu? Olhe o crash da
bolsa de Nova Iorque em 1929, o estouro da bolha da Nasdaq no final dos
anos 90, ou mesmo a oscilação da bolsa brasileira nos últimos quatro anos. Se
você entra no mercado, no começo ou no meio do movimento altista, as
possibilidades de ganho são realmente atraentes, mas se chega no fim da
festa, só lhe resta apagar as luzes e arcar com os prejuízos, por isso, observe
o movimento da bolsa e muito cuidado com seus investimentos.

Para ajudar a defender seus argumentos, e na tentativa de diminuir a


impressão de risco para seus investimentos, ou, até mesmo, para convencê-lo
a colocar seu dinheiro no mercado de capitais, os especialistas em finanças,
constituídos por grandes financistas, professores, pesquisadores, profissionais
das instituições financeiras e, porque não, especuladores, desenvolveram uma
série de métodos, matemáticos, estatísticos e analíticos, para analisar a
evolução e a tendência do mercado e de suas empresas, bem como a relação
entre risco e retorno. Se você pesquisar, irá encontrar o CAPM, de capital asset
pricing model, ou modelo de precificação de ativos de capital, que fornece o
cálculo de um indicador beta para análise de ganhos e riscos de uma carteira
de investimentos, o índice de força relativa, que mostra o potencial de
oscilação de determinada ação, o índice preço-lucro, indicando em quanto
tempo a empresa, mantendo a lucratividade atual, proporcionaria o pagamento
da ação através dos lucros gerados, o índice comparativo entre valor de
mercado e valor patrimonial, análises gráficas e fundamentalistas, só para citar
alguns dos mais conhecidos.

106
Particularmente, meu índice predileto é o chamado ¨bom senso¨, ou seja,
ninguém possui bola de cristal para adivinhar o que irá acontecer amanhã, e
qualquer modelo, por mais bem feito que seja, não consegue me fornecer
informações precisas a esse respeito. Para mim, o melhor é analisar o preço de
mercado da empresa em relação a seu valor patrimonial, onde qualquer valor
superior a 5 vezes já me desperta suspeitas. Comparar os dividendos que ela
historicamente tem pago aos acionistas com o preço da ação na bolsa, se o
tempo de retorno for superior a 20 anos, pode começar a desconfiar, pois você
só obterá um bom retorno se a empresa se valorizar no mercado acima da
inflação. Os resultados operacionais, lucro ou prejuízo, dos últimos 3 anos,
para acompanhar sua evolução, positiva ou negativa, e os principais motivos
que possam ter afetado o seu desempenho, como, por exemplo, o mercado
cambial e seu impacto na empresa, bem como as mudanças políticas,
econômicas e de mercado.

É importante salientar, também, que o fato da empresa ser lucrativa não


representa que este resultado será repassado aos acionistas, pois a direção
pode optar por reter uma parcela do lucro para novos investimentos ou reserva
legal, sendo que somente 25% serão, obrigatoriamente, distribuídos. Por isso
que, em minha análise, além do lucro obtido pela empresa eu observo, ainda,
os dividendos, ou seja, o valor que realmente entra no bolso do investidor por
possuir determinada ação. Observe na figura ....., as empresas que se
destacaram no pagamento de dividendos no último ano. Cabe, ainda, mais um
esclarecimento. Muitas empresas remuneram seus acionistas de duas
maneiras: a primeira consiste no pagamento de juros sobre o capital próprio. O
que isso quer dizer? Que, se ao invés de comprar uma ação, você tivesse
investido seu dinheiro em uma caderneta de poupança, o capital renderia juros.
A legislação permite, então, que a empresa pague juros ao investidor sobre o
investimento que ele realizou em suas ações. Isso é uma manobra fiscal, legal
é claro, que permite a organização incorrer em despesas financeiras, que
diminuem o lucro antes do imposto de renda, que é a base de cálculo utilizada
para a apuração do imposto de renda sobre o lucro da empresa, e aumentam a
remuneração dos acionistas. A outra forma de remuneração consiste na
distribuição, propriamente dita, de uma parcela dos lucros auferidos pela
organização, no período atual, ou anteriores, aos acionistas. A soma dos
dividendos e juros, pagos aos investidores, é chamado de dividend yield, e
deve ser utilizado para a análise da atratividade das ações de uma empresa.

Ação Div. Yield* (%)


Banespa PN 31,75
Eternit PN 31,33
Celpa PNA 29,55
Eternit ON 28,65
Banespa ON 28,61
Banese PN 25,56
Coelce PNA 20,95
Coelce ON 20,66
Souto Vidig ON 18,73
Petropar PN 18,45
Figura .....: As 10 empresas que mais pagaram dividend yield em 2003

107
Observe que, de todas as organizações apresentadas, nenhuma é considerada
uma blue chip. A ação preferencial do Banespa foi a recordista de pagamento
de dividendos no período analisado, oferecendo a seus investidores uma
remuneração de 31,75% sobre o valor do papel, se mantiver esse volume, em
menos de quatro anos o investidor recupera o capital investido na empresa.
Note, ainda, que o investimento realizado, em qualquer uma delas, retorna em
menos de seis anos, desde que os dividendos continuem constantes, além da
possibilidade de ganhos com a valorização da empresa no mercado. Daí, a
importância do acompanhamento dos resultados das organizações que você
investir o seu dinheiro.

Com o advento da Internet, investir em ações ficou muito melhor. As corretoras


disponibilizam, para seus clientes, relatórios detalhados, onde são apontados,
por exemplo, fatos relevantes, desempenho e recomendações de
investimentos. Além disso, existem jornais, revistas e toda uma literatura
especializada, destinadas a contribuir com informações e facilitar o
aprendizado e os investimentos dos interessados em aplicar no mercado de
ações. Mas, para isso, precisamos entender, também, o funcionamento da
principal instituição para negociação de ações, as bolsas de valores, e as
outras modalidades de investimentos que elas oferecem. Vamos lá?

 Bolsas de valores

Há alguns anos, em minha cidade, alguns negociantes de veículos usados


começaram a se reunir próximo ao parque agropecuário. O que era um
pequeno grupo de vendedores logo se tornou um evento, inclusive com serviço
de auto-falantes e associação de vendedores.

Durante alguns anos, o local apresentou inúmeros problemas, como a


comercialização de produtos falsificados, contrabandeados e furtados, com
constantes batidas policiais, sempre sob protestos dos negociantes que ali
estavam. Essa situação fez surgir a necessidade de uma reorganização, no
modo como o ¨feirão¨ estava funcionando. A associação providenciou cordas
para a delimitação de um espaço, onde os vendedores, devidamente
cadastrados, ofereceriam os veículos para os compradores interessados, e
eram proibidos a comercialização de produtos de origem duvidosa.

Isso fez com que a confiança dos compradores aumentasse, possibilitando o


florescimento de novos negócios e o crescimento do número de vendedores,
que precisavam de um novo local, visto que a área que estava sendo utilizada
mostrava-se inadequada. Além disso, a feira funcionava como um termômetro
do mercado de veículos usados. Se alguém possuísse um veículo, e quisesse
saber o seu preço, bastava perguntar a um vendedor, ou corretor, que seria
informado imediatamente. Do mesmo modo, se o interesse fosse na aquisição,
bastava pesquisar entre os vendedores presentes, pois assim conseguiria ter
uma idéia do valor justo do veículo.

Lógico que, como muitos negócios, o mercado de veículos usados apresenta


características particulares que precisam ser entendidas para a realização de

108
bons negócios. Algumas informações, como o ano e o modelo, se ainda é
fabricado, o custo de manutenção, a facilidade de revenda, o número de
proprietários que o veículo já teve, se é alienado, as colisões que sofreu, são
algumas variáveis que influenciam profundamente o valor de dois veículos
aparentemente iguais.

Estou dando este exemplo, bastante simples, para que possamos entender o
que são as bolsas de valores. Na verdade, são apenas locais de negociação,
para onde convergem os interesses de compradores e vendedores,
interessados na negociação de ações de empresas, buscando o aumento de
sua riqueza. Ou seja, você não compra as ações da bolsa, mas, simplesmente,
na bolsa. Elas são criadas por corretoras de valores, como associações civis,
sem fins lucrativos, e que reinvestem seus lucros no desenvolvimento da
estrutura do mercado, através de projetos que venham contribuir para o
crescimento e consolidação do mercado de ações. E por que elas fazem isso?
Pelo nobre interesse de contribuir para o desenvolvimento econômico do país?
A resposta é não! A verdade é a de que elas ganham comissões de cada
negociação realizada de compra ou venda de papéis, e operam no ambiente
propício para obtenção do lucro especulativo.

Atualmente existem no mercado aproximadamente 261 sociedades corretoras


de valores. A Boverj, bolsa de valores do Rio de Janeiro, e a Bovespa, bolsa de
valores de São Paulo, possuem 77 corretoras membros cada. As 107
corretoras restantes são filiadas às demais bolsas de valores. É interessante
frisar que, além das corretoras, existem outros atores operando no mercado de
capitais, como as distribuidoras de valores e os investidores institucionais, que
são os fundos de investimento, instituições de previdência privada e
seguradoras, que são obrigadas a investir parte de suas reservas no mercado
de ações.

É interessante observamos que as negociações envolvem um dos bens mais


preciosos para os seres humanos, o dinheiro. Por aproximadamente cem anos,
desde a proclamação da República, a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro foi a
maior do Brasil. No final da década de oitenta, ela foi sacudida por um
escândalo envolvendo seu presidente e um dos principais especuladores no
mercado de ações daquela época, o sr. Naji Nahas, e nunca mais se
recuperou. Atualmente, ela negocia, basicamente, títulos da dívida pública,
sendo as ações de empresas negociadas na Bolsa de Valores de São Paulo,
ou seja, neste mercado, credibilidade é sinônimo de vida ou morte.

O desempenho da bolsa é apresentado, normalmente, na forma de um índice.


No caso brasileiro, pelo Ibovespa, que é o índice da bolsa de São Paulo. Este
índice simboliza as variações ocorridas no valor das empresas em determinado
período, normalmente diário, que compõem o seu cálculo. Existem mais de
quatrocentas empresas negociando seus papéis na bolsa brasileira neste
momento, mas apenas 54 (cinqüenta e quatro) são utilizadas para o cálculo do
índice. Em um dia de negociações comum, é normal que ocorram variações
positivas e negativas no valor das empresas no mercado. Então, quando
assistimos aos telejornais, e somos informados que a bolsa opera em alta, ou
em baixa, isso não quer dizer que todas as ações estejam subindo, ou

109
descendo, mas que, na média, esse é o desempenho do mercado como um
todo.

Vale ressaltar, ainda, que as empresas que compõem o índice possuem


valores diferentes, sendo que as variações ocorridas em suas ações podem
impactar o desempenho de maneira positiva ou negativa. Atualmente, as
empresas de maior importância no mercado brasileiro são a Telemar e a
Petrobrás. As empresas escolhidas para compor o índice são as que
apresentarem a melhor liquidez, ou seja, a capacidade de negociação do
papel, no período dos últimos três meses, quando são escolhidos novos papéis
para compor o índice.

Existem diversas modalidades de negócios que podem ser realizados nas


bolsas de valores. Além da aquisição de ações, que é chamado de mercado à
vista, pode-se aplicar, por exemplo, em oportunidades no mercados a termo,
futuro e de opções, que serão tratados posteriormente, e que são considerados
altamente especulativos.

Finalizando, vale informar que as bolsas de valores possuem autonomia


financeira, patrimonial e administrativa, e estão sujeitas a fiscalização da
Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e as diretrizes emanadas pelo
Conselho Monetário Nacional, que é o órgão máximo do governo designado
para a regulamentação do sistema financeiro brasileiro.

 O Recinto das Negociações (Pregão)

Sempre que estamos assistindo ao telejornal, e inicia-se o bloco de notícias


econômicas, os apresentadores começam a mostrar o desempenho do
mercado financeiro. Normalmente, as imagens que são colocadas ao fundo
mostram algumas pessoas frenéticas, utilizando vários aparelhos telefônicos ao
mesmo tempo, com quadros luminosos indicativos e telas de televisão aonde
aparecem os valores das últimas negociações com cada ação. Os operadores,
às vezes, parecem zumbis, tal o grau de concentração nos números que são
mostrados.

È neste ambiente que os compradores e vendedores de ações, através de


representantes das sociedades corretoras membros, também chamados de
operadores, realizam seus negócios. Eles emitem uma ordem de compra e/ou
venda a corretora, e esta se encarrega de executá-la no pregão, através de
seus operadores. O processo de negociação pode ser:

 comum: quando realizada entre dois representantes no pregão;


 direta: quando o mesmo operador compra e vende simultaneamente.
Esta negociação é feita por um representante da Bolsa e deve-se
aguardar a manifestação de outros operadores. Se houver oferta melhor,
esta prevalecerá, a menos que seja feita outra oferta pelo primeiro
proponente;
 por oferta: é realizada entre dois operadores, sendo que um deles é
representado pelo posto de negociação (na Bolsa) em que deixou
registrada sua oferta. Assim um operador pode simultaneamente

110
registrar sua oferta de compra e venda e havendo algum interessado ela
será fechada sem a sua presença.

Na verdade, a maioria dos negócios é realizada através do pregão eletrônico,


onde é disponibilizado, através de uma tela de computador, as últimas ofertas
de compra e venda de cada ação. No pregão de viva-voz, como é chamado a
negociação envolvendo a presença física de corretores, só são negociados as
ações que compõem o índice Bovespa, e acima de determinado volume.

Algumas bolsas de valores mundiais, como a americana Nasdaq, funcionam


exclusivamente com o pregão eletrônico. Outras, como a de Nova Iorque e a
Bovespa, ainda utilizam o sistema de viva-voz. Para os defensores dessa
modalidade, existe o argumento de que a movimentação visual do mercado
permite a identificação de tendências no comportamento dos investidores,
facilitando o processo de tomada de decisão de compra e venda de ações.

 Mercado a termo

Às vezes, quando estou pensando no mercado de capitais, eu me surpreendo


com a criatividade do ser humano. São oferecidas oportunidades de negócios
para todos os tipos de investidor, principalmente os mais agressivos. Apesar de
ferir a sensibilidade dos principais negociadores, na minha opinião, algumas
modalidades de investimento são, na verdade, um jogo. Que outro nome posso
dar a investimentos cujo desempenho não tenho condições de prever?
Especulação?

Dentre essas modalidades de maior risco, estão as operações a termo. Elas


podem ser realizadas com diversos tipos de ativos financeiros. Na bolsa de
valores, são negociados contratos a termo de ações, e, na bolsa de
mercadorias e futuros, contratos de commodities como soja, algodão, café,
minério de ferro, alumínio, carne bovina, moedas estrangeiras, taxas de juros,
entre outros. Essa operação caracteriza-se por um contrato, em que o
comprador e o vendedor formalizam um negócio de compra e venda de um
ativo financeiro para liquidação futura, com preço e prazo pré-determinados no
presente. Ou seja, um aposta a favor e o outro contra. Isso, para mim, é jogo.

O objetivo, de quem opera no mercado a termo, é o de assegurar um preço


satisfatório tanto para a compra como para a venda do ativo. No caso de
compra a termo, o investidor acredita que os ativos que ele deseja adquirir
estão com o preço subavaliados (baixos) no mercado à vista. O mesmo
raciocínio pode ocorrer para quem vende os ativos a termo. O investidor
acredita que o preço da venda a termo está superavaliado (caro) em relação ao
preço do mercado à vista.

Vamos dar um exemplo. Determinada companhia divulgará os seus resultados


em algumas semanas, e um dos investidores acredita que será melhor do que
o esperado, se isso acontecer, as ações da empresa podem se valorizar, em
relação ao preço atual, e isso faz com que ele procure um outro investidor, que
não compartilhe da mesma opinião, esperando um acontecimento inverso, e os
dois fechem um contrato a termo. Se na data da divulgação dos resultados, a

111
expectativa positiva se concretizar, o vendedor é obrigado a entregar a
quantidade de ações no preço negociado. Em caso de desvalorização, o
comprador é que têm de pagar o preço combinado no contrato, sendo que, no
mercado, a ação está com um preço menor.

Não discuto a importância, para a economia, dos contratos a termo,


principalmente de commodities. Afinal, se um agricultor, que possui um custo
fixo para sua plantação de soja, e está sujeito as variações no preço de seu
produto, consegue negociar, antecipadamente, o preço de venda de parte de
sua produção, ele estará protegido, pelo menos um pouco, das oscilações
provocadas por supersafras ou quebras de produção. Essa operação é
conhecida como hedge, ou uma espécie de seguro. Você pode, então, me
perguntar: por que ele não negocia logo tudo? Pelo fato de que, quem atua na
ponta compradora, normalmente oferece um preço menor do que o praticado
no mercado atualmente, buscando obter lucros com estas operações, e o
produtor também espera que, na época da comercialização, o preço seja maior
do que o oferecido nos contratos a termo, auferindo maiores lucros na venda
de seus produtos. No final das contas, todo mundo quer a mesma coisa:
ganhar mais dinheiro.

As operações a termo são contratados por prazos determinados, entre


comprador e vendedor, para liquidação futura e a um preço fixo. Para que elas
possam ser realizadas, devem ser depositadas garantias, nas contas mantidas
pelos investidores, nas corretoras e distribuidoras de valores. Essas garantias
podem ser ações, dinheiro, ou outros ativos financeiros negociados no
mercado, ou seja, não se pode especular somente com a vontade, mas com as
garantias reais de que se possui a capacidade financeira de se suportar as
perdas que podem acontecer.

E, agora, uma última observação. Todas as ações negociadas na bolsa de


valores podem ser objeto de um contrato a termo, desde que existam
compradores e vendedores interessados em negociá-las.

 Mercado futuro de ações


Outra modalidade de negociação, disponível no mercado de capitais, são as
operações a futuro. Neste tipo de investimento, o investidor pode comprar ou
vender ativos financeiros para entrega futura, numa data de vencimentos pré-
determinada. Existem vencimentos em aberto para todos os meses, a única
regra é a de eles serão sempre nas terceiras segundas-feiras de cada mês,
para que você possa fazer uma previsão para o fechamento da operação.

Para entrar numa posição a futuro, o investidor não paga nada. Ele apenas
deverá fazer um depósito de margem diariamente, de acordo com a flutuação
das cotações, pagar, ou receber, ajustes diários, que nada mais são do que
uma antecipação do resultado. O valor reduzido da margem permite ao
investidor assumir posições com um desembolso inicial menor, suficiente para
cobrir os seus riscos.

112
Mas o que isso quer dizer? Vamos explicar de uma maneira mais simples.
Apesar do valor da operação só ser conhecido no seu vencimento, no ato do
fechamento do contrato o valor atual do ativo já é estabelecido. Por exemplo,
negociei a venda futura, para o próximo mês, de 1000 ações preferenciais da
Petrobrás, identificadas no mercado pelo nome de PETR4, e cotadas, hoje, a
R$ 69,00 (sessenta e nove reais). Não é necessário que eu possua as 1000
ações, ou R$ 69.000,00 (sessenta e nove mil reais), mas as garantias para
honrar, diariamente, as variações que a cotação possa ter. Se, amanhã, o valor
aumentar para R$ 71,00 (setenta e um reais), é efetuada um bloqueio, na
minha conta, no valor de R$ 2.000,00 (dois mil reais), correspondentes a
variação de R$ 2,00 (dois reais), em um negócio de 1000 ações. Se o valor cair
para R$ 67,00 (sessenta e sete reais), o bloqueio é feito na conta do
comprador, pois ele se comprometeu a me pagar R$ 69,00 (sessenta e nove
reais) na referida ação. Esses ajustes são feitos diariamente, até o vencimento
do contrato, quando é realizada a apuração final, descobrindo-se quem lucrou
ou perdeu com o negócio, mas posso realizar uma operação inversa antes
disso, saindo da aplicação, e colhendo seus resultados. Novamente, o que
tenho, é uma aposta, que posso fazer com valores menores do que os
necessários para comprar, efetivamente, as 1000 ações. Não é incrível?

Durante a vigência do contrato, o investidor pode aumentar ou diminuir sua


posição, negociando contratos no mercado, independentemente da contraparte
inicial. Ele assim fica livre para ajustar sua posição ou estratégia em
decorrência da evolução das condições de mercado. Quer dizer, ele pode
comprar e vender o mesmo papel por diversas cotações diferentes, buscando
diminuir seus riscos ou aumentar os lucros.

No vencimento, as posições em aberto remanescentes devem ser liquidadas


por entrega, isto é, são liquidadas mediante a transferência de ações do
vendedor para o comprador e de dinheiro do comprador para o vendedor, pelo
último preço de ajuste do mercado.

Em uma operação a futuro, o investidor pode assumir uma posição


compradora, de um contrato a futuro, ou uma posição vendedora de um
contrato a futuro, da ação de uma empresa “x” podendo assumir a posição de
vendedor ou comprador coberto ou a descoberto.

Caso o investidor comprador a futuro deseje sair de sua posição compradora,


basta ele realizar uma operação de venda a futuro da mesma ação para a
mesma data (operação inversa), zerando sua posição e apurando lucro ou
prejuízo na operação. Desde que existam, no mercado, investidores realizando
este tipo de operação.

O mesmo ocorre com o vendedor a futuro, que para sair de sua posição
vendedora descoberta, tem que realizar uma operação de compra a futuro, da
mesma ação, para a mesma data (operação inversa), zerando a sua posição e
apurando lucro ou prejuízo na operação.

113
 Mercado de opções de ações

Como nós estávamos dizendo, as modalidades de investimento, para você


aplicar seus recursos no mercado de capitais, são imensas. Além do mercado
à vista, e futuro, existe, ainda, as opções de ações. Vamos tentar entendê-lo
melhor.

O pressuposto básico, dos investimentos no mercado financeiro, é o de que


todo mundo quer ganhar dinheiro e, para isso, precisam ser realizados
negócios, envolvendo ativos, que no caso do mercado de opções, são as
ações negociadas na Bolsa de Valores de São Paulo, a Bovespa. É importante
salientar que todas as posições, de compra ou venda, são fechadas na terceira
segunda-feira de cada mês, existindo opões para todos os meses do ano,
divulgadas antecipadamente.

As opções são divididas em compra e venda. Se eu ofereço uma opção de


compra de certa quantidade de uma ação, a preferencial da Telemar, por
exemplo, a determinado preço, e encontro um investidor que a adquire, de
acordo com a cotação do mercado naquele momento, sou obrigado, em caso
de exercício do direito de compra pelo comprador, a entregar os papéis no
preço combinado, independente de seu valor no mercado. É claro que o
comprador só exercerá seu direito de compra de for lucrativo, ou seja, se o
preço combinado comigo for inferior ao valor atual do mercado, pois, do
contrário, é muito melhor comprar as ações no mercado à vista.

O nome, que é dado no mercado, para quem oferece uma opção de compra,
ou de venda, é o de lançador, que pode ser coberta, no caso de realmente
possuir os papéis que estou oferecendo, ou descoberta, onde devo possuir os
recursos necessários, depositados na corretora, para garantir o negócio.

O raciocínio das aplicações em opções é muito parecido com o mercado futuro,


sendo que, a diferença fundamental, está no fato de que o comprador da
opção, que pode ser de compra, ou de venda, não é obrigado a efetuar o
negócio, pagando um prêmio por esse benefício, diminuindo os riscos de
prejuízo. Ainda não entendeu? Vamos dar um exemplo.

Suponha que você possua mil ações preferenciais da Petrobrás, as chamadas


PETR4, que adquiriu a R$ 83,00 (oitenta e três reais) cada, totalizando um
investimento de R$ 83.000,00 (oitenta e três mil reais), e queira procurar uma
oportunidade de ganhar mais dinheiro com esse ativo e, para isso, você lança
uma opção de compra, no dia 12 de janeiro, a R$ 86,00 (oitenta e seis reais).
Neste momento, a tendência do mercado é de alta, e a ação da Petrobrás está
cotada a R$ 85,00 (oitenta e cinco reais), e o prêmio, oferecido por essa opção,
chamada de PETRA86, onde a letra A significa que é uma opção de compra do
mês de janeiro, e 86 o valor da opção, está em R$ 1,50 (um real e cinqüenta
centavos). Isso quer dizer que, chegando a terceira segunda-feira do mês de
janeiro de 2004, ou dia 19, e a cotação da PETR4 for de R$ 84,00 (oitenta e
quatro reais), pois a tendência de alta do mercado se inverteu, com os
investidores vendendo ações e realizando lucros, o comprador da opção
preferirá lhe pagar R$ 1.500,00 (um mil e quinhentos reais), e desistir do

114
exercício da opção, do que exercer o direito de compra, pagando R$ 87.500,00
(oitenta e sete mil e quinhentos reais), referentes ao prêmio, e as ações. Existe,
ainda, outra possibilidade. Imagine que a ação valorizou-se a R$ 87,00 (oitenta
e sete reais), nesse caso, é mais vantajoso para o comprador da opção exercer
o seu direito, pois diminuirá seu prejuízo, desembolsando R$ 87.500,00 (oitenta
e sete mil e quinhentos reais), e vendendo as ações por R$ 87.000,00 (oitenta
e sete mil reais), perdendo R$ 500,00 (quinhentos reais), ao invés dos R$
1.500,00 (um mil e quinhentos reais), que perderia se não tomasse essa
atitude. Novamente, percebemos que o segredo do investimento está na
realização de cálculos, e de estratégias bem elaboradas, para o incremento
dos lucros, ou a diminuição das perdas.

Por outro lado, se a tendência não se inverter, e o papel chegar, na segunda-


feira, ou mesmo, antes disso, a R$ 90,00 (noventa reais), o comprador pode
exercer a opção de compra, pelo preço combinado de R$ 86,00 (oitenta e seis
reais), mais o prêmio de R$ 1,50 (um real e cinqüenta centavos), por ação. No
seu caso, que possui o papel, não tem problema nenhum, porque você está
¨coberto¨. Se você lançou uma opção a descoberto, ou seja, sem possuir os
papéis, estará obrigado a ir ao mercado, comprar pelo preço que estiver sendo
negociado, e entregar no preço combinado. Legal, não é mesmo?

Vamos imaginar, agora, outra situação. Você lançou, e vendeu, a opção por R$
1,50 (um real e cinqüenta centavos), pois a tendência do mercado era de alta,
com a possibilidade da ação romper a cotação de R$ 86,00 (oitenta e seis
reais). De repente, sem nenhum aviso, os investidores acreditam que está na
hora de realizarem seus lucros, ou seja, venderem os papéis, que adquiriram
por um valor menor, e apurarem seus ganhos. Sabemos que, sempre que a
ponta vendedora é maior que a compradora, a tendência é de queda,
invertendo a situação. Com isso, a opção, que chegou a ser negociada a quase
R$ 2,00 (dois reais), com você se lamentando por ter vendido a R$ 1,50 (um e
cinqüenta reais), cai para R$ 0,07 (sete centavos). O que pode ser feito?
Compre uma opção de compra, na mesma quantidade de ações que vendeu,
pela nova cotação, e apure um ganho de R$ 1,43 (um real e quarenta e três
centavos), pois, mesmo que a tendência se inverta novamente, e o seu
comprador exerça a opção, você, também, poderá exercer a que comprou, no
mesmo valor da ação, pagando menos pela opção.

O raciocínio, para o lançamento de opções de venda, é o mesmo, ou seja, ao


oferecer este tipo de investimento, você se compromete a comprar, caso o
comprador da opção de venda exerça o direito, a ação pelo preço combinado.
Verificamos, então, que na verdade, o comprador paga pelo direito de escolher
se quer comprar, ou vender, determinado ativo, de acordo com suas
estratégias de investimento.

Finalizando, caso você queira efetuar transações no mercado de opções de


ações, fique atento às distribuições de dividendos efetuadas pelas empresas,
pois, a partir do momento que elas acontecem, as ações passam a ser
comercializadas ¨ex-dividendos¨, ou seja, descontando o valor que foi pago de
seu valor. Por exemplo, suponhamos que a Petrobrás anunciou dividendos,
líquidos do imposto de renda, de R$ 2,45 (dois reais e quarenta e cinco

115
centavos), para os portadores de ações da empresa. A partir da data
combinada para a verificação de quem são os proprietários das ações, como o
dia 19 de novembro de 2003, no outro dia elas já são negociadas, no mercado
de opções, como ¨ex-dividendos¨, ou seja, se você lançar uma opção de
compra, com o código PETRL70, que significa que você se comprometeu a
vender ações preferenciais da Petrobrás, em dezembro, por R$ 70,00 (setenta
reais), e elas forem exercidas, o comprador pagará R$ 67,55 (sessenta e sete
reais e cinqüenta e cinco centavos), que é o valor combinado, menos os
dividendos que as ações pagaram no período, mesmo que não tenha sido você
que recebeu. Sabe como eu aprendi? Depois que fiz um negócio e não ganhei
o quanto eu esperava, lucrando, somente, a experiência, e o aprendizado. Pelo
menos não tive prejuízo, o que já é uma grande coisa.

Existem especuladores, até mesmo em minha cidade, que ficam o dia inteiro
de olho em monitores, acompanhando o comportamento do mercado
financeiro, e emitindo ordens de compra e venda de opções de ações, em
operações chamadas de ¨intraday¨, ou, mesmo dia. Às vezes, quando vou a
sala de ações da corretora que me atende, que é pequena, vejo sempre cinco
ou seis investidores, discutindo estratégias de negócios, as tendências dos
mercados mundiais e realizando suas apostas, se é que posso chamar assim.
É um clima interessante, com uma televisão ligada, constantemente, em um
canal de notícias financeiras, o Bloomberg, se não me engano, e jornais de
negócios, como Gazeta Mercantil, e Valor Econômico, juntamente com
relatórios com análises do mercado, disponibilizados, nas mesas, para os
clientes, com dois operadores para transmitirem as ordens de compra ou
venda, de qualquer ativo negociado na bolsa de valores. Me policio
constantemente, para não me deixar levar pela emoção do negócio, pois a
possibilidade de vício, mesmo negada por todos, é muito maior do que
realmente admitimos, como em todo jogo.

Aconselho, finalmente, a qualquer pessoa que queira aventurar-se em


operações com opções, que o faça, somente, depois de algum tempo
realizando negócios no mercado à vista, para que se familiarize com a
dinâmica do funcionamento da bolsa de valores, disponibilizando um tempo
maior, em sua agenda, para acompanhar as oscilações do mercado de
capitais. Fora isso, boa sorte, bons negócios e, o melhor de tudo, bons lucros!

6.1.8 Seguro de bens, vida e saúde

Há algum tempo atrás, estava lendo um artigo, onde o autor apresentava as


modalidades de ¨investimentos¨ em seguros disponíveis no mercado. Fiquei
pensando, um instante, em alguns conceitos, mas acabei voltando àquele que
diz que ¨investimentos são desembolsos que buscam retorno¨, ou seja, o
aumento da minha riqueza. Sendo assim, um seguro não poderia ser
considerado um investimento, pois ele não aumentaria o ¨meu¨ patrimônio.
Continuei analisando e mudei, um pouco, minha opinião, pois cheguei a
conclusão de que posso considerar algumas modalidades de seguros como
investimento, não para mim, mas para o beneficiário que indicar em meu

116
seguro de vida, por exemplo. Afinal, como disse Benjamin Franklin, as únicas
certezas da vida são a morte e os impostos.

Apesar de parecer mórbido, essa é a pura realidade. Todos os tipos de seguro


são melhores se não forem usados, pois, pela sua própria natureza, estão
associados a algum tipo de problema que podemos enfrentar em nossas vidas.

A indústria do seguro teve um crescimento enorme nos dois últimos séculos,


impulsionada, principalmente, pela teoria das probabilidades, que auxiliou as
empresas em suas análises de riscos, propiciando a determinação de prêmios
compatíveis com as possibilidades dos sinistros ocorrerem.

Novamente, volto a te lembrar do princípio básico do capitalismo, que é a


obtenção de lucro. Nenhuma organização sobrevive sem resultados positivos,
o problema é que, algumas vezes, os produtos oferecidos não correspondem
às verdadeiras necessidades dos clientes, mas, simplesmente, a procura por
lucros cada vez maiores das empresas.

Acredito que o seguro não deva ser visto como um investimento, mas como
uma maneira de diminuir os riscos de suas aplicações, ou patrimônio, dos
imprevistos que a vida nos reserva. Em algumas situações, prefiro correr o
risco de não possuí-lo, por achar que é uma despesa que proporciona uma
melhor rentabilidade investida no mercado financeiro. Vamos explicar melhor.

Imagine que uma pessoa trabalhou vários meses, ou anos, para adquirir um
automóvel, e ele é o maior patrimônio que ela possui. Em caso de um acidente,
furto ou roubo, o impacto nas finanças pessoais é tremendo, ainda maior se o
veículo foi financiado. Nesse caso, possuir seguro é uma condição
imprescindível.

Mas, sempre que me perguntam, qual o veículo ideal para cada pessoa,
respondo que carro não é investimento, mas bem de consumo, e que, em
minha opinião, seu valor não pode representar mais do que 15% dos seus
investimentos. Quer ter um carro de R$ 50.000,00 (cinqüenta mil reais)?
Construa, primeiro, um conjunto de investimentos de, pelo menos, R$
500.000,00 (quinhentos mil reais). Note que não me refiro a patrimônio, pois se
minha residência está avaliada em R$ 250.000,00 (duzentos e cinqüenta mil
reais), ela não me proporciona nenhuma receita, somente despesas.

Vamos aprofundar um pouco mais neste exemplo, que é importantíssimo.


Conforme já falamos anteriormente, acredito que todos conhecemos alguém
que não consiga encaixar receitas e despesas, estando sempre endividado e
procurando novas formas de ganhar mais. Normalmente, esta é a primeira
preocupação, um aumento de salário, para que as despesas possam ser pagas
mais facilmente, além da aquisição de outros bens que sempre sonhamos,
como um home theater, por exemplo.

Tenho um amigo de longa data, que encaixa-se perfeitamente neste biotipo.


Quando éramos universitários, ele possuía o melhor salário de nossa turma de
amigos, de aproximadamente cinco salários mínimos, e vivia sempre apertado.

117
Ao final da graduação, conseguiu arranjar uma colocação ainda melhor, e
passou a receber quase vinte salários mínimos, e ainda não sobrava dinheiro.
Carro novo financiado, lote à prestação, compras no cartão de crédito,
utilização do limite do cheque especial, são algumas das despesas que faziam
parte de seu fluxo de caixa.

Finalmente, depois de vários anos de aperto, resolveu ouvir nossos conselhos,


parou de quitar um carro e financiar outro, vendeu o ágio do lote, fez um
empréstimo pessoal e liquidou o cartão de crédito e o cheque especial,
esforçando-se para não adquirir nada que não tenha sido planejado
antecipadamente, e sua situação financeira melhorou consideravelmente.

Este é, no meu entender, um dos maiores desafios de qualquer pessoa. Deixar


de trabalhar para ganhar dinheiro e colocar o dinheiro para trabalhar para nós,
ou seja, ao invés de pensar, no curto prazo, em adquirir uma porção de bens
novos, como um apartamento, automóvel, computador de mão, ou, até mesmo,
um telefone celular, devo investir meus recursos para, com o seu fruto, adquirir
tudo aquilo que desejo, possuindo uma renda estável para mantê-los. Isso é
uma questão de mentalidade, trocar o agora pelo amanhã, ou seja, conseguir
conter o consumismo e o imediatismo.

Note que, em nenhum momento, estou afirmando que você deva abrir mão de
seus sonhos, mas, simplesmente, planejar para que seus sonhos aconteçam, e
não se transformem em pesadelos. Eu só consegui esta transformação depois
de passar por problemas financeiros profundos, que me aconteceram e que
ainda me afetarão por muitos anos, para mudar a idéia que tinha das coisas.

Existe um ditado popular que afirma que se conselho fosse bom, não era dado,
e sim vendido. Se você está lendo este livro, então estes conselhos não são de
graça, pois ele teve um custo. Por outro lado, costumo usar um exemplo em
sala de aula que, se não é o melhor, foi o que passei a utilizar em minha vida.
Imagine-se em uma guerra, daquelas que assistimos em vários filmes
americanos, e presenciou um soldado, que nem era seu conhecido, tropeçar
em um fio, que é ligado a uma bomba, e boom, explodiu. Você não precisou
explodir para aprender a ter mais cuidado e olhar melhor por onde anda, pois
corre o mesmo risco que ele. Eu explodi, por sorte sobrevivi, mesmo que com
algumas seqüelas, mas aprendi com a experiência, que é o mais importante, e
estou tentando compartilhar este aprendizado, para que outras pessoas não
precisem passar por tudo aquilo que sofri.

É lógico que, para a maioria das pessoas, esta situação não é fácil de ser
alcançada. Poupar cem mil reais, resistindo às tentações consumistas, e
possuindo um carro de, no máximo, quinze mil, não é uma tarefa fácil, mas é a
sua realização que diferencia as pessoas que possuem resultados em seus
investimentos a longo prazo, daquelas que estão sempre com a corda no
pescoço.

Então eu recomendo que, enquanto você não consegue enquadrar seu carro,
moto, lancha e jet ski nessa condição, ou seja, de representarem, somados, no
máximo 20% dos seus investimentos, continue a adquirir seguros. Na hora que

118
alcançar este objetivo, não precisa renová-los, pois se perder, mesmo que
totalmente, qualquer um desses bens, o impacto será dolorido, mas não o
levará à falência.

Vou te mostrar, através de cálculos, o porque desta recomendação. Os


seguros de veículos variam, normalmente, de 5% a 10% de seu valor,
dependendo do custo para o reparo, em caso de acidente, ou da probabilidade
do carro ser roubado. Imagine que adquiriu um veículo de, aproximadamente,
R$ 25.000,00 (vinte e cinco mil reais), e o seguro total custou R$ 2.040,00 (dois
mil e quarenta reais), divididos em doze parcelas de R$ 170,00 (cento e
setenta reais). Quanto tempo seria necessário para que, investindo as
prestações mensais em títulos públicos, com rentabilidade de 1% ao mês,
líquido da inflação, eu pudesse comprar outro carro? Observe as contas na HP
12c:

 Digite 170 (valor da parcela) e tecle CHS e PMT


 Digite 1 (taxa de juros) e tecle ¨i¨
 Digite 25000 (valor futuro) e tecle FV
 Aperte ¨n¨

A resposta é de que são necessários aproximadamente 90 meses, ou sete


anos e meio. Para fazer uma conta boba, posso imaginar minha idade atual,
diminuí-la de quando adquiri meu primeiro veículo, encontrando o número de
anos que já possuí um automóvel, e fazer a conta de quanto possuiria se, ao
invés de ter feito o seguro deles, tivesse aplicado o recurso em produtos
financeiros. A conta ficaria assim:

 170 (valor de uma parcela) CHS PMT


 1 (taxa de juros) ¨i¨
 180 (número de meses equivalente a quinze anos) ¨n¨
 FV

A resposta é um pouco desalentadora, pois aparece o valor de R$ 85.777,91


(oitenta e cinco mil, setecentos e setenta e sete reais e noventa e um
centavos), o suficiente para adquirir mais de três carros do modelo que possuo
atualmente, com a diferença que todos os meus acidentes foram pequenos, e
nunca tive o desprazer de ser vítima de furto ou roubo de veículos de minha
propriedade. Só existe um problema, não teria a sensação de segurança que
possuir o seguro me proporciona.

Mas aqui vai outra recomendação, não adianta não fazer o seguro e gastar o
dinheiro. É necessário que os recursos que seriam gastos sejam direcionados
para investimentos, para que você não seja surpreendido em um momento de
imprevisto, e fique sem ambos, o carro e a grana, e ainda jogue a culpa em
mim.

A conta fica ainda pior se utilizarmos o exemplo da minha família. Há alguns


anos atrás, possuíamos quatro carros, sendo uma camionete S-10 de meu pai,
um Tempra, um Escort e um Golf, dos três irmãos solteiros, todos com mais de
três anos de uso. Por serem veículos cujo reparo demandam uma maior

119
quantia de recursos, além da probabilidade de roubo, o seguro, de todos eles,
ficavam em valores superiores a 10%, chegando, até mesmo, a quase 20%, no
caso da S-10 e do Golf, do seu valor de mercado. Sendo assim, decidimos que,
ao invés da aquisição da apólice de seguro para cada veículo, investiríamos,
mês a mês, os valores referentes as parcelas em um fundo de investimento em
nome de nosso pai, que seria utilizado para o pagamento de qualquer sinistro
envolvendo os carros de nossa família. Nós poupávamos o equivalente ao
valor de um dos carros a cada dois anos, ou seja, o investimento cobria o risco
de perder metade de um carro por ano. O acordo durou dois anos, um dos
carros sofreu um pequeno acidente, e juntamos uma boa reserva, que foi
dividida, pois meus irmãos decidiram se mudar para o Japão.

Atualmente, não faço nenhum tipo de seguro, seja de automóveis, residencial


ou de saúde, pois estou conseguindo construir as reservas que planejei para
serem utilizadas, em caso de imprevistos, e decidi correr os riscos que possam
acontecer em troca de possuir mais dinheiro. É uma opção. É a melhor? Por
enquanto tem demonstrado ser a mais acertada.

Não concorda comigo? Pois vou lhe dar outro exemplo, desta vez com um
plano de saúde. Novamente vou utilizar minha família, mas você pode adaptá-
lo a sua realidade sem nenhum problema.

Meu pai está, atualmente, com sessenta e sete anos, minha mãe com
cinqüenta e dois, eu tenho trinta e três e minha filha treze. Durante muitos anos
nenhum de nós apresentou qualquer problema de saúde, até que, no ano
passado, minha mãe começou a não se sentir bem, e teve que procurar
diversos especialistas, realizando exames para o coração, pulmões e rins,
todos pagos em dinheiro, pois não possuímos nenhum plano de saúde. Depois
disso, procurei uma cooperativa de saúde, talvez a mais conhecida do Brasil,
para fazer um orçamento e verificar a viabilidade de contratar um plano para
nossa família, veja os preços que consegui:

Modalidade Preço
Homem de 33 e filha de 13 anos R$ 150,00
Homem de 33, filha de 13 e mãe de 52 anos R$ 270,00
Homem de 33, filha de 13, mãe de 52 e pai de 67 anos R$ 410,00
Figura....: Orçamento para aquisição de um plano de saúde

É preciso salientar que, para a contratação do plano para meus pais, eles
deveriam se submeter a uma bateria de exames, sendo que, qualquer
problema pré-existente, estaria isento de cobertura pelo plano. Os preços
acima referem-se a acomodações em enfermaria, sendo que em apartamento
o valor a ser cobrado é maior.

Sabemos que as empresas que oferecem planos de saúde precisam de


resultados positivos para sobreviver, ou seja, se todos os participantes de seus
planos necessitarem de atendimento médico, em pouco tempo elas não
possuirão recursos, e falirão.

120
Como tenho o hábito de fazer contas, construí os seguintes cenários,
imaginando aplicações com taxa de juros mensais de 1%:

Parcela 5 anos 10 anos 20 anos


R$ 150,00 R$ 12.250,45 R$ 34.505,80 R$ 148.388,30
R$ 270,00 R$ 22.050,81 R$ 62.110,45 R$ 267.098,95
R$ 410,00 R$ 33.484,56 R$ 94.315,86 R$ 405.594,70
Figura ....: Aplicação mensal da parcela de um plano de saúde

Todo o tratamento de minha mãe ficou em, aproximadamente, R$ 10.000,00


(dez mil reais). Verifique que, se aplicar o valor da mensalidade do plano, para
toda minha família, durante cinco anos, obterei um montante de R$ 33.484,56
(trinta e três mil, quatrocentos e oitenta e quatro reais e cinqüenta e seis
centavos), quantia mais do que suficiente para bancar a maioria dos
procedimentos médicos necessários em nossa vida. Mas o que é
verdadeiramente impressionante é o valor obtido após 20 anos de aplicações,
de R$ 405.594,70 (quatrocentos e cinco mil, quinhentos e noventa e quatro
reais e setenta centavos), que cobre, até mesmo, desembolsos a serem
realizados para transplantes de órgãos, que custam, normalmente, valores
inferiores a R$ 100.000,00 (cem mil reais).

Você é adepto de planos de saúde? Está em dúvida do que fazer? Vou lhe dar
o meu conselho, segui-lo, é escolha sua. Enquanto não possuir uma reserva
substancial de recursos investidos, equivalentes a, pelo menos, vinte meses de
salário, que garantam uma certa tranqüilidade em momentos de imprevistos,
continue usuário desses produtos. A partir daí, já não considero vantajoso, e
prefiro correr o risco a desembolsar um recurso que não volta mais.

Tive o privilégio de ser convidado a realizar o módulo de finanças de um curso


de pós-graduação oferecido a participantes de cooperativas de saúde de meu
estado. É claro que opiniões como essa não são aceitas facilmente,
principalmente por quem vende esses produtos, e fui confrontado com um
argumento bastante desafiador, quando uma aluna me informou que, há pouco
tempo, o caso de uma garota, portadora de um problema seríssimo, havia
custado mais de R$ 1.000.000,00 (um milhão de reais) aos cofres da
cooperativa, valor proibitivo a quase totalidade da população brasileira.

Confesso que, em um primeiro momento, fiquei bastante chocado, pois


imaginei-me vivendo essa situação. Mas minha racionalidade se impôs, e
perguntei há quantos anos minha aluna trabalhava na cooperativa, sendo que a
resposta foi de que era a mais de dez. E quantos casos igual a esse havia
visto? Somente esse. Existe alguma genialidade nisso? É claro que não!
Somente a teoria das probabilidades, pois, se existem, aproximadamente,
200.000 usuários, e um percentual superior a 0,0005% deles, ou seja, dois,
apresentarem problemas como esse anualmente, provavelmente a cooperativa
irá a falência, e, se isso ainda não aconteceu, é porque casos como esse são
raríssimos, mas servem como ótimos argumentos de venda.

Lembro de uma cena do filme Débi e Lóide, onde o personagem Débi,


interpretado por Jim Carrey, está apaixonado por uma garota, que não dá a

121
mínima para ele, e lhe pergunta se existe alguma chance de ser correspondido,
e a resposta é não. Em seguida, refaz a pergunta, desta vez diminuindo a
probabilidade, de uma para mil, e a resposta continua negativa. Nova tentativa,
de uma para cem mil, e outra resposta negativa. Finalmente, pergunta se existe
uma chance em um milhão, a garota pensa um pouco e responde que, nesse
caso, existe uma chance. Ele sai dando pulos de alegria, pois existe uma
probabilidade, mesmo que remotíssima, de ser correspondido.

A mesma coisa vale para a aquisição de planos de saúde, a probabilidade de


acontecer um problema seríssimo comigo, ou com algum membro de minha
família, existe, do mesmo modo que ganhar na mega-sena, ser um cantor de
sucesso, casar com a miss Brasil ou ser eleito presidente da república. Isso
pode, ou não, acontecer, e a essa probabilidade damos o nome de risco.

Este risco pode ser maior ou menor. Ao contratar um plano de saúde, você
está tentando anulá-lo, mesmo sabendo que podem acontecer dissabores,
como estamos cansados de ouvir falar, da empresa negar-se a efetuar o
pagamento do tratamento, com uma série de alegações. Isso é um risco. Por
outro lado, ao construir uma reserva de recursos, investidos não para esse fim,
mas podendo ser utilizados, em caso de necessidade, é também uma tentativa
de diminuir esse risco. A única coisa que não podemos fazer é ficarmos na
chuva, sem plano e sem recursos, pois aí seremos uma presa fácil da vida e
dos imprevistos que ela nos reserva.

6.1.9 Contratos de aquisição de animais

Nas minhas últimas férias, conclui a leitura de um livro bastante interessante,


principalmente para quem investe no mercado financeiro, chamado Salve-se
quem puder – uma história da especulação financeira, onde o autor mostra
diversas ocasiões, através dos séculos, em que a ganância dos homens cegou
completamente a sua racionalidade, construindo e destruindo fortunas em um
piscar de olhos. A promessa de ganhos altos e fáceis seduz as pessoas,
hipnotizando-as como um canto de sereia, até o momento em que se
encontram afogados no fundo do mar.

Essas situações apresentam, como em quase todas, perigos para todos os


investidores. Os inocentes, que em sua ignorância se tornam vítimas perfeitas
para as raposas do mercado, e as próprias raposas, que do alto de sua
arrogância imaginam conhecer, e controlar, a situação, dominando todas as
técnicas e os momentos para realizarem os seus negócios. Doce ilusão!
Quantos especuladores suicidaram-se após o crack da bolsa de Nova Iorque
em 1929, ou que continuam quebrando, ano após ano, com as mudanças que
acontecem na economia mundial.

A ambição humana, característica entendida por alguns como virtude, e, para


muitos, como defeito, é conhecida e narrada em diversas estórias. O rei Midas,
que transformava em ouro tudo em que tocava, ou, até mesmo, a busca pela
pedra filosofal, capaz de transmutar qualquer metal em ouro, refletem bem
essa característica.

122
No decorrer dos séculos, sempre surgem momentos em que alguma mudança
tecnológica, política, demográfica ou econômica, faz a riqueza de alguns, e a
pobreza de muitos. As navegações, a exploração de ouro nas Américas, a
revolução industrial, as bolsas de valores, a revolução da Internet, são alguns
exemplos que a maioria das pessoas conhecem.

No Brasil, especificamente, tivemos a oportunidade de presenciar uma


oportunidade de investimento, na década de 90, que deixou um rastro de
prejuízos a maioria das pessoas que nele embarcaram. Trata-se da aquisição
de bovinos, na forma de arrobas, através de contratos de compra e venda de
animais, realizados, principalmente, através das empresas Gallus e Fazendas
Reunidas Boi Gordo.

O negócio era relativamente simples. Você adquiria uma quantidade de arrobas


de gado a determinado valor e data, e após um certo período, as arrobas
seriam vendidas e o dinheiro retornaria, provavelmente acrescido de um bom
lucro, demonstrado através de planilhas e históricos de cotações de mercado e
outros negócios realizados, para o investidor. Fica uma pergunta muito
importante: o que a empresa ganha com isso? Uma taxa de administração
cobrada de todos os aplicadores, que deveria garantir o pagamento das
despesas operacionais e gerar o lucro.

Essas duas empresas quebraram, deixando investidores no prejuízo, até


mesmo total, dos recursos investidos. As causas, citadas em reportagens de
revistas, vão desde o desvio do dinheiro dos investidores, utilizado para outros
fins que não a criação de gado bovino, até mesmo investimentos mal-
sucedidos, como a construção de frigoríficos e aplicação em outros negócios.
Para muitos ficou a perda, para alguns, a lição.

Tenho acompanhado, ultimamente, um novo modismo entre os aplicadores


dessa modalidade de investimento, que surgiu com toda força em meu estado,
o avestruz. Mesmo com todo o esforço dispendido pelas empresas que atuam
no ramo, a imagem da Boi Gordo, principalmente, ainda está viva na memória
das pessoas, ficando muito difícil dissociá-la nesta modalidade de investimento
rural.

Mesmo assim, a promessa de grandes lucros é muito atrativa, fazendo os


aplicadores comportarem-se como moscas em busca do mel, convencidos por
argumentos de venda que soam como música a seus ouvidos, mas, em sua
maioria, sem nenhuma base que resista a uma análise mais profunda.

Como professor universitário de finanças, fui perguntado várias vezes se


conhecia essa modalidade de investimento, seus riscos e possibilidades de
lucros, sendo impelido a buscar maiores informações para conseguir responder
a estes questionamentos, quando surgissem. Assim, visitei a uma dessas
empresas em minha cidade, como um investidor comum, procurando entender
a dinâmica de funcionamento do negócio, bem como as variáveis envolvidas.

123
Como já disse neste livro, a perda da inocência, muitas vezes, não é uma coisa
boa. Passamos a desconfiar de tudo e de todos, imaginando se não seremos
vítimas de uma nova situação que traga-nos resultados desagradáveis. Em
meu caso, os problemas financeiros que atravessei mostraram-me, da maneira
mais clara possível, que o tratamento das pessoas quando você tem dinheiro é
um, e quando está quebrado, é outro, portanto, não existe mágica, é tudo uma
questão de receita e despesa, lucro ou prejuízo, déficit ou superávit, o resto é
conversa para boi dormir.

A mesma coisa acontece com qualquer organização. Todas precisam de


recursos para custear suas despesas, até mesmo o governo. A necessidade de
dinheiro é uma verdade universal no mundo em que vivemos, independente se
em um sistema capitalista, socialista ou comunista, pois é através dele que
nosso trabalho é remunerado, permitindo a aquisição dos produtos que
necessitamos para nossa sobrevivência. Uma empresa nada mais é do que
uma organização que procura oferecer alguma coisa por um preço maior do
que seu custo, buscando lucro com esta operação.

Assim, a primeira pergunta que precisamos responder antes de aplicarmos


nosso dinheiro em qualquer oportunidade de investimento, em minha opinião, é
a de como esses recursos serão remunerados, ou, traduzindo para um
português mais claro: quem vai pagar a conta?

Estou dizendo isso para que possamos entender a lógica dos negócios em que
investimos. Qual era a lógica do investimento da empresa Boi Gordo? Você
colocava seus recursos em dinheiro, que eram transformados em arrobas de
gado bovino, após certo tempo, equivalente ao período de crescimento e
engorda dos animais, a quantidade de arrobas aumentava, sendo vendidas a
preço de mercado, proporcionando ganhos aos investidores. Na verdade, a sua
idéia é muita parecida com um fundo de investimentos, só que os ativos, neste
caso, eram os bois.

Isso nos leva a pensar. Se a empresa não se responsabilizava e nem se


comprometia a oferecer um ganho fixo aos investidores, era só comprar o
bezerro, colocar no pasto, esperar crescer, vender, devolver os recursos com
os ganhos e cobrar as taxas de administração. Relativamente fácil e lucrativo.
Então vem a pergunta: como ela conseguiu quebrar? Vou tentar responder com
uma boa dose de especulação, à luz dos meus conhecimentos e experiência
profissional, bem como das informações que obtive a respeito dos
acontecimentos desta empresa.

Trabalhei, durante vários anos, com o transporte de bovinos para o abate em


frigoríficos, presenciando todo o processo comercial e industrial de algumas
empresas deste segmento. Em algumas conversas, os diretores nos diziam
que, do boi, a única coisa que não se aproveitava era o berro, pois, do restante,
até mesmo o esterco, que ainda estava nos intestinos do animal, possuíam
valor comercial. Cascos, chifre, couro, cálculos biliares (utilizados como
remédio no oriente e vendido a preço de ouro), pêlos, ossos, sebo, carne, só
para citar alguns exemplos. Eu achava tudo fascinante, mas o que mais me
chamava a atenção era presenciar o fazendeiro conferindo, no final do

124
processo, a pesagem das carcaças dos animais, chamados de traseiros e
dianteiros, para posterior recebimento.

Ao perguntar o porque de tanto trabalho, um deles me respondeu que o valor


que ele recebia era o peso da carcaça limpa, em arrobas, sendo que uma
arroba equivale a quinze quilos, multiplicado pelo valor combinado com o
frigorífico, que variava de acordo com a qualidade dos animais, sua idade, peso
e sexo. Tudo que era extraído do gado, à exceção da carne da carcaça,
chamado de ¨subprodutos¨, era de propriedade do abatedouro, e que, se ele
não ficasse de olho, os funcionários eram orientados a caprichar na ¨limpeza¨
da carcaça, diminuindo o peso final, que seria utilizado para o pagamento do
animal.

Alguns pecuaristas levavam pesos de metal, para conferir se a balança estava,


realmente, devidamente regulada, pois do contrário, diminuiria, ainda mais, os
seus ganhos. Existem, também, profissionais autônomos, contratados pelos
fazendeiros, e especialistas em acompanhar o processo de abate dos animais,
que cobram por cabeça e conferem todo o processo.

Vamos dar um exemplo. Suponha-se um animal que, pesado vivo, tenha um


peso de trezentos e trinta quilos, ou vinte e duas arrobas. Após o abate,
extraindo a cabeça, o couro, as entranhas, as patas e o sangue, tenha uma
diminuição de 30% do seu peso inicial, caindo para, aproximadamente,
duzentos e trinta quilos, ou quinze arrobas. Se o preço combinado for de R$
58,00 (cinqüenta e oito reais) por arroba, o fazendeiro receberá R$ 870,00
(oitocentos e setenta reais) por este animal. Se em cada um, na hora da
limpeza, o pecuarista perder uma arroba, em um abate de duzentas cabeças, o
prejuízo será de R$ 11.600,00 (onze mil e seiscentos reais), uma quantia
considerável, não é mesmo?

Imagine-se, então, no lugar dos proprietários das Fazendas Reunidas Boi


Gordo, criando milhares de animais e entregando-os para frigoríficos, de outros
proprietários, abaterem, obtendo todo o lucro desta etapa da cadeia produtiva.
Para que deixar outras pessoas ganharem dinheiro com os recursos que estão
a sua disposição? Isso precisa mudar! Qual a solução? Agregar, também, este
elo do ciclo produtivo a empresa, através da aquisição ou construção de um
abatedouro.

Só que, para isso, são necessários recursos, que serão utilizados na


construção, ou aquisição de um abatedouro, mais o capital de giro, para a
operacionalização do negócio. Qual o jeito mais fácil de obter esse dinheiro?
Pegando as aplicações dos investidores da empresa, que deveriam ser
direcionadas na criação de bovinos, e investindo em outras etapas da cadeia
produtiva, como o transporte, abate e venda. Uma solução genial!

Se as coisas fossem fáceis assim, o número de pessoas ricas seria muito


maior. Ao expandir os seus negócios, a empresa aumenta, também, os seus
riscos. Vamos falar de alguns:

125
1. Risco financeiro: enquanto os investidores confiam na instituição,
colocam seu dinheiro e recomendam a outras pessoas que façam o
mesmo, existe um círculo virtuoso que garante um fluxo de caixa robusto
para a empresa, permitindo que a saída de alguns seja garantida pela
entrada de outros, sem maiores problemas financeiros. A partir do
momento que a organização utilizou recursos em outros investimentos
de menor liquidez, em comparação com o gado bovino, como
frigoríficos, e a situação econômica muda, fazendo com que os
aplicadores não renovem seus investimentos, a empresa corre o risco
de não possuir capacidade financeira para liquidar seus compromissos,
caminhando para a insolvência, como realmente aconteceu.
2. Risco de mercado: existe um ditado popular, muito conhecido, que diz
¨cada macaco no seu galho¨, ou seja, cada um deve fazer aquilo que
entende. Isso quer dizer que cada negócio possui uma dinâmica própria,
expressada pelos seus fornecedores, credores e clientes, que reagem
de modo diferente a cada mudança do mercado. Se a cotação da carne
caísse, o prejuízo seria do investidor, e a empresa continuaria
recebendo sua taxa de administração normalmente, já se as taxas de
inadimplência do frigorífico aumentassem, a venda da carne caísse, ou
qualquer outro fator que o empurrasse ao prejuízo, este resultado seria
bancado pela empresa, além dessas notícias influenciarem a opinião
dos investidores a respeito dos outros negócios da organização.
3. Risco operacional: ao vender seu gado para o abate em suas próprias
unidades, a empresa pode ceder a tentação de ¨caprichar¨ um pouco
mais na limpeza do animal, diminuindo seu peso e, conseqüentemente,
a remuneração do investidor, prejudicando seu negócio principal.

Tenho que deixar claro que administrar empresas no Brasil é uma tarefa sobre-
humana, que exige, além de competência e conhecimento, um pouco de sorte.
Nos últimos nove anos, fomos submetidos a uma série de crises, como as do
México, Ásia, Rússia, ataque especulativo contra o Real e sua posterior
desvalorização, racionamento de energia, quebra da Argentina, atentados
terroristas nos Estados Unidos e eleição presidencial de 2002, para citar as
mais famosas, e que afetaram profundamente a nossa economia.

Em cada ocasião dessa, o governo adotou medidas de controle da inflação que


impactaram o consumo e o crédito, através da administração das taxas de
juros que remuneram os empréstimos públicos, diminuindo a liquidez, ou seja,
a disponibilidade de dinheiro no mercado. Isso diminuiu o consumo, aumentou
o desemprego e a inadimplência, com resultados horríveis para a maioria das
empresas, menos os bancos, é claro! Se o governo paga taxas baixas de juros,
eles ganham dinheiro emprestando para as empresas, do contrário, lucram
emprestando para o governo, ou seja, eles sempre lucram.

Muitas empresas não sobreviveram, principalmente aquelas que investiram


confiando em um ambiente de estabilidade econômica a médio e longo prazo.
Um dos reflexos imediatos da crise é a capacidade do investidor de procurar
refúgio em oportunidades de aplicação mais seguras, como poupança e
imóveis, por exemplo. Assim, uma grande quantidade de clientes dessas
empresas decidiram sacar suas aplicações, comprometendo a sua capacidade

126
de pagamento. A partir do momento que atrasa o primeiro, a notícia corre como
um rastilho de pólvora, ocorrendo o chamado ¨efeito manada¨, ou seja, cada
um querendo salvar o puder, antes que a empresa quebre, acelerando, ainda
mais, esse processo. O restante é história, e todo mundo conhece.

Contei tudo isso para que possamos voltar ao exemplo das avestruzes. A
empresa oferece um negócio, como meu pai dizia, da China, comprovado por
diversas informações, como a figura abaixo:

Avestruz Boi
Vida reprodutiva 40 anos 12 anos
Incubação/gestação 42 dias 270 dias
Tempo de engorda 12 meses 24 a 36 meses
Carne 240 Kg/2 anos
Um casal de avestruzes vai produzir 1.350 Kg/ano Regime de pasto
30 avestruzes x 45 kg de carne
Couro – 30 avestruzes 30,9 m²/ano 3 m² ano
Plumas – 30 avestruzes 30 kg/ano -
Espaço para criação 2.000 m² p/ 25 cabeças 1 hectare/cabeça
Figura .....: Características dos animais

O marketing é uma ferramenta poderosíssima para as empresas, e deve ser


utilizado de maneira profissional e competente. Não possuo conhecimento, pois
não sou da área, de que todas as informações acima são verdadeiras, mas
como acredito na sinceridade humana, vou supor que são verídicas. Se
comprar um casal de avestruzes, eles proporcionarão 30 filhotes por ano, ou
seja, quinze vezes, ou 1500%, qual negócio produz essa rentabilidade?

Mas isso não é tudo, o material promocional diz, ainda, que o quilo da carne é
comercializado, no Brasil, por preços que variam de R$ 60,00 (sessenta reais)
a R$ 80,00 (oitenta reais). Se um casal produz 30 avestruzes, que geram 45
quilos de carne cada, vendidos a esse preço, receberei R$ 94.500,00 (noventa
e quatro mil e quinhentos reais) no período de um ano, se o casal custa R$
24.000,00 (vinte e quatro mil reais), terei obtido um lucro de R$ 70.500,00
(setenta mil e quinhentos reais), ou 294%, não é incrível? E ainda não
contamos o couro, as plumas, e os ovos, que não eclodiram, e que podem ser
utilizados para artesanato! Fala sério!

A empresa oferece diversas modalidades de aplicação, sempre em avestruzes,


de acordo com as características de cada investidor, de acordo com os
exemplos abaixo:

Compra Venda Lucro Lucro %

127
Filhotes de 90
27,78% em
dias, com
R$ 1.680,00 R$ 2.146,70 R$ 466,70 três meses, ou
recompra em 90 9,26% ao mês
dias
Filhote de 90 dias, 16,24% em
com recompra em dois meses,
R$ 1.680,00 R$ 1.952,83 R$ 272,83
60 dias ou 8,12% ao
mês
Casal 1ª. postura, 61,7% em
recompra em 7 sete meses,
R$14.100,00 R$ 22.800,00 R$ 8.700,00
meses ou 8,81% ao
mês
Trio 1ª. postura, 55,94% em
recompra em 7 sete meses,
R$ 23.150,00 R$ 36.100,00 R$ 12.950,00
meses ou 7,99% ao
mês
Figura ...: Alternativas para aquisição de avestruzes

A alternativa mais lucrativa, da compra de filhotes de 90 dias, com o


compromisso de recompra após 90 dias do negócio, proporciona um aumento
de 27,78% em três meses, ou 9,26% ao mês. Observe que, mesmo a
oportunidade menos lucrativa, da aquisição de um trio adulto, com recompra
programada para 7 meses, proporciona uma lucratividade de 55,94% no
período, ou 7,99% ao mês. Confesso que, ao me defrontar com esses
números, senti vontade de investir todo meu dinheiro nessas aves, mas
novamente a minha racionalidade se impôs, e comecei a fazer algumas
perguntas a senhorita que estava me atendendo.

Meu pensamento me pedia para ir direto na principal, ou seja, descobrir como a


empresa ganhava dinheiro, para poder me remunerar dessa maneira, pois,
afinal de contas, não existe mágica, mas somente receitas, despesas, e lucro
ou prejuízo.

Comecei com o raciocínio próximo ao negócio das Fazendas Reunidas Boi


Gordo, ou seja, engordar o animal, abatê-lo e remunerar o cotista e a empresa.
Perguntei se já existiam investidores, ou a própria empresa, abatendo animais,
e a cotação de mercado do quilo da carne do produtor para o frigorífico, pois o
preço do folder era para o consumidor final, e eu não conheço nenhum
fazendeiro que consiga vender seu gado com seu peso multiplicado pelo preço
do contra filé, por exemplo.

Ela me informou que a preocupação principal da empresa, naquele momento,


era com a formação de um plantel, ou seja, de uma quantidade de animais que
pudessem procriar, e que ainda não havia previsão de abate de animais de
investidores ou da empresa, voltando a falar do couro, das plumas, dos ovos.
Perguntei novamente sobre a cotação do mercado, ou se era negociado na
bolsa de mercadorias e futuros, pois, assim, poderia olhar na Internet, ou,
ainda, o telefone de algum abatedouro. A resposta foi de que existia apenas
um frigorífico no Brasil, em São Paulo, mas a empresa pretendia construir um
nos próximos dois anos, não tive como pensar se não tinha visto esta história
antes. Mesmo assim, a idéia de vender meus animais para apenas um

128
comprador não me pareceu bastante agradável, pois o poder está todo em
suas mãos.

Expus essa preocupação, pois na minha visão limitada, eu só ganharia dinheiro


quando o animal fosse abatido, gerando, então, o meu lucro. Novamente, ela
pediu que me tranqüilizasse, pois a empresa oferecia diversas modalidades de
aplicação, garantindo, na maioria deles, a recompra dos animais depois de um
período estipulado em contrato. Neste momento, outra curiosidade tomou
forma, e quis saber como, não sendo proprietário de terras, e não conhecendo
nada do manejo de avestruzes, poderia tomar conta das aves. A empresa já
havia pensado nisso também, e oferecia a hotelaria dos animais, cujo valor
poderia estar incluso nos valores a serem negociados.

Sentia-me como em uma catarse, meus sentidos me traiam, e os olhos


piscavam antevendo os lucros fabulosos que acumularia. Felizmente, a
experiência me fez efetuar uma última pergunta, exatamente assim: vocês são
fiscalizados por alguma autoridade do sistema financeiro nacional? A moça
retrucou: Como assim? Pela Comissão de Valores Mobiliários, o Banco
Central, a Superintendência de Seguros Privados, ou seja, quem confere as
suas contas e a segurança de sua empresa? A resposta negativa veio
acompanhada de uma série de observações sobre o patrimônio dos
proprietários e da própria organização, constituída por algumas fazendas, onde
já haviam sido investidos vários milhões de reais, e crescimento do número de
clientes, e o convite para conhecer pessoalmente o laboratório e o criatório em
uma cidade próxima a Goiânia.

Não pude deixar de pensar que, em um país onde as instituições que são
fiscalizadas, como consórcios, por exemplo, vivem dando prejuízo aos
investidores, imagine as que são baseadas, apenas, na honestidade de seus
donos. Tem que possuir muita fé no ser humano e nas pessoas para colocar
seu dinheiro ali, ou muita ambição, que também serve como motivação.

Levantei, agradeci e fui embora. Estava um pouco constrangido, afinal, não


consegui descobrir a resposta para aquilo que era, na minha opinião, a questão
mais importante: qual o negócio da empresa? Como ela ganha dinheiro? Me
lembrava que a organização patrocinava o jornal televisivo da principal
emissora local, e investia pesadamente em propaganda, possuindo, com
certeza, um custo bastante alto de comunicação. Qual era a mágica? Chamem
o Mister M!

Como dizemos em minha terra, matutei por alguns dias e, finalmente, acredito
que encontrei a resposta. O negócio, por enquanto, não era a criação, a
engorda e o abate dos animais, mas, simplesmente, a sua venda. Uma pessoa
comum não sabe qual o custo de aquisição das avestruzes, somente o preço
que a empresa vendia. Por exemplo, enquanto o investidor adquire um casal
de avestruzes, com idade entre 30 a 36 meses, por R$ 24.000,00 (vinte e
quatro mil reais), a organização poderia tê-los importado pela metade desse
valor, obtendo o seu lucro com essa operação.

129
Mas tem um problema. Com o compromisso de recompra, o dinheiro do lucro
do investidor tem que vir de algum lugar. Como as aves ainda não são
abatidas, esses recursos tem que vir do lucro que foi obtido com a venda dos
animais, pois não existe outra fonte de receita, não é mesmo? Além disso,
esses sobra, se realmente existe, precisa custear os custos, as despesas e os
investimentos que a empresa está efetuando, além dos aplicadores.

Outra fonte de receita seriam os filhotes das aves da empresa, vendidos, com
noventa dias, ao valor de R$ 1.500,00 (um mil e quinhentos reais) cada, mas,
mesmo nesse caso, existe o compromisso de recompra, caracterizando a
mesma situação de origem dos recursos para o pagamento dos lucros dos
investidores.

Finalmente, comparei o negócio com uma corrente. Aquele modalidade de


investimento que aparece de vez em quando, onde cada pessoa convida uma
quantidade pré-determinada de aplicadores, recebendo dinheiro de cada um, e
eles deverão fazer a mesma coisa, sem quebrar a corrente, sob o risco de dar
e levar prejuízo. Digo isso pois, enquanto investidores colocarem o seu dinheiro
em avestruzes, o fluxo de caixa da empresa estará garantido, o problema será
quando a saída for maior que a entrada, espero que, até lá, já estejam
abatendo as avestruzes, que a cotação do quilo seja atraente, que o produtor
consiga vender o couro, a carne e as plumas separadamente (o que eu duvido
muito), que não aconteça nenhuma crise econômica, e assim sucessivamente.

Quero deixar claro que não tenho nada contra os empreendedores deste
negócio, e que espero que ganhem muito dinheiro, fiquem ricos juntos com
seus clientes, gerem emprego, renda, tributos, e todos os benefícios vinculados
a qualquer empresa de sucesso. Simplesmente não concordo em colocar meu
dinheiro em um investimento que considero com um risco maior do que posso
suportar, mesmo com taxas de retorno extremamente atrativas.

Hoje, quando me perguntam sobre o negócio das avestruzes, respondo


simplesmente que não coloco meu dinheiro nesta modalidade de investimento,
e aviso: com certeza alguns vão ganhar muito dinheiro, espero que ninguém
perca, como não tenho bola de cristal, para adivinhar a hora de entrar e sair,
prefiro não correr o risco, se você quer, vá em frente, e boa sorte!

6.1.10 Imóveis

Lembro-me de que, quando era criança, morávamos de aluguel em uma casa


simples, num bairro de classe média de Goiânia. O piso era de vermelhão,
nenhum quarto era suíte, e o teto não possuía forro, com exceção da sala, que
era de madeira, e, quando chovia, minha mãe saia correndo colocando baldes
em alguns lugares, para colher a água das goteiras que insistiam em cair. No
outro dia, ligava para o locador e reclamava da situação, solicitando o reparo
do telhado, visto que o aluguel estava sempre quitado. Ele vinha, fazia um
reparo simples, que na verdade não adiantava muita coisa, acabava a época
das chuvas e começava a seca, esquecendo-se o problema, que só apareceria
de novo no próximo ano, e assim levávamos a vida.

130
Meu pai sempre afirmava que, na primeira oportunidade, construiria nossa
casa, do jeito que ele sempre sonhara. Para mim, na verdade, não fazia muita
diferença, pois não possuía, ainda, o entendimento necessário para diferenciar
uma casa própria de uma alugada, o que importava era ter um lugar para
chamar de lar.

Passaram-se os anos e meu pai conseguiu, realmente, construir a casa que ele
desejava, com três quartos, sendo uma suíte, banheiros, sala, copa, cozinha,
garagem e uma área de lazer para os filhos, em um bairro próximo onde já
morávamos anteriormente, dava para ver que ele sentia-se realizado.

Estou dando esse exemplo porque acredito que se encaixa com a maioria das
famílias brasileiras, que é o sonho de possuir a casa própria. Note que isso é
um ¨sonho¨, e que algumas vezes transforma-se em um pesadelo. Não é por
outro motivo que o Sílvio Santos, em seus programas, sempre oferece, entre
os prêmios, casas para os participantes, ou várias empresas, quando querem
aumentar ou promover suas vendas, façam o mesmo. O único problema é que,
pelo fato de ser sonho, ele associa-se ao nosso lado emocional, impedindo que
a racionalidade ajude a, algumas vezes, tomar a melhor decisão.

Nós presenciamos, em vários telejornais, associações de mutuários


contestando judicialmente as prestações que pagam de sua casa, bem como
os editais de leilões de imóveis em processo de execução da Caixa Econômica
Federal, que muitas vezes continuam ocupados, sendo leiloados assim
mesmo. Conheço pessoas que deram uma entrada, pagaram vários anos de
prestação e o saldo devedor é superior ao valor de mercado do imóvel, como
conseguir um comprador nessa situação? O que foi que aconteceu?

A explicação, apesar de simples, não é fácil. O problema é que, durante os


anos de inflação galopante, o reajuste da prestação não era suficiente para
diminuir o saldo devedor, fazendo com que, mesmo o pagamento estando
rigorosamente em dia, ele fosse aumentando. A única solução para o mutuário
era que, após determinado número de anos, 20 ou 25, o contrato era
automaticamente quitado, eliminando a dívida. Só que, neste período, muita
coisa pode acontecer na minha vida, posso perder o emprego, adoecer, ir
trabalhar em outra cidade, divorciar-me, ou seja, um monte de imprevistos que
me obriguem a vender o imóvel. Ao constatar a situação do saldo devedor,
muitos mutuários preferiam, então, deixar de pagar a prestação, na tentativa de
recuperar, pelo menos em parte, o investimento que já haviam feito.

Em minha opinião nós somos, na verdade, enganados pela idéia de que os


juros do Sistema Financeiro da Habitação, ou SFH, são ¨baratos¨, pois custam,
atualmente, próximo a 12% ao ano, mais o indexador que fará a correção
monetária. Lembra-se de quando falamos da caderneta de poupança, que
oferece juros de 6% ao ano, essa taxa é simplesmente o dobro, ou seja, de
barato ela não tem nada.

Eu, normalmente, recomendo as pessoas que façam uma conta simples,


comparando o financiamento de um imóvel com o seu aluguel. Utilizarei a taxa

131
de 1,5% ao mês, em 20 anos, para o financiamento, e o aluguel com várias
taxas sobre seu valor de mercado, considerando um imóvel de R$ 70.000,00
(setenta mil reais).

Parcela Taxa sobre o Aluguel Diferença


financiamento valor do imóvel
R$ 1.080,00 0,6% R$ 420,00 R$ 660,00
R$ 1.080,00 0,8% R$ 560,00 R$ 520,00
R$ 1.080,00 1,0% R$ 700,00 R$ 380,00
Figura ...: Diferença entre aquisição e aluguel de um imóvel

Normalmente, são oferecidas diversas modalidades de cálculos de


financiamento de imóveis, por isso, utilizei o método Price, em que a maioria
deles é baseada, porque o que quero mostrar, na verdade, é o raciocínio para
a aquisição do imóvel. Observe que, com uma taxa de 1,5% ao mês, para um
financiamento de 20 anos, a prestação será de, aproximadamente, R$ 1.080,00
(um mil e oitenta reais). Vale ressaltar que, em caso de mudanças na
economia, principalmente na inflação, este valor poderá sofrer um reajuste para
cima, mas o imóvel também se valoriza, e o aluguel aumenta, por isso, vamos
fazer uma análise linear, ou seja, como se a situação não se alterasse, porque,
na verdade, ela só pode mudar para pior. Por outro lado, o aluguel de um
imóvel, no mesmo valor financiado, variando de 0,6% a 1,0% do seu valor de
mercado, proporciona uma diferença mensal que deve ser analisada mais
cuidadosamente, se aplicada a uma taxa de 1,0% ao mês, em títulos públicos
federais, CDB ou fundos de investimento, conforme a figura abaixo:

Diferença 5 anos 10 anos 20 anos


R$ 660,00 R$ 53.902,98 R$ 151.825,53 R$ 652.908,54
R$ 520,00 R$ 42.468,22 R$ 119.620,12 R$ 514.412,79
R$ 380,00 R$ 31.034,47 R$ 87.414,70 R$ 375.917,04
Figura ...: Aplicação da diferença entre aquisição e aluguel de imóvel

Se ao invés de financiar um imóvel de R$ 70.000,00 (setenta mil reais), à taxa


de 1,5% ao mês, durante vinte anos, você conseguir pagar um aluguel de 0,6%
sobre este valor, aplicando a diferença da prestação do financiamento em uma
das diversas modalidades de investimento citadas neste livro, ao final de 5
anos você terá R$ 53.902,98 (cinqüenta e três mil, novecentos e dois reais e
noventa e oito centavos), se conseguir segurar mais um pouco, completando
os dez anos, possuirá R$ 151.825,53 (cento e cinqüenta e um mil, oitocentos e
vinte e cinco reais e cinqüenta e três centavos), e, provavelmente, já
conseguirá comprar o imóvel a vista. Mas, o melhor de tudo, é aguardar vinte
anos e ser o feliz proprietário da bolada de R$ 652.908,54 (seiscentos e
cinqüenta e dois mil, novecentos e oito reais e cinqüenta e quatro centavos).
Os outros cenários mostram os resultados para aluguéis de 0,8% e 1,0% sobre
o valor do imóvel, respectivamente.

Você pode me questionar se conseguirá alugar um imóvel por 0,6% do seu


valor, mas vou lhe dar um exemplo. Há alguns meses, várias instituições
financeiras foram autorizadas, pelo Banco Central, a desfazerem-se de agência
próprias, para utilizar os recursos em seu capital de giro, ou seja, emprestando

132
para seus clientes. Foram realizados diversos leilões, em que os bancos
garantiam aos investidores contratos de aluguel de 10 anos, renováveis por
mais 10, com uma taxa próxima a 0,5% ao mês. Por exemplo, por um imóvel
de R$ 600.000,00 (seiscentos mil reais), a instituição pagaria R$ 3.000,00 (três
mil reais) por mês de aluguel, uma mixaria, não é mesmo? Será que alguém se
interessaria por um negócio assim? Pois houveram imóveis que foram
vendidos até por, aproximadamente, 80% do lance mínimo inicial, sendo que o
valor do aluguel continuava o mesmo, diminuindo, ainda mais, a rentabilidade
do investimento. A única resposta para uma aplicação como esta é que o
investidor espera, além do aluguel, uma valorização do imóvel, principalmente
por se tratar de um estabelecimento comercial.

Muitas pessoas afirmam que, a diferença básica entre um financiamento e o


aluguel de um imóvel é a de que, no primeiro caso, estamos pagando uma
parcela de uma coisa que é sua, enquanto que o aluguel é um dinheiro que não
volta nunca mais, indo para o bolso do locatário. Santa ingenuidade! Você se
lembra como se chama o aluguel do dinheiro? Isso mesmo! O nome é juros, e
se eu não possuo o dinheiro para comprar um imóvel, e faço um empréstimo,
estou pagando pela sua utilização. Então, do ponto de vista do investimento, a
conta é simples, o negócio é bom se a taxa do aluguel for maior que a taxa de
juros, do contrário, invista o dinheiro, faça o sacrifício em um imóvel mais
barato por alguns anos e realize seu sonho, através do pagamento à vista, de
sua casa própria. O que estou dizendo é que, se a taxa de aluguel é de 0,7%
do valor do imóvel, e a de juros de 1%, continue no aluguel, que é melhor
negócio.

Mas lembre-se, morar de aluguel e não poupar a diferença da prestação é a


pior de todas as opções, pois no final você não terá o imóvel, e nem o
investimento.

Vamos falar, agora, de imóveis como opção de investimento, e não como o


sonho da casa própria, ou seja, como forma de aumentar a riqueza do
aplicador, através da realização de bons negócios.

Fui convidado, por um amigo, a acompanhá-lo na aquisição de um


apartamento na planta, ou seja, no momento do lançamento do
empreendimento, que seria entregue dentro de dois anos. Ele possuía recursos
para fazer a aquisição à vista, mas estava disposto a ouvir alternativas de
financiamento que fossem interessantes na realização do negócio.

O valor do imóvel era de R$ 74.000,00 (setenta e quatro mil reais), a


negociação partiu desse ponto. Perguntamos qual seria o desconto para o
pagamento à vista, e, antes de responder, o vendedor argumentou que o preço
do metro quadrado já estava muito bom, inferior a vários concorrentes com
padrão semelhante, e que não poderia oferecer nenhum desconto muito alto.
Insistimos em um valor, sendo que a resposta foi de R$ 72.000,00 (setenta e
dois mil reais), ou 2,7% do valor total.

Argumentamos que o desconto estava muito pequeno para o pagamento a


vista, mas o vendedor bateu o pé e negou-se a qualquer redução maior do que

133
já estava oferecendo, propondo o parcelamento do pagamento. A primeira
proposta foi de uma entrada de 20% do valor do imóvel, mais vinte e quatro
parcelas, com juros de 1% ao mês, mais INCC, ou índice nacional da
construção civil, calculado pela Fundação Getúlio Vargas e que mede a
variação nos preços dos insumos deste mercado. Avisamos que não
estávamos dispostos a pagar nenhum centavo de juros, pois o comprador
possuía recursos para efetuar o pagamento no ato da compra, e solicitamos
propostas de parcelamento do valor de R$ 74.000,00 (setenta e quatro mil
reais).

A construtora propôs, então, uma entrada de 30%, ou R$ 22.200,00 (vinte e


dois mil e duzentos reais), mais seis parcelas fixas de R$ 8.633,33 (oito mil,
seiscentos e trinta e três reais e trinta e três centavos). Foi nossa vez, e
fizemos a contra-proposta em que o negócio foi fechado, com uma entrada de
R$ 24.000,00 (vinte e quatro mil), e dez parcelas de R$ 5.000,00 (cinco mil
reais). Vamos ver se foi um bom negócio?

Na época que realizou a compra, no mês de junho de 2003, a remuneração


dos títulos públicos federais, estava próxima a 24% ao ano, ou 2% ao mês,
descontando-se o imposto de renda, de 20% sobre o ganho de capital, ou
juros, obtêm-se um rendimento de 1,6% ao mês. Observe, na figura abaixo, o
resultado da aplicação dos recursos que seriam utilizados no pagamento a
vista do apartamento.

Data Capital Juros Parcela Saldo


22/06/03 R$ 50.000,00 R$ - R$ - R$ 50.000,00
22/07/03 R$ 50.000,00 R$ 800,00 R$ 5.000,00 R$ 45.800,00
22/08/03 R$ 45.800,00 R$ 732,80 R$ 5.000,00 R$ 41.532,80
22/09/03 R$ 41.532,80 R$ 664,52 R$ 5.000,00 R$ 37.197,32
22/10/03 R$ 37.197,32 R$ 595,16 R$ 5.000,00 R$ 32.792,48
22/11/03 R$ 32.792,48 R$ 524,68 R$ 5.000,00 R$ 28.317,16
22/12/03 R$ 28.317,16 R$ 453,07 R$ 5.000,00 R$ 23.770,24
22/01/04 R$ 23.770,24 R$ 380,32 R$ 5.000,00 R$ 19.150,56
22/02/04 R$ 19.150,56 R$ 306,41 R$ 5.000,00 R$ 14.456,97
22/03/04 R$ 14.456,97 R$ 231,31 R$ 5.000,00 R$ 9.688,28
22/04/04 R$ 9.688,28 R$ 155,01 R$ 5.000,00 R$ 4.843,29
R$ 4.843,29 R$ 50.000,00
Figura ....: Rendimento da aplicação do valor parcelado

Observe que, investindo R$ 50.000,00 (cinqüenta mil reais) em títulos públicos


federais, e efetuando os pagamentos mensais combinados com a construtora,
ele terá, ao final de 10 meses, um ganho de R$ 4.843,29 (quatro mil, oitocentos
e quarenta e três reais e vinte e nove centavos) que, se comparados ao
desconto de R$ 2.000,00 (dois mil reais) oferecidos pela empresa para o
pagamento a vista, proporcionam um ganho de R$ 2.843,29 (dois mil,
oitocentos e quarenta e três reais e vinte e nove centavos).

O funcionário da construtora, responsável pela negociação, informou que a


projeção de valor de mercado do apartamento, na entrega de suas chaves, que
acontecerá, no máximo, em dois anos, será de, aproximadamente, R$

134
90.000,00 (noventa mil reais). Utilizando este valor como base, vamos analisar
a rentabilidade do investimento com o pagamento à vista e parcelado.

 Digite 72000 (valor a vista) e tecle CHS e PV


 Insira 24 (número de meses) e aperte ¨n¨
 Digite 90000 (valor futuro do imóvel) e tecle FV
 Aperte ¨i¨ (taxa de retorno)
 Resultado 0,93

Verificamos que, optando pelo pagamento a vista do imóvel, a rentabilidade do


investimento será de 0,93% ao mês, melhor do que a caderneta de poupança,
mas inferior aos títulos públicos federais, CDB, fundos de investimento e
previdência privada nos últimos anos, além de possuir um menor grau de
liquidez, ou seja, você não consegue transformá-lo em dinheiro na mesma
velocidade que outros investimentos financeiros. Considerando a negociação
efetuada, de uma entrada de R$ 24.000,00 (vinte e quatro mil reais), mais dez
pagamentos de R$ 5.000,00 (cinco mil reais), temos um total de R$ 74.000,00
(setenta e quatro mil reais), que devem ser diminuídos dos juros obtidos pelo
investimento dos R$ 50.000,00 (cinqüenta mil reais), que foram utilizados para
o pagamento das parcelas, que foram de R$ 4.843,29 (quatro mil, oitocentos e
quarenta e três reais, e vinte e nove centavos), totalizando um desembolso de
R$ 69.156,71 (sessenta e nove mil, cento e cinqüenta e seis reais, setenta e
um centavos). Observe as contas:

 Digite 69.156,71 (valor desembolsado) tecle CHS e PV


 Insira 24 (número de meses) e aperte ¨n¨
 Digite 90.000 (valor futuro do imóvel) e tecle FV
 Aperte ¨i¨ (retorno do investimento)
 Resultado 1,10

Observamos que, após a negociação, a rentabilidade do investimento melhorou


consideravelmente. Anteriormente, era de 0,93% ao mês, sofrendo um
aumento de 18,3%, para 1,10% ao mês. Qual a lição que tiramos deste
exemplo? Que não basta possuir o crédito para financiar a aquisição de um
imóvel, ou o dinheiro para pagá-lo a vista, o importante é negociar sabendo as
oportunidades de investimento que existem no mercado, para que possamos
lucrar na maioria das transações que realizamos. De qualquer maneira, posso
considerar que, se acontecer tudo como descrevemos acima, foi um bom
negócio? Na minha opinião ele foi, no máximo, razoável. Quer saber porquê?
Acompanhe as contas abaixo:

 Digite 72000 (valor disponível para investimento) e tecle CHS e PV


 Tecle 1,6 (remuneração líquida dos títulos públicos naquela data) e
aperte ¨i¨
 Digite 24 (número de meses) e tecle ¨n¨
 Aperte FV
 Resultado 105.385,65

Se ao invés de comprar o imóvel, que ainda terá despesas de escritura, IPTU e


condomínio, até que realize a sua venda, tivéssemos adquirido o seu valor em

135
títulos públicos, que naquela época proporcionava um rendimento líquido de
1,6% ao mês, o resultado, após dois anos, seria de um montante de R$
105.385,65 (cento e cinco mil, trezentos e oitenta e cinco reais, e sessenta e
cinco centavos), sem contar que o resgate dos títulos pode ser efetuado todas
as quartas-feiras, com excelente liquidez. A diferença de quem faz um bom
negócio eventual, para uma pessoa que fica realmente rica, é conseguir
maximizar a rentabilidade que obtêm dos investimentos que faz. Não podemos
deixar de mostrar que, em janeiro de 2003, a rentabilidade dos títulos caiu para
1,13% ao mês, com tendência de diminuir ainda mais. Mas a análise ainda é
simples. Compare a retorno mensal líquido dos investimentos do mercado
financeiro com a aquisição do imóvel, conforme fizemos acima, e tome sua
decisão.

Outra boa oportunidade para aquisição de imóveis são os leilões realizados


pela Caixa Econômica Federal, provenientes da retomada de mutuários
inadimplentes. O maiores cuidados que devemos ter são o de conferir,
primeiramente, e se ele está desocupado, e posteriormente, em uma visita, o
seu estado de conservação. Em 1998, ajudei a uma amiga a adquirir um
apartamento através deste procedimento, pois ela recebeu uma herança e
desejava realizar o sonho da casa própria. Confesso que deu bastante
trabalho, mas ela ficou muito satisfeita com o negócio que conseguiu.

Começamos indo a uma agência da CEF, solicitando um edital do próximo


leilão de imóveis a ser realizado. Selecionamos os que a interessavam e
começamos nossa peregrinação. Visitamos, aproximadamente, de quinze a
vinte apartamentos, nos mais diversos bairros de Goiânia, que propiciou-nos
um grande aprendizado. Verificamos que, em imóveis ocupados, os porteiros
eram orientados, provavelmente pelos moradores, a não permitir a visita de
interessados em comprá-lo, sendo que, algumas vezes, conseguimos que ele
interfonasse, mas não éramos autorizados a subir. Pensando bem, deve ser
uma experiência bastante desagradável visitar um apartamento com a pessoa
que se considera proprietária, e muitas vezes lesada, lá dentro. É importante
salientar que a CEF não se responsabiliza pela retirada dos moradores, ficando
esse problema totalmente nas mãos do comprador.

Comprovamos, ainda, uma variação muita grande na conservação dos imóveis,


variando de regular, em alguns casos, para muito ruim, em outros. Concluímos
que, ao perceber que perderia o apartamento, os moradores descuidavam de
sua manutenção, que ia desde lâmpadas, piso, chuveiro, armários, torneiras,
pintura, portas, fechaduras, a forro dos banheiros. Em alguns casos, parecia
existir, até mesmo, uma depredação proposital, como forma de prejudicar o
credor.

Finalmente, sobraram dois imóveis, que preenchiam as expectativas da minha


amiga, referentes a localização, preço e conservação. O problema é que,
provavelmente, eles também serviriam a outros compradores, sendo
necessário, então, uma estratégia de compra. O maior obstáculo era o depósito
inicial exigido pela CEF para oferecer um lance pelo apartamento, fizemos as
contas e vimos que ela só possuía recursos suficientes para participar de
somente um leilão. Nova seleção, optando por oferecer um lance de R$

136
29.500,00 (vinte e nove mil e quinhentos reais), em um imóvel de preço mínimo
de R$ 28.000,00 (vinte e oito mil reais), ou seja, um ágio de 5,36%. Você pode
perguntar o porque de não arredondar logo para 5%, mas foi essa pequena
diferença que garantiu a vitória para minha amiga, ou seja, a maioria das
pessoas que conheço tem o costume de arredondar os números, e essa foi a
estratégia vencedora.

Com as despesas de escritura, bem como as reformas que eram necessárias,


o custo final ficou em, aproximadamente, R$ 36.000,00 (trinta e seis mil reais),
mas o imóvel ficou novinho, do jeito que minha amiga sonhava em ter. Hoje,
cinco anos e meio depois, podemos fazer uma análise do investimento, ou
seja, se foi um bom ou mau negócio. Vamos começar imaginando o aluguel de
um apartamento de R$ 29.500,00 (vinte e nove mil e quinhentos reais), por
0,7% do seu valor, e reajustado a 7% ao ano, comparando com o valor atual do
imóvel, estimado entre R$ 55.000,00 (cinqüenta e cinco mil reais) e R$
60.000,00 (sessenta mil reais), observe as contas.

 Digite 36000 (investimento total) e tecle CHS e PV


 Insira 66 (número de meses) e aperte ¨n¨
 Informe 60000 (valor atual) e tecle ¨FV ¨
 Aperte ¨i¨ (retorno do investimento)
 Resultado 0,78

Verificamos que, ao final de cinco anos e meio, a rentabilidade do investimento


foi de 0,78% ao mês. E se ela tivesse alugado o imóvel, obtendo uma taxa de
ocupação de 83% ao ano, equivalentes a dez meses, nas condições acima,
qual seria o retorno obtido? Confira o cálculo:

 Digite 36000 (investimento total) e tecle CHS ¨g¨ e CFO


 Digite 250 (aluguel no primeiro ano) e tecle ¨g¨ e CFJ
 Insira 10 (número de meses de aluguel) e tecle ¨g¨ e NJ
 Digite 267 (aluguel corrigido) e tecle ¨g¨ e CFJ
 Insira 10 (número de meses) e tecle ¨g¨ e NJ
 Digite 286 (aluguel corrigido) e tecle ¨g¨ e CFJ
 Insira 10 (número de meses) e tecle ¨g¨ e NJ
 Digite 306 (aluguel corrigido) e tecle ¨g¨ e CFJ
 Insira 10 (número de meses) e tecle ¨g¨ e NJ
 Digite 327 (aluguel corrigido) e tecle ¨g¨ e CFJ
 Insira 10 (número de meses) e tecle ¨g¨ e NJ
 Digite 350 (aluguel corrigido) e tecle ¨g¨ e CFJ
 Insira 6 (meses restantes) e tecle ¨g¨ e NJ
 Insira 60000 (valor atual do imóvel) e tecle ¨g¨ e CFJ
 Aperte ¨f¨ e IRR
 Resultado 1,53

Ao inserirmos o valor do aluguel no cálculo, a rentabilidade aumenta de 0,78%


para 1,5% ao mês, um crescimento de 96%, comparativamente a análise
anterior. Observe que, neste cálculo, utilizamos novas funções da calculadora
HP 12c. Na verdade, o que acabamos de fazer, foi um fluxo de caixa, que levou
em consideração os desembolsos, que é o investimento inicial, e as entradas

137
de caixa, constituídas pelo aluguel e a venda do imóvel depois de cinco anos e
meio. Algumas teclas da calculadora possuem, até mesmo, três funções,
identificadas pelas cores branca, laranja e azul. Ao selecionarmos a tecla ¨f¨,
estamos informando que utilizaremos as funções descritas pela cor laranja, e a
tecla ¨g¨ é responsável pelas funções azuis, fora isso, são utilizadas as funções
brancas, que não precisam ser selecionadas.

Vamos, agora, para outra hipótese. E se minha amiga considerasse o valor que
ela pagaria de aluguel, quanto esse dinheiro representaria ao final de cinco
anos e meio, considerando os mesmos valores utilizados para a rentabilidade
do imóvel? Observe o resultado na figura ....

Taxa de Valor no final


Parcela Meses Períodos Valor final
Juros dos meses
R$ 250,00 12 1,6% R$ 3.278,60 54 meses R$ 7.725,89
R$ 267,00 12 1,6% R$ 3.501,54 42 meses R$ 6.820,16
R$ 286,00 12 1,6% R$ 3.750,72 30 meses R$ 6.038,46
R$ 306,00 12 1,6% R$ 4.013,01 18 meses R$ 5.340,19
R$ 327,00 12 1,6% R$ 4.288,41 06 meses R$ 4.716,92
R$ 350,00 6 1,6% R$ 2.184,81 - R$ 2.183,81
Total atualizado R$ 32.825,43
Figura ....: Investimento do aluguel do imóvel

Notamos que, considerando os doze meses de aluguel, como se fossem


aplicados em parcelas mensais, à taxa de juros de 1,6% ao mês, e depois
considerando esse montante, corrigido novamente pelo número de meses para
completar os cinco anos e meio do período de aquisição do imóvel, verificamos
que o total do aluguel desembolsado corrigido seria de R$ 32.825,43 (trinta e
dois mil, oitocentos e vinte e cinco reais, e quarenta e três centavos).
Considerando que o imóvel está avaliado, atualmente, entre R$ 55.000,00
(cinqüenta e cinco mil reais) e R$ 60.000,00 (sessenta mil reais), podemos
afirmar que, a soma do aluguel atualizado, que ela deixou de pagar em cinco
anos e meio, mais o valor máximo que pode ser alcançado pela venda do
imóvel, representam R$ 92.825,43 (noventa e dois mil, oitocentos e vinte e
cinco reais, e quarenta e três centavos). Mesmo assim, será que foi um bom
negócio? Confira as contas abaixo:

 Digite 36000 (investimento total) CHS e PV


 Tecle 66 (número de meses equivalentes a cinco anos e meio) e tecle
¨n¨
 Insira 1,6 (taxa de juros) e tecle ¨i¨
 Aperte FV
 Resultado 102633,04

Novamente nos deparamos com uma informação bastante interessante. Ao


compararmos a aplicação do valor investido na compra e reforma do
apartamento, pelo período de cinco anos e meio, igual a R$ 102.633,04 (cento
e dois mil, seiscentos e trinta e três reais, e quatro centavos), com o valor
obtido com o aluguel corrigido somado ao valor atual do imóvel, encontramos
uma diferença de R$ 9.807,62 (nove mil, oitocentos e sete reais, e sessenta e
dois centavos). Constatamos que, afora a satisfação de morar em um imóvel

138
próprio, do ponto de vista do retorno do investimento, seria melhor pagar
aluguel e aplicar o dinheiro em oportunidades no mercado financeiro, neste
exemplo da minha amiga.

Estou lhe dando estes exemplos para análise, mas na verdade, o que desejo
realmente, não é que você aplique-os literalmente nos negócios imobiliários
que for realizar, mas que adapte o raciocínio para cada situação que aparecer.
O mercado imobiliário oferece, a cada dia, uma gama maior de produtos para
investimentos, como flats, apartamentos em hotéis, fundos imobiliários, e
condomínios fechados, além dos tradicionais apartamentos, casas, lojas, lotes,
áreas, galpões, armazéns, galerias, lojas em shopping e escritórios. Pense
sempre no modelo de fluxo de caixa, onde a aquisição, reforma, impostos
iniciais, escritura e outros gastos que podem aparecer são os desembolsos, e
os aluguéis, juntamente com o valor de venda do imóvel, depois de
determinado período, correspondem as entradas de caixa.

Conheço várias pessoas que deixam de realizar bons negócios por apego a
seus imóveis, tratando-os como membros ¨honorários¨ de sua família. Lembro-
me de um ex-patrão, extremamente inteligente, e muito rico, conversando com
um amigo em seu escritório, em uma cena que tive a oportunidade de
presenciar. Naquela ocasião, ele afirmou que ¨tudo que é seu, eu compro, e
tudo que é meu, eu vendo¨, não sei se é ele o autor da frase, mas fiquei
pensando sobre o seu significado e aprendi com ele que o importante, em se
tratando de negócios, é ganhar dinheiro, e, normalmente, nosso lado afetivo
não costuma ser um bom conselheiro em assuntos financeiros.

Os imóveis, em sua maioria, apresentam uma característica bastante


interessante. Eles sofrem os impactos das mudanças que ocorrem no ambiente
ao seu redor. Benefícios como asfalto, água, esgoto, escolas, creches,
shoppings, avenidas, ou qualquer outro, afetam positivamente o seu valor,
principalmente no momento que começam a ser construídos, pois,
posteriormente, essa valorização é diluída com o tempo. Isso quer dizer que os
imóveis apresentam uma curva de valorização, que se acentua no momento
em que boas notícias são produzidas, sendo este, normalmente, o melhor
momento para sua venda, e a realização de seus lucros. Não se aferre a idéia
de que ele ainda pode valorizar ainda mais, estabeleça um valor, e quando
alcançá-lo, venda sem o menor peso de consciência, não se atormente
pensando em quanto poderia ter ganho, mas console-se em saber o quanto
ganhou.

Atualmente, tenho pensado com carinho a possibilidade de investir em imóveis.


Com a tendência de queda dos juros, juntamente com a estabilidade
econômica, quem quiser aumentar os seus ganhos deverá tentar investimentos
em renda variável, como bolsa de valores, que apresenta um bom nível risco,
ou estar atento para oportunidades que surjam em negócios com imóveis. Por
isso, vou lhe passar algumas dicas, que aprendi conversando com investidores
que colocam seu dinheiro nesta modalidade de aplicação:

1. Ao comprar lotes, prefira bairros que estão em processo de


consolidação e que, de preferência, ainda não possuam infra-estrutura

139
instalada. Procure as avenidas, e, principalmente, qual será o trajeto da
linha de ônibus, que proporcionam uma maior valorização do imóvel;
2. Em caso de apartamentos na planta, verifique se o empreendimento
possui seguro de obra, ou seja, se a construtora quebrar, outra assume
sem nenhum ônus para o investidor. Em um país que a maior empresa
deste segmento quebrou, deixando um monte de gente a ver navios,
cuidado nunca é demais;
3. Verifique nos cartórios se os imóveis não estão penhorados ou em litígio
judicial, ou se os proprietários possuem as certidões negativas de débito
fornecidas pelo cartório local;
4. Visite o órgão responsável pelo planejamento de sua cidade, estude as
áreas que sofrerão mudanças drásticas com obras públicas, como
saneamento, avenidas, hospitais ou escolas, dentro do prazo que está
disposto a investir, e procure imóveis nestas regiões;
5. Fique de olho em leilões de imóveis recebidos como pagamento de
dívidas por instituições financeiras, você pode encontrar boas
oportunidades de negócios nestes eventos;
6. Acompanhe os editais de leilões da CEF, visite os imóveis, faça uma
avaliação e ofereça seu lance, na pior das hipóteses, você vai perder um
pouco do seu tempo, mas ganhará o aprendizado com a experiência;
7. Não confie, somente, na avaliação dos corretores. Converse com
vizinhos, síndicos, porteiros, pergunte se alguém vendeu algum imóvel
naquela região recentemente, quem foi o comprador, quanto pagou, ou
qualquer outra informação que possa lhe ajudar na avaliação do
investimento que irá realizar.

Essas são apenas algumas dicas. Se você quer saber mais sobre
investimentos em imóveis, leia Seu Imóvel, de Mauro Halfeld, onde ele
apresenta uma série de observações sobre as vantagens e desvantagens em
cada modalidade de investimentos imobiliários, e lembre-se, conhecimento
nunca é demais.

140
6 Conclusão
Não acredito que a quantidade de dinheiro que cada um possui possa
influenciar em seu caráter, ou justificar suas atitudes. Cada um constrói a sua
história, deixando boas ou más lembranças nas pessoas que tiveram a
oportunidade de cruzar em seu caminho.

O seu conceito de felicidade, de satisfação, de prazer é individual. Para mim, é


impossível ser feliz se esse sentimento for conseguido com a infelicidade dos
outros, já para outras pessoas, talvez, isso seja um simples detalhe. De
qualquer maneira, não é o fato de ser rico, ou pobre, que determinará se serei
uma pessoa melhor.

Todos nós conhecemos, ou já ouvimos falar, de alguém que era extremamente


rico, e conseguiu falir, ou um pobre que enriqueceu, servindo de exemplo em
conselhos para as atitudes que tomamos, ou os caminhos que escolhemos.

Não existe fórmula mágica, ou atalho, para quem deseja ser ético, praticar a
honestidade e contribuir para o avanço da sociedade. Não há nada de errado
em ter dinheiro, mas lembre-se: dinheiro é um meio, não um fim. Devo buscar
conquistá-lo para que, através dele, melhore a qualidade de vida de quem amo,
e contribua com aqueles que necessitam. Se pensar que dinheiro é um fim,
serei capaz de qualquer coisa para tê-lo, e esse é o primeiro passo para a
infelicidade.

Não se preocupe em ter dinheiro. Trabalhe, poupe, invista, e ele fluirá


naturalmente para suas mãos. Se você possui uma ambição acima do normal,
o caminho é o mesmo, somente os riscos que correrá é que serão maiores, e
te cobrarão um preço por isso. Do mesmo modo, se buscar consegui-lo por
outros caminhos, você será rico do mesmo jeito, mas posso te garantir que a
satisfação não será a mesma.

Finalmente, digo-lhe a palavra final: não enriqueça com a pobreza dos outros.
Lute para que todos tenham condições dignas de sobrevivência, ensine,
compartilhe seus conhecimentos, socialize suas experiências, pois, somente
assim, construiremos um lugar melhor para nós e nossos filhos. Boa sorte!!!

141
Contatos:

 Associação Nacional da Previdência Privada (Anapp) – (21) 507-3112 –


www.anapp.com.br
 Associação Nacional dos Bancos de Investimentos (Anbid) – (21) 533-
1130 – www.anbid.com.br
 Banco Central do Brasil (BACEN) – 0800-992345 – www.bcb.gov.br
 Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) – (11) 3233-2000 –
www.bovespa.com.br
 Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) – (11) 3119-2000 –
www.bmf.com.br
 Breno Xavier de Brito – www.breno.adm.br
 Comissão de Valores Mobiliários (CVM) – (21) 212-0200 –
www.cvm.gov.br
 Secretaria da Previdência Complementar (SPC) – (61) 317-5260 –
www.mpas.gov.br
 Secretaria da Receita Federal – www.receita.fazenda.gov.br

142
Leituras Recomendadas

FRANKENBERG, Louis. Seu futuro financeiro: você é o maior responsável.


São Paulo: Ed. Campus. 2002.

___________________. Guia prático para cuidar de seu orçamento. São


Paulo: Ed. Campus. 2002.

HALFELD, Mauro. Investimentos: como administrar melhor seu dinheiro. São


Paulo: Ed. Fundamento. 2001.

______________. Seu imóvel: como comprar bem. São Paulo: Ed.


Fundamento. 2002.

KIYOSAKI, Robert T.; LECHTER, Sharon L. Pai rico, pai pobre. São Paulo: Ed.
Campus. 2000.

___________________________________. Independência financeira: o guia


do pai rico. São Paulo: Ed. Campus. 2001.

GITMAN. Lawrence. Fundamentos da administração financeira. São Paulo:


Ed. Harbra. 2000.

BRAGA. Roberto. Administração financeira e orçamentária. São Paulo: Ed.


Atlas. 1996.

CARDOSO. Alberto L.; BRITO. Breno X. Administração financeira e


orçamentária – livro didático. Goiânia: Ed. UCG. 2001.

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