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CENTRO UNIVERSITÁRIO ESTÁCIO SÃO PAULO

Curso de Direito

DIREITO CULTURAL

EBERTON FELIPE DA SILVA FERREIRA


JONAS THIERRE BABILAS DE MARCO
ROBSON CHARLES DOS ANJOS DOMINGUES
ROGERIO FIRMINO SOARES
ROSANA MARIA PEIXOTO
ROSEMEIRE INACIA DE FREITAS
VITORIA APARECIDA DA SILVA
WILSON DE AZEVEDO COSTA

SÃO PAULO
2019
EBERTON FELIPE DA SILVA FERREIRA
JONAS THIERRE BABILAS DE MARCO
ROBSON CHARLES DOS ANJOS DOMINGUES
ROGERIO FIRMINO SOARES
ROSANA MARIA PEIXOTO
ROSEMEIRE INACIA DE FREITAS
VITORIA APARECIDA DA SILVA
WILSON DE AZEVEDO COSTA

DIREITO CULTURAL

Trabalho acadêmico apresentado ao Centro


Universitário Estácio São Paulo, Curso de
Direito, como requisito para composição de
nota da disciplina de Direito Constitucional I.

Orientadora: Profa. Roberta Candido da Silva

SÃO PAULO
Campus Interlagos
2019.2
RESUMO

O presente trabalho analisou a parte histórica e normativa sobre a cultura


em nosso país, como fator de desenvolvimento sociocultural, miscigenação de
povos, tratados internacionais e políticas públicas aplicadas como meio de incentivo.
A metodologia utilizada consistiu em uso de pesquisa em livros didáticos,
abrangendo conteúdos informatizados através dos sites dos órgãos públicos, além
de artigos acadêmicos. Ademais, possibilitou a investigação do que realmente é
aplicado em nosso cotidiano. É preciso observar que os resultados obtidos na
referida síntese, não tem por objetivo esgotar as pesquisas e muito menos o
assunto.

Palavras-chave: Conceito de cultura. Importância para o individuo. Patrimônio


material. Patrimônio Imaterial. Colonialidade. Direitos culturais. Políticas públicas.
Impacto das leis.
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................................................... 6
2 CONCEITO DE CULTURA ....................................................................................................................... 7
3 A IMPORTÂNCIA DA CULTURA PARA OS INDIVÍDUOS ......................................................................... 9
4 A CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988 E OS DIREITOS CULTURAIS ....................................................... 10
5 PATRIMÔNIO CULTURAL .................................................................................................................... 11
5.1 O patrimônio material ................................................................................................................. 11
5.2 O patrimônio imaterial ................................................................................................................ 12
5.3 A importância do patrimônio cultural ....................................................................................... 12
5.4 A responsabilidade sobre o patrimônio cultural ........................................................................ 12
6 A COLONIALIDADE DO PATRIMÔNIO CULTURAL DO BRASIL ............................................................. 13
7 DIREITO CULTURAL............................................................................................................................. 15
7.1 Declaração Universal dos Direitos Humanos .............................................................................. 16
7.2 Pacto internacional sobre direitos econômicos, sociais e culturais. .......................................... 17
7.3 Notícias ........................................................................................................................................ 19
8 POLÍTICAS PÚBLICAS CULTURAIS E LEIS DE FOMENTO À CULTURA................................................... 20
9 CULTURA COMO POLÍTICA PÚBLICA .................................................................................................. 21
10 POLÍTICAS PÚBLICAS CULTURAIS ..................................................................................................... 22
10.1 Diferenças: política de eventos culturais e política cultural stricto sensu. .............................. 23
11 PLANO NACIONAL DE CULTURA (PNC) ............................................................................................ 24
11.1 Como o PNC foi elaborado ...................................................................................................... 24
11.2 Prazo de vigência do Plano Nacional de Cultura ...................................................................... 25
11.3 Eixos norteadores do Plano Nacional de Cultura ...................................................................... 25
11.4 Responsabilidades pela execução do Plano Nacional de Cultura ............................................. 25
11.5 Monitoria e avaliação do PNC ................................................................................................... 26
11.5.1 Revisão do Plano Nacional de Cultura (PNC) ..................................................................... 27
11.5.2 Adesão ao Plano Nacional de Cultura ................................................................................ 28
12 ESTRUTURA DO SISTEMA NACIONAL DE CULTURA (SNC) ............................................................... 28
13 O CONSELHO NACIONAL DE POLÍTICA CULTURAL (CNPC) ............................................................... 29
14 PROGRAMA NACIONAL DE APOIO À CULTURA (PRONAC) .............................................................. 30
14.1 O incentivo à cultura na Lei Rouanet ...................................................................................... 30
14.2 Mecanismos de financiamento ................................................................................................. 31
14.2.1 Fundo Nacional da Cultura (FNC) ....................................................................................... 31
14.2.2 Fundos de Investimento Cultural e Artístico (FICART) ....................................................... 32
14.2.3 Incentivo a Projetos Culturais (incentivo fiscal/mecenato) ............................................... 33
15 IMPACTOS SOCIAIS DA LEI ROAUNET .............................................................................................. 34
15.1 Benefícios da Lei ........................................................................................................................ 34
15.2 Pontos polêmicos ...................................................................................................................... 35
15.3 Atuais mudanças na Lei Rouanet .............................................................................................. 36
16 CONCLUSÃO ..................................................................................................................................... 36
17 REFERÊNCIAS .................................................................................................................................... 38
Ary Barroso......................................................................................................................................... 39
1 INTRODUÇÃO

Da canção Aquarela do Brasil de Ary Barroso, destacam-se os versos:

“Meu Brasil brasileiro, meu mulato inzoneiro”, “Vou cantar-te nos meus versos/O
Brasil samba que dá/ bamboleio que faz girar”. ¹

As marcas de um povo, suas significações e relações e a importância de


perpetuar suas tradições.
A luz do conceito de cultura, este trabalho tem por finalidade, aprofundar os
conhecimentos referentes ao Direito Cultural, sem contudo, ter a pretensão de se
esgotar o assunto, mas, de suscitar reflexão à respeito das garantias estabelecidas
em nossa Carta Magna e das políticas públicas adotadas pelo Estado.
O significado da identidade de um povo, o processo de colonização cultural
do Brasil, a diversidade e a pluralidade cultural, também serão aspectos abordados,
objetivando analisar as dificuldades da implementação das normas de fomento à
cultura, bem como da equidade na aplicação destas.
Foram realizadas pesquisas bibliográficas, documentais, além de
informatizadas, que elucidaram sobre como é a cultura em nosso país, as normas
garantidoras e seus impactos sociais.

_________________

¹ BARROSO, Ary. ”Aquarela do Brasil”. Odeon. 1939


2 CONCEITO DE CULTURA

O conceito de “cultura” é muito amplo e teve alguns significados ao logo da história


da humanidade.
Enquanto no século XI, a palavra “cultura” referia-se “ação de cultivar
plantas”, ligado à agricultura, na Era Renascentista (meados do século XVI), os
humanistas usaram a palavra de forma figurativa para a “cultura do espírito”.
É uma definição complexa que faz parte do nosso cotidiano. Refere-se ao
“conjunto de conhecimentos, valores, símbolos, tradições, ideias, costumes e
práticas” que se tornam características de um grupo, seja ele familiar, social, étnico,
religioso e assim por diante.
Esse conhecimento nem sempre é formal. Ninguém precisou fazer um curso
para aprender a cultura de seu próprio povo. Ela foi transmitida para as gerações
seguintes no cotidiano: na conversa, nas atividades diárias, nas festas e
comemorações, no exemplo das outras pessoas.
De uma forma completamente diferente do que muitos pensam, não existem
pessoas com mais ou menos cultura, ou mesmo culturas inferiores ou superiores.
Toda sociedade possui um conjunto único de valores, que foi construído através de
sua história e deve ser compreendido e respeitado.
No século XVIII, o conceito de cultura se amplia e passa a se relacionar com
as artes, as ciências, a filosofia, a vida moral e política, as técnicas e ofícios e a vida
moral. A cultura passa a ser entendida como “qualidade”, algo que possa ser medido
e “o nível de cultura” vai determinar a superioridade de umas civilizações sobre
outras. Por exemplo: um determinado tipo de música vai ser superior à outra, as
culturas sofrem comparações qualitativas.
A definição de cultura sofreu variações ao longo do tempo, enquanto que no
século XIX o termo se referia ao acúmulo de conhecimentos acadêmicos e gostos
estéticos, servindo para diferenciar a cultura europeia das demais, no século XX o
conceito passou a ser associado ao conjunto de crenças, valores, princípios, ações,
falas e objetos de vários tipos que caracterizam uma sociedade, sem o
estabelecimento de hierarquia entre elas.
Para Miguel Reale:

“A personalidade de um povo nos é dada, em suma, pela sua forma peculiar de


cultura, que, apesar, da universalização crescente dos conhecimentos, põe um sinal
próprio e distinto nas criações diversas do Direito, da Arte e da Ciência”.²

A cultura de uma sociedade direciona e embasa suas leis, atua na sua


construção e constrói todas as teias sociais que compõem a democracia, a
cidadania e o cidadão.

A noção de cultura na Constituição Federal de 1988 é sempre talhada


segundo articulações valorativas de sentido, sendo referida em diversas acepções,
como: bem, patrimônio, valor, ação, produto, status de desenvolvimento social, e até
mesmo sendo homologada às ideias de idoneidade moral e etnia.

No instante em que o enunciador constituinte afirma que será garantido à


todos o pleno exercício dos “direitos culturais”, o que ele faz é afirmar que a cultura é
objeto do direito. É um bem. A noção jurídica de “bem” compreende toda utilidade,
física ou ideal, que possa incidir na faculdade de agir do sujeito, isto é, abrange as
“coisas” propriamente ditas, suscetíveis de apreciação pecuniária, e as que não
comportam essa avaliação. Desse modo, num primeiro momento, a cultura, segundo
os desígnios da Constituição da República, corresponderia, nos moldes acima
alinhavados, a um dos objetos do direito, passível ou não de apreciação pecuniária.
De acordo com a teoria do culturalismo jurídico, o direito é um produto da
cultura, ou seja, o direito é um fenômeno complexo resultante de fato, valor e norma.

Assim sendo, não se entende a norma por si só, mas pelo valor que é
agregado e dentro do seu conjunto cultural.
Partindo desta premissa, compreendemos que o Direito é, então, produto
cultural, que, a partir da convivência social, surge em conformidade com os valores
de determinada cultura.
Nesse viés, o Direito Cultural é o ramo do Direito que se relaciona
especificamente com o estudo da cultura e do patrimônio cultural, sendo os bens e
as prestações o próprio objeto do direito.

________________

REALE, Miguel. Horizontes do Direito e da História. 3. Ed. ver. e aum.- São Paulo: Saraiva, 2000.
3 A IMPORTÂNCIA DA CULTURA PARA OS INDIVÍDUOS

Mais do que uma característica essencial de uma sociedade, a cultura pode


ser considerada como o elemento principal que difere uma nação de outra. Os
costumes, a música, a arte e, principalmente, o modo de pensar e agir faz parte da
cultura de um povo e devem ser preservados para que nunca se perca a
singularidade do coletivo em questão. A palavra cultura deriva do latim, colere, que
tem como significado literal “cultivar”.
Partindo desse princípio, percebemos que se trata de uma herança
acumulada ao longo dos anos, e que deve ser preservada. Cada pessoa
pertencente a uma determinada nação agrega valores culturais, os quais a levarão a
fazer ou expressar-se de forma específica. Esse mecanismo de adaptação é um dos
principais elementos da cultura, e torna-se ainda mais importante quando se alia ao
fator cumulativo.
As modificações que se desenvolveram e que foram trazidas por uma
geração passam para a geração seguinte, e se implementam ao melhorar aspectos
para futuras gerações. Durante muito tempo, o termo cultura foi estudado e acabou
sendo dividido em algumas categorias:
Cultura segundo a Filosofia: trata-se de um conjunto de manifestações
humanas, de interpretação pessoal, e que condizem com a realidade.
Cultura segundo a Antropologia: o termo deve ser compreendido como uma
soma dos padrões aprendidos, e que foram desenvolvidos pelo ser humano.
Cultura Popular: associa-se a algo criado por um determinado grupo de
pessoas que possuem participação ativa nessa criação. Música, arte e literatura são
exemplos que podem ser utilizados.
Por ser um agente forte de identificação pessoal e social, a cultura de um
povo se caracteriza como um modelo comportamental, integrando segmentos
sociais e gerações à medida que o indivíduo se realiza como pessoa e expande
suas potencialidades. Entretanto, é necessário lembrar que essa percepção
individual tem grande influência por parte do grupo. As escolhas selecionadas ou
valorizadas pelo grupo tendem a ser selecionadas na percepção pessoal. Além
disso, a cultura possui quatro processos que têm participação ativa na influência do
indivíduo:
O Agente Cultural: Seja qual for à forma de expressão artística que ele
promove, trata-se de alguém que se sente valorizado pelo que é capaz de fazer e,
mesmo na velhice, é muitas vezes procurado para transmitir seus conhecimentos
aos mais jovens.
O Propagador Cultural: É aquele que não cria, mas que valoriza e ajuda a
difundir determinados tipos de arte. Muitas vezes, dedica sua vida a esse propósito.
Dentro desse grupo, estão incluídos os indivíduos que compram e comercializam
produtos culturais.
O Espectador Cultural: Grupo formado por pessoas que não criam e nem
difundem a arte, mas que são apreciadores do gênero e que se identificam com
outros de pensamento semelhante. Um exemplo do gênero e que pode ser citado é
a formação dos fã-clubes, que interagem entre si promovendo o ídolo de diversas
maneiras.
O Alienado Cultural: Trata-se de alguém ou determinado grupo que
denuncia as formas de expressão cultural. Presente muitas vezes em regimes
ditatoriais evidencia a exclusão social e oprimem movimentos artísticos menos
poderosos, mas, nem por isso, com menos influência na sociedade.
A identidade cultural, em níveis diferentes, constrói a consciência do povo.
Isso ocorre devido à necessidade de comunicação, e aquele que se comunica o faz
por meio de certos meios e formas.
Um dos objetivos de democratizar a cultura é aumentar o acesso aos bens
culturais que já existem, possibilitando que as pessoas possam desenvolver o seu
próprio modo de ser e participar da comunidade como um todo.
O acesso à cultura depende de alguns aspectos específicos:
Acesso físico permite a melhor distribuição dos equipamentos culturais, e
também possibilita o transporte de todas as pessoas, independentemente de onde
residam (periferia, subúrbio, centro);
Acesso econômico está relacionado aos custos de participar dos eventos
culturais de uma cidade ou comunidade, portanto, deve-se pensar na relação custo-
benefício entre a criação e o consumo artístico;
Acesso intelectual, que é responsável pela compreensão do produto
artístico, formando públicos e agentes culturais.
O Brasil possui uma vasta herança cultural, e um exemplo disso se encontra
nas artes visuais. Na pintura, desde o estilo barroco foi desenvolvida uma tradição
relacionada à decoração de igrejas, e muito pode ser visualizado nos centros
nordestinos e no Estado de Minas Gerais.
Com a ascensão do Modernismo no século 20, o país acompanhou uma
onda de renovação trazida por artistas como Di Cavalcanti, Portinari e Tarsila do
Amaral. Já no campo da escultura, o país também possui referências importantes,
como Rodolfo Bernardelli e Amilcar de Castro, muito influenciados pelas obras de
Aleijadinho.
Toda essa diversidade histórica do país, aliada a obras musicais e literárias,
nem sempre é direcionada à população como deveria. Entretanto, algumas
entidades existentes facilitam o acesso das pessoas à cultura.
Em 1940 foi concebido o Sistema S, conjunto de instituições criadas por
empresários as quais são alimentadas com recursos dos setores correspondentes,
revertidos para o bem-estar e a formação do trabalhador.
Em 1946 foi desenvolvido o Serviço Social do Comércio (SESC), empresa
privada sem fins lucrativos, mantida por empresários de bens, comércio e serviços.
O SESC se caracteriza por ser uma das maiores empresas a investir em áreas como
educação, esporte, lazer e, principalmente, cultura. Sua abrangência também tem
grande contribuição para que isso ocorra, visto que várias unidades estão
espalhadas por todo o território nacional. A instituição prioriza locais próximos a
terminais de ônibus ou a estações de metrô, viabilizando e facilitando o acesso dos
visitantes. Diversos eventos, como peças de teatro, exibição de filmes e shows,
também fazem parte das atividades culturais, sendo muitas vezes gratuitas para os
associados ou com preço acessível. Devido à dificuldade na coleta de dados
concretos sobre a produção e consumo cultural, o SESC desenvolveu recentemente
uma pesquisa visando a ampliar a investigação acerca dos hábitos e práticas
culturais do povo brasileiro. Segundo o portal, a pesquisa “Públicos de Cultura” foi
realizada pelo Serviço Social do Comércio (SESC) e a Fundação Perseu Abramo
por meio de 2.400 entrevistas em 139 municípios. A pesquisa retrata hábitos e
gostos culturais dos indivíduos entrevistados. Dentre os hábitos culturais são
analisados comportamento, disponibilidade e constância com a qual os abordados
produzem ou consomem cultura.
De acordo com os dados da pesquisa, de segunda a sexta-feira 58% dos
entrevistados ocupam seu tempo ocioso com atividades caseiras. Aos finais de
semana, 34% afirmam realizar atividades em casa, 34% procuram por atividades de
lazer e 9% se dedicam a práticas religiosas.
Com relação à produção cultural, os resultados mostram que uma pequena
parcela da população mostra-se comprometida com a ampliação cultural. Somente
15% alegam cantar individualmente ou em grupo, 13% se dedicam a dança e 10%
tocam algum instrumento. Ainda há atividades menos realizadas, como o teatro e a
expressão corporal, contando com apenas 1% dos entrevistados. Muitas das
pessoas em questão dizem se informar sobre as atividades que costumam participar
por meio de amigos ou pela mídia.
A escolha por expressões culturais como música, leitura, dança e artes
cênicas mostram o que é valorizado pelos brasileiros e onde buscam
entretenimento.
A cultura representa a expressão da diversidade da condição humana. Ela
compreende todas as ideias, os comportamentos, o conhecimento, a arte, as
crenças, as leis, a moral, os costumes e os padrões de conduta aprendidos,
adquiridos e transmitidos pelos indivíduos em sociedade.
Como representação de um complexo social é possível ser observada nos
mais distintos povos, variadas manifestações culturais. Assim a diferença é um
pressuposto básico à cultura e está presente no processo histórico de todas as
sociedades. Dessa maneira, seria possível inferir que na atual concepção de mundo
faz-se necessário, nas relações de Direitos Humanos e cultura, uma análise que
leve em questão o respeito à diversidade cultural.

4 A CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988 E OS DIREITOS CULTURAIS

A Constituição Federal brasileira, em seu artigo 215, prevê que o Estado


garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da
cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações
culturais.
No texto constitucional, é possível encontrar alguns exemplos do que a
doutrina especializada usualmente considera como espécies de direitos culturais.
São eles:
- o direito autoral (artigo 5º, XXVII e XXVIII),
- o direito à liberdade de expressão da atividade intelectual, artística, científica e de
comunicação (artigos 5º, IX, e 215, §3º, II),
- o direito à preservação do patrimônio histórico e cultural (artigos 5º, LXXIII, e 215,
§3º, inciso I);
- o direito à diversidade e identidade cultural (artigo 215, caput, § 1º, 2º, 3º, V, 242, §
1º); e
- o direito de acesso à cultura (artigo 215, §3º, II e IV).

5 PATRIMÔNIO CULTURAL

Podemos dizer que o Patrimônio Cultural de um povo, é o conjunto de bens


que contam a sua História e a sua relação com o meio ambiente.

O patrimônio cultural é inerente a todo e qualquer processo civilizatório e


deve ser preservado, valorizado e transmitido às gerações futuras.

O Brasil é um país de grande diversidade cultural, visto que vários grupos


étnicos e sociais participaram da nossa história e ofereceram diferentes
contribuições culturais, o que nos

De acordo com o Art. 216 da Constituição Federal Brasileira constituem


patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados
individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à
memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira.

5.1 O patrimônio material

São todas as manifestações culturais no território brasileiro, ou seja, as


festas, a musicalidade, comidas e bebidas, danças, as artes e artesanatos,
mitologias, narrativas, línguas e a literatura oral.

Podemos exemplificar como bens imateriais brasileiros : a festa do Círio de


Nossa Senhora de Nazaré, a Feira de Caruaru, o Frevo, a capoeira, o modo
artesanal de fazer Queijo de Minas e as matrizes do Samba no Rio de Janeiro.
5.2 O patrimônio imaterial

Patrimônio material é tudo aquilo que é palpável aos seres humanos e de


valor para o Estado e pode ser dividido em: a) bens imóveis (por exemplo: núcleos
urbanos, sítios arqueológicos e paisagísticos e bens individuais), b) bens móveis
(por exemplo: coleções arqueológicas, acervos museológicos, documentais,
bibliográficos, arquivísticos, videográficos, fotográficos e cinematográficos)..

5.3 A importância do patrimônio cultural

O patrimônio cultural se torna indispensável para determinada cultura, para a


sua preservação e também manutenção, bem como sua identidade cultural, que a
diferencia, conta sua história e conquistas, tornando-a única.

5.4 A responsabilidade sobre o patrimônio cultural

Nos termos do artigo 23 da CF/88, são da competência comum da União, dos


Estados, do Distrito Federal e dos Municípios: 1) proteger os documentos, as obras
e outros bens de valor histórico, artístico e cultural, os monumentos, as paisagens
naturais notáveis e os sítios arqueológicos; 2) impedir a evasão, a destruição e a
descaracterização de obras de arte e de outros bens de valor histórico, artístico e
cultural; e 3) proporcionar os meios de acesso à cultura, à educação e à ciência.

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) é uma


autarquia federal do Governo do Brasil, criada em 1937, vinculada ao Ministério da
Cidadania, responsável pela preservação e divulgação do patrimônio material e
imaterial do país, em parceria com os órgãos estaduais e municipais.

Os patrimônios culturais mundiais da humanidade (relevantes para todos)


recebem a proteção da UNESCO, órgão responsável pela educação, ciência e
cultura da Organização das Nações Unidas (ONU).
Qualquer cidadão dentro no território brasileiro, pode pedir que algum bem
cultural seja protegido pelos órgãos nacionais, o que será analisado pelos técnicos
que estudam o bem em questão e levam seu parecer para o Conselho do órgão
acionado.

6 A COLONIALIDADE DO PATRIMÔNIO CULTURAL DO BRASIL

Colonialidade foi um termo criado pelo Cientista Político, Professor e


Sociólogo Peruano Aníbal Quijano Obregón (17/11/1930 – 31/05/2018).
Quijano publicou diversos ensaios entre 1991 e 1994 na qual procura
demonstrar a diferença entre Colonialismo, que é um termo bem conhecido, e a
Colonialidade.
Para esse autor a Colonialidade se dá de uma forma sutil porém bem mais
duradoura, pois fica enraizada na cultura que foi colonizada.
Na Colonização há uma exploração dos recursos de uma determinada
região, através de mão de obra local, ou por povoamento ou mesmo extração da
riqueza. Para que haja colonização, normalmente utiliza-se da força militar e poder
econômico.
Na Colonialidade há uma perda de identidade cultural, o povo dominante,
suprime de forma sutil, através de valorização da cultura dominante, tais como
língua, músicas, leis, hábitos alimentares, religião e as mais diversas formas de
produção cultural.
Inicialmente, as definições de branco, negro, índio estavam relacionadas a
localização geográfica (Europa, África, América), e posteriormente com a
colonização e deslocamento desses povos, passou também a significar condição
social, classe e origem.
Dentro de um mesmo território, no Brasil, por exemplo, as camadas sociais
explicitam o fenótipo de seus cidadãos, ou melhor, o fenótipo é um forte indicador do
contexto social a qual aquele grupo foi submetido.
Com base nas leituras de Anibal Quijano, pode se chegar a conclusão que a
Colonialidade é fruto da modernidade, da concepção atual de evolução social, na
qual se perpetua, mesmo após o fim do processo de colonização.
A Colonialidade se estabelece tanto no aspecto do saber, na qual leva a ter
uma visão única de fonte de conhecimento, como no aspecto do ser, que seriam as
experiências vividas e visão de como funciona o mundo dos povos que foram
colonizados.
Esse processo ocorreu quando nossas produções literárias e acadêmicas
deixaram de retratar com profundidade os povos que aqui viviam a milhares de
anos.
Normalmente os índios são retratados de uma forma bastante simplória, da
qual não há um reconhecimento da sua identidade, cultura e história.
Também percebemos a influência europeia nos relatos históricos do Brasil
quando deixou-se de retratar diversos personagens que foram marcantes nas mais
diversas regiões do Brasil, pelo fato de não fazer parte de uma elite social.
Tais influências se perpetuam na história, não se restringe ao período de
colonização, pois até hoje nossos ancestrais índios não foram valorizados e até
mesmo na própria divisão da sociedade em classes.
No Brasil, atualmente, a colonialidade se expressa através do racismo,
homofobia, preconceito por nível social ou cultura ou até mesmo por negação das
nossas origens.
Se expressa também na dificuldade de acesso a informação, a cultura, no
analfabetismo completo ou funcional, na falta de políticas públicas de inclusão social
das minorias como os deficientes físicos, auditivos ou visuais.
Por outro lado, o Colonialismo trouxe não somente a colonialidade como
fruto, trouxe também muitos aspectos bastante positivos tais como:
Modernização de regiões extremamente subdesenvolvidas, trazendo
comercio, escolas, meio de transportes, prestações de serviços públicos, que antes
eram inacessíveis ou não existiam.
Sabemos que esses benefícios não são plenos e na periferia deixa a desejar
no quesito quantidade e qualidade, mas sem a modernidade e tecnologia vinda de
países mais modernos e influenciadores, tais benefícios eram totalmente
inacessíveis.
Temos ainda no Brasil a mesma língua falada num território bastante vasto,
essa característica favorece e muito a unidade territorial, fruto da colonização
portuguesa.
E por último vale destacar que a nossa Constituição e Leis tem forte
influência do sistema de leis italiano e adotado pelos portugueses e que trouxeram
para o Brasil, as Ordenações Filipinas.

7 DIREITO CULTURAL

O direito cultural, sob o âmbito internacional, se refere à interação entre as


divergências culturais de cada nação, ou seja, a forma que cada sociedade encontra
de se manifestar e preservar sua identidade, construindo um liame de identificação
entre todos os indivíduos que a compõe. Dessa forma, fazer parte de uma cultura é
estar integrado dentro desses parâmetros e se sentir pertencendo a essa sociedade.
Denota-se que tais direitos não só compõem a identificação de um coletivo
como, também, constroem a identidade do ser uma humano como um ser individual.
Quanto ao tema vejamos o entendimento do ilustre Dr. Humberto Cunha
Filho, no qual nos traz o seguinte conceito:
“… os direitos culturais são aqueles afetos às artes,
à memória coletiva e ao repasse de saberes, que
asseguram aos seus titulares o conhecimento e uso
do passado, interferência ativa no presente e
possibilidade de previsão e decisão de opções
referentes ao futuro, visando sempre a dignidade da
pessoa humana” - CUNHA FILHO, Francisco
Humberto. Os direitos culturais como direitos
fundamentais no ordenamento jurídico brasileiro.
Brasília: Brasília Jurídica, 2000, p. 34.

Portanto, é indubitável que tais direitos recaiam diretamente sobre a


liberdade de expressão dos povos, em qualquer aspecto, que seja no presente, no
processo de sua formação ou em sua consolidação formal.
Todavia, por mais sublime e essencial que tal direito represente sua
construção ao longo da história, se deu através de inúmeras guerras e genocídios
em massa, levando ao extermínio de inúmeras sociedades, e por consequência de
suas respectivas culturas, quase que sempre fundadas na ideologia de um povo ser
superior a outro, sendo o “direito” do povo tido como superior, levar seu semelhante
ao caminho tido como “correto”.
Como exemplo, basta lembrar a barbárie do nazismo no século XX, que teve
como principal fundamento ideológico a supremacia da raça ariana e,
principalmente, o antissemitismo. Por maior que tenha sido o movimento nazista,
não podemos atribuir somente a nossa história recente o fato de nações cometerem
verdadeiros extermínios uma para com as outras, esses eventos também eram
comum no mundo antigo, através dos movimentos de expansão dos impérios, como
por exemplo, as expansões do império Romano, nas quais inúmeros povos foram
massacrados ou escravizados, tendo sua identidade cultural proibida, e em muitos
casos considerada sua pratica como um crime.
Foi somente em 1945, através da Declaração Universal dos Direitos
Humanos que a matéria em questão recebeu a devida atenção internacional.
Estabelecendo como um requisito mínimo a liberdade de pensamento,
expressão e cultural que deve usufruir todos os seres humanos.
Com o intuito de evidenciar esse conceito, destacamos alguns artigos desse
notório instrumento jurídico, dos quais vejamos:

7.1 Declaração Universal dos Direitos Humanos


Artigo XVIII
Todo ser humano tem direito à liberdade de
pensamento, consciência e religião; este direito
inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a
liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo
ensino, pela prática, pelo culto e pela observância,
em público ou em particular.

Artigo XIX
Todo ser humano tem direito à liberdade de opinião
e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem
interferência, ter opiniões e de procurar, receber e
transmitir informações e ideias por quaisquer meios
e independentemente de fronteiras.

Artigo XX
1. Todo ser humano tem direito à liberdade de
reunião e associação pacífica.

2. Ninguém pode ser obrigado a fazer parte de uma


associação.

Artigo XXVII
1. Todo ser humano tem o direito de participar
livremente da vida cultural da comunidade, de fruir
das artes e de participar do progresso científico e de
seus benefícios.

2. Todo ser humano tem direito à proteção dos


interesses morais e materiais decorrentes de
qualquer produção científica literária ou artística da
qual seja autor.

E ainda, no âmbito internacional, temos o “Pacto Internacional sobre Direitos


Econômicos, Sociais e Culturais”, no qual lança um parâmetro para complementar
as diretrizes básicas, qual seja, as condições básicas para o usufruto desse direito,
estabelecendo desde seu preambulo tal objetivo, no qual vejamos:

7.2 Pacto internacional sobre direitos econômicos, sociais e culturais.

Preâmbulo
{...}
Reconhecendo que, em conformidade com a
Declaração Universal dos Direitos Humanos, o ideal
do ser humano livre, liberto do temor e da miséria,
não pode ser realizado a menos que se criem
condições que permitam a cada um gozar de seus
direitos econômicos, sociais e culturais, assim como
de seus direitos civis e políticos, {...}

Portanto, para alcançar tais objetivos, o Pacto Internacional sobre Direitos


Econômicos, Sociais e Culturais estabelece alguns parâmetros base para que tais
condições possam existir, como por exemplo, a responsabilidade do Estado para
regulamentar e zelar para a manutenção dos patrimônios culturais (art. 6°).
Dessa forma destacamos alguns artigos desse notório instrumento jurídico
que mais impactam em tal conceito, dos quais vejamos:
Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos,
Sociais e Culturais.

Artigo 1º
1. Todos os povos têm direito a autodeterminação.
Em virtude desse direito, determinam livremente seu
estatuto político e asseguram livremente seu
desenvolvimento econômico, social e cultural. {...}

Artigo 3º
Os Estados Partes do presente Pacto
comprometem-se a assegurar a homens e mulheres
igualdade no gozo de todos os direitos econômicos,
sociais e culturais enumerados no presente Pacto.

Artigo 6º
{...}
2. As medidas que cada Estado Parte do presente
Pacto tomará a fim de assegurar o pleno exercício
desse direito deverão incluir a orientação e a
formação técnica e profissional, a elaboração de
programas, normas e técnicas apropriadas para
assegurar um desenvolvimento econômico, social e
cultural constante e o pleno emprego produtivo em
condições que salvaguardem aos indivíduos o gozo
das liberdades políticas e econômicas fundamentais.

Artigo 15
1. Os Estados Partes do presente Pacto
reconhecem a cada indivíduo o direito de:

a) Participar da vida cultural;


b) Desfrutar o processo científico e suas aplicações;
c) Beneficiar-se da proteção dos interesses morais e
materiais decorrentes de toda a produção
científica, literária ou artística de que seja autor.

2. As Medidas que os Estados Partes do Presente


Pacto deverão adotar com a finalidade de assegurar
o pleno exercício desse direito incluirão aquelas
necessárias à convenção, ao desenvolvimento e à
difusão da ciência e da cultura.
3. Os Estados Partes do presente Pacto
comprometem-se a respeitar a liberdade
indispensável à pesquisa cientifica e à atividade
criadora.

4. Os Estados Partes do presente Pacto


reconhecem os benefícios que derivam do fomento e
do desenvolvimento da cooperação e das relações
internacionais no domínio da ciência e da cultura

Conforme consta no quadro abaixo podemos demostrar a evolução quanto a


adesão desse pensamento pelo mundo, e por mais que ainda existam países que
não participem desse pacto, percebemos uma evidente mudança no pensamento
mundial, haja vista que a maior parte dos ordenamentos jurídicos no mundo já
incorporam essas diretrizes.

Por fim, para que demonstre a eficácia dessas normas, evidenciamos a


seguinte reportagem:

7.3 Notícias

O Artigo 27 da Declaração Universal dos Direitos


Humanos (DUDH) ajudou a estabelecer as bases
para que crimes como este fossem reconhecidos
como crimes de guerra e, em um julgamento
histórico de setembro de 2016, o Tribunal Penal
Internacional (TPI) declarou Ahmad Al Faqi Al
Mahdi, membro da Ansar Dine, grupo armado que
opera no Mali, culpado do crime de guerra de atacar
edifícios históricos e religiosos em Timbuktu. Ele foi
condenado a nove anos de prisão.

Foi a primeira vez que a destruição de locais


culturais foi processada como um crime de guerra no
TPI, dando esperança de que mais casos judiciais
se seguiriam – especialmente para membros do
Estado Islâmico, que realizaram a destruição
arbitrária de uma ampla gama de monumentos
culturais e religiosos em territórios que outrora
detinha no norte do Iraque e na Síria.

O caso de Al-Mahdi foi o primeiro em que alguém foi


acusado de destruir a herança cultural como um
crime de guerra. Outros tribunais cobraram
indivíduos pela destruição criminosa de locais de
patrimônio cultural – incluindo a destruição da ponte
em Mostar – mas apenas como uma ofensa
adicional ligada a crimes de guerra mais
estabelecidos, como execuções sumárias e tortura.

8 POLÍTICAS PÚBLICAS CULTURAIS E LEIS DE FOMENTO À CULTURA

A UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Ciência, a Educação e


a Cultura) formulou a seguinte definição de cultura:
[…] o complexo integral de distintos traços espirituais,
materiais, intelectuais e emocionais que caracterizam
uma sociedade ou grupo social. Ela inclui não apenas
as artes e as letras, mas também modos de vida, os
direitos fundamentais do ser humano, sistemas de
valores, tradições e crenças. (UNESCO, 1982, p.1).

Nesse sentido, a cultura pode ser vista por variados ângulos pois é um
conceito amplo e que abrange diversos significados. No tópico abaixo, vamos tratar
de um deles: a cultura como política pública, inserida na perspectiva cidadã.
9 CULTURA COMO POLÍTICA PÚBLICA

Desde a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), concebe-se a


cultura como um direito a ser preservado. Desse modo, observa-se que a cultura é
discutida a nível supranacional, como pode ser visto através de organizações e
documentos internacionais.
Em 2004, foi elaborado um documento chamado Agenda 21 da Cultura,
visando o comprometimento dos governos locais no que diz respeito ao
desenvolvimento cultural e assim formular políticas públicas de cultura. O foco da
Agenda 21 é a descentralização de tais políticas e de seus recursos.
O documento traz a recomendação de que as nações destinem no mínimo
1% de seu orçamento nacional para a cultura. Ademais, dá-se prioridade aos
setores considerados com grande vulnerabilidade social e econômica.
Houve também a realização de conferências e fóruns internacionais a
respeito do tema, organizados pela UNESCO. Além disso, a ONU, no Relatório de
Desenvolvimento Humano de 2004, inclui o acesso à cultura como um importante
indicador na avaliação da qualidade de vida das sociedades.
Em âmbito nacional, a Constituição de 1988 afirma: “O Estado garantirá a
todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional,
e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais”.
Desse modo, todo cidadão brasileiro deve ter direito à cultura.
Por essa razão, é primordial se falar em cidadania cultural e na
democratização do acesso à cultura em todas as suas dimensões, sem
preconceitos.
Seja erudita ou popular, belas artes ou não, a cultura precisa ter espaço para
se manifestar em suas diferentes formas.
Todos, sem distinção devem ter seus direitos culturais preservados e
garantidos institucionalmente. Nesse sentido, é imprescindível valorizar e divulgar a
nossa cultura e as culturas com que nos identificamos, mas acima de tudo respeitar
aquelas que nos parecem diferentes.
10 POLÍTICAS PÚBLICAS CULTURAIS

Em primeiro lugar, é preciso ressaltar que é a sociedade que produz cultura.


O Estado possui outro papel: o de estabelecer mecanismos de preservação e
incentivo cultural, o que significa dispor de recursos e instrumentos criados com a
participação da sociedade como um todo.
Podemos aqui mencionar a França, vista como o berço das políticas
culturais e o primeiro país a criar um ministério exclusivo para o setor, o Ministère
des Affaires Culturelles, criado em 1959. (VASCONCELOS-OLIVEIRA, 2016; NIVON
BOLAN, 2006).
No caso do Brasil, o percurso das ações culturais públicas iniciou-se na
década de 1930, durante a Era Vargas. Nesse período, o objetivo era construir um
sentimento de “brasilidade”, isto é, exaltar o que é tipicamente brasileiro.
Para isso, foram fundadas instituições como o Conselho Nacional de Cultura
e o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN).
No entanto, até então, cabia ao Ministério da Educação e Saúde (MES) a
responsabilidade de gerir a área cultural. Somente em 1953 este ministério se
desfaz, surgindo então o Ministério da Educação e Cultura, sob a gestão de Gustavo
Capanema.
Embora a criação de um ministério com estrutura voltada à cultura tenha
sido um avanço, foram poucas as ações do Estado na área, cabendo à iniciativa
privada a maior parte das realizações no campo cultural.
No período seguinte, durante o regime militar, despontou-se a ideia de
elaboração de um Plano Nacional de Cultura (1975). Porém, devido ao contexto
político da época, logo a proposta foi desfeita e o Plano não chegou a ser aprovado.
Passada a ditadura, com a redemocratização, finalmente criou-se o
Ministério da Cultura (MinC), exclusivamente dedicado ao setor cultural.
Contudo, a gestão da área continuou a ser tímida, e o MinC foi desfeito em
1990, no governo Collor. Após dois anos, foi refeito. Porém, sofreu com incessantes
trocas de ministros, o que revelava a instabilidade da área.
No fim do século XX e início do século XXI, observa-se que a cultura adquire
uma maior estabilidade e há avanços como, por exemplo, a criação de leis de
incentivo fiscal.
Outro ponto primordial que merece destaque é a formulação do Plano
Nacional de Cultura (Lei 12.343/2010), que permite a continuidade de políticas
culturais institucionalizadas de forma plurianual.
Dessa forma, independentemente das mudanças no governo, o plano deve
ser implementado e avaliado ao longo de dez anos. Trata-se de uma garantia
constitucional (Emenda Constitucional Nº48/2005).
Nesse sentido, para que o Plano Nacional de Cultura seja colocado em
prática, foi criado o Sistema Nacional de Cultura (SNC), composto por: Órgão Gestor
de Cultura, Conselho de Política Cultural, Conferência de Cultura, Plano de Cultura,
Sistema de Financiamento à Cultura, Sistema Setoriais de Cultura, Programa de
Formação Cultural, Sistema de Informações e Indicadores Culturais, além da
Comissão de Inter gestores (nível federal e estadual).
Essa organização sistêmica possibilita a articulação entre Estado, sociedade
civil e representantes das áreas culturais.
Além disso, ao olhar para as políticas culturais, é importante ressaltar dois
elementos: a política de eventos culturais e a política cultural stricto sensu.

10.1 Diferenças: política de eventos culturais e política cultural stricto sensu.

A política de eventos se refere a ações pontuais e específicas de produções


culturais, como prêmios, bolsas e festivais por exemplo. Por outro lado, estas ações
podem ocorrer de modo descontínuo e é aqui que se insere a política cultural stricto
sensu. Estas visam criar e incentivar os meios para que as atividades culturais se
desenvolvam e assim proporcionem o acesso aos bens culturais por todos os
indivíduos. Assim, as duas formas se complementam (BARBOSA DA SILVA, 2007).
Tendo em vista o que foi apresentado até aqui, observa-se que
gradativamente o campo das políticas culturais vem crescendo no Brasil e no
mundo.
Contudo, ainda é uma área que precisa de maior atenção, a exemplo da
extinção-relâmpago do Ministério da Cultura em 2016, quando da instalação do
governo de Michel Temer.
Em suma, essas idas e vindas nas ações culturais e no MinC são muito
prejudiciais, já que obstruem o desenvolvimento pleno das políticas culturais como
um todo.

11 PLANO NACIONAL DE CULTURA (PNC)

O Plano Nacional de Cultura (PNC) é um conjunto de princípios, objetivos,


diretrizes, estratégias, ações e metas que orientam o poder público na formulação
de políticas culturais. Previsto no artigo 215 da Constituição Federal, o Plano foi
criado pela Lei n° 12.343, de 2 de dezembro de 2010. Seu objetivo é orientar o
desenvolvimento de programas, projetos e ações culturais que garantam a
valorização, o reconhecimento, a promoção e a preservação da diversidade cultural
existente no Brasil.

11.1 Como o PNC foi elaborado

O Plano Nacional de Cultura (PNC) foi elaborado após a realização de


fóruns, seminários e consultas públicas com a sociedade civil e, a partir de 2005,
sob a supervisão do Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC). Um marco
importante nesse processo foi a 1ª Conferência Nacional de Cultura, realizada em
2005, após as conferências municipais e estaduais.
O CNPC é um órgão colegiado que compõe o Sistema Nacional de Cultura
(SNC) e integra a estrutura básica da Secretaria Especial de Cultura do Ministério da
Cidadania. O CNPC foi instituído pela Constituição Federal, art. 216-A, § 2º, inciso II,
pelo Decreto nº 5.520/2005 e pela Portaria nº 28/2016.
Ele tem por finalidade propor a formulação de políticas públicas, com vistas
a promover a articulação e o debate dos diferentes níveis de governo e a sociedade
civil organizada, para o desenvolvimento e o fomento das atividades culturais no
território nacional.
11.2 Prazo de vigência do Plano Nacional de Cultura

O artigo 1º da Lei nº 12.343/2010 define que o PNC tem uma duração de 10


(dez) anos. Como ele foi aprovado no dia 2 de dezembro de 2010, então sua
validade se dará até o dia 2 de dezembro de 2020.

11.3 Eixos norteadores do Plano Nacional de Cultura

O Plano baseia-se em três dimensões de cultura que se complementam:


o A cultura como expressão simbólica;
o A cultura como direito de cidadania;
o A cultura como potencial para o desenvolvimento econômico.
Além dessas dimensões, ressalta-se no PNC a necessidade de fortalecer os
processos de gestão e participação social. Esses tópicos estão presentes nos
seguintes capítulos do Plano:
o (I) Do Estado,
o (II) Da Diversidade,
o (III) Do Acesso,
o (IV) Do Desenvolvimento Sustentável, e
o (V) Da Participação Social.

Além disso, o Plano é composto por 36 estratégias, 274 ações e 53 metas.


Contudo, destaca-se que as metas foram publicadas por meio da Portaria nº 123, de
13 de dezembro de 2011. Nesta plataforma é possível conhecer cada uma dessas
metas e seus respectivos resultados.

11.4 Responsabilidades pela execução do Plano Nacional de Cultura

A Secretaria Especial da Cultura é a coordenação executiva do Plano


Nacional de Cultura (PNC). Por isso, é a responsável pelo monitoramento das ações
necessárias para sua realização, conforme define o parágrafo 6º do artigo 3º da Lei
nº 12.343/2010.
A aprovação do PNC, sob a forma de lei, situa a cultura na agenda de
cidades, estados, e de outros organismos do Governo Federal e da sociedade.
Diante disso, sua execução depende da cooperação de todos, e não apenas do
Governo Federal, para a realização das ações e o alcance das metas.
Neste sentido, a adesão ao Sistema Nacional de Cultura traz a prerrogativa
dos estados e dos municípios elaborarem planos de cultura que dialoguem com
PNC sem perder as especificidades locais.
Outro fator importante é que a Lei nº 12.343/2010 também permite que
outros entes, públicos e privados, tais como empresas, organizações corporativas e
sindicais, organizações da sociedade civil, fundações, pessoas físicas e jurídicas,
colaborem, em caráter voluntário, para a garantia dos princípios, objetivos, diretrizes
e metas do PNC. Essa contribuição poderá ser feita por meio de termo de adesão
específico, que ainda será regulamentado.
Destaca-se que o Sistema Nacional de Informações e Indicadores Culturais
(SNIIC) também tem um papel fundamental na realização do PNC, pois ele reúne
dados sobre as políticas culturais que integram o monitoramento do plano, como o
caso do “Mapa da Cultura”.

11.5 Monitoria e avaliação do PNC

A Secretaria Especial da Cultura monitora e avalia as metas do Plano


Nacional de Cultura (PNC), conforme define o inciso II, do artigo 3º, da Lei nº
12.343/2010. Sendo assim, a Secretaria, por meio da Secretaria da Diversidade
Cultural (SDC), afere periodicamente o cumprimento do Plano de forma eficaz e de
acordo com suas metas. Ressalta-se que o processo de monitoramento e avaliação
do PNC conta com a participação do Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC).
Além disso, o Sistema Nacional de Informações e Indicadores Culturais
(SNIIC), gerenciado pela Secretaria Especial da Cultura, é fundamental nesse
processo de monitoramento, pois tem o intuito de coletar, armazenar e difundir os
dados e informações sobre agentes, espaços e eventos culturais em âmbito
nacional.
Além do SNIIC, várias outras fontes compõem o monitoramento do plano,
como o caso de pesquisas ou sítios governamentais, exemplo disso são as
seguintes fontes:
o SIAFI – Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo
Federal;
o Siconv – Sistema de Convênios;
o GEOCaps – Sistema de Georreferenciamento;
o Salic – Sistema de Apoio às Leis de Incentivo à Cultura;
o INEP – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio
Teixeira;
o Pesquisa Frequência de Práticas Culturais do IPEA – Instituto de
Pesquisa Econômica Aplicada;
o Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil do IPL – Instituto Pró-livro;
o Pesquisa de Informações Básicas Municipais e Estaduais do IBGE –
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística;
o Pesquisa do Índice de Competitividade do Turismo Nacional – Mtur –
Ministério do Turismo

11.5.1 Revisão do Plano Nacional de Cultura (PNC)

A Lei n° 12.343/2010 estabelece que o plano deve ser revisto


periodicamente, tendo como objetivo a atualização e o aperfeiçoamento de suas
diretrizes e metas.
Para isso, a primeira revisão do Plano, autorizada a ser realizada após 4
(quatro) anos da promulgação da Lei, deve assegurar a participação do Conselho
Nacional de Política Cultural – CNPC, do poder público e da sociedade civil.
Sendo assim, conforme a Lei, o processo de revisão deverá ser
desenvolvido pelo Comitê Executivo do Plano Nacional de Cultura, composto por
representantes: do poder Legislativo; dos estados e dos municípios, que tiverem
aderido ao Sistema Nacional de Cultura (SNC); do Conselho Nacional de Políticas
Culturais (CNPC); e da Secretaria Especial da Cultura.
A criação desse comitê depende da regulamentação, por meio de decreto,
conforme prevê o parágrafo único do artigo 11 da Lei do PNC.
11.5.2 Adesão ao Plano Nacional de Cultura

O Sistema Nacional de Cultura (SNC) é a ponte entre o Plano Nacional de


Cultura (PNC), estados, cidades e o Governo Federal. O Sistema estabelece
mecanismos de gestão compartilhada entre estados, cidades, Governo Federal e a
sociedade civil para a construção de políticas públicas de cultura.
A adesão ao SNC é voluntária e pode ser realizada por meio de um Acordo
de Cooperação Federativa. Ao aderir ao SNC, o estado ou a cidade elabora um
plano de cultura, ou seja, um documento que reúne diretrizes, estratégias e metas
para as políticas de cultura naquele território por um período de dez anos. Sendo
assim, pode receber recursos federais para o setor cultural e assistência técnica
para a elaboração de planos, bem como sua inclusão no Sistema Nacional de
Informações e Indicadores Culturais (SNIIC). A Secretaria da Diversidade Cultural
(SDC), no âmbito da Secretaria Especial da Cultura, é a unidade responsável por
acompanhar as adesões ao SNC.

12 ESTRUTURA DO SISTEMA NACIONAL DE CULTURA (SNC)

O Sistema Nacional de Cultura é um processo de gestão e promoção das


políticas públicas de cultura, em regime de colaboração de forma democrática e
participativa entre os três entes federados (União, estados e municípios) e a
sociedade civil, tendo por objetivo promover o desenvolvimento humano, social e
econômico com pleno exercício dos direitos culturais.
Desta forma, constitui a estrutura do Sistema Nacional de Cultura, os
seguintes componentes:

o Órgãos gestores da cultura: executa as ações previstas no plano. Pode


ser secretaria, fundação ou uma unidade gestora ligada a uma secretaria;
o Conselhos de política cultural: contribui com a formulação e o
acompanhamento das políticas culturais, colabora com a organização do plano –
orientado pelas diretrizes estabelecidas na conferência de cultura – e aprova sua
forma final;
o Conferências de cultura: encarregada de avaliar as políticas culturais,
analisar a conjuntura cultural e propor diretrizes para o Plano de Cultura;
o Sistemas de financiamento à cultura: conjunto dos instrumentos de
financiamento público da cultura, tanto para as atividades desenvolvidas pelo
Estado, como para apoio e incentivo a programas, projetos e ações culturais
realizadas pela Sociedade
o Planos de cultura: documento de planejamento para orientar a
execução da política cultural da cidade. Ele estabelece estratégias e metas, define
prazos e recursos necessários à sua implementação a partir das diretrizes definidas
pela Conferência de Cultura. O Plano é elaborado pelo órgão gestor da cultura com
a colaboração do Conselho de Política Cultural, a quem cabe aprová-lo;
o Sistemas setoriais de cultura: são subsistemas do SNC que se
estruturam para responder com maior eficácia à complexidade da área cultural, que
se divide em muitos setores, com características distintas, exemplo disso são o
Sistema Brasileiro de Museus e o Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas;
o Comissões Inter gestores: são instâncias de negociação e
operacionalização do Sistema Nacional de Cultura;
o Sistemas de informações e indicadores culturais: conjunto de
instrumentos de coleta, organização, análise e armazenamento de dados –
cadastros, diagnósticos, mapeamentos, censos e amostras – a respeito da realidade
cultural sobre a qual se pretende atuar;
o Programas de formação na área da cultura: conjunto de iniciativas de
qualificação técnico-administrativa – cursos, seminários e oficinas – de agentes
públicos e privados envolvidos com a gestão cultural, a formulação e a execução de
programas e projetos culturais.

13 O CONSELHO NACIONAL DE POLÍTICA CULTURAL (CNPC)

O Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC), instituído pela


Constituição Federal de 1988, por meio do art. 216-A, § 2º e regulamentado pelo
Decreto nº 5.520, de 24 de agosto de 2005 é uma instância colegiada da estrutura
da Secretaria Especial da Cultura do Ministério da Cidadania. É também um dos
componentes do Sistema Nacional de Cultura e atua como órgão consultivo para a
proposição e debate das políticas públicas de cultura em âmbito nacional. É formado
por representantes do poder público e da sociedade civil, e busca representar a
diversidade cultural brasileira.
O conselho será composto por 36 representantes, sendo 18 do poder
público, 18 da sociedade civil. Além de manter a equidade entre os poderes, o novo
formato do CNPC contribui para o fortalecimento do Sistema Nacional de Cultura
(SNC), ao trazer representantes dos Conselhos estaduais e do DF para a
composição do Plenário. Atualmente, 25 estados, o Distrito Federal e 2.656
municípios aderiram formalmente ao SNC e já constituíram ou estão constituindo
seus sistemas de cultura, tendo os conselhos culturais como componente
obrigatório.

14 PROGRAMA NACIONAL DE APOIO À CULTURA (PRONAC)

14.1 O incentivo à cultura na Lei Rouanet

O Programa Nacional de Apoio à Cultura (PRONAC) foi instituído pela. A Lei


nº 8.313, de 23 de dezembro de 1991, mais conhecida como Lei Rouanet, visando
captar e direcionar recursos para a área cultural.

As finalidades do PRONAC são: - preservar o patrimônio cultural e histórico


brasileiro; - resguardar os modos de criar, fazer e viver da sociedade brasileira; -
facilitar o livre acesso às fontes da cultura; - promover, estimular e valorizar a
produção artística regional brasileira; desenvolver a consciência e o respeito aos
valores culturais nacionais e estrangeiros; - apoiar, valorizar e difundir as produções
culturais e seus criadores; - proteger as diversas expressões culturais da sociedade
brasileira; - estimular a produção e difusão de bens culturais de valor universal; -
priorizar o produto da cultura nacional.

Somente projetos culturais cujos produtos, bens e serviços deles resultantes


sejam de exibição, utilização e circulação públicas, poderão receber os incentivos do
PRONAC, não podendo ser destinados ou limitados a coleções particulares ou
circuitos privados que estabeleçam restrições de acesso (à exceção dos projetos
beneficiados pelos FICART).
O PRONAC apoia projetos apresentados por pessoas físicas ou pessoas
jurídicas, de natureza cultural, que visam incentivar a formação artística e cultural,
fomentar a produção cultural e artística, preservar e difundir o patrimônio artístico,
cultural e histórico e estimular o conhecimento dos bens de valores artísticos e
culturais compreendidos, entre outros, nos seguintes segmentos: teatro, dança,
circo, ópera, mímica e congêneres; produção cinematográfica, videográfica,
fotográfica, discográfica e congêneres; literatura, inclusive obras de referência;
música; artes plásticas, artes gráficas, gravuras, cartazes, filatelia e outras
congêneres; folclore e artesanato; patrimônio cultural, inclusive histórico,
arquitetônico, arqueológico, bibliotecas, museus, arquivos e demais acervos;
humanidades; rádio e televisão, educativas e culturais, de caráter não-comercial e
outras ações consideradas relevantes , ouvida a Comissão Nacional de Apoio à
Cultura.

14.2 Mecanismos de financiamento

Os mecanismos de financiamento previstos no PRONAC são três:

14.2.1 Fundo Nacional da Cultura (FNC)

O FNC é um fundo de natureza contábil, que funciona sob as formas de


apoio a fundo perdido ou de empréstimos reembolsáveis, constituído dos seguintes
recursos: - recursos do Tesouro Nacional; - doações, nos termos da legislação
vigente; - subvenções e auxílios de entidades de qualquer natureza, inclusive de
organismos internacionais; - saldos não utilizados na execução e devolução de
recursos de projetos previstos, apoiados mediante incentivo fiscal (mecenato), e de
projetos não iniciados ou interrompidos; - um por cento da arrecadação dos Fundos
de Investimentos Regionais, a que se refere a Lei nº 8.167, de 1991; - três por cento
da arrecadação bruta dos concursos de prognósticos e loterias federais e similares; -
reembolso das operações de empréstimos realizadas por meio do fundo, a título de
financiamento reembolsável; - resultado de aplicações em títulos públicos federais; -
conversão da dívida externa com entidades e órgãos estrangeiros, mediante
doações; - saldos de exercícios anteriores; - recursos de outras fontes.

Os recursos do FNC somente são aplicados em projetos de caráter não


comercial aprovados pelo Ministério da Cidadania, mediante avaliação técnica. O
FNC financia até oitenta por cento do valor do projeto, devendo o proponente
comprovar a disponibilidade dos vinte por cento restantes como contrapartida. Esta
contrapartida pode ser oferecida pelo proponente sob a forma de bens e serviços
necessários à implementação do projeto.

Podem propor o financiamento de projetos ao FNC pessoas físicas e


jurídicas de natureza cultural de direito público (Prefeituras, Secretarias de Cultura,
fundações, autarquias e outras) e de direito privado sem fins lucrativos (fundações
particulares, ONGs, associações, institutos e outras).

O FNC é o único mecanismo de financiamento da Lei Rouanet que repassa


recursos orçamentários a projetos culturais.

Como é diretamente composto por recursos federais, o FNC muitas vezes é


afetado por qualquer alteração de arrecadação da União.

14.2.2 Fundos de Investimento Cultural e Artístico (FICART)

Os Fundos de Investimento Cultural e Artístico (FICART) são fundos de


captação no mercado, idealizados para apoiar projetos culturais de alta viabilidade
econômica e reputacional, No mecanismo, o financiamento do projeto cultural prevê
lucro para o investidor. O FICART apesar de previsto na legislação que instituiu o
PRONAC, não foi implementado.

Projetos artísticos e culturais abrangidos pelos FICART (se em


funcionamento): - produção comercial de instrumentos musicais, discos, fitas,
vídeos, filmes e outras formas de reprodução fonovideográficas; - produção
comercial de espetáculos teatrais, dança, música, canto, circo e atividades
congêneres; - edição comercial de obras relativas às ciências, às letras, às artes
obras de referência e outras de cunho cultural; - construção, restauração, reparação
e equipamento de salas e outros ambientes destinados a atividades culturais,
pertencentes a entidades com fins lucrativos; - outras atividades comerciais ou
industriais de interesse cultural assim consideradas pelo Ministério da Cultura.

14.2.3 Incentivo a Projetos Culturais (incentivo fiscal/mecenato)

Por meio deste mecanismo, faculta-se às pessoas físicas ou jurídicas a


opção pela aplicação de parcelas do Imposto sobre a Renda, sob a forma de
doações ou patrocínios, no apoio direto a projetos artísticos e culturais, ou de
contribuições ao FNC. Dessa forma, as produções culturais que tiverem capacidade
e relevância para concorrer no mercado podem buscar apoio junto a pessoas físicas,
tributadas pelo Imposto de Renda, e pessoas jurídicas, taxadas com base no lucro
real, as quais terão benefícios fiscais sobre os valores investidos.

O Ministério da Fazenda autoriza anualmente o montante dos recursos


destinados à renúncia fiscal no exercício seguinte. Neste mecanismo de apoio, o
incentivo fiscal, o Ministério da Cidadania não repassa recursos orçamentários para
as propostas culturais.

Podem ser apoiados projetos de pessoas físicas com atuação na área


cultural (escritores, artistas plásticos, atores, dançarinos, produtores culturais etc.) e
pessoas jurídicas de natureza cultural, de direito público e privado, com e sem fins
lucrativos (fundações públicas, autarquias, fundações particulares, ONGs,
cooperativas, produtoras etc.).

A proposta é submetida a análise do Ministério da Cidadania e, no caso de


sua aprovação, os responsáveis podem buscar recursos para sua execução junto a
pessoas físicas ou jurídicas, as quais terão o total ou parte do valor incentivado
deduzido do Imposto de Renda por elas devido. Na aprovação dos projetos, é
observado o princípio da não concentração por segmento e por beneficiário.
15 IMPACTOS SOCIAIS DA LEI ROAUNET

15.1 Benefícios da Lei

Podemos destacar significativos impactos sociais da Lei Rouanet, seja no


incentivo para a produção cultural e sua difusão na sociedade, bem como desde que
foi criada, em 1991, gerou um impacto total sobre a economia brasileira de quase R$
50 bilhões, por meio de mais de 53 mil projetos patrocinados nesse período.

O impacto da lei é percebido em 68 atividades econômicas diferentes, com


gastos distribuídos majoritariamente para as micro e pequenas empresas, ou seja,
uma cadeia produtiva que envolve vendas de ingressos, turismo, eventos,
financiamento públicos e privados, alavancando a economia brasileira como um todo
e não apenas o setor das artes e da cultura.

Aconteceram melhorias nos equipamentos culturais, em teatros, musicais.


Formação de pessoas melhores na dança, na música, técnicos melhores de som e
luz, equipamentos mais modernos que dão mais conforto ao público e, claro, salas
de espetáculo. Podemos fazer filmes para Netflix e outras grandes produtoras de
seriados e streaming. Houve grandes shows internacionais que não vieram
diretamente pela Rouanet, mas porque ela permitiu a formação de melhores
técnicos aqui. Grandes musicistas, atores e atrizes vieram desse momento virtuoso
da cultura nacional, além de termos deixado de ser o 15º país possível de se ter uma
exposição de um Picasso e grandes nomes do mundo das artes plásticas, com
museus batendo recordes comparados a grandes exibições no mundo inteiro. Além
de ter um povo que pode se orgulhar de seu País e artes, com uma Tarsila Amaral,
no Masp, por exemplo.
15.2 Pontos polêmicos

Entre os pontos polêmicos da Lei Rouanet, podemos destacar o processo de


aprovação de projetos culturais pelo Ministério da Cidadania (antigo Minc), pois
muitas vezes projetos considerados de pouca importância cultural são aprovados e
outros são deixados de lado, ou projetos de artistas renomados no meio artístico
cultural são aprovados, visto que a Lei Rouanet deveria priorizar projetos
independentes, de novos talentos, por assim dizer.
A Lei também dá poder a uma empresa ou a uma pessoa que não
necessariamente detém conhecimentos sobre arte e cultura (e também sobre a
importância cultural ou artística de determinado projeto para a sociedade) de
escolher o que apoiar. Assim sendo, os departamentos de marketing das empresas
terminam decidindo que projetos receberão apoio, muitas vezes guiados por
interesses próprios, não nacionais, onde o dinheiro público é decidido pela iniciativa
privada.
Outros problemas são a concentração em projetos das cidades de São
Paulo e do Rio de Janeiro – em especial, em uns poucos bairros dessas duas
cidades. Em 2018, por exemplo, dos 3.220 projetos que captaram recursos, 1.801
eram dessa região – já no Norte, apenas 37 conseguiram captar.

A forma fácil que se pode roubar dinheiro de cofres públicos através dela,
também é outro ponto crítico, por exemplo: o caso da Operação Boca Livre de
2016, onde foi descoberto um grupo criminoso que atuou por quase 20 anos no
Ministério da Cultura e havia fracionado R$ 180 milhões em projetos fraudulentos,
superfaturamento, apresentação de notas fiscais relativas a serviços e produtos
fictícios, projetos duplicados e contrapartidas ilícitas realizadas às incentivadoras.

Cabe ressaltar que a referida Lei nunca foi implementada por completo da
forma como foi pensada desde seu início. O que é conhecido por Lei Rouanet é o
mecenato, mas, na verdade, ela é formada por um tripé: o mecenato, em si, o
Fundo Nacional de Cultura (FNC) e os Fundos de Incentivo Cultural à Arte
(FICART), assim sendo, o FNC tem os cofres praticamente vazios, os Ficart nunca
saíram do papel e tudo, na cultura, passou a depender do incentivo fiscal.
Diante desse cenário tenta-se suprir esta deficiência pelo mecenato, o que
acaba distorcendo os papéis de cada um e ampliando as críticas à Lei Roaunet.

15.3 Atuais mudanças na Lei Rouanet

O Ministério da Cidadania no dia 22/04/2019, anunciou mudanças na Lei


Rouanet, sendo além da mudança no próprio nome da Lei , o teto máximo por
projeto incentivado que cairá de R$ 60 milhões para R$ 1 milhão.
Segundo o ministro Osmar Terra, haverá também editais específicos para
ações culturais fora do eixo Rio-São Paulo, com "festas populares" tendo limite
maior, de R$ 6 milhões.
Outras mudanças: a cota de ingressos gratuitos por evento aprovado saltará
de 10% para "20% a 40%". As entradas serão distribuídas por entidades e serviços
de assistência social a famílias de baixa renda, de preferência com Cadastro Único.
O preço do "ingresso social" também diminuirá. Produtores culturais terão
ainda de promover, em parceria com prefeituras, ações educativas em escolas ou
comunidades.
Osmar Terra salienta que as prestações de conta das iniciativas aprovadas
serão feitas pela internet "praticamente em tempo real".

16 CONCLUSÃO

Frente ao exposto na descrição supra decorrida, concluímos que a cultura é


um elemento essencial e absolutamente indissociável a construção e o
desenvolvimento da identidade dos seres humanos, seja no âmbito individual ou
coletivo.

Dessa forma, por óbvio, atribui-se a cultura como um fator fundamental à


formação do cidadão, principalmente no que tange ao senso de pertencimento e
identificação dentro do grupo social que o mesmo pertence.
Além da contribuição para com a construção da identidade coletiva e
individual, podemos defini-la também como o principal meio de conservação das
memórias, costumes, hábitos, etc., que compõe a história de cada sociedade.

Dada a sua importância, os direitos culturais foram previstos em âmbito


internacional através da Declaração Universal dos Direitos humanos, na qual
estabelece parâmetros básicos para que todos possam usufruir desse direito
fundamental.

Para atender há tais fins, o Brasil estabeleceu na Constituição Federal de


1988 a garantia ao pleno exercício dos direitos culturais e ao acesso às fontes da
cultura nacional, cabendo ao Estado proteger, apoiar e incentivar a valorização e a
difusão das manifestações culturais, dentre outras formas dentro do ordenamento
que visam atender a esses fins.

O exemplo mais notório dos mecanismos legais de incentivo a cultua é a Lei


Rouanet (8.313/91), que trás formas de incentivos para projetos culturais, sejam
esses “amadores” ou “profissionais”, além dos benefícios fiscais às empresas. Cabe
ainda salientar a contribuição para o desenvolvimento socioeconômico do país, por
meio da geração de empregos e incentivo ao turismo.

No entanto, há alguns ajustes a serem feitos na aplicação das leis de


incentivo à cultura, de modo a garantir a equidade e o controle no uso do dinheiro
público, garantindo ao maior número de pessoas a possibilidade de participar do
processo de criação e fruição da arte.

Considerando a pluralidade e as desigualdades da sociedade brasileira,


acreditamos que é papel do Estado cada vez mais democratizar o acesso à cultura,
inclusive investindo em infraestrutura eficiente (centros culturais, museus,
bibliotecas, teatros, salas de exibição, oficinas, etc.). Todavia, não pode o Estado
promover esse acesso e ao mesmo tempo restringi-lo a uma determinada parcela
dentro da sociedade, acreditamos quer ao fazê-lo estaria o mesmo recaindo sobre
um erro maior ainda.
17 REFERÊNCIAS

Bibliografia:

CUNHA FILHO, Francisco Humberto. Os direitos culturais como direitos


fundamentais no ordenamento jurídico brasileiro. Brasília: Brasília Jurídica,
2000, p. 34
FREDERICO A. Barbosa da Silva: “Política Cultural no Brasil, 2002-2006:
acompanhamento e análise” (2007)
MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional- 34.ed. – S~são Paulo: Atlas, 2018.

MORAES, Guilherme Peña de. Curso de Direito Constitucional- 10.ed. ver., atual.
e amp.- São Paulo: Atlas,2018.

NIVON BOLAN, Eduardo: “La política cultural: temas, problemas y


oportunidades” (2006)

OLIVEIRA, Maria Carolina Vasconcelos: “Cultura e Estado” (2016)

ONU: “Relatório do Desenvolvimento Humano 2004: Liberdade Cultural num


mundo diversificado” (2004)
QUIJANO, Anibal.” Colonialidade do poder, Eurocentrismo e América Latina” -
2005

REALE, Miguel. Horizontes do Direito e da História. 3. Ed. ver. e aum.- São Paulo:
Saraiva, 2000.

UNESCO: “World conference on cultural policies” (1982)

Em meios eletrônicos

https://www.ehow.com.br/efeitos-positivos-negativos-colonialismo-info_223922/

https://journals.openedition.org/polis/3749?lang=pt

https://www.viladonpatto.com.br/blog/as-influencias-dos-portugueses-na-cultura-
brasileira-e735
https://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2019/04/22/o-que-bolsonaro-
decidiu-mudar-na-lei-rouanet.htm acesso em 10/09/2019
https://www.nexojornal.com.br/expresso/2018/12/17/O-impacto-da-Lei-Rouanet-na-
economia-brasileira acesso em 10/09/2019
http://pnc.cultura.gov.br/entenda-o-plano/ - 8 DE SETEMBRO DE 2019 AS 11:48H

https://guiadoestudante.abril.com.br/blog/atualidades-vestibular/entenda-cultura-
como-politica-publica/ 08 DE SETEMBRO DE 2019 AS 10:30H

http://portal-cultura.apps.cultura.gov.br/sistema-nacional-de-cultura/ 08 DE
SETEMBRO DE 2019 ÀS 11:55H

http://cnpc.cultura.gov.br/2019/08/12/5667/ 08 DE SETEMBRO DE 2019 ÀS 11:59

https://nacoesunidas.org/artigo-27-direito-a-vida-cultural-artistica-e-cientifica/

Artigos

Artigo: DO COLONIALISMO À COLONIALIDADE: expropriação territorial na periferia


do capitalismo - Wendell Ficher Teixeira Assis Dez/2014

Artigo: COLONIALIDADE - O lado mais escuro da modernidade - Walter D. Mignolo


– Duke University, Durham, NC, EUA. E-mail: wmignolo@duke.edu. Tradução de
Marco Oliveira - Pontificia Universidade Catolica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), -
REVISTA BRASILEIRA DE CIENCIAS SOCIAIS - VOL. 32 N° 94 Junho/2017.

Artigo: Colonialidade Interna, Cultura e Mestiçagem: repensando o conceito de


colonialismo interno na antropologia contemporânea - Letícia Cesarino
Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis,

{...} Fonte

Ary Barroso

Brasil, meu Brasil brasileiro


Meu mulato inzoneiro
Vou cantar-te nos meus versos
O Brasil, samba que dá
Bamboleio, que faz gingar
O Brasil do meu amor
Terra de Nosso Senhor
Brasil! Brasil! Pra mim! Pra mim!

Ô, abre a cortina do passado


Tira a mãe preta do cerrado
Bota o rei congo no congado
Brasil! Brasil!

Deixa cantar de novo o trovador


À merencória luz da lua
Toda canção do seu amor
Quero ver essa Dona caminhando
Pelos salões, arrastando
O seu vestido rendado
Brasil! Brasil! Prá mim! Prá mim!

Brasil, terra boa e gostosa


Da morena sestrosa
De olhar indiscreto

O Brasil, samba que dá


Para o mundo admirar
O Brasil do meu amor
Terra de Nosso Senhor
Brasil! Brasil! Prá mim! Prá mim!

Esse coqueiro que dá coco


Onde eu amarro a minha rede
Nas noites claras de luar
Ô! Estas fontes murmurantes
Onde eu mato a minha sede
E onde a lua vem brincar

Ô! Esse Brasil lindo e trigueiro


É o meu Brasil brasileiro
Terra de samba e pandeiro
Brasil! Brasil!

https://www.letras.mus.br/ary-barroso/163032/

Pluralidade cultural

O nosso Brasil é exemplo

Da grande diversidade

Tem uma rica cultura


Sinal de brasilidade

Com todas as diferenças

Mostra a sua pluralidade.

Terra dos muitos sotaques

Cores e manifestações

E com as várias etnias

Preservando as tradições

As diferenças existem

Entre as várias regiões.

Nordestino fala oxente

Que é próprio da região

O mineiro fala uai...

Com muita satisfação

O gaucho já fala thê

E numa forte expressão.

Com todas as etnias

Que presentes aqui estão

O negro, branco e índio

Formaram esta nação

Os brasileiros são frutos

Desta miscigenação.

O Brasil é um grande palco

De bela apresentação
Do frevo, samba e forró

Do carnaval e folião

Ciranda e Coco de roda

Xote, xaxado e baião.

É o país do futebol

Do ritmo e religião

Do regue e bumba meu boi

Presentes no Maranhão

Do alegre axé da Bahia

Com toda a animação.

Tem a festa do divino

Que é muito popular

Tem a folia de reis

Maracatu pra dançar

Além da bela catira

E o belo boi bumbá.

Juarês Alencar Pereira.

https://www.youtube.com/watch?v=GgmlGTFrD3g em 15/08/19 às 13:30

https://www.youtube.com/watch?v=wrCA36I0z98 em 15/08/19 às 13:30


https://www.youtube.com/watch?v=iJ1Ua--yyPg em 20/08/19 às 13:40

https://www.youtube.com/watch?v=UTwdoBEH2As&feature=youtu.be em 26/08/2-19 às 13:45

https://www.youtube.com/watch?v=X7L1p6ojoII em 26/08/2019 às 14:30

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