Você está na página 1de 76

4283 – Saúde e socorrismo nº1

Nº da operação: POISE-01-3524-FSE-002868 | C00168 - A001 / 2019 | Local: Paredes

UFCD
4283 SAÚDE E SOCORRISMO

UFCD:4283
Formadora: Vera Barbosa
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

Índice

Introdução ........................................................................................................................................ 2

Âmbito do manual ...................................................................................................................... 2

Objetivos........................................................................................................................................ 2

Conteúdos programáticos ....................................................................................................... 2

Carga horária ............................................................................................................................... 3

1. Conceito de saúde ..................................................................................................................... 4

2. Os comportamentos humanos .............................................................................................. 8

3. Fatores condicionantes da saúde: recursos, serviços, sistemas, valores ........... 11

4. Saúde pública: objetivo, modos de atuação, tipos...................................................... 15

5. Saúde e homeostasia ............................................................................................................. 20

6. Estados da saúde humana: hígido, mórbido, patogénico ......................................... 23

7. Serviços de saúde e cuidados de saúde .......................................................................... 29

8. Cadeia de sobrevivência: Suporte Básico de Vida (SBV) precoce,


desfibrilhação precoce, Suporte Avançado de Vida (SAV) precoce ........................... 33

9. O sistema integrado de emergência médica: INEM, 112, CODU, CIAV ............... 38

10. SBV: conceito, etapas e procedimentos, posicionamento, sequência de ações,


problemas associados................................................................................................................. 47

11. Posição lateral de segurança ............................................................................................ 58

12. Primeiros Socorros ............................................................................................................... 63

Bibliografia...................................................................................................................................... 75

Sites Consultados ......................................................................................................................... 75

1
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

Introdução

Âmbito do manual

O presente manual foi concebido como instrumento de apoio à unidade de formação de curta
duração nº 4283 – Saúde e socorrismo, de acordo com o Catálogo Nacional de
Qualificações.

Objetivos

 Identificar os estados da saúde humana e os fatores condicionantes.


 Compreender os mecanismos de transmissão de doenças.
 Compreender o conceito de sobrevivência.
 Compreender o sistema integrado de emergência médica.
 Identificar a sequência de procedimentos que permitem executar o SBV.
 Compreender como atuar nos diferentes tipos de socorro

Conteúdos programáticos

 Conceito de saúde
 Os comportamentos humanos
 Fatores condicionantes da saúde: recursos, serviços, sistemas, valores
 Saúde pública: objetivo, modos de atuação, tipos
 Saúde e homeostasia
 Estados da saúde humana: hígido, mórbido, patogénico
 Serviços de saúde e cuidados de saúde
 Cadeia de sobrevivência: Suporte Básico de Vida (SBV) precoce, desfibrilhação
precoce, Suporte Avançado de Vida (SAV) precoce

2
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

 O sistema integrado de emergência médica: INEM, 112, CODU, CIAV


 SBV: conceito, etapas e procedimentos, posicionamento, sequência de ações,
problemas associados
 Posição lateral de segurança
 Primeiros Socorros

Carga horária

 25 horas

3
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

1. Conceito de saúde

4
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

“Ser saudável” tem significados diferentes para pessoas diferentes. Na verdade, as ideias
sobre o que é a saúde e o ser saudável variam amplamente, pois são moldadas pelas
experiências de vida, pelos conhecimentos, pelos valores e pelas expectativas de cada um
assim como pela perceção do que esperam fazer no seu dia-a-dia e ainda pela condição que
precisam para realizar os papéis com sucesso, que a comunidade onde estão inseridos espera
deles.

Torna-se por isso muito importante que os promotores/educadores em saúde, identifiquem


o que é ser saudável para si próprios, mas sobretudo, o que isso pode significar para as
pessoas/grupos com quem pretendem planear e desenvolver intervenções nesta área.

A saúde durante muito tempo, foi considerada como o oposto da doença, sendo esta
conceptualizada como apenas as anomalias físicas ou biológicas e encarada como um
acontecimento acidental, que não se podia evitar, um destino fatal.

Por outro lado, é por todos reconhecido que a abordagem da saúde e da doença ao longo
de várias décadas se centrou numa visão que comparava o corpo a uma máquina, a doença
a uma avaria e o tratamento à reparação da mesma máquina.

Esta visão está fortemente enraizada no modelo biomédico tradicional, que influenciou e
continua a fazer-se sentir em muitas das profissões do sector da saúde.

O conceito de Saúde que marcou muitas gerações passadas e ainda continua a moldar as
gerações atuais foi formalizado pela Organização Mundial de Saúde (OMS, 1946),
apresentado na sua Carta de Ottawa, aquando da constituição da própria organização, a qual
afirma que Saúde é “Um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas
a ausência de doença ou enfermidade” .

Esta definição de saúde embora tenha a virtude de definir saúde de forma positiva através
da qualidade bem-estar e incluir para além da dimensão física, a dimensão mental e social,
tem sido muito criticada devido aos aspetos negativos que lhe são apontados, como o seu
carácter estático (completo bem-estar), a sua subjetividade e utopia.

5
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

Existem várias dimensões do conceito de saúde: a dimensão física, mental, emocional,


espiritual, social e ambiental. Será também útil referir o que envolve cada uma destas
dimensões.
 Dimensão física – É a dimensão mais óbvia e mais reconhecida, estando associada
ao funcionamento do organismo humano, reportando-se pois à parte somática.
 Dimensão mental – Diz respeito à capacidade da pessoa de pensar clara e
coerentemente. Distingue-se das dimensões emocional e social, embora exista uma
forte interligação entre estas três dimensões.
 Dimensão emocional – Refere-se à capacidade para reconhecer emoções, tais
como o medo, alegria, tristeza e raiva e exprimi-las adequadamente. A saúde
emocional ou afetiva também significa gerir o stresse, a tensão, a depressão e a
ansiedade.
 Dimensão espiritual – Para algumas pessoas crentes, a saúde está relacionada
com as crenças e práticas religiosas. Para outras pessoas, ainda, esta dimensão
poderá ter a ver com crenças pessoais, princípios de comportamento e formas de
atingir paz de espírito e estar em paz consigo próprias.
 Dimensão social – Esta dimensão significa ser capaz de fazer e manter
relacionamentos com outras pessoas que fazem parte do nosso contexto social.
 Dimensão ambiental – As dimensões anteriores referiam-se apenas ao nível
individual, mas a saúde vai muito além desse plano. Esta dimensão inclui os fatores,
que poderão influenciar os grandes determinantes de saúde. Assim, é impossível ser-
se saudável numa sociedade “doente”, que não providencia os recursos necessários
à satisfação das necessidades humanas básicas, como a alimentação, o vestuário e a
habitação e em países opressores que negam os direitos humanos básicos aos seus
cidadãos. Por exemplo, as mulheres não podem ser saudáveis numa sociedade onde
a sua contribuição é subvalorizada, nem os negros ou brancos, numa sociedade
racista.

Qualquer perturbação numa das dimensões, terá repercussões em todas as outras e como
tal na globalidade que constitui o ser humano.

6
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

A visão que temos do mundo e do ser humano tem-se vindo a modificar ao longo dos anos.
O caminho percorrido conduziu-nos de uma perspetiva reducionista, da qual emerge a
abordagem mecanicista/reducionista, a uma outra de conjunto ou sistémica na qual se apoia
a abordagem holística.

Nesta abordagem enfatiza-se a conexão entre as partes e o todo, perante a consciência


humana das partes (corpo, mente, espírito), em que as pessoas procuram viver de acordo
com o seu padrão de vida.

7
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

2. Os comportamentos humanos

8
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

Podemos definir como “comportamentos protetores de saúde” qualquer comportamento


realizado por uma pessoa, independentemente do estado de saúde que tem ou pensa ter,
com vista a proteger, promover ou manter a saúde, quer tal comportamento seja, ou não,
objetivamente eficaz para atingir tal fim.

Os comportamentos associados à saúde podem ser divididos em três tipos:


1) Comportamentos de exaltação da saúde: são os que visam a promoção da
saúde, ou seja, aqueles que são implementados, conscientemente, com o propósito
de melhorar o nível global de saúde;
2) Comportamentos de manutenção de saúde: são os de prevenção das
doenças, tais como controlo de pressão arterial, planeamento familiar, vacinação,
etc., e os de proteção de saúde, tais como controlo de agentes tóxicos, prevenção
rodoviária, impacto ambiental;
3) Comportamentos de prejuízo de saúde: são os que são prejudiciais à saúde,
tais como fumar, beber exageradamente, medicar-se sem acompanhamento médico.

Quando se pretender estudar a relação entre comportamento e saúde, deveremos ter em


atenção três fatores:
a) A natureza do desenvolvimento humano;
b) O papel do meio ambiente social e físico;
c) A interação do desenvolvimento humano com o meio ambiente.

Foram sendo apresentadas outras definições de comportamento associado à saúde:


comportamento de wellness (bem-estar), comportamento preventivo de saúde,
comportamento de risco, comportamento de cuidados pessoais, comportamento de
planeamento familiar, comportamento de saúde parental, comportamento social relacionado
com a saúde, hábitos de saúde e práticas de saúde.

Associado ao Modelo Biomédico, o termo comportamento surge também relacionado com os


seguintes conceitos: epidemiologia comportamental, imunologia comportamental,
comportamentos patogénicos e fatores de risco comportamentais que se referem aos
comportamentos que são suscetíveis de conduzir à doença.

9
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

A perspetiva mais utilizada tem sido a do Modelo Biomédico, que considera o comportamento
como a causa da saúde ou das doenças, não sendo considerada, neste caso, a influência do
comportamento na qualidade de vida dos indivíduos.

A saúde é definida como “o estado completo de bem-estar físico, mental e social, e não
apenas a ausência de doença”. A presente definição enfatiza o equilíbrio da pessoa em
relação a si própria, e destaca a questão da socialização e o envolvimento relacional com os
outros.

O conceito de saúde tem vindo a ser associado ao de estilo de vida. O estilo de vida individual
é descrito através dos padrões de comportamento suscetíveis de serem observados, os quais
podem ter um efeito marcante na saúde do próprio indivíduo e na saúde de outros.

Não existe um estilo de vida “ótimo” que deva ser imposto a todas as pessoas, pois existem
variáveis culturais, socioeconómicas, a idade, a estrutura das famílias, a habilidade física,
entre outras variáveis que tornarão certas atividades mais indicadas ou que suscitam um
maior interesse por parte de determinadas pessoas.

A literatura sugere igualmente que estes padrões de comportamento ou os estilos de vida


não são fixos.

Os comportamentos relacionados com a saúde podem ser interpretados em três níveis:


1) Como fatores com possíveis efeitos no estado de saúde;
2) Como consequências de vários processos psicossociais;
3) E como objeto de intervenções no sentido de mudanças comportamentais
(individuais e comunitárias).

10
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

3. Fatores condicionantes da saúde: recursos, serviços,


sistemas, valores

11
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

Os fatores determinantes da saúde mais importantes são as condições socioeconómicas e as


condições de vida e de trabalho que lhes estão associadas e que são abordadas através das
políticas sociais e económicas.

O tabaco, a alimentação, a atividade física, a dieta, o álcool e a forma como as pessoas se


comportam em relação a si mesmas e aos outros são também determinantes essenciais da
saúde.

As principais causas de morte prematura e de invalidez são os acidentes e as lesões físicas,


as perturbações mentais, o cancro e ainda as doenças circulatórias e respiratórias.

É possível influir em todos estes fatores mediante uma prevenção e promoção eficazes. A
legislação e a regulamentação, por exemplo, sobre o uso do cinto de segurança, a segurança
rodoviária e as restrições quanto ao conteúdo, comercialização e uso dos produtos do tabaco,
constituem uma base essencial para apoiar os esforços de prevenção.

A informação do público é uma outra medida a não descurar, mas revela-se, em geral,
insuficiente para suscitar comportamentos mais saudáveis.

As medidas de promoção da saúde são particularmente eficazes quando recorrem a métodos


que ajudam os consumidores a fazer melhores escolhas na vida quotidiana.

Os locais onde as pessoas passam uma grande parte ou a totalidade do tempo, como o local
de trabalho, a escola ou mesmo a prisão, podem desempenhar um papel importante a este
respeito.

Comportamentos favoráveis à saúde, são o esforço de cada um para preservar a sua saúde
e a dos que o rodeiam.

A adoção de uma alimentação equilibrada, a prática de uma atividade física regular, a


redução de consumo de tabaco e álcool, a possibilidade de ter períodos de repouso e de
descontração e a capacidade de ter relações sociais e sexuais compensadoras ajudam a que
o sentimento de bem-estar cresça e constituem um verdadeiro obstáculo à doença.

12
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

Nesta conceção, a saúde é assumida como um processo dinâmico e proactivo que


responsabiliza cada um e todos na construção de um bem-estar que favoreça o
desenvolvimento do potencial de cada indivíduo e das próprias comunidades.

A promoção da saúde é, assim, tarefa dos agentes nos diversos contextos de relação e de
crescimento que o indivíduo «habita», de que se podem destacar a Família e a Escola, mas
que implica necessariamente toda a comunidade.

É dentro deste enquadramento normativo e nesta dinâmica que a Escola vem


desempenhando um papel importante, assumindo a promoção da saúde como um processo
quotidiano que concorre para a criação de um «estado de bem-estar físico, psíquico e social,
e não a mera ausência de doença» (OMS) dos seus alunos e profissionais.

Nesta perspetiva sistémica de «saúde positiva», valoriza-se a interação dinâmica das


vertentes do corpo, dos afetos e das emoções e, ainda, das relações com o outro e com o
mundo.

A educação para a saúde faz-se, por um lado, na continuidade das experiências dos vários
contextos educativos (por exemplo, na ligação da Família à Escola) mas, por outro lado,
exige uma complementaridade de diferentes vivências possíveis em contextos diversos (a
escola, a família, a «rua», as associações desportivas e culturais, etc.), que favoreçam o
desenvolvimento de uma identidade própria, do pensamento crítico, da capacidade de
escolher, em suma, da autonomia.

Devem contar, ainda e sempre, com a participação ativa de toda a Comunidade Educativa,
essencial na criação de condições que reforcem fatores de proteção:
• Boa autoestima,
• Competências de relacionamento interpessoal,
• Famílias com envolvimento afetivo e padrões de comunicação claros,
• Comunidades que promovam o fortalecimento dos laços entre os jovens e as
instituições, entre outros.

13
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

E que, ao mesmo tempo, minimizem os fatores de risco:


• Baixa autoestima;
• Fraca tolerância à frustração,
• Problemas de saúde mental,
• Desvalorização das normas e regras,
• Pouca resistência à pressão de pares na adolescência,
• Insucesso escolar e fraca ligação à escola,
• Famílias com disfunções ao nível da comunicação afetivo-emocional,

Entre outros, por forma a reduzir vulnerabilidades pessoais e sociais e comportamentos


desajustados.

14
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

4. Saúde pública: objetivo, modos de atuação, tipos

15
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

Etimologicamente a expressão «Saúde Pública» significa saúde do povo, das comunidades


ou de grupos de populações humanas no meio ambiente em que vivem, em
complementaridade à «Saúde Individual» ou de cada indivíduo isoladamente.

“A Saúde Pública é a ciência e a arte de promover saúde (…), com base no entendimento de
que a saúde é um processo que envolve o bem-estar social, mental, espiritual e físico. A
Saúde Pública intervém com base no conhecimento de que a saúde é um recurso
fundamental do indivíduo, da comunidade e da sociedade como um todo e que deve ser
sustentada por um forte investimento nas condições de vida que criam, mantêm e protegem
a saúde.” (Kickbusch, 1989)

A Saúde Pública, pela sua própria natureza intrínseca, torna-se ponto de partida e de
encontro de diferentes disciplinas, sectores, instituições, culturas e valores.

A Saúde Pública na atualidade tem como objetivo principal o estudo e a resolução de


problemas que condicionam a saúde de indivíduos inseridos no seu meio ambiente.

Pode dizer-se que a Saúde Pública terá começado quando o Homem se começou a aperceber
de que da vida em comunidade resultavam problemas para a saúde dos indivíduos que a
constituíam e foi descobrindo, de forma consciente ou inconsciente, estratégias para diminuir
ou evitar esses problemas.

A experiência acumulada e os resultados obtidos através da aplicação dessas estratégias,


conduziu ao estabelecimento de medidas e criação de hábitos, que sob a forma de regras,
leis ou práticas individuais e comunitárias, algumas de foro religioso, constituíram um esboço
ainda muito incipiente, duma atuação coletiva e coordenada visando a obtenção de bem-
estar e a preservação da saúde.

No entanto foi só a partir do século XV com a sistematização dos conhecimentos adquiridos,


tanto no domínio científico como no tecnológico, que se tornou possível desenvolver uma
linha racional, de atuação orientada e organizar serviços com alguma capacidade de proteção
da saúde, prevenção e tratamento da doença.

16
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

Mas o acesso aos serviços de saúde só passou a ser considerado um dos direitos
fundamentais do Homem apenas na segunda metade do século XX.

O movimento de Promoção da Saúde está intimamente ligado às conferências internacionais


organizadas pela OMS e foi despoletado por algumas circunstâncias, que favoreceram a sua
emergência, tais como:
 Um melhor conhecimento dos fatores que intervêm no processo saúde-doença e o
reconhecimento da influência das condições sociais sobre o mesmo. Diversos estudos
demonstraram que a redução da prevalência das doenças infeciosas e o aumento da
prevalência das doenças crónicas degenerativas (anterior às intervenções dos
cuidados de saúde) ficaram a dever-se a melhorias sócio ambientais (saneamento,
melhor alimentação e higiene pessoal, maiores salários, etc.);
 O grande desenvolvimento da tecnologia médica e, os grandes avanços no
diagnóstico e tratamento conduziram a um aumento dos gastos com a saúde muito
acima do que indivíduos e as comunidades poderiam suportar, tendo-se colocado a
necessidade de reestruturação dos serviços de saúde, privilegiando a prevenção da
doença e a Promoção da saúde como formas mais eficazes e económicas de manter
a saúde;
 A proposta da OMS dirigida aos países membros da organização, sobre a necessidade
de uma mudança nos serviços de saúde de forma a garantirem a toda a população a
satisfação das suas necessidades básicas (alimentação, água, saneamento,
eliminação de vetores, assistência materno-infantil, vacinação e medicamentos
essenciais), a que se chamou cuidados essenciais. Impulsionada por esta
preocupação, a OMS preparou a estratégia de âmbito mundial “Saúde para todos no
ano 2000” que aprovou em Assembleia em 1977. Esta estratégia foi importante ao
fazer da equidade e da justiça social os maiores objetivos sociais, tendo fomentado
internacionalmente o interesse na Saúde Pública, reorientando a atenção para os
determinantes da saúde sociais e económicos e o seu impacto desigual na saúde das
populações. De seguida organizou uma conferência internacional sobre Cuidados de
Saúde Primários em Alma-Ata (1978), da qual resultou uma declaração, cujos
elementos básicos são:

17
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

(i) A saúde foi considerada um direito humano fundamental e o objetivo social


mais importante;
(ii) A equidade em saúde é um elemento básico desta;
(iii) A estreita relação entre a Promoção da saúde e a proteção da saúde e o
desenvolvimento económico e social, as quais contribuem para uma melhor
qualidade de vida e paz mundial;
(iv) O direito e o dever das pessoas em participar de forma individual e coletiva
na gestão da saúde;
(v) Os governos têm a obrigação de cuidar da saúde dos seus povos;
(vi) Os Cuidados Primários de Saúde são cuidados de saúde essenciais e
constituem o primeiro nível de contacto dos indivíduos, família e comunidade
com o sistema nacional de saúde.

Não existe uma só abordagem de Promoção da saúde correta, um conjunto de atividades ou


um só alvo adequados. Necessitamos de planear por nós mesmos, que atividades usar de
acordo com o nosso código profissional de conduta, com os nossos valores e tendo em conta
a avaliação das necessidades dos utentes.

Diferentes modelos de Promoção da saúde e Educação para a saúde são ferramentas úteis
de análise, os quais podem ajudar a clarificar os respetivos objetivos e valores:
 Abordagem médica – O alvo é libertar a pessoa da doença ou deficiência
medicamente definida. Promove a intervenção médica para prevenir a doença e
melhorar a saúde. Assenta no conformismo dos utentes/doentes com os
procedimentos médicos;
 Mudança comportamental – O alvo é o comportamento individual dirigido à
erradicação da doença. Trabalha as atitudes para obter uma mudança de
comportamento, encorajando a adoção de estilos de vida saudáveis, que são
definidos pelo educador/promotor;
 Abordagem educacional – O alvo são os indivíduos com o seu conhecimento e
compreensão, permitindo que possam ser tomadas decisões bem informadas.
Assenta na informação acerca das causas e efeitos dos fatores que prejudicam a
saúde, na exploração dos valores e atitudes e no desenvolvimento das capacidades
necessárias a uma vida saudável. Os valores inerentes a esta abordagem são o direito

18
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

individual de livre escolha e a responsabilidade dos promotores da saúde em


identificar os objetivos educacionais;
 Abordagem centrada no cliente – O alvo é trabalhar com os clientes na sua
própria linguagem. Trabalha com questões de saúde, escolhas e atividades com as
quais os clientes se identificam. Procura capacitar o cliente (“empowerment”). Este é
visto como um parceiro do processo em plano de igualdade, com o direito de
estabelecer a agenda das atividades. Baseia-se na auto-capacitação das pessoas;
 Mudança ambiental – O alvo é o ambiente físico e social os quais permitem a
escolha de um estilo de vida mais saudável. Assenta na ação política e social para
mudar o ambiente físico e social a fim de facilitar as escolhas saudáveis e as
mudanças individuais aos clientes. Os seus valores são o direito e a necessidade de
tornar o ambiente mais saudável.

19
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

5. Saúde e homeostasia

20
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

O ser humano relaciona-se constantemente com o meio externo e está exposto a vários tipos
de situações que podem leva-lo a lesões ou doenças, em seu cotidiano. Portanto vamos
definir, brevemente, algumas condições importantes para entendermos o que é homeostasia
e a relação saúde-doença.

Primeiramente temos a definição da Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre o que é


saúde: estado de completo bem-estar físico, mental e social e não consistindo somente da
ausência de uma doença ou enfermidade.

Após essa definição temos que entender a situação da saúde não só com a ausência da
doença em si, mas, também como ausência dos males sociais que muitas vezes afligem nossa
sociedade moderna, como falta de saneamento, meios de cultura adequados, enfim, toda
uma qualidade de vida que necessitamos para ter uma boa saúde.

A doença é o termo que define condição patológica (mal funcionamento de um órgão ou


sistema), vem do latim dolentia, padecimento.

Pode ser causada por fatores externos, como outros organismos (infeção), ou por disfunções
ou mal funções internas, como as doenças autoimunes. A patologia é a ciência que estuda
as doenças e procura entendê-las.

Resulta de consciência da perda da homeostasia de um organismo vivo, total ou parcial,


estado este que pode cursar devido a infeções, inflamações, isquemias, modificações
genéticas, sequelas de trauma, hemorragias, neoplasias ou disfunções orgânicas.

Distingue-se da enfermidade, que é a alteração danosa do organismo. O dano patológico


pode ser estrutural ou funcional.

A doença também possui um significado social, dependendo da época, da cultura e da


sociedade em questão. Temos por exemplo condições como o transtorno do déficit de
atenção com hiperatividade e a obesidade são consideradas doenças por parte de alguns
países desenvolvidos, mas têm sido considerados de forma diferente em outras culturas.

21
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

Por fim temos o importante conceito de homeostasia que corresponde a propriedade de um


sistema aberto, seres vivos especialmente, de regular o seu ambiente interno para manter
uma condição estável, mediante múltiplos ajustes de equilíbrio dinâmico controlados por
mecanismos de regulação inter-relacionados.

O termo foi criado em 1932 por Walter Bradford Cannon a partir do grego homeo similar ou
igual, stasis estático. O seu uso mais frequente é a hemóstase biológica.

A homeostase é uma das características fundamentais dos seres vivos. É a manutenção do


ambiente interno dentro de limites toleráveis.

No corpo humano ela também acontece, dando a capacidade de sustentar a vida nos seres
humano, já que somos afetados por todo um leque de fatores, como a temperatura, a
salinidade, o pH, ou as concentrações de nutrientes, como a glicose, vários íons, oxigénio, e
resíduos, como o dióxido de carbono e a ureia.

Dado que estes fatores afetam as reações químicas que mantêm o corpo vivo, este inclui
mecanismos fisiológicos para os manter dentro dos limites desejáveis.

A complexa interação da relação saúde-doença vai muito além apenas do fator fisiológico
(funcionamento do organismo), sendo afetada em muito por fatores externo, como agentes
patogênicos (causadores de doenças) e condições sociais, nos levando a pensar sobre como
nosso estilo de vida e qualidade de vida afetam nosso organismo, gerando saúde ou doença
no processo.

22
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

6. Estados da saúde humana: hígido, mórbido,


patogénico

23
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

É hígido aquele que tem saúde.

A expressão é muito adotada quando da certificação de profissionais de saúde quanto ao


estado de saúde física e ou mental de alguém, normalmente em exames admissionais. Daí
dizem que alguém apresenta higidez física, higidez mental, ou seja, saudável fisicamente, ou
saudável mentalmente.

A História Natural das Doenças (HND) é composta por dois períodos: o período pré-
patogénico (antes do indivíduo adoecer, desequilíbrio entre agente e hospedeiro, fatores
ambientais condicionantes que são o estímulo) e o período patogénico (a patogénese precoce
ou período de incubação, horizonte clínico).

A História Natural das Doenças define, assim, duas dimensões da causalidade, a primeira,
epidemiológica, é a da determinação do aparecimento das doenças, e a segunda,
fisiopatológica, trata da evolução das mesmas.

Os fatores associados são organizados em redes de causalidade, constituindo-se em modelos


ecológicos, em que as diferentes variáveis são admitidas ao modelo através de testes
estatísticos.

Ocorre uma redução das condições sociais em atributos naturais dos indivíduos e/ou do
ambiente, ou seja, uma naturalização do social. E, a partir do estabelecimento de condutas
em geral, se estabelece a neutralidade técnica da medicina e da prática médica nas suas
intervenções sobre o processo saúde e doença nos indivíduos e populações.

Por exemplo, os fatores de risco das DCV podem ser inatos (não modificáveis) ou externos
(comportamentos e estilos de vida). Como exemplo dos primeiros incluem-se a idade, o sexo
(particularmente o masculino), a história familiar e pessoal de DCV, fator de risco
trombogénico.

24
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

Entre os fatores de risco externos e passíveis de serem modelados, encontram-se o colesterol


elevado, a hipertensão, a diabetes mellitus, o tabagismo, excesso de peso e obesidade,
sedentarismo.

Para intervir tem de se ter em consideração a história natural da doença, a pessoa enquanto
saudável fazendo a prevenção primária, depois do início da doença, a prevenção secundária,
com a doença estabelecida, a prevenção terciária e, por fim, a prevenção primordial (evitar
a emergência e estabelecimento dos padrões de vida – sociais, económicos e culturais – que
se sabem levarem a um elevado risco de doença).

É difícil estabelecer unanimidade quanto ao número de níveis de prevenção a distinguir e às


“fronteiras” precisas que separam cada um deles. A posição mais abrangente reconhece cinco
níveis: primordial, primária, secundária, terciária e quaternária.

1. Prevenção Primordial

Tem por objetivos evitar a emergência e o estabelecimento de estilos de vida que aumentem
o risco de doença. Ao prevenir padrões de vida social, económica ou cultural que se sabe
estarem ligados a um elevado risco de doença, promove-se a saúde e o bem-estar e diminui-
se a probabilidade de ocorrência de doença no futuro.

Para tal, procura-se elaborar e aplicar políticas e programas de promoção de “determinantes


positivos de saúde”, na população em geral e em grupos selecionados.

Através destas medidas, prevê-se e pretende-se que o impacto na saúde pública seja notável,
já que os programas e políticas têm como alvo um grande número de indivíduos e porque
um mesmo “determinante positivo” ou comportamento saudável tem efeitos benéficos
múltiplos na saúde (proteção de várias doenças).

Por exemplo, a prevenção do tabagismo contribui para a prevenção de doenças respiratórias,


oncológicas e cardiovasculares.

2. Prevenção Primária

25
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

Visa evitar ou remover fatores de risco ou causais antes que se desenvolva o mecanismo
patológico que levará à doença. Recorre a meios dirigidos ao nível individual, a grupos
selecionados ou à população em geral.

Desta feita, espera-se a diminuição da incidência da doença pelo controlo de fatores de risco
ou causas associadas, bem como a diminuição do risco médio de doença na população.

Como exemplos deste tipo de prevenção, temos:


 Imunização (vacinação) contra algumas doenças infectocontagiosas
 Toma de vitamina D pelas crianças para prevenir o raquitismo
 Uso de preservativos para a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis
 Uso de seringas descartáveis pelos toxicodependentes, para prevenir infeções como
VIH/SIDA e hepatites.

3. Prevenção Secundária

Corresponde à deteção precoce de problemas de saúde em indivíduos presumivelmente


doentes, mas assintomáticos para a situação em estudo.

Pretende-se, ainda, que haja uma aplicação imediata de medidas apropriadas, com vista ao
rápido restabelecimento da saúde ou, pelo menos, um condicionamento favorável da
evolução da situação, com cura e/ou redução das consequências mais importantes da
doença.

Este nível de prevenção pressupõe o conhecimento da história natural da doença, a existência


de um período de deteção precoce suficientemente longo (período pré-clínico ou
assintomático) e facilmente detetável, e que seja passível de tratamento que interrompa a
evolução para estádios mais graves.

Assim, espera-se que haja diminuição da prevalência da doença, essencialmente pela


diminuição da duração da mesma.

26
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

Temos como exemplos:


 Rastreio dos cancros do colo do útero, da mama, da próstata, do cólon e reto
 Rastreio da fenilcetonúria no recém-nascido
 Rastreio e vigilância da pressão arterial, glicémia ou dislipidémia
 Realização dos testes de avaliação de acuidade auditiva e visual no âmbito da saúde
ocupacional
 Provas cutâneas e radiografia do tórax para o rastreio e diagnóstico precoce da
tuberculose.

4. Prevenção Terciária

Este tipo de prevenção tem como objetivos:


1) Limitar a progressão da doença, circunscrevendo-a,
2) Evitar ou diminuir as consequências ou complicações da doença como as
insuficiências, incapacidades, sequelas, sofrimento ou ansiedade, morte precoce,
3) Promover a adaptação do doente às consequências inevitáveis (situações
incuráveis), e
4) Prevenir recorrências da doença, ou seja, controla-la e estabiliza-la.

Para atingir estes objetivos, é frequente (e necessária) a intervenção associada da medicina


preventiva e da medicina curativa.

Com efeito, é muitas vezes difícil individualizar os seus papéis e sobressai, não raras vezes,
a prevenção exercida fundamentalmente através de terapêutica, controlo e reabilitação
médicas.

Não obstante essa situação, há múltiplos exemplos de ações de carácter não médico e que
são fundamentais para a potenciação da capacidade funcional do indivíduo, melhoria
significativa no seu bem-estar, reintegração familiar e social e até diminuição dos custos
sociais e económicos dos “estados de doença”.

Senão veja-se:

27
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

 Realização de sessões formativas/educativas nas escolas e locais de trabalho para


eliminar atitudes fóbicas em relação a indivíduos seropositivos para o VIH
 Reintegração de trabalhadores na empresa que por algum tipo de incapacidade (pós-
traumática, sequelas de politraumatismos, etc.) não possam voltar a realizar o mesmo
tipo de atividades
 Educação, formação e apetrechamento necessários à autonomia de indivíduos
invisuais.

28
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

7. Serviços de saúde e cuidados de saúde

29
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

A proteção da saúde constitui um direito dos indivíduos e da comunidade que se efetiva pela
responsabilidade conjunta dos cidadãos, da sociedade e do Estado, em liberdade de procura
e de prestação de cuidados, nos termos da Constituição e da lei.

O Estado promove e garante o acesso de todos os cidadãos aos cuidados de saúde nos
limites dos recursos humanos, técnicos e financeiros disponíveis.

A promoção e a defesa da saúde pública são efetuadas através da atividade do Estado e de


outros entes públicos, podendo as organizações da sociedade civil ser associadas àquela
atividade.

A política de saúde tem âmbito nacional e obedece às diretrizes seguintes:


a) A promoção da saúde e a prevenção da doença fazem parte das prioridades no
planeamento das atividades do Estado;
b) É objetivo fundamental obter a igualdade dos cidadãos no acesso aos cuidados de
saúde, seja qual for a sua condição económica e onde quer que vivam, bem como
garantir a equidade na distribuição de recursos e na utilização de serviços;
c) São tomadas medidas especiais relativamente a grupos sujeitos a maiores riscos,
tais como as crianças, os adolescentes, as grávidas, os idosos, os deficientes, os
toxicodependentes e os trabalhadores cuja profissão o justifique;
d) Os serviços de saúde estruturam-se e funcionam de acordo com o interesse dos
utentes e articulam-se entre si e ainda com os serviços de segurança e bem-estar
social;
e) A gestão dos recursos disponíveis deve ser conduzida por forma a obter deles o
maior proveito socialmente útil e a evitar o desperdício e a utilização indevida dos
serviços;
f) É apoiado o desenvolvimento do sector privado da saúde e, em particular, as
iniciativas das instituições particulares de solidariedade social, em concorrência com
o sector público;
g) É promovida a participação dos indivíduos e da comunidade organizada na
definição da política de saúde e planeamento e no controlo do funcionamento dos
serviços;

30
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

h) É incentivada a educação das populações para a saúde, estimulando nos indivíduos


e nos grupos sociais a modificação dos comportamentos nocivos à saúde pública ou
individual;
i) É estimulada a formação e a investigação para a saúde, devendo procurar-se
envolver os serviços, os profissionais e a comunidade.

Cuidados de saúde – Conjunto organizado de atividades médicas e paramédicas, gerais e de


especialidades, prestadas á população de forma coordenada, com o objetivo de assegurar a
cada indivíduo o melhor nível de saúde, através da promoção da saúde, da prevenção da
doença, bem como da cura dos doentes e recuperação dos diminuídos.

Os cuidados de saúde são prestados por serviços e estabelecimentos do Estado ou, sob
fiscalização deste, por outros entes públicos ou por entidades privadas, sem ou com fins
lucrativos.

Tipos de cuidados de saúde:

Cuidados primários ou cuidados de base~

Intervenções médicas, paramédicas e médico-sociais, abrangendo a promoção da saúde e


prevenção da doença, diagnóstico e tratamento elementar ou a triagem ou encaminhamento
para instituições especializadas.

Cuidados secundários ou cuidados hospitalares

Intervenções visando o diagnóstico ou tratamento através de recursos mais diferenciados e


habitualmente em meio hospitalar.

Cuidados terciários

Conjunto de atividades médicas e médico-sociais visando a limitação das sequelas e a


reabilitação física, psíquica e social dos diminuídos

31
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

Cuidados continuados

Intervenções sequenciais de saúde e/ou apoio social, decorrente da avaliação conjunta,


centradas na recuperação global das pessoas com perda de funcionalidade, ou em situação
de dependência, em qualquer idade, que se encontrem afetadas na estrutura anatómica ou
nas funções psicológica ou fisiológica, com limitação acentuada na possibilidade de
tratamento curativo de curta duração, suscetível de correção, compensação ou manutenção
e que necessitem de cuidados complementares e interdisciplinares de saúde de longa
duração.

O sistema de saúde é constituído pelo Serviço Nacional de Saúde e por todas as entidades
públicas que desenvolvam atividades de promoção, prevenção e tratamento na área da
saúde, bem como por todas as entidades privadas e por todos os profissionais livres que
acordem com a primeira a prestação de todas ou de algumas daquelas atividades.

O Serviço Nacional de Saúde abrange todas as instituições e serviços oficiais prestadores de


cuidados de saúde dependentes do Ministério da Saúde e dispõe de estatuto próprio.

A rede nacional de prestação de cuidados de saúde abrange os estabelecimentos do Serviço


Nacional de Saúde e os estabelecimentos privados e os profissionais em regime liberal com
quem sejam celebrados contratos.

32
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

8. Cadeia de sobrevivência: Suporte Básico de Vida


(SBV) precoce, desfibrilhação precoce, Suporte
Avançado de Vida (SAV) precoce

33
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

A Cadeia de Sobrevivência representa, simbolicamente, o conjunto de procedimentos que


permitem salvar vítimas de paragem cardiorrespiratória.

À luz do conhecimento médico atual, considera-se que há três atitudes que modificam o
resultado no socorro à vítima de paragem cardiorrespiratória (PCR):
1. Pedir ajuda, acionando de imediato o Sistema Integrado de Emergência Médica
(SIEM);
2. Iniciar de imediato manobras de Suporte Básico de Vida (SBV);
3. Aceder à desfibrilhação tão precocemente quanto possível mas apenas quando
indicado.

Estes procedimentos sucedem-se de uma forma encadeada e constituem uma cadeia de


atitudes em que cada elo articula o procedimento anterior com o seguinte.

Surge assim o conceito de Cadeia de Sobrevivência, composta por quatro elos ou ações, em
que o funcionamento adequado de cada elo e a articulação eficaz entre os vários elos é vital
para que o resultado final seja uma vida salva.

É importante destacar que a resistência desta cadeia é a do elo mais fraco, como em qualquer
sequência. Ou seja, todos os elos que constituem a «cadeia de sobrevivência» são cruciais
no salvamento de vidas humanas.

Os quatro elos da cadeia de sobrevivência são:


1. Acesso precoce ao Sistema Integrado de Emergência Médica - 112
2. Início precoce de SBV
3. Desfibrilhação precoce
4. Suporte Avançado de Vida (SAV) precoce

34
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

Estes elos devem ser seguidos pela sequência apresentada e não é demais repetir que todos
eles são fundamentais para que a reanimação cardiorrespiratória tenha sucesso.

Concluindo, cada elemento da «cadeia de sobrevivência», quando unido, forma uma corrente
que permite que a reanimação cardiorrespiratória tenha sucesso.

Contudo, a resistência desta corrente será aquela que se encontra na resistência de cada
elo, ou seja, o resultado final está dependente da eficácia de cada um deles.

ACESSO PRECOCE

O rápido acesso ao SIEM assegura o início da Cadeia de Sobrevivência. Cada minuto sem se
chamar o socorro reduz a possibilidade de sobrevivência da vítima.

Para o funcionamento adequado deste elo é fundamental que quem presencia uma
determinada ocorrência seja capaz de reconhecer a gravidade da situação e saiba ativar o
sistema, ligando adequadamente 112 (para poder informar o quê, onde, como e quem).

A incapacidade de adotar estes procedimentos significa falta de formação. A consciência de


que estes procedimentos podem salvar vidas humanas deve ser incorporada o mais cedo
possível na vida de cada cidadão.

SBV PRECOCE

35
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

Para que uma vítima em perigo de vida tenha maior hipótese de sobrevivência é fundamental
que sejam iniciadas, de imediato e no local onde ocorreu a situação, manobras de SBV. Isto
só se consegue se quem presencia a situação tiver a capacidade de iniciar o SBV.

O SBV permite ganhar tempo, mantendo alguma circulação e alguma ventilação na vítima,
até à chegada de socorro mais diferenciado para instituir os procedimentos de SAV.

DESFIBRILHAÇÃO PRECOCE

A maioria das PCR no adulto ocorrem devido a uma perturbação do ritmo cardíaco a que se
chama Fibrilhação Ventricular (FV).

Esta perturbação do ritmo cardíaco caracteriza-se por uma atividade elétrica caótica de todo
o coração, em que não há contração do músculo cardíaco e, como tal, não é bombeado
sangue para o organismo.

O único tratamento eficaz para esta arritmia é a desfibrilhação que consiste na aplicação de
um choque elétrico, externamente a nível do tórax da vítima, para que a passagem da
corrente elétrica pelo coração pare a atividade caótica que este apresenta. A desfibrilhação
eficaz é determinante na sobrevivência de uma PCR.

Também este elo da cadeia deve ser o mais precoce possível. A probabilidade de conseguir
tratar a FV com sucesso depende do fator tempo. A desfibrilhação logo no 1º minuto em que
se instala a FV pode ter uma taxa de sucesso próxima dos 100%, mas ao fim de 8-10 minutos
a probabilidade de sucesso é quase nula.

SAV PRECOCE

Este elo da cadeia de sobrevivência é uma “mais-valia”. Nem sempre a desfibrilhação é eficaz,
por si só, para recuperar a vítima. Outras vezes a desfibrilhação pode não ser sequer
indicada.

36
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

O SAV permite conseguir uma ventilação mais eficaz (através da entubação endotraqueal) e
uma circulação também mais eficaz (através da administração de fármacos).

Idealmente, o SAV deverá ser iniciado ainda na fase pré-hospitalar e continuado no hospital,
permitindo a estabilização das vítimas recuperadas de PCR.

Integram também este elo os cuidados pós-reanimação, que têm o objetivo de preservar as

funções do cérebro e coração.

37
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

9. O sistema integrado de emergência médica: INEM,


112, CODU, CIAV

38
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

SIEM - Conjunto de ações coordenadas, de âmbito extrahospitalar, hospitalar e inter-


hospitalar, que resultam da intervenção ativa e dinâmica dos vários componentes do sistema
de saúde nacional, de modo a possibilitar uma atuação rápida, eficaz e com economia de
meios em situações de emergência médica.

Compreende toda a atividade de urgência/emergência, nomeadamente o sistema de socorro


pré-hospitalar, o transporte, a receção hospitalar e a adequada referenciação do doente
urgente/emergente.

FASES DO SIEM

Tendo como base o símbolo da ‘Estrela da Vida’, a cada uma das suas pontas corresponde
uma fase do SIEM.

Deteção

Corresponde ao momento em que alguém se apercebe da existência de uma ou mais vítimas


de doença súbita ou acidente.

39
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

Alerta
É a fase em que se contactam os serviços de emergência, utilizando o Número Europeu de
Emergência - 112.

Pré-socorro

Conjunto de gestos simples que podem e devem ser efetuados até à chegada do socorro.

Socorro

Corresponde aos cuidados de emergência iniciais efetuados às vítimas de doença súbita ou


de acidente, com o objetivo de as estabilizar, diminuindo assim a morbilidade e a mortalidade.

Transporte

Consiste no transporte assistido da vítima numa ambulância com características, tripulação


e carga bem definidas, desde o local da ocorrência até à unidade de saúde adequada,
garantindo a continuidade dos cuidados de emergência necessários.

Tratamento na Unidade de Saúde

Esta fase corresponde ao tratamento no serviço de saúde mais adequado ao estado clínico
da vítima.

Em alguns casos excecionais, pode ser necessária a intervenção inicial de um


estabelecimento de saúde onde são prestados cuidados imprescindíveis para a estabilização
da vítima, com o objetivo de garantir um transporte mais seguro para um hospital mais
diferenciado e/ou mais adequado à situação.

INTERVENIENTES NO SIEM

São intervenientes no sistema:


• Público;

40
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

• Operadores das Centrais de Emergência 112;


• Técnicos dos CODU;
• Agentes da autoridade;
• Bombeiros;
• Tripulantes de ambulância;
• Técnicos de ambulância de emergência;
• Médicos e enfermeiros;
• Pessoal técnico hospitalar;
• Pessoal técnico de telecomunicações e de informática.

A capacidade de resposta adequada, eficaz e em tempo oportuno dos sistemas de


emergência médica às situações de emergência, é um pressuposto essencial para o
funcionamento da cadeia de sobrevivência.

O INEM

O Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) é o organismo do Ministério da Saúde


responsável por coordenar o funcionamento, no território de Portugal continental, de um
sistema integrado de emergência médica (SIEM), de forma a garantir aos sinistrados ou
vítimas de doença súbita a pronta e correta prestação de cuidados de saúde.

A prestação de socorros no local da ocorrência, o transporte assistido das vítimas para o


hospital adequado e a articulação entre os vários intervenientes no SIEM (hospitais,
bombeiros, polícia, etc.), são as principais tarefas do INEM.

O INEM, através do Número Europeu de Emergência - 112, dispõe de vários meios para
responder com eficácia, a qualquer hora, a situações de emergência médica.

As chamadas de emergência efetuadas através do número 112 são atendidas em centrais de


emergência da Polícia de Segurança Pública (PSP).

41
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

Atualmente, no território de Portugal Continental, as chamadas que dizem respeito a


situações de saúde são encaminhadas para os Centro de Orientação de Doentes Urgentes
(CODU) do INEM.

CODU

Compete ao CODU atender e avaliar no mais curto espaço de tempo os pedidos de socorro
recebidos, com o objetivo de determinar os recursos necessários e adequados a cada caso.

O funcionamento do CODU é assegurado em permanência por médicos e técnicos, com


formação específica para efetuar:
• O atendimento e triagem dos pedidos de socorro;
• O aconselhamento de pré-socorro, sempre que indicado;
• A seleção e acionamento dos meios de socorro adequados;
• O acompanhamento das equipas de socorro no terreno;
• O contacto com as unidades de saúde, preparando a receção hospitalar dos doentes.

Ao ligar 112 deverá estar preparado para informar:


• A localização exata da ocorrência e pontos de referência do local, para facilitar a
chegada dos meios de socorro;
• O número de telefone de contacto;
• O que aconteceu (ex. acidente, parto, falta de ar, dor no peito);
• O número de pessoas que precisam de ajuda;
• Condição em que se encontra(m) a(s) vítima(s);
• Se já foi feita alguma coisa (ex. controlo de hemorragia);
• Qualquer outro dado que lhe seja solicitado (ex. se a vítima sofre de alguma doença
ou se as vítimas de um acidente estão encarceradas).

O CODU têm à sua disposição diversos meios de comunicação e de atuação no terreno, como
sendo as ambulâncias INEM, as motas, as VMER e os helicópteros de emergência médica.

Através da criteriosa utilização dos meios de telecomunicações ao seu dispor, o CODU têm
capacidade para acionar os diferentes meios de socorro, apoiá-los durante a prestação de

42
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

socorro no local das ocorrências e, de acordo com as informações clínicas recebidas das
equipas no terreno, selecionar e preparar a receção hospitalar dos diferentes doentes.

O INEM presta também orientação e apoio noutros campos da emergência tendo, para tal,
criado vários sub-sistemas: CODU-MAR e CIAV.
CODU MAR

O Centro de Orientação de Doentes Urgentes-Mar (CODU-MAR) tem por missão prestar


aconselhamento médico a situações de emergência que se verifiquem a bordo de
embarcações.

Se necessário, o CODUMAR pode acionar a evacuação do doente e organizar o acolhimento


em terra e posterior encaminhamento para o serviço hospitalar adequado.

CIAV

O Centro de Informação Antivenenos (CIAV) é um centro médico de informação toxicológica.


Presta informações referentes ao diagnóstico, quadro clínico, toxicidade, terapêutica e
prognóstico da exposição a tóxicos em intoxicações agudas ou crónicas.

O CIAV presta um serviço nacional, cobrindo a totalidade do país. Tem disponíveis médicos
especializados, 24 horas por dia, que atendem consultas de médicos, outros profissionais de
saúde e do público em geral.

AMBULÂNCIAS

As ambulâncias de socorro coordenadas pelos CODU estão localizadas em vários pontos do


país, associadas às diversas delegações do INEM, estão também sediadas em corpos de
bombeiros ou em delegações da Cruz Vermelha Portuguesa (CVP).

A maior parte das Corporações de Bombeiros estabeleceu com o INEM protocolos para se
constituírem como Posto de Emergência Médica (PEM) ou Posto Reserva. Muitas das
Delegações da CVP são postos reserva do INEM.

43
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

As ambulâncias PEM são ambulâncias de socorro do INEM, que estão sediadas em corpos de
Bombeiros com os quais o INEM celebrou protocolos. Estas ambulâncias destinam-se à
estabilização e transporte de doentes que necessitem de assistência durante o transporte e
cuja tripulação e equipamento permitem a aplicação de medidas de suporte básico de vida
(SBV) e desfibrilhação automática externa (DAE).

A tripulação é constituída por dois elementos da corporação e, pelo menos um deles, deve
estar habilitado com o Curso de Tripulante de Ambulância de Socorro (TAS). O outro
tripulante, no mínimo, deve estar habilitado com o Curso de Tripulante de Ambulância de
Transporte (TAT).

As ambulâncias SBV do INEM são ambulâncias de socorro, igualmente destinadas à


estabilização e transporte de doentes que necessitem de assistência durante o transporte e
cuja tripulação e equipamento permitem a aplicação de medidas de SBV e DAE.

São tripuladas por dois Técnicos de Ambulância de Emergência (TAE) do INEM, devidamente
habilitados com os cursos de TAS, de DAE, e de Condução de Emergência.

As ambulâncias de suporte imediato de vida (SIV) do INEM constituem um meio de socorro


em que, além do descrito para as SBV, há possibilidade de administração de fármacos e
realização de atos terapêuticos invasivos, mediante protocolos aplicados sob supervisão
médica.

São tripuladas por um TAE e um Enfermeiro do INEM, devidamente habilitados.

Atuam na dependência direta dos CODU, e estão localizadas em unidades de saúde.

TRANSPORTE INTER-HOSPITALAR PEDIÁTRICO (TIP)

O Subsistema de Transporte de Recém-Nascidos de Alto Risco e Pediatria é um serviço de


transporte inter-hospitalar de emergência, permitindo o transporte e estabilização de bebés
prematuros, recém-nascidos e crianças em situação de risco de vida, dos 0 aos 18 anos de

44
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

idade, para hospitais com Unidades de Neonatologia, Cuidados Intensivos Pediátricos e/ou
determinadas especialidades ou valências.

As ambulâncias deste Subsistema dispõem de um Médico especialista, um Enfermeiro e um


TAE, estando dotadas com todos os equipamentos necessários para estabilizar e transportar
os doentes pediátricos.

Em 2010 foi concluído o processo de alargamento do âmbito deste serviço ao transporte de


todos os grupos etários pediátricos.

Este serviço funciona 24 horas por dia, todos os dias do ano.

VMER

As Viaturas Médicas de Emergência e Reanimação (VMER) são veículos de intervenção pré-


hospitalar, concebidos para o transporte de uma equipa médica ao local onde se encontra o
doente.

Com equipas constituídas por um médico e um enfermeiro, dispõem de equipamento para


Suporte Avançado de Vida (SAV) em situações do foro médico ou traumatológico.

Atuam na dependência direta dos CODU, tendo uma base hospitalar, isto é, estão localizadas
num hospital. Têm como principal objetivo a estabilização pré-hospitalar e o
acompanhamento médico durante o transporte de vítimas de acidente ou doença súbita em
situações de emergência.

HELICÓPTEROS

Os helicópteros de emergência médica do INEM são utilizados no transporte de doentes


graves entre unidades de saúde ou entre o local da ocorrência e a unidade de saúde.

Estão equipados com material de SAV, sendo a tripulação composta por um médico, um
enfermeiro e dois pilotos.

45
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

MOTAS

As motas de Emergência são tripuladas por um TAE e graças à sua agilidade no meio do
trânsito citadino, permitem a chegada mais rápida do primeiro socorro junto de quem dele
necessita. Reside aqui a sua principal vantagem relativamente aos meios de socorro
tradicionais.

Naturalmente limitada em termos de material a deslocar, a carga da moto inclui DAE,


oxigénio, adjuvantes da via aérea e ventilação, equipamento para avaliação de sinais vitais
e glicemia capilar entre outros.

Tudo isto permite ao TAE a adoção das medidas iniciais, necessárias à estabilização da vítima
até que estejam reunidas as condições ideais para o seu eventual transporte.

UMIPE

A unidade móvel de intervenção psicológica de emergência (UMIPE) é um veículo de


intervenção concebido para transportar um psicólogo do INEM para junto de quem necessita
de apoio psicológico, como por exemplo, sobreviventes de acidentes graves, menores não
acompanhados ou familiares de vítimas de acidente ou doença súbita fatal.

É conduzida por um elemento com formação em condução de veículos de emergência. Atuam


na dependência direta dos CODU, tendo por base as Delegações Regionais.

46
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

10. SBV: conceito, etapas e procedimentos,


posicionamento, sequência de ações, problemas
associados.

47
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

Suporte básico de vida

O SBV consiste num conjunto de procedimentos realizados sem recurso a equipamento


específico, e que tem como objetivo a manutenção da vida e o ganho de tempo, até à
chegada de ajuda especializada.

O SBV inclui:
• Avaliação inicial (verificar condições de segurança e se a vítima responde).
• Permeabilização das vias respiratórias.
• Ventilação com ar expirado (respiração boca a boca).
• Compressão do tórax (compressão cardíaca externa).

48
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

SBV na criança

49
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

Paragem cardiorespiratória

A paragem cardiorrespiratória consiste na interrupção ou falência súbita e inesperada dos


batimentos cardíacos, implicando a paragem da circulação sanguínea, da hematose pulmonar
e do fornecimento de oxigénio às células de todos os tecidos e órgãos do corpo.

As causas da paragem cardiorrespiratória são muito diversas.

As mais comuns passam pela obstrução das vias respiratórias por um corpo estranho, pela
doença cardíaca, pelo traumatismo craniano, pelo afogamento ou pela eletrocussão.

Os sintomas da paragem cardiorrespiratória resultam da falência das funções cardíaca e


respiratória. Tipicamente, caracterizam-se por dores fortes no peito, abdómen ou costas,
pela ausência de movimentos e ruídos respiratórios, pela dificuldade em falar, pela cianose
de lábios e extremidades, pela palidez e pela perda de consciência.

Obstrução da via aérea

A obstrução da via aérea é uma emergência de prioridade absoluta que, não sendo
reconhecida e resolvida, provoca a morte em poucos minutos.

Numa obstrução parcial ainda existe a passagem de algum ar, mantendo-se as trocas
gasosas. A vítima começa por tossir, ainda consegue falar e pode fazer inspirações ruidosas.

Numa obstrução total, já não existe passagem de ar na via aérea. A vítima não consegue
falar, tossir ou respirar. Pode apresentar a pele da cara e das extremidades com uma
coloração azulada ou violácea (cianose) e agarrar o pescoço com as mãos, sinal universal de
asfixia.

Manobras fundamentais

As duas manobras fundamentais do suporte básico de vida são as compressões torácicas e


as ventilações.

50
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

O fluxo de sangue para o coração, o cérebro e outros órgãos vitais só pode ser reposto pela
aplicação das compressões torácicas que, de uma forma grosseira, vão substituir os
batimentos cardíacos. Estas manobras devem ser devidamente enquadradas num algoritmo
mais amplo de suporte básico de vida.

1. Avaliar as condições de segurança

Comece por verificar se não existe perigo para si, para a vítima ou para terceiros, tal como:
tráfego, eletricidade, gás ou outros.

2. Avaliar o estado de consciência

Toque suavemente nos ombros da vítima e pergunte-lhe em voz alta: Está bem? Sente-se
bem? A Se não obtiver resposta, grite por ajuda.

3. Gritar por ajuda

Havendo alguém por perto, peça para ficar ao pé de si, pois pode precisar de ajuda. Se
estiver sozinho(a), grite alto para chamar a atenção. Nunca abandone a vítima.

51
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

4. Permeabilizar a via aérea

A queda da língua pode obstruir, numa vítima inconsciente, a via aérea. Esta deve ser
permeabilizada através da extensão da cabeça e da elevação do queixo, o que provoca a
deslocação da língua para a frente.

Esta manobra não deve ser realizada caso haja suspeita de traumatismo da coluna. A
proteção da coluna deverá ser efetuada por reanimadores habilitados.

52
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

Para fazer a extensão da cabeça, pouse a palma de uma mão na testa da vítima e coloque
os dedos indicador e médio da outra mão na extremidade óssea da mandíbula. Incline
suavemente a cabeça para trás e eleve a mandíbula sem fazer pressão nos tecidos moles
por baixo do queixo.

Não feche a boca da vítima.

5. Avaliar a respiração

Mantendo a via aérea permeável, verifique se a vítima respira normalmente. Para tal,
aproxime a sua cara da face da vítima e, olhando para o seu tórax, execute o VOS (ver,
ouvir, sentir), para:
• Ver se existem movimentos torácicos.
• Ouvir eventuais ruídos da saída do ar pela boca ou nariz da vítima.
• Sentir na face se há saída de ar pela boca ou nariz da vítima.

A execução do VOS não deve exceder os 10 segundos.

Minutos após uma paragem cardiorrespiratória, algumas vítimas podem apresentar uma
respiração irregular e ruidosa que não deve ser confundida com uma respiração normal.

Caso a vítima esteja a respirar normalmente, deve ser colocada em posição lateral de
segurança.

53
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

6. Ligar 112

Caso a vítima não responda e não tenha a respiração normalizada, deve ativar de imediato
o sistema de emergência médica, ligando 112.

Se estiver sozinho(a), poderá ter de abandonar a vítima e o local. Se estiver alguém consigo,
deve solicitar a essa pessoa que faça a chamada para o 112.

Se a vítima for uma criança ou um indivíduo de qualquer idade que tenha sido vítima de
afogamento, só deve ligar para o 112 após 1 minuto de suporte básico de vida.

7. Compressões torácicas

Para aplicar corretamente as compressões torácicas num adulto, deve proceder da seguinte
forma:
1.° Posicione-se ao lado da vítima.
2.° Certifique-se de que a vítima está deitada de costas, sobre uma superfície firme
e plana.
3.° Afaste as roupas que lhe cobrem o tórax.
4.° Coloque a base de uma mão no centro do tórax da vítima, entre os mamilos.
5.° Coloque a outra mão sobre a primeira, entrelaçando os dedos.
6.° Estique os braços e cotovelos, com os ombros na direção das mãos.
7.° Aplique compressão sobre o esterno, deprimindo-o
5 a 6 cm a cada compressão (para que o sangue seja injetado do coração para as
artérias).
8.° No final de cada compressão, alivie toda a pressão sem remover as mãos do tórax
(para que o sangue encha o coração entre as compressões torácicas).
9.° Aplique compressões de forma rítmica a uma frequência de, pelo menos, 100 por
minuto, mas não mais do que 120 por minuto (pode contar as compressões em voz
alta).
10.° Nunca interrompa as compressões mais do que 5 segundos (o sangue deixa de
circular).

54
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

8. Ventilações

Para executar as ventilações (respiração boca a boca), deve proceder da seguinte forma:
1.° Comece por permeabilizar a via aérea da vítima, colocando-lhe uma mão na testa
e inclinando-lhe a cabeça para trás.
2.° Coloque os dedos da outra mão perto do queixo, por baixo da parte óssea da
mandíbula, de modo que o queixo da vítima permaneça levantado mas sem que a
boca fique fechada.

55
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

3.° Mantendo a mão na testa da vítima, comprima as suas narinas, inspire


normalmente, sele os seus lábios ao redor da boca da vítima e aplique uma ventilação,
soprando por 1 segundo.
4.° Observe se existe elevação do tórax da vítima, como numa respiração normal.
5.° Se o tórax não se elevar, repita as manobras de permeabilização da via aérea.
6.° Aplique uma segunda ventilação.
7.° Caso as 2 ventilações se revelem ineficazes, avance de imediato para novas
compressões torácicas.

Deve manter os ciclos de 30 compressões, alternadas com 2 ventilações, e parar apenas


quando:
a) Chegarem os técnicos de emergência médica;
b) Estiver fisicamente exausto(a); ou
c) A vítima recomeçar a ventilar normalmente.

O SBV, quando executado corretamente, permite manter a vítima viável até à chegada do
SAV. Podem no entanto ocorrer alguns problemas.

Problemas com a ventilação

56
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

O principal problema que pode ocorrer com a ventilação é a insuflação de ar para o estômago,
que pode provocar a saída do conteúdo do mesmo para a via aérea, provocar a elevação do
diafragma que restringe os movimentos respiratórios tornando a ventilação menos eficaz.

Fazer insuflações com grande quantidade de ar, com grande velocidade e durante um curto
período de tempo facilita a ocorrência de insuflação gástrica. Se detetada, não deve tentar
resolver-se comprimindo o estômago, dado que apenas estará a causar regurgitação do
conteúdo do mesmo.

No caso de vítimas desconhecidas e na ausência de algum mecanismo de barreira para


efetuar as insuflações, não deverá efetuar ventilação boca-a-boca. Neste caso é preferível
efetuar apenas compressões torácicas, a um ritmo de 100/min, que não efetuar nenhum
SBV.

Problemas com as compressões

As compressões torácicas, mesmo quando corretamente executadas, conseguem gerar


apenas aproximadamente 25 % do débito cardíaco normal. Efetuá-las obliquamente em
relação ao tórax pode fazer rolar a vítima e diminui a sua eficácia.

É também importante que o tórax descomprima totalmente após cada compressão para
permitir o retorno de sangue ao coração antes da próxima compressão e otimizar o débito
cardíaco.

As compressões torácicas podem causar fratura de articulações condrocostais (articulação


das costelas com o esterno), lesão de órgãos internos, rotura do pulmão, do coração ou do
fígado. Este risco é minimizado, mas não totalmente abolido, pela correta execução das
compressões.

A preocupação com as potenciais complicações do SBV não deve impedir o reanimador de


iniciar prontamente as manobras de SBV dado que, no caso de uma vítima em paragem
cardiorrespiratória, a alternativa ao SBV é a morte.

57
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

11. Posição lateral de segurança

58
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

Se a vítima respira normalmente mas está inconsciente, deve ser colocada em posição lateral
de segurança (PLS).

Quando uma vítima se encontra inconsciente em decúbito dorsal, mesmo que respire
espontaneamente, pode desenvolver um quadro de obstrução da via aérea e deixar de
respirar, devido ao relaxamento do palato mole e da epiglote.

A via aérea pode também ficar obstruída por regurgitação do conteúdo gástrico, secreções
ou sangue.

Nestes casos a vítima deve ser colocada numa posição que mantenha a permeabilidade da
via aérea, garantindo a não obstrução por relaxamento do palato mole e epiglote, permitindo
a livre drenagem de um qualquer líquido da cavidade oral, evitando a entrada do mesmo nas
vias respiratórias, nomeadamente no caso de a vítima vomitar.

A Posição Lateral de Segurança deve respeitar os seguintes princípios:


 Ser uma posição o mais ‘lateral’ possível para que a cabeça fique numa posição em
que a drenagem da cavidade oral se faça livremente;
 Ser uma posição estável;
 Não causar pressão no tórax que impeça a respiração normal;
 Possibilitar a observação e acesso fácil à via aérea;
 Ser possível voltar a colocar a vítima em decúbito dorsal de forma fácil e rápida;
 Não causar nenhuma lesão à vítima.

É particularmente importante não causar nenhuma lesão adicional à vítima com a colocação
em PLS, por este motivo, no caso de existir suspeita de traumatismo da coluna cervical, não
está indicada a colocação da vítima em PLS.

Se há suspeita de trauma a vítima só deve ser mobilizada se for impossível manter a


permeabilidade da via aérea de outro modo, e neste caso, deve ser sempre respeitado
simultaneamente o alinhamento da coluna cervical.

59
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

Como proceder para colocar uma vítima em PLS:

 Ajoelhe-se ao lado da vítima e estenda-lhe as duas pernas;


 Permeabilize a via aérea, através da extensão da cabeça e elevação da mandíbula;
 Retire óculos e objetos volumosos (chaves, telefones, canetas etc.) dos bolsos da
vítima, alargue a gravata (se apropriado) e desaperte o colarinho;
 Coloque o braço da vítima, mais próximo de si, dobrado a nível do cotovelo, de forma
a fazer um ângulo reto com o corpo da vítima ao nível do ombro e com a palma da
mão virada para cima;

 Dobre o outro braço sobre o tórax e encoste a face dorsal da mão à face da vítima
do lado do reanimador;

60
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

 Com a outra mão segure a coxa da vítima, do lado oposto ao seu, imediatamente
acima do joelho e levante-a, de forma a dobrar a perna da vítima a nível do joelho;
 Mantenha uma mão a apoiar a cabeça e puxe a perna, a nível do joelho, rolando o
corpo da vítima na sua direção, para espaço criado para o efeito;

 Ajuste a perna que fica por cima de modo a formar um ângulo reto a nível da coxa e
do joelho;
 Se necessário, ajuste a mão sob a face da vítima para que a cabeça fique em
extensão;

 Verifique se a via aérea se mantém permeável, certificando-se que a vítima respira


normalmente (se fizer ruído reposicione a cabeça);
 Vigie regularmente.

61
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

 Se a vítima tiver que permanecer em PLS por um longo período de tempo,


recomenda-se que ao fim de 30 minutos seja colocada sobre o lado oposto, para
diminuir o risco de lesões resultantes da compressão sobre o ombro.
 Se a vítima deixar de respirar espontaneamente é necessário voltar a colocá-la em
decúbito dorsal, reavaliar e iniciar SBV.

Em resumo:
 As vítimas inconscientes que respiram devem ser colocadas em PLS, desde que não
haja suspeita de trauma;
 A colocação em PLS permite manter a permeabilidade da via aérea e evitar a entrada
de conteúdo gástrico na via aérea.

62
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

12. Primeiros Socorros

63
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

1. ASFIXIA/SUFOCAÇÃO
Dificuldade respiratória que leva à falta de oxigénio no organismo. As causas podem ser
variadas, sendo a mais vulgar a obstrução das vias respiratórias por corpos estranhos
(objetos de pequenas dimensões, alimentos mal mastigados, etc.).
Outras causas possíveis de asfixia são: ingestão de bebidas ferventes ou cáusticas, pesos em
cima do peito ou costas, intoxicações diversas, paragem dos músculos respiratórios.
A obstrução pode ser:
 PARCIAL: A vítima começa com dificuldade respiratória de início súbito, tosse, e
apresenta-se agitada. Nesta situação só devemos encorajar a vítima a tossir.

 TOTAL: A vítima não consegue tossir, falar nem respirar, podendo assim em ficar
em paragem respiratória. Nesta situação, a vítima pode ficar por instantes reativa
mas depois fica inconsciente. Neste caso é necessário atuar rapidamente.

SINAIS E SINTOMAS
Conforme a gravidade da asfixia, podem ir desde um estado de agitação, lividez, dilatação
das pupilas (olhos), respiração ruidosa e tosse, a um estado de inconsciência, com paragem
respiratória e cianose (tonalidade azulada) da face e extremidades.
A situação é grave e requer intervenção imediata!
O QUE DEVE FAZER
Corpo estranho nas vias respiratórias
 Numa criança: Abra-lhe a boca e tente extrair o corpo estranho, se este ainda estiver
visível, usando o seu dedo indicador em gancho ou uma pinça, mas sempre com
muito cuidado para não o empurrar! Caso não esteja visível, coloque a criança de
cabeça para baixo e dê-lhe algumas pancadas a meio das costas, entre as omoplatas,
com a mão aberta.
 No jovem/adulto: Coloque-se por trás da vítima e passe-lhe o braço em volta da
cintura. Feche a mão em punho e coloque-o logo acima do umbigo. Cubra o punho
com a outra mão e carregue para dentro e para cima, até 5 movimentos - Manobra
de Heimlish.

64
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

Repita a operação as vezes que forem necessárias até à saída do corpo estranho. Se a
respiração não se restabelecer e a vítima continuar cianosada (tonalidade azulada), inicie
o Suporte Básico de Vida.
Logo que a respiração estiver restabelecida, ative o Serviço de Emergência Médica para o
transporte da vítima para o Hospital.

2. CORPOS ESTRANHOS
Corpos estranhos são corpos que penetram no organismo, através de qualquer orifício, ou
após uma lesão de causa variável. Os corpos estranhos podem encontrar-se mais
frequentemente nos olhos, nariz, ouvidos ou vias respiratórias.
1.1 OLHOS
Os mais frequentes são: grãos de areia, insetos e limalhas.
SINAIS E SINTOMAS
 Dor ou picada local.
 Lágrimas.
 Dificuldade em manter as pálpebras abertas.
O QUE DEVE FAZER
 Abrir as pálpebras do olho atingido com muito cuidado.
 Fazer correr água sobre o olho, do canto interno, junto ao nariz, para o externo.
 Repetir a operação duas ou três vezes.
• Se não obtiver resultado, fazer um penso oclusivo, isto é, colocar uma compressa e
adesivo, e enviar ao Hospital.
O QUE NÃO DEVE FAZER
 Esfregar o olho.
 Tentar remover o corpo estranho com lenço, papel, algodão ou qualquer outro
objetos.

1.2 OUVIDOS
No ouvido os corpos estranhos mais frequentes são os insetos.
SINAIS E SINTOMAS
Pode existir surdez, zumbidos e dor, sobretudo se o inseto estiver vivo.

65
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

O QUE DEVE FAZER


Se se tratar de um inseto, deitar uma gota de azeite ou óleo e depois enviar ao Hospital.
Outros corpos estranhos, enviar ao Hospital.
O QUE NÃO DEVE FAZER
Tentar remover o objeto.

2.3NAS VIAS RESPIRATÓRIAS:


Os corpos estranhos podem causar perturbações nas vias respiratórias, de natureza variável
de acordo com a sua localização.
SINAIS E SINTOMAS
São também variáveis. Pode existir dificuldade respiratória, dor, vómitos e nos casos mais
graves asfixia, que pode conduzir à morte.

2.3.1NARIZ:
Os mais frequentes, na criança, são os feijões ou objetos de pequenas dimensões, como
botões e peças de brinquedos.
O QUE DEVE FAZER
Pedir à criança para se assoar com força, comprimindo a narina contrária com o dedo,
tentando assim que o corpo seja expelido. Se não obtiver resultado, enviar ao Hospital.

2.3.2GARGANTA:
Os corpos estranhos entalados na garganta podem ser pedaços de alimentos mal mastigados,
ossos ou pequenos objetos. Estes corpos estranhos podem impedir a respiração e provocar
asfixia.

3.DESMAIO
Desmaio ou perda súbita de consciência é provocado por falta de oxigénio no cérebro, à qual
o organismo reage de forma automática, com perda de consciência e queda brusca e
desamparada do corpo. Normalmente, o desmaio dura 2 a 3 minutos. Tem diversas causas:
excesso de calor, fadiga, jejum prolongado, permanência de pé durante muito tempo, etc.
SINAIS E SINTOMAS
• Palidez.
• Suores frios.

66
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

• Falta de força.
• Pulso fraco.
O QUE DEVE FAZER
1. SE NOS APERCEBERMOS DE QUE UMA PESSOA ESTÁ PRESTES A DESMAIAR:
• Sentá-la.
• Colocar-lhe a cabeça entre as pernas.
• Molhar-lhe a testa com água fria.
• Dar-lhe de beber chá ou café açucarados.

2. SE A PESSOA JÁ ESTIVER DESMAIADA:


• Deitá-la com a cabeça de lado e as pernas elevadas.
• Desapertar-lhe as roupas.
• Mantê-la confortavelmente aquecida, mas, sempre que possível, em local arejado.
• Logo que recupere os sentidos, dar-lhe uma bebida açucarada.
• Consultar posteriormente o médico.

4.TRAUMATISMOS, LESÕES E FERIDAS


O trauma surge quando o corpo é obrigado a receber subitamente uma energia elétrica, por
calor e/ou movimento. Um dos mecanismos mais frequentes consiste quando o corpo
absorve energia cinética (energia mecânica inerente aos corpos materiais em movimento).
Assim o corpo pode receber essa energia e não sofrer danos, como também pode a ter
graves problemas, como lesões irreversíveis.

4.1TRAUMATISMO CRÂNIO-ENCEFÁLICO
O traumatismo crânio-encefálico (TCE) Consiste em o cérebro sofrer uma pancada, que pode
não ser grave, como também pode ficar com sequelas irreversíveis. A gravidade depende de
o cérebro ser afetado ou não. Nunca esquecer que qualquer vítima acidentada e inconsciente
deverá ser sempre socorrida como suspeita de TCE.
As lesões mais frequentes de um TCE são: hematomas e/ou feridas no couro cabeludo e
fraturas de crânio.
SINAIS E SINTOMAS
 Alteração de consciência
 Sonolência

67
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

 Náuseas e/ou vómitos


 Tonturas
 Cefaleias
 Desorientação no espaço e no tempo
 Agitação
 Perturbações na visão (pupilas assimétricas – TCE, muito grave)
.  Presença de sangue e/ou líquido céfalo-raquidiano
 Lesões evidentes (fratura, ferida, hematoma, etc.).
O QUE DEVE FAZER:
 Acalmar a vítima
 Manter a vítima em repouso
 Controlar eventual hemorragia
 Caso exista otorragia, colocar apenas uma compressa para embeber o sangue, sem fazer
compressão
 Chamar 112

5.QUEIMADURAS
As queimaduras são uma lesão da pele, resultante do contacto direto ou indireto com um
agente exterior. Lesões da pele resultantes do contacto com o calor, agentes químicos ou
radiações. Podem, em alguns casos, ser profundas, atingindo músculos ou mesmo estruturas
ósseas.
Assim, quando nos deparamos com uma queimadura, primeira atitude é de avaliar o seu
grau de gravidade:
 Causa
 Extensão
 Profundidade
 Local
 Idade da vítima
As causas das queimaduras podem ser várias como:
 Queimaduras térmicas: Provocadas pelo calor seco (fogo) ou, calor húmido
(água a ferver, chá ou café quente, etc.) ou pelo frio, como a neve.
 Queimaduras químicas: Este tipo de queimaduras é mais comum em fábricas,
resulta do derrame de ácidos (ácido sulfúrico) e de bases (soda cáustica

68
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

 Queimaduras elétricas: Quando estamos perante queimaduras por eletricidade é


sempre de levar a vítima ao hospital, porque a eletricidade não queima só no ponto
de contacto, mas entra no organismo e sai do mesmo podendo mesmo levar á
paragem respiratória.
 Queimaduras por radiações: Resultante da exposição prolongada ao sol ou
tratamentos com radiações ultravioleta

As queimaduras classificam-se em relação à:


Extensão – dimensão da área atingida (quanto maior for a área atingida maior será a
gravidade).
Quanto maior for a zona queimada, maior é a sua gravidade, maior é a suscetibilidade a
infeções, que é uma das principais causas de morte num queimado. Assim, poderemos dizer
que estamos perante um grande queimado ou não, através da Regra dos Nove.

Profundidade – grau de destruição dos tecidos.


A profundidade significa se a queimadura só atingiu a pele ou também tecidos subjacentes.
Assim teremos que classificar as queimaduras em vários graus.
 1º Grau: São as menos graves, atingindo somente a epiderme (superfície da pele),
no entanto são as mais dolorosas. A pele fica vermelha, muito sensível, quente e
dolorosa.
 2º Grau: Comprometem a epiderme e a derme, apresentam-se acompanhadas por
flitenas e são muito dolorosas.
 3º Grau: Quando existe destruição total da pele (epiderme e derme) e dos tecidos
subjacentes. A pele fica acastanhada, se for por calor seco ou branca se a causa for
calor húmido.

69
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

O QUE DEVE FAZER


Em caso de:
 Queimadura térmica, devemos colocar água ou soro fisiológico para diminuir a dor e
nunca retirar a roupa.
 Queimadura química, devemos imediatamente retirar a roupa e colocar água ou soro
fisiológico se for um líquido, se for pó, deveremos após retirar a roupa, limpá-lo e
depois lavar.
 Queimadura por radiações devemos colocar um creme bastante gordo e dar muita
líquida á vítima se esta se encontrar consciente.
 Queimadura elétrica, deve-se desligar em 1º lugar a corrente e depois enviá-lo
sempre ao hospital. Nunca esquecer que o primeiro e melhor tratamento para uma
queimadura são Água Ou o Soro Fisiológico.

6. HEMORRAGIA
As hemorragias resultam de rutura de vasos sanguíneos. É uma situação que necessita de
um socorro imediato, pois pode causar a morte. Quando estamos perante uma hemorragia,
devemos saber qual a sua origem para melhor controlo.
Assim temos:
Hemorragia Arterial - resulta de uma rutura numa artéria. O sangue sai em forma
de jacto, sempre que o coração se contrai. Esta hemorragia é abundante e de difícil
controlo.
Hemorragia Venosa – resulta da rutura de uma veia e o sangue sai em forma de
toalha de modo regular

70
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

Hemorragia Capilar - resulta de uma rutura de minúsculos vasos capilares Esta


hemorragia é de fácil controlo, podendo mesmo parar espontaneamente.

As hemorragias, à semelhança da classificação da origem, vão também ser classificadas em


relação à sua localização, podendo ser:
Hemorragias externas - são fáceis de observar.
Hemorragias internas - podem ser observáveis, como as epistaxes, otorragia; ou não
observáveis como as melenas (sangue nas fezes)
Hemorragia interna
Este tipo de hemorragias surge por:
Doença (úlcera do estômago).
Trauma:
 Impacto forte a nível do abdómen.
 Queda superior á altura da vítima.
 Feridas penetrantes provocadas por armas brancas ou de fogo.
 Lesões do tórax, com suspeita de faturas
Os sinais e sintomas da hemorragia interna são:
 Sede
 Sensação de frio (arrepios) e tremores
 Pulso progressivamente mais rápido e mais fraco
Nota: casos ainda mais graves a palidez, arrefecimento, sobretudo das extremidades e
zumbidos.
COMO DEVE FAZER EM CASO DE HEMORRGAIA EXTERNA
 Compressão manual direta
 Compressão manual indireta ou à distância
 Garrote

71
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

O resultado destas técnicas pode ser melhorado, associando às mesmas os seguintes


procedimentos:
- Aplicação de frio: esta técnica vai fazer com que os vasos se contraiam reduzindo a
hemorragia. No entanto, a sua aplicação requer cuidados.
Então quando se utilizar gelo, devemos envolvê-lo num pano limpo ou em compressas e
depois colocá-lo sobre a lesão. A sua deve-se fazer por períodos de tempo não superiores a
10 minutos
- Elevação do membro: esta técnica permite utilizar a força da gravidade para reduzir a
pressão de sangue na zona da lesão. Para a sua aplicação verificar se não existem outras
lesões que possam ser agravadas.
- Compressão manual direta: Na compressão manual direta deve fazer-se compressão
diretamente sobre a lesão que sangra, utilizando compressas esterilizadas ou um pano limpo
para auxiliar. Caso o volume de compressas seja excessivo, retirar a maioria sem remover
aquelas que estão em contacto direto com a ferida, de forma a evitar que a mesma volte a
sangrar. Esta técnica, apesar de eficaz, não deve ser aplicada quando se está perante uma
ferida com objeto empalado ou uma ferida associada a fraturas.
- Compressão Manuel indireta: Aplica-se quando não é possível efetuar a compressão manual
direta e consiste em fazer compressão num ponto entre o coração e a lesão que sangra.
Para isso utiliza-se um garrote/torniquete. O garrote, devido às lesões que provoca, é
colocado somente quando todas as outras técnicas de controlo de hemorragias falharam ou
quando se está perante a destruição de um membro. Este deve ser de tecido não elástico e
largo. Quando se recorre ao garrote, deve registar-se a hora da sua aplicação.

6.1 EPÍSTAXES
Epistaxes é a hemorragia nasal provocada pela rutura de vasos sanguíneos da mucosa do
nariz.
SINAIS E SINTOMAS
• Saída de sangue pelo nariz, por vezes abundante e persistente.
• Se a hemorragia é grande, o sangue pode sair também pela boca.
O QUE DEVE FAZER
 Sentar a vítima com a cabeça direita no alinhamento do corpo (nem para trás, nem
para a frente).
 Comprimir com o dedo a narina que sangra, durante 10 minutos.

72
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

 Aplicar gelo exteriormente, não diretamente sobre a pele.


 Se a hemorragia não parar, introduzir um tampão coagulante na narina que sangra
(“Spongostan”, por exemplo), fazendo ligeira pressão para que a cavidade nasal fique
bem preenchida.
Atenção: antes de qualquer procedimento o socorrista deve calçar luvas descartáveis.
Se a hemorragia persistir mais do que 10 minutos, transportar a vítima para o Hospital.

7. CHOQUE ANAFILÁTICO

As Alergias são reações de hipersensibilidade imediata que afetam uma ou várias partes do
corpo podendo conduzir ao choque anafilático.
A sua manifestação mais grave é quando provoca inchaço e obstrução das vias aéreas
superiores e/ou hipotensão, o que pode ser fatal.
O QUE DEVE FAZER
• Acalmar a vítima.
• Chamar 112.
• Contatar Encarregado de Educação

8. CONVULSÃO

Uma convulsão é a resposta a uma descarga elétrica anormal no cérebro. É muitas vezes
conhecida por “ataque” e caracteriza-se por alguns dos seguintes sinais ou sintomas.
SINAIS E SINTOMAS
 Face arroxeada.
 Movimentos bruscos e descontrolados da cabeça e/ou extremidades
 Perda de consciência, com queda desamparada
 Olhar vago, fixo e/ou “revirar dos olhos” (precede os anteriores)
 “Espumar pela boca”
 Perda de urina e/ou fezes
 Morder a língua e/ou lábios.
O QUE DEVE FAZER
 Afastar todos os objetos onde a vítima se possa magoar e amparar-lhe a cabeça com
a mão ou com um objeto macio (camisola, toalha).

73
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

 Desapertar a roupa à volta do pescoço.


 Tornar o ambiente calmo, afastando os curiosos.
 Anotar a duração da convulsão.
 Acabada a fase de movimentos bruscos, colocar a vítima na Posição Lateral de
Segurança
 Manter a vítima num ambiente tranquilo e confortável.
 Avisar os Pais.
Enviar a vítima ao Hospital sempre que:
 For a primeira convulsão;
 Durar mais de 8 minutos;
 Se repetir.
Atenção: Na criança pequena (idade inferior a 5 anos), a convulsão pode ser provocada (ou
acompanhada) por febre. Quando a crise terminar, deve verificar a temperatura axilar e se
tiver mais de 37,5 ºC administrar antipirético sob a forma de supositório (Paracetamol, por
exemplo: Ben-U-Ron, Tylenol ou similar).

74
UFCD 4283 – Saúde e socorrismo

Bibliografia

AA VV., Manual de Suporte Básico de Vida e Desfibrilhação Automática Externa, Ed. Escola
Superior de Saúde, Instituto Politécnico de Setúbal, 2012

AA VV., Manual TAS: Emergências médicas, Ed. INEM, 2012

AA VV., Manual TAS: Suporte básico de vida, Ed. INEM, 2012

Alves, Ana Paula et al. Noções de Saúde: Manual do Formando, Projeto Delfim, GICEA -
Gabinete de Gestão de Iniciativas Comunitárias do Emprego, 2000

Baptista, Nelson, Manual de Primeiros-Socorros, Ed. Escola Nacional de Bombeiros, 2005

Campos, Alexandra, “Estatuto do Serviço Nacional de Saúde – breve apresentação e


comentário”, Revista Portuguesa de Saúde Pública, 1 (11), 1993

Carvalho, et al., O modelo biomédico e a abordagem da promoção da saúde na prevenção


de comportamentos de risco, Ed. Universidade do Minho, s/d

Sites Consultados

INEM – Instituto Nacional de Emergência Média


http://www.inem.pt

Portal da saúde
http://www.portaldasaude.pt/

75