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Fabricantes investem em novos sistemas para setor financeiro

Cibelle Bouças, de São Paulo


09/02/2010

"Sempre há limites. Eu não conheço os meus." A frase, do velocista jamaicano Usain Bolt, bem poderia ser adotada
pelas empresas que desenvolvem os programas usados nas mesas de negociação por corretoras e bancos de
investimento. Pressionadas pelas mudanças tecnológicas feitas pela BM&Bovespa - que há dois anos deu fim ao
pregão presencial e agora investe para processar mais transações eletrônicas em menos tempo - essas companhias
estão acelerando o desenvolvimento de produtos para dar conta desse cenário, onde milésimos de segundo fazem
diferença.

Tome-se o caso da BLK Sistemas Financeiros. A companhia registrou uma expansão de 250% nas vendas ao mercado
interno em 2009 e projeta para este ano um crescimento de pelo menos 200%. O que está puxando essa demanda?
"Corretoras de médio e pequeno portes, consultorias de gestão de investimentos, fundos de pensão e outros agentes
financeiros que ainda não se prepararam para adotar os sistemas automatizados de operações eletrônicas, mas
começam a buscar esses produtos", afirma o sócio-diretor da BLK, Rogério de Paiva Bezerra. A demanda no país
anda tão aquecida que a companhia não pensa, por enquanto, em planos para chegar ao exterior. "O mercado
interno é nossa prioridade. Exportar será um segundo passo", diz Bezerra.

A BLK oferece conexão a clientes com o sistema de operações da BM&FBovespa e tem como produto mais conhecido
o RoboTrader, um software de algoritmo usado por sete dos dez maiores bancos e por 19 das 30 maiores corretoras
do país. O programa é abastecido com parâmetros estatísticos que identificam características como preço das ações,
relação entre preços, volatilidade etc.

O software permite programar a realização automática de ordens de compra e venda, de acordo com os parâmetros
definidos pelo usuário, e possibilita desmembrar uma ordem em centenas ao longo do dia. Ao todo, segundo a
empresa, é possível realizar até 1 milhão de operações diárias. Com o desmembramento, as corretoras podem lucrar
com pequenas distorções que ocorrem nos valores dos títulos ao longo do pregão. O ganho é pequeno, mas como a
escala é centenas de vezes maior que a dos antigos pregões ao vivo, as operações tornam-se mais rentáveis e menos
arriscadas.

As operações são executadas em milionésimos de segundo e quem compra ou vende mais rápido consegue melhores
resultados. Nessa disputa, até a localização faz diferença. A conexão entre as bolsas e os investidores é feita por
fibra óptica e os dados viajam na velocidade da luz - 299.792.458 metros por segundo, ou 40 milionésimos de
segundo por quilômetro. As corretoras que têm seu servidor na central de dados da BM&FBovespa ganham alguns
milissegundos em relação a investidores que têm os servidores fora desse ambiente.

"A principal demanda hoje é pelo software de algoritmo, que são os mais sofisticados", afirma o gerente de produtos
da CMA, Raphael Juan. A companhia brasileira possui 20 mil terminais profissionais no país e outros mil no exterior.
Para 2010, a empresa prevê crescimento de 20% nas vendas ao mercado interno, acima da média anual de 15%, diz
Juan. No exterior, a expectativa é dobrar o número de terminais neste ano. "A demanda cresceu, mas a competição
no mercado de software também está mais acirrada", diz o executivo.

A CMA atua com software de algoritmos e também com sistemas que permitem ao investidor conectar-se com a
bolsa, comprar e vender títulos (mas não de forma automática). Esses sistemas vão desde ferramentas simples, que
permitem ao investidor ao acessar a internet ver as cotações e fazer negócios, até plataformas de acesso com
sistemas que oferecem análises de mercado e conexão mais veloz, além dos serviços básicos. Juan acredita que, com
a recuperação da economia, a demanda de pessoas físicas e pequenos investidores por sistemas mais simples
também deve crescer.

Mas a CMA e a BLK não são as únicas a perceber a efervescente demanda no Brasil. Companhias consolidadas no
mercado global, como a americana Progress e a francesa ULLink, também definem estratégias para ganhar espaço
no país. "Hoje, o Brasil é o país que mais cresce nesse segmento no mundo", diz o diretor de desenvolvimento de
novos negócios da Progress, Luiz Gustavo Penteado. Atuando no Brasil desde 1996, a companhia lançou no sistemas
de algoritmo em 2008. No ano passado, conquistou 15 clientes e outros quatro em janeiro deste ano. Para 2010, a
empresa projeta crescimento em vendas no Brasil de 80%. A maior parte do crescimento virá da troca de sistemas
que a empresa já oferecia aos seus 4 mil clientes no país.

Penteado observa que no passado as empresas operavam em bolsa com o sistema Excel que realiza uma ordem por
cada 400 ou 500 milissegundos (milésimos de segundo). O software de algoritmo realiza uma ordem por cada 20
microssegundos (ou 20 mil ordens pelo mesmo tempo do Excel). O sistema oferecido pela Progress é o Apama.
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Diferente do RoboTrader, que já possui um conjunto de ações predefinidas em seu sistema, o Apama permite que os
usuários definam que características dar ao seu algoritmo - o chamado software "white box". A plataforma do Apama
é compatível com 17 sistemas operacionais, entre eles Windows, Linux e Solaris. "Em média, um algoritmo precisa
ser alterado a cada três meses, porque depois desse tempo, os concorrentes conseguem identificar a sua estratégia.
Ter um sistema 'white box' facilita essa mudança", diz.

A francesa ULLink, que vende sistemas para acesso direto ao mercado (DMA, na sigla em inglês) e sistemas de
gerenciamento de ordens (OMS) também vê boas perspectivas para o mercado brasileiro. A companhia atua no
mercado local há seis anos, mas montou escritórios em São Paulo e Brasília apenas em 2008. Recentemente, a
empresa conquistou quatro grandes clientes (entre eles o Citibank e o Santander) e a expectativa é de crescimento
exponencial das vendas, diz o diretor de serviços para América Latina da ULLink, Rodrigo Ramos. "As perspectivas
para os mercados emergentes como um todo são muito consistentes", afirma. A empresa também comercializa o
software de algoritmo Apama, mas deve lançar neste ano seu próprio sistema de algoritmos.

Empresas brasileiras especializadas em software para o mercado financeiro, como a BLK Sistemas Financeiros e
CMA, investem em inovação para concorrer no mercado aquecido pelas mudanças recentes realizadas pela
BM&FBovespa - que deu fim ao pregão eletrônico há dois anos e em março dobrará a capacidade de processamento
do seu portão de acesso eletrônico (gateway), para 3,4 milhões de negócios por dia nas duas bolsas.