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Teologia das Religiões

Material Teórico
As Principais Críticas à Teologia das Religiões

Responsável pelo Conteúdo:


Prof. Dr. Elton de Oliveira Nunes

Revisão Textual:
Prof.ª Me. Sandra Regina F. Moreirahh
Teologia das Religiões

• Introdução;
• A Crítica à TR - O Fim das Religiões;
• A Crítica à TR – A Diluição das Religiões na Cultura;
• A Crítica à TR – A Perda de Sentido das Religiões;
• Considerações Finais.

OBJETIVO DE APRENDIZADO
• Enfrentar as principais críticas à TR enquanto área da Teologia.
Orientações de estudo
Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem
aproveitado e haja maior aplicabilidade na sua
formação acadêmica e atuação profissional, siga
algumas recomendações básicas:
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material e local de
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Procure manter indicações
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da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e
horário fixos como seu “momento do estudo”;

Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma


alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo;

No material de cada Unidade, há leituras indicadas. Entre elas, artigos científicos, livros, vídeos
e sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você
também encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão
sua interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados;

Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discus-
são, pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o
contato com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e
de aprendizagem.
UNIDADE As Principais Críticas à Teologia das Religiões

Introdução
Nesta última unidade, veremos a questão das críticas à Teologia das Religiões. Foi
um longo caminho até aqui e necessitamos, nesta última parte, recordar os princi-
pais pontos desta disciplina.

Iniciamos esta disciplina enfatizando a questão do surgimento da Teologia das


Religiões como uma das áreas de pesquisa na ciência teológica como um dos
grandes desafios do século XXI. Isso porque a TR tem por objetivo alertar para o
diálogo na sociedade e buscar a paz mundial.

Esse desafio se encontra como um dos mais urgentes, junto com a questão do
aquecimento global e das questões humanitárias urgentes em nosso planeta.

Lembramos que o século XX foi denominado de século das guerras e que, no


início do século XXI, temos cerca de (70) setenta guerras ocorrendo pelo globo.
Isso tudo se traduz por fome, miséria, sofrimento, doenças e a pior crise de deslo-
camento de pessoas que o mundo moderno já presenciou.

Por isso, a Teologia das Religiões tem a ambição de poder contribuir para o
fim das guerras e instaurar uma era de diálogo cooperativo entre os povos. Nessa
primeira unidade, buscamos apresentar um panorama da Teologia das Religiões.

Logo após, buscamos classificar os diversos posicionamentos que dividem a


Teologia das Religiões (TR). O Exclusivismo, que apresenta como objetivo o Cristia-
nismo como a única Religião verdadeira. O Inclusivismo, que se define como uma
hierarquia das religiões em que o Cristianismo é o ápice da revelação de Deus, e o
Pluralismo, que defende a dignidade e igualdade entre todas as religiões.

Posteriormente, procuramos entender como as declarações e teorias proposta


pela TR afetam a Teologia como um todo, em especial nas três áreas mais nevrál-
gicas do debate com a TR. A Cristologia, a Soteriologia e a Revelação. Essas áreas
disciplinares, dentro da Ciência Teológica, têm uma ampla história de desenvolvi-
mentos e proposições que, segundo a TR, ou estão completamente equivocadas
ou necessitam de releituras transformadoras em quase todos os seus aspectos. Esse
tipo de conclusão levanta paixões e ânimos na Academia. Dessa forma, tomamos
conhecimento das propostas revisionistas da TR.

A seguir, adentramos à questão dos principais nomes de cada corrente dentro da


TR. Assim, ficamos conhecendo as teorias e a biografia de Karl Barth, o principal
proponente da linha exclusivista. Também apresentamos Karl Ranher, proponente
da Teoria do Inclusivismo e, por fim, ficamos conhecendo John Rick, o grande
nome do Pluralismo Religioso.

Seguindo em nossos estudos, buscamos enfrentar a questão Cristológica, que


envolve as diversas correntes do Cristianismo. A questão Cristológica é a mais cen-
tral para a TR em relação ao Cristianismo, pois esse se define a partir dela.

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Por isso, analisamos a Cristologia Clássica, fundada na concepção da trajetória
histórica do Cristianismo Estatal, depois analisamos a questão Cristológica para a
Teologia Católica e, por último, a questão Cristológica para o campo Protestante.

Nesta última unidade, veremos as principais críticas divididas nos seguintes tópi-
cos: a crítica à TR como a proposição do fim das religiões; a crítica à TR como uma
diluição das religiões na cultura e, por fim, a crítica à TR como perda de sentido
das religiões. Esperamos que, com isso, o nosso panorama e visão sobre a Teologia
das Religiões se complete.

Procure ler com atenção e se utilizar de todos os recursos extras disponíveis para
tirar suas dúvidas. Bons estudos.

A Crítica à TR – O Fim das Religiões


Um dos pontos nevrálgicos levantados pelos críticos e teólogos da TR é a
questão da Revelação. Enfim, as declarações contidas na Bíblia são de fato para
serem levadas a sério, de forma literal, de forma verídica?

A Revelação é a base de todas as religiões, seja escrita, oral ou que tenha


passado de um processo de oralidade para um processo escrito. A Revelação é o
fundamento da crença religiosa que externa em um conhecimento recebido e que
orienta a vida dos fiéis.

Assim, a Fala Sagrada ou o Texto Sagrado é determinante para a existência de


uma Religião e sua continuidade. Perder o Texto ou a Fala Sagrada significa perder
a Religião.

Pois bem, o primeiro ponto da TR é modificar a questão do critério de verdade


contido no Texto Sagrado. Essa não é mais a verdade, mas uma verdade diante de
outras verdades que se estabelecem a partir do grupo ou lugar em que se fala.

Abandona-se por completo a possibilidade de uma verdade para se adotar a


ideia de “verdades” construídas a partir do estabelecimento de um consenso de
grupo. Uma verdade por adesão. Nesse sentido, as epistemologias (pós-modernas
ou hipermodernas, dependendo do autor) ditam esse conceito.

A Ciência Moderna trabalha na concepção da lógica aristotélica que aplica o


princípio da não contradição e da identidade. Ou seja, uma coisa é ou não é. Não
é possível que uma seja ao mesmo tempo algo e não algo.

Porém, dentro das chamadas Ciências Sociais ou Humanas, ocorre uma onda
de abandono da lógica aristotélica. Esse processo tem suas raízes em Kant e sua
crítica em relação à Religião. A categoria “Deus”, segundo ele, pertenceria ao
númeno, onde as coisas em si estão além de compreensão racional.

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UNIDADE As Principais Críticas à Teologia das Religiões

Dessa forma, Kant abre um caminho para se tornar a ideia de Divindade fora
da possibilidade do mundo fenomênico. Seguindo esse raciocínio é que John Rick
advoga que a ideia de uma comunicação divina com o ser humano é impossível.
Tudo o que é dito sobre Deus, sobre a Divindade e sobre o mundo espiritual é
construção meramente humana e aceita por adesão. Todas as religiões somente
podem ser entendidas como uma glosa (fala) sobre a Divindade, não uma revelação
no sentido de um contato do divino com o ser humano.
Dessa forma, a fala de um lugar é diferente da fala de outro lugar. No pressupos-
to kantiano, o divino não é cognoscível pelo ser humano e, por isso, a Revelação
é meramente uma opinião sobre a Divindade.
Dessa forma, nenhuma Revelação, seja pela Fala Sagrada ou pelo Texto
Sagrado, pode ser aceita literalmente ou pode ser reivindicada como a verdade
sobre a Divindade.
O que se propõe a TR é justamente atualizar o conhecimento a partir dessa nova
concepção sobre a Revelação para o ser humano do século XXI. Ao abandonar,
segundo os proponentes da TR, o conhecimento ultrapassado das revelações, a
Religião se reinventa e pode buscar o seu novo papel de relevância na sociedade.
Mas qual seria esse papel? Ao longo do tempo, a TR se aproximou de outro
ramo da Teologia conhecido como Teologia da Libertação. Um dos caminhos
possíveis, que vai ao encontro das pretensões da TR, é a questão da paz-libertação
dos povos de toda a opressão. Dessa forma, um dos pontos mais atraentes é a ideia
de mudança política ou de luta política através de uma revolução dos oprimidos (de
todas as áreas e matizes).
Essa ideia não é nova. Encontramos ressonância nessa perspectiva em Gramsci
e em outros articuladores políticos e ideológicos. A Religião se transformaria na
trincheira ideológica de um mundo que busca pela igualdade na fraternidade dos
oprimidos e na sua busca por justiça e paz.
A questão da verdade, assim, torna-se irrelevante, pois não há verdade na Reve-
lação, apenas opinião sobre o que é ou quem seria ou como seria a Divindade. É
o fim da Religião tal e qual a conhecemos.
Esse conceito de Revelação também afeta, como vimos, o conceito sobre a
Divindade. A partir da desconstrução do conceito de Revelação, surge de for-
ma imperativa explicar o conceito de Divindade. Quem é Deus se não podemos
conhecê-lo? O que é a Divindade se tudo é glosa?
Os proponentes do Pluralismo na TR dizem que a concepção de um Deus único
foi uma construção de um consenso político para unificação do poder nas mãos do
rei ou imperador.
Dessa forma, são inadequadas todas as concepções monoteístas que apresen-
tam a Divindade como uma autoridade suprema. O conceito de Divindade deve ser
mais bem entendido, como nas religiões que a apresentam como um conceito vago
ou diluído em muitas personas e manifestações que, assim, podem ser utilizadas
para diferentes grupos de pessoas buscando a adesão.

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Outro ponto importante é que o aparato ético baseado em recompensa e casti-
go por parte da Divindade não é mais adequado à liberdade atual. Dessa forma, a
exaltação à liberdade humana deve ser valorizada e entendida como parte de uma
Religião de aceitação universal. A verdadeira Religião é o amor para com os pobres
e oprimidos.

A Religião torna-se, assim, o ponto de encontro entre uma concepção filosófica


da Divindade com o desejo humano de liberdade, de igualdade, de fraternidade,
livre de toda a discriminação e exploração. O papel da Religião é construir a utopia
da união pela adesão aos desejos de paraíso dos seres humanos. O fim da opressão.

Em relação específica ao Cristianismo, há um problema adicional a ser enfren-


tado pelos teólogos da TR. A Questão de Cristo como parte inseparável da Di-
vindade. Como definir o Cristo preconizado pela Revelação e pelo Cristianismo
histórico?

A TR busca ressaltar aspectos positivos do Cristo dos Evangelhos a partir de sua


origem étnica e seu papel na Religião judaica. Assim, a ideia do profeta, do mestre,
do líder religioso, do proclamador de uma reinterpretação do Judaísmo é exaltada
como ponto positivo para se entender o Cristo messiânico.

O que a TR rejeita de forma veemente é o entendimento que se estabeleceu, a


partir dos concílios ecumênicos, de que Jesus é o filho de Deus no sentido de ser
a própria Divindade.

A leitura que se faz a partir da TR é a de que a construção histórica do Cristo


divino foi uma engendrada operação para a afirmação de uma instituição de poder
religioso ligada ao Império Romano, a Igreja Católica Apostólica Romana.

Ao longo do tempo, essa construção permitiu à Igreja Católica se firmar como


detentora do poder e agir de forma opressora e violenta. A Cristologia construída ao
longo de séculos, segundo a TR, é a causa de tantas mortes, opressões, violências
e arbitrariedades cometidas em nome da Fé Cristã.

Os textos bíblicos que tratam da Divindade de Jesus, ou são adulterações


posteriores, ou são mal interpretados para dar um embasamento revelacional sobre
o “Filho de Deus”.

Não há, portanto, no Cristianismo, lugar para a narrativa doutrinária da


expiação, da substituição penal, do pecado e da graça como é apresentada pelos
diversos ramos cristãos.

Os proponentes da TR, seguindo os passos dos teólogos da libertação, preferem


uma leitura de um Cristo revolucionário e libertador que morreu por conta de um
império opressor contra os pobres e excluídos.

Em relação à ressurreição, os teólogos da TR tomam duas direções. Uns veem


essa ideia como construção artificial e errônea, outros preferem interpretá-la como
um sonho ideal da humanidade na vida eterna, uma forma de motivação emocional
para buscar a adesão ao ideal humano de paraíso.

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UNIDADE As Principais Críticas à Teologia das Religiões

Outro conceito inerente às religiões monoteístas, ou ao Cristianismo, em espe-


cial, é o conceito de salvação. A TR necessita ressignificar esse conceito após a
desconstrução dos conceitos anteriores.

Salvação, segundo a TR, é um símbolo para descrever um encontro radical com


significado último. Na linha da Teologia da Libertação, esse símbolo é a esperança
radical da luta pela libertação da opressão. Assim, a escatologia cristã não é a espe-
rança de vida após a morte, mas um símbolo de vida após a opressão nesse mundo.

Cada ponto de desconstrução avança para outro ponto na TR. Passamos agora
para o conceito de conversão. O que significaria então esse conceito no entendimento
dos Teólogos da TR? Conversão segue a mesma lógica de aproximação da Teologia
da Libertação.

A conversão para a luta contra a lógica da dominação e opressão econômica.


Nas interpretações clássicas do Cristianismo, em suas vertentes católica e protes-
tante, a conversão era um ato de aceitação a Cristo como seu salvador. Na TR isso
não tem sentido. Por isso, ao falar de conversão, a TR reinterpreta o conceito para
que este passe a ter a noção de engajamento em uma causa político-religiosa.

Assim, podemos ver que salvação na TR implica numa ideia de esperança na vi-
tória a partir da adesão social a uma causa, e a conversão é o ato de aderir à causa
para se tornar um militante (fiel) a ela.

O próximo conceito é o de missão. Na doutrina clássica, missão é o ato de fa-


lar sobre sua fé e apresentar as boas-novas de salvação do Evangelho. Na TR, a
missão é assumir a causa de libertação dos oprimidos, vivenciando o amor pelos
explorados e lutar contra o sistema opressor.

Em síntese, apresentamos:

Revelação
Glosa - apenas
uma opinião
humana sobre
a divindade

Divindade
Algo vago
e etereo -
inalcançável
Doutrina
Cristã
Salvação
Releitura Crença na
Pluralista libertação em um
mundo melhor

Conversão
Adesão à causa
libertária
e política

Missão
Ação de militância
na causa de
libertação

Imagem 1 – A Descontrução da TR em Relação ao Cristianismo


Fonte: (VIGIL et al., 2006)

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Porém, a grande crítica a essa tremenda desconstrução é o fato de que a aplica-
ção dos princípios da TR ao Cristianismo também são os mesmos que devem ser
aplicados às outras religiões.
Dessa maneira, a dignidade e o respeito esperados para as outras religiões, em
conformidade ao que foi apresentado em relação ao Cristianismo, caem por terra.
Em outras palavras. É admissível ver o Alcorão como fruto de uma construção
política opressora, engendrada para a manutenção de poder e privilégios? Estamos
falando do Islã monoteísta, assim como a TR lê o Cristianismo monoteísta.
O processo de desconstrução para a ideia de libertação no aqui e agora, fruto de
uma visão europeia cientificista e materialista é algo digno para submeter o Hindu-
ísmo? Outro ponto controverso é a construção de um paraíso no aqui e agora. A
base do Budismo e do Hinduísmo é que a realidade social em que vivemos é uma
farsa que aderimos pelo apego.
Criar as condições de uma vida no aqui e agora é apenas prolongar a dor e o
sofrimento no apego à matéria. Como convencer um budista ou um hinduísta de
que a criação de uma sociedade materialmente justa é melhor do que a união com
o cosmos? Nesse ponto, podemos perceber a visão ocidental materialista e mesmo
capitalista dos proponentes da TR.
Outro ponto de questionamento está na ideia pueril de bondade natural do ser.
O sonho de uma transformação humana, em que todos se voltem para o bem,
para a paz e para a fraternidade apenas mudando as condições materiais para uma
suposta igualdade de benefícios ou acessos materiais a bens de consumo, sem uma
metanóia (transformação de mentalidade) tal e qual se fala no Cristianismo, é ao
menos ingênuo.
Os críticos do comportamento humano, existencial (Freud), social (Durkheim)
e político (Voltaire), já apresentaram suas opiniões avassaladoras sobre a ideia da
bondade inerente do ser humano. O mal do ser é o próprio ser.
Mesmo as religiões que tratam de uma antropologia do ser esclarecem essa in-
genuidade. A doutrina judaico-cristã do pecado trata de uma alienação incorrigível
pelas forças humanas e que o ser humano é um ser aprisionado entre o desejo de
bem e a falta de condições existenciais para realiza-lo, levando-o ao desespero e à
morte pela violência, seja ela existencial, simbólica ou real.
Ou seja, a proposta de releitura do que seria a Religião não satisfaz às próprias
religiões. Abrir mão da crença no sobrenatural para um mergulho na matéria é
simplesmente querer que o religioso se converta em um ateu que tem fé na matéria.
Porém, há mais. Os críticos apontam a submissão da Religião à cultura para a
satisfação de seus adversários. A Modernidade trouxe a descrença científica e ma-
terialista, e a Pós-Modernidade a descrença metanarrativa. Ora, muitos veem as
questões apresentadas para uma releitura do Cristianismo pelos teólogos da TR,
como uma tentativa de “agradar” ou de tornar mais “palatável” a Religião Cristã,
tornando-a mais atual com o “espírito da época” (materialista-ceticista).

É necessária essa adequação à cultura? A Religião deve se adequar ao espírito da


época? E à teologia cabe esse papel? Quais as consequências disso?

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UNIDADE As Principais Críticas à Teologia das Religiões

A Crítica à TR – A Diluição das


Religiões na Cultura
Uma das afirmações dos oponentes da TR é a questão da cultura como fator de
base para a aceitação e crescimento da TR na Teologia. Os estudiosos apontam
o advento do Iluminismo e da Modernidade como o background de um processo
complexo e multifacetado que impôs à Teologia uma série de revisões realizadas
pela Teologia Liberal do século XIX.

Essa, por sua vez, no advento da Modernidade e da Globalização, levou a


Teologia a questionar os Cristianismos, e a propor uma adesão de princípio, ou
um pluralismo de princípio, como sendo o único caminho para a Teologia cristã.

Mas, antes de entrar nos pormenores e nas afirmações e propostas da TR a


partir desse modelo, vamos retroceder um pouco para entender essa história.

O Iluminismo é um fenômeno que ocorre na Europa no século XVIII como a


culminação de um processo intelectual e cultural que se inicia com o fim da Idade
Média. O Iluminismo buscava a primazia da razão e da Ciência Moderna como
o verdadeiro e único caminho para o conhecimento, rejeitando todos os outros
tipos de saberes, inclusive o religioso.

O Iluminismo engendrou, então, outro movimento denominado de Racionalis-


mo que atinge as universidades e acaba por desqualificar a Teologia. Dentro do
âmbito das universidades protestantes, esse movimento vai afetar os estudos te-
ológicos dando lugar a outro movimento que se queria reformista ou revisionista
no Cristianismo e que ficou conhecido como Teologia Liberal.

É com Friedrich Daniel Ernest Schleiermacher que se inicia o movimento que


se denominará de Teologia Liberal. Schleiermacher publicou, em 1799, o texto:
Über die Religion: Reden an die Gebildeten unter ihren Verächtern (Acerca
da Religião: Discursos para os Bem-Preparados dentre aqueles que a Des-
prezam). Nesse texto, busca apresentar uma resposta aos críticos do cristianis-
mo.

Após Schleiermacher, o nome mais significativo nessa corrente é o de


David Friedrich Strauss, que escreve o que se tornaria um clássico: Das leben Jesu
(A Vida de Jesus). Inicia-se a partir dele uma longa discussão e análise sobre o
“Jesus Histórico”.

Nesse período, temos o crescimento da Crítica Bíblica, sendo seu principal


articulador Ferdinand Christian Baur. Em 1870, Albrecht Ritschl publica o
primeiro volume de seu livro: Die christliche Lehre von der Rechtfertigung
und Versöhnung (A Doutrina Cristã da Justificação e Reconciliação). Nesse
período, além de Ritschl, temos como expoentes Ernst Troeltsch e Carl Gustav
Adolf von Harnack.

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Basicamente, o que esses autores propunham, era a revisão total e completa
do Texto Bíblico, de um texto de relatos históricos sobre acontecimentos vividos ou
relatados, para uma ideia de textos recompostos, adulterados, manipulados.

Para todos eles, a questão da historicidade dos textos era algo que não mais se
sustentava diante da crítica textual, e que o Cristianismo deveria ser visto em rela-
ção à sua íntima relação pessoal, subjetiva e existencial.

O que se questionava e se colocava em cheque era a possibilidade de manutenção


de certas crenças que se confrontavam diretamente com uma mentalidade
materialista. Em resumo:
• A possibilidade de crença em uma divindade pessoal, criadora e transcendente
à própria natureza que com poder governa o universo e a história;
• A possibilidade de uma divindade trina com uma natureza única: Pai, Filho e
Espírito Santo;
• A possibilidade de Revelação dessa divindade na pessoa de seu filho encarnado;
• A possibilidade de uma expiação vicária desse homem-deus para a remissão
dos pecados da humanidade e no julgamento divino a partir de sua aceitação
ou rejeição;
• A possibilidade de que o texto é a Revelação da divindade de forma correta
e definitiva;
• A possibilidade de a Revelação textual ser o relato fidedigno de milagres e
acontecimentos históricos.

Dessa forma, o Cristianismo passa a ser revisto pela ciência, buscando-se apon-
tar os erros, a mitologia e os enganos que perpassavam tanto a crença nas doutri-
nas e dogmas das ramificações cristãs quanto no próprio Texto Sagrado.

A ideia de uma divindade, a crença em milagres ou a ideia de uma alma, de um


céu, de um paraíso ou inferno foram prontamente descartados como frutos de uma
mentalidade infantil ou de uma linguagem inadequada para expressar os sentimen-
tos e os desejos humanos.

De outro lado, ressaltava-se o papel cada vez mais privado da Religião e da


Teologia. Ainda pairava a ideia de que a Religião era algo de foro íntimo, para as
famílias ou classes subalternas, para a educação moral dos filhos ou para um parâ-
metro de pertença à sociedade em termos históricos ou culturais.

Ao se adentrar o século XX, a chamada Globalização acaba por desafiar a Te-


ologia Cristã na ideia de que essa seria a única Religião a deter a verdade da
Revelação. Não havia, após as duas grandes guerras mundiais, a possibilidade de
manutenção do discurso sobre o monopólio da verdade ou a possibilidade de uma
civilização que alcançou o progresso.

Tudo isso cai por terra na derrocada do sonho iluminista de ser o detentor do
caminho para a verdade através do progresso científico.

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UNIDADE As Principais Críticas à Teologia das Religiões

Assim, as narrativas locais passam a ser consideradas como parte de expressões


culturais da verdade e, com isso, as religiões são parte dessas expressões. Inicia-se,
assim, um movimento de valorização das religiões não cristãs como detentoras de
sua verdade, tão importantes quanto a verdade cultural do Cristianismo.

Para uma visão do todo, apresentamos:

Iluminismo Racionalismo Teologia Liberal

Imagem 2 – Referente ao Processo Histórico da Teologia Liberal


Fonte: (DREHER et al., 1995)

A Teologia Liberal abriu o caminho para os questionamentos sobre o Texto Bí-


blico, o questionamento sobre os milagres e as reivindicações de sobrenaturalidade.
A Teologia Liberal trabalhava com os pressupostos da Ciência Materialista para
fazer uma revisão nos pressupostos do Cristianismo.

Para a Teologia Liberal, os textos bíblicos não retratavam a narrativa de acon-


tecimentos, mas uma série de interpolações, modificações, construções e recons-
truções ao longo do tempo para servir a interesses institucionais. Essa crítica será
assimilada no seu todo pela Teologia da Libertação e pela Teologia das Religiões,
daí um dos pontos de proximidade entre essas duas correntes.

A Crítica à TR – A Perda de
Sentido das Religiões
Até aqui, vimos as críticas à TR em relação ao seu posicionamento a partir da
Ciência Moderna, do Racionalismo e do Iluminismo. A aceitação dessas correntes
como pressupostos para o entendimento e para a vida tem relação parcial de uma
escolha que se faz. Porém, agora veremos a crítica a partir da perda de sentido em
relação à fé.

A modernidade trouxe um profundo desejo de mudança e de progresso para o


ser humano, que se transformou com os terríveis acontecimentos do século XX em
decepção, tristeza e desalento. Estamos falando das grandes guerras mundiais e da
queda do muro de Berlim, que marca historicamente a queda do próprio Comunis-
mo enquanto contraponto ao Capitalismo.

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A perda de sentido em relação às críticas ao racionalismo da Ciência Moderna,
feita por pensadores e filósofos, acabou por desconstruir o sonho da humanidade
ocidental na edificação, pelas mãos e mentes humanas, de um paraíso na terra,
sonho, aliás, alimentado pelo Iluminismo até o início do século XX.

O século XX ficou conhecido como o século das guerras e do controle do capital


sobre os bens de consumo, a exploração colonial, as guerras pelas matérias-primas
e pelo petróleo, além da interferência e exploração em outros países periféricos,
que levaram ao desmanche das utopias marxistas e iluministas.

Deu-se a falência das grandes narrativas e da ideia de progresso humano. Entra-


mos no século XXI com a ameaça do aquecimento global, das grandes catástrofes,
fome, epidemias e mortes. Não há mais espaço, dizem alguns, para as metanarra-
tivas, para os grandes sonhos; a verdade e a esperança no ser humano morreram.

Parte da academia ressente-se do retorno das religiões e religiosidades como um


ato de desespero, preferindo a agonia do individualismo e da crítica ácida a tudo o
que possa ser colocado como uma saída do pessimismo. Não crer é a nova crença.

Zigmundt Bauman, um pensador contemporâneo, cunhou a ideia de liquidez


para caracterizar a era atual. Assim, a modernidade líquida, que se desfaz à me-
dida que olhamos para ela é, talvez, uma das melhores figuras de expressão para
caracterizar o sentimento coletivo na sociedade contemporânea.

A falência das metanarrativas traz novos processos de subjetivação, novos modos


de se relacionar no mundo. Assim, as continuidades e descontinuidades históricas
tornam--se uma coisa só. Nesse sentido, a grande metanarrativa sobrevivente é a
religiosa. Por isso, o grande ataque cultural à Religião.

Não é mais possível, dizem alguns, que a Religião possa existir a partir de uma
metanarrativa eivada no sobrenatural. Dessa forma, a sobrevivência da Religião só
pode se dar em sua ressignificação diante da modernidade.

O que os críticos da TR apresentam é que o Pluralismo de Princípio é apenas


uma rejeição, a priori, da linguagem metanarrativa da Religião. Ou seja, a Moder-
nidade se torna o princípio hermenêutico de leitura do texto que deve se submeter
ao racionalismo materialista da Modernidade, juntamente com o ceticismo da Pós-
-Modernidade.

Se a Modernidade se caracterizou pela ciência materialista e sua leitura antisso-


brenatural, a Pós-Modernidade se caracteriza pela falência das metanarrativas e da
esperança de um projeto unificador da humanidade.

Logo, os adeptos da Pós-Modernidade apregoam que não há mais espaço para


nenhum ismo, seja ele político, econômico, social, religioso ou filosófico. É a era
da fragmentação, da verdade pessoal e individual, do egoísmo e da vivência solitária
de interesses locais.

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UNIDADE As Principais Críticas à Teologia das Religiões

Por isso, o Cristianismo que se apresenta como a grande metanarrativa da hu-


manidade deve ser desconstruído para que as pessoas possam aderir a uma Reli-
gião que satisfaça de forma pessoal e não coletiva.

Outra reivindicação é que não haja mais espaço para se considerar uma verdade
superior à outra, sendo que agora não há mais “A Verdade”, mas muitas verdades
que adentram o subjetivo e disputam igualmente espaço na mídia, na sociedade e
no mundo pessoal dos indivíduos, para que eles decidam o que vale ou não.

Em síntese:

Consequência 1
O Cristianismo não
Fim das pode reivindicar sua
Metanarrativas proposta por ser
uma metanarrativa

Pós-Modernidade
Consequência 2
O Cristianismo não
Fim da crença na pode se apresentar
verdade única como a única
verdade, pois isso
não se aceita mais.

Imagem 3 – Referente á Pós-Modernidade


Fonte: (CARSON et al., 2017)

Assim, a subsunção à Pós-Modernidade significa a perda de sentido da Religião para


a satisfação da cultura atual.

Considerações Finais
A função da Teologia é, a partir do exame do Texto Sagrado ou da Fala Sagra-
da, buscar entender e analisar o que isso traz de consequência. Dessa forma, a Teo-
logia examina o texto (textual e sistemática), as práticas oriundas do texto (liturgia),
a fala sobre o texto (pregação, ensino e proclamação), os objetos que remetem ao
texto (arte e arquitetura), as comunidades do texto (comunidade, igreja), as práticas
políticas e sociais oriundas da leitura do texto (cidadania ou engajamento político) e
o sentido do texto aplicado à vida das pessoas e comunidades (filosofia).

Dessa forma, a Teologia cuida do amplo espectro a partir do Texto Sagrado.


Certamente a TR traz um grande desafio à própria Teologia Cristã quando questio-
na as estruturas em que se tornou ao longo de milênios. Contudo, esse é o caminho
da Teologia, questionar o mundo e a si mesma.

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Material Complementar
Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade:

Livros
O Deus Amordaçado
CARSON, Donald A. O Deus Amordaçado: O Cristianismo confronta o Pluralismo.
São Paulo: SHEDD PUBLICAÇÕES, 2017
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