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PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DIREITO AMBIENTAL
Coordenador Fernando Antonio de Carvalho Dantas

HILÉIA – REVISTA DE DIREITO AMBIENTAL DA AMAZÔNIA


COORDENADORES(AS)
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COORDENAÇÃO EDITORIAL
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REVISÃO
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Hiléia: Revista de Direito Ambiental da Amazônia. ano. 2, n.º 2.


Manaus: Edições Governo do Estado do Amazonas / Secretaria de
Estado da Cultura / Universidade do Estado do Amazonas, 2004.

336 p.
ISSN: 1679-931 (Semestral)

1. Direito Ambiental – Amazônia I. Universidade do Estado


do Amazonas
CDD: 344.046811
CDU 344 (811)

UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS – UEA


Programa de Pós-Graduação em Direito Ambiental
Rua Leonardo Malcher, n.º 1728, 5.º andar, Centro, CEP: 69010-170
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Sumário

INTRODUÇÃO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .07

PARTE 01
TRIBUTAÇÃO E POLÍTICAS PÚBLICAS: O ICMS ECOLÓGICO
Fernando Facury Scaff - Lise Vieira da Costa Tupiassu . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .15

CULTURA Y NATURALEZA: LA CONSTRUCCIÓN DEL IMAGINARIO AMBIENTAL BIO(SÓCIO)DIVERSO


Joaquín Herrera Flores . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .37

O TRIPÉ DO DESENVOLVIMENTO INCLUDENTE


Ignacy Sachs . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .105

AMAZÔNIAS: SOCIEDADES DIVERSAS ESPACIALIDADES MÚLTIPLAS


José Aldemir de Oliveira . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 109

SOCIEDAD DEL CONOCIMENTO, BIOTECNOLOGIA Y BIODIVERSIDAD


Juan Antonio Senent de Frutos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .115

PROJETISMO E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL: O CASO DOS PEQUENOS PROJETOS


Ana Carolina Cambeses Pareschi . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .145

PARTE 02

NORMAS E POLÍTICAS PÚBLICAS NO DIREITO AMBIENTAL INTERNACIONAL


Edson Ricardo Saleme . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .201

A “CIDADANIA ATIVA” COMO NOVO CONCEITO PARA REGER AS RELAÇÕES DIALÓGICAS ENTRE AS
SOCIEDADES INDÍGENAS E O ESTADO MULTICULTURAL BRASILEIRO
Fernando Antonio de Carvalho Dantas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .215

MEIO AMBIENTE EQUILIBRADO E A GARANTIA DO CONTEÚDO ESSENCIAL


DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS
Sandro Nahmias Melo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .231

PARTE 03
O RISCO ACERCA DA UTILIZAÇÃO DA TRANSGENIA (ORGANISMOS GENETICAMENTE
MODIFICADOS) NA AGRICULTURA MODERNA
Bruno Gasparini . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .251

CIDADANIA AMBIENTAL COSMOPOLITA UM CONCEITO EM CONSTRUÇÃO


Tiago Fensterseifer . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .273

O RESGUARDO DO PATRIMÔNIO CULTURAL POR MEIO DA MEMÓRIA COLETIVA


Paulo Fernando de Britto Feitoza . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .299
PARTE 04
DISSERTAÇÕES DEFENDIDAS NO SEMESTRE (RESUMOS)

INSTITUTO DO TOMBAMENTO NA PROTEÇÃO DO BEM CULTURAL


Robério dos Santos Pereira Braga . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .321

SOBERANIA NA AMAZÔNIA LEGAL SOB O ENFOQUE DA DOUTRINA


JURÍDICA AMBIENTAL BRASILEIRA
Raimundo Pereira Pontes Filho . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .323

RESPONSABILIDADE OBJETIVA NA PROTEÇÃO DO PATRIMÔNIO CULTURAL


Paulo Fernando de Brito Feitoza . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .325
Introdução

S egundo número. Segunda voz. Como em uma


sinfonia, a revista Hiléia traz em seu segundo número
uma composição que complementa a publicação inaugural.
Concentra-se em alguns temas, mas expande sua abordagem,
passando pelo direito interno, internacional e comparado. O
foco essencial são os direitos dos seres humanos a existirem
em seu espaço peculiar, a Amazônia, num contexto de
globalização e internacionalização de direitos. Sócio e
biodiversidade, biotecnologia, autodeterminação dos povos
para um desenvolvimento compatível com sua cultura e
natureza compõem-se com a sempre presente questão de
efetivação dos direitos. Todos estes temas estão presentes,
amalgamados no desenrolar da vida, mas a abordagem
científica exige que se os separe, e esclareça. De fato,
apresentar a vida, a natureza e suas relações com os modos de
viver e fazer humanos é sempre parcial e imperfeito, que ainda
requer um esforço do teórico que, todavia, deve manter-se na
humildade de suas limitações.
Schönberg nos consola: “Se se nos perguntam porque se
mede a música em tempo, só se pode responder: porque não
podemos apresentá-la de outra maneira. Medimo-la para fazê-
la semelhante a nós mesmos, para limitá-la. Nós apenas
conseguimos reproduzir o que está limitado”. (Armonia, Real
musical madrid, 1979, p. 238)
O Direito permeia de maneira expressa ou subjacente
todos os textos desta Hiléia científica, como uma sustentação

Hiléia
Revista de Direito
Ambiental da Amazônia 7
harmônica constante para o desenvolvimento dos temas
plurais e diversos. Assim, questões como o desenvolvimento
sustentável de Ignacy Sachs, o espaço na condução do
desenvolvimento de José Aldemir de Oliveira e a discussão
sobre os projetos de desenvolvimento de Ana Carolina
Cambeses Pareschi, são políticas que se constroem sobre bases
jurídicas, as quais facilitarão ou reterão a sua efetividade.
O tema natureza e cultura, constância necessária ao
nosso programa de Pós-graduação em Direito Ambiental,
emerge com matizes ricos e variados. Por Joaquin Herrera
Flores somos conduzidos ao universo complexo que revela a
simplicidade do fato que jamais se afasta: somos matéria
forjada nas mãos da natureza e cultura. Neste tom
desenvolvem-se as composições de Juan Antonio Senent de
Frutos, Fernando Antonio de Carvalho Dantas, Julio Gasparini
e Paulo Fernando de Britto Feitoza.
Estamos aqui, não seria demasiado afirmar, no realizar
da ciência, pelos passos esclarecedores de Mario de Andrade
em relação à música erudita no Brasil: trazemos "o
universalismo no homem, evidenciando as diferenças
existentes entre as raças e legitimando em todos os
agrupamentos humanos a consciência racial". (Pequena
História da Música, ed. Itatiaia, Belo Horizonte, 1987, p. 155).
Cria-se o particular no universal, sem dele se depreender, e
ainda, pelo universal valorizado, no que o particular é diverso.
Esta é a música da terra para o poeta, esta é a percepção
aportada pela Hiléia em sua segunda edição.
E o direito continua sua melodia, permeando os referidos
textos e ganhando predominância nos textos de Fernando
Facury Scaff e Lise Vieira da Costa Tupiassu, assim como nos
textos de Sandro Nahmias Melo e de Edson Ricardo Saleme.
Honrando a memória de Alexandre Ferreira, o segundo
número de Hiléia mostra que conhecimento sobre a Amazônia
é polifônico, não se limitando a espaços artificiais de "ramos"
do saber. Ainda, como o precursor baiano, nas palavras de
Arthur Reis, "sob a paixão e os impulsos de sua vocação" e
"vendo com olhos de ver", segue a busca pela compreensão da
Amazônia, seu espaço no mundo das relações humanas e a
importância do seu reconhecimento para o fazer e sentir.

Hiléia
Revista de Direito
8 Ambiental da Amazônia
Retenhamos a musicalidade nacional na produção
acadêmica e teremos, sem dúvida, o vigor da produção
inspirada que revela os tons da melodia do próprio, do local;
que se harmoniza com os sons polifônicos das contribuições
diversas e resulta na construção de um pensamento atento e
revelador. Recebamos esta nova publicação da Hiléia com o
entusiasmo de quem sabe as notas musicais e se impressiona
com seus arranjos e combinações.
Foram muitas as mãos e mentes que dedilharam este
segundo número da Hiléia. Devemos agradecer aos autores; ao
nosso magnífico reitor professor Lourenço dos Santos Pereira
Braga e ao secretario de estado da cultura Robério dos Santos
Pereira Braga. Aos professores do Programa de Pós-graduação
em Direito Ambiental, em especial a Andréa Borghi Moreira
Jacinto que resumiu os textos e as nossas, sempre diligentes,
secretárias Silvana e Clarissa. Por fim, aos mestrandos do
Programa, estímulo e esperança por um futuro possível.

Profa. Dra. Cristiane Derani


Coordenadora da Revista Hiléia

Prof. Dr. Fernando Antonio de Carvalho Dantas


Coordenador do Programa de Mestrado em Direito Ambiental

Hiléia
Revista de Direito
Ambiental da Amazônia 9
– PARTE 01 –

TRIBUTAÇÃO E POLÍTICAS PÚBLICAS: ICMS ECOLÓGICO . . . . . . . . . . . . . . . . . . .15

1. Tributação, Globalização e as Futuras Gerações . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .15


2. O Direito Tributário como implementador de políticas públicas . . . . . . . . . . . . . . . .21
3. Os fundamentos do Federalismo Fiscal Ambiental . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .23
4. O ICMS Ecológico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .25
5. O ICMS Ecológico na experiência de alguns Estados brasileiros . . . . . . . . . . . . . . . .28
6. Análise da Proposta de Implantação do ICMS Ecológico no Pará . . . . . . . . . . . . . . .31
7. Conclusões . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .35

CULTURA Y NATURALEZA: LA CONSTRUCCIÓN DEL IMAGINARIO AMBIENTAL


BIO(SÓCIO)DIVERSO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .37
1. De los vértices a los vórtices: abriendo el camino al imaginario ambiental
bio(socio)diverso . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .37
2. La naturaleza es el lugar desde el que tenemos que elevarnos . . . . . . . . . . . . . . . . .43
2.1. La co-implicación entre naturaleza y cultura: mitos cosmogónicos y modificación de los
entornos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .43
2.2. La exigencia de vivir sintiendo en el Rey Lear y en Ciudadano Kane:
O rio comanda a vida y a vida comanda o rio. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .50
3. Contra los dos tipos de reduccionismos: el biologicismo y el aislacionismo cultural . .55
3.1. El reduccionismo biologicista . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .56
3.2. El aislacionismo culturalista . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .57
4. El uso político de la naturaleza: la naturaleza como problema histórico
(El Capitán Cook, Joseph Conrad y la Carta de la Tierra) . . . . . . . . . . . . . . . .61
5. Lo cultural y lo “extracultural”: el principio cairológico y los derechos humanos . . . .70
6. Hacia la construcción del imaginario ambiental bio(socio)diverso:
El Imperativo Ambiental . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .76
6.1. Bio(socio)diversidad y deberes básicos: procesos naturales y aspectos procedimentales
y éticos de las luchas por la dignidad humana en relación con la naturaleza . .76
6.2. Dune de Frank Ebert y el Imperativo Ambiental: los deberes de “sustentabilidad”
y de “precaución” . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .80
6.2.1. El deber de sustentabilidad ambiental . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .84
6.2.2. El deber de precaución ambiental . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .89

O TRIPÉ DO DESENVOLVIMENTO INCLUDENTE . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .105


AMAZÔNIAS: SOCIEDADES DIVERSAS ESPACIALIDADES MÚLTIPLAS . . . . . . . . 109

SOCIEDAD DEL CONOCIMENTO, BIOTECNOLOGIA Y BIODIVERSIDAD . . . . . . . . . . .115

1. Biotecnología, recursos naturales y biodiversidad . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .115


2. Análisis de los fundamentos culturales de la apropiación de la biodiversidad . . . . . .119
2.1. De la naturaleza como propiedad común del género humano a su
apropiación privativa. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .119
2.2. De la universalidad del “género humano” a los “pueblos civilizados” . . . . . . . . .127
2.3. La reducción cultural del trabajo humano específico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .129
2.4. La reducción mercantilista de la funcionalidad económica de los bienes naturales .133
2.5. Pérdida de la interdependencia o de la racionalidad reproductiva . . . . . . . . . . . .134
3. El problema de la utopía en la sociedad del conocimiento: el caso de la
biotecnología frente a la biodiversidad . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .136
3.1. El nihilismo de la información frente a la naturaleza . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .136
3.2. La paradoja de la utilidad y la racionalidad científica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .140
3.3. Descubriendo los límites . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .142

PROJETISMO E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL: O CASO DOS


PEQUENOS PROJETOS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .145
1. Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .145
2. PP-G7 e PD/A como espaços de disputas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .146
3. Tensões nos pequenos projetos: entre o projetismo e o desenvolvimento sustentável 162
4. A gestão do projeto e a organização do trabalho . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .162
5. A organização social, política e institucional das comunidades e entidades . . . . . . .169
6. Assessoria técnica e as dificuldades de projetos com fins econômicos:
termos da parceria . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .176
7. A Rede Frutos do Cerrado e o PD/A: do namoro ao projetismo e voltando . . . . . . . .181
8. Considerações Finais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .187
Anexos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .194
Tributação e Políticas
Públicas: O ICMS Ecológico
Fernando Facury Scaff 1
Lise Vieira da Costa Tupiassu2

1. TRIBUTAÇÃO, GLOBALIZAÇÃO E AS FUTURAS GERAÇÕES

O
mundo passa por grandes transformações
econômicas, políticas e sociais.
No âmbito econômico, a tônica é a intensificação do processo de
globalização, fenômeno marcado pela quebra do paradigma
socialista, fruto da falência3 do socialismo real,4 que tornou o
capitalismo um processo ideologicamente totalitário.5 A revolução
tecnológica, especialmente nos meios de comunicação, vem
transformando a sociedade, através da intensificação da relação de
trocas econômicas.
Existem paradoxos neste processo de globalização, pois ao
mesmo tempo em que se trata de um fenômeno real, palpável, deve-
se registrar a explosão de nacionalismos em várias partes do globo,
sendo intensa nos países do leste europeu,6 e também existente na

1 Doutor em Direito pela USP, Professor dos Cursos de Graduação, Mestrado e Doutorado da Universidade Federal do
Pará e Advogado.
2 Mestre em Direito pela Universidade Federal do Pará, doutoranda em Direito Publico pela Université des Sciences
Sociales de Toulouse.
3 A falência do paradigma apenas acelerou o processo de globalização, e não o fez surgir, pois a consolidação e a
expansão do capital para além das fronteiras nacionais têm origens remotas.
4 Não do ideal socialista, mas da tentativa de colocá-lo em prática através dos modelos de Estado autodenominados
de socialistas.
5 Pois monopoliza todos os poderes componentes da sociedade, mesmo os politicamente mais periféricos; é baseado
na educação e massificação de propaganda em seu próprio favor e desconsidera a exposição de idéias divergentes
como “fora de padrão”, entre outras características.
6 A questão dos Bálcãs envolvendo a Iugoslávia é um exemplo.

Tributação e Políticas
Públicas: O ICMS Ecológico 15
África.7 Outro paradoxo diz respeito ao papel deste processo de
globalização quase exclusivamente à livre circulação do capital
financeiro, e muito pouco à circulação de pessoas e bens. Neste
aspecto, as barreiras alfandegárias e de imigração8 estão presentes e
se intensificando.
No âmbito político estamos frente a uma transformação do
modelo de Estado, que antes era de Bem-Estar e hoje é marcado pelo
neoliberalismo. A declarada intenção é reduzir o tamanho do Estado,
a fim de que sua participação econômica ocorra muito mais pela
atuação sobre o domínio econômico, como agente normatizador de
mercados, do que como agente de produção/comercialização de bens
ou serviços, ao atuar no domínio econômico.9 O neoliberalismo,
portanto, necessita de manutenção do Estado fiscalizador, a fim de
que as regras do jogo econômico sejam asseguradas e o “livre
mercado”10 possa atuar. Resta saber, atuar em prol de quem?
No âmbito social, vemos um processo marcado por amplas
transformações, seja pela maior complexidade dos sistemas sociais,
seja pela mais ampla participação ativa dos agentes sociais no
cenário econômico.11 Novas formas de organização da sociedade como
as organizações não-governamentais, estão mudando o perfil da
sociedade.
Dentro deste prisma é que está em processamento uma
alteração dos conceitos de soberania, território e povo. E, por
conseguinte, a concepção e o papel do Direito na sociedade.
O conceito de povo, por exemplo: de singela massa de manobra
nos discursos políticos,12 passa a ser considerado também como um
mero e descartável índice econômico, uma simples variável dos
grandes movimentos de capital em disparada pela melhor posição
econômica global. Daí surge o fenômeno do desemprego estrutural, e
a colocação em cheque do modelo anteriormente existente na
sociedade. Do pleno emprego passamos ao desemprego estrutural e à

7 As lutas entre as etnias tutsi e hutu é outro exemplo.


8 A grande exceção é a União Européia, apenas para os cidadãos dos países membros. Tal pauta de preocupações não
encontra eco nem mesmo na proposta da formação de blocos comunitários, como o Nafta e o Mercosul, e muito
menos na Alca.
9 Sobre os úteis e instrumentais conceitos de intervenção sobre e no domínio econômico, ver Eros Roberto Grau, A
Ordem Econômica na Constituição de 1988. São Paulo: Malheiros, 3.ª ed., 1997, p. 156-8.
10 Não existe mercado livre, mas mercado forjado e conformado pelos interesses humanos envolvidos nas relações de
trocas econômicas. Assim, não há uma mão invisível, mas um projeto humano, visibilíssimo, estabelecendo as
regras do jogo.
11 Ver o excelente estudo de Jorge Correa Sutil, “Modernización, democratización y sistemas judiciales”, In: La
Economia Política de la Reforma Judicial. Washington: Banco Interamericano de Desenvolvimento, 1997, coord.
Edmundo Jarquín y Fernando Carrillo, p. 173-187.
12 Ver Friedrich Müller Quem é o Povo: A Questão Fundamental da Democracia. São Paulo: Max Limonad, 1998,
incluindo um esplêndido prefácio de Fábio Konder Comparato.

Fernando Facury Scaff


16 Lise Vieira da Costa Tupiassu
flexibilização do direito do trabalho, que reduz grande parte dos
direitos sociais, colocando-os em um patamar de livre negociação,
necessária (sob o argumento do capital) para poder permitir que as
empresas sobrevivam em um mundo de acirrada concorrência.13
Trata-se de livre negociação entre partes formalmente iguais, porém
economicamente em desequilíbrio, o que transforma negociação em
imposição.
Em suma, é importante recolocar o homem como o centro das
preocupações da sociedade. Os operadores jurídicos devem trabalhar para
que o estudo das humanidades e a globalização dos direitos humanos
sejam o principal foco de atenções nestes tempos que correm.14
Deve-se também reelaborar o conceito de território.
Devemos passar a raciocinar com os grandes blocos
econômicos, do tipo Nafta e União Européia. No mesmo sentido a
embrionária Alca e o quase finado Mercosul. Logo, o Direito de estatal
passou a ser gerido nos ambientes multiestatais, com diversos
centros de poder instrumentalizando as decisões.
No mesmo sentido deve-se analisar as relações de poder privado.
Com o incremento das relações de troca, o centro das decisões
estratégicas saiu das filiais das empresas localizadas em determinado
território para a matriz, onde são gestadas as decisões de investir,
consumir e poupar, que afetam os agregados macroeconômicos em
todos os países em que aquelas empresas negociam.
Não é à toa que se rediscute o papel das atividades diplomáticas
tradicionais em todo o mundo, centralizando as atividades dos
profissionais ligados a essa área muito mais nas atividades
econômicas que propriamente de representação estatal.
Inegavelmente, houve uma sensível redução das fronteiras
entre os países em razão da revolução tecnológica que vem sendo
desenvolvida.
Em face dos fatores acima mencionados, que acabaram por
gerar mutações no conceito de território e de povo, verificamos que o
conceito de soberania também foi particularmente afetado.
O centro de decisões de um país encontra-se parcialmente
deslocado para outras partes do mundo, por agentes públicos e

13 Ver, sob o aspecto econômico, Viviane Forrester, O Horror Econômico. São Paulo: Unesp, 1997. Sob o aspecto
jurídico, Rosita de Nazaré Sidrin Nassar, Flexibilização do Direito do Trabalho. São Paulo: LTR, 1991; Arion Sayão
Romita, “A Globalização da Economia e o Poder dos Sindicatos”. In: Ordem Econômica e Social – Estudos em
homenagem a Ary Brandão de Oliveira. São Paulo: LTR, 1999, coord. Fernando Facury Scaff.
14 Fundamental sobre este tema é a coletânea Direitos Humanos no Século XXI, organizada por Paulo Sérgio Pinheiro
e Samuel Pinheiro Guimarães, Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais e Fundação Alexandre de Gusmão,
2 vols., bem como o excelente livro de Fábio Konder Comparato, A Afirmação Histórica dos Direitos Humanos. São
Paulo: Saraiva, 1999.

Tributação e Políticas
Públicas: O ICMS Ecológico 17
privados de outras cidadanias, sem nenhuma responsabilidade social
com o que se desenvolve naquele país e, muitas das vezes, afastado da
possibilidade de ser alcançado pelas decisões dos Poderes locais.
Um país não é mais soberano com antes, cotejado com a época
em que Jean Bodin cunhou o conceito. A soberania encontra-se mais
relativizada do que nunca.
Por conseguinte, a delimitação do Direito como objeto de aplicação
de normas estatais (soberania), sobre determinada área geográfica
(território), a fim de regular as relações entre as pessoas (povo) encontra-
se colocada em cheque, sendo necessário pensarmos o Direito
globalmente, como um instrumento de desenvolvimento entre as
nações, centrado na dimensão humana global.
E daí surge todo um novo âmbito de discussão, uma vez que o
Direito que temos utilizado é um Direito pensado e criado para funcionar
dentro de uma matriz determinada pelos conceitos de soberania, território
e povo que hoje não mais existem como dantes, amplamente modificados
pela tecnologia e pelo incremento do sistema de trocas.
Tudo que acima foi exposto afeta profundamente o Direito
Tributário, que é um Direito centrado fortemente na noção de
território. A extraterritorialidade do Direito Tributário é uma
excepcionalidade decorrente dos tratados internacionais para evitar a
bitributação. Ou ainda, quando inserido no contexto de uma união
aduaneira ou mercado comum, sempre visando a equilíbrio tributário
dentre os países envolvidos.
É ainda um Direito centrado fortemente no formalismo das
concepções, onde as relações sempre ocorrem dentro de um prisma
que envolve apenas a função de arrecadar, e não visando a obtenção
de resultados extrafiscais, que alcançam objetivos para além da
singela fórmula de disponibilizar dinheiro privado para a consecução
das necessidades públicas, fazendo-o através do Estado.
Desta forma, as modificações ocasionadas pela interseção entre
o rígido territorialismo do Direito Tributário e o mundo globalizado
vem gerando diversas perplexidades que deixam muito mais dúvidas
do que certezas dentre os estudiosos do Direito.
As respostas para estas perplexidades entre a teoria tradicional
e a realidade multifacetada e dinâmica hoje encontrada devem ser
buscadas dentro dos grandes pilares do Direito, que são os Princípios
Jurídicos, e não nas regras que os implementam. Daí ser necessário
falar das distintas dimensões do Direito para se poder pensar em
soluções globais para problemas locais.

Fernando Facury Scaff


18 Lise Vieira da Costa Tupiassu
Historicamente os direitos fundamentais surgiram como uma
defesa do cidadão contra o Estado. Tal concepção estava inserida
dentro da análise da luta contra o Absolutismo, combativa da total
centralização do Poder.
Desta época é o ressurgimento da idéia de liberdade e de
igualdade, pois, uma vez conquistadas tais garantias individuais, a
ordem natural se encarregaria de fazer com que o bem-estar e a
prosperidade adviessem. Acreditava-se que a ordem natural do
mercado possibilitaria fazer surgir o desenvolvimento.
Ocorre que a ordem natural apenas privilegiou os que possuíam
poder econômico, fazendo maior o fosso existente com aqueles que
apenas portavam sua força de trabalho como elemento de troca no
mercado. As soluções individuais não foram suficientes para resolver
as questões sociais.
Constatada a insuficiência de implementação desta fórmula de
direitos e garantias fundamentais, foi necessário ampliar o espaço de
compreensão destes Princípios. Observe-se que não se trata de
ultrapassar esta concepção de direitos fundamentais, mas de ampliá-la
visando alcançar as prestações positivas que a sociedade necessita que
sejam desenvolvidas pelo Estado, ou por ele impostas aos grupos
econômicos mais fortes e dominantes. Daí surge uma candente
discussão sobre a expressão geração de direitos, que pressupõe o
ultrapassamento de um rol de direitos por outro, e a expressão dimensão
de direitos que implica na ampliação daquele rol inicial, sem o
afastamento do anterior.
Nesse momento surge a ampliação daqueles direitos, a fim de
alcançar o homem em um grupo determinado, permitindo que direitos
referentes a esta sua condição pudessem ser exercidos e garantidos
pelo ordenamento jurídico. Surgiram então as conquistas dos direitos
sociais em vários ordenamentos jurídicos do planeta, dentre eles o
brasileiro, no início do século XX. Não se trata apenas de direitos da
pessoa contra o Estado, mas do homem inserido no sistema econômico
de produção, com a necessária intervenção do Estado para diminuir as
desigualdades sociais e econômicas existentes.
Porém a evolução dos estudos jurídicos constatou ser
insuficiente a preocupação com o coletivo, sendo também necessário
que o Direito se ocupasse dos interesses difusos da sociedade, que são
aqueles que atingem um grupo indeterminado, e indeterminável, de
pessoas. São tais as lesões causadas por poluição ambiental,
congestionamentos de tráfego, problemas de direito do consumidor etc.
Não se pode determinar a quantidade de pessoas alcançadas pelo dano.

Tributação e Políticas
Públicas: O ICMS Ecológico 19
A solução individual e a coletiva não conseguiram dar solução
a este tipo de questão resses difusos o conceito de futuras gerações.
E aí surge uma nova compreensão dos direitos fundamentais.
Passam a ser considerados também os direitos dos que ainda
não nasceram. A dimensão da pessoa humana é projetada no futuro,
não mais apenas como a dimensão civilista do nascituro, mas de toda
uma futura (e ainda nem mesmo gestada) geração de pessoas
humanas.
É dentro deste preceito que se encontra o Direito ao
Desenvolvimento Econômico, que é “um direito humano inalienável e que
a igualdade de oportunidade para o desenvolvimento é uma prerrogativa
tanto das nações quanto dos indivíduos que compõem as nações”.15
O interesse protegido não é o da atual geração, mas sua
preservação para as futuras gerações. Não é mais um interesse do
indivíduo contra o Estado, ou inerente apenas a certa coletividade,
mas um interesse difuso e que abrange não apenas as atuais, mas as
futuras gerações, que deve ser interpretado de comum acordo com a
idéia de globalização, de forma a abranger toda a espécie humana,
atualmente existente e a ser futuramente gerada.
É esta nova dimensão dos direitos fundamentais que deve estar
presente em nossa mente ao interpretar vários dos Princípios
Jurídicos dispostos em nosso ordenamento.
É antiga a expressão que enquadrava o mundo como uma
aldeia global. Contudo, apenas hoje, com o progresso dos meios de
comunicação é que se passa a ter uma pálida idéia do que representa
esta afirmação. Qualquer alteração das condições econômicas em
uma parte do globo terrestre acarreta influências imediatas em
outros países.
Verifica-se desta forma que a compreensão jurídico-tributária
deve estar inserida em toda a problemática acima exposta, pois é
necessário que o Estado exerça sua soberania para arrecadar os
recursos gerados pelo povo localizado em um determinado território.
Mas não se pode perder de vista que tais conceitos vêm sendo
colocados em cheque, como acima exposto. Desta forma, não se deve
pensar o Direito Tributário apenas como um instrumento de
arrecadação, mas também como um instrumento para a consecução
de políticas públicas em diversas outras áreas do conhecimento
humano, como, por exemplo, a área ambiental.
Por enquanto – e espero que este prazo seja curto –, nos
encontraremos frente a um conflito entre o caráter eminentemente

15 Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento, ONU, 1986, preâmbulo.

Fernando Facury Scaff


20 Lise Vieira da Costa Tupiassu
nacional e territorial do direito tributário contemporâneo e sua
perspectiva de transformação em um direito tributário das futuras
gerações, marcado pela necessária globalização de direitos, devendo
fazer frente às atividades econômicas transnacionais que se
desenvolvem sem pátria. Os recursos advindos desta arrecadação
permitirão a implementação de um sistema jurídico mais efetivo e,
quiçá, centrado no homem, como destinatário único e final da
existência de uma sociedade organizada, seja em Estados
individualmente considerados, seja em constelações pós-nacionais.16
Deste modo, é imprescindível levar em consideração nas análises
jurídicas contemporâneas esta cisão entre um direito tributário
eminentemente nacional, formal e centrado na arrecadação, e o
impacto da globalização, que elimina as fronteiras nacionais na
circulação de bens e, especialmente, na circulação de serviços, fazendo
com que seja necessário colocar o direito tributário a serviço das
demais áreas do conhecimento, no presente caso, da Ecologia, ao tratar
da tributação ambiental. Deve-se sempre ter em mente a necessária
transformação do direito tributário atual para um direito tributário das
futuras gerações, onde se configure que a arrecadação atual servirá
para construção de um mundo com fronteiras mais tênues, porém
unificado pela efetivação dos direitos humanos.

2. O DIREITO TRIBUTÁRIO COMO IMPLEMENTADOR DE


POLÍTICAS PÚBLICAS

O Direito cumpre vários papéis, dentre eles, um dos mais


relevantes no mundo contemporâneo é o de implementar políticas
públicas, através da ação ordenada e coordenada da intervenção do
Estado na atividade econômica. Assim, o Direito deixou de ser a
cristalização das realizações sociais para passar a ser um
instrumento de transformação da sociedade, visando a realização de
suas aspirações.17 Decorre desse fato a estreita conexão entre o
Direito e a implementação das políticas públicas, uma vez que estas
traduzem os meios necessários para alcançar os valores estabelecidos
pelos Princípios Jurídicos que veiculam as finalidades a serem
alcançadas pela sociedade. Pode-se exemplificar tais Princípios que
traduzem finalidades como aqueles que na Constituição da República
brasileira estabelecem como objetivos nacionais à construção de uma

16 Para a compreensão deste conceito ver Jürgen Habermas, A Constelação Pós-Nacional.


17 SCAFF, Fernando Facury. Projeto de Lei do ICMS Ecológico.

Tributação e Políticas
Públicas: O ICMS Ecológico 21
sociedade livre, justa e solidária, que garanta o desenvolvimento
nacional, erradicando a pobreza e a marginalização, e reduzindo as
desigualdades sociais e regionais, abolindo qualquer espécie de
discriminação (art. 3.º).
Ou ainda, entre aqueles que mencionam ser a Ordem Econômica
ser fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa,
visando assegurar a todos, existência digna, de conformidade com a
Justiça social, observados vários princípios, dentre eles, o da defesa do
meio ambiente, inclusive mediante tratamento diferenciado conforme o
impacto ambiental (art. 170, Constituição).
O direito tributário possui destacada atuação nestas atividades,
o que permite sua utilização como um instrumento para a
consecução daquelas finalidades. Diante deste prisma, a conexão
entre a tributação e a questão ambiental assume, a cada momento,
uma importância mais destacada em todo o mundo globalizado.
Daí ser bastante curioso este entrelaçamento entre uma
atividade com forte caráter globalizante, pois uma emissão poluente
ocorrida no Peru pode ter influências no Marajó, fruto da via natural
do rio Amazonas, e um direito fortemente territorializado, como o
tributário.
A preservação de um meio ambiente saudável e a manutenção do
desenvolvimento sustentável são metas incontestáveis, fundamentos
de nossa sobrevivência, que devem ser privilegiadas diuturnamente.
Assumindo seu papel de gestor das políticas de interesse
coletivo, deve o Estado buscar meios para atender à necessidade de
proteção dos recursos naturais para a presente e para as futuras
gerações, inscrita no artigo 225 de nossa Constituição Federal e no
art. 252 de nossa Carta Constitucional Estadual, aliando o interesse
público ao desenvolvimento sustentável, com auxílio dos entes
municipais, que também exercem papel fundamental na Federação.
A interpretação sistemática da estrutura normativa nacional,
partindo-se dos princípios fundamentais da Constituição Federal,
obriga-nos a observar todos os mandamentos por ela impostos e,
além de compatibilizá-los entre si, assegurar a sua satisfação através
das normas infraconstitucionais e das orientações políticas seguida
pelos poderes públicos.
Em face dessa realidade, não se pode excluir a relevância do
Direito Tributário que, como parte do sistema, deve ter explorada sua
finalidade social, ressaltando a função extrafiscal dos tributos, que
podem ser amplamente utilizados em benefício dos interesses
coletivos administrados pelo Estado. De fato, os tributos, em função

Fernando Facury Scaff


22 Lise Vieira da Costa Tupiassu
de sua própria natureza, devem exercer uma finalidade
eminentemente voltada ao bem comum, devendo ser otimizada sua
utilização como instrumento de implementação das políticas de
proteção ao meio ambiente e ao desenvolvimento sustentável.
Em razão disto, ponderando os princípios constitucionais
tributários e a sua relação com a função ambiental do Estado, bem
como tirando proveito de várias experiências e possibilidades
econômicas voltadas para a questão ambiental, procurar-se-á
examinar a questão do federalismo fiscal em benefício do meio
ambiente, especialmente no que diz respeito à questão do ICMS
Ecológico, discorrendo rapidamente sobre as experiências nacionais
em sua utilização e sobre a proposta apresentada para a sua
implementação no Estado do Pará.

3. OS FUNDAMENTOS DO FEDERALISMO FISCAL


AMBIENTAL

A Constituição Federal de 1988, em seu artigo 158, determina


quais receitas tributárias arrecadadas pelos demais entes da
federação pertencem aos municípios. Dentre tais verbas encontra-se
o montante de 25% da arrecadação estadual decorrente do Imposto
sobre operações relativas à Circulação de Mercadorias e Serviços
(ICMS), cujos critérios de repartição entre os diversos municípios
estão definidos no parágrafo único do dispositivo.
O mandamento constitucional estabelece expressamente que
no mínimo ¾ dos 25% de ICMS pertencentes aos municípios devem
ser repassados conforme o valor adicionado fiscal das operações
realizadas para cada ente municipal. A Constituição define, então,
um critério de medição econômica, simplificadamente decorrente da
diferença entre as notas fiscais de venda e as notas fiscais de compra
do município.18 Nos termos dispostos pelo mandamento consti-
tucional, portanto, a lógica de repartição das receitas do ICMS
privilegia os municípios que mais produzem, ou seja, os mais
desenvolvidos economicamente, capazes de gerar maiores receitas
tributárias provenientes da circulação de mercadorias e serviços.
No entanto, deixa o constituinte originário a cargo dos Estados
a definição dos critérios de repasse de cerca de ¼ do valor cabível aos
municípios. Tal faculdade permite uma interferência direta da

18 Os detalhes sobre o cálculo do Valor Adicionado Fiscal encontram-se nos parágrafos do Art. 3º, da Lei Complementar
63, de 11 de janeiro de 1990.

Tributação e Políticas
Públicas: O ICMS Ecológico 23
administração estadual no processo de desenvolvimento municipal,19
tendo em vista que os critérios de repasse de verbas influem
fundamentalmente sobre as políticas públicas adotadas, podendo, se
bem planejados, constituir-se em um amplo fator de indução
econômica.
Tradicionalmente, porém, os Estados pouco se utilizam o poder
economicamente indutivo contido no permissivo constitucional,
repetindo normalmente o mesmo critério adotado para os demais ¾20,
utilizando-se de fatores demográficos ou conferindo partes iguais a
todos os entes municipais.21
Na realidade atual, entretanto, os municípios mais populosos
ou que mais geram circulação de mercadorias são os que têm, em seu
território, mais condições de desenvolver atividades economicamente
produtivas, que culminam, no mais das vezes, em externalidades
negativas através do desenvolvimento de uma estrutura predatória
em relação aos bens ambientais.
Assim, incluindo este quadro no raciocínio da repartição de
receitas do ICMS, verificamos que os municípios que se dedicam ao
desenvolvimento econômico em detrimento da preservação ambien-
tal, são aquilatados com maior quantidade de repasses financeiros,
pois têm mais possibilidade de gerar receitas em função da circulação
de mercadorias. Por outro lado, aqueles que arcam com a
responsabilidade de preservar o bem natural, trazendo externa-
lidades positivas que beneficiam a todos, têm restrições em sua
capacidade de desenvolvimento econômico e, conseqüentemente,
recebem menos repasses financeiros por contarem com uma menor
circulação de mercadorias e serviços. Esta lógica necessariamente
deve ser alterada, pois não dá conta da dinâmica da realidade e,
principalmente, não se conforma com a proteção constitucional
conferida ao meio ambiente, tampouco com o instrumento
principiológico do poluidor-pagador.
A intervenção do Estado sobre domínio econômico-ambiental
surge, então, buscando corrigir as falhas trazidas pelas exter-
nalidades ecológicas, por ele também sofridas quando tem de
responsabilizar-se perante a sociedade para com políticas de proteção

19 Notadamente daqueles que não são fortemente beneficiados pelo critério do Valor Adicionado Fiscal.
20 Conforme explica WILSON LOUREIRO, “...em 8 Estados o critério do repasse pelo Valor Adicionado Fiscal está acima
dos 75% determinados pela Constituição Federal...” (LOUREIRO, Wilson. O ICMS ecológico na biodiversidade, p. 8). Isso
demonstra que muitos Estados privilegiam mais ainda os municípios mais ricos, não se utilizando, de forma plena, do
permissivo que lhes é constitucionalmente concedido, para a definição de outros critérios de repasse de ICMS.
21 Escapa dos objetivos deste texto a discussão acerca da legitimidade ou não do dispositivo constitucional definidor
dos critérios de repartição de receitas, tampouco dos critérios complementares estipulados pelos Estados, os quais,
por certo, têm base em fortes razões políticas e econômicas. Assim, não nos preocuparemos em julgar até que
ponto são justos, convenientes, ou se estão em harmonia com os demais princípios constitucionais.

Fernando Facury Scaff


24 Lise Vieira da Costa Tupiassu
ambiental e despoluidoras, em conseqüência de ações danosas ao
meio ambiente toleradas gratuitamente.
Dentro dessa perspectiva, inúmeras foram às reivindicações
dos municípios detentores de áreas de preservação ambiental,
mananciais hídricos, reservas indígenas, etc., tendo em vista que
sofrem historicamente uma dupla penalização, seja pela restrição da
utilização economicamente produtiva de parte do seu território em
face da afetação ambiental, seja pela conseqüência economicamente
nefasta de tal restrição, que implica num menor nível de repasse
orçamentário, sem que recebam qualquer recompensa pelas
externalidades positivas que proporcionam à sociedade.
Necessário se fez aos Estados conciliarem os ditames
constitucionais de modo a também incentivarem a conservação dos
recursos naturais, proporcionando, ao menos, algum meio de
compensação financeira aos municípios que sofrem limitações de
ordem física para o desenvolvimento produtivo, em razão de seu
comprometimento territorial com áreas ambientalmente protegidas.
Diante disso, aproveitando a faculdade que lhes foi
constitucionalmente conferida, relativa ao estabelecimento de
critérios próprios para o repasse de ¼ da parcela de ICMS
pertencente aos municípios, vem sendo criada, em alguns Estados,
uma nova política, cujos parâmetros estabelecidos para o repasse
financeiro são de ordem notadamente ambiental.
Percebe-se, neste contexto, o início de uma clara e simples forma
de compatibilizar a sistemática financeira com a preservação
ambiental, fornecendo incentivos para que os municípios mantenham
as áreas de conservação ambiental sem sofrerem demasiadamente as
perdas decorrentes do limitado desenvolvimento econômico.

4. O ICMS ECOLÓGICO

O ICMS Ecológico22 tem sua origem relacionada à busca de


alternativas para o financiamento público em municípios cujas
restrições ao uso do solo são fortes empecilhos ao desenvolvimento de
atividades econômicas clássicas. O instituto traz resultados
surpreendentes capazes de conferir nova feição a todas as políticas
ambientais nacionais.

22 Conforme ficou conhecido este critério de repartição, buscando a divulgação e popularização do termo, embora
reconheçamos que é utilizado com certa impropriedade, uma vez que não se trata exatamente de enquadrar a
própria figura tributária (ICMS) na questão ambiental, e sim os recursos financeiros dela provenientes através de
um mecanismo de federalismo fiscal.

Tributação e Políticas
Públicas: O ICMS Ecológico 25
Note-se que a política do ICMS Ecológico representa uma clara in-
tervenção positiva do Estado, como um fator de regulação não coercitiva,23
através da utilização de uma forma de subsídio, tal como um incentivo
fiscal intergovernamental.24 Tal incentivo representa um instrumento
econômico extrafiscal com vistas à consecução de uma finalidade
constitucional de preservação, promovendo justiça fiscal, e influenciando
na ação voluntária dos municípios que buscam um aumento de receita, e
uma melhor qualidade de vida para suas populações.
Aliás, mister ressaltar que o intuito inicialmente compensatório
conferido ao instituto logo se viu substituído por uma franca conse-
qüência incrementadora, tendo em vista que um número crescente de
municípios passou a implementar políticas públicas ambientais,
almejando receber uma parte dos valores distribuídos segundo tais
critérios, conforme se verá a seguir. A política obteve muito sucesso
porque redimensiona e valoriza todos os aspectos fundamentais para
um meio ambiente saudável, incentivando os municípios a investirem
na qualidade de vida de sua população.
Pioneiramente o instituto foi concebido no Estado do Paraná,
em 1991, e hoje já se encontra efetivamente implantado também em
Estados como Minas Gerais, Rondônia, São Paulo, Mato Grosso do
Sul, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Tocantins e Pernambuco. Além
disso, inúmeros outros Estados, dentre os quais o Pará, Rio de
Janeiro, Goiás, Santa Catarina e Ceará têm projetos do gênero em
fase de discussão legislativa.25
A concretização do ICMS Ecológico não exige complexas alterações
legislativas.26 Esquivando-se das longas discussões no Congresso Nacio-
nal, responsáveis por anos de tramitação das propostas que visam alterar
a legislação tributária ou emendar a Constituição,27 a implementação do
ICMS Ecológico normalmente depende apenas de lei estadual, uma vez
que os princípios basilares da repartição financeira já se encontram na
Constituição Federal e na maioria das Constituições Estaduais, muitas
esperando há mais de 10 anos pela devida regulamentação.28

23 Ribeiro, Maurício Andrés. O ICMS e o Princípio Não Poluidor – Recebedor.


24 Ver a respeito LEITE, Fábio Heuseler Ferreira. O ICMS Ecológico no Rio de Janeiro, p. 33.
25 Para mais detalhes acerca da implementação do ICMS Ecológico, suas experiências e propostas, consultar:
TUPIASSU, Lise V. da Costa. Tributação Ambiental: a utilização de instrumentos econômicos e fiscais na
implementação do Direito ao Meio Ambiente saudável, p. 158 e s.s.
26 Embora esteja, antes de tudo, vinculada a acirradas disputas políticas diante dos supostos prejuízos suportados
pelos municípios acostumados a explorar predatoriamente o meio ambiente, conforme se verá a seguir.
27 As quais seriam indispensáveis para a implementação da maior parte das demais hipóteses de utilização dos
mecanismos econômicos em benefício do meio ambiente.
28 Como é o caso do Art. 225, § 2.º, da Constituição do Estado do Pará, a qual já contém desde a sua origem (1989)
mandamento assegurando privilégio de tratamento para os municípios que abrigam unidades de conservação em
relação à parcela de repasse de ICMS de que trata o Art. 158, parágrafo único, II da Constituição Federal.
Disposição esta que aguarda há 12 anos sua regulamentação.

Fernando Facury Scaff


26 Lise Vieira da Costa Tupiassu
Conforme comumente ocorre, através dos debates estaduais são
estabelecidos diversos critérios de mensuração do valor a ser recebido a
título de repasse financeiro, sempre levando em conta as peculiaridades
naturais de cada região. Daí porque cada um dos Estados que se
utilizam o sistema estabelece diferentes montantes a serem repartidos
segundo a apreciação de diferentes aspectos ecológico-sociais.29
Os valores e critérios legalmente estabelecidos passam então a
ser quantificados30 diante dos dados fáticos, proporcionando a
definição de um ranking ecológico dos municípios. Deste modo, cada
município receberá um montante proporcional ao compromisso
ambiental por ele assumido, o qual será incrementado conforme a
melhoria da qualidade de vida da população.
Um dos pontos chaves da política é, portanto, a não criação
de novo tributo, não subsistindo qualquer ônus financeiro para o
Estado ou aumento da carga tributária dos contribuintes. 31 Trata-
se, unicamente, da adoção de critérios ambientalmente
relevantes para a repartição das receitas normalmente obtidas.32
Além disso, o ônus operacional é mínimo.33 Normalmente, para
a realização do cadastro das unidades de conservação e quantificação
dos itens elencados pela legislação – cuja atualização deve ser
constante a fim de proporcionar a perfeita consonância dos repasses
financeiros com a realidade municipal, a própria estrutura
administrativa já existente poderá ser utilizada.

29 Neste sentido é possível observar exemplificativamente que os Estados do Paraná e Rondônia adotam critérios
ecológicos para o repasse aos municípios de 5% do valor total do ICMS arrecadado, enquanto que São Paulo afeta
0,5% e Minas Gerais 1%. Embora todos os Estados privilegiem o critério unidades de conservação, outros fatores
somam-se a este, como no caso de Minas Gerais, que incentiva também o desenvolvimento de redes de saneamento;
ou Paraná, que traz como critério adicional os municípios que dispõem de mananciais de água servindo a
municípios vizinhos. Para quadro detalhado dos critérios utilizados por cada um dos municípios ver BACHA, Carlos
José Caetano & SHIKIDA, Pery Francisco Assis. Experiências brasileiras na implementação do ICMS Ecológico, p. 189;
Grieg-Gran, Maryanne. Fiscal Incentives for Biodiversity Conservation: The ICMS Ecológico in Brazil; CAMPOS, Léo
Pompeu de Rezende. ICMS Ecológico: Experiências nos Estados do Paraná, São Paulo, Minas Gerais e alternativas na
Amazônia.
30 Alguns critérios adotados pelos Estados necessitam de uma análise um pouco mais complexa do que a simples
quantificação aritmética. No caso do Paraná, por exemplo, realiza-se também uma análise qualitativa das unidades
de conservação. Em Minas Gerais, o critério relativo à implementação de sistemas de saneamento toma em
consideração a porcentagem da população beneficiada com a estrutura sanitária.
31 “Na verdade não se trata de uma nova modalidade de tributo ou uma espécie de ICMS, parecendo mesmo que a
denominação é imprópria a identificar o seu verdadeiro significado, de vez que não há qualquer vinculação do fato
gerador do ICMS a atividades de cunho ambiental. Da mesma forma, como não poderia deixar de ser, não há
vinculação específica da receita do tributo para financiar atividades ambientais. Não obstante, a expressão já
popularizada ICMS ECOLÓGICO está a indicar uma maior destinação de parcela do ICMS aos municípios em razão de
sua adequação a níveis legalmente estabelecidos de preservação ambiental e de melhoria da qualidade de vida,
observados os limites constitucionais de distribuição de receitas tributárias e os critérios técnicos definidos em
lei”. Pires, Éderson. ICMS Ecológico – Aspectos Pontuais – Legislação Comparada.
32 “Na prática, o que aconteceu foi uma reciclagem do dinheiro que antes já era distribuído por outro critério, o valor
adicionado”. LOUREIRO, Wilson. ICMS Ecológico: incentivo econômico à conservação da biodiversidade, uma
experiência exitosa no Brasil, p. 56.
33 LOUREIRO comenta a respeito, de acordo com os dados do Paraná, onde “o custo total para a execução do Programa
para o IAP, em 1995, foi de aproximadamente R$ 56.000,00 (cinqüenta e seis mil reais), considerando salário de
técnicos, encargos sociais, combustível, depreciação de veículos, etc.” LOUREIRO, Wilson. ICMS Ecológico: incentivo
econômico à conservação da biodiversidade, uma experiência exitosa no Brasil, p. 56.

Tributação e Políticas
Públicas: O ICMS Ecológico 27
Ao fim, caberá aos Tribunais de Contas (também no exercício de
suas funções constitucionalmente definidas), e principalmente, à
população – utilizando-se dos inúmeros meios de pressão e controle
que lhe são legalmente disponibilizados – o acompanhamento e
fiscalização dos repasses financeiros, da utilização dos valores
recebidos e da busca pelo seu incremento, bem como o exame da
veracidade das informações prestadas, que basearam a distribuição.
Ressalte-se que tal atitude pode ser estimulada e otimizada pela
própria ação dos Estados, os quais arcam com a tarefa de informar
não só as administrações municipais, mas também a população,
dando transparência à execução da política fiscal-ecológica.
Desta forma, mais facilmente será construída uma consciência
ecológico-social que, numa cadeia positiva, incentivará a otimização das
ações ambientais realizadas pelos municípios com vista ao aumento do
repasse financeiro e também ao bem-estar da sociedade como um todo.

5. O ICMS ECOLÓGICO NA EXPERIÊNCIA DE ALGUNS


ESTADOS BRASILEIROS

O Paraná foi o primeiro Estado brasileiro a adotar instrumentos


normativos que implementassem novos critérios de repartição de
receitas do ICMS, como solução diante de reivindicações das
autoridades municipais prejudicadas com as restrições ao
desenvolvimento clássico, em função da proteção ao meio ambiente.
Assim, foi aprovado um dispositivo na Constituição Estadual e,
sucessivamente, adotados a Lei Estadual n.º 9.491, a Lei
Complementar n.º 59 e o Decreto Estadual n.º 974/91, que
introduziram e regulamentaram critérios ecológicos para repasse das
verbas municipais do ICMS.
Por conseguinte, o Paraná foi o primeiro Estado a experimentar os
resultados extremamente positivos da adoção do ICMS Ecológico. O
número de municípios beneficiados eleva-se a cada ano. Em 1992,
foram 112; em 1998, o número já havia aumentado para 192
municípios.34 Conseqüentemente, os dados da preservação ambiental no
Estado mantém-se em constante crescimento. Estima-se que, desde a
aprovação da Lei do ICMS Ecológico, em 1991, as áreas protegidas no
Paraná aumentaram 950%,35 e que nos cinco anos de efetivo

34 LOUREIRO, Wilson. Incentivos fiscais para conservação da biodiversidade no Brasil, p. 41.


35 LOUREIRO, Wilson. ICMS Ecológico: incentivo econômico à conservação da biodiversidade, uma experiência exitosa no
Brasil, p. 56.

Fernando Facury Scaff


28 Lise Vieira da Costa Tupiassu
desenvolvimento do projeto, conseguiram-se resultados maiores e
melhores do que em 60 anos de políticas públicas em áreas protegidas.36
O segundo Estado a adotar a política do ICMS Ecológico foi São
Paulo, com uma Lei Complementar promulgada no fim de 1993.37
Desde lá, muitas áreas já foram beneficiadas, como a região do Vale
da Ribeira, onde as possibilidades de desenvolvimento produtivo se
mostravam, a princípio, bastante limitadas em função das proibições
de pesca e extrativismo.
Com o ICMS Ecológico os municípios localizados nesta área de
Mata Atlântica já se sentem mais recompensados, buscando
alternativas para o seu desenvolvimento aplicando vultuosos
recursos em projetos de ecoturismo. Aliás, com a implantação do
novo sistema de eco-repartição financeira, verificou-se um sensível
aumento de receita em cerca de 23,56% dos municípios de São
Paulo,38 muitos dos quais passaram a ter, pelos critérios do ICMS
Ecológico, a maior parcela de seus recursos, representando
fundamental avanço em seu desenvolvimento. A título de exemplo
veja-se o caso de Iporanga, cujo percentual de 77% de todo o repasse
de ICMS a que faz jus é proveniente dos critérios ecológicos.39
Seguindo a linha dos bons resultados, o número de municípios
beneficiados elevou-se de 104, em 1994, para 152 em 1999,
chegando a 169 em 2003.40 Tal crescimento incentivou a adoção de
outro sistema que considera, inclusive, a ação ambiental do
município em relação às áreas protegidas.41
Experiência vitoriosa e bastante difundida é a da implantação do
ICMS Ecológico em Minas Gerais. Com a adoção da Lei Estadual n.º
12.040, de 28 de dezembro de 1995 – conhecida como “Lei Robin Hood”
– Minas Gerais revolucionou os critérios de repasse dos 25% de ICMS
aos municípios, passando a beneficiar não apenas os municípios que
abrigam unidades de conservação, como também aqueles que possuem
sistema de tratamento de esgoto ou disposição final de lixo – atendendo
a maior parte da população –, introduzindo também critérios de
educação, patrimônio histórico e saúde, entre outros.

36 IAP. ICMS Ecológico: o presente do Paraná para o futuro do Brasil.


37 Lei Complementar Estadual n.º 8.510, de 23 de dezembro de 1993.
38 CAMPOS, Léo Pompeu de Rezende. ICMS Ecológico: Experiências nos Estados do Paraná, São Paulo, Minas Gerais e
alternativas na Amazônia, p. 15.
39 Ver ICMS Ecológico beneficiou 169 municípios de São Paulo em 2002, p. 1. Ver também BACHA, Carlos José
Caetano; SHIKIDA, Pery Francisco Assis. Experiências brasileiras na implementação do ICMS ecológico, p. 202.
40 Ver ICMS Ecológico beneficiou 169 municípios de SP em 2002, p. 1.
41 Embora instituído pela Lei n.º 9.146, de 9.03.95, o sistema ainda aguarda regulamentação, não estando em vigor.
CAMPOS, Léo Pompeu de Rezende. ICMS Ecológico: Experiências nos Estados do Paraná, São Paulo, Minas Gerais e
alternativas na Amazônia, p. 15.

Tributação e Políticas
Públicas: O ICMS Ecológico 29
No que tange ao objetivo redistributivo, o resultado do ICMS
Ecológico mineiro foi imediato. Logo no primeiro ano – quando ainda
não estavam em vigor os índices definitivos – quase 500 municípios
obtiveram aumentos de receita maiores que 100%, sendo que em 38
deles, o aumento superou 1.000%. A parcela per capita mínima, que
era de R$ 0,88, elevou-se para R$ 15,12, enquanto que a parcela per
capita máxima de R$ 684,53, diminuiu para R$ 587,99.42
A introdução do federalismo fiscal ecológico na região
amazônica foi realizada pelo Estado de Rondônia,43 através da
redução de 5% do valor anteriormente repassado aos municípios de
forma igualitária – que somava 19%, e ficou com 14% –, o qual
passou a ser redistribuído aos municípios que detém áreas de
conservação ambiental.
Os resultados obtidos com o novo sistema já são visíveis. A
partir de 1997, municípios obtiveram um aumento em seus repasses
de ICMS.44 Um exemplo é o município de Jamari, que abriga em seu
território um total de 55,31% de áreas ambientalmente protegidas,
tendo experimentado um acréscimo de 217,65% em suas quotas de
ICMS. Guarajá-Mirim, com 88% da sua área dedicadas a unidades de
conservação obteve um aumento médio por habitante no cálculo do
ICMS municipal.45
Ao lado dos benefícios trazidos aos municípios, o ICMS
Ecológico de Rondônia serve a derrubar o argumento de parte de
políticos e empresários da Amazônia que defendem a exploração sem
critérios de preservação da floresta como única forma de obtenção de
recursos na região.46
A ampliação do debate sobre a utilização de instrumentos
econômicos e tributários nas políticas públicas ambientais, o
aprimoramento institucional das entidades públicas no que tange ao
trato do meio ambiente e a influência no desenvolvimento estadual e
nacional de políticas semelhantes, são fatores que, ao lado do
incremento da qualidade de vida das populações e das áreas de
proteção ambiental, representam de modo especial o sucesso do
ICMS Ecológico.47

42 RIANI, Flávio. O novo critério de repartição do ICMS aos municípios mineiros: avaliação dos resultados e sugestões,
p. 221.
43 Experiência que, infelizmente, permanece isolada na região.
44 Grieg-Gran, Maryanne. Fiscal Incentives for Biodiversity Conservation: The ICMS Ecológico in Brazil, p. 7.
45 GARCIA, Roseli. Cidades Descobrem Nova Moeda.
46 GARCIA, Roseli. Cidades Descobrem Nova Moeda.
47 Para detalhes específicos sobre os resultados positivos do ICMS Ecológico em todos os âmbitos citados, consultar
LOUREIRO, Wilson. Incentivos fiscais para conservação da biodiversidade no Brasil, p. 35 e s.s.

Fernando Facury Scaff


30 Lise Vieira da Costa Tupiassu
Seguindo as excelentes experiências demonstradas pelos
Estados já adotantes do ICMS Ecológico, com resultados amplamente
positivos no que tange às políticas ambientais municipais, considera-
se satisfatório o uso deste tipo de intervenção econômica por parte
dos poderes públicos, fazendo com que seus méritos ecoem pelo
Brasil afora.
Vários outros Estados brasileiros já estudam a possibilidade de
implementar projetos semelhantes aos aqui discutidos.
Diante desta enorme expansão, chega-se, até mesmo a cogitar
acerca de uma proposta nacional de ICMS Ecológico.
Em junho de 1998 foi apresentado no Senado um projeto de
autoria da senadora Marina Silva (PT-AC) que cria uma reserva de 2%
do Fundo de Participação dos Estados e Distrito Federal para Estados
que abrigarem Unidades de Preservação da Natureza e terras
indígenas demarcadas,48 como parte de um conjunto de ações no
sentido de fazer uma combinação entre preservação do meio
ambiente e desenvolvimento econômico.
Segundo a senadora, tal proposta implica pequeno impacto
sobre a redução global dos recursos do fundo, mas com grandes
resultados em relação ao incentivo à preservação ambiental, na
esteira do que ocorre com o ICMS Ecológico. O modelo já foi aprovado
no Senado e agora aguarda aprovação na Câmara dos Deputados.49/50

6. ANÁLISE DA PROPOSTA DE IMPLANTAÇÃO DO ICMS


ECOLÓGICO NO PARÁ

Espelhando-se nas experiências ocorridas no resto do Brasil, o


Estado do Pará iniciou em 1999 as discussões visando à
implementação do ICMS Ecológico.
O Estado é o segundo maior da região Norte, tendo um território
de 1.253.164,5 Km2 – equivalente a mais de duas vezes o território da
França –, sendo conhecido como a porta de entrada da Amazônia. No
entanto, hoje em dia, é um dos recordistas em desmatamento
florestal e sofre incessantemente os problemas deixados pelas
diversas políticas de desenvolvimento malogradas.

48 Cf. Ata da Sessão do Plenário do Senado Federal referente a 72.ª Sessão Não Deliberativa de 19/06/1998.
49 A respeito, consultar PLS 00053/2000, no Senado; e PLP 00351/2002, na Câmara dos Deputados.
50 Cumpre ressaltar, contudo, que de tempos em tempos surgem propostas de alteração do sistema tributário que
podem vir a modificar a sistemática de federalismo participativo inviabilizando a manutenção da atual sistemática
de ICMS Ecológico adotada pelos Estados.

Tributação e Políticas
Públicas: O ICMS Ecológico 31
O modelo de crescimento ainda em vigor, acopla-se a uma
necessidade de exploração desregrada dos recursos naturais, o que
leva muitos administradores à irresistível tentação de relegar o valor
estático do meio ambiente preservado, em nome da suposta riqueza
dinâmica da sua destruição.
No entanto, o ponto mais relevante deste desenvolvimento
insustentável na Amazônia é a desvalorização do homem que lá vive.
Muito pouco dos resultados econômicos obtidos na região retornam
em benefícios à população local.
A repartição de receitas estaduais aos municípios paraenses,
contudo, ainda não teve condições de considerar esta realidade,
mantendo-se substancialmente vinculada a critérios materiais de
produtividade, população e território, cujo aspecto formalista não permite
ter em conta sua reversão qualitativa em reais benefícios à população.
Todavia, de acordo com os mandamentos básicos de nossa Carta
Constitucional, a dignidade da pessoa humana é um dos fundamentos
da República Federativa brasileira e princípio da ordem econômica e
social, não havendo desenvolvimento sem que isso seja observado.51
Portanto, o Estado, enquanto idealizador de políticas públicas,
deve atuar de modo positivo, visando realizar substancialmente tal
princípio, fornecendo meios para a sua concretização. A repartição de
receitas tributárias presta-se a este objetivo, sendo o ICMS Ecológico,
uma tentativa de estabelecer uma função social e ambiental à
arrecadação tributária dos municípios.
Tal consciência permeou o texto da Constituição Estadual do
Pará, que em seu Art. 225, § 2.º assegurou o privilégio de tratamento
para os municípios que abrigam unidades de conservação em relação
à parcela de repasse de ICMS de que trata o Art. 158, parágrafo
único, II da Constituição Federal. Contudo, tal dispositivo aguarda há
12 anos sua regulamentação.
Buscando suprir esta lacuna, estudos realizados pelos autores
deste, tendo por base as diferentes experiências nacionais,
culminaram pela elaboração de um Anteprojeto de Lei, voltado para
o estabelecimento de novos critérios de distribuição da parcela
municipal disponível do ICMS.52
A proposta em discussão no Estado do Pará busca adequar-se à
realidade da região e inova, estipulando critérios sócio-ambientais de

51 A respeito consultar TUPIASSU, Lise V. da Costa. Tributação Ambiental: a utilização de instrumentos econômicos e
fiscais na implementação do Direito ao Meio Ambiente saudável, p. 48 e s.s.
52 O resultado de tal estudo, que sugeria a implementação do ICMS Ecológico no Estado do Pará, foi apresentado à
Assembléia Legislativa do Estado pela então deputada Maria do Carmo Martins de Lima – PT (Projeto de Lei n.º
131/2001), sendo objeto de discussão desde o 2.º semestre de 1999.

Fernando Facury Scaff


32 Lise Vieira da Costa Tupiassu
distribuição de todo o percentual de repasse deixado à competência
legislativa estadual, tendo por fim servir de instrumento amplamente
incentivador de iniciativas políticas compatíveis com a preservação dos
recursos naturais e da qualidade de vida da população.
A forte redistribuição que se visa implementar, tem como
justificativa a ampla necessidade de redirecionar as políticas públicas
municipais, proporcionando aos administradores a compreensão de
que a manutenção do meio ambiente e da dignidade da população
não são valores estáticos. Ao contrário, poderão ser percebidos mês a
mês, através do aumento nos repasses do município.
A definição dos critérios abarcados pelo projeto paraense, a
exemplo da legislação mineira, foi feita observando os principais
fatores responsáveis pela boa qualidade do meio ambiente, seguindo
as definições da Lei Federal n.º 6.938/98 e privilegiando, além dos
elementos biológicos, tais como saúde e saneamento, a educação,
fundamental para o desenvolvimento de uma consciência cidadã e
conhecedora da importância da preservação ecológica.
A introdução de critérios sociais é condição essencial para a
mitigação das conseqüências redistributivas nefastas, possivelmente
resultantes da alteração legal. Tal abertura permite uma ampliada
gama de investimentos por parte dos municípios, sendo certo que,
embora em pequenas proporções, todos serão agraciados na
repartição de verbas.
Assim, considerando o montante total da parcela de ICMS que
a Constituição Federal e a Estadual permitem normatização estatal,
o projeto em tramitação no Pará define que:

• 35% sejam rateados privilegiando os municípios que têm


maior parte de seu território coberto por áreas destinadas a
Unidades de Conservação Ambiental e Espaços Territoriais
Especialmente Protegidos, de acordo com as definições
legais;
• 25% privilegiem os municípios que tenham, relativamente,
maior número de crianças matriculadas no Ensino
Fundamental e menor taxa de evasão escolar;
• 20% sejam distribuídos para municípios que tenham maior
número de pessoas atendidas pelo sistema de saneamento, e;
• 20% rateados em observância ao percentual relativo de leitos
hospitalares disponíveis à população e conforme o inverso do
coeficiente de mortalidade infantil dos municípios.

Tributação e Políticas
Públicas: O ICMS Ecológico 33
Desta forma, o montante total de repasse aos municípios segue
a seguinte proporção:

GRÁFICO I – Proposta de Repartição da Quota-Parte Municipal do ICMS no Pará

Nestes termos a proposta de instituição do ICMS Ecológico no


Pará representa extraordinária contribuição para o desenvolvimento
global do Estado, visto que, através da maximização da finalidade
social de tributo já existente, estimula a aplicação dos recursos em
prol da política ambiental, introduzindo novos valores – em todos os
sentidos – ao desenvolvimento sustentável dos municípios, procuran-
do trazer a prosperidade econômica e social já verificada em outras
regiões do país.
A conseqüência imediata desta nova repartição seria a
disponibilização de pelo menos R$ 1,65 milhão apenas segundo o
critério de Unidades de Conservação.53 Assim, municípios com
poucas condições de produtividade, mas detentores de grandes áreas
florestais, guardarão muito interesse em sua manutenção.54
Além disso, o grande relevo dado aos critérios sociais, servirá a
otimizar os investimentos municipais. Pela lógica, o administrador
que melhor investir em educação, saúde e saneamento receberá
mais. Com a nova repartição, ao contrário da anterior, mais vale uma
pequena população com qualidade de vida, que uma grande
população sem dignidade.

53 Cálculo baseado na repartição municipal de outubro/2000, conforme noticiado na Gazeta Mercantil Pará de
22/11/2000. Ver FIJIYOSHI, Silvia. ICMS Ecológico pode ser implantado.
54 Exemplos claros são Belterra, Aveiro – localizados no meio da Floresta Nacional do Tapajós – e Santarém – ocupado
pela Reserva Extrativista Arapiuns – Tapajós –, conforme comentário da deputada Maria do Carmo Martins, noticiado
em FIJIYOSHI, Silvia. ICMS Ecológico pode ser implantado.

Fernando Facury Scaff


34 Lise Vieira da Costa Tupiassu
Entretanto, a implementação do sistema também envolve muitos
problemas. Por óbvio, o impacto redistributivo descontenta os municípios
“perdedores”,55 o que dificulta sensivelmente a aprovação da proposta.56
Ademais, a extensão territorial do Estado ainda não permitiu
uma perfeita visualização dos impactos da alteração financeira, o que
exige ainda algum trabalho de pesquisa e cadastro.
No entanto, ainda que se admita a necessidade de um longo
processo para a efetiva concretização do sistema, importante é o seu
prosseguimento e divulgação, como início de uma conscientização
que, a exemplo do ocorrido em Pernambuco, pode resultar em
melhorias qualitativas antes mesmo de entrar em vigor.
Deste modo, esta proposta de instituição do ICMS Ecológico
representa extraordinária contribuição para o desenvolvimento global
do Estado do Pará e da Amazônia, já que, através da maximização da
finalidade social de tributo já existente (sem criar ou majorar a carga
tributária), estimula a aplicação dos recursos em prol da política
ambiental, induzindo ao desenvolvimento sustentável dos municí-
pios, trazendo prosperidade econômica e social.

7. CONCLUSÕES

Através da interpretação aberta e sistemática da Constituição


Federal, não se pode fechar os olhos para a realidade do uso do direito
tributário para a consecução de políticas públicas necessárias ao desen-
volvimento nacional, fazendo com que o Direito cumpra um novo papel
diverso daquele tradicional, de instrumento de segurança das relações
sociais. Mais do que isso, ele deve ser usado para dirigir a sociedade no
alcance de determinados fins prescritos na Carta da República.
Uma dessas finalidades é a de obter um meio ambiente
equilibrado como elemento da própria dignidade da pessoa humana,
direito fundamental dos cidadãos, preocupação global da sociedade
moderna, o qual deve necessariamente ser levado em conta na
definição dos objetivos das políticas econômico-fiscais, cuja
compatibilidade prática se mostra irrefutável na realidade nacional,
através da análise do ICMS Ecológico.
A transferência, segundo critérios ecológicos, da parcela do
ICMS pertencente aos municípios representa um verdadeiro

55 Expressão utilizada por MARYANNE GRIEG-GRAN, que analisa cuidadosamente a questão. A respeito consultar Grieg-
Gran, Maryanne. Fiscal Incentives for Biodiversity Conservation: The ICMS Ecológico in Brazil.
56 Aliás, as disputas políticas envolvendo a proposta resultaram no trancamento da tramitação do projeto que, após
audiência pública, manteve-se parado e atualmente encontra-se em vias de arquivamento.

Tributação e Políticas
Públicas: O ICMS Ecológico 35
redimensionamento de valores, nos dois sentidos que o termo pode
adquirir. De um lado, porque tal política realmente altera o montante
de verbas orçamentárias a ser recebido pelos municípios,
beneficiando os que contribuem com a melhoria da qualidade de vida
da população. Por outro lado, e principalmente, porque a
implementação de tal política resulta, naturalmente, numa nova
forma de compreender os valores que pautam o desenvolvimento
local. Doravante, não apenas a implementação de indústrias
poluentes traz ganhos financeiros para os municípios; a preservação
de áreas verdes, a construção de redes de esgoto, escolas e hospitais
também passam a ser sinônimo de aumento da receita e
desenvolvimento.
Dessa forma, pensa-se contribuir para a imposição de um
conteúdo verdadeiramente substancial à tributação, dela fazendo um
instrumento forte para a promoção de uma vida mais digna aos
brasileiros.
Constata-se, então, que a tributação – em seu amplo sentido –
pode e deve ser utilizada como instrumento de política pública
ambiental. Indo um pouco mais além, verifica-se que, diante do
aparato jurídico hoje existente no Brasil, despicienda é a realização
de radicais reformas constitucionais e tributárias para o alcance de
tal propósito. A tributação ambiental já se encontra albergada pela
Constituição Federal. Cabe-nos dar a ela uma nova leitura e,
principalmente, colocar em prática os princípios que compõem seu
sistema, sem criar necessariamente um novo tributo. Esta é a lição
maior a nos ser dada pela prática do ICMS Ecológico.

Fernando Facury Scaff


36 Lise Vieira da Costa Tupiassu
Cultura y naturaleza: la
construcción del imaginario
ambiental bio(socio)diverso
Joaquín Herrera Flores1

A Fernando Dantas, una explosión de sueños y espirales

1. DE LOS VÉRTICES A LOS VÓRTICES: ABRIENDO EL


CAMINO AL IMAGINARIO AMBIENTAL
BIO(SOCIO)DIVERSO

D e nuestra definición de proceso cultural, surge con


fuerza una convicción: entre lo cultural y lo natural,
no sólo hay una estrecha relación, sino que su imbricación es tan
fuerte y profunda que lo uno no puede entenderse sin lo otro y
viceversa. Citemos la interpretación que el joven Hegel, en sus
conversaciones con Hölderlin, hizo de la leyenda de Babel. Al igual que
Dante, Hegel añade al texto bíblico del Génesis las tesis de Flavio Josefo
acerca de la intervención de “Nemrod”, el símbolo del poder técnico
sobre la naturaleza, y lo opone a “Abraham”, el símbolo del desprecio a
todo lo natural y la entrega absoluta a la omnipotencia del verbo divino.
Hegel comienza su interpretación de Babel mostrando cómo los
seres humanos después del Diluvio comenzaron a perder la confianza
en la naturaleza y fueron convirtiéndose poco a poco en enemigos de
ella. Los seres humanos se consideran, pues, a sí mismos como la
diferencia específica con respecto a los procesos naturales: ¡somos
humanos, entonces no somos naturaleza!, ya que ésta, a causa del
Diluvio Universal, ha destruido todo lo que habíamos construido
desde la expulsión del paraíso.
1
Director del Programa de Doctorado en Derechos Humanos y Desarrollo (Universidad Pablo de Olavide, Sevilla,
España)

Cultura y Naturaleza: La Construcción


Del Imaginario Ambiental Bio(Socio)Diverso 37
Dicha enemistad y desconfianza se instaló definitivamente en la
conciencia de los seres humanos, instaurando con ello el eterno
conflicto entre lo cultural y lo natural que ha contaminado gran parte
del pensamiento filosófico y científico originado en el espacio cultural
occidental. Ahora bien, esta enemistad y desconfianza siguió dos
derroteros: uno el representado por Abraham, el cual, tras negar y
abjurar de la naturaleza, se entregó a un Señor todopoderoso,
superior a la misma naturaleza, abstracto y eterno, capaz de
garantizar al ser humano una participación en su poder por alejado
de la realidad empírica que éste pudiera encontrarse. Este es el
mecanismo básico de cualquier fundamentalismo trascendental.
Otro camino era el representado por Nemrod, el gigante
fundador de ciudades y constructor de torres, que, más que
entregarse a la divinidad abstracta, dedicó todos sus esfuerzos al
dominio y sujeción técnicos de la naturaleza, contraponiéndole toda
la potencia humana de explotación y control de los procesos
naturales, como única posibilidad de supervivencia en un mundo
natural capaz de la mayor de las destrucciones. Félix de Azúa2
resume este doble recorrido: Nemrod, según el texto hegeliano, logró
reunir a los supervivientes dispersos y desconfiados que habían
conocido el Diluvio y fundó con ellos una tiranía basada en la
expansión técnica. Abraham, en cambio, se separa absolutamente de
la naturaleza, la desprecia, y ni siquiera se digna trabajarla. La
historia del espacio cultural occidental halla mejor sus orígenes en
las múltiples interpretaciones de Babel que en las plurales filosofías
desarrolladas en la Grecia clásica. Entre esas diferentes interpre-
taciones de la construcción de la Torre, construida por los seres
humanos con el objetivo de protegerse del próximo y seguro Diluvio,
se instaura la dicotomía esencial de nuestro espacio cultural
occidental: lo cultural “versus” lo natural. Como es factible ver en los
desarrollos posteriores de nuestra forma de percibir y actuar en el
mundo, dicha dicotomía ha tenido enormes y, en la mayoría de los
casos, funestas consecuencias para nuestra autoconciencia y
nuestra forma de construir la sociedad política: sociedad basada en
dualismos tales como lo “civilizado” y lo “bárbaro” (aquél considerado
como ente de cultura y éste como inculto, como ser natural); lo
“público” (lo que se construye a través del pacto social) y lo “privado”
(lo que está sometido a las pasiones, a los intereses, a las luchas por
la supervivencia concreta y corporal). Queriendo huir de las
2 Azúa, Félix de, “Siempre en Babel”, número monográfico sobre Formas del Exilio, publicado en la revista
Archipiélago. Cuadernos de crítica de la cultura, 26-27, 1996, pp. 30-31. Cfr. también Dragonetti, R.,. “Dante face
á Nemrod” en Critique, 387-388, 1979, pp. 690-706; Bourgeois, B., “Hegel á Francfort”, Vrin, Paris, 1970; Steiner,
G., Después de Babel, F.C.E., Madrid, 1981; Meschonnic, H., (edit.), Les Tours de Babel, TER, 1985.

38 Joaquín Herrera Flores


“amenazas” y, sobre todo, de las “determinaciones” naturales a las
que como cuerpos vivientes y sintientes estamos sometidos, todo
nuestro espacio cultural se ha construido, de un modo u otro, sobre
las diferentes salidas imaginarias ante tal relación, aunque, como
vemos, las versiones dominantes coincidan, bien con la figura de
Nemrod, la explotación de lo natural dirigida por el fundamentalismo
técnicista; o la huida de Abraham de todo lo que signifique cuerpo o
naturaleza, para entregarse al mayor de los fundamentalismos
trascendentales que han dominado nuestros procesos culturales: el
monoteísmo de un dios vengador y amenazante.
Esta convicción nos sitúa – sobre todo a quienes consideramos
que lo cultural tiene que ver con toda forma de reacción simbólica y
significativa ante los entornos de relaciones que mantenemos con los
otros, con nosotros mismos y con la naturaleza – en el límite, en la
frontera, entre las teorías de la cultura que, como en el caso del Babel
de Hegel, niegan cualquier relación con lo natural y se entregan a
juegos metafísicos, religiosos o puramente tecnicistas, y las teorías
que, como es el caso de los biologicismos que pululan por nuestro
mundo, hacen depender absolutamente las producciones culturales
de algún gen cultural que albergamos en nuestros circuitos
neuronales. Admitiendo, asimismo, que entre los procesos naturales
y los seres humanos media la reacción cultural, nos situamos, de
nuevo, en otro límite, en la frontera entre aquellas teorías que
podríamos denominar como teorías orientadas a lo verde, en las que
la naturaleza aparece como todo aquello que nada tiene que ver con
la tarea cultural de los seres humanos, y las teorías orientadas a la
historia, en las que la cultura se entiende sin su ineludible
interrelación con todo lo que es extra-cultural, es decir, con todo lo
que sustenta biológicamente las capacidades y posibilidades de
actuar culturalmente sobre el mundo. Tanto un grupo de teorías
como otras son reduccionismos. El primer grupo, reduce la mirada
cultural al paisaje o a la reserva natural, pues defienden que
extasiarse contemplando u observando la naturaleza no tiene nada
que ver con admirar la catedral de León; obviando que tal posición
significa ya una forma, culturalmente determinada de “ver y mirar” la
naturaleza. El reduccionismo del segundo grupo de teorías, tiene que
ver con la simplificación de admirar la catedral de León sin tener en
cuenta sus materiales o los efectos que sobre sus muros ejercen los
fenómenos naturales, sean estos producidos por el poder corrosivo de
la lluvia, como por el factor, ya puramente humano, de la
contaminación ambiental.

Cultura y Naturaleza: La Construcción


Del Imaginario Ambiental Bio(Socio)Diverso 39
Desde que, simbólicamente, fuimos expulsados del paraíso, es
decir, desde que, repitámoslo, simbólicamente, comenzamos a
sentirnos seres humanos con cuerpo, o, en otros términos, desde que
comenzamos a sentirnos como seres humanos naturales, las
relaciones entre el hacer cultural y sus ineludibles zonas de contacto
con la naturaleza han constituido gran parte de las controversias
culturales mantenidas por una humanidad que niega la “justicia” de
dicha expulsión. En el paraíso terrenal, éramos todo menos
“terrenales”. Fuera del paraíso, adquirimos plenamente la condición
de seres humanos naturales que viven en la tierra, que tienen que
satisfacer necesidades, que van a morir y que tienen que trabajar
para poder sobrevivir. Al haber asumido, simbólicamente, la
expulsión como un castigo con su consiguiente sentimiento de
culpabilidad, la enemistad entre lo que consideramos humano y los
procesos naturales se fundó sobre bases tan sólidas como duraderas.
Recordemos el viaje alucinante de Marlowe, el personaje central de El
corazón de las tinieblas de Joseph Conrad, hacia el interior de la
naturaleza salvaje y selvática del África profunda. El “horror” con que
se encuentra Marlowe al encontrar al mítico Kurtz, ese comerciante
que abandona la civilización para entregarse al flujo violento de la
naturaleza inculta – y que tan magníficamente retrató Coppola en su
Apocalipse Now-, no es más que un nuevo grito contra la entrega de
la humanidad a los designios de lo natural. La naturaleza es nuestra
enemiga. La cultura es nuestro refugio. Construyamos barreras
contra la intromisión de lo natural en lo cultural. Levantemos muros
de cemento y de filosofías “humanistas” que sólo nos protegerán de
las inclemencias de los fenómenos naturales, pero que, al final, nos
recordarán que, más allá del asfalto y más allá del humanismo,
existen las bases a partir de las cuales el edificio cultural se ha
levantado hasta el cielo de Babel: la naturaleza, lo extra-cultural, no
lo que niega la relación cultura y naturaleza, sino lo que se sitúa en
el límite de ambas categorías, recordándonos constantemente que, de
nuevo, estamos ante una relación, no ante un dualismo en el que uno
de los polos de la dicotomía acaba dominando al otro.
Para nosotros, la cultura hay que verla como el producto de un
proceso continuo de reacción simbólica con respecto a las formas
específicas de relación que mantenemos no sólo con los otros y con
nosotros mismos, sino, de un modo básico y fundamental, con la
naturaleza. De ese modo, en dicha definición de proceso cultural
comenzaban a darse cita tres imaginarios culturales, o, mejor dicho,
la construcción de tres imaginarios culturales que sólo podrán

40 Joaquín Herrera Flores


manifestarse cuando entendamos los procesos de reacción cultural,
no como algo pasivo, estático o identitario, sino como la propuesta
interactiva y colectiva de nuevos procesos de significación y re-
significación del mundo. Decíamos, pues, que lo cultural podía
definirse genéricamente como el proceso humano de construcción,
intercambio y transformación de signos a partir de los cuales los
individuos y los grupos orientan sus acciones en los entornos de
relaciones sociales, psíquicas y naturales en los que viven. Es decir, lo
cultural es aquel conjunto de procesos por los cuales los seres
humanos “explicamos” (el factor causal-estructural), “interpretamos”
(el factor dinámico-metamórfico), e “intervenimos” (el factor
dinámico-interactivo) en la realidad. Realidad que no debe
confundirse con estados de hecho: explosión de un volcán o la lluvia
torrencial o el paso de un tranvía. La realidad es algo más que la
simple suma de estados de hecho; más bien, la realidad se constituye
a partir de las diferentes y plurales formas de relacionarnos con los
otros (el imaginario social instituyente), con nosotros mismos (el
imaginario radical) y con la naturaleza (el imaginario ambiental
biodiverso). Entendiendo por “imaginario” el continuo proceso de
construcción simbólica de “signos culturales” que relacionan los
objetos con que convivimos con las acciones que los crean, los
reproducen y transforman. Nuestra idea de proceso cultural tiene,
pues, un carácter dinámico y potenciador de eso que hemos
designado “la capacidad humana genérica de hacer y des-hacer
mundos”, es decir, de asimilar creativa y transformadoramente los
entornos de relaciones en que nos ha tocado vivir.
En este proceso cultural, el factor interactivo (la intervención
colectiva en los entornos de relaciones) tiene una importancia
esencial. De ahí, que hayamos propuesto un cambio de racionalidad
que se sustente, no tanto en la imposición de una forma previa y pre-
determinada y unos contenidos adecuados para tal forma, sino en la
consecución de materiales que nos permitan aumentar las fuerzas
(las capacidades y las posibilidades) de dichos colectivos que actúan
con las vistas puestas en la transformación de las relaciones sociales,
psíquicas y naturales. Los otros, la naturaleza y nuestra propia
psique están ahí, constituyendo una esfera extra-cultural, es decir,
una esfera que delimita un nosotros, un yo y una humanidad con
respecto a un ellos, a los instintos y a los procesos naturales. Pero
todos estos fenómenos se remiten los unos a los otros, pues es
únicamente dejando que irrumpan los otros, las formas radicales de
decir y decirnos la verdad y los procesos naturales, es como podremos

Cultura y Naturaleza: La Construcción


Del Imaginario Ambiental Bio(Socio)Diverso 41
escapar de la jaula de barrotes de hierro (sistemas de coherencia) que
nos impide percibir que las puertas de las habitaciones, y, por
supuesto, de las cavernas, no sólo están para salir de ellas, sino para
dejar entrar a los que –o a lo que- viene de afuera.
Por esa razón, no nos sirve la figura interactiva de los “vértices”,
la cual, bajo la forma de los no-lugares, nos sirve únicamente para
identificar un tipo de relación cultural basada en intersecciones
causales y atomizadas, en visiones puntuales y unidireccionales
entre las diferentes coordenadas espaciales, y en la aceptación de un
orden preestablecido y, por tanto, inmutable entre las mismas (el
aeropuerto, el shopping, la consideración puramente “formal” del
Estado de derecho, como punto-vértice de encuentro el día de las
votaciones de ciudadanos hasta entonces al margen de lo político y lo
social, o la naturaleza vista como meramente como paisaje para el
turista o como espacio de explotación para la gran multinacional).
Para entender nuestro concepto interactivo de proceso cultural,
sobre todo cuando vamos a reflexionar sobre las formas relaciones de
entender culturalmente la naturaleza y las formas naturales de
entender bio(socio)diversamente lo cultural, mejor sería usar la figura
de “vórtices”, en la que lo importante no es el punto sino la línea, la
pluralidad de vías de enfoque sobre la unidireccionalidad y, en último
lugar, el campo de fuerzas que en su interacción aumenta la
complejidad del fenómeno a estudiar y, en la misma medida, su
conflictividad, y no la ocultación de las relaciones de poder que a fin
de cuentas eterniza el orden preestablecido. La zona de síntesis en
que confluye la consideración del espacio cultural como “vórtice”, no
es una zona pacífica donde se reproduzcan neutralmente las
coordenadas espaciales que definen la concepción dominante del
espacio. Son zonas de turbulencia, de conflictividad, de interacción y
de choque. Esto no dice nada en contra de la interacción-vórtice. Al
contrario, lo que se quiere resaltar con traer el conflicto, la
turbulencia y el choque, es que nos colocamos, no en zonas de
contacto puramente formales e instituidas, sino en zonas de contacto
materiales e instituyentes, donde cabe la acción política
transformadora de las “normas” (jurídicas, morales,
consuetudinarias), las “formas” (científicas, filosóficas, conocimientos
tradicionales) y las “hormas” (la plural y diferenciada configuración
institucional que se ve más adecuada para los entornos de relaciones
en que vivimos).
En este espacio interactivo-vórtice es como podemos construir
nuestro imaginario ambiental bio(socio)diverso. Pero vayamos por partes.

42 Joaquín Herrera Flores


2. LA NATURALEZA ES EL LUGAR DESDE EL QUE TENEMOS
QUE ELEVARNOS

2.1. La co-implicación entre naturaleza y cultura: mitos


cosmogónicos y modificación de los entornos

Hemos defendido, pues, que el proceso cultural coincide con el


proceso de humanización, tanto de la naturaleza humana (imaginario
social instituyente e imaginario radical) como de la naturaleza física
y social (imaginario ambiental bio-socio-diverso) en el marco de una
consideración relacional del concepto de entorno.3 A través de la
construcción cultural nos vamos “humanizando”, es decir, vamos
adquiriendo la capacidad de explicación, de interpretación y de
transformación/adaptación del conjunto de relaciones que
mantenemos con los otros, con nosotros mismos y con la naturaleza.
O sea, “culturalmente” vamos construyendo un entorno puramente
humano en el marco, claro está, de determinados contextos
ambientales y de determinados condicionamientos biológicos y
corporales.
Como veremos más adelante, este entorno humano estará más
o menos influido por dichos condicionamientos ambientales y
biológicos en función del desarrollo, por ejemplo, de los instrumentos
técnicos o de los avances científicos y sociológicos, pero es contando
con ellos como los seres humanos vamos construyendo nuestra
naturaleza de animales culturales y no meramente de animales
sociales. Esta caracterización del ser humano como “animal cultural”
es la que nos permitirá simbolizar culturalmente el esfuerzo humano
por elevarse sobre estos condicionamientos, no negándolos ni
invisibilizándolos, sino reconociendo su condición de elementos
ineludibles en el arduo proceso de construcción de órdenes sociales,
comunitarios y naturales de carácter puramente artificial. Por tanto,
esa “artificialidad” – o mejor sería decir, artefactualidad – de nuestra

3 Como hemos visto ya, un entorno es el espacio construido por nuestra actividad relacional con respecto a los otros,
a nosotros mismos y a la naturaleza. En ese sentido, es una concepción mucho más amplia que la meramente
“ecológica” o “medio-ambiental”. De ahí, que hablemos de imaginario ambiental bio(socio)diverso. Un texto muy
interesante para discernir entre ambas formas de entender las relaciones cultura-naturaleza es el de Kate Soper
What is Nature?. Culture, Politics and the non-Human, Blackwell, Oxford, 1991. Asimismo, puede consultarse la
siguiente bibliografía sobre el concepto amplio de entorno: Uexkull, J., von, Ideas para una concepción biológica
del mundo, Espasa Calpe, Buenos Aires, 1945; Malpartida, A. R., “La noción de entorno en etología (Una discusión
etimo-epistemológica), en Ecognition, 2(1), 1991, p. 39-46; Malpartida, A. R., y Lavanderos, L. “Una aproximación
sociedad-naturaleza. El Ecotomo” Revista Chilena de Historia Natural, 68, 1995, p. 419-427; Malpartida A. R., y
Lavanderos L. “Ecosystem and Ecotomo: a nature or society-nature relationship”, en Acta Biotheoretica, 48 (2),
2000, p. 85-94. Asimismo, aunque su idea de entorno “enactivo”, que pone en marcha los procesos de
diferenciación sistémicos, no sea el elemento teórico que guía estas páginas, es interesante la lectura de Maturana,
H. “Reality: The search for objectivity or the quest for a compelling argument”, en Irish Journal of Psychology, 9
(1), 1988, p. 25-82; y el ya clásico texto de 1982 de Maturana, H., y Varela, F. “Teoría de la autopoiesis” publicado
en Cuadernos del Grupo de Estudio sobre Sistemas Integrados (GESI), 4, 1982.

Cultura y Naturaleza: La Construcción


Del Imaginario Ambiental Bio(Socio)Diverso 43
condición de animales culturales, no elimina de un plumazo las
íntimas relaciones que mantenemos con los procesos naturales.
Éstos “sustentan” nuestras habilidades culturales y, sin ellos, ni
siquiera podríamos pensar de forma racional.
Esta “relación” entre los procesos culturales y naturales es muy
compleja y no puede reducirse al determinismo natural o al
condicionamiento puramente cultural. Los entornos ambientales y
las estructuras biológicas que sostienen nuestra capacidad humana
de construcción cultural, influyen decisivamente sobre nuestra
naturaleza de animales culturales. Ahora bien, como decíamos más
arriba, dicha influencia dependerá, por lo menos, de dos factores:
uno, el del grado de desarrollo alcanzado por la técnica – entendida
ya, no sólo como conjunto de instrumentos, sino como medio de
acción y transformación del entorno en función de las necesidades
humanas que tenemos irremediablemente que satisfacer –; y otro,
asimismo muy importante, que tiene que ver con las posibilidades de
gozar de una información científica y narrativa de calidad que nos
capacite tanto para adelantarnos a las posibles consecuencias o
carencias de nuestra acción en el mundo, como para comunicar a los
otros de los peligros que arrostra dicha praxis. Ambos factores nos
permitirán construir un sistema de pensamiento y un conjunto de
prácticas sociales que nos facilitarán un conocimiento detallado de
las características de los procesos naturales y biológicos con los que
no tenemos otro remedio que “relacionarnos” en la ingente tarea de la
construcción del orden puramente humano.
Por otro lado, no podemos dejar de reconocer que ese marco o
entorno natural – en sí mismo, indiferente a nuestra existencia en el
mundo –, “sufre” continuamente los efectos de nuestra acción. Sin
embargo, por lo menos desde los inicios de la modernidad occidental
a partir del siglo XV hasta la actualidad, el clima, la geografía, la
misma estructura de la atmósfera o los tipos de plantas y animales
que crecen a nuestro alrededor, han sido elementos que parecían no
tener mucho que ver con las acciones y depredaciones humanas que
a lo largo de los siglos se han llevado a la práctica con el objetivo de
dominar a los otros y a la misma naturaleza para convertirlos en
factores productivos. Lo natural, por lo menos en el espacio cultural
occidental, nunca ha entrado explícitamente en el ámbito de lo
político, es decir, en el marco de relaciones en el que interactúan
seres “aparentemente” alejados de sus cuerpos, necesidades y
contextos vitales. Lo político parecía estar siempre alejado de los
procesos naturales. Mientras que lo natural siempre fue lo que había

44 Joaquín Herrera Flores


que superar y de lo que había que separarse para poder dominarlo y
reconducirlo a los procesos de acumulación y de explotación de todo
lo que nos rodea. Aunque el sistema capitalista, como todo contenido
económico de la acción social, siempre se ha sostenido, y seguirá
sosteniéndose, sobre los recursos naturales necesarios para la
obtención de beneficios, lo ha hecho obviando (por supuesto de un
modo “explícito”, ya que “implícitamente” todo empresario capitalista
sabe que sin los recursos naturales su exigencia de acumulación no
podría ser satisfecha), que, en realidad, estamos en continua
interacción con la naturaleza, sea para respetarla, sea para
destruirla, sea, en última instancia, para construir una vida más
humana.
Dadas las inevitables interacciones entre lo cultural – véase, por
ejemplo, las diferentes formas de entender lo sagrado – y lo natural –
el entorno al que respetamos, tememos o con el que “colaboramos”
para reproducirlo y reproducirnos –, no hay más remedio que
reconocer – quizá a nuestro pesar como seres humanos que se
consideran el centro del universo –, que lo que hemos hecho
culturalmente, ha tenido su origen en condicionamientos
ambientales, y que no puede admitirse la existencia de una
naturaleza entendida al margen de lo que hacemos cultural, social,
política o económicamente. El árbol, justo después de ser nombrado
como tal, deja de ser un manojo de raíces, tronco y hojas, para
convertirse en un signo cultural: por ejemplo, el punto que marca un
lindero, o el lugar de sombra donde cobijarnos del sol o, por qué no,
el objeto mágico/mítico que, como es el caso en la cosmogonía del
pueblo Tikuna que habita en las partes altas del Río Negro, permite
una relación respetuosa con la tierra, con el sol y con el agua. Pero
no por eso el árbol deja de ser “naturaleza”. El árbol, aparte de signo
cultural, forma parte de aquellas estructuras y procesos que son, en
sí mismas consideradas, indiferentes a nuestra presencia activa en el
mundo (en el sentido de que no son un producto humano, y en la
mayoría de los casos se reproducirían mejor sin nuestra
intervención), pero cuyas energías y poderes causales no podemos
dejar de lado, ya que constituyen las condiciones necesarias de toda
práctica humana.
Esto es evidente cuando analizamos los mitos y narraciones
que intentan simbolizar el origen de lo humano. Es decir, las
producciones culturales a partir de las cuales se pretende “alegorizar”
el paso de una vida inconsciente supeditada a los rigores legales de
lo macrocósmico, tal y como diría Spengler, a una vida basada en la

Cultura y Naturaleza: La Construcción


Del Imaginario Ambiental Bio(Socio)Diverso 45
consciencia de ser un “ser” humano que, al haber sido expulsado del
paraíso, se sabe portador de un cuerpo, de una edad y de una
capacidad de hacer que le permita, microcósmicamente, vivir con
dignidad. Este paso de lo macrocósmico a lo microcósmico, de la
inconsciencia a la consciencia, siempre fue temido por los dioses, y
así lo demuestran las narraciones de Babel y de los castigos divinos
a toda infracción de las reglas y prohibiciones por ellos establecidas,
sea una infracción real, como en el caso de Prometeo, sea ficticia,
como le ocurrió al ingenuo y sufrido Job.
El ser humano pasa culturalmente de “tener conciencia de la
vida” a disfrutar, o sufrir – depende de cómo se interprete la “caída”
y la expulsión de los diferentes “paraísos” naturales que pululan por
los diferentes procesos culturales –, de su autoconciencia. Al tener
que trabajar durante una determinada cantidad de tiempo para
satisfacer las necesidades de su cuerpo, es decir, al tener que
enfrentarse a un mundo que se opone y se resiste al cumplimiento de
sus apetitos, la autoconciencia –nos recuerda Fernando Savater4 –
comienza a ser más y más capaz de valorar, de elegir, de jerarquizar
sus deseos de acuerdo no ya sólo con la supervivencia sino con la
afirmación autónoma de su querer.
Esta autoconciencia es algo que surge, no a pesar de la
interrelación con la naturaleza, sino, precisamente, a causa de la
necesidad de actuar junto a -y con- ella para satisfacer las
necesidades de un cuerpo ya mortal. Lo humano reside precisamente
en el establecimiento de la relación entre las producciones culturales
y los condicionamientos naturales. Por el contrario, es el “paraíso” el
lugar donde no existe tal interrelación entre lo humano y lo natural,
pues el individuo no tiene necesidad de relacionarse con la
naturaleza: ambos están ahí dados de una vez para siempre, el uno
diferente a la otra y viceversa. Es tras la expulsión del orden “natural”
cuando surge “culturalmente” la naturaleza, y es en estrecha
interacción con los condicionamientos naturales cuando surge la
cultura. El (poco) tiempo de que disponemos y la exigencia de “hacer”
para vivir con dignidad, son elementos de lo humano que no nos
separan de la naturaleza sino, al contrario, la conciencia que de ellos
tenemos es lo que nos induce a interrelacionarnos con ella, pero ya
de un modo consciente, valorando, eligiendo y marcando las
diferencias/preferencias entre unas cosas y otras, prefiriendo este
orden a aquel otro, conservando esto y no aquello...es decir,
estableciendo unas relaciones de marcada tendencia cultural. En el

4 Savater, F. Las preguntas de la vida, Ariel, Barcelona, 2002, p. 198.

46 Joaquín Herrera Flores


orden mítico/natural los seres, aún no humanos, vivían en medio de
los intersticios naturales sin tener necesidad de relacionarse con ellos
de un modo activo; en el orden cultural/natural, son los hechos
naturales los que se sitúan en los intersticios de la acción humana,
la cual va alterando su valor y su significado en función del flujo de
necesidades y exigencias que tiene que satisfacer.
Así, en las narraciones míticas del origen de lo humano, en las
que siempre se da algún tipo de violación contra prohibiciones
preestablecidas, nos encontramos con la ingesta, no de algún animal
(algo que está ahí), sino de algún tipo de vegetal (algo que hay que
producir y transformar para que sirva como alimento) Es lo que
ocurre en el mito de la expulsión del Edén cristiano a causa del
bocado a la inocente manzana, y la de la pérdida del dilmun (paraíso
sumerio) debido, en este último caso, a la atracción que tenían para
Enki, el Señor de la Tierra, los diferentes productos vegetales con los
que se encontraba a su paso y que lo impulsaban a probar sus
diferentes y lujuriosos sabores. La importancia del “vegetal”, es decir,
de lo que surge de la naturaleza por la propia intervención humana,
es de una relevancia crucial para comprender el inicio de los procesos
culturales, marcando la estrecha relación de solidaridad entre la
actividad (cultural) de los seres humanos y los procesos naturales
que conforman la naturaleza. Ese “trato con el vegetal”, como
indicador de construcción de lo humano/cultural no es sólo
patrimonio del acervo mítico occidental; también aparece en las
tradiciones de algunos pueblos indígenas de la amazonía,
mostrándose la continuidad cultural de todas las formas de vida que
diferenciadamente reaccionan frente al conjunto de relaciones en el
que viven. Es el caso de los Omáguas, pueblo amazónico considerado
como colectivo especialmente adelantado con respecto a otros del
entorno cultural/natural surgido en los márgenes del río Amazonas.
Los nativos de dicho pueblo indígena, a pesar de las dificultades que
el terreno selvático plantea para la agricultura, siempre han dedicado
gran parte de sus esfuerzos al cultivo de la mandioca, el mijo y el
algodón, y tal y como nos cuenta el cronista Cristóbal de Acuña, ha
sido tradicionalmente considerado por sus coetáneos y coterráneos
como un pueblo más desarrollado culturalmente. Del mismo modo,
en el mito cosmogónico del pueblo de los Dessanas, habitantes del
Alto Río Negro, la construcción del mundo se llevó a cabo por una
mujer “nacida de sí misma” que ya no se alimentaba de los productos
de la caza, sino que tomaba ipadu, un arbusto de hojas oblongas
pequeñas que ostenta las mismas propiedades de la coca y es

Cultura y Naturaleza: La Construcción


Del Imaginario Ambiental Bio(Socio)Diverso 47
cultivado por los indios del Alto Amazonas, y fumaba tabaco, de cuyo
humo fueron surgiendo todas las cosas que componen el mundo
humano.5 El trato y producción de vegetales, por consiguiente, trajo
consigo una profunda modificación en los valores del cazador
paleolítico, ya que sustituía al animal por el vegetal y transformaba la
antigua zoolatría en el culto a la fecundidad. Ahora serán las “diosas-
madres” las que, al haber acumulado el conocimiento necesario para
la abundancia de vegetales (es decir, al haber sentado las bases de la
agricultura y de la preparación “cultural” de los alimentos) las que
intentan relegar – no con la suficiente fuerza (así lo demuestra la
arraigada tendencia patriarcalista de nuestra forma de concebir y
actuar en el mundo), pero sí con un gran poder simbólico- al “dios-
padre” a su Olimpo de ociosidad celeste. Perséfone en Grecia, y
Dumuzi en Sumeria, son diosas raptadas por las profundidades
abismales que luchan para volver de nuevo a la tierra y propiciar así
la fecundidad de los terrenos y campos transformados por los
humanos para su supervivencia y su vida digna.. Perséfone y
Dumuzi, constituyen la representación dramatizada, no ya del poder
de la semilla del varón-dios, sino de las “metamorfosis” de la semilla
producidas y reproducidas por la necesidad de alimentar cuerpos
sometidos a los rigores de la edad, del trabajo y de la supervivencia.
“El paraíso perdido por probar una planta – dice Antonio Escohotado6
– stá en los comienzos de la primera mitología escrita. El mundo tal
cual es – no el jardín sin dolor y muerte donde, como dice el escriba
sumerio, ningún león masacra, ningún lobo se lleva al cordero, ningún
enfermo de los ojos repite que le duelen los ojos – comienza con la
ingestión de un vegetal...”, y el vegetal no es lo original, es decir, algo
dado espontánea e inicialmente, sino el producto de una
“transformación”, de una “metamorfosis”, de una producción cultural
de la naturaleza impuesta por la propia naturaleza del ser humano
expulsado del concreto y específico “edén”.
Naturaleza y cultura, pues, se co-implican, aunque nuestra
tarea de actores culturales no consista en otra cosa que en intentar
elevarnos por encima de esas “estructuras y procesos” para albergar
la creencia de que no estamos determinados por nuestros cuerpos y
nuestras necesidades. No por negar la dependencia absoluta de la
naturaleza, nos convertimos en seres radicalmente artificiales.
Construimos artificios para no depender absolutamente de dichos

5 Umusi Parokumu –Firmiano Arantes Lana- y Toramu Kehíri –Luis Gomes Lana, Antes o mundo nao existia; mitología
dos antigos Desana-Kehíripora, 2.ª ed., Sao Gabriel da Cachoeira, UNIRT/FOIRN, 1995; Marcos Frederico Krüger,
Amazônia. Mito e Literatura, Valer Editora, Manaus, 2003.
6 Escohotado, A. Historia de las drogas, Alianza Edit., Madrid, 1992, Vol. 1, p. 64.

48 Joaquín Herrera Flores


condicionamientos; pero ellos están en la base de la lucha establecida
culturalmente para construir el mundo humano.
Pensar lo contrario, nos conduce a dos consecuencias de
importantes resonancias sociales y humanas. En primer lugar, nos
dirige al establecimiento del dualismo mente-cuerpo, y su
consecuente jerarquización, en la que lo mental ocupa el lugar
privilegiado y lo corporal, una posición absolutamente subordinada
(e, incluso, para algunas religiones, pecaminosa y despreciable) La
principal función de este dualismo jerarquizado radica en negar que
nuestras necesidades y sus diferenciadas formas de satisfacción,
sean considerados como “derechos humanos” tan fundamentales
como la expresión de ideas y el respeto de creencias religiosas. Al
partir de este dualismo, llegamos a pensar que lo único que nos hace
ser seres humanos completos son los aspectos mentales o la pura
actividad simbólica, ajena a, o al menos no influida por, los
condicionamientos físicos o naturales. Estamos ante una “escisión”
de tremendas consecuencias sociales pues dificulta enormemente la
garantía jurídica de aquellas expectativas humanas que se concretan
en lo que jurídicamente se denominan “derechos sociales,
económicos y culturales” – categoría de derechos muy cercana a las
necesidades vitales y básicas de las personas y pueblos: vivienda,
salud, educación, trabajo, patrimonio histórico y natural..., y que
requieren una intervención económica y social activa para su
implementación real y concreta –, los cuales quedan en una posición
subordinada con respecto a los “derechos civiles y políticos”,
aparentemente ejercitables sin necesidad de intervención social,
política o cultural alguna.
La segunda consecuencia de no reconocer la interacción entre
lo cultural y lo natural, es la de creer que las producciones culturales
se dan en una especie de vacío simbólico sin contacto con los
entornos donde se producen. Los productos culturales parecen
existir en el vacío de los símbolos, o, por lo menos, sin contacto
aparente con los contextos sociales y naturales desde, y para los que,
surgen. A partir de aquí, se establece socialmente la creencia de que
la cultura y sus producciones caminan por sí mismas, condicionan
absolutamente nuestra acción en el mundo, y no tienen nada que ver,
ni con los procesos sociales, políticos o económicos, ni con las
exigencias que nuestra naturaleza de “animales” culturales nos
impone a la hora de la satisfacción concreta de las exigencias
corporales. Esta concepción “etérea” de lo cultural tiene graves
consecuencias en el campo de los “derechos humanos”, ya que en

Cultura y Naturaleza: La Construcción


Del Imaginario Ambiental Bio(Socio)Diverso 49
multitud de reuniones internacionales en las que se trata, en
principio, de establecer deberes de solidaridad con los países
empobrecidos por la globalización neoliberal, como ocurrió, por poner
un solo ejemplo, en la Convención de Barcelona de mediados de los
años noventa7 y en la que se reunieron los países europeos y los del
Magreb, se postulan deberes de reconocimiento y apoyo mutuo en los
aspectos culturales, como si éstos no estuvieran en relación con los
procesos de liberalización y de apertura de mercados de los países del
Sur hacia los productos del Norte. Parece que la cultura nada tiene
que ver con los aspectos de desarrollo desigual entre el Norte rico y el
Sur impotente, ya que trata únicamente de folclore, de espectáculo,
y, a lo más, de acercamiento en cuestiones artísticas.
La cuestión residiría, pues, en determinar si esa escisión entre
los “derechos” sociales, económicos y culturales y los “derechos”
civiles y políticos, es decir, esa sareparación dualista entre la mente
y el cuerpo, y ese abismo producido entre lo simbólico y lo socio-
económico, constituyen escisiones que surgen de la propia naturaleza
(lo cual, es negado culturalmente por las diferentes interpretaciones
de la caída o expulsión del paraíso), o más bien tiene que ver con
intereses ideológicos y estratégicos precisos que parten de una
consideración esencialista o metafísica de una naturaleza humana
reducida a sus aspectos puramente mentales o culturales.

2.2. La exigencia de vivir sintiendo en el Rey Lear y en


Ciudadano Kane: O rio comanda a vida y a vida
comanda o rio

Por esas razones, hay que entender la capacidad humana para


lo cultural, no como algo que se añada desde afuera a nuestra
naturaleza, sino que los procesos de reacción cultural están anclados
en su propia raíz. Somos animales culturales, es decir, seres
naturalmente culturales y culturalmente naturales. Precisamente,
nuestras vidas están atravesadas de tensiones debido al “hecho”de
que no somos únicamente seres puramente naturales ni, por
supuesto, seres exclusivamente culturales, sino seres que viven en un
entorno que sólo es posible en la mutua interrelación, sea tensa o
pacífica, entre los diferentes componentes que nos hacen ser “seres
humanos”. No nacemos como seres culturales, ni como seres
naturales autosuficientes. Nacemos como unas criaturas cuya

7 Para comenzar a entender estos procesos, ver Amicucci, C., “De Rabat a Barcelona. Un largo recorrido para acercar
el Mediterráneo” en Mediodía. Desde el Mundo Mediterráneo, Número de presentación, Otoño 2003,
mediodia@servicesmail.com, p. 20.

50 Joaquín Herrera Flores


naturaleza física es tan indefensa que necesitan la cultura para
sobrevivir. La cultura es el ‘suplemento’ que rellena un vacío dentro
de nuestra naturaleza, y nuestras necesidades materiales son
reconducidas en sus términos.8
Es el caso, acudiendo a Shakespeare, del “inmoralismo” y la
“furia destructiva” de El Rey Lear. En el apogeo de su poder, Lear
sólo actúa en función de los valores y los símbolos culturales que le
convienen aceptar para ir aumentando su capacidad y sus
posibilidades de dominio. Sus necesidades, más que fenómenos
naturales, eran órdenes que obtenían cumplimiento inmediato. Esa
escisión entre sus necesidades y la forma cultural de satisfacerlas,
hace pensar a Lear que su “naturaleza” poco tenía que ver con lo
que le rodeaba: todo estaba a su servicio, o, lo que es lo mismo, al
servicio de los valores que lo encumbraban y lo reproducían como
la cúspide del poder. En cierto sentido, la película Ciudadano Kane
de Orson Wells, retoma esa separación absoluta de todo proceso
natural. El “ciudadano” Kane puede con todo y con todos, a
excepción del recuerdo de un objeto que, en su niñez, lo acercaba
al juego y a la naturaleza. “Lear” y “Kane” son dos “símbolos” de esa
tendencia humana a considerar el entorno en el que vivimos –
incluyendo en él a los otros – como algo prescindible y explotable en
función de los intereses de poder propios. “Lear” y “Kane” sólo
podrán superar el abismo entre el árbol como signo cultural y como
producto natural, es decir, entre sus valores y criterios “culturales”
y las necesidades “naturales” de ellos mismos y de los que los
rodean, cuando, como sentencia Gloster en la obra de Shakespeare,
ambos aprendan a vivir sintiendo, vale decir, cuando comiencen a
experimentarse a sí mismos, no como una individualidad absoluta
protegida por las relaciones de poder y los valores dominantes que
permiten y reproducen su status de dominadores, sino como seres
que comparten con el resto de la humanidad la exigencia de
satisfacer y recrear culturalmente sus propias necesidades
naturales. Los valores en los que Kane y Lear sostienen su
dominación sobre el resto del mundo, no surgen por sí mismos ni
por el funcionamiento sistémico y ahistórico de alguna entidad
cultural separada de la realidad; más bien, responden al hecho de
que, por nuestra propia constitución, somos animales sociales
materialmente capaces de percibir las necesidades de los demás y
que además deben hacerlo para poder sobrevivir.

8 Cfr., Eagleton, T., La idea de cultura. Una mirada política sobre los conflictos culturales, Paidós, Barcelona-Buenos
Aires, 2001, esp. p. 155 y 147-148.

Cultura y Naturaleza: La Construcción


Del Imaginario Ambiental Bio(Socio)Diverso 51
Humanizarnos, no significa, pues, negar que seamos seres
biológicos y naturales, sino seres que son capaces de explicar,
interpretar e intervenir en la naturaleza de la que somos parte y en la
que vivimos. En primer lugar, qué duda puede caber acerca de la
influencia de la lenta, aunque inexorable, evolución biológica de la
que somos una parte infinitesimal; y, en segundo lugar, cómo negar
el impacto del espacio geográfico en que vivimos, o de la cantidad y
calidad de recursos naturales de que disponemos, tanto para la
propia supervivencia como para poder dar origen a los procesos
culturales. Veamos separadamente cada una de dichas influencias.
Para clarificar el influjo de lo biológico sobre lo humano y la
necesidad humana de reaccionar frente a sus propias limitaciones
biológicas, nada mejor que acudir al mito de Edipo. Frente a las
murallas de Tebas, la Esfinge impide el paso a todo forastero y, bajo
amenaza de engullírselo si no sabe la respuesta, le plantea el famoso
enigma: ¿quién es ese ser que a veces tiene tres pies, otras veces dos
e, incluso, llega a tener cuatro y que a medida que tiene más pies más
débil es su naturaleza? Edipo no lo duda, es el ser humano en sus
diferentes fases biológicas y, por supuesto, culturales. Un ser que,
partiendo de sus propias debilidades – una infancia larga y
dependiente, una madurez competitiva y arrogante, y una vejez de
nuevo dependiente y sometida a los estragos del tiempo –, le es
posible transformar, creativa o destructivamente, el entorno en el que
vive, construyendo, por ejemplo, una tercera pata, un bastón, que le
permita superar el condicionamiento del paso del tiempo.
Está claro que el desarrollo del dedo pulgar, la posición erecta,
la visión en perspectiva, el desarrollo del sistema nervioso...son
fenómenos biológico-evolutivos que nos han permitido reaccionar
frente a las necesidades que ineludible y biológicamente tenemos que
satisfacer. Pero sobre, o al lado de, tales caracteres fenotípicos,
vamos construyendo una especie de segundo mundo – el cultural –
que, poco a poco, nos va “liberando” de las ataduras corporales y
genéticas, desplazando a cada momento la primigenia conexión entre
los instintos y lo innato, entre lo adquirido y transmitido. En ese
proceso, hemos llegado a ser los “animales” que, gracias a la
intervención cultural, más hemos influido – unas veces, para bien; la
mayor parte de las ocasiones, para mal – sobre el entorno en que
vivimos. Pero, querámoslo reconocer o no, somos esos seres que a
veces andan a cuatro patas, en algún momento, se sostienen en dos
y, con el tiempo, tienen que construir una tercera para poder
mantenerse en pie.

52 Joaquín Herrera Flores


Ahora bien, no es sólo la debilidad biológica la que nos ha
obligado a la construcción de lo cultural. También, la relación que
mantenemos con los recursos naturales de que disponemos para
poder satisfacer nuestras necesidades, ha influido de un modo muy
importante en la construcción del mundo humano. Vivir al lado de un
río que se desborda anualmente dejando a nuestro alrededor el lodo
necesario para el crecimiento equitativo y sostenido de los procesos
naturales que posibilitan nuestra alimentación; o vivir en medio de
las infinitas y ondulantes dunas del mar de arena de algún desierto
donde el poder se mide por el conocimiento y, consecuente,
ocultamiento a otros, de las fuentes de agua necesarias para
mantener la vida, ha provocado que, cada una de las hipotéticas
comunidades que habitan dichos entornos, por un lado, desarrollen
productos culturales absolutamente diferentes, pero, por otro, nos
conduce a la constatación de que ambas comunidades, y,
generalizando, todas las individualidades y colectivos que componen
las diferentes formas de vida que conviven en nuestro planeta,
reaccionan culturalmente de un modo diferenciado tanto frente al
entorno ambiental como social.
Sin contar con las características -o, por lo menos, con algunas
de ellas- de nuestra propia biología, tal como nos recordaba la Esfinge
con su enigma, o de los entornos en que nacemos, vivimos o nos
instalamos, difícilmente podremos explicar, ni, por supuesto,
disfrutar de, las riquezas culturales y la diversidad humana de que
disponemos. En tanto que “cuerpos” biológicos, los seres humanos
vamos procesando culturalmente nuestra realidad en relación
estrecha con las necesidades que la “naturaleza” nos impone tanto a
los animales sociales como a los animales culturales. Evidentemente
se trata de satisfacer las necesidades. Ahora bien, tales necesidades
poseen una muy clara definición biológica, determinadas por la
conservación del individuo y de la especie. Se traducen, así, en
estados fisiológicos de desequilibrio, que -según nos informa Carlos
Paris- transmitidos a los centros nerviosos presionan la actividad del
sujeto, buscando en el ambiente los objetos que puedan restablecer
la homeostasis. Como consecuencia de esa tendencia biológica a
restablecer el equilibrio entre las necesidades y la exigencia de su
satisfacción, el ser humano puede elevarse sobre ese proceso
biológico y construir signos -formas de relación entre las necesidades
y sus formas de satisfacción que no se reducen ya a las meramente
biológicas- y, descubrir técnicas, entendidas, no como un
determinado conjunto de instrumentos, sino como una amplia gama

Cultura y Naturaleza: La Construcción


Del Imaginario Ambiental Bio(Socio)Diverso 53
de “medios de acción” que el animal, ya “cultural”, “utiliza” para
conseguir su objetivo de supervivencia, de organización de la
comunidad, o de goce y placer de los sentidos. Así, continúa
argumentando Paris, “siendo la técnica un mecanismo de adaptación
activa al medio -y de transformación de él-, es inevitable que las
distintas ecologías en que los grupos humanos se desenvuelven,
desde las zonas árticas a las selvas tropicales, desde las riberas
marinas a las altiplanicies, difracten la unidad básica del fenómeno
técnico, con arreglo a las necesidades que los distintos medios
determinan -más exactamente, la manera en que modulan las
necesidades biológicas del ser humano- y los recursos que ponen a
disposición de la acción”.9 Desde esta explicación de la técnica como
“acción”, se puede ver cómo la diversidad humana, teniendo mucho
que ver con la biológica exigencia de satisfacción de necesidades, se
“levanta” sobre ésta, dado que satisfaremos dichas necesidades
construyendo medios de diferente tipo, no en función de la pura
reacción biológica, sino en el marco de espacios culturales distintos y
diferenciados. La naturaleza induce a lo cultural gracias a la exigencia
de elaboración de técnicas de acción sobre el medio, y lo cultural
reinterpreta y transforma lo natural debido a su específica forma de
reacción frente a los diferentes sistemas de relaciones que se den en
las heladas planicies árticas o en las irrespirables alturas andinas.
Como defendió el gran geógrafo brasileño Milton Santos,10 el
espacio no puede ser definido únicamente a partir de los objetos que
en él se encuentran: ríos, montañas, comarcas..., sino en estrecha
relación con las acciones humanas que por ellos transitan. Las
dinámicas impuestas por los seres humanos, junto a las desplegadas
por la fauna y la flora, constituyen “ejes de relaciones” que tienen que
ver con las condiciones naturales de los lugares en las que se
desarrollan y, por supuesto, esas condiciones naturales, una vez
sometidas a tal eje de relaciones -tela de araña cultural/natural de la
que no podemos huir-, quedarán transformadas irremediablemente
al convertirse en el marco a partir de las cuales, y no a pesar de las
mismas, pretendemos construir y reproducir la vida.
O rio comanda a vida, escribió en los años cincuenta el escritor
amazonense Leandro Tocantins al referirse al papel crucial que el río
Amazonas tiene en la vida de la gente que vive en sus márgenes: e o
rio que un dia vai me levar à venturosa cidade...o rio-conduto de ideais

9 Cfr., Paris, C. “De la técnica zoologica a la humana” en El animal cultural. Biología y cultura en la realidad humana,
Crítica, Barcelona, 2000, esp. p. 102-113.
10 En este sentido, debe consultarse A Natureza do Espaço, obra de 1997 de Milton Santos (traducción al castellano
bajo el título La naturaleza del espacio. Técnica y tiempo. Razón y emoción, Ariel, Barcelona, 2000).

54 Joaquín Herrera Flores


generosos, de visoes coerentes com a realidade do homen, da regiao,
da natureza, do correto magistério na ordem social o econômica. Pero
el río, incluso el enigmático, necesario, profundo e inaccesible
Amazonas, ni siquiera tendría nombre si no fuera por la interrelación
de sus aguas con las narraciones y desazones humanas que
empujaron a los conquistadores hispanos a adentrarse en el “mar
interior” amazónico en busca del País de la Canela y de las aguerridas
y míticas Amazonas. Así Tocantins sigue afirmando: O homen e o rio
sao os dois mais ativos agentes da geografia humana da Amazonia. O
rio enchendo a vida do homen de motivaçoes psicológicas, o (homen)
imprimendo à sociedade rumos e tendencias, criando tipos
característicos na vida regional. Tocantins nos lo recuerda con su
metáfora acerca del papel del río en la cultura humana: la naturaleza
hay que entenderla en y para la cultura, y la cultura, en y para la
naturaleza. Aunque, como le dice Katharine Hepburn a Humphrey
Bogart en una de las escenas del hermoso film La Reina de África, “La
naturaleza, Mr. Allnut, es el lugar donde nos ponen y desde donde
tenemos que elevarnos”.

3. CONTRA LOS DOS TIPOS DE REDUCCIONISMOS: EL


BIOLOGICISMO Y EL AISLACIONISMO CULTURAL

Humanizar, por tanto, no significa despreciar los procesos


naturales. Pero, tampoco consiste en la inexorable e insuperable
constatación de nuestra animalidad y nuestros condicionamientos
físicos. Desde el inicio de estas páginas, hemos definido a los seres
humanos en su proceso continuo de reacción frente a las diferentes
realidades en las que se insertan, como animales culturales;
“animales”, es decir, seres que inexorablemente están condicionados
por lo biológico; y “culturales”, en tanto que seres que continuamente
nos vamos elevando de dichos condicionamientos y vamos
transformando, para bien o para mal, el entorno en que “nos ponen”.
Por consiguiente, tan absurdo será el llamado “reduccionismo
biologicista” que, anula la peculiar novedad de la cultura humana al
reducir los fenómenos culturales a términos biológicos, y acaba
traduciendo los conceptos culturales al lenguaje científico natural;
como el “aislacionismo culturalista”, que hace de la cultura una
realidad hermética, carente de raíces, incomunicada con la biología y
surgida de un modo casi mágico -por la gracia del simbolismo- en el
mundo humano. El aislacionismo culturalista pretende asentar lo
cultural sobre fenómenos y conceptos absolutamente propios -como

Cultura y Naturaleza: La Construcción


Del Imaginario Ambiental Bio(Socio)Diverso 55
el simbolismo, la singularidad del lenguaje humano, incluso la
capacidad técnica-, referidos exclusivamente a nuestra especie,
fenómenos inéditos, para el mundo científico natural, que condenan
a la irrelevancia los análisis basados en la biología. En el desarrollo
de la primera tendencia, la peculiaridad de la cultura y de lo humano
se disuelve en un monótono paisaje. En la segunda se convierte la
cultura en la irrupción de un mundo, racionalmente incomprensible,
incomunicado con los estratos subyacentes de lo real y con la
evolución, un reino que sólo se explicaría en términos de milagro o de
creación. Reduccionismo de una parte, “aislacionismo”, insularismo
o hermetismo de la otra.11 Veamos un ejemplo de cada una de las
tendencias.

3.1. El reduccionismo biologicista

En primer lugar, destacar el auge mediático que han tenido las


afirmaciones de la llamada “Sociobiología”. Este método consiste, a
rasgos generales, en un esfuerzo teórico-especulativo desde el que se
pretende entender el fenómeno de lo cultural, partiendo, por lo menos
en los desarrollos teóricos más recientes, de la coevolución genético-
cultural. Para Wilsom y Lunsdem, los dos “sociobiólogos” que más
han entrado en los debates culturales, dicha coevolución implicaría
tres elementos interrelacionados dialécticamente: Genes-Mente-
Cultura; Cultura-Mente-Genes. Ahora bien, y para ser más precisos,
las relaciones jerárquicas entre esos tres elementos no son en absoluto
simétricas, dado que se parte de una influencia casi dictatorial de los
genes sobre los otros dos miembros que compondrían hipotéticamente
la coevolución. La gente se suicida, ama, odia, critica o transforma su
mundo, “orientados” –nosotros diríamos, “determinados”- por la
actividad específica de los genes, que no es otra que la de “prescribir”
una serie de procesos biológicos que Wilson y Lunsdem califican como
“reglas epigenéticas”, las cuales dirigen el caudal de la mente en
estrecha relación con el contexto en el que el ser humano actúa. Estas
reglas epigenéticas se transmiten biológicamente a través de lo que
estos autores denominan el “culturgen”, algo así, como un gen
cultural que determina la acción y que permitiría a los científicos
comprender y explicar la conducta humana -que culturalmente es
tan diversa y heteromorfa- en los términos más controlados,
homogéneos y cerrados de la ciencia natural.

11 Para una mayor profundización en este tema acudir al texto de Carlos Paris “De la ideología a la concepción
biocultural del ser humano” en El animal cultural, op. cit., p. 17-31.

56 Joaquín Herrera Flores


Estamos, pues, ante un caso de “reduccionismo biologicista”,
aunque sus defensores intenten denodadamente defenderse del
mismo apelando a la tríada “genes-mente-cultura” y al concepto de
coevolución. Las reacciones más feroces contra la socio-biología
fueron impulsadas por el conjunto de críticas que sobre sus tesis
dirigieron científicos más comprometidos política y socialmente con
sus contextos (en concreto, el grupo Science for the People), al mostrar
dos consecuencias negativas12 de tales planteamientos: primero, la
liquidación de las luchas por la libertad humana, las cuales estarían
determinadas por la actividad invisible y cuasi-estática de los genes,
y, segundo, el peligro de justificar posiciones racistas de superioridad
genética o a eternizar construcciones sociales como el patriarcalismo,
como si procedieran, en este último caso, no de la dominación
política, económica y simbólica que a lo largo de los siglos el hombre
y la sociedad construida según sus valores han mantenido sobre la
mujer, sino producto de las reglas epigenéticas que proceden de la
actividad química de los genes. ¿Cómo se reacciona culturalmente
contra esas “orientaciones” genéticas? ¿Lo cultural se reduce a las
actividades puramente físico-mentales de los individuos? ¿Cómo
integrar en la tríada de la coevolución “genes-mente-cultura” el
conjunto de productos culturales que conforman un espacio cultural
concreto y que constituyen un marco de orientación radicalmente
distinto del físico-orgánico? En definitiva, ¿cómo comprender y
adaptar a nuestras vidas individuales y sociales ideas tales como la
tolerancia, el respeto, la solidaridad, entendidas, no como funciones
de órganos corporales que necesitan de la interconexión orgánica,
sino como valores que construimos socialmente para poder actuar y
vivir de un modo emancipador?.

3.2. El aislacionismo culturalista

Como ejemplo más sofisticado de “aislacionismo culturalista”,


nos encontramos con la teoría estructural de Talcott Parsons,
presentada a mediados del siglo XX como la síntesis de todas las
ciencias. Parsons, estaba especialmente interesado en explicar la
acción de los individuos en su relación con los objetos externos a su
individualidad. Estas relaciones forman sistemas cerrados y
excluyentes entre sí –en función del conjunto de objetos de que se
trate-, y cuya función es proporcionar reglas que permitan gobernar

12 Ver http://list.uvm.edu/cgi-bin/wa?A0=science-for-the-people&D (consultada el 6 de Julio de 2004); sobre las


consecuencias darvinistas de la teoría, consúltese la página http://eonix.8m.com.

Cultura y Naturaleza: La Construcción


Del Imaginario Ambiental Bio(Socio)Diverso 57
y dirigir las elecciones de los actores sociales que “actuan” psíquica,
social o culturalmente. De ese modo, Parsons afirma metodológi-
camente lo siguiente: en términos de acción, el mundo objetivo se
puede clasificar como compuesto por tres clases de objetos, cada una
formando un sistema autocentrado e independiente de los demás. En
primer lugar, los “objetos sociales”, que forman el llamado “sistema
social” (y que debe ser estudiado por la sociología); en segundo lugar,
los “objetos físico-psíquicos”, que forman el “sistema biológico” y el
“sistema donde se desarrolla la personalidad” (objeto privilegiado de
la ciencia natural y de la psicología); y, en tercer lugar, los “objetos
culturales”, que forman el “sistema cultural”, es decir, el conjunto de
ideas y valores que circulan a través de símbolos (cuyo análisis
dependerá de la antropología cultural): los objetos culturales serían,
pues, elementos simbólicos, sin alguna otra relación con el entorno
social, físico o psicológico. Estos símbolos forman un sistema
autónomo que se autorreproduce por sí mismo y que, por lo tanto,
pueden ser estudiados al margen de otras consideraciones (objeto,
como vemos, de otros sistemas y otras disciplinas) y de otros
contextos. Lo cultural se ve, entonces, como un sistema autónomo,
compuesto de símbolos y significados, que definen y determinan,
para los seres humanos, lo que ha de entenderse por realidad.
Como demostró Alvin Gouldner,13 la teoría parsoniana fue un
producto cultural perfectamente funcional a la utopía burguesa
reaccionaria de construir un mundo de equilibrios y consensos políticos
y culturales sin hacer referencia alguna a los conflictos sociales y
económicos que estaban en la base de su organización social. Cada
“sistema de objetos” (p.e., las relaciones sociales y los productos
culturales) constituían mundos distintos que determinan, cada uno a
su manera, la naturaleza y los hechos de la vida. Edificar un sistema
social basado en relaciones profundas de desigualdad social y
económica, tal y como iba consiguiendo el modo de producción
capitalista tras la victoria en la II Gran Guerra, es mucho más fácil si
separamos las distintas esferas de acción humana que si tenemos una
visión holística de los procesos sociales. De ese modo, un conflicto
económico o, aún más claro, un conflicto producido en el marco de la
expansión imperial europea, era considerado como un conflicto entre
diferentes concepciones culturales del mundo, con lo que las verdaderas
causas de la confrontación –colonialismo, depredación de recursos
naturales, destrucción de tradiciones y formas colectivas de vida en

13 Gouldner, A., “From Plato to Parsons: The Infraestructure of Conservative Social Theory” en The Coming Crisis of
Western Sociology, Basic Books, NY, 1970.

58 Joaquín Herrera Flores


función de los intereses de los procesos imperialistas de acumulación de
capital-, permanecían veladas en el misterio de los símbolos. Así lo
cultural flotará, desde Parsons y sus seguidores, en el vacío del conjunto
de significados y símbolos que pueden ser estudiados, valorados o
criticados desde sí mismos, sin hacer referencia a los contextos sociales
y, ¿por qué no? naturales en los que “realmente” vivimos.
Un sistema cultural poco tendrá que ver –en términos de
Clifford Geertz- con el conjunto de necesidades “naturales” que
tenemos que satisfacer en contextos de desigualdad. Al etnógrafo sólo
le interesan las ideas, los símbolos y los rituales. No hay nada fuera
del “texto” (o tejido) cultural. Todo es textual, nada estará sometido,
pues, a las exigencias de la economía, de la política o de la ecología
(sistemas de objetos, asimismo, susceptibles de ser estudiados al
margen de todos los demás).
El “aislacionismo cultural” nos independiza absolutamente de
todo lo que nos rodea, construyendo un nuevo determinismo bien
distinto de los condicionantes naturales, técnicos y políticos que,
como defendíamos más arriba, inducen a los seres humanos a
responder y a actuar culturalmente. En una de sus últimas obras,
Negara, Clifford Geertz lleva hasta sus extremos la utopía parsoniana
de fragmentación del mundo. Analizando el sistema político balinés,
Geertz intenta demostrar la superioridad de la explicación social
basada en los símbolos y rituales de la corte imperial, sobre los
enfoques que enfatizaban la influencia imperial holandesa o los
análisis marxistas de la estructura social de aquellas tierras
sometidas al depredador proceso colonial, por lo menos, desde los
viajes del Capitán Cook. En una conferencia pronunciada en Yale en
1981, Geertz afirmó lo siguiente, desplegando toda la arrogancia del
“científico” social que separa lo cultural de todo el resto de procesos
sociales, económicos y políticos: “voy a deleitarme en los desarrollos
culturalmente específicos, enfrascarme en los procesos de
razonamiento y zambullirme de cabeza en el sistema simbólico”. Es
decir, –parece decir el gran antropólogo- voy a explicar el mundo
desde el conjunto de explicaciones y construcciones conceptuales,
sin tomar en consideración los recursos naturales, la orografía, o el
sistema social en su conjunto. Bajo el aislacionismo cultural de
matriz parsoniana, todo un mundo de condicionantes y de determi-
naciones naturales o económicas desaparece bajo el manto de lo
simbólico.14 Refiriéndose a Negara, Adam Kuper muestra cómo el

14 Cfr., Geertz, C., “Anti-Anti-Relativism” en American Anthropologist, 86, 1984, pp. 263-278; y Kuper, A., Cultura: la
versión de los antropólogos, Paidós Básica, Barcelona, 2001, p. 144.

Cultura y Naturaleza: La Construcción


Del Imaginario Ambiental Bio(Socio)Diverso 59
análisis de Geertz invisibiliza a los políticos y empresarios
occidentales ávidos de mantener al pueblo balinés imbuido en sus
ritos y símbolos, mientras ellos, acompañados de los soldados
indonesios, los agentes de la CIA y los empresarios chinos se iban
apoderando de las riquezas de los lugares investigados con tanto
detalle, pasión y ceguera por los etnógrafos y antropólogos
parsonianos.15
En estos autores -y en otros aún más radicales como David
Schneider o Marshall Sahlins-, no sólo los contextos económicos,
sino la misma naturaleza aparece como lo “pre-social” o lo “anti-
social”. Es vista, pues, como “lo otro”, como la negación de la
civilización, una de cuyas bases fundamentales es la separación cada
vez más acentuada de todo lo natural16 . La consecuencia inmediata
de esa separación de esferas, a la que tendían los parsonianos, radica
en darle la espalda a los procesos naturales, y, con ello, como ha
sostenido David Chaney, no sólo se ignoran los condicionamientos
ambientales, sino que se desprecian absolutamente las diferencias
que nos separan de aquellos que viven más apegados a los procesos
y recursos naturales.
Esto ha permitido prácticas de explotación colonial intensiva,
tanto de la naturaleza como de los grupos y etnias que viven en los
entornos apetecidos por los intereses de las grandes corporaciones
transnacionales. Y que hoy en día, en pleno boom de la llamada
“globalización neoliberal”, está conduciendo a todo un proceso de
“caza y captura”, ya no sólo de los recursos naturales, sino del mismo
conocimiento tradicional de dichas etnias y pueblos a la hora de
trabajar la tierra o de organizar la producción. A través de los
llamados Acuerdos sobre Patentes (TRIPS),17 el conocimiento de
indígenas, campesinos y artesanos, se ha convertido en un nuevo
“recurso” natural susceptible de ser explotado por aquellos que

15 Permítasenos una larga cita del texto de Kuper, donde se ve la estrecha relación que existió entre el método
parsoniano y las nuevas políticas coloniales ejercidas por Estados Unidos después de quedar como el gran vencedor
tras la II Guerra Mundial: “El Comité para las Nuevas Naciones –establecido por Edward Shils, el líder de los
parsonianos en la Universidad de Chicago- estaba adaptando el programa de Parsons al estudio de los estados que
habían alcanzado recientemente la independencia. Comentando la postura del grupo de Chicago, David Apter
explicaba que sus miembros rechazaban el determinismo de la época, tanto en la forma ortodoxa como en la
marxista....la meta de la política en los nuevos estados debería ser la de fomentar un orden social e intelectual
moderno. Era cosa de los antropólogos especificar los problemas culturales involucrados...que ayudarían a explicar
tanto la capacidad o la predisposición al cambio como las inhibiciones que en tal sentido podía mostrar una
comunidad”. Nada de contexto económico, nada de imperialismo, nada de condicionantes naturales, “sólo cultura”.
Cfr. David A. Apter, Political Change: Collected Essays, Cass, , London, 1973, p. 160, y, sobre todo, A. Kuper Cultura.
La visión de los antropólogos, op. cit., p. 104.
16 K. Tester, Animals and Society: The humanity of animal rights, Routledge, London, 1991; K. Thomas, Man and the
Natural World: Changing attitudes in England, 1500-1800, Allan Lane, London, 1983.
17 El fenónemo de apropiación del conocimiento ambiental no es algo nuevo, sino que hunde sus profundas raíces en
el progresivo despliegue de la institución burguesa de la propiedad privada; cfr, el libro de Murray Raff, Private
Property and Environmental Responsibility. A Comparative Study of German Real Property Law, Kluwer Law
International, The Hague/London/New York, 2003.
tienen el poder de obligar a dichas gentes a entregarles lo único que
les ha ido quedando desde los inicios de las políticas depredadoras
colonialistas e imperialistas: el conocimiento de su entorno. Todo un
entramado institucional-financiero -como es el caso del llamado
Orden Económico Global: Fondo Monetario Internacional, Banco
Mundial y la Organización Mundial del Comercio-, ha comenzado a
funcionar para legitimar esa apropiación de la biodiversidad ecológica
y humana, justificando sus prácticas depredadoras desde el
presupuesto que el conocimiento tradicional es un recurso natural,
no cultural, y, por tanto, susceptible de apropiación por parte de las
grandes corporaciones transnacionales. Todo como consecuencia del
ancestral desprecio que la civilización occidental ha proyectado
secularmente sobre lo que se considera la naturaleza. El abandono de
lo natural no es, por tanto, inocente. Tiene y oculta graves
consecuencias naturales y humanas que hoy en día, con el avance de
la conciencia ambiental, están siendo puestas en evidencia.

4. EL USO POLÍTICO DE LA NATURALEZA: LA NATURALEZA


COMO PROBLEMA HISTÓRICO (EL CAPITÁN COOK,
JOSEPH CONRAD Y LA CARTA DE LA TIERRA)

Concluyendo desde todo lo dicho anteriormente: no es que no


exista “naturaleza” alrededor de nosotros, es que el propio concepto de
naturaleza es, por un lado, un concepto “histórico”, es decir, que
cambia, que se transforma a medida que cambian los entornos de
relaciones sociales; y, por otro, es un concepto “cultural”, es decir, es
un concepto que construimos con el objetivo genérico de relacionarnos
mutuamente sea con los otros, sea con nosotros mismos o, cómo no,
con la naturaleza, y que nos permite, por un lado, reproducir nuestra
vida humana sobre la tierra y, por otro, crear y transformar las
condiciones que hacen que dicha vida sea una vida digna de ser vivida.
En el sentido que estamos aquí defendiendo de “humanización”,
nos interesa poco -aun cuando reconozcamos su importancia- una
cultura ecológica que se preocupe exclusivamente por la necesidad de
no coartar la interrelación entre los diferentes procesos naturales y
vitales pero, que al mismo tiempo, no ponga el acento en la inevitable
inserción del ser humano en los mismos. Desde nuestra hipótesis, le
damos mucha más importancia a una cultura ambiental; es decir,
una actitud ante los procesos sociales y naturales preocupada, no
sólo por la exigencia, de veras ineludible -aún más en nuestros días-

Cultura y Naturaleza: La Construcción


Del Imaginario Ambiental Bio(Socio)Diverso 61
de comprender y reproducir las interrelaciones naturales entre
plantas, geografía y recursos, sino también, sino, fundamentalmente,
en explicar, intervenir e interpretar la interrelación ser
humano/mundo físico –lo que en páginas anteriores, hemos
denominado “entorno”. O, lo que es lo mismo, un proceso cultural
preocupado por entender el “entorno” como un agente influenciador
de, e influenciado por, la historia y la evolución humanas. Por eso
pensamos que no estamos en el entorno, sino que somos el entorno.
Por esta razón, cuando hablamos de la relación cultura-
naturaleza no lo hacemos de “estados de hecho”, sino –como defiende
David Arnold18-, del conjunto de percepciones, en continuo cambio,
del mundo natural y de las relaciones de los seres humanos con él.
Arnold, en su texto La naturaleza como problema histórico. El medio,
la cultura y la expansión de Europa, afirma que la problemática
ambiental y las discusiones ideológicas, políticas y económicas sobre
ellas vertidas, han sido, desde hace mucho tiempo, elementos
centrales de las complejas relaciones –materiales y culturales- entre
Europa –digamos, entre los países centrales y ricos- y el resto del
mundo. El ambiente, o el medio, no ha sido sólo un lugar estático y
pasivo, siempre disponible para todo tipo de explotación, sino que, en
muchísimas ocasiones se ha convertido en el campo de batalla donde
han contendido ideologías y culturas. La naturaleza no es
simplemente algo que exista ahí afuera, absolutamente indepen-
diente de nuestros puntos de vista y nuestras acciones de animales
culturales, sino también es algo que está dentro de nuestros mundos
mentales y nuestro conocimiento histórico.
Ejemplos artísticos de lo que decimos hay muchísimos.
Citemos, por ejemplo, el discurso ambientalista que se despliega en
la película Dersu Uzala, donde la amistad de dos hombres que
comparten espacios culturales diferentes, está mediada por la
presencia imponente de la naturaleza salvaje de las estepas
siberianas. O, de un modo mucho más sutil, la obsesiva presencia de
los diversos entornos naturales que van surgiendo a medida que los
motociclistas de la mítica Easy Rider van recorriendo la distancia
entre Los Ángeles y Nueva Orleans. La primera impresión que nos
llevamos de estas películas es que tratan temas puramente
“humanos”: la amistad, la libertad..., pero si las observamos
atentamente, en ambos films, los personajes no pueden “dejar de
mirar” los diversos entornos naturales por donde caminan, ya que
son estos mismos entornos los que los miran a ellos: no están en el

18 Arnold, D., La naturaleza como problema histórico. El medio, la cultura y la expansión de Europa, F.C.E. México, 2000.

62 Joaquín Herrera Flores


entorno, son el entorno. No hay, pues, una naturaleza exterior
independiente de nuestras percepciones; siendo estas, al fin y al
cabo, las que nos inducen a mirar el ambiente desde nuestras
anteojeras culturales y a ser mirados por la majestuosidad o por la
destrucción de la madre naturaleza. Ésta puede ser la motivación que
impulsó a Dennis Hooper -Director de Easy Rider- a filmar el ocaso
en las Montañas Rocosas: un ocaso físico-natural que tiene mucho
que ver con el ocaso de toda una generación de jóvenes inquietos y
rebeldes que intentaron vivir sus vidas en relación amistosa y no
violenta con el entorno en que interactuaban y en el que eran.
Muy distinta es la concepción del entorno que dimana de la obra
maestra de Joseph Conrad, El Corazón de las tinieblas. En este clásico
de la literatura decimonónica de “viajes”, se condensan todos los
prejuicios, temores y recelos que la cultura occidental había vertido
sobre los entornos geográficos y humanos de los Trópicos. En el último
tercio del siglo XIX, la sorpresa y la atracción que un siglo antes provocó
el descubrimiento de las islas tropicales de los mares del Sur habían
pasado a mejor vida. Conrad escribe su libro en los momentos iniciales
del imperialismo europeo en África, y lo que era una naturaleza
desbordante y repleta de encantos, tal y como la describió Alexander von
Humboldt, o un espacio geográfico donde era posible encontrar la
historia de nuestra propia especie, en el sentido que Darwin imprimió a
los viajes por aquellas lejanas tierras, pasó a ser la confirmación de lo
que Hipócrates y Montesquieu escribieron sobre los peligros y bajezas
que los climas tórridos imponen a sus habitantes y a los viajeros que por
allí se aventuran. En su texto Aires, Aguas, Lugares19, aparte de sus
contribuciones al estudio comparado de las enfermedades y a su
relación con los ambientes climáticos y geográficos, Hipócrates fundó
toda una concepción etnográfica que aún hoy perdura en determinados
círculos de intelectuales: los climas estables, tranquilos y los suelos
fértiles producen gente floja; mientras que, las tierras desoladas y áridas
producen hombres valientes y activos. No es de extrañar, que
Hipócrates considerara a la Europa de su tiempo y de su contexto
cultural griego como la norma, como el punto de partida de la
civilización, e incluyera en sus reflexiones a Asia y África como los
extremos aberrantes, dadas sus condiciones ambientales
“aparentemente” estáticas y altamente peligrosas para el visitante que
procedía de las zonas templadas. Siglos más tarde, tal concepción
impregnó la obra de Charles Secondat, Barón de Montesquieu, el cual,
partiendo de un conocimiento más adecuado de la orografía y

19 Recopilado en G.E.R. Lloyd, Hippocratic Writings, Harmondsworth, 1983.

Cultura y Naturaleza: La Construcción


Del Imaginario Ambiental Bio(Socio)Diverso 63
condiciones ambientales de Asia, sin embargo, no dudó en afirmar en
su obra de 1748 El Espíritu de las Leyes que, dados esos
condicionamientos naturales, era “natural” que Asia produjera sistemas
de gobierno autocráticos, siendo la región del mundo en donde el
despotismo tiene su domicilio más apropiado y la esclavitud el único
régimen posible de relación social entre los dominantes y los dominados.
Otra era la perspectiva que indujo al hijo de proletarios y
aprendiz de confitero James Cook a lanzarse hacia los mares del Sur
tres décadas después de la publicación del libro de Montesquieu.
Cook, acompañado de excelentes científicos como Joseph Banks y
Daniel Solander, recorrió en tres periplos consecutivos toda la
Polinesia y, admirado por el talante de sus habitantes y por las
paradisíacas condiciones naturales de aquellas islas, se esforzó en
impedir lo inevitable: la contaminación de lo que él consideraba el
Paraíso por las peores costumbres y hábitos de la civilización
occidental: alcoholismo, prostitución, pillaje, ansias de obtener
objetos de dudosa utilidad para la vida en los trópicos... A pesar de
que sus inquietudes a favor de los aborígenes le condujeron a una
muerte injusta y cruel, Cook nunca dudó en que en aquellos lugares
podría haber reinado la paz y el equilibrio perdidos por nuestra
expulsión del Paraíso. Pero la historia del imperialismo europeo
continuó inexorable después de la muerte del Capitán Cook, y, poco
a poco, esa naturaleza paradisíaca se fue convirtiendo en el infierno
de miasmas, de traiciones, de humedales intransitables, de insectos
carnívoros, de antesalas de la locura que Joseph Conrad describió
apasionadamente en El Corazón de las Tinieblas.
En su afán imperialista, la Europa que se fue construyendo a
partir de la era de los “descubrimientos”, consideraba que su triunfo
sobre el resto del mundo conocido se sustentaba en la separación que
sus pensadores habían hecho entre cultura y naturaleza, abriendo
las puertas a la total posibilidad de explotación de todo lo que se
considerara natural. Pero, paralelamente a esta consideración, no
cesaba de describir y enjuiciar a las formas de vida que iba
colonizando en su propio beneficio en términos naturales. Los
tahitianos, los balineses, los indonesios, los habitantes de las alturas
andinas o de la India, a pesar de demostrar su riqueza histórica,
artística e intelectual, eran considerados algo menos que humanos,
gente absolutamente apegada a sus condicionamientos ambientales,
y, por tanto, susceptibles de ser dominados y explotados por la única
potencia que había sabido separarse de las determinaciones
naturales. Sin embargo, y como demuestra muy convincentemente

64 Joaquín Herrera Flores


Carson I. A. Ritchie en su impresionante texto Comida y civilización,
gran parte de las innovaciones políticas, técnicas y sociales de
Occidente -de hecho no podía haber sido de otro modo dada la co-
implicación entre lo natural y lo cultural- se debieron a sus
obsesiones acerca de algo tan “natural” –y, a la vez, tan cultural-
como la alimentación. Si no hubiera sido por la exigencia
“psicológica” de las especias, el “descubrimiento” y posterior
“conquista” de Asia y la actual América, hubiera tardado muchísimo
más tiempo del que se necesitó. La ansiedad por obtener especias
influyó poderosamente en la configuración del orden colonial
dominado por los europeos. La famosa batalla de Diu en 1509,
librada en aguas indias entre la flota otomana -que controlaba el paso
por tierra de las especias procedentes de Asia- y las naves
portuguesas, cuyo objetivo era el control del comercio de estos
productos naturales a lo largo de los itinerarios que recorrían África
y el Océano Índico, fue incluso más decisiva que la literaria batalla de
Lepanto en la que Miguel de Cervantes perdió su brazo luchando por
la cristiandad a fines del siglo XVI. A partir de esa batalla, los
portugueses consiguieron el dominio comercial y político de gran
parte de Asia, posteriormente “asumido” por los holandeses,20
igualmente obsesionados por los productos y recursos naturales de
aquella región de nuestro mundo. Es posible preguntarse si Europa ha
avanzado únicamente por sus ideas o si ha estado sometida a su
dependencia con respecto a la natural y cultural satisfacción del hambre.
Tampoco debemos olvidar que el hecho histórico de la esclavitud fue
favorecido por la obsesión europea de dulcificar productos tales como el
café (procedente de Etiopía), el te (de orígenes milenarios en la cultura
china) y el chocolate (venido directamente de las colonias americanas).
Como dice Ritchie, “la búsqueda de las especias, que había comenzado
como una cruzada contra la dominación musulmana, se había
convertido en una gigantesca empresa de piratería, que iba a conseguir
que la palabra ‘europeo’ apestase durante siglos. Como dijo Almeida
(procónsul portugués en la India), un chatarrero chino sabía más de

20 En su afán por controlar el mercado de especias, los holandeses introdujeron medidas que favorecieron enorme-
mente el despliegue del capitalismo por todo el orbe conocido: por un lado, el sistema de propiedad de la empresa
por acciones (que desvinculaba la propiedad de la empresa de los actos criminales y depredatorios que se realizaban
en su nombre a lo largo de las colonias); por otro, el control de las haciendas locales de los países colonizados, a
partir del cual se imponían impuestos a todos los intercambios comerciales que se hacían en las lejanías de Asia
y la Polinesia (y que tiene mucho que ver con los actuales procesos de exigencia del pago de la deuda externa a
países endeudados gracias a la propia intervención de Occidente en sus economías); y, por último, la tendencia a
esterilizar los productos naturales, como fue el caso de la nuez moscada, tratándola con mercurio para impedir que
fuera replantada en otro lugar del controlado por las empresas holandesas (nadie –dice Ritchie- podía utilizar esas
nueces para plantarlas y obtener nuevos árboles de nuez moscada. Con lo cual, las actuales prácticas de
esterilización de las espigas de trigo por las corporaciones multinacionales, con el terrible objetivo de hacer pagar
a los campesinos pobres de todo el mundo de royalties a las corporaciones multinacionales no sea algo nuevo en
el siglo XXI).

Cultura y Naturaleza: La Construcción


Del Imaginario Ambiental Bio(Socio)Diverso 65
honor y de gentileza que cualquier caballero del mundo cristiano”. Es
relevante escribir algunas palabras sobre la “tropicalización” de la India
por parte de los colonizadores ingleses.
Aunque, como demuestra David Arnold,21 gran parte de la India no
pertenece geográficamente a los trópicos, los ingleses se dedicaron a
“tropicalizar” su “joya”, con el objetivo, primero, de encajar a sus
habitantes en los estereotipos que ya habían cristalizado en la mente
occidental acerca del habitante perezoso y de bajas inclinaciones morales
de los trópicos; para, en un segundo momento, facilitar y legitimar
“culturalmente” la invasión, el aprovechamiento de los recursos ajenos y
la sistemática destrucción de los entornos que los indios habían ido
construyendo a lo largo de siglos de una profunda espiritualidad y
respeto por la naturaleza. “Conforme crecía el poder imperial, y con éste
el sentido británico de superioridad racial y técnica sobre la India, así
también se invocaba más y más el entorno para explicar el profundo
abismo que separaba una nación de la otra...Desde la perspectiva
imperial, era claro el valor de tales modos determinista y reduccionista
de razonar. La India estaba sometida a la naturaleza en un grado mucho
mayor que Europa: de ahí su atraso, su inferioridad y sus divisiones
internas; de ahí también la necesidad de que los británicos gobernaran
la India, para introducir en ella ‘mejoras’, ‘orden’ y ‘progreso’, y para
liberar a los indios de su sometimiento a la naturaleza”.22 Sin embargo,
en las crónicas oficiales no constaban los perjuicios ecológicos y
ambientales que produjo la invasión inglesa: los planes de irrigación
difundieron la malaria; la inmensa red de ferrocarriles, destrozó la
riqueza forestal; y la eliminación de las selvas (con la justificación de la
agricultura intensiva), devastó la biodiversidad de unas tierras y de unas
gentes que habían luchado -y siguen haciéndolo hoy en día encabezados
por la autora y militante eco-feminista Vandana Shiva- denodamente y
durante siglos para aprender a vivir en una relación estrecha y
respetuosa con su entorno.23
Fue la Kaliguya, la era de la aflicción, el tiempo en que la India
retrocedió casi 500 años; pero también, dio paso a la era de la rebeldía
y de los esfuerzos por construir un entorno puramente indio. Tanto en
la India como en gran parte del mundo colonizado por la Europa
“cultural” fueron surgiendo movimientos e intelectuales que lucharon
21 Arnold, D., op. cit. p. 154 y ss.
22 Arnold, D., op. cit., pp. 156 y 158.
23 David Hardiman, “Power in the forests: the Dangs, 1820-1940”, en D.Arnold y D. Hardiman Subaltern Studies VIII:
Essays in Honour of Ranajit Guha, Delhi, 1995, pp. 89-147; Elizabeth Whitcombe, “The environmental costs of
irrigation in British India: waterlogging, salinity, malaria”, en D. Arnold y Ramachandra Guha, Nature, Culture,
Imperialism: Essays on the Environmental History of South Asia, Delhi, 1995, pp. 237-259; Madhar Gadgil y
Ramachandra Guha, This Fissured Land: an Ecological History of India, Delhi, 1992; además del texto de Arnold que
tengo, D. Arnold, Famine: Social Crisis and Historical Change, Oxford, 1988.

66 Joaquín Herrera Flores


por erradicar el peor de los males que se ha infligido a la naturaleza
humana a lo largo de toda su historia: el colonialismo y el
imperialismo. Las luchas de Gandhi, de Stephen Bico, de Chico
Mendes, de Frantz Fanon o de Vandana Shiva no han caído en el vacío
del olvido. Para todos ellos, la naturaleza no determina absolutamente
lo cultural, puesto que ella misma es un concepto cultural que
pertenece a la humanidad en su largo e interminable proceso de
humanización, aunque hasta el momento de las luchas se considerara
como patrimonio exclusivo de occidente.
Permítannos terminar este epígrafe con uno de los documentos
internacionales de derechos humanos que refleja de un modo preciso
nuestra opinión acerca de la coimplicación no determinista ni
reduccionista que necesariamente se da entre la naturaleza y la
cultura, y que está abriendo un debate global muy rico en contra de
todo tipo de colonialismo e imperialismo.
Nos referimos a la llamada Carta de la Tierra, y sus principios
básicos. Véamoslos y reflexionemos sobre su enorme y profundo
sentido humanizador:
La Tierra es nuestro hogar... Somos miembros de una
comunidad de vida interdependiente con una magnificente diversidad
de formas de vida y culturas. Nos sentimos humildes ante la belleza
de la Tierra y compartimos una reverencia por la vida y las fuentes de
nuestro ser.
Agradecemos por la herencia que hemos recibido de las
generaciones pasadas y abrazamos nuestras responsabilidades para
con las generaciones presentes y futuras.
La comunidad terrestre se encuentra en un momento decisivo.
La biosfera está gobernada por leyes que ignoramos a nuestro propio
riesgo. Los seres humanos han adquirido la habilidad de alterar
radicalmente el medio ambiente y los procesos evolutivos. La falta de
visión y prudencia en nuestro accionar y la mala utilización del
conocimiento y del poder amenazan el tejido de la vida y los
fundamentos de la seguridad local y global. Mucha violencia, pobreza
y sufrimiento encontramos en nuestro mundo. Un cambio
fundamental es, naturalmente, necesario.
La alternativa está frente a nosotros: cuidar de la Tierra o ser
partícipes de la destrucción tanto nuestra como de la diversidad de la
vida. Debemos reinventar una civilización industrial y tecnológica
hallando nuevos caminos para equilibrar al individuo y a la
comunidad, al tener y al ser, a la diversidad y a la unidad, al corto y
al largo plazo, al uso y al cuidado.

Cultura y Naturaleza: La Construcción


Del Imaginario Ambiental Bio(Socio)Diverso 67
Inmersos en nuestra gran diversidad, somos una humanidad y
una familia terrena con un destino compartido. Los desafíos a
nuestra frente requieren una visión ética inclusiva.
Nuevas asociaciones deben ser forjadas y la cooperación a nivel
local, bioregional, nacional e internacional debe promoverse.
Solidarios unos con los otros y respecto de comunidad de la vida
nosotros, los pueblos del mundo, nos comprometemos para la acción
guiados por los siguientes principios entre si relacionados:

1 – Respetar la Tierra y la vida. La Tierra, cada forma de vida y


los seres humanos son poseedores de valor intrínseco y gozan de
respeto independientemente del valor utilitario que merezcan para la
humanidad.
2 – Cuidar de la Tierra, protegiendo y restaurando la diversidad,
integridad y belleza de los ecosistemas del planeta. Donde exista el
riesgo de serios o irreversibles daños al ambiente, deben tomarse
medidas preventivas a fin de evitar el daño.
3 – Vivir sosteniblemente, promoviendo y adoptando modos
de consumo, producción y reproducción que respeten y
salvaguarden los derechos humanos y las capacidades
regenerativas de la Tierra.
4 – Establecer la justicia, y defender sin discriminación el
derecho de todas las personas a la vida, la libertad y la seguridad, en
un ambiente adecuado para la salud humana y el bienestar
espiritual. Los seres humanos gozan del derecho a contar con agua
potable, aire puro, suelo libre de contaminaciones, y seguridad
alimentaria.
5 – Compartir equitativamente los beneficios de la utilización de
los recursos naturales y la protección ambiental entre las naciones,
entre ricos y pobres, hombres y mujeres, y generaciones presentes y
futuras, e internalizar todos los costos ambientales, sociales y
económicos.
6 – Promover el desarrollo social y los sistemas financieros
aptos para crear y mantener medios sostenibles de subsistencia,
erradicar la pobreza y fortalecer las comunidades locales.

68 Joaquín Herrera Flores


7 – Practicar la no violencia, reconociendo que la paz es la
integridad creada por relaciones armoniosas y equilibradas para con
uno mismo, con el prójimo, con otras formas de vida y con la Tierra.
8 – Fortalecer los procesos que otorgan poder a las personas
para que participen efectivamente en la toma de decisiones y
aseguren la transparencia y una actitud responsable en el gobierno y
administración de todos los sectores de la sociedad.
9 – Reafirmar que los pueblos indígenas y tribales tienen un
papel vital en el cuidado y protección de la Madre Tierra. Ellos gozan
del derecho a salvaguardar su espiritualidad, conocimientos, tierras,
territorios y recursos.
10 – Afirmar que la igualdad entre los géneros es un requisito
previo para el desarrollo sostenible.
11 – Asegurar el derecho a la salud sexual y de reproducción,
con especial referencia a las mujeres y a las niñas.
12 – Promover la participación de la juventud como agente
responsable del cambio hacia la sostenibilidad local, bioregional y
global.
13 – Realizar avances y colocar en práctica el conocimiento
tanto científico como proveniente de otras fuentes, las tecnologías
que promueven la existencia sostenible y protegen el medio ambiente.
14 – Asegurar a todas las personas el goce de oportunidades
durante toda su existencia para adquirir los conocimientos, valores,
y habilidades prácticas necesarias para edificar comunidades
sostenibles.
15 – Dispensar a todas las criaturas un tratamiento compasivo
y protegerlas de la crueldad y del aniquilamiento arbitrario.
16 – No infligir al medio ambiente de otros lo que no deseamos
ver infligido al nuestro.
17 – Proteger y restaurar lugares de destacada significación
ecológica, cultural, estética, espiritual y científica.
18 – Cultivar y conducirse con responsabilidad compartida
respecto del bienestar de la Comunidad de la Tierra. Toda persona,
institución y gobierno es responsable por la concreción de los
objetivos de justicia indivisible para todos, la sostenibilidad, la paz
mundial, y el respeto y cuidado por toda la comunidad de la vida.

Cultura y Naturaleza: La Construcción


Del Imaginario Ambiental Bio(Socio)Diverso 69
5 – LO CULTURAL Y LO “EXTRACULTURAL”: EL PRINCIPIO
CAIROLÓGICO Y LOS DERECHOS HUMANOS

Por tanto, ni biologicismo ni aislacionismo cultural. Tomar en


consideración lo natural en el proceso cultural no supone, pues,
considerarnos únicamente como cuerpos, ni como conjunto de
símbolos, sino como “cuerpos” que, reaccionando a partir de las
necesidades que compartimos con toda la humanidad, vamos
construyendo un mundo de símbolos que nos van a permitir
“determinar nuestras propias determinaciones”. “Lo característico de
una criatura que produce símbolos es que su propia naturaleza
consiste en trascenderse a sí misma. El signo –el producto cultural-
abre una distancia operativa entre nosotros y nuestros entornos
materiales, y, así, nos permite transfigurarlos en historia”.24 El
biologicismo niega la capacidad humana de cambiar sus entornos,
todo dependerá de las reglas que dicten los “culturgenes”; por su
parte, el aislacionismo cultural niega toda posibilidad de cambio y
transformación a la naturaleza, ya que el conjunto de objetos
naturales que constituye el sistema físico -y, como consecuencia de
tal afirmación, todos aquellos pueblos que, como los indígenas, viven
cercanos a la naturaleza- están, y hay que analizarlos de un modo,
absolutamente separados de los sistemas políticos y culturales: cada
uno tendrá su conjunto de reglas que determinan la acción humana
en sus diferentes e incomunicables niveles. Como afirma Eagleton,
“resulta curioso que, precisamente en una época en la que la
naturaleza resulta un material tan maleable, se conciba... (como algo)
intemporal, ineluctable, indeleble...Muchos fenómenos culturales se
han mostrado mucho más persistentes e inexorables que un bosque
tropical. Ya sabemos que, en nuestro tiempo, la teoría dominante
sobre la naturaleza es una teoría sobre cambio, lucha y variación sin
fin. Son los apologistas profesionales de la cultura, no los
exploradores de la naturaleza, los que caricaturizan la naturaleza
como si fuera algo inerte e inmóvil”.
Como ha defendido la Escuela de Tartú,25 el problema de lo
cultural no puede ser resuelto sin una definición sobre su posición en
el espacio extracultural. La peculiaridad del “animal cultural”
necesita de su contraposición con el mundo de la naturaleza, pero no
como enemiga o como algo sujeto a la posibilidad de explotación, sino
como marco o espacio extracultural que define lo propiamente

24 Eagleton, T., op. cit., p. 145.


25 Lotman, I.M., La semiosfera. Semiótica de la cultura, del texto, de la conducta y del espacio, 3 volúmenes, Cátedra
(Frónesis), Madrid, 1998.

70 Joaquín Herrera Flores


cultural. “Con determinados aspectos de su ser, el ser humano
pertenece a la cultura; con otros, en cambio, se liga al mundo
extracultural. Del mismo modo, sería poco prudente excluir
categóricamente el mundo animal de la esfera de la cultura, ya que el
límite entre ambos es incierto, y definir algunos hechos concretos
como pertenecientes a la esfera de la cultura o a la extracultural es
posible sólo en forma altamente relativa”.26
Esto ocurre porque vivimos, no en ambientes separados, sean
puramente culturales o naturales, sino en “entornos”. Un entorno
sólo puede existir si existe para algo y para alguien, o, lo que es lo
mismo, si permite la relación entre los productos culturales y los
procesos naturales: un campo se convierte en “entorno” cuando es
usado para la satisfacción de necesidades de la fauna, de la flora y de
los seres humanos que en él viven; y una ciudad, deja de ser un
infierno de contaminación, de cemento y asfalto, cuando se convierte
en un “entorno” urbano dedicado más a la humanización de la vida
que a la satisfacción de las exigencias del consumismo y del
individualismo.27 La dependencia mutua entre lo cultural y lo
extracultural, que se da en los entornos en que vivimos, predica un
origen compartido en el cual no se puede concebir “vida sin entorno”,
ni un “entorno para nadie”. Según Edgar Morin, el viviente se genera,
se organiza y se reorganiza permanentemente en el seno de la eco-
organización.28 De ahí que no debamos caer en el dualismo que
disocia el organismo de su entorno, ni en el monismo que afirma la
absoluta dependencia de uno con respecto al otro. Desde este punto
de vista, resultaría inadmisible pretender explicar el desarrollo de la
cultura sobre la base de “relaciones” que le son internas, sin
referencia a un entorno que no sólo es generado por la cultura, sino
que, al mismo tiempo, posibilita la organización de esa cultura.
Como vimos más arriba, la conservación, el manejo o
aprovechamiento de los recursos naturales se encuentra en directa
relación con una determinada configuración de producciones
culturales. La historia de las civilizaciones puede ser escrita
partiendo de la mutua interrelación entre los diferentes productos
culturales de las diferentes y plurales formas de vida y las, asimimo
diferenciadas, condiciones ambientales accesibles a cada pueblo. La

26 Lotman, I., Cultura y explosión. Lo previsible y lo imprevisible en los procesos de cambio social, Gedisa, Barcelona,
1999, p. 44.
27 Maturana, H., y Varela, F., El Árbol del Conocimiento: Las bases biológicas del conocer humano. Editorial
Universitaria, Santiago de Chile, 1984.
28 Morin, E.,”Por la ciencia” artículos aparecidos en Le Monde durante el mes de Enero de 1982 e incluidos en Ciencia
con conciencia, Anthropos, Barcelona, 1984.

Cultura y Naturaleza: La Construcción


Del Imaginario Ambiental Bio(Socio)Diverso 71
utilización de los recursos naturales ha sido un elemento constitutivo
y determinante de los modelos de desarrollo y de los modos de
existencia de los diversos pueblos29 Por tanto, la idea de que existan
ecosistemas o sistemas naturales fuera del proceso cultural es falaz
y responde solamente a un énfasis por mantener separados los
conceptos de cultura y naturaleza.
Es esa misma constatación la que nos empuja, como animales
culturales, a elevarnos “culturalmente” de todos los determinismos
que intentan imponernos sus dogmas, sean naturales o meramente
culturales. Lo que a nosotros nos interesa es que, a partir del
reconocimiento del continuo naturaleza-cultura “nos vamos
elevando” de los procesos corporales y naturales para ir creando otro
marco, ya plenamente humano, desde el que desplegar nuestras
potencialidades. Por ello, parafraseando al ensayista brasileño, el río
manda sobre la vida y la vida manda sobre el río. Es a partir de ese
nuevo marco, de esa nueva “determinación” cultural/natural como
podemos enfrentar no sólo los embates de la naturaleza física, sino,
lo que es mucho más importante para nuestra argumentación, todo
tipo de dinámica cultural “determinista” que “naturalice” o “cosifique”
los hechos que construimos, haciéndonos creer que no dependen de
nuestra creatividad y nuestra acción, sino de alguna instancia
trascendente, tenga el nombre de Dios, de Legislador, de Sujeto
abstracto o de Naturaleza.
Por todas estas razones, aunque no tengamos otro remedio que
reconocer que la reacción cultural ante los entornos de relaciones
sociales, psíquicas y, por supuesto, naturales tengan su arranque en
los procesos evolutivos biológicos dirigidos a la satisfacción
diversificada de nuestras necesidades, también debe admitirse que
dichas necesidades son recreadas por el proceso cultural,
abriéndolas a nuevas formas de satisfacción y generando nuevas
necesidades en función del conjunto de valores que creamos y
mantenemos como conjunto de preferencias colectivas que nos
permiten organizar y legitimar nuestras acciones. Sin caer en nuevos
determinismos naturalistas o mecanicistas, no podemos (ni debemos)
olvidar que las necesidades expresadas culturalmente revelan un
fondo infraestructural,30 o económico-biológico31 que es, a su vez,
modificado por lo que podemos denominar el “principio cairológico”.

29 Freitas, Marcílio de, “Nuanças da sustentabilidades: visoes fantásticas da Amazônia”, en Marcílio de Freitas (org.),
Marilene Corrêa da Silva Freitas e Louis Marmoz, A Ilusao da Sustentabilidade, Governo do Estado do
Amazonas/Editora da Universidade Federal do Amazonas/UEA, Manaus, 2003.
30 Harris, M., Antropología cultural, Alianza, Madrid, 2002.
31 Arnold, D., op. cit.

72 Joaquín Herrera Flores


Este principio procede del término Kairós, es decir, del
aprovechamiento de circunstancias favorables para la invención,
para la creatividad y para la transformación de lo que nos viene dado,
natural o culturalmente. A través del proceso cultural los animales
culturales hemos “semiotizado” nuestro entorno. No olvidemos
nuestra definición de proceso cultural: La continua construcción,
transformación e intercambio de “signos”, es decir, de relaciones entre
los conjuntos de objetos y acciones que, en el marco de una
determinada situación de poder, permiten a los seres humanos
reaccionar colectivamente sobre el entorno en el que viven De este
proceso de “semiotización” surgen dos consecuencias: primera, la
reacción cultural frente al entorno en el que nos relacionamos supone
pasar del conjunto de “señales” -dato estático y espontáneo de la
naturaleza: las nubes que pasan por el cielo o el contorno de una
pisada de un animal al que intentamos dar alcance-, al conjunto de
“signos” -entendido como el punto a partir del cual aprendemos a
articular mensajes y a relacionar lo que antes era una mera señal
física con lo que ahora es un hecho cultural: los análisis
metereológicos o las huellas; y, segunda, sobrepasar las
determinaciones meramente “adaptativas” a los entornos, las cuales
bloquean nuestra capacidad de articulación cultural de la realidad,
para dedicarnos al propio proceso de “transformación” de nuestras
vidas con base en el proceso de construcción y prospección de
alternativas reales y posibles.
Por esa razón, en el ámbito de los procesos culturales no
podemos quedarnos únicamente en la reivindicación de la identidad,
como si la cultura se redujera a la conciencia de la pertenencia a un
lugar y a una sola forma de ver el mundo. Si las acciones humanas
tuvieran un solo camino por el que transitar y produjeran un solo y
único significado al conjunto de relaciones en el que vivimos, todo
quedaría reducido a la “tautología” de la identidad: el yo es el yo, y el
otro será reconocido si es comparable o reducible a mi yo. Pero esto,
afortunadamente, no es así. No existe un único camino por donde
transitar culturalmente y no existe un único sentido intrínseco,
inmutable, determinado y determinante del mundo. En realidad, la
actividad humana propone siempre nuevos sentidos a su reacción
cultural y a los procesos naturales que están en su base. Abrimos
nuevas posibilidades, y lo hacemos “en esta vida”, dado que no
podemos dejar de reconocer que la naturaleza está ahí, que nos
expulsaron del paraíso y que no tenemos otro tiempo que el tiempo
de la vida que nos ha tocado vivir. “Cairológicamente” no vivimos para

Cultura y Naturaleza: La Construcción


Del Imaginario Ambiental Bio(Socio)Diverso 73
la muerte o para la eternidad, sino para alcanzar la plenitud de
nuestra vida planteando nuevos sentidos y prospecciones de futuro
en la brevedad del tiempo que tenemos.
Lo cairológico significa, pues, en un primer momento,
antagonismo frente al conjunto de relaciones que nos impiden
plantear nuevos sentidos. Toda transformación de la realidad no
vendrá por sí misma, ni estará garantizada por alguna instancia
trascendental, sea del tipo que sea. Como defendió Norbert Elias,32
todo presupuesto trascendentalista tiende a empequeñecer lo
humano frente alguna entidad todopoderosa que lo condiciona y lo
determina; y, en vez de afirmar sencillamente el poder constitutivo de
los sujetos, se detiene en la conciencia de sus limitaciones, como si
éstas fueran infranqueables. El principio cairológico no parte, pues,
de metafísicas “debilitadoras” de la capacidad constitutiva de los
seres humanos; parte más bien de la acumulación, no de capitales o
de recursos, sino de luchas antagonistas contra aquellas formas de
relación que obstaculizan el pleno desarrollo de la praxis humana de
valorización del mundo, sean estas económicas, sociales, filosóficas o
políticas. De ahí que, en un segundo momento, lo cairológico se
oponga a la reducción solipsista y homogeneizadora del mundo,
reivindicando siempre la apertura a la diversidad de entornos, de
formas de vida, de producciones culturales, de luchas sociales, de
contextos naturales, sociales, económicos, políticos o culturales.
Ni la naturaleza ni la cultura son procesos cerrados, homogéneos
y terminados. Al estar abiertos continuamente a las presiones de la
diversidad social, biológica y política, son procesos que están
permanentemente en situación de desequilibrio, oscilantes, inestables,
sometidos a tensiones compensadoras y descompensadoras: son
procesos, pues, en movimiento y en continuo conflicto. En definitiva,
son procesos sometidos a la historia. Lo cairológico, en fin, supone, en
un tercer momento, sentar las bases de la mutua interrelación entre
nosotros y los otros, entre lo cultural y lo natural, rota o bloqueada por
los sistemas totalitarios de relación social y natural.
Lo cairológico, pues, comparte las características de todo
conocimiento nómada, tal y como lo formularon Deleuze y Guattari: 33
a) un conocimiento del “afuera”: es decir, una forma de acercamiento
al mundo contando con el mundo real, tanto natural como cultural,
y no un conocimiento de “gabinete”; b) un conocimiento “no
simétrico”, es decir, opuesto, al que domina en los centros culturales,

32 Elias, N., Teoría del símbolo: un ensayo de antropología cultural, Península, Barcelona, 2000.
33 Deleuze, G., y Guattari, F., “Tratado de Nomadología” en Mil Mesetas. Capitalismo y esquizofrenia, Pre-Textos,
Valencia, 2002, p. 359-432.

74 Joaquín Herrera Flores


es decir, un pensamiento descentrado, procesual, problemático y
basado en la existencia de acontecimientos que dinamizan la realidad;
c) un conocimiento de las “singularidades/particularidades”. Este tipo
de conocimiento no se queda en la mera reivindicación de identidades
cerradas e incomunicables, sino que celebra el mestizaje, la
interrelación, la mezcla de diferentes percepciones y procesos
culturales; d) un conocimiento, en definitiva, que no le pertenece a
ningún sujeto trascendental ni a una totalidad social o política cerrada
y excluyente, sino un pensamiento “abierto totalmente al devenir y al
proceso”, a la historia, al cambio, a la continua transformación de la
realidad en función de la búsqueda de una vida digna para todos los
seres humanos. Así es como lo cultural se eleva sobre lo natural sin
renunciar a sus condicionamientos y a los contextos desde, y para los
que, surge.
En palabras de Antonio Negri, lo cairológico, no es más que el
proceso a partir del cual las formas culturales se proyectan sobre la
realidad para comprenderla, organizarla e interpretarla. “En tal
sentido -defiende Negri34 – lo que defino como kairós es el punto
temporal ejemplar de apertura, de invención del ser en el borde del
tiempo” y -añadiriamos nosotros- del espacio natural y cultural en el
que se enmarca el proceso de humanización. En ese sentido, los
derechos humanos son la clave a partir de la cual concretar ese
principio cairológico, pues más que definir hechos, lo que posibilitan
es esa invención, esa apertura, de carácter normativo, a la
humanización emancipadora del ser humano. Los derechos humanos
no son prima facie “derechos”. Son más bien procesos de lucha por la
dignidad humana que se materializan en deberes y que, si tenemos
suerte y acceso a los procedimientos políticos y legislativos, acabarán
siendo garantizados por los sistemas jurídicos. En ese sentido, los
derechos humanos “humanizan” el mundo, ya que apelan a la
promoción de las capacidades humanas de transformación y de
superación constante de las situaciones que bloquean los procesos
culturales y con ellos la obstaculización del despliegue proteico de la
naturaleza humana, lo cual es siempre el blanco de las políticas y
propuestas culturales autoritarias y totalitarias. Los derechos
humanos “humanizan”, es decir, proponen la humanización de los
seres humanos, pero no porque sean la manifestación de alguna
condición humana ancestral que se concreta en un momento
espacio/temporal concreto. Si partimos de esa perspectiva acabamos
fuera del principio cairológico. Los derechos humanos “humanizan”,

34 Negri, A., Il Ritorno. Quasi un’autobiografia, Rizzoli, Milano, 2003, p. 123.

Cultura y Naturaleza: La Construcción


Del Imaginario Ambiental Bio(Socio)Diverso 75
no en sí mismos o por sí mismos, sino porque son el vehículo que los
actores sociales antagonistas al orden existente han creado
cairológica y convencionalmente para enfrentarse a todo tipo de cierre
de los procesos culturales y a todos los obstáculos que los sistemas
autoritarios oponen al libre e igual despliegue de la capacidad
humana colectiva de crear y transformar el mundo.

6. HACIA LA CONSTRUCCIÓN DEL IMAGINARIO


AMBIENTAL BIO(SOCIO)DIVERSO: EL IMPERATIVO
AMBIENTAL

6.1. Bio(socio)diversidad y deberes básicos: procesos


naturales y aspectos procedimentales y éticos de las
luchas por la dignidad humana en relación con la
naturaleza
Si partimos de esta consideración deontológica de los derechos
humanos como productos culturales (no facultades innatas), a partir
de los cuales nos auto-imponemos deberes con respecto a los otros, a
nosotros mismos y a la naturaleza, hablamos, en primer lugar, de
“procesos” de construcción de condiciones para el respeto, la
reciprocidad, el reconocimiento y la redistribución. No estamos
hablando de algo que se da en el vacío de una naturaleza humana
idealizada, sino en la constatación de que no estamos solos, de que
nada podemos hacer solos, de que nuestras autodefiniciones
dependen de las miradas de los otros, y, por último, de que
habitamos espacios naturales y sociales en los que somos
responsables, no sólo de lo que nos ocurra a nosotros, sino a los otros
y, lo más importante en este momento, al Gran Otro u Otra, es decir,
a la naturaleza.
No se trata de afirmar la existencia de derechos “humanos” de
la naturaleza, ya que si así hiciéramos recaeríamos en la
consideración individualista y pasiva que rechazamos: desde esta
concepción pasiva, cualquier cosa puede tener derechos, ya que éstos
están desgajados de las luchas por la vida digna. Nosotros nos
separamos de tales premisas y negamos que la naturaleza tenga
“derechos”, más bien, entre los deberes que nos imponemos como
seres humanos en el momento de relacionarnos con la naturaleza,
también asumimos una serie de obligaciones con respecto a ésta, tan
importantes y necesarias como las dirigidas a los otros seres
humanos o a nosotros mismos. Es decir, en la línea que defendemos

76 Joaquín Herrera Flores


a la hora de entender los derechos humanos, no como facultades
innatas del ser humano, sino como deberes que nos imponemos en el
ámbito del proceso cultural, destacan con especial relevancia, dado el
maltrato y la destrucción sistemática que ha padecido y la
coimplicación entre naturaleza y cultura que hemos defendido en
estas páginas, las obligaciones que asumimos con respecto a la
naturaleza. Veamos por qué.
1º – El ser humano y los procesos naturales en los que
interviene están sometidos a las mismas leyes naturales que
cualquier otra especie. No hay una garantía de seguridad
trascendente que proteja indefinida e irrestrictamente a los seres
humanos de los destrozos que provocan en el entorno en el que
actúan. Ni la biología ni el estudio ecológico más optimista pueden
fundamentar esa tendencia ilustrada a encumbrar la razón humana
(occidental) a autocomprenderse como superior a los procesos
naturales que indiscriminadamente explota. Tanto es así que los
sistemas naturales, nos dicen los biólogos, son completamente aptos
para persistir en ausencia de la especie humana y, asimismo, siguen,
y seguirán, condicionando nuestra percepción del mundo a pesar de
estar, podríamos decir, enterrados por millones de años de
producción cultural. Tal y como defiende la llamada psicología del
aprendizaje, los seres humanos tendemos a olvidar (o a ocultarnos)
que los estímulos condicionados culturalmente con los que llenamos
nuestras vidas cotidianas (formas culturales de comer, formas
culturales de practicar el sexo, formas culturales de beber...)
dependen de lo que ellos denominan “estímulos incondicionados”
(hambre, reproducción, sed...), por lo que acabamos dando más
importancia a aquellos que a éstos, dejando cada vez más de lado
nuestra propia naturaleza de seres biológicos condicionados por su
entorno. En tanto que nosotros, los animales culturales, como
cualquier otro ser vivo, debemos satisfacer incondicionalmente
determinadas necesidades naturales para poder vivir, tenemos el
deber de respetar el entorno en el que pretendemos seguir viviendo y
construyendo formas culturales diferenciadas en lo que respecta a la
nutrición, a la sexualidad o a la bebida.
2º – Los recursos naturales son limitados. Las reservas de
recursos naturales no son infinitas y, tarde o temprano, acabarán
agotándose. El proceso cultural occidental parte de una aceptación
dogmática en su capacidad “fáustica” de innovación que le permite
albergar la creencia de que los problemas que ahora plantea serán
resueltos técnicamente en el futuro. Como seres que nos imponemos

Cultura y Naturaleza: La Construcción


Del Imaginario Ambiental Bio(Socio)Diverso 77
derechos humanos, es decir, obligaciones de actuar en un
determinado sentido, asumimos el deber de interactuar con
reciprocidad, es decir, de saber devolver lo que hemos recibido o lo
que hemos robado en nuestro afán de progreso y beneficio continuo.
Tenemos, pues, el deber de solidarizarnos, primero, con los procesos
naturales –colaborando con ellos- ya que ellos son los que nos van a
permitir construir los instrumentos necesarios para la supervivencia;
y, asimismo, de solidarizarnos con aquellos individuos y grupos que
han sufrido procesos coloniales a partir de los cuales se les ha
impedido acceder con facilidad a sus propios recursos: individuos y
grupos, como es el caso de los pueblos indígenas, que constituyen un
impresionante factor de humanización del entorno, debido, sobre
todo, a su estrecha relación con los procesos naturales. El deber no
consiste, en este caso, sólo en aumentarles su riqueza y sus
beneficios económicos, sino en crear las condiciones –entre las que
destaca el saber retirarnos de sus territorios y de sus mentalidades-,
de tal modo que les permitan a ellos mismos proteger y promover sus
propios y diferenciados conocimientos tradicionales, mucho más
cercanos a la reciprocidad con la naturaleza y con los otros seres
humanos que las formas epistemológicas y productivas occidentales
que se les han impuesto a lo largo de los últimos cinco siglos.
3º – El mundo biológico no se comporta de un modo simple y
unilineal, sino de un modo complejo y plurilineal. Es decir, todo está
en mutua interacción y en mutua dependencia: lo que le ocurra a un
bosque o a una selva, repercutirá en lo que le ocurra a un río o a una
determinada especie de animales.35 Por un lado, esa mutua
interacción y dependencia es, precisa y paradójicamente, lo que
asegura la biodiversidad. Si sólo hubiera una especie de animales, un
tipo de bosque o una misma concentración de humedad, todo lo
natural sería un proceso homogéneo que ni siquiera necesitaría para
reproducirse la interacción entre sus componentes. Dado que para la
polinización se requiere la intervención de diferentes y plurales entes
y condiciones naturales, la necesidad de interacción supone
necesariamente la biodiversidad para poder llevarse a la práctica con
éxito. Pero, por otro lado, esa interacción y esa biodiversidad se dan
en una escala temporal amplísima, que no coincide con los tiempos
de la productividad alocada e inconsciente que exigen las sociedades
de consumo indiscriminado. El calentamiento de la atmósfera y el
consiguiente derretimiento de los círculos polares no van a ser

35 Freitas, Marcílio de, Fragmentos de utopias do século XXI: projeçoes e controvérsias, en Freitas, M., (org.) et. al.,
op. cit. p. 275 y ss.

78 Joaquín Herrera Flores


fenómenos que se den de aquí a unos meses. Tardará su tiempo,
pero, dadas las resistencias de los países industrializados a aplicar la
Convención de Kyoto que recomienda la reducción del 5% de las
emisiones venenosas a la atmósfera, llegará irremisiblemente. El
progreso inmediato, rápido y continuamente creciente, no percibe el
daño que produce en la naturaleza, dada la amplia escala temporal
bajo la que los procesos naturales actúan, tanto en su reproducción
como en su destrucción.
Debemos, como seres humanos, reconocer la diversidad
natural. Y, junto a ella, la importancia de los conocimientos tradicio-
nales que los pueblos y formas de vida más cercanos a la naturaleza
aplican. No por primitivismo, sino realmente por todo lo contrario. Es
decir, por un humanismo aprendido a partir de la continua
interacción con esa diversidad natural y con esas escalas temporales
amplias que exigen, como decimos, el reconocimiento de nuestra
inferioridad y de nuestra peligrosidad a la hora de relacionarnos
“ideológicamente” con la naturaleza. Respetar y reconocer la
diversidad natural, nos induce a respetar y reconocer la diversidad
social y humana.36 No somos los únicos en el conocimiento del medio.
Quizá seamos los que menos lo conocemos. Las formas indígenas de
vida nos muestran la posibilidad de otra forma de producir, de otra
forma de relacionarnos con el medio y de otra forma de respetar a
los demás y a nosotros mismos. Por eso, el general brasileño
Rondón, decía que al encontrarse con pueblos indígenas, el soldado
debería antes dejarse matar que atentar contra la vida de aquellos
que aún hoy siguen uniendo lo humano y lo natural en sus formas
culturales de relacionarse con el mundo en el que viven.
Y 4º– Si dichas interacciones humanas con el entorno
respetasen la bio(socio)diversidad, los mecanismos de regulación
entre los distintos y diversos componentes de los sistemas naturales
estarían asegurados. Sin embargo, la intervención humana
homogeneizadora y preocupada únicamente por el beneficio
ecomómico inmediato, ha modificado sustancialmente la velocidad y
los equilibrios entre tales procesos. Un bosque, en su escala temporal
amplia, se “limpia” a sí mismo de elementos rechazables para su
supervivencia. Al “ser” limpiados rápida y continuamente por
agricultores o comerciantes de madera, esos procesos naturales se
quiebran y desaparecen. Ahora bien, ¿Qué hacer? ¿Convertir la
naturaleza universal en un inmenso “parque natural” intocable

36 Corrêa da Silva Freitas, M., Fundamentos da cultura solidária e sustentabilidade na Amazônia, en Freitas, M., (org.),
et. al., op. cit. pp. 205 y ss. Cfr., asimismo, el trabajo de Marcos Frederico Krüger, Amazônia. Mito e Literatura,
Valer Editora, Manaus, 2003.

Cultura y Naturaleza: La Construcción


Del Imaginario Ambiental Bio(Socio)Diverso 79
incluso para los que viven en él y de él? Si así fuera recaeríamos en
las visiones esencialistas y pasivas de los derechos humanos. Nada
más lejos de las intenciones de estas páginas. Nuestra conclusión
reside en constatar la estrecha correlación que se da entre la acción
humana y los procesos naturales. Hoy día, un medio natural
completamente aislado de la sociedad humana puede considerarse
tan artificial como una intervención directa. Lo cultural está tan
incluido en la naturaleza, como la naturaleza lo está en lo cultural
(aunque por aquel proceso de olvido de los “estímulos
incondicionados” nos veamos inducidos a despreciar esta segunda
parte de la cuestión) Por ello mismo, estamos obligados, como seres
que defienden los derechos humanos, a redistribuir recursos
económicos y recursos de conocimiento, tanto tradicionales como
modernos, asumiendo deberes en cuanto a la creación y
reproducción de condiciones sociales, económicas, políticas y
culturales que posibiliten ese respeto, esas reciprocidades y esos
reconocimientos.

6.2. Dune de Frank Ebert y el Imperativo Ambiental: los


deberes de “sustentabilidad” y de “precaución”

Teniendo en cuenta las tesis del sociólogo Charles Perrow37 las


relaciones entre los avanzados procesos tecnológicos y científicos y
los procesos naturales pueden ser entendidas desde dos
características singulares que conforman las interacciones
conflictivas que entre ciencia, política y naturaleza han predominado
en la modernidad occidental capitalista: 1) la creación y reproducción
de una complejidad interactiva, por un lado, externa: entre los
componentes de esa interrelación; y, por otro, interna: entre los
componentes de cada uno de los factores (humanos y naturales) que
en ella están implicados. Esta “trabazón” interactiva ha provocado tal
complejidad que se nos escapan las hipotéticas, pero probabilísimas,
consecuencias desastrosas para los sistemas ambientales cuando
ocurre un accidente como el de Bhopal en la India, el de Chernobil en
Ucrania, o el rompimiento del Prestige en las costas gallegas. Y 2) por
lo general, las interrelaciones entre lo humano y lo natural tienden,
en el marco del proceso cultural occidental capitalista, a establecerse,
o, mejor dicho, a acoplarse rígidamente a los presupuestos teóricos y
axiológicos dominantes.

37 Perrow, Ch., Normal Accidents: Living with High-Risk Technologies, Princeton University Press, Princeton, New Jersey,
1999

80 Joaquín Herrera Flores


Por un lado, tal y como afirma Perrow, la rigidez de acoplamiento
provoca que cuando ocurra un fallo en el sistema, dicho error o
disfunción no pueden separarse del resto del sistema, impidiendo la
desconexión de lo que funciona mal de la totalidad de los procesos
implicados en el mismo. Es la posibilidad del efecto cascada de
reacciones que pueden desembocar en alguna catástrofe como las más
arriba mencionadas; y nos coloca también en lo que Jorge Riechmann
denomina el efecto Hidra, es decir, es tal la simbiosis estrechísima que
se da entre los problemas y las soluciones, que “el crecimiento de los
primeros deja atrás sistemáticamente a las segundas...la información
y la tecnología de control no resuelven tanto los problemas de
complejidad cuanto aumentan su dominio mediante la generación de
nuevos problemas de complejidad”38. Y, por otro lado, ese
“acoplamiento rígido”, según nuestra interpretación, nos da la
respuesta a las dificultades de la ciencia y la economía capitalistas
para llevar adelante cualquier forma de sustentabilidad en el marco
del desarrollo de los países empobrecidos, ahora absolutamente
condicionados y contaminados gracias a la exportación al Sur de las
industrias más ecológicamente peligrosas.
Curiosamente, uno de los textos más importantes para plantear
una reflexión medioambiental desde las luchas por conseguir y
reproducir una vida digna, es la novela Dune. La acción de la novela
está situada en el marco de Arrakis, un planeta que ha sufrido las
consecuencias de esa complejidad interactiva tratada rígidamente por
la ciencia y la política. En Arrakis existe una total falta de agua, pero,
para su desgracia, está provisto de una inmensa cantidad de riqueza
natural (la “especia”), la cual es ansiada por todo el universo. Una de
las autoridades más importantes de Arrakis es Kynes, el Ecólogo.
Encargado de crear y mantener el equilibrio en un entorno
peligrosamente abocado a la muerte, y después de una serie de
peripecias, Kynes se halla en trance de morir atrapado por las fuerzas
negativas del planeta que él mismo había tratado de “humanizar”. En
esos momentos, Kynes contacta espiritualmente con su padre y
antecesor en el cargo de Ecólogo y entre ambos van formulando los
contenidos precisos para construir una cultura de derechos/deberes
humanos con respecto a la naturaleza.

38 Riechmann, J., “Bromas Aparte: lo sencillo es hermoso” en Riechmann, J., y Tickner, J., (edit.), El principio de
precaución. En medio ambiente y salud pública: de las definiciones a la práctica, Icaria, Barcelona, 2002, p. 150;
“el caso del insecticida DDT llama fuertemente la atención sobre el hecho de que para cada solución, a menudo,
hay un problema (lo cual debería refrenar nuestro optimismo). Esto no tendría que detener la búsqueda de mejoras,
pero sí que debería reforzar la humildad en lo que se refiere a certidumbres científicas, sociales y económicas” en
Green, R., y Kohler, B., “Judging the danger – Citizens and control Risk assessment and the Precautionary
Principle”, manuscrito citado por Riechman y Tickner, op. cit, p. 151.

Cultura y Naturaleza: La Construcción


Del Imaginario Ambiental Bio(Socio)Diverso 81
1º – “cuantas más vidas existen en un sistema, mayor es la
cantidad de posibilidades de preservarla”
2º – “la vida aumenta la capacidad de un ambiente para
sustentar la vida “
3º – “a una mayor cantidad y calidad de vida, habrá una mayor
diversidad ambiental y, al contrario, a una gran cantidad de
diversidad ambiental, mayores son las posibilidades de crear y
reproducir la vida.
4º – “dado el grado de desarrollo de las formas de vida humanas
y naturales que se dieron en el planeta, ya no hay vida ni diversidad
“naturales”:la vida “natural” y la diversidad ambiental no se dan
solas, sino que se requiere la interacción entre ser humano y
naturaleza.
5º – “por tanto, un deber básico con respecto a la naturaleza
consiste en reconstruir la acción humana, no como una forma de
destrucción, sino de construcción y reproducción ambiental”.
6º – “la más alta función de un proceso cultural ambiental es la
comprensión y prevención de las consecuencias que surjan en el
marco de la interacción naturaleza-cultura”
7º – “las peculiaridades físicas de un mundo acaban por
quedarse inscritas en su historia económica y política”

Los tres primeros elementos de estos siete mandamientos eco-


ambientales tratan sobre el tema de la vida como algo que propicia la
vida y la relación dialéctica establecida “naturalmente” entre vida y
diversidad. Los puntos 5 al 7, giran sobre los deberes humanos de
reconocimiento, respeto, reciprocidad y redistribución, englobados en
tres aspectos: la acción humana ambientalizada, la prevención de las
consecuencias y la estrecha conexión entre los mecanismos políticos
y económicos y los procesos naturales (siendo el punto 4, un
elemento de transición entre la vida y la cultura)
De estos siete mandamientos eco-ambientales, se puede
deducir un principio que nos sirva de guía general para formular
deberes con respecto a la relación ser humano-naturaleza y, si fuera
posible, positivizar dichos valores en normas a partir de las cuales
podamos exigir a los poderes públicos y privados el cumplimiento de
tales deberes. Es lo que Hans Jonas denominó, parafraseando el
imperativo categórico kantiano, el “imperativo ecológico”, al cual
nosotros preferimos denominar, después de algunos cambios
sustanciales, el imperativo ambiental.

82 Joaquín Herrera Flores


Jonas formulaba su principio ecológico de la siguiente manera:
actúa de tal modo que los efectos de tu acción sean compatibles con el
mantenimiento de una auténtica vida humana sobre la tierra.39 Aunque
la formulación del principio es de una importancia crucial al pasar
del campo de las motivaciones morales (consideradas a priori por
gran parte de la filosofía occidental que sigue a Kant) al de los efectos
de las acciones reales de los seres humanos en su “inevitable”
interacción con la naturaleza, sin embargo, se centra demasiado en
los aspectos antropocéntricos y culturales: la acción humana debe ir
dirigida al mantenimiento de una auténtica vida humana, dejando al
margen la necesaria interrelación entre procesos culturales y
naturales. Nosotros preferimos reformular dicho principio de la
siguiente manera: actúa de tal modo que las consecuencias de tus
acciones sobre la naturaleza y la sociedad sean compatibles con la
producción y mantenimiento de la diversidad biológica, social y
política, fines genéricos que constituyen el eje sobre el que pivota una
cultura de derechos humanos basada en las luchas particulares por la
dignidad humana. Como Hans Jonas y Frank Ebert, priorizamos la
exigencia de interrelacionar las acciones, no sólo con las causas de
los fenómenos, sino, fundamentalmente con las consecuencias
sociales y naturales de la acción. En segundo lugar, defendemos que
los objetivos de toda acción humana deben ser la creación y
reproducción de las diversidades ambientales, es decir, naturales,
sociales y políticas. Y, en tercer lugar, relacionamos tales fines de
pluralidad y diversidad con la construcción de una cultura de
derechos humanos no reducidos a una sola de sus formas de
implementación: la jurídica. Dicha cultura de derechos humanos
tiene más que ver con la materialización en forma de deberes de las
continuas y diferenciadas luchas por la dignidad humana, las cuales
tienden siempre, como decimos, a la producción y mantenimiento de
las diversidades ambientales. Todo ello en aras de un tratamiento
flexible, plural, diferenciado y consciente de las consecuencias de esa
complejidad interactiva bajo la que se dan las relaciones entre
cultura y naturaleza.

39 Jonas, H., El principio de responsabilidad: Ensayo de una ética para la civilización tecnológica, Herder, Barcelona,
1975 (para Jonas, “la ética hoy debe tener en cuenta las condiciones globales de la vida humana y de la misma
supervivencia de la especie”, con lo que su famoso principio de responsabilidad podría denominarse como
“principio Anti-Nemrod”) En 1985, Hans Jonas publicó la segunda parte de El principio de responsabilidad, bajo el
título Técnica, medicina y ética. La práctica del principio de responsabilidad (publicado en castellano por Paidós,
Barcelona, 1997) y en cuyo desarrollo aparecen tres elementos básicos de la teoría de Jonas: las virtudes de la
cautela, de la moderación en la acción y el pensar en las consecuencias. A partir de estos elementos, Jonas define
la “heurística del temor” como el medio por el cual podremos adquirir una mayor “conciencia del peligro y, así,
tener el deber de actuar siguiendo una ética de la responsabilidad. Nuestro deber –afirma Jonas- es saber que hemos
ido demasiado lejos, y aprender nuevamente que existe un demasiado lejos, en Técnica, medicina y ética, op. cit.,
p. 143.

Cultura y Naturaleza: La Construcción


Del Imaginario Ambiental Bio(Socio)Diverso 83
Así, para la creación y reproducción de la bio(socio)diversidad,
somos capaces de auto-imponernos, en las luchas por el acceso
igualitario y digno a los bienes materiales e inmateriales, dos deberes
importantísimos para llevar adelante ese “imperativo ambiental”,
cada uno de los cuales impondrá, por su propia dinámica, un
conjunto de (sub)deberes que irán dotando de contenido a nuestro
imperativo:
1) el deber de proteger y promover la “sustentabilidad”
ambiental y social en nuestras relaciones con el medio. Y 2) el deber
de “precaución” ante las incertidumbres y falta de previsión de las
consecuencias sociales y naturales de las políticas económicas y
ambientales del modo capitalista de producción, hoy en día a punto
de convertirse en la forma globalizada de explicar, interpretar e
intervenir en el mundo.

6.2.1- El deber de sustentabilidad ambiental

Nuestra concepción de los “derechos humanos” como la


materialización cultural de los deberes que surgen de las luchas por
la dignidad humana, le otorga especial importancia al conjunto de
Convenciones y Cumbres mundiales, autodenominadas, de de
“derechos humanos”. Para nosotros, los derechos humanos son el
conjunto de prácticas y procesos sociales que concretan en un
momento determinado la lucha por la dignidad humana (tal y como
la hemos expuesto con anterioridad) En ese conjunto de procesos y
prácticas sociales lo primero que surge es el reconocimiento del
deber, es decir, de la auto-imposición de compromisos que
materialicen y concreten las luchas sociales. Por ello, el objetivo
básico de toda Cumbre o Convención Internacional de derechos
humanos no es otro que el de formular los deberes que, en relación
con la temática de que se trate, los gobiernos, entidades privadas y
organizaciones sociales deben implementar. Estas Convenciones,
pues, no tratan de formular derechos, ya que ni siquiera tendrían la
legitimidad y la capacidad jurídica necesarias para crear normas. En
estas Convenciones, lo que se intenta es formular, de un modo más
imperativo que la mera reivindicación sentimental o literario-estética,
los deberes que la comunidad se autoimpone para tratar con
determinadas materias que han sido llevadas a la discusión pública
a causa de las continuas luchas por la consecución de una vida
digna. Hay países y entidades públicas y privadas que firman los
resultados de tales deliberaciones y otros países y entidades que ni

84 Joaquín Herrera Flores


siquiera están presentes en las mismas: los que las firmas se
comprometen a llevar a cabo políticas públicas en beneficio de tales
conclusiones: entre dichas políticas públicas, está la tarea
importantísima de llevar esos “compromisos” a derechos. Los cuales
servirán como instrumento privilegiado, no para “reconocer” derechos
preexistentes, sino para poder exigir judicialmente, a un nivel
nacional como internacional, los deberes asumidos previamente, de
ahí la importancia de las reuniones internacionales. Hay otros países,
fundamentalmente los países ricos y desarrollados, que firman para
después incumplir sistemática los deberes asumidos. Y, en fin, hay
otros, básicamente los Estados Unidos de Norteamérica, que ni
siquiera firman las conclusiones finales y, por tanto, se consideran
fuera de la comunidad que se autoobliga a cumplir con las
propuestas de tales Convenciones y Cumbres.
En el caso del tema ambiental, destacan aquellas Convenciones
que han llevado la reivindicación de la sustentabilidad, de mero
ejercicio académico o reivindicativo a la categoría de deber, es decir
de auto-imposición de trabas e impulsos a la acción siguiendo una
determinada línea lo más compatible posible con las luchas por la
dignidad. Concretamente, nos referimos a la Cumbre Mundial de Rio
de Janeiro celebrada en 1992 y la Cumbre Mundial de
Johannesburgo de 2002, en donde se han intentado establecer las
bases de los deberes a cumplir en relación con el medio ambiente. De
los resultados de tales Cumbres, deducimos que para hacer
sustentable nuestra relación con el entorno, no basta con el
mantenimiento “sostenido” de políticas de desarrollo basadas en el
crecimiento continuo del producto interior bruto. Cuando hablamos
de sustentabilidad en el marco de una cultura de derechos humanos
implicada en las luchas por la dignidad humana (y no meramente
como aumento de los productos interiores brutos de empresas o
países), lo hacemos de la asunción de los cuatro deberes básicos de
respeto, reconocimiento, reciprocidad y redistribución necesaria para
la reproducción de la bio(socio)diversidad, desde donde surgen un
conjunto de 8 auto-imposiciones absolutamente necesarias para que
el desarrollo económico pueda “sostenerse” sin atentar contra la
“bio(socio)diversidad”:

1) El deber de conocer y divulgar la existencia del desarrollo


desigual que se da entre los países y sociedades “enrriquecidas” y los
países y sociedades “empobrecidos” por su posición geoestrátegica en
el orden global. Este desarrollo injusto ha conducido, en estos

Cultura y Naturaleza: La Construcción


Del Imaginario Ambiental Bio(Socio)Diverso 85
tiempos de globalización, a que todas las industrias contaminantes y
de bajo rendimiento productivo económico se trasladen a estos
últimos países, ampliando, si cabe, el abismo entre ricos y pobres.
2) El deber de conocer y divulgar la exigencia de que el
conocimiento no puede ni debe ser apropiado por parte de entidades
privadas, sean individuos o grandes corporaciones. El conocimiento
debe ser entendido como patrimonio de la humanidad, cumpliendo
con ello la función social que le corresponde en el sentido de mejorar
las condiciones que permitan a los pueblos e individuos luchar por
una vida más diga.
3) el deber de oponerse tajantemente a las políticas
colonialistas que han esquilmado sistemáticamente a las sociedades
colonizadas de sus recursos naturales en beneficio propio. Desde el
colonialismo se han exportado a los países pobres y/o periféricos las
industrias más contaminantes; consecuentemente, se ha evitado que
en estos países existan regulaciones ambientales adecuadas que
impidan la rapiña de los colonizadores y neocolonizadores; y, como
colofón, se ha generalizado toda una tendencia colonial a la
intervención “humanitaria” –primero creamos el problema y después
ofrecemos la solución “humana”- en enormes áreas naturales de los
países subdesarrollados.40
4) el deber de afinar más en lo que respecta al concepto de
pobreza y a los indicadores que intentan definirla. No se trata de
“cuantificar” la necesidad de dólares para la supervivencia cotidiana,
sino de desentrañar los obstáculos y las condiciones que permitan
dos cosas íntimamente unidas al concepto de sustentabilidad: la
creación de capacidades (sistemas educativos) y la creación de
condiciones de accesibilidad de los considerados “pobres” a los
mecanismos públicos de decisión acerca de sus vidas. A menor
posibilidad de accesibilidad a dichos mecanismos, mayor índice de
pobreza, por supuesto, no sólo de elementos materiales sino también,
y especialmente, de posibilidades políticas de intervención sobre sus
entornos sociales y naturales.
5) un desarrollo sustentable debe cumplir con lo que Milton
Santos nos recordaba páginas más atrás: una acción homóloga y
complementaria entre los diferentes componentes que conforman la
bio(socio)diversidad, dejando de lado los aspectos puramente
jerárquicos que sitúan las decisiones en centros alejados de y
despreocupados por las consecuencias de sus decisiones. Es decir,
un desarrollo sustentable tiene que partir de políticas de desarrollo

40 Freitas, M., (org.) et. al., op. cit. p. 179.

86 Joaquín Herrera Flores


local. Es desde el conocimiento y las políticas públicas locales como
puede plantearse un aprovechamiento “sustentable” de los recursos
de un territorio, implicando en él, no sólo a los preocupados por el
medioambiente, sino a entidades y organizaciones sociales y políticas
responsables de lo que vamos a dejarles a las generaciones futuras.
6) un desarrollo sustentable tiene que partir de los deberes de
respeto, reciprocidad, reconocimiento y redistribución en relación con
los pueblos y formas de vida que viven sus vidas en los territorios
objetos de políticas de desarrollo. No se puede llegar a la
sustentabilidad midiendo únicamente factores ecológicos
estructurales. Hay que complementar tales estudios con los impactos
humanos en el entorno, los cuales estarán influidos, no sólo por
aspectos cuantitativos o tangibles, sino, sobre todo, por aspectos
culturales, míticos o religiosos de naturaleza intangible, pero de una
fuerza arrolladora si es que pretendemos una sustentabilidad real y
enriquecedora.
7) la necesidad de respetar, reconocer y promover derechos
territoriales a aquellas comunidades que hayan interactuado
ancestralmente con el entorno objeto de políticas de desarrollo. No se
trata de extender títulos de propiedad a los indígenas, con lo que
generalizaríamos la concepción innatista y pasiva de la concepción
liberal individualista de los derechos humanos, que ve a éstos como
una extensión de la propiedad privada. Se trata de reconocerles su
participación activa, física y espiritual, en la construcción de los
territorios en los que han vivido ancestralmente y, por tal razón,
permitirles ejercer y toma decisiones con respecto a los mismos.
8) reconocer que todo lo anterior no es una concesión a los
pueblos empobrecidos por las políticas coloniales de los países
enriquecidos con la rapiña colonial, sino el resultado de proceso de
luchas sociales concretas en busca de la dignidad humana
colectiva.41
El deber de sustentabilidad, nos está impulsando, pues, a
pensar en modos distintos de actuar y comprender el mundo en que
vivimos. Todo ello por la conciencia cada vez más creciente de tres
elementos: 1) la insustentabilidad de nuestras sociedades y del modo
de vida capitalista/consumista en general, el cual en los tiempos de
la globalización neoliberal está hundiendo a la mayoría de las
poblaciones del mundo en una miseria y en una violencia
estructurales de las cuales es imposible salir con los remedios

41 Luchas sociales contra los procesos de apropiación de los conocimientos tradicionales y contra la explotación de
los recursos naturales autóctonos por parte de las grandes transnacionales. Cfr. Freitas, M., (org.), op. cit, p. 181.

Cultura y Naturaleza: La Construcción


Del Imaginario Ambiental Bio(Socio)Diverso 87
propuestos por los que crean la enfermedad; 2) la convicción genérica
de que hay que cambiar un sistema de creencias y unas actitudes
científicas y políticas que tratan “rígidamente” (especialización,
descontextualización, apego a intereses de acumulación de capital) la
complejidad interactiva que se da entre la naturaleza y la cultura:
casi nos va la vida en la asunción de esta conciencia; y 3) construir
sociedades sustentables necesita por lo menos de cinco
sustentabilidades: la sustentabilidad “social”,42 basada genérica-
mente en las ideas de inclusión y equidad social; y, de un modo más
concreto, en acciones sociales que favorezcan la emergencia y
desarrollo de nuevos actores y movimientos sociales, entendiendo que
una sociedad se enriquece y se hace más sustentable mientras mejor
exprese las distintas miradas y aproximaciones frente a la realidad.
La pregunta sería la siguiente: ¿existen límites naturales a la
diversidad social y cultural que puede contener una comunidad
humana?. La sustentabilidad “política”, la cual está relacionada con
cuestiones como la cantidad de Estado necesaria para armonizar las
complejas relaciones entre las necesidades y expectativas sociales y
las políticas públicas, con la omnipresencia de relaciones de poder en
el marco de situaciones formales de igualdad ante la ley, de
legitimidad, gobernabilidad, etc. En definitiva, una “sustentabilidad”
dirigida a crear las condiciones para el empoderamiento de los
ciudadanos; la pregunta sería la siguiente: ¿cuánto Estado seguirá
siendo necesario para continuar persiguiendo el bien común, que va
poco a poco transformándose en el menos común de los bienes?. La
sustentabilidad “cultural”, que tiene que ver con la elección entre un
modelo identitario de espacio cultural, en el que se cierran las
posibilidades de acceso a formas alternativas de acercamiento a los
recursos naturales; y un modelo significativo de espacio cultural, en
el que las identidades se vean como procesos de identificación
(atribución de rasgos culturales en función del reconocimiento y la
reciprocidad de los otros) que tienden a la constante re-significación
de los entornos de relaciones en los que nos movemos; la pregunta
sería: ¿podrán coexistir procesos de identificación plurales y
significativos en un mundo que se globaliza crecientemente y que
comienza a configurar, bajo presupuestos puramente economicistas
y geo-estratégicos, una única identidad planetaria?. La
sustentabilidad “económica”, que tiene que ver con las siempre tensas
relaciones entre el mercado, el crecimiento, la producción de bienes y

42 Cfr. Antonio Elizalde Hevia, “Desde el ‘Desarrollo Sustentable’ hacia Sociedades Sustentables” en Polis. Revista de la
Universidad Bolivariana,4, 2003, (monográfico dedicado a Sustentabilidad y Sociedades Sustentables) pp. 290 y ss.

88 Joaquín Herrera Flores


servicios y los procesos de división social, sexual y étnica del hacer
humano, los cuales colocan a las personas en situaciones jerárquicas
y desiguales a la hora de acceder a los bienes que, en cada proceso
cultural, se entienden como necesarios para alcanzar niveles dignos
de vida. La sustentabilidad económica, no tiene, pues, únicamente
que ver con la mayor o menor cantidad de mercado en las diferentes
sociedades, sino, fundamentalmente, en la demanda de una mejor
“redistribución” de los recursos que suponen beneficios o cargas para
el bienestar general de la población; la pregunta sería: ¿puede, y
debe, el mercado regular todo tipo de actividades humanas? ¿es
posible democratizarlo? ¿caben acciones de mercado con la lucha
contra los procesos de división social, sexual y étnica del hacer
humano?. Y, por último –no en primer lugar, aunque no por ello
menos importante- la sustentabilidad “eco-ambiental”, que tiene que
ver con la intervención humana en los entornos naturales. Las
preguntas que surgen de este tipo de sutentabilidad son múltiples;
resumiendo nos quedamos con las siguientes: ¿es posible generalizar
la conciencia de los límites de la biosfera en un sentido
complementario al de la satisfacción de las necesidades y
expectativas humanas? ¿Cómo reproducir continuamente la biosfera
teniendo siempre presente la exigencia de preservar, al mismo nivel,
la diversidad social y natural?.43

6.2.2. El deber de precaución ambiental

En la noche del 2 de Diciembre de 1984, cuarenta toneladas de


gases letales fueron liberadas al ambiente debido a un accidente en
la fábrica de pesticidas de la empresa norteamericana Union Carbide
en Bhopal, India. Este accidente ha sido calificado como el peor
desastre químico de la historia del mundo. Se estima que 3 días
después del accidente, 8000 personas ya habían muerto a causa de
la exposición directa al gas, aunque la cantidad exacta de víctimas se
desconoce. En los informes de Greenpeace se afirma que la noche del
desastre significó el comienzo de una tragedia que aún hoy continúa.
Unión Carbide, nos informa Greenpeace, abandonó al poco tiempo la
planta dejando sin control una gran “legado” tóxico y destructor,
hasta el punto que los habitantes de Bhopal aún hoy, casi 20 años

43 Colocar en último lugar la “sustentabilidad eco-ambiental” no es algo gratuito, pues tiene que ver con la
superación de un ecologismo de reserva natural y un paisajismo orientado hacia el turismo. Lo eco-ambiental
supone el reconocimiento de la necesidad de las otras “sustentabilidades”. Es recomendable la lectura del trabajo
de Enrique Leff, “Racionalidad ambiental y diálogo de saberes: significancia y sentido en la construcción de un
futuro sustentable” publicado en Polis. Revista de la Universidad Bolivariana, 7, 2004 (cuyo monográfico está
dedicado al interesantísimo tema Saber(es). Ciencia(s) y Tecnología(s)

Cultura y Naturaleza: La Construcción


Del Imaginario Ambiental Bio(Socio)Diverso 89
después de la tragedia, no pueden beber el agua de sus fuentes
naturales debido a la contaminación de las mismas.Decenas de miles
de personas siguen muriendo, o sufriendo enfermedades gravísimas
e incurables, debido a la continua exposición a gases tóxicos. Union
Carbide se fusionó con la multinacional Dow Chemicals con sede
matriz en los Estados Unidos; y esta compañía se ha resistido desde
entonces a asumir las responsabilidades provocadas por la tragedia.
Amanece en Estocolmo. Es la mañana del 28 de Abril de 1986.
Cien kilómetros al norte de la capital, unos trabajadores de una
central nuclear detectan una extraña y anormal subida de los niveles
de radiación, la cual fue inmediatamente registrada y confirmada por
otras estaciones nucleares de los países escandinavos. Durante los
primeros momentos, nadie pudo determinar la fuente de estas
radiaciones. Sólo pudo decirse que “algo, en algún lugar, estaba
expulsando gigantescas cantidades de radioactividad a la
atmósfera”.44 No fue hasta el día siguiente que Moscú ofreció un
comunicado informando de un “pequeño” accidente en la central
nuclear de Chernobyl y que ya se estaban tomando las medidas
requeridas para evitar mayores males. En realidad, el “pequeño”
accidente consistió en la explosión del reactor número 4, enviando
grandes cantidades de radiactividad a más de mil quinientos metros
dentro de la atmósfera. Los campesinos y consumidores de vegetales
de Europa Central, los ganaderos de los países escandinavos y de
gran parte de Gran Bretaña, el círculo polar ártico y ¡quién sabe
cuántos lugares más!, acabaron contaminados por las radiaciones y
aún hoy se siguen ignorando sus consecuencias. El caso es que a
principios del siglo XXI 20 granjas del País de Gales aún siguen en
cuarentena debido al descubrimiento de flecos de radiaciones
provocadas por el accidente ocurrido a miles de kilómetros de su
entorno geográfico.
En 1994, civiles hutus mataron a más de 800.000 tutsis en un
período de tres meses, por lo general a machetazos. A inicios de los
años noventa, las alambradas y construcciones de los campos de
concentración serbios eran testigos mudos de la aplicación
generalizada de las formas más brutales de tortura que una mente
“normal” pueda imaginar. En 1998, en Yakarta, turbas de indonesios
vociferantes incendiaron, destrozaron y saquearon cientos de tiendas
y hogares chinos, con un balance de más de dos mil víctimas
mortales. Durante el mes de Marzo de 1999, Colombia asistió a una

44 Cfr., Adam, B., “Radiated Identities: In Pursuit of the Temporal of Conceptual Cultural Practices” en Featherstone,
M., and Lash, S., Spaces of Culture. City, Nation, World, Sage, London, 1999.

90 Joaquín Herrera Flores


nueva matanza, esta vez de líderes indígenas que formaban parte de
la Coalición Amazónica. Entre ellos destacan Terry Freitas, Ingrid
Washinawatok y Lehe’ena’e, los tres responsables del programa de
educación bilingüe y preservación cultural de la comunidad indígena
U’wa opuestos al cultivo de coca y favorables a la diversificación
agrícola de la zona. Año tras año, los informes detallados del
Programa de Naciones Unidas para el desarrollo nos “asustan” al
comprobar que aumenta sin parar la diferencia de ingresos y
consumo entre los países ricos y pobres. Y año tras año, peruanos,
ecuatorianos, colombianos, zaireños, thailandeses y, en general, los
países antaño colonizados por las potencias occidentales se hunden
más en el abatimiento que provoca la continua ineficacia de sus
“estados de derecho”. ¿Qué decir de aquellos europeos que ven como,
poco a poco, los discursos xenófobos y excluyentes van copando los
escaños de sus parlamentos y las comisiones ministeriales de sus
gobiernos “arrogantemente” democráticos frente al resto del
mundo?...
Vivimos, como se desprende del magnífico libro de Amy Chua -
World on Fire45-, en un mundo en llamas. Llamas e incendios
materiales y simbólicos que están cambiando la faz de la tierra
gracias a la exportación indiscriminada de las formas organizativas
occidentales: el libre mercado, la democracia formal, los capitales
financieros, las formas productivas intensivas... Llamas e incendios
inducidos por un sistema económico que, sin tener en cuenta las
consecuencias sociales, humanas y ambientales, provoca radiaciones
nucleares incontroladas, derrames de petróleo en los mares,
contaminaciones químicas tóxicas, hambrunas, sequías, matanzas
de pretendido origen étnico pero de marcado carácter económico y
político, apropiaciones de conocimientos tradicionales que dejan
indefensas a las comunidades de gran parte del mundo, o por
cegueras obsesas y “obesas” de los gobiernos “democráticos”
occidentales ante los genocidios que se están dando en las múltiples
fronteras de cristal blindado que proliferan en los márgenes del
Imperio.
Tal y como nos informan en los diferentes medios de
comunicación, todos estos “accidentes” tienen un origen local y
“afortunadamente” ocurren alejados de los cómodos salones de la
burguesía consumista occidental que mira horrorizada lo que les

45 Chua, A., World on Fire: How exporting Free Market Democracy Breeds Ethnic Hatred and Global Instability, Random
House, Inc., NY, 2002 (hay traducción castellana bajo el título El mundo en llamas. Los males de la globallización,
Ediciones B, Barcelona, 2003 ; asimismo, Zakaria, F., The Future of Freedom Illiberal Democracy at Home and Abroad,
Norton & Co., 2003; y Mandelbaum, M., The Ideas that conquered the World: Peace, Democracy, and Free Markets in
the Twenty-first Century, PublicAffairs Edit., 2004

Cultura y Naturaleza: La Construcción


Del Imaginario Ambiental Bio(Socio)Diverso 91
ocurre a los “salvajes”. Parece que los que vivimos en el marco de los
privilegios “conquistados” a causa del colonialismo capitalista de
siglos anteriores, no tenemos responsabilidad de tales sucesos. En
nuestro fuero interior, albergamos la ilusión de que están demasiado
lejos para que nos afecten. Sin embargo, debido a la cada vez mayor
complejidad interactiva de los fenómenos que acaecen en nuestra
aldea global, poco a poco nos vamos a ver como esos granjeros
galeses que viven cercados por las consecuencias de la desidia de sus
semejantes ucranianos. ¿Habrá alguna oportunidad de enfrentarnos
a tales hechos desde los acoplamientos rígidos y jerárquicos que
predominan en nuestras reflexiones científicas, económicas y
políticas? ¿No tendremos que flexibilizar nuestras disciplinas
académicas y nuestras opciones políticas y sociales para poder
enfrentarnos a “accidentes” y acontecimientos que no respetan
fronteras, que producen efectos imprevisibles y que no pueden ser
estudiados ni enfocados políticamente sin una concepción
interdisciplinar e interactiva de lo que ocurre en el mundo?
Una posible vía de enfoque abierto y flexible es la que se está
desarrollando alrededor de lo que se denomina el principio de
precaución aplicable, fundamentalmente, a las posibles conse-
cuencias perversas de la ignorancia y la incertidumbre que provocan
los nuevos desarrollos tecnológicos y agrogenéticos, aún no
controlados científicamente. Nadie, a excepción de los grupos
multinaciones que se abrogan el derecho de contaminar y de dañar la
salud humana a causa de la falta de prohibición expresa de sus
actividades, podrá negar la importancia de un principio como el de
precaución, sobre todo, cuando asistimos impotentes a la
generalización de las nuevas formas transgénicas de producir los
alimentos que ingerimos diariamente sin saber cuáles serán sus
efectos a medio y largo plazo. Pero, dado que nosotros vamos
trabajando en la estela del imperativo ambiental (que proyecta su
sombra sobre los aspectos biológicos, sociales y políticos de nuestro
planeta, comprometiéndonos a mantener siempre abierta la
comunicación entre lo natural y lo cultural en el marco de las luchas
por la bio(socio)diversidad y la demodiversidad), preferimos
denominar tal principio como el deber de precaución ambiental, ya
que en él no se recoge únicamente la necesidad de prevención para la
salud humana, sino que se extiende a la diversidad ambiental:
natural, social y política.
El llamado “principio de precaución” surgió durante la década
de los setenta en la antigua Alemania Federal, época en la que la

92 Joaquín Herrera Flores


planificación de, y la intervención pública en, la economía constituían
procesos cotidianos y públicos garantizados por una completa lista de
derechos fundamentales y de instituciones judiciales expresamente
dedicadas al control de constitucionalidad de las acciones públicas.46
El concepto en alemán es vorsorge, que literalmente puede traducirse
por “previsión” o “custodia”, pero que también incorpora nociones de
manejo prudente y “mejor práctica” en la gestión ambiental incluso
ante la ausencia de un riesgo inminente. De hecho fue puesto en
práctica por el gobierno alemán, entre otras finalidades, con el
objetivo de afrontar las consecuencias ecológicas que podía traer
consigo la lluvia ácida y el calentamiento de la atmósfera. En el
núcleo de dicho principio se halla la idea intuitivamente sencilla de
que frente a la posibilidad de incurrir en daños a la salud humana,
producibles por la aplicación de técnicas y procedimientos aún no
controlados totalmente por la ciencia, las decisiones políticas
deberían tomarse: a)adelantándose a las certidumbres e incertidum-
bres científicas, b) ampliando críticamente los principios de la
elección racional que reducen lo social, lo económico y lo político al
análisis centrado en la oposición coste-beneficio, y c) y flexibilizando
principios jurídicos como el de que todo está permitido si no existe
una prohibición expresa que lo limite.47
De este modo, y tomando conjuntamente los textos de la
Wingspread Conference on Implementing the Precautionary Principle,48
y la Lowell International Summit on Science and the Precautionary
Principle,49 el “principio de precaución” (podríamos añadir ecológico,
para distinguirlo de lo ambiental), se define de la siguiente manera:
“cuando una actividad se plantea como una amenaza para la salud
humana o el medio ambiente, deben tomarse medidas precautorias
aun cuando algunas relaciones de causa y efecto no se hayan
establecido de manera científica en su totalidad”. Asimismo, en
ambas “reuniones internacionales” se establecían cuatro deberes que
dotaban de contenido al principio: 1) el deber de adoptar acciones
preventivas (en aleman el Vorsorgeprinzip puede ser traducido

46 A. Weale, The New Politics of Pollution, Manchester Univ. Press, London, 1992-, y A. Weale, “Ecological
Modernisation and the Integrarion of European Environmental Policy”, Weale, A., Liefferink (eds.) European
Integration and Environmental Policy, Belhaven Press, London, 1993; Pearce, D., Economics Values and the Natural
World, Earthscan, London, 1993; Pearce D., “The precautionary principle in economic analysis” en O’Riordan, T., et.
al .,(Eds.) Interpreting the precautionary principle, Earthscan, London, 1994; Wynne, B., “Uncertainty and
Environmental Learning: Reconceiving Science in the Preventive Principle” Gloval Environmental Change, 2 (Junio
de 1992), pp. 111-127.
47 Timothy O’Riordan “El principio de precaución en la política ambiental contemporánea”, publicado originalmente
en Environmental Values, Vol. 4, N.º 3, 1995; asimismo consultable en WWW.ISTAS.NET/MA/AREAS/RESIDUOS/
ESCORIAL/ APORTA/APORTA10.PDF.
48 Celebrada en Racine, Wisconsin, del 23 al 25 de Enero de 1998.
49 Celebrada en Lowell, Massachusetts, del 20 al 22 de Septiembre de 2001.

Cultura y Naturaleza: La Construcción


Del Imaginario Ambiental Bio(Socio)Diverso 93
también como “principio de previsión” (versión más cercana a lo que
añadiremos después nosotros), aplicable cuando exista una evidencia
creíble de que está ocurriendo o puede ocurrir un daño, aun cuando
la naturaleza exacta y la magnitud de dicho daño no sea comprendida
totalmente; 2) el deber de asumir la carga de la prueba por parte de
quienes proponen las actividades “dudosas”, y, del mismo modo, el
deber de identificar, evaluar y poner en práctica los caminos más
seguros entre los que sean viables para satisfacer las necesidades
sociales; 3) el deber de analizar el mayor espectro posible de
alternativas ante la posibilidad de actividades perjudiciales, así como
el deber de estudiar los riesgos a fondo para minimizarlos, evaluando
y eligiendo las alternativas más seguras para satisfacer una
necesidad particular, bajo la tutela de organismos de revisión
continua; y 4) el deber de incrementar la participación pública en la
toma de decisiones, esto es, el deber de aplicar procesos de toma de
decisiones transparentes e inclusivos que aumenten la participación
de todos los involucrados y sus comunidades, en especial los
potencialmente afectados por una decisión sobre políticas de alcance
sanitario o medioambiental.50
El crecimiento de los movimientos ecologistas unidos a las
reivindicaciones de consumidores, de asociaciones sobre la necesidad
de una salud equilibrada, o de una mayor y mejor información acerca
de lo que ingerimos, ha propiciado un interés creciente por las
alteraciones ambientales, por los elementos que se usan en los
tratamientos industriales de los productos, por la extensión de los
recursos renovables y no renovables, por los niveles excesivos de
consumo, etc. La esencia, pues, del “principio de precaución” es que
la sociedad civil, articulada ecológicamente, no puede esperar hasta
que se conozcan todas las respuestas frente a los problemas que
suscitan las innovaciones tecnológicas en los temas antes citados; es
preciso, pues, tomar medidas que protejan la salud humana o el
medio ambiente de los daños potenciales que pueden estar
implícitamente unidos a dichas innovaciones y hacerlo con la mayor
rapidez y efectividad posibles.
Todo muy bien, especialmente para la protección de la salud y
de los espacios protegidos en el Occidente desarrollado. Pero, cuando
somos conscientes de los problemas a los que se enfrenta, por

50 En este sentido, destaca el importante estudio de la AEMA (Agencia Europea de Medio Ambiente) titulado Late
Lessons from Early Warnings: the Precautionary Principle 1896-2000, en European Environment Agency,
Environmental Issue Report 22, Copenhague, 2001.
(http://reports.eea.eu.int/environmental_issue_report_2001_22/en -cfr. Riechmann y Tickner (coords.), El
principio de precaución. En medio ambiente y salud pública: de las definiciones a la práctica, op. cit., p. 20.

94 Joaquín Herrera Flores


ejemplo, la cuenca del Amazonas, los habitantes de los barrios
marginales de Lima, o las contiendas “tribales” en África o las
actividades de patentar el conocimiento tradicional de nativos y
pueblos indígenas por parte de las multinacionales, o, por poner un
punto final, la deforestación de gran parte de los espacios selváticos
de la India, nos surgen una serie de preguntas:: ¿entra dentro del
principio de precaución la obligación de no exportar la contaminación
a otras partes del mundo o esto añadiría una mayor inseguridad a
una población preocupada intensamente por el grado de colesterol
que se acumula en su sangre? ¿hay que extender la precaución a
todo tipo de innovaciones que afecte el conjunto de certezas y
creencias de la población? Es decir ¿es posible infringir tal principio
cuando se trata de innovaciones políticas, no del todo fundamentadas
científicamente por la filosofía y la ciencia políticas dominantes? ¿o el
principio de precaución únicamente se aplica a la entrada de nuevos
procedimientos tecnológicos en el tratamiento de lo que en el futuro
ingeriremos como alimentos? ¿tiene algo que ver el principio de
precaución con el mantenimiento de la diversidad ambiental cuando
ésta se opone al crecimiento continuo de la explotación de la
naturaleza, sea esta explotación contaminante o no? ¿cómo
complementar el principio de precaución con la exigencia cultural de
sociodiversidad? ¿entra dentro del principio la conservación y
promoción de los conocimientos tradicionales empleados por pueblos
y etnias estrechamente interrelacionadas con la naturaleza? ¿no es el
principio de precaución un principio de cautela científica que está
provocando el despliegue de nuevas formas especializadas de
conocimiento científico, al estilo de las “sociedades del riesgo”? ¿puede
servir el principio de precaución para poner coto a las experiencias
alternativas de grupos opuestos a las formas neoliberales de la
globalización capitalista o, al contrario, las impulsa?
Impulsados por la asunción del Imperativo Ambiental (no
meramente “ecológico”) y reconociendo las ventajas que aporta el
principio de precaución (ecológico), creemos que habría que extender
sus presupuestos a los tres niveles que están incluidos en nuestro
imperativo:

1) la diversidad ambiental.- aparte de las referencias concretas


a la salud humana y de las más ambiguas al concepto de “medio
ambiente”, desde el “imperativo ambiental” habría que complementar
el principio de precaución con políticas concretas de preservación de
la biodiversidad y extirpar, se conozcan o no los resultados

Cultura y Naturaleza: La Construcción


Del Imaginario Ambiental Bio(Socio)Diverso 95
posteriores o se necesiten o no determinados recursos naturales para
el modo de vida occidental (como, por ejemplo, el gas o el petróleo que
hay debajo de la floresta amazónica), todas las actividades que vayan
en contra de la reproducción biodiversa de la vida. Si, por poner un
caso relevante, la región del Amazonas contiene un tercio de las
reservas mundiales florestales, un quinto del agua dulce del mundo,
produce un 70% de los genéricos naturales que se usan para
medicinas anticancerígenas y antibióticos, además de ser una
entidad física relevante en las estabilidades mecánica, termodinámica
y química de los procesos atmosféricos en dimensión planetaria,
¿habría que permitir la continua construcción de presas en las zonas
tropicales que alimentan a fábricas de automóviles, que después se
venderán masivamente en los países occidentales?, ¿habría que
admitir la venta de productos químicos no necesariamente
innovadores, como es el caso del mercurio para la actividad de los
garimpeiros o buscadores de oro amazónicos, aunque con ello se
restrinja la cuenta de beneficios de empresas transnacionales
europeas? Cuando la Unión Europea se compromete en la
Convención sobre Cambio Climático de Kyoto a reducir la cantidad,
por sí misma irrisoria del 0’5% de sus emanaciones tóxicas a la
atmósfera, y sólo lo cumple en el 0’1 y, como es el caso de Rusia,
China o Estados Unidos, se niegan a firmar la Convención alegando
una mayor “seguridad” para sus respectivos productos interiores
brutos pero, al mismo tiempo, se reconoce el principio de precaución
que evite daños a los genes de los que comemos dia tras dia alimentos
transgénicos ¿no estamos sentenciando a muerte esa diversidad
ambiental amazónica que tan necesaria es para la producción de
medicinas y para el equilibrio ecológico de nuestro planeta?
2) la diversidad social.- El deber de precaución ambiental
también debería dirigirse al mantenimiento y reproducción de la
pluralidad de voces, de conocimientos, de formas de producir y de
divertirse...en fin, de la diversidad social que enriquece el acervo
patrimonial de la humanidad. Situándonos de nuevo en los márgenes
del gran río Amazonas, hallamos una diversidad humana tan
sorprendente como dinámica: grupos sociales urbanos y rurales
heterogéneos desde el punto de vista de su situación económica;
sociedades y comunidades indígenas que se han adaptado de
distintos y diversos modos al espacio geográfico de la floresta y que
mantienen articulaciones históricas, culturales y políticas muy
diferentes, tanto entre ellas mismas como entre ellas y las
comunidades urbanas y rurales antes mencionadas; grupos de

96 Joaquín Herrera Flores


inmigrantes y desplazados por causas económicas o políticas...
grupos sociales que mantienen patrones diferentes en cuanto a la
realización de su existencia y formas desiguales de apropiación y
usufructo de los recursos naturales, siempre en tensión latente con
las exigencias uniformadoras del mercado. Todos estos grupos han
sido afectados por los procesos de urbanización necesarios para el
despliegue de la economía de mercado y la inserción de los recursos
productivos y sociales en el mercado mundial impuesto por la
globalización. Los indicadores de las condiciones de salud,
educación, empleo, relaciones formales e informales de trabajo, etc.,
nos muestran un panorama desolador de desprotección, de
inseguridad social y de pérdida de las tradicionales y más
respetuosas relaciones con la naturaleza. De ahí, la necesidad de
“prevenir” todo tipo de políticas que propicien desplazamientos de las
zonas rurales a las urbanas, todo tipo de políticas, por supuesto,
basadas en estudios sociológicos de tinte modernizador, que
sustituyan las formas tradicionales de producir y de tratar con el
entorno por los modos más apreciados por los economistas de la
elección racional en el marco del mercado.
Asimismo, habría que aplicar el deber de precaución ambiental
ante las innovaciones legales que las mayorías parlamentarias de
países con fuerte componente étnico promulgan constante y
continuadamente con el objetivo de homogeneizar la estructura social
de sus países. Pongamos un ejemplo: el proceso de promulgación de
la ley llamada “Ley Indígena: Bartlet Cevallos Ortega” en México ¿o es
que acaso una ley no puede suponer un caso paradigmático para
comprender la necesidad de la precaución?. Ante la “amenaza” de
dicha Ley, en Junio de 2001 se reunieron representantes de los
pueblos indígenas de la Sierra Juárez de Oaxaca y proclamaron lo
siguiente: tal ley no debería de promulgarse porque producirá efectos
contraproducentes a la diversidad social mexicana. Primero, al
subsumir el derecho colectivo de los indígenas a sus territorios en el
marco de acceso a la propiedad privada previsto en la Constitución
mexicana, se sentarían las bases para la culminación de los procesos
de privatización de los ejidos (campos de producción colectiva y
comunitaria) a favor de los que puedan “pagar” por acabar con las
formas tradicionales de organización, convivencia y producción.
Segundo, al relacionar los derechos indígenas con las políticas de
desarrollo nacionales con el objetivo de crear empleos, se producirán
los efectos nocivos de la migración hacia los “polos de desarrollo” no
construidos por y para los indígenas y sus formas de vida; se

Cultura y Naturaleza: La Construcción


Del Imaginario Ambiental Bio(Socio)Diverso 97
inducirán monocultivos para poder competir con los campesinos de
los otros socios del Tratado de Libre Comercio de América del Norte.
Y, Tercero, al no separar las cuestiones de los pueblos indígenas de
los acuerdos comerciales con multinacionales foráneas, se puede
producir, como de hecho así ha sido, un saqueo del conocimiento
tradicional y de los recursos biológicos que las comunidades
indígenas han sabido conservar ancestralmente.
Tales ideas fueron asumidas como “deberes” en el Congreso
Internacional sobre Diversidad Cultural y Biológica51 y que se
conoce como la Iniciativa de Yunnan. Dicha Iniciativa llama la
atención mundial sobre las grandes incertidumbres que enfrentan
las culturas locales e indígenas en su esfuerzo por utilizar,
mantener y reproducir los paisajes y territorios, en nuestros
términos, los ejes de coexistencia, en los que viven y de los cuales
dependen. “Ejes de coexistencias” que están bajo amenaza debido,
tanto a políticas gubernamentales de “inclusión” en los procesos de
globalización, como de la expansión irrestricta, y protegida por los
acuerdos de la OMC, de los mercados regionales, nacionales e
internacionales. La Iniciativa de Yunnan apoya el fuerte vínculo
existente entre la diversidad cultural y la biodiversidad y asume los
deberes auto-impuestos por la Comunidad Internacional y que se
hallan expresados en la Declaración de Belem, en el Plan de Acción
de Kunming y en el Código de Ética de la Sociedad Internacional de
Etnobiología, todos ellos textos importantísimos para entender los
derechos humanos como materialización de deberes que surgen de
las luchas por la dignidad humana. Además, la Iniciativa de
Yunnan, asumiendo la diversidad social como un elemento
inescindible de la biodiversidad, respalda el reconocimiento que la
Convención sobre la Diversidad Biológica hace en relación a la
importancia de las comunidades locales en la conservación de la
biodiversidad y la necesidad de respetar los valores culturales y
espirituales que induzcan a lograr el desarrollo realmente
sustentable en los lugares en los que las comunidades locales viven
y trabajan.
Como afirman los defensores del importante principio de
precaución, la sociedad no puede esperar a que los legisladores
legislen a su favor: son precisas medidas “precautorias” como, por
ejemplo, la potenciación de los movimientos sociales que estén
implicados en tales procesos de incertidumbre legal con el objetivo
genérico de controlar las cegueras, no sólo de los científicos del

51 celebrado en la provincia de Yunnan, República Popular de China, del 20 al 30 de Junio del año 2000.

98 Joaquín Herrera Flores


derecho, sino de los políticos que pueblan por decenas las “sagradas”, por
separadas de sus ciudadanos y ciudadanas, sedes parlamentarias.
3) la diversidad política.- Asimismo, el deber de precaución
ambiental nos induce a tomar medidas precautorias contra los
experimentos e innovaciones que los centros de poder del capitalismo
globalizado vienen realizando en el mundo entero desde mediados de
los años setenta y principios de los ochenta. ¿O es que acaso no
constituyen un experimento, sin aval científico ni empírico, los
llamados “planes de ajuste estructural” que obligaron a países tan
ricos en recursos como Argentina o Nigeria a privatizar todos sus
espacios públicos productivos con el objetivo de garantizar el pago de
la deuda a los bancos privados del Occidente desarrollado y cavar, al
mismo tiempo, tumbas para sus propios habitantes?
Cuando en 1989 se celebró el tristemente famoso –triste
sobre todo para los pueblos del Sur- Consenso de Washington,
uno de sus más impactantes principios era el de la extensión
global del sistema democrático unido al sistema de mercado.
Todo científico de la política sabe con certeza que un sistema
democrático, con toda su división de poderes y sus costosísimos
procesos electorales, necesita de una fuerte capitalización
económica para funcionar correctamente. ¿Cómo no reconocer tal
evidencia? ¿Cómo extender, pues, los procesos democráticos sin
aplicar políticas reales de desarrollo económico, social y cultural
reales y efectivas? ¿No estaremos recayendo en riesgos humanos
que pueden ser evitados aplicando la prevención y la
precaución?. La evidencia de que sin una economía sana no
puede haber democracia se ha intentado solucionar con la
exportación del sistema de mercado, ocurra lo que ocurra con las
poblaciones a las que se les envían y se les imponen tales
procedimientos. Y esto conduce a varios callejones sin salida. El
primero es que estamos ante un círculo vicioso, si la democracia
requiere mercado y el mercado requiere democracia ¿cuál de los
dos aplicar primero? Como afirma el cínico ensayista
norteamericano Robert D. Kaplan en su texto La Anarquía que
viene, en los países a los que exportamos las democracias y el
mercado, hay que mantener -¿militarmente?- la democracia
hasta que los mercados libres produzcan suficiente desarrollo
económico y social para que las propias democracias importadas
puedan sostenerse por sí mismas. Es decir, la exportación de
democracias a los países empobrecidos va a dividir el mundo en
una nueva polarización: las democracias fuertes con capacidad

Cultura y Naturaleza: La Construcción


Del Imaginario Ambiental Bio(Socio)Diverso 99
económica para financiar los carísimos procesos democráticos y
las “democracias” débiles incapaces de sostener por sí mismas
tales procedimientos hasta que el mercado libre se lo permita.52 El
propio Bill Clinton se jactaba de presidir la democracia más
fuerte en un mundo compuesto de democracias más débiles. Y
aún más. Dado que en los países que surgieron de la descolonización
de la postguerra y de la neo-descolonización de la postguerra fría no
existía las mismas condiciones sociales que se dieron para facilitar la
extensión y expansión de las democracias occidentales, entre ellas, la
existencia de una clase media uniformizada y abastecida para el
consumo de bienes tanto materiales como “electorales”, esa
exportación de las democracias de mercado a los países descolonizados
se llevó a cabo fortaleciendo a determinadas minorías, las cuales se
han ido enriqueciendo gracias a la protección occidental de sus
intereses a costa de las mayorías, bastante más difíciles de convencer
de las conveniencias de esperar los efectos benéficos de la aplicación
del mercado libre. Así, asistimos no sólo a la brecha Norte-Sur, sino en
el mismo Sur, a la proliferación de “minorías dominantes del mercado”
para las que las instituciones democráticas sólo son legítimas si
favorecen sus intereses de acumulación salvaje de capital. En Filipinas,
el 1% de “chinos” controlan el 60% de la economía privada. Los
indonesios de etnia china, con sólo el 3% de la población, controlan
aproximadamente el 70% de la economía indonesia. Los blancos son
una minoria dominante del mercado en Suráfrica, y, en un sentido más
complejo, ocurre lo mismo en Brasil, Ecuador, Guatemala y gran parte
de América Latina. Los ibos son una minoría dominante del mercado
en Nigeria. Los croatas eran una minoría dominante del mercado en la
antigua Yugoeslavia. Y, sin duda, tal y como afirma Amy Chua, los
judíos son una minoría dominante del mercado en la Rusia post-
comunista.53 Aparte de los estallidos de violencia “étnica” que surgen
esporádicamente en los países contra esas minorías dominantes del
mercado (no olvidemos las masacres ruandesas a causa de la división
en clases propiciada por los holandeses durante el siglo XIX y gran
parte del XX), la antigua división geográfica y política Norte-Sur, ha
pasado a ser sociológica54 Las élites del Sur, que antes reclamaban

52 R.D.Kaplan The Coming Anarchy, Random House, NY, 2000, pp. 63-78 (Ed. Esp. Ediciones B, Barcelona, 2000;
argumentos defendidos también en los años cincuenta y sesenta por Seymour M. Lipset “Some Social Requisites of
Democracy: Economic Development and Political Legitimacy”, American Political Science Review, 53, 1959, pp. 69-
77; y por Samuel Huntington en Political Order in Changing Societies, Yale University Press, New Haven and London,
1968 (version castellana, El orden politico en las sociedades en cambio, Paidós, Barcelona, 1997); cfr., asimismo,
Chua, A., El mundo en llamas. Los males de la globalización, op. cit. p. 280.
53 Chua, A., op. cit. p. 16.
54 Nair, S., El Imperio frente a la diversidad del mundo, Areté, Barcelona, 2003, p. 231.

100 Joaquín Herrera Flores


formas de movilización socialistas o populistas para lograr un
autodesarrollo industrial y una modernización rápida, chocaron con la
intolerancia con modelos alternativos de desarrollo económico y la
revolución de las estructuras políticas y de decisión económicas
globales que llevó a cabo el neoliberalismo de los años ochenta y
noventa. Esos intentos de lucha contra la dependencia económica
fueron inducidos a fracasar financieramente (la deuda se traga casi la
mitad de muchos productos interiores brutos, estando la subida de los
intereses en manos de los acreedores), tecnológicamente (se les impidió
favorecerse de los inventos tecnológicos a causa de la protección de las
patentes) y sociológicamente (pues la invasión urbana, provocada por
el éxodo rural, ha creado monstruos de cemento y de miseria
absolutamente inabarcables) Por poner un ejemplo, uno de los países
más comprometidos con el continente africano, ha reducido su ayuda
del 0’62% del PIB al 0’32% a inicios del siglo XXI, a pesar de haberse
agravado la situación económica, social y política de los pueblos del
“continente abandonado”. De la división Norte-Sur, hemos pasado a la
división entre países y clases sociales dominantes y países y clases
sociales impotentes.
El deber de precaución ambiental nos obliga a defender la
diversidad política: primero, intentando prever y, por supuesto,
detener e impedir las consecuencias de esas innovaciones y
revoluciones sociales neoliberales que han llevado a las cuatro
quintas partes del planeta a situaciones de miseria y violencia
estructurales. Segundo, la demostración de los males de esta
revolución neoliberal no debe recaer en las sociedades y pueblos que
sufren la “democracia de mercado”: la carga de la prueba debe recaer
en aquellas instituciones que se encargan de mantener un mundo
mísero y violento, en beneficio de unas pocas centenas de grandes
empresas que se enriquecen gracias a la explotación de lo que no está
expresamente prohibido. En tercer lugar, el deber de precaución
ambiental nos obliga a pensar continuamente en las alternativas
políticas y sociales que no beneficien a minorías de mercado, sino que
sean las más seguras para las mayorías populares. Y, en cuarto
lugar, a través de la aplicación y garantía de tal deber de precaución
ambiental habría que propiciar no un tipo de democracia orientada
únicamente a las minorías favorecidas por el mercado, sino a la
consecución de procedimientos que permitan, tanto una mayor
participación política, como una mayor posibilidad y capacidad de
toma de decisiones por parte de esas mayorías populares ahora
instaladas en la impotencia, la miseria y la autodestrucción.

Cultura y Naturaleza: La Construcción


Del Imaginario Ambiental Bio(Socio)Diverso 101
Ampliando a lo “ambiental” el principio de precaución, tal y
como lo formulan Riechmann y Tickner, cinco serían, pues, las
condiciones que habría que asumir para poder implementar el deber
de precaución ambiental:
1) la responsabilidad: al iniciar una actividad nueva –sea
científica, tecnológica o política- recae sobre el iniciador la carga de la
prueba de demostrar que no hay vía alternativa más segura para
conseguir beneficios y garantías lo más generalizados posibles.
2) el respeto: en condiciones de riesgo grave –tanto para la salud
como para la capacidad humana de decidir sobre su propio destino-
se impone la actuación preventiva para evitar daños, incluso si no
existe una certidumbre científica –natural o social- total de las
relaciones causa-efecto.
3) la prevención: surge el deber de ingeniar medios –sociales,
científicos y políticos- que eviten los daños potenciales –a la salud
física, cultural y política-, más que buscar controlarlos y
“gestionarlos” a posteriori.
4) la información y el saber: existe el deber de comprender,
investigar, informar (sobre todo a los potencialmente expuestos al
riesgo) y actuar sobre los potenciales impactos; no cabe escudarse en
la ignorancia, ni en los pretendidos “fines de la historia”
5) compartir el poder: extensión de una democracia participativa
y “decisoria”, que comprenda tanto a los elementos científicos y
técnicos como a los procedimientos de decisión ciudadanos.

Ejemplo de esta asunción colectiva del deber de precaución


ambiental ha sido laPrimera Reunión de Activistas (grassroots) sobre
la Devastación Ambiental.55 En esa Reunión Internacional se presentó
la Declaración de Biodevastación y Destrucción Ambiental, en el
marco del Global Organizing for Citizen Empowerment (Organizando
Globalmente el Fortalecimiento de los Ciudadanos) En esa
Declaración (de asunción de deberes) se formularon una serie de
obligaciones que, interpretadas ampliamente, nos pueden servir de
caracterización de lo que aquí hemos designado como “imaginario
ambiental bio(socio)diverso::
1ª – cuando exista una amenaza para la diversidad ambiental
(natural, social o política), esté o no fundamentada teórica o
científicamente por los académicos y juristas, debe ser pospuesta hasta
que se conozcan sus consecuencias (naturales, sociales o políticas).

55 celebrada durante los días 17 al 19 de Julio de 1998 en St. Louis, Missouri, EEUU.

102 Joaquín Herrera Flores


2ª – obligación de aplicar el principio de responsabilidad inversa
(“Reverse Onus Principle”): cuando exista una estimación razonable
que un proceso (natural, social o político) o un producto pueden
presentar una amenaza a la diversidad ambiental, la responsabilidad,
tanto en lo que concierne a su demostración de inicuidad como con
respecto a sus consecuencias, es para el que propone el proceso o el
producto.
3ª – el principio de evitación de los desastres (“Prevention of
Disasters Principle”): evitar que, a causa de las políticas de “mano
invisible” y generalización de los mercados a todas las actividades
humanas, se creen las condiciones que sean dañinas para la salud y
para la misma supervivencia de los afectados.
4ª – el deber de impedir la transferencia de substancias y de
procesos sociales, culturales o políticos a otras regiones del mundo.
5ª – el deber de impedir actividades que no estén culturalmente
controladas por las poblaciones nativas y los pueblos indígenas.
6ª – el deber de aplicar el principio de equidad entre las
generaciones (“Intergenerational Equity Principle”): garantizando la
asunción y garantía jurídica de deberes con respecto a las
generaciones futuras y a los procesos naturales en su evolución
biodiversa.
7ª – el principio de Nüremberg (“Nüremberg Principle”): los
ciudadanos y los pueblos nativos e indígenas tienen el deber de
oponerse a prácticas políticas, sociales o naturales que afecten a la
diversidad ambiental.

Como se concluía al final de la ya citada Iniciativa de Yunnan,


es un deber humano encontrar un punto común entre diferentes
visiones del mundo: científica, social, local, global y política,
considerando cuidadosamente los importantes vínculos entre la
cultura, la naturaleza y el ambiente sociopolítico externo. Ello
significa reorientar la ciencia, y la política, hacia el reconocimiento de
formas alternativas válidas de conocimiento, de acción y de
organización. No hay mejor definición de lo que en estas páginas
hemos querido designar por “imaginario ambiental bio(socio)diverso.

Cultura y Naturaleza: La Construcción


Del Imaginario Ambiental Bio(Socio)Diverso 103
104 Joaquín Herrera Flores
O Tripé do
Desenvolvimento Includente
Ignacy Sachs1

N este começo do século, marcado por relações cada vez


mais esquizofrênicas entre os mercados financeiros e a
economia real, é no bojo desta última que se dará à prova de fogo
para o governo. É lá que se geram oportunidades de trabalho decente.
Quarenta anos de crescimento rápido, porém socialmente perverso,
excludente e fortemente concentrador de renda, seguidos de mais de
duas décadas de desaceleração, em grande parte perdidas, tornaram
o Brasil um dos países mais desiguais do mundo com fortes índices
de desemprego e subemprego.
Para reverter esta situação e começar a saldar a dívida social
acumulada não basta voltar a crescer. É essencial que o Brasil
ingresse na trajetória virtuosa de desenvolvimento includente
sustentado por um crescimento com alta densidade de empregos.
Para tanto é necessário elaborar uma estratégia voltada,
simultaneamente, à busca de alta produtividade no núcleo
modernizador da economia nacional, à promoção de crescimento
puxado pelo emprego nos setores produtivos onde é ainda possível
avançar por meio de métodos intensivos em mão-de-obra e,
finalmente, à expansão dos instrumentos de ação direta sobre o bem-
estar da população sob a forma de redes públicas de serviços de base
(educação, saúde, saneamento e habitação).

1 Diretor de Pesquisa Emérito da Ecole des Hautes Études en Sciences Sociales e co-diretor da CRBC – Centre de
Recherches sur le Brésil Contemporain, Paris-França.

O Tripé do Desenvolvimento Includente 105


Por razões óbvias, o Brasil deverá concentrar a maior parte da
sua capacidade de investimento na implementação de uma estratégia
voltada à consolidação e expansão do núcleo modernizador da
economia nacional. Este é constituído por indústrias de alta
tecnologia e pela agricultura mecanizada de grãos, ambos capazes de
competir nos mercados mundiais, produzir a preços acessíveis
artigos de consumo de massa e gerar elevado valor agregado; porém
pouquíssimos empregos diretos. É verdade que elas têm um impacto
no mercado de trabalho, induzindo empregos indiretos, tanto na
produção de insumos como de bens e serviços consumidos pelos
trabalhadores e funcionários do núcleo modernizador.
A política de empregos deve explorar ao máximo este efeito
multiplicador nos outros setores da economia. Em particular naqueles
que produzem bens e serviços não submetidos à concorrência estran-
geira (os assim chamados não comerciáveis) onde existem, portanto,
maiores margens de liberdade na seleção das tecnologias: serviços
sociais, técnicos e pessoais, construção civil e obras públicas.
Convém ainda expandir ao máximo o “crescimento puxado pelo
emprego” na agricultura familiar, no artesanato e nas indústrias
naturalmente intensivas em mão-de-obra, velando para que a sua
competitividade nos mercados internacionais não seja baseada,
unicamente, em fatores espúrios (salários baixos, longas jornadas de
trabalho, falta de acesso à previdência social, sonegação fiscal).
O Brasil é um país abençoado com a maior biodiversidade e a
maior floresta tropical do mundo, amplas reservas de terras
cultiváveis, boa disponibilidade de recursos hídricos na maior parte
do território, climas favoráveis à produção vegetal (o sol é e será
sempre nosso), gente disposta para trabalhar a terra em vez de
reclamar empregos no asfalto e excelentes agrônomos e biólogos.
Está, assim, em condições de partir para um novo ciclo de
desenvolvimento rural, liderando o processo mundial de criação de
uma civilização moderna e sustentável baseada na utilização dos
recursos renováveis, com o complexo bioindustrial como carro-chefe.
A produção de biomassa pode gerar um grande número de
empregos agrícolas e florestais, a começar pela produção de alimentos.
O Brasil ainda não cumpriu a meta da segurança alimentar e não
eliminou a fome. Outrossim, uma oferta elástica de bens de salário, a
começar pelos alimentos, condiciona a aceleração do crescimento
puxado pelo emprego em condições não inflacionárias.
Por outro lado, a transformação das biomassas em alimentos,
rações animais e um leque crescente de produtos, tais como

106 Ignacy Sachs


bioenergia, adubos, materiais de construção, fibras, plásticos,
fármacos e cosméticos cria oportunidades de empregos secundários
nas indústrias, e, terciários nos serviços técnicos e comerciais.
Acrescente-se a isto os empregos relacionados com a redução
de desperdício no uso dos recursos naturais (conservação de energia
e de água, reciclagem) e com uma manutenção mais cuidadosa do
patrimônio existente de infra-estruturas, equipamentos e parque
imobiliário, uma maneira de prorrogar a sua vida útil, e reduzir, desta
forma, a demanda pelo capital de reposição. Em ambos os casos,
trata-se de fatores que contribuem ao crescimento sem exigir novos
investimentos.
Como o terceiro pé do tripé, destacam-se os já mencionados
serviços que atuam diretamente sobre o bem-estar das populações.
Normalmente ministrados através de redes públicas de acesso
universal, a educação e a saúde também podem ser fontes de
numerosos empregos. A sua importância deve-se ao fato de que estes
serviços permitem a efetivação de direitos humanos fundamentais.
Não esqueçamos que o desenvolvimento, em última instância,
consiste precisamente na universalização do conjunto dos direitos
humanos das três gerações: civis, cívicos e políticos; econômicos – a
começar pelo direito ao trabalho decente –, sociais e culturais; por
fim, os direitos coletivos ao meio ambiente, à infância, à cidade, ao
desenvolvimento.

O Tripé do Desenvolvimento Includente 107


Amazônias: Sociedades Diversas
Espacialidades Múltiplas1
José Aldemir de Oliveira2

Senhoras e senhores do Direito, o que um geógrafo,


ainda por cima um geógrafo da periferia pode lhes
dizer num encontro como esse? Ficarei na minha canoa e buscarei
discutir a globalização e em seguida apontar alguns fragmentos de como
ocorre a inserção da Amazônia, nesse processo, a partir das
espacialidades, conforme o título do meu texto espacialidades múltiplas.
Em primeiro lugar, qual o meu entendimento de globalização. O
tempo em que vivemos é único. Compõe-se de vários tempos e só é
rigorosamente semelhante a si mesmo: jamais o homem teve
oportunidade de desenvolver tantas técnicas. Entretanto, como
anteviu Euclides da Cunha no início do já passado século XX, temos
tudo e nada, porque nos falta os desdobramentos dos aconteceres. No
início de século, milênio em que vivemos, há um ritmo que aniquila o
tempo e os espaços, colocando em xeque as verdades e as dúvidas.
Chegamos a não ter certeza do que sabemos, mas também a duvidar
do que não sabemos. Duvidar das certezas da ciência tem sido um
passo importante para grandes descobertas, pois, como nos afiança
Kafka, há um destino, mas não há um caminho que nos leve até ele.
Muitas vezes o que chamamos de caminho é apenas indecisão.
No nosso agora, temas como o deste encontro que discute o
direito das populações locais, são asfixiados pela globalização, como
um processo que tendência a homogeneizar o modo de vida e se
1 Palestra proferida na mesa-redonda Direito Sócio-Ambiental, Globalização e o Espaço Amazônico, no I Ciclo
Internacional de Conferências: Pensando o Direito na Amazônia / PPGDA-UEA.
2 Professor Titular da Universidade Federal do Amazonas e Diretor-Presidente da Fapeam.

Amazônias: Sociedades Diversas


Espacialidades Múltiplas 109
caracteriza pelas transformações de espaços nacionais em espaços
econômicos internacionais, que acelera a circulação voltada quase
que exclusivamente para a reprodução ampliada do capital. Por outro
lado, contraditoriamente, o nosso agora é assinalado pelo avanço
excepcional da ciência, da técnica e da informação – a unimídia3 –
estabelecendo a informatização da paisagem e das relações humanas.
Esse processo só foi possível graças ao desenvolvimento da técnica
que possibilitou a todos os lugares serem atingidos por certas
dimensões da globalização, a despeito das inumeráveis dificuldades
socioculturais.
Cabe, ainda, destacar o papel da mídia na reconfiguração desse
processo, quase sempre considerando a globalização como fábula
fundada na economização da vida social e da vida pessoal. “É o
mundo tal como nos fazem ver e crer”. Alavancada pela midiamorfose4
incute a idéia de que a difusão instantânea da notícia nos torna mais
informados. O mercado é apresentado como acessível para todos,
sendo capaz de homogeneizar tudo. O Estado é apresentado como
não tendo mais capacidade de investimentos sociais, pois está em
crise.
Como resultado, configura-se a degradação da qualidade de
vida e dos valores. A adesão desenfreada aos comportamentos
competitivos, que caracterizam as ações hegemônicas presentes no
processo de globalização aparece como perversidade que deixa de ser
uma manifestação isolada atribuída a distorções da personalidade,
para se estabelecer como um sistema.
No entanto, é preciso também discutir a globalização enquanto
possibilidades, considerando o fato de que a articulação que tende à
sociedade global é dinâmica e contraditória. Esta dinamicidade é
dada pelos lugares que contêm especificidades e peculiaridades, as
quais muitas vezes escapam às determinações mais gerais da
História, à medida que a história do lugar não é necessariamente o
espelho da história de um país ou de uma sociedade. A partir desse
entendimento, que está à possibilidade de produção, daquilo que o
geógrafo Milton Santos denominou de outra globalização.
O homem não mora no mundo, ele mora num lugar. Este lugar
pode escapar das tendências à homogeneização colocadas pelo
mundo globalizado, pois as forças que a criam podem também criar
o seu contrário. O lugar tem um tempo e um espaço que são pouco
globais e estão prenhes de significados. No lugar emerge a diferença
e brota a luta que aparece como possibilidade de produzir uma nova
3 Campo criado pela convergência da mídia digital. Nova escrita eletrônica para a comunicação do amanhã.
4 Revolução da comunicação devido à potência dos computadores multimídia e às redes de comunicação.

110 José Aldemir de Oliveira


história, de onde podem brotar reações que nos levam para outra
percepção da história e encorajam a superação da práxis tradicional,
abrindo lugar para a utopia e a esperança. Então a “história e os
lugares seriam da nossa humanidade comum e não mais apenas dos
dominantes”.
Dito isto, entro na segunda parte da minha intervenção e
quero-lhes falar de um desses lugares enquanto possibilidades, a
Amazônia.
No nível da informação predomina o entendimento da Amazônia
como exuberante, grandiosa, folclórica, fotogênica, concebendo
apenas a paisagem natural, não considerando as relações sociais. O
espaço aparece como uma instância inumana (o homem é um
intruso). Sem captar o essencial separam-se as pessoas de seu
espaço, como se fosse possível compreender o espaço sem as relações
humanas. Neste sentido, a Amazônia é veiculada como espaço
fragmentado em glebas, lotes, reservas, áreas de preservação,
unidades de conservação, áreas de assentamento, quase sempre
superpondo territórios, cujos limites não necessariamente coincidem
com o espaço vivido.
Se quisermos efetivamente compreender a Amazônia teremos
que revelar um filme no qual aparecem retratos de pessoas
identificadas no processo que fragmentou espaços, ao mesmo tempo
em que vem à tona o passado por meio de coisas e sentimentos que
mudaram ou se refizeram em outro patamar. Ou seja, é preciso
compreender e considerar o homem da Amazônia como sujeito de um
processo que, se de um lado dilacera espaços, de outro contém a
possibilidade e a capacidade de embalar novos sonhos e novas
ilusões sem melancolias nem saudosismos, mas com “ódio sossegado
e com paciência”. Na Amazônia, índios, posseiros, peões, ribeirinhos,
seringueiros e caboclos são sujeitos e construtores do espaço e da
história, o que não significa deixar de reconhecer a sua condição de
excluídos.
Ao mesmo tempo deixo claro que não se trata de devaneio, pois
como adverte Foot Hardmam “todos nós sabemos a barra de viver
sem chão, o peso de cada minuto nesses tristes trópicos, a desolação
que é ver a cidade virada pelo avesso; todos nós sentimos, um dia
qualquer, a vertigem do vazio, num cenário em que já não cabem
mais maravilhas mecânicas”.
Isto não é apenas uma visão, é o que caracteriza as relações
impostas para Amazônia. O avanço das relações sociais de produção na
Amazônia estabelece novas formas e conteúdos espaciais, impondo o

Amazônias: Sociedades Diversas


Espacialidades Múltiplas 111
novo e destruindo a natureza, as culturas e os modos de vida. Esse
processo, se não é específico para a Amazônia, tem aqui maior dimensão
em decorrência da predominância da natureza e de culturas ainda não
adaptadas a uma tendência de homogeneização que ocorre com o avanço
do capital. Esse processo tem como base não a história ou a cultura, mas
a natureza. Em decorrência desse fator, mudanças significativas são
estabelecidas na espacialidade do lugar, desterritorializando sujeitos que
se reterritorializam a partir de novas dimensões.
A desterritorialização não deixa de ser uma violência e tem
ocorrido com mais agudeza, visto que há o predomínio da natureza
sobre a cultura. A violência se distingue, segundo Hannah Arendt, por
seu caráter instrumental, pois a violência é utilizada com o propósito
de revigorar o poder, até que no último estágio possa substituí-lo. Aqui
a interiorização do Estado é tênue e quando isso ocorre não se dá na
perspectiva da mediação, mas na defesa dos interesses quase sempre
contrários aos da sociedade local. No processo de criação de novas
territorialidades na Amazônia, o Estado fixa sua “racionalidade”,
explode as relações sociais preexistentes, reorganizando-as em função
das novas necessidades e de novos paradigmas, que propiciam no
espaço um elemento privilegiado. Na Amazônia, em diferentes épocas,
o Estado produz um espaço revelador de sua natureza imanente,
assinalado pelo signo da violência.
A violência se configura na determinação das fronteiras, que
podem corroborar e mesmo criar, recriar ou redimensionar a
identidade cultural, pois nem toda fronteira, no sentido da
apropriação, coincide com a fronteira política concreta. Rogério
Haesbaest denomina-a de “apropriação simbólico-cultural”.
Na conjuntura atual, a construção de autonomia no contexto de
uma sociedade tendente à homogeneização é cada vez mais difícil,
pois sendo estruturas articuladas a redes globais controlam e
oprimem a vida cotidiana. A reterritorialização, neste contexto, é um
processo ligado à funcionalidade do território – zoneamento
econômico-ecológico, preservação, biotecnologia, bionegócio – que
visa influir em ações a partir do controle do território, determinado
por dois fatores: a revolução das técnicas que se configuram em
qualidade total do território e a questão ambiental que, mais do que
um princípio, significa transformar a natureza em mercadoria. Isso
determina uma revalorização da Amazônia segundo um novo modelo
de exploração - o desenvolvimento sustentável – no qual perpassam
interesses de organizações governamentais ou não, forças armadas,
grandes empresas e grupos locais.

112 José Aldemir de Oliveira


Por outro lado, é necessário assinalar que o processo de
destruição contém a possibilidade da reconstrução, que ocorre a
partir da resistência. Por isso, apesar de tudo, há resistência e por
isso estamos aqui, para discutir alternativas. E nesse sentido, a
discussão sobre o direito das populações locais deve levar em conta a
Amazônia como uma formação econômico-social e cultural produzida
a partir da dinâmica histórica, territorial e cultural.
As territorialidades são produzidas socialmente, são produtos
de uma cultura datada num determinado tempo e lugar.
Concomitantemente, refletem as condições específicas do lugar e dos
conflitos que não podem ser considerados exclusivamente do ponto
de vista econômico e jurídico, pois têm dimensões que retratam o
vivido de quem as constrói.
É preciso compreender a territorialidade que resulta das duras
condições de vida, mas também da resistência, da força inquebran-
tável para a construção de uma nova vida que não é necessariamente
melhor ou pior, mas é uma outra vida. Estas ações que se concretizam
em territorialidades, quase sempre são desconsideradas, pois estão
eivadas de coisas simples, transmutadas numa sensação de extrema
obviedade pela freqüência do estar sempre por aí e porque quase
sempre a nossa preocupação é com as carências e com as perdas,
concebendo e percebendo o espaço como inumano. Essa é a questão
de fundo sem a qual a nossa intervenção continuará sendo inócua.
Essa nova visão deve compreender, além das macro-estruturas,
as coisas simples à vivência do dia-a-dia nos trópicos. Portanto, para
além do direito à biodiversidade, é preciso buscar o direito enquanto
apropriação da sociodiversidade da Amazônia.
Outro aspecto que quero enfatizar, já encerrando, não se pode
partir da premissa de que o homem da Amazônia é apenas vítima. A
expansão da fronteira é a reatualização da exclusão, produzindo
novos e velhos pobres da terra, mas é também onde emergem novos
agentes produtores do espaço. Para essa gente, o processo de
produção do espaço tem perdas e ganhos, mais perdas é verdade. Há
especificidades que decorrem do fato de os eventos que os atingem
terem dinâmicas próprias, o que dificulta, senão impossibilita
estabelecer generalizações para uma área tão diferenciada como a
Amazônia. O mais correto é considerarmos as Amazônias, pois elas
são várias e múltiplas.
Por fim, os amazônidas conhecem os atalhos e as trilhas, nas
quais são traçadas a caminhada que é a história. Muitas vezes não se
sabe de onde vêm, mas sempre sabem para onde vão. Por instantes

Amazônias: Sociedades Diversas


Espacialidades Múltiplas 113
se perdem nos caminhos, na floresta, nos rios, nas estradas de terra
batida, nas ruas, nos becos, nos igarapés, nas pontes, enfim, no
espaço vivido do campo e das cidades que são espacialidades das
vidas. No entanto, vai-se em frente, pois o importante é se perder,
porque ao perder descobre-se com mais profundidade o caminho que
levam aos destinos e, nessa busca, descobrem-se armadilhas que
aniquilam porque matam, mas aprimoram porque ensinam a resistir.

REFERÊNCIAS
ARENDT, Hannaah. Da violência. Brasília: Editora da UnB, 1985.
BECKER, Bertha K. “Novos rumos da política regional: por um desenvolvimento
sustentável da fronteira amazônica”. In: A Geografia Política do desenvolvimento
sustentável. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 1997, p. 421-443.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 6.ª ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1986.
HAESBAERT, Rogério. “Desterritorialização: entre as redes e os aglomerados de exclusão”.
In: Geografia: conceitos e temas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995, p. 165-206.
LEFEBVRE, Henri. De L'État: Les contraditions de l'État moderne dialectíque et de l'État.
Paris: União Générale D'éditions, 1978.
MARTINS, José de Souza. Não há terra para plantar neste verão. 2.ª ed. Petrópolis/RJ:
Vozes, 1988.
SEEGER, Anthony & CASTRO, Eduardo Viveiros de. “Terras e territórios indígenas”.
Encontros com a Civilização Brasileira. Rio de Janeiro, 12: p. 101-14, 1979.
SILVA, Marilene Corrêa da. Processos de Globalização na Amazônia. Manaus: Universidade
Federal do Amazonas, 1996.
SOUZA, Marcelo José Lopes de. “O território: sobre espaço e poder, autonomia e
desenvolvimento”. In: Geografia: conceitos e temas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995,
p. 77-116.

114 José Aldemir de Oliveira


Sociedad del Conocimento,
Biotecnologia y Biodiversidad
Juan Antonio Senent de Frutos1

1. BIOTECNOLOGÍA, RECURSOS NATURALES Y


BIODIVERSIDAD

D
esde el origen de la era moderna, se desarrolla
junto a otros procesos, el proceso de colonización
de otras tierras, otros pueblos y otras culturas. Hoy existen otras
formas más complejas y más sutiles de colonización. Durante siglos
se han menospreciado las formas de conocimiento y de acción sobre
el medio ambiente de los pueblos colonizados por occidente. En
cambio, aunque la actitud cultural de fondo no ha cambiado, hoy se
considera un valioso recurso económico para la explotación comercial
la “biodiversidad”2 que albergan los territorios tradicionales de los
pueblos atrasados, las llamadas reservas naturales de la humanidad.
En un mundo cada vez más uniformado, monocultural y donde los
productos disponibles para el consumo están estandarizados, resulta
atractivo para las empresas transnacionales acudir a las fuentes de
la diversidad para la obtención y comercialización de nuevos produc-
tos para el consumo, nuevas medicinas, o incluso para la ampliación
del mercado de procesos industriales con la exportación de
tecnologías y recursos para producción de bienes a esos pueblos que
secularmente han sido autónomos y que originariamente no han
necesitado la transferencia de tecnología para su sostenimiento.

1 Profesor de Filosofía del derecho de la Universidad de Sevilla-España.


2 Uno de los exponentes de ese interés es el Convenio sobre la Diversidad Biológica, hecho en Río de Janeiro en junio
de 1992.

Sociedad Del Conocimento,


Biotecnologia y Biodiversidad 115
Estos pueblos han sabido reconocer, utilizar y desarrollar los
recursos que su medio natural les ofrecía, y sobre los cuales han
desarrollado el llamado “conocimiento tradicional”3 lo cual les ha
permitido alcanzar un proceso acumulativo de conocimiento sobre el
medio y de técnicas de producción propias. Sin embargo, esto parece
que no es suficiente para reconocerlos como verdaderos titulares de
los descubrimientos de los recursos biológicos o del desarrollo y
manipulación de especies o variedades para la producción agrícola a
lo largo de siglos. Sobre estos recursos y conocimientos se despliega
la llamada “biopiratería”4 (Vandana Shiva) o el “saqueo del cono-
cimiento”5 (Martin Khor) por medio fundamentalmente de las
empresas transnacionales dedicadas a la biotecnología, que por
tanto, representan una nueva fase de colonización6 sobre recursos
naturales y culturales de otros pueblos. Sin embargo, estas
actividades muchas veces amparadas en instrumentos normativos y
otras en la propia lógica de las prácticas empresariales, no son
consideradas por sus autores como actos ilícitos ni ilegítimos, no
son ni “robos” ni “saqueos”; antes bien, están respaldadas por la
buena conciencia de quienes se dicen servidores del desarrollo de la
humanidad.
De lo que en el fondo se trata es que para construir un
sistema jurídico de propiedad intelectual y de patentes en relación
con los recursos y saberes tradicionales de los pueblos “en vías de
desarrollo”, hay que partir de algunas concepciones culturales y de
racionalidades implícitas en esas prácticas y en esas disposiciones
normativas. Esto es lo que trataremos de explicitar en este trabajo
desvelando los que consideramos como supuestos fundamentales
para justificar ese orden de cosas. Para ello realizaremos un
examen de la obra de John Locke. No se trata de ningún
anacronismo, sino de examinar críticamente las raíces culturales de
estas prácticas que pueden ser reconocidas a través de la obra de

3 En el preámbulo del Convenio sobre la Diversidad Biológica se reconoce “la estrecha y tradicional dependencia de
muchas comunidades locales y poblaciones indígenas que tienen de sistemas de vida tradicionales basados en los
recursos biológicos, y la conveniencia de compartir equitativamente los beneficios que se derivan de la utilización
de los conocimientos tradicionales” (par. 12º).
4 Biopiratería. El saqueo de la naturaleza y del conocimiento, Icaria, Barcelona, 2001 (traducción del original inglés
Biopiracy). También sobre esta cuestión de Vandana Shiva, ¿Proteger o expoliar? Los derechos de propiedad
intelectual, Intermon Oxfam, Barcelona, 2003.
5 El saqueo del conocimiento. Propiedad intelectual, biodiversidad, tecnología y desarrollo sostenible, Icaria-Intermon
Oxfam, Barcelona, 2003 (traducción del original inglés Intellectual property, biodiversity and sustainable
development).
6 “La biotecnología, doncella del capital en la era postindustrial, hace posible la colonización de lo autónomo, lo
libre, y lo autorregenerativo. Mediante la ciencia reduccionista el capital puede alcanzar espacios a los nunca había
accedido”, Biopiratería, op. cit., p. 67.

116 Juan Antonio Senent de Frutos


alguien que expone con absoluta maestría la relación que deben
tener los pueblos occidentales con otros pueblos y sus recursos
naturales, y que por tanto refleja el patrón normativo para realizar
la colonización del mundo por los que él llamaba la “civilización de
pueblos europeos”. Al igual que hoy, Locke no tenía ninguna mala
conciencia, antes bien realiza una cuidada fundamentación de la
dominación de otros mundos en nombre de la defensa del propio
“género humano”. Cuando no existía un régimen de derecho
positivo que regulara esas relaciones entre pueblos él desarrolla
una visión del derecho natural que ampara lo que críticamente
entendemos como dominación.7 Hoy, cuando todavía no existe un
régimen jurídico que ampare suficientemente los conocimientos
tradicionales en sus países de origen, o están discutiéndose y
revisándose las reglas internacionales o multilaterales sobre los
mismos, se proyecta la sombra de un patrón normativo que bebe en
las mismas fuentes culturales de ese “derecho natural” descrito por
Locke, y desde el que se justificó la primera colonización en la era
moderna, y que hoy prosigue con nuevas formas en la era
postmoderna8 pero bajo presupuestos semejantes. Lo cual muestra
que nuestra era, dicho en el lenguaje de la música, no es sino una
variación sobre un mismo tema.
Entendemos que cambian las formas y se renuevan los
contextos pero siguen presentes los mismos supuestos justificadores
de estas prácticas. Se ha pasado de la era industrial, cuyos albores
conoció el propio Locke a la era postindustrial, que según algunos se
define por la llamada sociedad del conocimiento o de la información.9
Ello implica una nueva fase de desarrollo de las fuerzas de

7 A pesar de que la literatura habitual presenta a John Locke como un defensor de la libertad y de una racionalidad
humana universalista que fundamentaría el paradigma moderno de los derechos humanos universales, no se debe
pasar por alto que para él, este planteamiento era perfectamente compatible con prácticas que hoy entendemos que
violan la dignidad humana. De este modo, su defensa de la libertad y de la igualdad básica entre los seres humanos,
implicará igualmente la defensa y justificación de la ejecución capital (§8, 11, 18, 19, 20), los trabajos forzados o
la esclavitud (§11, 22-24). Esto es algo que no es marginal en su obra, sino que ocupa un lugar central, y que
atraviesa toda la obra de su Segundo Tratado sobre el gobierno Civil. En el comienzo de la misma, intitula su capítulo
4: De la esclavitud. La legalidad y legitimidad de esta práctica es absoluta para Locke, quien en el capítulo 7 (De la
sociedad política o civil), considera compatible la existencia de una sociedad política constituida con la esclavitud:
“(...) hay otra clase de siervos a los que damos el nombre de esclavos. Estos, al haber sido capturados en una guerra
justa, están por derecho de naturaleza sometidos al dominio absoluto y arbitrario de sus amos. Como digo, estos
hombres, habiendo renunciado a sus vidas y, junto con ellas, a sus libertades; y habiendo perdido sus posesiones al
pasar a un estado de esclavitud que no los capacita para tener propiedad alguna, no pueden ser considerados como
parte de la sociedad civil del país, cuyo fin es la preservación de la propiedad” (§85). De este modo, un estado de
derecho “civilizado” es compatible con la exclusión legalizada que despoja de los derechos fundamentales de las
personas como la vida, la libertad o la integridad física a quienes ha situado fuera del “género humano”.
Sobre estas cuestiones, resulta muy esclarecedor el trabajo de F. Hinkelammert, “La inversión de los derechos
humanos: el caso de John Locke”, en El vuelo de Anteo. Derechos Humanos y crítica de la razón liberal, J. Herrera,
ed., Desclée de Brouwer, Bilbao, 2000, pp. 79-113.
8 Sobre la continuidad geoestratégica entre la era moderna y la postmoderna, puede verse entre otros, E. Dussel,
Hacia una filosofía política crítica, Desclée de Brouwer, Bilbao, 2001, pp. 403-407; 423-433.
9 Sobre esto un clásico de nuestro tiempo es la trilogía de Manuel Castells La era de la información (Alianza editorial,
Madrid, 3ª edición, 2001).

Sociedad Del Conocimento,


Biotecnologia y Biodiversidad 117
producción capitalistas10. Hoy ya parece que no cuenta tanto en los
procesos económicos y en la producción de valor los recursos
materiales, las “materias primas”, como la obtención de un
conocimiento a partir del cual se pueden desarrollar los procesos
industriales. La nueva materia prima ya no es tanto los recursos
físicos que sustentan el proceso económico como el propio
conocimiento acerca de los recursos, a partir del cual podrían en
principio reproducir, por ejemplo, las diversas formas de materia viva
para su mercantilización11. Por ello, el desarrollo de la biotecnología12,
es fundamental en la sociedad del conocimiento. Sin embargo,
sostenemos que el planteamiento lockeano no es extraño a este tipo
de desarrollo sino que su lógica está implicada en este proceso. La
llamada “biopiratería” no se sustenta sobre el expolio y acumulación
de los bienes de otros, sino en la apropiación del conocimiento
tradicional sobre diversas formas de materia viva identificadas o
producidas por los “pueblos atrasados”, para su reproducción y
explotación en el llamado libre mercado.13 En esta nueva fase de
reordenación de las fuerzas productivas, ese conocimiento sobre la
biodiversidad que era patrimonio de esos pueblos es un nuevo objeto
de interés y de acción depredadora so capa de servicio a la
humanidad.
Por ello, vamos a centrarnos en un tema de discusión que no es
únicamente jurídico, ni económico, sino que requiere de un análisis
filosófico sobre los fundamentos de esas prácticas. Se trata de ver el
problema del tipo de racionalidad, los presupuestos epistemológicos,
tecnológicos y sociales que subyacen a la dinámica de la apropiación
privativa de los “recursos naturales” y los saberes tradicionales de las
sociedades tradicionales, por medio especialmente del mecanismo del

10 Castells en este sentido habla de un “capitalismo informacional”: “la globalización avanza de forma selectiva,
incluyendo y excluyendo a segmentos de economías y sociedades dentro y fuera de las redes de información,
riqueza y poder que caracteriza al nuevo sistema dominante (...) Pero en este proceso de reestructuración social
hay más que desigualdad y pobreza. También hay exclusión de pueblos y territorios que, desde la perspectiva de
los intereses dominantes en el capitalismo informacional global, pasan a una posición de irrelevancia estructural”,
La era de la información, Vol. 3, Fin de milenio, op. cit., p. 195.
11 Cf. “Biotecnología: negocio del futuro” de Rubén Urtuzuástegui: “El biólogo Crade Benson descubrió hace poco la forma
de codificar electrónicamente archivos genéticos. Con este avance la biología pasará de la era experimental a la digital.
Por eso, en el futuro cercano el lenguaje biotecnológico representará la nueva manera de visualizar los negocios”. En
este sentido, como señala este autor, “se puede considerar al ser vivo como un programa ejecutable, como pieza de
software. Algunos científicos aceptan que se pueden manipular las células del maíz o de una persona como si fueran
programas ejecutables. Por lo pronto, se trata tan sólo de un nuevo lenguaje, falta entender su gramática y sintaxis
para manipular al ser vivo a nuestro antojo.” (http://www.istmoenlinea.com.mx/ articulos/25906.html)
12 Como señala Castells, con el desarrollo de las tecnologías de la vida sobre todo a partir de mediados de los años
setenta, se inició una carrera para fundar firmas comerciales, la mayoría surgidas de las principales universidades
y centros de investigación hospitalarios ante las posibilidades que inauguraba la capacidad de desarrollar la
ingeniería de la vida, incluida la humana. Desde las empresas biomédicas a las empresas agrícolas se lanzaron a
desarrollar y aplicar esos recursos a sus campos productivos (La era de la información. Vol 1. La sociedad red, op.
cit., p. 85 y ss.).
13 Al que sólo tendrán acceso los que tengan capacidad de pago (demanda solvente), y por ello, aun siendo
“formalmente” todos iguales, no todos podrán operar en el mercado.

118 Juan Antonio Senent de Frutos


derecho de patente en el marco de los derechos de propiedad
intelectual. La existencia de estos mecanismos jurídico-positivos, y de
instrumentos legales multilaterales como el Acuerdo sobre los
Aspectos de los Derechos de Propiedad Intelectual relacionados con
el Comercio (ADPIC14), y sus consecuencias económicas y sociales
están muy relacionadas con algunos supuestos que hay que tener
presente para poder ir al fondo de estos mecanismos. ¿Por qué los
saberes tradicionales no se conceptúan como conocimiento? ¿Por qué
el trabajo humano de las comunidades tradicionales no es
considerado como tal, sino que se lo considera simplemente como
“recurso natural” que se puede apropiar privativamente? ¿Cómo se
justifica esa apropiación del “patrimonio común”? Para ello, como
hemos indicado, el análisis del pensamiento de John Locke nos
servirá de guía dialéctica.

2. ANÁLISIS DE LOS FUNDAMENTOS CULTURALES DE LA


APROPIACIÓN DE LA BIODIVERSIDAD

2.1. De la naturaleza como propiedad común del género


humano a su apropiación privativa

Locke desarrolla esta cuestión fundamentalmente en el capítulo


5 (“De la propiedad”) de su obra Segundo Tratado sobre el Gobierno
Civil15. El punto de partida formal es el derecho de propiedad como
derecho natural que será básico en el desarrollo del resto de
relaciones jurídicas, sociales y políticas.
En la escolástica cristiana medieval se consideraba que
existía una propiedad natural del género humano sobre todas las
cosas de la creación. En sentido análogo, en la moderna doctrina
social de la iglesia se postula “el destino universal de los bienes”.16
Locke, situándose supuestamente de la misma cosmovisión
cristiana (cf. §25), plantea, en cambio, este derecho natural de
modo que le permita desentenderse de cualquier dependencia

14 También conocidos como Acuerdo TRIPS (TRIPS Agreement) por sus siglas en inglés (Trade-related Aspects of
Intellectual Property Rights.
15 Citaré esta obra por la traducción de Carlos Mellizo para la edición de Alianza editorial, Madrid, 1990, del original
inglés The Second Treatise of Civil Goverment. An Essay Concerning the Original, Extend and End of Civil Goverment
(1690).
16 Cf. Ildefoso Camacho Laraña, Doctrina Social de la Iglesia. Quince claves para su comprensión, Desclée de Brouwer,
Bilbao, 2000, p. 73-95.

Sociedad Del Conocimento,


Biotecnologia y Biodiversidad 119
respecto al bien común o de cualquier “hipoteca social” del derecho
de propiedad individual. Desde esta opción inicial se restringe este
destino universal de los bienes a una estrategia de apropiación
privada.17
Inicialmente él mismo nos presenta su objetivo: “mostraré cómo
los hombres pueden llegar a tener en propiedad varias parcelas de lo
que Dios entregó en común al género humano; y ello, sin necesidad
de que haya un acuerdo expreso entre los miembros de la
comunidad” (§25). En su planteamiento arranca de un “estado
natural” que está más allá de cualquier acuerdo y de cualquier
sociedad o individuo. Sobre una hipotética situación originaria Locke
comienza su argumentación:
“Dios, que ha dado en común el mundo a los hombres, también
les ha dado también la razón, a fin de que hagan uso de ella para
conseguir mayor beneficio de la vida, y mayores ventajas. La tierra y
todo lo que hay en ella le fue dada al hombre para soporte y
comodidad de su existencia. Y aunque todos los frutos que la tierra
produce naturalmente, así como las bestias que de ellos se
alimentan, pertenecen a la humanidad comunitariamente, al ser
productos espontáneos de la naturaleza; y aunque nadie tiene
originalmente un exclusivo dominio privado sobre ninguna de estas
cosas tal y como son dadas en el estado natural, ocurre, sin embargo,
que como dichos bienes están ahí para uso de los hombres, tiene que
haber necesariamente algún medio de apropiárselos antes de que
puedan ser utilizados de algún modo o resulten beneficiosos para
algún hombre en particular” (§26).
Dado que hay una disposición en favor del género humano de
los bienes naturales, es necesario que esos bienes rindan, y para ello
deben ser apropiados individualmente. Se puede decir que cualquier
sujeto humano podría apropiarse privativamente de esos bienes, de

17 Como muestra Ignacio Ellacuría, hay una profunda divergencia en la concepción sobre la relación debida entre bien
común y bien personal en el esquema liberal y en la tradición escolástica cristiana, por ejemplo, con Santo Tomás.
De este punto de vista, señala Ellacuría que no hay “bien particular sin referencia al bien común y sin la existencia
real de un bien común no puede hablarse de un bien particular, sino tan sólo de una ventaja interesada e injusta.
Por lo pronto es imposible que ningún individuo alcance su bien, si no es aprovechándose de lo que ofrece el bien
común; tal como se da en una sociedad política; se requiere, en efecto, algo que el particular no produce para que
pueda llegar a ser lo que tiene que ser y pueda hacer lo que necesita hacer. Pero ese algo es, en sí mismo,
supraindividual y, por su propia naturaleza, niega aquella apropiación privada que fuerce al bien común a dejar de
ser común; el pecado fundamental consistiría aquí en la apropiación privada de lo que es común, la negación de
lo común en beneficio de lo que es particular, la anulación del todo estructural en beneficio de algunas partes
disgregadoras de ese todo. La apropiación privada de lo que es por su naturaleza social y, por consiguiente, común,
es una injusticia fundamental, que hace injustos todos sus efectos. No hay, por lo tanto, posibilidad ética de
apropiación privada de un bien común con menoscabo de la comunidad de ese bien. Cuando predomina lo privado
y los intereses privados o de grupo en la distribución del bien común y, antes, en la producción explotada de lo
que es el bien común, cuando unos pocos se apropian de aquello que no puede ser suyo más que haciendo que
no sea de los otros e impidiendo que los otros puedan servirse de lo que tienen derecho, estamos ante la negación
misma del bien común y ante la ruptura del orden social justo” (“Historización del bien común y de los derechos
humanos” [1978] en Escritos filosóficos, III, Uca editores, San Salvador, 2001).

120 Juan Antonio Senent de Frutos


quienes en principio se predica una igualdad formal18. Cualquiera
podría extraer los “productos espontáneos” de la naturaleza. Por
tanto de la propiedad común de la humanidad (“se ha dado en común
a toda la humanidad para que esta participe en común de ella” §25),
se deriva la existencia de una res communis, que en realidad se
interpreta como res nullius, como cosa de nadie y que por tanto está
esperando para ser apropiada por cualquiera, cuya apropiación
privativa se interpreta como no lesiva para la humanidad. Algo
“común”, por tanto, significa en la situación originaria para Locke
“apropiable por cualquiera”.
¿Cuál es el ámbito de este “patrimonio común”? Aquel donde la
huella de la propiedad privada exclusiva y del sistema legal no haya
sacado a la res communis de su estado natural, y por tanto donde
todo continúa en estado comunal originario. Este derecho natural
previo y fundante de los sistemas de derecho positivo explica para
nuestro autor el tránsito del estado natural a la sociedad
constituida,19 pero siempre subsiste en los ámbitos que exceden a la
regulación de los sistemas legales: “entre aquellos que se cuentan
entre la parte civilizada de la humanidad y que han hecho y
multiplicado una serie de leyes positivas para determinar la
propiedad, esta ley originaria de la naturaleza que se aplicaba antes
a los bienes comunes para establecer los orígenes de la apropiación,
sigue siendo vigente” (§30).20 Por tanto, al interior de la parte
civilizada de la humanidad, apenas quedarían bienes en condición
comunal originaria que puedan ser objetos de acción predatoria por
cualquiera,21 pero hacia fuera de los límites geográficos de las
mismas, el resto de la tierra22 se presenta como un gran bien comunal
sobre el que desplegar su acción:
“Todavía se encuentran hoy grandes porciones de tierra que, al
no haberse unido sus habitantes con el resto de la humanidad en el

18 Para explicitar esta igualdad formal, aunque como después veremos no haya una igualdad en la racionalidad,
señala: “El fruto o la carne del venado que alimentan al indio salvaje, el cual no ha oído hablar de cotos de caza
y es todavía un usuario de la tierra en común con los demás, tienen que ser suyos; y tan suyos, es decir, tan parte
de sí mismo, que ningún otro tendrá derecho a ellos antes que su propietario haya derivado algún beneficio que
dé sustento a su vida” (§26).
19 La cual surge, como no deja de recalcar a lo largo de su Segundo Tratado, para preservar la propiedad como derecho
natural central.
20 Lo cual también se proyecta frente a los recursos biológicos de los mares, dado que este espacio constituye “un
gran bien comunal” (cf. §30). Sobre las leyes consuetudinarias y los orígenes de la apropiabilidad, puede verse de
José Manuel Pureza El patrimonio común de la humanidad ¿Hacia un Derecho internacional de la solidaridad?
(traducción de J. Alcaide Fernández), Trotta, Madrid, 2002, p. 169 y ss.
21 Sólo queda algún reducto ya meramente anecdótico: “entre nosotros, la liebre que alguien está cazando, se
considera propiedad de aquél que la persigue durante la caza” (§30).
22 Como destaca Vandana Shiva, para este proyecto colonizador europeo la tierra se presentaba como terra nullius, a
pesar de que estuviera habitada por pueblos indígenas, en ¿Proteger o expoliar? Los derechos de propiedad
intelectual, op. cit., .18-19.

Sociedad Del Conocimento,


Biotecnologia y Biodiversidad 121
acuerdo de utilizar dinero común, permanece sin cultivar; y como
estas tierras proporcionalmente son mucho mayores que el número
de personas que viven en ellas, continúan en estado comunal. Mas
esto difícilmente podría darse entre esa parte de la humanidad que
ha consentido en la utilización del dinero” (§45).
Si no se ha adoptado el sistema de relaciones mercantiles
propio de las sociedades capitalistas no hay ninguna acción
económica ni ninguna acción social y culturalmente integrada; por
ello, los individuos “aislados” solo toman los frutos espontáneos de
ahí que no constituya ningún robo a la parte civilizada de la
humanidad, ni a los otros habitantes de esas tierras. Esos habitantes
son los “indios salvajes” (§26), que como va ejemplificando a lo largo
de sus obras viene a corresponder a los otros pueblos que no sean los
europeos (vid. infra) y por tanto los territorios objeto de expansión
colonial en la era moderna.
Donde no haya por tanto un sistema de leyes positivas o de
pactos23 al modo europeo, cualquiera se puede apropiar de todo
cuanto sea para su utilidad, y ello sin depender del
consentimiento de nadie. La acción de sustracción de algo de su
condición comunal frente al resto del mundo no lo considera
ningún robo, ni depende del consentimiento de quienes habiten
las tierras, ni estos poseen ninguna forma de propiedad común
sobre los bienes naturales, ni tienen ningún pacto explícito o
implícito sobre la forma de aprovechamiento de los recursos
naturales que emplean para el sustento de sus vidas. Si Locke
reconociera alguna institucionalización social o jurídica sobre el
uso de estos bienes por parte de esos habitantes toda su
justificación de la acción colonial en la era moderna sobre los
recursos de otros pueblos perdería su justificación, y tendría que
reconocer su ilicitud:
“Ciertamente, quien se ha alimentado (...) de las manzanas que
ha cosechado de los árboles del bosque, puede decirse que se ha
apropiado de ellas. Nadie podrá negar que ese alimento es suyo (...)
¿Podrá decir alguno que este hombre no tenía derecho a las
manzanas que él se apropió de este modo, alegando que no tenía
consentimiento de todo el género humano para tomarlas en
pertenencia? ¿Fue un robo el apropiarse de lo que pertenecía
comunitariamente a todos? Si el consentimiento de todo el género

23 “Es cierto que en las tierras comunales de Inglaterra o de cualquier otro país en el que mucha gente con dinero y
con comercio vive bajo un gobierno, nadie puede cercar o apropiarse parcela alguna sin el consentimiento de todos
los co-propietarios. Pues esas tierras llegaron a ser comunales mediante pacto, es decir, por la ley de la tierra, la
cual no debe ser violada. Y aunque estos terrenos sean comunales con respecto a algunos hombres, no lo son
respecto de la humanidad; sólo son propiedad común dentro de un país determinado, o de una parroquia” (§35).

122 Juan Antonio Senent de Frutos


humano hubiera sido necesario, este hombre se habría muerto de
hambre” (§28).
Con una razón humanitaria se desentiende a partir de ahí de
cualquier exigencia en favor del bien común de la humanidad, y por
supuesto de cualquier respeto a los territorios de los pueblos en los que
se despliega su acción. En Inglaterra, el régimen de los comuneros debe
ser respetado (cf. §35), de ninguna manera en otros pueblos no
civilizados, pues si en el primer caso hay una costumbre jurídica no así
en el segundo caso ya que sobre estas posesiones comunales
únicamente rige la ley natural,24 y por tanto está liberado del
consentimiento de los comuneros, encontrándose ante una res nullius
y no ante bienes protegidos por ningún sistema de derecho positivo. Lo
que en Inglaterra es robo (y en las otras sociedades civilizadas), no lo
es fuera de sus fronteras legales porque no hay restricciones más allá
del régimen de derecho natural. Los bienes que emplean para su
sustento otros pueblos sí están sometidos a un régimen abierto de
apropiación para “toda la humanidad”, no así los bienes de los
primeros, ni siquiera los que permanecen en condición comunal.
Esta misma lógica jurídica es la que se aplica hoy para la
regulación de la biodiversidad, como ha señalado José Manuel
Pureza, si anteriormente se basaba su regulación en el principio
consuetudinario de libre acceso gratuito,25 hoy se ha propuesto la
consideración de los recursos genéticos como patrimonio común de la
humanidad. Sin embargo, ello no ha supuesto ningún aumento en el
disfrute social de los mismos ni una mejor protección y conservación.
Ya en el “Compromiso internacional sobre los recursos fito-genéticos”
adoptado en la Conferencia General de la FAO, en 1983, se utilizó ese
concepto jurídico de patrimonio común, bajo la óptica “liberal”,
afirmando el derecho de libre acceso a los recursos y olvidando la
regulación protectora de los mismos; los beneficiarios de la utilización
de estos recursos, no tienen el deber de preservarlos.26
Con la revolución biotecnológica ese proceso se ha agudizado.
El principio de libre acceso es un presupuesto para la actuación de
los procesos biotecnológicos en las zonas ricas en biodiversidad. Los
intereses económicos de las compañías farmacéuticas o agro-
químicas se garantizan articulando el libre acceso al germoplasma
con la apropiación privada de los productos genéticamente

24 Por tanto se realiza una reducción etnocéntrica de los mecanismos de regulación jurídica, que justifica todo su
planteamiento de regulación a partir de la “Ley natural”.
25 Lo cual ha propiciado en los últimos siglos una importación “erosión ecológica”, El patrimonio común de la
humanidad, op. cit., p. 361.
26 Cf. El patrimonio común de la humanidad, op. cit., p. 361.

Sociedad Del Conocimento,


Biotecnologia y Biodiversidad 123
modificados protegida por el derecho de patente. Por ello, la estrategia
jurídica de los países desarrollados se basa en atribuir a la
biodiversidad el estatuto de res communis, siendo libremente
susceptibles de apropiación, como res nullius, los recursos extraídos
por el primer utilizador27 reconocido.28 Como señala Vandana Shiva,
así como ocurrió con la transformación de la terra mater en terra
nullius,29 se da un proceso análogo mediante las nuevas
biotecnologías que convierten la riqueza ecológica, como el caso de las
semillas de los agricultores tradicionales, en nuevo objeto de
apropiación privada.
En otros instrumentos internacionales, como el Convenio de
Río sobre Diversidad Biológica, en clave supuestamente de
reivindicación de un interés general no reducible únicamente al
interés iusprivatista, también se afirma esta idea de patrimonio
común de la humanidad. Así, en su preámbulo se postula que “la
conservación de la diversidad biológica es interés común de toda la
humanidad” (par. 3º). Ese “interés común de la humanidad”
implicado en la diversidad biológica, se concreta no sólo en la
conservación, sino principalmente en la necesidad de su utilización
equitativa en beneficio de todos de esa riqueza: “Reconociendo la
estrecha y tradicional dependencia de muchas comunidad locales y
poblaciones indígenas que tienen sistemas de vida tradicionales
basados en los recursos biológicos, y la conveniencia de compartir
equitativamente los beneficios que se derivan de la utilización de los
conocimientos tradicionales, las innovaciones y las prácticas
pertinentes para conservación de la diversidad biológica y la
utilización sostenible de sus componentes” (par. 12º). Por tanto, esos
recursos biológicos, aunque estén relacionados con las comunidades
locales y poblaciones indígenas, deben ser “compartidos
equitativamente” en aras de un sujeto social universal, como se
enuncia en párrafo 3º.
Ahora bien, ese supuesto reconocimiento de un “patrimonio
común de la humanidad” ha de ser interpretado a la luz del juego de
otros principios que dotan de concreción esas exigencias de la
equidad. Por un lado, se afirma el principio de apropiación nacional
de los recursos biológicos, lo cual mantiene el régimen dentro de la
óptica liberal. Como se declara en el preámbulo: “Reafirmando que los
estados tienen derechos soberanos sobre sus propios recursos

27 Ib., p. 363.
28 Como después veremos, aunque esos recursos genéticos se han empleado y desarrollado antes por comunidades
tradicionales en sus propios procesos de producción, ello no dejará “ninguna huella de propiedad”.
29 Biopiratería, op. cit., pp. 68 y ss.

124 Juan Antonio Senent de Frutos


biológicos” (par. 4º), lo que después se concreta en el art. 15.1.30 De
este modo, formalmente se está sacando esos bienes del régimen
originario, como res nullius. Con lo cual para su apropiación, hay que
estar al régimen de titularidad nacional, lo que supone que depende
del “consentimiento” de los comuneros, que en este caso sería el
propio estado mediante su regulación y actos de voluntad. Si eso es
así, se ha nacionalizado lo que era propio de las “comunidades
tradicionales y pueblos indígenas” (cf. par. 12º), que muchas veces se
hallan en conflicto con el estado en el que se encuentran por el no
reconocimiento de derechos territoriales y culturales específicos.31
Ahora bien, tanto la propia regulación del Convenio, y más en juego
con el sistema del Acuerdo ADPIC, dejará prácticamente de nuevo los
recursos biológicos de los países en desarrollo en régimen comunal
originario. Así, el art. 15. 2 del Convenio establece tras el
reconocimiento de los derechos soberanos de los estados, que cada
Parte Contratante “procurará crear las condiciones para facilitar a
otras Partes Contratantes el acceso a los recursos genéticos para
utilizaciones ambientalmente adecuadas, y no imponer restricciones
contrarias a los objetivos del presente Convenio”. Por tanto, la
“soberanía” no debe impedir el acceso a las otras partes de esos
recursos en las condiciones que se convengan.32 Por ello, el libre juego
del principio del consentimiento, hay que situarlo sistemáticamente
junto al respeto del principio de utilización universal de la diversidad
biológica. Y a su vez, esta “utilización” que permite mecanismos de
apropiación privativa y por tanto con exclusión de terceros, ya que
debe de respetar “la protección adecuada y eficaz de los derechos de
propiedad intelectual” (art. 16.2).
Si el camino no estaba ya suficientemente allanado para las
empresas biotecnológicas33 tras el Convenio de Río, con el Acuerdo
ADPIC, los estados miembros de la OMC,34 tienen que aceptar

30 “En reconocimiento de los derechos soberanos de los Estados sobre sus recursos naturales, la facultad de regular el
acceso a los recursos genéticos incumbe a los gobiernos nacionales y está sometida a la legislación nacional”.
31 Se da así una nacionalización, siendo los estados los únicos con personalidad jurídica reconocida para dar el
consentimiento, que con ello tiene una dimensión nacional-estatal pero no local, pudiendo por ello perfectamente
prescindir de las comunidad locales en el “consentimiento de los comuneros” locales o de “la parroquia”, como
señalaba Locke.
32 Art. 15. 4. Cuando se conceda acceso, éste será en condiciones mutuamente convenidas y estará sometido a lo
dispuesto en el presente artículo.
15.5. El acceso a los recursos genéticos estará sometido al consentimiento fundamentado previo de la Parte Contratante
que proporciona los recursos, a menos que esa Parte decida otra cosa.
33 Después de haber reconocido la legitimidad y las condiciones de legalidad para acceder a los recursos genéticos de
los países atrasados por el juego del mecanismo expresado, se indica en el artículo 16. 4. que frente al “sector
privado” (art. 16.4.) podrán tomarse medidas públicas para que se facilite la transferencia de tecnología prevista
en el art. 15.1., pero no se les puede obligar a compartir “la tecnología sujeta a patentes y otros derechos de
propiedad intelectual” (cf. art. 15.2).
34 Organización Mundial del Comercio.

Sociedad Del Conocimento,


Biotecnologia y Biodiversidad 125
obligatoriamente esta regla de libre acceso,35 con lo que vuelve al
régimen jurídico de la condición comunal originaria, esta vez, ope
legis positiva, y no ope legis naturae, de donde lo apropiado por la
mano del hombre desarrollado, debe ser ahora protegido por un
sistema legal de patentes vía Acuerdo ADPIC, incluso allí donde las
leyes nacionales no lo prevean (art. 27).
El apartado 27.3, con una formulación que puede ser confusa
y aparentemente vergonzante,36 parte de una permisión de exclusión
(“Los Miembros podrán excluir asimismo la patentabilidad:”), para
después imponer en su caso la exclusión de la exclusión primera,
con lo que finalmente se impone lo que al principio parecía
excluible: 27.3.b) “las plantas y los animales excepto los
microorganismos, y los procedimientos esencialmente biológicos
para la producción de plantas o animales, que no sean
procedimientos no biológicos o microbiológicos. Sin embargo, los
Miembros otorgarán protección a todas las obtenciones vegetales
mediante patentes, mediante un sistema eficaz sui generis o
mediante una combinación de aquéllas y éste”. Tras ello, la
regulación de patentes sobre formas de vida y procesos productivos
de formas de vida quedaría del siguiente modo: primero, se debe
permitir la patentabilidad de microorganismos; segundo, se debe
permitir la patentabilidad de plantas y animales producidos
mediante procesos no biológicos o microbiológicos, es decir, de
plantas y animales modificados genéticamente; tercero, está
permitido, salvo exclusión de un Miembro, patentar procesos
biológicos o microbiológicos para la producción de plantas o
animales.
Ahora bien, frente a estas posiciones, y tratando de recuperar
la dimensión común y colectiva del uso humano de los recursos
naturales, hay que señalar que del hecho de que se adopte una
perspectiva que defienda la relevancia de la óptica del patrimonio
común de la humanidad; no significa que el punto de partida de la
tradición liberal no sirva desde el punto de vista crítico o
emancipador, sino que el problema está en sacar una consecuencia
ilegítima de ese supuesto. La consecuencia ilegítima es la pretensión
reduccionista de que solamente hay un aprovechamiento, una

35 Antes de la Ronda Uruguay, el GATT no cubría los derechos de propiedad intelectual que cada país regulaba según
sus condiciones culturales y económicas.
36 Pues llegará a permitir patentar formas de vida que tradicionalmente siempre se han excluido de los sistemas de
patentes conocidos. Este camino se inició la década anterior, a comienzos de los 80 en Estados Unidos cuando se
autorizó por primera vez la patente de un microorganismo. Después se ha ido ampliando el campo de la
patentabilidad a otras formas de vida. En buena medida, el modelo normativo que se pretende implantar con el
Acuerdo ADPIC, tiene su antecedente en el sistema de patentes norteamericano.

126 Juan Antonio Senent de Frutos


funcionalidad real de lo que es el patrimonio común de la humanidad
cuando se lo apropia privativamente, cuando se le pone el sello de
propiedad exclusiva frente a terceros.37
En esta línea, es necesaria una reconceptualización del
“patrimonio común” de los bienes naturales, más allá de una
regulación en clave iusprivatista, lo que exige un estatuto no
apropiativo de estos bienes, desarrollando instituciones de res
communis y de public trust, en el marco de una relación social de
participación intra-generacional y transmisión inter-generacional.38

2.2. De la universalidad del “género humano” a los


“pueblos civilizados”

La obra de Locke nos muestra cómo en la tradición liberal, en la


que él se sitúa y en buena medida ayuda a fundamentar, tras el
discurso universalista, que arranca formalmente de un punto de partida
general,39 y por tanto compartible por cualquiera; sin embargo, desde
ahí, consigue derivar y llegar a lo críticamente podríamos denominar
como una reducción social y cultural de lo humano. Con esta reducción
o asimilación de un único patrón cultural como exponente de la
auténtica racionalidad humana consigue desentenderse de buena parte
de la humanidad, y por ello, la eventual explotación de los recursos
naturales de los que no practiquen su lógica cultural de utilización de
estos recursos no será imposición ni exclusión de parte de la
humanidad, sino servicio a la verdadera humanidad.
Dice Locke: “Dios ha dado a los hombres el mundo en común;
pero como se lo dio para su beneficio y para que sacaran de él lo que
más les conviniera para su vida, no podemos suponer que fuese
intención de Dios dejar que el mundo permaneciese en terreno comunal
y sin cultivar. Ha dado el mundo para que el hombre trabajador y
racional lo use; y es el trabajo lo que da derecho a la propiedad, y no los
delirios y la avaricia de los revoltosos y los pendencieros” (§34).
¿Quién es el hombre trabajador y racional y quiénes son esos
individuos avariciosos y pendencieros? Los primeros, los
pertenecientes a las sociedades burguesas (cf. §35) o la “parte civilizada

37 Se argumenta en la tradición liberal la “inutilidad” de la naturaleza mientras esta permanezca siendo patrimonio
común, e igualmente las formas comunales de propiedad que eran propias de las formas “premodernas” de
propiedad y persistentes todavía en otras culturas jurídicas. Se niega la utilidad para la vida individual, cuando
precisamente estas formas de aprovechamiento han permitido una utilidad para las sociedades y sus miembros, lo
que no sólo ha producido el “sustento de la vida” de otros pueblos, sino un enriquecimiento del patrimonio
genético de los recursos disponibles para la humanidad.
38 El patrimonio común de la humanidad, op. cit., p. 352-354.
39 Ello basándose en referencias tales como humanidad, género humano, naturaleza humana, o racionalidad humana.

Sociedad Del Conocimento,


Biotecnologia y Biodiversidad 127
de la humanidad” (§30); y por la otra parte, está hablando de los indios
de Norteamérica (cf. §30), y en general de las sociedades tradicionales;40
por tanto, ese destino universal de los bienes no es para el género
humano en sentido realmente universal, es para aquellos hombres
trabajadores y racionales que se encuentran entre los primeros y no
para los segundos, que son avariciosos, peleadores y disputadores.
Locke en su Ensayo sobre el entendimiento humano41 nos dice que
conocimiento y abundancia están en pugna. En el “vasto continente de
América”, donde abunda toda clase de riquezas naturales, están en
situación de “ignorancia los antiguos salvajes americanos”.42 Y ello, no
por falta de “talento natural” de éstos,43 sino por falta de aplicación del
conocimiento verdadero o “las investigaciones de los hombres
racionales en pos de los verdaderos avances de la ciencia”,44 que se da
en las naciones florecientes o parte civilizada de la humanidad.
Esta capacidad de trabajo racional, que emplea la creciente
tecnología, es para Locke una conquista progresiva de la humanidad,
que en realidad sólo se halla cultivada por la civilización a la que él
pertenece. Tanto las “selvas de América como las escuelas de Atenas
producen hombres de capacidades diversas dentro de la misma
especie”.45 Y ello por la diversa capacitación que permiten los diversos
contextos. Las diferencias “entre los entendimientos no proceden tanto
de sus facultades naturales como de los hábitos adquiridos”.46 En este
sentido, señala que “no todos los americanos [aborígenes] han nacido
con entendimiento peores que los europeos, aunque vemos que
ninguno de ellos hace tales investigaciones en las humanidades y en
las ciencias”.47 Por ello, la naturaleza sólo nos da semillas, “hemos
nacido para ser, si queremos, seres racionales, pero sólo el hábito y el
40 Las cuales “viven alejados de las nociones, discursos y avances del resto de la humanidad; (...) esos pueden muy bien
compararse a los habitantes de las Islas Marianas, quienes (al estar separados por una gran extensión de mar de todo
contacto con las partes habitadas de la Tierra), se creyeron las únicas personas del mundo. Y, aunque las escasas
comodidades de vida entre ellos no llegaban al uso del fuego hasta que los españoles, no muchos años después, en sus
viajes de Acapulco a Manila, se lo mostraron; todavía, en la necesidad y en la ignorancia de la mayoría de las cosas, se
miraban a sí mismos, aun después de que los españoles les trajeran información de una variedad de naciones ricas en
ciencias, artes y comodidades de vida, de las que ellos no sabían nada; se miraban a sí mismos, decía, como las personas
más felices y más sabias del universo. Pero, a pesar de todo, creo que nadie se los imaginará como profundos físicos y
sólidos metafísicos. Nadie estimará que el más avispado de ellos tenga opiniones muy amplias en ética o política; ni
puede nadie conceder que el más brillante de ellos progrese tanto en su entendimiento como para tener ningún otro
conocimiento más que unas cuantas pequeñas cosas sobre su isla (...) pero siempre bastante lejos de ese amplio
desarrollo de la mente que embellece a un alma dedicada a la verdad, ayudada por la cultura y por las distintas opiniones
de los pensadores de todas clases”, Sobre la conducta del entendimiento y otros ensayos póstumos (Of the Conduct of the
Understanding, en Posthumos Works, 1706), ed. bilingüe de A. M. Lorenzo, Anthropos, Barcelona, 1992, p. 16-17.
41 An Essay concerning Humane Understanding (1690). Citaré por la edición y traducción de S. Rabade y E. García,
Editora Nacional, Madrid, 1980.
42 Ensayo sobre el conocimiento humano, op. cit., p. 961.
43 Pues “en nada se quedan cortos sobre las naciones más florecientes y políticas”, op. cit., p. 962.
44 Op. cit., p. 963.
45 Sobre la conducta del entendimiento, op. cit., p. 9.
46 Sobre la conducta del entendimiento, op. cit., p. 25.
47 Op. cit., p. 43.

128 Juan Antonio Senent de Frutos


ejercicio nos hacen serlo (y de hecho, somos así nada más que porque
la industria y la aplicación nos ha llevado a serlo)”.48 Dado que ciertos
seres humanos no cultivan la ciencia y la técnica al modo europeo, no
tienen posibilidad de desarrollar comportamientos racionales y un
trabajo que permita optimizar la abundancia de la naturaleza, lo que
hoy llamaríamos, la riqueza de la biodiversidad. Al no representar y
cultivar la verdadera racionalidad humana, el uso y apropiación de los
recursos naturales debe privilegiar a los sujetos que culturalmente
están capacitados para obtener utilidades de ellos, y así beneficiar al
“género humano”. Quiénes son entonces los que deben disfrutar de las
prerrogativas del género humano: la parte civilizada de humanidad.

2.3. La reducción cultural del trabajo humano específico

Lo anterior, es decir, la reducción interesada de lo que debe


corresponder a la humanidad a una parte de la misma, trae causa, de
otra reducción, como ya se ha podido entrever. Se trata de una reducción
cultural de la capacidad tecnológica del trabajo humano,49 que desde una
perspectiva no etnocéntrica, al contrario de Locke, sí sería común a toda
la especie humana. El trabajo humano como actividad humana
específica es una actividad que supone la transformación y el control del
medio en función de las necesidades de producción y reproducción de la
vida humana de cualquier sujeto humano, ya sea que esté inserto en
sociedades tradicionales o en sociedades tecnológicamente avanzadas, y
sin el cual ninguna sociedad sobrevive. Este trabajo humano opera a
través de la técnica, que podemos conceptuar como “manejo de
realidades”;50 pues bien, ese trabajo humano como transformación y

48 Op. cit., p. 39.


49 Sobre una visión sobre el trabajo humano, como la que adoptamos aquí, radicalmente diversa a la lockeana o
liberal, véase Ellacuría, Ignacio (1990), Filosofía de la realidad histórica, Trotta, Madrid, 1991, pp.78 y ss.
50 Como destaca Ellacuría, siguiendo el análisis de la praxis humana de X. Zubiri, que entiendo supera el reduccionismo
etnocéntrico de asimilar toda posibilidad de técnica humana como “técnica avanzada”; cualquier comportamiento
humano tiene habérselas con el medio para que siga siendo biológicamente viable, en esa relación el ser humano “va
arbitrando modos de sobrevivir, haciendo lo que en cada momento su grado de inteligencia le permite hacer.
Inteligencia de la realidad e instrumentalización desde la realidad y para la realidad se dan así la mano. Desde esa
primaria necesidad el hombre se lanza a modificar las cosas; las modifica para seguir viviendo, para poseerse a sí
mismo en la modificación misma de las cosas” (“El trabajo humano como técnica”, texto del libro inédito Persona y
Comunidad [1975], edición de J. A. Senent y J. J. Castellón, publicado en revista Isidorianum, nº 19, 2001, p. 75).
El hacer técnico, nace para que la propia vida siga siendo viable. En este sentido, la técnica es el modo específico
del trabajo humano: el trabajo es formalmente técnico. Por ello, “trabajo y humanidad son, en principio, dos
realidades correlativas; no en vano el descubrimiento arqueológico de instrumentos de trabajo es prueba inequívoca
de la presencia del hombre. El trabajo es verdaderamente trabajo cuando es ación transformadora por parte del animal
de realidades, que lleva a la dominación del medio y con ello a la liberación de la vida humana” (Ib., p. 78).
Ahora bien, la “dominación” o control del medio para asegurar la sobrevivencia biológica, como motor del trabajo
técnico de cualquier sociedad humana, se puede operar de diversas formas en cada contexto cultural. Hay dos polos
extremos para ello, como señalamos en este trabajo, el control “autocentrado”, que tendecialmente propone al ser
humano no sólo como “ser superior”, sino como un ser que está más allá de las condiciones de sobrevivencia que le
permite el medio, y que por ello, puede desplegar su actividad incluso destruyendo el medio natural en el opera; o
el control “descentrado” que, más allá de la conceptuación que se tenga de sí mismo, entiende que no puede hacer
compatible la subsistencia humana con el irrespeto del medio natural, en última instancia, con su aniquilación.

Sociedad Del Conocimento,


Biotecnologia y Biodiversidad 129
control del medio en función de las necesidades de sobrevivencia, a
través de la técnica humana como manejo de las realidades con las que
nos enfrentamos en el medio, es circunscrito o reducido, dentro de la
sociedad burguesa, a la acción tecnológica propia de su formación
cultural, como nos indican los anteriores pasajes.
A partir de ahí, podemos entender porqué, por ejemplo, un tipo
particular de arroz que se cultiva en una región de la India, que ha
sido generado mediante la selección y control de semillas a lo largo de
siglos, en un proceso histórico-social muy complejo y largo, no es
considerado como “producto humano”, sino solo como “recurso
natural”, por cuanto se argumenta que no ha sido sacado de su
condición natural, por ende, pertenece a todos hasta que no sea
descifrado genéticamente y patentada su secuencia. Cuando se
descifra y manipula genéticamente desarrollando con ello una acción
tecnológicamente avanzada sobre ese producto; entonces, ello da
derecho a su explotación comercial privativa, en manos de los
titulares legales que tendrían la licencia de uso y explotación
comercial de ese producto, con el derecho de excluir de ese uso a
quien no pague el canon correspondiente, incluidas aquellas
comunidades que secularmente ha utilizado y producido ese
producto. Pero esto no es considerado legalmente ningún robo. ¿Por
qué no es un robo? Porque es un “recurso natural” y las empresas
biotecnológicas no hacen sino -en sentido lockeano- servirse de lo que
la naturaleza da gratuitamente. Por tanto, hay una invisibilización de
la acción tecnológica propia de las sociedades tradicionales y del
trabajo humano de esas sociedades.
En este sentido, lo que importa no es el trabajo socialmente
aplicado a un producto ni la técnica tradicional empleada para su
obtención, pues ésta no se considera una actividad humana
específica porque no deja ninguna huella de propiedad sobre ella. En
cambio, ¿cómo se apropia el hombre de estos bienes en el esquema
liberal clásico, en el esquema lockeano? Mediante el trabajo es la
actividad por la cual lo saca del estado común de naturaleza, pero no
vale cualquier trabajo para poner la huella de propiedad sobre la
tierra y sacar las utilidades exigibles. Es interesante lo que dice
Locke, hablando de la sociedad inglesa y de los pueblos europeos: -
”un acre de tierra que aquí produce veinte bushels de trigo, y otro
que, en América, con la misma labranza, produjese lo mismo, son sin
duda alguna de un intrínseco valor natural idéntico. Y, sin embargo,
el beneficio que recibe la humanidad del primero tiene un valor de 5
libras anuales, mientras que el segundo ni siquiera valdría un

130 Juan Antonio Senent de Frutos


penique si todo el beneficio que un indio recibiese de él fuese valorado
y vendido aquí; podría decirse con verdad que no valdría ni una
milésima parte” (§ 43). Y ello, porque es el trabajo lo que pone en la
tierra gran parte de su valor. Pero es la tecnología aplicada lo que da
valor y no el simple trabajo, que no se considera una transformación
material sino como creación técnica aplicada, y los portadores de la
técnica son únicamente los europeos. Por ello, señala que hay
muchos trabajos, pero sobretodo hay que considerar el de quienes
fabricaron el arado, el de quienes construyeron cualquiera de los
numerosísimos utensilios aplicados a la producción (cf. §43); por
tanto, no importa el valor natural de las cosas, ni ciertas
intervenciones humanas sobre las mismas, sino la tecnología,
aplicada o implementada en ellas.
Ahora bien, todo se debe al “avance individual”, no hay ningún
proceso de enriquecimiento social a partir del cual se generan y
posibilitan ciertas innovaciones, que en realidad se plantean como
absolutas novedades y no se entienden a partir de un cierto estado
del conocimiento sino como una suerte de genialidad aislada, que no
se explica cultural ni socialmente por eso, no hay “innovación social”
sino “inventores”: “Aquel que inventó el primero la imprenta, el que
descubrió el uso del compás, o hizo público las virtudes y el uso
adecuado de la quinina, han contribuido más a la propagación del
conocimiento, a la provisión y aumento de útiles, y a la salvación de
los hombres que quienes construyeron colegios, casas de labor y
hospitales”.51 A partir de ese reconocimiento, la humanidad debe
tanto a los “inventores”, aunque éstos no le deban nada a la
humanidad, que ese trabajo supremo debe ser recompensado, como
por ejemplo, asegura el derecho de propiedad sobre las invenciones,
es decir, las patentes.52
Este prejuicio etnocéntrico late también Convenio de Río,
reconociendo que la “tecnología incluye la biotecnología” (según las
definiciones legales que establece el art. 2 del Convenio): Pero en
realidad, entiende toda “tecnología” sub especie de biotecnología.53
51 Ensayo sobre el entendimiento humano, op. cit., p. 962.
52 Así por ejemplo, como analiza Germán Velásquez, la propia lógica jurídica del sistema ADPIC, fuerza que las
patentes con una duración mínima de 20 años se aplique sobre los productos de las industrias farmacéuticas
privadas para que sigan investigando. Se argumenta el coste de la investigación, que será financiada por las
patentes, que al garantizar a las empresas un monopolio, les permite mantener precios elevados. Ahora bien “estos
precios impiden que la mayoría de las personas que necesitan estos nuevos productos puedan procurárselos. Si bien
hay que preservar la investigación y el desarrollo de nuevos medicamentos, también es esencial que éstos puedan
salvar vidas a partir del momento de su descubrimiento y no veinte años después... excepto que se perpetúe la
absurda situación actual, en la cual millones de personas mueren por falta de medicamentos, que sin embargo
existen y que la sociedad podría poner al alcance de todos” (“El medicamento como bien público mundial”, Le
monde diplomatique, ed. española, n.º 93, julio de 2003, p. 25).
53 La definición legal que da de la misma es “toda aplicación tecnológica que utilice sistemas biológicos y organismos
vivos o sus derivados para la creación o modificación de productos o procesos para usos específicos” (art. 2).

Sociedad Del Conocimento,


Biotecnologia y Biodiversidad 131
Que, aunque esta en realidad es una actividad técnica que tiene miles
de años de historia humana detrás54, sólo una parte de la humanidad,
la parte desarrollada (“biotecnología moderna”), según la división
social de la humanidad, es la que practica auténtica tecnología55.
Por ello, incluso en el propio Convenio de Río se mantiene ese
desequilibrio cultural de partida. Aunque se enuncia esa exigencia de
equidad en términos de aparente reciprocidad de todas las partes
sociales implicadas, tanto los que poseen los “conocimientos
tradicionales” (que según la división social de la humanidad propia de
los instrumentos internacionales de las últimas décadas, se hallarían
en los países atrasados), como los que producen las “innovaciones”
sobre los recursos biológicos (que provendrían de los países
desarrollados), sin embargo, no hay ninguna equidad aplicable a las
dos partes. Dada la superioridad de la segunda, de la innovación
sobre lo tradicional, no se puede aplicar el mismo régimen jurídico.
Sobre los recursos de genéticos que son reconocidos y empleados por
el conocimiento tradicional, se aplica el principio de la libre
apropiación, mientras que sobre las innovaciones, debe regir un
régimen de protección de la propiedad como es el sistema de
patentes. Si lo tradicional versa sobre lo natural, la innovación es un
artificio sobre lo natural56 y por tanto es un “producto humano”, de
donde nace su carácter distintivo. Por eso se hablará después en el
convenio de la transferencia de tecnología de los segundos sobre los
primeros; lo cual es altamente cínico, o en el mejor de los casos,

54 Hay muchas definiciones para describir la biotecnología. Como se señala en artículo sobre “biotecnología
moderna” (http//:www.infoagro.com/semillas_vivero/semillas/biotecnología.asp, 2003). En términos generales
biotecnología es el uso de organismos vivos o de compuestos obtenidos de organismos vivos para obtener
productos de valor para el hombre. Como tal, la biotecnología ha sido utilizada por desde los comienzos de la
historia en actividades tales como la preparación del pan y de bebidas alcohólicas o el mejoramiento de cultivos
y de animales domésticos. Históricamente, biotecnología implicaba el uso de organismos para realizar una tarea o
función. Si se acepta esta definición, la biotecnología ha estado presente por mucho tiempo. Procesos como la
producción de cerveza, vino, queso y yogurt implican el uso de bacterias o levaduras con el fin de convertir un
producto natural como leche o jugo de uvas, en un producto de fermentación más apetecible como el yogurt o el
vino. Tradicionalmente la biotecnología tiene muchas aplicaciones. Un ejemplo sencillo es el compostaje, el cual
aumenta la fertilidad del suelo permitiendo que microorganismos del suelo descompongan residuos orgánicos.
La biotecnología moderna está compuesta por una variedad de técnicas derivadas de la investigación en biología
celular y molecular, las cuales pueden ser utilizadas en cualquier industria que utilice microorganismos o células
vegetales y animales. Una definición más exacta y específica de la biotecnología “moderna” es “la aplicación
comercial de organismos vivos o sus productos, la cual involucra la manipulación deliberada de sus moléculas de
DNA. Esta definición implica una serie de desarrollos en técnicas de laboratorio que, durante las últimas décadas,
han sido responsables del tremendo interés científico y comercial en biotecnología, la creación de nuevas empresas
y la reorientación de investigaciones y de inversiones en compañías ya establecidas y en Universidades (cf. ib.)
55 Cf. V. Shiva, Biopitarería, p. 74-75.
56 David Hume también se hace cuestión de la distinción entre lo natural y lo artificial, lo cual se diferencia para
Hume en que aunque la especie humana es de suyo es inventiva, aún relativos a productos o hallazgos humanos,
no siempre esa actividad está diferencia del mero hallazgo de lo obvio, que por ello sigue siendo “natural”: “utilizo
la palabra natural en cuanto exclusivamente opuesta a artificial. Pero en otro sentido de la palabra, así como no
hay principio de la mente humana que sea más natural que el sentimiento de la virtud, del mismo modo no hay
virtud más natural que la justicia. La humanidad es una especie inventiva; y cuando una invención es obvia y
absolutamente necesaria puede decirse con propiedad que es natural, igual que lo es cualquier cosa procedente
directamente de principios originarios, sin intervención de pensamiento o reflexión” (Tratado de la naturaleza
humana, Editora Nacional, Madrid, 1977, p. 708).

132 Juan Antonio Senent de Frutos


ideológico. Los primeros no tienen “tecnología”, después de que se le
está expropiando sus recursos biológicos con la excusa de las
“innovaciones” sobre los mismos; los segundos deben ser solidarios
con los primeros y ayudarles con la trasferencia de tecnología. Pero
como es propiamente un deber de solidaridad más de naturaleza ética
que jurídica, este no obsta a que lo que realmente se esté
transfiriendo sobre los primeros es la carga jurídica del sistema de
patentes sobre esos recursos (cf. art. 16.2)57, que les devuelve
“patentados” los recursos que ellos venían libremente utilizando en
sus sistemas de economía tradicional.
Sin intervención del pensamiento y la reflexión no hay artificio, y
donde no lo hay, todo es simplemente “natural”. Podría aplicarse esta
distinción al problema de la técnica y la división de la humanidad. Los
hallazgos o “invenciones” de las sociedades tradicionales, desde un punto
de vista etnocéntrico, por obvias e irreflexivas, no dejan de recaer sobre
productos naturales que no “sacados de su condición natural”, y no ello
no ponen en ellos “ninguna huella de propiedad”. En cambio, los
“numerosísimos utensilios” que el desarrollo tecnológico de la parte
civilizada de la humanidad aplica sobre los recursos naturales deja en
ellos la huella de la propiedad.

2.4. La reducción mercantilista de la funcionalidad


económica de los bienes naturales

La satisfacción de necesidades mediante la utilización de los


bienes naturales, vinculada con el llamado valor de uso de los bienes,
es algo que Locke al comienzo de su planteamiento reconoce, sin
embargo, de ese reconocimiento consigue llegar a un punto en que
toda la funcionalidad económica para la vida humana en sociedad de
los bienes naturales queda subsumida únicamente en el precio como
valor de cambio. Reducida la función social de un bien a su precio, y
con ello a la carestía que alcance, se olvida la lógica del sustento de
la vida que estaba en el origen de la apropiación originaria.
En este sentido, hablamos de una reducción mercantilista. En
el esquema lockeano, para que los bienes naturales sean socialmente
útiles, no expuestos o dejados para la avaricia de las sociedades
tradicionales, tienen que ser apropiados privativamente y
57 El art. 16 intitulado Acceso a la tecnología y transferencia de tecnología, establece en su párrafo 2: El acceso de
los países en desarrollo a la tecnología y la transferencia de tecnología a esos países, a que se refiere el párrafo
1, se asegurará y/o facilitará en condiciones justas y en los términos más favorables, incluidas las condiciones
preferenciales y concesionarias que se establezcan de común acuerdo (...). En el caso de tecnología sujeta a
patentes y otros derechos de propiedad intelectual, el acceso a esa tecnología y su transferencia se asegurarán en
condiciones que tengan en cuenta la protección adecuada y eficaz de los derechos de propiedad intelectual y sean
compatibles con ella (...).

Sociedad Del Conocimento,


Biotecnologia y Biodiversidad 133
rentabilizados, o “puestos en valor”, mediante el uso del dinero; así
se logra, según él, disponerlos para el beneficio común. Porque el uso
del dinero en la gestión de estos “recursos naturales” y en la
apropiación privativa es lo que permite la “utilidad” para el género
humano. Dice Locke: -”Al principio la mayoría de los hombres se
contentaban con lo que la desnuda naturaleza les ofrecía para
satisfacer sus necesidades, sin embargo, en algunas partes del
mundo, donde mediante el uso del dinero habían hecho que la tierra
escaseara y que por lo tanto, tuviese algún valor, regularon las
propiedades de los individuos de su sociedad” (§45). Entonces, hasta
que no se regulan las propiedades de los individuos en la sociedad, y
hasta que no se mercantilizan esas propiedades y se vuelven
intercambiables por dinero, no hay una utilidad para el género
humano. Por eso se habla de una reducción mercantilista.
Esta reducción opera mediante una invisibilización y pérdida
del sentido de la función natural de la tierra, y por ende, de los
recursos. En el fondo, se trata de que la tierra y los recursos
naturales son casi prescindibles en función del trabajo abstracto. El
trabajo abstracto, es decir, el trabajo tecnológicamente avanzado,
pretende reemplazar las fuentes naturales, por eso llega a decir
Locke, ya en el siglo XVII, que “la tierra que proporciona las materias
primas es de escaso valor, si es que tiene alguno” (§42). En
consecuencia, hay una desconexión y una pérdida del sentido del
valor de uso y de satisfacción de necesidades a través de esos
“recursos naturales”, que resultan ser los menos valiosos, y a su vez,
de la función que tiene toda la naturaleza en el sustento de la vida.
Cuando se reduce toda la relación con la naturaleza a un puro
cálculo de utilidad, se invisibiliza cualquier otra funcionalidad de la
misma, y se entiende que si no se instrumentaliza mediante la
mercantilización; por ello, nos dirá que si ese no es el modo de actuar,
“el beneficio que de ella se deriva es prácticamente nulo” (cf §42).

2.5. Pérdida de la interdependencia o de la racionalidad


reproductiva

Hay otro supuesto, en todo este esquema, que es la pérdida de


la racionalidad reproductiva.58 La racionalidad reproductiva es
aquella por la cual se mantiene unida, en relación de
interdependencia, la acción humana con el medio natural. Es algo

58 Sobre la racionalidad reproductiva, véase F. Hinkelammert, Crítica de la razón utópica, Desclée de Brouwer, Bilbao,
2ª ed. ampliada y revisada, 2002; F. Hinkelammert y H. Mora, Coordinación social de trabajo, mercado y reproducción
de la vida humana, DEI, San José, 2002.

134 Juan Antonio Senent de Frutos


que las sociedades tradicionales saben bien y que expresan en su
propia sabiduría popular. Hay un discurso famoso del jefe Seatle, el
indio norteamericano que decía: “Nosotros sabemos esto: la tierra no
pertenece al hombre, el hombre pertenece a la tierra, nosotros
sabemos esto: todas las cosas están relacionadas, como la sangre que
une a la familia, todo lo que suceda a la tierra sucede a los hijos de
ésta, lo que él hace a este tejido se lo hace a sí mismo”. Pero una
posición de este tipo está fuera de la visión de esta apropiación
tecnológica de los “recursos naturales”, conforme a la cual se
pretende que podemos destruir la naturaleza puesto que ya hemos
conseguido descifrar la información genética que contenía. Con esta
información, teóricamente, podremos reproducir el mundo
tecnológicamente y la vida natural. Asimismo, se puede agredir a la
naturaleza porque el ser humano está más allá de la naturaleza, y
cree que si destruye este tejido no se destruye a sí mismo, lo que es
propio de una racionalidad que prescinde de las condiciones de
sobrevivencia. Esto ayuda a explicar porque cuesta tanto trabajo a
las sociedades tradicionales asumir o adoptar la mercantilización de
sus recursos biológicos y la lógica de la inscripción registral de estos,
porque en el fondo es una lógica que desvincula las cosas de su valor
de uso y abusando de ellas solo las considera en tanto que mercancía
intercambiable. El derecho de propiedad, lo sabemos desde el
derecho romano, es el derecho de disfrute, uso y abuso de las cosas
poseídas (ius fruendi, utendi et abutendi); entonces, si se destruyen
las cosas poseídas, supuestamente no destruimos al poseedor. En
cambio, las sociedades tradicionales, en virtud de su visión de una
racionalidad que nos prescinde de la interdependencia, saben que si no
respetamos las cosas poseídas no respetamos tampoco al poseedor.
Son todas estas reducciones y escisiones examinadas las que
justifican los mecanismos legales de patentes dentro de las
sociedades tecnológicamente avanzadas, las cuales tienen una matriz
cultural que justifica y “dota de sentido” a las acciones; aunque desde
un contexto de racionalidad más complejo, que pretende enterder la
racionalidad humana desde un punto intercultural y no únicamente
etnocéntrico, esos supuestos elevados a único criterio de actuación y
regulación resultan disfuncionales e insostenibles para el conjunto de
la humanidad.

Sociedad Del Conocimento,


Biotecnologia y Biodiversidad 135
3. EL PROBLEMA DE LA UTOPÍA EN LA SOCIEDAD DEL
CONOCIMIENTO: EL CASO DE LA BIOTECNOLOGÍA
FRENTE A LA BIODIVERSIDAD

La dimensión utópica de la acción tecnológica moderna suele


pasar desapercibida tanto para sus actores como la sociedad en
general. El desarrollo del creciente poder de la técnica moderna sobre
el mundo parece no reconocer límites. Esto se presenta como un
hecho y no como una proyección ideal. La esencia de la misma podría
decirse que radica en su continua aspiración a superar los obstáculos
físico-naturales. El control del cuerpo, del espacio y recursos
naturales, de los propios desastres sociales59 y ambientales que
genera el propio desarrollo moderno se confía al progresivo avance
tecnocientífico que permita corregir las propias disfunciones que va
generando y superar los límites que se van encontrando. En este
sentido, la técnica moderna parece, por fin, que es la escalera que nos
permitirá llegar al cielo de los anhelos de perfección humana. Sin
embargo, a partir de la imagen de cuasiomnipotencia que se
desprende hoy de la tecnología, y particularmente de la biotecnología,
pueden generarse prácticas que no parecen conducirnos a ningún
cielo sino que pueden poner en peligro tanto la biodiversidad en el
planeta como la diversidad cultural de la humanidad.

3.1. El nihilismo de la información frente a la naturaleza

Hemos señalado antes el interés de las empresas de biotecnología


en emplear los conocimientos tradicionales y recursos biológicos de
otros pueblos tanto para la producción agroindustrial como para la
producción farmacéutica. Quizá sea este el último asalto del
colonialismo occidental sobre estos pueblos, pues tras la obtención de

59 Es la provocadora propuesta de Peter Sloterdijk, frente al para él, stablishmen conservador y bienpensante de la
academia anclada en posiciones humanistas superables (de ahí su polémica con J. Habermas). Dada la incapacidad
de la educación, del “pastoreo”, para la evitación de fenómenos socialmente indeseables, se plantea el reto
progresista de acudir al potencial tecnológico para reconfigurar la naturaleza humana, indomable por medios
tradicionales. “También en la cultura actual está teniendo lugar la lucha de titanes entre los impulsos
domesticadores y los embrutecedores y entre sus medios respectivos. Y ya serían sorprendentes unos éxitos
domesticadores grandes, a la vista de este proceso civilizador en el que está avanzando, de forma según parece
imparable, una ola de desenfreno sin igual (Remito en este punto a la ola de violencia que irrumpe estos momentos
en las escuelas de todo el mundo occidental, y especialmente en EE. UU, donde los profesores empiezan a instalar
sistemas de protección contra los alumnos)”. Frente a ese escenario, “el desarrollo a largo plazo también conducirá
a una reforma genética de las propiedades del género; si se abre paso a una futura antropotécnica orientada a la
planificación explícita de las características; o si se podrá realizar y extender por todo el género humano el paso
del fatalismo natal al nacimiento opcional y a la selección prenatal” (Normas para el parque humano. Una respuesta
a la Carta sobre el humanismo de Heidegger, trad. de T. Rocha, Siruela, Madrid, 2000, p. 72-73). La posición correcta
ante las opciones tecnológicas, ya está prefigurada por el autor, o elegimos entre “fatalismo” o “planificación
explícita”: Lo “verdaderamente” humano sería superar ese supuesto “fatalismo”.

136 Juan Antonio Senent de Frutos


sus conocimientos ya no parece quedar ninguna razón pragmática para
respetarlos. Ni siquiera parece haber buenas razones para conservar la
naturaleza, una vez que se hayan descodificado sus secretos por la
biotecnología. Es el nuevo utopismo de la sociedad del conocimiento
que promete la superación de los límites físicos y naturales de la
condición humana. El conocimiento puede llegar a sustituir a la
naturaleza como parecen indicarnos los avances de la biotecnología, y
el siguiente paso podría ser la sustitución de las propias poblaciones
una vez identificadas sus diferencias biológicas por la propia
disponibilidad de su información genética.
Entiendo que la cuestión de fondo a enfrentar es una ilusión
utópica60, que se puede derivar de la creciente capacidad de la técnica
frente a la naturaleza, y consiste en que se puede reemplazar
técnicamente la naturaleza por su conocimiento.
Descifradas genéticamente las diversas especies de flora y
fauna, éstas pueden ser destruidas o eliminadas de su medio natural,
de suerte que, por ejemplo, como en el caso del lobo de Tasmania
(lobo marsupial, que desapareció a principios del siglo XX y que se ha
intentado reproducir), desaparece la razón por la que las especies y
los hábitats deber ser conservados. Habiendo obtenido algunas
muestras biológicas, con esa base podría conservarse la información
biológica suficiente, y con ello, llegar incluso a reproducirlas. Por
tanto, no es necesario conservar ni el lobo de Tasmania, ni las
plantas ni ninguna especie natural, puesto que si podemos descifrar
su información genética, podremos después hipotéticamente, llegar a
reproducirlas. Es decir, se puede pretender que para producir vida,
en sentido biológico, no se necesita partir de una vida previa, como
hasta ahora.
Ese progresivo poder tecnológico, puede generar una ilusión
utópica suicida, en el sentido de creer que las fuentes naturales sobre
las cuales se sostiene la vida en la tierra pueden ser sustituidas por
la técnica avanzada. En este sentido, desde la ilusión de que la
naturaleza puede ser desplazada por el conocimiento, y consiguiente
pérdida del sentido de interdependencia natural; también se puede
generar la misma ilusión respecto de lo específicamente humano.
Dentro de esta lógica, hay un hecho que tiene a mi juicio su
propio valor simbólico. Las empresas biotecnológicas cuando patentan
la información biológica obtenida (por diversos medios) no lo hacen

60 Entiendo por esta ilusión, una pretensión no justificada que distorsiona la capacidad del ser humano de actuar sobre
el medio, incluso sobre sí mismo, y que pone en peligro la supervivencia del actor, o en su caso extremo, de la
humanidad; y que surge de la confianza ciega en ciertas estrategias para alcanzar ideales de perfección postulados
por la mente humana.

Sociedad Del Conocimento,


Biotecnologia y Biodiversidad 137
como “descubrimientos” sino como “invenciones” y más allá de la mera
utilidad jurídica de esa diversa denominación está el hecho de que sus
autores no se sienten “descubridores”, como quienes señalan algo
nunca visto por el ojo humano. Aquí estos descubridores se encuentran
o se topan con algo preexistente de lo que dan cuenta a la sociedad
humana, y por tanto no crean aquello que encuentran. Por el contrario,
la “invención” remite míticamente a la idea de la creación ex nihilo, de
algo nuevo para el ser humano, y que como tal no preexistía, y existe
en el momento en que sus inventores le dan vida.61 El inventor es Señor
de su criatura, y por tanto está más allá de su existencia y de los
condicionantes de su existencia, no así el descubridor.
El despliegue de la acción biotecnológica frente a la biodiversidad
implica lo que podríamos denominar un utopismo de la utilidad, que
maximizado puede llegar a la disolución de la propia realidad62. Por ello,
tras la reducción de la realidad biológica y humana por medio de su
transposición a códigos de información disponibles por el progresivo
desarrollo de la biotecnología, se esconde lo que podríamos llamar un
nihilismo de la información (que Nietzsche no identificó, aunque es una
forma suprema de “voluntad de poder”) tras el cual la realidad material
y concreta de cada uno de los miembros de cualquier especie sería pura
pobreza una vez disponible el conocimiento sobre las fuentes de la vida.
A partir de la progresiva capacidad tecnológica, en sí mismas, esas
formas vivas no serían sino simples ejemplos de seres que, “en
principio”,63 podrían reproducirse indefinidamente, y por tanto no
imprescindibles científicamente.64 Retomando la cita del físico
Rutherford, lo cualitativo no sería sino algo reducible65 a lo cuantitativo
(Qualitative is nothing but poor quantitative),66 lo cual expresa la guía de
acción de las ciencias empíricas, que también se proyecta en la acción
61 Aunque sea realmente esa “invención” fruto de los generado por la naturaleza o de lo generado por la intervención
humana sobre la misma a los largo de siglos; y ello, mediante formas “transgénicas” que lo que hacen es modificar
o recombinar los materiales existentes, para poner la huella de su “innovación”. Como señala V. Shiva, se ha
inventado una nueva terminología, la “invenciones biotecnológicas”, para redefinir la biodiversidad y que las
patentes sobre la vida no resulten controvertidas, en realidad, los científicos pueden recombinar desordenadamente
“genes de diferentes especies en los laboratorios de la universidades y de lsa compañías, no “crean” el organismo
que a continuación patentan” (Biopiratería, op. cit., p. 40) Sin embargo, como indica Ron James, como modo de
proceder de esta tecnología “Dejamos en el gen algunos trozos de este ADN al azar, más o menos como Dios lo
había dispuesto, con lo que conseguimos un buen rendimiento”. A la hora de reclamar derechos de patentes, sin
embargo, el científico se convierte en Dios, el creador del organismo patentado (cf. V. Shiva, Ibid., p. 41).
62 Cf. Hinkelammert, F., Determinismo, caos, sujeto. El mapa del emperador, DEI, San José, 1996, pp. 77-79.
63 Ese es el lenguaje que se suele emplear en la actividad tecnocientífica, y que en realidad no expresa ningún juicio
de hecho, sino una proyección utópica (ver CRU).
64 Biopiracy p. 45-47.
65 Como ha señalado P. Davies “el motor principal del pensamiento científico del mundo occidental en los últimos 350
años ha sido el reduccionismo. La misma palabra “análisis” ilustra adecuadamente el hábito científico de
descomponer un problema para resolverlo. Sin embargo, existen algunos problemas que sólo pueden ser resueltos
juntando sus distintas piezas (son de naturaleza holística o sintética)” (Dios y la nueva física, Salvat, Barcelona,
1998, pp. 72-73).
66 Otro gran científico empírico, Max Planck señalaba: “Wirklich ist, was messbar ist” (lo real es lo que se puede
medir) (citas tomadas de Hinkelammert, F., Determinismo, caos, sujeto. Op. cit., p. 37).

138 Juan Antonio Senent de Frutos


biotecnológica que podemos definir como el conocimiento de las
estructuras cuantitativas por medio de las cuales podrían reproducirse
o utilizarse las diversas formas “cualitativas” de vida. Por ello el afán,
por ejemplo, de las empresas biotecnológicas por identificar y
secuenciar nuevas especies de plantas exóticas antes de la destrucción
final de los bosques tropicales, que según avanzan las fechas se
esperaría para las próximas décadas del siglo XXI. La acción
depredadora sobre estas fuentes de la vida en el planeta, se acompaña
del intento “desesperado” de descubrir y retener la información
suficiente sobre esas especies antes de su desaparición. Esta acción
biotecnológica es perfectamente funcional a la destrucción de las
fuentes naturales de la vida, y además “salvaría” ese patrimonio de la
humanidad con lo que hace irrelevante la conservación de esos
recursos. Para este utopismo científico, esta conservación parece fruto
de nostálgicos del pasado y de formas culturales atrasadas que
dependen de la conservación del medio ambiente para su
sostenimiento. Frente a ellos se alzaría por fin la omnipotencia de la
técnica humana más elevada que escapa a los condicionantes físico-
naturales que ha sujetado a la humanidad en toda su historia, y que
finalmente colocaría al género humano como Señor del medio.
Tras esta ilusión utópica señalada que está detrás de muchas
prácticas actuales, se esconde una lógica que podemos denominar como
“despotismo67 tecnocientífico”. Si la ley del déspota es tal que no
reconoce límites a su propio poder, sino su propia voluntad como única
referencia, no puede reconocer ninguna frontera “insuperable”, ningún
límite que trascienda su propia acción. Mientras más se proyecta el
fantasma de la omnisciencia68 y de la omnipotencia humana sobre el
medio y sobre la propia condición humana, con más valor y decisión se
pueden aniquilar las fuentes de la vida natural y humana sobre nuestro
planeta dada su radical irrelevancia frente al propio poder sobre ellas.
Esta actividad, descrita en términos de aproximación al ideal
utópico señalado, es fácilmente criticable en su debilidad. Una de las

67 En la formulación lockeana el despota es el poder absoluto que gobierna “sin leyes establecidas” (cf. Segundo
Tratado del Gobierno Civil, op. cit, §137 ).
68 Sydney Brenner, premio nobel de medicina de 1992, expresa esta ilusión de omnisciencia a propósito del Proyecto
Genoma Humano: “Todo el mundo creyó que una vez que conociéramos la secuencia completa del genoma
entenderíamos todo, pero no entendemos básicamente nada. El problema principal sigue ahí” (entrevista en el diario
El País, 18 de Septiembre, p. 30). Esa ilusión por tener un conocimiento perfecto, y por consiguiente un dominio
perfecto está implícita en el propio proyecto científico. Ahora bien, el científico, en este caso, no es ingenuo respecto
a esta utopía del conocimiento perfecto y control perfecto del cuerpo humano. A la pregunta siguiente a esta respuesta
contesta (P: ¿Usted sabía que esto iba a pasar?): “Claro que sí, claro que sí. Cada movimiento tiene que tener sus
publicistas para venderlo(...) Lo que pasa es que ahora hay una conciencia mayor en los países desarrollados sobre la
salud y la posibilidad de vivir más años. Hay una gran preocupación por la calidad de vida y la gente es más consciente
de las repercusiones de las ciencias de la vida en su salud individual” (Ib.). Sin embargo, no es sólo cuestión de
“marketing”, de presentación social o de la forma de vender el proyecto, sino que es algo implícito en su propio
desarrollo el alcanzar ese conocimiento perfecto, y que por ello, permite tal presentación. Cuando habla de que “todo
el mundo creyó”, también están implicados los propios científicos, y no sólo el público ansioso de nuevas promesas.

Sociedad Del Conocimento,


Biotecnologia y Biodiversidad 139
críticas más comunes es que, ante la pérdida masiva de biodiversidad,
apenas da tiempo a que unas pocas especies sean analizadas,
identificadas, y en su caso, secuenciadas. Muchas otras caen, o han
caído en los últimos años en un proceso de irreversible pérdida. Ni
siquiera se puede cuantificar lo perdido. Ahora bien, esta crítica, a
pesar de su aparente realismo, también se inscribe en la misma ilusión
utópica. ¿Acaso si fueran secuenciadas todas las especies antes de su
destrucción, estarían con ello “salvadas”? ¿la variabilidad y la
individualidad genética es reconducible a un patrón único de genoma
por especie?, ¿podríamos permitirnos destruir sus hábitats en el que
pueden vivir y reproducirse?, ¿son separables las especies de sus
hábitats, y los hábitats de sus especies?, en última instancia, ¿el
conocimiento de las estructuras del mundo, puede sustituir al mundo?

3.2. La paradoja de la utilidad y la racionalidad científica

Desde la ilusión de la dominación del mundo por el


conocimiento, nos encontramos con la paradoja de la utilidad. El
conocimiento socialmente aplicado puede tratar de controlar el medio
en función de la utilidad para la vida humana en sociedad. Si se
maximiza este criterio de utilidad frente al medio y frente a la propia
condición humana; estos aparecen como res extensa frente al que se
alza el sujeto de los procesos tecnocientíficos como algo contradistinto
de lo material, la res cogitans que ve al mundo, y a su propia
corporeidad, y lo cuantifica y manipula en función de sus cálculos de
utilidad como si estuviera más allá de su subjetividad.69 Si desapareciera
el mundo, “no pasaría nada”. El biólogo Santiago Castroviejo, nos
69 Esta lógica dualista, reduccionista y manipuladora, atraviesa tanto la filosofía como la ciencia moderna. Tras ella
está el desencatamiento del mundo, la pérdida del sentido de valor intrínseco de lo natural y material en función
de la utilidad relativa para el sujeto, y que permite tratar toda la naturaleza como un gran laboratorio sobre el que
experimentar, incluso viviseccionar, para obtener algún conocimiento, y en su caso, alguna utilidad. Frente al
mundo, se alza un sujeto, que en el fondo no puede saber si realmente pertenece al mundo. Puede dudar de todo,
incluso de la existencia del mundo que observa sus sentidos. Separada la subjetividad interior (el alma), de la
objetividad exterior (los cuerpos, su cuerpo), ya no podrá ser parte del mundo. El maestro de la duda metódica,
Descartes, quien expone magistralmente la lógica cultural de la ciencia empírica moderna, explica en qué consiste
este sujeto: “¿qué soy entonces? Una cosa que piensa. Y ¿qué es una que piensa? Es una cosa que duda, que
entiende, que afirma, que niega, que quiere, que no quiere, que imagina, y que también siente” (Meditaciones).
Este sujeto de las operaciones, carece de suyo de materialidad: “el alma, en virtud de la cual yo soy lo que soy, es
enteramente distinta del cuerpo” (Discurso del método); “puesto que por una parte tengo una idea clara y distinta
de mí mismo, según la cual soy algo que piensa y no extenso y por otra parte, tengo una idea distinta del cuerpo,
según la cual éste es una cosa extensa, que no piensa, resulta cierto que yo, es decir, mi alma, por la cual soy lo
que soy, es entera y verdaderamente distinta de mi cuerpo, pudiendo ser y existir sin el cuerpo” (Meditaciones, VI).
El cuerpo humano, como el de los animales y el resto de cuerpos físicos, es una suerte de máquina cuyo
funcionamiento mecánico podrá ser descrito por la ciencia. Pero el sujeto de la ciencia que es el ser humano,
“puede ser y existir sin el cuerpo”. Por ello, puede tratar de conocerlo y manipularlo, incluso hasta su destrucción
porque está más allá del mundo. Con ello, se producirá una fuga mundi, que trae causa de la misma antropología
helenizante que iluminaba a San Agustín cuando identifica la verdadera naturaleza humana con el cuerpo espiritual
que se opone esencialmente al cuerpo carnal, reinterpretando con ello, todo el lugar central que el cuerpo y la
atención a sus necesidades tenía para la vida humana en la tradición cristiana originaria. La pérdida de sentido de
lo corporal material, de sus necesidades y exigencias; de su centralidad y relevancia para la vida, genera la ilusión
de un sujeto que puede existir sin el cuerpo; y por tanto que, radicalmente, no conoce límites naturales. Es un
alma pura por encima y más allá de sus determinaciones materiales.

140 Juan Antonio Senent de Frutos


recuerda recientemente esta misma lógica científica inscrita en su
propia actividad como taxonomista o clasificador de especies: “Muchos
hábitats se están deteriorando rápidamente (...). Los índices de
biodiversidad han bajado. Pero hay algo que me gustaría decir sobre
esto de la conservación. Todo el mundo está muy preocupado por la
extinción de las especies, pero en la historia de la Tierra han ocurrido
catástrofes mucho mayores de las que pueda provocar el hombre, y no
pasó nada. (...) Al mundo no le pasará nada. Si ahora hubiera una
catástrofe nuclear y desapareciéramos, se iniciaría posiblemente un
nuevo ciclo evolutivo a partir de la vida bacteriana. La vida es evolución
permanente. Sin embargo ahora se nos ofrece una foto fija de la
naturaleza, que debe permanecer estática... Como si la naturaleza fuera
algo sagrado e inmutable. No lo es”.70
Como la naturaleza no se considera como algo “sagrado”, algo
que posee análogamente una “dignidad” (por decirlo con Kant) sino
que es sólo medio de nuestras acciones, no se ven las razones de su
conservación. Se invisibiliza el criterio para discernir racionalmente
la acción. Como “no lo es”, entonces el nihilismo destructor de la
actividad humana avanzada (la que permite tanto la construcción de
bombas atómicas como el desarrollo de la biotecnología moderna) es
perfectamente racional y contempla impasible la aniquilación del
mundo ante la promesa de una nueva creación sobre sus cenizas. En
el fondo, se nos está diciendo, sin quererlo, el máximo exponente del
ecologismo lo representarían quienes destruyeran atómicamente
nuestro planeta pues, gracias a ellos, podría comenzar una nueva la
evolución de la biodiversidad a partir de las bacterias. Como señala
Castroviejo “cuando se extinguieron los dinosaurios no pasó nada,
solo que ellos y otras muchas especies desaparecieron, pero en su
lugar se desarrollaron los mamíferos y llegamos nosotros. ¿Fue malo
que llegáramos nosotros?”.71
Desde ahí puede entenderse que no pase nada, pues se abre un
futuro cósmico, sin seres humanos, que quizá dé lugar a formas de
vida aún superiores a la nuestra. Aquí podemos ver la sobrecogedora
capacidad de destructividad y de indiferencia de este sujeto del
conocimiento que contempla al universo, su destrucción y recreación,
el paso de las especies, inclusive del propio sujeto que contempla su
desaparición física y de la propia especie humana a la que se dice
pertenecer, completamente impasible. Este sujeto no es más que un
ente fantasmagórico que pretende recorrer fuera del tiempo y del

70 Entrevista en diario El País, 24 de Septiembre de 2003, p. 36.


71 Op. cit.

Sociedad Del Conocimento,


Biotecnologia y Biodiversidad 141
espacio, el dinamismo vivo del universo más allá de cualquier
limitación de índole físico-natural; y que desde ahí pretende
establecer un juicio de irracionalidad de quienes sostienen los límites
de la condición humana.
Desde esta ilusión utópica, el mundo está lleno de dinosaurios,
en sentido biológico, de especies que están esperando desaparecer,72
y cuya destrucción abre el camino de la creación para dar paso a
nuevas formas de vida; en sentido cultural, de pueblos que
entorpecen el camino brillante de la ciencia; y en sentido ético-
político, de quienes pretender discernir la racionalidad y los límites
científicos y humanos de las prácticas biotecnológicas y se atreven a
sospechar de uno de los ídolos de nuestro tiempo.
Ahora bien, este camino de “destrucción creadora” al que la
aproximación al ideal utópico de la tecnología moderna parece
conducirnos, revela una crisis de utilidad si se maximiza este criterio de
utilidad frente al medio y frente a la propia condición humana. Lo que
parecía ser un acercamiento razonable a la realidad, cuando se erige en
único criterio de actuación se revela perfectamente nihilista, y con ello,
surge la paradoja de que lo útil, conduce a la inutilidad cuando no hay
otros criterios de juicio sobre la realidad.73 Llegados al punto en el que la
entrega a la imaginación utópica nos ha conducido, y en el que la
conservación de la biodiversidad es perfectamente irrelevante para el
futuro de la vida en el universo, y en última instancia para la propia
conservación de la naturaleza como fuente de vida humana y no humana
(vid. supra), surge la conciencia del límite que reorienta la acción.

3.3. Descubriendo los límites

A la pregunta de si la biodiversidad sirve para algo desde un


punto de vista egoísta, Castroviejo parece despertar del sueño
fantasmagórico al que en última instancia el dualismo excluyente
sujeto-objeto inscrito en la ciencia empírica moderna nos conduce: “Ahí
voy. ¿Por qué no debemos perder biodiversidad? Porque es un
indicador de que vamos en el mal camino para nuestro propio futuro.

72 Ante cuya extinción, como el probable fin del lince ibérico, el alma del sujeto del conocimiento (res cogitans) solo
puede exclamar: “me entristeceré” (cf. ib.).
73 Como señala lúcidamente Franz Hinkelammert, “Que algo sea útil, no implica que un cálculo de utilidad mostrar su
utilidad. Por eso hay una utilidad que se opone al cálculo de utilidad. Es útil limitar el cálculo de utilidad. También
es útil que determinados valores sean respetados, sin ser derivables de un cálculo de utilidad. Una ética que no
sea útil, sería inútil. Ese es el terreno de la ética. En consecuencia, no se pueden tratar la ética y la utilidad como
contrarios. La ética no es inútil. La contradicción se da entre el cálculo de utilidad y la ética. Luego, hay una ética
que nace de argumentos de utilidad sin ser “utilitarismo”. Por ser útil puede ser objeto de las ciencias empíricas.
Respetar la naturaleza, fomentar la paz, luchar en contra de la explotación es útil para todos, pero se halla siempre
en conflicto con una acción que se orienta por el cálculo de utilidad.”; Determinismo, caos, sujeto. El mapa del
emperador, op. cit.,p. 119.

142 Juan Antonio Senent de Frutos


La naturaleza nos es necesaria”.74 Desde el planteamiento anterior, el
sujeto podía prescindir de la suerte del objeto, pues consistía en un
observador externo que contemplaba el mundo desde fuera. Aquí, si el
ser humano quiere seguir siendo Señor del medio, tiene que renunciar
a su trono, a su despotismo (estar más allá de cualquier límite) para
conservar su poder.75 Entregado a la voluntad de poder, disuelve la
posibilidad de “seguir siendo”. Tiene que comprender los límites antes
de entrar en un punto de no retorno. El ser humano existe si la
naturaleza existe. No puede reemplazar a la naturaleza por el
conocimiento de la naturaleza. Tampoco puede ir más allá de su
condición humana como estructura psico-orgánica por el conocimiento
de las estructuras de la condición humana. Al reconocer la naturaleza
(y el cuerpo) como “necesario” trascendemos la lógica cultural de la
ciencia moderna avanzada y nos situamos en la lógica cultural de los
pueblos tecnológicamente atrasados que se saben inscritos en el
circuito de la vida, y que por tanto deben respetarla si se quieren
respetar a ellos mismos. Como sabiamente nos recuerda el jefe indio
Seatle: “nosotros sabemos esto: la tierra no pertenece al hombre. El
hombre pertenece a la tierra. Nosotros sabemos esto: todas las cosas
están interrelacionadas, como la sangre que une a la familia. Todas las
cosas están relacionadas entre sí. Todo lo que le sucede a la tierra,
sucede a los hijos de la tierra, sucede a los hijos de ella. El hombre no
trama el tejido de la vida. Él es, sencillamente, una pausa en ella. Lo
que él hace a ese tejido se lo hace a sí mismo”. Si la naturaleza pierde
biodiversidad, estamos en el mal camino para nuestro propio futuro.
La reflexión sobre los límites de una acción biotecnológica que
no quiere reconocer límites (“en ciencia, todo lo que se puede hacer
se hace”)76 es algo que supera el marco de la praxis científica
moderna. Si la ciencia es el reino de lo cuantitativo, necesitamos
criterios cualitativos frente a la reducción cuantitativa del mundo.
Los propios científicos atisban esos criterios como los podemos
atisbar desde cualquier sociedad que quiera despertar de su
ingenuidad cientifista,77 por ello, “los científicos sí deben entrar en el

74 Ib.
75 Es el problema radical del antropocentrismo vid. CRU. Sin embargo este problema pasa completamente
desapercibido por Pureza, aun cuando muestra los límites de tal posición.
76 Ib.
77 Entre los diversos ejemplos que se pueden ofrecer de esta ingenuidad, se presenta hoy la inmortalidad como un
objetivo alcanzable. Como indica Hille Haker, la American Academy of Anti-Aging Medicine, lanza en su
propaganda la idea de “una `nueva´ sociedad, a saber, una sociedad sin senectud, con una duración de vida de
hasta 150 años y con el clon reproductivo como un sillar para conseguir la inmortalidad”, en “El cuerpo perfecto:
utopías de la biomedicina”, Concilium, n.º 295, 2002, p. 167. En este mismo sentido, Rubén Urtuzuástegui señala
que las promesas de la biotecnología se enfocan hacia el “perfeccionamiento del ser humano, garantizando su salud
y prolongando su juventud, incluso se habla ya de inmortalidad” (“Biotecnología: negocio del futuro”, op.cit.).

Sociedad Del Conocimento,


Biotecnologia y Biodiversidad 143
debate de si se debe o no hacer algo”.78 Ello supone trascender el
punto de vista científico e integrarlo en una diversa forma de
relacionarse con el mundo. Con ello, no se trata de “abolirlo” si no de
situarlo en un contexto mayor de racionalidad humana que no
permita desconocer la radical dependencia natural del ser humano
con el medio biótico, y de su propia corporalidad. Supone introducir
“juicios de valor” como forma de controlar los “juicios de hecho”, que
en última instancia conducen a que “todo lo que se puede hacer, se
hace”. Es la voluntad de poder que está tras el fantasma de
omnisciencia de la ciencia empírica moderna. La actividad
tecnocientífica más allá de los juicios de valor deviene irracional e
inútil para la vida humana en sociedad. Por ello, una crítica de esta
actividad implica no solamente establecer juicios y límites “externos”
de carácter social, cultural o legal, sino la necesidad reconocer en las
propias condiciones de racionalidad de la actividad científica estos
límites como límites “internos” de la propia actividad.

78 Castroviejo, op. cit.

144 Juan Antonio Senent de Frutos


Projetismo e Desenvolvimento
Sustentável: O Caso dos
Pequenos Projetos1

Ana Carolina Cambeses Pareschi 2

1. INTRODUÇÃO

E ste seminário tem como base a tese de doutorado por mim


defendida neste mesmo departamento em maio de 2002,
intitulada Desenvolvimento Sustentável e Pequenos Projetos: entre o
Projetismo, a Ideologia e as Dinâmicas Sociais. Na tese, procurei
observar e analisar os processos sociais que ocorriam antes e durante
a implementação de um dos componentes do Programa Piloto para a
Proteção das Florestas Tropicais do Brasil (PP-G7), o Subprograma
Projetos Demonstrativos A (PD/A), desde o nível internacional até o
nível local, com relação especialmente às disputas e negociações entre
agentes sociais diversos do campo do ambientalismo quanto aos
significados do conceito de “sustentabilidade” do desenvolvimento e das
práticas “adequadas” à sua implementação.
Agregadas a estas disputas e negociações que ocorriam mais
visivelmente nos níveis internacional, nacional e regional, estavam
outras relacionadas à diversidade dos contextos locais e de seus atores,
dentre os quais sociedades indígenas e camponesas. Foram escolhidos
alguns dos pequenos projetos de desenvolvimento sustentável
financiados pelo PD/A, chamados Frutos do Cerrado. O Frutos do
Cerrado era na verdade um conjunto de doze pequenos projetos espa-

1 Seminário apresentado em 5 de novembro de 2003 no Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília.


2 Departamento de Antropologia-UnB. Doutora em Antropologia Social pela Universidade de Brasília.

Projetismo e Desenvolvimento Sustentável:


O Caso dos Pequenos Projetos 145
lhados pelo norte do Tocantins e sul do Maranhão, agregando numa
rede associações e cooperativas de pequenos produtores rurais, uma
associação de povos indígenas Timbira com cinco povos representados
e duas ONG’s assessoras, o Centro de Educação e Cultura do Traba-
lhador Rural – Centru e o Centro de Trabalho Indigenista – CTI, totali-
zando quatorze entidades. Os objetivos destes pequenos projetos eram
conservar o cerrado, garantir uma alternativa econômica sustentável
aos povos indígenas e camponeses e ao mesmo tempo proteger as
Terras Indígenas através de uma aliança entre “vizinhos de pequeno
porte” – camponeses e índios. Isso se daria por meio do plantio, coleta,
beneficiamento e comercialização dos frutos do cerrado através
principalmente do seu processamento em forma de polpas congeladas.
É possível perceber nesta breve apresentação que o número e o
tipo de atores com os quais tivemos contato foi bastante diverso e
extenso, sendo necessário um recorte. Assim, nesta exposição, nos
deteremos nos conceitos primordiais elaborados e utilizados na tese
com relação às situações etnográficas mais gerais observadas no
interior da Rede Frutos do Cerrado e na relação desta com o PD/A.
A apresentação está dividida em três partes. Na primeira
apresento o PP-G7 e o PD/A e sua importância no quadro do ambien-
talismo para ressaltar especialmente a ideologia e a linguagem
presente nestes programas, dentre as quais a do projetismo e a do
desenvolvimento sustentável. Desenvolvo o arcabouço conceitual
antropológico que utilizei para analisar os conflitos de interpretação,
de poder e de metodologia na implementação do PP-G7, do PD/A e
que se estende, em certa medida, para os pequenos projetos de
desenvolvimento sustentável em geral. Na segunda, exponho de
forma mais detida os termos do projetismo do PD/A e as tensões com
os princípios do desenvolvimento sustentável no interior da Rede
Frutos do Cerrado. Na terceira, exploro estes mesmos aspectos,
porém a partir da relação da Rede Frutos do Cerrado com o PD/A.
Finalizo com uma breve conclusão.

2. PP-G7 E PD/A COMO ESPAÇOS DE DISPUTAS

O Programa Piloto para a Proteção das Florestas Tropicais do Brasil


(PP-G7) foi anunciado em 1992 durante a conhecida Conferência Mundial
de Meio Ambiente e Desenvolvimento – ECO-92. Foi resultado de um
longo processo de pressões que os movimentos ambientalistas e de defesa

146 Ana Carolina Cambeses Pareschi


dos direitos indígenas, nacional e internacional, vinham sustentando
contra os impactos negativos das políticas desenvolvimentistas levadas a
cabo no Brasil e nos demais países do Terceiro Mundo.
Os objetivos específicos do PP-G7 são:
i) demonstrar que o desenvolvimento econômico
sustentável e a conservação do meio ambiente podem ser
perseguidos ao mesmo tempo nas florestas tropicais; ii)
preservar a biodiversidade das florestas tropicais; iii) reduzir a
contribuição das florestas tropicais na emissão mundial de gases
provocadores do efeito estufa; iv) prover um exemplo de
cooperação entre os países industrializados e os em
desenvolvimento quanto aos problemas ambientais globais
(MMA/SCA/PPG-7, s/d.: 1, itálico meu).

Vê-se claramente, por estes objetivos, que a “sustentabilidade”


se refere mais ao “desenvolvimento econômico” do que à conservação
ambiental. As “florestas tropicais” são tomadas como ícones da
biodiversidade e as queimadas como uma das contribuições
importantes na emissão dos gases produtores do efeito estufa, uma
verdade parcial, já que a atividade industrial e a queima de
combustíveis fósseis por automóveis contribuem muito mais.
A Resolução de criação do Rain Forest Trust Fund,3 de 3 de
março de 1992, no âmbito do Banco Mundial, diz que o PP-G7 tem
um caráter “experimental” que procura “testar a aplicação de uma
abordagem ampla para a proteção da maior floresta tropical do
mundo” (BIRD, 1992: 8). Leia-se, Amazônia. Somente no processo de
negociação do Programa, a Mata Atlântica encontrou um diminuto
espaço em sua pomposa estrutura, para apenas na segunda fase do
PP-G7 a ser iniciada em 2004, constituir-se como uma região que
merecesse um subprograma específico.
O PP-G7 constituiu-se num programa sui generis de doações do
Grupo dos Sete países mais ricos do mundo – o G7 – para um único país
no sentido de financiar ações diversas de conservação ambiental e de
implementação de um desenvolvimento dito “sustentável”.4 O PP-G7
recebeu inicialmente cerca de US$ 350 milhões, destacando-se a
Alemanha como o maior doador, com 42,8% dos recursos (ver Tabela 1).

3 Este Fundo foi criado pelo Banco Mundial para abrigar os recursos doados pelos países integrantes do Grupo dos Sete
(G7) – Estados Unidos, Canadá, Alemanha, França, Japão, Itália e Reino Unido – destinados ao PP-G7. O Banco
Mundial foi eleito pelo G7 como fiel depositário destes recursos e, portanto, era ele que os administrava.
4 Um Fundo parecido ao PP-G7 se constituiu em 1990 chamado Fundo para o Meio Ambiente Mundial, ou Global
Environmental Facility (GEF). Porém, diferentemente do PP-G7, o GEF conta com o financiamento de mais de 25
países, não só do Primeiro Mundo, e destina-se ao financiamento projetos de conservação e desenvolvimento
sustentável em quatro áreas principais (biodiversidade, aquecimento global, águas internacionais e camada de
ozônio) em todos os continentes.

Projetismo e Desenvolvimento Sustentável:


O Caso dos Pequenos Projetos 147
Tabela 1 – Orçamento do PP-G7, por fonte, junho de 2000
Em US$ milhões

Fonte: Adaptado de MMA/SCA/PP-G7/BIRD, Pilot Program Annual Report 1999-2000, 2000: 26.
Obs. 1: A tabela não inclui a renda de investimento não desembolsada pelo RFT que está disponível
ao Programa e somava US$ 18,06 milhões em 30 de junho de 2000.
Obs. 2: Os recursos para projetos incluem o valor estimado das cooperações técnicas dos doadores
informadas por estes.

Entre junho de 1992 e novembro de 1993, desenrolou-se


um complicado processo de negociação entre o governo brasileiro,
o Banco Mundial – eleito pelo G7 como seu representante no
Programa, a Comissão das Comunidades Européias e um
conjunto de ONG’s sócio-ambientais que passou a ser
denominado Grupo de Trabalho Amazônico – GTA. O GTA,
embora questionado inicialmente por outros coletivos de ONG’s
preexistentes, transformou-se gradativamente em uma das redes
de ONG’s expressivas na “representação da sociedade civil” no
PP-G7. Em função mesmo desta participação é que o
Subprograma Projetos Demonstrativos tipo A, o PD/A, foi um dos
primeiros subprogramas aprovados no PP-G7, em novembro de
1993, e o único até aquele momento que previa a participação de

148 Ana Carolina Cambeses Pareschi


ONG’s, justamente naquilo que seria uma de suas especialidades:
a elaboração, execução e acompanhamento de pequenos projetos.
Segundo um dos documentos do PD/A, este subprograma foi
construído para abrigar as “diversas categorias de projetos de
ONG’s, grupos comunitários e governos locais (...) visando à
redução dos impactos sociais e econômicos decorrentes da
degradação ambiental” (MMA/SCA/PPG-7, 1998: 12 e 16).
Conforme este último documento,

a maioria dessas iniciativas são de interesse e, realmente,


contribuem para a resolução dos problemas locais. Contudo,
sofrem restrições orçamentárias e seus canais de financiamento
são limitados. Somente as ONG’s mais proeminentes têm
conseguido acesso a ajuda financeira externa (idem: 16).

Assim, a cooperação internacional, associada ao governo brasileiro,


dava início a um processo de abertura para os pequenos projetos
historicamente desenvolvidos e financiados pelas ONG’s e suas redes.
Os objetivos específicos do PD/A são:

a) gerar conhecimentos sobre a conservação, a preservação


e o manejo sustentável dos recursos naturais, por meio de
atividades demonstrativas e com o envolvimento e a participação
das populações locais;

b) transferir o conhecimento resultante das experiências


para outras comunidades, outras ONG’s, tomadores de decisão
e técnicos de governo;

c) fortalecer a capacidade de organização e articulação das


populações locais, bem como a sua capacidade de elaborar e
implementar subprojetos (PD/A, Manual de Operações, 1998: 6).

Interessante ver que um dos objetivos do PD/A é capacitar as


entidades a elaborar e implementar projetos. Parece estar implícito
que elaborar e implementar projetos seria a solução para a
“independência financeira” destas entidades e para a resolução de
seus problemas tidos como locais. Sutil e inconscientemente, o PD/A
acaba atribuindo aos grupos marginalizados a responsabilidade por
sua situação, pois se fossem organizados e articulados estariam
realizando seus pequenos projetos. Ou ainda, os pequenos projetos

Projetismo e Desenvolvimento Sustentável:


O Caso dos Pequenos Projetos 149
são considerados, de certo modo, uma forma de solucionar os
problemas da pobreza e da degradação ambiental.
Enfim, a idéia central do PD/A é

reforçar a capacidade da sociedade para que ela própria,


em associação com o governo, desenvolva soluções factíveis para
a conservação e o desenvolvimento da região amazônica e
regiões de domínio da Mata Atlântica, testando, aplicando,
desenvolvendo e disseminando métodos alternativos de
gerenciamento e conservação dos recursos naturais, que sejam
econômica, social e ecologicamente sustentáveis (MMA/SCA/
PPG-7, 1998: 14-15). Isto é, testar e ampliar modelos de
desenvolvimento sustentável que possuam um alto potencial
multiplicativo, estruturados com base na experiência existente no
nível da população (idem: 15).

Os “pequenos projetos de desenvolvimento sustentável” que o


PD/A financiou na sua primeira fase5 distribuíram-se em quatro
áreas temáticas: sistemas de preservação ambiental; sistemas de
manejo florestal; sistemas de manejo de recursos aquáticos e
sistemas agroflorestais e recuperação de áreas degradadas.
Entre o final de 1993 e 1995 foram sendo concluídas as versões
finais e os contratos de doação de cinco projetos que se iniciaram em
1995: o PD/A; o Subprograma de Recursos Naturais (SPRN); o Projeto
Integrado de Proteção a Terras e Populações Indígenas da Amazônia
Legal (PPTAL); o Subprograma de Ciência e Tecnologia; e o Projeto de
Reservas Extrativistas. Outros programas foram sendo negociados,
elaborados ou mesmo descartados ao longo de sua duração,
totalizando em 2001, doze Subprogramas ou Projetos, dentre os quais
três ainda estavam sendo negociados. Assim, o PP-G7 constitui-se
numa extensa estrutura tecnoburocrática que, apesar de vários
esforços, não logrou articular-se nem internamente e nem às políticas
públicas não contempladas no PP-G7, cuja articulação era
fundamental importância na modificação do quadro geral do
desenvolvimento e da conservação ambiental local e regional (ver
Figuras 1, abaixo, e 2, em Anexo)

5 De 1995 a 2001. Entre 2002 e 2003 houve renegociação para a Segunda Fase que terá início em 2004.

150 Ana Carolina Cambeses Pareschi


Figura 01
Organização Temática do PP-G7

Projetismo e Desenvolvimento Sustentável:


O Caso dos Pequenos Projetos 151
Este processo revelou a complexificação do campo ambienta-
lista na medida em que “novos”, ou melhor, “velhos” atores nele
adentraram, tais como as agências e os bancos bi e multilaterais de
desenvolvimento. Os tradicionais agentes do “desenvolvimento” agora
estariam também no financiamento não só da conservação ambiental
como também no suporte às ONG’s e movimentos sociais, seus
tradicionais opositores. Digo “campo” no sentido dado por Bourdieu
(1983). Isto é, um espaço estruturado de posições (ou de postos) cujas
propriedades dependem das posições nestes espaços. O campo se
constitui de lutas entre o novo que está entrando e tenta forçar seu
direito de entrada e o dominante que tenta defender o monopólio e
excluir a concorrência. Neste caso, poderíamos dizer que tanto os
agentes do desenvolvimento procuram adentrar ao campo do
ambientalismo como o inverso, utilizando-se de seus respectivos
capitais simbólicos seja para modificar a relação de forças no interior
do campo seja para modificar os seus próprios campos de origem.
Para que um campo se defina e funcione “é preciso que haja
objetos de disputa e pessoas prontas a disputar o jogo, dotadas de
habitus que impliquem no conhecimento e no reconhecimento das leis
imanentes do jogo, dos objetos de disputa etc.” (BOURDIEU, 1983: 89).
Disputa-se não só o significado das noções de desenvolvimento e de
sustentabilidade, ou seja, regimes de verdade diversos (FOUCAULT,
1988), mas também formas e metodologias de implementação de
projetos consideradas adequadas para se alcançar os objetivos
genéricos do “desenvolvimento sustentável”. É neste sentido que nos
utilizamos do conceito de projetismo como um modus operandi
predominante neste contexto e que será tratado mais adiante.
Para Foucault, um regime de verdade seria um conjunto de
regras e enunciados que distingue o verdadeiro do falso, se
atribuindo ao verdadeiro efeitos de poder que são também efeitos de
verdade (1988: 13). Se, para o autor, a cada sociedade corresponde
um “regime de verdade”, podemos também dizer, seguindo a sua
análise, que a cada grupo político-ideológico corresponderia um
regime de verdade que procura se tornar hegemônico pelo debate
político e pelo confronto social informado por ideologias distintas. Nas
sociedades ocidentais uma das características da economia política
da “verdade” é que esta é centrada na forma do discurso científico e
nas instituições que o produzem. Outra característica é que ela é
produzida e transmitida sob controle, não exclusivo, mas dominante,
de alguns grandes aparelhos políticos ou econômicos (universidades,
Exército, meios de comunicação, escritura) (idem: 13). O ambienta-

152 Ana Carolina Cambeses Pareschi


lismo disseminou-se globalmente a partir da década de 1970 como
uma ideologia-utopia de caráter totalizante, como mostramos em
outro trabalho (PARESCHI, 1997), cujo caráter inicial procurava
romper de forma radical e contestatória com o regime de verdade
estabelecido, plasmado, especialmente no discurso e nas instituições
tachadas de “desenvolvimentistas”.6 Neste confronto, ambos os lados
abriram brechas para negociações.
Fazemos aqui uma pequena digressão no sentido de aprofundar
as idéias de desenvolvimento sustentável e de pequenos projetos para
depois voltar ao PD/A e ao PP-G7 como espaços de disputas e seus
modus operandi.
Inicialmente fatalista, apocalíptica e radical – balizada internamente
entre as tendências conservacionistas e preservacionistas e externamente
na luta política contra os governos e as empresas a partir de denúncias e
protestos – a ideologia-utopia ambientalista e os seus movimentos sociais
foram ganhando contornos menos radicais para poder dialogar com os
agentes do desenvolvimento e com a sociedade em geral, propondo
soluções que fossem factíveis e negociadas no campo político. Foi neste
processo que o ambientalismo brasileiro, por exemplo, foi ganhando novos
aliados representados por tendências mais ligadas aos movimentos
populares e sociais de um modo geral. No plano internacional, esta “ame-
nização” do ambientalismo manifestou-se pela produção de conceitos que
refletiram a diversidade de interesses em torno da incorporação das
considerações ambientais no processo de desenvolvimento. Dentre eles o
mais eficaz foi o de “desenvolvimento sustentável”, que embora tenha
surgido já na década de 1970, ganhou notoriedade internacional apenas
na de 90, especialmente em função da ECO-92.
As agências de desenvolvimento, e os economistas, por sua vez,
foram obrigados a reformular seus discursos para adaptá-lo a um
novo regime de verdade que procurava se impor. Esta reformulação
deu-se rapidamente já que freqüentemente ouve-se falar em
6 Utilizamos a noção de ideologia-utopia com base em duas concepções teóricas distintas mas não excludentes entre
si. Quanto à idéia de utopia e mesmo de ideologia, Mannheim (1968) foi nossa inspiração. Para ele, tanto ideologia
quanto utopia são idéias transcendentes em relação à ordem existente. Porém, as idéias utópicas tenderiam a
abalar, mesmo que parcialmente, a realidade, se se transformarem em conduta. Já as ideologias jamais
conseguiriam de fato a realização de seus conteúdos pretendidos porque quando incorporados à prática seus
significados são, na maior parte dos casos, deformados. Mannheim classificou três tipos históricos de mentalidade
utópica: a quiliástica (ou milenarista), a liberal-humanitária e a socialista-comunista. Assim, em geral aquilo que
chamamos de ideologia é para Mannheim, utopia, tendo assim um significado oposto àquele que comumente se
utiliza: o de não realização de ideais na prática. Dumont (1982 e 1993) nos forneceu um outro significado para o
termo ideologia: um conjunto de idéias e valores próprios de uma sociedade (ou conjunto de sociedades), ou ainda,
um conjunto social de representações, que têm caráter englobante. Isto é, o ambientalismo, e posteriormente a
idéia de desenvolvimento sustentável, são variantes de uma ideologia ocidental englobante – a do Individualismo
moderno – que incorpora vários aspectos das mentalidades utópicas históricas colocadas por Mannheim, podendo
ser classificada como mais um tipo de mentalidade utópica. Devido a esta inter-relação dos dois conceitos e
também à diversidade no interior do ambientalismo, é mais coerente utilizar os dois termos – ideologia e utopia
– para se referir a este movimento social e ideário (Sobre o uso deste termo ‘ideologia-utopia’ para se referir ao
conceito de desenvolvimento sustentável conferir também Ribeiro, 1991).

Projetismo e Desenvolvimento Sustentável:


O Caso dos Pequenos Projetos 153
“desenvolvimento sustentável” sem que a “sustentabilidade” esteja
referida à conservação ambiental proposta pelo ambientalismo. Já as
práticas têm sido muito pouco diversas daquelas de outrora.
Mas o que vem a ser, afinal, “desenvolvimento sustentável”?
Para responder a esta pergunta, é necessário responder a outras,
como por exemplo, “sustentar o quê?”, “para quem?” e “em que
contexto?” O conceito de desenvolvimento vem sendo adjetivado
sucessivas vezes ao longo destes últimos 50 anos devido à sua
“dinâmica adaptativa” (ESCOBAR, 1995: 42) permitindo assim,
conforme a disposição dos processos econômicos, socioculturais e
políticos e seus elementos, a incorporação de novos objetos, modos de
operação e a modificação de numerosas variáveis. Contudo, na visão
de Escobar com a qual concordamos, não tem havido modificação na
forma como estes elementos se inter-relacionam, ou seja, no princípio
organizador desta estrutura que se reproduz sistematicamente a
partir de instituições, ações e discursos consertados. O excelente
estudo de Gilbert Rist (1997) sobre a história do desenvolvimento
corrobora tal visão e, para ambos, o desenvolvimento sustentável
levado a cabo pelos agentes do desenvolvimento não é outro senão
mais uma versão da dinâmica adaptativa do conceito de
desenvolvimento, onde a “sustentabilidade” em nada tem a ver com
as preocupações ecológicas ou sociais.
Se, por um lado, concordamos com as interpretações de
Escobar e de Rist, por outro, acreditamos que estas não apresentam
“toda a verdade”, ou melhor, a complexidade semântica e política
deste conceito que, por isso mesmo, serve tanto aos agentes
tradicionais do desenvolvimento não sustentável, no sentido
ecológico, quanto aos agentes interessados na mudança do modelo
geral, problematiza o campo de relações em que é acionado bem como
os seus agentes. Seguindo uma visão mais à la Sahlins (1990, 1997a;
1997b), a postura antropológica deve levar em consideração que a
cultura não é um “objeto” em vias de extinção e que por isso, mesmo
a noção de desenvolvimento, associada que está à expansão do
capitalismo sobre os mais diversos povos do mundo, não implicou
numa homogeneidade de interpretações e processos sociais. Como
aponta Sahlins em Ilhas de História (1990), a história é ordenada
culturalmente de diversas formas nas diferentes sociedades assim
como a cultura é resignificada pela história no curso dos
acontecimentos. A síntese disto desdobraria-se em ações criativas
dos sujeitos históricos. Assim, para os nativos da neomelanésia, por
exemplo, o termo “desenvolvimento”

154 Ana Carolina Cambeses Pareschi


refere-se a um processo (...) no qual os impulsos comerciais
suscitados por um capitalismo evasivo são revertidos para o
fortalecimento das noções indígenas da boa vida. Assim, bens
europeus não tornam simplesmente as pessoas mais
semelhantes a nós, e sim mais semelhantes a elas próprias
(SAHLINS, 1997a: 60).

Da mesma forma, a idéia de um desenvolvimento sustentável


não pode ser resumida exclusivamente à visão e à posição que alguns
agentes deste “campo polinucleado” (BARROS, 1996) têm. Neste
sentido, abre-se para a Antropologia a interpretação dos diferentes
significados do termo referidos a contextos etnográficos e atores
específicos. O PP-G7, o PD/A e o Frutos do Cerrado apresentaram-se
assim como um locus privilegiado para tal interpretação.
A noção de sustentabilidade veio sendo construída desde os anos
20 do século XX pelas noções alternativas de agricultura (biodinâmica,
orgânica, biológica, natural) que a partir dos anos 1960 ganharam maior
publicidade com a divulgação de estudos e livros que mostravam os
impactos da “agricultura moderna”, apontando assim para o caráter “não-
sustentável” deste modelo (EHLERS, 1996). Contribuiu para esta visão
crítica a publicação do livro de E. F. Schumacher, Small is Beatiful, de
1973, onde o autor discorre sobre a “insustentabilidade” do modelo
produtivo da sociedade industrial baseado que está em pressupostos
destrutivos de sua própria base de “recursos” (não só materiais, mas
humanos – intelectuais, morais, éticos, criativos, belos etc.) e sugere uma
série de reflexões e sugestões que possibilitem a transformação deste
modelo de sociedade.7 Entre estas reflexões, a escala de intervenção das
sociedades ocidentais sobre o meio ambiente natural é questionada por
pautar-se por um “gigantismo”. Schumacher propõe, então, que um
modelo de sustentabilidade deve ser aquele da “pequena escala”. Estava
então colocado um dos pressupostos fundamentais dos pequenos projetos
de desenvolvimento, ou “projetos de desenvolvimento comunitário”, que
posteriormente se transformarão nos “pequenos projetos de desenvol-
vimento sustentável” (PPDS’s).
O paradigma de desenvolvimento sustentável procurou
abranger todas as outras noções de “desenvolvimento alternativo”
que se elaboravam entre o final das décadas de 1960 e a década de
70. Formulou-se um conhecido slogan pelo qual a sustentabilidade
das ações seriam aquelas marcadas pelo equilíbrio ecológico e pela
justiça social. Este desenvolvimento deveria levar em conta não

7 É interessante lembrar o subtítulo do livro: “Um estudo de economia que leva em conta as pessoas”.

Projetismo e Desenvolvimento Sustentável:


O Caso dos Pequenos Projetos 155
somente aspectos econômicos, mas as múltiplas dimensões da vida
social, incluindo-se a qualidade ambiental. Apesar da variedade de
definições de desenvolvimento sustentável a maior parte delas se
refere à manutenção dos estoques de recursos (renováveis) e da
qualidade ambiental para a satisfação das necessidades das gerações
presentes e futuras. Obviamente, o conceito de “necessidade” não tem
o mesmo significado para todos. Esta ideologia-utopia inaugura,
assim, uma solidariedade diacrônica com as gerações futuras
pautada no uso “racional” de recursos. Resumidamente, são
valorizados os princípios da diversidade, da conservação ambiental,
da pequena escala, da tecnologia racional e eficiente, da democracia
e da educação, todos interligados entre si.
Para os nossos propósitos, cabe ressaltar os princípios da
diversidade, da democracia e da educação, visto que são primordiais
para flagrar a complexidade das relações e processos que se
estabelecem no planejamento e implementação dos PPDS’s.
O princípio da diversidade inclui a valorização da sociodiversidade,
isto é, das especificidades culturais, sociais e históricas; da biodiversi-
dade; e dos múltiplos caminhos possíveis para o desenvolvimento. Este
princípio está contido na noção de “desenvolvimento endógeno” e, portan-
to, contrapõe-se ao princípio de uniformidade.
O princípio da democracia fundamenta a defesa de direitos
(humanos e civis), a esfera da cidadania que valoriza a participação
igualitária e a autodeterminação dos povos e setores sociais
excluídos, isto é, procura criar, fortalecer e/ou consolidar a sua
capacidade de agência. Neste caso, as ONG’s teriam um papel de
assessoria, apoio, coordenação e/ou estímulo aos grupos de reflexão
e às ações para a participação destas populações, valorizando o saber
popular e/ou étnico. Para tanto educação torna-se um fator central.
O princípio da educação sempre foi importante nas ideologias
progressistas como forma de conscientizar e libertar as pessoas de
situações sociais onde elas ocupariam o lugar de “oprimidas”,
“dominadas” ou “subalternas” (de classe, de gênero, de raça ou
étnica). A emancipação ocorreria fundamentalmente a partir da
possibilidade das pessoas, grupos ou sociedades terem acesso à
informação, à capacitação, ao aprendizado, enfim, a uma
“consciência” que neste momento não é mais “de classe” (ou
exclusivamente de classe), mas é também “ambiental”. Este acesso
abriria as possibilidades para se ensinar novos valores ou reafirmar
os tradicionais, para uma reflexão crítica, criativa e libertária que
consubstanciaria uma ação política no sentido da transformação

156 Ana Carolina Cambeses Pareschi


social. Assim, o foco da ideologia dos pequenos projetos é a
“comunidade”, o “povo”, as “bases”, tomados como sujeitos da sua
própria história e não mais como vítimas do desenvolvimento
econômico concentrador de renda, procurando assim inverter
prioridades e o sentido das tomadas de decisão.
Finalmente, estamos chamando de “pequenos projetos de
desenvolvimento sustentável” os projetos que seguem os princípios
da diversidade, da conservação ambiental, da pequena escala, da
tecnologia racional e eficiente, da democracia e da educação,
objetivando atividades produtivas que gerem renda com um mínimo
de degradação ambiental, o fortalecimento e/ou consolidação da
capacidade de agência de grupos e/ou populações subordinados.8
Estão geralmente voltados para populações de baixa renda ou para
grupos étnicos e são pequenos tanto pelos recursos envolvidos,
quanto pela circunscrição de seus objetivos e pela limitação de seu
alcance. O seu “valor” fundamental seria a “experimentação” de
novas abordagens metodológicas, organizacionais e produtivas, com
sentido de aprendizagem e acumulação de conhecimento para a
transformação social.
Chamamos atenção, porém, para o fato de que esta “definição”
é antes de tudo uma caracterização idealizada, que faz parte do
discurso dos atores sociais do campo do ambientalismo e que não
significa necessariamente a realização destes ideais e princípios nas
práticas correspondentes. Tais atores situam-se predominantemente
no setor não-governamental, mas também nos campos científicos e
em um reduzido contingente da tecnoburocracia governamental. São
estes os portadores fundamentais deste novo regime de verdade que
procura se estabelecer.
Quanto a análise da interpretação destas verdades ao nível
local desenvolveremos no item subseqüente. Voltemos aos atores e
aos procedimentos necessários colocados pelo embate destes regimes
de verdade.
Enquanto no cenário geral das iniciativas desenvolvimentistas
os atores sociais principais são as agências bilaterais e multilaterais
de desenvolvimento e os governos, no cenário do ambientalismo e dos
pequenos projetos as organizações não-governamentais – e os
cientistas sociais, educadores, religiosos, agrônomos, assistentes
sociais, entre outros – se destacam como atores sociais privilegiados.
A ideologia e as práticas dos atuais pequenos projetos de
desenvolvimento sustentável estão vinculadas às relações esta-
8 Inspiro-me aqui na definição de “microprojetos de desenvolvimento social” de Martinez Nogueira (1991a: 6).

Projetismo e Desenvolvimento Sustentável:


O Caso dos Pequenos Projetos 157
belecidas entre estes grupos de atores no cenário político nacional e
internacional, também se conformando num campo.
A eficácia das estratégias elaboradas pelos diferentes
participantes deste “jogo” depende, entre outras coisas, do capital
simbólico e da capacidade de articulação política de seus integrantes
de modo que estes sejam adequados aos níveis em que tais disputas
se dão. Assim, apenas algumas organizações e pessoas se destacam
não só na participação do processo de negociação e implementação
do PP-G7, do PD/A e do Projeto Frutos do Cerrado, como também o
jogo, precisa, para funcionar, de atores que circulem não só nos seus
níveis específicos mas em outros, situados em níveis diferentes. A
estes denominei “intermediários”, ou brokers, tal como Wolf (1974) e
Adams (1974). São pessoas ou instituições que fazem a mediação
entre níveis (desde o local até o global ou inversamente, mas não
necessariamente em todos os níveis), articulando interesses e regimes
de verdade de um nível em outro. Podem ser líderes sindicais,
representantes do Banco Mundial, cientistas, agricultores, índios,
funcionários públicos, técnicos, integrantes de ONG’s ou as próprias
instituições ou coletivos que representam. Este conjunto de noções
articuladas formariam o que estou chamando de um “espaço de
disputas”. O ambientalismo é, antes de tudo um campo político e por
isso, ao estudá-lo, torna-se imprescindível situar este campo, bem
como seus atores e estratégias em questão.
O PD/A foi discutido não só pelo GTA, mas também pelo Fórum
Brasileiro de ONG’s e Movimentos Sociais, surgido dois anos antes da
ECO-92. Estabeleceu-se um processo tenso de estranhamento e
aproximação mútuos entre ONG’s oriundas de temáticas e
abordagens diversas bem como destas com o Estado brasileiro. Este
processo engendrou duas tendências em sentidos opostos: uma
fragmentadora e outra integradora. Por um lado, ao mesmo tempo em
que ocorria a cristalização de identidades sociais relacionadas
àquelas ONG’s que historicamente definiam-se como de “assessoria e
apoio aos movimentos sociais” ou simplesmente “sociais”, ocorria à
aglutinação entre aquelas que se definiam como “ecológicas”,
resultando, assim num campo polarizado entre “sociais” e “eco-
lógicas”. As diferenças mútuas percebidas foram formuladas
inclusive em termos de exclusividade ou legitimidade de utilização do
termo “ONG” por parte das entidades de cunho “social”, categoria
esta que também se construía, além do questionamento, por parte
destas, da idéia de “desenvolvimento sustentável”. Assim, marcavam-
se posições e fronteiras em um novo campo que se configurava: o

158 Ana Carolina Cambeses Pareschi


sócio-ambiental. Por outro lado, a necessidade de estabelecimento de
diálogo entre estes pólos se colocava na medida em que se discutia
modelos alternativos de desenvolvimento nos quais a conservação
ambiental fosse parte integrante dos objetivos sociais, postulando-se
idéias como “qualidade de vida”. Assim, estes pólos passaram
lentamente a se mesclar mutuamente, criando uma nova leva de
ONG’s definidas ou redefinidas como “sócio-ambientais”. A
integração, não necessariamente harmônica, do campo das ONG’s e
dos movimentos sociais se colocava como estratégica devido aos
embates e negociações com o Estado e as agências de
desenvolvimento na elaboração de um amplo programa de
desenvolvimento sustentável, como era o caso do PP-G7, e mais
especificamente do PD/A.
Estas divisões e articulações entre as ONG’s estiveram
presentes também na implementação do PD/A. O Subprograma
estava dividido em três componentes: 1) um fundo de financiamento
de pequenos projetos para duas grandes regiões (Amazônia Legal e
Mata Atlântica); 2) o fortalecimento institucional das duas redes de
ONG’s representantes da sociedade civil no PD/A, uma de cada
grande região (o Grupo de Trabalho Amazônico – GTA e a Rede da
Mata Atlântica – RMA); e 3) a disseminação das experiências. Ao
primeiro componente foram destinados cerca de 90% dos US$ 30
milhões do PD/A, já que o principal. As relações das ONG’s entre si
e com a tecnoburocracia do PP-G7 e do PD/A mostraram-se nos
componentes “um” e “dois”.
A seleção de projetos a serem financiados passava, após análises
técnicas, pela aprovação ou rejeição de uma Comissão Executiva
composta por onze pessoas, das quais três eram representantes das
ONG’s da Amazônia Legal e dois da Mata Atlântica. O restante dos
membros eram das diversas instâncias do governo relacionadas ao PP-
G7, sendo um deles representante do Banco do Brasil, o agente
financeiro do PD/A nos locais dos projetos. Na medida em que o
desenvolvimento do movimento ambientalista deu-se principalmente nas
regiões mais urbanizadas e densas do país, especialmente nas regiões
sudeste e sul, as ONG’s da região da Mata Atlântica tendem a ser mais
antigas, mais articuladas e predominantemente ligadas ao
conservacionismo. Portanto, as ONG’s da Mata Atlântica na Comissão
Executiva apresentaram uma abordagem do desenvolvimento e critérios
de seleção que passavam especialmente por considerações ecológicas,
técnicas e científicas. Já as ONG’s da Amazônia Legal eram
principalmente associações de base, movimentos sociais ou ONG’s ainda

Projetismo e Desenvolvimento Sustentável:


O Caso dos Pequenos Projetos 159
muito novas, com pouca articulação regional ou nacional, sendo ligadas
primordialmente ao campo “social” ou ainda “produtivo”, cuja discussão
do desenvolvimento dava-se a partir da ótica da desigualdade e da
exclusão social. Tendiam assim a privilegiar mais o conhecimento que
tinham das instituições que pleiteavam e os seus respectivos contextos
do que os aspectos estritamente técnicos dos projetos. Isso não significa
dizer que as ONG’s da Mata Atlântica seriam isentas em seus respectivos
julgamentos, já que também a ciência e a técnica são em certa medida
posturas ideológicas, e nem que as organizações da Amazônia Legal
fossem “personalistas”, incapazes de julgamentos por critérios ditos
“técnicos”.
A capacidade de articulação, o domínio de um regime de verdade
e o capital simbólico acumulado pelas organizações que submetiam
suas propostas ao PD/A permitiram que determinados projetos fossem
aprovados em detrimento de outros. A aprovação dos doze projetos
Frutos do Cerrado significou uma combinação bem-sucedida destes
aspectos mais do que dos critérios “técnicos”, como os de “viabilidade”
e “replicabilidade” econômica, social, política e ambiental. Entretanto,
durante o período de execução, as relações internas à Rede Frutos do
Cerrado bem como com a Secretaria Técnica do PD/A foram se
modificando não apenas em função de interpretações conflitantes da
“viabilidade” do projeto e das ações necessárias para um resultado
favorável aos proponentes do mesmo, mas também pelo relativo
fracasso no âmbito da “sustentabilidade econômica”.
As ações do desenvolvimento traduzem-se em termos de
“projetos”. Um projeto, em termos gerais, refere-se a um planejamento
de ações articuladas em função de algum objetivo. Em termos mais
restritos, seria a materialização via escrita ou gráfica deste
planejamento. Tanto as ações de governos, quanto de empresas,
agências de desenvolvimento ou organizações não-governamentais
materializam-se via elaboração e execução de projetos. Os projetos de
desenvolvimento sustentável visam especialmente a modificação de
uma situação desfavorável em termos sociais, econômicos, políticos e
ambientais em direção ao equacionamento destes problemas.
Começam aqui os desencontros entre, por um lado, a racionalidade e
a limitação dos pequenos projetos e, por outro, do cumprimento dos
princípios do desenvolvimento sustentável, necessariamente inter-
relacionados, complexos e de longo prazo. As tensões entre
“resultados” e “processos”.
O termo projetismo já foi utilizado por Fayerweather (1959 apud
PITT, 1976: 11) para designar uma situação em que o plano é a única

160 Ana Carolina Cambeses Pareschi


sagrada e inviolável realidade. Os projetos são construídos sob uma
ideologia de sucesso inevitável, mesmo antes de qualquer
implementação. As agências de desenvolvimento forneceriam o
exemplo deste projetismo devido a sua tradicional inflexibilidade
burocrática. Nosso uso do termo procura mostrar o que estaria
implícito neste “planejamento rígido” e quais as suas conseqüências
sobre propostas de desenvolvimento sustentável. Isto é, como as
exigências em termos de ordenação do tempo e das atividades, do
gerenciamento dos recursos, das prestações de contas, dos relatórios
de atividades, da logística, das avaliações e monitoramentos típicos
dos projetos se relacionou com o fluxo da vida cotidiana de
camponeses, índios e ONG’s, e como tais procedimentos foram
compreendidos.9
Verificamos na pesquisa que a participação do Banco Mundial
e de outras agências de cooperação internacional no PP-G7 e no
PD/A, assim como a existência de um certo consenso entre os seus
gestores a respeito da necessidade de planejamento que envolve a
realização de projetos em geral, contribuíram para que os subprojetos
financiados pelo PD/A sofressem uma pressão com relação à
formulação e execução de projetos como um condicionante
fundamental do “sucesso” ou do “fracasso” destas ações (expressos
no potencial “multiplicador” e “demonstrativo”). O foco de avaliação
permaneceu nos projetos em si e não em seu contexto mais amplo,
seja o modo de vida dos grupos sociais ou entidades que o
apresentaram, seja o das estruturas que condicionam e moldam de
alguma forma a situação em que estes grupos e entidades se
encontram. A ênfase na “mudança” implícita na noção de “projeto” –
especialmente aqueles projetos que visam a transformação da
sociedade a longo prazo – contrasta com as limitações operacionais e
estruturais (inclusive das relações de poder) destes mesmos projetos,
trazendo à luz sua natureza paradoxal. Em suma, as organizações
não-governamentais, que vivem de projetos geralmente financiados
por outras ONG’s, também são obrigadas a incorrer no projetismo que
dita uma temporalidade e uma organização de atividades particular,
delimitando o campo de resultados possíveis das ações.
9 Queremos aqui esclarecer que o projetismo – as regras para a elaboração dos projetos financiados e de suas
prestações de contas – não foi necessariamente encarado como algo negativo por parte dos proponentes dos
pequenos projetos. Ao contrário, muitos declararam que embora as exigências do PD/A fossem em um primeiro
momento consideradas “rígidas” porque a maioria dos camponeses e dos índios não tinha grau de instrução elevado
e experiência neste tipo de “crédito”, elas eram necessárias porque moralmente certas. As regras foram sendo
“aprendidas” e compreendidas ao longo da execução dos projetos, não sem conflitos internos e externos. Da mesma
forma, o PD/A foi considerado pelas ONG’s, especialmente as mais experientes e articuladas, um modelo de fundo
muito mais acessível do que o Fundo Nacional de Meio Ambiente, cujas regras invariavelmente dificultavam com
que projetos de ONG’s fossem aprovados. Assim, o projetismo do PD/A teria sido mais flexível do que aquele
comumente encontrado nos projetos financiados pelas agências de desenvolvimento bi e multilaterais.

Projetismo e Desenvolvimento Sustentável:


O Caso dos Pequenos Projetos 161
3. TENSÕES NOS PEQUENOS PROJETOS: ENTRE O
PROJETISMO E O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

Discorreremos aqui sobre alguns pontos relevantes da


implementação dos pequenos projetos Frutos do Cerrado para
discutir as tensões inerentes aos mesmos: a gestão do projeto e a
organização do trabalho; organização social-política-institucional das
comunidades e suas entidades; a assessoria técnica e as dificuldades
de um projeto com objetivos econômicos. Dissemos na Introdução
que o Projeto Frutos do Cerrado era um conjunto de doze PPDS’s que
conformaram uma Rede – a Rede Frutos do Cerrado – quatorze
entidades diferentes. Pois bem. Neste item os exemplos etnográficos
se referem a três destes doze projetos: o da Associação
Agroextrativista dos Pequenos Produtores de Carolina (AAPPC), no
Maranhão, o das duas associações de pequenos agricultores de Santa
Maria do Tocantins (São José e Soninho), no Tocantins e o projeto de
Monitoramento e Acompanhamento proposto pelas duas ONG’s
assessoras – Centru e CTI.10 O projeto da AAPPC foi, em certa medida,
considerado mal-sucedido pelo PD/A, pelos próprios proponentes e
pelas ONG’s assessoras. O de Santa Maria do Tocantins, ao contrário,
foi considerado como um dos mais bem-sucedidos dos projetos da
Rede Frutos do Cerrado. O projeto das ONG’s assessoras era de
fundamental importância para a articulação da Rede como um todo
e expressou as dificuldades freqüentes que a ONG’s enfrentam no
campo dos PPDS’s. Estes foram três casos exemplares de situações
que têm um grau bastante amplo de generalização, seja para os
Projetos Frutos do Cerrado, seja para os projetos parecidos
financiados pelo PD/A, ou ainda, para os PPDS’s propostos e
executados por ONG’s e entidades de base.

4. A GESTÃO DO PROJETO E A ORGANIZAÇÃO DO


TRABALHO

Os pequenos projetos de desenvolvimento sustentável são, via


de regra, a tradução de objetivos qualitativos, geralmente de longo
prazo, em uma quantia de recursos, atividades e tempo sempre
limitados. No caso do PD/A, as entidades formulavam suas propostas
em um formulário ao qual um Manual de Operações acompanhava
10 Os outros municípios envolvidos eram Imperatriz, Montes Altos, Estreito, Loreto, São Raimundo das Mangabeiras,
Amarante do Maranhão e João Lisboa, todos no Maranhão. No município de Carolina havia também o projeto dos
índios Timbira, executado pela Associação Vyty-Cati das Comunidades Indígenas Timbira do Maranhão e Tocantins.

162 Ana Carolina Cambeses Pareschi


explicando como deveria ser preenchido. Eram financiados projetos
de um a três anos de duração, de valores que podiam ir de US$ 20
mil a US$ 210 mil, com contrapartidas mínimas variáveis das
entidades proponentes de 10% a 30% do valor pedido ao PD/A.
Os projetos da Rede Frutos do Cerrado foram apresentados
todos juntos, exceção ao projeto dos índios Timbira que foi
encaminhado um ano depois dos outros.11 Havia um projeto para
cada entidade, exceto o de Santa Maria do Tocantins que agregava
duas associações de pequenos produtores e o projeto de
Acompanhamento e Monitoramento das ONG’s assessoras – CTI e
Centru. Totalizaram cerca de US$ 1,2 milhão, com valores individuais
médios de US$ 80 mil pedidos ao PD/A e contrapartidas médias de
cerca de US$ 20 mil (ver Tabela 2 no Anexo).
A noção de “contrapartida” do PD/A, oriunda do modelo de
projeto de desenvolvimento do Banco Mundial que exige
contrapartidas governamentais em seus empréstimos como meio de
responsabilização do tomador, tem implícita a necessidade de uma
troca: recursos vultosos oriundos dos países mais ricos do mundo,
por um lado, trabalho e recursos (ou bens) em uma porcentagem
menor, por outro. O Projeto Frutos do Cerrado estabeleceu na maior
parte dos casos uma contrapartida traduzida na mão-de-obra dos
camponeses e índios nos “tratos culturais” dos plantios de frutíferas
e outros que seriam feitos pelo projeto.12 Entretanto, esta
“contraprestação” foi bastante questionada pelos integrantes do
Frutos do Cerrado, especialmente os camponeses.
Os termos desta troca são vistos como desiguais na medida que
a doação de trabalho, a única contrapartida aparentemente viável às
populações camponesas e às indígenas, representa na verdade uma
sobrecarga extenuante de atividade. Os agentes sociais que estariam
“trocando” estão situados em lugares bastante díspares em termos de
poder e distantes estruturalmente das relações sociais às quais estão
familiarizados. Isto cria para os camponeses uma certa incom-
preensão sobre o porquê deles, que se consideram “fracos” (sem
capital econômico, simbólico – incluindo aqui o educacional – ou
político), terem que dar algo que não seja um voto, que não custa
nada, para agentes poderosos. O trabalho, para eles, é um recurso
altamente precioso. Ao que parece, os projetos não são encarados
como passíveis de relações de reciprocidade, tais como as relações
políticas, de parentesco, de vizinhança e compadrio são. Para os
11 Foram aprovados em 1995 e começaram de fato em 1996.
12 Os chamados “tratos culturais” são os cuidados necessários ao bom desenvolvimento das plantas, tais como podas,
adubação, cuidado com pragas, entre outros.

Projetismo e Desenvolvimento Sustentável:


O Caso dos Pequenos Projetos 163
códigos sociais vigentes, são os “projetos” que devem dar alguma
coisa para eles e não o contrário. A única forma de retribuição seria
a prestação de contas aos financiadores e a execução do projeto,
mesmo que não integralmente em todas suas formalidades.
Os projetos devem apresentar coerência entre os seus objetivos,
atividades e meios arrolados para atingir os resultados esperados. Assim,
procura-se planejar e, portanto, prever, a organização lógica de
atividades e seus respectivos gastos. No PD/A, exigia-se a apresentação
de um cronograma de desembolsos semestral de todo o período do
projeto, organizados entre recursos do PD/A e recursos de contrapartida.
Os desembolsos eram efetuados quando constatada a regularidade e a
correção nas prestações de contas e dos relatórios de atividades enviados
pelos executores. Inicialmente, as prestações de contas eram mensais e
os relatórios de atividades semestrais. Entretanto, o numeroso e
freqüente atraso de entidades executoras na prestação de contas mensal
obrigou ao PD/A estender este prazo para trimestral.
Praticamente todas as entidades do Projeto Frutos do Cerrado
sofreram bloqueio de recursos pelo PD/A em função de atrasos e
irregularidades nas prestações de conta. O caso da AAPPC ilustra
bem este drama. Todos os projetos Frutos do Cerrado contavam com
um Fundo Fixo, isto é, um recurso utilizado como capital de giro para
compra das frutas coletadas, geralmente em área de terceiros, e
enviadas a uma unidade de processamento em Carolina (MA). A idéia
era que este capital fosse sendo reposto na medida em que a “fábrica”
lograsse na venda das polpas de fruta congeladas. Isso não
aconteceu, pois a fábrica e a comercialização de polpas enfrentaram
sucessivos problemas. Porém, os sócios da AAPPC, entusiasmados
com um capital nunca antes obtido, aplicaram-no em itens não
previstos no projeto: na compra de farinha seca de sócios para
futuramente revender. Quando obtivessem o dinheiro da venda,
reporiam ao fundo. Além disso, tal como todos os outros Projeto
Frutos do Cerrado, atrasaram a entrega dos relatórios mensais de
prestações de contas. Isto estava relacionado à falta de condições dos
associados de elaborar relatórios sem a ajuda da assessoria no tempo
previsto pelo PD/A. Estes relatórios exigiam muito tempo dos
coordenadores da AAPPC que, com pouco estudo e sem experiência
de projetos anteriores, tinham dificuldades de compreensão e
confecção dos mesmos. Os bloqueios iniciais se estenderam por cinco
meses (de abril a agosto de 1997), depois houve uma normalização do
fluxo de recursos por três meses para novamente serem bloqueados
entre dezembro de 1997 e abril de 1998. Estes bloqueios

164 Ana Carolina Cambeses Pareschi


desorganizaram completamente as atividades do projeto e fizeram
com que um dos viveiristas deixasse a ocupação devido ao atraso
excessivo em seu salário, pago pelo projeto. Além disso, os
coordenadores também contavam com o salário para poder pagar
alguém para trabalhar em suas roças ou comprar os gêneros
alimentícios necessários enquanto estavam ocupados com o projeto.
Estes relatórios apontam para diversos tópicos importantes
nas nossas discussões, desde o rigor tecnoburocrático das
prestações de contas ao PD/A (mensais e semestrais) e as
dificuldades dos agricultores em cumprir e compreender os prazos
exigidos, até os problemas internos de organização da associação,
as dificuldades de obtenção de sucesso do empreendimento da
fábrica e a falta de assessoria constante.13 Todas estas questões
remetem às formas de conceber e de organizar o trabalho
vinculadas a expectativas, visões de mundo e temporalidades
diferenciadas entre o planejamento tecnoburocrático do desen-
volvimento sustentável, os agricultores e o ritmo próprio da
fábrica, administrada pela assessoria indigenista.14 Enquanto as
regras do PD/A supõem uma racionalização e um planejamento
ótimo de atividades, em que tudo deve dar certo ou, caso
contrário, ser justificado, os agricultores estão inseridos em um
contexto em que o projeto é apenas um componente de suas vidas,
cujas atividades serão alocadas conforme suas conveniências,
ânimos e relações entre si. O tempo dos camponeses é muito mais
ligado aos ciclos naturais, ao trabalho de roça e à ida à cidade em
casos de necessidade (religiosa, escolar, de mercado, partidária
etc.) do que ao tempo marcado pelo relógio, pelo horário de
expediente de uma repartição pública, pelo dia do mês ou da
semana. Também por isso descuidaram várias vezes dos prazos
estipulados pelo PD/A para entrega de relatórios.
Estão implícitos nestes projetos, portanto, não somente o
pressuposto de que os proponentes são alfabetizados, ou utilizam-se de
alguma assessoria que seja, mas também, para vê-los aprovados por
entidades financiadoras, demonstrem um domínio dos “códigos de
acesso”, isto é, saber como pedir, o quê pedir e quanto pedir. Dentre os
13 Quanto ao problema da falta de assessoria constante entraremos em mais detalhes a seguir.
14 Utilizamos o conceito de tecnoburocracia fundamentada em Gouldner (1976) e Herzfeld (1992) para os quais a
burocracia pensada por Weber (1991) como um tipo ideal pressupõe uma “racionalidade plena” que não se verifica
na prática social. Ao contrário, diz Herzfeld, a burocracia como uma convenção social, está sujeita às
interpretações e manipulações dos burocratas. Mais ainda, quando os “burocratas” são substituídos ou
subordinados aos “tecnoburocratas” associa-se os ideais da racionalidade (com respeito a fins, a valores ou aos
dois, nos termos de Weber, 1991), da hierarquia, da impessoalidade e da meritocracia (profissional com o saber
adequado para a função exercida), com os valores e saber técnicos e científicos necessários para qualificar esta
suposta “impessoalidade racionalizada”. Isto é, o saber técnico só se legitima em função de valores, idéias,
objetivos e interesses daqueles de quem se pretende obter legitimidade (GOULDNER, 1976: 270).

Projetismo e Desenvolvimento Sustentável:


O Caso dos Pequenos Projetos 165
itens que mais custam caro nos orçamentos dos projetos estão a
manutenção da instituição proponente e, dentro dela, seu quadro de
pessoal, e a aquisição de bens duráveis. O PD/A seguiu, sob certos
aspectos, uma tendência dos financiamentos não-governamentais do
Norte às entidades do Sul: a de não enxergar com bons olhos gastos
excessivos com pessoal e infra-estrutura em detrimento dos objetivos
do projeto. Assim, neste contexto, é comum que o orçamento do projeto
seja pressionado para baixo nestes itens. Com isso, não só o quadro de
pessoal das entidades ganha pouco como também é bastante limitado
em termos numéricos, obrigando os poucos “técnicos” ou coorde-
nadores a se desdobrarem em uma multiplicidade de atividades. Em
última instância, a sobreposição de tarefas implica em prejuízos gerais
não só ao cumprimento de atividades programas, mas principalmente
à qualidade e a eficácia das mesmas.
Embora os orçamentos do Projeto Frutos do Cerrado
aparentemente parecessem altos, cerca de 72,8% deles foi compro-
metido com a compra de um veículo Toyota, para o transporte de
frutas, mudas e pessoas, além do material permanente para os
trabalhos de coleta, armazenamento, plantio etc. Sobrando assim
poucos recursos para outros itens, entre os quais, o pagamento do
trabalho dos coordenadores locais e dos viveiristas de cada projeto,
resumindo-se a um salário mínimo. Foi comum nos Projeto Frutos do
Cerrado a divisão deste salário por duas pessoas na medida em que
se considerou haver muito trabalho para uma só pessoa. A relação
que os camponeses estabeleceram com as pessoas que recebiam este
salário demonstrou como o projeto era encarado no contexto local.
Tanto em Carolina quanto em Santa Maria houve problemas com
relação à gestão dos recursos do projeto, especialmente o veículo,
cristalizando conflitos internos.
Alguns custos operacionais da utilização do veículo não foram
totalmente orçados nos projetos, como por exemplo, o emplacamento
dos mesmos. O óleo diesel programado era limitado, obrigando aos
camponeses e índios estabelecer critérios para a sua utilização. É
importante levar em conta as distâncias que alguns sócios estão da
cidade de Carolina ou de Santa Maria e as dificuldades de acesso às
mesmas, somadas ao dispêndio de tempo e também recursos para tal
locomoção. A chegada de bens “preciosos”, tais como uma
caminhonete, bem ao qual nunca têm acesso e do qual necessitam
muito, e o pagamento (mesmo que pequeno) de um salário para os
coordenadores, aparente segurança financeira que é rara entre os
camponeses, causaram tensões e acusações. Conforme seu Marcelo,

166 Ana Carolina Cambeses Pareschi


ex-integrante da direção executiva da AAPPC, “estes que mais ficam
fora do projeto, que menos participam, que estão menos junto com o
grupo, são os mais criticadores do trabalho, que mais desacreditam,
que mais ficam jogando pesado com os companheiros”. Para ele,
muitos sócios queriam usar o carro em seu próprio benefício sem
contribuir com o óleo diesel. Queriam que esse dinheiro saísse do
bolso dos coordenadores já que recebiam um salário mínimo pela
função exercida.
A introdução de recursos e de bens controlados por determinadas
pessoas, mesmo que eleitas pelos seus pares, aliada à falta de sucesso
das atividades organizadas e à “quebra de solidariedade” representada
pela negação do uso do carro (coletivo) para fins pessoais, no caso de
Carolina, abalaram as relações pessoais entre os integrantes da
entidade. Isso aponta, em parte, para a diferença entre a racionalidade
camponesa e a racionalidade do planejamento de atividades e usos de
bens, característica dos projetos de desenvolvimento e de organizações
“burocráticas”, como deveria ser uma associação de pequenos
produtores uma vez inserida em um campo onde as relações não
seriam caracterizadas pelo personalismo. Enquanto as relações entre
os pequenos produtores estão fortemente ligadas a redes familiares, de
vizinhança e compadrio, as relações estabelecidas pelas regras de
projetos como o PD/A e por organizações burocráticas exigem
impessoalidade e cumprimento efetivo e eficaz das atividades previstas,
não podendo haver “desvirtuamento” dos objetivos iniciais para os
quais foi elaborado o projeto.
Em Santa Maria contratou-se um motorista e decidiu-se, num
primeiro momento, cobrir os custos de emplacamento, manutenção e
de óleo diesel (além do previsto no orçamento) com a prestação de
serviços pagos de frete para terceiros (inclusive a Prefeitura) e sócios
das duas associações. Entretanto, a prestação de contas apresentada
pelo coordenador do uso do veículo era deficitária e acarretou numa
deterioração das condições do veículo. Agravou-se o problema quando
se descobriu que o motorista contratado havia batido o caminhão em
função de embriaguez. Do meio para o final do projeto contratou-se
outro motorista que, desta vez, revelou-se bastante positivo não
somente quanto ao zelo necessário com o veículo, mas também com
relação às atividades logísticas e de produção do projeto.
É preciso dizer que em Santa Maria conflitos internos foram
gerados em função do desempenho do primeiro coordenador e
desentendimentos pessoais entre este e outro sócio, resultando na sua
substituição por duas mulheres, professoras primárias e esposas de

Projetismo e Desenvolvimento Sustentável:


O Caso dos Pequenos Projetos 167
sócios. Inicialmente vistas com reservas pela maioria masculina,
ganharam a aprovação de todos pelo mérito de suas gestões.
Transformaram o projeto de Santa Maria num dos mais bem-
sucedidos da Rede. O fato das coordenadoras receberem um salário
(mínimo, dividido por dois) para desempenhar suas funções com
maior disponibilidade fazia com que quase todo o trabalho logístico e
produtivo do projeto fosse considerado pela grande maioria dos sócios
como de sua responsabilidade exclusiva. Assim, as duas mulheres,
ajudadas pelo novo motorista e eventualmente por algum dos
maridos, vizinhos ou sócios, buscavam as frutas nas fazendas e
chácaras,15 levavam para a sede do projeto, selecionavam, carregavam
o caminhão, viajavam para Carolina – onde ficava a fábrica que
processava as frutas –, traziam de volta as polpas pasteurizadas e
embalas e guardavam nos freezers do galpão do Projeto. Não bastando
isso, elas também passaram a processar localmente a cajá, fruta
abundante da região, ao invés de levar para Carolina. Novamente
eram quase sempre os três que faziam tudo. Os sócios das duas
entidades participantes do projeto colocavam-se à disposição do
trabalho – que seria supostamente de todos – somente mediante
pagamento de diária. Por outro lado, todos se mobilizaram em mutirão
quando, no início do Projeto, foi necessária a construção do galpão do
Projeto Frutos do Cerrado, do poço do viveiro e do envasamento de
sacos de mudas para o viveiro. Depreende-se disto que para aquelas
atividades extraordinárias e duráveis a solidariedade grupal é ativada
na medida em que todos poderão tirar proveito de seu trabalho
posteriormente. Já aquelas atividades cotidianas do projeto, seriam
vistas como obrigação exclusiva das coordenadoras e motorista, não
mobilizando a solidariedade coletiva já que cada um tem seus afazeres
e tempo de trabalho é precioso, as coordenadoras eram pagas e os
ganhos não são imediatos (a não ser com pagamento de diária).
O cálculo camponês é direcionado pelas vantagens e
desvantagens a curto e médio prazo de se dedicar energia, tempo de
trabalho familiar e terra para uma atividade ou outra. No caso de
Santa Maria, como de resto em todas as outras entidades
participantes do Projeto Frutos do Cerrado, inclusive a indígena, o
tempo dedicado às atividades de roça continuou sendo muito maior do
que aquele relacionado aos plantios e outras atividades do projeto,
mesmo com a obrigatoriedade formal de uma contrapartida em mão-
de-obra gratuita da parte deles no que se referia aos “tratos culturais”.

15 Em Santa Maria do Tocantins o termo fazenda aplica-se a terra de qualquer tamanho que fique distante da sede
municipal. O termo chácara, em oposição, refere-se a terras localizadas nas proximidades da cidade.

168 Ana Carolina Cambeses Pareschi


5. A ORGANIZAÇÃO SOCIAL, POLÍTICA E INSTITUCIONAL
DAS COMUNIDADES E ENTIDADES

A maior parte das comunidades envolvidas na Rede Frutos do


Cerrado já tinha um longo caminho de participação em atividades
coletivas institucionalizadas, políticas ou de cunho religioso –
Comunidades Eclesiais de Base (CEB’s), sindicatos rurais (STR’s),
associações e/ou cooperativas, conselhos municipais, partidos
políticos de esquerda, entre outros. Este não era exatamente o caso
da AAPPC e das associações de Santa Maria do Tocantins, embora a
primeira já tivesse longa tradição com CEB’s, STR e partido político,
mas não com associação de produtores. A AAPPC foi criada em 1995
pelo incentivo que o próprio CTI deu aos integrantes do STR de
Carolina, visando a implementação de um pequeno projeto de
produção de doces e cajuína financiado pelo GEF/ PPP.16 Este projeto
não parece ter sido bem-sucedido, pois foi deixado de lado em função
de alguns desentendimentos internos.17 As associações São José e
Soninho tinham perfis um pouco diferenciados, sendo a primeira
mais politizada e envolvida com o STR e um partido político. Ambas,
porém, foram criadas em 1993 com o auxílio da então prefeita do
município, no sentido delas receberem recursos de um projeto
financiado pela extinta Superintendência de Desenvolvimento da
Amazônia (Sudam). Uma parte dos sócios da São José já tinham tido
sucesso com a atividade apicultora, introduzida por uma parceria
entre o sindicato e a Comissão Pastoral da Terra.18
Mas nenhuma das associações tinham tido experiência com um
projeto como o Frutos do Cerrado, com uma proposta produtiva e
ambiental alternativa aos plantios e criações conhecidas por eles. Ao
que parece, houve intensa participação dos envolvidos, tanto em
Carolina quanto em Santa Maria, na confecção dos pequenos

16 Trata-se do Programa de Pequenos Projetos do Fundo Global para o Meio Ambiente (Global Environmental Facility),
fundo multilateral de doações de diversos países criado em novembro de 1990, administrado pelos Programas de
Desenvolvimento e de Meio Ambiente das Nações Unidas, respectivamente, PNUD e PNUMA, e pelo Banco Mundial.
O Programa de Pequenos Projetos é administrado por ONG’s nacionais (Cf. ROS FILHO, 1994).
17 Segundo relatos colhidos, três foram os problemas do pequeno projeto. Primeiro, não houve consulta às mulheres
– que fariam os doces e a cajuína – quanto às especificações técnicas dos tachos necessários à confecção dos
doces, resultando em tachos muito grandes e difíceis de serem operados. Em segundo lugar, as mulheres não se
entendiam quanto à melhor receita de doce a ser feita, cada uma tendo as sua e havendo muita diferença na
qualidade da produção. Por fim, um dos principais produtos – o doce de caju e a cajuína – eram facilmente feitos
de forma artesanal em Carolina por quaisquer pessoas, dada a abundância desta fruta e a tradição de sua utilização.
Assim, o mercado teria que ser regional, o que ainda não era possível de se alcançar.
18 Inicialmente a CPT cedia todo o material necessário para a criação de abelhas e a assessoria técnica permanente,
totalizando um custo de R$ 94,00 que podia ser pago em litros de mel em três anos. Todos que se aventuraram
pela apicultura conseguiram pagar todo o material e ter lucro com a venda dos litros de mel. Em função desta
atividade bem-sucedida, o Projeto Frutos do Cerrado era complementar, pois ao propor a manutenção de áreas de
mata e o consorciamento de culturas agrícolas com espécies frutíferas nativas do cerrado além de outras
ornamentais ou simplesmente adubadeiras, possibilitava também a manutenção das floradas necessárias à
produção de mel.

Projetismo e Desenvolvimento Sustentável:


O Caso dos Pequenos Projetos 169
projetos, junto com o CTI e o CENTRU. A proposta do projeto era
sedutora na medida que incentivava objetivos “comunitários” e
porque não dizer “utópicos”, no sentido de mudar o futuro daqueles
camponeses e indígenas para uma maior autonomia e segurança
(alimentar, de vida, fundiária), proporcionando com isso melhor auto-
estima e algum poder. Lembramos que a religiosidade cristã, no caso
dos camponeses, é bastante importante a ser levada em conta devido
aos seus aspectos integrativos e, conseqüentemente, organizacionais
e valorativos. A ideologia/utopia ambientalista incorpora algo do
discurso milenarista e social (marxista) presente na cosmologia
cristã, articulada especialmente pelas CEB’s. Além disso, o projeto
inovava também na parceria entre índios e camponeses, ampliando o
conhecimento que ambos grupos tinham de si e do outro,
possibilitando igualmente a interação entre camponeses e entre cinco
sociedades indígenas Timbira, aparentados lingüisticamente e
culturalmente entre si.
Tudo isso possibilitava que a comunicação entre as ONG’s
assessoras e as entidades de camponeses, especialmente, fosse fluida
e relativamente constante, havendo uma mudança no comporta-
mento da maioria dos agricultores destas duas entidades quanto aos
cuidados ambientais em suas respectivas propriedades. E mesmo
com os “erros de gestão” dos projetos e alguns problemas de relacio-
namentos, houve um aprendizado quanto às necessidades organiza-
cionais, inclusive as produtivas. Mais ainda, uma abertura de
horizontes possíveis para o modo de vida camponês.
Por outro lado, a gestão do projeto e das respectivas entidades
fazia emergir conflitos, problemas e soluções que revelavam maior ou
menor habilidade em lidar com questões produtivas, relativas a um
sistema de produção capitalista, juntamente com lealdades políticas,
parentais, de vizinhança ou outras afinidades. As clivagens sociais,
tais como instrução/não instrução; posse de terra/propriedade de
terra; homens/mulheres, poder simbólico e/ou político/ausência de
poder, iam aflorando conforme as situações sociais assim o exigiam,
delimitando os encaminhamentos e resultados possíveis.
A comparação dos projetos de Santa Maria do Tocantins e de
Carolina permite observar o quanto as características locais das
organizações e, por conseguinte, de seus participantes, são importantes,
mas não exclusivas, na qualidade destes pequenos projetos.
Em Carolina, apesar de uma longa experiência dos sócios da
AAPPC com o STR local e com as CEB’s, houve uma certa reticência
nas tomadas de iniciativas dos líderes em função de uma espera de

170 Ana Carolina Cambeses Pareschi


auxílio dos assessores do CTI, localizados na mesma cidade, em
função mesmo de não terem experiência de como agir enquanto
associação e enquanto executores do projeto PD/A. O CTI também
precisou do auxílio, sempre pronto, dos associados e de seu viveiro
para estabelecer as parcerias com as aldeias indígenas e mesmo para
o funcionamento da “fábrica” de polpas. Talvez mesmo em função da
proximidade das duas entidades, as relações econômicas e sociais
mais formais tenham dado lugar às expectativas de reciprocidade de
parte a parte nem sempre correspondidas. O fornecimento de frutas
para a fábrica e o pagamento por estas foi um ponto de
estrangulamento da relação entre a AAPPC e o CTI (que na prática
acabava representando a fábrica e os índios). Embora esta questão
seja tratada no item subseqüente, queremos ressaltar aqui que tais
problemas não foram resolvidos a contento antes do fim do projeto
pela AAPPC e pelo CTI, criando não só um certo mal-estar na relação
entre ambas entidades, mas também um certo descrédito por parte
dos agricultores na capacidade de sua associação de dar
prosseguimento ao projeto após o término do financiamento pelo
PD/A. A AAPPC estava aguardando o pagamento, por parte da
“fábrica”, de uma série de pendências, inclusive a devolução de bens
materiais emprestados, mas também de pagamentos por serviços
prestados à Associação Atlética Banco do Brasil de Carolina já há
muito tempo postergados. Não contava com nenhum centavo em
caixa ao final do projeto. Por conseguinte, o projeto de Carolina
terminou com uma crise interna na organização dos agricultores e
poucas chances de continuidade das atividades relativas à proposta
do Frutos do Cerrado.
O caso de Santa Maria do Tocantins foi oposto. Foi o único
projeto que terminou com dinheiro em caixa, refletindo uma boa
administração “das mulheres”, como diziam os camponeses.
Diferentemente da entidade de Carolina que esperou a fábrica vender
os produtos para depois receber o que lhe era devido, a coordenação
de Santa Maria levava suas frutas para a fábrica e as trazia de volta
processadas, prontas para vender, fazendo também a própria
divulgação municipal e regional. As associações de Santa Maria
conseguiram estabelecer relações de comercialização estáveis com
duas escolas de municípios vizinhos. A cada ano, as entidades da
Rede Frutos do Cerrado tentaram novas estratégias de produção e
comercialização já que a fábrica não tinha condições de receber a
quantidade de frutas que chegavam. No primeiro ano de projeto
(1996/97), as entidades de Santa Maria, assim como as outras da

Projetismo e Desenvolvimento Sustentável:


O Caso dos Pequenos Projetos 171
Rede, levaram tudo que colheram de cajá e caju para a fábrica.
Perderam muito caju, mas cajá nem tanto. No segundo ano (1997/98),
levaram caju para a fábrica, que já contava com um container para
armazená-lo e uma despolpadeira nova, mas não levaram o bacuri
processando-o localmente. No terceiro ano (1998/99) repetiram a
estratégia do segundo ano. Em 2000, quando já estava oficialmente
finalizado o projeto, não colheram caju porque estavam esperando o
resultado do pedido de refinanciamento ao PD/A, mas colheram cajá e
processaram-na localmente com uma pequena máquina emprestada
da fábrica. Com estas estratégias, venderam seus produtos e foram
cobrindo lentamente os prejuízos iniciais com o uso do fundo fixo. No
viveiro, houve a produção de mais de vinte mil mudas durante os três
anos de projeto tendo sido distribuídas para os sócios gratuitamente e
também vendidas para pessoas do município. Assim, demonstraram
capacidade empresarial e conseguiram ganhar a aprovação tanto
internamente quanto da Rede e do PD/A.
As entidades de Santa Maria foram então procurando se
adaptar aos padrões exigidos pelo PD/A para não perder o
financiamento e a chance de fazer algo diferente que eles sentiam ser
importante para dar “algum futuro”. Mas isso não quer dizer que seus
integrantes tivessem uma visão homogênea do projeto ou das pessoas
que o geriam, ou mesmo que um suposto “senso comunitário” ou de
solidariedade prevalecesse sem que houvesse por trás dele conflitos
de interesse. Já dissemos antes da racionalidade camponesa quanto
à divisão do trabalho em relação ao projeto e em relação às suas
atividades tradicionais. Soma-se a isso os desempenhos diferenciados
das duas associações de agricultores de Santa Maria. Enquanto a
associação denominada Soninho, das duas coordenadoras, terminou
o projeto angariando novos sócios e credibilidade, a São José,
terminou enfraquecida, perdendo sócios e não atraindo a atenção de
futuros interessados.
O fortalecimento da Soninho e o enfraquecimento da São José
tem várias razões. No caso da primeira, a avaliação positiva tanto dos
sócios quanto da Rede e do PD/A em relação à coordenação do
projeto foi o ponto principal. Boa em termos de gestão dos recursos,
organização do trabalho, distribuição de informações e comer-
cialização dos produtos. Em segundo lugar, porque o viveiro foi
apontado como um dos melhores da Rede Frutos do Cerrado pela
avaliação final do projeto feita pelos consultores Leroy e Toledo (2000:
61) sendo a viveirista mais envolvida também da Soninho. Em
terceiro, a fruta principal existente nas áreas dos sócios da Soninho

172 Ana Carolina Cambeses Pareschi


(a cajá) pôde ser processada pela fábrica desde o começo do projeto,
embora houvesse muita perda no transporte. Já a Associação São
José, foi progressivamente perdendo sócios em função de seus
conflitos internos e da relação negativa que alguns de seus
integrantes estabeleceram com o técnico agrícola do CTI e em parte
com a coordenação “das mulheres”.19 Além disso, a fruta principal de
ocorrência da área deles era o buriti, processado pela fábrica somente
mais ao final do projeto. Houve também mais dificuldade de seus
integrantes assumirem as atividade de coordenação e participarem de
cursos (grau de instrução muito baixo e prioridades políticas).
Embora o seu então presidente alegasse que as desistências estavam
relacionadas ao pagamento de mensalidades, esta parece não ter sido
a única razão. Por um lado, a Associação São José se assemelhou à
Associação de Carolina, mas por outro, como estava ligada à
Associação Soninho, pôde contar com ela como agente intermediário
na relação com o PD/A e com a Rede Frutos do Cerrado como um
todo. Mesmo assim havia uma certa tensão entre os líderes da São
José e os da Soninho em função das desconfianças levantadas pelos
primeiros quanto à gestão dos recursos do projeto.20 Por um lado,
alguns integrantes da Associação São José se sentiam em
desvantagem em relação à Soninho por não assumir a coordenação
do projeto mesmo quando a pessoa que eles condenavam saiu e o
posto ficou vago. Por outro lado, parecem ter compensado este
sentimento com as críticas que faziam, como uma tática, talvez
inconsciente, de recuperar um poder que de certa forma se
acumulava na outra entidade em função do capital simbólico
adquirido. Segundo Bourdieu (1996), a distribuição dos diferentes
tipos de capital determina a posição dos agentes na estrutura do
espaço social. A acumulação deste capital pela outra entidade teria
então desequilibrado as relações entre elas. Esta tensão também foi
percebida pelos avaliadores finais do projeto (LEROY e TOLEDO,
2000: 60) que recomendaram a entrada de outras entidades de
pequenos produtores de Santa Maria no projeto para neutralizar “as
dificuldades em se entender” das suas associações.
Vale lembrar também que a associação Soninho era formada
basicamente por uma família extensa e vizinhos, com propriedade da
terra de tamanho médio de 80 hectares, sendo a maior parte natural
19 Com o técnico agrícola do CTI houve desentendimentos quanto à concepção ecológica do projeto. Alguns
integrantes da São José achavam necessário a utilização de adubo (químico) nos plantios das frutíferas feitos no
cerrado, além da utilização de tratores para “gradiar” as terras. O técnico agrícola foi contra, pois isso contrariava
a proposta de agricultura alternativa presente no Frutos do Cerrado.
20 Houve acusações e desconfianças dos integrantes da São José quanto à transparência de uso dos recursos coletivos
do projeto pelas coordenadoras. Estas, por sua vez, respondiam dizendo que as contas eram transparentes e que eram
os seus acusadores destituídos de instrução para avaliar as contas do projeto, disponíveis nos arquivos do galpão.

Projetismo e Desenvolvimento Sustentável:


O Caso dos Pequenos Projetos 173
da região de Santa Maria e de Pedro Afonso. A associação São José, por
sua vez, era formada por vizinhos, majoritariamente vindos de outros
Estados, especialmente Piauí e Maranhão, nas décadas de 1950 e 60,
comprando direitos de posse. Estas estavam sendo tituladas
gradualmente, com extensão média do lote igual a dos agricultores da
Soninho. Entretanto, a qualidade das terras dos integrantes das duas
associações era diferente. As da Soninho eram mais férteis,
predominando solo argiloso e úmido, enquanto que as da São José
predominavam solos secos e arenosos. Esta característica influiu
também nas diferentes participações das entidades no projeto,
especialmente quanto ao tipo de fruta nativa que ocorria e ao
desenvolvimento dos plantios. A solidariedade familiar também parece
ter feito diferença no desempenho da Soninho, em oposição à São José.
Embora “as mulheres” tenham sofrido com algumas tensões familiares
pelo fato de ao assumir as atividades do projeto deixarem em segundo
plano as atividades “domésticas”, a divisão do trabalho do projeto e
doméstica foi sendo ajeitada, sendo os seus maridos os sócios da
Soninho e responsáveis pelas atividades tradicionais dos agricultores:
roça, criação e comercialização da produção. Como elas eram
professoras, já estava definido um lugar social “fora” do ambiente
doméstico que as permitiu flexibilizar papéis de gênero camponês,
sendo elas que estabeleciam os contatos das entidades de Santa Maria
com o CTI, o PD/A, a Rede Frutos do Cerrado, entre outros. No caso da
São José, não havia ninguém que pudesse assumir integralmente a
coordenação das atividades do projeto sem deixar de levar à diante os
próprios afazeres.
Para finalizar, apontamos para a questão do acúmulo ou não de
capital simbólico e poder político dos executores dos projetos.
Tomando de empréstimo as categorias locais – e camponesas – de
forte/fraco para atribuir mais ou menos capital simbólico e poder
político aos atores sociais participantes do Frutos do Cerrado,
sugerimos que os camponeses associados ao projeto de Santa Maria
saíram fortes do projeto, muito embora os da associação São José
tenham saído relativamente fracos. Em Carolina, os camponeses
saíram fracos, com poucas perspectivas de continuidade, pelo menos
em 2000. Mas estas “qualidades” não foram necessariamente assim
ao longo de todo o projeto.
Um dos pontos que chama atenção é que o projeto de Santa
Maria foi o único da Rede Frutos do Cerrado foi proposto pela
Prefeitura local, em função da exigência legal do PD/A de que as
entidades proponentes teriam que ter pelo menos um ano de

174 Ana Carolina Cambeses Pareschi


existência para pleitear recursos. Assim, a Prefeitura era responsável
formalmente pela assinatura de papéis e alguns encaminhamentos,
embora na prática eram os executores (no caso as associações São José
e Soninho) que faziam tudo.21 Este fato deu margem à Prefeitura de se
utilizar indevidamente não só de recursos do projeto como de alguns de
seus bens duráveis (o caminhão) causando tanto atrasos nas
atividades previstas, quanto a depreciação do caminhão e problemas
financeiros ao projeto. Na mais longa tradição clientelista local, houve
dificuldade das entidades, durante o primeiro ano de projeto, de exigir
a resolução da questão inclusive porque a prefeita era uma
personalidade carismática, fundadora do município e apoiadora das
associações desde o início. Foi necessário que o CTI e o Centru
intervissem, em outubro de 1996, através da formalização de repasse
dos bens para o Projeto e do comprometimento de devolução dos
recursos indevidamente utilizados pela aprovação de um Projeto de Lei
municipal, sancionado pela prefeita. Entretanto, os reparos
necessários no caminhão e a devolução dos recursos ao projeto ainda
estavam pendentes em fevereiro de 1997, quando o CTI renovava seu
pedido ao novo prefeito, recém-empossado. Para que esse
procedimento fosse concluído ainda foram necessárias outras
insistências até que, por fim, a prefeitura sanou seus compromissos.
Em função desta dificuldade inicial, alguns sócios se afastaram do
projeto. Isso demonstra o quanto pequenos projetos em localidades
diminutas estão sujeitos aos sabores das alianças políticas
estabelecidas entre atores sociais locais e da correlação de forças entre
os mesmos.22 Em muitos projetos financiados pelo PD/A, os recursos a
ele destinados eram bastante significativos se comparados ao
orçamento municipal, sendo então objeto de grande interesse tanto por
parte dos políticos locais, quanto dos coordenadores e entidades
proponentes dos projetos. Tendemos a sugerir que sem a intervenção
insistente da assessoria das ONG’s e mesmo do PD/A – agentes
externos ao local – esta situação poderia ter se prolongado, levando o
projeto de Santa Maria a tomar um rumo diverso daquele que tomou.
De qualquer forma, a resolução deste impasse, entre tantos outros,
possibilitou às associações de pequenos agricultores de Santa Maria
uma virada nos destinos do projeto e um fortalecimento das mesmas
ao final, frente ao PD/A e à Rede Frutos do Cerrado como um todo.

21 A existência das categorias “proponente” e “executor” foi uma estratégia do PD/A para possibilitar que as entidades
que realmente fossem executar o projeto, mas que não tivessem no mínimo um ano de existência, pudessem
também apresentar projetos através da figura de um “proponente”, outra entidade, que cumpria tais exigências e
que repassaria todos os recursos e bens para a “executora”.
22 Ressaltamos aqui que Santa Maria do Tocantins foi emancipada como município em 1992 e segundo o Censo de
2000 do IBGE, continha uma população de 2.226 habitantes, sendo 1.034 na “zona urbana” e 1.192 na “zona rural”.

Projetismo e Desenvolvimento Sustentável:


O Caso dos Pequenos Projetos 175
6. ASSESSORIA TÉCNICA E AS DIFICULDADES DE
PROJETOS COM FINS ECONÔMICOS: TERMOS DA
PARCERIA

Os baixos orçamentos para pagamento de pessoal e para os


demais custos de manutenção institucional afetam sobremaneira o
trabalho das ONG’s. Um projeto como o Frutos do Cerrado previa
muitas e complexas atividades: a manutenção de uma fábrica de
polpas e a comercialização das mesmas que exigiam um articulado
trabalho de logística, marketing, qualidade, quantidade e
regularidade de produção; a assessoria aos plantios e entidades no
campo; as prestações de contas do projeto como um todo e do projeto
de Acompanhamento e Monitoramento; as reuniões da Rede toda; a
instalação de viveiros; o plantio das mudas nas propriedades dos
sócios e nas aldeias; a procura de outras fontes de financiamento que
cobrissem atividades e itens não contemplados no PD/A; e
finalmente, a articulação política e ideológica da Rede como um todo.
Para além do Projeto Frutos do Cerrado, as ONG’s, associações e
cooperativas estavam envolvidas com outros assuntos, sendo o
Projeto Frutos do Cerrado uma parte da ocupação de seus respectivos
tempos de trabalho. O número de pessoas que se encarregam de
coordenar atividades é sempre diminuto frente ao conjunto de
tarefas. O Centru, por exemplo, contou na maior parte do tempo com
apenas três ou quatro pessoas, sendo um educador, uma advogada e
assistente social e um ou dois engenheiros agrônomos. O CTI contou
com dois antropólogos, um técnico agrícola e um engenheiro
agrônomo que não ficou todo o período do projeto embora tenha
participado desde o início do Projeto Frutos do Cerrado, antes mesmo
de ser aprovado pelo PD/A. Portanto, oito pessoas no total para lidar
com 11 associações e cooperativas situadas geograficamente
distantes, sendo uma das associações, a indígena, congregava dez
aldeias diferentes dos povos Krahó, Krikati, Apinayé, Gavião-Pykobyê
e Kanela-Apãniekra.
Como é possível de prever havia muito trabalho para pouca
gente. O resultado foi o atropelamento de atividades, especialmente
quando umas atrasavam ou inviabilizavam outras. Um exemplo era o
dos plantios feitos pelos agricultores e índios, nem sempre
acompanhados pelos técnicos, acabavam por perecer em grandes
quantidades. A Rede Frutos do Cerrado experimentou uma série de
arranjos organizacionais para dar conta do volume de trabalho,
dentre os quais a separação de atribuições em duas Secretarias

176 Ana Carolina Cambeses Pareschi


Executivas, uma em Carolina, onde se situava o CTI, e outra em
Imperatriz, onde estava o Centru. Cada Secretaria, em função de sua
localização geográfica e de suas relações históricas com os grupos
envolvidos, tinha a responsabilidade de acompanhamento dos
projetos de cerca de metade das associações e cooperativas da Rede
(ver Figura 3 e Croqui 1 no Anexo).23 Tais Secretarias executavam as
decisões tomadas num órgão superior do qual todas as entidades da
Rede participavam: o chamado “Conselhão”.
Este “Conselhão” se constituiu num fórum importante para os
integrantes da Rede se relacionarem, se conhecerem e discutirem
posições e abordagem. Entretanto, as dinâmicas das reuniões, a
freqüente desarticulação entre aquilo que se decidia e aquilo que se
fazia e especialmente os termos da parceria entre os índios Timbira e
os pequenos produtores, traduzida na relação entre Centru e CTI,
foram de certa forma minando a coesão da Rede durante do Projeto.
O projeto começou, com este nome, efetivamente no CTI em
1993, portanto, antes de agregar o Centru e as cooperativas de
pequenos produtores a ele associadas e antes de ser apresentado ao
PD/A. Era um projeto de diagnóstico da oferta de fruta nativa do
cerrado dos municípios circunvizinhos das áreas indígenas Timbira
para um posterior beneficiamento. Neste processo, o antropólogo e o
engenheiro agrônomo do CTI tomaram conhecimento do Centru e das
cooperativas que acabavam de ser criadas, além de incentivarem a
criação da Associação de Carolina. Para o Centru, o trabalho com
frutas e sistemas agroflorestais já vinha ocorrendo, embora não
tivessem pensado em frutos variados do cerrado mas sim em caju,
apenas. A proposta de parceria com o CTI e os índios foi muito bem-
aceita, vista como uma possibilidade de ampliação de perspectivas,
como a proteção do cerrado, e o fortalecimento de alternativas
econômicas e sociais aos camponeses do sul do Maranhão.
Todavia, os termos desta parceria foram mal colocados e
interpretados de parte a parte. Inicialmente, os índios entravam com
a máquina de processamento de frutas, já instalada em Carolina, e
os camponeses entravam com as frutas, obtendo parte do eventual
lucro da “fábrica” com a venda das polpas. A expectativa dos
camponeses e do Centru é que eles seriam também sócios da fábrica,
compartilhando da marca criada, Fruta Sã. Dado um ano de projeto,
os Timbira reclamaram que sua participação no projeto era

23 A Secretaria Executiva de Carolina ficou encarregada de assessorar a Associação Vyty-Cati das Comunidades
Indígenas do Maranhão e Tocantins e suas dez aldeias associadas, além das associações de Carolina (MA), Santa
Maria do Tocantins (TO) e das cooperativas de Loreto, Riachão e São Raimundo das Mangabeiras (todas no MA). O
Centru, por sua vez, assessorava as cooperativas de Imperatriz, Amarante, Montes Altos, João Lisboa e Estreito,
todas no Maranhão.

Projetismo e Desenvolvimento Sustentável:


O Caso dos Pequenos Projetos 177
praticamente inexistente, alegando que “só os kupen (brancos, não-
índios) tinham ganhado carro, e eles nada”. O CTI se mobilizou para
elaborar um projeto para a Associação Vyty-Cati, aprovado pelo PD/A
para dois anos de duração.
As reuniões do “Conselhão” tinham estilo sindical, fruto da
experiência da maioria dos seus participantes, o que dificultava a
manifestação dos representantes indígenas. Isso resultou numa
freqüente representação dos índios exercida pelo CTI e um certo
afastamento das lideranças indígenas das reuniões. Houve difi-
culdade de programar atividades, fora do âmbito do “Conselhão”, que
permitissem uma maior convivência entre índios e não-índios,
fazendo com que o grosso os camponeses e dos índios não se
conhecessem mutuamente. Apenas aqueles que exerceram papéis de
viveiristas e coordenadores, os “intermediários”, tiveram a oportuni-
dade de conhecer pessoalmente e conversar com os outros integran-
tes da Rede. Assim, as poucas tentativas de relacionamento local
entre índios e camponeses resultaram mal-sucedidas na medida
mesmo em que o contato inter-étnico tem sido pautado por uma
situação histórica destas relações, “definidas pelos modelos e
esquemas de distribuição de poder entre os diversos atores sociais”
envolvidos (OLIVEIRA FILHO, 1988: 57). Nesta situação histórica, os
índios ocupam não só o local de “selvagens” como também de
facilmente enganados e explorados.
Um caso que ilustra bem tais fatos foi o dos Krikati e a
cooperativa de Montes Altos. A Terra Indígena Krikati é a única dos
Timbira até o momento não demarcada, embora já reconhecida como
área indígena pelo governo desde 1992, depois de um longo processo
de invasão do território. Os Krikati estão situados na área de
influência da Companhia Vale do Rio Doce e também da Eletronorte
que mantém linhas de transmissão de energia da Hidroelétrica de
Tucuruí (PA) para outras regiões dentro do seu território, também
cortado ao meio por uma estrada estadual. As diversas tentativas de
demarcação da área se arrastam desde 1992 sempre sendo
interrompidas pela pressão de políticos e de liminares da justiça
articuladas aos interesses de posseiros, fazendeiros e deputados
estaduais maranhenses. Numa das várias tentativas de demarcação
da área, durante o início do Projeto Frutos do Cerrado, a cooperativa
de Montes Altos se predispôs a criar uma “cantina” dentro da área
para facilitar o acesso dos índios aos bens industrializados que eles
costumavam comprar na cidade, evitando que estes corressem o risco
de sair da área e serem alvo de violência física. No entanto, a

178 Ana Carolina Cambeses Pareschi


cooperativa não só usou parte do dinheiro do PD/A para investir
nisto, como também vendia os produtos a preços abusivos. Os índios,
por sua vez, começaram a se valer das relações de parentesco para
pegar alguns produtos em nome deste ou daquele e pediam fiado. No
fim, a cantina ficou sem receber um bom dinheiro e a cooperativa de
Montes Altos culpou os índios publicamente por várias vezes em
eventos com a Secretaria Técnica do PD/A pela sua situação
financeira abalada. Em função disso, a cooperativa se desestruturou.
O não pagamento pelos Krikati, neste caso, foi uma forma de fazer
valer seus interesses próprios e mesmo a sua visão do papel que os
kupen ocupam em sua mitologia.24
A expectativa do Centru e dos pequenos produtores de se
tornarem sócios da “fábrica” da Fruta Sã frustrou-se definitivamente
quando ao final do período do projeto os índios decidiram que a
fábrica e a utilização da marca era de sua exclusividade. Esta
frustração foi de certa forma percebida pelos camponeses como
“traição”. Tinham investido tudo na fábrica esperando um retorno
expresso pela constituição de uma “sociedade”. A resposta a esta
“traição” veio quando, em março de 2000, foi criada a Central de
Cooperativas Agroextrativistas do Maranhão – CCAMA, pelo Centru e
as cooperativas de Amarante, Imperatriz, João Lisboa, Montes Altos,
São Raimundo das Mangabeiras, Estreito e mais uma de Balsas, que
não tinha participado do Projeto Frutos do Cerrado. O estatuto desta
Central excluía a possibilidade de “associações” integrarem-na.
Assim, tanto as associações de Santa Maria do Tocantins, de Carolina
como a Vyty-Cati, não tinham como dela fazer parte. Cristalizava-se
aquilo que os representantes das ONG’s afirmavam sobre a “parceria”
da Rede Frutos do Cerrado: separados economicamente e
administrativamente, mas ainda aliados politicamente.
A Rede Frutos do Cerrado procurou assim criar um
“denominador comum” (middle ground) (CONCKLIN e GRAHAM,
1995) entre os interesses de cada ator social envolvido na aliança.
Conforme White (1991 apud CONCKLIN e GRAHAM, 1995: 695), o

24 Entre os Timbira há um mito que justifica a posição dos brancos (kupen) como eternos devedores dos índios
(mehin), tendo que lhes presentear periodicamente com seus bens. É o mito do Aukê, uma espécie de demiurgo das
relações interétnicas. Há várias versões deste mito, mas todas elas enfatizam que Aukê seria uma figura intermediária
– meio homem e meio animal ou meio indígena e meio não-indígena. De qualquer forma, este ser tinha propriedades
mágicas, dentre as quais, a de se transformar. Aukê teria dado a possibilidade dos mehin e dos “cristãos” (kupen)
escolherem entre o arco ou a espingarda. Como os mehin escolheram o arco, permaneceram mehin com toda a cultura
material e simbólica dos mehin. Já os “cristãos”, escolheram a espingarda e, portanto, ficaram com toda a cultura
material do kupen. Como isso foi considerado injusto pelos mehin, os kupen são obrigados a compensá-los com alguns
de seus próprios bens. Nas relações sociais reais entre os Timbira e a sociedade envolvente, tal ideologia transparece,
inclusive através da ocorrência de mais de um movimento messiânico, entre os Krahó (por volta de 1951) e entre os
Kanela-Ramkókamekra (por volta de 1963), para corrigir tal “injustiça”. Os profetas de tais movimentos messiânicos
anunciavam que os mehin iam se transformar em kupen e, assim, ter acesso a todo tipo de bens da sociedade industrial
que passaram a desejar com o contato (Cf. MELATTI, 1972; CROCKER, 1976; CUNHA, 1973).

Projetismo e Desenvolvimento Sustentável:


O Caso dos Pequenos Projetos 179
middle ground é “a construção de mundos mutuamente
compreensíveis caracterizados por novos sistemas de significado e
trocas”. Concklin e Graham usaram o termo para interpretar as
alianças que o ambientalismo internacional e o “movimento étnico”
brasileiro fizeram especialmente nos anos 80 e 90 do século XX.25
Segundo as autoras, o middle ground seria forjado com base em
pressuposições a respeito do Outro e naquilo que este Outro poderia
contribuir para objetivos específicos (1995: 696). A idéia de
comunalidade entre os índios e os ambientalistas do Primeiro Mundo
apelaria às audiências transnacionais em parte porque ressoaria por
meio de múltiplas tendências culturais ocidentais, entre elas a da
figura do “nobre selvagem ecológico” (idem). Entre os pontos de
tensão e precariedade desta “aliança”, as autoras colocam o fato dela
estar baseada em representações simbólicas de uma autêntica
indianidade que não corresponde à realidade. Isto é, atitudes como a
venda de mogno, a permissão de mineração no interior das áreas e
outras ações tomadas por índios de carne e osso, chocam-se com este
ideário e podem fazer com que críticas generalizantes recaíam sobre
as sociedades indígenas fundamentadas por um imaginário que não
corresponde à realidade (idem: 702). Se a aliança foi “costurada por
cima”, com base em ideais de solidariedade e parceria, na prática, a
complexidade de interesses, códigos e demandas minou esta tentativa
de união. Após este processo de aprendizagem, para muitas
lideranças da Rede Frutos do Cerrado, as alianças poderiam ser
construídas com base nos interesses econômicos – nos negócios – ou
políticos, relativos à defesa ou ao apoio genérico de uns pelos outros
em casos específicos.
A aliança entre pequenos produtores e índios, até onde se saiba
é inédita do ponto de vista de um projeto comum, e a proposta da Rede
Frutos do Cerrado era bastante ambiciosa e complexa, encaixando-se
perfeitamente nos ideais do desenvolvimento sustentável: enfatizava a
autodeterminação indígena a partir de uma “autonomia econômica”,
atendia aos pequenos produtores marginalizados historicamente por
todas as políticas públicas, conservava o meio ambiente pelo
“aproveitamento racional dos recursos naturais”, da implantação de
sistemas agroflorestais e manejo de capoeiras. Era enfim, uma
proposta legítima e de certa forma original de entidades “de base”,
organizadas, experientes, que merecia a atenção e o apoio do PD/A. Tal

25 As autoras se referem especificamente a casos de personalidades indígenas que ganharam espaço na mídia nacional
e internacional em função sua atuação em defesa da Amazônia ou dos direitos indígenas, tais como o Xavante Mário
Juruna no final dos anos 70 e vários Kayapó nos anos 80 e 90 do século XX: Paulo Payakan, Raoni e Cube-i.

180 Ana Carolina Cambeses Pareschi


imagem foi fundamental para a aprovação, pelo PD/A, dos vários
projetos Frutos do Cerrado. Mas ao longo da execução dos projetos a
“realidade” foi fazendo o PD/A insistir nos parâmetros do projetismo
(aspectos técnicos de planejamento e organização de atividades) e da
eficiência econômica e logística.

7. A REDE FRUTOS DO CERRADO E O PD/A: DO NAMORO


AO PROJETISMO
Os problemas não somente técnicos ou econômicos do Projeto
Frutos do Cerrado procuraram ser equacionados de diversas formas
pela própria Rede, com um auxílio do PD/A na contratação de
consultorias diversas e no monitoramento atento.
Em função da importância ideológica do Projeto Frutos do
Cerrado, do volume de recursos doados pelo PD/A e do fato do Projeto
ter sido um dos primeiros aprovados pelo Subprograma, a Secretaria
Técnica dispensou muita atenção à Rede inicialmente. Como as
próprias regras de funcionamento e os contratos de doação do PD/A
ainda não estavam muito claros e definidos, permitiram a existência de
“capital de giro” para o Frutos do Cerrado sob o nome de “fundo fixo”,
o que não parece ter ocorrido em outros projetos financiados pelo
PD/A. Além disso, ao longo de sua duração receberam uma gama
extensa de monitorias e visitas dos técnicos do PD/A, de consultores,
de representantes do Banco Mundial, do Banco Interamericano de
Desenvolvimento (BID), do Grupo Consultivo Internacional (IAG), da
Secretaria de Coordenação da Amazônia (SCA), do Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e Social, além de várias outras ONG’s.
Este “sucesso de público” diz alguma coisa sobre o status da proposta
tanto para os agentes econômicos do PP-G7 quanto para os agentes
governamentais e sócio-ambientais. O “excesso de visitas”, como
colocaram vários integrantes da Rede, tornou-se algo bem desagradável
porque pressionava o projeto a apresentar resultados e formas de
organização voltados prioritariamente para a configuração de uma
empresa, seu ponto mais frágil.
A questão da avaliação das diferentes sustentabilidades dos
projetos PD/A revelou as diferentes expectativas tanto dos
profissionais da Secretaria Técnica do Subprograma e do PP-G7,
quanto daqueles que receberam o financiamento. Se, teoricamente, a
noção de desenvolvimento sustentável pretende se mostrar como algo
integral, ou seja, que procura equilibrar demandas sociais,

Projetismo e Desenvolvimento Sustentável:


O Caso dos Pequenos Projetos 181
ambientais e econômicas, a ênfase dada às avaliações dos
subprojetos foi freqüentemente econômica, residualmente ambiental
e quase nada social, já que os fatores econômicos e ambientais
seriam mais facilmente observáveis e quantificáveis no espaço curto
de tempo disponível para tanto. O Projeto Frutos do Cerrado foi um
dos poucos do PD/A que recebeu uma quantidade considerável de
consultorias de avaliação e redesenho (oito ao todo), sendo quatro
delas focalizadas eminentemente nos aspectos econômicos e
comerciais, duas mesclando os aspectos econômicos e sociais e a
última mais preocupada com os aspectos sociais (organizacionais e
educativos) e ambientais, embora também considerasse os
econômicos.26
Como o projeto envolvia uma iniciativa “empresarial” mas não
se restringia a ela, as avaliações acabaram focalizando naquilo que
consideravam os entraves para o sucesso, comercial do empreen-
dimento, sugerindo um plano de negócios, estratégia de marketing,
descentralização das unidades processadoras, infra-estrutura
adequada, enfim, uma gerência eficiente segundo os critérios da
racionalidade capitalista (mesmo que em pequena escala), colocando
em segundo plano relações de afinidade entre pessoas e entidades
conectadas por redes sociais múltiplas e as próprias condições
concretas e históricas daqueles grupos envolvidos. Restava saber, no
entanto, se camponeses e índios (e mesmo as ONG’s) estavam
dispostos, queriam ou tinham condições de se transformarem em
pequenos empresários em termos capitalistas e, se isso fosse
possível, em quanto tempo e de que forma ocorreria.
Enquanto as avaliações fazem parte da lógica do planejamento
e execução de projetos sendo justificadas para melhorar a eficiência
alocativa de recursos e esforços, os camponeses e mesmo as ONG’s
do Projeto Frutos do Cerrado reclamaram que a quantidade de
dinheiro empregada nas mesmas poderia ter sido muito bem utilizada
para suprir as carências orçamentárias dos diferentes projetos
(pagamento de tratos culturais, das despesas com o veículo, de mais
pessoas envolvidas etc.) e desta forma melhorar o desempenho
econômico, esperado pelo PD/A. No entanto, uma vez aprovado o
projeto com determinado orçamento, ele não poderia ser modificado
com o aumento dos recursos pedidos, já que isso não faz parte desta

26 Não tive acesso a dois relatórios de consultoria, mas soube de sua existência pela citação deles em outros
relatórios. Pelo título é possível classificar uma delas como econômica (GIORDANO, Samuel R. Estudo de Viabilidade
Econômica, janeiro de 1997) mas a outra não é possível dizer (CARVALHO, Valter. Análise da Situação Atual e
Proposta de Medidas de Aperfeiçoamento, junho de 1997). Por isso, esta última não pode ser “classificada” por mim
em nenhuma das categorias que me interessavam.

182 Ana Carolina Cambeses Pareschi


lógica projetista. Era possível, no entanto, haver remanejamentos,
justificados, entre rubricas diferentes. A dificuldade de modificação
de um projeto durante a sua execução está relacionada também à
possibilidade de modificação de alianças e poderes (de diversas
naturezas) já estabelecidos. Isso ficou bem demonstrado pela
impossibilidade de redesenho da Rede Frutos do Cerrado,
discutidas desde o início do projeto até o final sem grandes
resultados práticos, porque, entre outras coisas, do ponto de vista
da eficiência produtiva e comercial de uma atividade “empresarial”,
seria preciso a transformação de relações políticas e redes sociais
fortemente estabelecidas entre determinados agentes (especial-
mente as cooperativas vinculadas ao Centru) em relações eco-
nômicas, devendo haver uma desestruturação das mesmas em
favor de determinadas entidades que teriam vantagens comparativas
em relação a outras.
Ao longo dos mais de três anos de projeto, houve um período de
cerca de um ano em que as relações entre o Projeto Frutos do Cerrado
e a Secretaria Técnica do PD/A estavam profundamente abaladas,
havendo descrédito por parte do PD/A dos resultados do Projeto
Frutos do Cerrado. A entrada de novos quadros da ST-PD/A
possibilitou uma nova tentativa de aproximação e, conseqüen-
temente, da formulação de atividades conjuntas que revigoraram as
relações, tal como a capacitação de membros da Rede Frutos do
Cerrado em Diagnóstico Rápido Participativo (DRP). Resultou
também na contratação de uma consultoria de avaliação final do
projeto afinada com o mesmo, concluindo seus trabalhos com uma
visão positiva.
O relatório de Leroy e Toledo (2000) foi bem-aceito pela Rede
Frutos do Cerrado de maneira geral porque não se fixou apenas nos
aspectos econômicos do projeto, mas especialmente no caráter inovador
e positivo que o Frutos do Cerrado possibilitou em termos de criação
para as bases de uma futura sustentabilidade. Segundo os autores

um modelo de desenvolvimento é fruto do jogo de forças


técnicas, sociais e culturais e não o produto de uma
racionalidade econômica supostamente científica. Nessa linha,
entendemos a sustentabilidade como o processo pelo qual as
sociedades administram as condições materiais de sua
reprodução, redefinindo os princípios éticos e sociopolíticos que
orientam a distribuição de seus recursos ambientais (LEROY e
TOLEDO, 2000: 51).

Projetismo e Desenvolvimento Sustentável:


O Caso dos Pequenos Projetos 183
Um projeto como o Projeto Frutos do Cerrado, seguem eles,

não chegou lá e não podia, pois o sucesso real depende de


um conjunto de fatores: educação, assistência técnica e crédito
adequados, sistema e vias de comunicação e transporte
capilares, políticas ambientais efetivas, etc., que por sua vez
dependem de uma reorientação das políticas nacionais (idem).

Ressaltam ainda que “se os desdobramentos do Projeto Frutos


do Cerrado fracassarem, a ‘solução’, imediatista, mas a única que
sobra para uma família [camponesa] à beira do colapso, será voltar à
exploração predatória, (...) sobreviver em piores condições ou tomar o
caminho das periferias urbanas” (idem: 26). Esta observação
constitui-se em um estímulo para a apresentação, por parte da Rede,
dos projetos de refinanciamento de Santa Maria do Tocantins, da
Associação Vyty-Cati, de São Raimundo das Mangabeiras e o de
Acompanhamento e Monitoramento. Entretanto, somente os dois
primeiros lograram.
Este Relatório foi a base necessária para a equipe do PD/A
refletir sobre seus procedimentos e objetivos, embora representantes
dos bancos envolvidos não estivessem muito satisfeitos com os
resultados.

O PD/A, como já falamos, teve muitos esforços bem-


intencionados e entusiásticos das comunidades. Falta em 99%
dos casos o sentido de ‘negócios’, business, saber como, know-
how, preparar um bom business plan, treinar o teu pessoal em
tecnologias para mercados exigentes, pesquisar os mercados,
tecer as parcerias com o setor privado, procurar financiamento,
porque o PD/A é de doação agora, mas isso não pode continuar.
É de doação porque estamos experimentando, caso falhe algum
projeto do PD/A, pelo menos a comunidade não perdeu dinheiro
emprestado. No futuro, as coisas, ao nosso ver, devem ser
financiadas com créditos (representante do Banco Mundial).

Num outro trecho da mesma entrevista esta pessoa declara, ao


avaliar o Projeto Frutos do Cerrado:

Poucos projetos [financiados pelo PD/A] estavam


preparados para se inserir numa economia de mercado, com

184 Ana Carolina Cambeses Pareschi


exigências de qualidade, quantidade e pontualidade (...). Aí eu
posso admitir que no início do Programa deveria ter insistido
mais na avaliação do caráter econômico. Isso não foi feito. Mas o
fato de que alguma comunidade se organizou já foi festejado
como um grande sucesso e em certo sentido é um sucesso. Mas
organização para quê? Se depois a coisa falha, é pior (...). Eles
[do Projeto Frutos do Cerrado] precisam de uma consultoria muito
maior para serem uma empresa. Se não querem ser empresa,
então esquece. Podem comer os seus próprios frutos (idem).

Um dos representantes do PD/A tinha uma opinião um pouco


diversa, enfatizando mais o caráter experimental do PD/A:

[Qual você acha que era o objetivo maior do PD/A?]


Arriscar. Arriscar. A grande diferença do PD/A dos demais
programas é que a gente (...) tinha por missão assumir um risco
muito grande. Você acreditar num projeto como o Frutos do
Cerrado, que bota os Krahó, os Gavião, o Centru para trabalhar
e achar que isso vai dar certo é um risco muito grande. (...) Eu
acho que a missão do PD/A era acreditar realmente nas
comunidades, inovar nisto aí e tentar tirar alguma lição. Nunca
tive ilusão de que o PD/A fosse resolver a questão ambiental.
Que pelo menos apontasse caminhos e eu acho que isso o PD/A
conseguiu fazer (...), testar alguns modelos ainda que numa
escala micro, micro mesmo. Você dizer que um projeto PD/A deu
certo é muito difícil. Porque a gente trabalha com uma coisa de
maturação longa (representante da Secretaria Técnica do PD/A).

Este mesmo representante foi o que afirmou que o Projeto


Frutos do Cerrado tinha que se despolitizar e virar empreendimento
porque senão não iria a nenhum lugar. Outro representante da
Secretaria Técnica ressaltou que quanto aos aspectos ambientais e de
segurança alimentar, o Projeto Frutos do Cerrado tinha sido muito
importante:

(...) Só que eu não me lembro de nenhum outro projeto na


Amazônia que tenha sido tão bem-sucedido na questão
ambiental como o Frutos do Cerrado. Eu acho que eles realmente
conseguiram fazer educação ambiental. (...) Eu acho que este é
maior ganho da Rede, (...) além do aspecto de segurança
alimentar, que eu acho que é super-importante também. (...) O

Projetismo e Desenvolvimento Sustentável:


O Caso dos Pequenos Projetos 185
Projeto Frutos do Cerrado é muito mais do que só polpa de fruta,
tem outras atividades extrativistas, tem a castanha de caju, tem
uma série de outras linhas que eles podem seguir (representante
da ST-PD/A).

Mas em outros trechos da mesma entrevista, este representante


lembra da necessidade de planejamento e critérios técnicos para
utilização do dinheiro, além de mostrar uma certa hesitação quanto
ao objetivo final dos financiamentos do PD/A e das consultorias
dadas ao Projeto Frutos do Cerrado:

a consultoria que a AACC fez para o Projeto Frutos do


Cerrado tinha um Termo de Referência muito amplo e pouco
factível, gerando grandes expectativas nas pessoas da Rede que
foram frustradas de alguma forma. Como se a partir da entrega do
relatório da consultoria se resolveriam todos os problemas e aí eles
sairiam já tendo lucro. E não é assim, em tão pouco tempo. Essas
coisas são processuais. Você não pega um agricultor e transforma
ele num empresário de uma hora para outra. Ou talvez nem tenha
que transformá-lo. Às vezes a saída para eles é estar na ponta. É
eliminar alguns níveis de atravessadores, chegar mais perto lá na
ponta (idem, grifos meus).

Um dos representantes da cooperação técnica apresenta uma


visão bem ampla das avaliações dos projetos pelo PD/A, apontando
para a tensão entre “processos” e “resultados”, entre a lógica
econômica e as sociais e ambientais.

As avaliações do ‘sucesso’ ou do ‘fracasso’ dos projetos


são muito relativas. Depende do que o projeto se propõe a fazer
e de qual ênfase é dada pela avaliação. Para avaliar processos
sociais é preciso descrever bem a sua complexidade. Esses
projetos são complexos. Deve haver relatos de experiências e não
resumos que dão notas para os projetos. Esta é a dificuldade das
avaliações. Os bancos tipo KfW querem resultados palpáveis.
Claro, eles são banco! Eles investem um dinheiro e querem
retorno. Mas o que tem que ser sustentável não é o projeto. É o
produtor. É saber se ele aprendeu a utilizar melhor a propriedade
dele. É difícil medir este tipo de impacto. É preciso olhar o projeto
dentro da unidade produtiva familiar. De repente os sistemas
agroflorestais foram um fracasso mas eles vão melhorar seu

186 Ana Carolina Cambeses Pareschi


sistema de quintal. Há impactos que não se percebe. A gente
ainda não tem instrumentos para medir estes impactos mais
complexos. Tem até uma certa crença de que o que a gente está
fazendo é um acompanhamento de processos, que está na
cooperação técnica, frisar processos. Mas também já tem certa
cobrança de que quando a coisa não funciona se vem com esse
papo de processos. Então tem uma certa tensão entre estas duas
coisas: mostrar resultados e realmente frisar esta visão de
processos. É uma tensão interessante porque você está sempre
sendo questionado, tem que responder. Mas tem o perigo de ser
vítima de cobranças indevidas. Num projeto de três anos de
SAF’s como é que você vai pedir um impacto econômico se as
plantas dão fruto daqui a cinco anos? É difícil (representante da
cooperação técnica alemã).

Como vemos, entre os representantes da Secretaria Técnica e


mesmo da cooperação técnica (alguns ligados em algum momento às
ONG’s sócio-ambientais) prevaleceu uma avaliação de “processos”,
cujos impactos sociais e ambientais seriam ainda desconhecidos e os
econômicos inviáveis em tão pouco tempo. Mas percebe-se também
uma oscilação em algumas destas declarações entre os objetivos
sócio-ambientais e os econômicos, sendo a transformação dos
produtores (e índios, embora não citados) em microempresários um
objetivo a ser alcançado a longo prazo. Há uma tensão entre os ideais
do desenvolvimento sustentável e as práticas cotidianas engendradas
pelo projetismo e pela pressão dos financiadores. Na afirmação do
representante do Banco Mundial percebe-se um forte viés econômico
e uma expectativa que as “entusiásticas” experiências saíssem do
plano utópico para o plano “sustentável” dos negócios, que exigem
resultados a curto prazo. Se os integrantes do projeto quisessem ser
empresa, deveriam seguir as recomendações dos especialistas em
mercado e em desenvolvimento econômico.

8. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como as alternativas à racionalidade dominante, isto é, a da


sustentabilidade frente à desenvolvimentista, ainda não se esta-
beleceram em termos de políticas públicas ou práticas disseminadas,
sendo o PD/A um reflexo parcial destas demandas, é muito mais fácil
introduzir os elementos da racionalidade capitalista hegemônica em

Projetismo e Desenvolvimento Sustentável:


O Caso dos Pequenos Projetos 187
modos de vida ou de produção não-capitalistas do que transformar o
sistema nos termos da diversidade ecológica, sociocultural, política e
econômica. Para Foucault (1988) é muito difícil mudar um regime
discursivo que está ancorado em uma produção simultânea de
verdades e poderes, pois o poder funciona e se exerce em rede (idem:
183), sendo os indivíduos seus centros de transmissão. Assim, tanto
os técnicos quanto os consultores do PD/A e do Frutos de Cerrado
situavam-se em posições de poder, ora reforçando as debilidades do
projeto ora ressaltando as suas conquistas e aprendizado.
É preciso deixar claro que quem estabelece as regras do jogo,
em última instância, são aqueles que financiam a “mudança”, neste
caso, as agências governamentais e multilaterais de cooperação
internacional dos países do Primeiro Mundo, materializadas nas
exigências tecno-burocráticas do Subprograma e de seu tempo
limitado, por mais democrático que pareça ser o PD/A e o PP-G7.
Mesmo que o discurso do desenvolvimento sustentável afirme ser
possível e necessário conciliar interesses desenvolvimentistas e
sustentabilistas, a direção que as ações práticas tomaram, no caso do
Projeto Frutos do Cerrado, tenderam mais para uma lógica dos
agentes hegemônicos internamente ao campo recoberto por aquele
discurso.
Mesmo assim, as iniciativas de ONG’s e entidades de base na
tentativa de trilhar novos caminhos e estratégias para a
transformação social não deixam de ser importantes. Este é um
campo de embates políticos, composto por várias frentes, não só
pequenos projetos. Nele vários atores procuram estabelecer canais de
comunicação, por intermediários, entre o local e o global,
universalizando demandas e entabulando diálogos com o Estado e
outras agências. Este não é um processo rápido, nem unilinear. No
campo das lutas políticas e da sobrevivência institucional, as
estratégias de articulação entre diferentes agentes nem sempre são
bem-sucedidas devido à diversidade de interesses e de condições
destes mesmos atores. O projetismo contribui para dinamizar
organizações, mas também disciplinar as dinâmicas sociais e
políticas que procuram transcender a ordem planejada.
Fica para a Antropologia o desafio de acompanhar as tensões
constitutivas destes espaços de disputa e suas eventuais
transformações. Fica para o antropólogo o desafio de se situar no
processo, inevitavelmente contraditório e tenso, como ator político,
cidadão e cientista.

188 Ana Carolina Cambeses Pareschi


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Projetismo e Desenvolvimento Sustentável:


O Caso dos Pequenos Projetos 193
ANEXOS

194 Ana Carolina Cambeses Pareschi


Projetismo e Desenvolvimento Sustentável:
O Caso dos Pequenos Projetos 195
196 Ana Carolina Cambeses Pareschi
Figura 2 – Organograma do PP-G7

Projetismo e Desenvolvimento Sustentável:


O Caso dos Pequenos Projetos 197
– PARTE 02 –

NORMAS E POLÍTICAS PÚBLICAS NO DIREITO AMBIENTAL INTERNACIONAL . . . .201

1. O Direito Ambiental Internacional como questão de alta relevância internacional . . .201


2. Os instrumentos em matéria de Direito Ambiental Internacional . . . . . . . . . . . . . .204
3. A Agenda 21 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .207
4. A questão das normas ambientais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .207
5. Conclusões . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .210
REFERÊNCIAS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .211

A “CIDADANIA ATIVA” COMO NOVO CONCEITO PARA REGER AS RELAÇÕES


DIALÓGICAS ENTRE AS SOCIEDADES INDÍGENAS E O ESTADO MULTICULTURAL
BRASILEIRO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .215

REFERÊNCIAS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .228

MEIO AMBIENTE EQUILIBRADO E A GARANTIA DO CONTEÚDO ESSENCIAL DOS


DIREITOS FUNDAMENTAIS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .231

1. Considerações iniciais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .231


2. Direito ao meio ambiente e os direitos humanos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .232
3. A relativização dos direitos fundamentais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .237
4. Conteúdo Essencial. Conceito e características . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .240
5. O Conteúdo Essencial no Direito Comparado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .243
6. Considerações de ordem prática . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .244
7. Conclusão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .245
REFERÊNCIAS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .246
Normas e Políticas Públicas no
Direito Ambiental Internacional
Edson Ricardo Saleme1

1. O DIREITO AMBIENTAL INTERNACIONAL COMO


QUESTÃO DE ALTA RELEVÂNCIA INTERNACIONAL

O meio ambiente sempre foi assunto amplamente debatido


no universo jurídico que fazemos parte. Os recursos são
escassos e a preocupação dos mais conscientes recrudesce a cada dia
diante de atos e fatos que se verificam como sendo originários, muitas
vezes, do próprio governo. Muita teoria há a esse respeito e a
humanidade rumaria, talvez, na direção correta se, de fato , os “direitos
humanos” fossem não apenas uma teoria, mas também um objeto de
meditação, mormente diante de tantas transgressões aos preciosos
recursos que a natureza colocou à disposição da humanidade.
A presença do Estado como ente que dá a proteção ao indivíduo
foi tema de amplo debate entre filósofos e juristas envolvidos no
processo de democratização dos autoritários estados do passado. No
entanto, quando a civilização iniciou seu processo de descaso ao meio
ambiente, pouco se falou da ingerência do Estado para proteger esses
recursos escassos e finitos. A atuação e presença do Estado, no
estágio da civilização que nos encontramos, ainda é necessário, assim
como foi no passado.
Os economistas e juristas marcam três fases estatais, que serão
abaixo verificadas. Atravessa-se, neste momento, a controvertida fase
1 Professor do Programa de Pós-Graduação em Direito Ambiental da Universidade do Estado do Amazonas e da
Universidade Católica de Santos.

Normas e Políticas Públicas no


Direito Ambiental Internacional 201
neoliberal. Percebe-se que a atuação do Estado ruma para algum lado,
sem saber decerto qual é. Entretanto, parece que existe, por parte de
setores significativos da sociedade, um substancial número de pessoas
preocupadas com o destino dos recursos naturais esgotáveis do nosso
planeta. Esta fase ainda não apresentou traços definidos que possam
ser considerados indeléveis em matéria ambiental. Nota-se que a
ordem do dia do neoliberalismo é “normatização”, como sendo o elixir
perfeito para a cura de todos os males.
O Liberalismo, cujo período mais marcante foi entre 1815 e
1914, confiante nas idéias de Adam Smith, consagrava o adágio de
que “governa melhor o governo que governa menos”. A abstenção de
ações governamentais marcou essa fase estatal, também conhecida
como État gendarme, cuja preocupação nuclear era a proteção à
propriedade privada e do próprio Estado. O Liberalismo emoldurou o
Estado racional normativo ocidental, o constitucionalismo e as
garantias dos direitos individuais; teve doutrinadores como Locke,
Montesquieu, Stuart Mill, Jefferson, entre outros.
Na opinião Adriano Moreira, o núcleo dos valores
característicos do liberalismo é, porém, claramente identificável; e,
entre eles, destacam-se o valor da pessoa, os direitos naturais do
Homem, o valor supremo da liberdade, uma visão antropocêntrica da
vida, a perspectiva universalista dos direitos e dos deveres, a
tolerância moral e religiosa.2
Nesse período de inação estatal surgiram as primeiras declarações
de direito e constituições francesas do final do século XVIII. São os
famosos direitos de primeira geração que já urgia serem defendidos
diante de violações de ordem predominantemente patrimonial. No
Brasil, a Constituição imperial deixou consignada a mesma tendência
que se alastrava na Europa continental, consagrando, no âmbito
interno, o que se expunha nas declarações e conferiam como garantias
constitucionais, em matéria de direitos humanos.
Ao contrário do que supunham os defensores do liberalismo, no
sentido de que o afastamento do Estado traria um comércio mais
“saudável”, logo no final do século XIX e início do século XX, o
Liberalismo não logrou esconder suas fraquezas, resultando na sua
inevitável decadência. O surgimento da doutrina socialista e outra,
com tendência à intervenção estatal fortemente sugerida como
solução aos problemas, cujo principal expoente foi Keynnes,
inaugurou uma nova fase. A Encíclica de Leão XIII também criticou a
inércia estatal e a culpava pela excessiva concentração de rendas e a

2 MOREIRA, Adriano. Teoria das relações internacionais. Coimbra: Livraria Almedina, 1997, p. 339-394.

202 Edson Ricardo Saleme


ausência de ingerência estatal em setores de primeira necessidade.
Passaram a existir novos modelos de planejamento econômico e
político, passando o Estado a assumir posturas mais ativas e
repressivas, tendentes a propiciar uma vida com melhor qualidade,
sobretudo por meio de sua ação interventiva, normativa e repressiva.
Denominou-se Estado-providência ou Welfare State, a assunção, pelo
Estado, de seu papel protetivo e intervencionista.
Diante desse quadro singular, as Constituições modernas
passaram a garantir os chamados direitos de segunda geração, cujo
objetivo foi reafirmar os de primeira geração e estendê-los aos menos
favorecidos. Dispositivos de ordem econômica e trabalhista passaram
a integrar o texto constitucional. Aponta-se a Constituição de
Weimar, de 1919, como o primeiro texto constitucional a consignar
direitos de tais magnitudes reafirmando sua importância em matéria
de reconhecimento e garantia desses novos direitos.3
Essa necessidade imposta pelo Estado em que se atingiu o
desenvolvimento humano e a observância do que o futuro reservava
exigiu uma postura mais cuidadosa dos poderes públicos e da própria
sociedade diante da possibilidade de escassez dos recursos naturais.
Esse foi o gérmen de uma série de medidas propostas pelos mais
diversos organismos internacionais que formam as bases do que se
denominou, mais tarde, Direito Ambiental Internacional. O Direito
Internacional, ao contrário, é um ramo consideravelmente mais antigo
que aquele com princípios, institutos e objeto próprios. Sua
importância, em nosso país, foi sublinhada a partir da Convenção de
Estocolmo, em 1972. Pode-se afirmar, outrossim, que o direito aqui
analisado é recente e surgiu, como veremos a seguir, a partir da pressão
de inúmeros grupos que observaram que os valores econômicos
estavam predominando diante dos recursos naturais esgotáveis.
A degradação do meio ambiente passou a ser tema que não saía
das pautas de diversas reuniões internacionais; várias entidades
foram cometidas de novas responsabilidades no âmbito ambiental,
como a elaboração de legislação própria, entre outras ações
necessárias à contenção de atos de violação do equilíbrio ambiental.
Nesse contexto, surgiram os chamados direitos de terceira geração,
concebidos a partir do que se presenciava diante de determinadas
situações e segmentos da atividade humana, fosse ela econômica, da
saúde e, principalmente, do meio ambiente. A iniciativa de se

3 CANÇADO TRINDADE, Antonio Augusto, in apresentação à obra Direitos Humanos e o Direito Constitucional
Internacional, de PIOVESAN, Flávia. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. São Paulo: Max
Limonad, 1996, p. 20.

Normas e Políticas Públicas no


Direito Ambiental Internacional 203
introduzir direitos capazes de assegurar um ambiente saudável, sob
todos os pontos de vista, surgiu do temor do futuro reservado às
gerações vindouras.
Cançado Trindade, ao referir-se a essa cadência de direitos
humanos, afirmou que os diversos direitos não se sucedem; ao
contrário, são cumulados e fortalecidos. Ainda infere que “Contra as
tentações dos poderosos de fragmentar os direitos humanos em
categorias, postergando sob pretextos diversos a realização de algum
destes (e.g., os direitos econômicos e sociais) para um amanhã
indefinido, se insurge o Direito dos Direitos Humanos, afirmando a
unidade fundamental de concepção, a indivisibilidade e a
justiciabilidade de todos os direitos humanos”.
Os direitos humanos que se sucedem e se reafirmam marcam o
desenvolvimento da humanidade rumo ao reconhecimento de
institutos que passam a integrar ramos específicos do Direito. A
inserção desses novos valores na órbita jurídica lhes outorga proteção
até então inexistente ou frágil. Fato ainda mais importante é a
observância desses fatores por órgãos de âmbito internacional, que
eleva a questão a patamares superiores, por tratar-se da preservação
da existência humana, fato que por vezes parece subjugado pela
avidez capitalista.
A seguir será examinado como se conceberam os diversos
dispositivos que existem em matéria de direito internacional
ambiental e a adequação do Brasil aos novos ditames, de maneira a
inseri-lo no contexto nacional protegendo também os recursos aqui
existentes.

2. OS INSTRUMENTOS EM MATÉRIA DE DIREITO


AMBIENTAL INTERNACIONAL

A razão de ter-se afirmado que o Direito Internacional Ambiental


é ramo recente do eixo central Direito, considerando o fato de que a
repartição de um ramo ocorre por motivos simplesmente didáticos ou
sistemáticos, nunca extraindo seus elementos jurídicos de unicidade
e harmonia da ordem, é que a Corte Internacional de Justiça, órgão
máximo das Nações Unidas foi solicitada a pronunciar-se somente em
1973, quando os governos da Austrália e da Nova Zelândia
contestaram a legalidade dos testes nucleares atmosféricos realizados
pelo governo francês. O direito internacional público baseia-se,
sobretudo, nos diferentes casos internacionais julgados pela referida
Corte. O caso mencionado, denominado, Nuclear Tests Case foi um

204 Edson Ricardo Saleme


dos primeiros, senão o primeiro, a ser aventado um caso de dano ao
meio ambiente por um Estado a outros. Apesar do Órgão internacional
não ter votado por apego a aspectos processuais, o caso tornou-se
relevante, passando a ser considerado um dos casos que inauguraram
ou deram chance ao nascimento do Direito Ambiental Internacional,
mencionado nos diversos compêndios que tratam do tema.4
Mesmo havendo sérios problemas na implementação das
sanções, a Corte Internacional de Justiça é instada várias vezes a
pronunciar-se acerca de questões envolvendo dois ou mais Estados
estrangeiros que não lograram, per si, chegar a uma conclusão final.
Porém, as decisões da Corte não foram o primeiro passo para a
existência efetiva do Direito Ambiental Internacional. O primeiro e
mais importante passo para a formação de um ato internacional em
torno do tema foi a Confederação de Estocolmo de 1972, reunindo
cerca de 113 Estados, a partir de uma recomendação da Ecosoc –
Conselho Econômico e Social da ONU. A proposta, aceita pela
Resolução n.º 2.398, de 3 de dezembro de 1968, estabeleceu que o
ano de 1972 seria o da realização do evento. Dois anos depois, a
Suécia aceitou sediar a Conferência.
A Convenção foi efetivada e foram estabelecidas metas a serem
cumpridas pelos países integrantes, que obtiveram total apoio dos
órgãos internacionais envolvidos. A Recomendação n.º 96, da
Conferência reconheceu que a educação ambiental, com a introdução
de educação elementar para o cidadão comum seria de fundamental
importância para a garantia de um futuro saudável e harmonia do
homem com o meio ambiente onde vive.
Apesar da relevância da mencionada Recomendação, que
determinava a obrigação dos Estados em manter sistema educacional e
informativo sobre a ação do homo no meio ambiente, as Resoluções que
deram maior relevância ao Direito Internacional Ambiental, na
Conferência de Estocolmo, foram as que tomaram os números 21 e 22,
institucionalizadoras da responsabilidade dos Estados em face dos atos
de sua autoria prejudiciais ao meio ambiente e que tenham repercussão
fora de sua área territorial, melhor dizendo, em outros territórios.
Ainda que reconhecidamente um passo importante na proteção
ao meio ambiente, o Direito Internacional Ambiental tem, ao que se
observa pela leitura mais acurada das Resoluções citadas, um sério
obstáculo a transpor: a questão da coexistência pacífica das
soberanias. Na Conferência foi amplamente reforçada a necessidade de

4 PECK, Connie; LEE Roy .in Increasing the effectiveness of The International Court of Justice., Nederlands: Martin Nijhoff
Publishers/Unitar, 1997, p. 404.

Normas e Políticas Públicas no


Direito Ambiental Internacional 205
uma flexibilização na legislação dos diversos Estados presentes, diante
de eventuais problemas que possam surgir em matéria de defesa dos
recursos ambientais. Talvez essa seja uma das complexas tarefas a
cargo do novo ramo que tomou maior impulso após a Conferência. A
idéia de uma possível “flexibilização da soberania” não foi algo bem-
aceito por países em fase de desenvolvimento, como o nosso e tantos
outros na América Latina, em meados dos anos 70 do século XX.
Ainda que pareça algo recente, observe-se que o conceito de
soberania esculpido nos ensinamentos de Hegel, Hobbes e Rousseau
foi descartado desde o século XVI, quando se traçaram as primeiras
linhas do Direito Internacional Público, mesmo sem as características
que hoje possui. A soberania, com os traços rígidos que se depreendia
de sua significação, auxiliou alguns Estados a se firmarem
economicamente, mormente pela unificação do poder, redução das
guerras intestinas de ordem civil ou religiosa e centralização do poder
geralmente nas mãos de um soberano. Para os estudiosos
tradicionais, a nação soberana seria aquela governada por um
governo, representantes do povo ou de alguma classe que mantinha
algum vínculo jurídico com outros Estados.
Pelo que concebia Jellinek, houve uma evolução histórica da
soberania estatal. A soberania seria antes um traço inconfundível de
um Estado que não reconhecia nenhum outro poder soberano
superior a si. Assim, seria independente, supremo com todas as
características de potestade.5
A questão da soberania foi amplamente debatida em foros
internacionais e, atualmente, fala-se em uma soberania limitada aos
chamados Estados-nação, reconhecendo-se que existem interesses
maiores e de maior significação do que a própria afirmação do Estado
como ente soberano: a humanidade e os recursos limitados que
existem em nosso planeta.
Muito se avançou com a realização da Conferência de Estocolmo
para o surgimento de um novo jus, preocupado com a manutenção da
vida no planeta e outros aspectos de relevante importância relegados, até
então, em segundo plano, sob o ponto de vista governamental. Sua
principal função seria criar mecanismos, por meio do direito positivo ou
não, que possam auxiliar os Estados na defesa do meio ambiente, bem
como outros que auxiliem nações prejudicadas por atos de infração
ambiental cometidas por seus vizinhos. A dificuldade de se firmar o Direito
Ambiental Internacional é a mesma do Direito Internacional, qual seja, a
de conter dispositivos denominados soft law, ou seja, sem poder

5 JELLINEK, Georg. Teoría general del estado. Buenos Aires: Albatroz, 1954, 356.

206 Edson Ricardo Saleme


vinculante (non-binding). Trata-se mais especificamente de uma
orientação que propriamente uma imposição, revestida de forma jurídica
que se afasta do tradicional binômio infração-sanção e da necessidade de
convertê-lo em conjunto de normas a serem revestidas de penas
sancionadores pelo Estados. Aqui cito Derani, que bem expressou essa
nova forma de “impor” das normas jurídicas: “O Direito – também o direito
internacional – é fundamentalmente uma orientação do comportamento
coletivo, aonde vão nutrir-se as relações contratuais privadas. Seu
caráter, organizador – despido aqui da conotação da polícia e coerção,
porém investido de um poder muito mais sutil e não pontual – traz a
possibilidade de implementar atos e valores que, embora presentes
difusamente nos interesses da sociedade em que se insere, não atingiram
sua completa manifestação... O Direito é um todo e, quando se trata da
relação entre o Direito Internacional e o Direito Interno, a lógica
kelseniana deve ser deixada, porque não é capaz de responder
satisfatoriamente a suas imbricações... Numa lógica mais sutil, admitindo
a existência de hierarquias... é possível admitir a precedência do Direito
Internacional”.6
A dinâmica do novo jus consiste em mecanismos sutis,
reconhecidos como soft law, que não devem ser relegados a instâncias
inferiores, mas sim reforçados pela legislação positiva. Supõe-se que um
avanço na consciência da humanidade implicaria na retirada, gradativa,
de normas cogentes, com conteúdo sancionatório. Isso quer dizer que o
próprio ser, perceberia a gravidade de seu ato e por ele teria maior
responsabilidade, sem transgredir preceitos. O Direito Ambiental tem
essa tendência avançada. Contudo, ainda faz-se necessária a existência
de normas cogentes e obrigatórias a coibir ações e prever sanções.
Destarte, há de se conviver com todos os meios que o direito
disponibiliza em termos normativos e dispositivos. Isso reafirma que não
se prescinde da positivação, nos dias atuais, do maior número de regras
possíveis para a defesa do meio ambiente.

3. A AGENDA 21

Como foi sublinhado acima, o Direito Internacional Ambiental


tem também uma forma diversa de imposição e, mesmo se tratando
de um ato com natureza jurídica ímpar, que toma a forma de uma
simples convenção ou resolução, passa e existir de forma concreta

6 DERANI, Cristiane. “Aspectos jurídicos da Agenda 21”. In Direito Ambiental Internacional. Santos: Leopoldianum,
2001, p. 71 e 72.

Normas e Políticas Públicas no


Direito Ambiental Internacional 207
para os Estados signatários. A formação e assinatura de tais atos
nada mais são do que o reconhecimento, pelos Estados signatários,
de que existe algo crucial, cuja importância é de interesse
transnacional. O ato deve contar com a aquiescência dos Estados
envolvidos, seja com a presença das costumeiras normas
sancionatórias ou mesmo com o soft law que caracteriza os atos
internacionais.
A Agenda 21, uma das mais importantes reuniões de meio
ambiente ocorridas após a de Estocolmo, foi reconhecida como
sendo um programa a ser implementado neste milênio; foi o
resultado da Conferência das Nações Unidas sobre meio ambiente e
desenvolvimento realizada no Rio de Janeiro, em junho de 1992.
Esse documento, conforme indica o próprio Ministério do Meio
Ambiente “é um processo de planejamento estratégico participativo.
Este processo está sendo conduzido pela Comissão de Políticas de
Desenvolvimento Sustentável e da Agenda 21 Nacional – CPDS. A
metodologia de elaboração da Agenda privilegia uma abordagem
multissetorial da realidade brasileira, procurando focalizar a
interdependência das dimensões ambiental, econômica, social e
institucional, teria outra característica que a tornaria também
única diante da precedente donde se originou a Declaração sobre o
Ambiente Humano: a idéia de uma parceria entre governo, setor
produtivo e sociedade civil”.7
Esse evento, conhecido também como “Rio–92”, contou com a
participação de 170 países. A etapa mais importante para a
implementação das medidas indicadas foi a imediata internalização
das proposições que a Agenda indicou, mormente no que se refere às
políticas públicas brasileiras, o que repercute nos planos plurianuais,
que as diversas pessoas jurídicas de Direito Público Interno são
obrigadas a apresentar a cada início de gestão, no qual se indicam
onde serão aplicados os recursos públicos obtidos por meios de
receitas. Nessas políticas e alocações de recursos governamentais
devem estar expressos todos os mecanismos que o ente federativo
acionará em caso de desequilíbrio no meio ambiente e, sobretudo,
medidas preventivas para evitar práticas depredatórias ao mesmo.
Não serão mencionados os mecanismos de ordem interna para
a prevenção e repressão de infrações ao meio ambiente. Porém, deve-
se deixar registrado que os diversos níveis de legislação interna
absorveram as inúmeras normas de orientação ambiental de âmbito
internacional. Vários códigos e leis ambientais foram criados e novas

7 MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. http//www.mma.gov.br.

208 Edson Ricardo Saleme


normas e dispositivos foram implementados pelo Legislativo com o
fito de não transgredi-las. Não há uma passividade em termos de
legiferacão constitucional ou infra-constitucional. Tanto nossa Carta
Maior disciplina alguns dispositivos de ordem ambiental, como
também nossa legislação civil, penal e administrativa. Todas, se
regularmente cumpridas, podem proteger o meio ambiente.
Interessante mencionar os mecanismos de proteção ambiental
criados a partir da elaboração da Agenda 21. Foram eleitos cinco
elementos como capazes de abranger a heterogeneidade das regiões
brasileiras inseridas em um contexto de sustentabilidade ampliada.
A plêiade de eixos temáticos desenvolvidos durante a jornada foram:
1) Cidades Sustentáveis; 2) Agricultura sustentável; 3) Infra-
estrutura e Integração Regional; 4) Gestão dos Recursos Naturais; 5)
Redução das Desigualdades Sociais; e 6) Ciência e Tecnologia para o
Desenvolvimento Sustentável.
Um dos fatores que também foram importantes na eleição de
tais eixos temáticos foi o fato de que tiveram como princípio para sua
definição, além da análise das potencialidades, a observância das
fragilidades historicamente reconhecidas em nosso processo de
desenvolvimento. Entre as principais ocorrências que depredam o
meio ambiente em nosso território foi a urgente necessidade de
diminuição das desigualdades sociais. Constatou-se que a pobreza é
um dos principais agravantes da depredação da natureza e isso já
está afetando gravemente os recursos naturais.
A Agenda 21 é, em suma, um instrumento dinâmico capaz de
abarcar as áreas em que os recursos naturais existentes poderiam
ser preservados. Se as políticas públicas e tudo o que está nela
consignado forem, de fato, levados a cabo, será suficiente para inibir
ou mesmo coibir práticas que possam prejudicar os recursos
naturais. Não pairam dúvidas de que seu conteúdo é sério e que a
reunião contou com membros de significante relevo da área
ambiental. Na verdade, quem irá definir ou mesmo reafirmar o que foi
consignado nesses instrumentos será a política ambiental adotada
pelo Estado, que deve contar com estrutura capaz de proteger o meio
ambiente. Isso, certamente, leva em consideração a forma econômica
adotada pelo Estado e as metas estabelecidas por seu governo. O que
se observa, inobstante, é a transformação do capitalismo puro por
um capitalismo cego e despido de preocupações futuras: o
capitalismo financeiro. Neste, por vezes, as normas nada mais são do
que instrumentos que dão legitimidade a atos espúrios e
corporativos, contrários ao interesse coletivo.

Normas e Políticas Públicas no


Direito Ambiental Internacional 209
4. A QUESTÃO DAS NORMAS AMBIENTAIS

Foram louváveis os esforços estabelecidos até aqui pelas


diversas conferências e seus resultados podem ser notados nas
legislações dos mais diversos países do globo. Com os atuais
instrumentos que atualmente existem não deveria passar
despercebido qualquer ato atentatório ao meio ambiente. Isso foi
obtido por meio dos incessantes esforços das organizações
intergovernamentais e das organizações não-governamentais que
passaram a ter papel de relevo na defesa do meio ambiente.
Antes de mencionar aspectos peculiares de nossa legislação
nacional diante de tantas resoluções e atos internacionais que
alteraram profundamente a legislação ambiental, faz-se importante
sublinhar que depois da Conferência de Estocolmo e antes do que
ocorreu na “Rio–92”, outros dois eventos de primeira grandeza
ocorreram em matéria de meio ambiente: a Terceira Conferência
sobre Direito do Mar, resultou na Convenção de Montego Bay,
Jamaica, em 10 de dezembro de 1982 e os três anos de estudos
levados a cabo para a confecção da Comissão Brutland, cujo principal
objetivo foi a criação do conceito síntese sobre desenvolvimento
sustentável. A Assembléia Geral das Nações Unidas, em 1987
recebeu o completo relatório que contou com a participação de
inúmeros segmentos interessados em seu resultado. Uma de suas
mais primorosas conclusões, que a Convenção de Estocolmo já havia
tocado no ponto, foi o de que o desenvolvimento sustentável está
intimamente ligado às políticas públicas e decisões governamentais.
Certamente uma política bem direcionada conduziria a uma
educação adequada e consciente, uma distribuição razoável de renda
e infra-estrutura capaz de manter o meio ambiente satisfatoriamente
protegido e estável.
Todos esses instrumentos possuem estudos aprofundados e
chegaram a conclusões extremamente exatas, que podemos
comprovar por meio de nossa experiência como cidadãos de um país
em vias de desenvolvimento. Louváveis foram suas conclusões e
esforços no sentido de se chegar a um momento em que a
humanidade reconheça que os recursos que hoje lhe servem não são
perenes, mas sim frágeis e merecedores de alta consideração por
parte de todos, mormente daqueles que detém o poder governamental
e econômico do país. O pouco caso dado às questões ambientais pelas
autoridades governamentais são questões que vemos diante de

210 Edson Ricardo Saleme


nossos próprios olhos e, ao contrário do que os relatórios geralmente
apontam, não somente a pobreza afeta severamente ambiente. As
ações e omissões governamentais afetam severamente o ambiente
quando “não percebem” que sua aprovação está lesando a natureza:
quanto a isso pode-se citar o exemplo da aprovação de um loteamento
de alto padrão em área de mananciais ou de reserva ambiental. De
igual forma deve repudiar invasões a áreas de reserva e não dotá-las
de infra-estrutura para que os indivíduos continuem lá habitando.
Diante de tudo o que foi exposto pode-se concluir que não
faltam normas ou mesmo qualquer outro elemento formal para que
se possa pôr em prática os mecanismos de defesa ambiental. O que
deveria realmente ocorrer seria uma punição mais rápida e efetiva,
por parte do Ministério Público, dos agentes públicos responsáveis
pela guarda do meio ambiente e que venham a sugerir medidas
adequadas para determinadas situações, cujo dano ao meio ambiente
é inevitável. Há suficiente número de normas. Há, incontes-
tavelmente, por parte de agentes e órgãos públicos transgressão de
preceitos legais e maior agilidade na tramitação de processos que
versem sobre crimes ambientais.

5. CONCLUSÕES

Os direitos humanos são longamente defendidos e reverenciados.


Contudo, na prática, vê-se, cada vez mais o econômico surgindo como
fator de primeira grandeza em detrimento dos já depauperados recursos
que a natureza brindou o ser humano. Um mecanismo protetivo desses
recursos deve originar-se como obrigação transnacional e que venha a
amparar a humanidade e as gerações futuras.
O Estado surge como defensor dos interesses maiores da
sociedade que habita seu território, em face da irracional exploração
humana dos recursos naturais. A formação do Estado moderno,
como hoje conhecemos, surgiu a partir da Revolução Francesa. As
primeiras constituições modernas e as declarações sempre
enalteceram aspectos relevantes para a sobrevivência humana;
contudo, elevaram também o valor da propriedade e soberania, o que
se contrapõe, de alguma forma, com uma política de proteção ao meio
ambiente daqueles que desrespeitam normas ambientais.
O Estado Liberal, surgido logo após a Revolução Francesa
sempre apegou-se ao laissez faire et laisser passer et le monde va par
lui même. Essa consagrada afirmação de Du Pont, foi um dos cruciais

Normas e Políticas Públicas no


Direito Ambiental Internacional 211
elementos que comprovam a inação estatal, mesmo diante das mais
diversas atrocidades que o econômico pôde chegar em relação ao ser
humano. Diante dos inúmeros movimentos sociais e das crises
originadas pela passividade do Estado, surgiu a necessidade de sua
intervenção ativa, seja por meio de normas ou atos, ou mesmo
medidas que possam ser necessárias à defesa dos interesses
coletivos. Daí surgiu o Estado Intervencionista, o Welfare State,
consagrado por Franklin Roosvelt.
Como sucessão das ações estatais, surgiram os entes
internacionais, o Direito Internacional Público, como defensor dos
interesses maiores da humanidade, defesa da paz e do equilíbrio
entre os Estados. Esse ramo jurídico, conhecido igualmente como
direito das gentes, tem como objeto as mais diversas áreas que
possam afetar o equilíbrio da humanidade. Uma delas áreas foi a
ambiental, o que consagrou a existência de um novo ramo jurídico o
Direito Ambiental Internacional. Reafirmado seu valor na Conferência
de Estocolmo de 1972, surgiu, especificamente pela aprovação das
Resoluções 21 e 22, como um direito supra-estatal, cujo núcleo
central nada mais seria do que as necessidades vitais para a
manutenção da vida sobre os Estados do planeta versus a
coexistência pacífica das soberanias.
A Conferência de Estocolmo de 1972 foi o marco inicial que
propiciou a ocorrência de outras Conferências como a de Montego
Bay, de 1982 e o relatório da investigação internacional levada a cabo
pela Comissão Brutland, até 31 de dezembro de 1987, quando
entregou seu relatório à Assembléia Geral das Nações Unidas. Esse
relatório confirmou que os Estados em geral devem manter estrutura
democrática e as decisões políticas governamentais devem, como
condição sine qua non para a validade de seus atos, considerar os
aspectos frágeis do meio ambiente não só de seu território como de
seus vizinhos.
Ainda que se possa alegar que as diversas normas contidas nas
Resoluções e convenções seja o que se denomina soft law, a legislação
nacional, encabeçada pela Constituição Federal de 1988 e suas
respectivas emendas, já possui grande número de elementos
necessários à manutenção dos ambientes naturais e renováveis. O
papel do Estado aqui é fundamental e neste ponto a opinião da
Comissão Brutland traduz o anseio da humanidade sadia sobre o globo
e deve existir conscientização de que são imprescindíveis políticas
públicas democráticas e condignas capazes de oferecer aos governados
condições adequadas para realizar suas aspirações de uma vida

212 Edson Ricardo Saleme


melhor, assim evitando a pobreza e conseqüências nefastas paralelas.
O Estado passou por fases distintas que marcam uma maior ou
menor intervenção estatal. Normas ambientais são criadas, cada vez,
em maior número. O que deve existir, de maneira patente é uma
política que venha a abranger União, Estados, Distrito Federal e
Municípios com transparência, moral e simplesmente de respeito às
normas. Para efetivação desses atos deve-se munir o Ministério
Público e o Judiciário de elementos capazes de dar maior agilidade à
realização desse controle, sem o que, mais uma vez, o meio ambiente
sairá definitivamente prejudicado para esta e futuras gerações.

REFERÊNCIAS
DERANI, Cristiane e COSTA, José Augusto Fontoura (organizadores). “Aspectos jurídicos
da Agenda 21”. In: Direito Ambiental Internacional. Santos: Leopoldianum, 2001.
MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. http//www.mma.gov.br.
MOREIRA, Adriano. Teoria das relações internacionais. Coimbra: Livraria Almedina, 1997.
OHMAE, Kenichi. O fim do Estado-Nação. Rio de Janeiro: Campus, 1996, p. XVIII.
PECK, Connie; LEE Roy. In: Increasing the effectiveness of The International Court of
Justice. Nederlands: Martin Nijhoff Publishers/Unitar, 1997, p. 404.
ROUSSEAU, Ch. Droit international public. Pris: Sirey, 1953.
WOOD, Ellen Meiksins. Democracy against capitalism. Cambridge: Cambidge University
Press, 1999.

Normas e Políticas Públicas no


Direito Ambiental Internacional 213
A “cidadania ativa” como
novo conceito para reger
as relações dialógicas entre as
sociedades indígenas e o Estado
Multicultural Brasileiro
1
Fernando Antonio de Carvalho Dantas

A
cidadania, tradicionalmente concebida como sinô-
nimo de nacionalidade, decorrente do título legal
concedido pelos Estados aos indivíduos que integram seu corpo
social com igualdade, homogeneidade, identidade e aspirações
comuns, reduzida ao espaço nacional, requer transformações no
atual contexto mundial.2
Esse contexto é caracterizado externamente pela construção
política de espaços transnacionais com evidente predomínio do
interesse econômico e, no âmbito interno dos Estados, pela
diversidade sociocultural e étnica historicamente invisibilizada pelo
violento processo de homogeneização social e cultural. Pugnar por
uma nova cidadania significa romper limites. Os clássicos limites
conceituais à própria cidadania, ao Estado e ao direito.
Os limites do Estado monocultural, assim como do direito
monístico, provocou a exclusão das diferenças étnicas e culturais, de
modo velado pela suposta universalidade do princípio da igualdade e
pelo difundido conceito de cidadania legal, igualitária e
indiferenciada, baseada na dialética interno/externo e, em termos

1 Professor e Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Direito Ambiental da Universidade do Estado do


Amazonas – UEA. Doutor em Direito pela Universidade Federal do Paraná. Professor convidado do Programa de
Doutorado Direitos Humanos e Desenvolvimento da Universidad Pablo de Olavide de Sevilha, Espanha. Membro do
Conselho Diretor da Fundação Ibero-Americana de Direitos Humanos.
2 Não é propósito do presente trabalho, discorrer detalhadamente sobre a evolução histórica do instituto da
cidadania, o que implicaria apresentar, de modo contextual e consistente, as diferentes teorias formuladas desde
os seus primórdios atenienses, passando pelo civis romanus e citoyen francês e finalmente chegando à idéia
moderna ocidental consagrada a partir de diferentes formas de Estado e de sistemas políticos. Portanto, optou-se
pela discussão a partir da contemporaneidade com algumas incursões históricas e teóricas, quando pertinentes ao
tema específico dos povos indígenas.

A "cidadania ativa" como novo conceito para reger


as relações dialógicas entre as sociedades indígenas
e o Estado Multicultural Brasileiro 215
identitários, nós e os outros. Assim, no intento de romper com a
exclusão que marcou a história dos povos indígenas brasileiros,
propõe-se para estes uma cidadania nova e resignificada baseada no
alargamento da idéia de vínculos sociais, culturais, jurídicos e
políticos de pertença concomitante às suas sociedades e culturas
particulares e ao Estado.
Esta questão tem estimulado intensos debates provocados pelo
processo de globalização econômica, cultural e política e pelas
reivindicações de reconhecimento das diferenças. FARIÑAS DULCE,
baseada no novo contexto mundial de descentralização jurídica, da
pluralidade cultural e normativa e, principalmente, das exigências de
reconhecimento jurídico e político das diferenças e das heterogêneas
identidades étnico-culturais, bem como na insuficiência conceitual da
noção clássica de cidadania, propõe um repensar desta a partir de dois
espaços reguladores e interdependentes. O espaço particular, interno
aos Estados nacionais que deve gerar a noção de “cidadania
fragmentada ou diferenciada” e o espaço externo, transnacional, global,
não vinculado à regulação do Estado nacional e a sua territorialidade,
3
gerador da noção de “cidadania cosmopolita ou global”.
A cidadania diferenciada, segundo a autora, deve ser fundada
no reconhecimento do direito à diferença como valor jurídico e
político que propicie – calcada em princípios democráticos – a
preservação e manifestação da identidade, assim como a participação
pública nos âmbitos político, social, cultural e econômico, desde e
com suas diferenças. Isto equivale dizer que é a participação do
sujeito diferenciado, duplamente contextualizado e relacionado no
seu universo particular e comunitário bem como no âmbito do
Estado. Já a cidadania cosmopolita ou global seria aquela que
transcende as fronteiras e a soberania do Estado-nação, se
transnacionaliza, uma categoria de cidadania globalizada.4
Para os contornos da cidadania indígena que se pretende
oferecer no presente trabalho, a conjugação das duas formas de
cidadania acima descritas pode oferecer uma ampla possibilidade
emancipatória dos povos indígenas, tanto no contexto local como no
global. Em primeiro lugar, porque historicamente foi negado aos
índios o direito de expressar suas identidades e diferenças tendo em
vista a violência dos processos de morte lenta, física e cultural, ou
seja, da “idéia de inevitabilidade de seu desaparecimento como
experiência coletiva viva, capaz de repor suas instituições a cada ato,

3 FARIÑAS DULCE, Maria José. Globalización, ciudananía y derechos humanos. Madrid: Dinkinson/Instituto de
Derechos Humanos Bartolomé de las Casas/Universidad Carlos III de Madrid, 2000, p. 35-36.
4 FARIÑAS DULCE, M. J., op. cit., p. 36-44.

216 Fernando Antonio de Carvalho Dantas


capaz de manter, no tempo, uma cultura própria”.5 Em segundo,
porque, na atualidade, a inefetividade das normas constitucionais de
reconhecimento impedem seu exercício pleno, portanto, é tímida a
participação política dos índios nos âmbitos do Estado,6 assim, se
constitui em um vir a ser realidade e, por último, os movimentos
sociais indígenas reivindicam direitos e constroem espaços de luta
que extrapolam o contexto do Estado nacional.
A tarefa não é simples. Basta o dado depopulacional
comparativo entre o que foram, em números, os povos indígenas no
início do processo de colonização e a população indígena atual. De
aproximadamente 3 milhões foram reduzidos a 350 mil,7 para
constatar que as relações históricas dos povos indígenas com a
sociedade nacional resultaram em situações violentas de extermínio
físico, o que as caracteriza como processos genocidas, e, por
conseguinte, extermínio cultural que configura “epistemicídios”, na
expressão de SOUSA SANTOS.8
Por outro lado, pode-se dizer, também, que a política
assimilacionista levada a cabo pelo Estado, por meio dos programas
institucionais de integração dos povos indígenas à comunhão
nacional, visando a emancipação individual e integração no sistema
produtivo capitalista9 e conseqüente descaracterização ou desapare-
cimento das respectivas sociedades, em nome da civilização, da
liberdade e da igualdade, consistiu em “epistemicídio”.
Assim, em contextos histórico e político tão adversos aos povos
indígenas, a igualdade de direitos na perspectiva assimilacionista

5 PAOLI, Maria Célia Pinheiro Machado. O sentido histórico da noção de cidadania no Brasil: onde ficam os índios? In:
COMISSÃO PRÓ-INDIO. O índio e a cidadania. São Paulo: Brasiliense, 1983, p. 21.
6 Atualmente, apenas três representantes indígenas ocupam assento em órgãos consultivos federais da administração
pública: Francisca Novantino-Paresi no Conselho Nacional de Educação, Escrawen Sompré-Xerente no Conselho
Nacional do Meio Ambiente e Azelene Kring Inácio-Kaingang no Conselho Nacional de Segurança Alimentar e
Nutricional e no Conselho Nacional de Combate à Discriminação. A Comissão intersetorial da saúde indígena do
Conselho Nacional de Saúde tem, entre seus membros, os seguintes indígenas: Euclides Pereira, Clovis Ambrózio,
Francisco Avelino Batista e Wilson Jesus de Souza. Participa, como convidado para assistência das reuniões do
Conselho de Gestão do Patrimônio Genético, Edilson Martins Melgueiro-Baniwa.
7 RIBEIRO, Berta. O índio na história do Brasil. São Paulo: Global Editora, 1987.
8 Para o autor, “O privilégio epistemológico que a ciência moderna se concede a si própria é, pois, o resultado da
destruição de todos os conhecimentos alternativos que poderiam vir a pôr em causa esse privilégio. Por outras
palavras, o privilégio epistemológico da ciência moderna é produto de um epistemicídio. A destruição de
conhecimento não é um artefato epistemológico sem conseqüências, antes implica a destruição de práticas sociais
e a desqualificação de agentes sociais que operam de acordo com o conhecimento em causa”. SOUSA SANTOS, B.,
op. cit., p. 242.
9 Através de projetos institucionais no âmbito do “Programa de Desenvolvimento de Comunidades Indígenas”,
administrativamente conhecidos como “Programas de Desenvolvimento Comunitário”. Na prática, esses programas
desenvolveram uma desastrosa sistemática de substituição dos sistemas de produção de subsistência baseados na
policultura tradicional dos povos indígenas, pelo sistema de agricultura capitalista intensiva e monocultora,
principalmente, no sul do país. Segundo o discurso oficial “Estes programas de desenvolvimento comunitário são
elaborados de acordo com as aspirações das comunidades indígenas, e têm como objetivo a estruturação dos
setores da economia de subsistência e de comercialização, desenhando ações concretas para o engajamento das
comunidades indígenas com grau de aculturação mais elevado, no processo de desenvolvimento econômico e
social”. Funai – Fundação Nacional do Índio. Legislação, Jurisprudência Indígenas. [s.l.]: 1983, p. 3.

A "cidadania ativa" como novo conceito para reger


as relações dialógicas entre as sociedades indígenas
e o Estado Multicultural Brasileiro 217
significa morte, porque representa um diluir-se no conjunto social
homogêneo da sociedade nacional. Morte, quando não física, cultural.
A cidadania clássica, portanto, como instituto fundado na igualdade
e na liberdade, segue no significado, o mesmo destino.
O conteúdo do conceito de cidadania, para MARSHAL envolve
três categorias de direitos: direitos civis, direitos políticos e direitos
sociais.10 Os direitos civis e políticos constituem uma gama de direitos
fundamentais relacionados ao indivíduo como sujeito de direitos e
obrigações e, de um modo geral, tratam da liberdade, da igualdade
formal e da dignidade da pessoa; já os direitos sociais, de natureza
coletiva, referem-se às condições de manutenção e reprodução da
vida em sociedade.
Como libertar tem o sentido de igualar no âmbito conceitual da
cidadania clássica, os índios com liberdade e igualdade seriam os
índios emancipados que deixariam de ser índios, abandonariam a
diferença cultural e organizativa. Seriam os índios cidadãos, iguais,
em direitos, aos cidadãos nacionais. Essa perspectiva que orientou
ideologicamente a legislação brasileira referente a estes povos
constituiu, como já foi visto, a noção de pessoa em transição da
barbárie à civilização. A mesma dialética campo/cidade e
interno/externo que orienta a definição do instituto da cidadania.
Deste modo, as desastrosas evidências empíricas dos processos
institucionalizados de transformação do índio em não-índio –
depopulação, descaracterização cultural, exclusão, marginalização,
entre outros – para atingir o estatuto de cidadão, provocam uma
necessidade de questionamento sobre os “custos” dessa transfor-
mação como assinala SOUZA, para quem:

A possibilidade de se antepor à inevitabilidade das leis do


desenvolvimento capitalista nos remete à questão fundamental:
como impedir a destruição dos povos indígenas? Como garantir a
sua liberdade de existência? É no interior desse quadro que cumpre
verificar se a extensão da cidadania às populações indígenas
significará a sua sobrevivência e sua liberdade. Ou se, ao contrário,
longe de implicar a condição de sua preservação, seria um golpe de
morte na sua liberdade de viver e sobreviver e a implantação
violenta de uma igualdade. Igualdade essa que, ao tudo ‘igualar’,
termina com as diferenças e, portanto, com a liberdade.11

10 MARSHALL, T. H. Cidadania, classe social e status. Rio de Janeiro: Zahar, 1963, p. 67.
11 SOUZA, Maria Tereza Sadek R. de. Os índios e os “custos” da cidadania. In: COMISSÃO PRÓ-ÍNDIO. O índio e a
cidadania. São Paulo: Brasiliense, 1983, p. 41-42.

218 Fernando Antonio de Carvalho Dantas


Do ponto de vista estritamente jurídico, salienta SOUZA FILHO,
o conceito de cidadania se vincula ao conceito de Estado implicando
em direitos e obrigações com uma ordem política e jurídica em cuja
elaboração e sentido os povos indígenas não contribuíram nem
comungam, porque são sociedades sem Estado e, também, por
possuírem valores, sistemas simbólicos e organização social
diferenciados dos da modernidade ocidental. Portanto a inexistência
de vínculos sociais, culturais e políticos, poderia levar a conclusão de
que os índios não são cidadãos brasileiros. Entretanto, conclui o
autor, em razão do critério de determinação da cidadania adotado
pelo direito brasileiro, baseado no jus solis, por nascerem no território
nacional, os índios, individualmente, adquirem a cidadania
brasileira. São, paradoxalmente, cidadãos brasileiros e possuem
identidades culturais conflitantes com a identidade homogênea na-
cional, portanto a cidadania indígena é uma ficção.12
Uma ficção jurídica tensionada, atualmente, pela necessidade
de conjugar, harmonizar, os valores individuais da igualdade com os
coletivos das diferenças.13
Portanto, a cidadania diferenciada indígena deve expressar um
repensar das noções clássicas de sociedade, de Estado e do direito, e
14
conseqüentemente, do próprio conceito de cidadania, buscando,
dialogicamente, a inserção pela participação democrática da
pluralidade de sujeitos diferenciados indígenas desde seus contextos
e identidades particulares, no contexto maior do Estado.
Para que ocorra sem descaracterização cultural, esta inserção
deve ser acompanhada das garantias da sobrevivência física e
cultural dos povos indígenas nos seus espaços territoriais e com
igualdade complexa baseada na diferença reconhecida constitucio-
nalmente e no respeito à diversidade humana, social e cultural que
representam.
Um ponto de partida para a construção conceitual de uma nova
cidadania diferenciada, que atenda a composição pluriétnica dos
Estados contemporâneos, tanto intrínseca na realidade ibero-

12 SOUZA FILHO, Carlos Frederico Marés de. A cidadania e os índios. In: COMISSÃO PRÓ-ÍNDIO. O índio e a cidadania.
São Paulo: Brasiliense, 1983, p. 44-51. Muito embora a publicação do artigo tenha ocorrido em momento anterior
ao do atual regime constitucional, tanto do ponto de vista do critério legal de aquisição da cidadania, como em
relação ao problema da cidadania indígena, o pensamento do autor continua atual. No mesmo sentido, DALLARI,
Dalmo de Abreu. Índios, cidadania e direitos. In: COMISSÃO PRÓ-ÍNDIO. O índio e a cidadania. São Paulo:
Brasiliense, 1983, p. 52-58.
13 FARIÑAS DULCE, M. J., op. cit., p. 39.
14 A “reformulação” da idéia de cidadania. Esse o entendimento de Antonio Enrique Pérez Luño, ao analisar o atual
contexto político de integração dos Estados nacionais da Europa à União Européia. Propõe, para tanto, a noção de
“cidadania multilateral”. PÉREZ LUÑO, Antonio Enrique. Diez tesis sobre la titularidad de los derechos humanos. In:
ROIG, Francisco Javier Ansuátegui (org.). Una discusión sobre derechos colectivos. Madrid: Instituto de Derechos
Humanos Bartolomé de las Casas/Universidad Carlos III, 2002, p. 267.

A "cidadania ativa" como novo conceito para reger


as relações dialógicas entre as sociedades indígenas
e o Estado Multicultural Brasileiro 219
americana, como provocada pela imigração nos países do primeiro
mundo, é oferecido por HERRERA FLORES e RODRÍGUEZ PRIETO.
Para estes autores, a cidadania não constitui um status, portanto,
um sujeito não é cidadão, ele “tem” cidadania; sendo assim, a
concebem como uma técnica para o exercício da democracia pelos
pressupostos de que:

Em primeiro lugar, a cidadania tem haver com algo mais


além da pertença a um Estado-nação e sua correspondente
legalidade. No mundo contemporâneo existem múltiplos espaços
e legalidades que fazem da cidadania algo mais complexo do que
a simples nacionalidade. Em segundo lugar, a cidadania não
outorga algum estado ontológico. Não se é cidadão. Se tem ou
não se tem cidadania. [...] Em terceiro lugar, que a cidadania não
é um status, é uma técnica, um instrumento que usado
corretamente pode nos permitir exercer a busca e a consolidação
de outros instrumentos ou meios que nos aproximem do
objetivo/projeto de auto-governo.15

A cidadania indígena, em atenção ao conjunto de direitos


diferenciados reconhecidos constitucionalmente, exige o exercício
desses direitos pela participação democrática dos índios nos
processos institucionais estatais referentes a assuntos e âmbitos que
lhes digam respeito e, também, à criação dos meios institucionais ou
a heterogeneização das instituições estatais,16 o que permitirá o
desenvolvimento e a construção simétrica de relações sociais
indígenas entre eles mesmos, ou seja, entre os diversos povos que
compõem a diversidade étnico-cultural, relações com a sociedade
envolvente e com o Estado.

15 HERRERA FLORES, Joaquín e RODRÍGUEZ PRIETO, Rafael. Hacía la nueva ciudadanía: consecuencias del uso de una
metodología relacional en la reflexión sobre la democracia. Crítica Jurídica: Revista Latinoamericana de Política,
filosofia e direito, n.º 17, agosto/ 2000, p. 302-303. Texto original: En primer lugar la ciudadanía tiene que ver con
algo más que la pertenencia a un Estado Nación y su legalidad correspondiente, En el mundo contemporáneo existen
múltiples espacios y legalidades que hacen de la ciudadanía algo más complejo que la simple nacionalidad. En
segundo lugar, la ciudadanía no otorga algún tipo de status ontológico. No se es ciudadano. Se tiene ciudadanía.
Nadie puede, al estilo de Kane de Orson Welles, arrogar-se el título de Ciudadano frente a los que no los poseen. Por
ello y en tercer lugar, afirmamos que la ciudadanía no es un status. Es una técnica, un instrumento que usado
correctamente puede permitirnos ejercer la búsqueda y la consolidación de otros instrumentos o medios que acerquen
al objetivo/proyecto del autogobierno (tradução livre).
16 A autora propõe como princípio, que o âmbito público democrático deveria prover de mecanismos para o efetivo
reconhecimento e representação das vozes e perspectivas particulares daqueles grupos constitutivos do ambiente
público que estão oprimidos e em desvantagem. Tal representação de grupo implica a existência de mecanismos
institucionais e recursos públicos que apóiem: a) a auto-organização dos membros do grupo de modo que estes
alcancem uma autoridade coletiva e um entendimento reflexivo de suas experiências e interesses coletivos no
contexto social; b) a análise de grupo e as iniciativas grupais para a proposta de políticas em contextos
institucionalizados, nos quais os que tomam decisões estão obrigados a mostrar que suas deliberações levaram em
conta as perspectivas de grupo; e c) o poder de veto para os grupos a políticas específicas que afetem diretamente
a um grupo, tais como, política sobre direitos reprodutivos para as mulheres e política sobre o uso da terra para os
povos indígenas. YOUNG, Iris Marion. La justicia y la política de la diferencia. Madrid: Ediciones Cátedra, 2000, p. 310.

220 Fernando Antonio de Carvalho Dantas


Impõe-se a este espaço democrático de relações sociais, a não
subordinação dos povos indígenas em razão das suas identidades
diferenciadas,17 nem o conflito dialético contínuo. Impõe-se, sim, a
mediação pelo diálogo intercultural. Nos dizeres de PANIKKAR,
transformar o conflito dialético em “tensão dialógica” e buscar,
através do diálogo, situações de equilíbrio baseadas na abertura
mútua e recíproca para o reconhecimento, respeito e exercício dos
direitos das identidades e dos valores diferenciados.18
O diálogo intercultural, portanto, se configura como um
“espaço e um instrumento” da nova cidadania indígena, diferenciada,
multicultural, dinâmica, criativa e participativa no sentido de
construir os direitos diferenciados indígenas e, como conseqüência,
criar, também, contextos plurais e heterogêneos onde a convivência
democrática possibilite o desenvolver das ações da vida sem
opressão, sem exclusão.
As condições da possibilidade de diálogo entre as sociedades
indígenas e o Estado brasileiro é um tema que ocupa na atualidade
grandes espaços de discussão e reflexão. Para OLIVEIRA, ancorado
na ética da libertação de Enrique Dussel, essa possibilidade somente
é factível a partir da institucionalização de uma nova normatividade
discursiva “capaz de substituir o discurso hegemônico exercitado pelo
pólo dominante do sistema interétnico”.19
O discurso dominante, um discurso universalista e competente
que excluiu as sociedades indígenas ao longo da história, ideologizou
e naturalizou as diferenças culturais ora como bárbaras e selvagens,
ora românticas e folclóricas, mas, sempre, e principalmente, como
óbices à integração, unificação e desenvolvimento do Estado. Os
povos indígenas compõem o mosaico social e cultural brasileiro, como
sociedades culturalmente diferenciadas da nacional hegemônica. A
diversidade sociocultural que esses povos configuram, ocultada no
longo processo de colonização e de construção do Estado Nacional, teve

17 Sobre os múltiplos níveis das relações de subordinação, ver: MOUFFE, Chantal. The return of the political. Londres:
Verso, 1993.
18 PANIKKAR, Raimundo. Sobre el dialogo intercultural. Salamanca: Editorial San Esteban, 1990, p. 50-53. Sobre o
modo dialógico de tratar as posições conflitivas o autor faz as seguintes considerações: uma sociedade pluralista
somente pode subsistir se reconhece, em um momento dado, um centro que transcende a compreensão dela mesma
por qualquer membro ou pela sua totalidade; o reconhecimento desse centro é algo dado que implica um certo grau
de consciência que difere segundo o espaço e o tempo; o modo de manejar um conflito pluralista não é uma das
partes tentando discursivamente convencer a outra, nem pelo procedimento dialético, senão pelo diálogo
dialógico; discussão, oração, palavras, silêncio, decisões, acomodações, autoridade, obediência, exegese de regras
e constituições, liberdade de iniciativa, rupturas, são atitudes próprias de tratar o conflito pluralista; há um
contínuo entre multiformidade e pluralismo e a linha divisória situa-se em função do tempo, lugar, cultura,
sociedade, resistência espiritual e flexibilidade; o problema do pluralismo não pode ser resolvido pela manutenção
de uma postura unitária; o trânsito da pluralidade para a multiformidade e, desta ao pluralismo pertence às dores
crescentes da criação e ao verdadeiro dinamismo do universo.
19 OLIVEIRA, Roberto Cardoso de. Sobre o diálogo intolerante. In: GRUPIONI, Luís Donizete Benzi. Povos indígenas e
tolerância: construindo práticas de respeito e solidariedade. São Paulo: Edusp, 2001, p. 252.

A "cidadania ativa" como novo conceito para reger


as relações dialógicas entre as sociedades indígenas
e o Estado Multicultural Brasileiro 221
no direito positivado, um dos mais poderosos mecanismos de exclusão
que, sendo fundamento da política indigenista levada a cabo, primeiro
pela Coroa portuguesa e, em seguida, pelo Estado brasileiro,
promoveram genocídios e etnocídios responsáveis pela depopulação e
pelo desaparecimento de numerosas culturas e povos indígenas.
A apreensão parcial que o direito positivado faz da realidade
social, por meio de mecanismos de poder que valoram e privilegiam
uma determinada forma de vida e práticas sociais como boas, com a
conseqüente juridicidade amparada pelo Estado, institucionalizou, ao
longo da história do direito no Brasil, a exclusão do espaço jurídico-
político nacional, das pessoas indígenas e suas sociedades, suas
vidas, seus valores e suas formas diferenciadas de construção social
da realidade.
Nesse sentido, os colonizadores portugueses desconsideraram
a existência de povos autóctones, com organizações sociais e
domínio territorial altamente diversificados e complexos, negando
aos seus membros a qualidade de pessoas humanas ou de uma
humanidade viável,20 motivo pelo qual justificavam a invasão e
tomada violenta do território, a escravização, as guerras, os mas-
sacres e o ocultamento jurídico.
O direito colonial, e posteriormente o nacional seguiram o
mesmo caminho. A formulação jurídica moderna do conceito de
pessoa enquanto sujeito de direito, fundado nos princípios liberais da
igualdade e liberdade que configuram o individualismo, modelo
adotado pela juridicidade estatal brasileira e estampado no Código
Civil de 1916, gerou o sujeito abstrato, descontextualizado, individual
e formalmente igual, e classificou as pessoas indígenas, não como
sujeitos diferenciados, mas, diminutivamente, entre as pessoas de
relativa incapacidade, ou pessoas em transição da barbárie à
civilização. Esta depreciação justificava a tutela especial exercida pelo
Estado, os processos e ações públicas voltados para a integração dos
índios à comunhão nacional, o que equivale dizer, transformar os
índios em não índios.
Com a promulgação da Constituição de 1988 reconhecendo
expressamente as diferenças étnico-culturais que as pessoas
indígenas e suas sociedades configuram, pelo reconhecimento dos
índios, suas organizações sociais, usos, costumes, tradições, direito
ao território e capacidade postulatória, um novo tempo de direitos se
abre aos povos indígenas. Um novo tempo, não mais marcado pela

20 Conforme SOUZA, comentando o imaginário europeu sobre o Brasil, a partir dos relatos de Fernão Cardim. SOUZA,
Laura de Mello e. O diabo e a terra de Sta. Cruz. Feitiçaria e religiosidade no Brasil colonial. São Paulo: Companhia
das Letras, 1986, p. 30/33.

222 Fernando Antonio de Carvalho Dantas


exclusão jurídica e sim pela inclusão constitucional das pessoas e
povos indígenas em suas diferenças, valores, realidades e práticas
sociais, com permanentes e plurais possibilidades instituintes.
Evidentemente, o reconhecimento constitucional dos índios, e
suas organizações sociais de modo relacionado, configuram, no
âmbito do direito, um novo sujeito indígena, diferenciado,
contextualizado, concreto, coletivo, ou seja, sujeito em relação com
suas múltiplas realidades socioculturais, o que permite expressar a
igualdade a partir da diferença.
O marco legal desse reconhecimento, em razão da dificuldade de
espelhar exaustivamente a grandiosa complexidade e diversidade que
as sociedades indígenas representam, está aberto para a confluência
das diferentes e permanentemente atualizadas maneiras indígenas de
conceber a vida com seus costumes, línguas, crenças e tradições,
aliadas sempre ao domínio coletivo de um espaço territorial.
O novo paradigma constitucional do sujeito diferenciado
indígena e suas sociedades inserem-se conflituosamente, tanto no
âmbito interno dos Estados nacionais quanto em nível mais amplo,
no contexto atual dos Estados e mundo globalizados, confrontando-
se com a ideologia homogeneizante da globalização, que não
reconhece realidades e valores diferenciados, pois preconiza
pensamento e sentido únicos para o destino da humanidade, voltados
para o mercado.21
Entretanto, as lutas de resistência contra esse processo
22
apontam para novos caminhos de regulação e emancipação,
exigindo conformações plurais e multiculturais para os Estados, e,
especificamente, mudanças nas Constituições, situadas atualmente
em perspectiva com o direito internacional dos direitos humanos.23
Assim sendo, os direitos constitucionais indígenas devem ser
interpretados em reunião com os princípios fundamentais do Estado
brasileiro, que valorizam e buscam promover a vida humana sem
nenhuma distinção, aliados aos direitos fundamentais e com o
conjunto integrado e indivisível dos direitos humanos, civis, políticos,
sociais, econômicos e culturais, bem assim às convenções e
documentos internacionais.

21 HERRERA FLORES, Joaquín. Las lagunas de la ideología liberal. In: HERRERA FLORES, Joaquín (org.). El vuelo de
Anteo: derechos humanos y crítica de la razón liberal. Bilbao: Desclée de Brouwer, 2000, p. 158.
22 Conforme problematização sobre as tensões dialéticas da modernidade ocidental, identificadas por Boaventura de
Sousa Santos: tensão entre a regulação social e a emancipação social e a tensão entre Estado e sociedade civil.
SOUSA SANTOS, Boaventura de. “Una concepción multicultural de los Derechos Humanos”. Revista Memória, Bogota,
n.º 101, julio de 1997, p. 42.
23 PIOVESAN, Flávia. Direitos humanos e o direito constitucional internacional. 5.ª ed. São Paulo: Max Limonad, 2002,
p. 253-273.

A "cidadania ativa" como novo conceito para reger


as relações dialógicas entre as sociedades indígenas
e o Estado Multicultural Brasileiro 223
Para que isto ocorra, torna-se imperativo efetivar os direitos
constitucionais indígenas, o que significa dar vida às normas
constitucionais pelo caminho jurídico-hermenêutico da prevalência e
expansão destas normas sobre todo o ordenamento jurídico;
politicamente, pela participação democrática dos índios e de suas
organizações, tanto nas esferas de poder federal, federado e
municipal, quanto nas ações públicas institucionalizadas que lhes
interessem. Este se constitui um dos caminhos para a construção de
uma sociedade plural, em que o espaço para todos seja garantido e,
conseqüentemente, o dissenso possibilite o exercício cotidiano da
democracia participativa e do seu poder instituinte sempre renovado.
Como se percebe, para a existência do diálogo, é preciso, em
primeiro lugar, a superação de erros históricos e a tomada das rédeas
na construção do presente em patamares plurais de valores. O
reconhecimento e o efetivo exercício dos direitos reconhecidos requer
um lugar, um contexto plural, heterogêneo e igualitário complexo, de
onde se possa falar e, acima de tudo, que o sujeito da fala exerça poder.
Portanto, é necessária, também, a superação do universalismo,
como valores particulares da cultura européia ocidental, elevados à
categoria de universal, e dos respectivos conceitos transcendentais
que o acompanham: homogeneização cultural, nação única, língua
única, direito único, sujeito abstrato. É preciso abrir novos espaços
que possibilitam uma nova construção e configuração participativa,
“interativa”,24 do universal. Como afirma Ernesto LACLAU, o universal
é um horizonte incompleto, um lugar “vazio” que precisa ser
preenchido.25
Nesse mesmo sentido, SÁNCHEZ RUBIO ao propor a superação
do pensamento universalista ocidental excludente, o faz a partir da
idéia de que – justificado por razões históricas –, somente é possível
um pensamento universalista, se este se configurar como um
“universalismo de confluência”. A lógica da exclusão do discurso
hegemônico ocidental, cujas causas são apontadas pelo autor, com
antecedência através dos seguintes paradoxos: “poder e duplo
interesse” em que identifica o discurso ambíguo do ocidente sobre a
imigração em diferentes momentos históricos, baseados em
interesses econômicos capitalistas, que desprezam a justiça e a
dignidade humana; “globalização e universalidade” onde apresenta o
globalismo cultural e econômico como um meio eficaz de expandir
24 BENHABIB, Seyla. Situating the self: gender, community and postmodernism in contemporary Ethics. London/New
York: Routledge, 1992.
25 Para o autor, o universal somente pode emergir a partir do particular uma vez que somente a negação de um
conteúdo particular, permite a transformação desse conteúdo no símbolo que o transcende. LACLAU, Ernesto.
Emacipación y diferencia. Barcelona: Ariel, 1996, p. 9; 30-34.

224 Fernando Antonio de Carvalho Dantas


idéias locais generalizantes, no caso, idéias ocidentais elevadas à
categoria de universais, através da polarização e fragmentação sociais
e pela imposição de modelos de desenvolvimento; por último, a
“inversão ideológica e negação de direitos” consistente na negação do
reconhecimento de práticas sociais que questionam os limites do
sistema dominante, bem assim a negação da capacidade de
reivindicar novos ou universais direitos. Assim, como não há
reconhecimento de práticas sociais, coletividades e direitos
diferenciados, as pessoas e comunidades culturais que compartem
essas práticas, que perseguem condições mais dignas de vida, não
merecem importância, podem ser sacrificadas.26
Contrariamente, o universalismo de confluência deve partir do
conhecimento e da valoração de outras formas de vida, desde o nosso
próprio pensamento, considerando a presença de múltiplas culturas
e seus respectivos grupos humanos em um mesmo contexto e,
também, as diferentes visões e pretensões de unidade a que aspiram,
27
que podem ser distintas e eqüidistantes umas das outras.
Assim, o espaço do diálogo e da participação política no âmbito
da sociedade maior, do Estado, deve ser construído e precedido pelas
garantias de sobrevivência, de manutenção da vida e da dignidade
humana. Para os povos indígenas, cuja compreensão dos direitos e de
qualquer atividade política se vincula ao contexto, ao espaço da vida
e aos modos de viver, conforme exposto anteriormente, a dignidade
vincula-se ao espaço territorial da sobrevivência.
A terra é para os povos indígenas espaço de vida e liberdade.28
O espaço entendido enquanto lugar de realização da cultura. Para
TOMASINO, “cada sociedade elabora a sua concepção de tempo e de
espaço conforme sua visão de mundo, a qual também orienta as suas
práticas e relações sociais e simbólicas com a natureza e entre si”.29
Isto significa que a construção dos modos de vida, da cultura, das
pessoas e sociedades relaciona-se em um complexo de significados
produzido social e coletivamente.
A Constituição Federal brasileira define a categoria jurídica das
terras indígenas, como aquelas tradicionalmente ocupadas pelos
índios, habitadas em caráter permanente, utilizadas para suas
atividades produtivas, imprescindíveis à preservação dos recursos

26 SÁNCHEZ RUBIO, David. Universalismo de confluencia, derechos humanos y inversión. In: HERRERA FLORES, Joaquín.
(org.). El vuelo de Anteo: derechos humanos y crítica de la razón liberal. Bilbao: Desclée de Brouwer, 2000, p. 216-
219.
27 Id. Ibid., p. 235.
28 SOUZA FILHO, Carlos Frederico Marés de. O renascer dos povos para o Direito. Curitiba: Juruá, 1998, p. 130.
29 TOMASINO, Kimiye. Os Kaingang da Bacia do Tibagi e suas relações com as terras baixas. Relatório parcial de pesquisa
sem maiores dados. Londrina: [s. n.] 1998, p. 6.

A "cidadania ativa" como novo conceito para reger


as relações dialógicas entre as sociedades indígenas
e o Estado Multicultural Brasileiro 225
ambientais necessários a seu bem-estar, necessárias à reprodução
física e cultural, segundo seus usos costumes e tradições.30
Assim, a dignidade humana dos povos indígenas está
condicionada ao respeito aos seus territórios, aos seus modos de vida
e às suas instituições, como garantia prévia e imprescindível à
satisfação das necessidades básicas. Portanto, o espaço31 e as formas
de vida enquanto direitos consuetudinários,32 devem ser protegidos,
sendo esse o comando constitucional.
O amparo dos direitos das minorias étnicas e culturais pelos
Estados nacionais, segundo HERRERA FLORES, constituiu uma
espécie de estratégia de homogeneização. Para o autor – baseado na
constatação de W. Kymlicka de que não existem nações monoétnicas e
monoculturais – “durante muitas décadas as reivindicações culturais
das minorias estiveram absorvidas por estruturas mais gerais que, à
medida que as protegiam, também, as homogeneizavam”.33
No mesmo sentido e, do ponto de vista da teoria constitucional,
afirma HÄBERLE que a proteção das minorias étnicas representa
uma das formas próprias de diferenciação interna dos Estados
constitucionais, “para relativizar e ‘docificar ou aplacar’ o ímpeto do
nacional”. Entretanto, apesar de reconhecer a imposição homoge-
neizadora do modelo constitucional europeu, o jurista alemão, cir-
cunscrito ao seu contexto espacial e teórico, preconiza que dita
proteção deve cingir-se à implementação de práticas educacionais
tolerantes e respeitosas para com a dignidade do “outro”, a criação de
ouvidores das minorias e a inclusão de cláusulas formais de proteção
34
das minorias nas corporações.
Este não é o sentido das reivindicações por mudanças e,
conseqüentemente, garantias dos direitos diferenciados que levam a cabo

30 BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Texto integral: “Art. 231 [...] § 1.º São terras
tradicionalmente ocupadas pelos índios as por eles habitadas em caráter permanente, as utilizadas para suas
atividades produtivas, as imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar e as
necessárias a sua reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições”.
31 A Constituição de 1988 reconhece a ocupação tradicional, ou seja, as formas de uso que cada cultura indígena
emprega ao definir o território como construção social, base física para a realização da cultura, da maneira como,
para citar um exemplo, o povo Guarani-M’byá, habitante de vasta região do Brasil meridional o concebe: espaço,
lugar, possibilitador da vida social, com características ecológicas, históricas e míticas, relacionadas ao modo de
ser guarani. DANTAS, Fernando Antonio de Carvalho. Relatório de Identificação da terra indígena Guarani-Mbyá da
Ilha da Cotinga. Curitiba: Funai, 1989.
32 Pode-se dizer, a partir da exegese dos pressupostos constitucionais, que terras indígenas são aquelas habitadas pelos
povos indígenas, enquanto espaço de vida, adequado às suas peculiaridades culturais e imprescindíveis para sua
reprodução física e cultural. Simbolizadas pela cultura, essas terras constituem verdadeiros territórios indígenas,
porque orientados pelo evidente princípio que encerra a disposição constitucional, qual seja: a ocupação indígena é
definida a partir dos usos costumes e tradições de cada povo. Nesse sentido, afirma SOUZA FILHO que usos, costumes
e tradições “quer dizer direito, e, mais, direito consuetudinário indígena”. SOUZA FILHO, C. F. M., op. cit., p. 134.
33 HERRERA FLORES, J., op. cit., p. 158. Texto original: “[...] durante décadas las reivindicaciones culturales de las
minorías estuvieron absorbidas por estructuras más generales que a medida que las protegían las homogeneizaban”
(Tradução livre).
34 HÄBERLE, Peter. Pluralismo y Constitución: estudios de Teoría Constitucional de la sociedad abierta. Madrid: Tecnos,
2002, p. 123.

226 Fernando Antonio de Carvalho Dantas


os povos indígenas em suas lutas por emancipação. As modificações
estruturais pelas quais lutam e anseiam não se limitam a posturas
“politicamente corretas”, portanto, tolerantes, balcões oficiais de lamento
ou políticas de discriminação positiva a serem praticadas pelo Estado.
As transformações emancipatórias dizem respeito ao
reconhecimento e efetividade de direitos, o que significa uma nova
35
racionalidade não excludente, criadora de pensamentos e espaços
de garantia do pluralismo social, cultural e jurídico.
Por isso mesmo, o reconhecimento sem a efetividade das normas
e as transformações políticas e jurídicas que isto implica, não acabará
com a opressão dos povos indígenas. A construção do espaço
institucional plural, não pode quedar-se no plano puramente formal;
portanto, da regulação aos processos de emancipação, para que haja
simetria na institucionalização, esses procedimentos devem orientar-se
pela participação democrática dos povos indígenas, por meio do diálogo.
O diálogo intercultural como proposta cognitiva, metodológica,
hermenêutica, política e jurídica funda-se no pressuposto do
pluralismo e da complexidade. Para se ter diálogo a condição básica é
o reconhecimento das diferenças culturais dos sujeitos dialogantes,36
portanto, exige-se a superação das posturas universalistas.
A transição resulta conflituosa, assim como conflituosa é a
sociedade multicultural, a sociedade complexa. Partindo do
questionamento sobre a possibilidade de manter uma identidade
plural sem romper a coesão social, DE LUCAS aponta duas saídas
para evitar os equívocos que caracterizam a proposta multicultural: a
primeira relacionada com o preconceito “quase” maniqueísta que o
uso ideológico do termo provoca, ao imputar-lhe o caráter de
desestabilizador da democracia; por outro lado, a ingenuidade de que
o multiculturalismo é um fato presente que não ocasiona conflitos e,
por isso mesmo, se constitui em modelo ideal para as sociedades
contemporâneas, não deixa de ser uma postura simplista.37
Deste modo, a proposição do multiculturalismo como
paradigma para reger uma nova configuração do Estado e da

35 No sentido de transformação e renovação da filosofia que propõe Raúl Fornet-Betancourt, por meio da mudança de
perspectiva, provocada pela necessidade de substituir os métodos de análise monoculturais, característicos da
filosofia ocidental que geram problemas de relacionamento com outras formas culturais de pensar, no caso, as
culturas das sociedades indígenas. O autor chama a atenção para a necessidade de a filosofia refletir o “desafio do
imaginário indígena” como ponto básico de discussão sobre uma mudança de racionalidade, fundada na
interculturalidade. FORNET-BETANCOURT, Raúl. Transformación intercultural de la filosofía. Bilbao: Desclée de
Brouwer, 2001, p. 235-236.
36 No sentido gadameriano de compreensão da alteridade, reconhecimento e aceitação do “outro”. GADAMER, Hans
George. Verdad y Método. Salamanca: Ediciones Sígueme, 1977, p. 476.
37 DE LUCAS, Javier. La sociedad multicultural: problemas jurídicos y políticos. In: AÑON, María José et al. Derecho y
sociedad. Valencia: Tirant de Blanch, 1998, p. 19-20. Veja-se, na nota 37 deste mesmo capítulo, a posição de
HERRERA FLORES, para quem as reivindicações das minorias étnicas e culturais, durante muito tempo, estiveram
represadas em função da absorção homogeneizadora dos Estados nacionais.

A "cidadania ativa" como novo conceito para reger


as relações dialógicas entre as sociedades indígenas
e o Estado Multicultural Brasileiro 227
sociedade brasileiros e a trama de relações sociais complexas
decorrentes da presença dos povos indígenas como sujeitos ativos e
participativos – ainda que muitas vozes se levantem contra a
incompatibilidade normativa de pluralização em decorrência da falta
de unidade cultural38 – a entendemos como fator imprescindível para
uma mudança nos atuais modelos normativos de Estado, nação e
direito únicos. Estes, enquanto conceitos absolutos fundados na
racionalidade moderna ocidental excludente das diferenças, podem e
devem ser relativizados. É o desafio do futuro.

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Crítica Jurídica: Revista Latinoamericana de Política, Filosofia e Direito, n.º 17, agosto/
2000.

38 Como, por exemplo, Giovanni Sartori. Para este autor, há uma incompatibilidade entre pluralismo democrático e
multiculturalismo porque entende que as diferenças culturais configuram comunidades fechadas e homogêneas.
SARTORI, Giovanni. La sociedad multiétnica. Pluralismo, multiculturalismo e extranjeros. Madrid: Taurus, 2001.

228 Fernando Antonio de Carvalho Dantas


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A "cidadania ativa" como novo conceito para reger


as relações dialógicas entre as sociedades indígenas
e o Estado Multicultural Brasileiro 229
Meio ambiente equilibrado
e a garantia do conteúdo
essencial dos Direitos
Fundamentais
Sandro Nahmias Melo1

1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS

C
omo observa Brandão Cavalcanti, “a idéia de que o
ser humano, como tal tem direitos elementares à
vida e àquilo que é indispensável, no campo material, físico e
espiritual, constitui, assim, uma conquista da civilização e que aos
poucos se foi firmando na filosofia política no século XVIII”.2
Fruto da chamada multiplicação dos direitos, como menciona
Norberto Bobbio,3 surgem, após a Segunda Guerra Mundial, duas
tendências marcantes que, cada vez mais, ganham espaço no mundo
atual:4 a preocupação com o meio ambiente e a busca de uma melhor
qualidade de vida.
Bobbio, ao analisar a evolução histórica dos direitos
fundamentais, especificamente os de terceira geração,5 é peremptório ao

1 Professor do Programa de Pós-Graduação em Direito Ambiental da Universidade do Estado do Amazonas. Mestre e


Doutor em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Juiz do Trabalho.
2 Themistocles Brandão Cavalcanti, Manual da Constituição, p. 193.
3 A era dos direitos, p. 67 ss. O autor ressalta, em sua instigante obra – p. 5 – que os direitos, notadamente os
“direitos do homem” (fundamentais), são direitos históricos, ou seja, nascidos em certas circunstâncias,
caracterizadas por lutas em defesa de novas liberdades contra velhos poderes. Assevera, ainda, que esses direitos
nasceram de modo gradual, “não todos de uma vez e nem de uma vez por todas”.
4 Um mundo marcado pela globalização, cuja tendência é a “universalização dos direitos fundamentais”, como
ressalta Paulo Bonavides. Curso de Direito Constitucional, p. 524.
5 Segundo Norberto Bobbio. Op. cit., p. 11-12 – a figura dos direitos de terceira geração foi introduzida na literatura
cada vez mais ampla sobre os “novos direitos”, destacando ainda que, no artigo “Sobre la evolución conteporánea
de la teoría de los derechos del hombre”, Jean Rivera inclui entre esses direitos os direitos de solidariedade, o
direito ao desenvolvimento, à paz internacional, a um ambiente protegido e à comunicação. Sobre o mesmo tema,
Celso Lafer. A reconstrução dos direitos humanos, p. 131 – fala dos direitos de terceira geração, considerando-os,
sobretudo, como direitos cujos sujeitos não são indivíduos, mas grupos humanos, como família, o povo, a nação
e a própria humanidade. O processo de evolução do reconhecimento dos direitos fundamentais, entre eles os de
terceira geração, é analisado, de forma detida, no Capítulo II da presente dissertação.

Meio Ambiente Equilibrado e a Garantia do


Conteúdo Essencial dos Direitos Fundamentais 231
declarar que: “o mais importante deles é o reivindicado pelos
movimentos ecológicos: o direito de viver num ambiente não poluído”.6
No Brasil, o art. 225, caput, da Constituição da República de
1988 captou esse movimento e estabeleceu: “Todos têm direito ao
meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do
povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder
Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as
presentes e futuras gerações” (grifo nosso).
O legislador constituinte, no caput do Art. 225, ao usar a
expressão sadia qualidade de vida, optou por estabelecer dois
sujeitos de tutela ambiental: “um imediato, que é a qualidade do meio
ambiente, e outro mediato, que é a saúde, o bem-estar e a segurança
da população, que se vêm sintetizando na expressão da qualidade de
vida”7 (grifamos).
Neste sentido, toma corpo a idéia de que o ambiente é a expressão
das alterações das relações dos seres vivos, incluído o homem, entre eles
e o seu meio, sem surpreender que o direito do ambiente seja, assim,
um direito de interações, que tende a penetrar em todos os setores do
direito, para aí introduzir a idéia de ambiente.8
Assim sendo, se o meio ambiente que a Constituição Federal
quer ver preservado é aquele ecologicamente equilibrado, bem como de
uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida (Art. 225,
caput), então o homem, a natureza que o cerca, a localidade em que
vive, o local onde trabalha, não podem ser considerados como
compartimentos fechados, senão como “átomos de vida”, integrados
na grande molécula que se pode denominar de “existência digna”.
Neste sentido, fica evidente o anacronismo da idéia que encara o meio
ambiente, em especial o seu aspecto natural, como bem intocável,
não passível de relativização mesmo se considerados os interesses do
maior destinatário do direito ao seu equilíbrio: o homem.

2. DIREITO AO MEIO AMBIENTE E OS DIREITOS HUMANOS

A preocupação com a questão ambiental é relativamente


recente. Seu surgimento não poderia ter ocorrido de outra maneira: o
contexto de vida do homem a partir da segunda metade do século XX
– industrialização desenfreada, os processos migratórios geradores de

6 Norberto Bobbio, op. cit., p. 6.


7 , p. 54.
8 Prier, Michel. Droit de l’environnement. Dalloz, 1991, p. 13 e ss., apud Celso Antônio Pacheco Fiorillo e Marcelo
Abelha Rodrigues. Manual de Direito Ambiental e legislação aplicável, p. 26.

232 Sandro Nahmias Melo


uma urbanização desestruturada e desmatamento, aumento do
número de veículos automotores e outros fatores que contribuíram
para o aumento da poluição do ar, da destruição da camada de
ozônio, escassez de recursos naturais não renováveis – fez
manifestar-se à consciência da necessidade de uma tutela jurídica do
meio ambiente.
Verificou o homem a necessidade premente de harmonizar o
desenvolvimento econômico-industrial com a preservação e proteção
do meio ambiente (o hoje denominado desenvolvimento sustentado
ou sustentável). Na questão vertente, Cristiane Derani ressalta que:
“o Direito econômico e ambiental não só se interceptam, como
comportam, essencialmente, as mesmas preocupações, quais sejam:
buscar a melhoria do bem-estar das pessoas e a estabilidade do
processo produtivo. O que os distingue é uma diferença de
perspectiva adotada pela abordagem dos diferentes textos
normativos”.9
Segundo Paulo Bessa Antunes, “o primeiro e mais importante
princípio do Direito Ambiental é que: O Direito ao Ambiente é um
Direito Humano Fundamental”.10
Não é sem-razão, portanto, o reconhecimento da estreita ligação
entre os direitos humanos e o meio ambiente, na medida em que,
indubitavelmente, existe uma relação indissociável entre Direitos
Humanos e Meio Ambiente. Em síntese, o respeito ao direito do meio
ambiente equilibrado implica, necessariamente, na defesa do direito

9 Cristiane Derani. Direito Ambiental Econômico, p. 76.


10 Direito Ambiental, p. 25. Ainda neste sentido, o professor de Direito Constitucional da PUC-RJ, Carlos Roberto de
Siqueira Castro, publicou excelente artigo a respeito do novo humanismo ecológico no qual discrimina, com
argúcia, as etapas evolutivas dos Direitos Humanos. Transcrevemos parte do citado estudo:
“Provou-se, assim, que a obsessão pela prosperidade, que serviu de catapulta para a geração dos confortos e demais
conquistas da modernidade, volta-se agora contra o homem pós-moderno, impondo-se o abandono irreversível da
cultura utilitarista e materialista, típica do over night existencialista, que impulsionou a histeria do consumo e
depravou o meio ambiente deste século, cuja irresponsabilidade maior é ignorar que o relógio do tempo tem curso
contínuo e que alcança todas as gerações do porvir, quiçá a própria existência dos perdulários do presente. É
sentimento geral, por tudo isso, que só o desenvolvimento sustentável poderá tornar realidade os direitos
fundamentais do homem, como proclamados nos sucessivos Bills of Rights de dimensão universalista, que através
dos tempos documentaram os avanços espirituais da humanidade. A não ser assim, os primários direitos à vida, à
existência digna, à saúde, à educação e à cultura, que as Constituições democráticas contemplam e exortam,
estarão reduzidos a enunciados puramente retóricos e inalcançáveis, pois não há como falar-se em direitos
humanos ou em liberdades básicas onde a água não é potável, o solo incultivável e o ar, irrespirável.
Em verdade, estamos diante da novíssima terceira geração dos direitos humanos, sabido que esses, desde a sua
articulação legalista com a eclosão das revoluções americana e francesa do século XVIII, têm experimentado uma
dinâmica transformação. Reconhece-se que a primeira fase dos direitos do homem corresponde à enunciação dos
direitos civis e políticos, equivalentes às liberdades públicas incorporadas à generalidade das constituições
democráticas, também chamados de blue rights. A segunda fase corporifica os direitos sociais, econômicos e
culturais, designados red rights, cujas raízes fincam-se no humanismo socialista e que, sob o influxo das revoluções
antiburguesas deste século em ocaso, e muito especialmente, da Declaração Universal dos Direitos do Homem
aprovada pela ONU em 1948 (art. 23 a 28), por igual inscreveram-se na agenda das democracias constitucionais. Por
fim, a terceira geração dos direitos humanos, que mais de perto ora nos interessa, aflorou nos últimos 20 anos com
crescente repercussão no pensamento humanístico. Esses direitos, conhecidos como green rights, são
metaindividuais e só podem ser desfrutados coletivamente, como é o caso do meio ambiente equilibrado, ao
desenvolvimento sustentado, ao patrimônio cultural da humanidade e o direito à paz social” (O direito ambiental e
o novo humanismo ecológico. Revista Forense, v. 317, 1992, p. 69, apud Sebastião de Oliveira, op. cit., p. 78-79).

Meio Ambiente Equilibrado e a Garantia do


Conteúdo Essencial dos Direitos Fundamentais 233
à vida, que é o mais básico dos direitos fundamentais, nele se
inserindo por visar diretamente à qualidade de vida (Art. 225, caput,
CF/88) como meio de atingir a finalidade de preservação e proteção à
existência, em qualquer forma que esta se manifeste, bem como
condições dignas de existência à presente e às futuras gerações.11
Neste sentido preleciona, com fineza de pensamento, José
Afonso da Silva:

A proteção ambiental, abrangendo a preservação da


natureza em todos os seus elementos essenciais à vida humana
e à manutenção do equilíbrio ecológico, visa tutelar a qualidade
do meio ambiente em função da qualidade de vida, como uma
forma de direito fundamental da pessoa humana. (...) Esse novo
direito fundamental foi reconhecido pela Declaração do Meio
Ambiente, adotada pela Conferência das Nações Unidas, em
Estocolmo, em junho de 1972, cujos vinte e seis princípios
constituem prolongamento da Declaração Universal dos Direitos
do Homem.12

De fato, o reconhecimento internacional do direito ao meio


ambiente pode ser verificado nos princípios 1 e 2 da Declaração de
Estocolmo, de 1972.13 Tais princípios, proclamados em Estocolmo,
foram, inclusive, reafirmados, no Brasil, pela Declaração do Rio,
proferida na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e
Desenvolvimento, Rio-92, cujo princípio 1 afirma:

Princípio 1 – Os seres humanos constituem o centro das


preocupações relacionadas com o desenvolvimento sustentável.
Têm direito a uma vida saudável e produtiva em harmonia com
o meio ambiente.

A festejada Conferência de Estocolmo deixa claro ainda, em sua


Resolução Final, a relação entre o homem e meio ambiente e a
necessidade de vida harmônica entre os mesmos:

11 Karina Houat Harb, Direitos Humanos e Meio Ambiente, p. 78.


12 José Afonso da Silva, Direito Ambiental Constitucional, p. 36.
13 Princípio 1 – “O homem tem direito fundamental à liberdade, à igualdade e ao desfrute de condições de vida
adequadas, em um meio ambiente de qualidade tal que lhe permita levar uma vida digna, gozar de bem-estar, e é
portador solene de obrigação de melhorar o meio ambiente, para as gerações presentes e futuras (...). Princípio 2
– Os recursos naturais da Terra, incluídos o ar, a água, o solo, a flora e a fauna e, especialmente, parcelas
representativas dos ecossistemas naturais, devem ser preservadas em benefício das gerações atuais e futuras (...)”.

234 Sandro Nahmias Melo


O homem é ao mesmo tempo criatura e criador do meio
ambiente que lhe dá sustento físico e lhe oferece oportunidade de
desenvolver-se intelectual, moral, social e espiritualmente. A
longa e difícil evolução da raça humana no planeta levou-a a um
estágio em que, com o rápido progresso da ciência e da
tecnologia conquistou o poder de transformar em inúmeras
maneiras e em escalas sem precedentes o meio ambiente natural
ou criado pelo homem, é o meio ambiente essencial para o bem-
estar e gozo dos direitos humanos (grifamos).

No Brasil, o Seminário Interamericano sobre Direitos Humanos


e Meio Ambiente, realizado em Brasília (4 a 7 de março de 1992),
buscou refletir esta relação existente entre Direitos Humanos e Meio
Ambiente, fornecendo ainda subsídios para a formulação de um
programa de educação a respeito do tema. Apresentou, por fim, entre
outras, as seguintes conclusões:

I – There is a close relationship betweem development and


environment, development and human rigths, and environment
and human rights. Possible linkages can be found, e. g., in the
rights to life and to health in their wide dimension, wich require
negative as well as positive measures on the part of States. In
fact, this close relationship is demonstrated by most economic,
social and cultural rights and by the most basic civil and political
rights. After all, there is a parallel betweem the evolutions of
human rights protection and environmental protection, having
both undergone a process of internationalization and
globalization.
II – The link betweem environment and human rights is
further clearly demonstrated by the fact that environmental
degradation can aggravate human rights violations, and, in turn,
human rights violations, can like wise lead to environmental
degradation or make it more difficult to protect the environment.14

14 “I – Há uma íntima relação entre desenvolvimento e meio ambiente, desenvolvimento e direitos humanos. Possíveis
ligações podem ser encontradas, por exemplo, nos direitos à vida e à saúde em suas largas dimensões, as quais
requerem tanto medidas negativas quanto positivas da parte dos Estados. De fato, esta relação íntima é
demonstrada pela maioria dos direitos, econômicos, sociais e culturais e pela maioria dos direitos civis e políticos.
Além de tudo, há um paralelo entre as evoluções da proteção dos direitos humanos e proteção ambiental, tendo
ambos passado por um processo de internacionalização e globalização. II – A ligação entre meio ambiente e
direitos humanos é mais claramente demonstrada pelo fato que degradação ambiental pode agravar as violações
dos direitos humanos, e, por outro lado, as violações dos direitos humanos podem conduzir a grande degradação
ambiental ou dificultar a proteção do meio ambiente”. In: “Conclusions of the Inter-American Seminar on Humam
Rights and Environment, Human Rights, Sustainable Development and the Environment”, Seminário de Brasília,
1992, p. 293, Apud Karina Houat Harb. Direitos Humanos e Meio Ambiente, p. 78-79.

Meio Ambiente Equilibrado e a Garantia do


Conteúdo Essencial dos Direitos Fundamentais 235
Cada vez mais, no mundo contemporâneo – industrializado e
globalizado – o direito à vida vem recebendo tratamento amplo e
detalhado, advindo daí a concepção do direito ao meio ambiente como
extensão do direito à vida, pois este no seu sentido mais preciso não
se restringe à idéia de sobrevivência – não morrer – mas sim viver com
qualidade e com dignidade, aspectos estes inerentes ao direito ao
meio ambiente saudável.
O alargamento do sentido da expressão “qualidade de vida”, além
de acrescentar a idéia de bem-estar relacionado à saúde física e mental,
referindo-se inclusive ao direito de o homem fruir de ar puro e de uma
bela paisagem, finca o fato de que o meio ambiente não diz respeito à
natureza isolada, estática, sendo imperiosa a integração da mesma à
vida do homem social nos aspectos relacionados à produção, ao
trabalho, especificamente ao seu meio ambiente de trabalho.
Neste sentido, obtempera Cristiane Derani:

O direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado é um


direito à vida e à manutenção das bases que a sustentam. Destaca-
se da garantia fundamental à vida exposta nos primórdios da
construção dos direitos fundamentais, porque não é simples
garantia à vida, mas este direito fundamental é uma conquista
prática pela conformação das atividades sociais, que devem
garantir a manutenção do meio ambiente ecologicamente
equilibrado, abster-se da sua deterioração, e construir a melhoria
integral das condições de vida da sociedade15 (grifado no original).

Note-se, portanto, a absoluta simetria entre o direito ao meio


ambiente e o direito à vida, como bem observado por José Afonso da
Silva, ao declarar que “o problema da tutela jurídica do meio
ambiente se manifesta a partir do momento em que sua degradação
passa a ameaçar, não só o bem-estar, mas a qualidade de vida
humana, se não a própria sobrevivência do ser humano”.16
Ante todo o exposto é inafastável a conclusão no sentido de que
o direito ao meio ambiente equilibrado é, sim, direito fundamental,
materialmente considerado, uma vez está que inexoravelmente ligado
ao direito à vida.
Destaque-se, no mais, que qualquer argumento expendido no
sentido de que o direito ao meio ambiente saudável não é fundamental,
mormente porque não encontra guarida no “catálogo” da Constituição de

15 Cristiane Derani. Meio Ambiente ecologicamente equilibrado: Direito Fundamental e Princípio da Atividade
Econômica. In: “Temas de Direito Ambiental e Urbanístico”, p. 97.
16 Direito Ambiental Constitucional, p. 8.

236 Sandro Nahmias Melo


1988, ou seja, entre os dispositivos discriminados no Título II (DOS
DIREITOS E DAS GARANTIAS FUNDAMENTAIS) da Constituição, é de
todo permeado de fragilidade, devendo, de pronto, ser rechaçado.
Ora, como já foi demonstrado, os direitos podem ser
considerados como formalmente fundamentais e materialmente
fundamentais. Com relação a estes, encontramos a autorização
expressa do § 2.º, do Art. 5.º, da Constituição Federal, ao declarar
que os direitos fundamentais expressos na Carta Magna “não
excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela
adotados (...)”. Este é o caso do direito ao meio ambiente hígido
(Art. 225, caput) que, por seu conteúdo, ligado ao direito à vida, é
indiscutivelmente fundamental.
Na mesma linha esposada nestas considerações, pondera
Cristiane Derani que: “o direito ao meio ambiente ecologicamente
equilibrado presente do Art. 225, caput da Constituição Brasileira de
1988 é um direito fundamental. Esta premissa está fundada numa
compreensão material – e não formal – do direito fundamental”
(grifamos). Destaca ainda, a autora, que os “direitos fundamentais
não são simplesmente aqueles que a Constituição explicita no seu
Art. 5.º. Um direito é fundamental quando seu conteúdo invoca a
construção da liberdade do ser humano”.17

3. A RELATIVIZAÇÃO DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS

Definido o meio ambiente como direito fundamental, ou seja,


como elemento imprescindível para o alcance do direito à vida, com
qualidade e dignidade, emerge, de pronto, uma questão: o direito ao
meio ambiente, como direito fundamental, deve prevalecer sobre
outros interesses ou direitos, inclusive sobre aqueles igualmente
fundamentais? A resposta se nos afigura como negativa.
Desde logo, há que se reconhecer que, na maioria das situações
em que está em causa um direito do homem, constatamos o
enfrentamento de dois direitos igualmente fundamentais, não sendo
possível proteger um deles sem tornar o outro flexibilizado, como
observa Norberto Bobbio:

Basta pensar, para ficarmos num exemplo, no direito à


liberdade de expressão, por um lado, e no direito de não ser
enganado, excitado, escandalizado, injuriado, difamado, vilipen-

17 Cristiane Derani, op. cit., p. 91.

Meio Ambiente Equilibrado e a Garantia do


Conteúdo Essencial dos Direitos Fundamentais 237
diado, por outro. Nesses casos, que são a maioria, deve-se falar
em direitos fundamentais não absolutos, mas relativos, no
sentido de que a tutela deles se encontra, em certo ponto, um
limite insuperável na tutela de um direito igualmente funda-
mental, mas concorrente. E dado que é sempre uma questão de
opinião estabelecer qual o ponto em que um termina e o outro
começa, a delimitação do âmbito de um direito fundamental do
homem é extremamente variável e não pode ser estabelecida de
uma vez por todas.18

Canotilho, por sua vez, sublinha a importância de “as regras do


direito constitucional de conflitos deverem-se construir com base na
harmonização dos direitos, e, no caso de isso ser necessário, na
prevalência de um direito ou bem em relação ao outro”.19
Sobre as limitações ao exercício de direitos fundamentais, Jean
Rivero Savatier, aponta, com clareza, que:

L’exercice d’un droit, même s’il s’agit d’un droit


fondamental, doit se concilier avec les nécessités de la vie
sociale; c’est pourquoi les textes, et éventuellement la
jurisprudence, l’ensserent dans un certain nombre de conditions,
qui en marquent les limites.20

Diante do exposto, dada a necessidade de harmonização entre


direitos fundamentais, torna-se imperiosa a relativização dos mesmos.
O mundo jurídico não pode estar apartado da realidade, e as
exigências dos fatos informam as condições de realização da norma.
Tendo como verdade o fato de que uma ampla discussão ambiental é
mais profícua numa sociedade que seja capaz de resolver as
necessidades básicas de fome, moradia e saúde, é óbvia a
impossibilidade do afastamento entre as normas de incremento de
práticas econômicas socialmente justas – destinadas à realização de
uma justa distribuição de riquezas – e as normas destinadas à
proteção do meio ambiente.
Ao alcance da qualidade de vida, no meio ambiente,
corresponde tanto um objetivo do processo econômico como uma
preocupação da política ambiental, afastando-se a idéia de que as

18 A era dos direitos, p. 42.


19 J. J. Gomes Canotilho. Direito Constitucional, p. 646-647.
20 “O exercício de um direito, mesmo em se tratando de um direito fundamental, deve se harmonizar com as
necessidades da vida social, isto porque os textos legais, e eventualmente a Jurisprudência, o cercam dentro de
um certo número de condições, que marcam os seus limites”. Jean Rivero Savatier. Manuel de Droit du Travail, p.
346/7.

238 Sandro Nahmias Melo


normas de proteção do meio ambiente, no enfoque do meio ambiente
do trabalho, seriam servas da obstrução de processos econômicos e
tecnológicos. A partir desta análise, é forçosa a conclusão pela
necessidade de uma compatibilização entre os processos de produção
e as sempre crescentes exigências do meio ambiente.
Exatamente neste sentido, bem colocam Celso Fiorillo e Marcelo
Abelha ao asseverar que a degradação ambiental é, em última
análise, “uma obstrução do exercício dos demais direitos humanos,
ou ainda, de que proteger o meio ambiente pode, muitas vezes,
representar limitações a estes direitos individuais (...)”. Os autores
citam ainda, como reforço ao argumento, a lição de Canotilho e Vital
Moreira que defendem justamente que a preservação do meio
ambiente possa gerar restrições a outros direitos constitucionalmente
protegidos, exemplificando que “a liberdade de construção, que
muitas vezes se considera inerente ao direito de propriedade, é hoje
configurada como liberdade de construção potencial, nas quais se
incluem as normas de proteção ao ambiente”.21
Não há que se confundir, contudo, no que concerne ao meio
ambiente, o conceito de direito fundamental com o de direito absoluto.
Neste particular, abstraída a questão, já pacificada na melhor
doutrina quanto à inexistência de direito absoluto, caso assim fosse
reconhecido o exercício do direito ao meio ambiente hígido – como
absoluto – estaríamos diante de situações insólitas, entretanto
legítimas. Não seria possível qualquer crescimento econômico que
oferecesse risco, por menor que fosse, à fauna e à flora. Muitas das
necessidades básicas do homem (alimentação, moradia, saúde)
sequer poderiam ser satisfeitas, necessidades estas sintonizadas com
o direito ao desenvolvimento previsto no Art. 170, da CF/88.
Como ensina Cristiane Derani a “escolha de um princípio em
detrimento de algum outro, o seu conteúdo teleológico delimitado na
interpretação, nada mais é que a opção por determinada ordem. (...)
A descrição normativa do texto constitucional brasileiro identifica
uma série de relações e aspirações inerentes a esta sociedade num
determinado tempo histórico, aportando à economia capitalista, que
reafirma, novos matizes. Assim, um fator fundamental da produção
econômica, a natureza, submete-se aos efeitos da normatização dos
meios de sua apropriação. Ajusta-se, portanto, a exigências de razões
econômicas, estéticas, culturais, ontológicas reguladas pelo
ordenamento jurídico peculiar a cada formação social”.22

21 Celso Antonio Pacheco Fiorillo e Marcelo Abelha Rodrigues. Manual de Direito Ambiental e Legislação Aplicável, p. 29.
22 Direito Ambiental Econômico, p. 32-34.

Meio Ambiente Equilibrado e a Garantia do


Conteúdo Essencial dos Direitos Fundamentais 239
Em suma, todo homem tem direito ao meio ambiente
ecologicamente equilibrado. Todavia, o exercício deste direito deve ser
analisado, sistematicamente, com outros princípios e direitos
contidos na Constituição Federal, reguladores das necessidades da
vida em sociedade, justamente para que não haja supressão destes
em nome da proteção daquele. Mas, ainda que clara esta idéia de
relativização, haveria um limite para que este direito fosse
relativizado sem que o mesmo não fosse obliterado?
Considerando-se que, ao longo da experiência histórica, são
fartos os exemplos nos quais sociedades sofreram abuso do poder
institucionalizado – escudado nas vestes da lei formal – o tema ora
proposto desponta com significativa importância, notadamente com
relação à manutenção de direitos e garantias fundamentais.23
Neste particular, Retortillo, com base na doutrina alemã,
aponta o chamado conteúdo essencial dos direitos fundamentais “como
garantia dos direitos e liberdades frente a atividade legislativa de
limitação dos mesmos”.24 Para Retortillo, a regulamentação do exercício
de um direito se concebe como uma atividade que engloba também a
limitação do mesmo. Neste sentido, o chamado conteúdo essencial do
direito desponta como limite para a atividade legislativa limitadora dos
direitos, configurando, em síntese, “o limite dos limites”.25
Como resta evidente após estas considerações, a questão ora pro-
posta é complexa, tornando, inclusive, difícil o alcance de uma definição,
conclusiva, do chamado conteúdo essencial dos direitos fundamentais.

4 – CONTEÚDO ESSENCIAL. CONCEITO E CARACTERÍSTICAS

Segundo esclarece Martin-Retortillo, o conteúdo essencial dos


direitos fundamentais assinala uma fronteira que o legislador não
pode ultrapassar, delimitando um terreno que a Lei que pretende
limitar-regulamentar um direito não pode invadir sem incorrer em
inconstitucionalidade.26

23 O tema proposto, inclusive, é marcado pela relevância na medida em que vez ou outra, no Brasil, vivencia-se uma
crise institucional entre os Poderes Judiciário e Legislativo, na qual este ameaça aquele com a limitação de
poderes. Neste sentido temos a declaração do presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães, em entrevista ao
Jornal Folha de S. Paulo (18, junho, 99), no qual comenta decisão do Supremo que restringia a atuação das CPI’s:
“É de se esperar que esse assunto vá logo para o plenário do Supremo e que seja reformado, para que nós não
tenhamos que fazer uma legislação tirando até algumas das atribuições do Supremo” (Grifamos). Em resposta a
referida declaração, o presidente do STF, Carlos Velloso, em entrevista ao mesmo Jornal (18, jun., 99), asseverou
que: “O presidente do Senado, tenho certeza, há de refletir que ele deve cumprir uma Constituição que é
democrática e uma Constituição que impõe limites” (Grifamos).
24 Martin-Retortillo Baquer, op. cit., p. 125.
25 Idem, ibidem, p. 125-135.
26 Martin-Retortillo Baquer, op. cit, p. 126.

240 Sandro Nahmias Melo


Vieira de Andrade, por sua vez, com base na teoria alemã
absoluta, assevera que: “o conteúdo essencial consistiria em um
núcleo fundamental, determinável em abstrato, próprio de cada
direito e que seria, por isso, intocável. Referir-se-ia a um espaço de
maior intensidade valorativa (o coração do direito) que não poderia
ser afetado sob pena de o direito deixar de realmente existir”.27
Como já exposto, há que se enfrentar “o problema da lei
arbitrária, que reúne formalmente todos os elementos da lei, mas fere
a consciência jurídica pelo tratamento absurdo ou caprichoso que
impõe a certos casos, determinados em gênero ou em espécie, tem
constituído, em todos os sistemas de direito constitucional, um
problema de grande dificuldade teórica e de relevante interesse
prático”.28
Neste sentido, a problemática sobre a necessidade de
estipulação de um limite ao poder limitador do Legislativo, no que
concerne a regulamentação dos direitos fundamentais, é enfeixada,
com clareza ímpar, por Gilmar Ferreira Mendes:

É possível que o vício de inconstitucionalidade substancial


decorrente do excesso do poder legislativo constitua um dos mais
tormentosos temas de controle de constitucionalidade hodierno. (...)
O excesso de poder como manifestação de inconstitu-
cionalidade configura afirmação da censura judicial no âmbito
da discricionariedade legislativa ou, como assente na doutrina
alemã, na esfera de liberdade de conformação do legislador
(Gesetzgeberische Gestaltungsfreiheit), permitindo aferir a
compatibilidade das opções políticas com os princípios
consagrados na Constituição. Nega-se, assim, à providência
legislativa o atributo de um ato livre no fim, consagrando-se a
vinculação do ato legislativo a uma finalidade.29

Ressalte-se, por oportuno, que, ao defender-se a necessidade de


limitação ao poder de regulamentação do Poder Legislativo, não está
se propondo, como adverte Suzana Barros, “reduzir a esfera de
liberdade do legislador democraticamente legitimado para
regulamentar a Constituição, pela ampliação dos poderes do juiz,

27 Vieira de Andrade, José Carlos Os Direitos Fundamentais na Constituição Portuguesa de 1976. Coimbra: Almedina,
1987, p. 233.
28 Dantas, San Tiago, “Igualdade perante a lei e due process of law” (contribuição ao estudo da limitação
constitucional do Poder Legislativo), Revista Forense, vol. 116, 1948, p. 357, apud Barros, Suzana de Toledo. O
princípio da proporcionalidade e o controle de constitucionalidade das leis restritivas de direitos fundamentais.
Brasília, DF: Livraria e Editora Brasília Jurídica, 1996, p. 21.
29 Mendes. Controle de Constitucionalidade (Aspectos jurídicos e políticos). São Paulo: Saraiva, 1990, p. 38-39.

Meio Ambiente Equilibrado e a Garantia do


Conteúdo Essencial dos Direitos Fundamentais 241
mas evitar que aquele poder político chegue ao excesso de produzir
lei desnecessária, casuística ou desarrazoada, realidade assente
mesmo nas democracias consolidadas e que precisa ser considerada
para merecer o devido controle”.30
Ao partir-se da premissa que os direitos, ainda que
fundamentais, não são absolutos, é que temos que admitir a
limitação dos mesmos, até para possibilitar o seu exercício na medida
em que: “É preciso partir da afirmação óbvia de que não se pode
instituir um direito em favor de uma categoria de pessoas sem
suprimir um direito de outras categorias de pessoas”.31 Neste sentido
é o conteúdo essencial dos direitos atua como limite dos limites,
impondo ao Legislativo uma ação arrazoada, justificada, sem o que
incorrerá na inconstitucionalidade.
De maneira simplista, poderíamos comparar o efeito do
chamado limite dos limites com a “eficácia negativa” emanada das
normas constitucionais programáticas.
Ora, a doutrina alemã classifica as normas programáticas como
“normas de promessa”32 (Versprechungsnormen), uma vez que contêm
uma promessa de legislação, de regulamentação.
Assim sendo, inicialmente os doutrinadores atribuíram às
normas programáticas frágil consistência jurídica, na medida em que
esvaziavam sua força vinculante, convertendo-as em meras exortações
morais. Entendendo alguns que as normas programáticas eram
preceitos desprovidos de qualquer eficácia, que poderiam ser violados,
inclusive por norma infraconstitucional, sem que isso resultasse em
inconstitucionalidade. Retirada estava a própria juridicidade da
norma programática.
Não se sustenta a teoria de falta de eficácia das normas
constitucionais programáticas, pois seria o mesmo que defender a
inutilidade de parte da Constituição. E, neste particular, como
sustenta Meirelles Teixeira: nada de inútil existe na Constituição.33
Rechaçando a citada teoria, vem a doutrina defendida pelo
italiano Crisafulli,34 dividindo as normas constitucionais em normas
de eficácia plena, dotadas de imediata aplicação, e de normas eficácia
limitada, que abrangeriam as normas programáticas.

30 Barros. O princípio da proporcionalidade e o controle de constitucionalidade das leis restritivas de direitos


fundamentais. Brasília, DF: Livraria e Editora Brasília Jurídica, 1996, p. 21.
31 Bobbio. A Era dos Direitos. Trad. Carlos Nelson Coutinho, 8.ª ed. Rio de Janeiro: Campus, 1992, p. 42.
32 Teixeira, José Horácio Meirelles, [texto revisto e atualizado por Maria Garcia]. Curso de direito constitucional. Rio
de Janeiro: Forense Universitária, 1991, p. 324.
33 Teixeira. Op. cit., p. 324.
34 Vezio Crizafulli, “La constituzione e le sue disposizione de principio” Cf. Maria Helena Diniz, op. cit., p. 93.

242 Sandro Nahmias Melo


Para esta teoria as normas programáticas constituem
verdadeiras normas jurídicas que detêm “eficácia negativa”, posto que
obstam atividade legislativa que lhe seja contrária. Neste momento,
avanço significativo é registrado, já que ineditamente se confere às
normas programáticas certa eficácia, embora em sentido negativo.
Tomemos o exemplo da norma insculpida no inc. VII, do Art.
37, da CF/88. Nela fica garantido o exercício do direito de greve, nos
termos e nos limites da lei, ao servidor público civil. Ora, como já
decidido pelo C. STF (Mandado de Injunção n.º 438-2-GO), trata-se de
uma norma programática. Todavia, apesar de limitada, é evidente a
eficácia do referido dispositivo na medida em que retira a eficácia as
normas que configurem a greve como preceito negativo, afastando,
inclusive, a possibilidade de legislar-se, ordinariamente, contra o
exercício do direito de greve. Temos aí um limite ao Poder Legislativo,
que não pode ultrapassar o conteúdo essencial na norma insculpida
no inciso VII, Art. 37, da CF/88.
Por fim, demonstrada a similitude entre os efeitos do conteúdo
essencial dos direitos fundamentais e a “eficácia negativa” das
normas programáticas, uma vez que ambos limitam, de alguma
forma, a atividade do legislador, cumpre destacar que a garantia do
conteúdo essencial, entendida como limite dos limites, não é privativa
dos direitos fundamentais, sendo comum a qualquer norma
constitucional.

5. O CONTEÚDO ESSENCIAL NO DIREITO COMPARADO

Encontra guarida, de maneira expressa, o princípio de proteção


do núcleo essencial (Wesensgehalt) dos direitos fundamentais no
ordenamento constitucional de alguns países:

– O Art. 19.2, da Constituição alemã dispõe que: “em nenhum


caso um direito fundamental poderá ser afetado em sua essência”
(Grifamos);
– A Constituição portuguesa refere-se à garantia do núcleo
essencial em seu Art. 18.3, segundo o qual “as leis restritivas de
direitos, liberdades e garantias têm de revestir caráter geral e
abstrato e não podem ter efeito retroativo nem diminuir a extensão e
o alcance do conteúdo essencial dos preceitos constitucionais” (Grifo
nosso);

Meio Ambiente Equilibrado e a Garantia do


Conteúdo Essencial dos Direitos Fundamentais 243
– O Art. 53.1, da Constituição espanhola também alude à
referida garantia, ao estabelecer que “os direitos e liberdades
reconhecidos no Capítulo II do presente Título vinculam todos os
poderes públicos. Somente por lei, que em todos os casos deve
respeitar seu conteúdo essencial, poderão ser regulados esses direitos
e liberdades (...)” (Grifamos).

No Brasil, apesar do princípio da proteção do núcleo essencial


dos direitos fundamentais não ter sido contemplado pelo constituinte
de 1988 de forma expressa, não se sustenta o argumento no sentido
de que o mesmo não existe em nosso ordenamento jurídico. Ora,
considerando a própria natureza protetora dos direitos fundamentais
seria ilógica a intervenção do legislador ordinário no âmbito do direito
fundamental para destruí-lo. Ressalte-se, todavia, que previsão, na
esfera constitucional, do princípio da garantia de proteção ao
conteúdo essencial não deve ser encarada como um círculo extra ou
supra-estatal, no qual o legislador esteja proibido, em hipótese
alguma, de intervir.

6. CONSIDERAÇÕES DE ORDEM PRÁTICA

Considerando o conteúdo essencial como o núcleo de um direito


fundamental e, portanto, figurando como limite dos limites, nos
deparamos com a idéia de o conteúdo essencial impedir qualquer
tentativa reguladora do legislador, como uma verdadeira muralha
frente ao mesmo.
Todavia, há que se reconhecer que, na maioria das situações
em que está em causa um direito do homem, constatamos o
enfrentamento de dois direitos igualmente fundamentais, não sendo
possível proteger um deles sem tornar o outro flexibilizado ou
inoperante, como observa Norberto Bobbio:

Basta pensar, para ficarmos num exemplo, no direito à


liberdade de expressão, por um lado, e no direito de não ser
enganado, excitado, escandalizado, injuriado difamado, vilipen-
diado, por outro. Nesses casos, que são a maioria, deve-se falar
em direitos fundamentais não absolutos, mas relativos, no
sentido de que a tutela deles se encontra, em certo ponto, um
limite insuperável na tutela de um direito igualmente
fundamental, mas concorrente. E dado que é sempre uma

244 Sandro Nahmias Melo


questão de opinião estabelecer qual o ponto em que um termina
e o outro começa, a delimitação do âmbito de um direito
fundamental do homem é extremamente variável e não pode ser
estabelecida de uma vez por todas.35

É Suzana Barros, entretanto, que enfeixa com perfeição linha


limítrofe de ação do Legislativo, ao asseverar que: “A toda a evidência,
o limite de restrição de qualquer coisa é tudo aquilo que
conceitualmente a pode destruir. Todo o bem ou valor jurídico tem,
por isso, uma essência a respeito da qual há um certo consenso,
ainda que se trate de algo fluido ou ambíguo, a exemplo da boa-fé,
conceito que recebeu inúmeros tratados técnicos”.36 Assim também o
é com o direito ao meio ambiente. Se a limitação do mesmo é tal a
ponto de destruí-lo, o seu conteúdo essencial não foi respeitado.
Não há como se definir, entretanto, uma regra matemática
capaz de identificar se relativização de um direito, especificamente o
direito ao meio ambiente (considerados todos os seus aspectos –
natural, artificial, cultural e do trabalho), quando harmonizada com
outro direito fundamental, afeta ou não o seu conteúdo essencial.
Cada caso deve ser analisado in concreto com base em suas
peculiaridades.

7. CONCLUSÃO

De tudo quanto se expôs, parece autorizado concluir que:

É inafastável a conclusão no sentido de que o direito ao meio


ambiente equilibrado é, sim, direito fundamental, materialmente
considerado, uma vez está que inexoravelmente ligado ao direito à vida;
Definido o meio ambiente como direito fundamental, ou seja,
como elemento imprescindível para o alcance do direito à vida, com
qualidade e dignidade, emerge, de pronto, uma constatação: o direito
ao meio ambiente, como direito fundamental, não deve prevalecer, de
forma absoluta, sobre outros interesses ou direitos, inclusive sobre
aqueles igualmente fundamentais;
Há que se reconhecer que, na maioria das situações em que
está em causa um direito do homem, constatamos o enfrentamento

35 Bobbio. A Era dos Direitos. Trad. Carlos Nelson Coutinho, 8.ª ed. Rio de Janeiro, Campus, 1992.
36 Barros, op. cit., p. 96.

Meio Ambiente Equilibrado e a Garantia do


Conteúdo Essencial dos Direitos Fundamentais 245
de dois direitos igualmente fundamentais, não sendo possível
proteger um deles sem relativizar o outro;
O conteúdo essencial dos direitos e garantias fundamentais
constitui uma garantia dos direitos e liberdades frente a atividade
legislativa de limitação dos mesmos. Tal conteúdo assinala uma
fronteira que o legislador não pode ultrapassar, delimitando um
terreno que a Lei que pretende limitar-regulamentar um direito não
pode invadir sem incorrer em inconstitucionalidade;
A toda a evidência, o limite de restrição de qualquer coisa é tudo
aquilo que conceitualmente a pode destruir. Todo o bem ou valor
jurídico tem, por isso, uma essência a respeito da qual há um certo
consenso, ainda que se trate de algo fluido ou ambíguo, a exemplo da
boa-fé, conceito que recebeu inúmeros tratados técnicos;
O texto do Art. 225, da Constituição Federal deve ser
interpretado em consonância com o direito fundamental ao
desenvolvimento e à luz dos objetivos e preceitos fundamentais da
República;
O direito fundamental ao meio ambiente equilibrado deve ser
visto, enquanto direito humano, como elemento integralizador da esfera
individual de cada ser ao seu campo político-jurídico, o qual qualifica os
termos cidadãos, indivíduos e coletivo, respectivamente, como social,
sujeitos de direitos e nação, bases para um futuro contrato social,
idealizado na vigência e plenitude dos direitos humanos.

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248 Sandro Nahmias Melo


– PARTE 03 –

O RISCO ACERCA DA UTILIZAÇÃO DA TRANSGENIA (ORGANISMOS GENETICAMENTE


MODIFICADOS) NA AGRICULTURA MODERNA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .251
1. Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .251
2. A tematização do risco na sociedade moderna segundo a ótica de Raffaele de Giorgi . .254
3. Os Organismos Geneticamente Modificados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .260
4. Transgênicos – Aspectos controversos da polêmica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .264
5. Conclusão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .269
Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .271

CIDADANIA AMBIENTAL COSMOPOLITA UM CONCEITO EM CONSTRUÇÃO . . . . . . .273


1. Introdução – O quadro da indolência humana . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .273
2. Sociedade de Risco Mundial – admirável mundo tecnológico . . . . . . . . . . . . . . . . .274
3. Globalização, Estado-Nação e Cidadania . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .281
4. Cidadania Ambiental Cosmopolita – Sociedade Civil Mundial . . . . . . . . . . . . . . . . .286
5. Conclusões articuladas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .294
Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .296

O RESGUARDO DO PATRIMÔNIO CULTURAL POR MEIO DA MEMÓRIA COLETIVA .299

1. Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .299
2. A memória entre a Lenda e a Mitologia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .301
3. As fases da memória coletiva . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .302
3.1 Memória Étnica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .302
3.2 Entre a Pré-História e a Antigüidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .303
3.3 A Fase Medieval . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .304
3.4 O avanço do século XVI até o presente . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .304
3.5 A memória na atualidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .305
4. A cultura e a memória . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .306
5. A importância dos bens culturais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .307
6. O patrimônio histórico e artístico na ordem constitucional . . . . . . . . . . . . . . . . . .308
7. O desenvolvimento da proteção jurídica das lembranças culturais . . . . . . . . . . . . .310
7.1 A proteção da memória do patrimônio cultural . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .310
7.2 O patrimônio cultural brasileiro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .312
7.3 Do patrimônio material ao imaterial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .314
8. Conclusão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .316
Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .317
O Risco Acerca da Utilização
da Transgenia (Organismos
Geneticamente Modificados) na
Agricultura Moderna
Bruno Gasparini1

1. INTRODUÇÃO

A
sociedade moderna sustenta-se sobre os princípios
da globalização e do neoliberalismo, primando por
um viés econômico para solucionar os problemas a ela inerentes. O
desenvolvimento tecnológico e o conhecimento científico inabalável,
marcado pela racionalidade, proporcionou a criação da sociedade de
risco, firmada na globalização e marcada pelo utilitarismo. Sob estes
parâmetros, visualizamos ser o risco fruto da modernidade, sendo
conseqüência da globalização e do progresso da ciência, tendo-se
desenvolvido sem a sustentabilidade necessária. O autor português
Boaventura de Sousa Santos explicita essa situação:

(...) sendo um novo modelo global, a nova racionalidade


científica é também um modelo totalitário, na medida em que
nega o caráter racional a todas as formas de conhecimento que
não se pautem pelos princípios epistemológicos e pelas suas
regras metodológicas. É esta a sua característica fundamental e
que melhor simboliza a ruptura do novo paradigma com os que o
precedem.2

1 Mestrando em Direito. Programa de Pós-graduação em Direito da Universidade Federal do Paraná.


2 SANTOS, Boaventura de Sousa. A crítica da razão indolente: contra o desperdício da experiência. Porto:
Afrontamento, 2000, p. 58.

O Risco Acerca da Utilização da Transgenia


(Organismos Geneticamente Modificados) na Agricultura Moderna
251
O contexto globalizado, que têm como características a ordem
cosmopolita e transformadora, foi fundamental para a modificação da
forma de pensamento e de enfrentamento da realidade que
caracterizam a sociedade moderna. O progresso tecnológico
possibilitou à humanidade romper as barreiras dos limites naturais,
proporcionando um crescimento populacional exacerbado e
modificando as relações sociais, mas também trazendo comodidade,
conforto, bem-estar, agilidade, fluidez, praticidade, enfim, todas as
benesses características deste mundo globalizado.
Entretanto, embora a evolução seja inegável, ela traz consigo
inúmeros problemas nunca dantes imaginados, cuja previsibilidade
se torna parca em virtude dos desequilíbrios causados pelo sistema.
A aculturação dos povos subdesenvolvidos, a mudança do modo de
vida, a alteração dos costumes e tradições, os problemas ecológicos,
o esgotamento dos recursos, são temas característicos deste período.
Desta forma, percebemos que a globalização traz consigo paradoxos
de difícil contemporização, pois ao mesmo tempo em que nos oferece
benefícios, através da tecnologia, nos apresenta problemas que nos
parecem insolúveis, causados pelo desequilíbrio. A única certeza
plausível é a de que nada é seguro, mas, ao mesmo tempo, nada é
impossível para a sociedade moderna.
Este contexto e as práticas acima descritas ilustram a situação
dos Estados subdesenvolvidos e dos agricultores tradicionais frente
às indústrias transnacionais que controlam o agronegócio mundial,
monopolizando a cadeia produtiva (sementes, fertilizantes e
herbicidas), e impondo a aceitação mundial de novas tecnologias
agrícolas, fragmentando o campo de acordo com seus próprios
interesses e dividindo os mercados consumidores em fatias rentáveis
a todos os integrantes do conglomerado financeiro internacional,
gerando uma dependência financeira e tecnológica, que inibe o
desenvolvimento de tecnologias locais que não sejam financiadas por
estes grupos, das quais não possam garantir royalties através de
patentes, e colocam os países subdesenvolvidos e os agricultores
tradicionais numa ciranda de dependência, na qual o único interesse
é mantê-los na mesma situação, reféns do conglomerado financeiro
internacional.
Os agricultores são encorajados e convencidos a utilizarem-se
de técnicas de produção cujo rendimento está diretamente
relacionado a um ciclo produtivo concebido através do encadeamento
seqüencial e ordenado das fases do cultivo de determinada variedade
agrícola. As transnacionais sementeiras fornecem os fertilizantes, as

252 Bruno Gasparini


sementes, os herbicidas, toda uma técnica de produção que só dará
bons resultados se encadeadas e metodicamente utilizadas. A decisão
do agricultor em utilizar a nova técnica, implicará num
comprometimento deste com a empresa. O agricultor se comprometerá
pelo pagamento destes insumos através de sua produção, podendo ser
o pagamento em “soja verde”, ou no valor da soja no mercado no
vencimento das obrigações. Os preços da soja no mercado futuro já
estão sendo largamente contratados. A transnacional paga pelo risco,
mas percebe, monopoliza e influencia os rumores do mercado que
podem influenciar o peço do grão, cotado em Bolsa.
A partir desta premissa, percebe-se que os Estados
subdesenvolvidos, que atrelam suas políticas públicas ao interesse do
conglomerado financeiro internacional, acentuam os riscos de suas
sociedades ao atrelarem suas decisões políticas aos desígnios
externos, sem considerar que estas decisões humanas podem
imputar danos irreparáveis ao entorno (humano e natural), gerando
causas que se tornam alheias ao seu próprio controle. A polêmica
adoção da transgenia está envolta num conturbado debate, que
apresenta controvérsias de caráter ético, científico, político,
econômico, cultural e ecológico, que ao invés de apresentar soluções
plausíveis para a sociedade, apenas aumentam o grau de incerteza
quanto à utilização desta nova biotecnologia.
Em cada um desses conflituosos campos do debate,
encontraremos posições contrárias e posições favoráveis, que
obscurecem ainda mais o tema, tornando-nos reféns das imposições
dos conglomerados financeiros internacionais, que apenas se
preocupam com as cifras relacionadas a este empreendimento.
Existem aqueles que pregam, entre eles cientistas e estudiosos, que
os Organismos Geneticamente Modificados não representam nenhum
risco extra para a sociedade; paralelamente, existem advertências
contundes e comprovadas cientificamente, alertando sobre os
problemas irreversíveis que estes podem causar aos seres humanos e
ao meio ambiente.
A sociedade, por sua vez, sempre mal informada e alheia ao
debate, recebe informações tendenciosas, veiculadas em meios de
comunicação de massa, que são patrocinadas pelas grandes
indústrias sementeiras transnacionais (como as propagandas da
Monsanto que estão sendo exibidas na televisão, que ridicularizam os
debates e minimizam os riscos, sem ter um aporte científico para
tanto). A única certeza é que estes grupos almejam apenas aumentar
o seu mercado consumidor e conseqüentemente, seus lucros,

O Risco Acerca da Utilização da Transgenia


(Organismos Geneticamente Modificados) na Agricultura Moderna
253
disseminando suas tecnologias sem maiores critérios, pretendendo
que os riscos sejam avaliados posteriormente, negligenciando o
princípio da precaução, desrespeitando consumidores e agricultores.
Assim, no presente trabalho, o intuito é estabelecer uma
conexão entre a utilização da transgenia na agricultura e a teoria do
risco na sociedade moderna, apontando as tendências favoráveis e
contrárias a esta tecnologia, relacionando-as com a problematização
formulada por Raffaele de Giorgi acerca do risco na sociedade pós-
industrial.

2. A TEMATIZAÇÃO DO RISCO NA SOCIEDADE MODERNA


SEGUNDO A ÓTICA DE RAFFAELE DE GIORGI

A formulação de De Giorgi parte da constatação de que a


metafísica das grandes descrições está esgotada, os grandes
acontecimentos mundiais das últimas décadas transformaram não
somente a “ordem do mundo”, mas também a “ordem dos conceitos”
ou distinções, utilizadas para descrever a ordem vigente àquela
época. Tais distinções indicavam diferenças de contexto, de sentido,
consideradas como potenciais evolutivos da sociedade contem-
porânea. Uma parte das distinções eram isoladas e apresentadas
como uma condensação de sentido da própria distinção, esta
operação legitimava outras operações, que produziam ulteriores
condensações de sentido ou a passagem às outras partes da própria
distinção.
Eram operações que impunham uma representação do futuro,
pois demandavam tempo na sua elaboração. Assim, a certeza do
futuro era produzida no presente, pois havia a certeza da existência
de um futuro cuja atualização dependeria de nossa atuação. Na
hipótese desta certeza não se realizar, restaria a afirmação de que tal
fato poderia ser imputado à oposição previsível de forças contrárias,
mas, de qualquer forma, conhecidas ou previsíveis. A racionalidade
estava inculcada nestas formulações. As ações do presente eram
pautadas na representação do futuro, baseado em esquemas de
simplificação da sociedade possível, que davam plausibilidade às
decisões, visto que permitiam tratar com previsibilidade ou como
expectativas partilhadas, o dano ocasionado daquela atuação.
O potencial descritivo destas distinções havia sedimentado uma
semântica que estabilizava estruturas de expectativas e fornecia
segurança. Estas distinções se caracterizavam por valores positivos

254 Bruno Gasparini


ou negativos, sempre contrastantes, mas que tinham sua própria
plausibilidade, visto que mesmo as resistências que se opunham a
determinadas estratégias, tendiam a conservar a distinção,
convalidando a possibilidade de autodescrição da sociedade. O
próprio De Giorgi elucida a questão: “De outra parte, os países
subdesenvolvidos só eram assim considerados sob a perspectiva de
desenvolvimento dos países desenvolvidos, os quais, enquanto
impunham suas políticas em virtude de sua potência econômica,
podiam legitimamente ter como objetivo de seu desenvolvimento a
3
manutenção do subdesenvolvimento nos outros países”.
A diferença entre os valores que caracterizam cada uma das
partes da distinção criava situações de equilíbrio no sentido de que,
também quando se verificava a transposição da linha demarcatória,
a diferença entre os dois valores subsistia. A igualdade de todos os
cidadãos perante a lei forçava a redistribuição, em âmbitos diversos,
dos problemas que dali derivavam e levava, desta forma, à produção
de novas diferenças. A situação é cíclica e irremediável. As
contraposições do sistema são diametralmente opostas, mas com
caráter complementar. É a manutenção das distinções e as
estratégias de equilíbrio que garante segurança do sistema. Na
afirmação de De Giorgi: “Mais Estado significava menos mercado;
mais riqueza; menos pobreza; mesmo guerra, mais paz. Diante do
risco, podia-se oportunamente pensar em mais segurança. A guerra
fria, o equilíbrio do terror, a política de dissuasão, as intervenções
para o desenvolvimento, são todas configurações destas estratégias
4
de equilíbrio e de manutenção das distinções”.
Nas autodescrições da sociedade contemporânea, o paradigma
era baseado num princípio de racionalidade que representava a
tensão face ao equilíbrio das distinções e que reforçava a expectativa
da normalidade. A indicação da normalidade permitia assinalar,
distintamente, o limite além do qual os acontecimentos apresentavam
o caráter de desvio. Os acontecimentos assumem o caráter de
normalidade, quando o seu “acontecer” é sustentado pelo consenso
de regularidade, pelo fortalecimento daquelas estruturas de controle
do desvio que são constituídas de expectativas. A regularidade
permite construir conexões entre os acontecimentos, imputar
causalidade e elaborar descrições que tornam manifestas as conexões
entre os acontecimentos. A calculabilidade das imputações na
construção de conexões confere a estas caráter de razoabilidade. As

3 DE GIORGI, Raffaele. “O risco na sociedade contemporânea”, in Revista Seqüência. Revista do Curso de Pós-
Graduação em Direito da Universidade Federal de Santa Catarina, jun., 1994, n.º 28, p. 47.
4 Op. cit, p. 47.

O Risco Acerca da Utilização da Transgenia


(Organismos Geneticamente Modificados) na Agricultura Moderna
255
anotações de De Giorgi explicitam a situação: “A regularidade que
opera na estrutura seletiva dos acontecimentos, fornece segurança à
ação e, ao mesmo tempo, possibilita o tratamento do desvio, ou seja,
5
torna possível a normatização”. Através das autodescrições, a
dimensão temporal do agir harmoniza-se com a dimensão social em
acontecimentos, utilizando-se, para tanto, da calculabilidade.
Tal sintonia possibilita as combinações entre os aconteci-
mentos. O espaço no qual isto ocorre delimita a normalidade. Tudo o
que não está disposto, o que está fora, não pertence à normalidade.
Na sociedade moderna, o direito e a economia são (sub)sistemas
sociais que tratam a contingência de maneira a não permitir que esta
adquira valor de estrutura, na concepção marxista do termo. Estes
sistemas produzem segurança através do tratamento de expectativas
com base em decisões ou também com base no controle da escassez
dos recursos, planejando políticas e assumindo riscos calculáveis,
segundo os partidários desta teoria.
Atualmente, a autodescrição da sociedade está fragmentada,
sendo que o potencial descritivo das distinções que a haviam tornado
possível, também está esgotado. A autodescrição foi privada de seu
fundamento, qual seja, o pressuposto da estabilidade da relação
entre racionalidade e tempo. Esta relação era precária, sendo a
normalidade, portanto, uma construção contingente, capaz de
duvidar de si própria, visto que constituída por indeterminações
infinitas, pois o que nunca houvera acontecido ou tenha sido
verificado, pode acontecer de súbito.
Na medida em que se percebe que toda decisão também poderia
ter sido tomada de maneira diversa, percebe-se que esta é
contingente, que o evento, ao qual ela se refere, é contingente e que
o momento, no qual o acontecimento e a decisão se fundam, também
é contingente. A normalidade, por sua vez, é o resultado encontro
destas contingências. Nesse caso, se não é possível determinar as
indeterminações de maneira a maquiar a normalidade, será possível
tentar observar e descrever a sua natureza. O controle das
indeterminações sempre foi objeto de preocupação das diversas
sociedades ao longo da história da humanidade. São exemplos dessa
prática, as adivinhações, o tabu e até mesmo o pecado. Mais recentes
são as invenções do acaso e da probabilidade.
Apenas no século passado tivemos o desenvolvimento do
conceito de incidente, que foi amplamente utilizado como técnica
descritiva de acontecimentos caracterizados por indeterminação até o

5 Op. cit., p. 47.

256 Bruno Gasparini


advento de sua ocorrência, além do fato da decisão que dá origem a
estes acontecimentos estar sempre orientada para evitar a ocorrência
dos mesmos. Neste contexto, todos esses eventos que tentam ser
determinados pela racionalidade, são considerados danosos.
Se estas indeterminações pudessem verdadeiramente ser
evitadas, embora tenhamos consciência que o método cartesiano
utilizado pela estatística não pode antever ou delimitar todas as
eventuais indeterminações; se fosse possível evitá-las, teríamos que
tornar possíveis outras indeterminações, as quais somos
efetivamente impossibilitados de conhecer. Mesmo que os cálculos
e os testes comprovem a eficácia e eficiência de determinados
materiais, que o tempo de vida útil de um empreendimento seja
delimitado, não conseguiremos antever todas as situações, e muito
menos normatizar o que não podemos delimitar. Raffaele de Giorgi,
elucida a questão: “Medidas ulteriores de segurança não são
completamente capazes de controlar as indeterminações que
nascem em virtude da sua própria ativação e, portanto, não dão
qualquer segurança complementar: estas podem, somente,
deslocar o problema ou no tempo ou no espaço de produção destes
eventos”.6
Nunca poderemos responder seguramente, ao menos que
racionalizemos completamente uma indeterminação, qual é o nível de
segurança da segurança? No mundo moderno, a sociedade
caracteriza-se pela sua suposta capacidade de controlar as
incertezas, acabando, muitas vezes, por produzi-las. Há um paradoxo
insolúvel, que acrescenta a necessidade de proteção e segurança. A
ação é conduzida desta forma visando evitar que as indeterminações
possam adquirir valor de estrutura, ou seja, que o desvio se
estabilize. Nunca teremos a certeza sobre quais decisões podem ser
capazes de evitar situações que não se sabe se ocorrerão.
Desta forma, podemos concluir que a estrutura da sociedade
moderna é paradoxal, pois as considerações que desenvolvemos são
plausíveis, e esta paradoxalidade tornou-se tema da comunicação,
visto que a sociedade contemporânea reforça simultaneamente as
proposições da segurança e da insegurança, determinação e
indeterminação, estabilidade e instabilidade. Nas palavras de De
Giorgi: “(...) nesta sociedade, há simultaneamente mais igualdade e
mais desigualdade, mais participação e menos participação; mais
riqueza e, ao mesmo tempo, mais pobreza”.7

6 Op. cit., p. 49.


7 Op. cit., p. 50.

O Risco Acerca da Utilização da Transgenia


(Organismos Geneticamente Modificados) na Agricultura Moderna
257
Neste contexto, podemos afirmar que o futuro está mais
próximo porque as possibilidades do agir e a sua complexidade
desenvolveram-se simultaneamente; entretanto, este futuro segue
ignorado e sempre mais incerto e preocupante, porque o desvio da
normalidade é, ao mesmo tempo, mais estável e mais contingente. Na
atual sociedade mundial, há mais exclusões e também mais
inclusões. Assim, como ponto de chegada, no qual se estabiliza uma
normalidade construída em virtude de uma projetualidade racional
relativa à finalidade, o futuro está mais longe e improvável, fato que
exclui a possibilidade de se utilizar representações unilineares do
futuro, baseados na razão ou no espírito. Segundo De Giorgi: “(...) a
alta complexidade, autoproduzida pela sociedade moderna, fez da
precariedade da relação da razão com o tempo um pressuposto
8
estável do agir, que pode ser imputado a homens ou organizações”.
De acordo com estas condições estruturais, a sociedade utiliza-
se de uma forma de constituição de formas para a representação do
futuro e para produzir vínculos com o futuro. A forma dessa
representação e a modalidade da produção destes vínculos com o
futuro está representada pelo “risco”, que atua através da
racionalidade para construir outras formas, baseadas no binômio
probabilidade/improbabilidade. A análise do risco realizada pela
sociedade contemporânea pode ter a função de racionalizar o medo,
sendo um substituto para a angústia provocada pela própria
observação da realidade e a constatação de que o homem influi
negativamente em seu meio. O tema do risco tornou-se objeto de
interesse e preocupação da opinião pública, quando o problema da
ameaça ambiental permitiu a compreensão de que a sociedade
produz tecnologias que podem gerar danos irreversíveis, não só para
a natureza, mas conseqüentemente, para a própria espécie humana.
Raffaele de Giorgi explica como a sociedade reagiu a essa
constatação:

Neste ponto, o risco foi tratado, considerando-se a


segurança como sua alternativa e, portanto, também possível.
Apelou-se para o uso de tecnologias seguras e invocou-se a
intervenção de uma racionalidade linear capaz de controlar as
conseqüências das decisões. Depois, constatou-se que a
alternativa para o risco não era a segurança, mas um risco de
outro gênero, e tematizou-se a normalidade do risco.9

8 Op. cit., p. 50.


9 Op. cit., p. 51.

258 Bruno Gasparini


Assim, com a banalização do risco, a sociedade moderna passou
a tratar como uma normalidade a iminência das catástrofes. Verificou-
se que o Homem é incapaz de promover uma segurança total, diante da
corrida tecnológica contemporânea, onde o avanço da ciência chega a
patamares inimagináveis, e a imprevisibilidade impera. Verificou-se
que a segurança é um artefato em que não se pode confiar. Quando o
Homem se dá conta de que o modelo de racionalidade utilizado e que
nos dava segurança, não funciona, recorre-se à moral, que funciona em
relação aos princípios, mas não leva ao consenso nas decisões
individuais, produzindo conflito sobre a avaliação dos riscos e sua
aceitabilidade. Sem o auxílio prestado pela moral, o que resta é o
pânico, síndrome costumeira da modernidade.
A partir desta certeza, vislumbrou-se dois possíveis caminhos:
ou a sociedade aceita o risco como uma condição existencial (solução
que traz a rejeição do saber do mundo e que não estimula a ação); ou
a sociedade aceita o fato de que o processo de modernização não seria
mais capaz de controlar a si mesmo, o que impeliria a racionalidade
para um patamar onde mais fosse possível detê-la (sociedade de risco
ou contra-modernidade).
Segundo De Giorgi, a sociedade de risco é caracterizada da
seguinte forma:

Nasce assim uma Segunda modernidade que é a


sociedade de risco. Esta sociedade começa ali onde falham os
sistemas de normas sociais que haviam prometido segurança.
Estes sistemas falham pela sua incapacidade de controlar as
ameaças que provêm de suas decisões. Tais ameaças são de
natureza ecológica, tecnológica, política, e as decisões são
resultado de uma coação que derivam da racionalidade
econômica que impõe o modelo de racionalidade universal.10

Sob este prisma, o risco é uma modalidade de relação com o


futuro, é uma forma de determinação das indeterminações segundo a
diferença probabilidade/improbabilidade. Na sociedade moderna, o
risco é condição estrutural da auto-reprodução, pois o fechamento
operativo dos sistemas singulares determinados pela estrutura e
unidos estreitamente, torna possível o controle do ambiente,
tornando improvável a racionalidade, constrangendo os sistemas a
operar sob as condições da incerteza. Esta estreita união estrutural,
impõe um acordo temporal da seqüência, assegurando tanto a

10 Op. cit., p. 52.

O Risco Acerca da Utilização da Transgenia


(Organismos Geneticamente Modificados) na Agricultura Moderna
259
possibilidade do perfeito funcionamento dos sistemas, quanto a
iminente possibilidade de uma catástrofe, o liame é estreito, o
sistema opera sob os auspícios do risco.
Nesta situação, a razão clássica, baseada na calculabilidade e
na regularidade, no sistema binário, é desestruturada pela incerteza
presente no tempo. Assim, a precariedade da razão é tida como certa.
O risco, torna-se, então, modalidade secularizada de construção do
futuro. Portanto, ainda que seja vivido como fatalidade, o risco é uma
aquisição evolutiva do tratamento das contingências, que exclui toda
segurança e também todo destino. De Giorgi faz uma aproximação
entre o risco, o direito e a economia, afirmando que:

O risco baseia-se na suportabilidade, na aceitabilidade e


não, na certeza das próprias expectativas: por isso, os riscos não
podem ser transformados em direito, ainda que possam ser
monetarizados. O risco sobrecarrega o direito: trata-se, no
entanto, de estratégias de retardamento do risco, não de
estratégias que evitam o risco. O sistema mais diretamente
interessado é a economia: isto ocorre seja porque os riscos
podem ser monetarizados, seja porque as possibilidades de
dívida são infinitas.11

A partir destas constatações, de como o risco se relaciona com


a economia e com o direito, os sistemas sociais singulares, para tratar
as situações em que o risco está presente, são obrigados a
reestruturar os dispositivos comumente utilizados, adequando a
legislação às diversas possibilidades, sempre com o cuidado de
imputar um dano a determinada decisão, de maneira a monetarizar
os riscos. Com isso, podemos afirmar que a perspectiva do risco
constitui referência fundamental na descrição da sociedade moderna,
mas esta, não é capaz de estabelecer e delimitar seus compormentos
nas situações nas quais o risco está presente.

3. OS ORGANISMOS GENETICAMENTE MODIFICADOS

Nos últimos 40 anos a agricultura passou por um processo de


modificação em seus métodos e técnicas em virtude dos vários
problemas ambientais que vinha ocasionando; a erosão, o
desmatamento, a alteração do ciclo hidrológico, são frutos de uma

11 Op. cit., p. 53.

260 Bruno Gasparini


modernização desenfreada que apenas visionava economizar trabalho
humano, com a utilização de variedades com alta produtividade,
maquinário, herbicidas e fungicidas, que acabaram por dar origem a
desastres ambientais e sociais.
Fruto da chamada “Revolução Verde”, conhecida corrente
iniciada na década de 60 do século XX, baseada na genética
convencional (mendeliana), na qual os agrônomos se utilizam de
todas as técnicas que a biotecnologia lhes oferecem para o
melhoramento das técnicas de engenharia genética,12 que consiste na
“transformação da composição genética de um organismo resultante
da introdução direta de material genético de um outro organismo, ou
construído em laboratório”,13 e posterior incremento da produção, a
utilização de OGM (Organismos Geneticamente Modificados),14 por
meio da fusão de genes adicionais (vírus, bactérias, palantas ou
animais), foi intensificada em meados da década de 80, tendo
qualificativo aumento tecnológico na década de 90, com o
mapeamento das moléculas de ADN/ARN recombinante, tanto dos
animais, quanto dos humanos e vegetais, o que iniciou a denominada
biorevolução.
Nas palavras dos pesquisadores Gonzalo G. Mateos, R. Lázaro
e M. I. Gracia, em palestra realizada na Conferência Apinco 2000 de
Ciência e Tecnologia Avícolas, verbis:

Dentro do campo da agricultura, a biotecnologia pode ser


utilizada em diversos processos e com diferentes finalidades.
Assim, graças a ela, se desenvolvem novas variedades de
plantas resistentes ao meio (salinidade do solo, estiagem, vírus,
insetos, fungos, etc.), a diversos herbicidas (round up ready), ou
diversos tipos de frutas e verduras com maior capacidade de
conservação, melhorando assim a produtividade real e o valor
econômico dos cultivos. Processos industriais tais como café
descafeinado, ervilha e milho doces de alta produtividade,
plantas que acumulem plásticos biodegradáveis no lugar de
amido ou açúcares como material de reservas, e em fibras de
algodão coloridas, serão produtos usuais no futuro.
12 A engenharia genética é conhecida também como “biotecnologia moderna”, “manipulação genética”, “modificação
genética” e, com sentido mais restrito e específico, de “tecnologia do DNA recombinante”.
13 REISS, M. J.; STRAUGHAN, R. Improving nature? The science and ethics of genetic engineering. Cambridge, UK:
Cambridge University Press, 1996.
14 Alimentos transgênicos são aqueles que sofreram alterações na sua dotação genética, para acrescentar alguma
característica considerada positiva. Têm sido concebidos como uma forma de melhorar a agricultura e pecuárias
tradicionais, através de melhoramento genético. Não existe prova alguma, aceitável para a maioria da comunidade
científica, de que estes produtos transgênicos sejam nocivos para a saúde humana das pessoas nem para o meio
ambiente, embora não possa ser descartado que no futuro apareçam efeitos prejudiciais (GARCÍA OLMEDO, 1998).

O Risco Acerca da Utilização da Transgenia


(Organismos Geneticamente Modificados) na Agricultura Moderna
261
Dentro do campo da saúde humana ou animal, a
biotecnologia permite a criação de novas variedades vegetais,
ricas em oligofrutanos (substância que melhora os ecossistemas
microbianos do intestino) que resultarão num menor uso de
antibióticos, o desenvolvimento de plantas produtoras de fitasas
e diversos hormônios e medicamentos, e a modificação da
composição do óleo de sementes, permitindo o enriquecimento em
AGPI ou em ácido linoléico conjugado, que melhora a imunidade
e reduz a incidência de distintos tipos de câncer. As novas
tecnologias podem inclusive, permitir a criação de variedades
ricas em anticorpos contra coliformes, salmonellas e outros
microorganismos patogênicos.
Dentro do campo da alimentação animal, o uso das novas
tecnologias permitirá a obtenção de um leque de novos produtos
de interesse comercial. Assim, poderemos modificar ou
enriquecer, as diversas matérias-primas com vitaminas,
aminoácidos essenciais e ácidos graxos de interesse, bem como
reduzir seu conteúdo em ácido fíticom fibra bruta e
oligossacarídeos não digeríveis (estaquiose, verbascose, rafinose
e outros).15

Os adeptos dessa doutrina, apenas se preocupam com a


utilização das técnicas que a moderna ciência lhes oferece, para
utilizar-se dos métodos nas diversas formas de cultivo e plantio,
sempre visando um aumento da capacidade produtiva relativa à área,
a redução dos insumos e conseqüente diminuição dos custos, sem,
no entanto, ater-se a conteúdos éticos, morais e até mesmo sociais,
na difusão de seus meios de trabalho, é o que HANS JONAS
sintetizou na expressão “vazio ético”, ethical vacuum, resultante do
fato da ciência contemporânea ser essencialmente reducionista,
mecanicista e despreocupada com os anseios atuais acerca do futuro
da vida sobre a Terra.16
Em reportagem veiculada no site da Revista Globo Rural,
intitulada “Nova Fronteira”, sob a responsabilidade do jornalista
Ernesto de Souza, a tematização, verbis:

É o caso da soja transgênica Roundup Ready, da


Monsanto, um vegetal que recebeu genes de uma bactéria para
tolerar a aplicação de determinado tipo de herbicida. Hoje são

15 APINCO 2000, Conferência de Ciência e Tecnologia Avícolas, Anais, v. 2, p. 199.


16 JONAS H. The imperative of responsability. Chicago: University of Chicago Press, 1984.

262 Bruno Gasparini


vários os métodos utilizados para fazer essa transferência de
genes de um organismo para o DNA de outro. Além do
bombardeio de micropartículas (biobalística), da microinjeção e
da transformação direta para protoplastos (células sem parede
celular), o método que tem se mostrado mais eficiente é o que usa
as Agrobacterium (A. tumefaciens ou A. rhizogenes), bactérias
de solo que funcionam como vetores para transportar o gene
selecionado até o interior do código genético da planta.
O processo tecnológico que identifica a seqüência de genes
que constituem um organismo é conhecido como seqüenciamento
do genoma. Do genoma humano ao genoma de uma bactéria
patogênica em laranjais, a ciência vem descobrindo cada letra do
alfabeto de que são feitos os seres vivos. O desafio daqui para
frente é chegar às palavras que essas letras formam e o que
significam. Essa próxima etapa, que vai adiante da descoberta
genômica, concentra-se no estudo do ‘proteoma’, quer dizer, das
proteínas que os genes produzem e de suas funções – é a
genômica aplicada ou pesquisa do genoma funcional. Como diz o
professor Paulo Arruda, todo mundo quer saber agora para que
serve o seqüenciamento dos genes.
Quem vai ajudar muito nesse passo são os experimentos
de campo. O melhoramento genético convencional, que parecia
superado ante a manipulação genética, é que vai dar sentido aos
seqüenciamentos de genes e mapeamento molecular. ‘O simples
fato de anotar genes e gerar bancos de dados de seqüências não
resultará em saltos qualitativos e quantitativos esperados de
projetos genoma. A capacidade de seqüenciamento de DNA
tornou-se hoje secundária. A questão-chave agora é o que fazer
com aquelas dezenas de milhares de seqüências geradas. E uma
das ferramentas mais poderosas é o trabalho nos campos
experimentais’, defende Dario Grattapaglia, especialista em
genoma funcional do eucalipto e professor da Universidade
Católica de Brasília.
Na argumentação de muitos cientistas e algumas
empresas, os benefícios apontados na adoção de todas essas
biotécnicas são inumeráveis e promissores. Na agricultura, a
pesquisa já chegou a plantas modificadas geneticamente para
ter resistência a pragas e a doenças. Com isso, a produtividade
aumenta, e a aplicação de defensivos diminui.
Grãos, tubérculos, verduras e frutas passarão por
modificações genéticas para resistir ao frio, à seca, à salinização

O Risco Acerca da Utilização da Transgenia


(Organismos Geneticamente Modificados) na Agricultura Moderna
263
ou à umidade dos terrenos, incorporando fronteiras agrícolas até
então improdutivas. As plantas crescerão mais rápido e darão
alimentos mais ricos em proteínas e possíveis de serem
armazenados por muito mais tempo. Os agricultores terão
lavouras não mais para colher apenas alimentos, mas também
remédios, pois as plantas receberão genes exógenos que as
tornarão capazes de diminuir os riscos de vários tipos de câncer
ou de atuar como vacinas para combater inúmeras doenças.17

É inegável que a biotecnologia, no caso em análise a transgenia,


solucionará diversos problemas da humanidade, proporcionando
soluções para a saúde humana e o meio ambiente, mas isso ocorrerá
apenas se a ditadura tecnológica do conglomerado internacional do
agronegócio não condicionar o encaminhamento das pesquisas
visando contemplar apenas a economia de mercado. O desenvol-
vimento de cada variedade é extremamente dispendioso, podendo
chegar a 200 milhões de dólares em 10 anos de pesquisa. Até o
presente momento, as pesquisas financiadas pelas transnacionais
são apenas para as variedades cujo potencial mercadológico é
expressivo, sendo que apenas as cultivares interessantes ao
agronegócio mundial estão sendo desenvolvidas. O Brasil,
particularmente, tem, na Embrapa, um reconhecido instituto de
pesquisas, conseguindo, desde que mantenha uma agenda positiva
de incentivo e fomento, manter sua soberania econômica e tecno-
lógica, impulsionando o agronegócio brasileiro dentro de perspectivas
que gerem emprego e renda também para as pequenas propriedades
e não só para os grandes latifúndios, pouco numerosos, nas mãos de
algumas famílias e que respondem por pequena parcela na geração
de empregos no campo. A cadeia produtiva do agronegócio gera
muitos postos de trabalho, mas as extensas monoculturas
mecanizadas, não.

4. TRANSGÊNICOS – ASPECTOS
CONTROVERSOS DA POLÊMICA

De um lado, estão os que defendem a produção e


comercialização de OGM, alegando que sua utilização acabaria com
os prejuízos econômicos causados pelos insetos, fungos ou
perecibilidade dos cultivares, que atinge 40% das safras mundiais

17 In: http:globorural.globo.com/mensal/materias/repvio2.htm. Acesso em 30.10.2002.

264 Bruno Gasparini


atualmente. Em matéria veiculada no periódico Seed News, de
setembro de 1997, a tematização:

Em 1995 uma empresa do Alabama, EUA, gastou US$


414,6 mil com inseticidas. No ano passado, para tratar da
mesma área plantada, investiu apenas US$ 239,2 mil, ou seja,
reduziu seus custos em 42%. O segredo foi à utilização de
sementes transgênicas.
Essas notícias, por um lado, preocupam as empresas que
fabricam defensivos agrícolas, e por outro explicam as profundas
alterações em suas estruturas. Grandes grupos mundiais estão
vendendo suas empresas de produtos químicos e investindo
pesado em áreas diversas. Algumas dirigiram seus investi-
mentos para a indústria farmacêutica, enquanto outras
passaram a comprar produtoras de sementes, por exemplo.
Os produtos agroquímicos movimentam cerca de US$ 30
bilhões anualmente. Em contraste, já se espera que o mercado de
produtos geneticamente modificados, como o milho e o algodão
resistentes a insetos, e a soja que resiste aos herbicidas, dispare
para algo em torno de US$ 20 bilhões em 2010.18

Em entrevista ao periódico Biotecnologia, Ciência &


Desenvolvimento, de dezembro de 2000, o professor inglês da
Universidade de Reading, David Beever,19 ao ser perguntado se o
cultivo de plantas geneticamentes modificadas com tolerância a
herbicidas pode aumentar o uso de produtos químicos na
agricultura, respondeu:

Não. O cultivo dessas plantas tem demonstrado


exatamente o contrário, ou seja, elas reduzem o uso de
herbicidas na lavoura. Os grupos ativistas é que tentam ‘plantar’
a informação de que as plantas tolerantes a herbicidas podem
aumentar o uso de produtos químicos na agricultura. É melhor
ter o gene de resistência a herbicidas no genoma da planta do
que aplicar maciçamente produtos químicos para combater as
ervas daninhas, já que o impacto ambiental dos transgênicos,
18 SEED NEWS, n.º 1, set., 1997, p. 39, Biotecnologia cria a nova agricultura, com a colaboração de Roberto Rissi, da
Cargill; Jorge de Souza, da Zêneca; Alberto Leonardo, da Josapar; Lineu Rodrigues, da Agroceres;e Rodrigo L.
Almeida, da Monsanto.
19 David Beever é bacharel pela Universidade de Durnelm desde 1966, e PhD pela Universidade de Newcastle–upon-
Tyne, Inglaterra, em 1969. Atualmente é professor de ciências animais e produção, do Departamento de Agricultura
da Universidade de Reading, e diretor do Centro de Pesquisas de Laticínios (Cedar). Além disso, é membro da
Sociedade de Nutrição; da Sociedade Britânica de Ciências Animais e da “American Dairy Science Association”, entre
outras instituições, e autor de mais de 350 publicações científicas.

O Risco Acerca da Utilização da Transgenia


(Organismos Geneticamente Modificados) na Agricultura Moderna
265
neste caso, é expressivamente menor. Na minha opinião, essa
tecnologia de engenharia genética é extremamente positiva na
produção de alimentos e deveria ser utilizada por todos os países
em desenvolvimento, em especial devido às altas taxas de
crescimento da população.20

Também quanto a esta questão, as palavras de Aluízio Borém e


Marcos Paiva Del Giúdice:

Outra preocupação às vezes levantada por ambientalistas,


é a de que variedades transgênicas tolerantes a herbicidas
poderiam resultar em plantas daninhas tolerantes aos
herbicidas, ou seja, superplantas daninhas. Vargas et al. (1999)
discorreram sobre a resistência de plantas daninhas a
herbicidas e concluem que uma população delas pode ter,
naturalmente, diferentes níveis de tolerância a diferentes
herbicidas. O risco de um febe específico de um OGM tolerante à
herbicida ser transferido para uma planta daninha é
extremamente remoto, em muitos casos, como já foi observado
por Conner & Dayle (1996). O fluxo gênico entre diferentes
espécies é extremamente complexo e requer a quebra de várias
barreiras de isolamento produtivo (KLINGER et al. 1991).21

Argumento análogo é de acabar com a fome do Terceiro Mundo,


pois com o aumento da produção, e corte nas perdas, poder-se-ia
distribuir melhor a produção. No periódico Financial Times, de
28/05/1999, o filósofo Alan Ryan da Universidade de Oxford,
membro do Conselho Nuffield, órgão diretivo de Ética nas Ciências
Biológicas do Reino Unido, em seu relatório, afirmava: “…o
desenvolvimento de cultivares geneticamente modificadas para
combater a pobreza contém um imperativo moral obrigatório…”,
concluindo, após 18 meses de estudos, que não há fundamentos para
a proibição no Reino Unido de cultivares e alimentos OGM.
Nesta mesma linha de argumentação, em artigo publicado no
site do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, intitulado
“As Promessas das Plantas da Biotecnologia”, no tópico O Potencial da
Biotecnologia Vegetal, verbis:

20 BIOTECNOLOGIA CIÊNCIA & DESENVOLVIMENTO, 12/2000, p. 4-8, entrevista concedida a Maria Fernanda Diniz
Avidos e Lucas Tadeu Ferreira, veiculada na matéria Os transgênicos e o futuro da agricultura.
21 INFORME AGROPECUÁRIO, v. 21, n.º 204, maio/junho de 2000, p. 14-19, Empresa de Pesquisa Agropecuária de MG.

266 Bruno Gasparini


A população mundial está crescendo vertiginosamente,
enquanto a área de solo arável disponível para a produção de
alimentos está cada vez mais reduzida. Nunca foi tão necessário
o emprego de uma nova tecnologia agrícola como agora.
A Organização Mundial de Saúde prevê que para o ano
2025:
A população global deverá aumentar em 38%, de 5,8
bilhões em 1998 para 8 bilhões.
O solo de primeira qualidade disponível para a agricultura
deverá permanecer em aproximadamente 1% do volume de terra
no mundo.
A expectativa de vida em todo o mundo deverá passar da
média atual de 68 anos para 73 anos.
Além disso, à medida que melhora o padrão de vida, o
consumo de carne e, portanto, a demanda por ração animal
aumentam.
O que os agricultores podem fazer? Para produzir
alimentos em quantidade suficiente para alimentar o número
crescente de pessoas, os produtores necessitarão de plantas que
produzam mais e que necessitem de menor quantidade de
insumos, tais como solo, água, combustíveis fósseis, inseticidas,
fungicidas e herbicidas.
Muito embora os métodos tradicionais de reprodução de
plantas e a química agrícola tenham aumentado os rendimentos
consideravelmente a partir dos anos 60, novas tecnologias que
conservem o meio ambiente e que gerem mais alimentos
nutritivos se farão necessárias. E aí surge a biotecnologia, que
permite aos pesquisadores desenvolverem plantas com caracte-
rísticas benéficas, aumentando a variedade de plantas
produzidas e, ao mesmo tempo, reduzindo o custo de produção e
protegendo o solo.22

Em informativo produzido e veiculado pela empresa Monsanto,


no qual se respondem às questões mais usuais em matéria de
transgênicos e biotecnologia, a resposta à pergunta sobre se os
alimentos originários da biotecnologia podem causar alergias e/ou
potencializar o efeito de substâncias tóxicas existentes em
quantidades inofensivas nos alimentos:

22 In: http:www.nal.usda.gov/bic site do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. Acesso em 22.08.2002.

O Risco Acerca da Utilização da Transgenia


(Organismos Geneticamente Modificados) na Agricultura Moderna
267
A Organização das Nações Unidas para Alimentação e
Agricultura (FAO) desenvolveu o critério de equivalência
substancial, o qual tem orientado a análise da segurança
alimentar dos alimentos provenientes da biotecnologia.
Ele se baseia em análises químicas e nutricionais para
identificação de semelhanças e diferenças entre cultivos
geneticamente modificados e seus pares convencionais, cuja
segurança já é conhecida. Conclusão: os cultivos geneticamente
modificados desenvolvidos até o momento têm composição igual
a das variedades convencionais. Em outras palavras, tomando-
se a soja geneticamente modificada como exemplo, não existe um
único caso documentado de reação adversa que não tenha
ocorrido igualmente nas duas variedades porque ela é
equivalente à soja tradicional.
Ou seja, quem tem alergia à soja comum tem alergia a
qualquer soja. A modificação genética não interfere no potencial
alergênico dos alimentos. Pelo mesmo motivo – porque há
equivalência substancial entre os cultivos geneticamente
modificados e as variedades convencionais correspondentes –
não há possibilidade de que substâncias tóxicas existentes em
quantidades inofensivas nos alimentos possam ter sua ação
potencializada ou, ao contrário, que a ação de substâncias
benéficas possa ser diminuída.23

Nas palavras de Jorge Alberto Quadros Carvalho e Silva:

O site da Monsanto informa que a empresa, em


colaboração com a Agência para o Desenvolvimento Internacional
dos Estados Unidos, está trabalhando com cientistas do Quênia,
um país com 26 milhões de pessoas, 96% passando fome, para
o desenvolvimento da batata-doce com resistência ao vírus FMV
através da biotecnologia. Essas lavouras, protegidas contra
viroses e outras doenças, decerto viabilizariam a produção
sustentável de alimentos pelo agricultor africano.24

É justamente este o ponto que combatem os posicionados


contra esta inovação, alegando que o problema se encontra na
distribuição da renda e dos produtos, pois estes existem e são
suficientes a todos, mas só chegam aos governos que podem adquiri-
23 In: http:www.monsanto.com.br; site da Empresa Monsanto do Brasil. Acesso em 15.02.2002.
24 CARVALHO SILVA, Jorge Alberto Quadros. “Alimentos Transgênicos: Aspectos Ideológicos, Ambientais, Econômicos,
Políticos e Jurídicos”, In: Revista Biodireito, p. 328.

268 Bruno Gasparini


los e mesmo assim, continuam sendo mal distribuídos, o problema é
estrutural. Ademais, os riscos para a saúde humana e o meio
ambiente ainda são incalculáveis, imprevisíveis, mas presentes e não
descartados por pesquisa alguma.
As palavras de Rubens Onofre Nodari, presidente da Sociedade
Brasileira de Genética – Regional de Santa Catarina, corroboram esse
posicionamento:

O fato de que esta mesma soja tenha sido liberada em outros países
não é garantia que ela é segura e não causa danos à saúde. Esta opinião
é compartilhada por inúmeros cientistas, políticos e organizações não-
governamentais. Recentemente, o Secretário de Meio Ambiente do Estado
Scheleswig-Holstein, Alemanha, afirmou que os padrões dos testes atuais
não são rigorosos o suficiente. Experiências anteriores com agrotóxicos
comprovam isto. A morte de 37 pessoas e seqüelas em outras 1.500
causada pelo consumo do triptofano fabricado por um organismo
transgênico, oficialmente testado e liberado nos Estados Unidos, também
ilustra que os testes não são eficientes para assegurar o nível de risco para
a saúde humana. Atualmente, poucos países liberaram plantas
transgênicas para cultivo. Além disso, nem todos os testes necessários para
garantir uma decisão segura foram feitos com a soja transgênica, mesmo
nos países onde foi desregulamentada.25

Diante das assertivas anteriores, acreditamos ser impossível


posicionar-se contra ou a favor de determinada inovação tecnológica,
em particular os transgênicos, pois a especulação e interesses
financeiros que envolvem a questão, pode tornar as opiniões parciais
e as pesquisas encomendadas, sem o verdadeiro compromisso com o
efetivo esclarecimento de determinada situação. Portanto, os riscos
para a saúde e meio ambiente não podem ser visionados, mas muito
menos descartados, sendo que a grande solução é a precaução,
insculpida em princípio basilar do direito ambiental.

5. CONCLUSÃO

Na sociedade moderna, podemos visualizar que os avanços


tecnológicos proporcionados pelo desenvolvimento nos causam cada
vez mais problemas, ao invés de nos apresentar soluções. Como não
podemos racionalizar as incertezas através da probalidade e da esta-

25 In: http:www.monsanto.com.br; site da empresa Monsanto do Brasil. Acesso em 15.02.2002.

O Risco Acerca da Utilização da Transgenia


(Organismos Geneticamente Modificados) na Agricultura Moderna
269
tística, as indeterminações tomam lugar comum no contexto
contemporâneo, e somos obrigados a conviver com o risco e a
iminência da catástrofe, somos abalroados por uma crise existencial
e tomados por um estado de pânico, devido à impossibilidade de
controlar os efeitos advindos de nossas próprias decisões, calcadas,
na maioria das vezes, em interesses econômicos, que não
salvaguardam o homem, os animais ou os ecossistemas.
Os interessados na adoção de novas tecnologias, no caso em
análise, a transgenia, argumentam a inexistência do risco, e são
completamente irresponsáveis quanto às suas afirmações. É um
direito inerente à sociedade e ao consumidor conhecer as dimensões
do problema, as características e a natureza do risco deste novo
empreendimento. Se possuidora das informações corretas, não
apenas as que são institucionais, ou financiadas pelas
transnacionais sementeiras, a sociedade poderá debater a
problemática, tomando conhecimento do que pode ocorrer e
decidindo, por si própria, qual política será adotada, dentre as
diversas alternativas apresentadas.
Mesmo que decida pela utilização da transgenia, a sociedade
terá a consciência do porquê escolheu este caminho, pois terá sido
informada dos acontecimentos de forma imparcial, e não de maneira
manipulada, como atualmente vêm ocorrendo. Quem decidirá o
futuro dos Organismos Geneticamente Modificados é o consumidor,
pois não existem produtos melhores ou piores, se estes não são
aceitos pelo mercado, e não se convertem em lucros para os
detentores das patentes.
Ademais, pelo que visualisamos no atual ordenamento jurídico
relativo à biossegurança, a gestão dos riscos ambientais está sendo
negligenciada, pois os instrumentos que estão sendo ofertados, não
são capazes de abarcar todas as inúmeras situações que podem
ocorrer, tanto nos aspectos ecológicos, quanto políticos, como
culturais. Até mesmo a responsabilização e as obrigações ainda não
estão definidas, visto que os agricultores não podem arcar sozinhos
com os riscos de uma tecnologia que não foi por eles criada, mas
apenas utilizada; empresas sementeiras e governo tentam eximir-se
de sua parcela de responsabilidade, obrigando os agricultores que se
utilizarem da nova tecnologia a assinarem termos de ajustamento de
conduta, se comprometendo a arcar com os prejuízos porventura
advindos de sua escolha.
Tal conduta governamental não é condizente com os
regramentos constitucionais, pois cabe ao Poder Público preservar a

270 Bruno Gasparini


diversidade e a integridade do patrimônio genético do país, além de
fiscalizar as entidades dedicadas à pesquisa e manipulação do
material genético (art. 225, § 1.º, I, CF). Assim, não é lícito admitir a
utilização dos Organismos Geneticamente Modificados no país, até
que haja a comprovação científica de que estes não causarão danos
à integridade do nosso patrimônio genético. Transferir essa
responsabilidade aos agricultores é impossível, pois a fiscalização
compete ao Poder Público. Assim, até que esta contenda esteja
dirimida e seja definida uma orientação única quanto à problemática,
pautada num ordenamento jurídico com caráter definitivo em relação
à biossegurança, o governo deveria orientar-se pelo princípio basilar
do direito ambiental, o princípio da precaução, com o intuito de
diminuir ao máximo a possibilidade de eventos danosos irreparáveis.

REFERÊNCIAS
APINCO’2000, Conferência de Ciência e Tecnologia Avícolas, Anais, volume 2, p. 198-200.
BIOTECNOLOGIA, CI NCIA & DESENVOLVIMENTO, 12/2000, p. 4-8, entrevista concedida a
Maria Fernanda Diniz Avidos e Lucas Tadeu Ferreira, veiculada na matéria Os transgênicos
e o futuro da agricultura.
CARVALHO SILVA, Jorge Alberto Quadros. “Alimentos Transgênicos: Aspectos Ideológicos,
Ambientais, Econômicos, Políticos e Jurídicos”, In: Revista Biodireito, p. 326-346.
DE GIORGI, Raffaele. “O risco na sociedade contemporânea”. In: Revista Seqüência. Revista
do Curso de Pós-Graduação em Direito da Universidade Federal de Santa Catarina, jun.,
1994, n.º 28.
INFORME AGROPECUÁRIO, v. 21, n.º 204, maio/junho de 2000, p. 14-19, Empresa de
Pesquisa Agropecuária de MG.
JONAS H. The imperative of responsability. Chicago: University of Chicago Press, 1984.
REISS, M. J.; STRAUGHAN R. Improving nature? The science and ethics of genetic
engineering. Cambridge, UK: Cambridge University Press, 1996.
SANTOS, Boaventura de Sousa. A crítica da razão indolente: contra o desperdício da
experiência. Porto: Afrontamento, 2000.
SEED NEWS, n.º 1, set., 1997, p. 30-39, Biotecnologia cria a nova agricultura, com a
colaboração de Roberto Rissi, da Cargill; Jorge de Souza, da Zêneca; Alberto Leonardo, da
Josapar; Lineu Rodrigues, da Agroceres; e Rodrigo L. Almeida, da Monsanto.
SOUZA, Ernesto de. “A Nova Fronteira Agrícola”. Revista Globo Rural. [Internet]
http://globorural.globo.com/mensal/materias/repvio2.htm [Acesso em 15.Abr.2002].

O Risco Acerca da Utilização da Transgenia


(Organismos Geneticamente Modificados) na Agricultura Moderna
271
Cidadania ambiental cosmopolita –
Um conceito em construção
Tiago Fensterseifer1

There are one hundred and ninety-three living species of


monkeys and apes. One hundred and ninety-two of them
are covered with hair. The exception is a naked ape self-
named Homo sapiens. This unusual and highly successful
species spends a great deal of time examining his higher
motives and an equal amount of time studiously ignoring
his fundamental ones. He is proud that he has the biggest
brain of all the primates… I am a zoologist and the
naked ape is an animal.2

1. INTRODUÇÃO – O QUADRO DA INDOLÊNCIA HUMANA

O ser humano, enquanto espécie animal, vive uma


crise existencial. A natureza animal (selvagem) é
abstraída por completa da identidade humana e sobre ela consolidada a
compreensão antropocêntrica do mundo. Além de romper com a sua
gênese e identidade animal (e os ecossistemas em si), tal concepção de
mundo afirma de modo absoluto a separação cartesiana entre homem e
natureza. Chegamos ao absurdo da condição (des)humana!
O que se verifica, em verdade, é a face(ta) da compreensão
filosófica antropocêntrica, que guia a razão humana desde a
modernidade, empurrando o ser humano rumo a um penhasco
existencial. O afastamento do ser humano da sua matriz natural
rompe de forma definitiva com a teia da vida, como preconizada
Fritjof Capra,3 colocando em risco todas as espécies que habitam a
casa planetária (incluindo o próprio ser humano).
1 Graduado em Ciências Jurídicas e Sociais pela PUCRS. Membro do NEPAD – Núcleo de Estudos e Pesquisa “Ambiente
e Direito” da PUCRS.
2 MORRIS, Desmond. The naked ape. New York: Dell, 1969, p. 9. “Existem cento e noventa e três espécies de macacos.
Cento e noventa e duas delas são cobertas de pêlo. A exceção é um macaco pelado autodenominado Homo sapiens.
Esta espécie incomum e extremamente bem-sucedida passa grande parte do seu tempo examinando suas motivações
superiores e um igual tempo diligentemente ignorando as que lhe são fundamentais. Ela se orgulha de ter o maior
cérebro entre todos os primatas... Eu sou um zoólogo e o Homo sapiens é um animal” (tradução livre do autor).
3 CAPRA, Fritjof. A Teia da Vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. São Paulo: Cultrix, 1996.

Cidadania ambiental cosmopolita –


Um conceito em construção 273
Num quadro de catástrofes e destruição ambiental sem
precedentes na História,4 a dimensão global da problemática
ambiental impõe uma reorganização política dos Estados nacionais
rumo à estruturação de uma nova ordem jurídica e política
internacional, no intuito dar respostas concretas às referidas aporias
contemporâneas. Para tanto, é necessário que os mesmos valores e
princípios que fundamentam os Estados de Direito Democráticos
Constitucionais sejam garantidos e efetivados também no plano
internacional. Entre eles, destacam-se o princípio democrático e a
cidadania ambiental como elementos fundamentais para a
construção geopolítica e jurídica da nova ordem mundial.
A atuação participativa e deliberativa da sociedade civil e dos
movimentos sociais no processo de formulação das decisões e
vontade política é elemento fundamental para a superação do
momento de risco ambiental vivenciado pela civilização pós-moderna.
Nesse contexto, projeta-se a figura da cidadania ambiental
cosmopolita, enquanto condição política supraterritorial que
reconhece a dimensão planetária da crise ambiental, bem como
afirma o princípio democrático para além das fronteiras nacionais.

2. SOCIEDADE DE RISCO MUNDIAL – ADMIRÁVEL MUNDO


TECNOLÓGICO

Os livros e o barulho intenso, as flores e os choques


elétricos – já na mente infantil essas parelhas estavam ligadas
de forma comprometedora; e, ao cabo de duzentas repetições da
mesma lição, ou de outra parecida, estariam casadas
indissoluvelmente. O que o homem uniu, a natureza é incapaz de
separar. Elas crescerão com o que os psicólogos chamavam um
ódio ‘instintivo’ aos livros e às flores. Reflexos inalteravelmente
condicionados. Ficarão protegidas contra os livros e a botânica
por toda a vida.5

A máxima de Hobbes6 elaborada no século XVIII, ao afirmar que “o

4 “Sob o pretexto de ‘progresso industrial’, sucederam-se, nos últimos anos, catástrofes ecológicas em todo o planeta,
tais como as de Three Miles Island (200.000 pessoas evacuadas), Seveso (37.000 pessoas contaminadas), Bophal
(2.800 mortos, 20.000 feridos), Tchernobil (300 mortos, 50.000 expostos à radioatividade), Guadalajara (200
mortos, 20.000 sem-teto), a do sangue contaminado, do hormônio do crescimento, do amianto, da ‘vaca louca’,
do tabaco, do diesel...” RAMONET, Ignácio. Geopolítica do caos. Tradução de Guilherme João de Freitas Teixeira. 4.ª
ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1998, p. 81.
5 Na passagem citada, Huxley descreve o condicionamento sofrido pelos personagens do seu livro para despertarem
indiferença e repúdio ao meio natural e ao conhecimento, retratando a separação cartesiana entre homem e
natureza. HUXLEY, Aldous. Admirável Mundo Novo. 18.ª ed. São Paulo: Globo, 1992, p. 24.

274 Tiago Fensterseifer


homem é o lobo do homem”, ajusta-se perfeitamente ao comportamento
do ser humano contemporâneo. Porém, hoje, o homem não é apenas o
lobo do homem, mas de todo o planeta Terra. A sua voracidade é
amparada em um arsenal de instrumentos tecnológicos sem
precedentes na história, bem como sua capacidade de destruição em
massa do meio natural e da própria espécie humana não encontra
limites planetários, colocando a sociedade mundial em risco de extinção.

Os sociólogos descrevem a sociedade atual, já obviamente


pós-industrial, como uma ‘sociedade de risco’ (Beck) ou uma
‘sociedade do desaparecimento’ (Breuer), na medida em que
corre ‘perigos ecológicos’ (e perigos genéticos) ou, segundo
alguns, caminha mesmo, por força do seu próprio movimento,
para a destruição das condições de vida naturais e sociais (e da
própria pessoa) – é dizer, na medida em que ocorre o perigo de
passar, ou transita efetivamente, da auto-referência
(autopoiesis) para a autodestruição. 7

8
Os avanços científicos e tecnológicos operados pela ciência
9
moderna, a partir da revolução científica dos séculos XVI e XVII –
pelas mãos de Copérnico, Descartes, Bacon, Galileu e Newton –
serviram, e ainda servem, de instrumento de dominação e degradação
dos recursos naturais. O conhecimento tecnológico e científico, que
deveria ter o desenvolvimento, o bem-estar social e a qualidade e a
dignidade da vida humana como suas finalidades maiores, passa a
ser, com todo o seu poder de criação e destruição, a principal ameaça
à manutenção e à sobrevivência da espécie humana, assim como de
todo ecossistema planetário.10

6 HOBBES, Thomas. Leviatã – ou, Matéria, forma e poder de um estado eclesiástico e civil. São Paulo: Abril Cultural, 1983.
7 ANDRADE, José Carlos Vieira de. Os direitos fundamentais na Constituição Portuguesa de 1976. 2.ª ed. Coimbra:
Almedina, 2001, p. 61.
8 O geógrafo brasileiro Milton Santos leciona que “o desenvolvimento da história vai de par com o desenvolvimento
das técnicas. Kant dizia que a história é um progresso sem fim das técnicas. A cada evolução técnica, uma nova
etapa histórica se torna possível”. SANTOS, Milton. Por uma outra globalização – Do pensamento único à consciência
universal. 6ª. ed. Rio de Janeiro: Record, 2001, p. 24.
9 “Nos séculos XVI e XVII, a visão de mundo medieval, baseada na filosofia aristotélica e na teologia cristã, mudou
radicalmente. A noção de um universo orgânico, vivo e espiritual foi substituída pela noção do mundo como uma
máquina, e a máquina do mundo tornou-se a metáfora dominante da era moderna. Essa mudança radical foi
realizada pelas novas descobertas em física, astronomia e matemática, conhecidas como Revolução Científica e
associadas aos nomes de Copérnico, Galileu, Descartes, Bacon e Newton”. CAPRA, op. cit., p. 34.
10 “O senso comum e a ciência são expressões da mesma necessidade básica, a necessidade de compreender o mundo,
a fim de viver melhor e sobreviver. Para aqueles que teriam a tendência de achar que o senso comum é inferior à
ciência, eu só gostaria de lembrar que, por dezenas de milhares de anos, os homens sobreviveram sem coisa alguma
que se assemelhasse à nossa ciência. Depois de cerca de quatro séculos, desde que surgiu com seus fundadores,
curiosamente a ciência está apresentando sérias ameaças à nossa sobrevivência”. ALVES, Rubem. Filosofia da
Ciência: introdução ao jogo e suas regras. 3.ª ed. São Paulo: Loyola, 2001, p. 21.

Cidadania ambiental cosmopolita –


Um conceito em construção 275
O método científico cartesiano, que orientou nos últimos séculos
a pesquisa em praticamente todas as áreas do conhecimento, mostra-
se indiferente à vida, porquanto compartimenta e disseca a realidade
do objeto estudado a tal ponto que não é mais permitido ao cientista
visualizá-lo em relação ao contexto onde está inserido, não
acompanhando a sua dinâmica. Estruturada na máxima da verdade
universal e em uma metodologia rígida, a ciência moderna acreditava
na neutralidade do cientista. Será possível tal neutralidade? Com
certeza, a resposta é negativa. O que se conhece é o olhar do cientista
sobre o seu objeto de pesquisa e não a coisa em si. A complexidade do
mundo contemporâneo não contempla mais o pensamento científico
que, ao retirar o objeto do seu contexto social e ambiental para estudá-
lo, não considere tais dimensões no momento de instrumentalizá-lo.11
A compreensão de um pensamento complexo e crítico constitui-
se de pressuposto indispensável ao estudo da realidade contem-
porânea. Longe dos maniqueísmos e todos os demais “ismos” que
circulam no universo científico, os problemas enfrentados pela
humanidade não comportam olhares simplistas e superficiais. Cada
vez mais os elementos que compõem a realidade do mundo são mais
diversificados e complexos, demandando por um estudioso atento a tal
contexto científico e real. Talvez no topo dos desafios mais complexos a
que se defronta a Humanidade desponte a questão ambiental.

Devemos pensar em termos planetários a política, a


economia, a demografia, a ecologia, a salvaguarda dos tesouros
biológicos, ecológicos e culturais regionais – por exemplo, na
Amazônia, ao mesmo tempo as culturas indígenas e a floresta –,
das diversidades animais e vegetais, das diversidades culturais
– frutos de experiências multimilenares que são inseparáveis das
diversidades ecológicas, etc. Mas não basta inscrever todas as
coisas e os acontecimentos num ‘quadro’ ou ‘horizonte’
planetário. Trata-se de buscar sempre a relação de
inseparabilidade e de inter-retro-ação entre todo fenômeno e seu
contexto, e de todo contexto com o contexto planetário.12

A partir da constatação do perigo e da ameaça que ora se


contrapõem à existência humana e à vida em todas as suas formas,

11 Para uma melhor compreensão crítica do método científico cartesiano, ver CAPRA, Fritjof. A Teia da Vida. São Paulo:
Cultrix, 1996; CREMA, Roberto. Introdução à Visão Holística. São Paulo: Summus, 1989; ALVES, Rubem. Filosofia da
Ciência: introdução ao jogo e a suas regras. São Paulo: Loyola, 2001; SANTOS, Boaventura de Sousa. A Crítica da
Razão Indolente: contra o desperdício da experiência. São Paulo: Cortez, 2001.
12 MORIN, Edgar; KERN, Anne Brigitte. Terra-Pátria. 3.ª ed. Porto Alegre: Sulina, 2002, p. 158.

276 Tiago Fensterseifer


impõe-se ao ser humano, como único ser consciente do momento de
risco13 que vivenciamos, a assunção de suas responsabilidades na
árdua tarefa de reverter esta situação em favor da vida. Nesse
contexto, tomando por base os perigos tecnológicos que expõem a
própria sobrevivência planetária, construiu-se a partir das ciências
sociais a teoria da sociedade de risco.

A noção de sociedade de risco foi elaborada pelo sociólogo


alemão Ulrich Beck, através da obra Risikogeselshaft, lançada
em 1986, na Alemanha, onde coloca as origens e as
conseqüências da degradação ambiental no centro da sociedade
moderna – é a ameaça de autodestruição que caracteriza a
sociedade da última metade do século XX. Embora Beck utilize a
idéia de riscos e perigos para se referir a muitas áreas da vida
social, estas idéias são analisadas mais minuciosamente na
equação dos riscos e perigos relativamente à degradação do
meio ambiente. No entanto, a idéia central da sociedade de risco
é a complexidade técnica das novas sociedades.14

A instrumentalização do arsenal científico e tecnológico pós-


moderno, na grande maioria das vezes a serviço do interesse
econômico, coloca o ser humano como, dentre todas as espécies que
já habitaram o planeta Terra, a mais destrutiva e ameaçadora.

Solamente con la supremacía del pensamiento y con el


poder de la civilización técnica posibilitada por él, una forma de
vida, ‘el hombre’, se ha colocado en situación de poner en peligro
a todas las demás formas de vida y, con ellas, a sí mismo. No
pudo ‘la naturaleza’ incurrir en mayor riesgo que el de hacer
surgir al hombre.15

O cenário de constantes degradações ambientais que se registra


cotidianamente nas realidades local e global, provocadas pela ação
antrópica no meio natural, coloca homens e mulheres contem-

13 LEITE e AYALA apontam para a teoria da sociedade de risco, sob a ótica do direito ambiental. “A sociedade
capitalista e o modelo de exploração capitalista dos recursos economicamente apreciáveis se organizam em torno
das práticas e comportamentos potencialmente produtores de situações de risco. Esse modelo de organização
econômica, política e social submete e expõe o ambiente, progressiva e constantemente, ao risco”. LEITE, José
Rubens Morato; AYALA, Patryck de Araújo. Direito Ambiental na Sociedade de Risco. Rio de Janeiro: Forense
Universitária, 2002, p. 103.
14 ALBUQUERQUE, Letícia. Os dilemas da sociedade biotecnológica: o impacto da biotecnologia na condição humana.
Anais do 3.º Congresso Brasileiro do Ministério Público de Meio Ambiente e do 2.º Seminário Regional do Instituto
“O Direito por um Planeta Verde”. Porto Alegre: Corag, 2003, p. 65.
15 JONAS, Hans. El Principio de Responsabilidad: ensayo de una ética para la civilización tecnológica. Barcelona: Herder,
1995, p. 229.

Cidadania ambiental cosmopolita –


Um conceito em construção 277
porâneos diante de um desafio sem precedentes na história. O
Preâmbulo da Agenda 21 descreve e alerta para esta realidade, ao
referir que “vivemos um momento de definição histórica”.

A humanidade encontra-se em um momento de definição


histórica. Defrontamo-nos com a perpetuação das disparidades
existentes entre as nações e no interior delas, o agravamento da
pobreza, da fome, das doenças e do analfabetismo, e com a
deteriorização contínua dos ecossistemas de que depende nosso
bem-estar. Não obstante, caso se integrem as preocupações
relativas ao meio ambiente e desenvolvimento e a elas se
dedique mais atenção, será possível satisfazer às necessidades
básicas, elevar o nível da vida de todos, obter ecossistemas
melhor protegidos e gerenciados e construir um futuro mais
próspero e seguro. São metas que nação alguma pode atingir
sozinha; juntos, porem, podemos – em uma associação mundial
em prol do desenvolvimento sustentável.16

O Relatório “O Nosso Futuro Comum”17 da Comissão Mundial


sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento da Organização das Nações
Unidas, publicado no ano de 1987, já apontava para a importância de
uma compreensão comum da responsabilidade de todos, Estados e
cidadãos, na reconstrução geopolítica do nosso mundo dividido. O
relatório prega um apelo a que as pessoas, mas também os Estados,
se voltem para a compreensão de que o futuro de todos, em todos os
cantos do planeta Terra, é comum. Ou ele existirá para todos, ou ele
não existirá para ninguém.
O princípio da precaução,18 também compreendido aqui o
princípio da prevenção,19 declara o compromisso que todos temos para

16 Preâmbulo da Agenda 21, Capítulo 1, Subitem 1.1. Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e
Desenvolvimento. 3.ª ed. Brasília: Senado Federal, Subsecretaria de Edições Técnicas, 2001, p. 9.
17 NOSSO FUTURO COMUM (Brundtland Report) – Relatório da Comissão Mundial de Meio Ambiente e Desenvolvimento
da ONU, 1987. 2.ª ed. Rio de Janeiro: Fundação Getulio Vargas, 1991.
18 O princípio da precaução está expresso no Princípio 15 da Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e
Desenvolvimento. “Com o fim de proteger o meio ambiente, o princípio da precaução deverá ser amplamente
observado pelos Estados, de acordo com suas capacidades. Quando houver ameaça de danos graves ou irreversíveis,
a ausência de certeza científica absoluta não será utilizada como razão para o adiamento de medidas
economicamente viáveis para prevenir a degradação ambiental”. CONFERÊNCIA DAS NAÇÕES UNIDAS SOBRE MEIO
AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO (RIO DE JANEIRO: 1992). Brasília: Senado Federal, Subsecretaria de Edições
Técnicas, 2001. No direito brasileiro, o princípio da prevenção pode ser verificado no art. 225, § 1.°, V, da
Constituição Federal de 1988, bem como através do Art. 54, § 3.°, da Lei 9.605/98 (Lei dos Crimes Ambientais).
19 É importante frisar a autonomia conceitual que guardam entre si os princípios da precaução e da prevenção. “O
traço essencial que afasta e delimita os dois conceitos é o da identificação ou não de um dado risco. A prevenção
exige claramente a adoção de medidas contra riscos já identificados. Já o vorsorgeprinzip alerta para a necessidade
de agir contra a emergência de riscos cuja existência ou dimensão ainda não foi demonstrada, ou mesmo a
necessidade de agir na ausência de riscos, designadamente postulando a não perturbação de um dado recurso
ambiental como forma de gestão cautelosa do futuro”. MARTINS, Ana Gouveia e Freitas. O princípio da precaução
no direito do ambiente. Lisboa: Associação Acadêmica da Faculdade de Direito de Lisboa, 2002, p. 25.

278 Tiago Fensterseifer


com as futuras gerações, num âmbito de justiça e eqüidade
intergeracional, ademais de firmar as responsabilidades éticas que
temos na utilização de tecnologias que alterem o estado natural dos
ecossistemas e da vida em geral.20 Entre outras coisas, o referido
princípio condiciona uma ação responsável e cautelosa do
homem/mulher na aplicação de tecnologias que possam – mesmo que
remotamente – comprometer a vida e a qualidade ambiental. A
expressão latina in dubio pro utilizada comumente no Direito Penal para
determinar quem deve ser favorecido com o juízo de dúvida, no Direito
Ambiental é aplicada invariavelmente como in dubio pro “ambiente”.

O princípio da precaução, como estrutura indispensável ao


Estado de justiça ambiental, busca verificar a necessidade de
uma atividade de desenvolvimento e os potenciais de risco ou
perigo desta. Parte-se dos pressupostos que os recursos
ambientais são finitos e os desejos e a criatividade do homem
infinitos, exigindo uma reflexão através da precaução, se a
atividade pretendida, ou em execução, tem como escopo a
manutenção dos processos ecológicos e de qualidade de vida.21

O princípio da precaução,22 que deve necessariamente orientar as


políticas públicas, é constantemente acusado de anti-desenvol-
vimentista ou mesmo anti-progressista, principalmente por empreen-
dedores de novas tecnologias ou conhecimentos como as indústrias
química e biotecnológica. No entanto, para a sua implementação, deve-
se buscar no princípio da proporcionalidade a ponderação dos valores e
princípios, geralmente de natureza econômica, que conflitam com a
proteção ambiental, a fim de extrair desse contexto a decisão política e
a solução para o caso concreto mais apropriadas.
Em obra sobre a globalização, Milton Santos sugere o mundo como
uma grande fábula, onde “a promessa de que as técnicas

20 Nesse sentido, a evidenciar o princípio da precaução no cenário jurídico brasileiro, a paradigmática decisão do Juiz
Federal Antônio Souza Prudente verificada na ação civil pública ajuizada pelo Instituto Brasileiro de Defesa do
Consumidor – IDEC contra a UNIÃO FEDERAL, a MONSANTO DO BRASIL LTDA. e a MONSOY LTDA., que condenou a
União Federal a exigir a realização de prévio Estudo de Impacto Ambiental da MONSANTO DO BRASIL LTDA. para
liberação de espécies geneticamente modificadas e de todos os outros pedidos formulados à CTNBio, declarando a
inconstitucionalidade do inciso XIV do Art. 2, do Decreto n.º 1.752/95, bem assim das Instruções Normativas n.OS
03 e 10 – CTNBio, no que possibilitam a dispensa do EIA/RIMA (PROCESSO N.º 1998.34.00.027682-0, CLASSE 7100,
6.ª Vara da Justiça Federal, DF).
21 LEITE, José Rubens Morato. Dano ambiental: do individual ao coletivo extrapatrimonial. São Paulo: Revista dos
Tribunais, 2000, p. 50-51.
22 “No Art. 5.º do projeto de Código ambiental alemão, o princípio da precaução vem definido nos seguintes termos:
1. Os riscos para o ambiente e para os seres humanos devem, na medida do possível, ser excluídos ou minimizados,
em particular, através do planejamento em longo prazo e da adoção das precauções técnicas adequadas; 2. A
abordagem assente na precaução visa igualmente a proteção de grupos sensíveis e de elementos sensíveis dos
ecossistemas. Deve ser preservada uma margem para usos futuros e ecologicamente apropriados; 3. A qualidade do
ambiente deve ser melhorada em áreas afetadas e preservada em áreas não afetadas”. MARTINS, op. cit., p. 26-27.

Cidadania ambiental cosmopolita –


Um conceito em construção 279
contemporâneas pudessem melhorar a existência de todos cai por terra
e o que se observa é a expansão acelerada do reino da escassez, atingindo
as classes médias e criando mais pobres”.23 Não obstante as promessas
fascinantes do avanço científico, o que se verifica no contexto mundial é
um constante agravamento das desigualdades entre os países detentores
das tecnologias, e conseqüentemente do poder econômico, e os países
pobres, reféns dos seus desideratos políticos e econômicos.

Como conejos se reproducen los nuevos tecnócratas del


medio ambiente. Es la tasa de natalidad más alta del mundo: los
expertos generan expertos y más expertos que se ocupan de
envolver el tema en el papel celofán de la ambigüedad. Ellos
fabrican el brumoso lenguaje de las exhorbitaciones al ‘sacrificio
de todos’ en las declaraciones de los gobiernos y en los solemnes
acuerdos internacionales que nadie cumple. Estas cataratas de
palabras, inundación que amenaza convertirse en una catástrofe
ecológica comparable al agujero de ozono, no se desencadenan
gratuitamente. El lenguaje oficial ahoga la realidad para otorgar
impunidad a la sociedad de consumo, a quienes la imponen por
modelo en nombre del desarrollo y a las grandes empresas que
le sacan el jugo.24

O comércio internacional, característico por sua vocação para a


dominação e busca incansável por recursos naturais em todos os cantos
do globo terrestre desde as Cruzadas, apresenta-se em constante
metamorfose de atuação. Aponta-se hoje a biotecnologia como a sua obra-
prima mais audaz, e ao mesmo tempo mais letal, capaz de transformar em
capital todas as formas vivas, assim como pôr o ser humano à venda nos
mercados mundiais. Os elementos sociais, humanos e ambientais não
integram a fórmula do comércio internacional.

A entropia acelera-se, porque o mundo, apesar de notáveis


esforços retóricos, continua acentuando suas características e
relações reais: continua sendo financeiramente total, econo-
micamente global, politicamente tribal e ecologicamente letal.
Continua subordinando as questões éticas, políticas e sócio-
ambientais, ao imperativo absoluto e constantemente,

23 SANTOS, Milton. Por uma outra globalização – Do pensamento único à consciência universal. 6.ª ed. Rio de Janeiro:
Record, 2001, p. 118.
24 GALEANO, Eduardo. Úselo y tírelo: el mundo del fin del milenio visto desde una ecología latinoamericana. 5.ª ed.
Buenos Aires: Planeta, 2001, p. 9-10.

280 Tiago Fensterseifer


obstinadamente reforçado, das exigências do comércio
internacional.25

Como Aldous Huxley previu em seu “Admirável Mundo Novo”,26


a biotecnologia está próxima de comandar os rumos da própria
existência humana e, conseqüentemente, do planeta Terra. Os riscos
à saúde humana e ao meio ambiente, ou seja, à própria vida em si,
não parecem argumentos fortes o bastante para combater o interesse
econômico que fundamenta o discurso das empresas de biotecnologia
e dos seus prepostos comercias e políticos (oficiais e não-oficiais).
Enquanto isso, segue-se sonhando que um desenvolvimento
sustentável é possível.

3. GLOBALIZAÇÃO, ESTADO-NAÇÃO E CIDADANIA

A globalização ou mundialização, como a doutrina francesa


prefere referir, apresenta um espectro quase ilimitado de elementos na
sua composição (culturais, ambientais, sociais, humanos, políticos,
econômicos, etc.). Enquanto um processo em curso e até certo ponto
imprevisível, vai, ao passo que avança, instaurando nova face
geopolítica na composição mundial e provocando mudanças internas
e externas na concepção política moderna dos Estados nacionais. A
vontade econômica, como o carro-chefe a impulsionar os movimentos
da globalização para todos os espaços planetários, dita, em grande
medida, a forma e as regras deste novo “Novo Mundo” em formação.

A partir de uma determinada definição de globalização (em


termos de transformação da organização espacial das relações
sociais e privilegiamento das relações e exercício de poder ‘à
distância’ entre, dentro e para além dos Estados nacionais,
numa complexa e contraditória desterritorialização e reterri-
torialização do poder econômico, político e social), analisam-se os
processos de mudança estrutural da política mundial e da
própria figura do Estado-nação, assim como seus
desdobramentos diretos sobre as noções de soberania,
comunidade política e democracia, histórica e conceptualmente
atreladas a essa última.27

25 CAUBET, Christian Guy. A irresistível ascensão do comércio internacional: o meio ambiente fora da lei? Revista de
Direito Ambiental, n.º 22, abril-junho. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2001, p. 81.
26 HUXLEY, Aldous. Admirável Mundo Novo. 18.ª ed. São Paulo: Globo, 1992.
27 GÓMEZ, José Maria. Política e democracia em tempos de globalização. Petrópolis: Vozes, 2000, p. 9.

Cidadania ambiental cosmopolita –


Um conceito em construção 281
Nesse contexto, impõe-se uma releitura política da ordem
mundial. Os valores ambientais, latentes desde a década de 70 do
século XX nas novas construções sociais emergentes, passam, ou ao
menos assim deveriam, a compor o centro gravitacional da ordem
política contemporânea. A vida, diante do atual contexto de risco
ambiental, enquanto o valor maior da Humanidade, impõe tal “Virada
de Copérnico” à política mundial. Nesse processo em curso, as
primeiras transformações políticas são perceptíveis na estrutura
soberana dos Estados nacionais, que, na medida em que não
encontram respostas nacionais para os desafios contemporâneos,
demonstram a sua fragilidade política para a solução de questões
ambientais e sociais.

Hoje percebe-se claramente que o sistema político


internacional baseado em Estados soberanos é cada vez menos
eficiente na manutenção da ordem. A crise sócio-ambiental global
e a erosão dos Estados-nação obrigam a repensar as bases da
política e o destino da humanidade. A emergência de um
ambientalismo global e multissetorial (com grande amplitude
teórica e prática) nos comunica com o passado e com o futuro,
apostando em gerar uma nova phylia que derrube os muros
nacionais da política e estenda seus alcances até os limites da
humanidade e do planeta.28

O Estado-nação, na sua concepção moderna, característico por


um modelo absoluto de soberania, não encontra mais corres-
pondência e possibilidade diante dos desafios contemporâneos,
principalmente naqueles tocantes ao meio ambiente e à ordem social.
É preciso que a soberania seja relativizada no plano externo.
Ferrajoli,29 ao afirmar a antijuridicidade e crise do conceito moderno
de soberania, aponta sua crítica para o absolutismo ainda exercido
pelos Estados nacionais ocidentais no que tange às suas relações
internacionais. Em outras palavras, apesar de fundarem-se sob a
égide dos direitos humanos fundamentais no plano interno dos seus
Estados de Direito, o mesmo não é verificado no âmbito externo, ou
seja, nas suas relações com os demais Estados, organizações e seres
humanos do planeta.

28 LEIS, Héctor Ricardo. A modernidade insustentável: as críticas do ambientalismo à sociedade contemporânea.


Petrópolis, RJ/Florianópolis, SC: Vozes/Editora da UFSC, 1999, p. 38.
29 FERRAJOLI, Luigi. A soberania no mundo moderno: nascimento e crise do Estado nacional. São Paulo: Martins Fontes,
2002, p. 46.

282 Tiago Fensterseifer


Repensar o Estado em suas relações externas à luz do
atual direito internacional não é diferente de pensar o Estado em
sua dimensão interna à luz do direito constitucional. Isso quer
dizer analisar as condutas dos Estados em suas relações entre
si e com seus cidadãos – as guerras, os massacres, as torturas,
as opressões das liberdades, as ameaças ao meio ambiente, as
condições de miséria e fome nas quais vivem enormes multidões
de seres humanos –, interpretando-as não como males naturais
e tampouco como simples ‘injustiças’, quando comparadas com
uma obrigação utópica de ser moral ou política, mas sim como
violações jurídicas reconhecíveis em relação à obrigação de ser
do direito internacional vigente, tal como ele já está vergado em
seus princípios fundamentais. Isso quer dizer, em poucas
palavras, conforme a bela fórmula de Ronald Dworkin, ‘levar a
sério’ o direito internacional: e, portanto, assumir seus princípios
como vinculadores e seu projeto normativo como perspectiva
alternativa àquilo que de fato acontece; validá-los como chaves
de interpretação e fontes de crítica e deslegitimação do existente;
enfim, planejar as formas institucionais, as garantias jurídicas e
as estratégias políticas necessárias para realizá-los.30

O Estado de Direito, conforme lição de Canotilho,31 apresenta as


seguintes dimensões fundamentais: juridicidade, democracia,
sociabilidade e sustentabilidade ambiental. A seqüência das
dimensões apresentada pelo constitucionalista português traça a
evolução civilizatória na conquista e reconhecimento dos seus valores
e princípios fundamentais. Desde a sua forma primitiva, o Estado de
Direito vem passando por um processo evolutivo contínuo,
reconhecendo e agregando novas dimensões jurídicas: o Estado
Constitucional, o Estado Democrático, o Estado Social e o Estado
Ambiental. Da mesma forma que ocorre com a evolução dos direitos
fundamentais, as dimensões do Estado de Direito se agregam e se
somam para formar o arcabouço de princípios e valores consagrados
pela Humanidade em seu processo histórico contínuo.
Para tanto, na proposição de uma democracia radical, a
configuração do Estado de Direito pressupõe uma sociedade civil
politizada, criativa e protagonista do cenário político estatal,
reclamando um indivíduo/cidadão autônomo, participativo, e não

30 FERRAJOLI, op. cit., p. 46.


31 CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Estado de Direito. Cadernos Democráticos n.º 7. Fundação Mário Soares. Lisboa:
Gradiva, 1998, p. 23.

Cidadania ambiental cosmopolita –


Um conceito em construção 283
submisso à máquina estatal. Em outras palavras, o Estado de Direito
constrói-se de cima para baixo e não de baixo para cima, a partir da
sua base democrática, em oposição ao Estado de Não-Direito. Bobbio,
sob a ótica dos Estado de Direito e dos Estado de Não-Direito, tece as
suas críticas ao sistema internacional de proteção aos direitos
humanos.

Chamamos de ‘Estados de direito’ os Estados onde


funciona regularmente um sistema de garantias dos direitos do
homem: no mundo, existem Estados de direito e Estados não de
direito. Não há dúvida de que os cidadãos que têm mais
necessidade da proteção internacional são os cidadãos dos
Estados não de direito. Mas tais Estados são, precisamente, os
menos inclinados a aceitar as transformações da comunidade
internacional que deveriam abrir caminho para a instituição e o
bom funcionamento de uma plena proteção jurídica dos direitos
do homem. Dito de modo drástico: encontramo-nos hoje numa
fase em que, com relação à tutela internacional dos direitos do
homem, onde essa é possível talvez não seja necessária, e onde
é necessária é bem menos possível.32

A relativização da soberania é imposta pela nova organização


política mundial em blocos econômicos, bem como pela inaptidão dos
Estados nacionais para lidar com interesses que ultrapassem as suas
fronteiras domésticas. Nesse quadro internacional, projetam-se novas
relações políticas, jurídicas e econômicas entre os protagonistas da nova
ordem política mundial em formação (organizações internacionais,
empresas transnacionais, organizações não-governamentais, movi-
mentos sociais mundiais, Estados nacionais, etc.). A estes será
incumbida a missão atuar no horizonte internacional e salvaguardar os
valores humanos e ambientais hoje ameaçados.

Fora do horizonte do direito internacional, de fato, nenhum


dos problemas que dizem respeito ao futuro da humanidade
pode ser resolvido, e nenhum dos valores do nosso tempo pode
ser realizado: não apenas a paz, mas tampouco a igualdade, a
tutela dos direitos de liberdade e sobrevivência, a segurança
contra a criminalidade, a defesa do meio ambiente concebido
como patrimônio da humanidade, conceito que também inclui as

32 BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. Tradução de Carlos Nelson Coutinho. 10.ª ed. Rio de Janeiro: Campus, 1992,
p. 41.

284 Tiago Fensterseifer


gerações futuras. E isso depende não apenas do caráter já global
do tamanho desses problemas, pois uma integração do mundo já
se realizou em todos os planos e em todas as esferas de vida em
relação às quais tais problemas se colocam: na economia, na
produção, na exploração e no aproveitamento dos recursos, nos
equilíbrios ecológicos, na grande criminalidade organizada, no
sistema de comunicações.33

É chegado o momento histórico destes valores já consagrados no


plano interno dos Estados e até certo ponto já idealizados para o plano
mundial,34 diante do esforço político necessário para lidar com as
questões ambientais e sociais, projetarem-se e institucionalizarem-se
para além das fronteiras domésticas dos países. Na reconstrução da
estrutura política mundial, os referidos valores e princípios que
fundamentam hoje os Estados nacionais, como as construções huma-
nas mais próximas do ideal humanitário, devem servir como o alicerce
dessa nova realidade política e jurídica global. Nesse sentido, Vieira de
Andrade aponta para o conceito de dignidade humana como
patrimônio espiritual comum da humanidade:

Há um conjunto de direitos fundamentais, do qual


decorrem todos os outros: o conjunto dos direitos que estão mais
intimamente ligados à dignidade e ao valor da pessoa humana e
sem os quais os indivíduos perdem a sua qualidade de homens.
E, esses direitos (pelo menos, esses) devem ser considerados
‘patrimônio espiritual comum da humanidade’ e não admitem,
hoje, nem mais de uma leitura, nem pretextos econômicos ou
políticos para a violação do seu conteúdo essencial.35

Nesse contexto, a dignidade humana deve ser a chave a abrir as


muralhas dos Estados nacionais e possibilitar o trânsito livre dos seres
humanos por todos os cantos do planeta, bem como o elemento a
restabelecer o elo perdido desde a modernidade entre homem e
natureza. No entanto, não menos importante que o reconhecimento e
respeito à dignidade humana pelas instituições supra-estatais e
Estados nacionais, é a tomada de consciência dos indivíduos acerca da
participação social na construção dessa nova ordem política mundial.

33 FERRAJOLI, Luigi. A soberania no mundo moderno: nascimento e crise do Estado nacional. São Paulo: Martins Fontes,
2002, p. 51.
34 Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 10 de dezembro de 1948.
35 ANDRADE, José Carlos Vieira de. Os direitos fundamentais na Constituição Portuguesa de 1976. 2.ª ed. Coimbra:
Almedina, 2001, p. 34.

Cidadania ambiental cosmopolita –


Um conceito em construção 285
4. CIDADANIA AMBIENTAL COSMOPOLITA – SOCIEDADE
CIVIL MUNDIAL

O problema crucial é: como passar de uma situação crítica


a uma visão crítica – e, em seguida, alcançar uma tomada de
consciência.36

A sociedade civil coloca-se hoje como a consciência política do


mundo. Na medida em que se verifica a inaptidão e incapacidade dos
Estados nacionais para lidar com diversas temáticas sociais
relevantes, a sociedade civil, geralmente em sua forma organizada,
passa a ocupar espaços políticos cada vez mais importantes.
Registra-se hoje a articulação de diversos movimentos sociais e
Organizações Não-Governamentais (ONG) em forma de rede e
coalizão, possibilitando a atuação conjunta de diversos atores sociais
regionais e internacionais na defesa de uma causa comum. Tal
articulação, que talvez tenha a sua representação máxima no Fórum
Social Mundial,37 possibilita unidade de atuação e força política para
a sociedade civil, vivenciando o local e o universal simultaneamente.

Em consonância com o que hoje se passa na vida e


funcionamento da Administração Pública, em geral, também ao
nível do direito do ambiente se defende com uma intensidade
acrescida a necessidade de não apenas os órgãos e agentes
administrativos, mas igualmente os diversos grupos sociais
existentes na comunidade, intervirem – não só de forma
consultiva, senão que também um papel ativo – nas tomadas de
decisão relevantes para o ambiente.38

Nessa teia social mundial, o elo de ligação é a informação.


Através das redes de informação, possibilitadas principalmente pela
Internet, as ONG’s e movimentos sociais trocam informações e
articulam com muito mais eficiência as suas ações políticas de forma
conjunta. A democratização e o acesso à informação configuram-se
como as principais armas à disposição da sociedade civil para cobrar
ações e responsabilidades de Estados e empresas privadas.39 Nesse

36 , SANTOS, Milton. Por uma outra globalização – Do pensamento único à consciência universal. 6.ª ed. Rio de Janeiro:
Record, 2001, p. 116.
37 CATTANI. Antonia David (Org.). Fórum Social Mundial: a construção de um mundo melhor. Porto Alegre/Petrópolis:
Editora da Universidade/UFRGS/Vozes/Unitrabalho/Corag/Veraz Comunicação, 2001.
38 DIAS, José Eduardo Figueiredo. Direito constitucional e administrativo do ambiente. Cadernos do Centro de Estudos
de Direito do Ordenamento, do Urbanismo e do Ambiente. Coimbra: Almedina, 2002, p. 20.
39 No Brasil, há o exemplo da Lei de Informação Ambiental, enquanto espaço aberto para o exercício democrático.

286 Tiago Fensterseifer


contexto, a velocidade com a que a informação circula possibilita a
articulação política quase que imediata dos grupos sociais
mobilizados na ação política.

Pode-se dizer que já há um início de materialização de uma


cidadania ativa global na emergência e na expansão de redes de
atividades transnacionais, concebidas como projetos e
realidades preliminares, abrangendo uma diversidade de
movimentos sociais transnacionais, associações ou grupos de
cidadãos, organizações internacionais não governamentais, etc.
(por exemplo, Anistia Internacional, Greenpeace, Médecins sans
Frontéres, movimentos de mulheres, ambientalistas, de defesa
dos direitos humanos). Tal ativismo transnacional, ao construir
espaços institucionais rudimentares de ação e lealdade
desenvolvidos em e através dos Estados, produz novas
orientações com relação à identidade e à comunidade política
que estão na base de uma ‘sociedade civil global’ em gestação.40

No cenário internacional, destacam-se algumas ONG’s


ambientalistas com alcance e representatividade mundial: Amigos da
Terra, Greenpeace, WWF, entre outras. No exemplo do Greenpeace,41
suas campanhas ultrapassam fronteiras locais e nacionais, buscando
uma ação política integrada no plano internacional. A projeção
mundial das ONG’s reflete a necessidade de uma ação conjunta e
integrada de diversas sociedades mundiais na proteção ambiental.

Esse tema do meio ambiente, percebido outrora como uma


questão à parte, é cada vez mais apreendido como transversal a
todos os campos. A proteção do meio ambiente impõe-se como um
imperativo comum ao conjunto das sociedades. A convicção de que
o planeta está em perigo aparece como uma das mais importantes
tomadas de consciência política deste final de século.42

O conceito de democracia se recria a cada nova tomada de


consciência política e avanço civilizatório. Não se pode aceitar a
fórmula democrática vendida pela modernidade como a sua
possibilidade última. A democracia vai ser sempre a bandeira na luta

40 GÓMEZ, José Maria. Política e democracia em tempos de globalização. Petrópolis/RJ: Vozes; Buenos Aires: CLACSO;
Rio de Janeiro: LPP – Laboratório de Políticas Públicas, 2000, p. 72.
41 Ver sites: www.greenpeace.org, www.greenpeace.org.br.
42 RAMONET, Ignácio. Geopolítica do caos. Tradução de Guilherme João de Freitas Teixeira. 4.ª ed. Petrópolis, RJ:
Vozes, 1998, p. 32.

Cidadania ambiental cosmopolita –


Um conceito em construção 287
contra a dominação e espoliação dos mais favorecidos economica-
mente para com os desprovidos de poder econômico. E, na medida em
que enfrenta novas realidades políticas e sociais, a democracia vai se
adaptando e transformando, mas sem nunca perder o seu ideal
emancipatório e libertário.

Certamente, não se deduz do anterior que o potencial


democrático das sociedades contemporâneas foi esgotado e que o
projeto e as forças da globalização dominante reinam com absoluta
hegemonia. Nesse sentido, basta lembrar o surgimento de várias
tendências de claro perfil contra-hegemônico, tanto no Norte quanto
no Sul, que abrangem desde os sinais de recomposição da
sociedade civil (movimentos sociais de base local e transnacional
que buscam uma visão de mundo alternativa, combinando
eqüidade social, sustentabilidade da biosfera e democracia
participativa substantiva; crescimento de comunidades de auto-
ajuda sobre bases locais), até as ostensivas manifestações de
oposição política e social (revoltas sociais, inúmeras greves – sendo
emblemática a da França em novembro/dezembro de 1995 –,
recentes triunfos eleitorais de oposição na França e na Grã-
Bretanha, conformação de alianças aglutinantes das forças de
oposição, etc.). Mas, para reverter as tendências dominantes, dada
a complexidade dos problemas e dos dilemas que geram, parece
evidente que se precisa bem mais do que a criação de condições
sociopolíticas favoráveis: é indispensável repensar as perspectivas
e as possibilidades da democracia e da cidadania à luz da
problemática ambivalente da globalização quando entendida em
um sentido mais amplo e diferente do dominante.43

Na nova fórmula democrática, evidenciado o seu caráter


supranacional e extraterritorial, a defesa do meio ambiente projeta-se
como um dos seus elementos mais importantes. A composição que se
extrai entre política e meio ambiente diz respeito diretamente com o
princípio democrático, pois está em contraposição à postura
opressora e dominante que o poder econômico impõe à grande
maioria dos habitantes mundiais.

El proyecto democrático y emancipatorio está en el centro,


tanto del ideario ecológico con en el de los movimientos sociales
populares. De este modo, es parte importante de la inspiración
43 GÓMEZ, José Maria. Política e democracia em tempos de globalização. Petrópolis/RJ: Vozes; Buenos Aires: CLACSO;
Rio de Janeiro: LPP – Laboratório de Políticas Públicas, 2000, p. 43-44.

288 Tiago Fensterseifer


política de un proyecto de sustentabilidad fuerte. Como en la
navegación de cabotaje, este proyecto se arriesga en la frontera
de los paradigmas de sustentabilidad. En este sentido, los
actores sociales que se organizan en torno a la idea de una
sustentabilidad fuerte podrían ser pensados como ‘viajantes
paradigmáticos’, en el sentido que Boaventura les confiere,
siendo estos actores aquellos que están entre las márgenes del
continente y de alta mar, del peligro y de la oportunidad, en
aguas y rutas poco previsibles, en la crisis de la esfera política
actual. Esto reinstala la discusión sobre las condiciones
necesarias para la articulación entre naturaleza y política – Bios
y Polis -; entre los territorios de lo público y lo privado,
particularmente transformados por las cuestiones de género, y,
finalmente, entre la sustentabilidad, la ciudadanía y la
democracia, como una aventura en curso que penetra y
sobrepasa los continentes exclusivamente ecológicos o de las
relaciones de género, insertándose entre los grandes dilemas
políticos de la sociedad contemporánea.44

O conceito de cidadania emerge com uma nova roupagem no


universo político e jurídico contemporâneo. As novas realidades
enfrentadas pelos cidadãos atingem cada vez mais uma dimensão
global, colocando os cidadãos de diferentes e longínquos países
diante dos mesmos problemas. Nesse contexto, a questão ambiental
coloca-se como a pedra fundamental da construção política hodierna,
impondo às nações e cidadãos mundiais uma aliança planetária na
formulação e ação política internacional.

A cidadania é um conceito conquistado historicamente. Ela


é uma superação da posição do súdito das decisões do poder. O
cidadão é o sujeito das normas e ações do poder. Se o Estado
dispõe de instrumentos para controlar os cidadãos, estes têm em
suas mãos os instrumentos de sobrevivência ou não desse
Estado. (...) Assim, a cidadania é um exercício tenso de seres
humanos que não dispõe nem das armas, nem da burocracia
para fazer valer seus desígnios. Seu campo de ação está na luta
política no campo dos direitos, dentro de uma ordem
minimamente estável. Nas ordens instáveis e exasperadamente
desiguais, as alternativas serão outras. (...) O exercício

44 CARVALHO, Isabel. Sustentabilidad democrática y ciudadanía. In: Mujeres y Sustentabilidad – Intercambio y debates
entre el movimiento de mujeres y el movimiento ecologista. Santiago de Chile: Fundación Heinrich Böell, 2001, p. 86.

Cidadania ambiental cosmopolita –


Um conceito em construção 289
democrático da cidadania é fundamentalmente ético. É uma
opção valorativa no sentido de entendimento e práticas de
transformação em busca de uma sociedade mais justa, mais livre
e mais feliz. Essas pautas éticas são o inverso do conformismo e
estabelecem bases para a constituição de novos direitos.45

No que diz respeito às questões ambientais, o processo


democrático deve estar sempre presente, tendo em vista a
repercussão e a natureza coletiva da degradação ambiental para todo
o conjunto da sociedade. Toda e qualquer atividade lesiva ao meio
ambiente, antes de ser efetivada, deve ser subordinada a um processo
decisório democrático, dando-se voz e vez a todos os representantes
dos grupos sociais interessados na questão. O Princípio 1046 da
Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento47 declara
de forma explícita a importância de se assegurar a participação de
todos os cidadãos, locais ou globais, nos processos decisórios
relativos a questões ambientais. O livre acesso às informações
ambientais que as autoridades públicas dispõem é indispensável
para a conscientização e participação cidadã na política ambiental.48
Princípio 10. A melhor maneira de tratar as questões
ambientais é assegurar a participação, no nível apropriado, de todos
os cidadãos interessados. No nível nacional, cada indivíduo terá
acesso adequado às informações relativas ao meio ambiente de que
disponham as autoridades públicas, inclusive informações acerca de
materiais e atividades perigosas em suas comunidades, bem como a
oportunidade de participar dos processos decisórios. Os Estados irão
facilitar e estimular a conscientização e participação popular,
colocando as informações à disposição de todos. Será proporcionado
o acesso efetivo a mecanismos judiciais e administrativos, inclusive
no que se refere à compensação e reparação de danos.
A cidadania ambiental volta-se cada vez mais para uma
dimensão planetária. É preciso a ação local do cidadão ambiental,
mas sempre com uma visão voltada para os reflexos que a degradação
ambiental traz para todo o ecossistema planetário. Como exemplo, a
poluição atmosférica gerada pelos países desenvolvidos tem reflexos
diretos na qualidade ambiental e condições de vida dos países em

45 AGUIAR, Roberto Armando Ramos de. Direito do Meio Ambiente e participação popular. Brasília: Edições Ibama,
1998, p. 42-43.
46 CONFERÊNCIA DAS NAÇÕES UNIDAS SOBRE MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO. 3.ª ed. Brasília: Senado Federal,
Subsecretaria de Edições Técnicas, 2001, p. 595.
47 Elaborada na Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, em 1992, no Rio de Janeiro.
48 Nesse sentido, destaca-se a promulgação recente da Lei 10.650, de 16 de abril de 2003, que dispõe sobre o acesso
à informação ambiental.

290 Tiago Fensterseifer


desenvolvimento. Dessa forma, é necessária uma nova concepção de
cidadania, reconhecendo-se o papel e a importância que todos têm na
defesa do planeta Terra.
O grande número de tratados internacionais sobre meio
ambiente firmados desde a Rio-92 reflete, em parte, o consenso
universal sobre a necessidade vital de protegerem-se os recursos
naturais do planeta. No entanto, tal iniciativa não alcança um plano
de eficácia na realidade jurídica e política internacional, mas presta-
se mais a evidenciar o quadro de negligência da grande maioria dos
países para com a proteção ambiental.

...novas concepções e práticas de cidadania democrática para


além das fronteiras (regionais, cosmopolita). Afinal, o principal
desafio que enfrenta a política democrática nesta época de
transformação consiste, precisamente, em criar condições e
capacidades efetivas, por um lado, para cobrar
responsabilidades das forças transnacionais e internacionais da
globalização ‘pelo alto’ que vêm se beneficiando de uma
espantosa concentração de recursos de poder econômico e
político em escala planetária (e que operam, portanto, para além
do único e cada vez mais impotente controle democrático
existente – o territorial); e, pelo outro, para legitimar instâncias de
governança supranacional através de uma ampla participação –
não exclusivamente interestatal – no processo de deliberação e
tomada de decisão política sobre problemas globais (ambientais,
direitos humanos, pobreza e desenvolvimento, etc.) que dizem
respeito ao conjunto da humanidade.49

Canotilho afirma a superação da concepção moderna do


Estado-nação e sua inaptidão para lidar com a problemática
ambiental global, sugerindo a estruturação de uma espécie de
República Ambiental Planetária, impulsionando o princípio
democrático para a ordem jurídica internacional. Na sua construção
republicana do mundo, os Estados Ambientais devem incorporar a
postura democrática como sua pedra fundamental.50

49 GÓMEZ, José Maria. Política e democracia em tempos de globalização. Petrópolis: Vozes, 2000, p. 10-11.
50 “A qualificação de um Estado como Estado Ambiental aponta para duas dimensões jurídicas-políticas
particularmente relevantes. A primeira é a obrigação de o Estado em cooperação com outros Estados e cidadãos ou
grupos da sociedade civil, promover políticas públicas (econômicas, educativas, de ordenamento) pautadas pelas
exigências da sustentabilidade ecológica. A segunda relaciona-se com o dever de adoção de comportamentos
públicos e provados amigos do ambiente de forma a dar expressão concreta à Assumpção da responsabilidade dos
poderes públicos perante as gerações futuras”. CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Estado de Direito. Cadernos
Democráticos, nº. 7. Fundação Mário Soares. Lisboa: Gradiva, 1998, p. 44.

Cidadania ambiental cosmopolita –


Um conceito em construção 291
O postulado globalista pode resumir-se assim: a proteção do
ambiente não deve ser feita ao nível de sistemas jurídicos isolados
(estatais ou não), mas sim ao nível dos sistemas jurídico-políticos
internacionais e supranacionais, de forma a que se alcance um
standard ecológico ambiental razoável a nível planetário e, ao
mesmo tempo, se estruture uma responsabilidade global (de
Estados, organizações, grupos) quanto às exigências de
sustentabilidade ambiental. Por outras palavras: o globalismo
ambiental visa ou procura formatar uma espécie de Welt-
Umwelrrecht (direito de ambiente mundial). Isto não significa que se
desprezem as estruturas estatais e as instituições locais. Lá onde as
instâncias nacionais e locais consigam densificações positivas dos
standards ecológicos, impõe-se a autocontenção da “República-
Ambiental Planetária”. O globalismo aponta também para um direito
de cidadania ambiental em termos intergeracionais.51

Nesse sentido, o atual momento histórico não permite a inércia


e a neutralidade de outros tempos, mas exige cidadãos e cidadãs
planetários conscientes da realidade que os permeia e capazes de agir
em defesa da vida. O direito, nesse contexto, nas suas dimensões
nacional e internacional, insurge-se como um instrumento de luta e
de resistência contra uma realidade que violenta os valores máximos
do Estado Democrático de Direito e da humanidade.

Hoje, a cidadania apresenta outra dimensão. A questão de


seu exercício transcende a internacionalização e invade a
planetarização. Isso se dá pelo fato de a produção apresentar
efeitos destrutivos em todo o planeta, não mais se
circunscrevendo aos parâmetros geopolíticos do internacio-
nalismo, mas avançando para a questão da própria
sobrevivência do planeta e da espécie humana. O que leva à
necessidade do ser humano conceituar-se de modo diferente.
Não mais um cidadão que domina a natureza para criar seu
mundo, mas um ser da natureza que cria seu mundo convivendo
com ela. Esse cidadão planetário tem na questão ambiental um
dos problemas políticos e humanos mais sérios da contem-
poraneidade. O ser humano chegou a ponto de poder se destruir
enquanto espécie.52

51 CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Estado Constitucional Ecológico e Democracia Sustentada. In: Direitos
Fundamentais Sociais. Ingo Wolfgang Sarlet (Org.). Rio de Janeiro: Renovar, 2003. (No prelo)
52 AGUIAR, Roberto Armando Ramos de. Direito do Meio Ambiente e participação popular. Brasília: Edições Ibama,
1998, p. 46.

292 Tiago Fensterseifer


No intuito de reconstruir os conceitos políticos e jurídicos à luz
da realidade contemporânea e do atual estágio das construções
humanas, cabe destacar a citação de Fernando Pessoa, na figura do
seu heterônimo Alberto Caeiro, em Poemas: “É preciso esquecer a fim
de lembrar, é preciso desaprender a fim de aprender de novo”. Dessa
forma, sugere-se a reconstrução de toda a leitura política e jurídica a
partir dos novos valores sociais e ambientais emergentes no universo
contemporâneo, os quais devem gravitar a partir dos seres humanos
que os compõem e legitimam. A cidadania ambiental, na sua
dimensão planetária e cosmopolita, apresenta-se como a nova “cara
pintada” da democracia contemporânea, na medida em que agrega
consigo os valores mais elementares da humanidade. Propõe-se uma
reconciliação do homem natural com o espaço político.

Algumas questões que estão presentes no pensamento


ecológico mais profundo oferecem elementos significativos para
uma reconciliação do espaço político – no sentido mais amplo do
espaço da convivência humana – com o Cosmos, ou com a
Natureza. A busca desta reconciliação constitui uma força motriz
de algumas das grandes utopias da história ocidental. Esta
força, que é uma energia reestruturadora do cultural e do político,
brota sempre e novamente quando o homem se interroga a
respeito daquilo que constitui a sua autêntica humanidade.
Quando ele procura uma relação mais profunda com a sua
medida. Quando ele reencontra a sua morada.53

Na abertura deste novo século, cada vez mais marcado pelo


comprometimento dos valores ambientais em escala planetária,
insurgem-se novas demandas no seio da sociedade civil pós-
moderna, a qual chama para si a responsabilidade que os Estados-
nação não foram capazes de assumir para com a destruição do meio
ambiente e a redução da qualidade ambiental no planeta. Dessa
forma, como bem refere Enrique Leff, a democracia aparece como “o
projeto civilizador mais ambicioso da Humanidade” na atualidade.

No horizonte deste fim de século, a Democracia aparece


como o projeto civilizador mais ambicioso da Humanidade na
reconfiguração das forças políticas de um mundo marcado pela
desigualdade social, o empobrecimento das maiorias e a

53 UNGER, Nancy Mangabeira. O enca