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A

 Música  como  Geometria  do  Som  


 

A MÚSICA COMO GEOMETRIA DO SOM

A música ocidental como hoje é reconhecida sempre foi para mim uma
verdade absoluta, uma estrutura e organização que nunca questionei e que
sempre assumi como existente. Nunca me interroguei porque razão se
escolheram entre milhares de sons possíveis, 12 sons para representar uma
escala e o que esteve na base da sua escolha e relação.

A procura pela verdade e a importância da geometria no grau de


companheiro em que agora estou, fez-me ler e pesquisar. Numa dessas
minhas pesquisas encontro a frase “a música como geometria do som” e é a
partir desta que desenvolvo esta minha peça de arquitectura.

A música foi inicialmente associada ao canto das aves, ao vento formado nas
canas das plantações ou ainda ao som da água. Hoje a ciência define-a
como uma sucessão de energias em vibração transmitidas pelo ar e
recebidas pela nossa membrana auditiva (sons). Para se distinguir do banal
ruído estes sons deverão estar encadeados temporalmente e organizados
segundo uma métrica precisa.

Este trabalho debruça-se em exclusivo no estudo da música designada


ocidental uma vez que outros povos desenvolveram, desde a Antiguidade,
outros tipos de escalas. Os orientais criaram as sequências pentatónicas
contendo 5 notas, comparadas aos cinco elementos da filosofia natural: água,
fogo, madeira, metal e terra. Já os árabes elaboraram escalas contendo 17
notas musicais e os hindus, 22.

No ocidente, segundo conta a lenda, foi Pitágoras que ao passar em frente a


uma oficina de ferreiro, percebeu que as batidas dos martelos, os quais
diferiam por suas massas, eram agradáveis ao ouvido e se combinavam
muito bem. Matemático por excelência procurou desde cedo estabelecer
relações numéricas e geométricas entre os sons.

Com a ajuda dos seus discípulos inicia uma pesquisa sobre os sons e
descobre que dois fios esticados, se estes fossem tocados simultaneamente
o som seria agradável se as razões entre os seus comprimentos fossem
formadas por um conjunto de números simples. Eles observaram que as
relações existentes entre os comprimentos dos fios sempre obedeciam a
determinadas razões em certos intervalos. A relação entre a matemática e a
música passou a ser tão forte que os Gregos chegavam a afirmar que a
música eram números em movimento.

A origem da escala ocidental como hoje a conhecemos pode ser explicada da


seguinte forma: podemos pensar em uma determinada corda de comprimento
12 a qual emite um determinado som o qual chamaremos de Dó. Tomando

O  Músico  C.’.M.’.                                                                                                                                                                          1/3  


 
A  Música  como  Geometria  do  Som  
 
metade do seu tamanho 6, encontraremos outro Dó mais agudo (ou Dó uma
oitava acima), uma vez que o comprimento da primeira será duas vezes
maior que o da segunda e portanto o intervalo considerado é a oitava. Se
!! dividirmos a maior em quatro partes iguais e tomarmos três, obteremos desta
vez a nota fá, a qual forma um intervalo de quarta com o dó considerado.
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Procedendo desta maneira, foi possível determinar os demais comprimentos
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dos intervalos musicais e as restantes notas.
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A partir desta experiência, as relações entre matemática e música ficaram
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muito mais próximas;(! passou
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a ser /(0!
uma (,! /(01+-0#)*(,H!
forma de descrever a natureza e de
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40%! 2#*#+0-)%2%!da/(+2%!
ciência.
2#! /(01+-0#)*(! <), =(7I! %! G4%$!
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Estabeleceram-se @(0%)2(!
relações 0#*%2#!
entre 2(! ,#4! *%0%)E(!
a música &>,
e as formas geométricas. A
proporção de uma quinta (2:3) corresponde aos lados de
7(*H! #)/()*+%+#0(,! (! JM! N(4! J! (-*%.%! %/-0%OH! 40%! .#F! G4#! (! /(01+-0#)*(! 2%! um triângulo de um
pentagrama, a quarta (3:4) corresponde aos lados de um triângulo de um
0#-+%!,#+P!24%,!.#F#,!0%-(+!G4#!(!2%!,#34)2%!#!1(+*%)*(!(!-)*#+.%$(!/(),-2#+%2(!C!
pentágono e a oitava (1:2) corresponde a um rectângulo composto por dois
quadrados dividido por uma diagonal.
(-*%.%L!>#!%!2-.-2-+0(,!#0!*+Q,!1%+*#,!-34%-,!#!*(0%)2(!G4%*+(!&<),=(7(,2=,?,=(,7(,
@=9;$072;, 62.;9:$0"0, "8$.";, 2, 9./$01"%2, :$, =7", 29/"1"*H! (R*#+#0(,! 2#,*%! .#F! %!
Também se estabeleceram relações entre a música e as médias. A média
aritmética entre os comprimentos de corda de duas notas em oitava
*%!SH!%!G4%$!T(+0%!40!-)*#+.%$(!2#!G4%+*%!/(0!(!J!/(),-2#+%2(L!
determinavam o tamanho de corda da nota que forma um intervalo de quarta
!
com a primeira. Arquitas por seu lado construiu sua escala baseada em
! frações da corda resultantes de médias harmônicas e aritméticas daquelas
encontradas por Pitágoras. Já Erastótenes elaborou a diferenciação entre
!
intervalos calculados aritmeticamente à maneira de Aristoxeno, de intervalos
! calculados pela razão.
!
O astrónomo alemão Kepler (1609) tentou estabelecer a relação entre os
! aspectos divinos da música e o movimento planetário. Afirmava que os
diâmetros das órbitas dos planetas eram proporcionais uns aos outros em
,
razões de números inteiros, tal como os tons numa escala musical (1:2, 2:3,
etc..) Marte, por exemplo,
, está a metade da distância de Júpiter relativamente
ao Sol, isto é, 1:2, ou uma “oitava acima”.
A9B=0"&'()*+,-)*#+.%$(!2#!G4%+*%!
A doutrina da música
! das
! esferas de Kepler encontrou a sua expressão mais
gloriosa na arquitectura das grandes abadias e catedrais da Europa
D+(/#2#)2(! 2#,*%! 0%)#-+%H! C! 1(,,U.#$! 2#*#+0-)%+! (,! 2#0%-,!
Medieval, conscientemente concebidas para obedecer às proporções da
01+-0#)*(,! 2#,*#!harmonia
-)*#+.%$(! musical
04,-/%$H!e geométrica.
/(0(! )%! /"#$%", '('L! "#1%+#! G4#! (,!
01+-0#)*(,!2#!/(+2%!2%,!)(*%,!#,*'(!+#$%/-()%2%,!,#34)2(!+#3+%,!2#!*+Q,!,-01$#,H!
O  Músico  C.’.M.’.                                                                                                                                                                          2/3  
.%)2(! ,#01+#! #0! /(),-2#+%&'(!
  %,! +%FV#,! (R*-2%,! )%! /"#$%", '()(, #! %,! 1(,-&V#,! )%!
A  Música  como  Geometria  do  Som  
 

O estudo da matemática, geometria e dos princípios da proporção interessou


naturalmente os artistas do Renascimento. Embora não fossem músicos,
eram forçados a reflectir sobre o estranho modo como a proporção fazia
parte do som e ainda mais significativamente, da música.

Na sua obra Dez Livros de Arquitectura, Alberti escreve que a proporção de


uma figura geométrica, numa escala musical, ou numa sequência
matemática, pode dizer-se que é “uma relação harmoniosa entre partes, com
e no interior do todo”. Alberti conclui ainda que “os números, por meio dos
quais a concordância dos sons afecta os nossos ouvidos com deleite, são os
mesmos que agradam aos nossos olhos e ao espírito. Devemos portanto
pedir às nossas regras para determinar as nossas proporções aos músicos,
que são os maiores mestres desta espécie de números, e destas coisas em
que a natureza se mostra mais excelente e completa.”

Também a relação da música com a Proporção Divina (Phi) e a sua espiral


logarítmica foi encontrada na distância dos trastos nos instrumentos de
corda, no tamanho dos tubos dos órgãos de igreja, nas peças metálicas do
xilofone e nas cordas de um piano.

Em resumo, o que hoje ouvimos como música é apenas uma ínfima parte do
que a natureza tem para nos dar. Será por isso que não conseguimos igualar
com uma flauta o cantar de um pássaro, nem com um piano o som do vento
nas árvores. Tendo sido uma das maiores descobertas da humanidade, nem
sempre é observada como tal, mesmo no ensino da música. Mais do que
compor novas músicas com os sons definidos por Pitágoras, o desafio
poderá passar por trabalhar novos conjuntos de sons e suas possibilidades.

O  Músico  C.’.M.’.                                                                                                                                                                          3/3