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" Pare com isso menino! " : análise funcional de problemas de comportamento

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3 authors, including:

André Varella Carolina Silveira


Universidade Católica Dom Bosco (UCDB) Universidade Federal de São Carlos
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André A. B. Varella, Maria Carolina Correa Martone, Carolina Coury Silveira

“Pare com isso menino!”:


análise funcional de
problemas de comportamento

André A. B. Varella
Universidade Católica Dom Bosco

Maria Carolina Correa Martone


Universidade Federal de São Carlos; Fundação Panda

Carolina Coury Silveira


Universidade Federal de São Carlos

Iwata, B. A., Dorsey, M. F., Slifer, K. J., Bauman, K. E., & Richman, G. S. (1982). Toward a functio-
nal analysis of self-injury. Analysis and Intervention in Developmental Disabilities, 2, 3-20.

“A alma não tem segredo que o comportamento não revele”


Lao Tsé

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Capítulo XVII | Análise Funcional

INTRODUÇÃO À ÁREA DE PES- entre outras topografias potencialmente


QUISA E CONTEXTUALIZAÇÃO perigosas. Entretanto, nesse período, a ABA
DO EXPERIMENTO ainda não havia desenvolvido recursos
tecnológicos para compreender a função
A Análise do Comportamento Apli- desses problemas de comportamento, ou
cada (ou ABA, do inglês Applied Behavior seja, quais consequências mantinham esses
Analysis) se caracteriza como uma ciência comportamentos ocorrendo em certos con-
dedicada à aplicação da Análise Experi- textos. Naturalmente, as intervenções nes-
mental do Comportamento na solução de se período não eram baseadas na função
problemas socialmente relevantes (Baer, do comportamento e eram implementadas
Wolf, & Risley, 1968). Enquanto uma ciência a partir do conhecimento sobre comporta-
aplicada, a ABA historicamente se ocupou mento operante produzido até aquele perí-
com diversos problemas humanos, dentre odo pela Análise Experimental do Compor-
eles o estudo e desenvolvimento de inter- tamento.
venções para reduzir ou eliminar problemas
severos de comportamento, tais como com- Estes estudos iniciais foram impor-
portamentos agressivos, de automutilação, tantes por terem demonstrado que esses
ingestão de objetos não comestíveis, entre comportamentos eram operantes; ou seja,
outros. Indivíduos com autismo, deficiên- poderiam ser explicados pelos princípios da
cia intelectual, transtornos psiquiátricos e Análise do Comportamento e seriam sen-
até mesmo pessoas com desenvolvimento síveis à manipulação de estímulos antece-
típico apresentavam comportamentos que dentes e de suas consequências. Por exem-
poderiam colocar em risco a sua saúde e de plo, Wolf, Risley e Mees (1964) relataram
outras pessoas, o que demandava, portanto, sucesso na redução da frequência de birras
intervenções rápidas e eficazes. de uma criança com autismo. As birras in-
cluíam topografias de respostas como esta-
A partir do final da década de 1950, pear o rosto, arrancar fios de cabelo, bater
começaram a ser publicados estudos so- a cabeça e arranhar o rosto. Os autores ob-
bre intervenções em problemas de com- tiveram uma medida da linha de base das
portamento, de diversas topografias. Esses topografias identificadas e implementa-
primeiros estudos procuraram intervir em ram uma contingência de timeout (time out
comportamentos como escalar móveis e lo- from positive reinforcement, ou suspensão
cais perigosos (Risley, 1968), ferir a própria discriminada de contingências de reforço;
cabeça e braços com batidas (Lovaas, Frei- Ferster, 1958). Quando a criança emitia o
tag, Gold, & Kassorla, 1965), desferir tapas comportamento, ela era imediatamente re-
no próprio rosto e introduzir os dedos na movida do ambiente em que estava e co-
cavidade ocular (Corte, Wolf, & Locke, 1971), locada dentro de uma sala, sozinha, até o

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André A. B. Varella, Maria Carolina Correa Martone, Carolina Coury Silveira

comportamento cessar. O procedimento de O desconhecimento sobre as variá-


timeout poderia funcionar como uma con- veis relacionadas aos problemas de com-
tingência de punição: a emissão da resposta portamento tinha importantes implicações
resultava na inserção do indivíduo em uma para as intervenções comportamentais. Por
sala pequena, o que restringia drasticamen- não considerar a função, muitas delas não
te suas possibilidades de se engajar em al- eram bem-sucedidas ou não se mantinham
guma atividade reforçadora. após a retirada da intervenção, o que pro-
longava o tempo em que o indivíduo era
A eficácia das técnicas de modifi- exposto a situações que o levavam a emitir
cação do comportamento na redução de tais comportamentos. Nesse contexto, Carr
problemas comportamentais foi sendo (1977) publicou um importante trabalho
demonstrada cumulativamente nos anos de revisão dos estudos sobre intervenções
1960 e 1970. Os procedimentos envolviam em comportamentos autolesivos e levan-
desde o uso de contingências aversivas tou hipóteses que poderiam explicá-los.
(Kohlenberg, 1970; Pendergrass, 1972) até Os comportamentos autolesivos seriam (a)
intervenções baseadas em reforçamento comportamentos operantes mantidos por
de comportamentos alternativos e social- reforçamento positivo em forma de reforço
mente adequados (Bailey, Wolf, & Philips, social, (b) operantes mantidos por reforça-
1970; Bostow & Bailey, 1969). Todavia, as mento negativo em forma de interrupção
intervenções ainda não consideravam a de estimulação aversiva, ou (c) operantes
função que os comportamentos-problema que produziam autoestimulação. Ainda,
apresentavam, uma vez que não existiam outras duas hipóteses extraídas dos estu-
procedimentos desenvolvidos para identi- dos revisados supunham que os comporta-
ficar quais consequências mantinham esses mentos autolesivos (d) eram causados por
comportamentos. Quando o comportamen- alterações fisiológicas ou (e) eram produto
to-alvo era identificado, as intervenções de processos psicodinâmicos relacionados
eram conduzidas na tentativa de modificá- ao ego ou redução de culpa.
-lo; na maioria das vezes por meio de con-
tingências aversivas, ou por reforçadores O estudo de Carr (1977) propôs que
artificiais (e.g., economia de fichas) para es- comportamentos de autolesão poderiam
tabelecer comportamentos alternativos e/ ser controlados por múltiplas variáveis e,
ou incompatíveis. Em outras palavras, pou- inclusive, sugeriu o desenvolvimento de
co se sabia sobre os reforçadores que manti- modelos animais experimentais para, futu-
nham os comportamentos-problema, quais ramente, permitir a validação de procedi-
estímulos os controlavam e qual história de mentos de avaliação das hipóteses levanta-
reforçamento estabeleceu tal aprendizagem das. Em 1982, Iwatta, Dorsey, Slifer, Bauman
(Mace, 1994). e Richman publicaram o que veio a ser um

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Capítulo XVII | Análise Funcional

dos estudos mais influentes na ABA, com observado de forma repetida e sistemática,
importantes implicações para a pesquisa em uma série de condições bem definidas.
e aplicação. O artigo, intitulado “Em dire- O estudo foi conduzido com nove partici-
ção a uma análise funcional da autolesão” pantes com atraso no desenvolvimento e
(“Toward a functional analysis of self-in- com taxas de respostas autolesivas, que
jury”), foi originalmente publicado em 1982 variavam entre moderadas a altas. As topo-
na revista Analysis and Intervention in De- grafias mais frequentes observadas foram
velopmental Disabilities e republicado em (a) bater a cabeça em algum objeto; (b) bater
1994 em uma edição especial no Journal of na própria cabeça; (c) morder-se; (d) puxar
Applied Behavior Analysis (JABA). orelhas; (e) apertar os olhos; e (f) puxar ca-
belos.
O estudo de Iwata et al. (1982/1994)
ofereceu uma contribuição substancial à O estudo ocorreu em uma sala do
ABA ao propor uma importante metodolo- hospital pediátrico ligado à Universidade
gia para identificar variáveis controladoras de medicina Johns Hopkins. As observa-
dos comportamentos autolesivos. Com base ções foram realizadas em uma sala contí-
nos resultados dessa metodologia, denomi- gua, contendo um espelho unidirecional. De
nada Análise Funcional Experimental, era forma a avaliar os efeitos do ambiente sobre
possível identificar as consequências que os comportamentos estudados, foi permi-
mantinham esses comportamentos. Portan- tido que os participantes engajassem em
to, intervenções poderiam ser planejadas a comportamentos autolesivos; entretanto,
partir das variáveis que os mantinham. Se os pesquisadores seguiam protocolos para
antes elas eram realizadas de forma arbitrá- garantir a segurança dos participantes. Por
ria (no sentido de que ignoravam a função exemplo, havia acompanhamento médico
do comportamento), agora se tornava pos- constante e as sessões eram interrompidas
sível planejar e executar intervenções que frente a qualquer risco maior de dano físico
poderiam produzir mudanças na relação do (emissão de comportamentos autolesivos
comportamento com o ambiente, aumen- que pudessem machucar os participantes
tando consideravelmente sua eficácia. de forma mais grave). As observações mos-
traram que os participantes engajavam em
pelos menos duas ou mais formas de com-
DESCRIÇÃO DO EXPERIMENTO portamentos autolesivos. A ocorrência dos
comportamentos foi registrada em inter-
Objetivos e Método valos de 10s. A variável dependente era o
O estudo de Iwatta, et al. (1982/1994) percentual de intervalos em que respostas
descreveu um protocolo de avaliação em autolesivas foram registradas.
que o comportamento dos participantes era

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André A. B. Varella, Maria Carolina Correa Martone, Carolina Coury Silveira

Os participantes eram expostos a chucar”), com um breve e suave contato fí-


quatro condições, por oito sessões diárias sico (e. g., tocando o ombro do participante).
(duas para cada condição). Um delinea- Quaisquer outras respostas emitidas pelo
mento de tratamentos alternados (Barlow & participante eram ignoradas. Esta condi-
Hayes, 1979) foi empregado para organizar a ção, portanto, criava uma situação na qual
apresentação das quatro condições, em or- os participantes não tinham a atenção do
dem não sistemática e que variava ao lon- experimentador. Ela foi proposta conside-
go dos dias. Cada condição tinha a duração rando que desaprovação social e contato
de 15 min. O procedimento permanecia em físico, contingentes a emissão de compor-
vigor até que fosse observada: (a) a estabi- tamentos autolesivos são situações comuns
lidade dos comportamentos autolesivos, (b) em ambientes naturais. Assim, elas pode-
instabilidade nos níveis das respostas au- riam inadvertidamente manter tais com-
tolesivas por cinco dias seguidos em todas portamentos por reforçamento positivo.
as condições, ou (c) que 12 dias de sessões
tivessem decorrido. Cada condição tinha Condição Demanda Acadêmica: O
como objetivo avaliar o efeito de uma vari- objetivo dessa condição era avaliar se as
ável específica. As variáveis foram manipu- respostas autolesivas apresentavam fun-
ladas de forma sistemática pela alternân- ção de fuga de demandas. Nessa condição,
cia das diferentes condições. Frequências algumas atividades escolares foram dispo-
elevadas de respostas autolesivas em uma nibilizadas para os participantes. A escolha
determinada condição indicariam que a das atividades baseava-se em informações
variável em questão estaria funcionalmen- fornecidas pelas escolas, sendo seleciona-
te relacionada ao comportamento-alvo. As das aquelas que os participantes raramente
quatro condições serão descritas a seguir. completavam. O experimentador solicitava
a realização de alguma atividade e aguarda-
Condição Desaprovação Social: Nes- va uma resposta por 5 segundos. As instru-
sa condição, o experimentador e o partici- ções atendidas pelo participante eram se-
pante entravam em uma sala com brinque- guidas de elogios. Se respostas autolesivas
dos espalhados pelo chão. O participante ocorressem, a atividade era interrompida e
tinha livre acesso aos materiais e recebia o experimentador virava-se de costas por
uma instrução para brincar, enquanto o ex- 30s. Embora, a consequência programada
perimentador ficava em um canto da sala nessa condição pudesse se assemelhar a
fingindo ler uma revista. Quando o com- um procedimento de extinção, ela procura-
portamento autolesivo ocorria, o experi- va avaliar se as respostas autolesivas foram
mentador fornecia atenção ao participante, mantidas por reforçamento negativo (isto é,
demonstrando preocupação ou desaprova- fuga e esquiva das demandas acadêmicas,
ção (e. g., “não faça assim, você vai se ma- Carr, 1977; Carr, Newsom, & Binkoff, 1976;

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Capítulo XVII | Análise Funcional

Jones, Simmons, & Frankel, 1974; Measel possível avaliar se as respostas autolesivas
& Alfieri, 1976). Frequências maiores nessa eram mantidas por reforçamento automá-
condição em comparação às outras pode- tico, ou seja, pela própria consequência
riam indicar que as respostas autolesivas sensorial produzida pela resposta. A obser-
apresentavam função de fuga de demandas. vação de altas taxas de respostas autolesi-
vas nessa condição sugeriria, portanto, um
Condição Brincadeira Não-estrutu- comportamento mantido por reforçamento
rada: Nessa condição, o experimentador automático.
ficava próximo ao participante e permitia
que ele se movimentasse livremente pela
sala, engajando em brincadeiras sociais ou Resultados e Discussão
solitárias. O experimentador ainda fornecia Para cada participante foi calculada
elogios e breve contato físico contingen- uma média geral da porcentagem dos in-
te a qualquer comportamento socialmente tervalos no período total de 15 minutos em
apropriado a cada 30 segundos. Essa etapa que ocorreram comportamentos autolesi-
teve por objetivo “enriquecer” o ambien- vos, além de médias dos participantes para
te dos participantes, de modo a diminuir as condições experimentais, separadamen-
a probabilidade de ocorrência de compor- te. Assim, os dados permitiram uma análise
tamentos autolesivos, funcionando como do responder geral entre os participantes,
condição controle. Nessa condição não fo- assim como comparações entre condições
ram apresentadas demandas, havia livre por participantes diferentes. Foram identi-
acesso aos brinquedos, o experimentador ficadas variações tanto na taxa de respos-
fornecia atenção social constantemente e tas entre os participantes (com médias de
demonstrações de preocupação ou desa- 4,5% a 91,3% de intervalos com ocorrências
provação não foram fornecidas se respostas de respostas autolesivas) quanto nas qua-
autolesivas ocorressem (extinção). tro condições experimentais, o que sugeriu
influência das variáveis manipuladas nas
Condição Sozinho: Nesta condição, o condições. Para seis dos nove participan-
participante foi colocado na sala de avalia- tes, altas taxas de respostas autolesivas fo-
ção sozinho, sem acesso a interação social, ram consistentemente associadas com uma
brinquedos e materiais que pudessem servir condição experimental específica.
como fonte reforçamento. O propósito des-
sa condição era simular um ambiente “em- Com base nesses resultados, os auto-
pobrecido”, com poucos estímulos sociais e res identificaram cinco padrões de respostas
físicos. Assim, tal contexto poderia estabe- gerais para os participantes deste estudo. O
lecer a ocasião para que comportamentos primeiro padrão consistia em uma baixa
autoestimulatórios ocorressem, tornando apresentação de respostas autolesivas du-

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André A. B. Varella, Maria Carolina Correa Martone, Carolina Coury Silveira

rante a condição Brincadeira não-estrutu- rem que para um indivíduo que cutuca seu
rada. Todos os oito participantes expostos a olho em função de produzir estimulação
esta condição (o participante 1 foi excluído) visual (reforçamento automático), o uso de
exibiram porcentagens iguais ou abaixo de massagem ocular de maneira contingente
sua média geral. O segundo padrão, obser- à ausência de respostas autolesivas pode-
vado nas respostas de quatro participantes, ria ser uma intervenção eficaz (Favell et al.,
foi uma maior ocorrência durante a condi- 1982), visto que tal intervenção produziria
ção Sozinho, indicando a autoestimulação a consequência reforçadora sem que o in-
como uma variável relevante. O terceiro divíduo engajasse em respostas autolesivas.
padrão foi obtido com dois participantes e Entretanto, se tais respostas autolesivas
consistiu na baixa frequência de respostas fossem mantidas por fuga de demandas (re-
em todas as condições experimentais, ex- forçamento negativo), a massagem ocular
ceto a condição Demanda. O quarto padrão, seria ineficaz. Nesse caso, intervenções que
identificado no participante 5, consistiu na incluíssem períodos sem nenhuma deman-
apresentação de uma taxa mais alta de res- da poderiam ser mais eficazes.
postas autolesivas durante a condição de
Desaprovação Social. O quinto e último pa- Pode-se dizer que um dos achados
drão, observado em dois participantes, foi mais relevantes deste experimento foi que
classificado como “indiferenciado” e con- a variabilidade na taxa de respostas autole-
sistiu em taxas de respostas similares en- sivas em um mesmo sujeito não é um pro-
tre as condições ou altas taxas em duas ou cesso aleatório. A utilização de condições
mais condições experimentais. Como pre- experimentais bem definidas, análogas ao
visto por Carr (1977), os padrões identifica- contexto natural e em um delineamento de
dos evidenciaram que respostas autolesivas sujeito único (que permitiu verificar efeitos
poderiam ser mantidas por diferentes refor- da manipulação de variáveis sobre o com-
çadores (diferentes funções). portamento-alvo de cada participante) foi
fundamental para este achado. Foi possível,
Os resultados do experimento foram portanto, identificar variáveis relaciona-
importantes por demonstrarem a possibili- das ao estabelecimento e/ou manutenção
dade de identificar variações nas taxas de de comportamentos autolesivos a partir da
respostas autolesivas ao se manipular sis- comparação das taxas de respostas de uma
tematicamente algumas variáveis ambien- mesma pessoa, entre diferentes condições.
tais (e.g., retirada de demandas, atenção Deste modo, o presente estudo ofereceu
social). Se diferentes reforçadores poderiam uma metodologia eficaz para investigar
manter respostas autolesivas, intervenções múltiplos efeitos do ambiente na ocorrên-
comportamentais deveriam considerar es- cia de autolesivos.
sas variáveis. Por exemplo, os autores suge-

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Capítulo XVII | Análise Funcional

Duas limitações foram apontadas implementar alguma condição de trata-


pelos autores no estudo de Iwata et al., mento (Iwata et al., 1982/1994). Além disso,
1982/1994. A primeira é que a metodologia a exposição dos participantes por curto pe-
pode não ter isolado completamente todas ríodo de tempo não foi maior que o perío-
as variáveis que poderiam influenciar as do típico de situações usuais em que esses
respostas autolesivas. Por exemplo, para indivíduos engajavam em respostas auto-
um comportamento em que atenção social lesivas e, mesmo assim, o procedimento de
funciona como reforçador, taxas altas de avaliação forneceu dados para uma ampli-
respostas autolesivas na condição Sozinho tude de variáveis que afetam estas respos-
poderiam indicar não necessariamente ser tas. Estes dois aspectos dão suporte à incor-
função de reforço automático (autoestimu- poração dessa metodologia em pesquisas
lação), mas sim o primeiro estágio de uma que investiguem o tratamento de respostas
curva de extinção, visto que nessa condi- autolesivas.
ção o reforçamento social era suspenso.
Isto porque, uma resposta operante pode
ocorrer em altas taxas durante os estágios DESDOBRAMENTOS
iniciais de um procedimento de extinção,
antes que seja vista uma diminuição sig- As evidências empíricas de que res-
nificativa de sua ocorrência, e ser assim postas autolesivas poderiam ocorrer em
caracterizada a extinção da resposta. A se- função de diferentes fontes de reforçamento
gunda limitação se refere à possibilidade de tem implicações diretas para o planejamen-
a análise realizada ter sido incompleta. Por to do tratamento de problemas de compor-
exemplo, respostas autolesivas que ocor- tamento. Por exemplo, suponhamos uma
ressem majoritariamente na condição De- pessoa que apresenta respostas autolesivas
manda levantariam a hipótese de reforça- na escola, mantidas por fuga de demanda
mento negativo (fuga de demandas). Porém, (reforçamento negativo, por ex., por escapar
alterações no comportamento a partir de al- de atividades escolares). Alguém com pou-
terações nas contingências (e.g., suspender co ou nenhum conhecimento de Análise do
o reforço do comportamento de fuga) acres- Comportamento poderia propor que o pro-
centaria maiores evidências da função de fessor colocasse a pessoa “de castigo” todas
reforçamento negativo. as vezes que ela emitisse o comportamento,
na expectativa de que essa consequência
Apesar dessas limitações, os resul- reduzisse o comportamento de frequência
tados sugeriram grande utilidade da meto- (ou seja, funcionasse como punição). Entre-
dologia, tendo em vista a possibilidade de tanto, como o reforçador do comportamen-
identificar empiricamente variáveis que to é exatamente escapar de determinadas
afetam respostas autolesivas antes de se tarefas escolares, a intervenção teria efeito

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contrário: ao emitir o comportamento auto- CONSIDERAÇÕES FINAIS


lesivo, o castigo removeria a tarefa escolar
(ou a atrasaria), funcionando como reforço. A metodologia da Análise Funcio-
A intervenção, portanto, deveria considerar nal Experimental desenvolvida por Iwata
que o comportamento autolesivo é manti- et al. (1982/1994) consistiu em um impor-
do por reforçamento negativo relacionado tante avanço em relação às intervenções
a tarefas escolares. A partir dessa informa- baseadas nas estratégias de Modificação
ção, pode-se planejar intervenções como do Comportamento (Hanley, 2012). A par-
mudanças nas atividades em que o com- tir de seus resultados, é possível aumentar
portamento ocorre com maior frequência as chances de sucesso da intervenção ao
(tornando-as mais reforçadoras), ensinar a se tomar decisões mais fundamentadas a
pessoa a pedir por breves pausas ao longo seu respeito, evitando escolhas de proce-
do período de realização das atividades, dimentos apenas com base em palpites ou
aumentar gradativamente a frequência de resultados obtidos com outras pessoas no
comportamentos de cooperação, entre ou- passado. Ainda, segundo Hanley, conduzir
tras possibilidades (para uma discussão so- uma análise funcional envolve questões
bre intervenções em comportamentos au- importantes como considerar as particula-
tolesivos, cf. Varella, 2016). ridades do comportamento e da história de
reforçamento de cada pessoa. A realização
O estudo de Iwata et al. (1982/1994) de uma análise funcional evita a imple-
também se estendeu para outras topogra- mentação de contingências arbitrárias sem
fias. A metodologia também se mostrou antes se fazer a pergunta mais importante:
útil na identificação de variáveis ambien- por que o comportamento-alvo ocorre? E a
tais relacionadas a agressões físicas (Nor- ABA, enquanto uma ciência aplicada e em
thup et al., 1991), escapar repentinamente constante desenvolvimento, dispõe hoje
de cuidadores sem autorização (elopement, de metodologias empiricamente validadas
Piazza, Hanley, Bowman, Ruyter, Lindauer, para responder a essa pergunta.
& Saiontz, 1997), comportamentos destru-
tivos e opositores (Fisher, Ninness, Piazza,
& Owen-Schryver, 1996), entre outros. De PARA SABER MAIS
acordo com Beavers, Iwata e Lerman (2013),
mais de 2.000 artigos foram publicados Hanley, Iwata, & McCord (2003). Apresen-
após o estudo de 1982, o que demonstra seu ta uma excelente revisão de literatura sobre
grande impacto na Análise do Comporta- os estudos envolvendo análise funcional
mento. do comportamento até o ano 2000. Discu-
te importantes implicações para o planeja-
mento e condução das condições análogas.

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Capítulo XVII | Análise Funcional

Beavers, Iwata, & Lerman (2013). Apre- Barlow, D. H., & Hayes, S. C. (1979). Alterna-
senta uma atualização da revisão de litera- te treatment design: one strategy for com-
tura acima, englobando 158 novos estudos, paring the effects of two treatments in a
publicados entre 2001 até 2012. single subject. Journal of Applied Behavior
Analysis, 12, 199-210.
Hanley (2012). Discute questões de ordem
práticas relacionadas à realização de avalia- Beavers, G. A., Iwata, B. A., & Lerman, D. C.
ções funcionais do comportamento. Apre- (2013). Thirty years of research on the func-
senta outras metodologias além da Análise tional analysis of problem behavior. Journal
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tas e descritivas) e discutindo suas vanta-
gens e desvantagens. Bostow, D. E., & Bailey, J. S. (1969). Modifi-
cation of severe disruptive and aggressive
Iwata & Dozier (2008). Apresenta informa- behavior using brief timeout and reinforce-
ções sobre a metodologia de análise funcio- ment procedures. Journal of Applied Beha-
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