Você está na página 1de 2

A literatura como obrigação!?

Ninguém deveria ser obrigado a ler “Literatura”. Não falo sobre as implicações do estudo para
aquisição de um diploma, ou para a aprovação em um exame ou concurso. Afinal, a leitura da
literatura voltada para aprovação nessas situações, implica de uma forma ou de outra, em um
consentimento prévio ao se submeter a tais conteúdos, algo que é definido previamente
nessas avaliações.

Quando falo que ninguém deve se obrigar a ler literatura, também não quero dizer que não
devamos tentar lê-la, absolutamente, o que digo refere-se ao ato de “forçar” alguém a ler
determinada obra ou texto como pré-requisito, tanto para um desenvolvimento cognitivo e
intelectual elevado, quanto para uma aceitação social adequada.

Por incrível que pareça, essa mania de julgar os outros pelo que lêem não se restringe somente
às aulas de literatura ou, no melhor dos casos, às broncas dadas pelos nossos amigos, existe
um “pré-conceito” acerca das pessoas que não se obrigam a ler Machado de Assis, Clarice
Lispector ou qualquer outro autor carimbado com as graças da crítica; algo que se reflete de
forma latente nas esferas sociais e econômicas.

A questão é que, existe uma hipocrisia literária muito forte referente ao processo de leitura,
algo que se reflete de forma inversa sobre o verdadeiro potencial que existe em um contato
sincero entre obra e leitor.

A coisa toda acontece mais ou menos assim, as pessoas geralmente são divididas entre os que
lêem e os que não lêem literatura e, em ambos, existem ideias fixas acerca do direito da leitura
do outro. É normal que quem gosta de ler literatura (lembrando que, só a ideia do que seja
literatura já é, em si, pertubadora, rs), tome determinados livros ou obras como referências de
bom gosto e instrução.

É bem verdade que a bagagem literária do leitor é criada por experiências com o texto e para
além do texto, criando um Horizonte de expectativas que o torna apto a vislumbrar as
narrativas por vir, não só em texto, como em outros formatos. O grande problema é que, a
pessoa que se considera um leitor “experiente” ou “ideal”, geralmente toma pra si o direito de
controlar a leitura do outro; isto ocorre porque, crente de que ampliou suas perspectivas
acerca do mundo baseado nas leituras que fez, o leitor experiente acredita que o outro deve
ter a obrigação de ler e ter as mesmas leituras e escolhas.

No entanto, não são as escolhas de determinadas obras nem a qualidade (potencial) delas que
nos torna leitores ou pessoas melhores e, sim, a liberdade que nos é concedida em conhecer
outros textos, ideias e conceitos. A diferença que a leitura proporciona na vida do ser humano
tem mais a ver com, o quanto nos dispomos a entender o outro através dos seus textos, do
que a obrigação ter de fazer ou pensar como o outro.

Ao forçar alguém para a leitura de determinado texto, o processo de disposição à obra se


reflete, majoritariamente, de maneira inversa, gerando duas situações possíveis:
1ª - O leitor pode se sentir forçado a ler determinado texto como forma de amenizar seu
constrangimento e, nas palavras do outro, sua falta de “instrução”. O mesmo, portanto,
executará uma leitura sem prazer ou vontade de conhecer as ideias presentes na obra;

2ª – O leitor pode se constranger de tal forma, que repudiará a leitura proposta, gerando um
desconforto tão grande que o mesmo começa a repudiar em si, o processo de “ler”.

E aí, o que fazer então? Ora, isso é fácil, é só não forçar a barra, gente! Uma coisa tão simples e
que por vezes a gente acaba esquecendo-se de fazer. Ninguém deve ser obrigado a ler
literatura. A literatura pode sim, instruir o homem, mas não é o único meio, da mesma forma
que não devemos excluir socialmente as pessoas que lêem. A literatura deve ser uma escolha e
uma possibilidade dada ao homem de se conhecer melhor e de conhecer, por meio da lida
com a palavra, a leitura que o outro faz do mundo.

Sugerir não arranca pedaço, mas obrigar arranca o prazer! E tenho dito!

Você também pode gostar