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DIREITO CIVIL (RESPONSABILIDADE CIVIL)

1) Diante do caso apresentado, a responsabilidade da empresa é objetiva ou


subjetiva? Justifique e fundamente.

A responsabilidade da empresa é objetiva.

O termo “responsabilidade” origina-se do latim respondere, que traz o significado de


recomposição, de obrigação de restituir ou ressarcir. Segundo o renomado doutrinador
Carlos Roberto Gonçalves a “responsabilidade é, pois, a consequência jurídica
patrimonial do descumprimento da relação obrigacional.”

Tal instituto do Direito Civil se subdivide em subjetiva e objetiva. A responsabilidade


subjetiva traz em seu bojo, para ser caracterizada, a presença do elemento culpa, sendo
que não havendo culpa nada há que se falar em responsabilidade do agente. Dessa forma,
a responsabilidade do causador do dano somente se configura se esse agiu com dolo, seja
em sentido amplo ou estrito.

Já a responsabilidade objetiva, conforme orienta o aludido doutrinador, “existe


independentemente de culpa e se satisfaz apenas com o dano e o nexo de causalidade.” A
teoria que segue a responsabilidade objetiva é denominada Teoria do Risco. Tal teoria,
nos últimos anos, tem sido adotada pela doutrina e jurisprudência, tendo como postulado
que todo dano é indenizável e deve ser reparado por quem a ele se liga por um nexo de
causalidade, independentemente de culpa.

Em outras palavras, a teoria do risco entende que a responsabilidade civil deve ser
encarada sempre sobre o aspecto objetivo, o que implica dizer que o agente indeniza
sempre em razão da pratica do ato, não porque tem a culpa mas porque é proprietário do
bem que causou dano ou ainda porque é responsável pela pessoa que praticou o dano.

Nesse sentido, o STJ já proferiu entendimento sobre o assunto:

A responsabilidade civil por danos ambientais qualquer seja a


qualificação jurídica do agressor, sendo ela, pública ou privada, é de
natureza objetiva, solidária e ilimitada, sendo regida pelos princípios
poluidor – pagador, da reparação in integrum, da prioridade e da
reparação in natura e do favor debilis. (...) É pacificada nesta Corte a
orientação de que a responsabilidade ambiental é objetiva e solidária de
todos os agentes que obtiveram proveito da atividade que resultou no
dano ambiental, não com fundamento no Código de Defesa do
Consumidor, mas pela aplicação da teoria do risco integral ao
poluidor/pagador prevista pela legislação ambiental (art. 14, § 1º, da Lei
n.6.938/81), combinado com o art. 942 do Código Civil” STJ, 2ª T.,
AgInt no AREsp 277.167/MG, Rel. Min. Og Fernandes, j. 14/03/2017,
DJe 20/03/2017

Sob a influência das ideias acima explanadas, inúmeras leis especiais a consagraram,
admitindo a responsabilização do agente causador do dano, independentemente da prova
de dolo ou culpa, sendo a lei n. 6.938/81, a qual trata dos danos causados no meio
ambiente, uma delas.
Portanto, levando todo exposto em consideração, tem-se que empresa responderá
objetivamente pelos danos causados, com base na Lei n. 6.938/81 em consonância com
o artigo 927, paragrafo único do Código Civil, o qual prevê a responsabilidade objetiva
em dois casos, quais sejam: (01) especificados em lei; ou (02) quando a atividade
normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os
direitos de outrem.

O caso apresentando, ainda, se enquadra em ambas as hipóteses trazidas pelo paragrafo


único do artigo 927, haja vista estar previsto em lei assim como na implicância de risco
para os direitos de outrem, levando em consideração que o meio ambiente é um direito
inerente a todo o ser humano.

2) O engenheiro responsável pela obra responde civilmente? Justifique e


fundamente.

Sim. Conforme orienta a jurisprudência atual “13. Para o fim de apuração do nexo de
causalidade no dano ambiental, equiparam-se quem faz, quem não faz quando deveria
fazer, quem deixa de fazer, quem não se importa que façam, quem financia para que
façam, e quem se beneficia quando os outros fazem. 14. Constatado o nexo causal entre
a ação e a omissão das recorrentes com o dano ambiental em questão, surge,
objetivamente, o dever de promover a recuperação da área afetada e indenizar eventuais
danos remanescentes na forma do artigo 14 §1º da lei 6.938/81. 7 STJ, 2ª T. REsp
650.728/SC, Rel. Min. Herman Benjamin, j. 23/10/2007, DJe 02/12/2009.”

Além disso, de acordo com o art. 3º, IV da lei n. 6938/81 entende-se por “poluidor, a
pessoa física ou jurídica, de direito público ou privado, responsável, direta ou
indiretamente, por atividade causadora de degradação ambiental”, tendo esse o dever de
indenizar.

Nesse sentido, conforme orienta o doutrinador Antonio Herman Benjamin, estão inclusos
no referido artigo aqueles que diretamente causam o dano ambiental (o fazendeiro, o
industrial, o madeireiro, o minerador, o especulador), bem como os que indiretamente
com ele contribuem, facilitando ou viabilizando a ocorrência do prejuízo (o banco, o
órgaõ público licenciador, o engenheiro o arquiteto, o incorporador, o corretor, o
transportador, para citar alguns personagens).

Dessa forma, de acordo com todo o exposto acima, o engenheiro, embora seja profissional
liberal e tenha de ser sua responsabilidade apurada, conforme orienta o art. 14 §4º do
CDC, é responsável objetivamente pela obra, respondendo pelo dano causado, levando
em consideração, para tanto, o Código Civil bem como a lei n. 6938/81.

3) Se a obra fosse financiada pelo Banco Quanto Mais Lucro Melhor, poderia o
mutuante responder pelos danos causados? Justifique e fundamente.

Sim. Pois o Banco Quanto Mais Lucro Melhor concorreu para o dano ao financiar a obra.
Nesse sentido, orienta a jurisprudência do STJ:

“12. As obrigações ambientais derivadas do depósito ilegal de lixo ou resíduos no solo


são de natureza propter rem, o que significa dizer que aderem ao titulo e se transferem ao
futuro proprietário, prescindindo-se de debate sobre boa ou má-fé do adquirente pois não
se está no âmbito de responsabilidade subjetiva, baseada em culpa. 13. Para o fim de
apuração do nexo de causalidade no dano ambiental, equiparam-se quem faz, quem não
faz quando deveria fazer, quem deixa de fazer, quem não se importa que façam, quem
financia para que façam, e quem se beneficia quando os outros fazem. 14. Constatado o
nexo causal entre a ação e a omissão das recorrentes com o dano ambiental em questão,
surge, objetivamente, o dever de promover a recuperação da área afetada e indenizar
eventuais danos remanescentes na forma do artigo 14 §1º da lei 6.938/81. 7 STJ, 2ª T.
REsp 650.728/SC, Rel. Min. Herman Benjamin, j. 23/10/2007, DJe 02/12/2009.”

Nesse sentido, entende Paulo de Bessa Antunes que, “além do risco do investimento, as
instituições financeiras devem considerar que é crescente a tendência para responsabilizar
os agentes financeiros por danos causados pelos mutuários”

4) E o Poder Público, que deixou de fiscalizar, poderá ser responsabilizado?


Justifique e fundamente.

Sim. O artigo 3º, IV da Lei 6.938/81 contempla a pessoa jurídica de direito público como
poluidor potencial. Consoante orientação jurisprudencial consolidada, “a
responsabilidade civil pelo dano ambiental, qualquer que seja a qualificação jurídica do
degradador, público ou privado, é de natureza objetiva, solidária e ilimitada” (STJ, REsp
1.454.281/MG, DJe 9/9/2016.). O STJ também considera que a responsabilidade do poder
público por danos ambientais, por omissão na fiscalização, é objetiva e solidária (STJ,
REsp 1.236.863/ES, j. 12/4/2011; AgRg no REsp 1.417.023/PR, j. 18/8/2015; REsp
1.376.199/SP, j. 19/8/2014; REsp 604.725/PR, j. 21/6/2005). Todavia, o mesmo tribunal
entende que, nesse caso, há execução subsidiária do ente público, o qual somente pode
ser executado em caso de impossibilidade de cumprimento por parte do degradador (STJ,
REsp 1.376.199/SP, j. 19/8/2014; REsp 1.071.741/SP, j. 24/3/2009).

A responsabilidade pode recair sobre a União, estado e município, pois o poder de polícia
ambiental deve ser exercido, obrigatoriamente, por todos os entes da federação, e a
omissão no dever de fiscalização gera responsabilidade objetiva do poder público. Ideia
reforçada pelo artigo 70, parágrafo 3º da Lei 9.605/98, pelo qual a “autoridade ambiental
que tiver conhecimento de infração ambiental é obrigada a promover a sua apuração
imediata, mediante processo administrativo próprio, sob pena de co-responsabilidade”.

Segundo Pablo Stolze a responsabilidade civil prevista na CF/88 é essencialmente


objetiva prescindido da ideia de culpa como pressuposto para a obrigação de indenizar
essa afirmação, todavia não implica dizer que nosso sistema tem adotado as teorias do
risco integral ou social, mas sim do risco administrativo.

A ideia de risco administrativo avança no sentido da publicização da responsabilidade e


coletivização dos prejuízos, fazendo surgir a obrigação de indenizar o dano em razão da
simples ocorrência do ato lesivo, sem se perquirir a falta do serviço ou da culpa do agente.

Como observa o Mestre Sílvio venosa, por essa teoria “surge a obrigação de indenizar o
dano, como decorrência tão só do ato lesivo e injusto causado à vítima pela
Administração. Não se exige falta do serviço, nem culpa dos agentes. Na culpa
administrativa exige-se a falta do serviço, enquanto no risco administrativo é suficiente o
mero fato do serviço. A demonstração da culpa da vítima exclui a responsabilidade civil
da Administração. A culpa concorrente, do agente e do particular, autoriza uma
indenização mitigada ou proporcional ao grau de culpa”

Seguindo orientação do art. 37 §6º da Constituição Federal que traz em sua redação: “As
pessoas jurídicas de direito público e as de direito privado prestadoras de serviços
públicos responderão pelos danos que seus agentes, nessa qualidade, causarem a
terceiros, assegurado o direito de regresso contra o responsável nos casos de dolo ou
culpa.”

Além disso, de acordo com tal diretriz, o CC/2002 estabelece regra semelhante, em seu
art. 43, registrando que as “pessoas jurídicas de direito público interno são civilmente
responsáveis por atos dos seus agentes que nessa qualidade causem danos a terceiros,
ressalvado direito regressivo contra os causadores do dano, se houver, por parte destes,
culpa ou dolo”.