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ABES - Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental II - 022

CARACTERIZAÇÃO GEOTÉCNICA DE LODOS PROVENIENTES


DE ESTAÇÕES DE TRATAMENTO DE ÁGUA E DE ESGOTOS
SANITÁRIOS

Hiram Jackson Ferreira Sartori (1)


Engenheiro Civil, Mestre em Saneamento e Meio Ambiente, Doutorando em
Hidráulica e Saneamento (ênfase em Resíduos Sólidos); Prof. Adjunto do
Departamento de Engenharia Civil e Coordenador do Núcleo de Engenharia
Sanitária e Ambiental da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
(PUC-MG).
Marcus Soares Nunes
Engenheiro Civil, Especialista em Planejamento Territorial e Urbano, pela
Universidade de Bolonha-Itália, com Aperfeiçoamento em Geologia
Aplicada e Mestrado (sem defesa da tese) em Mecânica dos Solos; Professor Titular e Chefe
do Departamento de Engenharia Civil da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
(PUC-MG).

Endereço(1): Rua São João Evangelista, 555 - apto. 300 - Santo Antônio - Belo Horizonte -
MG - CEP: 30330-140 - Brasil - Tel: (031) 296-3930 - Fax: (031)296-3930.

RESUMO

A partir de revisão de literatura relativa ao tratamento e à disposição de lodos provenie ntes de


estações de tratamento de água e de estações de tratamento de esgotos domésticos, constatou-
se a existência de diversos experimentos conduzidos com fins de caracterização destes lodos.
Amostras de lodo do decantador e da lavagem dos filtros da Estação de Tratamento de Água
Rio das Velhas, bem como amostras do lodo dos leitos de secagem da Estação de Tratamento
de Esgotos do Morro Alto, ambas as estações operadas pela COPASA-MG, foram analisadas
no Laboratório de Mecânica dos Solos da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais,
em busca de características que justificassem sua utilização como material de construção, bem
como a indicação de ensaios que, normalmente utilizados na mecânica dos solos, possam ser
utilizados para a caracterização dos lodos provenientes das estações de tratamento. Durante as
determinações realizadas buscou-se conhecer a granulometria, os limites de plasticidade e de
liquidez, realizando-se ainda o ensaio de compactação destes materiais, para indicação de suas
possíveis aplicações.

PALAVRAS -CHAVE: Resíduos Sólidos de ETA, Caracterização de Lodos, Destinação de


Lodos, Lodo de ETA, Lodo de ETE.

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METODOLOGIA

A partir de uma pesquisa bibliográfica em trabalhos publicados sobre as características e o


comportamento dos lodos de ETA e de ETE, buscou-se encontrar indicação de ensaios
padronizados, ou de ensaios que pudessem vir a ser padronizados, para a caracterização destes
lodos, com vistas ao seu tratamento e à sua destinação final. Diversas referências a ensaios
padronizados para solos conduziram à este trabalho, que adotou a seguinte metodologia:

1. obtenção de amostras dos seguintes lodos:

? lodo do decantador da Estação de Tratamento de Água Rio das Velhas, da COPASA-


MG;
? lodo do decantador da Estação de Tratamento de Água Rio das Velhas, da COPASA-
MG, adensado em lagoa experimental de sedimentação, por aproximadamente um ano;
? lodo da lavagem dos filtros da Estação de Tratamento de Água Rio das Velhas, da
COPASA-MG;
? lodo seco em leito de secagem da Estação de Tratamento de Esgotos do Morro Alto, da
COPASA-MG.

2. investigação sobre a viabilidade de realização de ensaios para caracterização geotécnica dos


materiais coletados, pelo Laboratório de Mecânica dos Solos do Departamento de
Engenharia Civil, da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais ( PUC-MG );

3. análise dos resultados dos ensaios preliminares;

4. caracterização geotécnica do material;

5. indicação de possíveis aplicações para o material amostrado;

6. indicação de novos ensaios.

Os ensaios realizados são relativamente simples por princípio, visando a fácil reprodutibilidade,
e geram resultados restritos a certos aspectos do comportamento físico ou mecânico dos solos,
assim entendidos sob o ponto de vista do engenheiro, como aqueles “detritos pulverulentos
provenientes da ação geológica do intemperismo sobre as rochas, podendo conter limitado teor
de matéria de origem orgânica”.

Na execução dos ensaios escolhidos acompanham-se as normas padronizadas da ABNT-Associação Brasileira


de Normas Técnicas, registradas no INMETRO - Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade
Industrial do Ministério da Justiça, que são as seguintes:

? NBR 6457: Amostras de Solo - Preparação para ensaios de compactação e ensaios de


caracterização;
? NBR 6459: Solo - Determinação do Limite de Liquidez;
? NBR 6508: Grãos de solos que passam na peneira de 4.8 mm - Determinação da massa
específica;

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? NBR 7180: Determinação do Limite de Plasticidade;


? NBR 7181: Análise granulométrica.
CONCLUSÕES

Embora exista uma grande variedade de tratamentos e destinações finais possíveis de serem
adotadas para os lodos de estações de tratamento de água e de estações de tratamento de
esgotos, a caracterização destes lodos pode ser conseguida com base em um universo bem
definido de análises e ensaios. Estes ensaios são, na sua maioria, medições de grandezas físicas,
que explicitam o comportamento da suspensão, da sua fase líquida e da sua fase sólida.

Por conter uma fase líquida e uma fase sólida definidas em maior ou menor grau ou extensão, a
suspensão pode ser analisada quanto a parâmetros utilizados para águas servidas, da mesma
forma que pode ser analisada quanto ao seu valor nutritivo para o solo, ou quanto às suas
características de maneabilidade, como se o lodo fosse ele me smo um tipo de solo.

Os termos suspensão e manto podem, se utilizados regularmente em conjunto com o termo


lodo, facilitar o entendimento e a discussão do problema. Desta forma, podemos adotar o
termo suspensão para nos referirmos a uma mistura, que pode apresentar variados graus de
homogeneidade, na qual não se distinguem visualmente quaisquer fases distintas. A partir do
momento em que surgem, naturalmente ou não, duas fases, sendo uma delas visualmente
composta por água, podemos considerar a outra fase como sendo o manto, ou seja, o manto
será aquela fase que se separa da fase líquida da suspensão, podendo esta separação dar-se
tanto por sedimentação quanto por flutuação. Este manto, assim definido, poderá, após tempo
suficiente ou condicionamento adequado, atingir teores de umid ade tais que, por ser então mais
sólido que líquido, possa ser processado como uma fase realmente sólida.

O termo lodo, por sua vez, deverá se referir a um manto que já se tenha removido da
suspensão, apresentando-se como uma lama ou uma borra, com teores de umidade tais que
impeçam seu manejo como sólido ou como líquido.

A constituição e o comportamento físicos da amostra de lodo dos leitos de secagem afa stam-se
radicalmente do modelo tratável pela Geotecnia. A presença predominante de matéria de
natureza orgânica concede-lhe certos atributos químicos que determinam comportamento
peculiar, tanto úmido quanto seco, diferenciando-o bastante dos solos, ainda que orgânicos, ou
mesmo a turfa.

À parte as características sépticas do material, as dificuldades no seu manuseio para fins de


realização dos pretendidos ensaios, já se manifestam desde as tentativas (infrutíferas) de
desagregação quando seco. Também a constatada impraticabilidade da manipulação via úmida
a qualquer teor de umidade, impede a consecução dos objetivos.

Conclui-se pois pela absoluta inadequação da utilização dos ensaios rotineiros de solos para tais
substâncias, devendo-se então recorrer a outras alternativas.
Os resultados das determinações realizadas, a partir das amostras de lodo da estação de
tratamento de água, foram os seguintes, apresentados na Tabela 1.

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Tabela 1: Resultados dos Ensaios Geotécnicos .


Ensaios e grandezas Lodo da Lodo do Lodo do
Lagoa decantador filtro
Peneira 16 99.80 100.00 99.06
Peneiramento Peneira 30 99.68 99.76 93.60
Fino Peneira 40 99.61 99.62 92.20
(% que passa) Peneira 50 99.53 99.51 91.35
Peneira 100 99.37 99.91 88.85
Peneira 200 99.25 97.37 87.91
Areia média 0.0 0.38 -
Sedimentação Areia fina 0.0 3.62 -
(%) Silte 20.0 58.0 -
Argila 80.0 38.0 -
Compactação ?smáx(g/cm3) 1.33 1.28 -
(Proctor) hot(%) 36.20 43.10 -
LL(%) 61.00 59.60 63.37
Limites(%) LP(%) 33.66 43.79 -
IP(%) 27.34 15.81 -
?g(g/cm3) 2.76 2.82 1.96

Os lodos provenientes da estação de tratamento de água compõem-se de partículas finas a


coloidais, em vista da passagem praticamente integral na peneira de nº 200( abertura da malha
de 0.075 mm) e comportamento perante a etapa de sedimentação do ensaio de granulometria.
Assim, sob o aspecto exclusivamente textural, as partículas distinguem-se apenas dentre aquelas
enquadradas como SILTES e ARGILAS( segundo a escala da ABNT).

No caso do lodo sedimentado do decantador, há predominância quantitativa da fração argilosa,


enquanto o inverso se manifesta no caso do lodo extraído diretamente da descarga do
decantador. Os demais resultados mostram-se normais, ou seja, exeqüíveis e previsíveis, isto é,
de comportamento típico, sendo os materiais plásticos, com pesos específicos coerentes com a
natureza do material( em torno de 27 a 28 kN.m-3), bem como apresentando “condições
ótimas” sob Proctor Normal características de solos finos, quais sejam altos valores de umidade
ótima e baixos valores de peso específico aparente seco máximo.

Desta forma, pode-se reconhecer como válida e pertinente a apropriação dos tradicionais
ensaios de caracterização da Mecânica dos Solos, para aqueles materiais terrosos agregados
durante a operação de decantação, ainda que fujam do estado “natural” do objeto da referida
técnica.

A semelhança do lodo das estações de tratamento de água com um solo permite que ele seja
analisado com ensaios desenvolvidos e padronizados primeiramente para utilização em
mecânica dos solos. Como tratam-se tais ensaios, de procedimentos bem estabelecidos e já
universais, a sua adequação e apropriação para a análise de lodos poderá significar redução de
custos e de duplicação de laboratórios. Além disso, a realização de pesquisas que

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simultaneamente analisem parâmetros típicos de solos e parâmetros típicos de lodos poderá,


com o acúmulo de experiência, explicitar relações que possam ser exploradas.
Recomenda-se abster-se de classificar os materiais em questão com o uso dos Sistemas de
Classificação Geotécnica mais difundidos internacionalmente - USC e HRB-, por dirigirem-se a
aplicações específicas( pavimentação rodoviária ou aeroportuária) e daí privilegiarem mais os
agregados grossos.

Com relação à destinação do material analisado, uma vez que trata-se de um resíduo sólido,
conforme a NBR 10004 - Resíduos sólidos, da ABNT, aconselhamos que sejam sempre
realizados, antes de qualquer destinação ou utilização, os ensaios preconizados para a
classificação de resíduos sólidos.

Antes de se buscar destinação para o lodo gerado nas estações de tratamento de água deve-se,
como é conveniente em qualquer gerenciamento de resíduos sólidos, adotar medidas que
reduzam a sua produção e a sua toxicidade aos menores valores que se possam obter, sem
prejuízo do tratamento de água.

Pelas características que o material proveniente da estação de tratamento de água apresenta,


acreditamos que possa ser investigada a sua utilização na fabricação de solo-cimento, o que
provavelmente exigirá que seja misturado com areia ou com outros solos, uma vez que, segundo
a NBR 10832 - Fabricação de tijolo maciço de solo-cimento com a utilização de prensa
manual, da ABNT, recomenda-se que tais matérias-primas possuam 100% do material
passando na Peneira 4(4.8 mm), 10 a 50% do material passando na Peneira 200(0.075 mm),
Limite de Liquidez igual ou inferior a 45% e Índice de Plasticidade igual ou inferior a 18%.

O material analisado, por suas características, poderá também ser investigado quanto à sua
utilização na fabricação de materiais cerâmicos, como tijolos comuns ou maciços, tijolos
furados, telhas, manilhas de grês ou mesmo produtos de louça. Por sua granulometria muito fina,
o material poderá ainda ser utilizado como pigmento, conferindo cor a argamassas, pastas e
revestimentos, ou como aditivo, alterando as características iniciais dos agregados aos quais for
adicionado.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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