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SAMUEL CARMO DA SILVA

THIAGO FRANK DA SILVA MORAIS


VITOR VICENTE KLEIN

EFEITO DO ESTRESSE TÉRMICO NA PRODUÇÃO DE LEITE

COLORADO DO OESTE
2019
SAMUEL CARMO DA SILVA
THIAGO FRANK DA SILVA MORAIS
VITOR VICENTE KLEIN

EFEITO DO ESTRESSE TÉRMICO NA PRODUÇÃO DE LEITE

Trabalho apresentado ao curso


Engenharia Agronômica do Instituto
Federal de Educação, Ciência e
Tecnologia de Rondônia, Campus
Colorado do Oeste, como parte das
exigências da disciplina de Bovinocultura e
Bubalinocultura.

Docente: Fagton de Mattos Negrão

COLORADO DO OESTE
2019
LISTA DE FIGURAS

Figura 1 - Valores médios de temperatura do ar, umidade relativa do ar e ITGU ao


longo do dia, nos pastos sem sombreamento e com sombreamento
natural......................................................................................................... 8
Figura 2 - índice de temperatura e umidade (ITU) para vacas leiteiras. ...................... 9
LISTA DE TABELAS

Tabela 1 - Modelos de regressão em função das variáveis climáticas para os dois


ambientes experimentais. .......................................................................... 8
Tabela 2 – Efeito da temperatura e umidade relativa sobre a produção de leite....... 10
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ......................................................................................................... 5
2 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA .................................................................................... 6
2.1 BEM ESTAR NA PECUÁRIA LEITEIRA................................................................ 6
2.2 ZONA DE CONFORTO TÉRMICO ....................................................................... 6
2.3 ÍNDICE DE TEMPERATURA E UMIDADE ........................................................... 8
2.4 ESTESSE CALÓRICO .......................................................................................... 9
2.5 EFEITO DO ESTRESSE TÉRMICO SOBRE A PRODUÇÃO DE LEITE ............ 10
2.6 EFEITO DO ESTRESSE TÉRMICO SOBRE A PRODUÇÃO DE CÉLULAS
SOMÁTICAS ............................................................................................................. 11
2.7 HOMEOTERMIA E MECANISMOS DE DISSIPAÇÃO DO CALOR EM BOVINOS
.................................................................................................................................. 12
2.8 ALTERNATIVAS PARA AMENIZAR O EFEITO DO ESTRESSE CALÓRICO .... 13
2.8.1 Manejo ambiental ............................................................................................. 13
2.8.2 Mecanismos de resfriamento ........................................................................... 14
2.8.3 Manejo nutricional ............................................................................................ 15
3 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................... 16
REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 17
5

1 INTRODUÇÃO

A produção animal movimenta diversos setores da economia, em especial a


bovinocultura de leite. De acordo com dados do IBGE, a produção nacional no
segundo trimestre de 2019 foi de 5,85 bilhões de litros de leite (IBGE, 2019). Todavia,
ainda há grande potencial para expansão da produção.
O cruzamento de raças europeias com animais de sangue Zebu foi um marco
para a consolidação da pecuária leiteira nas condições tropicais do país, uma vez que
aliou-se a alta produção de raças, como a holandesa, a boa tolerância das raças
zebuínas às elevadas temperaturas (Valentin et al., 2018).
Por conseguinte, outro cenário favorável a produção leite no país diz respeito a
boa oferta anual de forragem dos pastos (Batistel et al., 2012), todavia a falta de
manejo dos mesmos, bem como do bem-estar animal nesses sistemas, condiciona a
um menor desempenho na produção (Silva et al., 2012).
Além disso, estresse térmico e elevada umidade do ar configuram-se como
fatores limitantes a produção de leite, posto que alta temperatura limita o consumo e,
alta umidade, por sua vez, dificulta a dissipação de calor para o ambiente,
comprometendo o bem-estar e a produção animal (Dahl, 2010).
Nesse sentido, para Valentin et al. (2018), uma das estratégias adotadas em
sistemas mais intensivos, tem sido o investimento em bem-estar e conforto animal, a
fim de potencializar a eficiência elevando fatores como conversão alimentar, ganho
de peso e produção de leite.
Assim, trabalhos como os desenvolvidos por Almeida et al. (2013) e Castro et
al. (2018), demonstram os efeitos benéficos diretos sobre o comportamento de vacas
leiteiras, quando adotados sistemas que melhoram o ambiente de climatização desses
animais.
Portanto, é importante a adoção de tecnologias de manejo que visem assegurar
conforto e bem-estar em sistemas de produção de leite, sobretudo em relação a
fatores como umidade e temperatura. Nesse contexto, este trabalho aborda aspectos
relacionados aos efeitos dos fatores ambientais sobre o conforto e bem-estar animal,
assim como algumas estratégias adotadas para a minimização do estresse térmico
no manejo de vacas leiteiras.
6

2 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

2.1 BEM ESTAR NA PECUÁRIA LEITEIRA

Para a Organização Mundial de Saúde Animal (Gibss, 2014), o bem-estar


animal pode ser entendido como a condição em que o animal é capaz de expressar
seu comportamento natural, quando em estado de conforto, segurança, saúde e
nutrição.
Temperatura e umidade são dois fatores essenciais e ao mesmo tempo
limitantes em se tratando de desempenho animal, sobretudo na produção de raças
leiteiras. Isso ocorre devido ao fato destes animais possuírem uma zona de conforto
térmico, à medida que se distancia da mesma, incorre-se em dificuldades por parte
do animal na dissipação do calor corporal, acarretando em diminuição no seu
desempenho (SILVA et al., 2012).
Nesse sentido, para Almeida et al., (2013), o comportamento animal pode ser
analisado como reflexo direto do seu bem-estar. Dessa forma, comportamento
diferente daquele normalmente observado, sugere possíveis modificações quanto a
sua condição de conforto e, possivelmente, no seu bem-estar.
O desenvolvimento de sistemas de climatização no curral tem sido objeto de
estudos visando minimizar os efeitos da temperatura e da umidade ambiente
(Almeida, et al., 2013). Segundo Blackshaw e Blackshaw (1994), define-se como ócio
o período em que os animais reduzem o consumo de água e alimentos, ao refugiarem-
se em ambientes sombreados nos momentos mais quentes do dia, diminuindo, assim,
os processos de ruminação.
O entendimento do aspecto “bem-estar” na produção leiteira, pode ser
entendido a partir da ótica de uma resposta positiva direta do animal, em termos de
produção, quando esse reduz a geração de calor interno em uma condição de
ambiente favorável (Cerutti et al., 2013).

2.2 ZONA DE CONFORTO TÉRMICO

A zona de conforto térmico é o intervalo térmico considerado ótimo para o


desempenho geral dos animais, em particular dos bovinos. Esse intervalo possui
variações de acordo com a raça e origem do animal em questão, sendo que para raças
7

com aptidão leiteira, como por exemplo as de origem de clima temperado, a zona de
conforto se mantém entre 10 e 21 °C. Nesse intervalo o sistema termorregulador do
animal permanece com atuação mínima, mantendo a temperatura corporal constante,
de maneira que haja o conforto animal e sua produção e reprodução mantenham
eficiência máxima (Auad et al., 2010).
Quando há maior variação na temperatura, o corpo, para manter-se em
homeotermia (temperatura corporal normal), começa a realizar trocas de calor com o
ambiente. Essa é conhecida como zona de termoneutralidade e pode ser observada
a temperatura crítica superior e temperatura crítica inferior. A temperatura estando
acima da temperatura crítica superior o animal estará submetido ao estresse causado
pelo calor. Isso pode acarretar a uma série de processos fisiológicos e
comportamentais, como a vasodilatação, aumento da frequência respiratória,
diminuição no consumo de alimentos, aumento da ingestão de água e evaporação
cutânea ou respiratória. Ocorrendo o contrário, ou seja, a temperatura está abaixo da
temperatura crítica inferior, acarretará o estresse pelo frio no animal, propiciando a
contração dos vasos sanguíneos (vasoconstrição), redução na frequência respiratória,
acréscimo no consumo de alimentos e piloereção (Valentim et al., 2018).
Almeida et al. (2013), trabalhando com três tempos de climatização (10, 20 e
30 minutos) em sistema de resfriamento adiabático evaporativo e um controle (sem
uso do sistema) em curral de espera para ordenha, com o objetivo de verificar a
influência dos tempos de funcionamento do sistema na temperatura, umidade relativa
do ar, comportamento do animal, aspectos qualitativos e quantitativos da produção de
leite de vacas Girolando, verificaram que para atingirem a temperatura próxima a ideal
(temperatura crítica superior), o sistema teve que funcionar durante 30 minutos. Com
esse tempo foi possível reduzir a temperatura ambiente em 5,4 °C, em relação ao
controle, chegando a 26 °C.
Assim como as instalações para ordenha, o ambiente de pastejo em que o
animal fica submetido também pode ser alterado, de maneira que o mesmo tenha a
temperatura o mais próximo a zona de conforto térmico. Castro et al. (2018)
comprovam isso ao realizarem seu trabalho comparando a temperatura (Tar),
umidade (UR) e índice de temperatura do globo e umidade (ITGU) entre dois
ambientes, sendo um em pleno sol e outro com bosque que possibilita aos animais
ambiente sombreado em parte da pastagem. No trabalho verificou-se diferença entre
os dois ambientes no aumento da temperatura durante o dia, de maneira que à sombra
8

proporcionou-se temperatura mais baixa (29,07 °C) que em pleno sol (38,14 °C) no
seu pico máximo (Figura 1 e Tabela 1).

Figura 1 - Valores médios de temperatura do ar, umidade relativa do ar e


ITGU ao longo do dia, nos pastos sem sombreamento e com
sombreamento natural.

Fonte: Castro et al. (2018).

Tabela 1 - Modelos de regressão em função das variáveis climáticas para os dois


ambientes experimentais.

Regressão
Variáveis
climáticas
Ambiente 1 Ambiente 2

Tar (°C) Ŷ=11,59 + 1,77x Ŷ=7,29 + 2,76x - 0,086x² R²=0,97


UR (%) Ŷ=110,09 – 3,96x Ŷ=110,09 – 3, 96x R²=0,97
ITGU Ŷ=53,93 + 4,25x – 0,15x² Ŷ=53,93 + 4, 25x –0,15x² R²=0,98
Fonte: Castro et al. (2018).

2.3 ÍNDICE DE TEMPERATURA E UMIDADE

O índice de temperatura e umidade (ITU) é baseado em medidas ambientais e


para ser calculado se faz necessário conhecer a temperatura e a umidade relativa do
ar. É utilizado para expor o conforto térmico de animais, especialmente em bovinos,
podendo, a depender da severidade, influenciar na produção de leite (Azevedo e
Alves, 2009). Para melhor visualização dos valores de ITU e entendimento da
influência deste sobre o estresse animal pode-se observar na Figura 2, à qual mostra
os limites estabelecidos para o índice de acordo com a temperatura e umidade relativa
do ar em determinado ambiente, de maneira que, quanto maior o índice, mais
estressante é o ambiente para o animal.
9

Figura 2 - índice de temperatura e umidade (ITU) para vacas leiteiras.

Fonte: Azevêdo e Alves (2009).

A Figura 2 mostra que valores de ITU abaixo de 72 não proporciona estresse


ao animal, fazendo com que não tenha sua produção prejudicada. Acima desse valor
já começa a haver algum tipo de estresse, podendo ser suave, médio ou severo,
comprometendo não somente a produção do animal, mas também a vida do mesmo
Almeida et al. (2010), ao analisarem diferentes tempos de climatização (0, 10,
20, e 30 minutos) com sistema de resfriamento adiabático evaporativo (SRAE) antes
das duas ordenhas diárias, em rebanho de vacas 7/8 Holandês/Gir, observaram que
no período da tarde (segunda ordenha diária), sem o sistema de resfriamento, o ITU
foi de 77,8, ou seja, com estresse relativamente alto aos animais. Porém, ao acionar
o sistema por 30 minutos (tratamento com maior eficiência), esse valor caiu para 73,
muito próximo ao limite de ITU, que não proporciona estresse aos mesmos.

2.4 ESTESSE CALÓRICO

O estresse calórico é a força exercida pelos componentes do ambiente térmico


sobre um organismo, de modo a causar sobre este uma reação fisiológica
proporcional à intensidade da força aplicada e a capacidade de um organismo em
compensar os desvios causados pela força (Ricci et al., 2013).
As vacas utilizadas na produção de leite, geralmente são de origem europeia
(Bos taurus taurus), onde o clima é frio. Os problemas envolvendo a produção de leite
pelo estresse calórico ocorre, segundo Ricci et al. (2013), em regiões de clima tropical
e subtropical, onde a temperatura é mais elevada, o que acaba acarretando um
aumento na ingestão de água e redução no consumo de alimentos, além de uma
10

diminuição na produção e composição do leite. O Brasil possui mais de 60% de seu


território situado numa região de clima predominantemente tropical com elevado nível
de radiação solar (Melo et al., 2016).
Existe uma série de fatores que associados ao aumento de temperatura
prejudica a produção leiteira, de acordo com Ricci et al., (2013) os fatores são a
umidade relativa do ar, velocidade do vento e a alimentação.

2.5 EFEITO DO ESTRESSE TÉRMICO SOBRE A PRODUÇÃO DE LEITE

Todos os fatores já mencionados no que diz respeito ao estresse térmico


culminam para possíveis reduções na produção de leite. A cada um desses ficam
estabelecidos parâmetros os quais determinam o quão irão influenciar no objetivo final
da produção leiteira. A temperatura e umidade quando fora dos padrões ideias podem
tornar a atividade bastante dificultosa e onerosa ao mesmo tempo, pelo fato da
necessidade de climatização em alguns casos. Milani e Souza (2010) mostram a
influência da temperatura e umidade sobre a produção de leite de vacas de diferentes
raças (Tabela 2). De acordo com o trabalho quanto maior a temperatura e umidade
do ambiente, a produção tende a cair gradativamente, podendo sob temperatura e
umidade altas chegar a patamares superiores a 50% de queda para raça Holandesa,
por exemplo.

Tabela 2 – Efeito da temperatura e umidade relativa sobre a produção de leite.


Raças
Temperatura °C Umidade (%)
Holandesa (%) Jersey (%) Pardo-suíça (%)

24 38 100 100 100


24 76 96 99 99
34 46 63 68 84
34 80 41 56 71
Fonte: Milani e Souza (2010).

Cerutti et al. (2013) em trabalho já descrito nesta revisão, mostram que a


simples climatização em curral de espera anexo a sala de ordenha proporcionou
incremento de 12,4% na produção de leite, quando comparado ao ambiente não
climatizado. Almeida et al. (2010), caracterizam esse ambiente como um dos mais
11

estressantes para as vacas em lactação, de maneira que, qualquer forma de amenizar


tal estresse, há um grande reflexo na produção.
Silva et al. (2012), nesse mesmo contexto, visando verificar a influência do
estresse térmico na produção de leite, encontraram algumas diferenças. O trabalho
constituiu-se de três tratamentos, sendo um deles o controle, onde os animais
permaneceram em pastagem com sombra natural e os demais eram submetidos em
um curral a pleno sol sem água e alimento, entre as 10h e 11h e entre as 10h e 12h
respectivamente. Com isso conseguiram observar aumento significativo do ITU entre
os tratamentos, de maneira que, quanto maior o tempo a pleno sol, maior o valor do
índice. Esses valores refletem sobre a produção de leite, sendo que houve diferença
de 18,37% do tratamento controle para àquele com duas horas de exposição,
confirmando mais uma vez que, o gasto de energia despendido para a
termorregulação do corpo suprimiu em parte a produção de leite.

2.6 EFEITO DO ESTRESSE TÉRMICO SOBRE A PRODUÇÃO DE CÉLULAS


SOMÁTICAS

O estresse pode, além de prejudicar a produção de leite diretamente, estar


influenciando na sanidade animal, o que proporciona o surgimento de doenças que
prejudiquem a qualidade do leite, aumentando o número de células somáticas. Dentre
as doenças pode-se citar a mastite.
Mastite, é uma doença que acomete as glândulas mamárias da vaca, sendo
um processo inflamatório decorrente principalmente de microorganismos infecciosos,
que causam a diminuição na produção e qualidade do leite oriundos da diminuição
nos teores de proteínas, minerais e açúcares, sendo estes a gordura, lactose, caseína,
cálcio e fósforo, além de ocorrer o aumento nos teores de compostos que impossibilita
o uso e comercialização do leite, como por exemplo, lipases, cloretos e
imunoglobulinas (Negrão et al., 2010).
A mastite pode ser diagnosticada através do método de contagem das células
somáticas (CSS) produzidas pelo organismo do animal (Peres et al., 2011). As células
somáticas, são compostas por células de defesa do animal, entre elas, os leucócitos,
quando no interior da glândula mamária, possui como função de combater os
patógenos responsáveis pela mastite. As células de defesa compreendem em torno
de 99% das células encontradas no leite de uma glândula mamária infectada (Jantsch
12

et al., 2013). Em glândulas mamárias saudáveis, o número de células somáticas está


igual ou próximo de 300 mil células por mililitros de leite, acima deste valor, pode
significar a contaminação do úbere por microorganismos patógenos.
O estresse térmico possui influência na quantia de células somáticas, visto que
temperaturas elevadas deixa o animal mais suscetível a infecção por patógenos, entre
eles a mastite, por isso no verão a susceptibilidade do animal à infecção se torna maior
do que no inverno (Porcionato et al., 2009). A consequência do aumento de
temperatura no verão será o aumento da quantidade de células de defesa
encontrados no leite do animal.
Ainda segundo Porcionato et al. (2009), as medidas que devem ser adotadas
visando diminuir os efeitos de estresse calórico e consequentemente o aumento de
células somáticas é a adoção de métodos que visem no conforto térmico do rebanho,
devendo escolher o método que mais se adeque às características do rebanho
observando o custo-benefício do método que será empregado.

2.7 HOMEOTERMIA E MECANISMOS DE DISSIPAÇÃO DO CALOR EM BOVINOS

O processo de auto regulação da temperatura corporal em níveis constantes,


mesmo quando com alterações na temperatura ambiente em níveis adequados, é
denominado de homeotermia. Para manter essa regulação, a depender da ocasião, o
animal acaba por reduzir as atividades que produzem calor, principalmente a
alimentação, e aumentam atividades que reduzem o calor, como a procura por água.
Isso faz com que sua prioridade seja a manutenção de sua temperatura dentro de seu
conforto térmico, comprometendo sua produção. Além desses, outros mecanismos
são utilizados para a dissipação do calor, como o aumento da sudação, aumento dos
movimentos respiratórios, aumento da frequência cardíaca e aumento da dissipação
de calor por condução (Nicodemo et al., 2018).
Para melhor elucidação, Cerutti et al. (2013), ao analisarem as respostas
fisiológicas de vacas lactantes submetidas ou não a ambiente climatizado em pré
ordenha, verificaram que, quando não climatizado, o índice de temperatura e umidade
esteve acima da zona de conforto térmico, chegando a 79,76. Diferentemente deste,
o tratamento climatizado manteve-se baixo, dentro da zona de conforto térmico,
atingindo apenas 71,34. Para tentar manter-se em homeostase, os animais alteraram
alguns processos fisiológicos. A temperatura retal chegou aos 39,41 °C no ambiente
13

não climatizado, acima dos 38,8 °C no ambiente climatizado. A frequência cardíaca


também foi superior sem a climatização, atingindo 67,12 bat/min, comparado aos
54,35 batimentos/min no ambiente climatizado. Além disso, não diferente dos demais
parâmetros, a frequência respiratória do ambiente climatizado se manteve inferior
(44,21 movimentos/min) ao ambiente não climatizado (66,75 mov/min).

2.8 ALTERNATIVAS PARA AMENIZAR O EFEITO DO ESTRESSE CALÓRICO

De acordo com Ricci et al. (2013), os métodos que podem ser utilizados para
reduzir os problemas oriundos do estresse calórico são o emprego de um ambiente
sombreado associado à um controle na alimentação, utilizando os horários de clima
mais agradável ao animal, podendo ainda utilizar um sistema de ventilação, além de
poder fazer o uso da água em sistemas, seja através do uso de aspersores ou
nebulizadores. Outra alternativa é o uso de raças de animais tolerantes, visto que
animais originários de países com o clima semelhante ao do Brasil como o Bos taurus
indicus, de origem indiana, de acordo com Melo et al. (2016), estes são animais
tolerantes ao clima tropical, devido ao fato de possuírem uma capacidade de
transpiração elevada além de uma taxa metabólica reduzida.

2.8.1 Manejo ambiental

Ricci et al. (2013) afirmam que vacas leiteiras de origem europeia possuem
problemas de adaptabilidade em regiões tropicais, gerando um estresse térmico no
animal, resultando numa baixa produção devido à problemas fisiológicos e mudanças
no seu comportamento, visto que, além do animal ter problemas em dissipar o calor,
ainda ocorre a diminuição no consumo de alimentos.
O Brasil possui uma grande diversidade climática, motivo pelo qual, a
bovinocultura, seja de corte ou leite, devem ser feitos através do manejo ambiental de
modo a adaptar as condições do ambiente em prol dos animais (Valentim et al., 2018).
Os principais métodos que podem ser utilizados de modo a tornar o ambiente
o mais propício à boa qualidade de vida dos animais e consequentemente melhor
produtividade, segundo Ricci et al. (2013), pode se empregar o sombreamento,
podendo ainda combinar com um sistema de ventilação, uso de nebulizadores,
aspersores além do fornecimento do alimento nos horários cujas temperaturas
14

estejam mais baixas. Ainda, de acordo com Ricci et al. (2013), a eficiência no emprego
do manejo ambiental poderá variar baseando-se em uma série de fatores, como por
exemplo, a região, a idade, o sexo e a fase produtiva dos animais. Por isso, um bom
planejamento baseado em todos os fatores mencionados irá definir a eficácia do
manejo ambiental.

2.8.2 Mecanismos de resfriamento

Souza et al. (2010), estudando o efeito promovido no ambiente físico pelo


sombreamento nas respostas termorregulatórias em novilhas leiteiras, observaram
uma redução de 50% da energia térmica incidente, o que pressupõe o sombreamento
como importante estratégia na climatização e condicionamento do bem-estar animal.
Durante a ordenha o animal é submetido a uma condição de estresse, o que
afeta diretamente a síntese de hormônios relacionados à produção do leite. Nesse
sentido, para Souza e Batista (2012), é indispensável a climatização na pré-ordenha
a fim de se condicionar os animais a zona de conforto térmico, atenuando os efeitos
dessa condição negativa ao manejo.
Um aspecto importante diz respeito a manutenção do bem-estar animal quando
esses estão pastejando, dessa forma, a adoção de sombreamento natural a partir da
vegetação disponível, assim como a instalação de telados e sombrites, apresentam-
se como alternativas a conferir conforto térmico aos animais (Castro et al., 2018).
Estratégias quanto ao manejo reprodutivo também se apresentam como
importantes alternativas a fim de reduzir os efeitos do estresse calórico em vacas
lactantes. Nesse ponto, Vasconcelos e Demetrio (2011), sugerem a sincronização dos
partos no outono/inverno, visto que assim as mesmas terão início da lactação em uma
condição de menor estresse calórico, maximizando a produção de leite e a eficiência
reprodutiva.
O aspecto reprodutivo também está ligado às variações de temperatura
corporal, o que segundo Thather (2010), a sensibilidade do ovócito, do
espermatozoide e, sobretudo, do embrião afetam os estágios iniciais de
desenvolvimento. Assim, de acordo com o autor variação de 0,5 °C da temperatura
corpórea ocasiona redução da ordem de 6,9% das taxas de concepção.
15

2.8.3 Manejo nutricional

O efeito negativo promovido pelo estresse calórico pode ser observado na


redução do desempenho animal em termos de consumo, em que o mesmo diminui
gradativamente a ingestão de alimentos e aumenta o consumo de água (Valentim et
al., 2018). Isto ocorre, segundo Pires (2007), pelo fato de que as vacas, quando
expostas a uma condição em que a quantidade de calor produzida supera a eliminada,
acabam por inibir as fontes que geram calor endógeno, especialmente ao consumo
de alimentos e o metabolismo energético, ao mesmo tempo em que temperatura
corporal, frequência cardíaca e respiratória, bem como as taxas de sudação
aumentam substancialmente.
O consumo de alimentos com elevado teor proteico/energético por si só
condiciona a uma elevação de temperatura endógena, visto que a metabolização
desses alimentos produz alta quantidade de energia (Cerutti et al., 2013).
Analisar o comportamento de vacas leiteiras submetidas a determinadas dietas
pode fornecer respostas do comportamento desses animais em determinados
sistemas, especialmente aliando-se isso ao fator genético. Dito isso, Borges et al.
(2012) analisaram os processos de alimentação, ruminação, ócio, locomoção,
ingestão de água, procura e permanência na sombra de 15 vacas da raça Girolando,
de três grupos genéticos (1/2, 5/8 e 3/4 HG) em confinamento. Os autores observaram
que os animais do grupo 5/8 passaram maior tempo se alimentando, quando
comparados aos grupos 3/4 e 1/2. Segundo os autores, o grupo de animais de sangue
3/4 cessaram a alimentação, passando a procurar sombra nos períodos de ócio. E
ainda, os animais de meio sangue tiveram um menor tempo de alimentação, em
relação ao 5/8 devido a maior percentagem de sangue Gir, inferindo em menor
consumo da ração. Isso pode ser explicado pelo fator característico das raças Zebu,
sendo elas mais resistentes ao calor ambiente, em função da menor produção de calor
metabólico.
16

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ambientes que não proporcionam conforto térmico aos animais fazem com que
esses busquem sua termorregulação. Para garantir essa termorregulação, estes
utilizam meios que acabam por comprometer a produção de leite.
Nesse contexto, sistemas que utilizam o sombreamento e a climatização
artificial têm-se mostrado eficientes na redução do estresse calórico em vacas
lactantes. Assim, deve-se adotar manejos que condicionem os animais ao conforto e
bem-estar, aumentando a eficiência produtiva.
17

REFERÊNCIAS

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